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Aproximando pedagogias e conceitos : habitus de Bourdieu e
Aproximando pedagogias e conceitos : habitus de Bourdieu
e esquemas de ação de Piaget na Pedagogia da Performance Musical
João Batista Sartor1
UNIRIO/PPGM – Doutorado em Música
SIMPOM: Teoria e Prática da Execução Musical
[email protected]
Resumo: Este artigo versa sobre a escolha entre os conceitos de habitus de Bourdieu ou
esquemas de ação de Piaget e a sua aplicabilidade em estudos sobre epistemologia da prática do
ensino e Pedagogia da Performance Musical. Estes conceitos foram indicados por importantes
pesquisadores em Educação nas abordagens dos saberes, competências e prática reflexiva. Se o
conceito de habitus for escolhido, a pesquisa terá um viés sociológico, estudando o jogo interativo
entre as forças e os fenômenos subjetivos e sociais. Como se opta pelo conceito de esquemas de
ação pedagógicos, a pesquisa possibilitará evidenciar a ação pedagógica dos professores e o seu
conhecimento prático.
Palavras-chave: Habitus de Bourdieu; Esquemas de ação de Piaget; Educação Musical;
Pedagogia da Performance Musical; epistemologia da prática do ensino.
Approaching pedagogies: Bourdieu’s Habitus or Piaget’s Action Schemes in Music
Performance Pedagogy
Abstract: This article deals with the choice between the concepts of Bourdieu’s Habitus or
Piaget’s Action Schemes and its applicability in research towards epistemology of teaching
practice and Performance Pedagogy in Music. These concepts were indicated for important
researchers in Education in the approaches of knowledge, skills and reflective practice. As the
pedagogical action schemes' concept has been chosen, this research will evidence the music
teachers' pedagogical actions and their practical knowledge.
Keywords: Bourdieu’s Habitus; Piaget’s Action Schemes; Music Education; Performance
Pedagogy in Music; Epistemology of Teaching Practice.
Introdução
Como os professores ensinam os seus alunos a tocar um instrumento musical2?
Estas práticas pedagógicas são relevantes e passíveis de serem anotadas, analisadas e
1
Orientador: Professor Dr. Sérgio Azra Barrenechea.
Inclui-se ao ensino de um instrumento musical ou performance musical o canto e outras variações em que o
corpo é o próprio instrumento, como a percussão corporal.
2
1077
compartilhadas? Não seriam elas os “procedimentos, técnicas, macetes, sugestões, conselhos,
possibilidades, soluções típicas, estratégias viáveis" empregadas ao longo dos anos no ensinoaprendizagem de um instrumento musical (TARDIF, 2011, p. 159)? Seria possível reduzir
todos estes termos a um conceito comum?
Ao buscar estas respostas de uma maneira mais ampla entre os educadores,
despontaram algumas abordagens atuais que se fundamentam na epistemologia da prática
docente. Além de uma valorização da formação profissional do professor, estas abordagens
intentam uma aproximação entre teoria e prática e possibilitam a “construção de
conhecimentos por parte dos professores a partir da análise crítica (teórica) das práticas e da
ressignificação das teorias a partir dos conhecimentos da prática (práxis)” (PIMENTA, 2012,
p. 51). Estas abordagens incluem, entre outras, os estudos sobre saberes docentes,
competências profissionais e professor reflexivo e elas exercem uma grande influência na
Educação dos países da Europa e Américas, incluindo o Brasil, e se difundiram a partir da
década de 1980 (Araújo, 2005). A partir do estudo destas abordagens, dois conceitos se
mostraram claramente condizentes com as questões colocadas acima e têm sido utilizados por
importantes pesquisadores em Educação. Ambos os conceitos se entrelaçam e por vezes se
confundem e provém de áreas distintas: o conceito de habitus, renovado principalmente pelo
filósofo e sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), e o conceito de esquemas de ação,
formulado pelo psicólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget (1896-1980).
O educador Tardif3 (2011, p. 49) argumenta que habitus são “certas disposições
adquiridas na e pela prática real”. Trazendo esta definição para o que concerne à Educação, o
exercício diário da docência exige “improvisação e habilidade pessoal, bem como a
capacidade de enfrentar situações [...] transitórias e variáveis”, num “contexto de múltiplas
interações”. Desta forma:
Os habitus podem transformar-se num estilo de ensino, em ‘macetes’ da profissão e
até mesmo em traços da ‘personalidade profissional’: eles se manifestam, então,
através de um ‘saber-ser’ e um ‘saber-fazer’ pessoais e profissionais validados pelo
trabalho cotidiano (2011, p. 49).
Ao relacionar a “educação enquanto arte” como uma das possibilidades de
concepções de prática em educação, Tardif (2011, p. 154-161) aproxima a atividade do
educador com a do artesão, que apresenta paralelos significativos no ensino da performance
3
Maurice Tardif é professor titular da Universidade de Montreal, é filósofo e sociólogo de formação e uma
referência mundial na área dos saberes e da formação profissional do professor.
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musical. “Enquanto atividade específica, a arte se baseia em disposições e habilidades
naturais, em habitus específicos, ou seja, em disposições desenvolvidas e confirmadas pela
prática e pela experiência de uma arte específica” (2011, p. 157). Neste caso, educador e
artesão analogamente desenvolvem: “ideias” a partir de objetivos práticos, “conhecimentos e
saberes” sobre o material trabalhado, “receitas” comprovadas pela sua arte, “habilidades
individuais” e, por último, a “tradição e a experiência”, “fonte de bons hábitos, isto é, de
‘maneiras-de-fazer’, de ‘truques’, de ‘maneiras-de-proceder’ comprovadas pelo tempo e pelos
êxitos sucessivos” (2011, p. 159).
No seu texto, Tardif se questiona sobre o conteúdo e a forma de validação de
pesquisas sobre os saberes práticos dos docentes, que são análogas e ao mesmo tempo
elucidativas às questões deste artigo:
Os profissionais de ensino desenvolvem e/ou produzem realmente ‘saberes’
oriundos de sua prática? Se a resposta é positiva, por que, quando, como de que
forma? Trata-se realmente de ‘saberes’? Não seriam, antes, crenças, certezas sem
fundamentos, habitus, no sentido de Bourdieu, ou esquemas de ação e de
pensamento interiorizados durante a socialização profissional e até
no transcorrer
da história escolar ou familiar dos professores...? Se se trata realmente de ‘saberes’,
como chegar até eles? Bastaria interrogar os professores? [...] Seria preferível
observá-los? O que se deve observar, exatamente? [...] Não temos respostas prontas
para essas perguntas, mas mesmo assim elas merecem ser feitas [...] Precisamos de
ferramentas conceituais e metodológicas para guiar nossos esforços na compreensão
do que são as interações de diversas fontes na cabeça e nas ações dos educadores.
(2011, p. 184-185).
Transpondo para a realidade deste estudo, surgem estas questões: os habitus e os
esquemas de ação são realmente relevantes na prática destes professores e é oportuno
pesquisá-los? Tardif sugere:
O ‘saber-ensinar-na-ação’ supõe um conjunto de saberes e, portanto, um conjunto
de competências diferenciadas. Para ensinar, o professor deve ser capaz de assimilar
uma tradição pedagógica que se manifesta através de hábitos, rotinas e truques do
ofício; deve possuir uma competência cultural oriunda da cultura comum e dos
saberes cotidianos que partilha com seus alunos, deve ser capaz de argumentar e de
defender um ponto de vista; deve ser capaz de se expressar com certa autenticidade,
diante de seus alunos. (TARDIF, 2011, p. 178, grifo nosso).
O educador Perrenoud
4
complementa, ressaltando o estudo das ações do
professor:
4
Philippe Perrenoud é professor da Universidade de Genebra. Ele é referência mundial em pesquisas sobre o
ensino das competências e da formação profissional dos professores.
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É possível estudar as concepções e conhecimentos pedagógicos explícitos de um
professor, mas também pode-se estudar o que ele faz realmente ao agir. [...] O
professor possui competências, regras, recursos que são incorporados ao seu
trabalho, mas sem que ele tenha, necessariamente, consciência explícita disso. O
saber fazer parece ser mais amplo que o seu conhecimento discursivo.
(PERRENOUD, 2013, p. 213).
Perrenoud cita a definição de esquemas de ação que consta no livro Biologia e
conhecimento5 de Piaget e afirma que “a competência apresenta todas as características” de
esquemas de ação (2013, p. 51). Ele aponta similaridades entre os conceitos de Piaget e de
habitus de Bourdieu, conectando-os à sua abordagem das competências:
Poderíamos falar sobre a existência de um ‘macroesquema’ para designar aquilo que
fundamenta a colocação em sinergia, a coordenação, a orquestração de
conhecimentos, as habilidades, as atitudes, os valores que asseguram a ‘escolha’ do
curso da ação que melhor convém à situação. Coloco o termo ‘escolha’ entre aspas,
pois a competência permite uma forma de pilotagem automática e o ator, em casos
extremos, se vê agir ‘naturalmente’, do modo que Bourdieu denominaria ‘a ilusão da
espontaneidade’. Trata-se da ação exprimindo o hábito, isto é, um conjunto
de
esquemas parcialmente inconscientes (o inconsciente prático de Piaget) ou prérefletidos que funcionam ‘no estado prático’. [...] Isso não significa que o agir
competente parcialmente automatizado prescinda totalmente da consciência e da
decisão. Eu diria que a rotinização de uma parte do funcionamento intelectual e
corporal permite que o ator concentre a reflexão e a deliberação interna em
relação aos aspectos singulares da situação, [...] àquilo que exige uma adaptação ou
uma diferenciação da trama, incluindo também a busca de determinados novos
recursos. (PERRENOUD, 2013, p. 52).
A argumentação de Perrenoud sobre “esquemas pré-refletidos”, “reflexão” e
“rotinização”, abre espaço para a discussão sobre outra temática importante, a do “professor
reflexivo”, que também coloca significativa importância nas ações e hábitos dos professores.
O educador Schön6 (2000, p. 32-36) sugere que a atividade profissional do ensino pode ser
desenvolvida através de três partes fundamentais: o “conhecimento na ação, a reflexão na
ação e a reflexão sobre a ação”. A primeira refere-se ao “saber-fazer”, aos “juízos e
habilidades” que o professor é capaz de realizar na ação. Em algumas ocasiões em que um
fator momentâneo pode interferir em alguma atividade rotineira, o professor pode reorientar a
sua ação mediante a reflexão no momento em que a ação ocorre, ou mais adiante com a
reflexão sobre a ação ocorrida. Esse conceito permite ao educador analisar a sua prática a fim
de entendê-la e reconstruí-la, baseada na reflexão sobre suas ações. Analisar as ações dos
professores de instrumento musical é tarefa similar que o próprio Schön se propôs ao
5
6
Esta citação de Piaget que Perrenoud se refere é citada mais adiante neste artigo (página 7).
Donal Schön (1930-1997) foi pedagogo e professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusets).
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descrever uma Master Class em performance musical, exemplificando a sua visão do papel
do professor na tripla tarefa de instrução como um prático reflexivo (2000, p. 138-162). O
educador Gimeno Sacristán 7 (2012, p. 102), em sintonia com a abordagem reflexiva,
complementa:
A formação do professor deve considerar o significado do que P. Bourdieu discutiu
há muito tempo, o habitus, como forma de integração entre o mundo das
instituições e o mundo das pessoas. O habitus em educação é mais importante do
que a ciência e do que os motivos. O habitus é cultura, é costume, é
conservadorismo, mas é, também, continuidade social e, como tal, pode produzir
outras práticas diferentes das existentes.
1. Habitus
O conceito de habitus apresenta uma longa gênese. “Habitus é uma noção
filosófica antiga, originada no pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.) e na Escolástica8
medieval, que foi recuperada e retrabalhada a partir da década de 1960, pelo sociólogo Pierre
Bourdieu” (WACQUANT, 2007, p. 64). Aristóteles, argumentando sobre a virtude, definiu
hexis como “um estado adquirido e firmemente estabelecido do caráter moral que orienta
nossos sentimentos e desejos em uma situação e, como tal, a nossa conduta” (2007, p. 65).
Mais tarde, esta noção grega foi traduzida e expandida para o latim pela definição de habitus
de São Tomás de Aquino (1225-1274), conforme a tradição Escolástica, significando a
“capacidade para crescer por meio da atividade, ou disposição durável suspensa a meio
caminho entre potência e ação propositada” (2007, p. 65). Já no limiar do século XX, o
sociólogo Émile Durkheim (1858-1917) conecta habitus à educação e outros inúmeros
pensadores, entre eles Max Weber (1864-1920) e Edmund Husserl (1859-1938), se utilizaram
deste conceito (SETTON, 2002, p. 61). Porém, é nos estudos de Bourdieu que se encontra a
mais importante renovação do conceito:
Habitus é um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas
as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de
percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas
infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas.
(BOURDIEU, 1983, p. 65).
7
Gimeno Sacristán é professor e pedagogo da Universidade de Valência, Espanha.
A Escolástica, pensamento cristão dominante nas universidades medievais europeias entre os séculos XI e XIV,
visava conciliar a fé cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega
(SPINELLI, 2013).
8
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A abordagem de Bourdieu é considerada inovadora porque rompe com a
dualidade entre sujeito e sociedade, entre subjetivo e objetivo, compatibilizando o
contrassenso aparente entre a realidade exterior e as realidades pessoais expressando a “troca
constante e recíproca específica entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo das
individualidades” (SETTON, 2002, p. 63). Bourdieu revela um processo dialético entre
indivíduo e sociedade ou um “duplo processo de interiorização da exterioridade e
exteriorização da interioridade” (BOURDIEU, 1983, p. 47). O habitus é, sobretudo, um
conjunto de “esquemas de percepção, apreciação e ação”, precisamente assimilados, que são
estimulados ou pressionados por uma conjuntura social, ou seja, é “uma subjetividade
socializada” (1992, p. 101).
O habitus assume uma “capacidade social e fenomenológica”, influenciada pelo
“tempo, lugar” e pelas “distribuições de poder”; é “transferível a vários domínios da prática”,
apresentando “coerência” entre indivíduos com “estilos de vida” próximos; é “durável, mas
não estático ou eterno”, representando um processo contínuo e aberto a novas
experimentações; é “dotado de inércia incorporada”, “tendendo a produzir práticas moldadas
depois das estruturas sociais que o geraram”; e “introduz uma defasagem entre as
determinações passadas” e “as atuais” (WACQUANT, 2007, p. 66-68). “É aquilo que confere
às práticas sua relativa autonomia no que diz respeito às determinações externas do presente
imediato” (BOURDIEU, 1990, p. 56). O habitus possibilita, ao mesmo tempo, um “princípio
de sociação e de individuação”. Sociação, porque as classificações de percepções,
apreciações e ações são compartilhadas de alguma maneira por aqueles que foram
“submetidos a condições e condicionamentos sociais similares”; por exemplo, “um habitus
burguês, um habitus feminino”, e, porque não, um habitus dos professores de performance
musical durante suas práticas pedagógicas. Individuação, porque cada sujeito, tendo uma
“trajetória e uma localização únicas no mundo, internaliza uma combinação incomparável de
esquemas” (WACQUANT, 2007, p. 70). Neste conceito, Bourdieu utiliza frequentemente a
definição de “campo” para designar “o lócus onde se trava uma luta concorrencial entre os
atores em torno de interesses específicos que caracterizam a área em questão” (ORTIZ, 1994,
p. 19). Muitos estudos sobre habitus já foram realizados e demonstram que a “convocação e o
emprego dos esquemas cognitivos e motivacionais [...] são acessíveis à observação metódica
e empírica”, portanto, são suscetíveis à validação e relevância de pesquisas nesta área
(WACQUANT, 2007, p. 70). A citação de “esquemas cognitivos e motivacionais”, de “uma
matriz de percepções, apreciações e ações” e “transferência analógicas de esquemas”,
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exemplificam as muitas aproximações entre os conceitos de habitus e esquemas de ação de
Piaget.
2. Esquemas de ação
As pesquisas sobre o comportamento infantil de Piaget em meados do século XX
conduziram-no à formulação da Epistemologia Genética9 e da Teoria do Conhecimento. Ele
constatou nestes estudos “a existência não consciente para a criança, de uma estrutura lógica
subjacente às suas ações, cujo desenvolvimento culminará na estrutura lógica, propriamente
dita, do pensamento” (MARÇAL, 2009, p. 12). A partir desta revelação, um dos eixos
principais do seu estudo passa a ser a ação:
Conhecer não consiste, com efeito, em copiar o real, mas agir sobre ele e
transformá-lo (na aparência ou na realidade), de maneira a compreendê-lo em
função dos sistemas de transformação aos quais estão ligadas estas ações, [isto]
exprime o fato fundamental de que todo conhecimento está ligado a uma ação e
que conhecer um objeto ou acontecimento é utilizá-los, assimilando-os a esquemas
de ação, [pois] todo conhecimento contém sempre e necessariamente um fator
fundamental de assimilação, o único a conferir significação ao que é percebido ou
concebido. (PIAGET, 1973, p. 13-14).
As estruturas do desenvolvimento cognitivo e da assimilação de esquemas de
ação compreendem desde as ações mais elementares até as operações mais complexas:
Dizer que todo conhecimento supõe uma assimilação e consiste em conferir
significações vem a ser [...] afirmar que conhecer um objeto implica incorporá-lo a
esquemas de ação, e isto é verdade desde as condutas sensório-motoras elementares
até às operações lógico-matemáticas superiores. (1973, p. 17).
No seu livro Biologia e Conhecimento, Piaget compara as “regulações orgânicas e
biológicas” com os processos de desenvolvimento cognitivos.
Ele define literalmente
esquemas de ação:
As ações, com efeito, não se sucedem ao acaso, mas se repetem e se aplicam de
maneira semelhante a situações comparáveis. Mais precisamente, reproduzem-se
tais quais se aos mesmos interesses correspondem situações análogas, mas se
diferenciam ou se combinam de maneira nova se as necessidades e as situações
mudam. Chamaremos esquemas de ações o que, numa ação, é assim transponível,
generalizável ou diferenciável de uma situação à seguinte, ou seja, o que há de
9
A Epistemologia Genética “analisa os processos envolvidos na gênese das estruturas necessárias à aquisição dos
conhecimentos, principalmente na medida em que esses processos estão presentes no âmbito do pensamento
científico e se referem à transição existente entre a passagem de um estágio de menor conhecimento a outro mais
avançado” (INHELDER, 1974, p. 40).
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comum nas diversas repetições ou aplicações da mesma ação (PIAGET, 1973, p.
16).
Piaget afirma que as ações e seus esquemas são influenciados pela
“hereditariedade”, pelo “meio” e por um “sistema de autorregulação inerente a cada
organismo-sujeito” (1973, p. 18):
O conteúdo de cada esquema de ação depende em parte do meio e dos objetos ou
acontecimentos aos quais se aplica. Mas isto não significa absolutamente que sua
forma ou funcionamento sejam independentes de fatores internos. Em primeiro
lugar, desde níveis dos celenterados e dos equinodermos as ações dependem de um
sistema nervoso, o qual, por mais elementar que seja, é herdado [...]. Por outro lado,
mantendo-nos no plano do comportamento, um esquema nunca tem começo
absoluto, mas deriva sempre, por diferenciações sucessivas, de esquemas anteriores
que remontam progressivamente até os reflexos ou movimentos espontâneos
iniciais. Em terceiro lugar, e, sobretudo, um esquema admite sempre ações do
sujeito (organismo) que não derivam, como tais, das propriedades do objeto (do
meio) (PIAGET, 1973, p. 18).
Os esquemas de ação representam as condições cognitivas fundamentais à
ocorrência de uma ação. Para uma ação ser desencadeada é necessária uma estrutura cognitiva
anterior que a sustente e possibilite sua execução; no momento da ação esta estrutura também
está em atividade; após determinada ação, a estrutura é de certa forma transformada por tal
ação ocorrida. Este processo engloba a “adaptação”, entre “seus polos de assimilação e
acomodação”. A acomodação “se apresenta no funcionamento do sistema de esquemas de
ação se modificando para que haja maior integração de dados do meio” pela assimilação. “Tal
estrutura é um todo organizado que, ao adaptar-se, isto é, ao assimilar elementos do meio e
acomodar-se transformando-se a esse meio, se reorganiza” (MARÇAL, 2009, p. 33-34). “A
adaptação [...] se consolida pelo equilíbrio entre assimilação e acomodação”. Em determinada
fase do desenvolvimento cognitivo da criança e com efeitos duráveis por toda a vida do
sujeito, a acomodação é representada por um predomínio da “imitação” e a assimilação por
um predomínio do “jogo”, que “se caracteriza pela repetição por puro prazer funcional dos
esquemas do sujeito ao objeto assimilado” (JUSTI, 2011, p. 55). O “prazer funcional” do
“jogo” abre espaço para várias atividades cognitivas, inclusive a criatividade. Quando os
esquemas de ação do sujeito se adaptam de forma mais “aprimorada” ao real por meio da
assimilação e acomodação de estruturas inteligentes ocorre o conhecimento.
Piaget descreve a ação como uma ocorrência temporal momentânea e singular. “A
ação entendida como aquilo que está presente em todas essas ações singulares é que nos leva
ao conceito de esquemas de ação”, assim é possível afirmar que “uma ação é uma ocorrência
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de um esquema de ação, que se apresenta então como um tipo, justamente aquilo que a torna
condição necessária para o conhecimento”. Neste caso, ocorre um “pseudo-paradoxo” entre a
ação efêmera e a estrutura de ação, que é “generalizável, transponível ou diferenciável”. Ao ser
observado um conjunto de ações em um sujeito durante algum espaço de tempo, é possível
“delinear as lógicas comparativas equivalentes ou diferenciáveis entre essas ações”
(MARÇAL, 2009, p. 29). “A determinação dessa equivalência entre ações é, em parte, relativa
ao observador”, visto que este “avalia de fora a semelhança entre as ações” e estabelece “uma
classificação”. “Essa classificação será ‘natural’ na medida em que ela poderá seguir a ordem
das filiações por diferenciação progressiva das condutas” (APOSTEL et al, 1957, apud
MARÇAL, 2009, p. 30).
A ação pode ser definida como “toda conduta (observável
exteriormente [...]) visando um objetivo do ponto de vista do sujeito considerado”, pois quando
não há uma finalidade do ponto de vista do sujeito podem surgir “movimentos aleatórios” e
não ações (APOSTEL et al, 1957, apud MARÇAL, 2009, p. 23). Esta diferenciação é
importante, pois Piaget define como objeto de estudo o comportamento em relação ao
“conjunto de ações que os organismos exercem sobre o meio exterior para lhe modificar os
estados ou para mudar sua própria situação em relação a ele” (PIAGET, 1973, p. 7).
Conclusão: definição pela escolha por esquemas de ação pedagógicos
Comparando-se os conceitos apresentados de habitus e esquemas de ação, podese ponderar que o conceito de Bourdieu assinala a existência de esquemas ou “matrizes de
percepções, apreciações e ações” de certa forma “recorrentes ou diferenciáveis” relativas a
uma “subjetividade socializada”. Este é um conceito abrangente e ao mesmo tempo voltado
ao pensamento e à ação de um ator ou vários atores sociais em relação a seu “campo”, ou
seja, ao jogo interativo entre as forças e aos fenômenos subjetivos e sociais, mais próximos de
um viés sociológico. Já o conceito de Piaget, voltado para a Epistemologia e à formação
cognitiva do ser humano, se intersecciona ao conceito de habitus, mas empenha-se mais
especificamente às ações propriamente realizadas. A Epistemologia Genética parece ser mais
próxima da epistemologia da prática do ensino, como comprovam a realização de inúmeros
estudos na área de Educação Musical que se fundamentam nas teorias de Piaget. Uma
pesquisa em Pedagogia da Performance Musical pode muito bem cumprir seus objetivos ao
dispor uma matriz de esquemas de ações aplicáveis e relevantes de cada professor durante as
“interações educativas” com seus alunos (TARDIF, 2011, p. 159), conferindo ao observador o
papel de classificador e analista destas ações e esquemas. O objetivo fundamental poderia ser
analisar as ações e seus esquemas em relação a sua relevância e aplicabilidade no ensino-
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aprendizagem do instrumento musical, deixando para um segundo plano a análise de como
funcionam as lógicas internas destes esquemas de ação. Pode-se dizer que este conceito é
muito apropriado na aprendizagem de um instrumento musical, pois de acordo com o próprio
Piaget, para que haja um avanço no estágio do conhecimento é necessária por parte dos alunos
a incorporação de esquemas de ação. Este processo pode de certa forma ser confirmado
através da execução musical, pois normalmente o aluno executa com o seu instrumento os
desafios propostos.
Os esquemas de ação pedagógicos são, por analogia, constituintes dos saberes,
competências e da ação reflexiva dos docentes e podem ser coletados, analisados e
organizados de maneira a compor um corpus de conhecimento das práticas pedagógicas
relevantes dos professores de instrumento musical em contraponto com o referencial
pedagógico e científico já existente na área da Pedagogia da Performance Musical.
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