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Módulo 1 O QUE É LIBRAS? - Sedis

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Módulo 1 O QUE É LIBRAS? - Sedis
LIBRAS
Módulo 1
O QUE É LIBRAS?
Fundamentos para a Educação Inclusiva de Surdos
Adir Luiz Ferreira
Heloisa Lima Perales
João Tadeu Weck
José Edmilson Felipe da Silva
Margarete Vale de Sousa
Projeto Institucional
Edital nº 015/2010/CAPES/DED
Fomento ao uso de tecnologias de comunição e informação nos cursos de graduação
Adir Luiz Ferreira
Heloisa Lima Perales
João Tadeu Weck
José Edmilson Felipe da Silva
Margarete Vale de Sousa
Módulo 1
O QUE É LIBRAS?
Fundamentos para a Educação Inclusiva de Surdos
Adir Luiz Ferreira
Heloisa Lima Perales
João Tadeu Weck
José Edmilson Felipe da Silva
Margarete Vale de Sousa
LIBRAS
Módulo 1
O QUE É LIBRAS?
Fundamentos para a Educação Inclusiva de Surdos
Natal – RN
Janeiro/2011
Governo Federal
Presidente da República
Dilma Vana Rousseff
Vice-Presidente da República
Michel Miguel Elias Temer Lulia
Ministro da Educação
Fernando Haddad
Reitor
José Ivonildo do Rêgo
Vice-Reitora
Ângela Maria Paiva Cruz
Pró-Reitoria de Graduação
Virgínia Maria Dantas de Araújo
Comitê Gestor
Presidente
Virgínia Maria Dantas de Araújo
Coordenação geral
Apuena Vieira Gomes
Coordenadores
Apuena Vieira Gomes/SEDIS
Adir Luiz Ferreira/CE – DEPED
Gleydson de Azevedo Ferreira Lima/SINFO
Marcos Aurélio Felipe/SEDIS
Maria Carmozi de Souza Gomes/PROGRAD
Rex Antonio da Costa de Medeiros/ECT
Secretária de Educação a Distância
Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo
Secretária Adjunta de Educação a Distância
Eugênia Maria Dantas
Secretaria de Educação a Distância (SEDIS)
Coordenador de Produção
Revisoras de Língua Portuguesa
Ilustradores
Diagramadores
de Materiais Didáticos
Cristinara Ferreira dos Santos
Adauto Harley
Ana Paula Resende
Marcos Aurélio Felipe
Emanuelle Pereira de Lima Diniz
Carolina Costa de Oliveira
Carolina Aires Mayer
Janaina Tomaz Capistrano
Dickson de Oliveira Tavares
Davi Jose di Giacomo Koshiyama
Leonardo dos Santos Feitoza
Elizabeth da Silva Ferreira
Roberto Luiz Batista de Lima
Ivana Lima
Projeto Gráfico
Ivana Lima
Revisora das Normas da ABNT
Revisores de Estrutura e Linguagem
Verônica Pinheiro da Silva
José Antonio Bezerra Junior
Eugenio Tavares Borges
Revisora Técnica
Luciana Melo de Lacerda
Janio Gustavo Barbosa
Rosilene Alves de Paiva
Rafael Marques Garcia
Jeremias Alves de Araújo
Revisor Tipográfico
José Correia Torres Neto
Joacy Guilherme de A. F. Filho
Kaline Sampaio de Araújo
Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade
Thalyta Mabel Nobre Barbosa
Catalogação da publicação na fonte. Bibliotecária Verônica Pinheiro da Silva.
O que é Libras? Fundamentos para a educação inclusiva de surdos: módulo 1 / Adir Luís Ferreira et al... – Natal:
EDUFRN, 2011.
54 p.: il.
Conteúdo: Aula 1 – O que é Libras? Aula 2 – Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum. Aula 3 –
Noções sobre a surdez.
Caderno nº 1 que compõe a disciplina a distância de Libras/UFRN.
ISBN 978-85-7273-766-1
1. Libras. 2. Inclusão. 3. Surdos. I. Ferreira, Adir Luís. II. Perales, Heloisa Lima. III. Weck, João Tadeu. IV.
Silva, José Edmilson Felipe da. V. Sousa, Margarete Vale de.
CDU 615.51.4
L697l
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida
sem a autorização expressa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Apresentação Institucional
A
Secretaria de Educação a Distância – SEDIS da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte – UFRN, desde 2005, vem atuando como fomentadora, no âmbito local, das
Políticas Nacionais de Educação a Distância em parceira com a Secretaria de Educação
a Distância – SEED, o Ministério da Educação – MEC e a Universidade Aberta do Brasil –
UAB/CAPES. Duas linhas de atuação têm caracterizado o esforço em EaD desta instituição: a
primeira está voltada para a Formação Continuada de Professores do Ensino Básico, sendo
implementados cursos de licenciatura e pós-graduação lato e stricto sensu; a segunda volta-se
para a Formação de Gestores Públicos, através da oferta de bacharelados e especializações
em Administração Pública e Administração Pública Municipal.
Para dar suporte à oferta dos cursos de EaD, a Sedis tem disponibilizado um conjunto de
meios didáticos e pedagógicos, dentre os quais se destacam os materiais impressos que são
elaborados por disciplinas, utilizando linguagem e projeto gráfico para atender às necessidades
de um aluno que aprende a distância. O conteúdo é elaborado por profissionais qualificados e
que têm experiência relevante na área, com o apoio de uma equipe multidisciplinar. O material
impresso é a referência primária para o aluno, sendo indicadas outras mídias, como videoaulas,
livros, textos, filmes, videoconferências, materiais digitais e interativos e webconferências, que
possibilitam ampliar os conteúdos e a interação entre os sujeitos do processo de aprendizagem.
Assim, a UFRN através da SEDIS se integra o grupo de instituições que assumiram o
desafio de contribuir com a formação desse “capital” humano e incorporou a EaD como modalidade capaz de superar as barreiras espaciais e políticas que tornaram cada vez mais seleto o
acesso à graduação e à pós-graduação no Brasil. No Rio Grande do Norte, a UFRN está presente
em polos presenciais de apoio localizados nas mais diferentes regiões, ofertando cursos de
graduação, aperfeiçoamento, especialização e mestrado, interiorizando e tornando o Ensino
Superior uma realidade que contribui para diminuir as diferenças regionais e o conhecimento
uma possibilidade concreta para o desenvolvimento local.
Nesse sentido, este material que você recebe é resultado de um investimento intelectual
e econômico assumido por diversas instituições que se comprometeram com a Educação e
com a reversão da seletividade do espaço quanto ao acesso e ao consumo do saber E REFLETE
O COMPROMISSO DA SEDIS/UFRN COM A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA como modalidade
estratégica para a melhoria dos indicadores educacionais no RN e no Brasil.
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
SEDIS/UFRN
Apresentação
Caro aluno,
Neste caderno, daremos início aos conteúdos que fundamentam o ensino da Libras
(Língua Brasileira de Sinais) para a formação de professores nos cursos de licenciatura. Não
se trata de apenas aprender sobre o uso da Libras, mas igualmente de compreender o seu significado social, histórico e educativo para a inclusão dos alunos surdos na sala de aula comum
do ensino regular. Essa temática é importante para identificarmos os fundamentos políticos,
linguísticos e culturais que perpassam a educação inclusiva e, em especial, a educação dos
surdos, considerando-a como um direito legítimo da pessoa e do cidadão.
Inicialmente, trataremos de como as pessoas surdas se comunicam de forma eficiente por
meio de uma língua própria – a língua de sinais e – vamos descobrir que existe na comunidade
de surdos uma cultura que crescentemente afirma sua identidade no mundo. Em seguida, refletiremos sobre alguns aspectos históricos relativos à educação de surdos no Brasil e ao uso
da Libras; estudaremos noções básicas sobre a surdez e a deficiência auditiva, assim como o
entendimento sociocultural da deficiência e sua relação com a capacidade de inserção e atuação
do surdo em diferentes atividades da vida cotidiana. O conteúdo deste Caderno está dividido em
três aulas – O que é Libras?; Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum; Noções sobre a
surdez –, para que você tenha a liberdade de fazer uma pausa sem perder a unidade de sentido.
É natural que as expectativas se concentrem nos conteúdos práticos e, de fato, eles serão
bastante valorizados no curso. Contudo, não podemos prescindir das questões de ordem conceitual relativas à educação inclusiva e ao uso da Libras nas classes comuns do ensino regular
com alunos surdos, pois elas nos orientam para uma prática docente ética e competente.
Chamamos a sua atenção para o uso das vídeo aulas associadas a este caderno. A leitura complementar é a nossa sugestão para que você possa avançar no conhecimento sobre
Libras e educação de surdos a partir de alguns sites e filmes que complementam os temas
abordados neste Caderno. As atividades propostas devem ser realizadas logo após o estudo do
material e tomadas como referência para a autoavaliação. Lembramos que os tutores estarão
à sua disposição, durante todo o curso, conforme agenda publicada no SIGAA, para eventuais
esclarecimentos e apoio ao uso dos materiais. Esperamos que aproveite o máximo!
Sumário
Aula 1 – O que é Libras?
Apresentação
Objetivos
A comunicação gestual de pessoas surdas
Atividade
Cultura, comunidade e identidade surda
Resumo
Autoavaliação
Referências
Aula 2 – Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
Apresentação
Objetivos
Um olhar sobre a deficiência e a diversidade
Uma história de conquistas e desafios
Atividade
A educação de surdos no Brasil
Resumo
Autoavaliação
Referências
Aula 3 – Noções sobre a surdez
Apresentação
Objetivos
Compreendendo a surdez
Atividade
A relação entre deficiência e funcionalidade
Resumo
Autoavaliação
Referências
Anexo
5
7
7
9
13
14
16
16
17
19
21
21
23
24
39
30
33
33
34
37
39
39
41
45
45
49
49
51
53
O que é Libras?
Aula
1
Aula 1
O que é Libras?
Apresentação
E
m nossa primeira aula, veremos que nem sempre a comunicação entre surdos e ouvintes
através das línguas conhecidas foi possível, pois as línguas orais-auditivas são difíceis de
aprender para quem não ouve e, consequentemente, tem dificuldade para falar, mesmo
que não haja problema com o aparelho fonador. Por isso, desde as suas origens, a elaboração
e a divulgação de uma língua de sinais foi motivada pela necessidade de uma língua comum
entre surdos-ouvintes e surdos-surdos.Todavia, é longo o embate histórico e político para o
reconhecimento de que as pessoas com surdez são plenamente capazes de realizar as mesmas
atividades que os ouvintes realizam, quando asseguradas as condições de comunicabilidade,
especialmente com a substituição ou complementação dos meios e recursos sonoros por visuais. Também é resultado de muita discussão o reconhecimento de que a comunicação gestual
de sinais dos surdos tem status de língua e não de linguagem, pois apresenta um sistema
de signos, regido por uma gramática própria, que exprime ideias amplamente comunicáveis
para seus usuários.
Assim, a língua de sinais é essencial para a comunicação dos surdos, pois é a partir desses sinais convencionados que eles organizam seus esquemas cognitivos para compreender
ideias, formar conceitos, relacioná-los e expressá-los. Portanto, é necessário que as pessoas
ouvintes, especialmente aquelas que se relacionam com surdos, aprendam a língua de sinais
de seu país (no Brasil é a Libras) e entendam que eles possuem uma cultura específica que
lhes confere uma identidade própria. Aprendam, ainda, a respeitá-los em suas necessidades
especiais, não apenas por força da lei, não por compreender a deficiência como incapacidade
ou doença que mereça piedade, mas por tratá-las como diferença ou diversidade inerente a
todos os humanos.
Objetivos
1
2
Compreender a importância da língua de sinais para os surdos.
Reconhecer a existência de uma cultura surda que se
traduz em um modo específico de ser, de ver e de comunicar o mundo.
Aula 1
O que é Libras?
7
Aula 1
O que é Libras?
A comunicação
gestual de pessoas surdas
D
esde os primórdios da humanidade, antes mesmo do surgimento das línguas, a comunicação vocal entre humanos acompanhou-se de gestos, expressões faciais e movimentos do corpo. Pesquisando as bases ancestrais da linguagem humana, estudos
sobre a comunicação de grandes primatas (chimpanzés, bonobos, gorilas, orangotangos) já
demonstraram que a riqueza das expressões corporais pode ser tão vasta quanto o repertório
das vocalizações (POLLICK; DE WAAL, 2007). Ambos, gestos e sons, buscam exprimir atitudes, intenções, informações, estados físicos e emocionais, de forma clara ou sutil, aos outros
membros da espécie. Então, como forma de comunicação simbólica, o gesto parece ter vindo
antes da palavra e a linguagem do corpo pode ter surgido antes da comunicação oral ou escrita.
Mesmo hoje, quando não conseguimos ou não sabemos falar uma língua estrangeira, usamos
intuitivamente os gestos, isto é, alguma forma de comunicação por sinais.
A comunicação com gestos é inerente ao homem e a outros primatas. A linguagem com expressões corporais pode ser tão vasta quanto as formas de
comunicação oral, como no caso dos chimpanzés, bonobos e gorilas.
Isso significa que a comunicação por sinais utilizada pelas pessoas surdas não é uma
invenção de um grupo minoritário de deficientes, uma “prótese” simbólica para substituir a
voz por causa da deficiência auditiva, mas está na própria origem da linguagem humana. O
desenvolvimento das línguas de sinais, hoje consideradas como o modo natural e mais eficiente
para a comunicação de surdos, está, antes de tudo, baseado na capacidade linguística primordial de todos os seres humanos. É lógico, portanto, que com essa capacidade os usuários
das línguas de sinais podem dialogar sobre qualquer assunto de interesse humano: política,
filosofia, literatura, esporte, ciência, humor, sexo, cotidiano, entre outros.
Assim, o processo civilizatório da humanidade se assenta no uso de diferentes línguas e
linguagens que tornam possível a comunicação entre pessoas. Para tanto, os homens de um
mesmo grupo social compartilham e utilizam um sistema abstrato de signos linguísticos que
estruturam uma língua. Esses signos são a combinação entre os significantes (sinais, palavras
ou outro tipo de código) e seus respectivos significados ou conceitos. A língua é, portanto, uma
tecnologia de comunicação fundamental, porque permite aos usuários, que dominam o seu
sistema, interações linguísticas sofisticadas, no sentido material, simbólico, subjetivo e social.
E as línguas de sinais, como qualquer outra língua, também apresentam todos esses sentidos.
Aula 1
O que é Libras?
9
As pessoas surdas aprendem a se comunicar por gestos e por sinais convencionados e organizados de acordo com uma gramática específica, sendo por
isso chamada de língua de sinais.
As línguas de sinais, nas sociedades ocidentais contemporâneas, têm suas origens no
século XVI, na Europa. Elas são construções históricas e culturais, desenvolvidas por diferentes países, cada uma com sua gramática particular. No Brasil, adota-se a Língua Brasileira
de Sinais (Libras); na França, a Langue de Signaux Française (LSF); na Espanha, a Lengua
de Signos Española (LSE); em Portugal, a Língua Gestual Portuguesa (LGP); no México, a
Lengua de Senhas Mexicana (LSM); nos Estados Unidos e Canadá, a American Sign Language
(ASL); na Alemanha, a Deutsche Gebärdensprache (DGS), e assim por diante. Nenhuma dessas
línguas é considerada a língua oficial da nação, mas são reconhecidas como língua adotada
pela comunidade surda desses países. Porém, mesmo com estruturas gramaticais próprias,
relacionam-se com os idiomas utilizados e as culturas existentes nessas sociedades.
Saiba mais
Em cada país, existe uma língua de sinais reconhecida, no Brasil foi adotada a
denominação de Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Como em qualquer língua viva, nas línguas de sinais existem variações regionais e locais,
estilos pessoais, uso em contexto, norma padrão, gírias e constante invenção e transformação
de sinais. O que é denominado de palavra nas línguas orais-auditivas é chamado de sinal nas
línguas de modalidade gestual-visual ou visual-espacial. Citamos algumas características da
Libras que a diferenciam da Língua Portuguesa: não existe conjugação verbal nem concordância
de gênero, ou seja, os verbos são apresentados no infinitivo e para o gênero é acrescentado
o sinal correspondente a “mulher” ou “homem”. Todavia, não se deve pensar que as línguas
de sinais sejam a transposição direta das línguas de modalidade oral-auditiva, simplesmente
expressando através de gestos os significados (fonético, gráfico ou simbólico) das palavras
da língua falada.
Além da língua de sinais, existe o alfabeto manual, que é o conjunto de sinais representado
por uma posição de mão e dedos, correspondente a cada uma das letras do alfabeto escrito. Ele não
é uma língua de sinais em si, mas um recurso de soletração que só faz sentido para os surdos ou
ouvintes alfabetizados. O alfabeto manual é especialmente utilizado para soletrar nomes próprios
e outras palavras cujos sinais ainda não existam ou que sejam desconhecidos pelo sinalizador.
A soletração com o alfabeto manual é como a escrita à mão de uma pessoa, ou seja, a
execução do sinal é como uma caligrafia que sofre algumas variações de pessoa para pessoa.
Em ambos os casos a clareza é fundamental para a compreensão e a sinalização do alfabeto
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Aula 1
O que é Libras?
manual requer fluência, isto é, a competência prática para executar os sinais com ritmo e rapidez, sem preocupação excessiva com a execução precisa de cada letra; do contrário o sentido
fica prejudicado para quem os interpreta. Alcançar essa competência leva algum tempo, pois
requer treinamento e prática regulares. Mas atenção: não soletre palavras ou frases inteiras
se você não conhece o sinal correspondente. Fazer isso seria como estar pronunciando as
palavras letra por letra; fica estranho e difícil de entender. É como dizer: C-O-M-O-V-O-C-ÊS-E-C-H-A- M-A?
Em geral, a soletração é usada para informações específicas como:
nome pessoal;
nomes de lugares (cidade, estado, lojas);
títulos de livros e filmes;
comidas e pratos;
definição do entendimento de um sinal;
termos técnicos.
A
B
F
G
L
M
R
C
H
N
S
X
Ç
O
T
Y
I
U
D
E
J
K
P
Q
V
W
Z
Figura 1 –Alfabeto Manual
Aula 1
O que é Libras?
11
Para um estudante que está iniciando na língua de sinais, aprender como soletrar o seu
próprio nome é muito importante. Lembre-se de utilizar, junto com a soletração, os sinais
de Libras para as perguntas (“Qual seu nome?”; “Qual o nome dele(a)?”) e respostas (“Meu
nome é...”; “O nome dele(a) é...”). Veja como fazer essas perguntas e respostas na videoaula
nº. 1 (O que é Libras?).
Figura 2 – Língua de sinais – língua oral-auditiva
Para indicarmos nosso nome pela primeira vez a um surdo alfabetizado, utilizamos o
alfabeto manual, sinalizando letra por letra. Logo após, apresentamos nosso sinal, que é uma
simplificação, para facilitar a comunicação. Esse sinal pessoal geralmente é composto pela
gestualização da primeira letra do nosso nome seguida de outro gesto que faça referência a
um atributo (por exemplo, tipo de cabelo, altura, local de nascimento) que nos seja particular.
Saiba mais
Linguagem é a utilização de meios e recursos variados, dentre eles as línguas e
outras formas de expressão, que viabilizam a comunicação entre os indivíduos.
Língua é um sistema convencional, composto por um conjunto de signos
(códigos com significantes e significados) e uma gramática própria.
12
Aula 1
O que é Libras?
Curiosidade
Os surdos e outros usuários que empregam a Libras, assim como os usuários
de outras línguas de sinais, são denominados de sinalizadores.
1
Assista à videoaula nº 1 (O que é Libras?).
2
Utilizando o alfabeto manual, gestualize seu nome.
3
Crie o sinal para o seu nome, conforme as instruções e exemplos oferecidos na
videoaula nº1 (O que é Libras?).
4
Enumere a segunda coluna de acordo com a primeira:
(1) Adriano
( )
(2) Carmem
( )
(3) Fernando
( )
(4) Gustavo
( )
(5) Jeferson
( )
(6) Kalina
( )
(7) Paloma
( )
(8) Sabrina
( )
(9) Tereza
( )
(10) Wesley
( )
Aula 1
O que é Libras?
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Cultura, comunidade
e identidade surda
Diferente da concepção negativa que o senso comum atribui à surdez, a noção de cultura busca compreender positivamente os surdos na sua dimensão antropológica, histórica,
psicológica e social. A dimensão cultural, associada à vida social e subjetiva das pessoas
surdas, destaca as capacidades individuais e coletivas que elas compartilham com todos os
seres humanos. Ao contrário, as visões discriminatórias representam as pessoas surdas como
meros deficientes físicos que apresentam uma incapacidade auditiva evidente, destacando,
dessa forma, o surdo como diferente de uma pessoa “normal”.
Há várias definições para a palavra “cultura”, contudo, a noção de cultura em sua origem
remete ao cultivo do campo pelos homens, às técnicas e sentidos para o cuidado com a terra,
derivando dessa história social a ideia de comunidade e a identificação ao território e seus
habitantes, nos seus produtos materiais e simbólicos. Ora, um dos produtos mais notáveis
da cultura humana foi as diferentes línguas que surgiram desse convívio para a garantia e
desenvolvimento da vida, baseadas na comunicação social, na organização política, na troca
de experiências tecnológicas, na elaboração filosófica e científica, nas narrativas poéticas, nos
relatos cotidianos, entre outros.
Nesse sentido, considerando que a surdez distingue sensorialmente um grupo particular
de humanos, criando um modo específico e compartilhado de ser, de ver e de comunicar o
mundo, podemos dizer, então, que a cultura surda preenche todos os critérios aqui definidos:
comunidade (indivíduos), identificação (sensorial), território (organizações e locais) e uma
língua própria (língua de sinais). A denominação cultura e comunidade surda é largamente
difundida na bibliografia e produção técnica sobre a questão da surdez, porém, alguns autores
defendem o uso da noção de “povo surdo” (STROBEL, 2009), ao invés de comunidade surda,
considerando a primeira como o coletivo exclusivo das pessoas surdas e a segunda como o
conjunto de surdos e ouvintes (familiares, amigos, estudiosos, interessados) envolvidos com
a surdez. É claro que esses diferentes posicionamentos estão envolvidos na adoção de um
sentido político. De um lado, destaca-se a luta de associações de surdos pelo reconhecimento
de uma cultura particular e por direitos específicos. De outro lado, buscam-se formas ampliadas
de inclusão e de participação na cultura social geral (local, regional, nacional, internacional).
Ao contrário das visões discriminatórias sobre os surdos, a noção de cultura
atribuída à surdez é compreendida em sua dimensão antropológica, histórica,
psicológica e social. A noção de cultura surda preenche os critérios conceituais
de: comunidade (indivíduos), identificação (sensorial), território (organizações
e locais) e língua própria (língua de sinais).
14
Aula 1
O que é Libras?
De fato, para os surdos, o aprendizado da Língua Portuguesa (oral-auditiva) não é o caminho
natural, sendo a Língua Brasileira de Sinais (visual-espacial) a mais adequada para o desenvolvimento cognitivo inicial. Todavia, pela convivência histórica e cotidiana com uma cultura de
ouvintes, a aquisição da Língua Portuguesa como segunda língua é fator imprescindível para a
inclusão das pessoas surdas na sociedade brasileira. Assim, a proposta de ensino bilíngue para
surdos, na qual a Libras é reconhecida como a língua natural e como pressuposto para o ensino
do Português, “atravessa a fronteira linguística e inclui o desenvolvimento da pessoa surda dentro
da escola e fora dela em uma perspectiva socioantropológica” (SILVA, 2008, p. 50).
O ensino bilíngue, tendo a Libras como a língua natural e o Português como
segunda língua, é visto como imprescindível para a inclusão democrática das
pessoas surdas na sociedade brasileira.
O reconhecimento legítimo de particularidades não pode estar dissociado da participação
democrática, para que não aconteça o isolamento cultural e este acabe fortalecendo estereótipos ou criando novas discriminações. Para os fins da ação inclusiva na escola comum e da
prática pedagógica de professores ouvintes, preferimos a denominação genérica de pessoas
surdas ou alunos surdos.
Figura 3–Língua de sinais e cultura surda
Aula 1
O que é Libras?
15
Resumo
Nesta aula, vimos que as línguas de sinais surgiram da necessidade de uma
língua comum entre surdos-ouvintes e surdos-surdos, sendo o modo natural de
comunicação para quem é privado da audição. Aliás, a comunicação por gestos
entre primatas sugere que essa capacidade ancestral está na origem da linguagem
humana. As línguas de sinais são construções históricas de diferentes países,
cada uma com sua gramática particular. No Brasil, a denominação é Língua
Brasileira de Sinais (Libras). A Libras compreende variações regionais e locais,
estilos pessoais, gírias e invenção de sinais. Há também o alfabeto manual, com
posições de mãos e dedos para as letras do alfabeto escrito. Considerar, pela
convivência com a cultura de ouvintes, o português como segunda língua é fator
imprescindível para a inclusão dos surdos.
Autoavaliação
1
Por que é importante utilizar a língua de sinais na comunicação com pessoas surdas?
2
Leia o trecho abaixo, que apresenta o relato de um surdo e, em seguida, escreva
sua impressão acerca da vida de uma pessoa surda no mundo ouvinte.
RELATO DE UM SURDO
Rimar Carvalho Segala
Alguns pensam que sou louco, afinal até mesmo filósofos famosos na história pensaram
assim também de pessoas como eu. Certa vez, Platão e Aristóteles, observando um surdo,
chegaram a seguinte conclusão: “Não sabe falar, não sabe ouvir; és louco!”. Triste conclusão
estes tão sábios filósofos chegaram! Se tão somente Platão tivesse lembrado de suas palavras:
“Tudo que sei, é que nada sei”, talvez sua conclusão fosse diferente. Realmente, estes cultos
filósofos nada sabiam sobre aquele surdo. Talvez se tivesse “escutado” aquele surdo, digo,
prestado atenção, estudado, compreendido, esta frase não partiria deles na história. Talvez os
conceitos existentes sobre os surdos fossem bem diferentes. Que pena!
O surdo como qualquer outro deficiente possui uma compreensão natural, o que
os seus ouvidos não podem ouvir, os seus olhos ouvem. Ele é um estrangeiro brasileiro
no Brasil. Tem que aprender a língua dos ouvintes e isto não é fácil.
Fonte: Kojima e Segala, 200-?, p. 9
16
Aula 1
O que é Libras?
Referências
BUENO, José Geraldo Silveira. Surdez, linguagem e cultura. Caderno CEDES, Campinas,
v. 19, n. 46, set. 1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0101-32621998000300005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 17 fev. 2011.
______. Diversidade, deficiência e educação. Revista Espaço, Rio de Janeiro: INES, n. 12,
p. 3-12, jul./dez. 1999.
KOJIMA, Catarina Kiguti; SEGALA, Sueli Ramalho. Libras – Língua Brasileira de Sinais – A
imagem do pensamento. São Paulo: Ed. Livros Escala, [200-?].
POLLICK, Amy S.; DE WAAL, Frans B. M. Ape gestures and language evolution. PNAS, v.
104, n. 19, 8 may 2007.
SILVA, Angela Carrancho;NEMBRI, Armando Guimarães. Ouvindo o silêncio: educação,
linguagem e surdez. Porto Alegre: Mediação, 2008.
STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. 2. ed. rev. Florianópolis: ed.
da UFSC, 2009.
THOMA, Adriana; LOPES, Maura Corcini. A invenção da surdez: cultura, alteridade, identidades e diferença no campo da educação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004.
Anotações
Aula 1
O que é Libras?
17
Anotações
18
Aula 1
O que é Libras?
Exclusão/inclusão:
os surdos na escola comum
Aula
2
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
Apresentação
N
esta aula, vamos abordar a educação de surdos nas classes comuns do ensino regular, o
que nos remete à necessidade de utilizarmos a Libras no contexto da sala de aula, ainda
que de maneira básica. Nesse sentido, discutiremos alguns aspectos históricos e legais
que garantem aos alunos surdos o direito de estudarem na escola comum, isto é, em escolas
que não organizam classes especiais. Significa, pois, reconhecê-los como pessoas plenamente
capazes de aprender os conteúdos curriculares das diferentes áreas de conhecimento.
Compreendemos que a educação especial na perspectiva inclusiva representa um avanço
na história da educação dos surdos porque reconhece tanto a necessidade de uso da Libras
na sala de aula como a necessidade de os surdos estudarem em classes comuns do ensino
regular. Consideramos que tal postura favorece a participação social e política dos surdos, em
detrimento do isolamento cultural ao qual estariam submetidos em classes especiais, porque
estas evidenciam e reforçam para a sociedade em geral a diferença (surdez e incapacidade) e
não a igualdade homem e diversidade).
Objetivos
1
2
3
Conhecer os marcos históricos da educação de surdos.
Considerar a inclusão de alunos surdos nas classes comuns como um direito assegurado por lei.
Identificar os fundamentos políticos, sociais, culturais,
humanos e filosóficos que defendem o direito de todos
os alunos estarem aprendendo juntos, sem nenhum tipo
de discriminação.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
21
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
Um olhar sobre a
deficiência e a diversidade
O
s estudos sobre os direitos das pessoas com deficiência não estão dissociados dos fatos
históricos. Desde a Antiguidade, a falta de entendimento sobre as diferenças entre os
seres humanos fez com que a deficiência fosse alvo de preconceito (MIRANDA, 2008).
Em torno dessas pessoas se criavam marcas – estigmas – que as rotulavam, discriminavam,
excluíam e, em alguns casos, as condenavam à morte. Expressões como anormais, retardados,
dementes, aleijados e outras evidenciam a deficiência ou a doença em detrimento da pessoa:
um sujeito de direitos, capaz de aprender e de participar das mais diferentes atividades da
vida social e cotidiana.
A forma como a sociedade encara as pessoas com deficiência varia em cada
época e local, estando essa visão condicionada por fatores culturais, políticos,
econômicos e filosóficos, dentre outros.
A exclusão das pessoas com deficiência significa impedi-las, em maior ou menor grau,
de exercerem algum ou vários dos direitos sociais que lhes outorgam status de cidadão.
Contrariamente, o movimento mundial contemporâneo pela inclusão das pessoas com deficiência se fundamenta na concepção de direitos humanos, constituindo-se como uma ação
política, cultural, social e pedagógica. Reconhece, assim, a igualdade e a diferença como valores indissociáveis, no sentido como afirma Boaventura de Souza Santos: “Temos o direito a
sermos iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a sermos diferentes quando
a igualdade nos descaracteriza”(SOUZA apud SEESP, 2007, p.25).
Portanto, a educação inclusiva é antes de tudo uma postura que reconhece e valoriza em
cada aluno suas potencialidades e sua condição humana. Trata-se de um princípio filósofico
que agrega valores humanísticos e democráticos, através dos quais se busca assegurar, indistintamente, a todos os indivíduos o direito de aprender na escola, com vistas ao crescimento,
à satisfação pessoal e à inserção social.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
23
Uma história de
conquistas e desafios
No curso da história da humanidade, as pessoas com deficiência sofreram com a exclusão social, foram vítimas de tratamentos desumanos e até de extermínio. Na Antiguidade
(4000 a.C. – 476 d.C.), por exemplo, alguns povos abandonavam ou eliminavam as pessoas
“deformadas” por considerá-las um estorvo social. Os hebreus acreditavam que a deficiência
era uma punição de Deus. Em Roma, os patriarcas eram autorizados a matar seus filhos deficientes e, em Esparta, os pais os lançavam do alto do Taigeto, que era um abismo de mais
de 2.400 metros de altura.
Em cada época e sociedade, a estrutura econômica, política e cultural influencia na forma
como as pessoas e as instituições encaram os deficientes. O contexto da Idade Média (476 a
1453) foi fortemente marcado pela influência religiosa cristã e pela ignorância da maior parte
da população. Logo, as pessoas com deficiência eram vítimas de superstições, consideradas
possuídas por demônios ou com poderes especiais de bruxos e feiticeiros. A literatura da
época revela que anões e corcundas eram ridicularizados e usados para diversão da nobreza.
Curiosidade
Você sabia que até a Idade Média a Igreja Católica acreditava que os surdos
não podiam salvar sua alma porque não conseguiam proferir os sacramentos?
A partir do século XVI surgem diferentes instituições que passam a cuidar das pessoas
com deficiência. Contudo, tratava-se de uma situação de segregação e isolamento social,
alegando-se que seria melhor para elas ficarem distantes, vivendo em um ambiente mais
tranquilo. Na verdade, era uma forma de livrar-se desses “inconvenientes”. Persistia uma
visão patológica do indivíduo que apresentava deficiência, o que trazia como consequência o
menosprezo da sociedade.
Saiba mais
A partir do século XVI, registra-se uma preocupação em relação ao cuidado e
educação das pessoas com deficiência em instituições especiais, embora ainda
houvesse muito preconceito e exclusão social.
24
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
Por outro lado, é nesse período que se tem registro do trabalho do monge beneditino
Pedro Ponce de Leon (1509 -1584), que iniciou a educação de doze crianças surdas, de famílias aristocráticas, no mosteiro de San Salvador em Oña (Espanha). Ele criou um alfabeto
bimanual com o objetivo de ensiná-las a ler e escrever e, com isso, obteve grande prestígio
entre seus contemporâneos. Mais tarde, o padre espanhol Juan Pablo Bonet (1573 -1633),
no ano de 1620, publicou o primeiro livro ilustrado com alfabeto manual, dedicado à educação de surdos, sob o título Reducción de las letras y arte para enseñar a hablar a los mudos
(Redução das letras e arte de ensinar a falar aos mudos). Assim, como Ponce de Leon, Pablo
Bonet dedicou-se à educação oral e manual dos surdos na Espanha.
Figura 1–Gravuras do libro Reducción de las letras y arte para enseñar a hablar a los mudos (Bonet, 1620)
Fonte:<http://en.wikipedia.org/wiki/Juan_Pablo_Bonet>. Acessoem: 17 fev. 2011.
No século XVIII, a educação em institutos especializados para atendimento de surdos e
de cegos se torna mais evidente. Em 1760, Charles-Michel de l’Épée criou o Instituto Nacional
de Surdos-Mudos em Paris – atualmente Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris – que
se tornou referência mundial. Também em Paris, no ano de 1784, Valentin Haüy inaugura o
Instituto Real de Jovens Cegos, hoje Instituto Nacional para Jovens Cegos, cuja finalidade é
instruir crianças cegas e adaptá-las ao convívio social.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
25
Figura 2–Charles-Michel de l’Épée instruindo alunos no Instituto Nacional de Surdos-Mudos em Paris
Fonte: <http://www.visuf.org/lectHistEpee.php>. Acesso em: 17 fev. 2011.
Passando do extermínio para a separação e proteção, até chegar a um período no qual
se buscou a emancipação, a integração e mais atualmente a inclusão, se pontuam os avanços
na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Hoje, amparadas por lei, elas contam com
uma abordagem mais humana, especialmente, nos campos da educação e saúde. Desse modo,
é longa a história de desafios e conquistas na luta pela inclusão da pessoa com deficiência,
isso porque coexistem diferentes perspectivas sobre o assunto.
Mesmo nos séculos XVIII e XIX, a despeito da influência iluminista que muito contribuiu para
evidenciar a capacidade e o talento de pessoas com deficiência, especialmente cegas e surdas,
elas não eram tratadas com igualdade de direitos. Somente no século XX, com a Declaração
Universal dos Direitos Humanos se iniciam os movimentos sociais em defesa das minorias e das
pessoas com deficiência, baseados em vários de seus artigos, principalmente o Art. II:
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião,
opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou
qualquer outra condição (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948).
No século XX, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948),
inicia-se um processo mais sistemático de reconhecimento legal dos direitos
da pessoa com deficiência.
26
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi um primeiro passo que apontou para
a necessidade de se reconhecer o direito das pessoas com deficiência, mas carecia de especificidade. Por isso, a ONU adotou em 1994 a Declaração de Salamanca, que delibera sobre
princípios, política e práticas na área das necessidades educativas especiais, com o objetivo
de orientar procedimentos para a equalização de oportunidades para pessoas com deficiência.
No Brasil, a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação e a Política Nacional
de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/SEESP, 2007) apontam e
orientam suas ações com base noutros documentos legais como, por exemplo:
Constituição Federal (BRASIL, 1988);
Lei nº 7.853/89, que dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua
integração social e a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência (Corde), instituindo a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos
dessas pessoas e disciplinando a atuação do Ministério Público;
Declaração Mundial sobre Educação para Todos (Declaração de Jomtien,UNESCO, 1990);
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90);
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96);
Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra
a Pessoa Portadora de Deficiência (Convenção da Guatemala, Decreto nº 3.956/2001);
Decreto nº 6.571/2008, que dispõe sobre o atendimento educacional especializado, regulamentando o parágrafo único do art. 60 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e acrescentando dispositivo ao Decreto no 6.253, de 13 de novembro de 2007.
Decreto nº 6.949/2009, que promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova Iorque, em 30
de março de 2007.
Saiba mais
A luta pelo reconhecimento dos direitos das pessoas surdas tem ganhado amparo legal nas últimas décadas, porém, é importante observar que as leis apresentam uma hierarquia, na qual as de menor grau devem obedecer às de maior
grau. No direito brasileiro adota-se a seguinte hierarquia: Contituição Federal;
Emenda Constitucional; Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos; Tratados Internacionais dos quais o Brasil seja signatário; Lei complementar; Lei
ordinária; Medida provisória; Resolução; Decreto e Portaria.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
27
Curiosidade
Helen Keller (Alabama, 1880 – Connecticut, 1968) foi uma célebre escritora e
filósofa que ficou cega e surda aos 18 meses de idade. Sua biografia foi registrada no filme The Miracle Worker, em 1962, dirigido por Arthur Penn. Algumas
de suas ideias:
“Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar.”
“Evitar o perigo não é, em longo prazo, tão seguro quanto se expor ao perigo.
A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada.”
“As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas nem tocadas, mas o coração as sente.”
Apesar dos muitos avanços e conquistas, e da vasta legislação em defesa da total inclusão dos alunos com deficiência nas classes comuns do ensino regular, ainda há grupos
resistentes que pensam de maneira diversa. Esses grupos defendem as escolas especiais sob
o argumento de que nelas haveria maiores condições de atendimento educacional condizente
com as necessidades, por exemplo, dos alunos surdos. Caberia, segundo eles, aos alunos e
seus responsáveis optarem por um ou outro tipo de escola.
Todavia, o fundamento que nega essa posição considera que havendo separação dos
alunos com deficiência em escolas de educação especial estaremos, de fato, excluindo-os
porque negamos a pluralidade e a diversidade que existe no meio social, que é independente
de nossa vontade pessoal. Separá-los na intenção de melhor prepará-los seria um equívoco.
Por isso, a perspectiva oficial adotada pelo Ministério da Educação é de que a Educação Especial se constitua como Atendimento Educacional Especializado, de maneira adicional e não
substitutiva à escola comum (SEESP, 2007).
Saiba mais
A política de educação especial adotada atualmente no Brasil considera a inclusão do aluno com deficiência, incluindo os surdos, em classes comuns do
ensino regular como melhor alternativa de aprendizagem e participação social
democrática. A educação especial acontece por meio de atendimento educacional especializado, de maneira complementar à escola comum.
28
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
A discussão sobre o ordenamento legal da educação especial para surdos no Brasil será
objeto de estudo em outro caderno deste curso. Nosso interesse no momento é esclarecer que
a inclusão de alunos surdos nas classes comuns do ensino regular se constitui numa obrigação
estendida para qualquer escola, independente de quaisquer alegações que se possa apresentar
sobre a falta de condições para recebê-los.
1
Pesquise sobre as formas como as pessoas com deficiência já foram discriminadas ou eliminadas, ainda nos século XIX e XX.
2
Leia e escreva um comentário sobre os dois fragmentos de entrevistas com
alunos surdos.
Era muito difícil de acompanhar as aulas, as explicações do professor, todas em
língua oral não tinham sentido e quando eles utilizavam a escrita para nos fazer
entender ficava pior, pois não conhecíamos o significado das palavras. A fala
era sem sentido e a escrita mais ainda. Eu tentava clarear um pouco mais as
idéias perguntando aos amigos, porque o professor quando entra na sala tem
um horário de 55 minutos para cumprir o conteúdo e não tem tempo a perder
dando explicações para os surdos. (Orcenir)
A palavra correta não é inclusão, e sim uma forçada adaptação com a situação
do dia-a-dia dentro da sala de aula e na maior parte de tempo eu me sinto excluída pois não capto100% a leitura labial dos professores que tem diversos tipos
de articulações, tais como lábios finos, grossos, tortos, como espesso bigode,
ou falam rapidamente de boca fechada ou muito aberta, sem expressão facial,
etc. além disto, os meus olhos cansam de ler os movimentos dos lábios e uns
10 minutos depois já nem tenho ânimo de prestar atenção.(Karin)
Fonte:MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Educação Especial (SEESP).
Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para
o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. Brasília: MEC/SEESP, 2006. p. 103-106)
3
Reflita e escreva sua compreensão acerca do seguinte enunciado: “A comunicação é
parte fundamental no processo de socialização e desenvolvimento humano. A surdez
se torna um problema quando o código das mensagens é baseado apenas no som”.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
29
A educação de surdos no Brasil
Como já vimos, durante a maior parte da história da humanidade, as pessoas com deficiência foram vítimas da exclusão, pois a ênfase era na sua incapacidade ou anormalidade. No
Brasil não foi diferente, a educação era privilégio de poucos, isto é, tanto as classes populares
como os negros escravos e as pessoas com deficiência não chegavam à escola. Entretanto,
sob a influência de instituições especializadas que surgiam na Europa, como os já citados
Instituto Nacional de Surdos-Mudos e o Instituto Real de Jovens Cegos, temos na então capital Brasileira, Rio de Janeiro, a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos em 1854 e
dois anos depois, em 1856, o Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional
de Educação de Surdos (INES).
Figura 3–Instituto Nacional de Educação de Surdos, bairro de Laranjeiras no Rio de Janeiro
Fonte: <http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1034271>. Acesso em: 17 fev. 2011.
O Imperial Instituto dos Surdos-Mudos foi a primeira escola especial para surdos no
Brasil, criada por D. Pedro II, por meio da Lei no. 839, de 26 de setembro de 1857. Teve como
primeiro diretor o professor francês Erenest Huet, que era surdo. O currículo que Huet desenvolveu era constituído por língua portuguesa, aritmética, linguagem articulada e leitura labial.
O instituto funcionava em regime de internato, atendendo exclusivamente surdos do sexo
masculino. Somente em 1931 passou a atender alunas surdas, em regime de externato, com
oficinas de costura e bordado, consolidando seu caráter profissionalizante. Em1951, o INES
criou seu primeiro curso normal para professores na área de surdez e, no inicio da década de
1980, um curso de especialização para professores, também na área da surdez. A partir de
1993, com a mudança de seu Regimento Interno e através de ato ministerial, o INES passa a
ser um centro nacional de referência e, com esta nova atribuição, realiza ações que subsidiam
todo o país. Ao longo de sua existência, o INES já utilizou diferentes abordagens na educação
de surdos, chegando a proibir, no período de 1957 ate aproximadamente 1980, o uso da língua
gestual, adotando, assim, uma posição oralista.
30
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) foi a primeira instituição
especializada para a educação de surdos no Brasil, sendo atualmente um centro
nacional de referência em estudos, pesquisas e formação de professores na
área da surdez.
Destaca-se, ainda, na história da educação dos surdos no Brasil, a criação em 16 de maio
de 1987 da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), que trabalha na
defesa dos direitos linguísticos e culturais da comunidade surda, propagando a Libras como
meio natural de comunicação das pessoas surdas.
Saiba mais
A Feneis é uma entidade representativa dos surdos que mantém relações diretas com a ONU (Organização das Nações Unidas); Unesco (Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas; OMS (Organização Mundial
da Saúde); OIT (Organização Internacional do Trabalho) e OEA (Organização
dos Estados Americanos). Dentre os objetivos da Feneis enumeramos dois:
1- promover a inclusão dos profissionais surdos no mercado de trabalho; 2realizar pesquisas para a sistematização e padronização do ensino de Libras
para ouvintes. Outras informações podem ser consultadas diretamente no site
da federação <http://www.feneis.com.br>
A educação de surdos no Brasil abrange diferentes abordagens, nem sempre compatíveis, pois em geral oscilam na disputa sobre a forma de ensinar os alunos surdos e como eles
devem aprender, se pela língua oral (tradição alemã, iniciada em 1754 por Samuel Heinicke)
ou pela língua de sinais (tradição francesa, iniciada em 1760 por Charles-Michel de l’Épée).
A tendência oralista defende o aprendizado oral com o objetivo de aproximar ao máximo
os surdos do modelo ouvinte, isto é, visa capacitar o surdo para utilizar a língua da comunidade por meio da leitura labial.Todavia, já se sabe que a leitura labial só é possível quando o
interlocutor formula as palavras de frente para o surdo, com clareza e devagar, e ainda assim
há muita controvérsia quanto ao aproveitamento do que se fala em relação ao que é possível
compreender. Oralismo, segundo Sá (2006), é uma imposição aos surdos, uma vez que não
se aceita a língua de sinais como a maneira própria deles se comunicarem, discriminando a
cultura surda e ignorando a diferença entre surdos e ouvintes. O oralismo predominou a partir
do Congresso de Milão em 1880, cujo Comitê, composto apenas por ouvintes, decidiu proibir
o uso da língua gestual na educação de surdos.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
31
Perlin e Strobel (2006, p. 9), tratando dos fundamentos da educação de surdos, registram
que apesar de hoje os surdos começarem a ser vistos como cidadãos, com direitos e deveres
de participação na sociedade, “nós não podemos deixar de reconhecer que a história do povo
surdo mostra que por muitos séculos de existência, a pedagogia, as políticas e muitos outros
aspectos próprios do povo surdo têm sido organizados geralmente no ponto de vista dos
sujeitos ouvintes [...]”.
Como resposta ao fracasso do oralismo puro na educação da maioria dos surdos, surgiu
em meados de 1960 a proposta de conjugar a esse método a língua de sinais e demais recursos
de comunicação, resultando no que chamamos de comunicação total ou bimodalismo.Todavia,
o enfoque da comunicação total submete a língua natural das pessoas com surdez à língua oral,
acarretando em prejuízos e desvantagens de ordem cognitiva, afetiva, linguística, sociocultural
e política para os surdos (SÁ, 2006). Tanto o oralismo como a comunicação total assumem
o modelo da integração, que significa inverter o papel da língua de sinais, colocando-a em
segundo plano e concebendo suas práticas a partir do modelo ouvinte.
Na ótica da integração, cabe à pessoa surda adaptar-se ao mundo dos ouvintes,
esforçando-se para dominar um código sonoro difícil de ser aprendido, especialmente quando a língua de sinais não é valorizada como sua língua natural.
Por sua vez, a proposta bilíngue de ensino considera a língua de sinais como a primeira
língua e a língua oral como a segunda língua na modalidade escrita, visando capacitar a pessoa
com surdez para a utilização de duas línguas no cotidiano escolar e na vida social. Trata-se de
um grande desafio, tendo em vista que a Língua Portuguesa é difícil de ser assimilada pelo
aluno surdo, principalmente porque requer “mudanças estruturais e pedagógicas nas escolas
para romper com as barreiras que se interpõem entre esse aluno e o ensino” (SEESP, 2007). A
despeito disso, compreendemos, conforme pontua Quadros (in FERNANDES, 2010, p. 28), que
“conhecer várias línguas não representa uma ameaça, mas abre um leque de manifestações
linguísticas dependentes de diferentes contextos”.
A inclusão dos surdos na escola regular numa proposta bilíngue representa um
desafio, na medida em que os professores e demais profissionais da educação
desconhecem, em sua maioria, a Libras e uma metodologia de ensino que favoreça a diversidade.
Há diferentes abordagens de ensino na história da educação de surdos. Em geral, elas
se distinguem pelo reconhecimento ou não de que a língua de sinais é a forma natural e mais
adequada de comunicação para os surdos. Destacam-se: o oralismo, a comunicação total e
o bilinguismo. A busca por uma abordagem mais adequada para a educação de surdos ainda
32
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
é tema de amplo debate nacional, apesar dos diversos avanços no sentido de romper com as
propostas educativas excludentes e seletivas para assumir uma perspectiva inclusiva, reconhecendo o direito pleno de cidadania das pessoas surdas.
Resumo
Nesta aula, vimos que na história humana, as pessoas com deficiência
foram segregadas e até eliminadas. No entanto, a partir do século XVI, Ponce de
Leon inicia a educação de crianças surdas e, em 1620, Bonet publica o primeiro
livro com alfabeto manual para surdos. Em 1760, Charles-Michel de l’Épée
cria o Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris. Em 1948, foi elaborada
Declaração Universal dos Direitos Humanos que é vista como a base dos direitos
dos deficientes, mas só com a Declaração de Salamanca, em 1994, se delibera
sobre as necessidades educativas especiais. Foi exposto que no Brasil alguns
propõem escolas especiais para os surdos, mas a posição oficial vigente é a
de que a escola comum não seja substituída pelo atendimento especializado.
As experiências com o oralismo e a comunicação total colocaram a Libras em
segundo plano, o que levou a educação inclusiva bilíngue. Vimos, contudo, que
as abordagens para a educação de surdos ainda são tema de debate, apesar dos
avanços com a perspectiva inclusiva.
Autoavaliação
1
Explore o site do Ines<http://www.ines.gov.br> e o site da Feneis www.feneis.com.br
e, em seguida, registre o que você descobriu de importante em cada um.
2
Reflita e escreva um comentário sobre o papel da Libras nas salas de aula que
possuem alunos surdos.
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
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Referências
CAPOVILA, Fernando C. Filosofias educacionais em relação ao surdo: do oralismo à comunicação total ao bilingüismo. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 6, p. 99- 116, 2000.
Disponível em: <http://www.abpee.net/homepageabpee04_06/artigos_em_pdf/revista6numero1pdf/r6_art06.pdf>. Acesso em: 17 fev. 2011.
FERNANDES, Eulália (Org.). Surdez e bilinguismo. 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2010.
INSTITUTO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DE SURDOS (Ines). Disponível em: <http://www.ines.
gov.br/>. Acesso em: 17 fev. 2011.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Educação Especial (SEESP). Saberes e práticas
da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. Brasília: MEC/SEESP, 2006. Disponível em: <http://portal.
mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/alunossurdos.pdf>. Acesso em 17 fev. 2011.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Educação Especial (SEESP). Atendimento educacional especializado: aspectos legais e orientações pedagógicas. Brasília: MEC/SEESP, 2007.
MIRANDA, Arlete Aparecida Bertoldo. Educação especial no Brasil: desenvolvimento histórico. Cadernos de História da Educação, n.7, jan./dez., p. 29-44, 2008. Disponível em:
<http://www.seer.ufu.br/index.php/che/article/viewFile/1880/1564>. Acesso em: 17 fev.
2011.
PERLIN, Gladis; STROBEL, Karin. Fundamentos da educação de surdos. Florianópolis:
UFSC, 2006. Disponível em: <http://www.Libras.ufsc.br/hiperlab/avaLibras/moodle/prelogin/
adl/fb/logs/Arquivos/textos/fundamentos/Fundamentos%20da%20Educa%E7%E3o%20
de%20Surdos_Texto-Base.pdf>. Acesso em: 17 fev. 2011.
QUADROS, Ronice Muller de. O “BI” em bilinguismo na educação de surdos. In:
FERNANDES, Eulália (Org.). Surdez e bilinguismo. 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2010.
SÁ, Nídia Regina Limeira de. Cultura, poder e educação de surdos. São Paulo: Paulinas, 2006.
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Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
Anotações
Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
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Anotações
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Aula 2
Exclusão/inclusão: os surdos na escola comum
Noções sobre a surdez
Aula
3
Aula 3
Noções sobre a surdez
Apresentação
D
ando continuidade aos temas já abordados nas aulas anteriores deste Caderno, introduzimos algumas noções básicas sobre a surdez. Discutiremos como a surdez implica numa
realidade adversa para o surdo, pois vivemos numa sociedade em que as informações
sonoras compõem grande parte dos produtos culturais materiais e simbólicos. Além disso, a
vida é repleta de sons, como o trânsito, a música, o barulho de máquinas e motores, os sons da
natureza, os quais orientam atitudes comuns do cotidiano. A ausência da audição é compensada
pela maior sensibilidade às informações visuais, de modo que os surdos podem realizar todas as
atividades da vida comum que não dependam exclusivamente da percepção sonora.
As condições biomédicas que podem caracterizar os problemas de audição têm grande
diversidade nas suas causas: congênitas, patológicas ou traumáticas, cujos resultados físicos
vão desde a deficiência auditiva até a surdez. Entretanto, são os seus efeitos socioculturais
discriminatórios os maiores obstáculos para que as pessoas surdas tenham vidas ricas e
produtivas em todas as áreas da atividade humana: ciências, artes, esportes, política, lazer etc.
Objetivos
1
Conhecer aspectos biomédicos da deficiência auditiva e
da surdez.
2
Informar-se sobre dados da população surda no Brasil e
no mundo.
3
Compreender a relação entre deficiência e funcionalidade.
Aula 3
Noções sobre a surdez
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Aula 3
Noções sobre a surdez
Compreendendo a surdez
T
odos têm uma noção aparentemente clara do que seja a surdez, considerada de forma
equivocada como sinônimo de deficiência auditiva. De fato, mesmo nos conceitos ligados ao modelo puramente médico, algumas vezes a denominação de surdez ainda é
utilizada para qualquer grau de perda auditiva. Entretanto, em geral, para os indivíduos com
perda leve, moderada ou grave, aplica-se o termo deficiência auditiva, ou hipoacusia, definida
como dificuldade em ouvir, mas permitindo um grau mínimo de audição e de comunicação
oral. Atualmente, o termo surdez, ou anacusia, é empregado somente para os indivíduos com
perda auditiva muito grave, para os quais não há benefício por meios de amplificação sonora
(PIATTO; MANIGLIA, 2001).
A denominação de surdo é o que tem significado médico correto, ao invés de surdo-mudo,
pois a perda da audição refere-se exclusivamente às deficiências do ouvido e não às cordas vocais
(pregas vocais, na terminologia científica), que mantêm a sua funcionalidade. Como se sabe, os
surdos podem falar, mesmo que não ouçam o som da própria voz, o que é imprescindível para
a automodulação das características vocais (tom, timbre, quantidade e intensidade). Como já
dissemos, a oralização foi durante muito tempo a abordagem predominante na educação dos
surdos, porém muito criticada por atender às necessidades de compreensão dos ouvintes e não
às condições reais de comunicação dos surdos que, evidentemente, têm dificuldades para uma
plena vocalização e cuja pronúncia se constitui alvo de discriminação social.
Fisicamente, a recepção sonora pode ocorrer por condução aérea (vibração do tímpano
provocada pela diferença de pressão do ar do ouvido externo e ouvido médio) ou por condução óssea (a vibração dos ossos do crânio sensibilizando as células receptoras no ouvido
interno). Para tratar das deficiências na audição, os aparelhos auditivos que amplificam as
ondas sonoras de condução aérea são superiores na discriminação dos sons, porém, aqueles
de condução óssea podem ser usados por indivíduos que não tenham o canal auditivo ou nos
casos mais graves de deficiência auditiva condutiva. Ainda que a tecnologia dos aparelhos
auditivos esteja bem desenvolvida, assim como procedimentos cirúrgicos e protéticos, nos
casos tratáveis de deficiência auditiva grave ou muito grave, a audição dos sons da fala humana
não é completamente recuperada.
Aos indivíduos com perda auditiva leve, moderada ou grave, definida como dificuldade em ouvir, aplica-se o termo de deficiência auditiva, enquanto o termo
surdez é empregado para os indivíduos com perda auditiva muito grave.
De acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), a deficiência auditiva é considerada como a diferença audiométrica (medida em decibéis) entre o desempenho
do indivíduo e a habilidade normal de detecção sonora, conforme tabela abaixo. Em geral,
considera-se como audição normal a capacidade de detectar sons no limiar de 0-25 dB.
Aula 3
Noções sobre a surdez
41
Tabela 1 – Síntese da classificação da deficiência auditiva segundo a Organização Mundial de Saúde
Grau de audição
Nível no audiômetro
Teste de voz
Capaz de ouvir sussuros
(a 1m ou menos)
Audição normal
25 dB ou menos
Deficiência leve
26 – 40 dB
Capaz de ouvir e repetir palavras em voz de
conversa (a 1m)
Deficiência moderada
41 – 60 dB
Capaz de ouvir e repetir palavras em voz alta (a 1m)
Deficiência severa
61 – 80 dB
Capaz de ouvir algumas palavras gritadas no ouvido
Deficiência profunda (surdez)
81 dB ou mais
Incapaz de ouvir e compreender mesmo gritos no
ouvido
Nota: Considera-se a média do limiar por via aérea nas frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hertz (Hz).
* Até 20 decibéis (dB) também pode ser considerado como normal.
Fonte: World Health Organization, 2006, p. 96).
Importante: Essa é a classificação adotada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde 1991. No Brasil, é
comumente utilizada a classificação de Davis e Silverman, proposta em 1966, que coloca a deficiência severa a
partir de 70 dB e a deficiência profunda a partir de 90 dB (Teste do Audiômetro). Também há outras classificações
que consideram a deficiência auditiva profunda a partir de 70 dB (Vieira; Macedo; Gonçalves, 2007). No sentido
mais amplo, de acordo com o Decreto 5296/2004, que trata da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência, considera-se deficiência auditiva a “perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais,
aferida por audiograma nas frequências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz.” Todavia, o diagnóstico sobre o
grau de deficiência auditiva de uma pessoa, incluindo a surdez, só pode ser feito por um profissional habilitado,
médico ou especialista.
Como informação complementar, organizamos no quadro a seguir os principais tipos de
deficiência auditiva e suas respectivas causas.
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Aula 3
Noções sobre a surdez
Causas prováveis
Descrição
Deficiência auditiva condutiva
Deficiência auditiva neurossensorial
Quando há prejuízo na transmissão do som
entre o conduto auditivo do ouvido externo, o
ouvido médio (tímpano, bigorna e estribo) e o
ouvido interno (cóclea e nervo auditivo). Em
geral, esse tipo de deficiência tem tratamento
clínico e cirúrgico.
Quando, do ouvido interno até o cérebro, há ausência de
recepção ou decodificação sonora por causa de lesão ou
disfunção nas células receptoras da cóclea ou do nervo
auditivo. Esse tipo de deficiência é irrecuperável.
– cerume ou corpos estranhos do conduto
auditivo externo;
– otite externa: infecção bacteriana da pele do
conduto auditivo externo;
– otite média: processo infeccioso e/ou
inflamatório da orelha média;
– redução ou ausência do conduto auditivo
externo (geralmente uma má-formação
congênita);
– inflamação da membrana timpânica ou
infecções das vias respiratórias superiores;
– perfurações da membrana timpânica;
– obstrução da tuba auditiva;
– fissuras palatinas;
– otosclerose.
Causas pré-natais
– de origem hereditária – surdez herdada monogênica,
que pode ser uma surdez isolada da orelha interna por
mecanismo recessivo ou dominante ou uma síndrome com
surdez; e surdez associada a aberrações cromossômicas;
– de origem não hereditária (causas exógenas): infecções
maternas por rubéola, citomegalovírus, sífilis, herpes,
toxoplasmose; drogas ototóxicas e outras, alcoolismo
materno, irradiações (por exemplo, raios X); diabetes e
outras doenças maternais graves.
Causas perinatais
– prematuridade ou baixo peso ao nascimento;
– trauma de parto;
– doença hemolítica do recém-nascido (icterícia grave);
Causas pós-natais
– infecções – meningite, encefalite, parotidite epidêmica
(caxumba), sarampo;
– agentes químicos tóxicos: monóxido de carbono, mercúrio,
tabaco, ouro, arsênico, álcool;
– drogas ototóxicas: antibióticos, diuréticos, medicamentos
antimalária;
– perda auditiva induzida por ruído excessivo;
– traumas físicos que afetam o osso temporal.
Quadro 1– Deficiências auditivas: descrição e causas prováveis
Observação: Além dos tipos de deficiência auditiva condutiva e neurossensorial, há o tipo de deficiência auditiva mista,
combinando as características de ambos os tipos.
Ouvido Ouvido Ouvido
externo médio interno
Nervo auditivo
Bigorna
Orelha
Martelo
Cóclea
Canal
Tímpano
Estribo
Tubo de Eustáquio
Figura 1 – Fisiologia do ouvido
Aula 3
Noções sobre a surdez
43
Curiosidade
O surdo pode “ouvir” música? Sim, pela vibração direta (ressonância) de instrumentos musicais, nos casos em que as células receptoras do ouvido interno
possam ser estimuladas pela condução óssea de ondas sonoras.
Você deve ter ouvido falar que Beethoven, um dos músicos mais famosos da
humanidade, compôs a 9ª Sinfonia quando já estava surdo. Segurando uma
vareta entre os dentes e encostando a outra extremidade no piano ou no violino
ele pôde ainda continuar “ouvindo” música.
Qual a população de surdos no mundo e no Brasil? Os números são controversos, pois os
órgãos de governos e as várias instituições locais e internacionais (médicas, técnicas ou associativas) utilizam-se de diferentes metodologias de levantamentos e estimativas sobre as pessoas
surdas. Também algumas estatísticas sobre a surdez são imprecisas e por isso discutíveis, pois
incluem todos os tipos de deficiências auditivas, enquanto outras são somente estimativas.
44
Aula 3
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que no ano 2000 o número de deficientes auditivos na população mundial seria de 57 milhões de
pessoas.
Aproximadamente 0,1% da população infantil no mundo nasce com deficiência auditiva severa e profunda.
Mais de 4% do grupo de crianças consideradas de alto risco são diagnosticadas como portadoras de deficiência auditiva.
Aproximadamente 90% das crianças americanas portadoras de deficiência
auditiva de graus grave e muito grave são filhos de pais ouvintes (Northern
e Downs, 1991).
Nos Estados Unidos, pesquisas indicam que a prevalência de deficiências
auditivas neurossensoriais é de 0,6% dos nascidos.
De acordo com a OMS (1994), estimava-se que 1,5% da população brasileira–
2,86 milhões em 2010 – seriam portadores de deficiência auditiva.
Segundo o IBGE, em 2000, o número de surdos no Brasil era de 166 mil,
sendo 80 mil mulheres e 86 mil homens. No mesmo levantamento, cerca
de 900 mil pessoas declararam ter grande dificuldade permanente de ouvir.
Segundo o INES, no Brasil, a idade média de diagnóstico da perda auditiva neurossensorial de severa a profunda é muito tardia, em torno de 4 anos de idade.
Noções sobre a surdez
Responda as seguintes questões.
1
Qual a diferença entre os seguintes termos: deficiência auditiva e surdez?
2
Pesquise sobre os números da população de surdos. A que razões você atribui as
diferenças sobre os números de surdos no mundo e no Brasil?
A relação entre
deficiência e funcionalidade
A
s definições de “deficiência” são constantemente objeto de estudos científicos e debates
sociais, entretanto essas definições não são apenas a convenção de termos linguísticos
ou biomédicos, mas também são usadas geralmente como denominações culturais, implícitas e explícitas, carregadas de significados discriminatórios que variam de uma sociedade
a outra. No caso dos conceitos de deficiência, que inclui o de deficiência auditiva e surdez, os
problemas de compreensão e entendimento são reforçados pelo intenso debate contemporâneo
baseado na luta pelos direitos humanos, que estimulam a discussão acerca de uma linguagem
não discriminatória que oriente ações de governos e a reflexão social. Inegavelmente, apesar de
muitas leis para a definição e proteção de direitos, há uma relação profunda entre deficiência
e exclusão social. Como consequência, os surdos enfrentam: falta de oportunidades iguais
para o desenvolvimento humano; restrição aos recursos culturais e econômicos; e, reduzida
participação nas decições de direitos políticos e civis.
Aula 3
Noções sobre a surdez
45
Saiba mais
Os conceitos de deficiência, incluindo a surdez, estão presentes no debate contemporâneo sobre os direitos humanos, pois há uma relação profunda entre
deficiência e exclusão social.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), integrada por 191 países, é a instituição de
referência internacional para as convenções de termos e orientação para políticas e estudos
científicos sobre a saúde, e ela constantemente vem buscando definições mais claras e de
aceitação geral. Nesse sentido, devido à associação entre deficiência e incapacidade que é
discriminatória e causadora de sérios prejuízos sociais e psicológicos, a OMS promoveu uma
mudança de paradigma, abandonando os modelos tradicionais de referência médica sobre
a doença, e concentrou-se na qualificação da saúde. Com essa preocupação em definir as
condições de saúde, a OMS aprova em 2001 a Classificação de Funcionalidade, Incapacidade
e Saúde (CIF), que descaracteriza a deficiência como doença.
Estado de saúde
(distúrbio ou doença)
Funções &
Estruturas Corporais
Atividade
Fatores
Ambientais
Participação
Fatores
Pessoais
Fatores Contextuais
Figura 2 –Classificação de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)
Fonte: World Health Organization(2002).
A CIF (OMS, 2001) relaciona funcionalidade e incapacidade através de três conceitos
interativos:
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Aula 3
Noções sobre a surdez
as funções e estruturas do corpo das pessoas e o seu estado de saúde;
as atividades e as tarefas que a pessoa exerce nas diferentes áreas da sua
vida (atividades e participação);
os fatores contextuais (ambientais e pessoais) que influenciam essas experiências (fatores contextuais).
A funcionalidade e a incapacidade não são mais vistas como atributos pessoais, mas
como um conjunto complexo relacionado à interação, positiva ou negativa, entre as condições próprias da pessoa, a sua participação como indivíduo e o seu meio social. Assim, a
incapacidade não é o resultado específico de um grupo minoritário, mas sim uma experiência
humana universal, para a superação da qual toda a sociedade deve contribuir. Nessa concepção
integrada, a alteração ou não na estrutura ou função do corpo da pessoa não tem uma relação
causal para o desempenho de suas capacidades. É a interação entre a pessoa, suas atividades
e os fatores contextuais, como a existência ou não de barreiras materiais e culturais, que vai
determinar de forma dinâmica as condições para uma boa qualidade de vida. O uso do termo
deficiência corresponde, assim, apenas às alterações do corpo, enquanto o termo incapacidade
é mais abrangente, indicando aspectos negativos da interação entre o indivíduo e seu contexto.
Nessa perspectiva multidimensional e dinâmica:
Um indivíduo pode apresentar uma deficiência (no nível do corpo) e não necessariamente
viver qualquer tipo de incapacidade. De modo oposto, uma pessoa pode viver a incapacidade sem ter nenhuma deficiência, apenas em razão de estigma ou preconceito (barreira
de atitude) (DI NUBILA; BUCHALLA, 2008, p. 330).
Em resumo, se a surdez não é uma doença, sendo considerada apenas como uma forma
muito grave de deficiência auditiva, essa condição intrínseca não caracteriza por si mesma a
incapacidade do indivíduo para a participação em qualquer atividade. A efetiva capacidade de
participação de uma pessoa está mais propriamente relacionada à sua interação com fatores
culturais, o que para as pessoas surdas está associada à existência ou não de barreiras de
comunicação e participação social.
No caso brasileiro, apenas nas últimas décadas as pessoas surdas têm recebido a devida
atenção legal, cultural e educativa, para a superação do preconceito e para a ampliação do
seu reconhecimento e participação social. As lutas das organizações de surdos, a atenção
dos órgãos governamentais, os estudos multidisciplinares sobre a surdez, as experiências
com educação de surdos, a atuação de interessados e de familiares de pessoas surdas têm
contribuído para o desenvolvimento e a propagação da Língua Brasileira de Sinais. Logo, o
ensino da Libras, como a modalidade linguística mais adaptada às condições físicas da surdez,
tornou-se fator fundamental para que se reconheça e estimule o desenvolvimento pleno das
capacidades dos surdos, na escola e fora dela. Este, no seu sentido humano mais profundo, é
o papel da educação: a ampliação contínua da aprendizagem do homem sobre si mesmo, em
busca da satisfação pessoal e do desenvolvimento social mais justo.
Aula 3
Noções sobre a surdez
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Leituras complementares
RAMOS, Cléa Regina. Libras: a língua de sinais dos surdos brasileiros. Disponível em: <http://
www.editora-arara-azul.com.br/pdf/artigo2.pdf>. Acesso em: 17 fev. 2011.
Nesse breve texto, a autora, que já foi ex-diretora da Revista da FENEIS, explora de maneira fundamentada as raízes históricas das línguas de sinais no mundo e no Brasil, destacando
sua importância como língua natural das comunidades surdas.
CHARLES LIBRAS: blog. História da educação de surdos no Brasil e no mundo. 10 abr. 2010.
Disponível em:<http://charles-libras.blogspot.com/2010/04/historia-da-educacao-de-surdosno.html>. Acesso em: 17 fev. 2011.
Charles Anderson é tradutor intérprete de Libras certificado pelo MEC e palestrante.
Em seu blog, ele apresenta uma cronologia da educação de surdos no Brasil e no mundo.
FEDERAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS SURDOS –FENEIS. Disponível
em: <http://www.feneis.com.br/page/>. Acesso em: 17 fev. 2011.
A FENEIS mantém um site bastante variado com acesso à legislação, material sobre
Libras, sala de bate-papo, conteúdo das suas revistas e outras informações importantes.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Disponível
em: <http://www.ines.gov.br/>. Acesso em: 17 fev. 2011.
O site do INES, que hoje é um órgão do Ministério da Educação, traz importantes informações e links sobre a educação de surdos, como cursos a distância, livros digitalizados sobre
surdez, mundo do surdo e prevenção, entre outros assuntos.
48
Aula 3
Noções sobre a surdez
Resumo
Nesta aula, vimos que os problemas de audição têm várias causas
biomédicas, mas são os seus efeitos discriminatórios os maiores obstáculos para
as pessoas surdas. Conhecemos que a denominação correta é surdo, ao invés de
surdo-mudo, pois a surdez refere-se às deficiências do ouvido e não às cordas
vocais, que mantêm a funcionalidade. Através de dados expostos na aula, foram
apresentadas controvérsias sobre o número de surdos no mundo e no Brasil,
porque os governos e instituições utilizam-se de diferentes metodologias de
levantamentos e estimativas. Mostramos também que desde 2001, a Organização
Mundial da Saúde adota a Classificação de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde,
a partir da qual a funcionalidade e a incapacidade são um conjunto complexo
relacionado à interação entre as condições da pessoa, a sua participação individual
e o seu meio social. Por fim, relacionamos diversos órgãos governamentais e
outras organizações com experiência na educação de surdos que têm contribuído
para que a difusão da Libras, vista como fundamental para o desenvolvimento
pleno das capacidades dos surdos, na escola e fora dela.
Autoavaliação
Pesquise na internet sobre como as pessoas surdas, no mundo e no Brasil, têm superado
preconceitos sociais e barreiras profissionais.
Assinale com verdadeiro (V) ou falso (F) para as sentenças abaixo:
( )
1)
As estatísticas sobre surdos são controversas: as estimativas para deficientes
auditivos em geral eram, em 2000, eram de 57 milhões no mundo (OMS) e de
900 mil no Brasil (IBGE).
( )
2)
O termo surdez, ou anacusia, geralmente é empregado para os indivíduos com
qualquer nível de perda auditiva.
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Noções sobre a surdez
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( )
3)
A funcionalidade e a capacidade de uma pessoa têm uma relação dinâmica
com as atividades que ela desempenha e com os fatores contextuais, o que
para as pessoas surdas estão associadas à existência ou não de barreiras de
comunicação.
( )
4)
As organizações de surdos, os órgãos governamentais e as experiências com
educação de surdos têm contribuído para a propagação da Língua Brasileira de
Sinais.
( )
5)
As definições de deficiência, incluindo a surdez, são apenas convenções biomédicas, e não têm sido usadas como denominações culturais com significados
discriminatórios.
( )
6)
O ensino da Libras é a modalidade linguística mais adaptada às condições
físicas da surdez.
Exercite os seguintes sinais, pelo menos três vezes, cada um:
SURDO
OUVINTE
LIBRAS
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Aula 3
Noções sobre a surdez
PORTUGUÊS
Referências
DI NUBILA, Heloisa Brunow V.; BUCHALLA, Cássia Maria. O papel das Classificações da OMS
– CID e CIF nas definições de deficiência e incapacidade. Revista Brasileira de Epidemiologia,
v. 11, n. 2, p. 324-335, 2008.
INSTITUTO BRASILEIRO DE ESTATÍSTICA – IBGE. Informe sobre o censo de 2000. Disponível
em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/27062003censo.shtm. Acesso em: 17
fev. 2011.
PIATTO, Vânia B.; MANIGLIA, José V. Avaliação da audição em crianças de 3 a 6 anos em
creches e pré-escolas municipais. Jornal de Pediatria, v. 77, n. 2, 2001.
SEESP. Atendimento educacional especializado: deficiência auditiva. Brasília: MEC/SEESP, 2007.
VIEIRA, Andreza Batista Cheloni; MACEDO, Luciana Resende de; GONÇALVES, Denise Utsch.
O diagnóstico da perda auditiva na infância. Pediatria, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 43-49, 2007.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Towards a Common Language for Functioning, Disability
and Health. Genebra: ICF, 2002.
______. Primary ear and hearing care training resource: trainer’s manual. Genebra:
WHO, 2006.
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Anotações
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Anexo
A
B
F
G
L
M
R
C
H
N
S
X
Ç
Y
E
J
K
I
O
T
D
P
U
Q
V
W
Z
Figura 1 –Alfabeto Manual
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54
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