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Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914 ‑1918

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Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914 ‑1918
CENTENÁRIO DA GRANDE GUERRA
Portugal e as Pequenas
Potências na Grande Guerra
de 1914­‑1918
Bruno Cardoso Reis1
E
m 1890, no contexto de uma disputa territorial
colonial entre Portugal e a Grã­‑Bretanha, o então
primeiro­‑ministro britânico, Lord Salisbury, queixou­‑se
de uma Pequena Potência «muito cansativa» que nem fazia
exatamente o que lhe era exigido pela Grã­‑Bretanha, nem
a desafiava abertamente apresentado um alvo adequado.
Salisbury resumiu a questão nestes termos paradoxais:
«os portugueses estão fazendo o máximo uso da sua fra‑
queza». Reclamações semelhantes a esta – mas em termos
ainda mais acrimoniosos e num contexto ainda mais dra‑
mático – podem ser encontradas nas relações entre Gran‑
des Potências e Pequenas Potências nas crises que levaram
à I Guerra Mundial, nomeadamente no quadro dos ulti‑
mata da Áustria­‑Hungria à Sérvia e da Alemanha à Bélgica
em julho e agosto de 19142.
Mas como é que num sistema internacional de anarquia
nas relações de entre estados – com estes últimos con‑
sequentemente preocupados principalmente com a sua
sobrevivência mediante a defesa dos seus interesses
recorrendo ao máximo de meios disponíveis – pode ser
possível retirar vantagens da fraqueza? E, no entanto,
Lord Salisbury, que é corretamente considerado como
um Realpolitiker paradigmático, um realista puro e duro,
considera que uma potência fraca pode ter poder de
influência ou de capacidade de ação. Pode estar errado,
mas se o afirmou não foi a partir de qualquer inclinação
ideológica ou preconceito nacionalista, mas da sua
observação da política internacional. Mas será que é
RESUMO
S
erá que uma Pequena Potência fraca
como Portugal em 1914 pode ter
algum impacto num conflito de grande
escala e intensidade como a I Guerra
Mundial? Será que podemos aprender
algo relativamente às dinâmicas da
intervenção portuguesa comparando
Portugal com outras Pequenas Potên‑
cias envolvidas na guerra? A resposta
deste artigo a ambas a questões é sim,
apesar de estarmos conscientes do
paradoxo que é afirmar que uma
Pequena Potência pode ter algum
impacto numa grande guerra. Olhar de
forma comparativa para a participação
de Portugal na I Guerra Mundial ajuda­
‑nos a escapar a um debate simples‑
mente em termos dos culpados pela
intervenção entre os políticos portu‑
gueses. Defendemos também que uma
maior atenção à autonomia e ao
impacto das Pequenas e Médias Potên‑
cias é algo que falta na revisão em curso
da forma como as relações internacio‑
nais olham para a I Guerra Mundial.
Palavras­‑chave: I Guerra Mundial, Por‑
tugal, Bélgica, Sérvia.
ABSTRACT
Portugal and the Small
Powers in the First
World War (1914­‑1918)
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42 [ pp. 035­‑061 ]
035
C
realmente assim, que as Pequenas Potências podem ter
alguma capacidade de ação e influência mesmo no caso
de uma grande guerra envolvendo Grandes Potências?
Responder pela positiva seria ultrapassar o teste muito
exigente de uma tal proposição.
Estas perguntas têm a vantagem de nos permitirem pen‑
sar de forma diferente: por um lado, o problema das ori‑
gens, dinâmicas de expansão e conclusão da I Guerra
Mundial; por outro lado, mais especificamente, a questão
do envolvimento de Portugal no conflito. A este respeito
irei avançar com quatro pontos principais.
Há um volume enorme de livros publicados sobre a
I Grande Guerra
Em língua inglesa e se usarmos apenas uma base de dados
centrada em livros e artigos académicos como a jstor
obtemos 30 036 resultados. Uma busca no sítio similar
francês Persée indica­‑nos quase 22 mil resultados3. Evi‑
dentemente que se a isto juntarmos obras de todo o tipo
– romances, memórias – o resultado será significativa‑
Keywords: First World War, Portugal,
Belgium, Serbia.
mente maior. Porquê tanto interesse e como sintetizá­‑lo
do ponto de vista da nossa análise?
Sem dúvida esta enorme montanha de publicações reflete o impacto traumático da
I Grande Guerra numa era contemporânea dominada pela política de massas. Os deci‑
sores políticos e militares tinha uma imprensa de massas e um eleitorado massivo
perante o qual justificar o desencadear e a condução da guerra. Graças à massificação
da alfabetização, sobretudo mas não apenas nos países mais desenvolvidos envolvidos
no conflito, entre os milhões que foram mobilizados e afetados por ela em todo o
mundo, muitos mais podiam ler e escrever sobre a guerra. Isto significou que este foi
também um conflito de propaganda numa escala massiva e global.
É ainda importante sublinhar que durante o passado século esta guerra tem estado no
limitar da memória vivida – pelo que muitos dos que têm escrito desde então sobre a
I Guerra Mundial ou ainda a viveram, ou cresceram a ouviram histórias vividas durante
o conflito pelos seus pais ou avós. Esta não tem sido portanto, durante este último
século, uma memória neutra, mas sim, vivida e altamente contenciosa4.
Estes factos em parte explicam que a Grande Guerra de 1914­‑1918 tenha sido repetida‑
mente discutida neste último século em termos da questão da culpa pelo conflito. Quem,
que decisores, que generais, que país/países, que processo(s) foram responsáveis pelos
milhões de mortos da I Guerra Mundial e pelas grandes catástrofes políticas e econó‑
micas que ela veio inaugurar? Esta tem sido a pergunta algo redutora que tem dominado
o debate público sobre um tema ainda frequentemente explosivo.
an a weak small power like
Portugal in 1914 have some
impact on a large­‑ scale and high
intensity conflict such as the First
World War? Can we learn something
about the dynamics of Portuguese
intervention in the First World War by
comparing it with other small powers
involved in the war? The article’s
answer to both these questions is yes;
despite being aware of the seeming
paradox that is to claim that small
powers can have an impact in a major
war. By analysing the participation of
Portugal in the First World War in a
comparative perspective helps us
escape a debate simply in terms of
who among Portuguese politicians of
the time is to blame for the high cost
and low return of Portuguese inter‑
vention. As well as to argue that grea‑
ter attention to autonomy and the
impact of small and medium powers
is something missing in the ongoing
review of how IR analyses the First
World War.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
036
O nascimento da própria disciplina académica das relações internacionais resultou em
boa parte do esforço para analisar com major objetividade e profundidade o tema das
origens da guerra. As primeiras cátedras e institutos exclusivamente dedicados às rela‑
ções internacionais surgiram, após 1918, tendo como primeiro objetivo precisamente
perceber não só as origens da guerra em geral, mas também em particular as da Grande
Guerra de 1914­‑1918. Conceitos tão centrais no campo de estudo da segurança inter‑
nacional – como escalada em espiral, guerra acidental, dissuasão, culto da ofensiva,
corrida aos armamentos, política de alianças e dilema de segurança – têm sido muito
discutidos em torno das suas implicações para perceber a origem da I Guerra Mundial.
A evolução da análise desta última também tem influenciado a discussão destes temas5.
Internacionalmente, ainda durante e logo seguir à I Guerra Mundial houve uma verda‑
deira guerra dos documentos protagonizada pela maioria dos países beligerantes. Ela
consistiu na publicação de volumes reunido frequentemente vastos, mas não exaustivas
coleções de documentação diplomática, antes cuidadosamente selecionada e comentada.
Foi assim a começar pela Alemanha, Áustria, Grã­‑Bretanha, França; Portugal envolveu­
‑se neste processo em 1920. Paralelamente surgiu também, no pós­‑guerra, uma ava‑
lancha de memórias dos protagonistas. Como resultado desta massa de documentos
a ideia de que apenas a Alemanha e os seus aliados tinham sido culpados pelo desen‑
cadear do conflito – como ficou formalmente consagrado no Art.º 231 Tratado de
Versalhes que lhe pôs fim – ficou seriamente abalada.
Este novo consenso relativo assente na ideia de responsabilidade múltipla e numa
guerra acidental, resultante de alianças rígidas e uma escalada em espiral com deci‑
sores políticos incapazes de controlar eficazmente os respetivos chefes militares,
sobreviveu à II Guerra Mundial e prosperou na fase inicial da Guerra Fria. O livro de
Barbara Tuchman, The Guns of August, representa bem o culminar deste paradigma,
muito influente num período em que o receio de uma escalada acidental poder levar
a uma III Guerra Mundial era colorido pelo terror de com ela se cair num holocausto
nuclear. A obra de Tuchman influenciou o Presidente Kennedy na gestão crise dos
mísseis de Cuba, em 1962, o qual declarou ao seu irmão e conselheiro: «Eu não vou
seguir um caminho que permita que alguém escreva um livro sobre isto chamado Os
Mísseis de Outubro».6 A I Guerra Mundial tinha­‑se transformado numa lição sobre como
evitar a III Guerra Mundial.
A década de 1960 foi, porém, marcada pelo ressurgir do debate. Foi assim primeiramente
na Alemanha e sobretudo por causa da enorme polémica em torno da obra de Fritz
Fischer. Ele foi o primeiro historiador alemão que defendeu que, não só a II Guerra
Mundial, mas também já a I Guerra Mundial tinham sido o resultado de muito ambi‑
ciosos e belicosos objetivos imperialistas alemães de expansão. Um projeto de expan‑
são global que surgia associado aos esforços para manter, através de um nacionalismo
populista e belicista, um sistema de poder ainda dominado por uma pequena elite
aristocrática prussiana numa era de massificação crescente da política7.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
037
O resultado é que desde então os debates internacionais sobre as origens e mesmo o
decurso da I Guerra Mundial têm sido dominados pelo que Williamson designou numa
síntese muito recente de paradigma alemã. Ou seja, tem sido um debate muito centrado
sobre os objetivos, comportamentos e documentos alemães8. O próprio modelo de
abordagem de Fischer à I Guerra Mundial, muito focado nas determinantes internas
da política externa também se revelou muito influente. Esta perspetiva é, por exemplo,
a adotada por Nuno S. Teixeira na análise da beligerância portuguesa9. Este tipo de
abordagem vai também ser central numa das obras mais importantes no campo das
relações internacionais sobre a temática em termos mais gerais do expansionismo –
Myths of Empire de Jack Snyder10.
No caso de Portugal o volume de obras publicado no último século sobre a I Guerra
Mundial é bem mais limitado do que internacionalmente – pouco mais de uma centena
de publicações segundo o catálogo eletró‑
nico da Biblioteca Nacional de Portugal.
APESAR DE PORTUGAL FAZER PARTE
O que, mesmo que seja um registo incom‑
DA COLIGAÇÃO VENCEDORA DO CONFLITO,
A GRANDE GUERRA TEM SIDO CONSENSUALMENTE pleto, dá­‑nos a ideia de um interesse bem
menor pelo tema11. Além de refletir a
VISTA, NO CASO PORTUGUÊS COMO NO ITALIANO
pequenez do país, tema recorrente neste
OU GREGO, COMO UMA VITÓRIA PÍRRICA.
ensaio, este é provavelmente também o
resultado do Portugal de 1914 se encontrar relativamente aquém do limiar de desenvol‑
vimento e massificação da educação, da literacia, da política de muitas outras potências
envolvidas no conflito. Pode ainda refletir a perceção de se tratar de um episódio muito
negativo na história nacional a ser convenientemente esquecido. Ora, um conflito que
resultou num sacrifício/custo em número de mortos portugueses que em quatro anos
ultrapassou as baixas mortais sofridas em mais de uma década das Guerras da Desco‑
lonização de 1961­‑1974 certamente merece ser devidamente analisado, sobretudo se, a
par do seu interesse histórico intrínseco, se olhar para ele como revelador de grandes
tendências das relações internacionais.
Pode­‑se dizer sinteticamente que, apesar das diferenças, a discussão portuguesa sobre
a Grande Guerra também tem sido dominado pela questão da culpa pela desastrosa
experiência portuguesa de participação na I Guerra Mundial. Pois apesar de Portugal
fazer parte da coligação vencedora do conflito, a Grande Guerra tem sido consensual‑
mente vista, no caso português como no italiano ou grego, como uma vitória pírrica.
A questão tem portanto sido a de saber se a culpa por este fracasso custoso deve ser
atribuída principalmente ao PRP – Partido Democrático liderado por Afonso Costa e à
sua temerária insistência na participação portuguesa na guerra; e sobretudo no volun‑
tarioso envio de um Corpo Expedicionário Português para o teatro de operações mais
exigente do conflito do ponto de vista militar – seja em termos de equipamento, seja
de organização – a Frente Ocidental, as trincheiras da Flandres. Ou se, pelo contrário,
a culpa residiu fundamentalmente na tomada do poder por Sidónio Pais no golpe
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
038
militar de dezembro de 1917 e na alegada germanofilia sidonista, resultando no, mais
ou menos deliberado, enfraquecimento do Corpo Expedicionário Português. O porquê
do colapso da frente portuguesa perante a ofensiva alemã de abril de 1918 na dita Bata‑
lha de La Lys foi o tema de polémicas violentas ainda durante o conflito e no imediato
pós­‑guerra, mas que se foram mantendo até bem mais recentemente. A tendência na
historiografia portuguesa pós­‑25 de abril pode provavelmente ser sintetizada assinalando
que tem ido no sentido de integrar de forma mais rigorosa o debate sobre a I Guerra
Mundial no debate mais geral sobre a I República, onde surge como um tema recorrente,
mas geralmente subordinado ao de perceber­‑se as razões da queda do primeiro regime
republicano, para a qual contribuiu12.
A tendência mais recente a nível internacional – exemplarmente expressa, nomeada‑
mente, numa obra de grande difusão como The Sleepwalkers de Christopher Clark –, tem
sido no sentido de questionar o paradigma alemão dominante, que, no entanto, ainda
tem defensores de vulto, sobretudo pelo questionar da pertinência de uma análise em
termos de culpa, e pelo alargamento do foco de análise para além da Alemanha, olhando
com muito mais atenção para as outras Grandes Potências europeias, nomeadamente
a Rússia, a Grã­‑Bretanha e a França13.
No caso mais específico do debate no quadro da disciplina das relações internacionais
sobre este tema ele tem sido animado pela tentativa de cruzar desenvolvimentos mais
recentes na historiografia sobre a I Guerra Mundial – nomeadamente o questionar da
prevalência da crença generalizada numa guerra dominada por rápidas ofensivas – no
sentido de saber qual o seu impacto na caracterização dominante deste conflito como
muito determinado por um culto da ofensiva alimentando uma preferência nos estados­
‑maiores por uma guerra preventiva14.
Também no caso português se tem notado algum esforço para ultrapassar esta questão
da culpa a favor de uma visão mais complexa, desfazendo alguns mitos – foi assim,
por exemplo, com as duas obras ambiciosas dedicadas especificamente à I Guerra
Mundial, de Severiano Teixeira e de Ribeiro de Meneses. Este último refere­‑se mesmo
expressamente a como seria interessante olhar comparativamente para a questão da
polarização opinião sobre a intervenção ou não­‑intervenção na I Guerra Mundial no
caso de Portugal com a Espanha, Itália ou Grécia15.
O facto é que, até ao momento, os debates, internacional por um lado, e nacional pelo
outro, se desenvolvem em grande parte de costas voltadas. Se António Telo mostrou a
importância geoestratégica do Atlântico português no contexto internacional em que
se situa a I Guerra Mundial, este facto foi aparentemente ignorado pela literatura inter‑
nacional sobre o conflito16. E a exceção que confirma a regra – até por a obra ter sido
publicada também em francês – é o livro de Severiano Teixeira. Mas que se trata real‑
mente de uma exceção é­‑nos confirmado pelo próprio historiador francês que prefacia
a obra sublinhando a total ignorância sobre o tema da participação portuguesa na guerra
entre os historiadores estrangeiros do conflito17. A obra em inglês de Ribeiro de Mene‑
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
039
ses sobre Afonso Costa na Conferência de Paz de Versalhes, pode contribuir para con‑
trariar essa tendência, mas deve ser visto como uma segunda exceção a confirmar a
regra da ignorância mútua destes debates18.
Diga­‑se que nisso Portugal não está sozinho. Outras Pequenas Potências, mesmo com
um impacto mais evidente e maior na guerra, nomeadamente no seu desencadear, como
a Sérvia e a Bélgica, não merecem praticamente atenção19.
Apesar da enorme abundância da literatura sobre a I Guerra Mundial, algo que realmente
falta é um real reconhecimento ou até conhecimento do papel das Pequenas e Médias
Potências nas origens, dinâmicas e fim da I Guerra Mundial. Uma forma particularmente
interessante de cruzar o debate nacional e internacional sobre a I Guerra, contribuindo
para alargar a forma como as relações internacionais olham para o conflito, é analisar
o caso de Portugal na perspetiva do papel e dos desafios enfrentados pelas Pequenas e
Médias Potências no quadro de uma grande guerra. Aqui iremos apenas apontar algu‑
mas das implicações analíticas, das pistas interpretativas deste tipo de abordagem.
O QUE SÃO PEQUENAS POTÊNCIAS? E, POR DEFINIÇÃO, NÃO SERÁ LIMITADA A SUA
AUTONOMIA E NULO O SEU IMPACTO SISTÉMICO, ESPECIALMENTE NO CASO DE
GRANDES GUERRAS ENVOLVENDO GRANDES POTÊNCIAS?
Naturalmente não é possível responder aqui de forma aprofundada a estas questões.
Desde logo por elas remeterem para o tema fundamental mas muito genérico e com‑
plexo da definição do poder nas relações internacionais em geral, e da dificuldade
específica de quantificar claramente o poder dos estados e de os classificar e ordenar
em função disso de uma forma inequivocamente relevante para a sua ação política
internacional20.
Mas dois pontos fundamentais merecem, ainda assim, ser sublinhados. O primeiro é
o de que o poder é cada vez mais entendido nas relações internacionais e na ciência
política como algo complexo, multidimensional e não simplesmente material. Esta
tendência está bem representada pela moda no contexto das relações internacionais de
etiquetas como a de soft power. O que nos importa é que esta tendência ajuda a perceber
melhor o papel, ação, impacto das Pequenas Potências, pois mostra que apesar de se
terem limitações materiais e/ou de dimensão, podem ter, ainda assim, outras capaci‑
dades relevantes no quadro da política internacional21.
O segundo é que a tentativa de elaborar definições muito precisas e quantificáveis de Peque‑
nas (ou Médias) Potências muitas vezes «são altamente artificiais». A principal diferenciação
é, em todo o caso, entre Grandes Potências e as restantes potências e mesmo esta linha
divisória mais clara nem é total e inequivocamente clara. A definição mais operativa neste
campo é, em todo o caso, negativa. E tem sobretudo que ser vista em termos de estados
relativamente mais fracos do que outros e não de uma dimensão absoluta. Por outras pala‑
vras, um grande território – por exemplo, um grande império colonial, como o português
em 1914 – pode esconder grandes fraquezas, a começar pela dificuldades em controlar,
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
040
defender e explorar esses vastos domínios, e em mobilizar os seus recursos eficazmente.
Isto também significa que o poder tem acima de tudo uma dimensão relacional. Devemos,
portanto, perguntar sobretudo: Potência mais fraca relativamente a quem? E mais especi‑
ficamente no caso de conflitos armados devemos perguntar: Poder para se defender contra
quem? Poder para se defender de que forma (bem organizada, motivada, com elevada
mobilização de todos os recursos; ou ainda, de forma convencional ou não convencional)?
E poder para se defender com a ajuda de quem (com que aliados)?22
Em suma, e no mínimo, devemos ter o cuidado de rastrear historicamente qual o papel
que as Pequenas Potências efetivamente tiveram num conflito, e não simplesmente
presumir a priori que ele foi completamente irrelevante.
Há, efetivamente, obras recentes sobre política e segurança internacional que revelam
uma consciência crescente da necessidade de ter em conta as Pequenas e Médias Potên‑
cias e outros atores aparentemente pouco poderosos. Nem que seja para se compreender
melhor as Grandes Potências e as aparen‑
temente paradoxais mas bem reais limita‑
NO MÍNIMO, DEVEMOS TER O CUIDADO DE
ções ao seu poder efetivo, mesmo ao nível
RASTREAR HISTORICAMENTE QUAL O PAPEL QUE
dos conflitos armados – como a derrota
AS PEQUENAS POTÊNCIAS EFETIVAMENTE
estratégica dos Estados Unidos no Vietname
TIVERAM NUM CONFLITO, E NÃO
em 1975, e da urss no Afeganistão em 1989
SIMPLESMENTE PRESUMIR A PRIORI QUE
demonstraram eloquentemente nas décadas
ELE FOI COMPLETAMENTE IRRELEVANTE.
finais da Guerra Fria, para cujo desfecho,
aliás, muito contribuíram23. É assim em particular neste tipo de conflito, designados de
conflitos assimétricos, cuja prevalência crescente tem obrigado a prestar real atenção
mesmo a atores a priori mais fracos no teste último do poder na política internacional
que é o recurso à força. Afinal se até organizações não estatais, como grupos terroristas
– que, aliás, tiveram o seu papel na crise que levou à guerra em 1914 – merecem atenção,
e podem ter impacto significativo na segurança internacional, como negar que isso pode
também ser assim com Pequenas Potências, com estados que não são Grandes Potências?24
Mas o que poderá levar estados mais fracos a envolver­‑se ou até mesmo a iniciar uma
grande guerra com Grandes Potências? De que forma podem eles ter um papel signi‑
ficativo? São estes os pontos quer iremos procurar esclarecer olhando para o caso de
Portugal, mas também para os casos particularmente relevantes na I Guerra Mundial
da Sérvia e da Bélgica, a par de ocasionais referência a outras Pequenas Potências.
A I GUERRA MUNDIAL MOSTRA QUE MESMO PEQUENAS POTÊNCIAS RELATIVAMENTE
FRACAS PODEM TER UM GRANDE IMPACTO EM GRANDES GUERRAS
É sobretudo, mas não apenas, assim na sua fase inicial, e por via da Sérvia e da Bélgica.
O envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial permite mostrar a autonomia mesmo
de potências muito enfraquecidas face às Grandes Potências e o seu impacto agregado
no processo de difusão global de um conflito de tipo. O fenómeno de contágio é uma
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
041
característica fundamental definidora deste tipo de conflito – que inevitavelmente rapi‑
damente esgota o número limitado de Grandes Potências, sendo que neste caso, todos
os estados inequivocamente com esse estatuto estavam envolvidas desde o início do
conflito e portanto para se tornar realmente grande tipicamente requer o envolvimento
de Pequenas e Médias Potências25. Mais especificamente a I Guerra Mundial mostra
que pequenos estados, em particular, mas não exclusivamente, aqueles que patrocinam
formas não convencionais de conflito, podem ter um impacto sistémico. É assim nomea‑
damente por meio das reações em cadeia que ataques não convencionais podem pro‑
vocar – mais ou menos deliberadamente – em Grandes Potências; mas isso não anula
a importância e a autonomia das ações de provocação ou das reações e opções das
Pequenas Potências. É o que procuraremos demonstrar referindo primeiro o caso da
Sérvia e depois o da Bélgica, antes de nos debruçarmos sobre o caso de Portugal.
A importância sistémica do conflito entre a Sérvia e o Império Austro­‑Húngaro deve
ser visto no contexto da divisão da Europa em dois blocos relativamente rigidamente
alinhados de Grandes Potências. Nesse quadro, o risco de colapso ou grave enfraque‑
cimento da Áustria­‑Hungria, e a consequente expansão da preponderância da Rússia
nos Balcãs teria tido um grande impacto no equilíbrio de poder na Europa. Iria deixar
a Alemanha isolada em termos de alianças com Grandes Potências. Este é precisamente
o argumento central da carta do imperador Habsburgo Francisco José apelando ao
apoio do kaiser Guilherme II e da Alemanha
«O ataque contra o meu pobre sobrinho [o arquiduque Franz Ferdinand] é a consequên‑
cia direta da agitação feito pelos russos e sérvios pan­‑eslavistas cujo único objetivo é o
enfraquecimento da Tríplice Aliança [Alemanha, Áustria­‑Hungria e Itália] pela destruição
de meu império». O argumento do risco de isolamento foi depois usado também pelo
Governo central alemão numa circular explicando a entrada em guerra aos estados fede‑
rados parte do Império Alemão»26.
Mas é crível que o imperador Habsburgo, dominando boa parte da rica Europa Central,
se sentisse realmente ameaçado pela pequena e pobre Sérvia? É certo que o seu chefe
do Estado­‑Maior, o marechal Conrad von Hötzendorf, há muito que vinha defendendo
a necessidade de uma guerra preventiva contra a Sérvia. Mas porquê? E sobretudo,
porquê só em 1914 conseguiu concretizar o seu objetivo. A verdade é que o velho impe‑
rador Francisco José tinha assistido durante o seu longo reinado, iniciado em 1848, à
unificação pela força da Alemanha pela Prússia e da Itália pelo Piemonte, em ambos
os casos à custa de interesses e territórios dos Habsburgo. Piemonte era precisamente
o nome do jornal ultranacionalista da organização (não muito) secreta União ou Morte
– mais conhecida por Mão Negra – dirigida pelo chefe dos serviços secretos militares
sérvios, coronel Dimitrievic, implicada no atentado de Sarajevo de 28 de junho de 1914.
Nas páginas desse jornal defendia­‑se na edição saída no próprio dia do assassinato de
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
042
Francisco José que os sérvios deviam continuar na Bósnia o tipo de ação violenta no
sentido de (re)unificar todos os territórios sérvios que tinha resultado nas Guerras
Balcânicas de 1911­‑1913 e na duplicação do território da Sérvia27.
Não seriam, porém, as Grandes Potências impulsionadas por um culto da ofensiva e
uma corrida armamentista que fazia uma guerra preventiva parecer atraente, ou, pelo
menos, inevitável? Não estariam as Pequenas Potências simplesmente a servir de pre‑
texto para os falcões, i.e., os partidários de guerra preventiva no seio das Grandes Potên‑
cias, como o já referido Conrad em Viena, ou o seu famoso colega o general Moltke
Jr., Chefe do estado­‑Maior da Alemanha? Se a resposta for sim, isso significará que as
Pequenas Potências como a Sérvia ou a Bélgica não são verdadeiros atores mas meros
gatilhos da guerra?
Um autor como McMeekin na sua obra recente sobre o papel destes falcões nas decisões
da Rússia relativamente ao desencadear da I Guerra Mundial defende que «seria naïf
acreditar que a Rússia realmente entrou em guerra em 1914 para defender a Sérvia.
Grandes Potências não mobilizam por
regra exércitos de milhões para proteger a
É POSSÍVEL ARGUMENTAR QUE OS FALCÕES DE
integridade territorial de pequenos
GRANDES POTÊNCIAS COMO A RÚSSIA ESTAVAM
estados­‑satélite28. Este é provavelmente o
SENDO USADOS POR UMA PEQUENA POTÊNCIA
principal argumento contrário às teses que
REVISIONISTA COMO A SÉRVIA PARA ATINGIR OS
aqui defendemos.
SEUS PRÓPRIOS OBJETIVOS ESTRATÉGICOS, QUE A
Mesmo que as Pequenas Potências fossem
ELITE POLÍTICA DE BELGRADO SABIA SEREM
os pretextos da guerra, ainda assim alguma
IMPOSSÍVEIS DE ALCANÇAR PACIFICAMENTE.
importância teriam. Não se pode disparar
sem gatilho apesar de uma arma de fogo ter outros componentes. Uma grande guerra
precisa de um catalisador mesmo que necessariamente envolva, até pela sua dimensão,
múltiplos fatores e atores. As ações das Pequenas Potências podem não ser causas suficien‑
tes, mas ainda providenciar causas necessárias da Grande Guerra de 1914­‑1918. Ou seja,
este argumento não retira às potências mais fracas alguma capacidade de ação efetiva, pois
significa que nem tudo depende das intenções ou objetivos das Grandes Potências, nem
que seja por precisarem de pretextos para agir que não dependem inteiramente de si.
Isso é tanto mais assim quanto é possível argumentar que os falcões de Grandes Potên‑
cias como a Rússia estavam sendo usados por uma Pequena Potência revisionista como
a Sérvia para atingir os seus próprios objetivos estratégicos, que a elite política de
Belgrado sabia serem impossíveis de alcançar pacificamente. Por exemplo, o chefe da
representação diplomática russa em Belgrado, barão Hartwig, é descrito pelo mais
importante historiador das origens da I Guerra Mundial, Albertini, como um «pan­
‑eslavista fanático» que parecia ter dificuldade em distinguir entre interesses nacionais
sérvios e russos; a ponto de ser descrito por vários dos seus colegas diplomatas, inclu‑
sive de estados aliados da Rússia como a França, como sendo por vezes mais represen‑
tante da Sérvia na Rússia do que o contrário29.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
043
O facto de os governantes sérvios terem permitido o tipo de organizações nacionalistas
envolvidas no assassinato do herdeiro do trono dos Habsburgos, por outro lado, foi uma
opção sérvia vital para dar ao general Conrad em Viena um casus belli consensual que até
então lhe tinha escapado; nomeadamente por via do veto a políticas belicistas por parte
do Governo húngaro no quadro da dupla monarquia dos Habsburgo, e até, suprema
ironia, pela oposição do próprio arquiduque Francisco Fernando. O herdeiro do trono
assassinado em Sarajevo receava um conflito com a Rússia e desejava reformar a monar‑
quia danubiana para apaziguar e integrar plenamente os eslavos no seio do Império
Habsburgo. Como ato de provocação belicista dos terroristas ultranacionalistas sérvios,
de facto, nada fazia mais sentido do que assassinar o arquiduque Francisco Fernando30.
Mais, o que teria acontecido a todos estes eventuais falcões se a resposta do Governo
da Sérvia ao ultimato austríaco tivesse sido aceitá­‑lo plenamente? Essa foi uma possi‑
bilidade real. No entanto, foi tão hábil a resposta evasiva do chefe do Governo sérvio,
Pasic, considerado um mestre neste jogo de duplicidade diplomática tão importante
para as Pequenas Potências, «que não apenas a opinião pública europeia e as chance‑
larias da Entente, mas até o kaiser Guilherme [II] e o seu chanceler» tiveram a «impressão
de uma capitulação total por parte da Sérvia, que deveria tornar possível uma saída
pacífica para a crise». Albertini, por sua vez, cita o insuspeito responsável diplomático
austríaco responsável por redigir o ultimato apresentado por Viena em julho de 1914 à
Sérvia, que lhe testemunhou a sua impressão de que a resposta do Governo de Belgrado
era «o melhor exemplo de habilidade diplomática que conheço». De facto, a não ser
que se compare cuidadosamente os dois documentos, a impressão é de uma total
capitulação sérvia, que no entanto não cedeu no ponto fundamental do ultimato de
Viena que lhe permitiria investigar diretamente o poderoso Estado secreto sérvio, e
qualifica sempre todas as demais cedências «ao que seja compatível com o direito
internacional», o que permitiria depois renegar as aparentes concessões31.
A elite decisória da Áustria­‑Hungria parece ter acreditado sinceramente que não podia
correr o risco de, mais uma vez, aceitar simples compromissos formais do Governo da
Sérvia – que tinham sido repetidamente reafirmados, em vão, desde o golpe nacionalista
radical em Belgrado em 1903 – e que, na prática, permitiam ao Estado paralelo e secreto
sérvio controlado pelos golpistas ultranacionalistas continuar a dominar o Exército, a
guarda fronteiriça ou os serviços secretos. Era portanto lógico Viena exigir condições
draconianas, inclusive de interferência nos assuntos internos sérvios, para ter garantias
de ser capaz de monitorizar mais eficazmente as redes clandestinas anti­‑Habsburgo.
Um dos mais importantes historiadores sérvios – embora negando a responsabilidade
do Governo de Belgrado no atentado de Sarajevo e recusando dar razão a Viena na
disputa que culminou na declaração de guerra em 1914, no entanto nota que “havia
sinais de um poder paralelo na Sérvia, especialmente na sua política para com a Áustria­
‑Hungria, com o coronel Dimitrievic «e outros ativistas da Mão Negra […] a espalhar a
sua rede de agentes pela Bósnia­‑Hercegovina». O mesmo autor sublinha o peso de uma
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
044
forte corrente na cultura política e estratégica sérvia favorável à utilização de meios não
convencionais que o sucesso do nacionalismo violento italiano e alemão tinha refor‑
çado32. Note­‑se que, por outro lado, este tipo de duplicidade e de utilização de meios
não convencionais fazia todo o sentido na estratégia de uma Pequena Potência revisio‑
nista como era a Sérvia.
O ponto fundamental, porém, é que as Grandes Potências europeias, em 1914, sim‑
plesmente não estavam acostumadas a tomar a sério atores não convencionais; a valo‑
rizar aquela que veio a ser uma das maiores ameaças à segurança internacional dos
séculos xx e xxi – estados fracos que patrocinam, treinam, armam grupos de terroris‑
tas e de guerrilha para atingirem de forma violenta objetivos revisionistas.
A Sérvia foi, portanto, capaz de tirar o máximo
É LEGÍTIMO PERGUNTAR O QUE TERIA
partido da sua fraqueza. Belgrado procurou
SUCEDIDO SE OS BELGAS TIVESSEM ACEITE
sempre apresentar o ultimato de Viena como
–
MAIS OU MENOS VOLUNTARIAMENTE – OS
um Diktat desproporcionado que escondia
TERMOS DO ULTIMATO ALEMÃO? PARA
ambições geopolíticas de expansão – quando,
RESPONDER
IMPORTA RECORDAR QUE O
na verdade, sobretudo o governo húngaro a
DITO ULTIMATO ALEGAVA QUE A FRANÇA
última coisa que queria era ter mais eslavos a
TAMBÉM ESTAVA NA IMINÊNCIA DE
desequilibrar a dupla monarquia. O Governo
INVADIR O TERRITÓRIO BELGA.
sérvio pôde portanto procurar apoio das Gran‑
des Potências apelando ao seu «sentimento de
justiça» contra a Áustria­‑Hungria e a Alemanha «em uma luta desigual». O grande
objetivo sérvio era garantir que a haver uma guerra ela não ficaria sozinha. Era logica‑
mente vantajoso para Belgrado uma escalada e um contágio do conflito, por forma a
envolver ao seu lado contra uma Grande Potência o máximo possível de aliados de peso
igual ou superior, em particular a Rússia e a França.
A Bélgica é a outra Pequena Potência com um papel destacado nas origens da I Guerra.
Quanto a ela é sem dúvida possível argumentar que é um exemplo da ausência de
escolha das Pequenas Potências pois foi invadida pela Alemanha no início do conflito
numa tentativa de contornar as defesas francesas. Mas se a Bélgica evidentemente não
escolheu ser invadida, teve ainda assim que fazer uma escolha decisiva: combater ou
não, e ao lado de quem? Os decisores belgas tiveram doze horas para aceitar ou rejeitar
o ultimato alemão de 1 de agosto de 1914. O Conselho do Reino – composto por polí‑
ticos de todos os partidos com representação no parlamento – convocado por Alberto
I decidiu unanimemente rejeitá­‑lo. Nele Berlim exigia aos belgas a passagem das tropas
alemães por uma pequena faixa sul do território belga em troca da garantia de inviola‑
bilidade do resto da Bélgica33.
É legítimo perguntar o que teria sucedido se os belgas tivessem aceite – mais ou
menos voluntariamente – os termos do ultimato alemão? Para responder importa
recordar que o dito ultimato nomeadamente alegava que a França também estava na
iminência de invadir o território belga. E sobretudo importa ter em conta o impacto
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
045
da decisão belga numa Grã­‑Bretanha pouco decidida a entrar na guerra, sendo ainda
menos certo enviar rapidamente um corpo expedicionário para combater na guerra
terrestre no continente europeu34.
O Governo liberal britânico estava muito dividido. Uma série de ministros importantes
eram favoráveis à rápida entrada da Grã­‑Bretanha no conflito por temerem o impacto
de uma vitória alemã no equilíbrio de poder na Europa, mas estavam em minoria. Ainda
em 31 de julho de 1914 um ministro­‑chave tinha passado uma nota durante uma reunião
governamental britânica: «é claro que este gabinete não vai participar da guerra» euro‑
peia claramente iminente. Porém, a 2 de agosto de 1914, o mesmo Conselho de Minis‑
tros britânico decidiu que «se se verificar uma violação substancial da neutralidade da
Bélgica seremos obrigados a tomar medidas». Nesse mesmo dia, Lloyd George, numa
reunião informal dos ministros britânicos favoráveis à neutralidade, dos quais era o
líder de facto obteve o compromisso no sentido de que «não estamos preparados para
entrar na guerra presentemente, mas que certos eventos poderiam levar­‑nos a recon‑
siderar [...] como seja a invasão total da Bélgica». O que é importante sublinhar é como
são qualificadas estas declarações britânicas relativas à Bélgica – a violação da sua
neutralidade tinha que ser substancial e a invasão total35.
Esta divisão no seio do Governo britânico deu, portanto, um impacto muito grande à
decisão da Bélgica de recusar taxativamente a tentativa da Alemanha a coagir a aceitar
o trânsito do seu território pelas tropas alemães sem que o considerassem uma invasão.
A entrada da Grã­‑Bretanha e de todo o seu vasto império global no que se transformou
muito por isso na I Guerra Mundial resultou diretamente de um apelo formal da Bélgica
ao auxílio britânico.
O ministro britânico dos negócios estrangeiros, Sir Edward Grey, teve o cuidado de
justificar a entrada na guerra lendo perante o Parlamento britânico um telegrama enviado
pelo rei dos belgas, Alberto I, apelando em termos dramática à ajuda britânica. Londres
respondeu com um ultimato para a Alemanha retirar completamente desse país do
outro lado do canal da Mancha, que Berlim rejeitou, alegando imperiosa necessidades
estratégica e rejeitando como um mero pedaço de papel o Tratado de Londres que
formalmente garantia o respeito das Grandes Potências pela neutralidade e integridade
territorial da Bélgica. Este facto garantiu que como refere um dos historiadores a abor‑
dar mais a fundo a questão «a defesa dos pequenos estados» foi a «ponte», se se quiser
a bandeira, que permitiu a quase todo o Governo liberal e uma grande maioria do
Parlamento britânico apoiar a entrada na guerra sem perder a face «e matar à nascença
um potencial movimento antiguerra altamente polarizador»36.
Mais a decisão da Bélgica de resistir militarmente ao avanço alemão pelo seu território
atrasou e enfraqueceu a ofensiva alemã visando envolver Paris e forçar a rápida rendição
da França. Sem este concurso belga e, por essa via, também britânico, é legítimo ques‑
tionar se o significativamente chamado Milagre da Batalha do Marne que parou in extre‑
mis a ofensiva inicial alemã teria tido lugar. O que sabemos é que ele efetivamente
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
046
exigiu a conjugação de todos os esforços, não só franceses, mas também belgas e
britânicos. Sendo de notar que o corpo expedicionário britânico começou por ter o
mesmo número de homens equivalente ao do exército belga – 150 mil homens. Este
último ponto é fundamental para nos recordar que, mesmo no decurso de uma guerra
em tão grande escala como a I Guerra Mundial, pequenos estados podem fazer pender
a balança em momentos­‑chave entre os blocos militares muito equilibrados de Grandes
Potências. Podem também forçar uma decisiva dispersão de forças. Dois corpos do
Exército alemão ficaram fixados na ocupa‑
ção e na frente belga. E mesmo com o seu
A ALEMANHA NUNCA RECUPEROU AO
território invadido podem continuar a lutar
NÍVEL DA IMPORTANTE GUERRA DE
ao lado de aliados, e impor ocupações cus‑
PROPAGANDA, NOMEADAMENTE EM MUITOS
tosas, militar e politicamente. A Alemanha
ESTADOS AINDA NEUTROS, COMO SEJA
nunca recuperou ao nível da importante
PORTUGAL OU OS ESTADOS UNIDOS, DA
guerra de propaganda, nomeadamente em
VIOLAÇÃO DA NEUTRALIDADE DA BÉLGICA.
muitos estados ainda neutros, como seja
Portugal ou os Estados Unidos, da violação da neutralidade da Bélgica. A primeira
intervenção americana significativa na I Guerra Mundial foi uma operação de ajuda
humanitária maciça, coordenada pelo futuro Presidente Hoover, para alimentar os
belgas famintos sob ocupação alemã. É fácil imaginar o seu impacto na perceção de
ameaça americana relativamente à Alemanha37.
Em Portugal a perceção de ameaça alemã foi também colorida pela invasão da Bélgica.
Pode­‑se mesmo afirmar que ela abriu uma janela de oportunidade para os defensores
portugueses da intervenção militar na frente europeia, que não pôde ser aproveitada
por manifesta incapacidade de lhe dar uma resposta militar pronta. Mesmo o futuro
opositor da intervenção Machado dos Santos parecia disponível em outubro de 1914
para lutar pela Bélgica, e o moderado Teixeira Gomes, embaixador em Londres comen‑
tou de forma exemplar a questão:
«Não havia na Europa nação cujos interesses fossem mais contrários, do que os de Por‑
tugal, ao estado de guerra, para o qual de resto não tínhamos a menor preparação.
A forma como a Alemanha iniciou a presente campanha, violando sem hesitação nem
escrúpulo a neutralidade de duas pequenas nações […] logo deu aos países mais mal
defendidos a exata sorte que lhes estava reservada caso a Alemanha vencesse. Portugal
dadas as conhecidas aspirações da Alemanha no que respeito às suas colônias africanas
[...] seria sem dúvida uma das primeiras vítimas da Alemanha vitoriosa»38.
Mais, à luz da invasão alemã não provocada da Bélgica, cuja neutralidade garantida por
tratado, que credibilidade podia ser dada, mesmo pelos mais céticos quanto a um
envolvimento português no conflito, aos desmentidos alemães de que os confrontos
armados no Sul de Angola, culminando no desastre de Naulila, em 1914, tivessem sido
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
047
de iniciativa germânica? Tanto mais quanto as ambições territoriais alemãs relativamente
a colónias portuguesas eram amplamente conhecidas.
É, aliás, significativo que ainda que houvesse muitos grupos políticos portugueses que
se tenham oposto à entrada portuguesa na guerra, sobretudo na Europa, era impossí‑
vel encontrar defensores públicos da beligerância portuguesa ao lado da Alemanha – a
germanofilia, em Portugal, ou era uma simpatia privada, ou uma era acusação feita a
adversários políticos. Este é um facto que merece ser sublinhado e em que Portugal se
assemelha aliás a outros países, por exemplo os tão significativos Estados Unidos.
Mas pode Portugal ser realmente comparado à Sérvia ou à Bélgica? Evidentemente que
não em termos de importância no desencadear do conflito. Mas sem o efeito de con‑
tágio do conflito, necessariamente, como vimos, envolvendo estados que não eram
Grandes Potências, esta guerra não seria tão grande, nem tão global. Além disso nunca
é demais sublinhar que mesmo potências
fracas como Portugal têm formas importan‑
PORTUGAL, TAL COMO A BÉLGICA E A SÉRVIA,
tes ainda que indiretas de contribuir para o
TAMBÉM TINHA INTERESSE, CASO ENTRASSE
esforço de guerra – através da concessão de
NO CONFLITO, DE NÃO FICAR INTEIRAMENTE
livre passagem por territórios estratégicos,
DEPENDENTES DE UMA ÚNICA GRANDE
POTÊNCIA E EM PARTICIPAR DE PLENO DIREITO, concessão de bases, acesso a recursos estra‑
tégicos. Um ponto amplamente demonstrado
TER UMA VOZ NA CONFERÊNCIA DE PAZ,
por António Telo relativamente a Portugal,
PROCURANDO EVITAR QUE DELA VIESSEM
por exemplo, por via da centralidade estra‑
SURPRESAS DESAGRADÁVEIS.
tégica dos Açores, dos seus portos e águas
territoriais, dos cabos de telégrafo que neles passavam39.
Um exemplo disso mesmo foi o facto de que na situação militar muito difícil da França,
em outubro de 1914, os líderes militares e políticos franceses consideraram que mesmo
a pouca artilharia moderna do Exército português podia fazer­‑lhes falta. Ou que no
início de 1916, perante a erosão colossal das marinhas aliadas pelos ataques dos sub‑
marinos alemães, os governos de Paris e Londres consideraram que as muitas dezenas
de navios dessa nacionalidade que se tinham refugiados nos portos de Portugal, das
suas ilhas e do seu império podiam fazer diferença. Ou ainda, que, perante a erosão
terrível das forças aliadas e a continuada ocupação do Norte de França pela Alemanha,
os militares e políticos franceses considerassem que mesmo algumas dezenas de milha‑
res de tropas portugueses, mesmo com relativa falta de treino e de equipamento ainda
assim poderiam ajudar a atenuar esse desgaste, dando o apoio que os falcões no Governo
português precisavam para impor os seus pontos de vista sobre a beligerância portu‑
guesa e sobre a participação de tropas portuguesas na frente ocidental ao muito relutante
Governo de Londres. Se essa foi uma opção sensata é outra questão, mas que o fica
claro que a política belicista de Afonso Costa e dos seus seguidores mais uma vez
demonstra que mesmo uma potência muito enfraquecida pode prosseguir uma estra‑
tégia própria numa grande guerra40.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
048
Mas será que podemos levar o paralelismo mais longe e ver Portugal como um vizinho
vulnerável da Alemanha como o era a Bélgica? Será que Portugal pode ser visto como
uma potência revisionista e até como um Estado protetor do terrorismo como a Sérvia?
Por paradoxal que pareça a resposta é, em parte, sim. Portugal nas suas colónias em
África foi invadido por tropas alemãs. Também os governantes portugueses responde‑
ram apelando à Grã­‑Bretanha e manifestando a vontade de serem cobeligerantes e não
simplesmente neutros até por questões de honra, que numa sociedade em que os
duelos em defesa da mesma ainda eram uma realidade parece­‑nos ser de ter em conta,
seria um anacronismo simplesmente ignorar esta dimensão. Ao mesmo tempo é verdade
que um reforço do poder alemão mediante uma vitória esmagadora das suas tropas na
Europa, como pareceu bem possível em 1914, e mesmo depois, dificilmente deixaria
de ter reflexos negativos nas regiões vizinhas do poder alemão, o que em África signi‑
ficava Angola e Moçambique, territórios abertamente cobiçados por Berlim.
É verdade que em contraste com a Sérvia, Portugal parecia uma potência satisfeita com
o statu quo... Mas essa é uma leitura superficial, ou pelo menos parcial. Não se pode
ignorar a insegurança de Lisboa quanto à possibilidade de manter o seu império: mesmo
o jovem regime republicano tinha razões para temer uma ordem internacional imposta
pela Alemanha vitoriosa em 1914, ou mesmo numa paz negociada, como pareceu pro‑
vável nos anos seguintes. A República portuguesa estava territorialmente relativamente
satisfeita, mas não afastava no seu voluntarismo e cegueira nacionalista alguns ganhos
territoriais em África. Sobretudo era um regime novo, uma república considerada radi‑
cal, nomeadamente no seu anticlericalismo, politicamente revisionista numa Europa
de monarquias confessionais. A Áustria justificava a guerra dizendo que não tinha
alternativa a combater um estado regicida como a Sérvia – que tinha morto o herdeiro
Habsburgo em 1914 e o seu próprio rei moderado sérvio no golpe de 1903. Ora o regi‑
cídio português de 1908 era tido como um evento fundador do novo regime português,
que o honrava oficialmente, algo que as casas reinantes das respeitáveis monarquias
europeias não se cansavam de recordar. Era também conhecido o desejo do rei de
Espanha Afonso XIII de intervir em Portugal, argumentando que o regime republicano
português era uma ameaça para a paz europeia41. Se a Sérvia fosse punida pela guerra
pelos seus crimes contra a ordem monárquica estabelecida, era natural que a situação
da República portuguesa não fosse percecionada como segura. Mesmo que estas per‑
ceções de ameaça pela elite governante republicana fossem erradas – e pelo menos
relativamente ao Império Português, e mesmo a uma eventual ameaça espanhola, não
o eram inteiramente – ainda assim parece natural que elas tenham condicionado com‑
portamentos e decisões42.
Portugal, tal como a Bélgica e a Sérvia, também tinha interesse, caso entrasse no conflito,
de não ficar inteiramente dependentes de uma única Grande Potência e em participar de
pleno direito, ter uma voz na Conferência de Paz, procurando evitar que dela viessem
surpresas desagradáveis. Este foi, aliás, um cálculo sempre muito presente na difusão do
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
049
conflito por outras Pequenas e Médias Potências como a Grécia ou a Roménia. É de notar
a este respeito, que relativamente ao fim desta Grande Guerra, a necessidade de as Gran‑
des Potências Aliadas não deixarem cair a Bélgica e a Sérvia foram obstáculos importan‑
tes na possibilidade de uma paz negociada. E que a entrada da Grécia e a reentrada da
Roménia na guerra na Frente Leste, levando ao colapso da Bulgária, no verão de 1918,
marcou o início do colapso dos impérios centrais que, logo a seguir a Sófia ter pedido
armistício em setembro de 1918, decidiram pediram também elas o armistício. A ironia
deste facto, do ponto de vista da análise de participação portuguesa na guerra, é que em
Portugal se recusou a possibilidade de enviar um corpo expedicionário para esta Frente
Leste europeia por ser vista como marginal e de segunda ordem.
A real importância e autonomia das Pequenas Potências, não significa, importa sublinhar,
que tal como o caso de Portugal demonstra, a sua participação numa Grande Guerra não
seja muito arriscada, devido à sua limitada margem de manobra. É verdade que a Sérvia
conseguiu transformar­‑se no núcleo da ambicionada Jugoslávia, no que se pode qualifi‑
car provavelmente na maior e mais improvável vitória estratégica da I Guerra Mundial,
enquanto o Império dos Habsburgos desapareceu, mas a Sérvia perdeu quase metade da
sua população masculina e em 1916 viu todo o seu território ser ocupado pelo inimigo.
Também grande parte da Bélgica foi sujeita a uma ocupação brutal durante quase toda a
guerra. Mas o que é igualmente interessante é a resiliência destas Pequenas Potências e
até dos derrotados, como a Bulgária. Isto, por contraste com a vulnerabilidade de Gran‑
des Potências como o Império Habsburgo, o Império Otomano e a própria Rússia czarista,
que entraram em colapso em 1917­‑1918. E entre as principais potências vencedoras,
também a Itália ficou muito aquém do desejado. Como espantar­‑se que Portugal não
tivesse conseguido quaisquer ganhos significativos? Nada perder já era um grande ganho,
no caso português, tanto mais quanto o seu esforço para forçar a beligerância ativa a
tinha impedido de obter quaisquer concessões prévias à entrada no conflito e o seu
desempenho tinha confirmado as piores expectativas dos opositores em Londres e em
Portugal de uma beligerância ativa, retirando­‑lhe trunfos negociais.
QUAIS AS IMPLICAÇÕES DESTA ANÁLISE DA I GUERRA MUNDIAL PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS?
Em primeiro lugar o caso da Sérvia, da Bélgica, mas mesmo de Portugal, na I Guerra
Mundial, mostra que os sistemas internacionais com uma propensão para reações em
cadeia (chain­‑ganging), são particularmente instáveis também porque são vulneráveis a
uma escalada de conflitos violentos por contágio promovido por Pequenas Potências.
Essa escalada terá provavelmente origem em potências revisionistas e revolucionárias
como a Sérvia. Mas pode vir até de potências satisfeitas, pacíficas e normativamente
exemplares, como a Bélgica, se se situarem em localizações estrategicamente muito
importantes e vulneráveis ameaças ou invadidas por Grandes Potências e lhes forem
dadas garantias de segurança formais por Grandes Potências.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
050
É de notar que, ainda que houvesse no seio do partido dominante português – o PRP –
Partido Democrático – uma forte corrente favorável à entrada de Portugal na guerra com
o envio de um contingente para a Frente Ocidental na Europa, no entanto, nem mesmo
Afonso Costa o chefe dessa corrente de falcões alguma vez equacionou uma ação deste
tipo que não fosse o resultado de um pedido formal britânico ao abrigo dos Tratados de
Aliança bilaterais. Evidentemente que se pode questionar o realismo dos objetivos volun‑
taristas fixados pelos falcões do PRP-PD. Mas a «colagem agressiva» de Portugal à Grã­
‑Bretanha que tem sido descrita pela historiografia portuguesa não é algo inesperado43.
Num contexto de crescente militarização das crises europeias, de consolidação de blocos
de alianças e risco de uma grande guerra ou de um grand bargain entre elas era uma res‑
posta lógica da parte de Pequenas Potências procurar um grande protetor.
Pior do que uma grande guerra para uma Pequena Potência, é um conflito com uma
Grande Potência em que esteja sozinha face a um poder militar muito superior. Perante
essa possibilidade a Sérvia, a Bélgica, Portugal (em África) não hesitaram em procurar
escalar o conflito e envolver uma ou preferencialmente várias outras Grandes Potências
ao seu lado. Pois depender de uma única Grande Potência como aliada também tem
riscos dada a assimetria da relação. Daí ser compreensível que os governantes mais
ambiciosos da I República procurassem usar a Grande Guerra para reforçar as suas
relações com a França a par da Grã­‑Bretanha, embora de uma forma que se revelou
não ser de todo realista.
Assistimos portanto de forma clara no caso
NUM CONTEXTO DE CRESCENTE MILITARIZAÇÃO
da Sérvia, da Bélgica ou de Portugal a uma
DAS CRISES EUROPEIAS, DE CONSOLIDAÇÃO
dinâmica típica de chain­‑ganging44. De ini‑
DE BLOCOS DE ALIANÇAS E RISCO DE UMA
ciação de um conflito assimétrico por uma
GRANDE GUERRA OU DE UM GRAND BARGAIN
Pequena Potência. Pois parece­‑nos claro
ENTRE ELAS ERA UMA RESPOSTA LÓGICA DA
que a declaração de guerra da Alemanha a
PARTE DE PEQUENAS POTÊNCIAS
Portugal foi o resultado de ações portu‑
PROCURAR UM GRANDE PROTETOR.
guesas visando deliberadamente o conflito
com a certeza de apoio de uma Grande Potência. T. V. Paul lidou especificamente e em
profundidade com estes paradoxos de iniciação `guerra por pequenos e mais fracos
poderes identificando como essenciais as razões seguintes: 1. Os líderes acreditam que
um objetivo/fait accompli estratégia militar limitada terá sucesso. 2. O Estado mais fraco
possuir a curto prazo capacidades militares ofensivas que levam os políticos a acreditar
que podem vencer, batendo em primeiro lugar. 3. Líderes acreditam que a sua aliança
com uma Grande Potência limitará a escalada pelo adversário mais forte. 4. Um grupo
militarista inseguro assume o controle. Destes fatores apenas o segundo parece com‑
pletamente ausente nos casos que mais temos acompanhado, mas está provavelmente
presente, por exemplo no caso da entrada da Itália em 1915 ou da Roménia em 1916.
O terceiro está claramente presente em todos, sendo o quarto relevante no caso da
Sérvia e de Portugal, mas também da Grécia de Venizelos45.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
051
Como comparar a avaliação final do desempenho de Portugal face a outras Pequenas
Potências? O que falhou então no caso de Portugal? Mais, e em termos de uma abor‑
dagem a partir das relações internacionais podemos dizer que o falhanço português na
I Guerra Mundial deveu­‑se a um excesso de peso dos fatores mais ideacionais, ideoló‑
gicos e identitários – nomeadamente de extremismo nacionalista – face a fatores rea‑
listas ligados a uma análise fria da posição de Portugal no sistema internacional? De
facto, verificou­‑se no caso dos governantes portugueses do prp-pd um forte volunta‑
rismo revolucionária, mas que é típico de regimes nascidos de uma rutura revolucio‑
nário com a ordem interna, que são geralmente tentados a fazê­‑lo também face à ordem
externa46. E a verdade é que em qualquer dos três casos – e mesmo noutros como o da
Roménia, Bulgária ou Grécia – é o elemento ideacional ou ideológico e normativa
nacionalista – de defesa da honra a par do interesse nacional – que parece prevalecer
em termos de determinar a entrada destas
Pequenas Potências em grandes conflitos.
A GUERRA FOI VISTA COMO SERVINDO PARA
Numa lógica puramente de Realpolitik, de fria
CONSOLIDAR O REGIME REPUBLICANO
análise da relação de poder, provavelmente
EM PORTUGAL, MAS TAMBÉM O CZARISTA
nenhuma das três fracas potências se teria
NA RÚSSIA, O IMPERIAL NA ALEMANHA,
arriscado a envolver no conflito. Isto não sig‑
OU A CONTINUAÇÃO DA IRLANDA NO REINO
nifica, no entanto, que a dimensão realista
UNIDO. EM TODOS ESSES CASOS, E NÃO SÓ
esteja completamente ausente, como já vimos
NO PORTUGUÊS, ESSA APOSTA ACABOU
no esforço para garantirem o apoio de Gran‑
POR FALHAR.
des Potências47.
Por outro lado, também há que admitir que uma decisão puramente realista do que
fazer em situações limite deste tipo não é necessariamente evidente. Devia a Sérvia, em
termos de Realpolitik, ter cedido ao ultimato da Áustria e da Bélgica ao ultimato alemão?
Parece difícil de responder taxativamente de forma negativa. Quanto à Bélgica pareceu
evidente a liderança da Alemanha que devia fazer uma opção por bandwagon for profit.
O general Moltke tinha deixado isso bem claro num encontro, em 1913, com o rei
Alberto I: «os países pequenos como a Bélgica fariam bem em juntar­‑se ao lado do
mais forte se quiserem manter a sua independência». Sábio conselho? Ou a Bélgica
seria engolida como mais um reino parte de um ainda maior Reich alemão, como os
objetivos de guerra do chanceler alemão, de setembro de 1914, deixam entender. O
general Gallet, chefe da casa militar do rei dos belgas registou a reação: «foi uma ameaça
sem­‑vergonha». O rei Alberto I optou logo na altura, em 1913, por transmitir as infor‑
mações sobre o perigo germânico à França. No entanto, um ano depois, o chefe da
representação francesa em Bruxelas estava tão convencido de que sim, que tinha pre‑
parado já o esboço do telegrama a anunciar que a Bélgica tinha cedido ao ultimato
alemão quando foi surpreendido pela resposta negativa dos belgas. O rei Alberto I
explicou ao Exército belga que comandava a decisão de combater a Alemanha simples‑
mente afirmando «que se recusou a perder a nossa honra»48.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
052
Também o primeiro­‑ministro Pasic da Sérvia deixou claro em resposta ao ultimato
austríaco e sobretudo no seu apelo à ajuda de Grandes Potências amigas que não pode‑
ria ceder mais sem sacrificar a honra nacional49. E também, no caso de Portugal, este
ponto foi muito enfatizado. Seria desonroso além de perigoso, para o novo Portugal
republicano, não se envolver, manter­‑se à margem, cabia a Portugal, segundo o Presi‑
dente Bernardino Machado, «pleitear sempre na vanguarda da civilização».50
Esta dimensão ideológica ou normativa será sempre um problema? No caso português
ela esteve claramente ligada a um voluntarismo excessivo e a uma visão irrealista das
capacidades e das reais possibilidades do país, com o então ministro dos Negócios
Estrangeiros, Augusto Soares a referir­‑se à declaração de guerra da Alemanha a Portu‑
gal em 1916 como «a sorte grande» que nos garantiria «voz e voto na Conferência de
Paz»51. Evidentemente que isso dependeria muito da efetiva capacidade portuguesa de
contribuir para a vitória aliada.
Porém, ter um argumento sólido para defender a necessidade da guerra à luz das nor‑
mas universais e nacionais parece­‑nos ser muito importante para alcançar a convicção
necessária a mergulhar­‑se num conflito tão intenso e prolongado como uma guerra
assimétrica. O grande problema é que na ausência de uma ameaça clara o apelo nacio‑
nalista pode não ser suficientemente credível. E um apelo ideológico partidário será
mais fonte de divisões do que de unidade, como aconteceu no caso de Portugal – mas
também no da Grécia. Enquanto no da Bélgica ou da Sérvia, apesar de evidentemente
existirem algumas tensões e divisões, a unidade nacional em torno da prossecução da
guerra nunca esteve em questão. Nestes casos era evidentemente que se tratava de uma
questão não só de honra mas também de sobrevivência. Combinar a dimensão norma‑
tiva e a realista da sobrevivência será portanto o ideal para responder com resiliência
a uma Grande Guerra. Embora a primeira nos pareça mais importante, pois podia­‑se
sempre argumentar, como acabamos de ver, que a resposta realista era ceder à pressão
dos ultimata alemão ou austríaco. O que não era possível era argumentar que essa era
a resposta honrosa. Do ponto de vista da posição de Portugal, as incursões alemãs na
África portuguesa não foram claramente suficientes desse ponto de vista, até porque
se podia argumentar e argumentou que deviam ser combatidas in loco e ser o foco de
todas as atenções e esforços, sem desvio de forças portuguesas para operações milita‑
res na Europa.
Note­‑se que esta análise não excluiu uma dimensão da I Guerra Mundial também como
guerra diversionária, ou seja, para desviar atenções para a ameaça externa para evitar
ameaças internas. Mas também aqui não encontramos uma especificidade portuguesa.
A guerra foi vista como servindo para consolidar o regime republicano em Portugal,
mas também o czarista na Rússia, o imperial na Alemanha, ou a continuação da Irlanda
no Reino Unido. Em todos esses casos, e não só no português, essa aposta acabou por
falhar. Até porque, ao contrário, por exemplo da França ou da Bélgica, não houve
qualquer esforço para incluir correntes políticas mais críticas – católicos e socialistas
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
053
no primeiro caso, socialistas e liberais radicais no segundo – no campo da governação
em Portugal. Esta falta de um verdadeiro governo de união nacional em Portugal foi
uma fragilidade fundamental no esforço de guerra português52.
Não devemos simplesmente pôr de lado, portanto, o contributo da abordagem a partir
do Primat des Innenpolitik, mesmo que se procure aqui qualificar, delimitar e comparar
este aspeto. Desde logo no sentido de sublinhar que o primado não é a expressão ade‑
quada, esta não é a dimensão claramente única ou mesmo prevalente. Ela também não
implica uma manipulação fria pelos decisores políticos – fossem eles Afonso Costa,
Venizelos, Bratianu ou Pasic – que podiam, de boa fé, achar que esta renovada coesão
nacional era expectável e até exigível para o bem do País para se atingir grandes obje‑
tivos nacionais, a par de para lhes facilitar a manutenção no poder53.
Há, no entanto, apesar de insistirmos nos muitos aspetos em que Portugal se aproxima
de outras Pequenas e Médias Potências, uma diferença fundamental. Portugal ao con‑
trário das outras Pequenas Potências europeias não combateu a partir do seu território.
Todas as demais – a começar pela Sérvia (pelo menos enquanto tal lhe foi possível e
depois na sua vizinhança imediata) e a Bélgica, mas também Bulgária, Roménia ou
Grécia – ou foram invadidas ou invadiram a partir do seu território nacional. Estas
forças tinham uma logística e uma legitimação muito facilitadas por combaterem a
partir do seu próprio território e na defesa do mesmo. Além disso, todas elas tinham
tido o cuidado de apostar no rearmamento intensivo dos seus exércitos, até mesmo a
tradicionalmente neutral e pouco belicista Bélgica54. Mais, Portugal passou boa parte
do período entre 1910­‑1914, a planear um exército miliciano de massas que mal passou
do papel e uma grande esquadra oceânica ainda mais incomportável pelo orçamento
nacional. O que criou tensões com o corpo de oficiais e não poderia nunca ser bem
equipado com os meios disponíveis55. Mais, no caso do exército dos estados balcânicos,
estes tinham convidado missões militares externas para ajudar a reorganizar e moder‑
nizar as suas forças que tinham tido experiência de combate nos anos imediatamente
anteriores nas guerras balcânicas56.
Portugal foi a única Pequena Potência a tentar enviar e (supostamente) manter vastos
corpos expedicionários – as exceções são extraeuropeias, os domínios britânicos, os
eua ou o Brasil57. O único caso minimamente comparável é o da Grécia e da decisão
de enviar forças gregas para a península da Anatólia para procurar anexar uma parte
do antigo Império Otomano no que é hoje a Turquia – mas, já na fase do imediato
pós­‑guerra. Decisão que também acabou por se revelar desastrosa.
De facto, projetar poder militar em grande escala à distância, e sustentar depois essas
forças por um período prolongado de tempo é sempre um enorme desafio, quer em
termos materiais, quer em termos organizacionais, para qualquer potência e mais para
uma Pequena ou Média Potência. Ora, Portugal não só o fez para África, como também
para a Frente Ocidental e neste último caso numa escala nunca vista na história nacional
até 1961. Claro que apesar do enorme esforço feito houve enormes falhas. Faltavam navios
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
054
a Portugal e os tomados aos alemães tinham sido em boa parte cedidos aos britânicos
como preço do apoio britânico à beligerância e do empréstimo necessário para a pagar.
Além disso faltava espaço de desembarque de homens e meios nos lotados portos fran‑
ceses, sobretudo quando começaram a chegar as tropas e equipamento norte­‑americano.
Faltou ainda, por paradoxal que pareça, apesar do enorme esforço que foi mobilizar duas
divisões, ainda outra para assegurar uma melhor rotação e descanso das forças na frente.
Todos estes problemas se punham antes de dezembro de 1917, quando Sidónio Pais
tomou o poder, embora se tenham agravado depois, em parte por razões que escapavam
ao controlo de Lisboa, mas até, paradoxalmente, pela vontade deste último em aproximar­
‑se de Londres o levar a pressionar menos no sentido de defender o cep. No fundo, era
com estes problemas que os opositores dos falcões, agrupados em torno de Afonso Costa,
argumentavam. Até precisamente porque o apoio das Grandes Potências aliadas ao envio
do cep foi relutante ou mesmo forçado. Isso fica claro até na rapidez com que reconhe‑
ceram Sidónio Pais após o golpe de dezem‑
bro de 1918, sendo este último inclusive
A SÉRVIA E A BÉLGICA CONSEGUIRAM, PELO
«visitado» ainda com as forças revoltosas
CONTRÁRIO, APESAR DE TODOS OS REVESES,
na Rotunda, pelo adido militar britânico58. MANTER UMA FORÇA COMBATENTE ATÉ AO FINAL
Apesar de tudo algum realismo houve do
DA GUERRA – TAMBÉM PORQUE ISSO ERA MUITO
lado português e aliado misturado com o IMPORTANTE PARA A PROPAGANDA DAS GRANDES
voluntarismo na concretização de um obje‑
POTÊNCIAS ALIADAS, O QUE NÃO SUCEDIA NO
tivo excessivamente ambicioso. Houve
CASO PORTUGUÊS
alguma preparação prévia com a criação
da Divisão de Instrução de Tancos, e a passagem dos quadros pelas escolas inglesas.
As forças portuguesas foram colocadas num setor considerado calmo da linha da frente
e foram poupadas – tal como as belgas – à participação nas grandes ofensivas Aliadas
da guerra das trincheiras, em que num só dia era possível morrerem mais homens do
que todo o cep! Mesmo o colapso da frente portuguesa na dita batalha/desastre de
La Lys, de 9 abril de 1918, além de provavelmente inevitável – toda a frente aliada visada
frontalmente pela última grande ofensiva alemã da primavera de 1918 sofreu perdas e
recuos – foi, apesar de tudo relativamente limitado no quadro da carnificina massiva
da Frente Ocidental, com algumas centenas de mortos e alguns milhares de prisionei‑
ros. E no entanto, foi o suficiente para que o cep não ter sobrevivido enquanto força
combatente, ao confirmar o esgotamento físico e moral das forças, e, sobretudo, os
preconceitos dos demais aliados das tropas portuguesas não eram fiáveis como corpo
autónomo. E se é verdade que, mesmo a Rússia entrou em colapso a par da Roménia,
sendo ambas forçadas a assinar uma paz separada com os Impérios Centrais ainda em
1917. A verdade é que a Sérvia e a Bélgica conseguiram, pelo contrário, apesar de todos
os reveses, manter uma força combatente até ao final da guerra – também porque isso
era muito importante para a propaganda das Grandes Potências aliadas, o que não
sucedia no caso português59.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
055
Igualmente graves e potencialmente ainda mais arriscados para a estratégia nacio‑
nal foram os desastrosos resultados das campanhas africanas, sobretudo em Moçam‑
bique; menos em Angola onde as forças portuguesas foram brutalmente eficazes
na repressão do levantamento tribal no sul provocado pelos alemães, que entretanto
já se tinham rendido a forças vindas da África do Sul. Portugal tinha experiência e
créditos firmados créditos com as ocupações de final do século xix e início do
século xx. Mas, sobretudo em Moçambique, por inexperiência dos soldados, incom‑
petência dos comandos, corrupção nos abastecimentos, nomeadamente médicos
– o caso mais notório foi o de comprimidos de quinino trocado por adulterações
com farinha – e falta de doutrina formalizada, as baixas portugueses em Moçam‑
bique, foram enormes por doença – entre 25 por cento e 50 por cento dos efetivos,
dependendo das expedições. Isto antes sequer de combaterem as forças de Askaris
alemães. O que levou à tendência para paralisia e a ineficácia perante um adversá‑
rio em inferioridade numérica como era o caso das forças alemãs na África Orien‑
tal. Mais uma vez a participação portuguesa longe de prestigiar o País veio
confirmar os piores preconceitos no estrangeiro relativamente à eficácia do Estado
e do colonialismo português60.
Ainda assim é preciso assinalar que no caso da África Oriental/Moçambique, não só as
tropas portuguesas, mas todas as demais forças aliadas foram incapazes de derrotar
um dos mais brilhantes líderes militares de todo o conflito, o general Lettow­‑‑­ Vorbeck.
Este último utilizou táticas e um conceito operacional não convencional, próximo da
guerrilha, numa zona vastíssima de África, pois passou à ofensiva sem se prender à
defesa de qualquer território. Apesar disso cabe assinalar o contraste entre a desorga‑
nização e incapacidade portuguesa e as bem organizadas e bem comandadas forças
belgas, que, a partir do Congo Belga se revelaram capazes de avanços sistemáticos e
significativos nos territórios alemães da África Central e Oriental – simbolizados na
vitória na Batalha de Tabora em plena Tanzânia. Esses ganhos não foram despiciendos
no reforço da posição negocial belga na Conferência de Paz no final do conflito. Ainda
assim a beligerância portuguesa terá contado alguma coisa para Bruxelas não conseguir
a há muito ambicionada Cabinda portuguesa, mas foram suficientes para obter o Burundi
e o Ruanda ex­‑alemães61.
Em relação precisamente à conclusão da I Guerra Mundial pode argumentar­‑se que
a necessidade de não deixar cair a Sérvia e a Bélgica foram um importante obstáculo
ao fim negociado da guerra. Mais, as tropas da Sérvia, reforçadas com um impor‑
tante corpo expedicionário francês desembarcado em Salónica, e com suplementos
importantes de forças gregas, e da Roménia, regressada ao combate ao lado dos
Aliados, foram fundamentais para forçar a rendição da Bulgária no final de setem‑
bro de 1918. Este colapso da Frente Leste abria potencialmente o caminho para as
forças Aliadas avançarem sobre Viena, precipitando a decisão Austríaca e Alemã de
pedirem também um armistício.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
056
Em suma, a vida das Pequenas Potências numa grande guerra está longe de ser fácil,
mas ao mesmo tempo é impressionante a sua resiliência e impacto, mesmo quando
sofreram enormes perdas humanas e territoriais – caso da Sérvia e Bélgica. Isto se,
apesar delas, consigam continuar a combater ao lado de Grandes Potências. Um dos
fatores que acabou por precipitar o final da I Guerra Mundial foi, portanto, resultado
da adesão aos Aliados de várias Pequenas Potências balcânicas e do abandono pelos
Impérios Centrais pela sua única Pequena Potência aliada a eles, a Bulgária, que nomea‑
damente assegurava a ligação estratégica vital por terra entre o Império Alemão, o
Império Habsburgo e o Império Otomano. Num quadro evidentemente complexo em
que outros fatores entraram evidentemente também em jogo, seria, sublinhamos mais
uma vez, errado desvalorizar a resiliência e o impacto de Pequenas Potências numa
grande guerra, fazendo pender a balança do poder para um lado ou outro dos blocos
de beligerantes. Não foi esse, no entanto, o caso de Portugal, que também por isso
acabou por não retirar grandes benefícios da sua participação na I Guerra Mundial.
***
Seria errado deduzir dos argumentos apresentados neste texto que as Pequenas Potên‑
cias têm uma vida fácil numa grande guerra. O impacto, a autonomia e até os resulta‑
dos estratégicos que possam vir a obter não são garantidos, e garantidamente não serão
fáceis. O risco para elas é a priori maior, pois tem menos espaço de manobra – menos
território, menos população e recursos – do que uma Grande Potência. Mas desde que
as Pequenas Potências consigam numa grande guerra manter um forte governo de
unidade nacional, uma força combatente, e uma população essencialmente leal (mesmo
sob ocupação), e fortes aliados entre as Grandes Potências podem resistir com grande
sucesso. O Portugal da I República esteve longe de atingir esse pleno na I Guerra Mun‑
dial. Talvez o maior indicador do falhanço da ambiciosa estratégia portuguesa seja o
facto de a Espanha neutral ter conseguido ser eleita paro o Conselho Permanente da
nova Sociedade das Nações ao contrário de Portugal apesar de todos os protestos de
Afonso Costa na Conferência de Paz. No entanto manteve o regime republicano e o seu
vasto território colonial.
Há um ponto relativamente ao qual até provavelmente os mais céticos sobre o impacto
de Pequenas Potências numa grande guerra aceitarão que elas fazem uma escolha
importante: aliar­‑se com qual Grande(s) Potência(s) envolvida numa grande guerra?
No contexto específico da I Guerra Mundial uma questão particularmente interessante
é a de saber, por que é que a maioria das Pequenas Potências que vão entrar no conflito
o farão sobretudo pelo lado dos ditos Aliados ocidentais e não pelos Impérios Centrais
– sendo a exceção a Bulgária e o Império Otomano? Do nosso ponto vista há razões de
credibilidade, de confiança, mas também de interesse e determinantes geoestratégicas
que favorecem esta dinâmica.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
057
A Alemanha perdeu necessariamente alguma credibilidade com Pequenas Potências
pela invasão da Bélgica62. Mas, por outro lado, é também fundamental ter em conta
que os Impérios Centrais eram essencialmente potências continentais. Isso significa
que não só tendiam a ser vistas como mais diretamente ameaçadoras para os seus
vizinhos de menor dimensão, como a sua capacidade de captação de aliados estava
geopoliticamente muito condicionada pelo predomínio naval da Grã­‑Bretanha e dos
seus aliados. Isso ficou evidente, por exemplo, no caso de Espanha ou do México63.
É significativo que um processo semelhante se verificou no caso geopoliticamente
semelhante da Roménia, relativamente à aliança com uma Rússia demasiado grande
e próxima, o que levantou tais reservas em alguns dos governantes romenos que levou
à sua demissão em protesto pela decisão de entrada romena na guerra ao lados dos
Aliados64.
A atenção às Pequenas e Médias Potências é também fundamental para se alcançar uma
visão realmente mais global da I Guerra Mundial, um outro aspeto que tem merecido
cada vez mais atenção. Ora a adesão de Pequenas e Médias Potências teve na globali‑
zação do conflito, a par do facto de várias das Grandes Potências envolvidas em 1914
serem detentoras de importantes impérios coloniais65. Mas a adesão do Japão, e a
importante dimensão colonial de duas Pequenas Potências tiveram importância numa
ainda maior globalização da guerra. Portugal e a Bélgica foram fundamentais, fosse
pela eficácia ou pela ineficácia, no decurso da guerra terrestre no seu principal teatro
extraeuropeu que teve como palco a África Central e Austral66.
Em suma, Grande Potência não deve ser confundida com a omnipotência e Pequena
Potência não deve ser considerada equivalente de impotência total. Esta pode parecer,
talvez, uma conclusão demasiado óbvia para merecer menção. Mas, por vezes, o óbvio
é importante demais para não ser explicitamente sublinhado. Se realmente se der por
óbvio o que acabamos de referir, então é preciso retirar daí as devidas implicações.
Uma análise da I Guerra Mundial consequente com esta afirmação não pode ignorar a
priori como irrelevantes os objetivos, as decisões, as ações das Pequenas e Médias Potên‑
cias. Como procurámos argumentar, parece­‑nos evidente que Pequenas Potências
podiam ter e tiveram em vários aspetos e momentos fundamentais um impacto signi‑
ficativo no desencadear, na expansão e no fim da Grande Guerra de 1914­‑1918. Por
outro lado, os problemas que Portugal enfrentou neste período podem e devem também
ser analisados de forma comparativa nesta perspetiva – dos desafios que a I Guerra
Mundial representou para outras Pequenas e Médias Potências e das respostas que estas
deram a um conflito que, pela sua escala e intensidade, as afetou mesmo quando per‑
maneceram neutrais.
Os estudos, infelizmente ainda relativamente escassos, no campo das relações inter‑
nacionais sobre a temática dos conflitos assimétricos ou potências revisionistas revo‑
lucionárias podem e devem ser utilizados para perceber melhor e avaliar de forma mais
desapaixonada o comportamento de Portugal durante a I Guerra Mundial. Mais, não
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
058
faz sentido comparar explícita ou implicitamente a intervenção de Portugal na I Guerra
Mundial apenas com a França ou a Grã­‑Bretanha ou a Alemanha, pois desta abordagem
só se pode concluir que falhou ou foi irrelevante. A comparação deve ser feita com a
Bélgica, ou a Sérvia, ou ainda mais com a Grécia, a Roménia, a Bulgária. É a esse nível
que faz sentido avaliar o desempenho de Portugal. Sublinhando o imenso e inédito
esforço entre estas Pequenas Potências que foi projetar um corpo expedicionário por‑
tuguês no teatro de operações mais exigente da I Guerra Mundial; mesmo que seja para
concluir que esta aposta arriscada acabou por ser em boa parte falhada, nomeadamente
não deu os resultados estratégicos desejados. Portugal não ganhou autonomia face à
Grã­‑Bretanha, nem prestígio internacional, nem lugares destacados na nova Sociedade
das Nações. Também, exceto uma pequena ilhota na fronteira norte de Moçambique,
não ganhou território. Apesar de tudo, no entanto, Portugal manteve o seu império
colonial e o regime republicano – com a respetiva bandeira e hino, batizados em com‑
bate. Um regime republicano português que, embora enfraquecido, acabou por se
manter, numa Europa onde, depois de 1919, as repúblicas se tornaram mais numerosas
e mais normais. Nem tudo falhou, embora muito tenha falhado.
Data de receção: 5 de Maio de 2014 | Data de aprovação: 4 de Junho de 2014
N OTA S
1
A investigação para este artigo foi rea‑
lizada no quadro de um projeto do idn em
parceria com o ics – ul e ihc – unl apoiado
pela Comissão Coordenadora das Evoca‑
ções do Centenário da I Guerra Mundial do
Ministério da Defesa Nacional. As opiniões
expressas são da exclusiva responsabili‑
dade do autor. Agradecemos a Carlos Gas‑
par e outros participantes e comentadores
no painel organizado pelo primeiro sobre
esta temática no quadro do Congresso da
APCP de 2014 em Coimbra.
2
Roberts, Andrew – Salisbury: Victorian
Titan. Londres: Phoenix Press, 2000, pp.
522­‑23.
3
Ver em Jstor [Consultado em: 14 de abril
de 2014]. Disponível em: http://www.jstor.
org/action/oBasicSearch?Query=%22First
+World+War%22&acc=on&wc=on&fc=offh
ttp ; Ver Persée [Consultado em: 14 de abril
de 2014]. Disponível em:
http://www.persee.fr/web/revues/home/
prescript/search/?_Prescripts_Search_
alterSearchQuery=udAND&_Prescripts_
Search_selectedTypes=ar ticle&_Pres‑
cripts_Search_runnedQuery
4
É o caso mesmo de uma obra tão
recente como a de Clark , Christopher –
The Sleepwalkers: How Europe went to War
in 1914. Londres: Penguin, 2013, pp. 666
ss., em que se explica por que é que a obra
é dedicada ao seu tio­‑avô Jim O’Brien, um
veterano desse conflito.
5
Provavelmente a melhor antologia de
partida relativamente à forma como as
relações internacionais têm olhado para
a I Guerra Mundial é ainda M iller , S. E.,
Lynn­‑Jones , S. M. & Van E vera , S. (eds.)
– Military Strategy and the Origins of the
First World War: An International Security
Reader. Princeton: PUP, 1991; relativa‑
mente a discus sõe s mais r ecente s
importa ver o dossiê temático sobre as
origens na I Guerra Mundial em A a . V v.
– Foreign Policy Analysis. Vol. 7, N.º 2,
2011, pp. 139­‑214, e o conjunto de textos
reunidos em L ev y, J. & V asquez , J. (eds.)
– The Outbreak of the First World War,
Structure, Politics, and Decision­‑ Making.
Cambridge: CUP, 2014.
6
Cit. G avin, Francis – «History, security
studies and the July Crisis» In Journal of
Strategic Studies. Vol. 37, N.º 2, 2014, p.
320. A obra de Tuchman , Barbara – The
Guns of August: The Outbreak of World War
I. Nova York: MacMillan, 1962 – recebeu o
Prémio Pulitzer em 1963.
7
As suas obras mais influentes são
F ischer , Fritz – Germany’s Aims in the
First World War. Nova York: Norton, 1968
[tradução do original alemão Griff nach der
Weltmacht de 1961]; e Idem, War of Illusions:
German Policies from 1911 to 1914. Nova
York: Norton, 1975.
8
Samuel Williamson, «July 1914 revis‑
ited and revised: the erosion of the German
paradigm». In Levy, J. & Vasquez, J. (eds.)
– The Outbreak of the First World War, Struc‑
ture, Politics, and Decision­‑Making, pp.
30­‑ 62.
9
Teixeira , Nuno Severiano – O Poder e
a Guerra 1914­‑1918: Objetivos Nacionais e
Estratégias Políticas na Entrada de Portugal
na Grande Guerra, s.l.: Ed. Estampa, 1996.
Ainda que por via, sobretudo, da historio‑
grafia francesa, o que mostra a ampla
difusão deste tipo de abordagem.
10 S n y der , Jack – Myths of Empire:
Domestic Politics and International Ambition.
Cornell UP, 1991.
11
Ver catálogo eletrónico da Biblioteca
Nacional de Portugal [Consultado em:
14.4.2014]. Disponível em: http://catalogo.
bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=N4
011094P82P5.267904&menu=search&asp
ect=basic_search&npp=20&ipp=20&spp=
20&profile=bn&ri=&index=.GW&term=Pri
meira+Guerra+Mundial&x=0&y=0&aspect
=basic_search
12
Para uma leitura mais desenvolvida da
bibliografia e das suas principais tendên‑
cias cf. Teixeira , Nuno Severiano – O Poder
e a Guerra 1914­‑1918: Objetivos Nacionais e
Estratégias Políticas na Entrada de Portugal
na Grande Guerra, s.l.: Ed. Estampa, 1996,
pp. 20­‑ 33.
13
Clark , Christopher – The Sleepwalkers:
How Europe went to War in 1914. Londres:
Penguin, 2013, pp.559 e seguintes.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
059
14
Snyder, Jack & L ieber, Keir – «Cor‑
respondence: Defensive Realism and the
‘‘New’’ History of World War I». In Interna‑
tional Security. Vol. 3 3, N.º 1, 2008,
pp.174­‑194.
15
M ene se s , F. Ribeiro de – União
Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra
(1916­‑18). Lisboa: Cosmos, 2000, p. 63.
Sobre este fenómeno da polarização cf.
M edina , João (ed.) – Portugal na Grande
Guerra: Guerristas e Antiguerristas: Estudos
e Documentos. Lisboa: Centro História
Univ. Lisboa, 1986; S amara , Maria Alice
– Verdes e Vermelhos, Portugal e a Guerra
no Ano de Sidónio Pais. Lisboa: Ed. Notí‑
cias, 2003.
16
Telo, António J. – Os Açores e o Con‑
trolo do Atlântico: 1898­‑1948. Porto: Asa,
1993.
17
B ecker , Jean­‑Jacques – «Prefácio».
In Teixeir A, Nuno Severiano – O Poder e
a Guerra 1914­‑1918: Objetivos Nacionais e
Estratégias Políticas na Entrada de Portugal
na Grande Guerra, pp.15­‑17.
18
M eneses , F. Ribeiro de, Afonso Costa:
Portugal. Londres: Haus, 2011.
19
C ornwall , Mark – «Introduction». In
M itrovic , Andrej – Serbia’s Great War.
Londres: Hurst, 2007, p. vii; de S chaep drijver , Sophie – «Belgium». In H orne ,
J. (ed.) – A Companion to World War I.
Oxford: Wiley, 2010, p. 386.
20
O único texto em português sobre o
tema parecer ser o útil ensaio de G aspar ,
Carlos – «Os pequenos estados no sistema
internacional». I Encuentro Peninsular de
Historia de las Relaciones Internacionales.
Zamora: Fundación Rei Afonso Henriques,
1998, pp. 113­‑162; relativamente à biblio‑
gr afia internacional o problema é o
inverso, de multiplicidade de bibliografia,
mas sobretudo focada na cooperação
diplomática cf., e.g., B eyer , Jessica L. –
Annotated Bibliography on Diplomacy of
Small States [Consultado em: 17.3.2013].
Disponível em: http://archive1.diplomacy.
e du / Smal l St ate s / Re s our ce s /displ ay.
asp?Topic=Bibliography
21
Cf. antologia clássica de L ukes , Ste‑
ven (ed.) – Power. Nova York: NYU Press,
1986; para debates mais recentes ver, e.g.,
L ukes , Steven – Power: A Radical View. 2.ª
edição revista: Basingstoke, Palgrave,
2005; N ye , Joseph S. – The Future of Power.
Nova York: Public Affairs, 2011.
22
Ver H andel , Michael – Weak States in
the International System. 2 nd rev. ed.,
Abingdon: Fr ank Cass, 1990, maxime
pp.41 ff.; ver também FOX, A. Baker – The
Power of Small States: Diplomacy in World
War II. Chicago: University of Chicago
Press, 1959; C ooper , Andrew F., e S haw,
Timothy M. (eds.) – The Diplomacies of
Small States: Between Vulnerability and
Resilience. Londres: Palgrave, 2012, pp.
1­‑19.
23
W illiams , K. P., L obell , S. E., Jesse ,
N. G. (eds.) – Beyond Great Powers and
Hegemons: Why Secondary States Support,
Follow or Challenge. Stanford: SUP, 2012
24
. B rown , Michael (ed.) – Grave New
World: Security Challenges in the Twenty­
‑First Century, Washington DC. George‑
t o w n U P, 2 0 0 3 , p p . 2 ­‑ 3 ; P a u l ,
T.V. – Asymmetric Conflicts: War Initiation
by Weaker Powers, Cambridge, CUP, 1994.
Ver ainda o texto clássico M ack , Andrew
– «Why big nations lose small wars? The
politics of asymmetric conflict». In World
Politics. Vol. 27, N.º 2, 1975, pp. 175­‑200.
25
V asquez , John – «Explaining world
wars: its Scope, Severity, Duration”, In The
War Puzzle Revisited, Cambridge: CUP,
2011, pp.246­‑284. O Japão e os Estados
Unidos só com a mobilização e os resul‑
tados da I Guerra Mundial realmente atin‑
gem esse estatuto.
26
Carta do imperador Francisco José
para o kaiser Guilherme II entregue em
Berlim de 5 de julho de 1914 pelo embai‑
xador conde Szögyény­‑ Marich.
27 M ackenzie , David – Apis: The Conge‑
nial Conspirator. Boulder: East European
Monographs, 1989.
28
M cmeekin, Sean – The Russian origins
of the First World War. Cambridge MA: The
Belknap Press, 2011, Loc. 323.
29
A lbertini , Luigi – The Origins of the
War of 1914. s.l: Enigma Books, 2005, vol.
2, p. 274; ver também Clark , Christopher
– The Sleepwalkers: How Europe went to War
in 1914. Londres: Penguin, 2013, p. 87.
30
W illiamson , Samuel R. – Austria­
‑Hungary and the Origins of the First World
War. Londres: Palgrave, 1990.
31
Citações e comentários de A lbertini,
Luigi – The Origins of the War of 1914. s.l:
Enigma Books, 2005, vol. 2, pp.360­‑ 361,
364­‑ 372.
39
Ver nota 14.
40
O exemplo acabado, obsessivo disso
mesmo é o representante diplomático
português em Paris até 1917, C hagas ,
João – Diário. Lisboa: Rolim, 1987, 3 volu‑
mes; ver também N ovais , Noémia – João
Chagas: A Diplomacia e a Guerra 1914­‑1918.
Coimbra: Minerva, 2006.
41
D e L a Torre G omez , Hipolito – Na
encruzilhada da grande guerra: Portugal­
‑Espanha, 1913­‑1919. s.l.: Ed. Estampa,
1980.
42
D e L a Torre G omez , Hipolito – Na
encruzilhada da grande guerra: Portugal­
‑Espanha, 1913­‑1919.
43
R amos , Rui – «Revolução republicano
e a política externa por tuguesa». In
R amos , Rui, e A lmeida , João Marques
(eds.) – Revoluções, Política Externa e Polí‑
tica Defesa em Portugal, Sécs. XIX­‑XX.
Lisboa: IDN/Cosmo, 2008, p. 81.
44
Cf., e.g., W altz , Kenneth – Theory of
International Politics. Reading: Addison­
‑Wesley Pub., 1979, pp. 189­‑191; C hris t ensen , Thomas J., e S n y der , Jack
– «Chain gangs and passed bucks: pre‑
dicting alliance patterns in multipola‑
rity». In International Organization. Vol.
4 4, N.º 2, 1990, pp. 137­‑168, e C hris tensen , Thomas J., e S nyder , Jack –
«Multipol ar it y, perceptions, and the
tragedy of 1914». In International Studies
Quarterly. N.º 55, pp. 305­‑ 308; S chwe ller , Randall L. – «Bandwagoning for
profit: br inging the revisionist state
back». In International Security. Vol. 19,
N.º 1, 1994, pp. 72­‑107; W alt, Stephen
– The Origins of Alliance. Ithaca: Cornell
UP, 1997.
45
Mitrovic, Andrej – Serbia’s Great War.
Londres: Hurst, 2007, p. 59; ver também
M ackenzie , David – Apis: The Congenial
Conspirator. Boulder: East European
Monographs, 1989.
P aul , T. V. – Asymmetric Conflicts:
War Initiation by Weaker Powers. Cam‑
bridge, CUP, 1994, p. 15 ss. incluiu a
guerra russo­‑ japonesa e Pearl Harbor,
em 194 0, mas não é o caso de 1914,
ponto par a os principais fatores que
favorecem isso.
33
46
32
S tengers , Jean – «Belgium». In W ilson , K. (ed.) – Decisions For War, 1914.
Londres: Routledge, 2003, pp.151 passim.
34 A Grã­‑ Bretanha podia limitar­‑ se a dar
apoio naval aos seus aliados, posição
defendida por ministros de peso.
Walt, Stephen – «Revolution and war».
In World Politics. Vol. 44, N.º 3, 1992, pp.
321­‑ 368.
47
G ilbert, Bentley B. – «Pacifist to
interventionist: David Lloyd George in 1911
and 1914. Was Belgium an issue?». In The
Historical Journal. Vol. 28, N.º 4, 1985, p.
885.
Cf. a respeito desta dimensão mais
ideacional ou normativa em questões de
segurança, e.g., K atzenstein , Peter (ed.)
– The Culture of National Security: Norms
and Identity in World Politics. Nova York:
Columbia, 1996; D esch , Michael et al. –
«Correspondence: Isms and Schisms:
culturalism versus realism in security
studies». In International Security. Vol. 24,
N.º 1, 1999, pp. 156­‑172; J ohnston , Alis‑
tair I. – «Thinking about strategic culture».
In International Security. Vol. 19, N.º 4,
1995, pp. 32­‑ 64.
37
48
35 Cit. W ilson , Keith M. – The Policy of
the Entente: Essays on the Determinants of
British Foreign Policy, 1904­‑1914. Cam‑
bridge: CUP, 1985, pp. 136­‑140.
36
H arris , J.P. – Douglas Haig and the
First Word War. Cambridge: CUP, 2009, p.
67.
38
Ofício do ministro de Portugal em Lon‑
dres para MNE (14.11.1914), Portugal na
Primeira Grande Guerra. Lisboa: MNE,
1997, Vol. 1, Doc. 157.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS JUNHO : 2014 42
Cit. A lbertini , Luigi – The Origins of
the War of 1914. Vol. 3, s.l: Enigma Books,
2005, p. 441.
49 A lbertini , Luigi – The Origins of the
War of 1914. Vol. 2, s.l: Enigma Books,
2005, pp. 272­‑275; D jokic , Dejan – Pasic
and Trumbic. Londres: Haus Pub, 2010.
060
50
Cit. M eneses , F. Ribeiro de – União
Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra
(1916­‑18). Lisboa: Cosmos, 2000, p. 85.
51
Cit. O liveira (2011), p. 186.
52
M ene se s , F. Ribeiro de – União
Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra
(1916­‑18), p. 100 passim.
53
D elby, Andrew – Eleftherios Venizelos
– Greece. Londres: Haus, 2011; Hitchins ,
Keith – Ion Bratianu – Romania. Londres:
Haus, 2011.
54
S te venson , David – «Battlefield or
Barrier? Rearmament and military plan‑
ning in Belgium, 1902–1914». In The Inter‑
national History Review. Vol. 29, N.º 3, 2007,
pp. 473­‑507.
55
Cf. Telo, António, in Afonso, Aniceto, e
Gomes, Carlos Matos (eds.) – Portugal e a
Grande Guerra. Vila do Conde, Verso da His‑
tória, 2013, p. 250 ss; e sobre a preparação
do CEP cf. fraga, L., in Afonso, Aniceto, e
Gomes, Carlos Matos (eds.) – Portugal e a
Grande Guerra, p. 265 ss. Esta obra coletiva
é o principal volume de referência sobre o
tema da intervenção de Portugal na I Guerra
Mundial. Para uma síntese centrada na
intervenção militar portuguesa na guerra
cf. A fonso, Aniceto – A Grande Guerra,
Angola, Moçambique, Flandres, 1914­‑1918.
Matosinhos: Quidnovi, 2008.
56
A exceção em termos de experiência
de guerra recente era a Roménia que, no
entanto, a compensou convidando em
1916 uma missão militar francesa que
atingiu quase quatro mil oficiais e foi fun‑
damental na condução da guerra. Cf.
Torrey, Glenn E. – The Romanian Battle‑
front in World War I. Lawrence: University
Press of Kansas, 2012.
Vila do Conde, Verso da História, 2013, p.
310 ss; p. 389 ss e para as estatística ver
p. 520 ss.
57
60
O Brasil foi de todos os beligerantes
latino­‑ americanos o único a enviar for‑
ças para o teatro de operações, espe‑
cialmente a chamada Divisão Naval em
Operações de Guerra ( dnog ), que aliás
enfrentou dificuldades significativas cf.
M aia , Prado – DNOG: Uma Página Esque‑
cida da História da Marinha Brasileira. Rio
de Janeir o: S er v iço Document aç ão
Geral Marinha, 1961; V inhos a , Fran‑
cisco L. – O Brasil e a Primeira Guerra
Mundial. Rio de Janeiro: IHGB, 1990.
Sobre os Estados Unidos a bibliografia
é imensa, cf., e.g., D oenecke , J. D. –
Nothing Less Than War: A New History of
America’s Entry into World War I. Lexing‑
ton: University Press of Kentucky, 2011.
Para olhar para a par ticipação por tu‑
guesa nesta perspectiva cf. F r aga , L.
Alves – Do Inter vencionismo ao Sido‑
nismo, os Dois Segmentos da Política de
Guerra da Primeira República. Coimbra:
Imp. Univ. Coimbra, 2010.
58
Sobre Sidónio a obra de referência é
R amalho, N. M., Sidónio Pais, Diplomata
e Conspirador (1912­‑1917). Lisboa: Cosmo,
2001.
59
Cf. M eneses , Filipe Ribeiro de – «A
grande aposta da República: o Corpo
Expedicionário Português». In M eneses ,
Filipe Ribeiro de, e O liveira , Pedro Aires
(eds.) – A Primeira República Portuguesa:
Diplomacia, Guerra e Império. Lisboa:
Tinta­‑ da­‑China, 2011, pp. 221­‑244; Fraga ,
L., A fonso , Aniceto, e G omes , Carlos
Matos (eds.) – Portugal e a Grande Guerra.
Pélissier, René – As Campanhas Colo‑
niais de Portugal 1844­‑1941. Lisboa: Ed.
Estampa, 2006, p. 352 ss.
61
Note­‑ se que as reclamações belgas
nunca foram postas em termos hostis a
Portugal, mas sim de troca voluntária por
Lisboa em troca de outras concessões
territoriais de território ex­‑alemão, algo
que, no entanto, até por razões de inte‑
resse próprio nas mesmas os britânicos
sempre rejeitaram. Cf. Marks, Sally – Paul
Hymans. Londres: Haus, 2012, p. 51 ss.
Note­‑se ainda que as reclamações belgas
em relação à neutral Holanda também
foram rejeitadas pela Grã­‑Bretanha.
62
Cf. DE de S chaepdrijver , Sophie –
«Belgium». In Horne, J. (ed.) – A Companion
to World War I. Oxford: Wiley, 2010 e Zuckerman, Larry – The Rape of Belgium: The Untold
Stody of World War I. Nova York: NYUP, 2004.
63
D e L a Torre G omez , Hipolito – Na
encruzilhada da grande guerra: Portugal­
‑Espanha, 1913­‑1919, 1980.
64
Hitchins, Keith – Ion Bratianu – Roma‑
nia. Londres: Haus, 2011.
65
Como referido consideramos a Itália,
os E stados Unidos e o Japão como
potências médias em maior ou menor
ascensão.
66
Ver, e.g., S tr achan , Hew – The First
W o r l d W a r i n A f r i c a. N o v a Yo r k :
OUP, 2004.
Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918 Bruno Cardoso Reis
061
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