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COMPARAÇÃO ENTRE A APLICAÇÃO DO MÉTODO MAITLAND E

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COMPARAÇÃO ENTRE A APLICAÇÃO DO MÉTODO MAITLAND E
Rev. bras. fisioter. Vol. 6, No. 2 (2002), 97-104
©Associação Brasileira de Fisioterapia
COMPARAÇÃO ENTRE A APLICAÇÃO DO MÉTODO MAITLAND E DA
TERAPIA CONVENCIONAL NO TRATAMENTO DE LOMBALGIA AGUDA
Calonego, C. A. 1 e Rebelatto, J. R. 2
Professor do Curso de Fisioterapia da Universidade de Mogi das Cruzes, SP, e mestre em Fisioterapia pela UFSCar, SP
1
2
Professor do Departamento de Fisioterapia da UFSCar, SP
Correspondência para: C. A. Calonego, Rua Luis da Silva Pires, 50, CEP 08790-210,
Mogi das Cruzes, SP, e-mail: [email protected]
Recebido: 4/10/01- Aceito: 16/1/02
RESUMO
O objetivo do presente estudo foi comparar a eficácia do tratamento convencional por ultra-som pulsátil a 0,8 w/cm 2 (0,16 w/cm 2
de dose SATA) associado à Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea (TENS) com freqüência a 100Hz modulada a 2Hz, no modo
"burst", durante 30 minutos, e o tratamento por mobilização vertebral segundo o método Maitland nas lombalgias agudas por esforço.
Para tal foram tratados seis sujeitos de ambos os sexos, sendo três submetidos ao tratamento convencional e três a técnicas de mobilização
vertebral. Todos os sujeitos foram avaliados por no mínimo três e no máximo sete observações e receberam dez sessões de tratamento.
Utilizou-se um modelo metodológico de linha de base múltipla de desenho AB. Foram controladas as variáveis dor, por meio de escala
de dor de McGill, e a amplitude de movimento (ADM) controlada por goniometria. Os resultados mostram que ambas as técnicas
propiciaram alívio da dor e ganho de ADM ao final das dez sessões de tratamento. Observou-se também que os dois tratamentos foram
eficazes quando se comparou o nível de dor e ADM antes e pós-tratamento. Os sujeitos submetidos às técnicas de mobilização vertebral
tiveram alívio da dor e ganho de ADM mais precoce que os sujeitos submetidos ao tratamento convencional. Em síntese, foi possível
verificar que, embora o resultado final tenha sido aparentemente semelhante, as técnicas de mobilização vertebral apresentam resultado
mais precoce (em torno de três sessões de tratamento), possibilitando recuperação mais rápida dos indivíduos.
Palavras-chave: fisioterapia, lombalgia, maitland, ultra-som, TENS.
ABSTRACT
The aim o f the present study was to compare the effectiveness of conventional treatment (ultra-sound combined with TENS) and treatment
through vertebral mobilization according to the Maitland method. Six subjects were treated; three submitted to conventional therapy,
and three to vertebral mobilization. Ali subjects were evaluated from three to seven times, before being submitted to ten treatment
sessions. We used a methodological model of multiple baseline of AB drawing, where the subject becomes its own control. Pain and
range of motion variables (ROM) were assessed through the use of McGill pain questionnaire and goniometry, respectively. The results
show that, after ten sessions, both techniques showed relief, either in ROM or pain values. Also, both techniques were shown effective
when comparing pain and ROM values assessed before and after treatment. Pain and ROM improvement was faster on those subjects
submitted to vertebral mobilization rather than conventional therapy. Although final results were apparently similar, mobilization
techniques showed earlier results (within three sessions), which allows quicker recovery.
Key words: Physiotherapy, low back pain, maitland, ultrasound, TENS.
INTRODUÇÃO
A dor lombar acomete cerca de 80% da população
mundial, constituindo-se em problemática de saúde pública
da sociedade moderna, uma vez que a alta incidência na população mundial leva a gastos na ordem de bilhões de dólares
nos Estados Unidos. 1• 2 No Brasil, sabe-se que a lombalgia
é uma das dores mais incidentes, recorrentes e intensas nas
queixas apresentadas pela população de uma maneira geral, caracterizando-se como uma das principais causas médicas responsáveis por abandono de emprego. 3
Além da variedade de medicamentos analgésicos e antiinflamatórios que podem auxiliar no tratamento, a fisioterapia
também tem oferecido aos pacientes portadores de lombalgia
uma variada gama de recursos analgésicos e pró-inflamatórios capazes de permitir intervenção direta sobre os pro-
Calonego, C. A. e Rebelatto, J. R.
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blemas de dor, por meio de várias técnicas específicas de
tratamento. 4 Dentre os recursos analgésicos e pró-inflamatórios fisioterápicos disponíveis e mais utilizados na
rotina clínica da Fisioterapia destacam-se a Estimulação
Elétrica Transcutânea (TENS) e o ultra-som (US).
A TENS vem sendo utilizada como eletroanalgesia
desde a década de 70, com o objetivo de controlar a dor
em diversos tipos de doenças. Mannheimer & Lampe5 relatam os efeitos terapêuticos da TENS em diversas aplicações
clínicas, inclusive no controle de quadros de dor em lombalgias agudas.
O ultra-som (US) vem sendo utilizado como agente
terapêutico há mais de 40 anos no tratamento de diversas
doenças, que variam desde úlceras e traumas esportivos até
herpes zoster e prolapsos de disco intervertebral. 6 Segundo
Dyson et ai., 7 a dor pode ser aliviada diretamente por meio
da aplicação do US no sistema nervoso. Young 8 adenda a
observação de que a analgesia pode também ser resultado
do efeito da redução do edema e da inflamação e pode modificar as propriedades eletrofísicas dos tecidos, devido à
redução da atividade da bomba de sódio-potássio. Nwuga9
mostrou que pacientes com dor lombar aguda com diagnóstico
de hérnia de disco que foram tratados com repouso e US com
potências de 1,0-2,0 w/cm 2 , em aplicações de dez minutos,
três vezes por semana, durante quatro semanas, tiveram alívio
significativamente maior da dor do que os grupos placebo
e controle. Ele concluiu que esse tratamento acelera a resolução
da inflamação local, aumenta a amplitude de movimento e
aumenta a rapidez da recuperação da função lombar.
Uma alternativa de tratamento das disfunções musculoesqueléticas são as técnicas de terapia manual. São métodos
e técnicas derivados das escolas de quiropraxia e osteopatia,
incluindo os métodos desenvolvidos por Mackenzie, Mulligan,
Kaltenborn e Maitland, entre outros. 10 No presente estudo,
foram abordadas as técnicas de mobilização e manipulação
vertebral, segundo o Método Maitland. Trata-se de um método
de mobilização e manipulação articular no qual se tem por
objetivo o tratamento da dor e da rigidez articular e, conseqüentemente, restabelecer a função normal da articulação.
Considerando o problema que as lombalgias representam para a população e os dados da literatura científica, os quais indicam vantagens e desvantagens de cada um
desses diversos tipos de procedimentos terapêuticos, levando
em conta também a escassa informação em relação aos resultados mais eficazes de cada um desses recursos, a finalidade do presente estudo foi a de comparar a eficácia da
terapia por US associada à TENS e da terapia por mobilização vertebral pelo método Maitland, quando aplicadas
no tratamento de lombalgias agudas.
MÉTODO
Sujeitos
Foram utilizados como sujeitos 6 indivíduos portadores
de lombalgia aguda, com idade entre 20 e 50 anos, com
Rev. bras. fisioter.
média de 36,8 anos, de ambos os sexos, sendo 4 mulheres
e 2 homens. Para serem incluídos, os sujeitos deveriam
apresentar um quadro doloroso de no máximo um mês de
história da crise; apresentar no mínimo uma dor de grau
3 na escala de dor de McGill que varia de zero a cinco;
e não estar sendo submetido a qualquer outro tipo de tratamento fisioterapêutico ou medicamentoso. Os critérios
de exclusão basearam-se nas contra-indicações às técnicas
utilizadas para o presente estudo. Portanto, o sujeito não
poderia apresentar qualquer contra-indicação às terapias
por US, TENS ou por mobilização articular, independente
do tratamento que o mesmo fosse receber.
Todos os sujeitos participantes foram encaminhados
à Clínica de Fisioterapia da Universidade de Mogi das
Cruzes (UMC) e assinaram um termo de consentimento
que informava os procedimentos da pesquisa e seus riscos, previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UMC, atendendo à resolução 196/96 do Conselho
N acionai de Saúde.
Para que isso fosse possível, o paciente foi encaminhado
à Clínica de Fisioterapia da Universidade de Mogi das Cruzes,
acompanhado de seus exames complementares (RX, Tomografia, Ressonância Magnética Nuclear, entre outros) e diagnóstico médico para controle do paciente e sua inclusão no grupo
de estudo. Após a chegada do paciente, o mesmo assinava um
termo de concordância para a participação na pesquisa.
MATERIAL E EQIDPAMENTO
Os materiais utilizados no presente estudo foram: goniômetro; ultra-som contínuo/pulsado de 1 e 3 MHz. (Avatar
III), da KLD (Brasil); equipamento TENS (ORION-TENS),
da Fernandes Equipamentos de Fisioterapia (Brasil); ficha
de avaliação proposta por Cummings; 11 escala de dor McGill
Pain Questionary (BR MPQ, versão brasileira Castro, 1999);
gel acoplador para USe TENS; eletrodos de borracha carbonada, tratados com silicone; e cabos transmissores.
PROCEDIMENTO
Como delineamento, foi utilizado o sistema de linha
de base múltipla com desenho tipo AB, composto de três
sujeitos para cada tipo de tratamento, no qual, na fase A,
o primeiro sujeito foi observado por três sessões com intervalo de 30 minutos, o segundo sujeito foi observado por
cinco sessões e o terceiro, por sete sessões, sempre obedecendo ao intervalo de 30 minutos nesta primeira fase.
Procedimento de Observação (Fase A)
Na fase de observação (Fase A), inicialmente foi aplicada uma escala visual analógica (EVA) referente à sen~
sibilidade dolorosa (Mcgill-melzac Pain Quetionaire, versão
brasileira Castro 12), por meio da qual o paciente era interrogado sobre o tipo, localização e intensidade da dor presente.
Nesse questionário constava uma escala de sensibilidade
Vol. 6 No. 2, 2002
99
Comparação de Tratamento na Lombalgia
dolorosa variando de zero a cinco, em que zero =sem dor; O1 =
fraca; 02 = moderada; 03 = forte; 04 = violenta; e 05 =
insuportável. O paciente era submetido a avaliação física
ao término da aplicação do referido questionário. A avaliação tinha por objetivo oferecer subsídios para a análise
das estruturas estáticas e dinâmicas associadas à doença.
Na avaliação dinâmica da coluna lombar e ASI foram
observadas a qualidade dos movimentos fisiológicos da
coluna lombar (flexão, extensão, rotação e inclinação lateral) assim como as áreas de rigidez e flexibilidade da coluna
vertebral, além do comportamento das cristas ilíacas durante
a realização do movimento de inclinação lateral da coluna lombar. As amplitudes de movimento (ADM) da coluna lombar foram verificadas por meio do goniômetro segundo
Marques. 13
Procedimento de Intervenção (Fase B)
Após o procedimento de avaliação, os sujeitos foram
tratados com duas técnicas diferentes. A escolha das técnicas
e dos sujeitos que a ela seriam submetidos foi feita por meio
de sorteio.
O US foi aplicado na região paravertebral comprometida, no modo pulsátil, com potência de 0.8 watts/cm 2 ,
durante 10 minutos, com o US de 1 MHz. A TENS foi aplicada durante 30 minutos, no modo "burst"(trens de pulso),
com freqüência de 100 Hz, modulada a 2 Hz e intensidade
de moderada a forte, respeitando a sensibilidade dolorosa
de cada paciente. Os eletrodos foram dispostos de forma
cruzada diretamente sobre a região de dor.
Os outros três sujeitos foram submetidos ao tratamento
por mobilização ou manipulação articular pelo método
Maitland. As técnicas utilizadas foram todas descritas por
Maitland 14 e Cummings. 11
A aplicação das técnicas foi realizada pelo mesmo
terapeuta, que, após examinar os resultados do exame físico, optava pela melhor técnica para cada sujeito. As opções
levaram em consideração as peculiaridades de cada caso apresentado e as indicações relatadas por Maitland 14 e Corrigan
& Maitland. 15 A primeira opção das manobras sempre foi
a mobilização articular em graus variando de 1 a 3, de acordo
com o nível de dor de cada sujeito. Não houve definição
de uma técnica específica para todos os sujeitos, porém todas
as mobilizações foram realizadas de forma indolor para o sujeito. Todos os sujeitos foram orientados a avisar o terapeuta
ao menor sinal de desconforto sentido, para que este pudesse
tomar as devidas precauções referentes ao tratamento, podendo chegar à interrupção do mesmo.
As mobilizações eram realizadas durante um minuto
e posteriormente os sujeitos eram reavaliados antes de prosseguir o tratamento. Na reavaliação, os parâmetros de DOR
e ADM eram revistos. Caso houvesse uma melhora imediata
com a técnica aplicada, o tratamento era mantido por mais
um minuto para nova reavaliação. Caso contrário, a técnica
era trocada com o objetivo de obter melhor conforto do sujeito
e melhor eficácia da técnica segundo as recomendações de
Maitland. 14
Todos os sujeitos foram tratados por no máximo duas
técnicas diferentes na mesma sessão e com duração máxima
de mobilização vertebral de cinco minutos. Durante a execução
das técnicas, não houve qualquer problema que pudesse comprometer o andamento do tratamento ou mesmo que viesse a
interferir na pesquisa. A aplicação das técnicas de mobilização
e manipulação pelo método Maitland possui contra-indicações
absolutas e precauções que devem ser tomadas em determinadas situações, as quais foram observadas no decorrer do tratamento.
RESULTADOS
Os dados foram examinados por meio de linha de base
múltipla com desenho AB, sendo que os sujeitos foram
avaliados no mínimo três e no máximo sete vezes consecutivas e submetidos a dez sessões de tratamento também
em dias consecutivos. As variáveis controladas foram dor
e amplitude de movimento da coluna lombar.
No que tange ao alívio da dor, pôde-se verificar que,
durante a fase de avaliação, todos os sujeitos obtiveram resultados iguais, mantendo-se estável a linha de base durante
essa fase no grau 3 de dor. Foi possível observar que ambos
tratamentos obtiveram sucesso ao término das sessões, porém o tratamento por Maitland mostrou resposta mais rápida,
alcançando alívio total do quadro doloroso entre a segunda
e quarta sessões, enquanto o alívio de dor nos sujeitos tratados por US associado à TENS obtiveram alívio total do quadro doloroso a partir da 7ª sessão de tratamento, sendo que
o sujeito 1 tratado por USe TENS chegou à 10ª sessão ainda
com uma dor fraca, em grau 1 (Figura 1).
Nas Figuras 2 e 3, pode-se observar o comportamento da ADM em relação aos tratamentos recebidos. Nota-se
que durante a fase de observação ocorreram pequenas variações
na ADM dos sujeitos, na ordem de 1 a 3 graus, exceto para
o sujeito 1, tratado por TENS e US, que apresentou grande
variação durante todo o estudo, não mantendo sua ADM constante. Outro caso que vale destacar é o do não comprometimento das ADM de rotação lombar do sujeito 2 (Figura 3),
também tratado pela técnica convencional, que se apresentaram
totalmente liberadas, permanecendo desta maneira até o final
do tratamento. Durante a fase de intervenção, os sujeitos tratados pelo método Maitland apresentaram rápido ganho de
ADM, mantendo certa estabilidade na curva até o final do
tratamento em todos os movimentos da coluna lombar.
Nota-se que, a exemplo do ocorrido com o comportamento do quadro doloroso, a ADM desses sujeitos teve
seu maior ganho nas primeiras sessões de tratamento, ou
seja, entre a 1ª e 4ª sessões.
Na análise da ADM dos sujeitos submetidos ao tratamento convencional, é possível notar que também houve
ganho significativo de ADM ao final do tratamento.
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SESSÕES
A = Fase de observação
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B = Fase de intervenção
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Figura 1. Evolução nos níveis de dor dos sujeitos com lombalgia aguda tratados pelas técnicas Maitland e convencional (TENS + US).
Porém esse ganho se deu de maneira gradual, com
a estabilização da curva acontecendo mais tardiamente.
Portanto, o comportamento da ADM foi diferente para
cada tipo de tratamento, sendo que os sujeitos tratados
por terapia manual obtiveram evolução mais rápida da
ADM se comparados com os sujeitos que foram submetidos ao tratamento convencional.
DISCUSSÃO
1. A efetividade das técnicas examinadas em relação à
sintomatologia dolorosa.
Ao comparar o nível de dor antes e depois da intervenção, entre os vários sujeitos, nota-se estabilidade nas
curvas iniciais, que é alterada na fase de intervenção. Todos
os sujeitos submetidos à técnica Maitland obtiveram alívio da dor com um número menor de sessões, ou seja, em
torno de três a quatro sessões de tratamento a menos que
os sujeitos tratados com US associado à TENS. Apesar disso,
ficou claro que ambas as intervenções trouxeram resultados
positivos em relação ao quadro doloroso, evidenciando a
eficácia dos tratamentos.
Na verdade, esses resultados podem ser examinados
a partir de diferentes pontos de vista. Em primeiro lugar,
uma vez que ambas as técnicas produziram alívio da dor,
os terapeutas podem contar com mais de uma opção para
a solução de um mesmo problema.
Torstensen et al., 16 em um estudo a respeito da eficácia dos recursos terapêuticos em pacientes com dor lombar
crônica, também não encontraram diferenças significativas
entre grupos de tratamento formados por fisioterapia convencional (calor, crio terapia, eletroterapia e alongamentos)
e um programa de exercícios terapêuticos realizados por
fisioterapeutas. Porém, ambos os grupos indicaram diferenças
estatísticas significativas quando comparados com um grupo
de sujeitos submetidos a exercícios orientados para casa.
Os autores avaliaram a intensidade da dor imediatamente após o final de todo o tratamento, com escala visual analógica de dor (EVA) variando de O a 10 em e escalas
separadas para dor lombar e dores nos membros inferiores.
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Comparação de Tratamento na Lombalgia
Vol. 6 No. 2, 2002
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B = Fase de intervenção
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SESSÕES
Sujeitos tratados pela técnica Maitland
Sujeitos tratados pela técnica convencional (TENS+US)
Figura 2. Evolução da amplitude de movimento de flexão, extensão e flexão lateral direita e esquerda da coluna lombar dos sujeitos tratados pelo
método Maitland e pela técnica convencional.
Calonego, C. A. e Rebelatto, J. R.
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Rotação lombar esquerda
Rotação lombar direita
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= Fase de observação
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1O
SESSÕES
SESSÕES
A
2
= Sujeitos tratados pela técnica
Maitland
= Sujeitos tratados pela técnica convencional (TENS+US)
Figura 3. Evolução da amplitude de movimento de rotação lombar direita e esquerda dos sujeitos tratados pelo método Maitland e pela técnica
convencional.
Em outro estudo, Koes et a/. 17 compararam técnicas
de fisioterapia convencional em grupos tratados por manipulação e mobilização vertebral, práticas gerais (analgésicos, exercícios caseiros e repouso), e um grupo placebo
recebendo 10 minutos deUS e 10 minutos de ondas curtas
com os aparelhos desligados, em dores não específicas relacionadas à coluna cervical e lombar. O autores concluíram
que os sujeitos dos dois primeiros grupos obtiveram resultados melhores, em relação ao nível de dor, que os outros
grupos, não havendo, porém, diferença significativa entre
os grupos de manipulação e mobilização vertebral e o de
fisioterapia convencional. Os resultados do presente estudo estão de acordo com ambas as pesquisas citadas anteriormente, uma vez que evidenciam que as técnicas de
fisioterapia convencional e as técnicas de terapia manual
apresentam boa evolução em relação ao alívio de dor em
um espaço menor de tempo, quando comparadas a efeitos
placebos e exercícios prescritos para realização em casa,
se for considerado o número de sessões aplicadas.
Beattie 18 relata em um estudo de caso a associação de
técnicas de exercícios Mckenzie e de mobilização vertebral, em um paciente com lombalgia, para o alívio de dor
e melhora da rigidez articular. Foram aplicadas pressão pósteroanterior e pressão transversa em grau IV, realizando de 2 a
3 movimentos por segundo, durante 1 minuto, como descrito
por Maitland, e sessões de exercícios de extensão, de acordo
com Mckenzie, com dez repetições cada vez, cinco vezes
ao dia. O autor relata que obteve a resolução do problema
após quatro sessões de tratamento. Deve-se levar em consideração que a manipulação ou mobilização vertebral consegue aliviar a dor, permitindo que os pacientes iniciem
um programa de exercícios mais precocemente. O fisioterapeuta, por sua vez, deve incentivar o paciente a manter
atividade física para a manutenção dos ganhos obtidos anteriormente.
Considerando os relatos dos autores citados e os dados
obtidos neste estudo, quanto à eficácia das técnicas estudadas na eliminação da sintomatologia dolorosa, parece ser
possível deduzir que ambas as técnicas obtiveram resultados
eficazes no alívio do quadro doloroso. A técnica Maitland
teve efeito analgésico logo no início do tratamento, entre
a segunda e quarta sessões, alterando de maneira abrupta
as curvas de dor nos sujeitos tratados por terapia manual.
Os tratamentos por meio de US associado à TENS apresentaram alívio completo da dor mais tardiamente (a partir
da 7ª ou 8ª sessão). É possível afirmar que os dados obtidos neste estudo são coerentes com os da literatura científica sobre o assunto, indicando, portanto, que as técnicas
de terapia manual, além de se mostrarem eficazes, podem
ser utilizadas nos quadros de lombalgia aguda.
Vol. 6 No. 2, 2002
Comparação de Tratamento na Lombalgia
2. Os ganhos de amplitude de movimento em cada técnica
e as diferenças encontradas.
Ao comparar o ganho de ADM em sujeitos tratados pelas
duas técnicas, foi possível observar que as técnicas de terapia
manual apresentaram resultados mais efetivos, determinando
incrementos abruptos quando se observam as curvas relativas
à ADM de diferentes movimentos da coluna lombar (Figuras
2 e 3). Essa diferença no ganho de ADM entre as técnicas
pode estar relacionada à ação de cada recurso terapêutico,
no caso a TENS, ultra-som e mobilização vertebral, no ciclo
de dor proposto por Manheimer & Lampe, 5 que atentam para
a possibilidade de cada recurso atuar sobre parte do ciclo.
Segundo os mesmos autores, a ação do US tem influência
direta sobre o espasmo protetor, melhorando também o fluxo
sangüíneo local prejudicado pelo espasmo e levando a um
aumento do aporte de oxigênio para o local comprometido.8 Já a TENS irá atuar diretamente sobre a dor, levando a uma analgesia em decorrência de sua ação no sistema
nervoso, conforme já discutido anteriormente, segundo a
teoria de comportas. 5 • 19 A mobilização e manipulação vertebral atuam na disfunção da articulação e, por decorrência, seu efeito pode se tornar mais rápido na liberação dos
movimentos comprometidos.
Após análise individual das variáveis dor e ADM, é
visível a correlação existente entre ambas para os dois tipos de tratamentos em todos os movimentos da coluna lombar.
A redução do quadro doloroso no tratamento pelo método
Maitland acontece no máximo até a 4ª sessão. Ao observar
o comportamento da ADM, percebe-se liberação até a 5ª sessão de intervenção. No tratamento por USe TENS, essa correlação permanece, sendo que o alívio de dor e o ganho de
ADM aparecem mais tardiamente, porém correlacionados.
Em um relato de caso de uma paciente com lombalgia
aguda tratada com terapia manual, Parker0 utilizou como
parâmetros de evolução a dor relatada pela paciente e a liberação dos movimentos vertebrais da coluna lombar. Após
a dor ceder, todos os movimentos foram liberados, mostrando
assim a correlação entre dor e limitação de movimento.
Outro fator importante a ser discutido é o tempo de
afastamento do trabalho de um paciente com lombalgia aguda,
que se-gundo Telõken & Zylbersztejn, 21 chega a sete dias.
Em uma linha de produção, o retorno de um funcionário em dois a três dias a sua função pode significar economia importante para a empresa, uma vez que esta
necessariamente sofrerá alguma forma de prejuízo, quer seja
pelo pagamento de horas extras, com a substituição do empregado ou pela ausência do mesmo no trabalho, havendo
assim queda de produção.
O treinamento do profissional para aplicação de cada
técnica é fundamental ao desenvolvimento do estudo. Nas
aplicações de US e TENS, é importante que o pesquisador
domine as técnicas de aplicação e tenha conhecimento de
todas as contra-indicações e indicações dos equipamentos.
Para o emprego de técnicas de mobilização e manipulação
103
vertebral é necessário mais do que conhecimento biomecânico
das articulações envolvidas. Torna-se imprescindível a experiência clínica, além de treinamento com as técnicas a serem
executadas. Koes et al. 11 pesquisaram o efeito da terapia
manual comparada com outros recursos fisioterapêuticos (US,
ondas curtas, exercícios, entre outros) em dores lombares
e cervicais. Para a realização do estudo, os autores propuseram que os terapeutas manuais tivessem experiência mínima
de 3 a 4 anos com as técnicas.
Para este estudo, o terapeuta responsável por todos os
procedimentos contava com dez anos de experiência clínica,
sendo seis anos de experiência com o método Maitland de
terapia manual.
Outro ponto importante é que, embora sejam usadas
técnicas de terapia manual, há poucas pesquisas no Brasil
sobre o assunto. Em estudo desenvolvido na Inglaterra e Irlanda com 2.654 fisioterapeutas, por meio de questionário,
investigaram-se quais os recursos mais utilizados no tratamento de lombalgia. As mais citadas foram as técnicas de
terapia manual (Mckenzie & Maitland), e os resultados mostram a necessidade de pesquisa na área. 22 O próprio acompanhamento dos indivíduos tratados, por um período maior
de tempo, é algo que deve ser considerado em outros estudos, de maneira a ampliar o conhecimento sobre o impacto
de cada uma das técnicas nas AVDs dos indivíduos, a longo
prazo.
Em síntese, foi possível observar, no presente estudo,
que ambos os tratamentos examinados obtiveram resultado positivo tanto no alívio de dor quanto no ganho de amplitude de movimento. No entanto, o tratamento pelo método
Maitland produziu resposta mais rápida do que o tratamento
por TENS e US.
Além dessas evidências, o estudo parece exemplificar
uma direção importante de produção de conhecimento: a
verificação da eficácia clínica dos procedimentos usualmente
realizados na âmbito da Fisioterapia e de seus prováveis
impactos sobre o cotidiano dos indivíduos.
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