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levantamento florístico dos quintais agroflorestais do pds virola
LEVANTAMENTO FLORÍSTICO DOS QUINTAIS AGROFLORESTAIS DO PDS
VIROLA JATOBÁ EM ANAPÚ, PARÁ
Orlando Figueiredo Junior1, Márcia Orie de Sousa Hamada2, Onassis de Pablo Santos
de Souza3, Roberley Fontenele Correa3
1.Acadêmico do Curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Pará,
Campus de Altamira ([email protected])
2. Doutora, Docente da Universidade Federal do Pará
3.Acadêmico do Curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Pará
Universidade Federal do Pará, Altamira, Brasil
Recebido em: 30/09/2013 – Aprovado em: 08/11/2013 – Publicado em: 01/12/2013
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo caracterizar a estrutura e a composição florística dos
quintais agroflorestais de 15 propriedades no Projeto de Desenvolvimento Sustentável
Virola-Jatobá no município de Anapú/PA. O levantamento em campo constituiu no
preenchimento de questionários semiestruturados in loco. Foi feita a avaliação da
cobertura vegetal através da coleta de dados quantitativos realizando-se o censo de
todos os indivíduos vegetais cujo uso fora atribuído pelo proprietário do quintal. A
finalidade de uso da espécie foi classificada dentro das seguintes categorias:
alimentícia, medicinal, ornamental e outros usos. A diversidade florística em cada
quintal foi estimada empregando-se o Índice de Shannon Weaver. Verificou-se também
a equitabilidade por meio do índice de Índice de Pielou e a análise de similaridade
florística foi feita por meio do índice de Jaccard. De modo geral, fica constatado a
importância dos quintais agroflorestais, no PDS Virola-Jatobá, na garantia da
alimentação das famílias, mas exercendo não apenas um papel de cunho alimentício,
mas também social e ambiental.
PALAVRAS-CHAVE: Similaridade, diversidade, segurança alimentar.
FLORISTIC SURVEY OF HOMEGARDENS IN THE PDS VIROLA JATOBÁ ANAPU,
PARÁ
ABSTRACT
This study aimed to characterize the structure and floristic composition of homegardens
15 properties in Sustainable Development Project - Virola Jatobá in the municipality of
Anapu, PA. The field survey consisted of semi-structured questionnaires to fill the spot.
Was assessed vegetation cover through the collection of quantitative data by carrying
out a census of all individuals assigned outside plant whose use by the owner of the
yard. The intended use of the species assigned by the owner of the yard was classified
into the following categories: food, medicinal, ornamental and other uses. The floristic
diversity in each yard was estimated employing the Shannon Weaver index. It was also
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evenness index by index and evenness flora similarity analysis was performed using the
Jaccard index. Generally becomes clear the importance of homegardens in - PDS Virola
Jatoba, in ensuring the family's food, but not just exercising a role of food stamp, but of
social and environmental.
KEYWORDS: Similarity, diversity, food security.
INTRODUÇÃO
Os quintais agroflorestais são uma das formas mais antigas de uso da terra,
consiste no cultivo de espécies arbóreas, geralmente frutíferas, e espécies agrícolas ao
redor da residência, proporcionando inúmeros benefícios, pois podem ser utilizados
para subsistência da família ou venda no mercado local, além de gerar uma “certa
qualidade de vida” pela sombra de espécies arbóreas cultivadas. Segundo NODA et al.,
(2001) quintal agroflorestal é um subsistema de uso da terra que envolve o manejo de
árvores, arbustos e ervas de usos múltiplos intimamente associados a cultivos agrícolas
anuais e perenes e à criação de animais domésticos de pequeno porte, sendo o
conjunto intensivamente manejado pela mão de obra familiar.
Os quintais, na vida dos pequenos agricultores, também acabam funcionando
como uma “pequena farmácia”, pois é neles que são cultivadas as espécies medicinais
que a família mais utiliza. FERREIRA & PIRES (2009) em seu estudo sobre espécies
medicinais nos quintais agroflorestais na comunidade Vila Franca na Reserva
Extrativista Tapajós-Arapiuns afirma que o cultivo de espécies medicinais é feito
especialmente para suprir a demanda da família, a troca e doação para parentes,
vizinhos e amigos.
Diferente de outras formas de cultivos, os quintais agroflorestais perduram no
tempo, por constituírem uma grande variedade de utilizações. Ao mesmo tempo em que
são utilizados para subsistência da família, podem ser tidos como uma grande fonte de
renda. NAIR (2006) considera os quintais um “mistério econômico”, já que, mesmo com
a economia neoclássica de superioridade de mercado apontando que um
empreendimento só será levado adiante por motivo de lucro, os quintais prosperam há
longo tempo tendo como função básica a subsistência.
Por outro lado, os quintais não conservam apenas recursos vegetais, mas a
identidade cultural da família, através dos tipos de espécies e da forma como são
cultivadas, e é neles que são desenvolvidas as atividades de lazer da família. Segundo
AMOROZO (1996), o quintal é o local onde se cultivam as espécies de uso comum e
também aquelas obtidas de outras localidades; plantas e receitas são trocadas
livremente entre vizinhos e parentes quando há necessidade, reforçando, desta forma,
laços sociais e contribuindo para o consenso cultural.
Segundo GEERTZ (2000) os quintais são espaços repletos de um saber local, de
conservação e manutenção dos aspectos mais peculiares que a população traduz em
seu cotidiano, mostrando a adaptabilidade humana que se manifesta muitas vezes, por
meio do conhecimento recebido dos ancestrais e perpetuado ao longo do tempo,
espaço e lugar.
De acordo com AMORIN & FREITAS (2012) quintais são criadores de espaços
diferenciados, portadores de uma biodiversidade cultural, onde possui trabalho
territorializado, nexo do trabalho familiar e sua cultura.
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Para CLEMENT et al., (2001) os quintais amazônicos representam um
intercâmbio de material genético que associa a diversidade contida nos ecossistemas
naturais às tradições das populações humanas locais.
Os quintais agroflorestais, não propiciam apenas serviços econômicos e sociais,
mas também serviços ambientais, por contribuírem para a manutenção do ecossistema,
diminuindo as chances de degradação da área. PASA (2004) afirma a importância dos
quintais, especialmente através da produção hortifrutífera, pois esta permite à
população manter uma baixa dependência de produtos adquiridos externamente,
ocasiona impactos mínimos sobre o ambiente, conserva os recursos vegetais e a
riqueza cultural, fundamentada no saber e cultura dos moradores locais, utiliza os
insumos naturais, promovendo a reciclagem de elementos naturais.
É a partir desta ótica que o presente trabalho tem por objetivo caracterizar a
estrutura e a composição florística dos quintais agroflorestais de 15 propriedades no
Projeto de Desenvolvimento Sustentável Virola-Jatobá no município de Anapu, PA.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi realizado em 15 propriedades localizadas na área do Projeto de
Desenvolvimento Sustentável (PDS) Virola-jatobá, criado em 2002 através da
Portaria/INCRA/SR-01(1)/Nº39/2002, de 13 de novembro de 2002, contando com uma
área de 32.345 ha, localizado no município de Anapu, sudoeste do Estado do Pará,
situado à Rodovia BR 230 Transamazônica, Km 120, norte (Gleba Belo Monte) nas
coordenadas geográficas 03º04' 58'' S de latitude e 51º23'11'' W de longitude (Figura 1).
Brasil
Município de
Anapú
PDS Virola Jatobá
FIGURA 1 - Mapa de localização do PDS Virola Jatobá no município de Anapú/PA.
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O levantamento em campo constituiu no preenchimento de questionários
semiestruturados in loco. Foi feita a avaliação da cobertura vegetal através da coleta de
dados quantitativos realizando-se o censo de todos os indivíduos vegetais cujo uso fora
atribuído pelo proprietário do quintal.
A identificação das espécies vegetais foi feita em campo e/ou coletando-se
amostras e fotografando os exemplares para posterior consulta à bibliografia
especializada. Sempre que possível procurou-se inferir sobre as espécies cultivadas em
outras épocas do ano e ausentes na ocasião da visita para registrar o maior número de
espécies que fazem parte do ano agrícola do quintal e da diversidade total.
Os espécimes incluídos no inventário foram classificados em famílias, de acordo
com o sensu Angiosperm Phylogeny Group II (APG II, 2003), para verificação dos
binômios, autores corretos e família. Para evitar possíveis confusões botânicas foi
utilizado o banco de dados do Missouri Botanical Garden (MOBOT, 2011) e a
confirmação das espécies foram realizadas através de consulta ao site Lista de
Espécies da Flora do Brasil (FORZZA et al., 2010).
A finalidade de uso da espécie atribuída pelo proprietário do quintal foi
classificada dentro das seguintes categorias: alimentícia, medicinal, ornamental e outros
usos.
A diversidade florística em cada quintal foi estimada empregando-se o Índice de
Shannon Weaver calculado pela fórmula H’ = - Σpi ln pi, na qual pi é a proporção entre
o número de indivíduos da espécie (ni) e o número total de indivíduos amostrados (N).
Quanto maior o valor do índice de Shannon Weaver maior será a diversidade da área
em estudo.
Verificou-se também a equitabilidade por meio do índice de Índice de Pielou (J),
calculado por J = H’/H’max, em que H’ é o Índice de Shannon e H’max o logaritmo
neperiano do número de espécies amostradas.
A análise de similaridade florística foi feita por meio do índice de Jaccard, que
segundo FERREIRA JUNIOR et al., (2008) expressa a semelhança entre ambientes,
baseando-se no número de espécies comuns. O índice de Jaccard considera o número
de espécies comuns entre duas áreas (a) e o número de espécies exclusivas de cada
área (b, c): IJ = a/a + b + c (VALENTIM, 2000).
A partir do cálculo da frequência e da abundância de cada espécie foi estimado
um Índice de Valor de Preferência (IVP), pela fórmula IVP% = Abu% + Fre%, que
fornece uma indicação do grau de importância e utilidade daquela espécie para o
proprietário do quintal, conforme metodologia proposta por SEMEDO & BARBOSA
(2007).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os agricultores entrevistados são oriundos de diversos estados, somente dois
são nascidos no Pará, possuem uma faixa etária que varia entre 23 e 68 anos. O nível
de escolaridade desses agricultores é baixo, variando do analfabetismo até o ensino
fundamental completo (apenas dois), sendo que seis dos 15 entrevistados sabiam
apenas escrever o nome.
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Os quintais levantados apresentaram diversos tamanhos, variando de 0,0785 a
1,0710 hectare, que de acordo com GAZEL FILHO (2008) o tamanho dos quintais é
muito variável, desde poucos metros até 5,0 ha.
Nas propriedades visitadas foram observados nos quintais agroflorestais 831
indivíduos pertencentes a 55 espécies, 49 gêneros e 29 famílias (Tabela 1). As
espécies com maior número de indivíduos foram o cacau, manga e coco,
respectivamente.
TABELA 1. Espécies encontradas por família com o respectivo uso.
Família/Nome científico
Nome Vernacular
Nº de
ind.
Uso
Anacardiaceae
Anacardium occidentale L.
Mangifera indica L.
Cajú
Manga
60
87
Alimentícia
Alimentícia
Graviola
20
Alimentícia
Biribá
1
Alimentícia
Bactris gasipaes Kunth
Pupunha
4
Alimentícia
Cocos nucifera L.
Coco
85
Alimentícia
Euterpe oleracea Mart.
Açaí
17
Alimentícia
Mauritia flexuosa L.f.
Buriti
4
Alimentícia
Oenocarpus bacaba Mart.
Bacaba
6
Alimentícia
Babaçu
23
Ornamental
Para-pará
2
Ornamental
Tabebuia sp.
Bixaceae
Ipê
4
Ornamental
Bixa orellana L.
Bombacaceae
Urucun
19
Ornamental
Sumaúma
1
Ornamental
Ananas comosus (L.) Merr.
Caricaceae
Abacaxi
81
Alimentícea
Carica sp.
Chrysobalanaceae
Mamão
1
Alimentícea
Licania tomentosa (Benth.) Fritsch
Combretaceae
Oiti
3
Ornamental
Terminalia catappa L.
Euphorbiaceae
Castanhola
1
Ornamental
Hevea brasiliensis (Willd. ex A.Juss.) Müll.Arg.
Fabaceae
Seringueira
2
Ornamental
Juca
1
Ornamental
Annonaceae
Annona muricata L.
Rollinia mucosa (Jacq.) Baill
Arecaceae
Orrbignya speciosa Mart.
Bignoniaceae
Jacaranda copaia (Aubl.) D.Don
Ceiba pentandra (L.) Gaertn.
Bromeliaceae
Caesalpinia Ferrea Mart.
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Caesalpinia echinata Lam.
Pau brasil
1
Ornamental
Cenostigma tocantinum Ducke
Pau preto
4
Ornamental
Inga sp.
Tamarindus indica L.
Ingá
Tamarinda
1
4
Alimentícia
Ornamental
Vouacapoua americana Aubl.
Acapu
1
Ornamental
Inga sp.
Lauraceae
Ingá
5
Alimentícia
Persea americana Mill.
Lecythidaceae
Abacate
4
Alimentícia
Bertholletia excelsa Bonpl.
Malpighiaceae
Castanha do Pará
1
Alimentícia
Acerola
32
Alimentícia
Cacau
121
Alimentícia
Cupuaçú
51
Alimentícia
Cedrela sp. 1
Cedro-rosa
3
Ornamental
Cedrela sp. 2
Cedro Vermelho
32
Ornamental
Carapa guianensis Aubl.
Andiroba
5
Medicinal
Mogno
5
Ornamental
Artocarpus heterophyllus Lam.
Jaca
12
Alimentícia
Bagassa guianensis Aubl.
Ficus sp.
Tatajuba
Ficus
1
1
Ornamental
Ornamental
Banana
22
Alimentícia
Myrciaria cauliflora (DC.) O. Berg
Jabuticaba
5
Alimentícia
Psidium guajava L.
Malpighia sp.
Malvaceae
Theobroma cacao L.
Theobroma grandiflorum (Willd. ex Spreng.) K.Schum.
Meliaceae
Swietenia macrophylla King
Moraceae
Musaceae
Musa sp.
Myrtaceae
Goiaba
25
Alimentícia
Syzygium sp.
Oxalidaceae
Jambre
7
Alimentícia
Averhoa carambola L.
Passifloraceae
Carambola
1
Alimentícia
Passiflora sp.
Polygonaceae
Maracujá
2
Alimentícia
Taxi
1
Ornamental
Prunus sp.
Rubiaceae
Ameixa
3
Alimentícia
Morinda citrifolia L.
Rutaceae
Noni
1
Alimentícia
Triplaris surinamensis Chan.
Rosaceas
Citrus sp. 1
Laranja
39
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Alimentícia
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Citrus sp. 2
Limão
9
Alimentícia
Citrus sp. 3
Poncan
1
Alimentícia
Citrus sp. 4
Citrus sp. 5
Sapindáceae
Mexirica
Tangirina
1
3
Alimentícia
Alimentícia
Paullinia cupana Kunth
Simaroubaceae
Guaraná
3
Alimentícia
Simarouba amara Aubl.
Verbenaceae
Marupá
1
Ornamental
Teca
1
Ornamental
Tectona grandis L. f.
A família com maior número de indivíduos foi a Malvaceae, Anacardiaceae e
Arecaceae (Figura 2)
FIGURA 2 - Número de indivíduos por família.
Quanto à família Malvaceae, o cacau e o cupu foram as espécies representativas
sendo o cacau o que apresentou o maior IVP (19,9661), em função do grande número
de indivíduos e da ocorrência em oito das propriedades avaliadas.
Quanto a Anacardiaceae apenas duas espécies contribuíram para que
apresentasse o maior número de indivíduos: a manga e o caju, esta mesma situação foi
identificada por PINHO (2008), mas diferente do observado nesse trabalho, onde a
produção da manga e do caju eram destinadas para comercialização, nos quintais
analisados no PDS Virola Jatobá estas espécies são destinadas apenas a subsistência
da família.
A manga e o caju foram, respectivamente, a segunda (19,2531) e a quarta
espécie (14,6526) com maior Índice de Valor de Preferência – IVP.
Em relação à Arecaceae as espécies mais representativas desta família foram o
coco, com o terceiro (16,9854) maior IVP, e o açaí. Vieira, Rosa e Santos (2012) em
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seu trabalho sobre quintais identificam estas duas espécies como as palmeiras mais
frequentes, sendo objeto de autoconsumo e comercialização, o que difere em parte no
constatado neste trabalho, sendo a produção destas espécies direcionada apenas ao
autoconsumo.
Em geral as espécies frutíferas representam 86,04% da população total
amostrada, o que indica a preferência dos pequenos produtores pelo cultivo de
frutíferas.
Para SAVIERO et al., (2011) estas espécies são responsáveis por garantir a
qualidade da alimentação da família. Esta é uma situação que foi comprovada no
presente estudo, onde identificou-se que dos 15 quintais visitados apenas um possuía
renda de aproximadamente 5 mil reais, as demais famílias entrevistadas informaram
possuir renda de aproximadamente um salário mais o recurso gerado pelo manejo
comunitário do PDS. Todos os quintais avaliados funcionam, tão somente, como fonte
de alimento e de lazer, confirmando isso, que a produção de 93% das propriedades
avaliadas, são destinadas à subsistência, o que explica a alta porcentagem de frutíferas
cultivadas nos quintais.
Nessa mesma visão TRINDADE, REBELLO & CATTO (2010) afirmam que no
contexto da realidade amazônica, os quintais agroflorestais permitem que as
populações locais obtenham fontes importantes de nutrientes para sua segurança
alimentar, principalmente a partir dos alimentos ricos em proteínas, vitaminas e sais
minerais, para complementar o de poder calórico produzido na roça. Percebe-se, no
presente estudo, que a função dos quintais agroflorestais está representada
principalmente pela produção de alimentos para autoconsumo, funcionando como
importante fonte de nutrientes.
A importância dos quintais no PDS Virola Jatobá não se evidencia apenas pela
base alimentar fornecida, mas pelo sombreamento ao redor da moradia e espaço de
cultura e lazer, exercendo função sociocultural. As espécies ornamentais correspondem
a 13,35% do total de indivíduos observados e as medicinais apenas 0,6%, tendo a
andiroba como única espécie representante.
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FIGURA 3 - Porcentagem por tipo de uso das espécies
encontradas nos quintais do PDS Virola
Jatobá.
O Índice de Shannon Weaver encontrado para o local foi 3,03 o que demonstra
uma alta diversidade de espécies. MACHADO et al., (2005) estudando seis sistemas
agroflorestais em assentamentos rurais na Bahia, encontraram intervalo para o índice
de Shannon-Wiener de 1,47 a 2,39. Nos quintais de Bonito, PA estudados por VIEIRA,
ROSA & SANTOS (2012) foi identificado uma diversidade média de 2,21. PINHO (2008)
encontrou em quintais agroflorestais indígenas em Roraima Índice de Shannon médio
de 0,87. Este índice expressa a riqueza de uma amostra ou comunidade e assume que
todas as espécies estão representadas, seu valor encontra-se entre 1,5 e 3,5, embora
casos excepcionais possam exceder a 4,5 (REZENDE, 2002). O índice apresentará
valor máximo quando cada indivíduo pertencer a uma espécie distinta.
GLIESSMAN (2001) aponta que ecossistemas naturais relativamente
diversificados apresentam índice de diversidade de Shannon entre 3 e 4, o que indica
que o índice encontrado para a área amostrada denota alta diversidade, equiparandose a estes ecossistemas mencionados pelo autor. LIMA et al., (2000) afirmaram que
índices elevados em geral relacionam áreas relativamente bem conservadas
associadas a populações com significativo conhecimento etnobotânico.
GOMES (2010) sugere que fatores socioeconômicos e culturais possam
influenciar tanto na diversidade destes sistemas como na sua simplificação. A afirmação
deste autor evidencia um aspecto contribuinte para a alta diversidade, o fator
socioeconômico, pois as áreas avaliadas se tratam de pequenas propriedades, com
tamanho não superior a 100 hectares, que em sua maioria, realizam agricultura de
subsistência, sendo claro, a necessidade de alta variedade, já que os quintais
funcionam como garantia alimentar.
Quanto ao índice de Pielou o valor encontrado foi 0,76, inferior ao encontrado por
VIEIRA, ROSA & SANTOS (2012) que foi 0,85. PAULA (2010) em seu trabalho obteve
o valor 0,88 interpretando como uma distribuição heterogênea das espécies, sem
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dominância entre elas. Conforme ARRUDA & DANIEL (2007), este índice varia de 0 a
1, quanto mais próximo de 1, melhor a distribuição entre o número de indivíduos por
espécies.
O valor encontrado quando comparado aos autores citados, demonstra
distribuição pouco regular entre o número de indivíduos por espécie. Esta situação
pode ser explicada pelo fato de 86,7% dos indivíduos amostrados concentrarem-se em
apenas 16 espécies das 55 encontradas. As 39 espécies restantes estão
representadas, cada, com menos de 10 indivíduos. Ainda contribuindo para a
constatação de tal fato, temos 17 espécies representadas apenas com um indivíduo
cada.
Quanto ao índice de similaridade de Jaccard, o menor foi zero e o maior 0,6.
MOTA (2007) fala que o índice de similaridade de Jaccard raramente atinge valores
acima de 60% e deve ser superior a 25% para que duas formações florestais sejam
consideradas similares.
O maior índice ocorreu entre a 1ª e a 6ª propriedade visitada e a total ausência
de similaridade ocorreu entre os quintais das 2ª e 4ª propriedade, 4ª e 13ª. Apenas 27
pares de quintais apresentaram similaridade igual ou superior a 0,25, porém, inferior a
0,4, sendo estes os maiores valores após o índice encontrado para a combinação entre
a 3ª e 6ª propriedade.
FABRICANTE (2007) afirma que alta similaridade é considerada em geral acima
de 50%. No presente trabalho verificou-se que 78 pares de quintais apresentaram
similaridade inferior a 25% e a média ficou em 18,67%, o que revela, segundo a
literatura citada, ausência de similaridade. Os baixos valores de similaridade se devem,
provavelmente, a grande variedade e dispersão das espécies. Esses dados mostram,
também, que a proximidade entre os quintais não influenciou na similaridade destes
sistemas através das redes de troca entre os moradores, como proposto por GOMES
(2010).
CONCLUSÕES
Com os dados obtidos observou-se que os quintais apresentaram uma
similaridade média de 18,67%, com uma alta diversidade (H’= 3,03) e dispersão de
espécies.
De modo geral, fica constatado a importância dos quintais agroflorestais, no PDS
Virola-Jatobá, na garantia da alimentação da família, mas exercendo não apenas um
papel de cunho alimentício, mas também social e ambiental.
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