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Violência Filioparental

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Violência Filioparental
O QUE É?
ualmente ultrapassa a satisfação das
A Violência Filioparental (VFP) é identiatura em 1979 como a Síndrome dos
progenitores maltratados, e caracteriza-se por
em relação aos pais envolvendo
ameaça, intimidação e domínio para
os seus pais ou cuidadores. Os estudos
necessidades básicas e carências, ou a
indicam que esta violência é maioritar-
proteção em relação a terceiros e out-
iamente dirigida às mães. Entende-se
ros contextos, tendo-se vindo a acolher crianças e jovens com problemas
estão em sofrimento e são vítimas do
de comportamentos e de alteração
padrão de relação que estabelecem:
da conduta em contextos familiares,
os pais, porque se sentem inibidos de
caracterizados por uma subversão da
exercer o seu papel por medo e insegu-
hierarquia familiar, propensos à VFP
verbal, física e emocional.
obtenção de controlo e poder sobre
eles.
veem comprometido o seu desenvolvi-
Pode assumir a forma de dano físico,
mento adequado.
PORQUE PRECISAMOS
DE APOIO?
nos pais ou adultos que ocupem este
lugar e manifestar-se de forma repetida
QUAL O IMPACTO?
Apesar do fenómeno da VFP ter reg-
rar objetos); verbais (insultos repetidos,
A VFP não é um problema individual
mos anos, esta problemática perman-
ameaças) ou não verbais (ameaças de
ou uma questão restrita ao contex-
ece, todavia, na obscuridade, quer na
agressão, destruição de objetos apre-
to familiar, é um problema social e de
ciados). Excluímos os casos isolados de
saúde pública. Compreender a VFP de
violência relacionados com consumo
forma integrada implica entendê-la
A vergonha e a manutenção do mito
-
como o sintoma de uma relação famil-
da harmonia familiar favorecem o se-
iar perturbada, que emerge numa linha
cretismo em torno deste problema, o
evolutiva do desenvolvimento familiar.
que tem contribuído para que a inter-
A VFP emerge então como sintoma de
A violência assume a função de man-
venção neste campo não tenha tido
uma relação familiar perturbada, onde
ter a homeostase familiar, em torno
o desenvolvimento equivalente ao de
se regista uma inversão da hierarquia
da qual o sistema se organiza e vincula
outros tipos de violência intrafamiliar,
familiar, onde o poder é conquista-
num processo de acomodação, o que
-
a violência entre parceiros íntimos. Re-
ameaças, agressões verbais e físicas.
portamentos como formas inaceitáveis
sultado das características das socie-
Uma vez conseguido o pretendido, este
de violência, comprometendo todo o
dades atuais, a crença generalizada de
funcionamento familiar.
que os progenitores têm de proteger
Cada vez mais vemos chegar ao Siste-
o que é um comportamento aceitável
ma de Promoção e Proteção casos de
ou intolerável têm contribuído para o
famílias de todos os estratos sociais,
reconhecimento tardio da VFP, mesmo
cujos jovens adotam comportamen-
-
tos de risco sem que os pais se sintam
cos, limitando a intervenção. Conhecer
capazes de lhes colocar limites. Esta
a VFP torna-se cada vez mais numa ne-
-
cessidade de maior relevância social, a
nos seguintes comportamentos violentos: físicos (agressões, empurrões, ati-
ciência mental e de parricídio.
-
QUEM É VÍTIMA?
A designação latina adotada, Violência
Filioparental (tradução de Child-to-Parent Violence) reporta-se à violência de
-
digma do acolhimento juvenil, que at-
recursos para intervir nestas famílias
que vivem este sofrimento em segredo.
TESTEMUNHO
QUE APOIO
ESTÁ DISPONÍVEL?
As famílias que sentem a sua função
parental comprometida na sequência
das vivências descritas devem solicitar ajuda aos serviços competentes na
área da família, infância e juventude,
nomeadamente aos Centros de Apoio
Familiar e/ou às Comissões de Proteção
de Crianças e Jovens (CPCJ).
A APAV apoia as vítimaas de violência filoparental:
Poderá contatar a APAV:
Pela Linha de Apoio à Vítima
116 006 (dias úteis das 09h-19h;
chamada gratuita);
Presencialmente num dos Gabinetes de Apoio à Vítima da APAV;
Por email [email protected]
Sofia tinha 15 anos, vivia com os pais. Começou a namorar com Dani,
a faltar às aulas e a passar noites fora de casa sem autorização dos
pais. O pai relatava: “Passamos as noites num desassossego à procura dela e já fomos à polícia pedir ajuda algumas vezes. Depois encontramo-la quase sempre com ele (namorado), numa miséria de estado
(…) Ralhamos, promete que não volta a fazer, mas depois esquece-se!”
A mãe contava: “Depois fica meiguinha e faço-lhe tudo (…) mimo-a
para que perceba que em casa é que está bem (…) compro as bolachas preferidas, levo-lhe o pequeno-almoço à cama, vamos às compras e ela prometa não voltar a fazer.”
Sofia acabou por ser acolhida em instituição depois de uma ausência
de casa e escola de uma semana, no decorrer da intervenção familiar
a mãe acabou por contar “em segredo”, entre lágrimas e muita vergonha, que durante as discussões sobre o namoro e saídas à noite, a
filha chamava-lhe nomes, chegou a empurrá-la e ameaçou que arranjaria dinheiro na rua se a mãe não lho desse.
Na sequência de um plano de intervenção estruturado e concertado
incidindo nas várias áreas de vida de Sofia a partir da intervenção familiar, foi possível a posterior reunificação familiar. Considerando que
a VFP assume uma posição central “escondida” na relação familiar, em
torno da qual o sistema se fecha, organiza e mantém, através da intervenção terapêutica familiar o problema deixou de estar centrado na
Sofia para ser focado na dinâmica familiar, promovendo a mudança
no sistema familiar através da meta-comunicação e da reestruturação
DADOS ESTATÍSTICOS
Tal como acontece nas outras formas
de violência intrafamiliar, é consensual
que a prevalência da VFP é superior à
que os dados estatísticos assinalam,
uma vez que os progenitores têm vergonha em reconhecê-la, chegando a
tolerar níveis de agressividade elevados
antes de procurar ajuda.
Em Portugal, de acordo com os últimos
dados estatísticos da APAV, entre 20042012 registou-se um total de 3988 de
pais agredidos pelos seus filhos em ambiente doméstico, sendo que 227 dos
filhos (5,7%) tinham menos de 18 anos
e 611 (15,3%) tinham entre 18-25 anos.
ao nível dos limites e da hierarquia na relação entre pais-filhos.
Recursos APAV
apav.pt/folhainformativa
Bibliografia
Harbin, H. T., & Madden, D. J. (1979). Battered parents: a new syndrome. American
Journal of Psychiatry, 136, 1288-1291.
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Filio-parental, Sociedade Española para el Estudio de Violencia Filio-Parental (4),
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Patuleia, N., Alberto, I., & Pereira, R. (2013). (Des)Construindo a violência filioparental – análise de um caso de intervenção terapêutica na violência filioparental
com adolescente em acolhimento institucional. Revista Brasileira de Psicoterapia,
15 (1), 132-152.
Pereira, R. (2006).Violência filio-parental: un fenómeno emergente. Revista Mosaico, 36, 7-8.
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