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José Décio Filho e Cora Coralina

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José Décio Filho e Cora Coralina
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JOSÉ DÉCIO FILHO E CORA CORALINA: POÉTICAS DA CIDADE
JOSÉ DÉCIO FILHO AND CORA CORALINA: POETICS OF CITY
Moema de Souza Esmeraldo1
Mestre em Estudos da Linguagem UFG/CAC
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
([email protected])
RESUMO: Objetiva-se apresentar elementos que constituem a representação do espaço da
cidade nas obras poéticas Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, de Cora
Coralina, e Poemas e elegias, de José Décio Filho, que foram publicadas em 1965 e 1953,
respectivamente. Para tal propósito, têm-se poemas dessas obras como corpus.
Primeiramente será feita uma análise do poema Goiás, de José Décio Filho, para em
seguida ser analisado o poema Minha cidade, de Cora Coralina. Isto posto, ressalta-se que
serão levados em consideração a proposta de investigação do relacionamento entre o
espaço e a cidade em uma perspectiva da topoanálise proposta por Bachelard em sua obra
A poética do espaço (1979); alguns pressupostos da semiótica utilizados por François
Rastier, ao descrever a poesia de Mallarmé em seu estudo Sistemática das isotopias
(1972); além do alinhamento teórico com a obra A estrutura da lírica moderna (1991), de
Hugo Friedrich.
Palavras-chave: Cidade; Poesia; Topoanálise; Cora Coralina, José Décio Filho
ABSTRACT: This study aims at showing the representation of city space in the poetic works
of Poemas dos becos de Goiás and estórias mais, by Cora Coralina, and Poemas e
elegias, by José Décio Filho, which were published in 1965 and 1953, respectively. For this
purpose, the poems of these works are the corpus. First, an analysis of the poem Goiás, by
José Décio, will be conducted and after the poem Minha cidade, by Cora Coralina will be
analyzed. That said, we stress that will be considered the proposed investigation of the
relationship between space and the city in a perspective of topoanalisy proposed by
Bachelard in his work The poetic of space (1979), some assumptions of semiotic used by
François Rastier, describing the poetry of Marllamé in his study Systematic of isotopies
(1972), and the theoretical alignment with the work The structure of modern lyrical (1991),
by Hugo Friedrich.
Keywords: City; Poetry; Topoanalisy; Cora Coralina; José Décio Filho
Considerações iniciais
Esta análise pretende salientar a relação constitutiva dos poetas José
Décio Filho e Cora Coralina com as cidades cantadas em sua poesia. A cidade,
como símbolo e lugar de encontro dos poetas, exerce uma espécie de fascínio não
só na poesia goiana, mas também na literatura brasileira.
1
Doutorado em andamento na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro pelo Programa de
Pós-graduação em Literatura, cultura e contemporaneidade
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José Décio Filho e Cora Coralina se tornaram representantes expressivos
– e Décio um precursor do modernismo goiano. Cada poeta, à sua maneira, utilizou
o verso livre para cantar a infância, a noite, a solidão e a cidade. Essa última
temática, comum aos dois escritores, nos permite estabelecer enlaces e confrontos
entre a poesia deciana e coralineana dentro da visão de cidade, facilmente
perceptível. Disso são exemplos o poema Goiás, de José Décio, encontrado na
única obra do autor, Poemas e elegias (1979); e o poema Minha cidade, de Cora
Coralina, pertencente ao livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais
(1985).
As cidades cantadas na poesia de José Décio Filho
A partir do levantamento do corpus literário de José Décio Filho, propõese um recorte com o objetivo de investigar o olhar lançado pelo poeta sobre as
cidades cantadas em seus versos. É perceptível na obra de José Décio a proposta
de uma lírica moderna, cujas características se evidenciam em sua linguagem. Isso,
além de o artista cunhar uma poesia com a consciência de que não precisa ser
calcada em experiências empíricas.
Em suma, tanto o poeta quanto sua estética formam elementos de
definição por Antonio Geraldo Ramos Jubé (1978), crítico e contemporâneo do
poeta, na obra Síntese da história literária em Goiás:
Décio Filho, lírico de temperamento nervoso e solitário, aproveitava o
verso livre e o coloquialismo próximo do popular, que a escola
valorizou como instrumento de expressão, e mergulhou-se no
telúrico, atrás das reminiscências autênticas da infância, no
levantamento dos motivos genuínos da terra. (JUBÉ, 1978, p. 70)
O poeta utilizou, à sua maneira, o verso livre para cantar, entre outras
temáticas, a cidade. Esse elemento, comum em alguns de seus poemas, nos
permite propor relações entre a obra deciana e a estrutura da poesia moderna. Isso
pode ser comprovado na visão do poeta sobre as cidades, cantadas nos poemas
Goiás e Terra Branca, por exemplo.
Destarte, os poemas propostos para análise, no presente estudo,
apresentam-se além dos limites culturais e geográficos da cidade, transpõem a
perspectiva reducionista de localidade ou, tomando emprestadas as palavras de
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Jorge Luís Borges (1994), se “transpõe o fenômeno da cor local”, expressão
empregada pelo escritor argentino para definir o estado reducionista a que pode
chegar o localismo de um escritor. Apesar de retratar espaços específicos por onde
passou uma parte de sua trajetória de vida, Décio transpõe esses espaços e os
coloca em uma atmosfera de imensidão e nostalgia que podem ser representadas
pelo apreço a outros lugares.
Essa análise de Borges (1994), diretamente relacionada à produção
argentina, também pode ser aplicada ao poeta em estudo, que foge desse estado
“local”, propondo uma dimensão mais universal na sua visão sobre as cidades.
Nessa perspectiva, o universo torna-se “patrimônio da poesia” (BORGES, 1994).
Para Célia Sebastiana Silva, crítica e estudiosa de José Décio, na poesia
do autor, “O espaço parece fazer parte da própria essência do poeta e o retrato que
temos de Formosa, de Posse, a terra branca, de Goiás ou Vila Boa (há um poema
para cada denominação) é um retrato que se delineia dentro dele, pelo próprio
caráter existencialista de sua obra” (SILVA, 2000, p.16). Esse fenômeno a que
recorre por meio de sua poesia é estabelecido pela representação destes espaços
de cidades, e não meramente pelo espaço físico e geográfico das cidades em
questão.
No poema Goiás, a atmosfera da cidade é primeiramente marcada pelo
distanciamento do eu lírico em relação a ela. Observe-se o uso de reticências, que
provoca abertura na sonoridade do poema, bem como uma pausa para estabelecer
o pensamento. É o que se pode notar na estrofe de abertura do poema:
Goiás... que nome largo, longe!
Se o pronuncio da janela
para a noite infinita,
o vento toma-o da minha boca
e o leva aos confins da serra azul.
Lamento, suspiro, convite,
dor gostosa que arrepia os cabelos.
(DÉCIO FILHO, 1979, p. 4)
Numa tentativa de lançar o espaço em uma condição de existência mais
ampla, o poeta, ao pronunciar o nome “Goiás” da janela para a “noite infinita”,
estabelece uma visão sem limitação de tempo e espaço. Embora haja uma indicação
temporal com o uso do substantivo “noite”, não se trata de uma noite qualquer, mas
de uma noite específica representada pelos sentimentos expostos nos versos. Logo
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depois, a palavra “vento” nos remete a uma ideia de liberdade no deslocamento do
espaço, em uma tentativa de reorganização da realidade transposta pela expressão
dos sentimentos em “Lamento, suspiro, convite”. A condição de distanciamento do
estado de Goiás em relação ao litoral brasileiro é fator interessante nesta parte da
análise, pois nesse sentido a geografia do estado reforça a identificação do sujeito
lírico com o espaço interiorano.
Assim, na segunda estrofe do mesmo poema:
Goiás é nome – calor, tão materno
qual sombra de mangueira.
Balanço de rede de buriti
no rancho de palha.
Brisa nos canaviais,
cantiga de roda em noite de lua,
aboio de vaqueiro nos gerais,
trovão longínquo percutindo
na minha nostalgia.
(DÉCIO FILHO, 1979, p.4)
Neste trecho há uma maior intimidade entre o eu lírico e os espaços
descritos por partes da cidade. Da mesma forma que há uma relação
existencialmente possível, como se pode perceber no verso “Goiás é nome – calor,
tão materno”. As palavras “materno” e “calor” parecem traduzir uma maior
aproximação do poeta com o espaço cantado, que lhe conforta tal qual “uma sombra
de mangueira”. Neste momento, pode-se remeter à ideia de aconchego resgatada
na obra A poética do espaço, de Bachelard.
A recorrência do pronome “minha” nos versos “O vento toma-o da minha
boca” e “trovão longínquo percutindo / na minha nostalgia” reafirma a intenção de
aproximação e identificação do espaço físico pelas lembranças do sujeito lírico. Ao
mesmo tempo, nesses mesmos versos, ele se distancia: “trovão longínquo” pode
nos evidenciar também um distanciamento que contrapõe o desejo de proximidade e
intimidade com a memória do eu poético evidenciada pelo uso da palavra “minha”.
José Décio, ao recriar a imagem das partes da cidade, investe na
recriação da metáfora que aproxima este espaço a um panorama de vastidão e
monotonia, “como um aboio de um vaqueiro”, no mesmo momento em que, como
um “trovão longínquo”, se lembra de suas “nostalgias”, pois reforça o estado de
espírito do sujeito lírico que se encontra com suas longínquas lembranças.
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Define, ainda, um ritmo característico das cidades provincianas. Ao
retratar paisagens de cidades de Goiás, iguala-as às de qualquer outra cidade do
interior. Não é só nas cidades do interior do estado de Goiás que se tem “sombra de
mangueira”, “brisa nos canaviais” ou “cantigas de roda em noite de lua”, mas é em
cidades pequenas que normalmente as pessoas possuem tempo para vivenciar tais
sensações.
“Goiás é muito Brasil”. Essa afirmação no poema mais de uma vez
sublinha a intenção de colocar o poema em um plano de cunho modernista, pois
reforça o ideário nacionalista proposto neste movimento artístico. Nesta parte, insere
as cidades do estado de Goiás em um âmbito maior, em que as angústias humanas
são transformadas na desorganização de sentimentos – “o poeta estende por todas
as amplitudes alturas e profundezas” (FRIEDRICH, 1991, p. 66). Não se detém em
sentimentos estáveis; transita entre os adjetivos antagônicos “novo” e “antigo”,
“alegre” e “triste”, tão contraditórios quanto o país que o abriga. Exemplifiquemos
com a terceira estrofe:
E é muito Brasil
assim novo e antigo,
primitivo, alegre e triste,
com suas tolices enxutas, ágeis,
lirismo fundo e manso,
admiração irônica, engraçada,
amor calado, espinhoso,
ternura desajeitada e fremente.
(DÉCIO FILHO, 1979, p.4)
A concepção do espaço das cidades de Goiás constrói-se de modo
bastante afetivo, caracterizado por um lirismo profundo e uma admiração irônica,
refletidos em um “amor calado” e em “uma ternura desajeitada”. Percebe-se isso
pelo repetitivo uso de adjetivos empregados para provocar juízos de valor em
relação à cidade de Goiás, o que pode ser percebido nesse jogo de metáforas
permeado de adjetivações, como nos versos “Goiás... que nome largo, longe! / (...)
Goiás é nome – calor, tão materno” (DÉCIO FILHO, 1979, p.4).
José Décio, ao poetar sobre as cidades de Goiás, faz com que suas
referências recaiam sobre a cidade que o acolheu em seu nascimento e infância.
Prova disso é a presente identificação de um canto telúrico nos poemas dedicados a
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sua terra natal. Dessa forma, encontramos no poema Terra branca os seguintes
versos:
Na casa do meu avô,
Depois de meus pais,
Vi pela primeira vez
A paisagem mais simples do mundo.
Naquele recanto perdido,
A inocência campeava
As almas das crianças.
[...]
Posse ... terra branca de luar.
Pura e humildemente
Minha saudade te visita.
(DÉCIO FILHO, 1979, p.46-47)
No referido poema, o poeta menciona a cidade goiana de Posse como
sendo o lugar em que nasceu, mas foi em Formosa que viveu sua infância. Percebese, assim, no poema Terra branca, que existe a presença de um lirismo mais
fundamentado nas raízes do eu lírico, o que não acontece no poema Goiás. Assim,
observa-se o uso de metáforas que evidenciam a amplitude e a complexidade do
espaço cantado pelo poeta.
Então, o espaço deve ser visto como um processo de articulação entre o
indivíduo e o percurso trilhado pelo sujeito lírico, sendo envolto em um sentimento
positivo, pois evoca uma sensação de acolhimento e saudosismo, marcando as
fronteiras simbólicas da existência do poeta: “Posse... terra branca de luar. / Pura e
humildemente / Minha saudade te visita” (DÉCIO FILHO, 1979, p.46).
Revisitando espaços importantes em sua trajetória, cita Bela Vista como
um espaço de representação das cidades pequenas no qual as pessoas teriam mais
tempo para apreciar elementos da natureza, como figuram os versos do poema cujo
título é o nome desta cidade:
Manhã cheia de pássaros cantando
na fonte fresca das jabuticabeiras dadivosas
À tarde o sol lúcido da praça,
uma andorinha plaina bem alto
e desce qual uma flecha
para pousar mui tranquila
na torre cinzenta da igreja
ninguém aplaudiu!
(DÉCIO FILHO, 1979, p.45)
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Nesses versos, percebe-se que as coisas pequenas e simples têm muito
mais valor para o artista do que as grandes. O poeta “fotografa” a paisagem por
meio de elementos da natureza e, ao realizar seu trabalho, apropria-se de modo
único de um universo muitas vezes não valorizado, porque corriqueiro para aqueles
que o vivenciam, menos para ele. Isso pode ser constatado no verso “ninguém
aplaudiu” – salvo o poeta, que eternizou a paisagem do seu encantamento.
Há um reconhecimento de contradições nos campos semânticos descritos
no poema, que distanciam e aproximam o eu lírico em relação à cidade,
estabelecendo uma intimidade universalista na poesia, como se nota na contradição
dos itens lexicais “longe”, “largo” e “calor materno”. Não há um ponto central e
descritivo do local, mas um diálogo com o universal.
Retomando o que diz Bachelard, essa intimidade seria caracterizada pela
observação da identificação de elementos relativos ao espaço esboçado pela
intimidade dos poetas com os lugares cantados, que se configuram na imensidão
poética contemplada pelas imagens de valores do ser: “Os poemas são realidades
humanas; não basta referir-se a impressões para explicá-las. É preciso vivê-las em
sua imensidão poética” (BACHELARD, 1979, p. 67).
O olhar que o poeta lança sobre as cidades por ele cantadas é um olhar
de fora para dentro, caracterizado pela observação e transcendência, expostas
principalmente por meio de metáforas. Todas essas imagens metafóricas podem ser
intimamente representativas, não só das cidades de Goiás, mas de lugares em que
há uma maior tranquilidade na apreciação de elementos da natureza.
A estética intimista do poema “Minha cidade”, de Cora Coralina
Depois de discutir o posicionamento do sujeito lírico no poema de Décio,
passemos para um dos poemas mais estudados de Cora Coralina, Minha cidade,
que será analisado sob o olhar estético proposto por Gaston Bachelard (1979), no
que concerne à representação do sujeito com o espaço definido por ele mesmo. No
caso, a cidade representaria, para Cora, uma espécie de abrigo que a acolheu na
sua vida como “menina”, “mulher” e “velha”. A poetisa utiliza, à sua maneira, o verso
livre para cantar sua visão da cidade de Goiás. Pertencente ao livro Poemas dos
becos de Goiás e estórias mais (1985), o poema Minha cidade é um canto de
Cora sobre a sua terra natal – a cidade de Goiás.
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Nesse poema, a poetisa emprega um léxico simples, condizente com a
aproximação do eu lírico com as coisas singelas e naturais. A presença do pronome
possessivo “minha” no título nos remete à ideia afetiva de Cora Coralina ter nascido
na cidade de Goiás, o que reforça a identificação com o espaço cantado, ressaltado
pelo uso do pronome “eu” seguido do verbo “ser”, o que confere ao poema uma
sequência de metáforas, tais como: “Eu sou aquele velho muro”, “Eu sou estas
casas”. Acrescente-se a isso que, ao representar a cidade de Goiás, a poetisa
registra o sentimento de amor pela cidade. A voz lírica apresenta-se como a voz
amorosa da cidade por meio da metáfora predicativa “Eu sou”, mas também se
apresenta fundindo o eu presente ao eu do passado, que a cidade fossilizou em sua
história. Essa metáfora por predicação é repetida intensamente e representa
afetividade do sujeito lírico ao se aproximar da cidade.
Segundo Yokozawa (2002), a memória espacializada, em Cora Coralina,
é uma memória fossilizada, e o espaço mnemônico da poetisa seria o espaço da
cidade de Goiás, mesmo porque seus textos privilegiam essa cidade em detrimento
de outras nas quais morou. Ao resgatar a memória guardada pela sua cidade, teria
apreendido uma dimensão da geografia humana que desconhece fronteiras
regionais.
Clóvis Carvalho Britto, em sua dissertação sobre a obra e a vida da
poetisa, explorando seu caráter sociológico, expõe:
A cidade de Goiás se transformou em palco para o estabelecimento
dessa memória repleta de significados, captados e reconstruídos por
Cora entre um exercício de afetividade e percepção crítica [...] a
cidade possui aspectos físicos e uma vida interior, num mecanismo
contínuo que funde a vida com sua configuração espacial. Dessa
forma, os aspectos urbanísticos constituiriam fio condutor para a
compreensão do que a pesquisadora define como cidade-vida,
cidade-história, cidade-sociedade, cidade-cultura (BRITTO, 2006, p.
110).
Esses trabalhos, de certa forma, são uma tentativa de também definir a
sua obra associada aos espaços da sua cidade, seu tempo e sua memória.
Demonstram que os espaços representados por becos, “casas que cochicham umas
com as outras”, a velha escola de Mestra Silvina, a Casa Velha da Ponte, o Rio
Vermelho e suas águas são recorrentes na poetisa para representar a cidade na sua
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poesia. Corroboram com a ideia de que a sua poesia destaca o espaço da cidade de
Goiás; ela própria é a cidade de sua infância e de seu descanso na velhice, mesmo
tendo estado distante por tanto tempo. Cora preocupa-se em descrever os espaços
da cidade de Goiás e a ação corrosiva do tempo.
As leituras críticas propostas apresentam um pouco o perfil estéticoliterário da poetisa, construído a partir de diferentes perspectivas sobre a sua poesia.
Esses dois trabalhos citados complementam, de certo modo, esta proposta de
estudo, pois são de nomes reconhecidos no meio acadêmico e que vêm se
exercitando com afinco, há anos, sobre os estudos da poética de Cora Coralina.
Este artigo privilegiou alguns estudiosos que tencionam tomar a obra da
poetisa como objeto de pesquisa. Os estudiosos citados eliminaram muitas
divergências e realizaram uma fortuna crítica da obra de Cora Coralina e, sem
dúvida, colaboraram valiosamente para estabelecer os caminhos críticos, tomando
como objeto de estudo a obra da poetisa de Goiás.
Tendo a cidade de Goiás ainda como objeto de reflexão, sugere-se a
análise segundo a proposta do teórico francês François Rastier (1972). Este autor
propõe a definição dos campos semânticos em estudos de poesia, exemplificando,
com o poema Salut, de Mallarmé, como reconhecer os campos semânticos por meio
da análise semiótica.
Consideremos primeiramente o léxico relacionado a um elemento
principal: a cidade. Tomemos, assim, a primeira estrofe do poema:
Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas, curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.
(CORALINA, 1985, p. 47)
O léxico – “ruas estreitas”, “ponte”, “larguinhos”, “becos”, “sobrados”,
“telhados”, “paredes”, “casas encostadas” e “morros” – é significativamente
trabalhado por Cora, no intento de constituir uma tonalidade isotópica relacionada à
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cidade, e dessa maneira se instaura uma significação no poema a partir de
elementos que constroem a ideia de representação.
Todavia, a simbiose do sujeito lírico com o muro, o rio, as casas, não é
sinônimo de limitação, estreitamento; ao contrário, contribui para alcançar a
identificação do eu lírico com o espaço da cidade. Supera os próprios limites e
amplia os horizontes de sua existência, por ser uma obra poética. Ao aproximar-se
com as partes da casa, caule e muros, Cora Coralina, indiretamente, se equipara ao
todo. Pode-se relacionar esta análise à discussão sobre heterotopias realizada por
Foucault (2001). É o que se pode constatar na estrofe a seguir:
Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
Renascendo.
(CORALINA, 1985, p. 47)
A gradação da atividade de desmatamento é a ocasião utilizada por Cora
para elaborar a sua poesia. Sendo assim, no momento em que o eu lírico
compartilha a intimidade do seu ser com os componentes espaciais da cidade,
transcende o primeiro espaço (“Goiás”), mais restrito (a cidade de Goiás), para
assumir uma memória coletiva, ao falar por outras pessoas. O tom de porta-voz do
sujeito lírico se confunde com o tom de porta-voz do lugar, em um processo
constitutivo do sujeito. Dessa forma, os muros, os telhados, as paredes, enfim, as
casas da cidade de Goiás tornam-se as casas do mundo, estabelecendo um diálogo
que parte do local para o universal, conforme verificado na terceira estrofe:
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.
Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
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na ruinha pobre e suja.
(CORALINA, 1985, p. 47)
É importante ressaltar ainda que o enlace do eu lírico com o espaço
constitui uma relação amorosa com a cidade e os limites geográficos de sua
existência, porque atinge a abstração de sentido de identificação. Consideramos a
imensidão íntima definida por Bachelard (1979) para tratar o espaço da cidade na
poesia de Cora Coralina. Os adjetivos selecionados nos versos acima expressam
características de uma cidade e delineiam a identidade de um lugar, ou de vários
lugares, na tentativa de demonstrar o conceito de heterotopias pelo entendimento de
que existem vários espaços em um só.
Para finalizar o poema, temos a sétima e última estrofe:
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as vibrações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.
(CORALINA, 1985, p. 47-48)
Nessa passagem, percebe-se uma visão da cidade que não é tão
descritiva como aquela que encarna os muros e as casas, mas que é íntima, pois
aponta a cidade como constituinte do “eu”, das “vibrações”, da “sensibilidade de
mulher”. Busca, assim, situar a cidade do texto poético como uma espécie de abrigo,
onde Cora tem suas origens. A artista mostra, ainda, sua arte de poetar, quando
menciona “minha estética”, refletindo sobre sua condição de poeta. Seu trabalho
consciente é delineado com a intenção de construção de um projeto poético por
meio da sua perspectiva de vida.
A utilização excessiva de formas sintáticas aproximadas pelo uso de
construções com o pronome pessoal em primeira pessoa (“eu”) reafirma,
sintaticamente, a ideia de identificação com a cidade. Há, ainda, duas repetições dos
versos – “Eu sou a menina feia / da ponte da Lapa. / Eu sou Aninha” (CORALINA,
1985, P.47) –, que comprovam a contribuição da “reiteração das unidades
linguísticas para a significação do poema” (RASTIER, 1972, p. 96).
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Desse modo, o campo semântico e a estética do poema Minha cidade
estabelecem uma espécie de reiteração das unidades linguísticas, no sentido de que
há uma identificação do eu lírico com os espaços da cidade cantados em todo o
poema. A afirmação “eu sou” repete-se obsessivamente no poema para expor a
necessidade da poetisa de se identificar com as imagens que figuram as lembranças
da sua terra natal. Por conseguinte, há uma recriação da memória do espaço da
cidade. No poema, existe uma referência temporal explícita nos versos “Cantando o
teu passado / Cantando teu futuro” (CORALINA, 1985, p.47), em que a poetisa se
comunica com a cidade nos tempos “passado” e “futuro”. O eu lírico em questão
perpassa as diferentes fases da vida de uma mulher: “menina”, “mulher” e “velha”.
Considerações finais
Os poetas estudados fazem questão de mostrar a sua estreita ligação
com o ambiente onde viveram. Os vocábulos relacionados diretamente às cidades,
tais como “rio”, “praça”, “casa”, que remetem à paisagem da cidade de uma maneira
geral, são utilizados com o intuito de apontar para a ideia de que o sujeito está preso
ao passado e às tradições de sua terra. O rio, as ruas e a casa são elementos
utilizados para assinalar o território da cidade, e acabam contaminando os poemas
pelo uso de campos semânticos condizentes com a temática da cidade. O espaço
motivou o registro da lembrança das experiências mais íntimas do ser. É dele que se
extraem as reminiscências mais fortes de nossa experiência no mundo sensitivo,
vinculadas diretamente a uma situação emocionalmente definida por uma expansão
espacial do ser.
Com base no que foi apresentado, percebe-se que os poetas usam as
imagens das cidades para tecer uma poética calcada em determinados contextos de
produção. As cidades descritas caracterizam parte das relações humanas lá vividas.
Surgem com facilidade imagens voltadas para a perfeita integração do sujeito com o
meio. A experiência do sujeito lírico certamente contribui para se notar a vida que
emana de seu texto poético.
As diferentes sensações e impressões da cidade nos versos dos poetas
citados nos mostram as marcas que revelam um caminho por onde o sujeito lírico
vivencia sua realidade e reconstrói suas reminiscências. Os versos se incorporam na
cidade e inscrevem as ações que são compartilhadas com a própria cidade. Em um
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processo de figuração no uso desse espaço urbano, os poemas selecionados nos
permitem estabelecer enlaces e confrontos entre a poesia de Cora e a de Décio.
Referências
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Recebido em 28 de fevereiro de 2014
Aprovado em 06 de outubro de 2014
RevLet – Revista Virtual de Letras, v. 06, nº 02, ago./dez, 2014
ISSN: 2176-9125
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