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relação mãe e filha uma reflexão sobre a sexualidade feminina na
UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES
PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO
PÓS-GRADUAÇÃO
PROJETO “A VEZ DO MESTRE”
RELAÇÃO MÃE E FILHA
UMA REFLEXÃO SOBRE A SEXUALIDADE FEMININA
NA ADOLESCÊNCIA
SOLANGE DE SOUZA NASCIMENTO
ORIENTADORA
MARIA ESTHER DE ARAÚJO OLIVEIRA
Rio de Janeiro, Outubro de 2001
II
UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES
PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO
PÓS-GRADUAÇÃO
PROJETO “A VEZ DO MESTRE”
RELAÇÃO MÃE E FILHA
UMA REFLEXÃO SOBRE A SEXUALIDADE FEMININA
NA ADOLESCÊNCIA
SOLANGE DE SOUZA NASCIMENTO
Projeto
apresentado
à
Universidade
Cândido Mendes como requisito parcial da
realização do Curso de Pós-graduação
“Lato Sensu” em Terapia de Família.
Rio de Janeiro, outubro de 2001
III
RESUMO
O presente estudo tem por objetivo fazer uma reflexão sobre a sexualidade
feminina na adolescência, utilizando como tema-chave a relação mãe e filha. A
contribuição da terapia de família no auxílio aos conflitos familiares surgidos nesta fase,
também será tema de nossa reflexão.
O estudo é o resultado de uma revisão bibliográfica, na qual foram
fartamente citados teóricos conceituados como FREUD e ABERASTURY. Além destes
teóricos, foram utilizados estudos mais recentes de escritores como HITE e
KOLBENSCHLAG.
O tema é bastante atual, pois podemos assistir hoje, uma crise na
identidade materna. As mulheres se encontram divididas entre as exigências de seu papel
de mãe e sua carreira profissional. Muitas vezes trazem a filha à terapia, pois, também esta
é a oportunidade para evocarem suas próprias inquietudes quanto à sua competência de
mãe.
Falar dos sentimentos “mais primários” que rondam a relação mãe e filha,
e poder dizer que nem tudo está perdido, tornou-se um campo bastante profícuo para a
terapia de família.
Sugere-se que estudos adicionais sejam
realizados, a fim de ampliar a literatura
existente sobre o assunto em questão.
IV
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ..........................................................................................................04
CAPÍTULOS
1. UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A ADOLESCÊNCIA .............................. 06
2. ETAPAS DA EVOLUÇÃO PSICOSSEXUAL ................................................... 10
2.1. Estágio Oral ...................................................................................................10
2.2. Estágio Anal ...................................................................................................11
2.3. Estágio Fálico ................................................................................................ 13
2.3.1. O Complexo de Castração na Menina .................................................. 13
2.4. Estágio Genital .............................................................................................. 14
2.4.1. O Complexo de Édipo na Menina ......................................................... 14
2.5. Latência ......................................................................................................... 15
2.6. A adolescência ............................................................................................... 17
2.6.1 - Mudanças Biológicas ............................................................................. 17
2.6.2 – Mudanças psicológicas ......................................................................... 19
3. A SEXUALIDADE FEMININA NA ADOLESCÊNCIA .................................. 22
3.1 A Relação Mãe e Filha ........................................................................................ 22
4. A TERAPIA FAMÍLIAR ..................................................................................... 27
CONCLUSÃO ............................................................................................................ 31
BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................... 34
ANEXO ........................................................................................................................36
4
INTRODUÇÃO
As imagens religiosas e mitológicas falam de planos de consciência, ou
campos de experiência, que existem potencialmente no espírito humano. Elas evocam
atitudes e experiências que nos levam à meditação. Buscamos saber a fonte de nosso
próprio ser.
Houve sistemas religiosos em que a mãe era o principal progenitor, a fonte.
A mãe, na verdade, é um progenitor mais próximo que o pai, porque o primeiro contato do
ser humano é com a mãe. Ele nasceu dela, ela o amamenta, lhe dá a educação e acompanha
o seu crescimento, até a idade em que ele deve procurar o seu pai e encontrar o seu próprio
destino.
Podemos pensar que, somente encontramos os nossos destinos, quando
“rompemos” com nossas mães, e saímos em busca de nosso pai. Neste ponto se torna
necessário frisar que, a mãe aqui falada, não é necessariamente a mãe biológica, mas
àquela encarregada do cuidar, àquela que é mais do que um conceito, está relacionada a
uma função. Aquela que pode ser qualquer ser humano, independente de sexo, idade ou
vínculo de parentesco com a criança.
Esta mãe forrou a cama com um edredom bem confortável e, sobre este
edredom, permanecemos, até despertarmos para a urgência de empreendermos a nossa
“Jornada do Herói” (CAMPBELL, 1990).
Torna-se necessário sairmos da condição de Bela Adormecida, deitada à
espera do beijo do príncipe; deixarmos de projetar a mãe perdida ou a “boa” mãe em
amantes, amigos, mentores, grupos e instituições; empreendermos à nossa jornada, a fim
de descobrirmos a Alice (aquela do País das Maravilhas) que sempre esteve presente,
porém, sufocada dentro de nós.
Na verdade, percebemos que a nossa vida pode ser um eterno “círculo
vicioso”, no qual se encontram misturados dentro dele os psiquismos de nossas avós, mães,
bisavós, nossos “eus”, unidos aos seus “eus”. Podemos fazer uma analogia com uma
grande panela de sopa, na qual todos os legumes se encontram misturados e, somente a
5
intervenção da colher-pai faz parar o círculo, trazendo à realidade as individualidades de
seus legumes.
HITE diz que Alice merece o status de ícone, sendo um símbolo tão
contestador psicologicamente quanto Édipo.
“Alice com sua irreverência inteligente diante do mundo
que, para ela, vive de cabeça para baixo, é um arquétipo com o qual
garotas na puberdade podem se identificar. A personagem pode
quebrar a tradição de símbolos negativos para as mulheres.”
KOLBENSCHLAG (1991) fala que somente quando a mulher se dá à luz é
que ela se torna capaz de criar uma filha autônoma.
A condição de autonomia se refere à razão
que o indivíduo encontra dentro de si
mesmo. A pessoa é responsável absoluta
em gerir a sua própria vida interior, tem
confiança no seu próprio poder de escolha,
na sua capacidade de ser equânime e de
poder empreender o seu próprio projeto
existencial.
A terapia de família pode intervir de forma bastante positiva e produtiva,
permitindo que o diálogo entre pais e filhos aconteça num ambiente acolhedor, desprovido
de críticas e com o aparato técnico do terapeuta de família. Trabalhando e interpretando as
representações inconscientes, o profissional tem a tarefa de favorecer a imersão dos
conteúdos psicológicos individuais e analisar, junto com a família, como estes conteúdos
atingem o grupo familiar como um todo.
Nesta monografia daremos ênfase à sexualidade feminina, à relação mãe e
filha e à contribuição da terapia de família no auxílio à resolução dos conflitos familiares
surgidos na adolescência.
6
CAPÍTULO I
UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A ADOLESCÊNCIA
A adolescência é um momento crucial na vida do homem e constitui a etapa
decisiva de um processo de desprendimento. Segundo ABERASTURY (1983, p. 15), este
processo atravessa 3 momentos fundamentais: o primeiro é o nascimento, o segundo surge
ao final do primeiro ano com a eclosão da genitalidade, a dentição, a linguagem, a posição
de pé e a marcha; e o terceiro momento aparece na adolescência.
O conflito entre gerações é o tema principal desse período. Os valores dos
pais são questionados, e eles (os pais) deixam de ser a única referência de seus filhos.
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (1991, p. 13), a
adolescência está compreendida entre os 12 e 18 anos de idade.
O Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1986, p. 48) estende até os 20
anos esta fase, e, define no seu primeiro conceito, a adolescência como sendo o “período
da vida humana que sucede à infância, começa com a puberdade, e se caracteriza por uma
série de mudanças corporais e psicológicas (estende-se aproximadamente dos 12 aos 20
anos).”
No mesmo dicionário, uma segunda definição, correspondente à área da
psicologia, define a adolescência como um:
“período que se estende da terceira infância até a idade
adulta, marcado por intensos processos conflituosos e persistentes
esforços de afirmação. Corresponde à fase de absorção dos valores
sociais e elaboração de projetos que impliquem plena integração
social.”
O adolescente procura ampliar seu universo de relações e conferir seus
valores e saberes. A necessidade de exploração, até mesmo do próprio corpo, demonstra
que ele está à procura de conhecer o mundo e a sua própria identidade.
7
“A aventura de experimentar um primeiro cigarro, um
copo de pinga ou cerveja, o cheiro de cola de sapateiro ou outras
drogas leves são fatos normais na adolescência. Daí a sensação de
perigo para os pais e educadores, perigo esse reforçado pelos
noticiários que acentuam o aumento do consumo de drogas pelos
jovens.
É preciso relativizar esse perigo: a experimentação de
drogas é comum nessa fase da vida e não significa obrigatoriamente
apego à droga ou dependência. Para o adolescente, significa um rito
de passagem ” (IEE-PUC/SP e CMDCA/RJ, 1996, p. 19-20).
CAMPBELL (1990), em entrevista fornecida ao jornalista Bill MOYERS,
acrescenta que, os atos destrutivos e violentos praticados por jovens, que não sabem como
se comportar numa sociedade civilizada, surgem em decorrência da ausência de um
preparo espiritual para esta nova fase na vida do indivíduo.
“Eis o significado dos rituais da puberdade. Nas
sociedades primitivas, dentes são arrancados, dolorosas
escarificações são feitas, há circuncisões, toda sorte de coisas
acontecem, para que você abdique para sempre do seu corpinho
infantil e passe a ser algo inteiramente diferente.
Quando eu era criança, nós vestíamos calças curtas, você
sabe, calças pelos joelhos. E chegava então o grande momento em
que você vestia calças compridas. Quando é que eles vão saber que
já são homens e precisam abandonar as criancices?.” (CAMPBELL,
1990, p. 8).
O mesmo autor continua sua entrevista e, no trecho seguinte da mesma obra,
faz referência à juventude da cidade de Nova Iorque, dizendo que os adolescentes desta
cidade, especificamente do Centro de Harlem, zona de alto índice de delinqüência,
fabricam seus mitos por sua própria conta.
“Por isso é que temos grafites por toda a cidade. Esses
adolescentes têm suas próprias gangues, suas próprias iniciações,
sua própria moralidade. Estão fazendo o melhor que podem. Mas são
perigosos, porque suas leis não são as mesmas da cidade. Eles não
foram iniciados na nossa sociedade.” (CAMPBELL, 1990, p.9).
A escritora Shere HITE, em entrevista para o jornal O Globo de 10/09/95,
aborda o tema da sexualidade feminina e, assim como CAMPBELL, sinaliza a importância
dos ritos de passagem:
“O símbolo da recusa da sociedade em aceitar a
sexualidade feminina, bem como os sentimentos negativos que ela
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desperta, é o silêncio sombrio em torno da menstruação. Até hoje,
quando a garota fica menstruada pela primeira vez, ninguém imagina
que essa seria uma boa data para prestar-lhe uma homenagem, ou
oferecer-lhe um jantar especial. Afinal, trata-se de dar-lhe as boas
vindas a uma nova fase da sua vida, celebrar as alterações que estão
acontecendo com seu corpo. Só em poucas famílias o pai é informado
do acontecimento.
Uma comemoração conseguiria alterar a atmosfera
negativa que paira, há séculos, sobre a identidade sexual. Esta
atmosfera qualificou a menstruação de ‘maldição’, o desejo sexual
feminino de ‘perverso’ e a exibição da sexualidade feminina de
‘vulgar’.”
Sabemos que, para nossa sociedade, os ritos de passagem realizados nas
sociedades primitivas se apresentam como formas drásticas, cruéis e “violadoras” da
integridade física, psicológica e moral dos jovens; embora a nossa sociedade também ainda
não possa ser vista como exemplo no tratamento oferecido aos jovens. O nosso registro
visa enfatizar que, o tabu de nossa sociedade, diante dos fenômenos naturais que regem a
vida sexual do adolescente, não tem contribuído para que eles exerçam sua sexualidade de
forma responsável e prazerosa.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais, no seu conteúdo referente aos temas
transversais, apresenta a orientação sexual como um tema transversal a ser desenvolvido
no ensino fundamental desde as quatro primeiras séries até as séries mais avançadas,
correspondentes aos terceiro e quarto ciclos (de quinta a oitava série).
Este conteúdo nos diz que:
“A orientação sexual na escola deve ser entendida como
um processo de intervenção pedagógica que tem como objetivo
transmitir informações e problematizar questões relacionadas à
sexualidade, incluindo posturas, crenças, tabus e valores a ela
associados. Tal intervenção ocorre em âmbito coletivo,
diferenciando-se de um trabalho individual, de cunho
psicoterapêutico e enfocando as dimensões sociológica, psicológica e
fisiológica da sexualidade. Diferencia-se também da educação
realizada pela família, pois possibilita a discussão de diferentes
pontos de vista associados à sexualidade, sem a imposição de
determinados valores sobre outros.” (PCN, 1997, p. 34)
Um dos critérios adotados para a eleição do tema Orientação Sexual para o
trabalho escolar diz respeito à urgência social de se falar, de se problematizar uma
questão que tem aparecido como preocupação constante de pais professores, escola,
sociedade, governo, etc. Os índices de gravidez na adolescência somados a questões das
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doenças sexualmente transmissíveis, entre outros agravantes; apontaram a necessidade de
uma tomada de posição que revertesse este quadro.
A teoria psicanalítica nos diz que, os conflitos da adolescência ocorrem
devido ao reaparecimento, durante a puberdade, dos conflitos sexuais que ocorreram muito
antes, durante os primeiros cinco ou seis anos de vida.
No capítulo posterior, abordaremos as várias fases pelas quais o ser humano
passa, na sua evolução psicossexual.
10
CAPÍTULO II
ETAPAS DA EVOLUÇÃO PSICOSSEXUAL
FREUD (1905) cita diversas etapas do desenvolvimento psicossexual do
indivíduo. Essas etapas não seguem uma cronologia etária definida e interpenetram-se,
gradativamente, à medida que nos aproximamos das etapas genitais:
2.1. Estágio Oral
Corresponde ao primeiro período, onde a fonte corporal das excitações
pulsionais, localiza-se predominantemente na zona bucal.
O objeto desta etapa é o seio, ou seja, tudo aquilo que se refere ao seio
materno ou o substitui. Ele satisfaz a necessidade biológica da alimentação, mas, também,
àquelas outras tantas necessidades de ordem psicológica (aconchego, calor, carinho,
segurança, etc).
FREUD, em seus estudos, observando crianças que eram amamentadas no
peito, percebeu que, após estas crianças terem sido satisfeitas em suas necessidades
biológicas de sobrevivência (Instinto de Conservação), continuavam a ter uma série de
movimentos labiais ou mesmo de toda extremidade cefálica, inclusive chupando o dedo
polegar ou a mão inteira. Ou seja, após a alimentação específica, permanecia, na criança,
uma demanda de objetos não alimentícios, tal como a necessidade de continuar próximo ao
corpo da mãe e ser tocado por ela. Esta satisfação a mais é conseqüência de um excesso de
energia que acompanha a pulsão oral de auto-conservação. Este excesso se chama pulsão
11
sexual, e sua satisfação se estende além do limite espacial da boca em si mesma e do limite
temporal.
A sexualidade em FREUD aparece como secundária,
“como manifestação cuja ordem de importância vem
depois de serem atendidas as necessidades básicas de sobrevivência.
Esta sexualidade ainda tem pouco a ver com a genitalidade, pois está
ligada a carinho, a afeto, a modalidade de relacionamento, ou seja,
significações.” (KUSNETZOFF, p. 28, 1982)
O bebê, neste período, construirá seu mundo interior com aquilo que sinta
lhe está a primeira experiência de prazer. As experiências que trazem prazer ao bebê
podem ser explicadas metaforicamente como provenientes de objetos bons, protetores,
calmantes, etc.
E aquelas que causam desgosto, como, por exemplo, a tensão da fome, o
retardamento na troca das fraldas, a ausência prolongada da mãe, etc., serão vivenciadas
como provenientes de objetos maus, destrutivos, persecutórios, etc.
A partir do segundo semestre do primeiro ano, a ambivalência se apresenta,
pois a criança começa “a compreender que suas sensações nem sempre serão produzidas
por diferentes objetos, e que, quase sempre, um mesmo objeto é origem de sensações
opostas.” (KUSNETZOFF ,1982, p.37).
2.2. Estágio Anal
Se, na fase oral, a satisfação sexual está vinculada à zona bucal, na fase anal
esta satisfação está localizada na região do ânus.
Este estágio acontece no curso do segundo e terceiro anos de vida e uma
série de funções o acompanham, e permitem que a criança obtenha um afastamento
progressivo e relativamente autônomo de seus objetos primários (mãe, pai).
Essas funções são: a) engatinhar e andar; b) a linguagem; c) o progressivo
aprendizado de funções fisiológicas que requerem primordialmente controle motor: comer
sozinho (sem ajuda de terceiros) e controle esfincteriano.
Neste estágio o ato de defecação ocupa um lugar de suma importância no
desenvolvimento psicossexual da criança.
A edição de 1905 dos Três Ensaios Sobre Sexualidade descreve a
erogeneidade da membrana mucosa que reveste o canal anal e o ânus:
12
“Tal como a zona labial, a zona anal acha-se bem
adaptada, por sua posição, a atuar como um meio através do qual a
sexualidade pode ligar-se a outras funções somáticas. Deve-se
presumir que a significação erógena desta parte do corpo é bastante
grande desde o início. Aprendemos com certa surpresa pela
psicanálise das transmutações normalmente sofridas pelas excitações
sexuais que surgem desta zona e da freqüência com que ela retém
considerável quantidade de suscetibilidade à excitação sexual ao
longo da vida.
As crianças que utilizam a suscetibilidade à excitação
erógena da zona anal se traem retendo as fezes até que seu acúmulo
provoque violentas contrações musculares e, ao passarem pelo ânus,
são capazes de produzir grande excitação da membrana mucosa. Isto
deve, sem dúvida, causar sensações, não só de dor como de grande
prazer.”
FREUD, em textos como Caráter e Erotismo Anal; A Disposição à Neurose
Obsessiva, entre outros, nos fala das psicopatologias surgidas em decorrência de uma
permanência prolongada nesta fase. Como não é o nosso objetivo, nesse trabalho, nos
aprofundarmos neste ponto, seguiremos adiante.
Para finalizarmos, apontamos um resumo das características deste estágio:
1) A oposição atividade-passividade:
“Enquanto a masculinidade e feminilidade definitivas
ainda não foram alcançadas, o binômio atividade-passividade lidera
os relacionamentos objetais nesta fase do desenvolvimento.
Seria um erro importante pensar que este binômio é o
único nesta fase intermediária entre o oral e o fálico. Com efeito,
existem outros pares antagônicos que se organizam em derredor do
ativo-passivo, por exemplo, bom-mau, lindo-feio, e, sobretudo,
grande-pequeno. Deste último binômio procede um conjunto de
fantasias subjacentes à estrutura dos jogos infantis neste período:
médico-paciente, herói que supera perigos na selva, chefe de um
exército imaginário, etc. Daí decorre que um dos elementos da
valorização amorosa se encontra na antinomia subjugar/ser
subjugado, ou dominar/ser dominado.”(KUSNETZOFF, 1982, p.47)
2) O aspecto dual no relacionamento de objeto, querendo significar que
ainda não é totalmente triangular edípico.
A mãe continua sendo o objeto privilegiado da criança, só que agora é um
objeto visualizado por completo (objeto total).
13
3) A reafirmação e consolidação narcísica do sentimento de poder, que se
encontra intimamente vinculado a fantasias de retenção-expulsão, e grande-pequeno, entre
outras.
4) O movimento predominantemente centrípeto, ou seja, narcísico, dos fins
sexuais.
Sendo por definição, neste período, praticamente inexistente a diferenciação
sexual, o vínculo é homossexual, qualquer que seja o sexo real do objeto.
2.3. Estágio Fálico
Ocorre por volta do terceiro ano de vida. Nele, os estágios precedentes são
abandonados, passando, então, a fazer parte da estrutura psicossexual da criança; os órgãos
genitais serão alvo da concentração energética pulsional, enfileirando-se todas as outras
pulsões anteriores e parciais sob seu comando e o conceito ‘sexo’ é muito ambíguo,
“já que não existe, por parte da criança, uma conscientização da
diferença sexual anatômica. Muito pelo contrário, o que conta, como
o nome do estágio o indica, é o órgão anatômico masculino, que
adquire o monopólio de ser o único valor de existência, tanto para o
menino, que realmente o possui, quanto para a menina, que dele
carece.” (KUSNETZOFF, 1982, p.48)
2.3.1. O Complexo de Castração na Menina
a) Ódio Pré-edipiano
Primeiro Tempo: A Universalidade do Pênis
No estágio fálico do desenvolvimento, a
“descoberta da diferença sexual anatômica não é propriamente uma
descoberta. Na realidade a diferença não é percebida, e sim negada,
e em conseqüência, tanto meninos quanto meninas acreditam ‘ver’ o
pênis mesmo onde ele não existe.” (KUSNETZOFF, 1982, p. 52).
Eles apagam a existência da diferença sexual, porque isso em última
instância acarretaria – como de fato acontece posteriormente – a perda do narcisismo, a
ilusão de que somos todos iguais.
Segundo Tempo: Comparado visualmente ao pênis, o clitóris é “inferior”.
Na menina existe, assim como no menino, uma recusa em aceitar a
castração. “Com efeito, a menina faz a fantasia de que ela também possui um pênis, só
14
que ‘não está totalmente desenvolvido’, apoiando esta afirmação na existência do
clitóris”. (KUSNETZOFF, 1982, p. 59)
Terceiro Tempo: Minha mãe é castrada. “E, eu fui castrada como ela”,
pensa a menina.
A angústia da castração compreende uma série de fatos que normalmente
ocorrem na evolução do sujeito, sobretudo quando ele descobre a diferença essencial que
constitui o ser humano.
A angústia da castração motiva, na menina, um comportamento à maneira
de um melancólico.
“A menina, após a constatação da ausência real e
concreta de um pênis, depois da comparação por observação do sexo
oposto, organizará a sua personalidade em torno de um forte anseio
de suprir, preencher essa falta.”
Esta angústia está intimamente
relacionada com a angústia de morte, “frente à qual se desenvolvem
variadas defesas, como por exemplo, ter uma criança. Esse desejo de
se ver prolongado, duplicado e transcendido num filho, fantasia
comum a ambos os sexos, levará consigo a ‘garantia’ de se preservar
contra a morte.” Mas, devemos deixar registrado que, a angústia da
castração é um fato normal, efeito do próprio amadurecimento
psicológico do indivíduo. (KUSNETZOFF, 1982, p. 60)
O mesmo autor nos fala de três atitudes da menina perante a castração:
1º) A Inveja do Pênis: “Eu tinha um pênis e alguém o tirou de mim” –
pensa a menina. Toda essa fantasia reforçará a idéia de reconquista-lo. – Tema da
Reivindicação Fálica.
2º) O Agente dessa “perda” imaginária será a mãe. A menina sente ódio
da mãe, a responsabiliza pela “perda” do pênis e elege o pai como seu objeto de amor.
“Por tudo isto, a entrada da menina na estrutura de Édipo e, por conseguinte, o acesso à
genitalidade adulta, tem muito de reacional e defensivo, posto que ‘cai nos braços do pai
para fugir à ameaça materna’.
3º) Finalmente, num estágio mais avançado, o Tema da Reivindicação se
transforma. Já ligada com seu novo objeto de amor, seu pai, a menina substituirá o desejo
de ter um pênis pelo desejo de ter uma criança.
15
2.4.
Estágio Genital
2.4.1. O Complexo de Édipo na Menina
O complexo de Édipo é considerado uma das “pedras angulares” da
psicanálise. (FREUD, Vol. XVIII, Edição Eletrônica, s/d). Este termo foi atribuído por
FREUD em analogia à antiga tragédia de Sófocles, Rei Édipo. Refere-se à história do
antigo rei de Tebas que, inadvertidamente, matou seu pai chamado Laio e esposou sua
própria mãe, de nome Jocasta. Apavorado com o seu próprio ato, toma uma atitude
extrema de cegar a si próprio como punição.
O complexo de Édipo é uma estrutura, uma organização central e
alicerçadora da personalidade humana. (KUSNETZOFF, 1982, p. 63)
Já vimos que, o complexo de castração em meninas assume a forma de
inveja do pênis, e é esta inveja (isto é, o reconhecimento de que tanto a menina como sua
mãe são seres ‘castrados’, o ressentimento com a mãe e a humilhação narcisista ligada à
masturbação clitórica) que leva a menina a afastar-se do seu primeiro objeto de amor
fálico, a mãe.
Uma vez que a menina, por todas as operações descritas anteriormente,
“efetua” o abandono do objeto materno, passa a ter como objetivo principal a obtenção, a
partir do pai, daquilo que a mãe se recusou dar-lhe.
Ela (menina) renuncia a possuir um pênis e se dispõe a obter uma criança,
como “presente” para o pai.
As formulações finais de FREUD, a respeito da sexualidade feminina,
sugerem que ele acabou por considerar o Complexo de Édipo na moça um processo muito
mais complicado. Em 1935, por exemplo, FREUD comenta a respeito de a menina ter não
só que mudar o seu objeto sexual – da mulher (mãe) para o homem (pai) – mas também a
sua principal zona genital – do clitóris para a vagina.
“Enquanto, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo
de castração, nas meninas ele torna-se possível e é introduzido pelo complexo de
castração ... ele inibe e limita a masculinidade e incentiva a feminilidade.”(ibid, Vol. XIX,
Edição Eletrônica, s/d)
Depois deste momento do Édipo, meninos e meninas começam a vivenciar
um período de diminuição da sua atividade sexual – o Período de Latência. E, é sobre esse
período que falaremos a seguir.
16
2.5.
Latência
É o período que se estende desde os 5 ou 6 anos de idade até começos da
puberdade, por volta dos onze anos de idade.
“No momento estamos tratando do início do período de latência, um
período que se caracteriza pela dissolução do complexo de Édipo, pela criação ou
consolidação do superego e pela edificação de barreiras éticas e estéticas no ego.” (ibid,
Vol. XX, Edição Eletrônica, s/d)
Se compararmos o período de latência com o período anterior de eclosão do
complexo de Édipo, podemos perceber que o primeiro período é reconhecido por uma certa
calma e diminuição da atividade sexual do indivíduo.
Não se trata de uma parada no desenvolvimento sexual, uma vez que as
atividades dos impulsos sexuais infantis não cessam. A energia desses impulsos “é
desviada, no todo ou em grande parte, do seu uso sexual e dirigida para outras finalidades.”
(ibid, Vol. VII, Edição Eletrônica).
“Metapsicologicamente, o que acontece é que, logo após
a violenta eclosão das pulsões sexuais durante o período edipiano,
estas tiveram que se deslocar para objetos não reais-concretos. Eis
aqui o porquê de ser este período de latência o período da
escolaridade, do aprendizado de operações matemáticas e
gramaticais e, simultaneamente, o de um intenso contato múltiplo com
objetos reais-concretos que funcionam como substitutivos dos objetos
primários mãe, pai, irmãos, etc. Daí que este seja um período de
socialização, com mestres, amigos, etc. Produziu-se não apenas um
deslocamento mas também uma mudança de fins nas pulsões sexuais,
dando lugar a sublimações parciais e a formações reativas.
Insistimos: a energia de origem é a energia sexual, mas ela se
encontra agora deslocada e transformada em novos interesses.”
(KUSNETZOFF, p. 106, 1982)
A latência é uma conseqüência do complexo de Édipo resolvido e a
repressão dos desejos sexuais infantis é a mais notável característica desse período.
ABERASTURY (p.20, 1983) acrescenta sobre o período de latência o
seguinte comentário:
“é um momento de transição, no qual a atividade sexual se mantém
através da masturbação e de jogos hétero e homossexuais entre
crianças. Poderíamos dizer que a escola e a aprendizagem ocupam
17
grande parte de seus interesses, e que isto o desprende do grupo
familiar em benefício do mundo institucional da escola.”
A mesma autora prossegue dizendo que o período de latência é
caracterizado por um incremento das tendências homossexuais, e, enfatiza o papel da
masturbação, como atividade sexual, que auxilia a criança na aprendizagem de sua
identidade sexual. Esta atividade reveste-se de características grupais e exibicionistas.
FREUD chegou a conclusão que a latência absoluta é um mito.
“De tempos a tempos, uma manifestação fragmentária de
sexualidade que escapou à sublimação pode libertar-se; ou alguma
atividade sexual pode persistir por toda a duração do período de
latência até que o instinto sexual surja com maior intensidade na
puberdade.” (FREUD, Vol. VII, Edição Eletrônica, s/d)
2.6 A Adolescência
KUSNETZOFF, antes de iniciar seu estudo sobre a adolescência, nos fala a
respeito da puberdade. O autor fala que ela, a puberdade, é caracterizada por uma crise
que começa sendo uma “crise da natureza”,
“já que o aluvião pulsional que em curto lapso de tempo inunda o aparelho
psíquico surpreende-o adaptado às exigências instituais do período anterior, ou seja, a
relativa diminuição de interesse pelas questões sexuais. Essa luta desigual,
inicialmente a favor das pulsões, produz um marcado desequilíbrio, responsável por
toda uma série de sintomas conhecidos pelo nome de Crise Normal da Adolescência.”
(KUSNETZOFF, p. 108, 1982)
O Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1986, p. 1414) define a
puberdade como o “conjunto das transformações psicofisiológicas ligadas à maturação
sexual que traduzem a passagem progressiva da infância à adolescência.”
Alguns autores definem a puberdade como o conjunto de mudanças
biológicas e hormonais que têm lugar entre a infância e a idade adulta e a adolescência
como a vertente psicológica destas modificações.
2.6.1 Mudanças Biológicas (internas e externas)
As características da adolescência dizem respeito a dois tipos de mudanças:
as mudanças biológicas e as mudanças psicológicas.
A nossa pesquisa se baseia na Adolescência das Moças, razão, pela qual,
enfatizaremos as mudanças biológicas e psicológicas que ocorrem no universo feminino.
18
ABERASTURY (1983, p. 17) nos diz que “Os caracteres sexuais primários
e secundários apresentam-se em homens e mulheres em distintas idades.” Afirma que, na
menina, há uma precocidade no aparecimento destes caracteres e, que o primeiro indício da
maturação sexual, no sexo feminino, é o desenvolvimento dos seios e, logo posteriormente,
em ordem crescente, o pêlo pubiano, a menstruação e o pêlo axilar.
RODRIGUES (1976, p. 111) chama o período das mudanças corporais de
“A Revolução Biológica.”
A autora cita que, no momento inicial da Adolescência, ocorre o
amadurecimento dos órgãos sexuais primários e, se inicia, com a menstruação, na moças,
e, as primeiras ejaculações, nos rapazes, “um rápido processo de diferenciação das
características sexuais secundárias masculinas e femininas.”
Segundo a mesma autora, “durante o período da puberdade, os órgãos
genitais perdem a inatividade peculiar da infância e todo o aparato endócrino passa a
funcionar no sentido de concluir o desenvolvimento e ativar o aparelho reprodutor.”
A Hipófise é a “glândula mestra” do sistema endócrino, fundamental na
evolução e funcionamento do sistema reprodutor, sendo responsável, também, pelo
surgimento e definição dos caracteres sexuais secundários surgidos na Adolescência.
Um dos hormônios – a Somatropina – estimula o grau de crescimento do
esqueleto e o peso do corpo.
A autora faz referência, à Pituitária, responsável pela produção dos
hormônios gonadotróficos, indispensáveis à evolução e funcionamento normais do
aparelho sexual.
Os hormônios gonadotróficos são, especificamente, o hormônio Folicular
Estimulante, que produz, na mulher, o hormônio sexual feminino – o Estrogênio – e regula
o desenvolvimento e a maturação do folículo ovariano; o hormônio Luteinizante, com
função decisiva no desenvolvimento do óvulo e do corpo lúteo, é responsável ainda pela
produção da Progesterona, outro hormônio sexual feminino que, unido ao estrógeno, causa
o desenvolvimento das características sexuais secundárias e determina o comportamento
sexual da mulher. O último hormônio gonadotrófico é o Lactogênico ou Prolactina, que
exerce influência no desenvolvimento e funcionamento das glândulas mamárias e é
responsável pela manutenção da gravidez.
Segundo a autora, além destas funções, anteriormente descritas, os
hormônios gonadotróficos , também, exercem influência no desejo sexual da mulher.
19
Os caracteres sexuais primários são os próprios órgãos genitais
“que, durante a infância, sofrem pequenas mudanças, mais de
tamanho do que de estrutura e função. Com a puberdade, sob a
influência dos hormônios gonadotróficos da Hipófise, acelera-se o
crescimento deles que, agora, tornam-se funcionalmente maduros e
capazes de produzir células sexuais.”
Os hormônios das gônadas têm função básica no aparecimento das
características sexuais secundárias.
Na mulher, estas características são, no geral, o arredondamento e a
aumento da largura dos quadris, o desenvolvimento dos seios, a mudança da voz, de um
tom agudo para outro menos grave, a aparição do pêlo pubiano, o arredondamento dos
ombros, a definição das formas dos braços e das pernas.
DEUTSCH (1983, p. 31) tece um comentário sobre as mudanças corporais
na Adolescência e, com este comentário, finalizamos esta parte do estudo: “O ato
puramente fisiológico da maturação sexual pode, em si, tornar-se acontecimento que
provoca séria ansiedade. Muito embora ela seja biologicamente determinada, o seu
impacto sobre as reações psicológicas da pessoa jovem é imenso e paradoxal.”
2.6.2. Mudanças Psicológicas
O adolescente, muitas vezes, mostra-se subitamente provocador, onipotente
e nega a dor face ao passado perdido no decorrer do processo de seu crescimento corporal.
Há uma flutuação entre a Infância e a Adolescência que é bastante dolorosa.
“Os adolescentes quereriam ser adultos de súbito ou não crescer nunca.” (ABERASTURY,
1983, p. 26)
A mesma autora complementa em parágrafo posterior: “A conduta
adolescente flutua entre comportamentos fóbicos e contra-fóbicos face ao espaço, à
exploração do mundo, que vão desde as fugas ou fantasias de fuga, típicas a esta idade, até
o fechamento no quarto, ou a inércia total em um aparente isolamento total do exterior.”
O adolescente vive o conflito da dissociação entre a mudança corporal e
psicológica. A dor que lhe produz abandonar seu mundo e a consciência de que vão se
produzindo mais modificações incontroláveis dentro de si o movem a efetuar reformas
exteriores que lhe assegurem a satisfação de suas necessidades na nova situação em que se
encontra agora frente ao mundo.
20
Quem sou Eu? Criança ou Adulto? Em alguns momentos, o adolescente
deseja encarnar o papel de criança, em outros encarna o papel de adulto. Se por um lado
pode ser “conveniente” para ele, pois ele pode “lançar mão” de ser pequeno ou adulto, de
acordo com sua “conveniência”, por outro lado, ele é obrigado a encarar uma crise de
identidade que, na grande maioria das vezes, é reforçada pelo mundo dos adultos.
“As modificações psicológicas que se produzem neste
período, e que são o correlato de modificações corporais levam a uma
nova relação com os pais e o mundo, o que só é possível se se elabora
lenta e dolorosamente o luto pelo corpo de criança, pela identidade
infantil e pela relação dos pais da infância.” (ibid, 1983, p. 24)
A mesma autora define como Síndrome da Adolescência Normal
características da adolescência que se apresentam por uma série de expressões de conduta.
Os itens principais que constituem esta identidade fenomenicamente são:
1 – uma busca da identidade e de um si mesmo claramente definidos;
2 – uma marcada tendência grupal;
3 – a necessidade de fantasiar ativamente e de recorrer quase
constantemente ao mecanismo de intelectualização, o qual seria uma forma específica do
processo de pensamento nessa idade da vida;
4 – crises religiosas nas quais podem-se observar indivíduos que podem
passar do ateísmo mais absoluto até o misticismo religioso mais severo;
5 – deslocamento temporal com episódios de franca atemporalidade;
6 – uma evolução sexual do auto-erotismo para a genitalidade
heterossexual;
7 – uma atitude reivindicatória;
8 – contradições sucessivas em todos os aspectos da conduta, que por sua
vez estão guiadas por uma tendência à ação, a qual costuma substituir formas mais
evoluídas de pensamento;
9 – uma luta constante por uma separação progressiva dos pais;
10 – flutuações constantes de humor e de estado de ânimo.
DEUTSCH (1983, p. 24) aponta como um dos problemas centrais da
adolescência o aumento do narcisismo e suas vicissitudes. “Em geral, ele é o resultado da
tendência regressiva que ocorre na adolescência, não só com relação aos impulsos
instintivos como também no ego.”
21
Em artigo recente à revista Psicologia – ciência e profissão, os psicólogos
Baptista, M. N.; Baptista, S. D. e Dias, R. R. (2001, p. 55) fazem um estudo sobre a
ocorrência da depressão na adolescência, principalmente abordam a influência da estrutura
e suporte familiar como fatores de risco nos quadros depressivos que ocorrem na
adolescência.
“As rápidas mudanças sociais e, principalmente
familiares, que estão ocorrendo atualmente parecem ter alguma
relação com a prevalência de depressão na população adolescente. É
claro que seria muito ingênuo pensar que somente estes fatores
estariam contribuindo para isto, porém não deve ser desprezado que
a família funciona como um ‘colchão amortecedor’ para os eventos
estressores, pelos quais os adolescentes enfrentam o cotidiano.” (ibid,
2001, p. 59)
22
CAPÍTULO III
A SEXUALIDADE FEMININA NA ADOLESCÊNCIA
3.1. A Relação Mãe e Filha
O primeiro objeto de amor, tanto para meninos quanto para meninas, é a
mãe.
“Embora, em sentido amplo seja indiscutível que o
primeiro objeto com o qual o ser humano se relaciona é sua mãe, nem
sempre esta mãe precisa ser sua, nem esta sua precisa ser mãe. Este
pequeno trocadilho quer frisar que a mãe, para o psicopatologista, é
mais que um conceito, é uma função, que ocupará um lugar com
determinadas significações para cada criança em particular.”
(KUSNETZOFF, 1982, p. 34)
Como vimos no capítulo anterior, FREUD, ao abordar o complexo de Édipo
na menina, reconhece a sua complexidade e comenta o fato da menina mudar, no decorrer
do seu desenvolvimento psicossexual, o seu objeto sexual – da mulher (mãe) para o
homem (pai) – mas também a sua principal zona genital – do clitóris para a vagina – em
nítida contradição com o menino, cujo desenvolvimento sexual se apresenta mais simples:
a zona genital principal do rapaz continua sendo o falo e o seu objeto sexual a mulher.
FREUD (Vol. XXI, Edição Eletrônica, s/d) aponta que o complexo de
Édipo, nas mulheres, constitui o resultado final de um desenvolvimento bastante
demorado. “Ele não é destruído, mas criado pela influência da castração; foge às
influências fortemente hostis que, no homem, tiveram efeito destrutivo sobre ele e, na
verdade, com muita freqüência, de modo algum é superado pela mulher.”
“Nas meninas está faltando o motivo para a demolição do
complexo de Édipo. A castração já teve seu efeito, que consistiu em
forçar a criança à situação do complexo de Édipo .... [este] pode ser
23
lentamente abandonado ou enfrentado através da repressão, ou seus
efeitos podem persistir por muito tempo na vida mental normal das
mulheres.” (FREUD, Vol. XIX, Edição Eletrônica, s/d)
FREUD enfatiza a relação mãe e filha no texto Sexualidade Feminina. Ele
nos mostra que:
objetais afetivas. “a fase de ligação exclusiva à mãe, que pode ser
chamada de fase pré-edipiana, tem nas mulheres uma importância
muito maior do que a que pode ter nos homens. Muitos fenômenos da
vida sexual feminina, que não foram devidamente compreendidos
antes, podem ser integralmente explicados por referência a essa fase.
Há muito tempo, por exemplo, observamos que muitas mulheres que
escolheram o marido conforme o modelo do pai, ou o colocaram em
lugar do pai, não obstante repetem para ele, em sua vida conjugal,
seus maus relacionamentos com as mães. [.......]. Isso é facilmente
explicado como um caso óbvio de regressão. O relacionamento dela
com a mãe foi o original, tendo a ligação com o pai sido construída
sobre ele; agora, no casamento, o relacionamento original emerge da
repressão, pois o conteúdo principal de seu desenvolvimento para o
estado de mulher jaz na transferência, da mãe para o pai, de suas
ligações” (FREUD, Vol. XXI, Edição Eletrônica, s/d)
FREUD aponta como motivo específico para que a menina se afaste da mãe
o surgimento do efeito do complexo de castração sobre ela. A menina, a partir da
constatação que não possui pênis, pode escolher três caminhos que divergem a partir desse
ponto: a) o que leva à cessação de toda sua vida sexual; b) o que leva a uma desafiadora
superenfatização de sua masculinidade; c) os primeiros passos no sentido da feminilidade
definitiva. (ibid)
“Quando passamos em revista toda a gama de motivos
para se afastar da mãe que a análise traz à luz – que ela falhou em
fornecer à menina o único órgão genital correto, que não a
amamentou o suficiente, que a compeliu a partilhar o amor da mãe
com outros, que nunca atendeu às expectativas de amor da menina, e,
finalmente, que primeiro despertou a sua atividade sexual e depois a
proibiu – todos esses motivos, não obstante, parecem insuficientes
para justificar a hostilidade final da menina. [.....]. Talvez o fato real
seja que a ligação à mãe está fadada a perecer ....” (ibid)
Shere HITE (O GLOBO, Jornal da Família, 1995) comenta que o sexo é
causa de ressentimento entre mãe e filha. A escritora diz que muitas mães se envergonham
de falar sobre sexo com suas filhas e insistem em repassar para as filhas o velho sentimento
24
de vergonha, que receberam de suas mães, diante da sexualidade. As pesquisas comprovam
que, dentro de casa, o silêncio em torno da sexualidade continua.
“A sexualidade adulta se torna, então, um mistério
para as adolescentes que, no entanto, não podem evitar reconhecer
seus sinais na própria anatomia. Por volta dos 12 anos, as meninas
vão ficando pouco à vontade com este acordo tácito que finge
considerar inexistente a sexualidade, sobretudo a sexualidade das
mães. As meninas aguçam sua curiosidade em torno do corpo
materno, das roupas de baixo usadas por sua mãe. Esta curiosidade
se intensifica toda vez que as mães se ocupam de atividades
misteriosas no banheiro, ou tratam de ‘assuntos particulares’ com
suas amigas. As meninas ficam acordadas até tarde, para investigar o
que acontece com a mãe quando ela dorme no mesmo quarto que o
pai ou um namorado.” (ibid)
As filhas desejam desvendar o ‘mistério adulto’. Elas exigem ter o
conhecimento que as mães têm da sexualidade.
“E demonstram sua ansiedade roubando a maquilagem
da mãe, usando seu batom e seus sapatos. É o período em que elas se
demoram observando a mãe trocar de roupa. Se a curiosidade não é
satisfeita com uma conversa franca, começa a se insinuar o
ressentimento.” (ibid)
As mães pensam estar fazendo o que “está certo”. Assim como suas filhas,
elas também precisam de privacidade e de espaço, também se sentem sós e acreditam que
seus conflitos não seriam compreendidos por suas filhas adolescentes.
HITE acrescenta que a masturbação é mais um exemplo da dificuldade de
comunicação entre mãe e filha: ela traz culpa e vergonha para as filhas, por isso elas agem
como se necessitassem da “permissão” de suas mães para “curtir” o seu corpo, para
experimenta-lo e para aprender a buscar o orgasmo.
“E a maioria não se permite imaginar que suas mães
também já se masturbaram, e que talvez ainda se masturbem, já que
tantas mulheres são sexualmente infelizes no casamento e não têm
coragem de mudar sua vida amorosa. O resultado é a culpa, que pesa
de ambos os lados, entre mãe e filha.” (ibid)
A experiência da primeira menstruação também aparece como conseqüência
traumática do tabu em torno da sexualidade. Neste caso pode até haver uma conversa entre
mãe e filha, mas ela ainda é cercada de bastante constrangimento por parte da mãe. Depois
25
da conversa, a mãe espera que a filha seja “moderna”, que não “perturbe” e que “aprenda
sozinha a conviver” com sua nova “realidade orgânica.”
CRAMER (1997, p. 12) nos diz que a mãe introduz cada dia seu filho na
complexidade de sua representação do mundo e em seu sistema de valores. Um desses
valores é aquele que diz respeito à imagem que ela tem da feminilidade. “Os cuidados
mais anódinos que pródiga à sua filhinha já permitem que se esboce a mulher que esse
bebê será vinte anos mais tarde.”
“Entramos no mundo como imagens no espelho de nossas
mães; nosso destino é o de sermos não só seu reflexo como ainda suas
inquisidoras silenciosas. O relacionamento entre mãe e filha é o de
maior intimidade, de maior intensidade, o mais simbiótico e simétrico
vínculo conhecido dos seres humanos. É o grande universo
inexplorado,
o
território
desconhecido
da
psique.”
(KOLBENSCHLAG, 1991, p. 68)
A mesma autora (p. 73, 1991) prossegue dizendo que “a mulher que dá à
luz um filho antes de ter-se dado à luz defronta com a tarefa impossível de criar uma filha
autônoma.” FREUD (Vol. XXI, Edição Eletrônica, s/d) aborda que o afastamento da mãe
constitui um passo extremamente importante no curso do desenvolvimento de uma menina.
Junto com este afastamento ocorre um acentuado abaixamento dos impulsos sexuais ativos
e uma ascensão dos passivos. As tendências ativas foram mais intensamente afetadas pela
frustração,
“revelaram-se totalmente irrealizáveis e, portanto, são
mais prontamente abandonados pela libido. Mas tampouco as
tendências passivas escaparam ao desapontamento. Com o
afastamento da mãe, a masturbação clitoriana não raro cessa
também, e, com bastante freqüência, quando a menina reprime sua
masculinidade prévia, uma parte considerável de suas tendências
sexuais em geral fica também permanentemente danificada. A
transição para o objeto paterno é realizada com o auxílio das
tendências passivas, na medida em que escaparam à catástrofe. O
caminho para o desenvolvimento da feminilidade está agora aberto à
menina, até onde não se ache restrito pelos remanescentes da ligação
pré-edipiana à mãe, ligação que superou.”
DAHL escreveu uma coluna para o jornal O DIA, datado de 21/03/1998, na
qual ela fala sobre a relação mãe e filha. Sob o título “Relações Delicadas” ela descreve de
forma poética o cotidiano dessa relação. Transcrevemos um pequeno trecho da coluna:
26
“Quem são ingratas? As mães ou as filhas? Quem será culpada? A mãe ou a
filha? O fato é que estamos sempre sofrendo: mães e filhas. Por sermos mães, por sermos
filhas. As filhas cobrando das mães por sermos antiquadas, por sermos modernas. Por
sermos conservadoras. Por sermos duras, por sermos moles.
As mães cobrando das filhas. Por não estudarem, por não
trabalharem, por serem dispersivas, por serem auto-destrutivas. Com
quem estará a verdade das filhas? Com quem estará a verdade das
mães? Com as mães, com as filhas?E eu, que sou tão mãe e ao mesmo
tempo tão filha ....
Na volta do Rio, ligo a secretária eletrônica na esperança
de um recado da filha. Em vez disso, a carta de uma amiga de Roma
que se queixa da filha. ‘Quanto a minha filha, só a vi três vezes esse
ano. Não sei se devo esquecer que tenho filha ...
Guardo a carta na gaveta. As mães e as filhas ...
Não quero pensar nisso agora. Amanhã será outro dia.
Apago a luz e tento dormir.”
27
CAPÍTULO IV
A TERAPIA FAMILIAR
Os pais vivem os conflitos dos filhos e, por isso, as dificuldades enfrentadas
pelos adolescentes apresentam uma vertente dupla.
“Nos casos felizes, esta vertente dupla pode resolver-se em uma fusão de
necessidades e de soluções.” O pai percebe que precisa se desprender da imagem do filho
criança e evoluir para uma relação com o filho adulto. Este fato o faz reconhecer que
muitas renúncias lhe serão exigidas: ao perder para sempre o corpo de seu filho criança,
vê-se enfrentando a aceitação do devenir, do envelhecimento e da morte. A imagem que
tinha de si mesmo, criada pelo filho, também precisará ser abandonada.
“Agora já não poderá funcionar como líder ou ídolo e
deverá, ao contrário, aceitar uma relação cheia de ambivalências e
de críticas. Ao mesmo tempo, a capacidade e os ganhos crescentes do
filho obrigam-no a avaliar seus ganhos e seus fracassos. Neste
balanço, nesta tomada de contas, o filho é testemunha mais
implacável do realizado e do frustrado. O conflito estala, pois,
quando aparecem as primeiras modificações corporais e se define o
papel procriador. Agora, o filho é duplamente rival. Pode assumir a
paternidade ou maternidade biológicas. Converte-se em um sério
competidor na situação incestuosa porque já tem o instrumento para
consuma-la. É aqui que começa o verdadeiro drama edípico.”
(ABERASTURY, 1983, p.16)
EIGUER (1989, p. 76) diz que a atitude repressiva que os pais, às vezes,
adotam na sua relação com os filhos, responde, muitas vezes, à necessidade de sair da
confusão provocada pela crise de identidade familiar que surge quando um filho chega à
adolescência.
“Considerar o filho como ‘ irresponsável, desobediente’,
permite-lhes superar a incerteza provocada pela evolução dele e do
conjunto das relações afetivas no interior do tabuleiro de xadrez
28
familiar. A posição superegóica tem a vantagem de ser conhecida e
identificada. É também um modo de não escutar o pedido de ajuda e
de compreensão. O conflito aberto, as disputas intermináveis são o
lado formal da vida cotidiana, o melhor modo de evitar uma
aproximação demasiado grande entre pais e filhos...”
DEUTSCH (1983, p. 8) nos fala que, alguns pais adotam posturas
repressivas, mas existem outros pais que adotam atitudes de fornecimento total de
liberdade aos filhos. A autora avalia este comportamento assim:
“Aparentemente os pais não estão cônscios de que ao
darem liberdade e independência aos filhos, os estão expulsando num
período em que essas crianças ainda necessitam de orientação e
proteção parentais. A experiência parece provar que, para a
juventude em crescimento, suas tentativas de alcançar a liberdade,
juntamente com seu protesto agressivo contra a autoridade, deveriam
primeiramente começar em casa e só mais tarde serem empreendidas
no campo maior que é agora a arena da ‘revolução adolescente’.”
EIGUER (1989, p. 105) sugere que o terapeuta de família guarde um
critério metodológico em relação aos conflitos familiares: ele:
“tem como perspectiva de trabalho ‘conflitualizar o
discurso familiar’ quando os conflitos são negados, e
‘desconflitualizá-lo’ quando os conflitos têm um caráter maciçamente
defensivo, principalmente quando evitam afrontar as verdadeiras
contradições e interfantasmatização. O prazer da disputa pela
disputa, a repetição de argumentos ilustram esta utilização dos
conflitos.”
Através do respeito a um enquadre estável e regular, do manejo competente
da interpretação verbal e da ênfase sobre os fenômenos da transferência, o terapeuta
familiar psicanalista analisa o material que surge na terapia como um reflexo do grupo
familiar como um todo.
Mas como sabermos se o adolescente necessita de um tratamento? Alguns
autores sustentam que alguns comportamentos dos adolescentes, considerados anormais,
não passam de
“exageros transitórios de sintomas normais e que os
mesmos só com a passagem do tempo vão desaparecendo, permitindo
ao indivíduo alcançar uma idade adulta estável. Sem dúvida, é
possível que a ansiedade dos adultos que têm de conviver com
determinados adolescentes possa ser mais merecedora de atenção do
que a suposta patologia destes adolescentes.” (KNOBEL, 1983, p.
126)
29
Alguns terapeutas de jovens utilizam alguns aspectos da terapia
ocupacional, na sua prática clínica, quando percebem a “onda” de perturbação familiar que
circunda o adolescente.
“Em algumas circunstâncias, o terapeuta pode ter que
recorrer a planos e organizar a vida de um adolescente que lhe é
trazido para consulta. Às vezes nestas oportunidades pode achar
mais útil ou, inclusive, mais urgente, a mudança de oportunidades,
uma reavaliação de circunstâncias e uma abertura de novas
possibilidades que tendam a expandir as capacidades egóicas desse
particular adolescente.” (ibid, 1983, p. 127)
O terapeuta pode recorrer aos ajudantes auxiliares. Segundo KNOBEL
(1983, p. 127), os profissionais técnicos como fisioterapeuta, professor de atletismo, entre
outros, podem ser assistentes úteis, auxiliando o jovem a alcançar sua adaptação à vida,
com maiores possibilidades de crescimento para a idade adulta.
psicoterapia psicanalítica de grupo é bastante significativa para o
adolescente, pois pode leva-lo a uma melhor compreensão de si mesmo e a uma melhor
estruturação de sua personalidade.
LORAND in KNOBEL (1983, p. 129) assinala que o centro do objetivo
terapêutico durante a adolescência é a expansão egóica, fortalecendo o Ego para que possa
enfrentar as diversas ramificações e vicissitudes da adaptação do adolescente. O mesmo
autor nos fornece algumas sugestões para o tratamento do adolescente:
a)
A terapia deve tender a facilitar o alcance ulterior do nível genital
adulto de desenvolvimento. O adolescente deve ser trabalhado visando a elaboração dos
lutos: corporal, de papel, de objetos parentais infantis, da perda da bissexualidade, etc.;
b)
O terapeuta deve estabelecer um enquadramento definido;
c)
As entrevistas iniciais; tanto em casos de crianças, como de
adolescentes, devem ser feitas com a participação dos pais.
KNOBEL (1983, p. 139) nos diz que o terapeuta aceite a projeção de
objetos internos maus e persecutórios. É uma tarefa árdua, porém necessária, pois mediante
a restauração destes objetos e de sua modificação por meio da interpretação é que o
processo de crescimento verdadeiramente identificatório poderá acontecer.
A atitude de compreensão, de empatia, de flexibilidade, a utilização de uma
linguagem comum e do sentido comum são aspectos que o analista pode desenvolver e que
provêm as possibilidades de modificar aspectos psicóticos da personalidade do adolescente
30
que tenham invadido a parte não psicótica, e facilitam também a modificação do superego
cruel que acompanha a estrutura da personalidade do adolescente enfermo.
“Evitar sentimentos contratransferenciais patológicos
impedirá ao analista condutas pseudoterapêuticas ou atuações por
contra-identificações com o paciente ou com seus pais. Para isso,
creio que o analista deve não só ter experiência e conhecimento
destes fatos, como seja conveniente que trabalhe com adolescentes
sob um ponto de vista psicanalítico e que deva ter em conta que, se
deixou seu próprio tratamento analítico, deva reinicia-lo
periodicamente.” (ibid)
No convívio com o paciente adolescente, o terapeuta estará às voltas com:
“todo o tipo de projeção na qual a psicopatia, o
esquizoidismo, os problemas de tipo maníaco e toda classe de traços
patológicos e de mecanismos defensivos vão entrar em jogo e vão ter
de ser tratados com paciência, conhecimentos e certa maestria na
técnica interpretativa.” (ibid)
31
CONCLUSÃO
O presente estudo teve por objetivo fazer uma reflexão sobre a sexualidade
feminina na adolescência, utilizando, para isso, o tema-chave da relação mãe e filha. A
contribuição da terapia de família, no auxílio aos conflitos familiares surgidos nesta fase,
também foi tema de nossa reflexão.
O trabalho foi baseado numa revisão bibliográfica, cujos dados principais do
assunto foram coletados das obras psicológicas de FREUD, ABERASTURY,
KOLBENSCHLAG e HITE.
Pôde ser revisto que o primeiro objeto de amor, tanto para meninas quanto
para meninos, é a mãe. Não necessariamente a mãe biológica, mas àquela que é mais do
que um conceito, está relacionada a uma função.
Pudemos perceber que, algumas famílias, quando resolvem buscar a terapia
de família, chegam com queixas relacionadas aos filhos adolescentes. Estas famílias já não
conseguem encarar sozinhas os “infortúnios” causados pelo adolescente no âmbito
familiar, pois sendo a adolescência uma fase caracterizada pelas dúvidas freqüentes em
relação à identidade sexual, aos conflitos de gerações, aos lutos pelo corpo e identidade
infantis, etc.; uma fase de transição, ainda “não sou adulto, porém criança também não sou
mais; então, quem sou?”; uma fase que, a despeito dos prazeres que pode trazer para os
adolescentes como o apoio encontrado no grupo de amigos, o despertar para o namoro, os
passeios aos “shoppings” com a galera, etc, também pode ser um período que traga
bastante sofrimento para pais e filhos, necessitando, ambos, de se “reencontrarem”,
avaliarem a relação e dialogarem.
Vimos a importância do terapeuta também estar sendo submetido à análise,
a fim de conseguir dar conta dos aspectos contratransferenciais, que, naturalmente surgem,
durante o atendimento às famílias, ou mesmo durante os atendimentos individuais.
O tema da relação mãe e filha em terapia não foi um tema fácil de ser
encontrado na literatura existente que aborda a terapia familiar.
32
Quanto à sexualidade feminina, HITE discordou de FREUD, dizendo que,
na verdade, Freud nunca conheceu profundamente a sexualidade feminina, e, que, a
maioria de suas teorias sobre as mulheres se revelaram falsas com o passar do tempo.
Sobre este assunto, a autora, no texto Freud nunca entendeu o orgasmo feminino, escreveu:
“...Uma de suas teorias, hoje desacreditada, é a de que as
mulheres na puberdade deixam de ter estímulo para o orgasmo no
clitóris, passando a ser estimuladas na vagina.
Tudo indica que FREUD acreditava que a puberdade feminina era, em todos
os aspectos similar à masculina. Embora ele nunca tivesse se aprofundado nos estudos
sobre o assunto, esta hipótese acabou incorporada pela teoria psicanalítica. Eu também
acreditei, até determinado momento, na veracidade dela.” (1995, p. 8)
Talvez HITE diria que Alice (Do País das Maravilhas) jamais precisasse de
atendimento psicoterápico. Ela (Alice) parece ter atingido um estado de transcendência em
relação à sua própria sexualidade, e parece ter deixado para trás o arquétipo da Bela
Adormecida (aquela que só se torna mulher quando é retirada de um sono de 100 anos,
depois do beijo de um príncipe).
Para KOLBENSCHLAG:
“num nível universal de significação, a Bela Adormecida
é fundamentalmente um símbolo de passividade e, por decorrência,
uma metáfora para a condição espiritual da mulher, alienada da
autonomia e da transcendência, distanciada da auto-realização e da
capacidade ética instauradas por uma situação social dominada pelo
macho. (KOLBENSCHLAG, 1991, p. 24)
A mesma autora diz que, além do significado metafórico, podemos perceber
que esta história tem atravessado tempos e culturas e, por ser uma metáfora ela descreve
uma condição universal temporária da mulher, aparecendo como um símbolo dinâmico a
impelir as mulheres a acordarem, a fim de alcançarem sua maturidade espiritual.
O estudo sobre este assunto, merece pesquisas que ampliem as abordagens
teóricas aqui tratadas nesta monografia. Qual foi o teórico que melhor abordou a
sexualidade da mulher? O estudo prefere deixar registrado que todos, de alguma forma,
tiveram sua contribuição, necessitando, apenas que outros estudiosos se proponham a
33
aprofundar o assunto, considerando o que já foi escrito a respeito e indo além ... Afinal,
não é assim que se faz o progresso da ciência?
34
BIBLIOGRAFIA
ABERASTURY, A. et alli. Adolescência. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
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