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Aspectos Específicos da Tradução de Textos Dramáticos

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Aspectos Específicos da Tradução de Textos Dramáticos
ASPECTOS ESPECÍFICOS DA TRADUÇÃO DE LITERATURA
DRAMÁTICA
Cláudia Soares Álvares da Cruz (Mestrado, CNPq)
PCT – Poéticas da Cena e do Texto Teatral
INTRODUÇÃO
O tema da presente pesquisa diz respeito à tradução de textos dramáticos e suas
especificidades. Como ponto de partida, são abordados diversos aspectos do fazer
tradutório em geral, ou seja, aspectos teóricos e aqueles concernentes à prática
tradutória. Algumas questões que serão abordadas pelo viés teórico dizem
respeito ao papel do tradutor, aos conceitos de fidelidade e liberdade, às noções
de tradução que nortearam os estudos teóricos ao longo dos anos, além de
algumas dicotomias muito recorrentes nesse campo de estudos, tais como,
tradução e adaptação, estrangeirização e domesticação, fidelidade e liberdade,
tradução fiel e tradução livre.
A partir daí, a pesquisa se aprofundará nas questões específicas da tradução de
textos dramáticos. Em geral, esses são textos criados para ser encenados, o que
não quer dizer que não possam ser encarados apenas como um gênero literário,
um texto para ser lido e nada mais. Jirí Veltrusky, em seu livro O drama como
literatura, afirma que “muitas obras foram criadas não para ser representadas
teatralmente, mas simplesmente para serem lidas” (VELTRUSKY, 1990, p. 15).
Ele diz ainda que, embora haja quem declare o texto teatral meramente como o
componente verbal do teatro, o drama, como todos os outros gêneros literários,
tem a linguagem como seu único material. De fato, quando se traduz um texto
dramático, tem-se em mãos apenas palavras impressas em papel, da mesma
forma como acontece com qualquer outro texto. É esse o material de trabalho do
tradutor. Entretanto, assim como não se traduz um documento jurídico da mesma
forma que se traduz um artigo jornalístico, a tradução do texto dramático implica
em estratégias diferenciadas. Nesse tipo de tradução, o primeiro passo é saber se
o novo texto, (re)criado na língua alvo, será ao não levado à cena. Essa
informação norteará, em grande medida, as escolhas que o tradutor terá que
fazer ao longo do processo de passagem do texto fonte para o texto meta.
Umberto Eco afirma que é necessário respeitar o fato de que os campos
semânticos e sintáticos de duas línguas distintas são também distintos e que as
conotações, os contextos e as características culturais nunca permitirão que se
criem equações perfeitas entre elas. Segundo Eco,
Uma tradução não diz respeito apenas a uma passagem entre duas
línguas, mas entre duas culturas. (...) Um tradutor não deve levar em
conta somente as regras estritamente linguísticas, mas também os
elementos culturais, no sentido mais amplo do termo. (ECO, Umberto.
Quase a mesma coisa. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 190)
Quando se trata de textos dramáticos que serão levados à cena, os elementos
culturais citados por Eco tornam-se extremamente relevantes. E visto que
traduzir não se limita à utilização de códigos linguísticos de uma e outra línguas,
mas também de traduzir culturas, quando se traduz um texto para ser levado à
cena, como deverão, por exemplo, ser traduzidas as referências extralinguísticas?
Como
produzir
no
espectador
do
texto
meta
efeitos
análogos
àqueles
experimentados por quem assiste à sua versão original? O que será mais
importante, “levar o leitor a compreender o universo linguístico e cultural do texto
de origem ou transformar o texto original para torná-lo aceitável ao leitor da
língua ou da cultura de destino” (ECO, 2007, p. 201)?
Com o objetivo de averiguar e aprofundar as questões inerentes à tradução
teatral, escolhi como objeto de pesquisa a peça Lobby Hero, de Kenneth
Lonergan. A peça, escrita em 2001, ainda não havia sido traduzida para o
português. A edição que utilizei para minha tradução foi a de 2002, publicada
pela Dramatists Play Service Inc.
Lonergan, que nasceu em Nova York em 1962, ambientou suas três peças nessa
cidade. This is Our Youth, indicada ao Drama Desk Award de melhor peça, é de
1993 e The Waverley Gallery, indicada ao Prêmio Pulitzer, foi escrita no ano
2000. Lobby Hero, seguindo a trajetória de sucesso dos textos teatrais do autor,
também foi indicada a melhor peça em premiações importantes: o Drama Desk
Award, o Outer Critics Circle, o John Gassner Playwriting e o Olivier.
A tradução que faço nesta dissertação tem como premissa o objetivo de ser um
texto para ser levado à cena. Essa decisão implica na adoção de estratégias
bastante diferenciadas daquelas que utilizaria caso a tradução estivesse sendo
feita para publicação, por exemplo. A cada passo da tradução, exponho minhas
estratégias, minhas decisões e escolhas, demonstrando o porquê de cada uma
delas, tendo como base os estudos da tradução e trazendo argumentos teórica
e/ou empiricamente fundamentados.
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