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O gozo e amo/r/te Ana Cristina Cesar, Ana Martins Marques e
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e-scrita
ISSN 2177-6288
V. 4 – 2013.3 –FUX, J.; NAVES, F. ; CASTILHO, P.
O GOZO E AMO/R/TE
ANA CRISTINA CESAR, ANA MARTINS MARQUES E MARGUERITE
DURAS1
Flávia Drummond Naves2
Jacques Fux3
Pedro Castillho4
RESUMO: Este artigo focaliza a questão do feminino, do amor e da morte como uma tensão ou uma
possibilidade nos textos de três escritoras de estilos distintos: Marguerite Duras, Ana Cristina Cesar e
Ana Martins Marques. Trata-se aqui da questão da morte como uma experiência que não está
necessariamente relacionada ao suicídio, embora a escrita possa ser vivida nesse limite entre vida e
morte, amor e morte. Cada uma dessas escritoras transmite essa vivência na intensidade e/ou na leveza
de uma poética singular.
Palavras-chave: Gozo. Morte. Marguerite Duras. Ana Cristina Cesar. Ana Martins Marques.
ABSTRACT: This article discusses the dissemblance among feminism, love and death as a tension or
as a possibility in some works of three different writers: Marguerite Duras, Ana Cristina Cesar and
Ana Martins Marques. Death is considered an experience not necessarily related to suicide, although
the writing experience could be lived within the limit of life and death, and love and death. That is
what these writers convey in the intensity and/or lightness of a unique poetic writing.
Keywords: Enjoyment. Death. Marguerite Duras. Ana Cristina Cesar. Ana Martins Marques.
INTRODUÇÃO
Neste artigo examinaremos as questões do amor, da morte e do gozo sob o viés
poético e psicanalítico nas obras de Marguerite Duras, Ana Cristina Cesar e Ana Martins
Marques.
1
Devido ao jogo de palavras que o título contém, não foi feita a tradução para o inglês.
Psicóloga. Psicanalista e escritora. São Paulo, Brasil. [email protected]
3
Pós-doutorando em Teoria Literária - Unicamp. Doutor em Literatura Comparada - UFMG e Docteur em
Langue, Littérature et Civilisation Françaises - Lille 3. Bolsista FAPESP. São Paulo, Brasil. [email protected]
4
Pós-doutorando em Psicologia clinica – USP. Doutor em Teoria Psicanalítica – UFRJ. São Paulo, Brasil.
[email protected]
2
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Ana Cristina César nasceu em 1952 no Rio de Janeiro. Estudou Letras na PUC do
Rio de Janeiro e era mestre em comunicação pela UFRJ. Escreveu para diversos jornais e
revistas, integrou a antologia 26 Poetas Hoje. Foi tradutora de diversos escritores
estrangeiros, inclusive da poetisa Silvia Plath. Ana Martins Marques, que merece nossa
atenção pela riqueza e destreza com as palavras, nasceu em Belo Horizonte, em 1977. Mestre
e doutora em Literatura pela UFMG, recebeu duas vezes o prêmio Cidade de Belo Horizonte
de Literatura. Publicou A vida submarina em 2009 e recentemente publicou, pela Companhia
das Letras, o livro Da arte das armadilhas.
O que há em comum entre as três autoras escolhidas? Ao longo de suas escritas, as
autoras, de uma forma geral, buscam a própria escritura e a possibilidade de se trabalhar e
descrever o amor e a morte. A palavra persegue a palavra. Assim, os temas aqui levantados
são universais, livres de gênero.
Por que escrever sobre a morte e a poesia? Sobre o tema, Maurice Blanchot nos traz
uma importante contribuição a partir de escritores como Kafka, Rilke, Mallarmé, entre
outros. Ele discute a experiência de morte que envolve a escrita e o fio da navalha que a
aproxima do ato de suicídio: “na obra tudo é arriscado, risco essencial em que o ser está em
jogo, em que o não ser se esquiva, em que se joga o direito, o poder de morrer”
(BLANCHOT, 1987, p.105).
Ana Cristina Cesar experimenta na poesia o risco mortal de virar pelo avesso e dá seu
salto mortal ainda jovem, aos 31 anos; Marguerite Duras escreve no limite entre viver e
morrer e busca no álcool um ato mortífero; Ana Martins Marques experimenta a morte na
escrita e inventa a vida, essa arte das armadilhas. Assim, a escrita de cada uma revela um
caminho singular, suas possíveis e impossíveis saídas diante dessa experiência de vida e
morte que a escrita bordeja.
AMO/R/TE
Em 1926, Freud enlaça o amor à morte ao afirmar: “a morte é a companheira do
amor, juntos eles regem o mundo. Isso é o que diz meu livro Além do Princípio do Prazer. No
começo a psicanálise supôs que o amor tinha toda importância. Agora sabemos que a morte é
igualmente importante” (FREUD, 1926, p.1).
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Para Freud, essa destrutividade autônoma levaria ao estado de perfeito equilíbrio,
cuja finalidade é a homeostase no mundo orgânico, manifestação do primitivo no aparelho
psíquico, algo ainda mais elementar e pulsional que o dispositivo da Bindung:
a pulsão seria inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso
que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a pressão de forças perturbadoras
externas, ou seja, é uma espécie de elasticidade orgânica, ou, para dizê-lo de outro modo,
a expressão da inércia inerente a vida (FREUD, 1920/2003, p. 36).
Para construir a gênese de tal força, Freud recupera a embriologia, demonstrando que
a vida teria surgido por acidente, no seio da matéria inerte: “a tensão que então surgiu no que
até aí fora uma substância inanimada se esforçou por neutralizar-se e, dessa maneira, surgiu o
primeiro instinto: o instinto a retornar-se ao estado inanimado” (FREUD, 1920/2003, p. 38).
Este seria, portanto, o nome que Freud dá ao caminhar organizado para a morte, à
inércia da vida inorgânica, uma tendência à fixação na compulsão à repetição, como uma
força que existe para um além do princípio do prazer. A partir da morte, Duras caminha em
direção à vida. Ana Cristina Cesar parece fazer um outro percurso, a partir da vida em direção
à morte. A escrita que pede passagem também não poderá pedir um limite?
A possibilidade da morte, pulsão, conduz a própria escrita, conforme escreve
Blanchot:
Não escrever não deveria conduzir a um “não desejar escrever”, nem também, embora
isso pareça mais ambíguo, um “Eu não posso escrever” que em verdade marca ainda, de
uma maneira nostálgica, a relação de um “eu” com a vontade sob a forma de sua perda.
Não escrever sem poder, é o que supõe a passagem pela escritura (BLANCHOT, 1980,
p.26).
Como veremos, as escritoras em questão enxergam possibilidades, incapacidades,
pulsões e poesias. Elas estão cientes da limitação da escrita, embora saibam que é a partir dela
que podem atingir ou margear o real. A passagem para a escritura se dá, portanto, através
dessa vontade de escrever, sob pena de se perderem, desse “não poder”, como a possibilidade
de uma morte.
A PARTIR DA MORTE
Duras, em outros momentos, escreve e vive o próprio desespero e a questão da
morte: “escrever apesar do desespero. Não: com desespero” (DURAS, 1994, p.27). Para ela o
destino, agora, é a morte, num mundo que caminha para a destruição.
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O mar é completamente escrito, para mim. Ele é como páginas, veja só, páginas cheias,
vazias por força de serem cheias, ilegíveis por força de serem escritas, de serem cheias de
escritura (DURAS, 1977, p.195 apud AYER, 2007).
Ao falar sobre Duras, a escritora francesa Camille Laurens escreve: “aquela que
escreve não sobre as mulheres, mas a partir das mulheres” (LAURENS, 2010, p.90). O texto
Le ravissement de Lol V. Stein (1986), mostra que a relação da fantasia com o impossível é
paradigmática. Longe de qualquer psicanálise aplicada, Lacan (1965/2001) estuda o que
restou do lado da vacuidade e da inconsistência. No texto, a protagonista Lol encontra-se em
um instante eterno ao entrar no salão de festas e ver seu amado, Michel Richardson, com
Anne-Marie Stretter. Um instante de esvaecimento subjetivo, em que não há a que se agarrar,
um esmagamento que faz ocorrer uma fixação fantasmática a partir da cena (LACAN,
1965/2001), criada pelo objeto olhar e definida a partir do centro dos olhares. Existe uma
fixação da imagem que se torna pura superfície. Tudo recai sobre seu campo de ilusão e ela
constrói uma cena imaginária. Quando a adolescente Lol vê a cena do noivo com outra
mulher, baixa os olhos para, depois, acompanhar o casal com o olhar e, em seguida, desmaiar.
Lol se casa com outro homem e muda-se de cidade, tem filhos e aparenta ter uma vida
tranquila. Após dez anos, retorna à cidade e vê, caminhando, um homem e uma mulher que
lhe parecem familiar. Depois desse episódio, o passado retorna para Lol, que não consegue
mais diferenciar o sonho da realidade.
Em Hommage fait à Marguerite Duras, Lacan (1965/2001) reconhece esse instante
do olhar: momento em que Lol se coloca como protagonista da cena – seu apoio durante os
próximos dez anos – na qual sua posição subjetiva se ancora, fazendo-se olhada como les
centre du regards. É um momento privilegiado, em que a vacuidade faz surgir o Affekt em seu
estado puro. Ela sabe-se olhada e, ao mesmo tempo, renuncia ao olhar, substituindo o brilho
que um objeto agalmático poderia estabelecer a partir de uma esquize entre olho e olhar. Aí,
podemos perceber que a magia do olhar é o parâmetro para o estado de ausência da
protagonista. Esse olhar gera e alimenta a ilusão, criando um espaço irreal onde somente Lol
pode circular. A escrita está no limite: vida e morte, amor e morte, problemas que também
serão experimentados nas escritas de Ana Martins Marques e Ana Cristina Cesar.
A morte, a escritura e o gozo feminino estão relacionados à impossibilidade do
acesso a esse outro incognoscível. Assim escreve Blanchot: “a morte do Outro: uma dupla
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morte, porque o Outro já está morto e pesa sobre mim como a obsessão da morte”
(BLANCHOT, 1980, p.36).
Assim como disse Paul Celan: “a poesia, senhores e senhoras: um discurso do
infinito, discurso da morte vã e do somente Nada” seguido do comentário de Blanchot: “Se a
morte é vã, o discurso da morte também o é, e inclui aquele que acredita que diz e se
decepciona ao dizer” (BLANCHOT, 1980, p.143). A partir dessa decepção que é a morte,
mas que também é a pulsão da vida, nesse limiar, podemos encontrar a escritura poética
dessas escritoras.
A PARTIR DA VIDA
“Era uma vez, no despertar de sua primavera, a princesa Anabela”. Quem escreve
essa história é Ana Cristina Cesar, não só escreve, desenha-a como uma pintura rupestre nas
páginas de seu caderno.
Era uma vez o conde Del Mar que tinha o rei na barriga. /Era uma vez a princesa Anabela
que resolveu furar a barriga do conde. /Anabela pegou um grande alfinete de fralda de
nenê E quando o conde dormia, /Ela foi de mansinho, abaixou a ponta levadiça E espetou
o alfinete na barriga do conde. /Ouviu-se um grande estrondo: cata, pum! E uma fumaça
preta como carvão/Envolveu o aposentado do Del Mar. E –oh!. – o que aconteceu?/
Lindo rei apareceu e o conde ficou magro! E Anabela quis logo casar com o rei... / E no
dia do casamento? Ó céus!, Ó’mares! A princesa sai correndo e se atira no mar!/ Por que?
Por que? Perguntam todos? Era porque as tripas do conde estavam/ Na mão do Rei!
(CESAR, 1961-72, p.13-22).
A jovem princesa pede passagem do mundo infantil às experiências inéditas e
dispersas da adolescência, do conde Del Mar ao rei, do pai ao homem, da menina à mulher.
Ela é capaz de furar o Outro em sua inexistência, essa barriga vazia, essa fumaça, esse som:
cata, pum! O véu levantado mostra nada. Surge o rei, “lindo rei apareceu”, mas não sem as
tripas. “Ó céus!, ó’ mares!”. À menina-moça restaram as tripas.
Thereza Bruzzi Cury entre atos e laços, se pergunta sobre o despertar nessas
meninas-mulheres nomeadas adolescentes.
É assim a adolescência: um momento em que cada um prova sua iniciação e, nessa
passagem, no reencontro com a irrupção do sexual faz ruptura com o gozo fálico,
confrontando o sujeito com a impossibilidade da relação entre os sexos, evocando um
tempo de atravessamento de fantasias incestuosas, às vezes, enlouquecedor para as
meninas. (CURY, 2006, p.16)
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Face ao mal estar da escrita, o momento estrutural é delicado. O ato de escrever
também é um ato pulsional que contém em si a tensão vida e morte. Tocar esse ponto de furo
no real pode ser fatal se o fio da vida não sustentar uma borda. Talvez a história da jovem
princesa possa ser pensada como um instante contingente para Ana Cristina Cesar, onde a
catástrofe é anunciada, escrita e inscrita como um desenho. Uma tentativa de escrever a
mulher não toda, de fazer das tripas coração: “Eu queria entrar, Coração ante coração,
Inteiriça, Ou pelo menos mover-me um pouco (...) Eu queria até mesmo saber ver, E num
movimento redondo Como as ondas Que me circundavam, invisíveis, Abraçar com as retinas
Cada pedacinho de matéria viva” (CESAR, 1968, p.40).
Mas a jovem de Ana Cristina Cesar, que restou como as tripas, lançou-se ao mar?
Qual mar? Ao Del Mar ou à morte? A castração edípica não pode se incluir como perda. Das
tripas cor/ação: no dia do casamento? A princesa sai correndo e se atira no mar! No buraco do
real, o mar se escreveu como morte: “Eu não sabia Que virar pelo avesso Era uma experiência
mortal” (CESAR, 1968, p.41).
Marguerite Duras sabia? Talvez. Um saber que lhe permitiu esse ponto de furo do
real. Anabela, em sua fragilidade adolescente, não sabia o que fazer com as tripas que extraiu
da barriga do conde.
ANA CRISTINA CESAR E MARGUERITE DURAS
Podemos também relacionar a escrita de Cesar com a de Duras. Assim escreve Maria
Luiza Berwanger da Silva:
Arquivo vivo, a escritura de Marguerite Duras ressurge na cultura brasileira.(...) É, pois,
na transparência da Literatura Mundial que marcas da paisagem durasiana despontam na
Literatura Brasileira. Nomes como os de Clarice Lispector, Ana Cristina César, Ferreira
Gullar e Milton Hatoun, entre tantos outros, confluem com o de Marguerite Duras no
prazer de auto-elucidar a prática da escritura. “Eu escrevo como se fosse para salvar a
vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que
a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos”, diz a voz de Clarice Lispector, à
qual responde a de Ana Cristina César, nas palavras: “Estou atrás do despojamento mais
inteiro da simplicidade mais erma da palavra mais recém-nascida do inteiro mais
despojado do ermo mais simples do nascimento a mais da palavra [...] surpreenda-me
amigo oculto diga-me que a literatura diga-me que teu olhar tão terno diga-me que neste
burburinho me desejas mais que outro diga-me uma palavra única” (DA SILVA, 2007,
p.67).
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Dessa forma, Ana Cristina Cesar autoelucida poeticamente a escritura. As três autoras
trabalham e discutem a possibilidade da escrita e a pulsão a partir da vida e da morte.
DA ARTE DAS ARMADILHAS
Ana Martins Marques, também às voltas com o amor e a morte, descortina a arte das
armadilhas. Assim escreve Sabrina Seldmayer sobre o primeiro livro de Marques, A vida
submarina:
A vida submarina (2009), livro de estreia de Ana Martins Marques, é quase todo
construído pela remissão ao outro. Os poemas, breves, mas enérgicos, trazem um
endereçamento desconcertante. Dirigidos reiteradamente a um você e a um tu, não
parecem ansiar apenas pela construção de um elo entre a sensibilidade de quem escreve, o
leitor camarada e a experiência da escrita. Mais do que saquear e dividir uma potente
biblioteca de referências literárias – Jorge de Lima, Borges, Lawrence, Homero, Safo de
Lesbos, Carlos Drummond de Andrade, Ana Cristina César, dentre outros – e dar
prosseguimento ao colóquio continuado que é a literatura, a poeta trama, nos quase cento
e cinquenta poemas que constitui tal edição, desvios sinuosos para a fugidia presença do
amor e para a precária arquitetura dos afetos (SELDMAYER, 2009, p.173).
A escrita de Marques é delicada como uma rede de fios que se entrelaçam. Como nas
vitrines de Chico Buarque ou mesmo como em “À une passante” de Baudelaire, ela tem seu
passante. Mas o passante de Ana é rastro, rápido e fugidio, quase não passa. É um passante
feminino como sua poesia que traz o amor e as palavras que não dizem, mas se fazem
presentes nos intervalos, no silêncio dos espaços vazios, reticente... Em “Carta a Safo”
escreve: “Teu corpo quebrado pelo amor [ ] infinitas estrelas [sobre] [uma] pequena praia”
(MARQUES, 2011, p.39). Ela é capaz de se retirar para tomar o partido das coisas: o
açucareiro, a fruteira, os talheres, a cortina... Ou inventar entre interiores a arte das
armadilhas: “Entre a casa e o acaso entre a ilha e o ir-se” (MARQUES, 2011, p.9).
Para a psicanálise, o feminino está além da mulher enquanto gênero. Nesse sentido,
encontram-se mais uma vez Ana Martins Marques, Ana Cristina César e Marguerite Duras.
Trata-se de uma lógica que permite inventar, ali, onde as palavras faltam para representar um
dizer, um sentimento, uma dor. É como bordejar o vazio, jogar xadrez com a morte, ter a arte
das armadilhas.
Freud traz o feminino como um enigma: O quer uma mulher? No Édipo, ele trabalha o
percurso de como uma menina torna-se uma mulher, pois, a princípio, as crianças só
encontram representação no masculino e assim constroem suas primeiras identificações
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sexuais. No inconsciente não há um representante que possa dizer o que é uma mulher
(FREUD, 1932-33, p.139). Essa resposta é singular e terá que ser construída a partir dos
semblantes do feminino. Sua lógica será marcada por um objeto que sempre escapa e que não
está mais lá, no lugar esperado: “um par de brincos que talvez não sejam dela” (MARQUES,
2011,p.17).
O feminino está colocado para todo ser falante que, na contingência, pode ou não
tocá-lo. A poética de Ana Martins Marques toca esse feminino: “Procuramos um lugar a salvo
das palavras. Mas esse Lugar não há” (MARQUES, 2011, p.75).
Cada mulher, particularmente, está dividida entre uma parte que é a função fálica e
outra parte que não traz o registro fálico; as mulheres são contadas uma por uma. Para as
mulheres, dizia Lacan, não existe limite ao gozo. Em consequência, a mulher, no sentido do
universal, ou da “natureza feminina”, não existe, surgindo a fórmula: “A mulher não existe”,
ou, ainda: “A mulher é não-toda”. Quanto ao gozo feminino, ele se define por ser um gozo
“suplementar”.
Com esse lugar que não há, ela ainda escreve: “As palavras faltam quanto mais se
precisa delas são apenas a sombrinha do equilibrista” (MARQUES, 2011, p.43). E diante da
morte, que está presente nas tristes evidências da escrita da autora, escreve: “Se uma baleia
encalha na maré baixa e morre pesada, escura, como numa ópera, cantando: noite”
(MARQUES, 2011, p.23). Segundo a autora, em muitos de seus poemas, morrer de amor é
preciso, e esse amo/r/te reproduz outras mortes literárias: “Eu, que morri de amor, - tenho os
cabelos negros pois morri em águas turvas tenho os cabelos longos pois morri em águas
fundas - sigo descabelada” (MARQUES, 2011, p.44).
O amor pela literatura, escritura e pela limitação do alcance do real lacaniano é
escrito sucintamente pela autora: “pode-se ver o amor brilhando entre as letras” (MARQUES,
2011, p.56). Assim, nessa armadilha poética, o leitor é a presa na pressa de perder-se na
poesia de “AM[or]M”, dividido pelo pesar de chegar ao final. No mundo onde “Sereias
cantam mudas”, à beira-mar, ninguém se afoga. Mas a morte ronda a literatura, assim como
permeia a poesia segundo Marques: “Fruteira. Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas
doces evidências da morte?” (MARQUES, 2011, p.15)
Na arte das armadilhas, Ana sabe o segredo de “partir como quem fica, ficar como
quem parte” (MARQUES, 2011, P.61). A vida insiste, não sem a morte. Assim, “nesta altura
dos acontecimentos, tocamos o sol antes do solo” (MARQUES, 2011, p.69) que Marques
aborda como um de seus principais temas amor/morte.
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Ana Martins Marques e Ana Cristina Cesar
Marques ainda pode se relacionar com Cesar. Assim escreveu Seldmayer sobre os
personagens femininos de Marques e essa relação entre as autoras:
Há muitos livros dentro desse livro. (...) Mas a fatal presença feminina nessa poética não
me parece ser a da narrativa grega, e sim a da carioca Ana Cristina César. Os pequenos
alumbramentos do dia a dia, a insistência em mesclar a consciência imediata do mundo
com o filtro do intelecto, a autoironia, os forjados apontamentos diarísticos, tudo
mesclado a uma corrosiva ironia, ao som da jazz band, remetem à escritora de A teus pés.
E sobressai a forma como Ana Marques lê tais procedimentos, reconhece o projeto de
escritura empreendido por Ana C., e vai além escrevendo-lhe uma carta-poema:“Ciganas
passeando com um rosto escolhido por paisagens cegas de palavras traduzidas
inconfessas rabiscos ao sol. Cotidianas vivendo dias de diários e mentindo
descaradamente nos silêncios das cartas (selos postais unhas postiças versos pós-tudo).
Fulanas de nomes reversíveis para ir e voltar sem sair do lugar: self safári por essa
paisagem toda que no fundo. Ana nada tem a ver conosco”.Self Safári (Carta para Ana
C)(MARQUES, 2009, p. 121) (SELDMAYER, 2009, p.173-174).
Como o nó borromeano, a escrita de Marques se liga à escrita de Cesar, a de Cesar se
liga à de Duras e a de Duras se liga à de Marques, mas todos entrelaçadas. A poesia dessas
autoras é uma volta ao vazio, mas que deixa algo que é a própria linguagem e a literatura.
Algo que não morre, qualquer coisa do amor, do gozo, do feminino.
Assim apresentamos gestos, palavras e teorias acerca dessas três autoras. Ao exercer
a sedução através das palavras, retomam o vazio e a limitação da literatura. Segundo o gozo e
amo\r\te, enodam-se Duras, Cesar e Marques encontrando e se desencontrando na literatura e
na poesia.
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e-scrita Revista do Curso de Letras da UNIABEU Nilópolis, v.4, Número 3, maio-agosto, 2013
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