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JUSTIFIQUE-SE A dor exige uma outra maior, imediata, mais

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JUSTIFIQUE-SE A dor exige uma outra maior, imediata, mais
A MARgem - Revista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes / ISSN 2175-2516
Seção Verbare, Uberlândia, ano 3, n. 5, p. 108-109, jan./jun. 2010
Autora: Alice Antonia Corrêa Veras | e-mail: [email protected]
JUSTIFIQUE-SE
A dor exige uma outra maior, imediata, mais objetiva. Eu
envelheci quando soube lidar com isso de um jeito metódico. Estoicismo
é para fodidos. Acho que estou ferrada.
O que me passa pela cabeça é tão turvo, sempre foi assim. Às
vezes penso que felicidade é método e rotina. O vendedor de frutas, o
economista, o operário. Todos felizes pelo que fazem, pelo que têm.
Eu sou metódica na minha dor. A dor é neblina, deixa tudo tão turvo.
Talvez seja uma exceção. Talvez as pessoas se definem pelo que
fazem e pelo que têm porque isso realmente as conduz à felicidade,
que é a normalidade, constância.
Dos ofícios sai a moral. Forjada com lentidão, um bolo docinho
que está no forno há tempos. Quem ia querer uma pedra no seu feijão?
Sinto olhares de censura a quilômetros. Gosto de pensar, de vez em
quando, no lado obscuro das pessoas, as que são felizes, que não
cantam na chuva, que não gritam, que, sobretudo, não se desgarram.
Fico pensando que essas pessoas que não fazem o que querem
são as que procurarão por um conforto eternamente futuro. E o
futuro, assim como a morte que nele está inclusa, não lhes sai da
cabeça. O homem odeia ignorar. Eu pensando nas pequenas coisas,
desgarrada, tentando colocar as coisas de um modo que se equiparem
ao futuro, conceito. Estamos todos tão perto. Tão longe. E eles
correm, eles têm, exercem, são. Comem o bolo docinho da civilização.
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A MARgem - Revista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes / ISSN 2175-2516
Seção Verbare, Uberlândia, ano 3, n. 5, p. 108-109, jan./jun. 2010
Autora: Alice Antonia Corrêa Veras | e-mail: [email protected]
Gosto de imaginar que quando ele se cansar disso tudo, quando
tiver um filho, uma frígida e uma imensa monotonia e uma imensa dor,
ele vá ter momentos como os meus. Aliás, jamais semelhantes aos
meus. Anos e anos. Serão momentos de motivação, ou sei lá, essência
iguais. E então, talvez, ele me entenderia, me experimentaria. Ele não
ia me perdoar. Ah, isso tudo jamais aconteceria. Que ele fique então
tranquilo, seu recalque é recíproco. Estou tão só. Acho que estou
ferrada.
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