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Reflexoes sobre a postura fenomenologica diante morrer

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Reflexoes sobre a postura fenomenologica diante morrer
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ARTIGO
Reflexões sobre a postura fenomenológica diante do morrer
Reflections of phenomenological posture facing death
Marina Machado Paulini
Orientadora: profª Gláucia Rezende Tavares
RESUMO
O presente estudo compromete-se em reunir informações e detalhes sobre a
postura fenomenológica adotada pela equipe assistencial diante do processo de
adoecimento e de morte enfrentado por pacientes fora de possibilidades de cura. A
maioria deles, portadores de câncer ou aids. Observa-se, num primeiro momento, a
necessidade de aprofundar conhecimentos a respeito da Fenomenologia e de como
ela contribui para compreendermos melhor essa postura fenomenológica que visa
minimizar o sofrimento vivido por eles e proporcionar momentos de maior integração
e consciência de si mesmos, através de encontros abertos, pautados no carinho,
atenção, reflexão e na disponibilidade. Posteriormente a essa descrição, torna-se
importante considerar o contexto hospitalar fragilizante e repleto de significações
marcantes no qual esses pacientes se inserem, tendo em vista as suas condições
físicas, psíquicas e sociais. As emoções que envolvem o luto antecipatório, as fases
finais da vida e a vivência posterior à morte. E por fim, o trabalho enfatiza a
importância de pensarmos na humanização do cuidado como forma de disseminar a
idéia de que, enquanto membros inseridos na equipe assistencial de saúde,
precisamos, indubitavelmente, rever nossa postura não só frente aos pacientes que
não terão a vida propriamente dita por muito tempo e buscam viver bem e com
qualidade, os dias que lhes restam, mas também em relação aos que cuidam dos
fatores externos incluídos nesse momento.
Palavras-chave: Doente Terminal, Cuidados Paliativos, Atitude Frente à Morte,
Qualidade de Vida, Qualidade da Assistência à Saúde.
ABSTRACT
This paper intend to gather information and details about the phenomenological
posture adopted by the heath care team, about the illness and death process faced
by out of possibility of cure patients. Most of them carry SIDA and Cancer. First of all,
it is observed the need to obtain deeper knowledge about Phenomenology and how it
contributes to our understanding of phenomenological posture. It aims to minimize
suffering of the patients and to provide moments of a greater integration and
awareness of themselves through open meetings surrounded by care, attention,
reflections and availability. After this description, it is important to consider the fragility
hospital context, full of meanings which patients are involved considering their
physical, psychical and social condition. In addiction there are the emotions that
involves anticipate mourning, the final phases of live and after death leaving. Finally,
the paper emphasizes the importance to think about humanization of care as a way
to spread the idea that, being members of health care team, it is doubtless necessary
to review our posture not just in front of patients that will not live for a long time and
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intend to live with quality their last days, but also with the ones who take care of
external factors among this moment.
Keywords: Terminally Ill, Hospice Care, Attitude to Death, Quality of life, Quality of
Health Care.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Atualmente, a evolução da tecnologia no ramo da medicina contemporânea tem
provocado uma influência positiva, fazendo com que muitas pessoas vivam por mais
tempo. E diante dessa realidade, é fato que, num contexto de hospitalização, o
cuidado disponibilizado ao paciente gravemente enfermo tornou-se um elemento de
estudo importante, seja na rede pública ou privada. Especialmente em casos de
pacientes com prognóstico reservado, sendo a maioria deles, portadores de doenças
como o câncer ou a aids. Entretanto, este cuidar é considerado uma tarefa
complexa, difícil, de muitas particularidades e pouco documentada. A maioria dos
estudos avalia o momento após a morte, o período de luto vivenciado pelos
familiares ou até mesmo o luto antecipatório vivido pelo paciente. Nesse contexto,
abre-se um espaço para novas considerações, questionamentos e possíveis
caminhos. Torna-se instigante compreender as atitudes de quem se encontra à
frente desses pacientes, ou seja, os fatores institucionais e emocionais que
envolvem a equipe de saúde em contato com esses pacientes em estado avançado
de suas doenças.
A proposta deste trabalho surge da vontade de aprofundar conhecimentos e leituras
acerca de um determinado tema que tem se mostrado intrigante e diferenciado no
dia-a-dia de um psicólogo clínico hospitalar. Diante da experiência que vem sendo
vivenciada por mim no contato com pacientes em estado grave, uma pergunta se faz
presente e essencial nesse contexto: qual deve ser a postura desse profissional
diante do processo de adoecimento e de morte de pacientes fora de possibilidades
de cura?
Vale ressaltar, inclusive, que o sistema envolvido nos cuidados a esses pacientes
inclui não só o psicólogo, mas a equipe de assistência, o próprio paciente, sua
família e toda a rede afetiva e social. O trabalho da equipe deve ser interdisciplinar,
apontando para uma transdisciplinaridade. Dessa forma, acredito poder ampliar esse
questionamento lembrando da importância de zelar pelo nível da qualidade das
interações a serem construídas.
O foco não se restringe ao paciente internado, mas se amplia às relações entre
todos os elementos envolvidos no que se pode denominar sistema terapêutico. A
equipe assistencial compreende todos os profissionais que estão no cotidiano desse
trabalho da família e do paciente: médicos, profissionais da enfermagem,
fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas, fonoaudiólogos, psicólogos e os
profissionais nas funções de recepção, administração e faxina (Tavares, 2005).
A psicologia, como parte integrante dessa equipe, se insere nesse contexto de forma
muito positiva e com objetivos claros de co-laborar com o restabelecimento clínico,
físico e emocional desses pacientes frente a momentos tão delicados, impostos pelo
adoecimento.
Revista IGT na Rede, v. 4, n° 6, 2007, p.92-113. Disponível em http://www.igt.psc.br
ISSN: 1807-2526
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Como psicóloga de uma instituição hospitalar privada de grande porte, e com a
responsabilidade de acompanhar os pacientes que se encontram nos mais diversos
setores do hospital, percebo que a minha prática de atendimento clínico tem me
despertado muitas inquietações a respeito desse trabalho tão peculiar. O setor de
internação do hospital, por exemplo, tem características próprias para um
acompanhamento mais próximo ao paciente, uma vez que o clima é mais calmo e as
rotinas da equipe são mais estruturadas. Ou seja, não se observa tanta
intercorrência nas internações como se vêem nas UTIs. As visitas externas são mais
acessíveis e o espaço para o paciente, mais particularizado. Zelar por uma
privacidade que se faz essencial no atendimento psicológico é uma atitude
primordial. As equipes assistenciais, nas internações, são mais abertas a conhecer o
serviço e capazes de colaborar para o bom andamento dos acompanhamentos
psicológicos. Elas entendem com mais facilidade a importância da construção de um
vínculo mais pessoal e específico, ou seja, de maior qualidade, e as necessidades
para que isso aconteça. Prezam por um ambiente tranqüilo e harmônico.
Dentre os setores de internação existentes no hospital, a Oncologia configura-se,
hoje, como o setor mais solicitante. Os atendimentos são realizados de forma
contínua e freqüente, uma vez que os pacientes oncológicos são acompanhados
desde o diagnóstico de suas doenças, passando pelo processo do tratamento, que
varia entre a cirurgia, quimioterapia e/ou radioterapia, até muitas vezes, a fase final
da vida. O tratamento de quimioterapia é o mais comum e requer que esses
pacientes internem com certa freqüência permitindo um contato mais qualificado
com a equipe assistencial, ou seja, um contato mais próximo, pessoal e permitindo
trabalhos reflexivos mais produtivos. As sessões quimioterápicas podem acontecer
com intervalos variados, porém, na maioria dos casos, faz-se quinzenalmente e por
um período de, no mínimo, seis meses.
Estar com esses pacientes tem sido muito gratificante para mim pelos ensinamentos
que eles transmitem e pelo trabalho que penso desenvolver nessas situações de
extrema fragilidade, tornando-se assim, um tema muito instigante.
A prática nessa instituição tem provocado inquietações que merecem estudos e
reflexões. O prognóstico reservado dos pacientes, a proximidade da morte, a própria
vivência desta, o envolvimento dos familiares, todos esses acontecimentos,
diariamente, me despertam sentimentos ainda obscuros e a necessidade de
compreender melhor de que forma podemos atuar com qualidade, isto é, de que
forma podemos estar presentes, genuinamente, com esses pacientes. Ou ainda, que
postura seria mais apropriada diante de uma situação de morte iminente.
A partir dessas questões, observo a necessidade de uma atitude humanizada. Uma
atitude que dê abertura e conforto ao desvelamento da singularidade de cada
pessoa, de cada paciente, tornando-se prioridade na construção de novas relações.
Certamente trata-se de uma conquista a ser construída, diariamente, por parte da
equipe assistencial.
Escolhi a Fenomenologia como o alicerce que dará sustentação teórica ao estudo
proposto, levando sempre em consideração as reflexões a respeito do contexto
vivenciado pelos pacientes fora de possibilidades de cura.
Revista IGT na Rede, v. 4, n° 6, 2007, p.92-113. Disponível em http://www.igt.psc.br
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Como um desdobramento inicial, vale lembrar que a Fenomenologia é um método
de investigação, utilizada pelos gestalt-terapeutas, que busca a compreensão
baseada no que é óbvio ou revelado pela situação, incluindo tanto o paciente quanto
seu ambiente. Não é, portanto, uma mera interpretação do observador. Trabalha
entrando na situação experiencialmente e permitindo que o paciente viva momentos
de awareness, isto é, momentos de plenitude, de contemplação do que é relatado
por ele.
Vários são os conceitos dentro da Fenomenologia que contribuem para um melhor
entendimento do tema proposto. Contudo, pensar na descrição do que seria o
fenômeno, propriamente dito, embasa de forma muito positiva a construção das
reflexões posteriores.
A palavra fenômeno vem do grego, phainomenon, isto é, o que aparece, tudo o que
é percebido, que aparece aos sentidos e à consciência quando se entra em contato
com a realidade. É a manifestação de algo que é sempre novo. Segundo Rudio
(1998), os fenômenos se encontram na consciência do paciente/cliente à maneira
como este percebe e sente a sua realidade. Ou ainda, como se fosse uma
“apreensão imediata”, incluindo as significações e avaliações que são atribuídas
naturalmente pelo indivíduo que vivencia determinada experiência. É uma espécie
de tradução vivencial que as pessoas fazem dos fatos. Rudio (1998) ainda
complementa afirmando que “conhecer e compreender o mundo interior do cliente é
conhecer e compreender os fenômenos que povoam a sua consciência tal como ele
os conhece, compreende e sente” (p. 130).
É a partir deste conceito que pretendo desenvolver o tema principal, a fim de
começar a compreender o mundo dos pacientes através da sua ótica, da forma
específica e particular como eles compreendem.
Com base nesse enfoque e nessa descrição, poderemos nos cercar de
conhecimentos que facilitarão e abrirão novos caminhos para uma compreensão
mais detalhada dessa postura diferenciada, pois é por meio dela que acredito
encontrar uma forma de proporcionar aos pacientes momentos mais dignos de se
viver uma vida que chega ao fim.
PERCURSO TEÓRICO
A Atitude Fenomenológica Diante da Proximidade da Morte
Ao refletir sobre o contexto vivenciado pelos pacientes quando se encontram em um
estágio avançado de suas doenças, penso, quase que simultaneamente, numa
prática em busca de uma atitude fenomenológica diante do morrer. Sobre atitude
fenomenológica entende-se uma postura diferenciada, singular, que possibilite a
equipe assistencial trabalhar com qualidade e proporcionar momentos de dignidade
e paz para o paciente que aguarda o seu momento final.
Com base nos estudos realizados, nas revisões bibliográficas, muitos são os autores
que podem contribuir para a compreensão das vivências desse tipo de paciente.
Segundo Kübler-Ross (2002),
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“Eles ficam à espera das visitas dos médicos, ou do resultado de uma
radiografia, ou da enfermeira que vem trazer a medicação, e seus dias e
noites parecem monótonos e intermináveis. E então surge, dentre outros,
aqueles que lhes permitirão falar disso, desvelar-se, contar de si, calar
quando desejar, resignificar para ressurgir. Em meio a esta monotonia que
se arrasta, aparece um visitante interessado que os conforta, que procura
saber as reações, a força, a esperança e as frustrações que têm. Alguém
que não fala com eufemismos, mas vai direto ao assunto, numa linguagem
simples e clara, falando das coisas que povoam a mente deles, coisas que
serão reprimidas de vez em quando, mas vêm sempre à tona” (p. 269).
De acordo com Fonseca (2004), devido ao impacto negativo causado pela referência
“terminal”, e entendendo que todos nós somos terminais, atualmente há uma
corrente de profissionais substituindo este termo pela expressão “fora de
possibilidades terapêuticas”. Ainda assim, não se configura numa terminologia
apropriada, uma vez que se pode considerar terapêutica, toda e qualquer atitude em
prol de uma morte digna. Uma terceira possibilidade que tem sido utilizada é
“doença em estágio avançado”, porém o mais recente termo tem sido “fora de
possibilidades de cura”. Ao longo do estudo, entretanto, ainda faremos algumas
referências a estas terminologias e seus significados.
O paciente fora de possibilidades de cura tem necessidades muito especiais e que
podem ser atendidas se a equipe assistencial tiver tempo para ouvir e descobrir
quais são. Uma postura fenomenológica, por se pautar em pressupostos
fundamentados na filosofia existencial e na fenomenologia propriamente dita, se dá
através do diálogo, de uma relação que se constrói e que se estabelece entre a
equipe e o paciente. Tal como descreveu Buber (1979, apud Cardoso, 2002), o
diálogo existencial pode ser entendido como aquele que compreende a relação EuTu. Ou seja, como ressalta Yontef (1998), é o encontro caracterizado pela presença
genuína do Eu e do Tu que nele se revelam.
Cardoso (2002) ainda nos ajuda a entender a escuta fenomenológica como uma
escuta cuidadosa, instigante, esclarecedora e descontaminada por parte do gestaltterapeuta. A partir da qual se estabelecerá a relação dialógica fundamental para o
desenvolvimento do processo de compreensão e aceitação do adoecimento pelo
paciente. Contudo, o mais importante, talvez, seja deixá-lo perceber que estamos
prontos e dispostos a partilhar algumas de suas preocupações.
O atendimento psicológico a esses pacientes é realizado no próprio leito buscando
oferecer conforto e tranqüilidade, e quando suas condições físicas permitem,
estabelece-se um diálogo por meio do qual a relação de contato vai se fazendo, refazendo, em suas múltiplas facetas. É como descreve Kübler-Ross (2002) diante da
situação de encontro:
“Para os pacientes que não tem um problema único e simples para resolver,
é útil a terapia de curta duração, que não requer necessariamente a
intervenção de um psiquiatra, mas de uma pessoa compreensiva, que
disponha de tempo para se sentar e ouvir. As sessões são irregulares na
freqüência e na duração. São programadas individualmente, dependendo
do estado físico do paciente, da capacidade e da disposição de falar num
determinado momento. Geralmente, incluem visitas curtas, de poucos
minutos, para certificá-los de nossa presença, mesmo nas ocasiões em que
não desejam conversar” (p. 279).
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Percebo que o trabalho com o paciente fora de possibilidades de cura requer uma
certa maturidade que só vem com a experiência. Não digo apenas do aspecto
teórico e técnico envolvido, mas também da extrema necessidade de zelarmos pela
nossa própria organização emocional. É importante mantermos um nível de
equilíbrio emocional interno que nos permita atuar de forma ética e verdadeira.
Devemos examinar, sempre e detalhadamente, a nossa posição diante da morte e
do morrer, antes de nos disponibilizarmos de forma tranqüila e sem ansiedade ao
lado de um paciente que se encontra sem chances reais de cura.
Saber escutar, segundo Romero (1999) é “deixar que o outro se expresse
colocando-nos numa atitude de receptividade cordial; significa também saber omitirse para não interferir na livre fluência da outra pessoa” (p. 55). E para que essa
escuta diferenciada seja possível e se concretize como a matéria-prima da relação a
ser estabelecida é preciso estar muito atento a um conceito importante dentro da
Fenomenologia, que é a Redução Fenomenológica.
Edmund Husserl, como seguidor e aluno de Franz Brentano, citado por Massimi
(2000), propõe, ao falar desse conceito, uma ausência de pressupostos pessoais ou
pré-concepções acerca da realidade. Ou seja, para o pensamento se libertar dos
pré-conceitos, dos juízos pré-concebidos, temos que olhar para as próprias coisas e
para os problemas e se deixar desafiar por eles, deixar-se desafiar pela realidade.
Para ficar mais claro, Husserl, citado ainda por Massimi (2000), ressalta suas idéias
acerca da atitude de olhar para as coisas; que uma pura experiência significa se
manter livre de todos os preconceitos que, sendo originados não pelas esferas da
experiência, podem nos tornar cegos diante do que a reflexão fenomenológica
propõe. Para que essa proposta se concretize, Husserl define como caminho, a
redução fenomenológica da qual estamos falando.
A redução ou epoché se caracteriza como uma atitude de colocar entre parênteses
qualquer história anterior que possa interferir na autenticidade do encontro. Isso não
quer dizer que ela esteja errada, mas não se pode deixar determinar por ela, antes
de termos feito e vivenciado uma experiência direta do próprio fenômeno. É sair de
uma realidade mundana sem usar a razão de uma forma adequada, como os
Positivistas faziam, para olhar, de fato, a experiência que está sendo relatada.
Segundo Yontef (1998), a redução fenomenológica é essencial para que se escute
genuinamente o paciente. Ela integra tanto o comportamento observado quanto os
relatos pessoais e experienciais, objetivando uma descrição detalhada e cada vez
mais clara do que realmente é, não enfatizando o que foi ou poderia ter sido sobre o
que é relevante.
Se a intenção proposta pela Fenomenologia é chegar à essência dos fenômenos
trazidos pelos pacientes fora de possibilidades de cura, Rudio (1998) ainda contribui
afirmando que:
“Para que se possa ir diretamente às coisas, mas de uma forma sistemática,
a Fenomenologia utiliza um método - o método fenomenológico - que é
regido por dois princípios: o primeiro determina que se apreenda
intuitivamente a essência do fenômeno. O segundo estabelece que, para
intuir a essência, torna-se necessário a libertação de qualquer interferência
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alheia ao fenômeno que possa desviar a atenção do ato de observá-lo” (p.
139).
Essa redução acontece de forma a jogar luz no fenômeno trazido para que ele
apareça genuinamente para a pessoa. E dessa forma, permitir que ela comece a se
reconhecer, como sujeito, na sua própria experiência, no seu próprio adoecimento. E
ainda, que ela viva momentos de awareness, isto é, um momento integrativo, pleno
com ela mesma. Que ela busque o contato vigilante com o elemento mais
importante no seu campo vivencial num determinado momento, com total suporte.
Hycner (1997) aprofunda nossos conhecimentos lembrando que os pacientes
querem ser ouvidos não apenas em suas palavras, mas naquilo que não estão
dizendo. Precisam ser ouvidos além do nível literal, do que é dito. Querem ser
encontrados em um nível mais profundo. Isso não poderá acontecer se minha
própria perspectiva ocupar muito do espaço psicológico entre nós, ou se ela for
exposta em detrimento da experiência do outro. Não devemos manter contato com a
experiência do paciente e procurar sentí-la, se estivermos presos a nossa própria
experiência. Por isso, suspender, mesmo que temporariamente as pressuposições
pessoais aumenta a possibilidade de estar mais disponível para os pacientes num
nível mais profundo.
Fica claro perceber que, uma vez colocado entre parênteses toda e qualquer idéia
pré-concebida a respeito do mundo, deparamo-nos com a possibilidade de vivenciar
um novo tipo de relação com o paciente. Uma relação pautada no diálogo autêntico,
na presença genuína. Uma relação que pode ser denominada dialógica. Martin
Buber foi o grande filósofo precursor dessa idéia. Ele construiu toda sua obra em
torno do encontro dialógico.
Yontef (1998) define o diálogo como um “conversar juntos”. Um diálogo existencial é
o que acontece quando duas pessoas se encontram como pessoas, mesmo sem
palavras; em que cada uma é “impactada por” e “responde ao” outro. O
relacionamento dialógico é uma forma especializada desse contato mútuo. Nesse
contato, a figura de interesse de ambas as partes é a interação com a outra pessoa.
O dialógico acontece entre as pessoas envolvidas e o seu sentido está na interação,
no intervalo de duas palavras.
Zuben (2003) lembra que para que surja o diálogo autêntico é necessário que cada
pessoa veja o outro como ele é. Este ver implica em conhecimento íntimo do fato de
que ele é outro, um outro que não eu, diferente de mim. Reconhecer e administrar
as diferenças são atitudes primordiais.
O relacionamento dialógico pode ser caracterizado como um processo de encontro
que é construído entre duas pessoas e que engloba movimentos de conectar-se e
separar-se. Na Gestalt-Terapia, o movimento de conectar-se se constitui em torno
da tarefa de alcançar a awareness e é moldado pela relação Eu-Tu. Já o movimento
de separação é configurado por uma relação Eu-Isso.
A relação Eu-Tu, descrita por Buber, citada por Hycner (1997),
“É uma atitude de conexão natural. É estar tão plenamente presente quanto
possível com o outro, com pouca finalidade ou objetivos direcionados para
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si mesmo. É uma experiência de apreciar a “alteridade”, a singularidade, a
totalidade do outro, enquanto isso também acontece, simultaneamente, com
a outra pessoa. É uma experiência mútua; é também uma experiência de
valorizar profundamente, estar em relação com a pessoa - é uma
experiência de encontro” (p. 33).
A presença verdadeira diante de um paciente é uma atitude difícil de definir.
Entretanto, sua ausência é facilmente notada. Mais do que uma qualidade, estar
presente genuinamente é uma postura existencial. É trazer tudo de mim para dirigirme, num determinado momento, a uma outra pessoa. Nenhuma outra preocupação
deve ser mais importante.
A outra atitude primária que um ser humano pode assumir em relação a outro, é a
atitude Eu-Isso, que, ao contrário, se dirige a um propósito. Há um objetivo em
mente. O “ser” da pessoa se distancia do outro “ser” e submete-se a este objetivo. E
segundo Hycner (1997), é uma coisificação do outro. Em determinadas ocasiões,
todos precisam fazer isso a fim de atingir uma meta. O autor ainda ressalta que as
duas atitudes são essenciais e a existência humana é caracterizada pela alternância
delas. O modo Eu-Isso é vital e necessário para a sobrevivência e o Eu-Tu para a
realização da condição de pessoa.
A postura fenomenológica é muito baseada na aceitação. Pacientes que aceitam a si
próprios não terão necessidade de julgar ou condenar suas experiências. Na relação
dialógica, a aceitação da equipe assistencial parece abrir a possibilidade de
aceitação do próprio paciente e isso o permite aprofundar seus conhecimentos sobre
seu processo de adoecimento e vivenciar de forma mais natural a proximidade da
morte.
Ultrapassando momentos de contato, de tato, nos deparamos com situações em que
surge o silêncio, o que, muitas vezes, vai muito além das palavras que poderiam ser
ditas. Segundo Kübler-Ross (2002), há um momento na vida do paciente em que a
dor cessa, a mente entra num estado de torpor, a necessidade de alimentação
torna-se mínima e a consciência do meio ambiente quase que desaparece na
escuridão. É o momento em que é tarde demais para palavras. É o momento mais
difícil para os parentes. A equipe assistencial pode ser muito importante se souber
entender que o sofrimento é algo vivenciado de forma única e muito pessoal para
cada uma das pessoas envolvidas e ligadas a esse contexto. E por isso o respeito
ocupa um lugar extremamente importante nesse momento.
Kübler-Ross (2002) descreve muito bem o tipo de reflexão que merece ser feita por
aqueles que vivenciam, cotidianamente, momentos finais de pacientes fora de
possibilidades de cura:
“Aqueles que tiverem a força e o amor para ficar ao lado de um paciente
moribundo, com o silêncio que vai além das palavras, saberão que tal
momento não é assustador nem doloroso, mas um cessar em paz do
funcionamento do corpo. Ser terapeuta de um paciente que agoniza é nos
conscientizar da singularidade de cada indivíduo neste oceano imenso da
humanidade. É uma tomada de consciência de nossa finitude, de nosso
limitado período de vida. Poucos dentre nós vivem além dos setenta anos;
ainda assim, neste curto espaço de tempo, muitos dentre nós criam e vivem
Revista IGT na Rede, v. 4, n° 6, 2007, p.92-113. Disponível em http://www.igt.psc.br
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uma biografia única, e nós mesmos tecemos a trama da história humana”
(p. 282).
Certamente a postura fenomenológica descrita até então merece ser aprofundada e
construída, dia-a-dia, ao longo de experiências vividas, por todo sistema terapêutico.
O Contexto Vivenciado pelo Paciente Fora de Possibilidade de Cura
De fato, o termo “fora de possibilidades de cura” é o mais recente e o que tem sido
realmente mais utilizado pela comunidade científica atual. Porém, é necessário que
levemos em consideração os estudos que foram realizados antes dessa terminologia
se concretizar.
Segundo Kovács (2003),
“O conceito de paciente terminal é historicamente relacionado com o século
XX, por causa da alteração na trajetória de doenças que, no passado, eram
fulminantes; observa-se sua cronificação, graças ao desenvolvimento da
medicina, da cirurgia e da farmacologia. Muitas ainda não têm cura, como
alguns tipos de câncer, aids e moléstias degenerativas, o que faz com que
alguns pacientes vivam anos com necessidades de cuidados constantes” (p.
107).
Rolland (1995, apud Fonseca, 2004), relata que o termo terminal refere-se à fase em
que a inevitabilidade da morte torna-se evidente e domina a vida familiar,
abrangendo os períodos de luto e resolução da perda, onde predominam questões
que envolvem separação, morte, tristeza, elaboração do luto e retomada da vida.
Segundo Gutierrez (2001), a terminalidade de um paciente é detectada quando se
esgotam as possibilidades de resgate das suas condições de saúde e a
possibilidade de morte próxima parece inevitável e previsível. O paciente se torna
irrecuperável e caminha para a morte, sem que se consiga reverter este percurso.
Um paciente é terminal em um contexto particular de possibilidades reais e de
posições pessoais, sejam de seu médico, sua família e suas próprias. Esta
colocação implica em reconhecer esta definição, situada além da biologia, inserida
em um processo cultural e subjetivo, ou seja, humano.
Kovács (1991, apud Amaral, 2005), afirma que “paciente terminal” ou “fora de
possibilidades terapêuticas” são rótulos dados a pacientes com doenças as quais
não vislumbram nenhuma possibilidade de cura. São as doenças progressivas como
o câncer, a aids e as doenças neurológicas degenerativas. O tratamento desses
pacientes não implica mais em cura, e sim no alívio de sintomas e na preservação
da dignidade.
Baron (1996, apud Fonseca, 2004), contribui apontando alguns critérios diagnósticos
que indicam a fase terminal: doença causadora de evolução progressiva,
perspectiva de vida não superior a dois meses, ineficácia comprovada dos
tratamentos, ausência de tratamentos alternativos úteis para a cura ou aumento da
sobrevida e complicações irreversíveis finais.
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Segundo Weismann (apud Kovács, 1991), os pacientes nessas condições podem
apresentar vivências de aniquilação e alienação, manifestações da auto-estima
rebaixada, sentimentos de inutilidade e estranhamento. A ansiedade de aniquilação
pode estar relacionada ao medo da morte, da desintegração, da perda de identidade
ou mesmo da sanidade.
Kovács (1991) ainda ressalta que um dos fatores mais comuns em pacientes com
doenças graves é o chamado sofrimento secundário. Muitos pacientes não vêem o
medo da morte como dificuldade maior, e sim, alguns dos seguintes problemas
relatados por eles próprios: separação dos familiares, problemas financeiros,
isolamento, não realização de metas, dependência e vergonha, medo do sofrimento
físico, medo do desconhecido, medo do que pode acontecer com os dependentes e
a inveja de quem tem saúde. Para cada paciente, um dos pontos citados pode se
configurar como o mais difícil de suportar.
Um trabalho muito reconhecido nessa área foi o da enfermeira Cicely Saunders, que
também trabalhava como médica e assistente social na Inglaterra, durante a década
de 1960, quando ocorreu o início do movimento dos hospices. Instituições
destinadas a aliviar o sofrimento ligado a doenças sem prognóstico de cura,
oferecendo às pessoas a possibilidade de morrer em paz, dignamente e com
qualidade de vida. Esse cuidado com os pacientes fora de possibilidades de cura é
realizado através de uma visão holística, com uma equipe multiprofissional,
composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, religiosos,
voluntários e outros profissionais quando necessário.
Segundo Carvalho (2004),
“A palavra hospice significa abrigo, albergue. Sua origem vem da Idade
Média, quando, nas longas peregrinações aos lugares santos, os viajantes
aí encontravam hospedagem, alívio e apoio para os seus males. Cansados
e doentes, os viajantes muitas vezes morriam nos hospices, terminando sua
árdua caminhada nesses albergues” (p. 90).
O movimento hospice, iniciado por Saunders, possui uma estreita relação com a
filosofia dos Cuidados Paliativos, que se preocupa não em promover a cura física,
mas em disseminar a importância de saber cuidar, focado nas necessidades do
binômio paciente-família.
Dessa forma, o termo paliativo configura-se num novo conceito a ser estudado no
que diz respeito ao contexto vivido pelos pacientes fora de possibilidades de cura.
Pessini (2001) revela que esse termo deriva do latim pallium, que significa manta ou
coberta. Assim, quando doenças não podem ser curadas, os sintomas são tapados
ou cobertos com tratamentos específicos. Em inglês, palliate pode ser traduzido
como aliviar, suavizar.
A principal característica desse tipo de cuidado é o desvio do foco principal. Não
havendo mais a possibilidade de cura total, uma vez que a doença já se encontra
numa fase progressiva, irreversível e não responsiva aos tratamentos propostos, o
foco passa a ser prezar, constantemente, pela manutenção da qualidade de vida de
quem espera seu fim.
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Pessini (2001) afirma que é necessário adotar uma postura que nos permita
confirmar a vida e encarar o morrer como um processo normal; não apressar e nem
adiar a morte; procurar aliviar a dor e outros sintomas angustiantes; integrar os
aspectos psicológicos e espirituais nos cuidados do paciente; oferecer um sistema
de apoio para ajudar os pacientes a viverem ativamente tanto quanto possível até a
morte e oferecer um sistema de apoio para ajudar a família a lidar com a doença do
paciente e com o seu próprio luto.
Cuidados Paliativos, segundo Figueiredo (2006), é um conjunto de atos
multiprofissionais que têm por objetivo efetuar o controle dos sintomas do corpo, da
mente, do espírito e do social, que afligem o homem na sua finitude, isto é, quando a
morte dele se aproxima.
Ao falar de cuidados paliativos, simultaneamente pensamos em pacientes fora de
possibilidades de cura e junto a isso, um tema também muito discutido e
extremamente relevante nesse contexto é o conceito da dor. Alguns
questionamentos recorrem à consciência diante desse assunto: que tipo de dor é
essa sentida por esses pacientes? De onde ela vem? Será que ela pode ser
controlada?
Pessini (2001) ressalta que “...a dor tem duas características importantes. A primeira
é que estamos diante de um sofrimento dual: de um lado, a percepção da sensação
e, de outro, a resposta emocional do paciente a ela. A segunda característica é que
a dor pode ser sentida como aguda e passageira, ou crônica e persistente” (p. 288).
Muitos pacientes admitem, ainda, que não tem tanto medo de morrer quanto o de
enfrentarem uma dor terrível.
Carvalho (2004) ressalta que os estágios avançados das doenças freqüentemente
envolvem muitas dores. Nos casos de câncer, por exemplo, as pesquisas revelam
entre 60% e 90% de pacientes com dor intensa. Porém, quando se trata de doentes
gravemente enfermos, nos deparamos com dores muito mais complexas e
profundas, as existenciais, que se referem ao significado da vida e da morte.
Carvalho ainda comenta que Cicely Saunders, na década de 60, na Inglaterra, criou
um conceito interessante, o de dor total. Configurando a presença de um estado
complexo de sentimentos dolorosos no paciente fora de possibilidades de cura.
Seus componentes são: dor física associada a lesões reais; dor psíquica,
relacionada a medos do sofrimento, da morte, do desconhecido, tristeza, raiva e
depressão; dor social, apontando para o isolamento, rejeição, abandono e inutilidade
e a dor espiritual, refletindo a falta de sentido na vida e na morte.
Percebe-se que o contexto em que vive um paciente em fase final de sua vida é
extremamente delicado e permeado de particularidades. Aguiar (2005) nos ajuda a
entender ainda melhor esse contexto quando afirma que esses pacientes, por
exemplo, os portadores de câncer, passam por problemáticas em três esferas:
intrapsíquica (ansiedade, depressão, medo, raiva, revolta, insegurança, perdas);
social (isolamento, estigma, mudança de papéis, perda de controle, perda de
autonomia) e relacionada ao câncer (processo da doença, mutilações, tratamentos,
dor, efeitos colaterais, relação problemática com o médico). Ressalta ainda que, em
maior ou menor grau, ou em diferentes momentos do processo de adoecimento, eles
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podem apresentar um ou vários desses aspectos. Evidenciando, dessa forma, a
importância do apoio psicológico.
Torna-se importante pensar, associado à postura fenomenológica, no contexto que
eles vivenciam, enquanto sujeitos únicos, quando se deparam com a impossibilidade
de cura.
É de fundamental importância que toda a equipe assistencial esteja bastante
familiarizada com os estágios pelos quais esses pacientes passam, lembrando que
podem se intercalar e repetir durante todo o processo da doença. Kübler-Ross
(2002) nos ajuda a compreendê-los ao falar sobre o processo que fica evidenciado
durante as cinco etapas pelas quais passam os paciente com um prognóstico
reservado. Seu estudo permite uma visão real da complexidade vivida pelo paciente
diante da sua terminalidade. Na verdade, terminais, todos nós somos, os pacientes,
no entanto, passam por um processo de morte, de luto, do qual seguem estágios
que antecipam a passagem até seus momentos finais.
Segundo Kübler-Ross (2002), a negação é o estágio mais freqüente no início da
doença. É quando o paciente nega a sua doença e a gravidade do seu estado.
Recusa-se a falar sobre o assunto e tende ao isolamento. A negação funciona como
um amortecedor depois de notícias inesperadas e chocantes, deixando que o
paciente se recupere com o tempo, mobilizando outras medidas menos radicais.
No estágio da raiva, da revolta, o paciente se pergunta: “Por que eu?”, “Por que
comigo?”. Durante esse estágio faz exigências, reclama, critica o seu atendimento e
solicita atenção contínua. Se for respeitado e compreendido, logo cessarão suas
solicitações, pois será assistido sem necessidade de explosões temperamentais.
Ressaltamos a importância de tolerarmos a raiva, racional ou não, do paciente.
Precisamos ouví-lo e até, às vezes, suportar alguma raiva irracional, sabendo que o
alívio proveniente do fato de tê-la externado contribuirá para melhor aceitar as horas
finais.
Na barganha o paciente tenta negociar geralmente com Deus. Quase sempre almeja
um prolongamento de vida ou deseja alguns dias sem dor ou sem males físicos. Faz
promessas. Promessas que geralmente não cumpre.
A depressão aparece quando o paciente não pode mais negar sua doença, quando
é forçado a submeter-se a mais uma cirurgia ou hospitalização, quando começa a
apresentar novos sintomas e tornar-se mais debilitado e mais magro, não podendo
mais esconder a sua realidade. Sua revolta e raiva cederão lugar a um sentimento
de grande perda.
E a aceitação é quando não mais sente depressão e nem raiva. É o momento em
que encontra paz e aceita o que está acontecendo. Os momentos de silêncio são
maiores e seus interesses diminuem. Neste momento é a família que mais precisa
de ajuda e o paciente percebe que se encaminha para o fim.
Tavares (2005) associa esses cinco estágios a algumas emoções que, muitas
vezes, se desvelam durante essa passagem. Na negação, segundo a autora, há o
medo explícito diante do desconhecido e existe um potencial de coragem a ser
desabrochado. Na raiva, há a revolta por não poder voltar o tempo e há a energia
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disponível para a criação de novos caminhos. Na barganha, há a vulnerabilidade
para pedir o que é impossível e também a busca de negociações, afetivas e efetivas.
Na depressão, há a evidência do fracasso e também a possibilidade de um
mergulho interior, orientando novos valores e escolhas. E, por fim, é na aceitação
que se dá o encontro com a gratidão e com a alegria de poder ter vivido uma
história. Para a família, em especial, há a aposta num futuro do que é ainda possível
de se viver.
De posse do conhecimento destes estágios e das emoções associadas, sem dúvida,
torna-se muito mais viável para o profissional que assiste ao paciente, lidar com os
sentimentos que afloram, ajudando-o na compreensão e na transitoriedade dos
mesmos, bem como respeitar cada momento vivido por ele, sem julgá-lo e sem lhe
impor sua perspectiva.
Segundo Gutierrez (2001),
“Admitir que se esgotaram os recursos para o resgate de uma cura e que o
paciente se encaminha para o fim da vida, não significa que não há mais o
que fazer. Ao contrário, abre-se uma ampla gama de condutas que podem
ser oferecidas ao paciente e sua família. Condutas no plano concreto,
visando o alívio da dor, a diminuição do desconforto, mas sobretudo a
possibilidade de situar-se frente ao momento do fim da vida, acompanhado
por alguém que possa ouví-los e sustente seus desejos. Reconhecer,
sempre que possível, seu lugar ativo, sua autonomia, suas escolhas,
permitir-lhe chegar ao momento de morrer, vivo, não antecipando o
momento desta morte a partir do abandono e isolamento” (p. 92).
Lembrando sempre, que a idéia da morte ou sua proximidade deve fazer parte da
vida, como diz o poema de Tagore: “a morte permanece à vida, assim como
pertence o nascimento. O caminhar tanto está em levantar o pé como em pousá-lo
no chão”.
A Humanização do Cuidado
Tendo como base a literatura estudada, pode-se observar que o foco na postura
fenomenológica diante do morrer possui uma estreita relação com o Programa de
Humanização da Saúde, criado pelo Governo Federal.
O projeto-piloto de Humanização Hospitalar foi proposto pelo Comitê Técnico de
Humanização da Assistência Hospitalar em resposta à solicitação do Ministro José
Serra, em 2001, diante do reconhecimento da necessidade de melhorar a qualidade
do atendimento prestado nos Hospitais Públicos que integram o Sistema Único de
Saúde. Segundo as idéias que regem o programa, a experiência cotidiana dos
atendimentos nos serviços de saúde e os resultados de pesquisas de avaliação têm
demonstrado que a qualidade da atenção ao paciente é uma das questões mais
críticas.
A noção de qualidade do trabalho em saúde compõe-se tanto da competência
técnica, quanto da competência para interagir, isto é, para se relacionar. A
experiência mostra que um grande número de queixas e demandas dos usuários
pode ser resolvido, ou pelo menos, bastante minimizado, quando o usuário se sente
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ouvido, compreendido, acolhido, considerado e respeitado pelos profissionais que o
estão atendendo, segundo o Programa Nacional de Humanização da Assistência
Hospitalar (PNHAH, 2001).
O termo usuário pode ser entendido também como paciente, já que se refere a todas
as pessoas que usufruem a assistência de saúde no país. E neste trabalho a
instituição de saúde escolhida é um hospital geral privado.
Uma equipe de saúde é composta pelos profissionais que trabalham diretamente
nas unidades de saúde e não apenas médicos e paramédicos (PNHAH, 2001). O
psicólogo, dessa forma, é considerado um profissional de saúde ativo e responsável
por disseminar as idéias desse programa, bem como capaz de vivenciar, no
encontro com seus pacientes, os benefícios desse projeto.
A fim de contextualizar o psicólogo nas instituições hospitalares, Romano (1999) nos
ajuda a compreender que, dentre outras funções, o psicólogo hospitalar deve ter
uma formação apropriada para tal função e que exerça seu olhar como um clínico,
no sentido mais estrito da palavra, isto é, “à beira do leito”, diretamente voltado ao
paciente. O psicólogo é o profissional especializado para lidar com as questões
emocionais emergentes em todo processo de adoecimento, até mesmo com a
proximidade da morte.
A equipe assistencial é considerada o carro-chefe desse projeto, uma vez que o
trabalho desenvolvido por ela será o de maior evidência nas avaliações de
qualidade, seja técnica, seja relacional. Diante disso, é nítido que o campo para a
psicologia cresce cada vez mais nessa área e ela se insere nesse programa tendo
como uma de suas responsabilidades, a reformulação e a transformação das
relações internas existentes entre os membros da própria equipe assistencial e
destes no contato direto com os pacientes.
Reformular e transformar relações são ações que englobam um conceito muito
importante descrito nesse programa: Humanização.
Segundo o projeto do Ministério da Saúde do Governo Federal (2001),
“Humanizar é aceitar esta necessidade de resgate e articulação dos
aspectos subjetivos indissociáveis dos aspectos físicos e biológicos. Mais
do que isso, humanizar é adotar uma prática em que profissionais e
usuários considerem o conjunto dos aspectos físicos, subjetivos e sociais
que compõem o atendimento à saúde. Humanizar, refere-se, portanto, à
possibilidade de assumir uma postura ética de respeito ao outro, de
acolhimento do desconhecido e de reconhecimento dos limites” (p. 52).
Para Romano (1999), humanizar significa particularizar, atender às circunstâncias e
necessidades individuais. Não se trata apenas da qualidade do serviço, mas de um
algo a mais. Humanização é obrigação, é exigência do consumidor, é revitalização
de preceitos éticos e morais.
O ponto principal do trabalho de humanização está em fortalecer este
comportamento ético de articular o cuidado técnico-científico ao cuidado que
incorpora a necessidade de acolher e compreender o imprevisível, o incontrolável, o
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diferente e singular. Trata-se de um agir inspirado em uma disposição para aceitar e
respeitar o outro como um ser autônomo e digno. É necessário refletir sobre a
postura adotada no atendimento aos pacientes em estado grave, por exemplo,
buscando sempre atuar de forma ética no contato pessoal e no desenvolvimento das
competências relacionais.
Humanização diz respeito à postura, atitudes. Para humanizar é essencial que os
relacionamentos sejam refeitos. O Ministério da Saúde alerta que é preciso rever a
postura com que os profissionais de saúde estão lidando com os usuários ou
pacientes. É direito de todo cidadão receber um atendimento de qualidade.
Um primeiro passo para que seja possível essa transformação é observar que no
processo de habilitação dos profissionais de saúde, deve-se considerar a
fragilização física e emocional provocada pela doença e as suas conseqüências na
relação entre o profissional e o paciente. Sentimentos como afeição, respeito,
simpatia, empatia, angústia, raiva, medo e outros, são inevitáveis em qualquer
contato humano. Estarão, portanto, presentes no sistema terapêutico. Para que haja
profissionalismo e um bom atendimento, esses aspectos precisam ser reconhecidos
e estar disponíveis a serviço da compreensão das necessidades do paciente
(PNHAH, 2001).
Tomando como base um conceito clássico nessa área, a Organização Mundial da
Saúde (OMS, 1947), citada por Pessini (2001), atribui ao termo saúde, o significado
de um completo bem estar físico, mental e social. No entanto, ao pensar numa
prática diante da proposta feita pelo Governo Federal, a busca por essa completude
esbarra em algumas questões complicadoras que merecem atenção para que se
tenha um melhor entendimento. Isto é, o termo “completo”, remete a totalidade,
fechamento, total possibilidade. O que difere da realidade dos dias de hoje, em que
é observada uma dificuldade em proporcionar todo esse bem estar nas esferas
citadas pela OMS.
Essa procura por viver invariavelmente bem todos os aspectos da vida, mesmo no
adoecimento, começa a dar lugar às possibilidades de se viver bem diante das
situações em que pacientes graves se encontram. Ou seja, em se tratando da
proximidade da morte, alcançar esse completo bem-estar físico, psíquico e social
torna-se uma questão comprometida. Dessa forma, um novo termo surge diante
desse embate: a busca pela qualidade de vida, uma prática mais acessível e
possível no contexto de pacientes fora de possibilidades de cura.
Pensando no contexto vivenciado por esses pacientes, neste momento é importante
que se tenha clareza dos estágios e emoções já mencionados para ajudá-los a
superar momentos de angústia e tristeza, e não tomar para si o que pode ser
bastante incômodo. É importante também conhecer os problemas biopsicossociais
implicados no processo do adoecer e do morrer, para contribuir na busca de um
sentimento de bem-estar ao final da vida. Não desistir do tratamento do paciente é
fundamental. O paciente pode desistir, mas os profissionais de saúde não. Quando o
paciente se sente abandonado à própria sorte, sem assistência, ele se entrega e
desiste também, antecipando sua própria morte. Para o paciente é reconfortante
sentir que não foi esquecido mesmo quando nenhuma realidade de cura física pode
ser alcançada. É gratificante inclusive para quem o acompanha, pois isto vem
mostrar que a morte não é uma coisa horrível, que tantos querem evitar.
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Kovács (1998) nos mostra que aqueles profissionais que se dispõem a trabalhar
com programas de cuidados paliativos, deverão ter sempre como seu objetivo a
minimização de sintomas incapacitantes, a promoção de uma boa qualidade de vida
e não um prolongamento da vida a todo custo.
A prioridade tem sido, então, a busca por uma qualidade de vida tanto para o
paciente como para seus familiares, atribuindo valor fundamental ao controle da dor
e ao contato com outros sintomas psicológicos, sociais e espirituais. Ao buscar o
significado do termo qualidade de vida, Fonseca (1994) nos lembra que diz respeito
a algo que tem sido muito discutido nos dias atuais pois há que se avaliar o que ele
significa no contexto de cada pessoa, de acordo com suas concepções sobre o
assunto e não de acordo com aquilo que nós, observadores e cuidadores,
consideramos que possa ser bom para o outro.
Um outro ponto de vista complementar é o de Kovács (1998), quando ela afirma que
qualidade de vida relaciona-se a fatores físicos, psíquicos, sociais e espirituais,
tendo cada uma destas dimensões, um valor e peso diferentes para cada pessoa.
Estar atento ao processo da doença e do adoecer em toda sua complexidade exige
muito mais do que um aprendizado acadêmico, exige um dever ético e humano de
todos que cuidam daqueles que carecem da nossa assistência.
Kübler-Ross (2002) ainda aponta para a importância de se acompanhar o paciente,
perceber suas necessidades e detectar o sentimento presente em cada momento,
promovendo um processo de escuta ativa.
A partir da minha vivência no hospital, alguns relatos mostram-se bastante
interessantes, permitindo algumas reflexões. Muitos pacientes relatam sentirem-se
mais acolhidos ao se depararem com essa postura diferenciada, a postura
fenomenológica. Eles dizem: “é tão bom quando você senta aqui perto de mim e me
olha dessa forma, só querendo ajudar. Às vezes eu nem falo nada e você fica
presente aqui como se estivéssemos conversando sobre tudo”. Outros ainda falam:
“minha família não me escuta assim, desse jeito todo especial. Sinto que posso falar
sobre o que quiser quando vem aqui”. Muitos deles também solicitam a nossa
presença por sentirem que podem contar com alguém, que podem contar suas
histórias e confidências a alguém em quem aprenderam a confiar, acreditando no
encontro verdadeiro e sem julgamentos. “Se você puder, você volta mais vezes? Me
faz tão bem quando converso com você! Quando você vai embora, sinto-me mais
leve, mais tranqüilo para enfrentar o dia”. Pedem o suporte à família e amigos no
momento que sentem não poderem mais fazer esse papel. Diante dessa postura,
eles vêem a equipe assistencial como colaboradora no momento do seu sofrimento.
Muitos pacientes vêem a equipe assistencial como suporte de suas angústias e se
entregam, literalmente, aos seus cuidados. Muitas vezes já escutei um paciente
falando para uma técnica de enfermagem em meio aos cuidados básicos num dia
normal de internação: “Você me conhece mais que minha própria família. Não tenho
como agradecer tudo o que você faz por mim e todo o carinho que você me dá. Que
bom que eu tenho você aqui por perto, fico mais seguro”. Pura e simplesmente pela
forma carinhosa e acolhedora com que essa técnica de enfermagem aplicava-lhe a
medicação.
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Quando o paciente sente-se capaz e quer estabelecer um vínculo com o psicólogo,
o trabalho pode se desdobrar com mais produtividade. O fato de tomar consciência
da finitude da vida, muitas vezes, traz reflexões importantes que até permitem
encerrar questões pendentes há anos. E o psicólogo, através da atitude que este
adota diante do atendimento, é um dos profissionais que pode ajudar o paciente a
alcançar essa consciência de que a vida é mesmo marcante para todos. Nesses
casos são as vivências do paciente que interessam ao processo. Elas são evocadas
para serem re-experienciadas e progressivamente compreendidas, a fim de que
possam ter insights que os permitam alcançar a descoberta de novos significados
para essa experiência. Dessa forma, mudado o significado, muda a percepção, e
mudada a percepção, muda o modo do paciente sentir a realidade e de se
comportar diante dela.
A postura adotada deve ser, então, de redução e escuta fenomenológica. Olhar para
o paciente e dar conta do que ele realmente é, e do momento pelo qual está
passando. Essa escuta que é mencionada se faz presente também como um
componente essencial e insubstituível no atendimento a esses pacientes. Ela se
configura no reconhecimento e na valorização dos elementos e dos significados
presente na fala do paciente, desprovida de preconceitos por parte do psicólogo. É
necessário, portanto, aceitar o que está sendo revelado, sem medos,
desqualificações, ou qualquer outra variável que possa interferir no momento em
que o paciente se desvela.
A qualidade da presença, estar aberto ao ser do outro, a disponibilidade, o interesse,
o acolhimento e o respeito às escolhas que podem ser diferentes fazem parte de
uma postura fenomenológica que, certamente, contribui para o crescimento que
estes pacientes relatam experimentar quando escutados dessa forma singular.
Muitos deles vivenciam o auge de sua plenitude num momento tão delicado,
mas nem por isso, restritos a reflexões e aprendizagens. Viver bem consigo mesmo,
nos últimos dias de vida, torna-se algo digno e de direito de quem está para morrer a
qualquer momento. É dever da equipe assistencial prezar pelo ambiente harmônico
e assistir às necessidades mais básicas e particulares dos pacientes de forma
atenciosa e pessoal. Assim como é dever do psicólogo, enquanto membro ativo da
equipe assistencial, proporcionar momentos de privacidade e abertura ao ser do
outro, em que o paciente se sinta livre e à vontade para ser autêntico, procurando
buscar sempre a conscientização interna do momento vivido e o bem-estar
emocional.
Através dessa postura fenomenológica, de escuta, presença, aceitação do outro
como se mostra, acredito poder contribuir, no atendimento a pacientes fora de
possibilidades de cura, para que estes se reconheçam cada vez mais nas
experiências relatadas, a fim de proporcionar um momento menos sofrido nessa
fase tão delicada e marcante de suas vidas. Entendendo, sempre, que dessa forma,
estarei mostrando e eles como sua singularidade é especial e importante no
decorrer do nosso encontro.
REFLEXÕES FINAIS
Podemos perceber, a partir dessa revisão, que a maneira com que a equipe
assistencial se relaciona com os pacientes fora de possibilidades de cura, assim
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como as reações emocionais despertadas por essa relação, estão intimamente
ligadas a aspectos pessoais e à formação profissional de cada um.
Como foi possível observar, a forma como a morte e o processo de morrer são
percebidos e enfrentados por cada profissional é peça fundamental para definir o
tipo de postura a ser adotada no contato com esses pacientes que se encontram
num estado final de suas vidas.
Lidar com a proximidade da morte não é uma das tarefas mais simples. É preciso
maturidade, conhecimento, tato, sensibilidade. E ainda mais, é necessário estar
preparado emocionalmente para enfrentar o sofrimento intenso de um outro. Tendo
em vista todo o contexto peculiar que vive um paciente sem chances de cura, é
essencial que todo sistema terapêutico concentre atenções em proporcionar
momentos repletos de cuidados especiais e marcados por uma presença verdadeira,
genuína.
A filosofia dos cuidados paliativos aponta uma maneira particularizada de assistir
aos pacientes fora de possibilidades de cura, através do conceito do “cuidar”. Cuidar
não significa apenas prestar assistência, no sentido físico. A expressão busca
ampliar a idéia dessa ação, levando em consideração os outros aspectos que
integram o bem-estar dos pacientes. Isto é, o estado emocional, psíquico, espiritual,
e também as necessidades que, por ventura, apareçam no contexto de internação,
tendo em vista a proximidade da morte.
A Fenomenologia contribui, com seu vasto arcabouço teórico, para que
compreendamos melhor de que forma esse cuidado especial pode se configurar
num benefício a ser usufruído por todo o sistema terapêutico.
Ao se propor uma presença genuína diante daqueles que estão internados e
distantes da possibilidade de cura, não podemos esquecer que essa forma de estar
presente configura-se numa postura fenomenológica pautada na redução, ou
epoché. Ou seja, é preciso estar, de fato, ao lado desse paciente. Perto de suas
necessidades. É preciso que haja uma interligação das relações. E para que isso
aconteça, nossos juízos e pré-concepções devem ser colocados de lado diante da
presença e da fala do outro.
Rubem Alves (1999) se aproxima muito do conceito de redução fenomenológica ao
afirmar que “não basta ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que
haja silêncio dentro da alma” (p. 65). Aí surge a dificuldade: nós normalmente não
conseguimos ouvir o que o outro nos diz sem logo dar um palpite melhor, sem
misturar o que ele diz com aquilo que nós temos a dizer. Como se aquilo que um
outro diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser
complementado por aquilo que nós temos a dizer, julgando ser muito melhor.
Não é uma postura fácil a ser construída. Pelo contrário, praticar a redução
fenomenológica requer, principalmente, um entendimento dos propósitos que se
quer alcançar com essa atitude. É um exercício diário de entender o outro como um
ser diferente, com pensamentos, sentimentos, expectativas e uma forma própria de
viver. E a partir desse entendimento, procurar se colocar da forma mais aberta e
disponível possível para que o paciente se sinta tranqüilo e à vontade para se
desvelar, quando quiser e da forma que quiser.
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A relação que se estabelece é um ponto importantíssimo a se pensar diante desse
contexto designado como um final de vida. Além de configurar uma situação de
extrema fragilidade e muito marcante, a relação paciente e equipe assistencial deve
ser cuidada de forma a preservar o “entre”, a interação propriamente dita. A
qualidade dessa relação vai determinar pontos positivos para ambas as partes. Se,
por um lado, buscamos uma maior serenidade para que esses pacientes enfrentem
seus momentos finais, por outro, esses momentos de encontro nos mostra quão
frágeis somos diante da vida, e a importância de pensarmos na morte como parte
fundamental da nossa existência. E por isso, a relação dialógica é de extrema
importância, configurando-se numa relação de troca.
Para que proporcionemos momentos de paz aos pacientes a fim de que eles
vivenciem seus últimos dias de uma maneira menos sofrida, há que se considerar
todo o contexto que se faz presente nesses encontros. Delicado, incerto, cheio de
dor, frágil, duvidoso e carregado de sofrimento emocional. Geralmente esse é o
contexto principal em que se encontram os pacientes fora de possibilidades de cura
e suas famílias.
Nossa educação para a morte é ainda um tabu nos dias atuais. Por isso, é natural
que as famílias, os pacientes e toda a equipe assistencial sintam-se perdidos,
esquecidos ou até mesmo confusos nesse momento. Não sabendo como agir,
muitas vezes são tomados por sentimentos de profunda tristeza e abandono. Já
observei, na minha prática, como reagem determinados técnicos de enfermagem
quando cuidam de pacientes fora de possibilidades de cura. Muitos deles, entram
nos quartos e cumprem com a rotina de forma rápida e sem criar vínculos afetivos.
Acredito que esse tipo de conduta retrate muito bem a dificuldade de lidar com a
proximidade da morte de um outro. Acabam passando uma imagem de não
envolvimento para evitar o sofrimento, caracterizando um contato frio.
É nesse contexto que proponho refletirmos sobre a postura fenomenológica. Entrar
em contato direto com o paciente é viver, ao invés de falar sobre a vida. É fazer e
experienciar, ao invés de analisar o conteúdo que ele traz. É ter uma experiência
com o paciente, no presente, no momento crítico pelo qual ele passa. O principal é
deixar emergir todo e qualquer fenômeno resultante do encontro mútuo entre quem
cuida e quem é cuidado.
Abordar o paciente com carinho, de forma direta, aberta e atenciosa. Oferecer uma
atenção verdadeira é uma qualidade de poucos, e quando alcançada, vai
diretamente ao encontro da pessoa do paciente, como pessoa. É mais que uma
atitude diretiva, é estar com ele da forma dele, entendendo suas aflições e
compartilhando suas experiências. A presença genuína implica em promover o
encontro de forma a permitir que o paciente traga o que há de mais íntimo seu, a
plenitude.
Humanizar o cuidado é tarefa obrigatória de cada um, e tem um significado amplo.
Além de preocupar-se em vivenciar junto ao paciente suas dores e anseios, tem
como prioridade zelar para que ele experimente um atendimento de qualidade
técnica, sem deixar de lado, obviamente, o aspecto emocional interligado. O
psicólogo, nesse sentido, também contribui cuidando das relações que são
estabelecidas entre os membros da equipe de saúde e destes com os pacientes.
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Todos devem ter a chance de usufruir uma singular e especial forma de lidar com o
outro e com o contexto delicado no qual esses pacientes se encontram. Humanizar
envolve um processo de conscientização da necessidade de transformar as relações
de contato internas do sistema terapêutico.
Diante deste estudo, acredito ter agregado conhecimentos aos profissionais de
saúde no que diz respeito ao entendimento da necessidade de uma abordagem
mais diferenciada no tratamento dos pacientes fora de possibilidades de cura. Tendo
em vista o objetivo de proporcionar momentos de maior interação, contato interior,
awareness e serenidade diante da morte.
Na minha experiência como psicóloga de um hospital geral, a busca por aperfeiçoar
essa postura fenomenológica diante dos pacientes tem sido tarefa diária e de grande
responsabilidade. Tenho observado que, ao abordar os pacientes com essa atitude
diferenciada, proporciono mais qualidade de vida e um encontro mais pessoal,
priorizando o bem-estar deles, segundo seus próprios relatos. São momentos mais
profundos e verdadeiros. A morte chega, muitas vezes, num ambiente tranqüilo e
consciente. Sem esquecer que é uma tarefa interligada com a rotina da equipe
assistencial. Não adianta somente o psicólogo estar disponível a essa nova
conscientização, mas a equipe também deve estar integrada nesse projeto de
mudança.
Seria interessante, ainda, como um trabalho posterior, a realização de pesquisas
com pacientes, familiares e equipe responsável, com objetivo de conhecer melhor as
vivências dos momentos finais de um ser humano sob os três olhares específicos e
de que forma podemos contribuir, efetivamente, para a conscientização da
importância de pensar a morte como parte fundamental da vida.
Além de confirmar a importância da atitude fenomenológica diante do morrer,
procurar ir à campo para, de fato, observar e buscar dados mais concretos a
respeito de como a morte é entendida e vivenciada por cada um, de forma única e
pessoal. Promover encontros de discussão a respeito do tema para levantarmos as
maiores dificuldades para o enfrentamento da morte nos dias atuais. E abrir espaços
para disseminar nas instituições hospitalares novos conceitos sobre a proximidade
da morte, seus cuidados e cuidadores. Além de pensar em articular projetos internos
voltados para uma educação sobre a morte no contexto hospitalar de quem cuida
desses pacientes. Dessa maneira, seria de grande valia o desenvolvimento de
publicações referentes a esse tema visando trabalhos futuros.
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