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santa ceia: uma das mais significativas controvérsias
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SANTA CEIA: UMA DAS MAIS
SIGNIFICATIVAS CONTROVÉRSIAS
ENTRE OS REFORMADORES LUTERO,
ZWÍNGLIO E CALVINO
SUPPER SAINT: ONE OF THE MOST
SIGNIFICANT CONTROVERSIES
BETWEEN THE REFORMERS LUTERO,
ZWÍNGLIO AND CALVIN
Edson Pereira Lopes
Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Docente do Programa do
Mestrado de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Líder do grupo
“Práxis religiosa: educação e sociedade”.
E-mail: [email protected]
Janniere Villaça da Cunha Fernandes
Graduanda em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. O presente artigo é resultado
do grupo de pesquisa “Práxis religiosa, educação e sociedade” e do Programa de Iniciação Científica
da Universidade Presbiteriana Mackenzie/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (UPM-CNPq).
E-mail: [email protected]
RESUMO
A Reforma Protestante do século XVI foi um dos acontecimentos que
marcaram a história da Igreja, a ponto de dividir o cristianismo ocidental
entre católicos e protestantes. Não muito tempo depois, houve uma temática que causou o primeiro grande cisma entre os próprios reformadores e
seus seguidores. Com base nessa perspectiva, o presente artigo objetiva
compreender a visão dos líderes da Reforma – Martinho Lutero, Ulrich
Zwínglio e João Calvino – a respeito do sacramento da Santa Ceia, com a
finalidade de identificar a repercussão da controvérsia em cinco igrejas
evangélicas da atualidade.
PA L AV R A S - C H AV E
Sacramento; Santa Ceia; Reformadores; Controvérsia; Igrejas evangélicas.
A B S T R AC T
The Protestant Reformation of XVI century was one of the events that
marked the Church history, sharing Occidental Christianity between Catholics and Protestants. Thereafter there was a topic that caused the first
great schism between own reformers and their followers. From this perspective this article intends to comprehend Reformation leader’s vision –
Martin Luther, Ulrich Zwingli and John Calvin – regarding Lord’s Supper
sacrament, with the goal to identify the contest’s repercussion in five evangelical churches of the present time.
K E Y WO R DS
Sacrament; The Last Supper; Reformers; Controversy; Evangelical churchs.
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Edson Pereira Lopes, Janniere Villaça da Cunha Fernandes
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1 . I N T RO D U Ç Ã O
No estudo da história da cristandade, um dos assuntos
que geraram inúmeras discussões refere-se aos sacramentos, por
não haver unanimidade quanto ao número, que variou de cinco a trinta. Segundo Berkhof (1992, p. 217-218), Pedro Lombardo foi quem primeiro nomeou o batismo, a confirmação, a
eucaristia, a penitência, as ordens sacras, o matrimônio e a extrema-unção como sacramentos que foram aceitos e adotados
pela cristandade, a partir de 1439, no Concílio de Florença.
A discussão em torno dos sacramentos se intensificou
no período da Reforma do século XVI, e a maior parte dos
reformadores aceitou como sacramentos apenas dois dos sete
reconhecidos pelo cristianismo daqueles dias: o batismo e a
eucaristia e a Ceia do Senhor. Com o passar dos anos, começaram a surgir entre os reformadores divergências que envolviam os sacramentos, sobretudo em torno da Santa Ceia do
Senhor, que resultaram na tomada de posições distintas entre
si de Lutero, Zwínglio e Calvino. Lienhard (1998, p.183) pontua a importância da controvérsia quanto a Ceia do Senhor da
seguinte maneira:
[...] havia divergências com respeito à ceia, em particular sobre
a maneira de compreender a presença de Jesus Cristo [...]. Esse
foi, incontestavelmente, o debate intraprotestante mais importante do século XVI.
Observa-se que essa controvérsia resultou num cisma
entre os reformadores, daí Fisher (1992, p. 218) afirmar:
A controvérsia em torno da Santa Ceia foi o mais longo e mais
grave dos conflitos que eclodiram entre os seguidores da Reforma evangélica [...]. Apesar de todos os esforços, jamais foi possível restabelecê-la.
Sob a perspectiva da controvérsia, o objetivo deste artigo é identificar as similaridades e as diferenças teológicas existentes entre a visão de Lutero, Zwínglio e Calvino concernente à Santa Ceia, bem como as implicações dessa controvérsia
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no período da Reforma e na Igreja Evangélica da atualidade.
Para isso, foi necessário, num primeiro momento, compreender o significado de sacramento; após isso, identificar a concepção de Lutero, Zwínglio e Calvino quanto à Santa Ceia; e,
por fim, demonstrar as implicações das controvérsias dos citados reformadores concernentes à Ceia do Senhor nas igrejas
evangélicas da atualidade.
2. BREVE COMENTÁRIO HISTÓRICO
D O T E R M O “ S AC R A M E N TO ”
O termo sacramento não aparece no texto bíblico, entretanto seu conteúdo pode ser percebido nas mais diferentes
passagens da Bíblia. Douglas (1995, p. 1434) afirma que a
definição mais comum de sacramento é a de um sinal externo
e visível, ordenado por Cristo, que estabelece e promete bênçãos internas e espirituais. Douglas parece se fundamentar nas
palavras de Agostinho, as quais são citadas por Ferreira (2006a,
p. 193): “une-se a palavra ao elemento, e acontece o sacramento”. Com parecer semelhante, Berardino (2002, p. 1244) pontua que Agostinho definia sacramento como um sinal visível
ou sensível de algo sagrado.
É com base nessa perspectiva que Tillich (2007, p. 163)
assinala que essa temática passou a ser uma das principais discussões da Igreja Medieval, sobretudo quanto à presença divina nos sacramentos. A reflexão relativa à presença divina nos
sacramentos, principalmente na eucaristia, pode ser percebida
na concepção da transubstanciação, advogada até a atualidade
pela Igreja Católica Romana. A transubstanciação ocorre no
momento da consagração, quando o pão e o vinho são transformados literalmente no corpo e no sangue de Cristo (AMBRÓSIO DE MILÃO, 1996, p. 56).
Essa crença parece ter sua origem nas palavras de Inácio
de Antioquia (1984, p. 80), em sua carta aos Esmirnenses,
quando afirma: “A Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus
Cristo, que padeceu por nossos pecados, e que o Pai, em Sua
bondade, ressuscitou”. Justino de Roma (1995, p. 82), quanto
à Ceia ou Eucaristia, afirmou:
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Não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito
carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim também nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento com o qual, por
transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne – é a carne e sangue daquele mesmo Jesus encarnado.
Segundo Klein (2005, p. 28), em meados do século IX
ocorreu uma importante controvérsia eucarística na história
da Igreja. Em 818 d.C., o monge do mosteiro de Corbie, Pascásio Radbert, escreveu o tratado Sobre o corpo e o sangue do
Senhor, no qual ensinava que ocorria um milagre ao serem
pronunciadas as palavras de celebração da Ceia, isto é, os elementos eram transformados no próprio corpo e sangue de
Cristo. Todavia, essas idéias foram rebatidas por Rabano Maurer e Ratramno de Corbie que defendiam a presença espiritual
de Cristo na Ceia.
Em meados do século XI, Berengário de Tours sustentava que totus Christus (Cristo inteiro) era dado espiritualmente
ao crente e rejeitava a idéia de quaisquer transformações. Para
ele, conforme pontua Klein (2005, p. 29), os elementos são
signas (sinais) do recebimento de Cristo e não há mudança nas
substâncias, mas eles se tornam em “sacramentos” e meios de
graça. Todavia, a teologia sacramental de Berengário foi condenada em 1050 e em 1059 em dois sínodos realizados em
Roma. No último deles, segundo Berkhof (1992, p. 226), o
cardeal Humberto declara que o próprio corpo de Cristo era
verdadeiramente seguro na mão do sacerdote, quebrado e
mastigado pelos dentes dos fiéis. Estava aberto o caminho para
que o IV Concílio de Latrão, em 1215, oficializasse a doutrina
da transubstanciação. Nesse contexto, são relevantes as palavras de Klein (2005, p. 30), ao citar Denzinger, por trazer o
relato constante no capítulo I Da fé católica, desenvolvida no
citado Concílio:
E uma só é a Igreja universal dos fiéis [...] e nela o mesmo
sacerdote é sacrifício, Jesus Cristo, cujo corpo e sangue se contém [sic] verdadeiramente no sacramento do altar sob as espécies do pão e vinho, depois de transubstanciados, por virtude
divina, o pão no corpo e o vinho no sangue, a fim de que, para
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completar o mistério da unidade, recebamos nós o que é seu o
que Ele recebeu do que é nosso.
Preocupados com os avanços do protestantismo e com a
perda dos fiéis, bispos e papas reúnem-se na cidade italiana de
Trento em 1545-1563, com a finalidade de reagir contra a fé
protestante. Sobre a questão da presença de Cristo na eucaristia, Berkhof (1992, p. 226) apresenta um resumo da Sessão
XIII, escrita em 15 de julho de 1563, que acentua a crença
católica romana nos seguintes termos:
Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente no
santo sacramento. [...] podemos não saber explicar como, mas
podemos conceber da possibilidade da Sua substancial e sacramental presença em vários lugares simultaneamente. Pelas palavras da consagração, a substância inteira do pão e do vinho é
transformada no corpo e no sangue de Cristo. [...] Os efeitos principais do sacramento são: “aumento da graça santificadora, graças
especiais e reais, remissão de pecados veniais, preservação de pecado grave (mortal) e a confiante esperança da salvação eterna”.
O pré-reformador inglês John Wyclif (1324-1384),
condenado como herege no concílio de Constança (14151418), mas para quem a Bíblia era a única regra de fé, não
admitia a doutrina da transubstanciação. Para fundamentar
sua afirmação, Klein (2005, p. 32) descreve três pressupostos
de Wyclif relativas à Ceia do Senhor:
1. Que a substância material do pão e a substância material do
vinho permanecem no sacramento do altar. 2. Que os acidentes
do pão não permanecem sem um substrato (substância) no dito
sacramento. 3. Que Cristo não está neste sacramento essencial
e realmente com sua presença corporal.
Com base nessas palavras, Klein (2005, p. 32) afirmou:
“[...] quanto à chamada presença real de Cristo na Ceia do
Senhor, Wyclif antecipa, de certa maneira, a interpretação
que posteriormente foi desenvolvida por Martinho Lutero”.
A seguir, abordar-se-á, com base em Lutero, o significado da
Santa Ceia no pensamento protestante, especificamente Lutero, Zwínglio e Calvino.
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3 . O S I G N I F I C A D O D E S A N TA C E I A
N O P E N S A M E N TO D E LU T E RO ,
Z W Í N G L I O E C A LV I N O
De acordo com Berkhof (1992, p. 227), observam-se
princípios comuns entre os reformadores em epígrafe na tratativa da Santa Ceia: a rejeição da doutrina da transubstanciação
e que tanto o vinho como o pão deveriam ser servido para
todos os cristãos segundo a ordem divina “Bebei dele todos”
(Mateus 26:27; Marcos 14:23).
Isso posto, é necessário focar o significado de Santa Ceia
no pensamento de Lutero. Para Lutero (1987, p. 401,413),
“sacramento” é somente aquilo que foi expressamente instituído por Cristo, ao que confere promessa de perdão e com a
qual deve ser despertada a fé. Em sua concepção, a Palavra e
o sacramento formam o centro da fonte de toda a vida, sem o
qual não pode haver fé salvadora. Num primeiro momento,
Lutero (1987, p. 401) parecia considerar a penitência um sacramento, porém, segundo George (1993, p. 93), em O cativeiro babilônico da Igreja (1520) Lutero (1989, p. 342) atacou
o sistema sacramental da Igreja Medieval e reconheceu a autenticidade de apenas dois sacramentos: o batismo e a Ceia.
No estudo sobre o pensamento de Lutero relativo à Santa Ceia, observa-se que, para ele, esse sacramento era um dos
assuntos centrais para a vida do cristão, porque permitia ao fiel
participar verdadeira e literalmente do corpo de Cristo, segundo assinala o Catecismo menor de Lutero (1967, p. 18) ao definir sacramento: “É o verdadeiro corpo e sangue de nosso
Senhor Jesus Cristo para ser comida e bebida, sob o pão e o
vinho, por nós cristãos, como Cristo mesmo o instituiu”.
Diferia, entretanto, da transubstanciação, uma vez que
o pão continuava a ser pão e o vinho continuava a ser vinho.
Nesse contexto, é mister ressaltar que o termo “consubstanciação” atribuído a Lutero não fora utilizado por ele, mas não se
pode negar que tal termo resultou do seu pensamento. Daí a
afirmação de Woortmann (1997, p. 89):
O ponto de vista de Lutero distinguia-se do católico, mas retinha um componente central da concepção tradicional. (...) Para
Lutero ao invés de transubstanciação, ocorre a consubstancia-
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ção, ou seja, a união de dois corpos na mesma substância, mantendo a presença de Cristo na Eucaristia: o rito sagrado corporificava o real e verdadeiro ponto de inserção, ou “consubstanciação” da divindade no mundo profano; por isso, era eficaz .
Um opositor ao pensamento de Lutero acerca da Santa
Ceia foi Zwínglio, que também entendia tratar a Ceia como a
essência do Evangelho. Tanto para Zwínglio como para Lutero, esta não era uma questão de matéria secundária, daí a afirmação de Zwínglio citada por Gonzalez (2004, p. 84): “pois
eu temo que se há um erro pernicioso na adoração e veneração
do único Deus verdadeiro, ele está no abuso da Eucaristia”.
Zwínglio, segundo Gonzales (1995, p. 95), concebia que
os elementos materiais da Ceia não eram mais que símbolos
ou sinais da realidade espiritual. Com a mesma perspectiva,
Tillich (2007, p. 257) pontua que, para Zwínglio, os sacramentos eram:
[...] sinal seguro ou selo que, como qualquer símbolo, serve
para nos despertar a memória; ao participar no sacramento expressamos nossa vontade de pertencer à igreja. O Espírito divino age ao lado dos sacramentos e não por meio deles.
Lienhard (1998, p. 185) comenta sobre a visão de Zwínglio sobre os sacramentos:
Esses sacramentos não teriam nenhuma significação naquilo que
concerne à libertação das consciências, porque somente Deus
pode libertá-las. Os elementos materiais, tais como a água, não
poderiam desempenhar um papel nesse processo de purificação,
no qual unicamente Deus estaria agindo. A fé não teria, além
disso, necessidade de elementos exteriores para afirmar a sua certeza. Ela a possui em si mesma. “Alimentar-se de Cristo, pão do
céu”, significaria, segundo João 6, crer no evangelho.
Klein (2005, p. 44), ao comentar a verdadeira e a falsa
religião, afirma que, para Zwínglio, se a sua fé não for absoluta em si mesmo, a ponto de precisar de sinais e cerimônias
para existir, então não é fé. Está explicado por que Zwínglio
acreditava que a Ceia era apenas um símbolo externo da comunhão interna de todos os crentes em Cristo.
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Erichson (1997, p. 470-471), em citação a Strong, afirma que Zwínglio destaca a Ceia do Senhor como:
Um sacramento para relembrar a morte de Cristo e sua eficácia
em favor do crente. Assim, a Ceia do Senhor é, em essência,
uma comemoração da morte de Cristo. O valor do sacramento
está simplesmente em receber pela fé os benefícios da morte de
Cristo. Assim, o efeito da Ceia do Senhor não é diferente em
natureza, digamos, um efeito de um sermão. Ambos são modalidades de proclamação. Em ambos os casos, como em todas as
proclamações, existem a essencialidade absoluta da fé, para que
se possa obter algum benefício. Podemos dizer, portanto, que não
se trata tanto do sacramento trazer Cristo ao comungante, mas
da fé do crente trazer Cristo para o sacramento.
Para Berkhof (1990, p. 659), fica evidente que o desejo
de Zwínglio era extirpar da doutrina da Ceia do Senhor todo
misticismo incompreensível. Segundo Zwínglio, a crença na
presença real de Cristo na Santa Ceia não condiz com o credo
professado pelos cristãos: “subiu ao céu e está assentado à direita de Deus Pai Todo Poderoso, de onde há de vir a julgar os
vivos e os mortos”. Em sua concepção, ou se abandona a “falsa” doutrina da presença real do corpo de cristo nesse sacramento ou se renunciam esses três artigos, o que para ele é inconcebível (KLEIN, 2005, p. 52).
Por essa razão, conforme assinala George (1993, p. 149),
Zwínglio via Lutero como um protestante desejoso de voltar
ao romantismo. Gonzalez (2004, p. 66), nesse aspecto, pontua que Lutero estava convencido de que os católicos romanos
estavam mais próximos do sentido verdadeiro das Escrituras
do que seus oponentes protestantes, daí sua declaração de que
“antes comeria o corpo de Cristo com os papistas” e não com
os entusiastas, fanáticos e “inimigos do Santo Sacramento”
(LUTERO, 1993, p. 223).
Lutero (1993, p. 226, 227) acusava Zwínglio de modificar as palavras: “isto é o meu corpo” para “isto significa o meu
corpo”. Para defender-se, Zwínglio afirmava que, se assim fosse
o caso, faria o mesmo ao interpretar as mesmas palavras por
“sob o pão está o corpo de Cristo” ou “no pão está o corpo de
Cristo”. Lutero (1993, p. 227) rebate dizendo que os que assim
crêem não podem ser condenados, pois com essa interpretação
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estes confessam sua fé de que o corpo de Cristo está verdadeiramente na Santa Ceia.
Nessas poucas linhas, ressalta-se o clima acalorado entre
os dois reformadores, o que resultou, no período de 1526 a
1529, em inúmeros ataques de Lutero contra Zwínglio e viceversa. Nesse contexto, é que surge o pensamento de João Calvino que, segundo Matos (2008, p. 147), “procurou encontrar
um meio-termo entre esses dois reformadores”.
A concepção de Calvino (2006, p. 141) concernente aos
sacramentos pode ser lida nas seguintes palavras:
É um sinal exterior pelo qual o Senhor representa para nós e
nos testifica a Sua boa vontade para conosco, para sustentar,
confirmar e fortalecer a nossa fraca fé. [...] Não há sacramento
sem promessa de salvação. Nunca. Todos os homens juntos não
saberiam nem poderiam garantir coisa alguma quanto à nossa
salvação. Logo, não podem, eles mesmos, ordenar nem planejar
nenhum sacramento. Por isso a igreja cristã se satisfaz com estes
dois [Batismo e Santa Ceia]. E não somente não admite nem
aprova nem reconhece no presente, mas também não deseja
nem espera jamais um terceiro, até a consumação do século.
Com base nessa definição, Gonzalez (2004, p. 168) comenta a preocupação de Calvino, que consistia em evitar as
posições católico-romana e luterana, por um lado, e as teorias
zwinglianas e anabatistas, por outro:
Contra Zwinglio e os Anabatistas, Calvino argumenta que os
sacramentos são, de fato, eficazes. Negar tal eficácia, com base
em que eles podem ser recebidos tanto por descrentes, quanto
pelos fiéis, faria tanto sentido quanto negar o poder da Palavra,
porque alguns a ouvem e não tentam para ela. [...] Por outro
lado, aqueles que reivindicam que os sacramentos têm o poder
de justificar e conceder graça também estão enganados. Seu engano consiste em confundir a “figura” do sacramento com a
“verdade” contida nele.
Lecerf (2006, p. 228) adverte que a concepção adotada
por Calvino contra o simbolismo zwingliano e a consubstanciação luterana foi primeiramente redigida por Bucer em
1530, na confissão de fé, posteriormente chamada TetrapolitaSANTA CEIA: UMA DAS MAIS SIGNIFICATIVAS CONTROVÉRSIAS..., p. 98-122
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na, que afirma: “Cristo verdadeiramente dá seu verdadeiro corpo e sangue a comer e a beber para nutrição da alma”. Assim,
para Calvino (2006, p. 16), a presença de Cristo na comunhão
é real, porém espiritual. Para ele, não se tratava de um mero
símbolo nem da descida do corpo de Cristo do céu.
Todavia, não devemos imaginar essa realidade nos termos sonhados pelos sofistas, como se o corpo de Cristo baixasse à mesa
e ali se expusesse em presença local, para ser tocado com as
mãos, mastigado com os dentes e engolido pela goela. [...] Ora,
se vemos com os nossos próprios olhos que o Sol, brilhando
sobre a terra, de alguma forma envia por seus raios a sua substância para gerar, nutrir e produzir os frutos dela, porque o fulgor e a irradiação do Espírito de Jesus Cristo seriam menos capazes de nos fazer chegar a comunicação da sua carne e do seu
sangue? [...] Tal comunhão do seu corpo e do seu sangue testifica o Senhor na Ceia.
Chaunu (1975, p. 181) preconiza que a teologia de Calvino é o ponto de equilíbrio entre a visão luterana e zwingliana
ao afirmar que esta é:
Uma teologia que conserva o essencial do mistério da presença, dá a sua dimensão ao memorial e se esforça por manter
equilibrados os dois braços da cruz, durante a refeição eucarística: comungar, através do Espírito Santo, com Deus e com a
Igreja unida.
A compreensão de Calvino (2006, p. 7-9) quanto à Santa Ceia é explicitada em suas próprias palavras:
[...] homens curiosos querem definir como o corpo de Jesus
Cristo está presente no pão. Como se valesse a pena debater isso
com tão grande contenda de palavras e de espírito! [...] Todavia,
a fim de que numa tão grande diversidade de opiniões a única
e segura verdade de Deus permaneça conosco, pensemos primeiramente que é de uma realidade espiritual que trata o sacramento, pelo qual o Senhor não pretende saciar nosso ventre,
mas nossa alma. [...] Porque, quando vemos o pão que nos é
apresentado como sinal do sacramento do corpo de Jesus Cristo, devemos imediatamente tomar essa figura ou semelhança
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no sentido de que, assim como o pão nutre, sustenta e mantém
a vida do nosso corpo assim também o corpo de Jesus Cristo é
o alimento, a nutrição e a preservação da nossa vida espiritual.
E, quando vemos o vinho que nos é oferecido como sinal do
sangue de Jesus Cristo, somos levados a pensar no efeito e no
proveitoso benefício do vinho para o corpo humano, fazendonos apreciar o que o sangue de Jesus Cristo efetua em nós e o
proveito que nos dá espiritualmente. [...] se avaliarmos bem a
bênção que é para nós o fato de que o corpo sacratíssimo de
Jesus foi entregue e Seu sangue foi derramado por nós, veremos
claramente que é muito próprio o que se atribui ao pão e ao
vinho, nos termos desta analogia e símile.
À luz do que se discorreu anteriormente, George (1993, p.
149) pontua: “poderia muito bem ter-se encerrado como apenas
outra tempestade teológica num copo d’água eclesiástico, não
fosse pelas profundas implicações políticas da controvérsia”.
Com base na afirmação de George, é relevante destacar as implicações sociorreligiosas dessa controvérsia nos dias da Reforma
Protestante.
A Reforma Protestante se espalhava em vários pontos da
Europa, e mesmo nos anos seguintes após a condenação de
Lutero, o imperador Carlos V não pôde impedir o avanço do
pensamento protestante nos territórios germânicos, é o que
afirma George (1993, p. 149):
Os turcos estavam avançando para Viena, no Leste, enquanto
Francisco I, da França, tratava guerra no Oeste; até mesmo o
papa era abertamente hostil aos desígnios imperiais de Carlos.
Até o final da década de 20, entretanto, a situação mudou drasticamente a favor do imperador: os turcos haviam sido detidos,
Roma fora saqueada, o papa capturado e, até 1529, o rei da
França chegara a um acordo com seu rival de Hapsburgo. Carlos prometeu ação imediata contra os protestantes: “É bastante
agradável à sua majestade imperial que um remédio adequado
seja preparado para tratar dessa praga perigosa”.
Nesse contexto, a situação religiosa e política dos protestantes exigia uma união entre eles. Porém, “um obstáculo
fundamental estava no caminho de tal aliança pan-protestante: a controvérsia eucarística” (GEORGE, 1993, p. 149). Foi
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com a intenção de superar a controvérsia que o magistrado Filipe de Hesse organizou, em 1º a 4 de outubro de 1529, o colóquio de Marburgo no qual participaram Lutero e Zwínglio,
além de teólogos e políticos de ambos os lados. Do colóquio
foram levantados 15 pontos doutrinários e em 14 deles chegaram a um acordo, exceto no que se referia ao sentido e à eficácia da Ceia (GEORGE, 1993, p. 150). Gonzalez (1995, p.
96), ao comentar o encontro de Marburgo, afirma:
Em todo caso, não resta [sic] dúvidas de que a frase que se
atribui a Lutero, no encontro de Marburgo, “não somos do
mesmo espírito” refletia adequadamente a situação. A diferença entre os dois reformadores com respeito a ceia não era
questão de detalhe sem importância, mas tinha a ver com o
modo pelo qual os dois viam a relação entre a matéria e o espírito e, conseqüentemente, também com o modo pelo qual
entendiam a revelação divina.
Na prática, a controvérsia em torno da Ceia continuou
entre os protestantes. Os luteranos chamavam os zwinglianos
de “sacramentarianos grosseiros” e os calvinistas de “sacramentarianos sutis” (LANE, 1999, p. 204), pois os zwinglianos, na
concepção luterana, não entendiam corretamente os sacramentos, e os calvinistas, segundo entendiam, procuravam mediar a discussão, mas com pouco sucesso.
Em 1530, os protestantes luteranos e os demais acorreram à Dieta de Augsburgo para prestar contas de sua fé diante
do imperador Carlos V. Melancton, amigo mais íntimo de Lutero, redigiu uma confissão protestante de fé, conhecida como
Confissão de Augsbugo, fundamentada nos escritos de Lutero e
que, em seu artigo X, ao tratar acerca da Santa Ceia, pontuava:
É ensinado entre nós que o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão realmente presentes na Ceia de nosso Senhor sob a
forma de pão e vinho e são ali distribuídos e recebidos (LANE,
1999, p. 200-201).
Em 1540, Melancton publicou uma edição revisada
dessa confissão, e a principal mudança ocorreu no artigo citado anteriormente, o qual passou a afirmar que “o corpo e o
sangue de Cristo são verdadeiramente apresentados como
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CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – HISTÓRIA E SOCIEDADE
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o pão e o vinho àqueles que tomam parte da Ceia do Senhor”.
Lane (1999, p. 201) assinala que a reformulação desse artigo
se aproximou da compreensão calvinista, o que agradou Calvino, mas aborreceu Lutero e alguns luteranos extremistas que
viam Melancton como o traidor de Lutero.
Em 1549, o Consenso de Zurique uniu os zwinglianos
e calvinistas, e prevaleceu o conceito de Santa Ceia preconizado por João Calvino. A aceitação desse conceito sobre a Ceia
do Senhor ultrapassou o sul da Alemanha e outras regiões, e
muitos acreditaram que o calvinismo suplantaria o luteranismo em toda a Alemanha, o que não ocorreu, como se percebe
na história do cristianismo daquela região.
Em suma, após essa apresentação do panorama sobre
significado de Santa Ceia no pensamento de Lutero, Zwínglio e
Calvino, percebe-se que zwinglianos e calvinistas chegaram a
um consenso quanto à Ceia, todavia ficou explicitado que essa
controvérsia era um dos pontos fundamentais de dissensão entre os protestantes. Com base nessa verificação, foi relevante
atentar para as implicações dessa dissensão no cristianismo atual, sobretudo entre algumas comunidades evangélicas, como
será visto a seguir.
4 . R E P E RC U S S Õ E S DA CO N T ROV É R S I A
D E L U T E R O , Z W Í N G L I O E C A LV I N O
C O N C E R N E N T E S À S A N TA C E I A N A S
I G R E J A S D E CO N F I S S Ã O LU T E R A N A ,
R E F O R M A D A , P E N T E C O S TA L
E N E O P E N T E C O S TA L
Na percepção das implicações da controvérsia de Lutero, Zwínglio e Calvino com relação à Ceia nas igrejas evangélicas da atualidade, recorreu-se à pesquisa de campo quantitativa (CHIZOTTI, 1995) exploratória, com a finalidade de
“aumentar a familiaridade do pesquisador [...] para a realização de uma pesquisa [...] mais precisa e clarificar conceitos”
(LAKATOS, 2003, p. 188).
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Sendo assim, cinco igrejas locais de diferentes denominações1 da capital paulistana foram selecionadas e serão identificadas por meio de suas respectivas instituições, com a finalidade de salvaguardar sua identidade local. Assim, compõem
essa amostra: 1 Igreja Presbiteriana do Brasil, localizada na
Zona Leste de São Paulo; 1 Igreja Luterana, localizada no Tremembé; 1 Igreja Batista localizada no bairro da Água Branca;
1 Igreja Pentecostal Assembléia de Deus, ministério Belém, localizada no bairro de Vila Zilda; 1 Igreja Evangélica Apostólica
Renascer em Cristo, localizada no bairro do Tatuapé. Houve a
preocupação em colher dados das confissões de fé, dos tratados
e estatutos dessas comunidades com o objetivo de correlacionar
suas crenças relativas à Santa Ceia com a interpretação dos reformadores Lutero, Zwínglio e Calvino.
Tabela 1 – Dados gerais da pesquisa
IGREJAS
DATA DA
PESQUISA
MEMBROS QUE
PARTICIPARAM
Igreja Presbiteriana
do Brasil
17.7.2008
19 membros
Igreja Evangélica Luterana
do Brasil
22.7.2008
15 membros
Igreja Batista
7.6.2008
94 membros
Igreja Assembléia de Deus –
Ministério Belém
24.5.2008
46 membros
Igreja Evangélica Apostólica
Renascer em Cristo
19.4.2008
77 membros
A coleta de dados, preservadas todas as formas de identificação, fundamentou-se nas seguintes questões dirigidas:
1. Para você o que é Santa Ceia?
a) Participação simbólica e memorial do corpo e do
sangue de Cristo.
1
Há que se ressaltar que a coleta de dados está restrita às igrejas locais das citadas denominações e assim
pode não representar a compreensão doutrinária mais específica de suas respectivas instituições quanto ao assunto em pauta.
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b) Participação real do corpo e do sangue de Cristo
de forma espiritual.
c) Participação literal do corpo e do sangue de Cristo de forma espiritual.
2. O que acontece com o pão e o vinho na hora da
Santa Ceia?
a) Transformam-se simbolicamente no corpo e no
sangue de Cristo.
b) Transformam-se espiritualmente no corpo e no
sangue de Cristo,
c) Transformam-se literalmente no corpo e no sangue de Cristo.
3. Cristo está presente na Ceia de que forma?
a) Memorial.
b) Espiritual.
c) Literal.
Tabela 2 – Resultados referentes à primeira pergunta
IGREJA
1) PARA VOCÊ O QUE É
SANTA CEIA?
Resposta
“a”
Resposta
“b”
Resposta
“c”
Igreja Presbiteriana do Brasil
37%
63%
0%
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
0%
13%
87%
Igreja Batista Brasileira
65%
29%
6%
Igreja Assembléia de Deus – Belém
70%
17%
13%
Igreja Renascer em Cristo
56%
31%
10%
Observa-se nessa amostra que 37% dos participantes da
pesquisa da Igreja Presbiteriana do Brasil demonstraram que a
Santa Ceia pode ser compreendida como participação simbólica e memorial do corpo e do sangue de Cristo, enquanto 63%
pontuaram ser a Santa Ceia a participação real do corpo e do
sangue de Cristo de forma espiritual. Há uma rejeição quanto
à compreensão de que a Santa Ceia seja uma participação literal do corpo e do sangue de Cristo de forma espiritual.
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A Igreja Luterana rejeita a interpretação simbólica e memorial, assim 13% dos participantes pontuaram crer na Santa
Ceia como participação real do corpo e do sangue de Cristo de
forma espiritual, e 87% pontuaram a participação literal do
corpo e do sangue de Cristo de forma espiritual.
Dos participantes da Igreja Batista, 65% pontuaram
que na Santa Ceia há participação simbólica e memorial do
corpo e do sangue de Cristo; 29% assinalaram que na Santa
Ceia há participação real do corpo e do sangue de Cristo de
forma espiritual; e 6% compreendem que na Santa Ceia há
participação literal do corpo e do sangue de Cristo de forma
espiritual.
Dos participantes da Igreja Assembléia de Deus, 70%
responderam que na Santa Ceia há participação simbólica e
memorial do corpo e do sangue de Cristo; 17% assinalaram
que na Santa Ceia há participação real do corpo e do sangue
de Cristo de forma espiritual; e 13% compreendem que na
Santa Ceia há participação literal do corpo e do sangue de
Cristo de forma espiritual.
Dos participantes da Igreja Renascer em Cristo, 56%
compreendem que na Santa Ceia há participação simbólica e
memorial do corpo e do sangue de Cristo; 31% pontuaram
que na Santa Ceia há participação do corpo e do sangue de
Cristo de forma espiritual; e 10% assinalaram que na Santa
Ceia há participação literal do corpo e do sangue de Cristo de
forma espiritual.
Tabela 3 – Resultados referentes à segunda pergunta
IGREJA
114
2) O QUE ACONTECE COM
O PÃO E O VINHO NA HORA
DA SANTA CEIA?
Resposta
“ a”
Resposta
“ b”
Resposta
“c”
Igreja Presbiteriana do Brasil
37%
63%
0%
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
6%
27%
67%
Igreja Batista Brasileira
54%
42%
4%
Igreja Assembléia de Deus – Belém
63%
30%
7%
Igreja Renascer em Cristo
42%
53%
5%
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Quanto à questão do que acontece com o pão e o vinho
na hora da Santa Ceia, observa-se que os participantes da pesquisa da Igreja Presbiteriana do Brasil rejeitam a crença de que
na hora da Santa Ceia o pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo, assim 37% pontuaram
que na hora da Santa Ceia o pão e o vinho se transformam
simbolicamente no corpo e no sangue de Cristo e 63% pontuaram que o pão e o vinho se transformam espiritualmente no
corpo e no sangue de Cristo no momento da Santa Ceia.
Apenas 6% dos participantes da Igreja Luterana assinalaram que no momento da Santa Ceia o pão e o vinho se transformam simbolicamente no corpo e no sangue de Cristo, 27%
acreditam que o pão e o vinho se transformam espiritualmente
no corpo e no sangue de Cristo na hora da Santa Ceia, enquanto 67% compreendem que no momento da Santa Ceia o
pão e o vinho transformam-se literalmente no corpo e no sangue de Cristo.
Dos participantes da Igreja Batista, 54% pontuaram
que na hora da Santa Ceia o pão e o vinho se transformam
simbolicamente no corpo e no sangue de Cristo; 42% assinalaram que o pão e o vinho se transformam espiritualmente no
corpo e no sangue de Cristo na hora da Santa Ceia; e apenas
4% acreditam que no momento da Santa Ceia o pão e o vinho
se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo.
Dos participantes da Igreja Assembléia de Deus, 63%
responderam que na hora da Santa Ceia o pão e o vinho se
transformam simbolicamente no corpo e no sangue de Cristo; 30% compreendem que o pão e o vinho se transformam
espiritualmente no corpo e no sangue de Cristo na hora da
Santa Ceia; e 7% pontuaram que na hora da Santa Ceia o pão
e o vinho se transformam literalmente no corpo e no sangue
de Cristo.
Dos participantes da Igreja Renascer, 42% responderam que na hora da Santa Ceia o pão e o vinho se transformam simbolicamente no corpo e no sangue de Cristo; 53%
assinalaram que o pão e o vinho se transformam espiritualmente no corpo e no sangue de Cristo na hora da Santa Ceia;
e apenas 5% concordam que no momento da Santa Ceia o
pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo.
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Tabela 4 – Resultados referentes à terceira pergunta
IGREJA
3) CRISTO ESTÁ PRESENTE
NA CEIA DE QUE FORMA?
Resposta
“ a”
Resposta
“ b”
Resposta
“ c”
Igreja Presbiteriana do Brasil
21%
79%
0%
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
13%
13%
74%
Igreja Batista Brasileira
12%
82%
6%
Igreja Assembléia de Deus – Belém
22%
72%
6%
Igreja Renascer em Cristo
11%
81%
8%
Como se pode observar na Tabela 4, os participantes da
pesquisa da Igreja Presbiteriana do Brasil rejeitam a crença
da presença literal de Cristo na Santa Ceia, assim 21% acreditam que Cristo, na Ceia, se faz presente de forma memorial e
79% assinalaram que no momento da Ceia Cristo está presente de forma espiritual.
Dos particpantes da Igreja Luterana, 13% pontuaram que
no momento da Santa Ceia Cristo se faz presente de forma
memorial; 13% acreditam que Cristo na hora da Santa Ceia se
faz presente de forma espiritual; enquanto 74% compreendem
que Cristo se faz presente de forma literal na Santa Ceia.
Dos participantes da Igreja Batista, 12% pontuaram que
na Santa Ceia Cristo se faz presente de forma memorial; 82%
acreditam que Cristo se faz presente de forma espiritual na
Santa Ceia; e apenas 6% acreditam que no momento da Santa
Ceia Cristo se faz presente de forma literal.
Dos participantes da Igreja Assembléia de Deus, 22%
responderam que na Santa Ceia Cristo se faz presente de maneira memorial; 72% compreendem que Cristo na hora da
Santa Ceia se faz presente de forma espiritual; e 6% pontuaram que na Santa Ceia Cristo se faz presente de forma literal.
Dos participantes da Igreja Renascer em Cristo, 11%
responderam que na Santa Ceia Cristo se faz presente de forma memorial; 81% assinalaram que Cristo na Santa Ceia se
faz presente de forma espiritual, e 8% concordam que no momento da Santa Ceia Cristo se faz presente de forma literal.
Em suma, observou-se que na Igreja Presbiteriana prevalece o conceito de Calvino, porém com forte influência do conceito zwingliano e nenhuma aceitação do conceito luterano. Na
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Igreja Luterana, a visão de Lutero prevalece de forma bastante
significativa, com pequena influência da visão de Calvino e
Zwínglio. Já nas igrejas Batista, Assembléia de Deus e Renascer
em Cristo, observa-se que a grande maioria dos membros pesquisados aderem à interpretação zwingliana ao afirmarem que a
Santa Ceia é a participação simbólica e memorial do corpo e do
sangue de Cristo e que o pão e o vinho no momento da Ceia se
transformam simbolicamente no corpo e no sangue de Cristo,
no entanto afirmam que Cristo está presente na Ceia de forma
espiritual e não apenas memorial. Percebe-se, também, que alguns membros apresentaram incoerência nas respostas dadas.
Com base no exposto, pode-se pontuar que, no cotidiano cristão, muitos fiéis ainda possuem dúvidas quanto ao significado e à importância da Santa Ceia para a vida cristã. A
repercussão da controvérsia em questão não se ateve apenas ao
século XVI, mas atravessou séculos de história, chegando à
atualidade. Talvez, por isso, ainda haja afirmações como a do
pastor luterano Wrasse (2007, p. 1):
É o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de nosso Senhor
Jesus Cristo, para ser comido e bebido por nós cristãos sob o
pão e o vinho. Instituído por Cristo mesmo [...]. Existem duas
interpretações errôneas a respeito da doutrina da Santa Ceia.
Os calvinistas ou igrejas reformadas (metodistas, presbiterianos,
batistas, etc.) ensinam, apenas significar, representar ou simbolizar o pão da Santa Ceia o corpo e o vinho o sangue de Cristo
[...] A igreja católica ensina, também erroneamente, ser o pão
transformado ou transubstanciado [...].
Da afirmação de Wrasse se observa que há ecos da animosidade existentes entre os reformadores Lutero e Zwínglio,
quando tratavam da Ceia, nas Igrejas da atualidade, pois conforme acentua Wrasse (2007, p. 1): “Existem duas interpretações errôneas a respeito da doutrina da Santa Ceia [...] os calvinistas ou igrejas reformadas [...] igreja católica”.
Da mesma forma, a concepção luterana quanto à presença de Cristo na Ceia também é rejeitada por algumas igrejas evangélicas atuais, como se pode verificar na Confissão de fé
de Westminster (ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER, 2005,
p. 221) adotada pelas igrejas reformadas, nas quais se percebe
o conceito calvinista da Santa Ceia:
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Os que comungam dignamente, participando exteriormente
dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente, pela fé, o Cristo crucificado, e todos os benefícios de
sua morte, e deles se alimentam, não carnal ou corporalmente,
mas real, verdadeira e espiritualmente; não estando o corpo e o
sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos, pão
e vinho, nem com eles ou sob eles, mas estão, espiritual e realmente, presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão
os próprios elementos em relação a seus sentidos corporais.
A Confissão de Fé anglicana (GRUDEM, 1999, p. 1004),
chamada de “Os trinta e nove artigos da religião”, traz no artigo XXVIII, da Ceia do Senhor, a seguinte afirmação:
A Ceia do Senhor não só é um sinal de mútuo amor que os
cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo, de sorte que
para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o Pão
que partimos é uma participação do Corpo de Cristo; e o de
igual modo o Cálice de Bênção é uma participação do Sangue
de Cristo. [...] O corpo de Cristo é dado, tomado, e comido na
Ceia, somente dum modo celeste e espiritual. E o meio pelo
qual o corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a Fé.
As igrejas evangélicas congregacionais do Brasil adotaram como síntese doutrinária os 28 artigos da “Breve exposição das doutrinas fundamentais do cristianismo” (CONGREGACIONAIS, 2007), lavrados pelo Dr. Robert Reid Kalley e
aprovados em 2 de julho de 1876. O artigo 26 – Da Ceia do
Senhor – afirma o seguinte:
Na Ceia do Senhor foi instituída pelo Senhor Jesus Cristo, o
pão e o vinho representam vivamente ao coração do crente o
corpo que foi morto e o sangue derramado no calvário; participar do pão e do vinho representa o fato de que a alma recebeu
seu Salvador. O crente faz isso em memória do Senhor [...]
(CONGREGACIONAIS, 2007).
Após pesquisas mais detalhadas, temos, no entanto, observado a forte influência da teologia eucarística zwingliana em grande parte das igrejas reformadas, pentecostais e neopentecostais.
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Klein (2005, p. 262) apresenta em seu livro Os sacramentos na tradição reformada um capítulo dedicado à influência da
teologia sacramental zwingliana em denominações presbiterianas brasileiras. Após uma pesquisa realizada nos principais seminários ligados a essas denominações, Klein (2005, p. 262)
concluiu:
Uma certa bipolarização na concepção dos sacramentos parece
fazer parte da mentalidade protestante brasileira, mesmo dos
intelectuais. [...] A pesquisa de campo mostrou que a concepção sacramental zwingliana predomina fortemente no presbiterianismo brasileiro.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que nos é apresentado, tornam-se evidentes
“ecos” do cisma iniciado pela controvérsia entre os reformadores nas igrejas evangélicas da atualidade, percebemos, no entanto, que a Santa Ceia deixou de ser tema central nestas. Além
da indecisão e incoerência apresentadas nas respostas dadas à
pesquisa feita, podemos também ter como base para essa afirmação a acentuada migração dos evangélicos para as mais variadas denominações.
Rezende (2007, p. 10) comenta a respeito da mobilidade
religiosa no Brasil, com base na pesquisa realizada pelo Centro
de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais (Ceris) em
2004, segundo o qual, entre os evangélicos históricos2 que migraram de suas igrejas, 21,3% continuaram em outras denominações evangélicas históricas, enquanto 50,7% destes migraram para igrejas evangélicas pentecostais3. Em se tratando dos
evangélicos pentecostais que migraram de suas igrejas, 40,8%
continuaram em outras denominações pentecostais e 40,2% migraram para o evangelismo histórico. Com relação à visão de
2
3
O Ceris considera como Evangélico Histórico as seguintes denominações: Adventista do 7º dia,
Batista, Presbiteriana e Luterana.
O Ceris considera como Evangélico Pentecostal as seguintes denominações: Assembléia de Deus,
Cristã do Brasil, Deus é Amor, Quadrangular, Internacional da Graça de Deus, Universal do Reino de
Deus, O Brasil para Cristo e Pentecostal.
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Santa Ceia, a impressão que temos é que tanto faz para o cristão evangélico ser de qualquer denominação, até mesmo porque a Santa Ceia tornou-se um assunto tão pouco pregado na
atualidade, e para muitos ela é vista como um simples ritual.
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