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O Castelo dos Mouros (Graça do Divor, Évora): a arquitectura

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O Castelo dos Mouros (Graça do Divor, Évora): a arquitectura
O Castelo dos Mouros
(Graça do Divor, Évora):
a arquitectura “ciclópica” romana
e a romanização dos campos
de Liberalitas Iulia Ebora
Rui Mataloto*
A meu pai, João da Silveira,
que partiu enquanto estas linhas eram escritas…
S.T.T.L.
R
E
S
U
M
O
Pretende­‑se, com o presente trabalho, apresentar um conjunto de dados que se crê
virem permitir um melhor enquadramento das ocupações do Castelo dos Mouros da Graça
do Divor, no contexto da ocupação romana regional.
A
B
S
T
R
A
C
T
This work will present new information regarding the architecture and cera‑
mic collection from the site of Castelo dos Mouros, Graça do Divor, Portugal. This new
information will allow for a better understanding of the Roman occupation and better cla‑
rify the context of this site within the region.
1. Castelo dos Mouros: implantação e arquitectura1
O Castelo (ou Cabeço) dos Mouros da Graça do Divor localiza-se em pleno Alentejo Central,
no concelho de Évora, a noroeste da cidade, junto da aldeia de N.ª Sr.ª da Graça do Divor (Fig. 1).
Implanta-se numa pequena, mas destacada, elevação de encostas suaves, com ampla visibilidade de
Sudoeste a Nordeste, sobre a extensa planície da Ribeira do Divor (Figs. 2 e 3).
Entre pequenos afloramentos graníticos, são bem visíveis dois troços de uma estrutura, cons‑
truída em grandes blocos “megalíticos” de granito, correspondentes, genericamente, aos lados
sudeste e sudoeste, do que deveria ter sido um amplo recinto de planta quadrangular (Fig. 4).
Os restantes lados ou foram completamente desmantelados, ou nunca foram efectivamente cons‑
truídos, tendo em conta que o afloramento emerge à superfície na maior parte da área onde se
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Fig. 1 Localização do Castelo dos Mouros no Alto Alentejo.
Fig. 2 Localização do Castelo dos
Mouros na CMP 448 – 1:25 000.
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Fig. 3 Vista geral do cabeço do Castelo dos Mouros.
Fig. 4 Levantamento
topográfico do Castelo dos
Mouros (CME – 2005).
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Fig. 5 Vista geral do lado sudeste do Castelo dos Mouros (escala com 2 m).
Fig. 6 Vista geral do canto este do Castelo dos Mouros.
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Fig. 7 Alçado Sudeste do Castelo dos Mouros.
Fig. 8 Alçado sudoeste do Castelo dos Mouros.
implantam. Apenas uma intervenção arqueológica poderá, eventualmente, confirmar ou infirmar
qualquer destas hipóteses.
A estrutura teria, aparentemente, uma planta rectangular, atendendo que se conservam ainda
três dos cantos, apresentando 21,50 m no lado sudeste (Figs. 5 e 7) e perto de 25 m no lado sudo‑
este (Fig. 8). As paredes apresentam uma espessura bastante considerável, com cerca de 1,70 m,
contando mais de 2,10 m de altura máxima conservada.
O aparelho utilizado é, na realidade, o elemento mais característico desta construção, ao inte‑
grar blocos de muito grande dimensão (megalíticos), alguns dos quais verdadeiramente “ciclópi‑
cos”, apresentando medidas como: 3 m x 1,80 m x 1,50 m. No geral, os blocos foram apenas tosca‑
mente afeiçoados, de modo a obter um lado plano, utilizado nas faces da estrutura. Por vezes,
alguns deles surgem mais trabalhados, nomeadamente os dos cantos, tendo sido afeiçoados de
modo a obterem-se duas faces planas (Fig. 6). Alguns blocos do lado sudeste parecem estar afei-
çoados na base, perfazendo um friso de remate. Os muros seguem a técnica do duplo paramento,
preenchendo-se o espaço restante com terra e pedra menor; nalguns casos a espessura dos blocos
é de tal ordem, que estes surgem em perpianho.
A construção, apesar do seu ar robusto, é realizada em pedra seca, sem recurso a qualquer
argamassa ou ligante, sendo os grandes blocos nivelados por outros menores, ou simplesmente
afeiçoados de modo a encaixarem.
A escassez de materiais cerâmicos à superfície, tal como a ausência de taludes de derrubes,
deixa escassa margem à compreensão do modo como o edifício se desenvolveria em altura, podendo
ter utilizado ou materiais perecíveis, ou mesmo terra.
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Em torno do edifício principal, e sem fazer recurso a um aparelho “megalítico”, é possível
observar indícios de estruturas, em particular no lado Poente, que dão a entender que a construção
“megalítica” se integraria num conjunto edificado mais vasto e diverso.
Em toda a área imediata à construção, mesmo atendendo à fraca visibilidade do solo, é notó‑
ria a escassez de cerâmica à superfície, dificultando qualquer tentativa directa de integração histó‑
rica do local.
2. Castelo dos Mouros: proposta de integração histórica
Se os indícios arqueológicos recolhidos no cerro do Castelo dos Mouros são escassos, já a sua
envolvente imediata entregou um conjunto relevante de dados, que permitem perspectivar uma
longa ocupação de época romana, adjacente ao sítio que aqui nos ocupa.
Num pequeno interflúvio, não mais de 150 a 200 m a sudoeste do Castelo dos Mouros, e que
se estende até próximo deste, detectou-se uma importante ocupação romana, dispersa por uma
Fig. 9 Fotografia aérea (Google Earth), com mancha de dispersão dos materiais arqueológicos em torno do Castelo dos Mouros.
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Fig. 10Conjunto cerâmico de produção regional recolhido no Castelo dos Mouros.
vertente muito ligeira. As duas linhas de água junto das quais se verifica a ocupação encontram-se
actualmente a desmontar a estratigrafia arqueológica, indiciando, eventualmente, alguma altera‑
ção dos seus cursos, possivelmente provocada pela construção, a montante, das captações do
Divor, que abasteceram a cidade de Évora.
A distribuição dos elementos cerâmicos à superfície permite assinalar uma clara diferencia‑
ção na área de dispersão das presenças, entre uma zona mais a sudoeste do recinto, relacionada
com uma ocupação tardo-republicana, e outra mais a sul, onde nos surgem mais evidências de
época imperial (Fig. 9). Comece-se então pela área mais a sudoeste.
Nesta área os materiais de construção estão quase totalmente ausentes, sendo notória a pre‑
sença frequente de cerâmica regional morfologicamente afim das características no final da Idade
do Ferro (Fig. 10).
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Ao nível da cerâmica importada é de destacar a presença de cerâmica campaniense do “Cír‑
culo da B” (Fabião, 2001), ainda que não seja possível determinar a forma, tal como acontece com
as cerâmicas de paredes finas. As presenças anfóricas encontram­‑se mais bem representadas,
estando documentadas produções da área bética, quer do vale do Guadalquivir quer da baía de
Cádiz, mas também lusitanas, aparentemente do Tejo/Sado, que se tratarão mais em pormenor
em seguida.
A área a sul do Castelo dos Mouros, ainda que absolutamente contígua à anterior, apresenta
assinaláveis diferenças ao entregar um conjunto bastante mais afim das baixelas cerâmicas roma‑
nas de época imperial (Pinto, 2003), para além das presenças de terra sigillata de produção gálica e
hispânica. A presença de materiais de construção, ausentes na área anterior, e mesmo raros junto
ao recinto, parece reforçar este desfasamento cronológico entre os vários espaços.
O processo histórico do Castelo dos Mouros, atendendo às ocupações detectadas nas imedia‑
ções, parece desenrolar­‑se entre os finais da República e o primeiro século do Império, acompa‑
nhando a instalação do mundo provincial romano no ager de Liberalitas Iulia Ebora.
3. As produções anfóricas do Castelo dos Mouros no contexto dos fortins alentejanos:
breve perspectiva
De entre o conjunto de materiais recolhido nas imediações do Castelo dos Mouros destaca­‑se
um conjunto de ânforas que, pela sua diversidade, significado cronológico e económico importa
tratar com maior detalhe.
Nas imediações do Castelo dos Mouros recolheram­‑se, em trabalhos de prospecção de super‑
fície, mais de uma dezena de fragmentos de bordo de ânforas e outros tantos fragmentos de asas e
fundos, ainda que tratemos aqui apenas dos primeiros.
As produções béticas parecem corresponder, principalmente, às mais antigas ânforas ovóides
oleícolas provenientes do Guadalquivir (Fabião, 2000, p. 667) (Fig. 11). As mais frequentes aproxi‑
mam-se da “unusual small variant” da Haltern 70 (Classe 15), ao apresentarem pequenos lábios de
fita (Peacock & Williams, 1986, p. 115), enquadráveis no Grupo IX de Almeida (2006, p. 82), de
marcada heterogeneidade. Esta variante tem vindo a ser assinalada como uma produção autó‑
noma, associável à Classe 24, paralela às mais usuais Haltern 70, ainda que seja bastante complexa
a sua identificação recorrendo apenas aos fragmentos de bordo. A par destas, documentou­‑se uma
outra ânfora, provavelmente enquadrável na Classe 24, mas de bordo distinto, perolado e não em
fita como os anteriores, afim das ânforas Oberaden 83, associáveis aos mais antigos contentores
oleícolas béticos (Almeida, 2006, p. 85) (Fig. 11, 1).
As ânforas Haltern 70 (Classe 15) ou Grupo VI de Almeida (2006, p. 59) estão igualmente
aqui registadas, indiciando, provavelmente, a importação de vinho em contentores produzidos na
bacia do Guadalquivir (Fig. 11, 3 e 5).
As produções anfóricas da Bética costeira, nomeadamente da baía de Cádis, estão documen‑
tadas apenas por fragmentos de bojo, não sendo possível reconhecer o tipo de contentor.
As restantes ânforas correspondem a produções lusitanas, aparentemente do Tejo/Sado (Fig.
12), integráveis nas mais antigas produções anfóricas desta região com morfologia de tipo romano,
que têm vindo a ser sistematizadas muito recentemente (Morais & Fabião, 2007), apesar dos diver‑
sos indícios já assinalados (Fabião, 2004).
Ainda que registe grande semelhança relativamente a diversos tipos de contentor, ao nível do
bordo e parte do desenvolvimento do colo, nomeadamente afins das Classe 15 e 16, em particular
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Fig. 11Ânforas produzidas na Bética (Guadalquivir)
recolhidas no Castelo dos Mouros.
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Fig. 12Ânforas lusitanas provenientes do Castelo dos Mouros da Graça do Divor.
das Haltern 70 e Dressel 7 (Morais & Fabião, 2007), está ainda bastante insegura a definição das
características específicas dos diferentes morfótipos, longe de se resumirem à forma Lusitana 12
de Diogo (1987, p. 182); assim, e dada a escassez de exemplares inteiros, o que, a par de uma
enorme variabilidade dos bordos (Pimenta & al., 2007, 304), impõe sérias restrições à atribuição de
uma designação específica, sendo conveniente a sua reunião sob a designação genérica de “ânforas
ovóides” lusitanas (Pimenta & al., 2007, p. 304).
Julgo importante assinalar que, no caso do Castelo dos Mouros, mesmo tratando­‑se de um
diminuto conjunto de superfície, sem qualquer pretensão de representatividade, não deixa de ser
significativo que, num momento aparentemente antigo as presenças lusitanas se equiparem em
número às importações da Bética. Por outro lado, se as presenças béticas parecem resultar da
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Fig. 13Ânforas produzidas na Bética (Guadalquivir) recolhidas no fortim do Caladinho.
importação de vinho e/ou azeite, já as presenças lusitanas poderão estar associadas à importação
de produtos piscícolas, indiciando desde momentos antigos uma importante área produtora na
fachada atlântica.
Este mesmo panorama de presenças tem vindo a ser registado em diversos fortins alentejanos
(Mataloto, 2002, 2004), para além da fortificação do Castelo da Lousa, onde se encontram bem
documentadas (Morais & Fabião, 2007, p. 130), tudo em cronologias que apontam para as últimas
décadas do século I a.C., talvez mesmo em momentos pré-augustanos.
Como se afirmou, no essencial, os restantes fortins alentejanos acompanham genericamente
o panorama traçado para o conjunto de ânforas do Castelo dos Mouros. no entanto, e sem esque‑
cermos que estamos a tratar com realidades muito parcelares, resultantes de recolhas de superfície,
é possível vislumbrar algumas diferenças nos diversos conjuntos anfóricos reunidos.
Deste modo, o sítio dos Soeiros (Arraiolos) apresenta uma realidade, aparentemente, mais
próxima dos meados do século I a.C., justamente por ser o único onde se registou a presença de
ânforas da Classe 67, a par de diversos exemplares genericamente enquadráveis na Classe 24 e
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Fig. 14Ânforas lusitanas provenientes dos fortins alentejanos (1-5 – Caladinho; 6 – Sempre-Noiva; 7 – Soeiros; 8 – Monte do
Almo; 9 – Outeiro da Mina (seg. Boaventura & Banha, 2006, p. 391).
Classe 15 (Haltern 70) (Calado, Deus & Mataloto, 1999; Mataloto, 2002), todas provenientes dos
centros produtores do Guadalquivir. Todavia, também aqui foi possível registar a presença de um
ou dois exemplares de produções lusitanas, de bordo triangular, afim das Dressel 7 (Fig. 14, 7).
O fortim do Caladinho (Redondo) parece, efectivamente, reportar­‑se a um momento ligeira‑
mente posterior, estando dominado pelas presenças anfóricas béticas do Guadalquivir, das Classes
15 (Haltern 70), das ânforas “ovóides” da Bética, o designado Grupo IX de Almeida (2006, p. 82) afins
da Classe 24 ou “unusual small variant” das Haltern 70 e Classe 16 (Dressel 7­‑11); surge ainda um
exemplar de uma Classe 5 (Dressel 1C), igualmente produzido nos centros oleiros do Guadalquivir
(Fig. 13). A par destas documentam-se diversos fragmentos de bordo, mas também asas e fundos, de
ânforas de produção lusitana que, atendendo aos característicos bordos moldurados e em fita, clara‑
mente se integram nas primeiras produções lusitanas (Morais & Fabião, 2007) (Fig. 14).
Nos restantes casos conhecidos, as presenças anfóricas estão muito escassamente documen‑
tadas, caso do Monte do Almo ou Santa Justa, com apenas 1 exemplar cada que, todavia, se inte‑
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gram igualmente dentro destas produções antigas da Lusitânia. No sítio do Penedo do Ferro
recolheu­‑se apenas uma ânfora da Classe 15 (Haltern 70), produzida nos centros do Guadalquivir.
Importante será, igualmente, mencionar a identificação no recinto­‑torre do Outeiro da Mina de
um fragmento de bojo com a marca SILVI aposta junto à base de uma asa (Boaventura & Banha,
2006), característica que parece acompanhar as mais antigas produções lusitanas (Morais & Fabião,
2007), tendo sido integrada pelos autores na Classe 20/21.
As presenças anfóricas nos fortins alentejanos parecem traçar-nos um panorama, para os
últimos decénios do século I a.C. e a viragem da Era, onde é claro o domínio das produções béticas
do Guadalquivir, que deveriam assegurar a distribuição regional de produtos importados como o
vinho ou o azeite (Fig. 13). Julgo ainda pertinente efectuar um breve apontamento sobre as redes
de distribuição actuantes nesta região. Em Scallabis (Santarém), importante colónia e porto no
interior do estuário do Tejo, documentou-se um claro predomínio das importações da Bética cos‑
teira nestes momentos derradeiros do século I a.C., e mesmo durante grande parte do século
seguinte (Arruda, Viegas & Bargão, 2005, p. 295), enquanto os dados recolhidos nos fortins do
Alto Alentejo evidenciam um fluxo comercial claramente devedor dos centros produtores do Gua‑
dalquivir, o que acaba por nos traduzir os diversos ritmos e canais de distribuição presentes no Sul
da fachada atlântica peninsular, eventualmente relacionados com o cariz de cada centro receptor.
A par destas produções começa a emergir uma nova realidade, que ganha força mais próximo
da viragem da Era, onde as ânforas de origem lusitana se tornarão mais presentes, provavelmente
relacionadas com a distribuição de preparados piscícolas, produzidos já em ampla escala na
fachada atlântica (Fig. 14).
Na realidade, ainda que esta fase antiga de produção seja de identificação e valoração relati‑
vamente recente, têm­‑se multiplicado os trabalhos onde estes morfótipos têm vindo a ser regista‑
dos, um pouco por todo o território nacional, desde Braga e foz do Douro (Morais & Fabião,
2007), a Santarém (Arruda, Viegas & Bargão, 2006), Vila Franca de Xira e Coruche (Quaresma,
2005; Quaresma & Calais, 2005), Alcácer do Sal (Pimenta & al., 2006) até ao interior alentejano, no
Castelo da Lousa (Morais & Fabião, 2007), para além dos exemplares agora dados a conhecer. Estas
presenças nos centros de consumo foram antecedidas pela documentação das mais antigas fases
de produção lusitana em alguns centros produtores do Sado, principalmente em Abul, na desig‑
nada fase de ensaio (Mayet & Silva, 2002), Setúbal (Fabião, 2004, p. 392) ou Pinheiro, apesar de
menos bem documentada (Mayet & Silva, 1998). Para além do Baixo Sado estas produções antigas,
afins das Classes 15 e 16 da Bética, surgem documentadas nos fornos do Morraçal da Ajuda, em
Peniche (Fabião, 2004, p. 388), sendo bastante provável a sua produção igualmente no Tejo (Fabião,
2004, p. 402).
Este panorama, de claro predomínio das produções do Guadalquivir, sofrerá alterações, com
o evidente decréscimo da sua presença nas realidades rurais do mundo provincial romano, estuda‑
das no Alentejo. Neste sentido aponta o estudo realizado em três villae do território alentejano
(Tourega, Monte da Cegonha e São Cucufate) (Pinto & Lopes, 2006, p. 220), não desmentido em
outros trabalhos sobre conjuntos menos numerosos (Boaventura & Banha, 2006; Almeida & Car‑
valho, 1998). Efectivamente, esta alteração, como bem sustentam aquelas autoras, na esteira de
outras (Mayet & Schmitt, 1997), deverá em boa medida resultar da consolidação de uma economia
produtora, onde os principais produtos originários do Guadalquivir, vinho e azeite, passam a
desempenhar um papel relevante na produção agrícola regional. Por outro lado, a consolidação da
fachada atlântica do actual território português como uma grande área produtora de preparados
piscícolas (Fabião, 2004), desde cedo se traduzirá no crescendo das presenças anfóricas que enva‑
sam estes produtos, ganhando a partir da viragem da Era um efectivo domínio.
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Fig. 15Ânforas produzidas na Lusitânia (1 a 6) e na Bética (Guadalquivir 7 a 11 e costeira 12 e 13) recolhidas em diversas villae
dos arredores de Évora (Faia, Redondo – 1, 2 e 4; Azinhalinho, Redondo – 3, 5 12 e 13; Santa Susana, Redondo – 6, 10 e 11;
Santa Justa, Arraiolos – 7; Monte da Igreja, Redondo – 8; Capela, Redondo – 9. Ânforas Classe 23 (Almagro 51c) – 1 e 2; Classe 22 (Almagro 50) – 3, 12 (?) e 13; Classe 20/21 (Dressel 14) – 5 e 6; Classe 25 (Dressel 20) – 7 a 11.
Todavia, a presença de importações originárias da Bética manter-se-á ainda longamente, parti‑
cularmente relacionada com a distribuição de produtos oleícolas, mas também piscícolas, como foi
possível testemunhar para as já citadas villae, principalmente do Baixo Alentejo, sendo as presenças
menos significativas no território alto-alentejano (Pinto & Lopes, 2006, p. 218), deixando claro os
diversos ritmos e redes de distribuição dos citados produtos no Sul do actual território nacional.
No entanto, se o enorme domínio das presenças lusitanas na villa da Tourega é interpretado
como resultante da proximidade quer da desembocadura do Tejo/Sado, quer da via Olisipo – Emerita, já os dados coligidos no concelho de Redondo, onde se situam diversos dos fortins aqui apon‑
tados, ainda que não contrariem esta tendência, parecem apontar para uma presença, no Alto e
Baixo Império, de um importante afluxo de ânforas originárias do Sul peninsular. Assim, ainda
que a presença de contentores de preparados piscícolas produzidos na Lusitânia predomine no
contexto das recolhas efectuadas nas diversas villae do concelho, foi possível documentar em boa
parte delas ânforas de importação do Guadalquivir, e em menor número da Bética costeira, caso
do Azinhalinho, Santa Susana, Capela, Monte da Igreja, entre outras (Calado & Mataloto, 2001)
(Fig. 15). No caso dos contentores oleícolas da Bética a sua maior presença já tinha sido efectiva‑
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mente proposta, quer para os contextos urbanos, quer mesmo rurais (Fabião, 1993-1994). Estes
encontram-se mesmo presentes em todas as villae onde se efectuaram recolhas significativas (Santa
Susana, Capela, Azinhalinho e Monte da Igreja).
Deste modo, e ainda que a partir da viragem da Era se reconheça o efectivo domínio das pre‑
senças anfóricas de preparados piscícolas lusitanos, continuam a afluir a estas paragens do inte‑
rior alentejano diversos produtos originários do Sul peninsular, perpetuando antigos fluxos
comerciais que, por vezes, em algumas regiões, caso da área de Serpa (Norton, Cardoso & Carva‑
lhosa, 2006), talvez pela proximidade de um Guadiana navegável até Mértola, assumem presenças
verdadeiramente inusitadas, assinalando os diversos ritmos e fluxos de que se reveste o abasteci‑
mento de produtos ao mundo provincial romano do Sudoeste peninsular.
4. Arquitectura “megalítica” romana: os arredores de Évora e o seu contexto peninsular
O Castelo dos Mouros da Graça do Divor foi recentemente integrado e interpretado no con‑
texto daquilo que se designou por fortins alentejanos (Mataloto, 2002, 2004). Estes correspondem
a um conjunto de instalações de cariz diverso que partilham características como a presença de um
edifício quadrangular em posição central ou destacada e áreas relativamente modestas, instalados
em meio rural a partir do terceiro quartel do século I a.C. Segundo a última proposta (Mataloto,
2004), poderíamos subdividir estas realidades arquitectónicas em quatro tipos distintos: redutos
fortificados, torres, casas fortes e recintos-torre, onde se enquadra o sítio aqui em estudo. Neste
momento, conhecem-se mais de três dezenas destes fortins em todo o Alto Alentejo, estando cons‑
ciente do enorme trabalho de identificação que ainda nos resta por fazer.
O Castelo dos Mouros encontra-se, então, profundamente integrado num contexto local e
regional densamente ocupado por instalações do tipo fortim, que assumem uma manifesta diver‑
sidade arquitectónica (Mataloto, 2002, 2004).
Se, na realidade, creio tratar­‑se de um único fenómeno de povoamento, não deixam de reves‑
tir características muito específicas, que permitem uma abordagem parcelar, compreendendo-os
nas suas especificidades e idiossincrasias.
Os recintos-torre constituem, pelas suas características construtivas e pelo seu aparelho de grande
dimensão, entidades arquitectónicas bastante peculiares e de grande visibilidade que entraram, toda‑
via, tarde na bibliografia da região de Évora (Calado, 1996). No Sul peninsular, concretamente na Alta
Andaluzia e Baixa Extremadura, pelo menos desde os anos 70 que se vinha dando a conhecer um con‑
junto de realidades em tudo semelhantes às conhecidas hoje na região de Évora. Os trabalhos de Fortea
& Bernier (1970) sobre os recintos da Bética foram verdadeiramente pioneiros, abrindo um caminho
que apenas anos mais tarde se viria a alargar ao Sul da Extremadura, com os trabalhos desenvolvidos
na área de La Serena (Rodríguez Díaz & Ortiz Romero, 1989), onde se registaram vários recintos “cicló‑
picos”. Terá sido justamente com estes trabalhos que se começou a instituir a designação de recintos-
-torre, que, apesar das críticas (Moret, 1995, 1999), creio ainda se manter operativa.
No território alto-alentejano são conhecidos, até ao momento, quatro ou cinco destes edifí‑
cios: Outeiro da Mina (Monforte), Mariano (Sousel), Sempre-Noiva (Arraiolos), Castelo dos
Mouros (Évora) e o Castelo do Mau Vizinho (Arraiolos) (Fig. 16) cuja integração neste grupo não
é pacífica (Mataloto, 2002, p. 209). Num primeiro trabalho sobre os “recintos ciclópicos” da região
de Évora (Calado, 1996) surgiram ainda registados outros edifícios (Vale d’El Rei, Santa Justa,
Cortes, etc.) que, em minha opinião, não se integram neste conjunto, mas em outros tipos de for‑
tins, tal como já tive oportunidade de assinalar (Mataloto, 2002, p. 196).
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Fig. 16Recintos-torre do Alto Alentejo: 1 – Outeiro da Mina (Monforte); 2 – Mariano (Sousel); 3 – Sempre-Noiva (Évora);
4 – Castelo do Mau Vizinho (Arraiolos).
Estando dois destes monumentos no concelho de Évora (Castelo dos Mouros e Sempre-
-Noiva), um no concelho de Sousel (Mariano) e outro no concelho de Monforte (Outeiro da Mina),
pouco se pode alegar sobre uma qualquer relação geográfica efectiva, que fizesse pressupor uma
estratégia de ocupação comum a estas realidades arquitectónicas.
Os recintos­‑torre são, tal como o Castelo dos Mouros, estruturas de planta quadrangular e
área reduzida que se caracterizam pela utilização de um aparelho de muito grande dimensão, em
geral toscamente afeiçoado, fazendo por vezes uso de blocos apenas reajustados da sua localização
original. Os edifícios deste tipo localizam-se sempre em sítios pouco destacados, ligeiras lombas
no terreno ou pequenas rechãs, sem qualquer preocupação defensiva mas, com algum domínio de
paisagem; o caso do Outeiro da Mina é, todavia, distinto, ao situar-se no fundo de um vale, que lhe
restringe bastante a visibilidade envolvente e dificulta a defensibilidade.
A arquitectura dos recintos-torre segue, genericamente, o conceito e a organização que encon‑
tramos nos restantes fortins, principalmente nas torres (Mataloto, 2002, 2004), ainda que a utili‑
zação do singular aparelho de grandes dimensões confira um enorme destaque e robustez ao edi‑
fício central. Em diversas situações os blocos são apenas afeiçoados numa única face ou, no limite,
apenas remobilizados do seu local de origem e integrados na estrutura sem qualquer tratamento,
como fica bem patente no recinto do Mariano, em Sousel. No recinto da Sempre-Noiva foram
detectados entalhes de encaixe, que visavam o fortalecimento da estrutura, realizada, em qualquer
caso, sem qualquer auxílio de argamassas.
Apesar da sua especificidade arquitectónica, os recintos­‑torre apresentam dimensões relativa‑
mente similares aos restantes fortins, oscilando a sua área interna entre os 180 e os 500 m2, excepto
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O Castelo dos Mouros (Graça do Divor, Évora): a arquitectura “ciclópica” romana
e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora
no Outeiro da Mina, onde o recinto de aparelho “megalítico” abrange quase 1500 m2; neste caso
concreto, no interior da área construída, regista­‑se a presença de uma possível torre, cujas dimen‑
sões se assemelham bastante à área interna dos restantes recintos.
Em torno da grande estrutura detectam­‑se com frequência indícios de ocupação, por vezes
associados a estruturas de menor entidade visível, demonstrando que não se encontrava isolada,
antes centralizava o espaço edificado, que raras vezes excederia o milhar de metros quadrados.
Estas estruturas são bem visíveis nos recintos­‑torre do Castelo do Mouros e do Mariano, indi‑
ciando a presença de edificações envolventes.
Os trabalhos levados a efeito nos recintos-torre da Extremadura, em particular em Hijovejo,
permitiram confirmar a presença de várias estruturas edificadas em torno da torre central (Ortiz
Romero & Rodríguez Díaz, 1998, p. 269) que, todavia, no caso vertente, pertencem em boa parte a
um momento tardio da ocupação, quando o recinto se apresentava já desactivado da sua função
inicial (Rodríguez Díaz & Ortiz Romero, 2003, p. 245).
A origem deste peculiar modo de construir (“ciclópico”) foi já rastreada quer em contexto
peninsular, quer no contexto mais alargado do Ocidente mediterrâneo (Moret, 1999). Este autor,
bastante conhecedor das realidades indígenas, afasta terminantemente qual origem local do “ciclo‑
peísmo” construtivo (Moret, 1999, p. 67), assinalando a grande proximidade das construções
peninsulares com algumas edificações da península itálica (Moret, 1999, p. 67). No entanto, não
creio que a utilização deste aparelho construtivo resulte de uma qualquer intenção ditada por
qualquer cânone construtivo que se consiga rastrear, sendo essencialmente produto da economia
da matéria-prima, isto é, da disponibilidade local de grandes blocos, que apenas toscamente afei‑
çoados e ligeiramente deslocados, permitiriam a edificação de estruturas com esta dimensão e
robustez (Fabião, 1998, p. 286). Esta mesma adaptação às condições locais é proposta para as cons‑
truções itálicas (Moret, 1999), pelo que se pode depreender tratar­‑se mais de um determinismo
geográfico que um modo de construção culturalmente enraizado.
Todavia, como o último autor bem realça, existem claras afinidades entre estas diversas reali‑
dades, para além do aparelho, como são a planta compacta, a enorme robustez da construção, a
instalação em áreas periféricas e o espectro cronológico, a transição entre a República e o Império
(Moret, 1999, p. 67), pelo que pode efectivamente existir uma raiz comum entre as construções
itálicas e as peninsulares.
A funcionalidade destes edifícios é difícil de discernir, em grande medida devido à ausência
de trabalhos aprofundados de escavação. As características arquitectónicas e a implantação topo‑
gráfica são variáveis que podem permitir uma aproximação à funcionalidade de cada um deles,
todavia, a diversidade de soluções apresentadas e a escassez de recintos-torre conhecidos, limita de
sobremaneira as leituras possíveis. A imponência do aparelho construtivo confere-lhe um aspecto
fortificado, turriforme, bastante coerente com uma provável função defensiva ou de vigilância, a
qual se coaduna pouco com a implantação topográfica em locais pouco elevados. A utilização de
um aparelho de grandes dimensões, com blocos geralmente pouco afeiçoados, efectivando uma
estrutura bastante sólida, de execução aparentemente expedita, poderia apontar para períodos de
grande instabilidade, onde se justificasse a construção rápida de estruturas robustas, com intuito
defensivo.
Uma função de carácter mais “civil”, parece-me coadunar-se pouco com um aparelho de gran‑
des dimensões e uma construção pouco cuidada, como acontece em vários deles. Por outro lado, a
sua implantação em áreas pouco declivosas torna desnecessária a presença de potentes embasa‑
mentos ou muros de contenção de terras, que em outras situações parecem justificar o recurso a
tão imponente aparelho. A sua implantação em ligeiras elevações ou áreas aplanadas, fronteiras a
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e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora
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bons solos agrícolas, poderá indiciar uma função civil, agrícola. Estes poderão ser as verdadeiras
villae fortificadas que tanto se quis ver no Castelo da Lousa ou nos castella baixo-alentejanos (Wahl,
1985; Alarcão, 1988); todavia, esta interpretação parece-me demasiadamente linear, na justa
medida que não disponibiliza uma clara leitura de todas as realidades identificadas, não justifi‑
cando, igualmente, a sua ausência em áreas de grande fertilidade agrícola, que posteriormente
viriam a conhecer um intenso povoamento rural ao longo de todo o Império. A proximidade de
bons solos agrícolas favoreceu, certamente, a integração destes locais em grandes villae, mas já num
contexto social e económico completamente diferente daquele que parece ter assistido à sua fun‑
dação. O caso específico do Outeiro da Mina (Monforte), situado no fundo do vale, junto de um
vau, num pequeno esporão com alguma defensabilidade para Sul, demonstra claramente que a
instalação de recintos-torre deveria resultar da conjugação de diversas variáveis, ainda difíceis de
isolar, e não unicamente da presença de bons solos agrícolas.
Nos casos onde, efectivamente, se encontram vestígios de amplas villae na envolvente dos
recintos­‑torre (caso da Sempre-Noiva), pode-se estar perante um fenómeno de aglutinação da
estrutura central, enquanto edificação de prestígio, tal como parece ter acontecido no caso da
Torre de Centum Celas (Frade, 1993-1994). No entanto, o facto de alguns recintos‑torre alenteja‑
nos não se encontrarem integrados em amplos conjuntos arquitectónicos do tipo villae, caso do
Mariano ou do Outeiro da Mina, deixa bem claro, creio, que o móbil da construção de edifícios
com estas características não estaria, obrigatoriamente, associado à componente áulica da pars
urbana das villae alentejanas.
As situações onde se deu a solução de continuidade na ocupação poderiam evidenciar uma
tentativa falhada de exploração do território. O sítio do Outeiro da Mina, ao implantar‑se junto de
um importante vau da Ribeira de Almuro, sobre o qual detém alguma defensabilidade, poderá
evidenciar uma função diversa para os recintos­‑torre. Este recinto parece implantar­‑se, a par dos
fortins do Penedo do Ferro, Malhada das Penas e Beiçudos, ao longo de uma via de transitabilidade
natural SE­‑NW, acompanhando o curso da Ribeira do Almuro/Ribeira Grande, dos quais consti‑
tuiriam pontos de controlo em lugares-chave. Assim, numa perspectiva geral, os recintos-torre
poderão ter desempenhado funções diversas, respondendo a estímulos distintos e localizados,
variando em função das condicionantes imediatas. Deste modo, a sua distribuição não deverá
associar-se a qualquer realidade única, ou em resposta a uma função específica, antes representa
um dos modos possíveis de instalação em meio rural, a par dos restantes fortins, num momento
precoce da “romanização” dos campos. A única condicionante que parece influenciar a distribui‑
ção destes edifícios é a disponibilidade de matéria-prima, não se tendo registado qualquer caso de
descontextualização geológica destas edificações.
A análise da função desempenhada pelos recintos‑torre está certamente relacionada com a
sua cronologia de ocupação, tornando-se, então, absolutamente fulcral determinar o contexto his‑
tórico específico em que se desenvolvem.
Creio que se começa a dispor de um conjunto suficientemente sólido de dados que permita
assegurar a sua instalação dos recintos-torre ao longo da 2.ª metade do século I a.C., talvez com
maior incidência nos finais do 3.º e no último quartel, acompanhando a tendência geral reconhe‑
cida no conjunto dos fortins alentejanos (Mataloto, 2002).
Os dados disponíveis para a envolvente do Castelo dos Mouros parecem coadunar-se com
esta tendência, bastante mais bem definida no recinto do Mariano, com idêntico perfil cronoló‑
gico (Mataloto, 2002, 2004).
Se o início do fenómeno construtivo apresenta apenas alguns indícios, o final não parece ser
menos problemático, devido à escassez de dados manifestada pela maioria destes edifícios e ao facto
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O Castelo dos Mouros (Graça do Divor, Évora): a arquitectura “ciclópica” romana
e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora
de vários deles estarem integrados em villae. Ao desconhecer-se o seu momento de fundação torna-se
extremamente difícil, sem recurso a escavações, isolar o momento, se é que alguma vez existiu, em
que perdem a funcionalidade inicial e, tal como creio, são integrados numa estrutura produtiva/
habitacional mais ampla, a villa. O recinto-torre do Mariano parece ser, como já se apontou, paradig‑
mático, ao entregar um conjunto de materiais exclusivamente do final do período republicano, evi‑
denciando uma ocupação muito curta no tempo. Perante este facto, é possível que os recintos-torre
perdessem a sua funcionalidade específica muito rapidamente, permanecendo alguns ocupados por
razões distintas da original. O recinto­‑torrede Hijovejo, na Extremadura espanhola, parece ter conhe‑
cido um processo idêntico, encontrando-se abandonado e parcialmente desmantelado quando foi
integrado no complexo habitacional imperial (Rodríguez Díaz & Ortiz Romero, 2003). A localização
destas edificações em áreas de grande riqueza agrícola poderia justificar não só a sua fundação, mas
também a continuidade de ocupação, mesmo que tal implicasse ligeiras deslocações dos conjuntos
edificados, como parecem apontar os dados aqui avançados.
Os restantes fortins, talvez à excepção das casas fortes, não parecem ter acompanhado este
processo de integração no Mundo provincial romano, sendo na sua maioria abandonados defini‑
tivamente antes, ou na viragem da Era, após ocupações cronologicamente restritas. A sua localiza‑
ção em ásperos alcantilados rochosos ou em destacadas serranias, pouco se coaduna com a insta‑
lação do Mundo rural romano, de clara vertente agropecuária.
Julgo ainda relevante efectuar uma breve menção às realidades “megalíticas” romanas em meio
rural conhecidas no Sul peninsular, principalmente na área meridional do território extremenho e
do Alto Guadalquivir, favorecendo um melhor enquadramento do conjunto alto alentejano.
Ainda antes de avançar para o território extremenho será necessário assinalar a presença, por
enquanto isolada, de um destes recintos em território baixo-alentejano, em Ferreira do Alentejo
(Fabião, Norton & Cardoso, 1997), indiciando com clareza um maior espectro de distribuição destas
realidades no actual território nacional, ainda largamente encoberto pela geografia da investigação.
O recinto da Casa Branca, tal qual o descrevem os seus autores, apresenta claras semelhanças
com os alto alentejanos, ainda que assuma dimensões bem superiores. O aparelho de construção é
igualmente de grande dimensão e pouco afeiçoado, assumindo um espectro cronológico clara‑
mente tardo­‑republicano (Fabião, Norton & Cardoso, 1997, p. 39), tal como vem sendo proposto
para os recintos-torre alto-alentejanos.
A área extremenha tem assumido um papel de vanguarda no estudo destas realidades “cicló‑
picas” de época romana, apresentando o único destes monumentos escavado em extensão até ao
momento, Hijovejo (Rodríguez Díaz & Ortiz Romero, 2003). Trata-se de um grande recinto de
planta quadrangular instalado sobre um enorme batólito granítico, dotado de um conjunto de
construções periféricas que se foram instalando progressivamente. Os autores remetem a sua fun‑
dação para o primeiro quartel do século I a.C., relacionando-o com o primeiro período das Guerras
Civis romanas, ainda que se desconheça em que se baseiam para tão recuada datação. Por outro
lado, assumem que os mais de trinta recintos conhecidos na região extremenha de La Serena cor‑
responderão, na sua maioria, a um único movimento de instalação desenvolvido durante esse
momento, decorrente de um qualquer plano de patrulhamento de toda esta comarca mineira
(Rodríguez Díaz & Ortiz Romero, 2003).
Esta é, de facto, uma proposta bastante sugestiva, que permitiria enquadrar globalmente os
recintos “ciclópicos” da área de La Serena, dando-lhe uma unidade crono-funcional difícil de
entrever, desta forma, no território alentejano.
No entanto, a visita que tive oportunidade de efectuar a diversos deste recintos extremenhos2
deixou uma imagem sobejamente distinta da coerência do grupo. Neste momento, julgo manifes‑
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tamente premente uma revisão e seriação efectiva de todo o conjunto, que permita, tal como acon‑
teceu em território alentejano, uma maior caracterização por grupos, na justa medida em que
diversas destas instalações não são, de todo, construções “ciclópicas”, sendo patente a diferença
entre edifícios do tipo Hijovejo ou Dehesa Boyal, face a outros como Avenoso ou mesmo Rincón
Porquero 1 e 2, que muito dificilmente se poderão sequer incluir na categoria de recintos-torre
(Fig. 17).
Deste modo, creio que será de rever, ou documentar melhor, a pretensa unidade do conjunto,
e a sua funcionalidade primária enquanto rede de patrulhamento e vigia de toda a região. Na rea‑
lidade, nos trabalhos mais antigos esta unidade do conjunto era bem menos patente, deixando-se
entrever a enorme diversidade de soluções arquitectónicas inerentes aos recintos de La Serena
(Ortiz Romero, 1991).
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Fig. 17Recintos-torre da Extremadura (La Serena): 1 – Hijovejo; 2 – Dehesa Boyal; 3 – Cancho Roano; 4 – Avenoso; 5 – Rincón
Porquero 2; 6 – Rincón Porquero 1.
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O Castelo dos Mouros (Graça do Divor, Évora): a arquitectura “ciclópica” romana
e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora
As edificações andaluzas do Alto Guadalquivir sofrem, creio, de idêntico problema. Apesar
dos intensos e relevantes estudos desenvolvidos nos últimos anos (Moret, 1995, 1999, 2004), que
em muito contribuíram para a intensificação do debate, e para um esclarecimento mais cabal do
possível enquadramento histórico destas edificações.
As construções andaluzas apresentam, geralmente, uma muito maior qualidade construtiva
que as congéneres mais ocidentais, integrando um verdadeiro opus quadratum, mais raro no Alen‑
tejo, ainda que sigam um mesmo conceito arquitectónico. Segundo P. Moret (1995, 1999), o pro‑
cesso de instalação dos recintos andaluzes em meio rural teria decorrido a par da implantação e
desenvolvimento do mundo provincial, a partir da viragem da Era, constituindo um fenómeno
mais tardio que o reconhecido no território extremenho e alentejano. Este modelo de instalação
ocuparia, essencialmente, terrenos mais difíceis e parcelados, menos propícios a explorações do
tipo villae, que floresceriam nas áreas de melhores solos, rio abaixo (Moret, 1999, p. 82).
Todavia, como já em outro local apontei, tenho algumas reservas quanto a este desfasamento
cronológico, em particular por se tratar de uma ampla região que terá sido ocupada e pacificada
anteriormente ao Ocidente peninsular (Mataloto, 2002). As minhas reservas decorrem, principal‑
mente, do facto de ser sistematicamente ignorada a menção, nos trabalhos de Fortea e Bernier
(1970), da recolha de cerâmica campaniense em sítios como Torre Morana, Calderón, Cuevas de
Sequeira, Cornicabra, Sastre, entre outros (Fortea & Bernier, 1970, p. 33, passim), o que permite,
creio, entrever uma fase de arranque destas instalações em momentos mais próximos aos propos‑
tos para os territórios ocidentais.
5. Os recintos-torre e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora no contexto
histórico do Sudoeste peninsular
A estabilização do Império e a reorganização do espaço provincial nos finais do século I a.C.
constituiu um novo momento da instauração do poder de Roma; todavia, o modo titubeante
como surgiram as novas províncias (Pérez Vilatela, 2000), poderá constituir um bom indício sobre
a dificuldade sentida em reorganizar um espaço que, apesar de há muito controlado, ainda não
seria devidamente conhecido e ocupado.
A fundação de cidades, colónias ou não, será um passo absolutamente determinante na nova
política de ocupação e apropriação territorial do Império, traçada entre César e Augusto.
A fundação, provavelmente ex nihilo, da cidade de Liberalitas Iulia Ebora (entre 31 e 27 a.C.:
Faria, 2001, p. 355) e da capital da província da Lusitânia, Augusta Emerita (22 a.C.: Pérez Vilatela,
2000, p. 82), marcará, sem margem para dúvida, toda a dinâmica da instalação romana no territó‑
rio alto-alentejano.
Apesar de quase duas décadas de intensos trabalhos arqueológicos na cidade de Évora, inten‑
sificados nos últimos anos, pouco ou nada se sabe, efectivamente, da evolução da cidade romana à
margem do esboçado em torno de alguns grandes edifícios, caso do templo (Hauschild, 1994) ou
das termas (Correia, 1993; Sarantopoulos, 1994). Nada, ou muito pouco, se sabe das dinâmicas
comerciais da cidade e do modo como se relacionava com o seu ager, ainda que seja de supor que
não fosse substancialmente distinto do reconhecido para outras cidades interiores.
A cronologia de fundação proposta para os fortins em geral, e os recintos-torre em particular
(Mataloto, 2002, p. 218), parece acompanhar, ou anteceder ligeiramente, a fundação destas entida‑
des urbanas, preconizadoras de uma verdadeira integração do espaço alentejano na construção do
mundo provincial romano.
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e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora
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Fig. 15Fortins romanos do Alto Alentejo.
Creio que terá sido a necessidade de conhecer e controlar o território, previamente à sua rees‑
truturação, que terá justificado a instalação destas unidades de povoamento ainda muito marca‑
das pela arquitectura militar. A dispersão dos fortins nesta vasta região integrar­‑se­‑ia numa lógica
de reconhecimento, apropriação e exploração do território, num momento onde, após a instabili‑
dade gerada pelos diversos episódios das Guerras Civis, se começaria a esboçar um novo quadro
institucional de ocupação e ordenamento das velhas províncias (Fig. 18).
De momento, apenas se conhecem instalações deste tipo para nordeste de Évora, situadas no
máximo a duas dezenas de quilómetros da cidade, apesar de o seu território já ter sido intensiva‑
mente prospectado (Calado, 2003).
Os fortins reconhecidos nas imediações de Liberalitas Iulia Ebora situam-se todos numa envol‑
vente alargada da Graça do Divor, tal como acontece com o Castelo dos Mouros. Ligeiramente para
Oeste deste, sobre uma pequena elevação de vertentes bem vincadas, implanta-se a torre de Vale d’El
Rei. O recinto-torre da Sempre-Noiva localiza-se a escassos quilómetros para nascente do Castelo dos
Mouros utilizando, como este, um imponente aparelho ciclópico. Para nordeste, já no concelho de
Arraiolos, localiza-se a casa forte de Santa Justa, de aparelho relativamente cuidado, mas de grande
dimensão. O Castelo do Mau Vizinho, um possível recinto, situa-se igualmente nesta área. Também
nas imediações destes se localiza a pequena ocupação do Vale do Pereiro, tida como da Idade do Ferro
(Calado & Rocha, 1997, p. 105), mas que creio tratar-se, na realidade, de um recinto fortificado tardo-
-republicano, que se enquadra totalmente no contexto dos fortins alentejanos (Mataloto, 2002).
O estudo do povoamento tardo-republicano e de inícios do período Imperial no território
alto alentejano encontra-se ainda numa fase muito embrionária, limitando sobremaneira qual‑
quer tentativa de enquadramento territorial dos fortins.
No entanto, é necessário teremos em linha de conta que a inconstância do poder de Roma
ao longo de toda a primeira metade do século I a.C., com os dois episódios das Guerras Civis,
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O Castelo dos Mouros (Graça do Divor, Évora): a arquitectura “ciclópica” romana
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acabou por se reflectir no espaço peninsular, provocando bastante instabilidade que veio a afec‑
tar directamente todo o Sul da península em geral, e o Ocidente em particular, como nos trans‑
mitem as fontes clássicas (Varrão, R. R., I. 16.2, apud Fabião, 1998, p. 520; Bellum Hispaniense,
passim, apud Moret, 1999), e nos deixam entrever as celebrações de triunfo em Roma, pelos gover‑
nadores da Hispânia (Fabião, 1992, p. 227). A instabilidade acabaria por gerar um cenário aparen‑
temente hostil e incerto que poderia justificar a utilização de uma arquitectura de cariz defensivo
numa nova rede de ocupações estimulada pelo poder de Roma, até momentos muito avançados
do século I a.C.
O povoamento indígena parece sofrer uma forte reestruturação nos finais do século II/inícios
do século I a.C., detectando-se a continuidade de ocupação em alguns dos que são, ou se tornam,
os maiores povoados da região, caso de Vaiamonte (Monforte), Castelo Velho de Veiros (Estre‑
moz), Serra de Segóvia (Campo Maior), Évora Monte (Estremoz), Castelos do Monte Novo (Évora)
ou Castelo Velho do Degebe (Reguengos). Este facto não invalida que outros de menores dimen‑
sões, como o Alto do Castelinho da Serra (Montemor-o-Novo), Granja (Estremoz) ou Castelo das
Juntas (Moura), permaneçam ocupados durante este período, tornando evidente que não foi um
processo linear.
A ausência de estudos aprofundados não permite caracterizar efectivamente a ocupação e a
diacronia destes povoados, limitando a avaliação do seu papel como grandes centros populacio‑
nais. Não é certo que todos eles permaneçam ocupados até ao início do período Imperial, podendo,
como é o caso de Vaiamonte, de longe o mais bem conhecido, cobrir apenas parte da diacronia
republicana (Fabião, 1996, p. 60).
Apesar do escasso conhecimento que detemos sobre eles, creio que continuaram a ser os prin‑
cipais centros habitacionais até à fundação das novas cidades romanas, permanecendo alguns ocu‑
pados muito para além deste momento. A exemplo deste facto será importante referir que, no caso
concreto do Castelo Velho do Degebe os vestígios materiais da ocupação republicana são pouco
significativos se comparados com a abundância de terra sigillata itálica e da Gália, evidenciando
uma vitalidade absolutamente inusitada3 no arranque do período imperial.
Numa perspectiva geral, a presença destes focos de povoamento não parece ter desempe‑
nhado um papel relevante na distribuição dos fortins no Alto Alentejo, na medida em que, como
já se referiu, não aparentam ter centralizado qualquer tipo de concentração na sua envolvente, a
modo de policiamento, o que não obsta que, por vezes, estejam estreitamente relacionados em
termos visuais, como acontece entre o fortim dos Beiçudos e Vaiamonte ou entre o Caladinho e o
povoado fortificado do Monte do Outeiro. Todavia, é importante ressalvar que a recente reavalia‑
ção das antigas ocupações de Évora Monte pelo Prof. Dr. Manuel Calado e a associação deste local
à importante cidade de Dipo (Guerra, 1998; Alarcão, 1988, 2001) poderiam fazer recentrar a ques‑
tão, na justa medida em que muitos dos fortins se dispõem num arco não muito alargado desta;
no entanto, certamente que não se disporiam todos em função deste local, que terá sido um dos
centros capitais do período tardo-republicano no território alentejano.
Se as estruturas de povoamento de raiz indígena se encontram muito mal conhecidas, já as
realidades de aparente fundação romana disponibilizam um conjunto de dados ligeiramente
maior. A recente intervenção no sítio do Monte da Nora (Gonçalves, Morán, Posselt & Teichner,
1999) e a reavaliação do papel desempenhado pelo Castelo da Lousa clarificam um pouco melhor
o contexto tardo-republicano regional em meados do século I a.C. Ambas as instalações apresen‑
tam características, na minha perspectiva, eminentemente militares (Mataloto, 2002, p. 213), dei‑
xando entrever um contexto local ainda bastante inseguro nos meados do século I a.C., quando
são aparentemente fundados, que justificasse a presença de importantes destacamentos militares
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na região. Estas instalações militares parecem ter surgido, segundo proposta recente (Fabião, 1998,
p. 264), num contexto de reinstalação do poder de Roma, após a forte desestabilização que os epi‑
sódios sertorianos criaram no Ocidente peninsular. Este facto traz-nos de novo à colação a cidade
de Dipo, e logo Évora Monte, na justa medida em que foi um dos palcos deste mesmo conflito
(Fabião, 1998, p. 55; Alarcão, 2001, p. 39).
Este processo de “reconquista”, marcado por fortificações bastante menores que os grandes
acampamentos, constituiria o primeiro passo de uma nova estratégia de ocupação, da qual viria a
resultar, menos de um século depois, a sociedade provincial romana. Os fortins alentejanos seriam,
então, em minha opinião, um segundo momento deste processo, prévio à ocupação rural dos
campos (Mataloto, 2002, 2004).
O início da ocupação rural de cariz agrícola é, praticamente, desconhecido no Alto Alentejo,
ainda que em algumas villae tenham sido identificados materiais de cronologia tardo-republicana
e do início do período imperial. Recentes trabalhos de escavação na villa de Santa Vitória do Amei‑
xial (Estremoz) permitiram identificar um primeiro momento de ocupação augustano, atestado
pela presença de terra sigillata itálica, paredes finas e ânforas da classe 15/Haltern 70 (Gomes,
Macedo & Brazuna, 2000, p. 61).
No território de Pax Iulia (fundada entre 31-27 a.C.: Faria, 2001, p. 352), o início da ocupação
rural romana parece efectivar-se, através da instalação de colonos, ainda antes da mudança da Era,
como se pôde verificar na área da Vidigueira (Sillières, 1994, p. 92) ou na villa das Neves (Castro
Verde) (Maia & Maia, 1996, p. 92). É bastante plausível supor que no Alto Alentejo a instalação
rural romana de cariz agrícola possa ter acompanhado o processo baixo alentejano, à semelhança
do parece acontecer com a fundação das entidades urbanas, veja-se o caso da villa da Tourega
(Pinto & Lopes, 2006, p. 213).
A confirmar-se esta possibilidade, os fortins em geral, e os recintos-torre em particular, esta‑
riam certamente em actividade no desenrolar deste processo, partilhando o espaço com as ocupa‑
ções de cariz eminentemente agrícola, que marcarão a paisagem rural ao longo de todo o período
imperial.
Na realidade, desta coexistência decorrerá, essencialmente, um processo de adaptação ou
abandono, perceptível pela integração, ou não, de algumas destas estruturas megalíticas romanas
em amplas villae, como foi já apontado.
Redondo, Idos de Março de 2008,
revisto e ampliado no Outono de 2008
notas
*
1
Rui Mataloto – Município de Redondo; [email protected]; será publicada uma versão reduzida deste texto na revista A Cidade de Évora.
Gostaria de inserir uma nota de gratidão a Susana Estrela,
Catarina Alves, Helena Barranhão, Pedro Lourenço, Bruno Fernandes entre outros, que participaram no desenho dos alçados, aqui apresentados.
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2
3
Gostaria de agradecer aos colegas e amigos V. Mayoral e E. Cerrillo,
do Instituto de Arqueologia de Mérida (CSIC), a oportunidade que
foi concedida a mim e a Mário de Carvalho de integrar as equipas de prospecção por eles coordenadas na região de La Serena.
Estes dados resultam de uma abordagem preliminar, efectuada
por mim e pelo Dr. Pedro Barros, ao conjunto de materiais daí
provenientes em depósito na EDIA – Empresa de Desenvolvimento
da Infraestrutura de Alqueva.
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Rui Mataloto
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e a romanização dos campos de Liberalitas Iulia Ebora
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