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Cuidados farmacêuticos: Instigante fronteira profissional

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Cuidados farmacêuticos: Instigante fronteira profissional
Cuidados
farmacêuticos:
uma instigante fronteira profissional
OS CUIDADOS FARMACÊUTICOS, abordados em
toda a sua amplitude, complexidade e ressaltados os
seus inquestionáveis benefícios, é parte fundamental de
uma proposta sanitarista que defende a inclusão desta
prática, no SUS (Sistema Único de Saúde), já.
Pelo jornalista Aloísio Brandão,
Editor desta revista
([email protected]).
Pharmacia Brasileira nº 83 - Setembro/Outubro/Novembro 2011
5
m Decreto Presidencial regulamentando a reestruturação do SUS (Sistema Único de Saúde) e que prevê a implantação, no Sistema, do modelo
denominado Redes de Atenção à Saúde (RAS), está gerando a expectativa de que, na esteira das mudanças, o SUS incorpore, também, mais serviços farmacêuticos. Inclusive no campo da farmácia clínica, onde estão os
conhecimentos e práticas dos mais complexos do âmbito profissional. A
reestruturação do Sistema está contida no Decreto 7508, de 28 de junho
de 2011. Ele regulamenta a Lei 8080/90, que dispõe sobre a organização
do SUS, o planejamento da assistência à saúde e sobre a articulação interfederativa do Sistema. O Decreto é inspirado no livro (homônimo) “As
Redes de Atenção à Saúde”, do professor Eugênio Vilaça Mendes, lançado
pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais. Ao tratar das Redes, o livro
prevê – e este é o motivo da expectativa -, como condição sine qua non
para o sucesso da reestruturação, a instituição, no SUS, da farmácia clínica.
Professor Eugênio Vilaça propôs, em livro,
modelo denominado Redes de Atenção à Saúde
Mineiro de Pará de Minas, dentista, consultor em saúde, Eugênio Vilaça é especialista em Planejamento de
Ações de Saúde pela Escola Nacional
de Saúde da Fiocruz. Doutor em Odontologia, foi professor das Faculdades de
Odontologia e Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
fundador do Curso de Odontologia
da Pontifícia Universidade Católica de
Minas (PUC/Minas), de que foi Diretor.
Na década de 1980, Vilaça participou
de movimentos que culminaram em
avanços na saúde. Foi um dos respon6
sáveis pela criação e implementação da
Reforma Sanitária Brasileira. Integrou o
grupo de sanitaristas que alinhavou o
Sistema Único de Saúde.
Em seu livro, Vilaça propõe um
novo modelo para o SUS e destaca a
fundamental importância do cuidado
farmacêutico no Sistema. Lembra que
o SUS é fruto da proposta “generosa” de
uma política pública que se construiu
e se institucionalizou, a partir de um
amplo debate na sociedade brasileira,
estimulado pelo movimento sanitário
e acolhido na Constituição Federal de
Pharmacia Brasileira nº 83 - Setembro/Outubro/Novembro 2011
1988. “É um experimento social que
está dando certo e seus avanços são
inquestionáveis, mas enfrenta enormes
desafios, e tem de superá-los”.
Enfatiza o autor que, nos últimos
anos, a agenda do Sistema Único de
Saúde tem sido “constrangida e empobrecida” por uma fixação desproporcional na questão do volume de financiamento. “É certo que o SUS opera
com um significativo subfinanciamento e que necessita de mais recursos
financeiros. Porém, como se constata
crescentemente, em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o simples
incremento dos recursos financeiros,
isoladamente, não contribui para a resolução da crise contemporânea dos
sistemas de atenção à saúde. Recursos
adicionais para fazer mais do mesmo
significa jogar dinheiro fora”.
Maior sistema público de saúde
do mundo, o SUS apresenta números
gigantescos. Por ano, são 11 milhões
de internações hospitalares, 2,3 bilhões
de procedimentos ambulatoriais, mais
de 600 milhões de consultas médicas,
mais de 400 milhões de exames de laboratórios e 150 milhões de vacinas.
É certo que há o que comemorar.
Mas, de acordo com Eugênio Vilaça, há
desafios a superar, como a segmentação do sistema, com a convivência de
um sistema público e de dois privados
(sistema de saúde suplementar e o de
pagamento direto do bolso das pessoas e das famílias); a fragmentação
do sistema, que leva a um modelo em
que os diferentes pontos de atenção
à saúde não se comunicam sob a coordenação da APS (Atenção Primária
à Saúde), “sendo reativo, descontínuo
e focado no cuidado de condições
e eventos agudos”. Cita, também, o
subfinanciamento como um desafio
que tem que ser encarado. “Em síntese,
pode-se afirmar que o SUS não é um
problema sem solução, mas uma solução com problemas”, pondera.
No livro que inspirou o Decreto
7508, que regulamenta a Lei 8080/90
(a Lei dispõe sobre a organização do
SUS, o planejamento da assistência à
saúde e sobre a articulação interfederativa do Sistema), o professor Eugênio
Vilaça afirma que o sistema de assistência farmacêutica é fundamental na
sustentação da organização das Redes
propostas por ele.
No capítulo destinado ao tema,
ele enfatiza a importância da farmácia
clínica nas Redes, por entender que
qualquer modelo que venha a ser agregado ao SUS, a exemplo das RAS, não
traria respostas positivas, dos pontos
de vista econômico e sanitário, se não
contemplasse a organização do sistema de assistência farmacêutica, “como
um de seus sistemas transversais de
apoio”.
DISTRIBUIÇÃO DE MEDICAMENTOS NÃO PODE PRESCINDIR
DOS SERVIÇOS FARMACÊUTICOS A importância dos medicamentos na
atenção à saúde, observa Vilaça, é crescente, sob todos os aspectos. Mas a
importância parece sofrer uma barreira absurda na má gestão e no equívoco
do pensamento gestor, que entende
que a distribuição de medicamentos
pode prescindir dos serviços farmacêuticos. A ausência desses serviços
pode desencadear problemas de várias
naturezas, como prejuízos à saúde dos
cidadãos e ao Município devido aos
desperdícios de dinheiro. Um problema universal, diga-se de passagem.
Daí, Vilaça justificar a necessidade de organização do sistema de assistência farmacêutica – e, nele, incluída a
prática da farmácia clínica -, citando os
prejuízos inclementes causados à saúde de várias populações e, também,
aos cofres públicos e privados, decorrentes de problemas relacionados ao
uso dos medicamentos.
OS EXEMPLOS - A realidade europeia não foge do campo de observação do dentista que propõe o modelo
de redes de assistência, significando
que problemas com medicamentos
atingem países do Primeiro ao Terceiro
Mundos. Na Europa, segundo estudo
citado pelo professor, entre 4% a 34%
das pessoas maiores de 65 anos de
idade utilizam cinco ou mais medicamentos (JUNIUS-WALKER et al., 2007),
sem, contudo, se saber muito sobre os
efeitos combinados de muitos medicamentos (NOLTE e McKEE, 2008).
Cita, ainda, estudo desenvolvido
por Boyd et al. (2005), que mostra que,
seguindo-se as diretrizes clínicas existentes, uma mulher com 75 anos de
idade, portadora de doença pulmonar
obstrutiva crônica, diabetes tipo 2, hipertensão, osteoartrite e osteoporose
tomaria uma quantidade de 12 medicamentos, “mistura que representa alto risco para a saúde dessa
senhora”.
A questão dos gastos com medicamentos é entendida como
“preocupante”, dado o aumento
dos fatores causadores. “Na
perspectiva econômica, os
gastos dos medicamentos constituem
o segundo maior item de despesa dos
sistemas de atenção à saúde, somente
superados pela atenção hospitalar”, informa.
Os gastos com assistência farmacêutica, segundo Eugênio Vilaça, são
crescentes, por causa da conjunção
de três fatores: o aumento do número de pessoas que consomem medicamentos, o aumento do número de
prescrições por pessoas e o custo das
prescrições que decorrem de inovações tecnológicas.
É sério o problema, entendendo-se que, “em geral, o crescimento dos
gastos com assistência farmacêutica
supera o incremento do Produto Interno Bruto dos países, gerando problemas de financiamento”. Cita o caso
do Canadá, onde o gasto com medicamentos em relação aos gastos totais
de saúde subiu de 9,5%, em 1985, para
17,0%, em 2006 (CANADIAN INSTITUTE FOR HEALTH INFORMATION,
2006).
FUTURO - O que o futuro reserva aos medicamentos não é nada fácil
de ser administrado, segundo alerta
o professor Eugênio Vilaça. Os gastos
com medicamentos, tomados numa
perspectiva de futuro, de acordo com
o consultor em saúde, tenderão a incrementar-se, em função da transição
demográfica. Ele evoca estudos realizados, na Itália, que mostraram que existe uma concentração dos gastos com
medicamentos na população de mais
de 65 anos de idade. O grupo de 70 a
75 anos, que constitui 5% da população, é responsável por 13% dos gastos
totais com medicamentos, naquele
País (MEANA, 2007).
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BRASIL - E o Brasil? Aqui, o problema da dificuldade de
acesso continua sendo um desafio. “No Brasil, segundo dados
da Febrafarma de 2002, 15% da população com salários superiores a dez mínimos consumiram 48% dos medicamentos,
enquanto 51% da população com renda menor que quatro
salários mínimos consumiram apenas 16%” (VALENTE, 2004).
Vale ressaltar que os dados são de 2002 e, de lá para
cá, o Governo instituiu vários programas objetivando exatamente melhorar o acesso aos medicamentos, como o
Farmácia Popular do Brasil e Aqui, tem Farmácia Popular,
entre outros, o que diminuiu o problema.
MANEJO INADEQUADO - Eugênio Vilaça é incisivo, ao
dizer que, do ponto de vista sanitário, o manejo inadequado
dos medicamentos pode gerar resultados danosos. E cita a
realidade dos Estados Unidos.
“Nos Estados Unidos, metade das mortes causadas por
intervenções do sistema de atenção à saúde foi determinada
por reações adversas ao uso de medicamentos, o que poderia representar até 50 mil mortes por ano (INSTITUTE OF
MEDICINE, 1999). Nesse mesmo País, o uso inadequado dos
medicamentos foi responsável por 9 milhões de internações
hospitalares por ano e por um gasto anual de 75 bilhões de
dólares, semelhante ao que se gasta com o controle do diabetes”, lembra.
E continua: “Na América Latina, verificou-se, por meio
de 644 estudos, que menos de 40% das pessoas usuárias
dos sistemas de atenção à saúde foram tratadas com medicamentos, segundo padrões definidos em diretrizes clínicas
(ROJAS, 2006). Em São Paulo, no período de janeiro de 2005 a
março de 2006, o Núcleo de Farmacovigilância da Secretaria
de Estado da Saúde recebeu, aproximadamente, 9.000 notificações de suspeitas de reações adversas a medicamentos”
(BARATA e MENDES, 2007).
ASSISTÊNCIA GERA ECONOMIA - É, aí, que o autor das
Redes de Atenção à Saúde conclui: “Por essas razões econômicas e sanitárias, impõe-se, nas RAS, organizar o sistema de
assistência farmacêutica, como um de seus sistemas transversais de apoio”.
Segundo ele, uma boa organização do sistema de assistência farmacêutica apresenta resultados muito favoráveis,
tanto na experiência internacional, quanto nacional. “Experiências desenvolvidas por operadoras de planos de saúde, nos
Estados Unidos, mostraram que cada dólar investido em assistência farmacêutica gerou uma economia de 6 dólares em
internações hospitalares e em cirurgias (VALENTE, 2004)”.
POUCO ESFORÇO NA FARMÁCIA CLÍNICA - O sistema de assistência farmacêutica, explica Eugênio Vilaça, engloba dois grande componentes: a logística dos medicamentos
e a farmácia clínica. Ele denuncia que, em geral, no Brasil,
prevalecem os esforços relativos à organização dos ciclos logísticos. “Coloca-se, ainda, pouco esforço no componente
assistencial e de vigilância da farmácia clínica”, acrescenta.
Reitera que a farmácia clínica é um componente fundamental na assistência farmacêutica, e apresenta um dado
comparativo definitivo em favor dessa prática farmacêutica.
Baseado em estudo, Vilaça chama a atenção para o cresci8
mento da oferta de produtos farmacêuticos, nos Estados
Unidos, onde, em 2007, havia mais de 13 mil medicamentos
diferentes à venda, 16 vezes mais que a quantidade disponível, 50 anos atrás (CHRISTENSEN et al., 2009). O problema
desse expressivo aumento na quantidade de medicamentos
é, segundo ele, a quase “infinita” possibilidade de combinações entre eles e o difícil monitoramento das interações medicamentosas ou não.
O componente da farmácia clínica, infelizmente – palavras de Eugênio Vilaça – “tem sido relegado a um segundo
plano, no SUS, o que determina resultados econômicos e sanitários inadequados com relação ao uso de medicamentos”.
O professor atribui essa subvalorização da farmácia clínica, dentro do Sistema, ao tecnicismo da prática, à formação
insuficiente dos farmacêuticos nos aspectos da clínica e na
consideração dos medicamentos como um bem de consumo e não como um insumo básico de saúde.
“A sobrevalorização das ações de aquisição, armazenamento e distribuição e o afastamento dos farmacêuticos
das outras questões que integram a assistência farmacêutica
gerou, no Brasil, uma visão fragmentada da assistência farmacêutica”, lembra Vilaça, evocando Marin et al. (2003).
VISÃO EQUIVOCADA - A razão fundamental para a
sobrevalorização dos ciclos logísticos farmacêuticos, no entanto, está numa visão “equivocada” que institui, como objeto da assistência farmacêutica, o medicamento, diz. Vilaça
entende que, contrariamente, uma proposta consequente de assistência farmacêutica desloca o seu objeto do medicamento,
colocando, como seu sujeito, as pessoas usuárias do sistema de atenção à saúde.
“Por outro lado, a introdução da farmácia clínica muda o
papel do farmacêutico que,
de um profissional que lida
Pharmacia Brasileira nº 83 - Setembro/Outubro/Novembro 2011
com medicamentos, passa a ser membro de uma equipe multiprofissional de saúde, interagindo com os demais profissionais e relacionando-se com as pessoas usuárias, suas famílias e
a comunidade, de forma que gere vínculos permanentes, com
base no acolhimento e na humanização das práticas clínicas”.
EVIDÊNCIAS SOBRE RESULTADOS POSITIVOS - Para
provar os imensos benefícios da farmácia clínica nos sistemas
de atenção à saúde, o livro se vale de evidências. “Estudo randomizado feito para medir os efeitos da introdução do farmacêutico clínico na atenção primária à saúde (APS), em 208
idosos que tomavam cinco ou mais medicamentos, mostrou
uma redução de prescrições inadequadas e dos efeitos adversos a esses medicamentos (HANLON et al., 1996)”, cita Vilaça.
E traz outro exemplo à base de evidência: “Ensaio randomizado sobre o trabalho conjunto de médicos e farmacêuticos, feito em 95 adultos com hipertensão arterial, avaliou
que as pessoas atendidas por esses profissionais, conjuntamente, tinham 55% de chance de alcançar as metas de controle de pressão frente a apenas 20% dos que receberam a
atenção convencional, sem o trabalho conjunto (BODGEN
et al., 1998)”, explica.
Outra evidência vem de um ensaio randomizado, que
avaliou pacientes com hipertensão arterial manejado conjun-
As farmacêuticas Juliane Hwang e Maria Lucivânia Silva Lima, do Hospital Erasto Gardner, em
Curitiba, prestam cuidados a criança e sua mãe
tamente por médicos que atuam na atenção primária e por
farmacêuticos. O ensaio mostrou que esse trabalho integrado
melhorou o controle da pressão arterial e reduziu os custos
médios por consulta (BORENSTEIN, 1998). Um ensaio randomizado, desta vez, com 181 portadores de insuficiência
cardíaca, também, provou que a introdução do farmacêutico
na equipe multidisplinar determinou uma redução da mortalidade.
A ação do farmacêutico envolveu avaliação da medicação, recomendações aos médicos, educação das pessoas
usuárias e seguimento por chamadas telefônicas (GATTIS et
al.1999). O livro faz, ainda, uma citação a um documento do
Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido que, analisando
o trabalho de farmacêuticos que atuaram com os médicos
generalistas, concluiu que essa atividade conjunta aumentou
as revisões sobre medicamentos e assegurou que as pessoas
usuárias desses produtos farmacêuticos recebessem os cuidados de que necessitavam (DEPARTMENT OF HEALTH, 2002).
Há vários outros exemplos de ensaios que igualmente mostram os benefícios da farmácia clínica.
O CUIDADO FARMACÊUTICO - As evidências, observa
Eugênio Vilaça, comprovam a necessidade da valorização relativa da farmácia clínica. Ele convida os seus leitores para que
conheçam a advertência de Karin Wiedenmayer, em 2006, sobre os cuidados farmacêuticos: “Os farmacêuticos deveriam
sair de trás do balcão e começar a servir ao público, provendo
cuidado, ao invés de apenas pílulas. Não há futuro no simples
ato de dispensar”.
A norte-americana Karin Wiedenmayer, doutora em
Farmácia Clínica, é professora universitária e uma referência
internacional e citação obrigatória em trabalhos acadêmicos
realizados, no mundo inteiro, sobre o assunto.
As palavras de Wiedenmayer são respaldadas no livro
“Assistência Farmacêutica na atenção à saúde”, de autoria de
Carlos Alberto Pereira Gomes, farmacêutico, Presidente da
Fundação Ezequiel Dias; Aroldo Leal da Fonseca, médico da
Farmanguinhos; Francisco José Pacheco dos Santos, farmacêutico e professor da Faculdade de Tecnologia e Ciência
(FTC), de Salvador (BA); Mário Borges Rosa e Mirthes Castro
Machado, farmacêuticos, e Maria de Fátima Fassy, socióloga,
todos da Fundação Ezequiel Dias.
O coautor Aroldo Leal da Fonseca afirma que o farmacêutico “é um profissional subutilizado”. Lembra que a sociedade espera muito do profissional, “especialmente todos os
portadores de con­dições crônicas que precisam de apoio
para o uso correto dos medicamen­tos, acompanhamento de
seus tratamentos e para mudanças nos estilos de vida”.
Diz, ainda, que a grande inovação na assistência farmacêutica “é a compreensão das necessidades reconsideradas
dos pacientes, na formulação conjunta de seus planos de
cuidados, na educação para o autocuidado suportado – a
gestão colaborativa do cuidado”. Ele alerta para o fato de que
o paciente não é mais “o único culpado” pela não adesão aos
tratamentos prolongados e suas consequências.
Noutras palavras, o CUIDADO é o termo central nas
discussões sobre a assistência farmacêutica.
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Cuidar está na
essência
do farmacêutico
Prestar cuidados farmacêuticos,
segundo o Presidente do Conselho Federal de Farmácia de Farmácia (CFF),
Jaldo de Souza Santos, é a essência dos
serviços profissionais. Ele entende o
cuidado como o umbigo da profissão
farmacêutica e, ao mesmo tempo, a
prática do futuro, com o “belo” resgate
que vem sendo feito e com a atualização técnico-científica da área.
Presidente do CFF, Jaldo de Souza
Santos, lembra esforços para
divulgar cuidados farmacêuticos
“Há uns 20 anos, quando eu falava em cuidado farmacêutico, parecia
que eu pregava no deserto. Mas eu
não desisti de levar aos farmacêuticos
a mensagem de que eles precisariam
buscar conhecimentos técnicos e científicos e experiência prática para se
qualificar; de que teriam que renovar
os seus currículos; de que era imperioso que criassem uma boa base de formação humanística para, assim, prestar
bons cuidados à população que tanto
10
precisa dos seus serviços. Eu lhes dizia
para não se acomodarem atrás do balcão da farmácia, apenas orientando o
paciente sobre o uso do medicamento. Eles teriam que redirecionar o foco
dos seus serviços para o paciente, no
âmbito da atenção primária”, realça o
Presidente do CFF.
Souza Santos entende que a insistência em levar a sua mensagem
adiante valeu a pena. “Já não me sinto
pregando no deserto. Os profissionais
estão se conscientizando da necessidade de serem cuidadores”, acrescenta.
Mas ressalva que grande parte não está
completamente preparada para assumir os novos desafios no campo da
farmácia clínica, com vistas a oferecer
cuidados ao paciente.
O dirigente do CFF enfatizou que
o Órgão está investindo pesado em
sua política de fomentar o conhecimento. E citou o curso “Assistência Farmacêutica na farmácia comunitária”,
do Conselho, que vem sendo ministrado, nas capitais, como uma revolução
na qualificação do profissional clínico.
FORMAÇÃO DIFERENCIADA
- O farmacêutico norte-riograndense
Tarcísio Palhano, responsável pela implantação do primeiro Serviço de Farmácia Clínica, no Brasil, em 1979, no
Hospital Universitário Onofre Lopes
(da UFRN - Universidade Federal do
Rio Grande do Norte), em Natal, observa que o farmacêutico clínico precisa ter uma formação diferenciada nos
mesmos conteúdos que favorecem a
elaboração de um diagnóstico pelo
médico, como Anatomia, Fisiologia,
Patologia, Fisiopatologia, Semiologia.
A esses conhecimentos, o profissional
Pharmacia Brasileira nº 83 - Setembro/Outubro/Novembro 2011
deverá associar outros, como Farmacologia e Terapêutica.
Palhano é especialista em Farmácia Clínica pela Universidade do Chile,
com estágios em farmácias hospitalares, na França; professor de Farmácia
Clínica e orientador do Estágio Supervisionado Farmacêutico do curso de
Farmácia da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte (UFRN) e Ex-diretor da Farmácia do Hospital Universitário Onofre Lopes, da mesma Universidade. Ele adverte: “O farmacêutico
não pode, se quiser atuar na área clínica, achar que lhe bastam apenas os
conhecimentos de Farmacologia e Terapêutica. Ele precisa saber de outros
conteúdos, para conhecer o diagnóstico. E é conhecendo o diagnóstico que
ele terá os caminhos para atuar como
farmacêutico clínico”.
Professor Tarcísio Palhano alerta
que para atuar na área clínica,
farmacêutico precisa, além da
Farmacologia e Terapêutica,
saber de outros conteúdos para
conhecer o diagnóstico
De posse desses conhecimentos
conjugados é que, de acordo com o
professor Tarcísio Palhano, o farmacêutico poderá participar, por exemplo,
da elaboração do plano terapêutico
(a prescrição), especialmente com o
médico. “O conhecimento de Farmacologia e Terapêutica do farmacêutico
só será útil, se ele conhecer os outros
conteúdos”, explica.
O professor Palhano ensina que a
Farmácia Clínica nasceu, em São Francisco, Califórnia (EUA), pelas mãos de
Donald Brodie, para ser desenvolvida
em ambiente hospitalar, porque é, ali,
onde está a equipe. “A farmácia clínica é uma atividade essencialmente de
equipe”, enfatiza Palhano.
FARMÁCIA CLÍNICA NA FARMÁCIA COMUNITÁRIA? - E, aí, fica
a pergunta: a farmácia clínica pode
ser exercida na farmácia comunitária
(particular)? O próprio Tarcísio Palhano
responde que sim, embora, nesse tipo
de estabelecimento, falte exatamente
aquilo que é a essência da prática clínica: a equipe multiprofissional.
Para tanto, sugere que o farmacêutico comunitário dialogue com as
equipes dos postos e centros de saúde
do seu bairro ou Município e ofereça-lhes os seus serviços. Palhano lembra
que a farmácia clínica é essencial à saúde. E pede que o farmacêutico cuidador busque conhecimentos na área. “O
conhecimento de clínica é o diferencial”, enfatiza.
Mas, aí, vem uma dificuldade: a
pouca ou quase nenhuma oferta de
farmácia clínica nos cursos de Farmácia. O professor Tarcísio Palhano, que
é, também, assessor da Presidência do
CFF e integra a Comissão de Pós-graduação do Órgão, assegura que pouquíssimos cursos incluem a farmácia clínica
como disciplina em seus currículos.
“Se o farmacêutico não estuda
farmácia clínica na graduação, como
é que ele pode despertar o interesse
por esta prática?”, questiona Palhano.
Ele informa, também, que há poucos
cursos de pós-graduação lato sensu e
nenhum stricto sensu, no Brasil.
Professor Arnaldo Zubioli afirma que
índole do farmacêutico é de cuidador
O QUE FAZ O FARMACÊUTICO
CLÍNICO - O professor Tarcísio Palhano relaciona as principais atividades
realizadas pelo farmacêutico clínico.
São elas: orientar e educar o paciente essencialmente sobre o uso
correto do medicamento; participar
da elaboração do plano terapêutico;
fazer a evolução diária do paciente
para observar como se encontra a resposta terapêutico ao tratamento instituído; tentar prevenir e evitar reações
adversas e internações clinicamente
significativas, e aconselhar o paciente,
no momento da alta, sobre os medicamentos prescritos, hábitos de higiene e
outros cuidados à saúde.
CUIDAR ESTÁ NA ESSÊNCIA
PROFISSIONAL - “O farmacêutico é,
por essência, um prestador de cuidados”. A afirmação é do professor Arnaldo Zubioli, paranaense, especialista em
Farmácia Clínica, mestre em Farmacologia pela Universidade de São Paulo
(USP) e doutor em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual de
Maringá (PR). E, ao fazer a afirmação,
ele complementa: “O médico cura,
mas não cuida, sempre; o farmacêutico
e outros profissionais da saúde cuidam
e, às vezes, curam”.
Zubioli explica o seu comentário,
lembrando que o médico está mesmo
mais identificado com a cura do que
com o cuidado, enquanto o farmacêutico identifica-se com o cuidado. “O
farmacêutico deve ter preocupação
com o resultado do tratamento feito
com o medicamento dispensado e
suas possíveis consequências. Ele precisa fazer o acompanhamento terapêutico”, pede Zubioli.
Enfatiza que, ao acompanhar o
paciente diabético, por exemplo, o farmacêutico precisa fazer a aferição de
sua pressão, ver o IMC (Índice de Massa Corporal) e a circunferência/cintura,
verificar a glicemia. Estes compõem
os dados objetivos. Mas o profissional
terá, ainda, que levantar os dados subjetivos, a partir das informações prestadas pelo paciente sobre como está se
sentindo.
O professor Arnaldo Zubioli
aproveita para reforçar a recomendação de Tarcísio Palhano, de que o farmacêutico deve, sempre que necessário, buscar um contato com o médico
do paciente sob os seus cuidados.
QUANDO O MEDICAMENTO
NÃO PRODUZ EFEITO - Zubioli busca em Jerome Groopman, professor de
Hematologia Oncológica da Universidade de Harvard (EUA), dados para
respaldar as suas afirmações sobre a
importância do cuidado farmacêutico.
Em seu livro “Como os médicos pensam”, Groopman informa que de 20%
a 30% dos medicamentos não produzem efeito, por causa das características físicas do paciente e da elaboração
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dos produtos. “Significa dizer que o farmacêutico precisa estar atento a essas
variáveis. A terapêutica não se esgota
no medicamento, mas na obtenção
dos resultados desejáveis”.
E reforça que o sucesso da administração do medicamento está
no cuidado em relação à avaliação e
acompanhamento de seus efeitos, especialmente, em doenças crônicas e
degenerativas, como diabetes tipo 2,
hipertensão, obesidade entre outras,
além de doenças autoimunes, como
lúpus, artrite reumatoide etc. “Cuidar
é a busca da cura, se possível, e de estagnar o processo da doença ou de minorar as suas consequências deletérias”,
conclui Arnaldo Zubioli.
Álvares declara que o farmacêutico comunitário bem qualificado reúne
todos os predicados para prestar cuidados com qualidade, nas farmácias, no
âmbito da atenção básica. E diz mais: “O
farmacêutico deve assumir responsabilidades no campo do cuidado ao paciente e não se limitar a apenas orientá-lo sobre o uso do medicamento”.
Ele entende que no atual modelo
de farmácia, “onde predomina o mercantilismo desmedido”, o farmacêutico
não é devidamente valorizado, por não
ter condições necessárias para prestar
cuidados à população. Isto, porque
cuidado significa, muitas vezes, o uso
racional de medicamentos, e isto não
interessa ao sistema mercadológico,
que quer vender.
“Mas com as transformações que
estão ocorrendo, o cuidado farmacêutico, prestado à luz da farmácia clínica,
será fundamental, dentro do estabelecimento comunitário. E o paciente sentirá o resultado positivo dos serviços
profissionais na melhora de sua qualidade de vida. Então, a população irá
valorizar o farmacêutico e não aceitará
ser atendida mais por outro profissional”, prevê Amilson Álvares.
FORMAÇÃO - A revista PHARMACIA BRASILEIRA ouviu os membros da Comissão de Ensino (Comensino) do CFF sobre a formação dos
farmacêuticos brasileiros no que se
refere aos cuidados prestados ao paciente. A Presidente da Comissão, Magali Demoner Bermond, professora de
Toxicologia e Deontologia do UNESC
(Centro Universitário do Espírito Santo), doutora em Ciência da Educação,
informa que os cursos de Farmácia oferecem uma gama enorme de conhecimentos em todas as áreas profissionais,
principalmente, depois de instituída a
nova formação (generalista), em 2002,
inclusive na prestação de cuidados.
“O acadêmico deve sair da Universidade com conhecimentos das
interfaces entre as três áreas – Alimento, Medicamento e Análises Clínicas”. Mas pondera: “Nem todos os
cursos entenderam a nova formação
e, por isto, não oferecem conteúdos
que dão ao farmacêutico o conhecimento pleno, inclusive clínico”. Mas
enfatiza que a busca do conhecimento clínico passa pelos conteúdos das
três áreas citadas.
O professor-adjunto de Farmacobotânica da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte, Nilsen Car-
Presidente da SBFC, Amilson Álvares:
“O farmacêutico não deve se limitar a
orientar o paciente sobre o uso do medicamento, mas assumir responsabilidades no campo do cuidado”.
O CUIDADO É O QUE VALORIZA O FARMACÊUTICO - O Presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia
Comunitária (SBFC) e Conselheiro
Federal de Farmácia pelo Tocantins,
Amilson Álvares, é taxativo: “O cuidado farmacêutico prestado, em todas
as instâncias, inclusive nos estabelecimentos comunitários (farmácias com
e sem manipulação e drogarias privadas, bem como nas farmácias públicas)
é o que valoriza os farmacêuticos diante da sociedade”.
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Presidente da Comissão de Ensino
(Comensino) do CFF, Magali Demoner,
ressalta que busca do conhecimento
clínico passa pelos conteúdos das
três áreas (Alimento, Medicamento
e Análises Clínicas) oferecidas na
graduação, após reforma do ensino
Pharmacia Brasileira nº 83 - Setembro/Outubro/Novembro 2011
Professor Nilsen Carvalho, da
Comensino, lembra que Ministério
da Saúde está interessado em
reforçar conhecimento em cuidados
farmacêuticos, na universidade
valho Fernandes de Oliveira Filho, integrante da Comensino, explica que o
Ministério da Saúde está interessado
em reforçar o conhecimento em cuidados farmacêuticos, tanto que vem
financiando cursos de especialização
em Gestão e Assistência Farmacêutica,
com vistas à atuação dos profissionais
no SUS. “Além do mais, os cursos de
Farmácia têm a disciplina de Assistência Farmacêutica”, sustenta.
As palavras de Nilsen Carvalho
são respaldadas por Mônica Meira Leite Rodrigues, professora de Imunologia
Clínica e Microbiologia Clínica e Estágio em Análises Clínicas da Faculdade
de Farmácia da Universidade Federal
de Alagoas. “Os cursos de Farmácia já
têm esse direcionamento para a área
clínica, no sentido de levar o farmacêutico a atuar no atendimento direto à
população”.
Professora Mônica Meira Leite
Rodrigues, da Comensino, reforça
que cursos de Farmácia já direcionam
ensino para a área clínica, com vistas
a levar o farmacêutico a atuar no
atendimento direto à população
Carlos Cecy, professor aposentado de Farmacotécnica e Farmacognosia da Universidade Federal do
Paraná (UFPR) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), doutor e
livre docente em Farmácia pela mesma UFPR e Presidente da Abenfarbio (Associação Brasileira de Ensino
Farmacêutico e Bioquímico), além de
Professor Carlos Cecy, Presidente da
Abenfarbio: “Isto é uma nova fronteira”.
membro da Comensino, arremata o
tema formação dos farmacêuticos em
relação à prestação de cuidados ao
paciente, afirmando que as Diretrizes
Curriculares instituídas, em 2002, já
incorporaram as competências necessárias para a prestação de serviços
no âmbito da atenção básica.
Perguntamos ao professor Cecy
se o ensino farmacêutico está atento
às exigências feitas pelo SUS aos profissionais farmacêuticos e às transformações que o Sistema está sofrendo.
Ele respondeu que sim, porque o ensino está focalizado na atenção básica do ponto de vista da prestação de
serviços.
“Eu vejo com bons olhos as mudanças previstas no Decreto Federal
número 7.508, de 28 de junho de 2011,
porque 86% da clientela do SUS (o
que corresponde a 75% da população
brasileira) podem ter os seus problemas de saúde resolvidos no âmbito da
atenção primária ou básica. E o farmacêutico está se qualificando em prestar
cuidados exatamente nesse âmbito”,
comemora Carlos Cecy.
E fez uma interpretação de que o
Ministério da Saúde quer que as profissões da saúde colaborem com a atenção básica, para desafogar os hospitais
e diminuir a pesada carga de trabalho
dos médicos. “Isto é uma nova fronteira”, concluiu.
Segundo a
Associação
Farmacêutica
Americana,
cuidados
farmacêuticos
são uma prática
profissional
centrada no
paciente e
orientada por
resultados. Eles
são necessários
para promover a
saúde, prevenir
doenças, avaliar,
monitorar, iniciar
e modificar a
medicação e,
assim, garantir
a segurança e
a efetividade
na terapêutica
farmacológica.
Pharmacia Brasileira nº 83 - Setembro/Outubro/Novembro 2011
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