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Bastidores de Etnografias de Violências na Cidade Contemporânea

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Bastidores de Etnografias de Violências na Cidade Contemporânea
Bastido res de Etnog rafias d e Violênci as n a Cid ad e
Contemporânea1
Autora: Micheline Ramos de Oliveira (UFSC) 2∗
Resumo
Nesse artigo problematizo a escrita etnográfica como processo de organização
da experiência de campo do antropólogo, sobre os inúmeros deslocamentos
epistemológicos que a produção progressiva de registros desse campo tende a
provocar na construção, tanto do tema quanto do objeto do pensamento
antropológico. O faço, a partir de minha própria experiência de pesquisa
focalizando mulheres e violências. Enfim, reflito sobre as acomodações
objetivas e subjetivas as quais está sujeito o pensamento do antropólogo no
seu trajeto de conhecimento do outro, do estranho, do qual resulta o processo
de produção textual como parte de um esforço de consolidação das distintas
modalidades simbólicas de controle do tempo no interior de uma narrativa- a
da experiência do antropólogo em campo.
Este artigo é uma releitura do primeiro capítulo de minha tese de doutorado intitulada “No limiar da memória –
estudo antropológico sobre mulheres e violências na metrópole contemporânea”, defendida sob a orientação de Ana
Luiza Carvalho da Rocha, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/UFSC, em 2009.
2 Agradeço imensamente a Gilberto Velho (Museu Nacional/UFRJ), Alicia Castells (UFSC), Cornelia Eckert
(UFRGS), Sônia Maluf (UFSC), membros de minha banca de defesa de doutorado, e, especialmente, minha
orientadora, Ana Luiza Carvalho da Rocha, pelas valiosas sugestões que vim a utilizar na confecção desse artigo.
∗
Doutora em Antropologia Social/Pesquisadora associada ao NAUI. Professora temporária do Departamento de
Antropologia Social UFSC
1
Eu v ivo c om m ed o [...] m u ito m ed o [...] cad a vez qu e
eu sai o n a r ua fi co olh and o pr o s lad os pr a v er se
nin guém t á m e s egu in do [...] eu c ubr o c om as m i nha s
m ãos a ca be cin ha do Jú ni or po r qu e e u t enh o m edo que
ele fa ça al gum a c oi sa co n tr a o m e ni no, dê um tir o n a
cab eça de le pr a s e v in gar de m im .
( E li sa, F av el a M ata dour o, 20 d e jul ho de 200 0) .
1.1 - Preliminares
Em bor a e u já te nha e sc ut ado m u ita s hi st ór i as de sd e que ch egu ei a qui n o
M ata dour o, h oj e qu as e n ão m e co nti ve dia nte da s lág r im a s d e El isa ao
m e nar r ar es sa s pa lav r a s fal and o de seu e x- m a r ido , pr o cur a do p ela
pol íc ia p or r ou bo e tr á fi co de dr oga s [. ..] . E nã o c on sig o m e co nter agor a
na hor a d e tr an sc r ev er sua s pa lavr as [ ... ]. P r ec i so ch or ar s enã o vou
exp lod ir [.. .]. E m bor a e u t enha co ns ci ên cia da s m in has li m i taç õe s [ ... ]de
m eu pap el c om o um a a ntr op ól oga qu e est uda v iol ên cia s na c ida de
con tem p or â nea ( be las pa l avr a s) [ ... ]. N es se m om e n to , s in to- m e um nad a
dia nte de ss a r e al ida de [.. . ]. ( F ave la M a tad our o , 2 0 d e j ulh o d e 2 000 ) . 3
Elejo esta passagem retirada de meu diário de campo escrito nos
idos de 2000, durante o mestrado, como ponto de partida para esse artigo, por
considerá-la emblemática para a reflexão que tenho a intenção de desenvolver
em torno da temática dos jogos de memória (ECKERT; ROCHA, 2005) que se
manifestam no processo de produção da escrita etnográfica, integrando uma
reflexão sobre o tema das violências no contexto das metrópoles do Brasil.
Escolho essa discussão porque ela traz em seu cerne o problema
etnográfico da “identidade narrativa do antropólogo”, especialmente, a questão
de sua “identidade pessoal” no que se refere a se conquistar, em antropologia,
“uma ética da ação” (ECKERT; ROCHA, 2005, p.122).
De mais a mais, o tema é caro a uma antropologia das violências na
contemporaneidade, como pondera Soares (2000, p. 23), ao dizer que o
pesquisador que estuda os “fenômenos associados à violência”, se tiver tido
uma formação ancorada no pensamento crítico, “vive um drama de consciência,
de natureza simultaneamente teórica, política e ética”.
É importante ressaltar que uma reflexão dessa natureza que
“tangencia uma ‘hermenêutica de si’” de onde não é possível “afastar a
produção-construção do conhecimento antropológico”, só pode ser realizada,
Morei durante o mês de julho de 2000 na casa de uma família, localizada na favela Matadouro em Itajaí-SC, com o
objetivo de fazer meu campo de mestrado.
3
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por estar situada numa matriz disciplinar antropológica contemporânea, onde a
“experiência temporal” do pesquisador faz parte do cerne das questões que o
preocupa (ECKERT; ROCHA, 2005, p.121).
Nesta discussão, enfatizo que esta temática deve ser apreendida
por uma antropologia pautada pelos estudos de memória (ibid.), que aqui se
tornam prioritários, à medida que constatei, ao longo da retomada de meu
campo de mestrado, que é a memória que veicula boa parte da reflexão acerca
das acomodações objetivas e subjetivas às quais o pensamento do antropólogo
precisa se submeter no seu percurso pelo conhecimento do “outro”.
Em referência à epistemologia bachelardiana 4, refiro-me aqui aos
obstáculos que precisam ser superados para que se consolide o processo
reflexivo-crítico do qual se origina a produção textual de um trabalho científico
no campo das ciências sociais. Ou seja, refiro-me a um processo criterioso de
compreensão das diferentes modalidades simbólicas de controle do tempo que
dá origem a uma produção de narrativa etnográfica, e onde se situa a
vivência/experiência do antropólogo em campo.
Relidos pelo viés dos estudos de memória, referindo aqui ao tema
da vigilância epistemológica, entoado por Bourdieu no ofício do antropólogo,
relacionada às questões do etnocentrismo e do relativismo na história da
antropologia.
Nesse sentido, ao levar em conta que “a riqueza do método
etnográfico reside nessa tensão entre diversas modalidades simbólicas do
controle do tempo as quais configuram a mediação narrativa: a vivência e a
escritura que se desdobram na distensão temporal do si” (ibid., p. 133), este
debate pretende contribuir para a compreensão das diferentes dimensões pelas
quais o pensamento antropológico perpassa a construção da representação
etnográfica sobre o tema da violência no mundo urbano contemporâneo. Ou
seja, um fenômeno que abarca a compreensão e a análise das situações pelas
quais
passa
o
pesquisador
em
campo
em
suas
relações
com
seus
interlocutores. Transcrevo mais uma parte de meu diário de campo de
mestrado:
4
Ver Bachelard (1996). O espírito científico.
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Ho je, M ô ni ca p ar e cia q uer er m e co ntar t oda sua vid a num a t ar de , m e sm o
sab end o e con cor dan do com igo que ser á n ece ss ár io eu vo ltar outr as
vez es par a co nti nuar m o s nos sa s en tr e vi sta s [. ..] . O ir e vi r de sua
tr aj etór ia m ui ta s v eze s m e de ixo u u m po uco co nfu sa e até ir r ita da [ ... ].
F ico pr e oc upa da qua ndo ti ver q ue co lo car tud o i ss o no p ape l [ ... ] n ão se i
se vou c on seg uir [. ..] e al ém do m a is [. ..] se r á di fíc i l n ar r ar to da a
dr am a ti ci dad e daq uel es m om e nto s cr u ci ai s da ent r evi st a [.. .] ten ho qu e
tent ar pel o m eno s dar o p eso e o t om ne ces sár io q ue a que la s par t es da
nar r a ti va m er e cem [ ... ]. Qua ndo eu e sta va m or a ndo n o ba ir r o , m ai s
pr óx im a , ao m en os geo gr af ica m en te, da que la s pes soa s, par e ci a qu e
poder ia ser um pou co m e nos di fíc il a tar e fa do e sc r ever [. ..] . ( I taj aí, 10
de jul ho de 200 1) 5.
A “busca da coerência interna” de minha etnografia vem à tona
nesse fragmento de meu diário e revela a problemática de cunho “ético-moral”
que está imersa no “esforço da ação reflexiva” em que mergulha meu “sujeito
cognoscente” frente ao desafio de compreender como a descontinuidade de um
tempo vivido em campo e aquele rememorado, no esforço de descrever as
situações compartilhadas com minhas interlocutoras durante minha estada
entre elas, na Favela Matadouro, afetava minha representação do fenômeno da
violência.
Este esforço, obviamente, envolvia minha experiência da escrita da
dissertação de mestrado e meu compromisso com a manutenção de um “simesmo” para a passagem da minha condição de etnógrafa de campo para a de
etnógrafa-narradora (ibid.).
O sentimento que carregava na ocasião foi responsável pelo título
deste artigo. Sentia-me ética e moralmente “no fio da navalha” à medida que
as próprias ações discursivas que eu, antropóloga, construía sobre minhas
interlocutoras e suas vidas na Favela Matadouro, inúmeras vezes “enraízam-se
no espaço dos mitos e das crenças da sociedade [...]” (ibid, p. 116) à qual
pertenço. 6
Trato de um dilema de duas vias. Um primeiro dilema que abriga
Finda minha estada em campo; retornei ao Matadouro nos finais de semana subseqüentes, durante o período de
julho de 2000 a julho de 2001, com a finalidade de estudar mais intensa e especificamente as trajetórias, os
itinerários e a cotidianidade das mulheres em foco.
6 Nesse sentido, pode ser frutífero fazer um exercício dialógico entre Bachelard (1996), Bourdieu (1983) e Rabinow
(1999) e suas discussões que abarcam respectivamente a problemática dos obstáculos epistemológicos, a vigilância
epistemológica e a problemática do poder atrelada ao discurso antropológico e retomados pelo prisma do tema dos
jogos de memória e da figura do antropólogo como narrador, em Eckert e Rocha (2000). Exercício que teço de
forma ainda embrionária nesse capítulo, mas que pretendo desenvolver num artigo posterior à tese.
5
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uma perturbação, um desconforto e uma inquietação, advindos do embate
existente entre a fala e o vivido das violências por mulheres de camadas
populares, pobres e semi-alfabetizadas versus a escrita da antropóloga em
campo, uma mulher de classe média intelectualizada que não passou por
nenhuma das experiências de violências narradas por suas interlocutoras, mas
vivendo temporariamente entre elas.
Um segundo dilema diz respeito ao embate existente no plano dos
atos de reflexão que toda escrita etnográfica entre a representação do “outro”
e do seu vivido humano dos atos violentos (seja como vítima, seja como
agressor) por ele mesmo, e a representação do “outro” a partir da
representação do si-mesmo do antropólogo (pelo viés dos conceitos e das
teorias antropológicas) que revelam uma decalagem entre as categorias de
entendimento empregadas por ambos.
Assim, a prática da escrita de diários, de observações participantes,
de anotações de campo, revisitados pelos estudos de memória, recoloca no
centro das atenções um elemento perturbador: a tradução/transcrição/traição
das diferenças assimétricas entre o “nativo” e o “etnógrafo” reunindo de forma
indissociável a identidade de si da antropóloga, intelectual, respaldada e
‘autorizada’ pelo campo discursivo da Antropologia à identidade de si de
mulheres de camadas populares, estigmatizadas, violentadas, marginalizadas,
muitas vezes patologizadas e criminalizadas no âmbito da vida social.
A seguir, destaco mais um trecho retirado de meu diário de campo
do mestrado que considero emblemático em relação a essa problemática:
[... ] To da s as no ite s an t es d e dor m ir, apr ov eit an do o r e co lh im e nto da
fam í li a com q ue es tou m or and o, e spa lho m eu s m apa s e cad er no s de
nota s p ela ún ica m e sa d a cas a, sit uad a na co zi nha . Ne ste s pr im e ir o s d ias
apar e cer am f ala s i ndi ca n do um t eor d e pr e ocu pa ção sobr e o qu e ir ei
escr ev er s obr e el es , r ep et idam ent e. Co m o a do fi lho m ai s v el ho d o c as al,
que di ver sa s vez es v em à co zin ha co m o pr ete xto de be ber ág ua e
ind aga- m e: Ei, o qu e t u t á e scr eve ndo s obr e a ge nte aí m e sm o ? Tu va i
fal ar q ue a m ul her a da qu e tu tá e ntr e vi sta nd o é v io l ent a [ ... ]. N ão va i
fal ar qu e a ge nte é v iol en to, n é? ( I taj aí, F av ela M at adour o, 5 de j ul ho de
2000) .
Considero
esse
fragmento
de
meu
diário
revelador
deste
entrelaçamento de representações de si e de embates de identidades
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narrativas nas quais o antropólogo se envolve durante o campo, procurando
ordenar, arranjar e acomodar não apenas as decalagens de experiências de
vida distintas na cidade, imediatamente após a sua imersão no mundo do
outro.
São situações que suscitam em mim uma reflexão sobre o teor da
autoridade etnográfica de que disponho na construção da representação do
“nativo”.
Da mesma forma, advém daí minha perturbação na identificação do
“poder” contido no pensamento antropológico, constituído por conceitos e
teorias, norteadores da tradução da palavra do “outro” para outra comunidade
intelectual que não aquela de onde estas representações se originam.
Dessa forma, a incursão à minha pesquisa de mestrado foi
fundamental para a minha tese de doutoramento ao considerar que o tempo do
mundo (BACHELARD, 1994; ECKERT; ROCHA, 2005), o tempo cronológico (ou
tempo pensado), aquele que seguiu a escritura da tese de doutorado, solicitou,
de múltiplas formas.
Refiro-me aqui à importância de uma reflexão sobre os diversos
tempos vividos por mim durante meu trabalho de campo para a compreensão
que desenvolvo dos estudos de violência no mundo contemporâneo, e que
comporta, além da compreensão do tempo do mundo que rege a minha
experiência de campo no presídio feminino de Rio do Sul, e junto às mulheres
demarcadas por vivências de violências as quais entrevistei em meu campo de
doutoramento, o tempo do mundo condensado em minha experiência de
mestrado na Favela Matadouro agregado a ele.
Inicio minha pesquisa de mestrado nos idos de 2000-2002 pelo
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal
de Santa Catarina. O objeto de pesquisa: as trajetórias sociais e os itinerários
urbanos de mulheres que compunham um mesmo grupo familiar pertencente às
classes trabalhadoras urbanas e moradoras do Bairro-Favela Matadouro,
localizado no município de Itajaí-SC.
Vale lembrar, que essa pesquisa, “Se correr o bicho pega, se ficar o
bicho come - Estudo antropológico de trajetórias sociais e itinerários urbanos,
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sob o prisma da cultura do medo entre mulheres/mães moradoras da Favela
Matadouro, Itajaí/SC”, transcorreu sob uma perspectiva dos estudos de
pobreza (WACQUANT, 2001), gênero e violência, situando-os no contexto das
modernas sociedades complexas, urbano-industriais, caracterizadas por uma
dramática singular, da homogeneidade-heterogeneidade cultural (VELHO,
1981).
Conforme escritos retirados de minha dissertação, e na linha dos
comentários de Velho (1981), no bairro Matadouro, tal qual em muitos bairros
de camadas médias urbanas (no caso, Rio de Janeiro) pesquisados pelo autor,
a heterogeneidade de universos simbólicos é uma de suas marcas como grupo
urbano, fenômeno que faz par com processos de homogeneização em que a
mídia (jornal e televisão) desponta como parte importante na construção de
emblemas reveladores de estigmas sociais com os quais os moradores do
Matadouro lidam em seu cotidiano (RAMOS DE OLIVEIRA, 2002, p. 17).
Assim, foi em meu mestrado, a partir do uso de técnicas e
procedimentos já clássicos na antropologia, como a descrição densa (GEERTZ,
1978)
daquela
realidade,
alcançada
prioritariamente
pela
observação
participante (MALINOWSKI, 1986), pela etnografia do cotidiano (DE CERTEAU,
1995) e ainda pelo estudo das narrativas biográficas (ECKERT; ROCHA, 2005)
do universo focalizado, que comecei a refletir sobre o campo de pesquisa
voltado para estudos de violência e gênero da e na cidade.
O contexto metropolitano aparecia, desde o início de minha
pesquisa, como um cenário privilegiado para a descrição e a análise do ponto
de vista dos “nativos” sobre as questões polêmicas de violência urbana. Neste
caso, a dissertação focalizou a problemática do gênero, família e pobreza e as
questões das experiências cotidianas de violências entre segmentos populares
e seus itinerários urbanos na cidade de Itajaí, adotando, prioritariamente, a
linhagem de estudos de Zaluar (1994, 2003), Fonseca (2000), Diógenes (1998)
e Caldeira (2000).
A dissertação seguia de perto os comentários de Velho (1981), para
quem o fundamental no trabalho do antropólogo é investigar e verificar como
os
“nativos”
percebem
questões
como
violências,
diferenças
grupais
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(religiosas, étnicas, de gênero), entre outras, para não cair na armadilha de
classificar determinada população segundo seu próprio critério, desrespeitando
o “olhar do outro”, que, numa sociedade complexa, aparentemente pode ser
semelhante ao seu, mas provavelmente apresenta muitas diferenças (RAMOS
DE OLIVEIRA, 2002, p. 25-26).
Seguindo esta orientação, pude resgatar as experiências desse
grupo de mulheres-mães da favela Matadouro face à disseminação de uma
cultura do medo no mundo urbano contemporâneo de uma cidade como Itajaí.
Um fenômeno que me possibilitou a compreensão do processo de construção
subjetiva da condição de vítima vivida por determinados grupos de mulheres
pertencentes aos segmentos populares, a partir do resgate de suas lembranças
de experiências com várias dimensões da violência urbana.
Observava que, naquele contexto, minhas interlocutoras temiam
para si mesmas e para seus filhos o destino trágico de uma trajetória social
singular, a de “pobre e bandido”. Nutriam, sobre o seu futuro e o de suas
famílias, sentimentos de medo e inseguranças, incorporando, através dos
processos de vitimização, um fenômeno de subjetivação de atos “violentos”
oriundos de uma cultura objetiva de atos violentos a que as camadas mais
pobres da população brasileiras acham-se constrangidos.
Aqui a teoria simmeliana torna-se interessante, à medida que na
“tragédia da cultura” o autor traz à tona a problematização da “objetificação”
da vida, que a partir das antíteses como cultura objetiva e cultura subjetiva,
“processos
associativos
e
processos
dissociativos”
(NEDELMAN,
1989;
MALDONADO, 1996), “forças constitutivas e poderes dissolventes” (SIMMEL,
1986), pode revelar aspectos importantes para a compreensão densa de um
processo de vitimização das camadas pobres brasileiras.
Isso se atentarmos para o âmbito de um mundo da vida objetiva que
se contrapõe à subjetividade dos “indivíduos”, circunscrita nos impactos da
metrópole, primeiro, sobre a “vida mental” desses “indivíduos”, como pode ser
visto no medo vivido pelas mulheres/mães focos de minha pesquisa de
mestrado, e visto ao longo da tese, em outra escala, nas mulheres foco de
minha pesquisa de doutorado, e segundo, sobre o próprio antropólogo que
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investiga os tais fenômenos de vitimização como poderá ser possível observar
nos trechos expostos de meus diários de campo.
Nesse viés, levando em conta o cruzamento das temporalidades
diferenciadas norteadoras desse estudo, as reflexões em torno de meu antigo
tema e objeto de pesquisa desenvolvidos no mestrado estão indubitavelmente
relacionadas ao meu desejo, no tempo do doutorado, de problematização dos
efeitos dos constrangimentos advindos de um campo em que a antropóloga
pesquisa como as trajetórias sociais de violências são acomodadas por
mulheres de camadas populares, sobre a interpretação de seus itinerários
urbanos,
marcados
por
vivências
de
discriminação,
estigmatização,
criminalização e marginalização nos territórios da cidade onde vivem. Período
longo e tenho impressão de que você já disse isso tudo.
Portanto,
procuro
problematizar
as
acomodações
das
representações do “nativo” ao longo de minha própria trajetória acadêmica (de
psicologia/antropologia 7 e de mestrado/doutorado), das adoções conceituais e
Na qualidade de estudante de Psicologia, mantive o meu primeiro contato com o bairro Matadouro quando
desenvolvi, no período de junho de 1998 a agosto de 1999, um projeto de conclusão de curso voltado para a área
de psicologia organizacional na Universidade do Vale do Itajaí. A pesquisa tinha como objetivo principal orientar os
dirigentes da Associação de Moradores do bairro Matadouro na execução e implementação de projetos em
benefício da comunidade. Sem me aprofundar nesta questão, seria profícuo ressaltar que, neste período, a
pesquisa foi fundamentada pelos pressupostos da Psicologia Social, embasados por uma epistemologia crítica,
orientada principalmente pelos pensamentos de Bachelard (1994), Lane (1984) e Heller (1998). Nas palavras de
Lane (1994): “[...] A Psicologia Social tem por objetivo conhecer o indivíduo no conjunto de suas relações sociais,
tanto naquilo que lhe é específico como naquilo em que ele é manifestação grupal e social. Porém, agora a
Psicologia Social poderá responder à questão de como o homem é sujeito da história e transformador de sua
própria vida e da sua sociedade [...] (p. 19). Em decorrência da concepção teórica e dos objetivos do trabalho, a
metodologia utilizada foi a pesquisa participante e a pesquisa ação, “em que a população interessada (ou seus
representantes) participa, junto com os investigadores, da definição do objeto de pesquisa, dos seus objetivos e do
seu planejamento [...]. O trabalho de campo e conjunto e análise dos dados incluem a participação de todos os
envolvidos onde é esperado feedback para validação dos resultados e onde são estabelecidas as propostas de
ação daí decorrentes” (TITTONI e JACQUES, 1998). Subsidiada por estes pressupostos teóricos e por esta
metodologia, os objetivos da pesquisa em Psicologia foram alcançados, fator que não impediu o estabelecimento de
muitas lacunas e questionamentos acerca do Matadouro e de seus moradores. “Tolo e míope é o cientista que se
defronta com uma classe inteira de fenômenos, prontos para serem coletados, e os despreza, mesmo que não veja,
no momento, qual a sua possível utilização teórica!” (MALINOWSKI, 1986, p. 43). Hoje posso dizer que estas
palavras de Malinowski, que só vim a conhecer como mestranda em Antropologia, foram respeitadas por mim, ainda
como estudante de Psicologia, já que concomitantemente com o trabalho na Associação de Moradores do
Matadouro eu redigia um esboço de um “diário de campo”, descrevendo a cotidianidade daquela população, em
situações diversas, como festas, botecos, momentos de sociabilidade entre a vizinhança etc. Finalizada esta
pesquisa, revisitando meu “diário de campo” escrito entre 1998-1999, pude constatar alguns fenômenos registrados
que me chamaram a atenção, tais como: a diversidade sócio-cultural, as tensões advindas aparentemente do tráfico
de drogas, as constantes migrações internas ou para bairros vizinhos de grande parte da população. Diante do
observado, optei por dar continuidade a uma pesquisa no Matadouro sob os pressupostos da Antropologia Social,
que, embora de forma superficial, foram-me apresentados ainda na graduação, contribuindo indubitavelmente para
esta escolha. Classifico este período da minha trajetória como pesquisadora, como uma fase, como diria Demo
7
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teóricas e de minha adesão aos estudos de antropologia sobre o tema do
gênero e violência na cidade moderno-contemporânea, como parte integrante
das formas de pensar que, progressivamente, vou tecendo para a compreensão
de tais fenômenos.
Continuando, penso que a transcrição da continuidade do relato
retirado de meu diário de campo torna-se proveitosa, nesse movimento
necessário de um retorno ao meu antigo tema e objeto de pesquisa. Vamos a
ele:
Já qu e no pr im e ir o d ia e m cam p o, e e m tod as a s outr a s c onv er s as q ue
tiv em o s, no s out r os d ia s sub seq uen te s, fi z que st ão de esc lar e cer o qu e
eu est av a f az end o a l i, fi que i um pou co i ncom oda da c om o
que sti ona m en to de m eu i nter loc uto r ( [ ... ]. E i, o q ue t u t á es cr ev en do
sobr e a gen te aí m es m o ? N ão va i fa lar qu e a g ente é vi ole nto , n é?
[... ]) .[ ... ] E le co nt inu ou f ala ndo : ( Sa be o que é, é qu e eu and o bem
can sad o de ou vir o pe sso al fa lan do por aí qu e q ue m m or a no M at ador é
band id o [ ... ]. Qu as e m e co nfun dir am com u m tr af ic an te a í só por que m or o
aqu i [ ... ]. E de po is tu co m o vin do lá da un i ver s id a de [.. .] o que tu v ai
fal ar a í da gen te [. ..] s ei lá , p ode s er per i go so [.. .]) . Di ant e d is so ,
con vi dei - o p ar a se ntar a o m eu la do na m es a e m ost r a n do- lhe m in ha s
car t ogr a fi as d o ba ir r o , fr a gm en tos do m eu d iár io e as i m ag ens fe ita s a
par t ir de m in ha pr im e ir a sem a na e m ca m po des cr evi lon gam ent e qu ai s
er am os m eu s obj et ivo s [... ]. Da da s a s d ife r en ça s , de po is de alg um a s
hor a s de co nv er sa , Ro dr igo pa r ec ia m a is à v on t ade d i ant e da m i nha
pr es enç a em su a c as a e m ai s d isp os to a aj udar - m e no q ue f os se pr ec is o
par a o b om an dam ent o d o m eu tr aba lh o. D epo is d is so, já qu e fa lta vam
apen as a lgu m as h or a s p ar a o dia n as cer, apa ga m os a lu ze s e fom os
dor m ir. ( It aj aí, F av el a M at adour o, 5 d e ju lho de 20 0 0) .
Essa passagem do meu diário de campo me remete à importância,
para a produção de um conhecimento de sua matriz disciplinar, de um
pensamento antropológico que necessita se deslocar incessantemente do
tempo do mundo (tempo da antropóloga em sua formação no interior da
academia)
para
o
tempo
subjetivo
(tempo
das
interlocutoras
e
dos
interlocutores e suas vivências de violências na favela, no cárcere), e vice(1990), marcada pela construção da necessidade de construir caminhos. Assim, antes que romper com os
paradigmas da Psicologia Social, a opção pela Antropologia Social foi um meio (caminho) que encontrei para
investigar outras facetas da complexa realidade que o Matadouro e seus moradores apresentavam. O meu ingresso
no mestrado em Antropologia Social deu-se no primeiro semestre de 2000 e já nos primeiros seminários, ficou
ratificado que poderia dar continuidade a minha pesquisa sob novas perspectivas, as antropológicas, que viriam a
contribuir para uma compreensão mais ampla e densa do objeto em questão, possibilitando-me ainda produzir um
discurso que “tenha tanto a capacidade de se somar na singularidade de uma ‘antropologia no plural’ quanto a de
contribuir significativamente para o contexto no qual me acontece viver” (PEIRANO, 1991) (RAMOS DE OLIVEIRA,
2002, p. 15).
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versa. Do tempo subjetivo (tempo da antropóloga em campo de camadas
médias urbanas letradas e intelectualizadas) em direção ao tempo subjetivo
(tempo de interlocutoras e interlocutores de camadas populares, ou advindas
delas, pobres, e, geralmente, semi-alfabetizados). 8
Nesse ínterim, em função de que, no “limiar da memória” acontece
sempre uma “elaboração ética da vida social” (ECKERT; ROCHA, 2005), é nos
interstícios dos deslocamentos epistemológicos entre essas temporalidades
diversas vividas por mim, ao longo de minha formação pesquisando gênero,
violência e cidade, que circunscrevo mais uma vez o título do artigo, uma
antropóloga no “fio da navalha” no interior das pretensões deste artigo.
Outro fragmento retirado de meu diário de campo pode contribuir
com a discussão:
Ho je e sto u m u it o c ans a da [. ..] . Es tou qua se h á um m ês aqu i no
M ata dour o e con fe sso qu e es tá sen do m uit o d ifí ci l t er que es cu tar d ia
apó s dia a h is tór ia de vid a sofr ida des sa s m u lher es [...] . É d ifí c il ter q ue
adm i tir qu e a vi da de t anta ge nte é co ns tit uíd a em gr and e par t e p or
exp er iê nc ia s d e h or r or : ass as si nat os, dr oga s, r o ubo s, di scr im i na çõe s,
est upr o s [. ..] . N es sa h or a fic a di fí ci l r e lat iv iz ar [. ..] . Co m o a A lb a Z al uar
ague nta tr a bal har tan tos ano s co m v io lên ci as [.. .]. Eu não que r o c heg ar
ao fi nal d a m in ha v ida a c hand o que “o ser hu m an o é um a pai xã o inú ti l ”,
com o di ss e Sar t r e [ ... ]. É m uit o s ofr im e nto [.. . ]. Es per o que es sa
pes qui sa g er e a lg um fr uto em ben efí ci o de ss as p es so a s [. ..] o u qu e su as
exp er iê nc ia s, q ue ser ão r ela tad as em m in ha dis ser ta ção , po ss am
con tr ib uir d e a lg um a for m a pa r a no ssa c om pr een sã o d e ss es fe nôm eno s
dit os vi ol ent os [. ..] . ( I taj aí , F a vel a M ata dou r o, 2 7 de ju lho de 20 00) .
Para que esse relato não resvale num subjetivismo, ou em questões
meramente morais, devo dizer que me exponho, nesse momento, por acreditar,
que esse fragmento de minha experiência em campo possa contribuir para a
discussão sobre os dilemas das escutas em campo, que antecipam as
necessárias “perturbações” (ROCHA; ECKERT, 2000) que a escrita provoca no
8Por dialogarem com os temas desenvolvidos por Velho (1981) principalmente em “Individualismo e cultura” e a
mediação entre Bachelard (1994) em sua “dialética da duração” e os estudos da memória em relação às questões
da produção de etnografia no contexto das metrópoles, ver as discussões desenvolvidas por Eckert e Rocha (2000)
principalmente no livro “O tempo e a cidade”, onde as autoras referenciam os conceitos “do tempo do mundo” e do
“tempo subjetivo” numa reflexão em torno do antropólogo na figura do narrador, da interioridade do tempo e das
formas de sociabilidade e dos itinerários. Para as autoras: “A memória não se realiza por si mesma, por um impulso
íntimo, manifestação de um ‘eu profundo’; ela é o resultado de uma dada hierarquia de instantes, configurando-se
numa dialética da duração, isto é, sobreposição rítmica de um tempo subjetivo e de um tempo no mundo, através da
ondulação complexa de ordenações múltiplas que se confirmam umas às outras” (ECKERT; ROCHA, 2000, p. 154).
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aprendiz de antropólogo na direção da sua construção do conhecimento
antropológico. Nesse caso, a escrita atua como mediadora da apreensão
cuidadosa dos meandros de nosso próprio discurso, como construtor de práxis
social (FOUCAULT, 2002; RABINOW, 1999).
Sobre os meandros da figura do antropólogo na figura do narrador
da própria vida social que ele busca compreender, vale a pena resgatar os
estudos de (PEIRANO, 1992), quando a autora nos situa na dupla alteridade
que marca a experiência social do antropólogo em suas pesquisas no seio da
sociedade brasileira, ou seja, alteridade situada entre o universalismo da
ciência e o holismo da cidadania. Uma posição por vezes ambivalente da
identidade narrativa dos antropólogos que se alimenta da falta de uma
representatividade política dos segmentos sociais no país, e onde os
cientistas, aqui sinônimo de uma grande parcela da elite brasileira, tornam-se
responsáveis por desempenhar este papel político. 9
Para a autora, no Brasil, o ser pesquisador-intelectual traz uma
roupagem que incorpora o compromisso social no seu campo de ação de
pesquisa.
Para
o
caso
da
Antropologia,
o
aprendiz
de
antropólogo
“teoricamente” teria também que aprender com as suas responsabilidades
cívicas e políticas ao desenvolver uma pesquisa de campo; uma situação
delicada e complexa principalmente, aqui no caso, quando se trata do tema de
gênero e violência unindo (ou, talvez, separando) a aprendiz de antropóloga e
suas interlocutoras no contexto metropolitano.
Embora uma década tenha se passado 10 desta afirmação, tais
comentários continuam relevantes e atuais. A relevância do tema persiste e
9Aqui
direta ou indiretamente estamos nos referindo à problemática da identidade narrativa do antropólogo na figura
de narrador (ECKERT; ROCHA, 2000), onde a idéia da “ilusão biográfica” (BOURDIEU, 1979) pode ser retomada e
“aplicada” ao próprio antropólogo e a sua escrita em sua função-autor. Nesse sentido vale a pena retomar Geertz e
seus estudos sobre “vidas e obras” e o “antropólogo como autor” em que ele problematiza o tema da autoria, tanto
quanto CLIFFORD & MARCUS (1986) e sua já clássica discussão sobre a mesma problemática em “Writing culture”.
A ese respeito, ver também Rosaldo (Desde La puerta de la tienda de campana: El investigador de campo y el
inquisidor. In: CLIFFORD, James; MARCUS, George. E. (ed.). Retóricas de la antropologia. Madrid: Jucar
Universidad, 1991. Serie Antropologia). Ver ainda: Paul Rabinow (Um ethnologue au Maroc: réflexions sur une
enquête de terrain. Paris: Hachette, 1985).
10 Em 2006, em a A teoria vivida, M. Peirano de certa forma dá continuidade às discussões iniciadas nos idos de
1990, quando reflete além dos caminhos contemporâneos da antropologia, sobre “nossas” categorias de senso
comum e as práticas do cotidiano. Para a autora: “[...] um traço marcante da nossa prática como cientistas sociais
sempre foi o envolvimento comprometido com as populações estudadas. Não temos dívidas passadas a saldar;
temos, sim, responsabilidades sempre presentes” (PEIRANO, 2006, p. 9).
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basta revisitar as publicações dos últimos anos apoiadas pela Associação
Brasileira de Antropologia (ABA) e sua série de livros Antropologia e Direitos
Humanos, atualmente com cinco volumes, Antropologia e Ética 11 e Antropologia
Extra-Muros.
Nesse sentido, vale dizer que essas publicações da ABA me
convidam a referir passagens de meus diários de campo de mestrado e
doutorado no sentido de fazer uma reflexão em torno dos efeitos da
desconstrução do tempo no interior do processo de construção de categorias
interpretativas para os avanços dos meandros das aprendizagens do próprio
ato de pensar antropologicamente o mundo social. Isso porque essas obras
trazem parte desse processo e suas implicações ético-morais e políticas do
engajamento
do
antropólogo
com
agendas
de
políticas
culturais
contemporâneas. 12
Em relação a essa questão, mais um recorte de meu diário de
campo de mestrado pode ser revelador:
Ho je p as sei a m a ior par t e do d ia b em f el iz, fi que i s aben do p el o m e u pa i
que v ei o aq ui m e av is ar que am an hã b em c edo t enh o q ue ir a
F lor ian ópo li s, te nho q ue ir as sin ar os pa pé is, p oi s fui ag r ac ia da pe la
bol sa d e m es tr a do, q ua se nem ac r ed ito , sã o c inc o bo l sa s e eu con seg ui
um a de la s!! !M a s é es qui si to, ao m esm o tem po em q ue to fe li z e al iv ia da,
já q ue es ses 72 3, 0 0 r e ai s vão ser fu nda m en tai s p ar a co nt inu ida de des sa
pes qui sa , m e si nto a ngu st iad a, bem a ngu st iad a [.. .] . Po is pr a m im , e ss e
paga m en to p ar e ce a um e ntar a in da m ai s m i nha r esp ons a b il ida de c om
r ela ção a e ssa p opu la ção [.. .]. Q ua ndo r e sol vi f az e r e ss e m es tr ad o f oi
jus tam ent e p ar a te ntar c o m pr ee nder d e f or m a m a is de n sa a cot id ian id ade
des sa s pes so as [ ... ] e em pr inc íp io eu a cr e dit o qu e esse s da dos p os sam
ser v ir com o po nto de p ar t ida par a o de se nvo lv im en to de al gum a po lít ic a
púb li ca qu e faç a alg um a d ifer enç a pr a v ida d es sa s [ ...] . S er á qu e is so va i
ocor r er, e s er á qu e is so bas ta [.. .] fa zer fa lá- lo s, pr in ci pa lm en te es sa s
m ulh er e s, r e lem b r ar e m se us se nti m en to s, su as dor e s [... ]. Tem q ue ha ver
um a co ntr apar ti da [. ..] s enão p ar e ce em v ão [. ..] . ( F ave la M a ta dour o,
Ita jaí , 3 0 d e j ul ho de 200 0 .
Em relação ao que venho tratando neste artigo, uma reflexão de
Luis
E.
Soares
(1993)
pode
ser
esclarecedora
dos
significados
da
Dentre outros, a esse respeito ver também, Ética e estética na antropologia, Ilka Boaventura Leite, (org.) –
Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, CNPq, 1998, p. 136.
12 Para Novaes as publicações da ABA sobre direitos humanos trazem ao público “o debate sobre a específica
contribuição da antropologia para um melhor entendimento dos diferentes tipos de desigualdades sociais que se
aguçam nas últimas décadas, e atendem uma demanda urgente de produzir interação entre pensamento crítico e
compromisso social, entre universidade e sociedade” (NOVAES, 2001, p. 15).
11
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aprendizagem da antropologia no contexto dos estudos sobre violência no
Brasil dos anos 1990. Segundo pontua o autor, fazer antropologia no mundo
urbano contemporâneo das cidades brasileiras implica, por parte do etnógrafo,
responsabilidade pela convocação permanente ao diálogo dos diversos atores
do nosso cotidiano, um papel que é sinônimo de compromisso epistemológico e
ético-político para com o “objeto” em questão e a sociedade em geral. 13
Nesse viés, essa questão pode nos trazer para uma esfera política 14
da vida social, que nos obriga senão a rever, pelo menos a prestar mais
atenção na usual “vantagem epistemológica que temos sobre o nativo”, como
bem lembrou meu interlocutor no já citado recorte de meu diário de campo (E
depois tu como vindo lá da universidade [...] o que tu vai falar aí da gente [...]
sei lá, pode ser perigoso), ou ainda como diria Viveiros de Castro (2001, p. 25)
remetendo-se aos comentários de Geertz “somos todos nativos”, mas, de
direito, “uns sempre mais nativos que outros”.
Enfim, penso que a exposição desses primeiros recortes de meu
diário de campo, especialmente a que traz o diálogo entre o interlocutor e a
pesquisadora, legitima sua proficuidade nessa discussão por revelar um
“aspecto paradoxal de nosso pensamento” (pensamento de pesquisadores), a
saber: a escolha do “olho do outro para ver a forma felizmente abstrata do
fenômeno objetivo” (BACHELARD, 1996, p. 255). 15 A idéia de que somos todos
Ver G. Velho e suas reflexões em torno do tema do antropólogo como mediador cultural. Acerca de nosso tema
ver especialmente: Velho, G. Mudança, crise e violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Nas palavras
do autor: “[...] Este não é um livro acadêmico de antropologia. Trata-se de um conjunto de textos escritos por um
cidadão brasileiro, que é também cientista social, voltado para temas e questões que aparecem na imprensa diária.
Assim, a vida política, ações governamentais, questões e debates sobre diversos aspectos da sociedade brasileira
são focalizados. [...] o assustador crescimento da violência, associado a uma ampla crise nas relações sociais, são
alguns assuntos que, também, me têm mobilizado” (VELHO, 2002, p. 10).
14 Sobre essa discussão corrente na antropologia ver especialmente: Abéles, M. La mise em representation du
politique, In Anthropologie du politique, Marc Abéles e Henri-Pierre Jeudy (orgs). Paris: Armand Colin, 1997, p. 247271; Abéles, Marc e Henri-Pierre Jeudy. Introduction, In Anthropologie du politique, Marc Abélès e Henri-Pierre
Jeudy (orgs). Paris: Armand Colin, 1997, p. 5-24; Brown, Michael. 1996. Fórum: on resisting resistance, In: American
Anthropologist 98 (4): 729-735; Geertz, C. Na inconstant profession: The anthropological life in interesting times, In
Annual Review of Anthropology 31, 2002, p. 1-19; Gupta, Akhil e James Ferguson. 1997. Culture, power, Place:
Ethnography at the end of an era, In Culture, power, place: explorations in critical anthropology, org. dos autores,
Durham: Duke University Press, p. 1-29; Latour, Bruno. Jamais fomos modernos: Ensaio de antropologia simétrica.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1994, p. 7-52; Marcus, George E. Micahel M. J. Fischer. “Anthropology as Cultural
Critique: an experimental moment, In The Human Sciences. Chicago, The Universityof Chicago Press, 1986, p. 1744; Wolf, Eric R. Encarando o poder: velhos insights, novas Questões, In Antropologia e Poder: Contribuições de
Eric R. Wolf, Bela Feldman-Bianco & Gustavo L. Ribeiro (orgs.), Brasília: editora da UnB, 2003, p. 325-343.
15 Para Bachelard (1996, p. 255) “Diz-me o que vês e eu te direi o que é. Só esse circuito, na aparência insensato,
pode nos dar alguma garantia de que fizemos completa abstração de nossas idéias primeiras. Ah! Não há dúvida de
13
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nativos, mas de direito, uns sempre mais nativos que outros, desnuda, ainda
mais, o circuito dos obstáculos epistemológicos e dos deslocamentos a serem
percorridos quando nos propomos a fazer uma “hermenêutica do outro” (DE
CERTEAU, 2002).
Esta gama de questões que apresento acompanharam os meus
momentos decisivos de retorno a campo quando no período de meu
doutoramento e de redefinição de meu posicionamento diante da temática com
a qual já havia trabalhado em minha dissertação de mestrado; aspectos
cruciais para o que começo a discutir no item a seguir.
1.2 - De volta ao campo
Logo per gun te i q ua l er a o seu nom e e d e o nde el a
vin ha. Par a m inh a s ur pr es a e la m e d i sse qu e m or a v a
em I taj aí, m inh a c id ade na tal . M a i s i ns tig ada a ind a
pel a r e ve la ção e por su a r ápi da apr o xi m aç ão qu and o
dis se qu e er a d a m esm a c ida de, per gun te i- lh e q ua l o
bair r o e m q ue el a r e si di a ante s de est ar al i, dep oi s de
tit ube ar e la r es pon deu - m e : M ATA D OU RO .
( Ri o d o Su l, 6 d e set em br o de 20 06) .
Considero muito importante a reflexão acerca da ideia de que o
arcabouço teórico/metodológico da antropologia, por mais significativo e
imprescindível que seja para a composição de nossa disciplina, corre o risco
de perder o sentido se aqueles que o tiverem acionando, ou melhor, operando
com eles, não o fizerem por uma ótica “crítica cosmopolita”, 16 ou seja, com o
intuito de refletir sobre dados etnográficos, levando em conta que os próprios
que sabemos o que vamos perder!...Precisávamos tanto estar de modo integral em nossa visão do mundo! Mas é
exatamente essa necessidade que precisa ser superada. Vamos, não é a clara luz, é a beira da sombra que o raio,
ao difratar-se, entrega-nos seus segredos”.
16 Expressão cunhada por Rabinow (1999). Para o autor, concordar com uma posição crítico-cosmopolita significa
aderir a “uma posição oposicionista, desconfiada de poderes soberanos, verdades universais, precisão relativizada
em demasia, autenticidade local, moralismo de cima para baixo. Entendimento é o seu outro valor, mas um
entendimento desconfiado de suas tendências imperialistas. [...] Embora todos sejamos cosmopolitas, o Homo
Sapiens tem deixado muito a desejar na sua interpretação desta condição. Parece que temos problemas com o
balanceamento, preferindo retificar identidades locais ou construir identidades universais. Nós vivemos in-between
[...]”. (RABINOW, 1999, p. 100).
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dados etnográficos são compostos também pela própria teoria e vice-versa. 17
“Vai pra campo, Micheline!”, essa foi a frase que tive que ouvir de
minha incansável orientadora por um bom tempo. Uma frase dita no sentido de
me provocar, para, a partir dela, me dar conta que não estava cursando um
doutorado em Antropologia Social para “filosofar”. É claro que, se naquela
época, e, em parte hoje também, as minhas reflexões giravam em torno da
obra dos antropólogos e de uma prática de pesquisa etnográfica voltada para
os estudos das violências nas cidades contemporâneas. Minhas indagações
críticas referiam-se a um suposto uso de pressupostos teóricos vinculados a
uma ética e a uma estética (valores, epistemologia) naturalizadoras da
categoria
“violência”
(RIFIOTIS,
1999), 18
no
corpo
do
pensamento
antropológico que se dedicam ao tema do gênero. Na ocasião, minha
orientadora fazia uma crítica a minha abordagem distanciada deste fenômeno
no interior da minha comunidade intelectual de pertença – a dos antropólogos
– uma vez que minha própria produção anterior no campo dos estudos
antropológicos sobre as violências (dissertação de mestrado) não era
lembrada. Tal provocação me obrigava a refletir sobre minha atitude intelectual
defensiva que consistia simplesmente em ovacionar ou vaiar meus pares, 19 sem
aparentemente me comprometer com este espaço de problemas da pesquisa no
âmbito das sociedades complexas.
Naquele momento, longe do campo, estava distante dos mal-estares,
perturbações e inquietações característicos do método etnográfico e, assim,
mantinha-me distante do movimento gerido pelo “paradoxo que encerra o
17Peirano
(2006), em A teoria vivida, discorre de forma magistral sobre essa reflexão. Para a autora: “a teoria é o par
inseparável da etnografia, e o diálogo íntimo entre ambas cria as condições indispensáveis para a renovação e
sofisticação da disciplina. Este papel da teoria revela-se especialmente em nossos trabalhos analíticos, quando ela
está, de maneira mais óbvia, em ação, emaranhada nas evidências empíricas e nos nossos dados etnográficos”.
(PEIRANO, 2006, p. 7).
18Sobre a discussão em torno de uma moralização e certa naturalização da categoria “violência”, ver Rifiotis (1999),
especialmente: “Violência em plural y lenguage de las diferencias”. Revista Mosaico. Buenos Aires, 1999.
19“[...] James Clifford criou e ocupou o papel de escriba ex-ofício dos nossos rabiscos. [...] Clifford toma como seus
nativos e informantes aqueles antropólogos do passado e do presente cujo trabalho, conscientemente ou não, tem
sido a produção de textos, a escrita de etnografias. Estamos sendo observados e inscritos [...]. O outro, para
Clifford, é a representação antropológica do outro. Isto significa que Clifford tem um controle mais firme do seu
projeto, sendo simultaneamente mais parasitário. Ele pode inventar suas questões com poucas coerções; ele
precisa, no entanto, nutrir-se constantemente dos textos de outros [...]. Clifford lê e classifica, descrevendo
intenções e estabelecendo um cânone; mas ele não examina sua própria escrita e situação” (RABINOW, 1999, p.
84).
110
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método etnográfico”, Isto é, o desafio vivido por todo antropólogo diante da
escrita etnográfica que nos desafia constantemente a fazer convergir “o tempo
da ação” vivida em campo entre os “nativos” (eu estive lá) e o “tempo da
narração”, o da transmissão da experiência etnográfica para a comunidade
intelectual dos antropólogos.
Um deslocamento intelectual complexo, denso e tenso que reafirma
o vigor do método etnográfico 20 na contemporaneidade, principalmente para o
caso dos estudos vinculados ao campo das ditas violências. O retorno ao
trabalho de campo me fez reconhecer o vigor de tal método que pensava
erroneamente quase já falido. Ao invés de perpetuar a crítica moralista dos
pós-modernos a respeito das falhas estruturais da escrita etnográfica em seu
viés
interpretativo
da vida
social,
iniciei minha
retomada de campo,
precisamente, investindo no reconhecimento de que é a distância que separa
“a modéstia da manutenção do si” do antropólogo diante do outro e o “orgulho
estóico da inflexível constância a si” em face desta alteridade que atribui à
pratica do método etnográfico um valor inexpugnável, por situar o antropólogo
na humilde situação de um autor em busca de seus personagens para melhor
compreender seu lugar no mundo (ECKERT; ROCHA, 2000, p. 138)
Preocupada, portanto, em traçar alguns aspectos da “interioridade
da experiência temporal”, que incidem na condição da “produção etnográfica”
de antropólogos que estudam o fenômeno da violência, cidade e gênero, e
levando em conta minha experiência de mestrado combinada com minha
formação iniciada de doutoramento, retomei minhas escritas integrando-as à
reflexão de tais fenômenos.
Num primeiro momento a minha escolha para oficializar a “entrada”
no meu campo de doutoramento foi a ida, em setembro de 2006, a um presídio
feminino 21 localizado na cidade de Rio do Sul/SC. A visita estava associada à
Parafraseando Paul Ricoeur, Eckert e Rocha (2000) afirmam que “os pós-modernos, confrontados com o caráter
dialógico da experiência etnográfica e em sua “vigilância formal”, ao submeterem à crítica a escritura etnográfica em
Antropologia, permanecem parasitários da motivação realista que a engendra. Tal “realismo” dissimula-se na
observação impessoal do encadeamento da totalidade das vidas humanas que estuda na escritura do texto
etnográfico, provocando uma “crise interna de ipseidade”, pela eliminação da totalidade da obra etnográfica em prol
da factualidade do acontecimento” (ECKERT; ROCHA, 2000, p. 135).
21 Minha experiência de campo no presídio feminino em Rio do Sul foi constituída por dez visitas realizadas entre os
meses de setembro de 2006 e março de 2007, com duração aproximada de cinco horas cada.
20
111
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relativa facilidade de entrada no local, já que lá atuavam, em uma pesquisa
para trabalho de conclusão de curso, quatro ex-alunas da Faculdade de
Psicologia da Universidade para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí
(UNIDAVI), situada nesse mesmo município, no qual trabalhei como professora
e orientadora por três anos.
Entretanto, num momento posterior, demarcado mais uma vez por
observações de minha orientadora sobre tal escolha, complexifiquei meu
raciocínio em relação a minha decisão de circunscrever meu trabalho de campo
nos meandros de um presídio. Tratava-se de algo que, indubitavelmente,
retomava minha trajetória acadêmica, sempre acionada pelos estudos com
mulheres e violências, desde a época de minha graduação em Psicologia.
Como já referido, é interessante assinalar que a decisão foi
motivada, após conversas com minha orientadora, por uma leitura crítica do
denso material coletado em meu campo de mestrado entre 2000 e 2001,
registrado por meio das múltiplas técnicas de escritas associadas ao trabalho
de
campo,
tais
como
caderno
de
notas;
descrição
de
observações
participantes; diários de campo; situações de entrevistas e transcrições das
mesmas, além de fotografias e pesquisa com acervo de reportagens de jornais.
É neste momento que a escrita etnográfica, como processo de
organização da experiência de campo do antropólogo, começou a me
interessar como um fenômeno relevante a partir do qual poderia refletir sobre
os inúmeros deslocamentos epistemológicos que a produção progressiva de
registros de campo tende a provocar na construção, tanto do tema quanto do
objeto do pensamento antropológico.
A presença no presídio feminino e a retomada, em detalhe, dos
dados etnográficos do período de mestrado (muitos deles não aproveitados no
estudo proposto na dissertação), poderiam ser interessantes para que eu
pudesse me dedicar ao estudo das violências no mundo contemporâneo tendo
em mente questões de poder, de gênero, de trajetórias sociais e de itinerários
urbanos em camadas populares como um foco central de análise.
Em particular, o presídio feminino me permitiria compreender as
narrativas biográficas de mulheres relacionadas às vivências de violências
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contrárias às experiências com minhas interlocutoras, no período de mestrado,
sempre situadas no interior da família, na condição de vítimas.
Nesse sentido, vale reforçar o fato da passagem das mulheres
encarceradas da condição de vítimas para a condição de “agressoras/algozes”,
atuando no interior do mundo da transgressão: roubo, drogas, tráfico,
prostituição, entre outros. E, embora de outra forma, do retorno a essa
condição quando no domínio da prisão. 22 Local onde aflorariam conflitos éticos
e
morais,
constituintes,
em
algum
momento,
da
etnografia
na
contemporaneidade, como reflete sabiamente Sílvio Coelho dos Santos (2004,
p. 102), afirmando que hoje somos obrigados a refletir “sobre o papel do
antropólogo”, sua condição de pesquisador, que assume uma postura crítica, e
“sobre sua condição de cidadão, intelectualmente privilegiado [...]”.
Partindo dessa reflexão, abro espaço para um fragmento retirado de
meu diário de campo de doutorado escrito logo após a primeira visita ao
presídio
feminino
em
2006,
onde
realizo
um
processo
reflexivo,
na
interioridade de minha escrita, a respeito das diferenças entre a Favela
Matadouro
e
o
Presídio
Feminino,
neste
espaço
público/rua,
espaço
público/cárcere, entre gênero/família/cidade e gênero/cárcere/cidade.
Aqui, e também nos próximos fragmentos iniciais de meu diário de
campo de doutorado, o tema da incômoda experiência circunscrita na
contradição do movimento característico da humildade e da arrogância da
manutenção do si mesmo do antropólogo com o outro vem mais uma vez à
tona, assinalando os momentos distintos de minhas experiências de mestrado
e de doutoramento.Momentos esses reveladores, em última instância, das
diferenças temporais registradas e acomodadas como parte de minha
construção intelectual que não escapa da incômoda experiência da distância
que separa a modéstia da manutenção do si do antropólogo diante do outro e o
orgulho estóico da inflexível constância de si face a esta alteridade que atribui
à prática da etnografia toda sua grandeza
22Conforme pondera Foucault (1991) em seu célebre “Vigiar e punir”, “a prisão vem [...] dos mecanismos próprios a
um poder disciplinar [...] região mais sombria do aparelho de justiça [...] local onde o poder de punir [...] organiza
silenciosamente um campo de objetividade [...] e a sentença se inscreve entre os discursos de saber” (FOUCAULT,
1991, p. 226-227).
113
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Qua ndo con ver se i com S ô nia sobr e a po ss ib il ida de de v is itar o pr e síd io,
já que lá ter ia a ces so a um m ate r ia l fér ti l par a m i nha pe sq ui sa, e sta va
con vi cta d e m i nha a ti t ude, r e sp al dad a pr i nc ip alm e nt e por m i nha
exp er iê nc ia ant er i or e m m eu m es tr ad o, ond e o c am po fi ca va si tua do
num a fa vel a on de est av a loc al iz ado o pr esí di o da r e gi ão, e em m i nha s
lei tur a s, q ue pa ss and o por Goff m an n, Bec ke r, Vel ho, Z a lu ar e
pr in ci pa lm en te F ou cau lt , apon ta vam aqu el a i ns tit ui ção es tat al co m o u m
uni ver so, lev and o em c on ta tod a su a co m p lex id ade , o nde a que st ão do
pode r, da vi olê nc ia e d a di scr im i na ção af lor am , e m pr i nc ípi o, em tod a
sua “m a gn itu de ” [. ..] . M a s, ago r a, c onf es so qu e est o u com um fr io na
bar r i ga en or m e , com m edo, e m e sen ti ndo m u ito ins eg u r a,
pr in ci pa lm en te, por que nu m pr im eir o m o m en to ( q ua nta pr ete ns ão, tom ar a
que se ja s ó num pr im e ir o m om ent o) , l á eu nã o pas sar e i de um a m ul her
br an ca, int el ect ua li zad a, r epr e sen tan te t am b ém de u m a in st itu iç ão
feder al , que m es m o s endo u m a u ni ver s id ade , aos o lh o s d ela s,
pr ov ave lm ent e, r e pr e sen t a um po der, co m o o utr a ins t it ui ção qua lq uer
[... ]. Nu nc a vou m e e squ e cer de um a s it uaç ão qu e pa s se i n o M ata dou r o,
quan do um a m o r ad or a m e in ter p el ou ol han do- m e d a s p o nt as do s pés a os
fio s d os m eu s cab elo s e de f or m a de boc had a f al ou - m e q ue não sa bi a o
que eu est av a fa zen do a li [. ..] que e u de via vo lta r pr a ca sa, p r o m e u
m und o, qu e al i não er a lu gar pr a m i m [.. .] qu e os d i as que e u pa ssa va a li
sub ind o e de sc end o o m or r o c om um a m áq ui n a foto gr á f i ca e c om
cad er ni nh os na m ão nã o fazi am s ent ido d ia nte d aque la r e al ida de [. ..] .
Bo m , m a s tal ve z co m o o M ata dour o er a um u ni ver s o gr and e, um a fav el a
int eir a , o nde sem pr e a pa r eci a a lgu ém q ue n ão sa bia o qu e eu es tav a
faz end o al i, eu e st iv es se m ais sus ce tív el a p as sa r por si tua çõ es m u it o
des con for t áv ei s com o es sa [.. .]. Se i lá [.. .] ta l ve z o pr e sí di o, um
am bi ent e m eno r, se ja m ai s fá ci l d e lid ar com es se s “ im pr ev is to s ” o u s er á
o co ntr ár io , já que lá a dis tân ci a en tr e “ nó s ”, entr e m im e m inh as
int er lo cu tor a s s er á ir r efu t áve l, c om e çan do p elo f at o de ‘e u pod er en tr ar
ou sa ir de l á a hor a q ue eu qui se r ’ [.. .]. N o m om en to e m que c heg ue i
fr ent e ao pr e síd io, m in ha s per na s tr em er am e m inh a “d or de bar r iga ” que
já es tav a se nti ndo d esd e a m anhã a um e nto u [.. .]. M a s, e u tin ha qu e m e
con tr ol ar e lem br ar q ue o que m e m o veu par a ir a té aq uel a i nst it ui ção
pr is io na l fo i a p os si bi lid a de d e u m a den si fi ca ção d a p es qui sa qu e e u
ven ho d es env ol ven do des de o m eu m es tr ad o n o c am po d a s v io lên ci as
[... ]. Or a, eu n ão p odi a r e tr oc ede r, j á qu e aq ue le l o cal er a pr opí c io p ar a
m im qu e e sta va pe sq ui san do ci dad e, tr a jet ór i a s s oc ia is , iti ner á r io s
ur ban os e vi ol ênc ia s [. ..] . Quan do m e apr o xi m e i do por tã o de e ntr a da o
tem a da p r i são , do il ega l, das dr og as e do cr im e , t ão pr ese nte s e m m e u
cam p o de m estr ado , r et or nar am , ago r a co m m a is fo r ça , p oi s al i, a lém d o
uni ver so co m po st o pel as dete nta s, o qu e es tar i a e m foco , le van do em
con ta o que e sta va p ens ando p ar a o m eu t em a d e dout or am ent o, er a a
antr o pó log a etn ogr a fan do um loc al , ond e ela pr ópr ia r epr es ent ava , num
pr im eir o m om e nto , um a p ar ce la da s oc ied ade pr iv il eg i ada , se co m par ada
` aque le c ont ext o que pr o vav elm en te al i ir i a e nco n tr ar [.. .]. Ap esar d e
m inh a e xp er iê nc ia num a fav el a, a que le lo ca l p r opr i a m e nte di to, “o
pr es ídi o ” er a n ov o par a m im [. ..] . E l á es ta va eu m o r r end o de m e do [. ..] .
( Ri o d o Su l, 6 d e set em br o de 20 06) .
Provavelmente por essa experiência etnográfica iniciática forçar o
rompimento “das certezas gerais e com a estupidez das certezas particulares”
(BACHELARD, 1996, p. 255) com as quais eu me assegurava antes de reiniciar
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meu campo de doutorado, esta escrita marca a inauguração de meu diário de
campo dessa nova etapa de minha trajetória intelectual, e sublinha um
momento inicial da trajetória da pesquisa onde sentimentos como medo de
“errar” e insegurança constituem o fazer etnográfico.
Aqui, conforme nos ensina Bachelard (1996), eis um deslocamento
necessário para aqueles dispostos para a “vida intelectual”: “preparemo-nos
mutuamente a esse ascetismo intelectual que extingue todas as intuições [...]
que não sucumbe aos pressentimentos intelectuais. E murmuremos, por nossa
vez: erro não é um mal” (BACHELARD, 1996, p. 255), e sim uma prerrogativa
quando aceitamos que o erro só assinala “a insuficiência dos primeiros
esboços, o peso dos primeiros esquemas ao sublinhar também o caráter
discursivo da coerência abstrata e essencial que nunca alcança seu objetivo
de um só golpe” (ibid).
Ainda, antes de adentrar em minha experiência da primeira visita ao
presídio propriamente dito, ou seja, de minha experiência iniciática com o
estudo de gênero, violência e cidade do ponto de vista do cárcere, devo dizer
que meu percurso até ali se deu em grande parte pela mediação de Roberta 23,
uma personagem importante nessa trama, que durante as tais visitas ao
presídio, acabou se tornando uma das informantes principais dessa pesquisa,
como poderá ser visto num capítulo subsequente.
Por enquanto, creio que basta dizer que meu encontro com Roberta
se deu na Faculdade de Psicologia (campus da Udesc em Ibirama-SC), local
em que trabalhei como professora no mesmo período em que lecionei na
Unidavi, em Rio do Sul, entre os anos de 2002 e 2005, quando pedi demissão
de ambas as instituições para cursar o doutorado em Florianópolis.
Roberta foi minha aluna no curso de Psicologia da Udesc e sua
identificação com Psicologia Comunitária, disciplina que lecionei por três
semestres consecutivos, nos aproximou. Isso a levou, mesmo depois de minha
saída daquela instituição, a procurar-me para que eu pudesse participar de sua
banca de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em 2007. Ela desenvolvia, na
época, uma pesquisa no presídio de Rio do Sul.
23Para
preservar minha interlocutora passo a identificá-la com nome fictício.
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Ainda antes disso, muitas conversas informais com Roberta em
torno de seu trabalho, e que coincidiam com o meu segundo ano de doutorado,
fizeram-me pensar na possibilidade de inserção naquela instituição. Na época,
Roberta, que realizava estágio de um ano no presídio, apresentou-me ao
referido diretor que, após uma conversa sobre meus interesses de pesquisa,
encaminhou à juíza meu pedido de inserção no local. Quarenta e oito horas
depois, início de setembro de 2006, meu pedido foi aceito e lá estava eu
prestes a adentrar na instituição penal.
Esse longo trecho retirado de meu diário de campo de doutorado,
nesse momento, poderá ser esclarecedor:
M ar qu ei m in ha pr im eir a i da ao pr e sí dio ho je ( ter ç a– fe ir a) , po i s R ober ta
des env ol ve a lgu m as ati vi dade s de ar te s m an uai s ( par t e do es tág io d e
con cl usã o d o cur s o d e P si col og ia) no lo cal , p ar a qu e ela pu de ss e m e
apr e sen tar às m ul her e s c om a s qu ai s te m c ont ato há m a is ou m en os um
ano [. ..] . P or um l ad o, se m i nha a pr o xi m aç ão c om Ro ber t a po der ia
fac il itar m in ha apr ox im a çã o com m inh as f utur as i nfo r m ant es , eu ter ia q ue
tom ar ba sta nte cu ida do p ar a qu e e las não co nfu ndi sse m m i nha pr e sen ça
ali co m a da es tag iár ia d e P s ico lo gia , pr in ci pal m e n te por q ue ela e sta va
des env ol ven do um t r ab alh o de “ pe squ is a- a ção ” na q uel e l oca l [.. .]. E ntã o
ter i a q ue en con tr ar o m el hor m om e nto pa r a que eu pu d es se es cl ar e cer o
que e sta va faz end o a li [ ... ]. P or um m om ent o es sa m inh a pr e oc upa çã o se
ar r ef ece u par a d ar lu gar a outr a , que e r a a de n ã o dei xar tr ans par ecer
m eu ner vo si sm o [ ... ]. Er a m inha pr im eir a ve z num pr esí di o fem in ino e
quan do m e d epar ei com aque le gr an de por t ão de fer r o , m e u c or a ção
ace ler o u [ ... ]. Rob er ta to c ou o int er fo ne e a vi sou q ue eu es ta va com ela
e tr a zi a em m in has m ã os m eu s doc um e nto s e m in ha a ut or i zaç ão par a
est ar a li [ ... ] d epo is de a lgu ns seg und os um a vo z m etá li ca adv in da d o
int er fo ne fa lou- no s q ue p odía m os e ntr a r. E ntã o o g r ande p or tã o se abr iu
[... ] à m inh a fr e nte e u v ia um pát io di vid id o em tr ês con str u çõ es . Ro ber t a
m e ex pl ic ou q ue o sobr ado q ue f ic ava à es que r da er a o pr é di o da
adm i ni str açã o e os o utr o s doi s c ons tr u ído s m a is à m inh a d ir e ita er am , o
m eno r, o pr e sí dio f em ini n o; o m ai or abr ig ava o p r e síd io m a sc ul ino [ ... ].
Par a t er ac es so a u m d ess es do is pr édi os o v is i tant e e r a obr iga do a
pas sar por u m a peq uen a sal a e sc ur a em f or m a d e cor r edo r, par a qu e
fos se ide nti fi cad o atr av és de se us doc um e nto s e r ev ist ado [.. .]. F oi o qu e
aco nte ceu c om i go e c om Ro ber t a [ ... ]. M e sen ti m uit o m al qu and o a
agen te pr is ion al, a lém de ped ir m i nha i den tif ic açã o e autor iz aç ão,
r evi st ou- m e, a pa lpa ndo m i nha s per na s, n áde gas , s ei o s, enf im t odo o m e u
cor p o à pr oc ur a d e al go q ue pu de sse im p ed ir m i nh a e ntr a da n o l oca l [ ... ].
Naq ue le m om ent o, m e se nti i nva di da [.. .]. F o i um a s en saç ão hor r ív el,
que lo go foi e squ ec ida e m de tr i m en to do aum ent o de m i nha an si eda de
quan do av is tei o por t ão m enor que da va ac es so ao pr es ídi o f em ini no. N o
pát io, m e sen ti de snu da pel os ol har e s d o p ol ic i al q ue fi cav a n um a
esp éc ie de tor r e po li ci an do o l oc al [ ... ]. O pan óp t ic o de Be nth am t ão
escr ut ina do por F o uc aul t est ava a li [ ... ] e o que é pior [ ... ] eu es tav a al i
tam b ém [. ..] . Qu and o a c ar cer eir a abr iu a p or ta do espa ço d est in ado a o
pr es ídi o fem in ino qu as e p er di o fô leg o e p or um in s tant e f ui r e m et ida à s
m inh as co nv er s as co m Rob er ta qu e m e d is ser a que , d e ntr e o utr a s,
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est ava m a li m ul her e s d e d iver sa s l oc al ida de s do Br a si l, q ue f az iam par te
de qua dr i lha s de s eqü es tr o; a ssa ss in as , inc lu si ve d e seu s fam il iar e s,
com o su as m ãe s; che fe s de tr áfi co de dr oga s; co a dju van te s em es tupr o
con tr a se us fi lh os m en or es etc . [.. .]. C om o l idar com aq uel a r eal id ade
[... ] o qu e faz er di ant e de um con tex to t ão d ist ant e do m eu [ ... ] naq uel e
m om e nto con fe sso qu e m e se nt i m u ito in seg ur a [... ], m as t in ha q ue
enfr e nta r [... ], pr in cip al m ent e por q ue, n aqu el e m om e nto , o bar u lho
ens ur de ce dor d a p or ta de f er r o que fi co u na s m in ha s c ost as m e
inf or m a va q ue j á es ta va dentr o e a gor a tin ha q ue en ca r ar [. ..] . Q uan do
entr a m o s eu e Ro ber t a, for a al gum as de las qu e for am a o e nco ntr o
cal or o so d a e sta giá r ia , a m aio r ia do s ol har es se vo ltar am p ar a m im [ ... ]
est áva m o s num p át io c er c ado p or um a m ur a lha a cé u a ber to, com che ir o
de r at o p odr e , um pi so ci m ent ado que br ad o e enc a r did o, c he io d e v ar a is
com r o upa s pen dur ada s [. ..]. L á tín ham os a lgu m as ca d eir a s e um a m es a
gr and e vel ha e u m t anq ue de r oup as [.. .]. Es se pát i o er a co ber to por um a
gr ade em f or m a de r e de e dav a nu m a p or ta est r eit a o nd e f ica va m os
banh eir os e o d or m itór io das de ten ta s, não ha vi a gr ade s al i, m a s is so
não tir ava o as pec to so m br i o d e um a ins ti tui çã o pen al , pr in cip al m en te
pel o f ato de a que le dor m itó r io c ol eti vo ter s id o ha v ia al gun s ano s o
necr otér io da c ida de [.. .]. Er a u m pr éd io m ui to es cur o , aba fad o e
tor na va- se m a is de so lad o r à m ed ida qu e e u ia ade ntr an do no r ec in to e
vi sua li za va os be li che s f ei tos de ped aç os de pau i n s tal ado s lad o a la do e
sep ar ad os ape nas por um pe que no cor r edor [. ..]. Qu a nt o m a is eu
aden tr a va o ar par ec ia fi car es ca ss o e a lu z tam b ém [.. .]. O uv ia v oze s
sus sur r and o e de r epe nte um cho r o de beb ê que v inh a lá d o fu ndo m e
ass us tou [.. .]. N es se m om ento , f iqu ei atô ni ta, pr i n c i palm ent e p or qu e n ão
con seg ui a en xer g ar a cr i anç a que e st ava es con di da p e la e scur id ão e
pel a gr an de nu vem d e fu m aça a dv ind a do c igar r o das fu m an te s do lo ca l
[... ]. P or um m om ent o a M i che li ne an tr op ól oga s um iu [ ... ] a li t oda a
m inh a bag age m a nter ior e m pe sq ui sas d e vio lê nc ia s e sc apo u- m e [. ..] . O
que m e fe z p er s ist ir fo i a per cep ção d e q ue aqu el e un iv er s o, daq ue las
m ulh er e s en car c er a das , podia n os d iz er m ui t o sobr e tr aj etó r ia s,
iti ner á r io s e vi olê nc ia s n a ci dad e con tem por âne a [ . . .] ”. ( Ri o d o Su l, 6 de
set em br o d e 2 006) .
Tal experiência iniciática de campo levou-me a refletir primeiro que
dar início ao meu campo de doutorado num presídio feminino foi, em última
instância, uma “escolha política”, no sentido “foucaultiano” do termo, já que ali,
com certeza, a adesão a uma antropologia das sociedades complexas “capaz
de questionar criticamente tanto o campo teórico em que está inserida quanto
a sociedade na qual se desenvolve”, guiou aquela escolha, que passou por
“uma espécie de diagnóstico do presente, procedendo em função do
mapeamento e seleção de questões e lutas contemporâneas” (GOLDMAN,
1999, p. 120-121). 24
24Em
relação a essa questão, algumas palavras de Elias (2002) são muito bem-vindas, já que para o autor: “Los
científicos sociales no pueden dejar de tomar parte en los asuntos políticos y sociales de su grupo y su época, ni
pueden evitar que estos les afecten. Además, su participación personal, su compromiso, constituyen una de las
condiciones previas para comprender el problema que han de resolver como científicos. Pues, si bien para estudiar
la estructura de una molécula no hace falta saber qué se sentiría si se fuese uno de sus átomos, para comprender
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E, segundo, que embora ainda estivesse tratando da temática de
violências perpassada pela questão de gênero, focalizando mulheres, a
experiência de campo num presídio feminino poderia ser um local fértil para o
ponto de partida de minha pesquisa de doutorado, principalmente porque se
diferenciava do meu campo anterior (mestrado), primordialmente no aspecto
das diferenças dos itinerários urbanos e trajetórias sociais citadinas das
mulheres em foco, que tivessem em comum uma trajetória perpassada por
vivências de violências e fizessem parte de uma mesma camada da população
brasileira citadina marginalizada, lá (mestrado) essas mulheres advinham para
mim em suas moradias, no interior de suas casas, aqui (doutorado) eu estava
diante de mulheres que tinham cruzado a fronteira do privado/público,
movimento que de alguma forma as tinha conduzido para o cárcere. O que faria
toda a diferença acerca da realidade que agora iria investigar. Em relação a
essa questão apresento mais um fragmento de meu diário de campo de
doutorado:
Em bor a so ube s se q ue m uit as cr ian ça s a co m pa nham su as m ã es no
pr es ídi o no p er ío do de a m am e nta ção , aqu el a ce n a de ver u m beb ê no
cár c er e m e c hoc ou, m as e u não pod ia r e tr o ced er [. .. ] tin ha q ue i r ad ian te
[... ]. N o m om ent o em qu e não c on seg uia t ir ar os m eu s o lho s da que la
cr ia nç a, R ober ta ar r an co u- m e de m eu e sta do d e estu p ef aç ão da ndo
iní ci o a m in ha apr es ent açã o par a a s m u lher es [...] . F oi u m pou co
com p li ca do, pr in cip al m en te p or q ue el a m e a pr e s ento u n um pr i m e ir o
m om e nto c om o s ua pr o fe ssor a. Im ag ino q ue na c a beç a del as o qu e eu
est ava faz end o al i de vi a est ar r el ac ion ado ao tr a b a lh o de R obe r ta , que
est ava a tr el ad o a o d es env ol vim ent o de um pr oje to de ed uca çã o
pr of is si ona l n o pr es íd io [.. .]. Um tr a ba lho qu e n um c ur to es paç o de tem p o
tr ou xe- lhe s m u ito s be nef í cio s [. ..] . O qu e fa lar n a q uel e m om ent o? C om o
m e apr ox im ar de las , na s pou cas hor a s q ue t ính am os j unt as par a ped ir lhe s q ue m e f ala s sem de sua s e xp er i ênc ia s d e v i olê n c ias ? O qu e i ss o
m udar ia na s s ua s v ida s? M e s ent i, m ai s um a ve z, n o fi o d a na va lh a [. ..] ,
r esp ir e i fun do e co m ec ei a fala r o que eu e sta va fa zen do al i [.. .]. M esm o
já ten do exp er i ên cia s ant er ior es em ca m po , d e e x pli car o que fa z u m
antr o pó log o [ ... ]. Na que l e m om ent o, co m aq ue le tem a , n aqu ele l uga r,
is so se tor n ou um a tar ef a ex tr e m am e nte d ifí ci l, c om pl ic ad a e de li cad a
[... ]. ( R io do Sul , 6 de s et em br o de 20 06) .
las funciones de grupos humanos es necesario conocer desde dentro como experimentan los seres humanos los
grupos de los que forman parte y los que les son ajenos; y esto no puede conocerse sin participación activa y
compromiso. Actualmente muchos representantes de las ciencias sociales parecen considerar irremediable que sus
investigaciones estén determinadas por ideales sociales y políticos preconcebidos y fuertemente arraigados”
(ELIAS, 2002, p. 42-46).
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Esse extrato de meu diário permite produzir uma teorização sobre
aquilo que denomino aqui de “fio da navalha”, já que naquele contexto o tempo
da distância temporal mestrado/doutorado pesava sobre essa experiência
descrita, isso porque o impacto de estar adentrando em um “novo campo”
reverberava o que eu sabia sobre tal realidade e o que iria aprender, o que
conhecia e o que desconhecia.
Ou seja, ali a decalagem do tempo no interior de minha própria
prática etnográfica relacionada à minha experiência nos estudos de violências,
perpassada por gênero, estava exposta e ratificava a máxima de que “só não o
grau de familiaridade varia, não é igual a conhecimento, mas pode constituirse em impedimento se não for relativizado e objeto de reflexão sistemática”
(VELHO, 1981, p. 128).
Esse exercício de “estranhamento” diante do novo campo permite a
constatação que, para além de semelhanças iniciais (mulheres/classes
populares/violências), existem as diferenças, como poderá ser possível
observar na emblemática narrativa de Priscila, que virá a seguir, que pode ser
considerada como representativa do fracasso do projeto de fuga do “destino de
pobre a bandido” temido pelas mulheres investigadas em minha pesquisa na
Favela Matadouro.
Lá (mestrado) a figura masculina atrelada ao casamento e à
proteção 25 e suas trajetórias dentro do espaço doméstico apareciam em suas
narrativas como elementos primordiais para a justificativa delas próprias e de
sua prole até aquele momento em que foram entrevistadas não terem
sucumbido ao trágico “destino de pobre a bandido”, e aqui a falta dessa figura
masculina mantenedora de um lar e a saída para o espaço da rua despontam
como sinônimo de condição de miserabilidade e da situação de estar no
próprio cárcere. Vamos ao diário:
As narrativas das mulheres focalizadas em meu campo de mestrado apresentavam o casamento como
demarcador da trajetória da mulher, sendo que a fase anterior ao casamento apareceu, pelo menos num primeiro
momento, como o símbolo de transformação. Nesse sentido, vale a pena dialogar com SALEM (1981, p. 73) que, a
partir de uma etnografia com mulheres no Rio de Janeiro, diz que “as experiências dessas mulheres na fase inicial
de sua existência ilumina as expectativas depositadas no casamento, no homem. Mais do que a mera realização de
uma mística feminina, ele é pensado como uma alternativa para recuperar a infância e adolescência em todos os
sentidos. Tenha ele um caráter legal ou consensual, o fato é que o casamento vem sempre associado à idéia de
‘melhorar de vida’”.
25
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Ap ós u m a br ev e fa la sobr e o m e u in ter es se d e es t ar al i, cad a um a da s
m ulh er e s v ol tou ao qu e est ava fa ze ndo ant er i or m ente , e eu co nti nue i
per c or r en do o e sp aço d o pr es ídi o [. ..] p as sad os a lg uns i ns tan te s, per ce bi
um a m ul her se nta da n um b anc o n a p ar te e x ter na do l o ca l, qu e
apr e sen ta va u m a apar ên c ia sofr id a, com m a is ou m eno s q uar ent a a nos ,
alt a, m or en a, ca bel os lo ng os p in tad os de pr et o, per n as t or n ead as, v elh os
tam a nco s alt os e ve lho s s hor t s j ean s cur tos , b lu sa aper t ada , com m u ita s
bij uter ia s co lor ida s de p l ást ic o, lá bi os pi nta do s co m cor de car m i m . Até
que e u m e a pr o xim ei , pe din do- l he p ar a q ue p ude s se m e sen tar a o s eu
lad o, pr ont am e nte ela m e autor iz ou e , l ogo em s e gui da, di sse- m e q ue
tin ha a im pr e ss ão que m e con hec ia de al gum lu gar. Es sa er a a d ei xa que
eu e sper av a [. ..] . Lo go p er gun te i qu al er a o se u no m e e de ond e e la
vin ha. Pa r a m i nha sur p r esa , el a di ss e que m or a va em I ta jaí , m in ha
cid ade na tal . M ai s i ns tig ada ain da pel a r e ve la çã o e p or sua r áp ida
apr o xim aç ão, q uan do di ss e que er a d a m es m a c ida de, per gun te i- l he qu al
o seu no m e e qua l o bai r r o em que el a r es id ia. De po i s de ti tub ear, ela
r esp ond eu- m e: “ M eu no m e é Pr is ci la e eu m or a v a no M AT A DO UR O ”.
Pr is ci la co nto u- m e qu e es tá no pr e síd io há qu as e u m an o por tr á fi co de
dr oga s [.. .] di ss e- m e qu e fo i pr e sa na B R- 4 70 p r óxi m o a Ri o d o Su l
quan do tr a ns por t av a coc aína e m sua ba ga gem n um ôni b u s vin do de
Ca sca ve l, no Par aná [. ..] f alo u- m e que se ar r e pen de por t er se e nv ol vid o
com o tr áf ic o, m a s d epo is que o m ar i do m or r eu ac ho u ne ss a alt er n ati va a
m elh or m ane ir a par a sa ir do e sta do d e q uas e m is er ab il ida de q ue ela e
sua fam íl ia se en con tr a v am .. . Em o ci ona da, co m o s s a pa tin ho s d e s ua
neta n a m ão , dis se- m e te r a esper anç a de l ogo de ixa r o pr es ídi o e de
est ar co nf ian te d e co ns e guir um em pr e go qu e a afa st e do m u ndo do
cr im e [.. .]. F a lou - m e da gr ande pr eo cup açã o que t e m com se us f ilh os , do
fil ho ado le sc ent e, que “r e vol tad o ” dep oi s d e sua pr i são de ix ar a a e sc ol a,
de su a fi lha t am b ém ado les ce nte , m ãe sol te i r a e, se gun do e la,
des pr ep ar ad a pa r a a m at er ni dad e e d o or gul ho d o fil ho m ai s v elh o q ue
tem e m pr e go com car teir a as si nad a [. ..] . C om m ui to pe sa r, n ar r a- m e a
tr is te za de ter per did o o sobr inh o, qu e f oi as sa ss i nado há a lgu ns m e ses
por est ar env ol vi do no m undo d o tr áf ico [ ... ]. Ain d a sobr e sua f am í li a
fal a- m e qua se chor and o e com um a vo z r ai vo sa da dor qu e s ent e por su a
ir m ã tê- la d enu nc iad o p ar a a p olí ci a, di zen do q ue se n ão f os se por is so
tal ve z nã o e st ive ss e a li [ ...] . Por outr o l ado , d iz t er es per anç a q ue sua
outr a ir m ã q ue é fa xi ne ir a de um a gr a nde em pr es a ar r u m e u m em pr e go
par a e la as si m que r et or n ar par a c asa [ ... ]. ( R io d o Su l, 6 de s ete m br o d e
2006) .
Diante daquela revelação “bombástica” (Meu nome é Priscila e eu
morava no MATADOURO) não pude conter minha inquietude e emoção ao
encontrar depois de quatro anos, logo no “primeiro” dia de meu campo do
doutorado, alguém que compunha o cenário de minhas investigações do
mestrado. Esse encontro com Priscila, alguém que se situava geograficamente
próxima ao meu universo de pesquisa anterior (Favela Matadouro) foi
importante por abrir a possibilidade, já no início de meu campo de doutorado,
do exercício de uma “relação dialógica” (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1998) com
minhas interlocutoras e por informar que a dialogicidade entre mim e minhas
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interlocutoras no presídio é de ordem diferente do meu campo de mestrado,
porque, como já mencionado, embora lá eu também estivesse investigando
mulheres e violências, aqui estas mulheres cruzaram o espaço doméstico na
direção da ocupação de um lugar no espaço público, do mundo da rua, fora do
papel de mães de família, de donas de casa, condição de minhas informantes
do campo anterior.
Levando em conta “que todo saber científico deve ser reconstruído
a cada momento” (BACHELARD, 1996, p. 7) mais uma vez, essa nova
realidade proporcionada por esse encontro etnográfico inusitado veio a ratificar
a importância do deslocamento necessário para essa nova etapa de minha
práxis investigativa.
Em relação ao tema da interioridade da experiência etnográfica esse
encontro possibilitou-me experienciar a distância que separa a modéstia da
manutenção do si do antropólogo diante do outro, e, concomitantemente, o
orgulho estóico da inflexível constância a si face a esta alteridade, o que
levou-me a refletir sobre o obstáculo epistemológico incrustado “na avareza do
homem erudito que vive ruminando o mesmo conhecimento adquirido, a mesma
cultura, e que se torna, como todo avarento, vítima do ouro acariciado” (idem,
p. 6).
E, por fim, desse encontro pude ouvir as primeiras palavras de
Priscila sobre seu itinerário urbano na cidade contemporânea. Assim, estava
inaugurada ali a atribuição ao lugar central da narrativa em meu campo de
pesquisa, por conta da função do ato de narrar o “conhecimento de si a partir
do testemunho legado pelo Outro” (ECKERT; ROCHA, 2005, p. 55). Depois de
Priscila, outras mulheres se propuseram a falar. Voltemos ao diário:
F iqu ei m u ito c om o vi da co m a hi stór ia de M e li ss a [ .. .] um a jov em m u ito
bon ita de 2 3 an os , m ãe de um a f ilh a de qua tr o que e xi be com m ui to
or gu lho n as f oto gr a fia s c ola das na par ede de se u qu ar t o. Pr e sa h á do is
ano s po r c úm p li ce de r o ubo a um a a gên ci a b an cár i a [ ... ]. Ch or an do
m uit o, e f ita ndo- m e pr ofu ndam ent e, M el is sa di z s e nt ir - se in ju sti ça da p or
est ar pr e sa e q ue s ó e stá a li p or c ont a de um tele f on em a d e se u
nam or ado c ont and o- l he o que ti nha fe it o log o a pó s r oubar u m b an co [.. .].
M el is sa di sse qu e e m b or a n ão ten ha con cor da do c om o s ato s d o
com p anh eir o jam a i s o den unc iar ia, pr im e ir o por el e ser o pa i de sua fi lh a
e, s egu ndo , po r, na é po ca , es tar com ple tam ent e a p aix ona da por e le . D iz
sen tir - se i nj ust iç ada , po is desd e “qu e se c onh ec e p or ge nte ” , tr a bal ha
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“h one st am e nte ” e c om a car t eir a as sin ada , di ss e nun c a ter r ou bad o um
alf ine te d e al gué m e por t er si do pr esa seg und o el a “p or am or ” . M e li ss a
ped iu- m e um abr aço e c o m sol uço s di ss e- m e q ue a únic a co is a que a fa z
vi ver é lem br ar qu e tem u m a fil ha par a cr i ar [.. .]. L ogo de poi s que d ei xe i
M el is sa m e dep ar e i co m An a, e log o ti ve a sen sa ç ão de e st ar di ant e de
um a pe ss oa m uit o so fr i d a... A na te m m a is o u m eno s se ss ent a ano s,
apr e sen ta ol heir as pr o fun das e bem de m ar c ada s s egun do su as co le gas
da pr i são vi ve ch or an do p elo s ca nto s [.. .]. Q uan do m e apr o xi m o el a lo go
m e d iz qu e n ão vê a h or a de r e ver se us qua tr o fi l ho s , q ue sen te m ui ta
sau dad e e que nã o quer ia estar a li [. ..] . A na ga gue j ando e c hor a ndo f al am e b ai xi nho qu e est á al i por que fo i acu sa da de aju d ar se u m ar i do a
com e ter vio lê nc ia s exu al , que por m edo de ap anh ar a ju dou o es pos o a
seg ur ar o utr a m u lher par a que el e pu de sse co m et er o e stu pr o [.. .]. De
cab eça ba ix a, An a d iz q u e a ún ica c oi sa que q uer é r e ver se us fi lh os ” . (
Ri o d o Su l, 6 d e set em br o de 200 6) .
Essa experiência de campo deixou claro, para mim, que uma coisa
era estar na favela, fazendo campo nas casas de minhas interlocutoras,
mulheres que desempenhavam o papel de “mães de famílias”, casadas,
vivendo no interior de suas casas e se submetendo a deslocamentos no interior
da própria favela em busca de uma vizinhança que pusesse menos em risco
sua prole. 26 Outra, é ver mulheres, como Priscila, que viviam na mesma
condição que elas, cruzarem as fronteiras de seus próprios códigos morais e
irem em direção ao crime, ao tráfico, à prostituição, tudo aquilo que minhas
interlocutoras de mestrado temiam para si e para seus filhos.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que as narrativas de Priscila,
Melissa e Ana, mencionadas no meu diário, trazem toda uma riqueza narrativa
que pode contribuir com os estudos de pobreza e violências na cidade
contemporânea (WACQUANT, 2001; RIFIOTIS, 1999; ZALUAR,1990, 1994,
1999; SOARES, 1996; CALDEIRA, 2000), seus relatos emocionados colocamme numa situação de pesar, já que o relativismo, principalmente num contexto
como esse “não pode significar abstenção de julgamento e [...] não pode
Conforme minhas palavras em minha dissertação de mestrado: “Os dramas sociais no Matadouro gravitavam em
torno do fenômeno social do tráfico de drogas e, consequentemente, das clivagens e adesões divergentes que os
moradores assumiam em relação àquela prática no bairro e de suas ligações com a ruptura, ou não, de seus valores
éticos, morais, religiosos. Era fundamentalmente nos discursos das mães moradoras do bairro que o fenômeno
social do tráfico de drogas despontava como elemento desencadeador de sentimentos de insegurança e de medo,
de que sua prole, ou elas mesmas, pudessem vir a se envolver com as “drogas”. Ficava expresso que morar em
determinadas áreas do bairro nas quais se acreditava que o fenômeno do tráfico de drogas estava mais presente
poderia ser arriscado, já que, para aquelas pessoas, poderia haver maior probabilidade de incorporar uma conduta
do tráfico nesses contextos. Nesse sentido, as migrações internas ou externas ao bairro apareciam como uma das
estratégias utilizadas pelas famílias moradoras do Matadouro, na tentativa de se afastarem dos “espaços sociais”
que a princípio poderiam limitar suas escolhas e seus projetos de vida” (RAMOS DE OLIVEIRA, 2002, p. 222-223).
26
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implicar uma suposta identidade de todos os valores, em niilismo portanto”
(OVERING, 1985, p. 23-24).
Ainda, devo dizer que minha primeira experiência de campo no
presídio feminino foi crucial por desencadear em minha pesquisa de
doutoramento reflexões acerca de dilemas caros a uma antropologia urbana na
contemporaneidade, tais como: o tema da reflexividade crítica; o tema da
etnografia
e
da
experiência
compartilhada
com o
outro;
o
tema
do
estranhamento e da relativização; o tema do trabalho de campo e da escrita
(DA MATTA, 1987; VELHO, 1981; CARDOSO DE OLIVEIRA, 1998; ZALUAR,
1985; GEERTZ, 1989). Dilemas esses relacionados, primeiro à escuta daquilo
que minhas interlocutoras me narraram (“o ouvir”), e, segundo, à escrita (“o
escrever”) do que me foi narrado (CARDOSO DE OLIVEIRA, idem). Essa
última, reveladora da problemática da moral e da ética (CARDOSO DE
OLIVEIRA, 1996), relacionada, ao ato da escrita antropológica (DE CERTEAU,
2002).
Finalmente, como ao longo de todo o artigo, pautada por um estudo
antropológico de acordo com preceitos bachelardianos da dialética da duração
(BACHELARD, 1994) que leva em consideração o tempo do mundo e o tempo
subjetivo da própria etnógrafa, articulados para pensar as dimensões da
temporalidade que funda a interioridade da experiência do antropólogo em
campo (ECKERT; ROCHA, 2005), elejo um último extrato de meu diário de
campo sobre a volta para casa no meu primeiro dia no presídio:
F oi com u m gr and e m a l- est ar qu e r e tor n ei par a c asa hoj e, qua se n ão
con seg ui che gar a té a pr i vad a par a um s úbi to v ôm it o , cr e io e u, r e su lta do
or gân ic o e em o ci ona l d es sa e xp er iê nc ia vi vi da. S e a té ent ão, dep oi s d e
aca bad o o m eu m e str ado , es ta va con for tav el m en te pr o b lem at iz and o o s
eve nto s vi ol ent os d e ci m a de m inh a “ tor r e de m ar fi m ”, a e str u tur a
com e ça va a s e a bal ar, c om i ss o a br in do fi ss ur a s que , de ce r ta for m a,
con tr ib uír am p ar a a ela bor a çã o de que st io nam e nto s d e cu nho
m eto dol óg ic os, co m o: qua l o l im ite do a ntr opó log o e m et nogr afa r a d or
do o utr o [.. .] . Es se com p ar t il ham ent o é po ssí ve l, e x ist e e ss a
pos si bi lid ade ? ( Ri o d o Su l , 6 de se tem br o de 200 6) .
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