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“EU SINTO QUE ESSA VIDA JÁ ME FOGE”: A PEDAGOGIA DOS
“EU SINTO QUE ESSA VIDA JÁ ME FOGE”: A
PEDAGOGIA DOS ESPAÇOS NAS TESSITURAS DE
SINHAZINHA WANDERLEY
Roberg Januário dos Santos*
Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – UNIFESSPA
[email protected]
Iranilson Buriti**
Universidade Federal de Campina Grande – UFCG
[email protected]
RESUMO: Educar ou praticar atividades de cunho pedagógico não se resume apenas ao exercício da
docência em sala de aula. O ato de ensinar e suas formas são manifestados também em outras ocasiões e
circunstâncias, como ensinar a amar uma cidade, educar os mais novos para que aprendam a valorizar
vivências de outro tempo, cultivar nas gerações o reconhecimento de posturas, concepções e modos de fazer
e dizer uma espacialidade. É assim que este artigo propõe a partir dos pressupostos da histórica cultural,
estudar a trajetória da professora e poetisa Maria Carolina Wanderley Caldas (Sinhazinha Wanderley),
nascida em 1876 na cidade do Assú, no Rio Grande do Norte, pertencente à família de destaque na cena
social assuense: Wanderley. Ela foi professora do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, em Assú,
no qual introduziu novas atividades pedagógicas tidas como modernas à época, a exemplo de atividades
lúdicas, músicas, poesias, entre outras. Exerceu suas atribuições docentes por mais de quatro décadas no
cenário educacional assuense. Todavia, o domínio da escrita e da leitura proporcionou a Sinhazinha
Wanderley não só o exercício do magistério, mas o acesso à revista, jornais e a produção de letras de
músicas e poesias. Também permitiu a defesa de um “Assú de antigamente”, cidade de tradições, de códigos
culturais erguidos ainda no século XIX, espaço que circulavam os bons e velhos costumes de uma época
memorável, atravessada pela moral, pelos galanteios de homens de bravura e de palavra, um “Assú antigo”
que o presente desconhecia. A escrita desta professora fornece indícios de uma época de perda dos antigos
referenciais, a exemplo do convívio com personalidades de uma sociedade com marcas de moralidade,
romantismo, religiosidade e patriarcalismo. Para além da pedagogia escolar, Sinhazinha Wanderley tentou
educar os assuenses para que aprendessem os valores históricos do Assú situado no tempo de sua infância,
adolescência e parte da vida adulta. Sinhazinha Wanderley faleceu em 1954 na cidade de Assú.
*
Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Campina
Grande - UFCG. Atualmente é Professor e Coordenador do Curso de Licenciatura em História/IETU da
Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará - UNIFESSPA
**
Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor Associado III da UFCG.
Possui dedicação exclusiva da Universidade Federal de Campina Grande. Coordenador do Curso de
Mestrado em História da UFCG
Fênix – Revista de História e Estudos Culturais
Julho – Dezembro de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 2
ISSN: 1807-6971
Disponível em: www.revistafenix.pro.br
2
PALAVRAS-CHAVE: Magistério – Espaço – Assu.
“I FEEL THAT LIFE ALREADY ESCAPES ME”: THE
PEDAGOGY OF THE SPACES IN THE TEXTURES OF
SINHAZINHA WANDERLEY
ABSTRACT: Educate or practice-oriented educational activities is not just the practice of teaching in the
classroom. The act of teaching and its forms are also expressed on other occasions and circumstances, such
as teaching to love a city, educating the young to learn how to enhance the experiences of another time in
generations, cultivate the recognition of postures, concepts and ways of doing and saying a spatiality. Thus,
from the historical cultural assumptions, it is possible to observe the trajectory of teacher and poet Maria
Carolina Wanderley Caldas (Lady Wanderley), born in 1876 in the city of Assu, State of Rio Grande do
Norte, belonging to the family prominent in the social scene of Assu: Wanderley. She was a professor at
the Scholar Group Lieutenant Colonel José Correia, in Assu, in which introduced new pedagogical activities
regarded as modern at the time, the example of playful activities, songs, poetry, among others. She applied
their teaching assignments for more than four decades in the educational scenario of Assu. However, the
field of writing and reading provided to Lady Wanderley not only the practice of teaching, but access to
magazine, newspaper and the production of song lyrics and poetry. It also allowed the defense of a "Old
Assú" city of traditions, cultural codes built in the nineteenth century, space where used to circle the good
old customs of a memorable season, crossed the moral, the gallantry of men of bravery and word, an "old
Assú" the present didn’t know. The writing of this teacher provides evidence of a time of loss of ancient
references, such as the interaction with personalities from a company with marks of morality, romanticism,
religiousness and patriarchy. Beyond the school pedagogy, Lady Wanderley tried to educate the people
from Assú to learn the historical values of the city situated at the time of her childhood, adolescence and
part of adulthood. Lady Wanderley died in 1954 in the city of Assu.
KEYWORDS: Teaching – Space – Assú
INTRODUÇÃO
Vou folhear o livro da minha alma, para dele
arrancar uma página do passado que vou
transmitir singela e sinceramente, nestas
anotações ligeiras que lhe transmitir e
principio como disse Cassimiro de Abreu,
poeta brasileiro
“Eu sinto que esta vida já me foge,“Qual
d’arpa o som final”.
Sinhazinha Wanderley
A epígrafe de autoria da professora e poetisa Maria Carolina Wanderley Caldas
(Sinhazinha Wanderley) traduz um discurso de despedida, de quem estava próximo da
morte, aos oitenta anos de idade, sofrendo de enfermidades como hipertensão, inflamação
no fígado e rins. É um depoimento de quem sente o cheiro da morte, de quem arranca do
passado suas velhas e boas lembranças, de quem sente a vida escapar entre os dedos que
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escrevem um manuscrito destinado ao Assú,1 cidade que, conforme Sinhazinha, precisava
conhecer os “bons” e “velhos” costumes de uma época memorável, atravessada pela
moral, pelos galanteios de homens de fino trato. Em seus escritos, Sinhazinha Wanderley
tece uma pedagogia da memória sobre o “Assú antigo” que o presente desconhecia.
Assim, não só lhe fugia a vida enquanto existência, mas a história de vida, a trajetória de
uma cidade de tradições, de uma cultura delineada no passado, haja vista que seu
nascimento se dá em 30 de janeiro de 1876, portanto, sua infância decorre ainda em boa
parte do século XIX.
As Anotações, narrativa autobiográfica e histórico/memorialística da autora,
também expressam uma atitude de solidão, não só em função da vida solitária que ela
levava sem filhos, sem pais, sem irmãos e sem alunos, depois que deixou de lecionar no
Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, no qual ministrou aulas por quase quatro
décadas. Mas sua solidão também era advinda do momento em que vivia, um presente
que não lhe correspondia mais aos velhos e bons anos de professora no grupo, suas
participações no teatro e nos cânticos na Matriz de São João Batista, sua convivência com
o pai João Carlos Lins Wanderley, seu irmão Ezequiel Wanderley. Seu tempo de
sinhazinha, marcado pela presença dos coronéis, homens de patente, pelo status de ser
filha do considerado primeiro médico potiguar, parecia, agora, distante. Sua escritura
evidencia a falta do convívio com uma gramática espacial identificada como Assú dos
“tempos antigos”, tempos de grandes sobrados, da presença efetiva dos Wanderley, das
velhas feiras, das tradicionais festas de São João, de eventos como a libertação dos
escravos, aulas de latim, primeiro jornal, espaços como a Casa de Caridade, o Grupo
Escolar, o Quadro da Rua, a Matriz de São João Batista, o primeiro jornal, entre outros
espaços educativos.
A obra Anotações se constitui num alerta acerca do perigo dos novos tempos. A
poetisa lamenta o desapego ao passado e, ao mesmo tempo, desconfia de todo esse
conjunto de coisas que emergem na sociedade pós Segunda Guerra Mundial. Em meio a
tudo isso, a solidão existencial se coadunava com a solidão vivencial, por isso, enfatizou:
“sou um ser que vivo o presente, recordando o passado”.2 Sinhazinha fornece indícios de
uma época de perda dos antigos referenciais, o que implica refletir acerca de certa crise
1
O topônimo pode ser escrito de três formas: Assú, Assu e Açu. Neste artigo, adota-se a grafia “Assú”.
2
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p.1.
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identitária sentida por ela, crise que pode ser pensada, conforme Dubar, como
“perturbações de relações estabilizadas entre elementos estruturantes da atividade”3 de
identificação, modo pelo qual o sujeito, mediante o exercício da diferença, categoriza os
outros e a si mesmo. Assim, Sinhazinha Wanderley em Anotações (1954) coloca-se em
palavras para demarcar sua identidade e sua identificação para com o espaço assuense.
Conforme Dubar:
As questões de identidade são fundamentalmente questões de
linguagem. Vimos isso ao longo de todo o livro: identificar-se ou ser
identificado não é somente “projeta-se sobre” ou “identificar-se com”:
é, antes de tudo, colocar-se em palavras. Identificar é colocar nomes em
classes de objetos, categorias de fenômenos, tipos de processo, etc. A
linguagem não é uma “superestrutura”, é uma componente maior da
subjetividade.4
As Anotações de Sinhazinha Wanderley traduzem o rearranjo de suas
experiências vividas no “Assú dos velhos tempos”, como assim ela considerava. Dessa
maneira, a viagem de busca de Sinhazinha possui o interesse de encontrar mundos
profissionais, familiares, educacionais, religiosos e políticos vinculados ao tempo que ela
considerou como arquetípico. Para alcançar esses mundos, essa poetisa sentiu
necessidade de enunciá-los como forma de autoafirmação e identificação. Desse modo, a
busca desses “mundos”, por parte de Sinhazinha Wanderley, convergia para uma
paisagem assuense inscrita nos tempos antigos, aqueles em que a poetisa poderia
encontrar as mais “autênticas” tradições. Por isso, levando em consideração que o espaço
também é produção discursiva, entendem-se os relatos produzidos pela poetisa como
práticas de espaço, desencadeadas na linguagem que os movimenta no sentido de situálos num passado memorável.
Assim, este texto tem como objetivo problematizar a escrita dessa professora,
mapeando os indícios de uma época marcada pela perda dos antigos referenciais, a
exemplo do convívio com personalidades de uma sociedade com signos de moralidade,
romantismo, religiosidade e apego à tradição. Para além da pedagogia escolar, Sinhazinha
tentou educar os assuenses para que aprendessem os valores históricos do Assú situado
no tempo de sua infância, adolescência e parte da vida adulta. Seja bem vindo aos “tempos
de antigamente”, folheando os livros da alma da Sinhazinha.
3
DUBAR, Claude. A crise das identidades: a interpretação de uma mutação. São Paulo: Edusp, 2009,
p. 20.
4
Ibid. p.237.
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1 - “VOU FOLHEAR O LIVRO DA MINHA ALMA, PARA DELE ARRANCAR UMA
PÁGINA DO PASSADO”: ENUNCIAÇÕES DE SINHAZINHA SOBRE A
PEDAGOGIA DOS ESPAÇOS ASSUENSES
Os enunciados de Sinhazinha Wanderley podem ser inscritos como uma
contraposição às novas formas de comportamento desenvolvidas pela sociedade após os
anos de 1950, pois em vários momentos de suas Anotações (as quais ela deixou para seu
primo, Boanerges Wanderley, datilografá-las), ela realizou críticas aos novos costumes
da sociedade. A cena da escritura de Sinhazinha pode ser, em parte, compreendida no
depoimento do jornalista Franklin Jorge:
Nasceu Sinhazinha num lar burguês e aristocrático, bem provido de
tudo, inclusive de livros e documentos que ampliaram seu
conhecimento da cultura do Assu. Um meio doméstico onde a discussão
de ideias era rotineira. Destituída de vaidades intelectuais, quis apenas
utilizar em benefício do aprendizado, suas próprias memórias natais. A
memória de um Assu que alvorecia e caminhava, sob a sua luz, em
direção do futuro circunstancial e plástico. São informes preciosos que
proporcionada aos seus alunos: a festa dos índios – habitantes
primitivos desse lugar -, seus torneios olímpicos e costumes ancestrais,
a progressão do tempo e uma ternura constante quando trata da história
do Assu e dos seus alunos do Grupo Escolar Tenente-Coronel Jose
Correia, que engrandece com o seu amor ao magistério, sua abnegação
ao aprendizado de seus alunos, e as inovações que incrementou no
método de ensino, por conta própria, levando-os a estudar in loco a
história do Assu, cidade que teve em Sinhazinha Wanderley uma
preservadora bem sucedida. Sinhazinha pensou global e agiu local,
talvez por isso adquirindo a fama de excêntrica, ao percorrer a cidade
calçando Congas – calçado de brim, precursores do tênis -, o cabelo
cortado á la garçonne, á máquina como o dos rapazes, bem curtinho;
andava Dona Sinhazinha sobre as calçadas [quando havia-as], munida
de sombrinha, o passo lépido levando-a por todo o canto, muito ligeira
apesar da idade já avançada. Ezequiel Wanderley, seu irmão, escreveu
sobre Sinhazinha em sua antologia dos poetas do Rio Grande do Norte,
publicada em 1922, livro que trouxe para o Assu a fama universal de
“Atenas norte-riograndense” [grifo nosso], numa consagração ao
numero de seus poetas que ali se fizeram representar, fato contestado
por seus contemporâneos que acusavam Ezequiel de privilegiar a sua
terra natal com esse titulo que devia caber a Natal.5
Esse discurso do jornalista acima citado torna-se fecundo para se compreender
o lugar social de onde emergiu Maria Carolina Wanderley Caldas, advinda de um reduto
5
JORGE, Franklin. Lembranças (esquecidas) do Assu. 04 mar. 2012 Disponível em:
<http://novojornal.jor.br/blog/2012/03/04/jornal-de-franklin-jorge-lembrancas-esquecidas-doassu>Acesso em 20 de abril de 2012.
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tido como tradicional e composto por lideranças familiares ainda exercidas por homens
de patente (coronel, tenentes, etc.), políticos e, ao mesmo tempo, permeado pelas artes
cênicas e literárias. Basta citar que a mesma era neta do Coronel Manoel Lins Wanderley
e filha de Luís Carlos Lins Wanderley, considerado como um dos primeirros médicos
potiguares, foi um homem das letras, com produções de obras literárias e atuação no
magistério, oportunidade em que chegou a ser diretor do Atheneu Norte Riograndense,
espaço escolar de referência no cenário potiguar durante a época imperial, com sede na
cidade de Natal. Além do mais, seus irmãos tiveram militância no cenário literário do
Estado, como Ezequiel Wanderley, tido como um dos mais conhecidos dramaturgos do
cenário potiguar, e o poeta Segundo Wanderley, conhecido pelo segmento letrado do
Estado como um dos mais destacados poetas de sua época.
Além disso, Sinhazinha Wanderley nasce no momento em que o “[...] projeto de
educação da mulher, desde seus inícios parte da revolução burguesa que, no Brasil,
começa a tomar corpo ao longo dos anos 70 do século passado [XIX], época em que
também se intensificam as campanhas em prol da instrução feminina”.6 Toda essa
atmosfera a conduziu ao magistério, sendo o seu espaço de iniciação à docência o Grupo
Escolar Tenente Coronel José Correia (Assú).7 Sua prática de ensino apresentava métodos
considerados modernos para a época, como passeios e representações teatrais, daí, por
exemplo, ao inovar com aulas de campo, ela e seus alunos, ao passarem pela Avenida
Ulisses Caldas, Sinhazinha orientava os alunos cantarem o Hino dos Voluntários do
Norte, numa atitude moral e cívica homenageando personalidades militares assuenses
mortos na Guerra do Paraguai. Por meio de um trecho do referido hino, compreende-se
o sentido patriótico e pedagógico do conteúdo das aulas da referida professora, bem como
o caráter construtivo de suas Anotações em relação ao espaço assuense:
Brasileiros, soldados valentes
Que morreram salvando a nação
Não assusta ao soldado do Norte
O ribombo do canhão,
6
LAJOLO, Mariza; ZILBERMAN, Regina. A Formação da Leitura no Brasil. 2ª. ed. São Paulo: Ática,
1998, p. 261.
7
O Grupo Escolar para o contexto educacional assuense à época preconizava um aspecto novo, avançado,
pois até a criação do mesmo, a instrução assuense era realizada, grande parte, em residências de
educadores, como no caso de D. Luiza de França e D. Sinhazinha Wanderley e pela “Casa de Caridade”
(hoje Instituto Padre Ibiapina), dirigida por irmãs de caridade. Esse novo modelo de escola, submetida
a novos ritmos da sociedade industrial e capitalista, inseria no ambiente escolar novas formas de
regulamentação do trabalho docente, posto que o professor passou a conviver e utilizar diários que
continham descrição de horários, matéria, ponto, fichas pedagógicas, elaboração de relatórios, etc.
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7
Brasileiros, soldados valentes,
Que morreram salvando a nação.8
Nesta conjuntura histórico-cultural, o discurso nacional é muito forte,
principalmente em espaços propícios a sua circulação, como a escola e as igrejas. O
enunciado dos heróis nacionais assuenses ecoa novamente. O texto (Anotações) de
Sinhazinha é mais um enredo que reforça a identidade assuense por meio do patriotismo
e bravura, já que entre os soldados do Norte (hoje Nordeste) lá estavam os assuenses
Ulisses e Perceval Caldas, ambos pertencentes ao complexo familiar de Sinhazinha.
Além disso, Sinhazinha Wanderley foi uma mulher que experimentou os
elementos da vida moderna, mas demonstrando apego a sua origem, optou pelo
passadismo, preferiu o lugar dos seus antepassados, escolheu “preservar” e expressar, de
modo romântico, a história de sua cidade.
Essa escritora pode ser lida como uma das primeiras vozes femininas a escrever
“em larga escala” sobre a cidade de Assú. Além das Anotações, ela escreveu vários
sonetos em 1950 para a Revista Atualidades (Assú), vários poemas dispersos, cartas,
versos, dentre outros. De uma família ligada às letras, por meio da condição de docente
se projetou num mundo da escrita e nele se afastou dos recônditos estritamente
domésticos. O alcance do mundo da escrita, por parte Sinhazinha, pode ser compreendido
através da contextualização feita por Nunes (2011) quando elenca que na passagem do
século XIX e início do século XX, as mulheres, particularmente aquelas de famílias
abastadas, quando, na sua maioria exercendo a função docente, transgrediram a
concepção de não produtoras culturais, oportunidade em que enveredaram por espaços
como o jornalístico e o literário.9 É neste contexto que Sinhazinha Wanderley representa
em sua cidade Natal o que parte de seus familiares representavam à época no cenário
cultural potiguar, ou seja, o mundo das letras e da poesia. Sinhazinha se tornou uma das
únicas poetisas assuenses, daí produzindo versos dedicados à vida religiosa, pessoas
queridas e à paisagem local:
É noite, o lampadário rebrilhante
Ponteia de ouro a “urbs” sertaneja,
O pranto da saudade lagrimeja
No coração de alguém qu’está distante
8
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, s/p.
9
NUNES, Clarice. Letras femininas: missão intelectual de professoras jornalistas na imprensa brasileira.
In: ALVES, Claudia; LEITE, Juçara Luzia (Orgs.). Intelectuais e história da educação no Brasil:
poder, cultura e políticas. Vitória: EDUFES, 2011, p. 163-181.
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A lua branca, noiva, casta amante,
No rendilhado azul, perlustra, arpeja,
Uma canção de amor e trinoleja,
Em surdina, uma nênia soluçante.
Na várzea o vento leste açoita forte,
Sussurra o palmeiral de altivo porte,
Muge o gado tristonho nos currais...
Eu recordo o passado tão ditoso,
Esse tempo tão breve, tão saudoso,
Que se foi e não voltará jamais...10
Sinhazinha Wanderley foi uma das escritoras que colaboraram para a construção
da “Terra dos Verdes Caunaubais Assuenses”, epíteto projetado em relação ao Assú
imputando a esta cidade o cenário de uma paisagem verdejante em pleno sertão
nordestino. Conforme Santos e Barros, à “Terra dos Verdes Caunaubais Assuenses” ao
lado dos epítetos “Terra dos Poetas” e “Atenas Norte-Rio-Grandense” foram construções
espaciais operadas no sentido de fornecer visibilidade para a cidade de Assú.11 Ainda no
que diz respeito aos versos acima, deve-se atentar para o caráter saudoso que Sinhazinha
encerra seus versos, relembrando, assim, um passado ditoso, o que já apresenta a tônica
de seus discursos.
Assim, mediante o conhecimento da cena que forneceu base às palavras de
Sinhazinha, uma das primeiras críticas que ela faz diz respeito aos bailes.12 A mesma
esclarece que “os bailes antigos (contavam-me os olhos) eram muito diferentes dos de
hoje. Só comparecia a elite”. A escritora narra as festas dançantes de outros tempos,
oportunidade em que comparecia a elite local, o que transparece certos atos de exclusão
social na cidade naquele momento. A festa era espaço de atos cavalheirescos, de respeito
pelas moças, ao passo que o homem convidava respeitosamente a senhorita para dançar
10
SILVEIRA, Celso da (Org.). Paisagens da Minha terra. Assú: Nordeste Gráfica, 1990, p. 13.
11
SANTOS, Roberg Januário dos; BARROS, Lucilvana Ferreira. A poética do espaço: a escrita e a
produção da paisagem dos verdes carnaubais assuenses (1950 - 1970). Revista Tempo e Argumento,
Florianópolis, v. 5, n.9, jan./jun, p. 102 – 133, 2013.
12
Deve-se registrar que os bailes em Assu, antes ocorridos no antigo cine-teatro da cidade e no Grupo
Escolar Tenente Coronel José Correia (espaço de trabalho de D. Sinhazinha), passaram, em 1953, a ser
realizados na ARCA (associação cultural e recreativa), fundada em Assú pelos funcionários do Banco
do Brasil. A ARCA foi construída na parte superior do prédio da Prefeitura Municipal, funcionando
como clube promotor de bailes dançantes.
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9
dizendo: “Vossa Excelência’ dá-me a honra”? Após descrever os bailes antigos, critica
os novos jeitos de dançar e de se divertir:
Muito diferente de hoje onde só há “salgadinhos” e bebidas de toda a
espécie [... ilegível] dispêndio louco! As danças uns nomes arrevezados
e as moças, quando acabam a parte que estão dançando, cada qual que
procure o seu lugar. E dizem que estamos no século XX, no século da
luz! Eu não não sei se porque sou velha, passadista acho mais vida no
passado! Eram comunidades por distintos cavalheiros à um passeio pelo
salão.13
Essa declaração de sinhazinha denota a diferença entre modos e comportamentos
festivos de sua época de infância e mocidade, contrastando com os anos finais de sua
vida. Ela reprovava os atos alimentares que ocorria nos novos bailes, incluindo, também,
os tipos de bebidas “loucas” que aparecem em tais festas. Censura as novas danças e os
comportamentos das moças frente a estes momentos dançantes, transparecendo certa
decepção com o cotidiano da juventude assuense.
É preciso considerar que este é um momento que Sinhazinha Wanderley se
depara com uma nova conjuntura cultural, respingada do contexto nacional, pois,
conforme Ortiz, o período entre 1945 a 1964 no Brasil foi marcado por uma forte
efervescência e criatividade cultural, oportunidade em que “as novas tecnologias: rádio,
televisão, cinema, disco, abriram as perspectivas para experiências, as mais diversas
possíveis”.14 Deve-se considerar a emergência de um maior público urbano, incluindo os
jovens, como participante de tais elementos culturais.
Como já evidenciado, o momento em que Sinhazinha escreveu corresponde ao
início da década de 1950, período pós-guerra em que se registram novos marcos
influenciadores do cotidiano, a exemplo da filosofia existencialista e sua visão de um
sujeito construtor de si, um pensamento que buscava um ser livre, oportunidade em que
os franceses Jean Paul Satre e Simone de Beauvoir pregavam que seria através da
liberdade que o homem escolheria o que queria ser. Essa perspectiva existencialista
também colaborou para a ebulição de um “mundo jovem”, para que este segmento
pudesse reivindicar liberdade, quebrar velhas concepções e valores. Alia-se a isso tudo o
surgimento do Rock’n roll americano, um grito musical que buscava sacudir, rolar,
13
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p. 7.
14
ORTIZ, Renato José. A Moderna Tradição Brasileira. Cultura brasileira e indústria cultural. 3a ed.
São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 106.
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10
fazendo menção aos movimentos sexuais. O rock, em determinadas situações,
escandalizava os padrões morais da época.
Ainda em referência à década de 1950, registra-se o aparecimento de
automóveis, como os cadillacs. O vestuário ganhava a simpatia da jaqueta de couro, da
calça rancheira, dos vestidos pensados e costurados por Yves Saint Laurent, embora os
moradores de Assu não comprassem indumentárias da Alta Costura, mas tinham roupas
inspiradas nos cortes e recortes desse estilista. Esse conjunto de coisas corresponde ao
momento em que “[...] nossa classe média cada vez mais assimilava padrões de
comportamento vindos de fora”.15 Inclusive, entre estes padrões encontra-se o
cinematógrafo, oportunidade em que comportamentos como o do herói rebelde ganhou
destaque.
Esse contexto de mudanças no cenário nacional paulatinamente atravessa o
espaço vivencial e sentimental de Sinhazinha Wanderley, pois deve-se levar em conta
alguns fatores, tais como o aumento demográfico em Assú, com uma população estimada,
em 1957, em torno de 32 mil habitantes.16 O fluxo de carros nas imediações e dentro da
cidade crescia com a construção de estradas.17 Até 1945, o município apresentava uma
frota de 32 veículos a motor que circulavam em seu território, o que implica pensar que,
com os investimentos em pavimentações e rodovias na proximidade do centro urbano,
esse número tenha aumentado.18
Nesse contexto de remodelação espacial, Dona Sinhazinha sentia o cheiro de
uma cidade mesclada por aspectos antigos e modernos, tanto é que no soneto “Assu das
11 horas”, a poetisa traduzia o cotidiano de sua cidade:
São horas de almoçar, há movimento,
Badala no mercado uma sineta,
Há gentes pelas ruas, na valeta
15
CARMO, Paulo Sérgio do. Culturas da Rebeldia: a juventude em questão. – São Paulo: Editora
SENAC, 2001, p.31.
16
AMORIM, Osvaldo. Justíssima Homenagem. O Mossoroense. Mossoró, 24 abr. 1957. n. 760, ano XI,
p. 4.
17
A construção da ponte Felipe Guerra sobre trecho do Rio Açu, obra que veio aumentar o transito de
veículos motorizados nas intermediações da cidade, perfazendo assim a ligação da capital do Estado
(Natal) com o Oeste potiguar. Sobre esta obra, o jornal O Mossoroense, de 3 de fevereiro de 1952,
informava que “sua construção chegou ao término com o levantamento do revestimento de madeira que
apoiava os últimos lastros da colossal obra, em extensão reputada como a maior do Nordeste”. O
Mossoroense, Mossoró, 13/16 nov. 1952. n. 322, ano VII s/p.
18
SINOPSE estatística do município de Assu. Subsídios para o estudo da evolução política. Alguns
resultados estatísticos – 1945. Principais resultados censitários – 1, IX – 1940. Serviço gráfico do
Instituto Brasileiro de Geografia e estatística. Rio de Janeiro, 1948.
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11
Um pequeno tropeçar e, no momento...
Um carro a buzinar corre violento,
Um preto a pedinchar uma gorjeta
Compra Aguardente em vez de alimento!..
Há silêncio nos bares. Nos hotéis
Engenheiros, bancários, coronéis,
Vão fazer sua farta refeição,
Enquanto um pobre ser, acocorado,
Tira do “caco” um sebo mal torrado
E o põe a misturar-se no feijão...
Neste soneto, observa-se o quanto Sinhazinha percebia sua cidade com novos
ritmos, novos elementos sociais, daí, além da violência provocada pelo carro, conforme
registrado por ela nota-se a mistura de velhos representantes das elites rurais, como os
coronéis (já em decréscimo naquele momento) e as novas figuras elitizadas da cidade
vinculadas ao mundo das profissões, como engenheiros e bancários. Sinhazinha traduz as
contradições socioeconômicas presentes neste espaço tão decantado, perceptíveis nos
trechos em que a escritora se reporta ao carro e do caso de um preto pobre pedinte. A
autora menciona, também, o acontecimento em que, enquanto membros das elites rurais
e urbanas fazem farta refeição, um pobre realiza sua alimentação de forma precária,
chegando a misturar um sebo mal torrado com feijão.
Essa situação posta em poema por Sinhazinha possivelmente está ligada ao viés
caridoso e assistencialista da mesma, pois era tida como auxiliadora de pobres e
desvalidos.19 No entanto, esse fator não elimina a invariante de uma posição tradicional
arquitetada no âmbito das relações de força que projetam os grupos familiares
privilegiados do Assú enquanto tradutores daquele território, uma vez que, por mais que
a escritora demonstre certa disparidade social no meio em que vivia, a sua escritura
apresenta enunciados que lhe inserem na rede de privilégio no cenário assuense. Observase que, embora demonstre um olhar que promove a distinção socioeconômica, a posição
que Sinhazinha se coloca no seu texto Anotações é de uma herdeira das elites assuenses,
herdeira da tradição civilizada, socialmente privilegiada, embora nos dias finais de sua
vida a mesma tenha passado dificuldades, inclusive financeiras.
19
Conforme Rosanália Pinheiro (1997), Sinhazinha Wanderley possuía atitudes de caráter filantrópico
com pessoas residentes à época num bairro pobre chamado Macapá, próximo ao centro da cidade. Essas
atitudes, por parte de Sinhazinha, possivelmente se expliquem em função de sua formação religiosa que
entre outros preceitos recomenda o desprendimento dos bens materiais.
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Além do mais, no campo das modificações na cidade, Assú presenciava outras
pedagogias naquele momento, pois os esportes já ganhavam vulto neste espaço, treinando
o corpo para o exercício físico. Já se registravam jogos de futebol de salão e de campo,
atraindo público e conquistando a juventude. Em 1952 já se realizavam amistosos com
clubes de outras cidades, daí em novembro de 1952 ter acontecido tal evento entre o Clube
Potiguar de Mossoró e a Seleção do Assú.20 Tudo isso colaborava para divisar a atenção
em torno dos costumes tradicionais dos “velhos tempos”.
Além disso, essa era uma época em que se dizia que Assú vivia um cenário de
desenvolvimento econômico, inclusive, em novembro de 1951, A Revista da Província
trazia reportagem com o título “Em franco progresso o município do Açu". Nesta,
aparecem referências em relação à construção da ponte Felipe Guerra, a feitura do canal
que levaria água para a Lagoa do Piató e da barragem do córrego, o dinamismo da Voz
do Município, entre outros, de modo que determinado trecho da reportagem expressava
que “Vigilanciadas suas energias vitais pela visão inteligente e espirito esclarecido do
ilustre Dr. Edgar Montenegro, o município do Açu está apto a competir com os
municípios de maiores projeções no progresso e desenvolvimento do Rio Grande do
Norte”.21 O contexto que Sinhazinha Wanderley escrevia despertou na mesma uma ânsia
de reviver os tempos de tranquilidade e costumes considerados românticos e harmônicos,
atributos acionados para a composição da história, da poesia e da pretensa tradição
assuense.
Nesse período, outros espaços foram sendo construídos e, consequentemente, a
cidade foi crescendo, de modo que o Quadro Rua (espaço onde Sinhazinha residia),
enquanto paisagem lendária enunciada por várias falas, já que aí se situavam as grandes
residências das famílias de poderio econômico, foi dividindo a atenção com outros
espaços de moradia e lazer.22 Nesse contexto foram construídas duas novas praças na
cidade, oportunidade em que além da antiga Praça da Proclamação, a população dispunha
da Praça da Carnaubinha e a Praça do Rosário.
20
O Mossoroense, Mossoró, 13/16 nov. 1952, s/p.
21
Revista da Província. Em franco progresso o município do Açu. Ano 2, nº 2, Natal, nov. 1951, p.12.
22
Em se tratando de novos espaços para além do quadro da Rua, registramos ainda que nesta mesma
década de 1950, precisamente no ano de 1956, seria construído na cidade o bairro residencial, conforme
a Lei Municipal Nº. 7/1957, Dom Eliseu Simões Mendes, empreendimento que alargava o núcleo de
moradias da cidade. Conforme o arquivo da prefeitura Municipal do Assú.
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Desse modo, tal contexto provocou Sinhazinha Wanderley a sair em defesa de
um espaço poético, das serenatas, dos “verdadeiros” amores, de antigos espaços
educativos. Tudo isso representa uma visão romântica da poetisa, concatenada à
concepção de terra poética, harmonicamente arrumada e traduzida pelos costumes
honrosos e galantes. A narrativa de Sinhazinha se traduz enquanto um panteão de
acontecimentos históricos do Assú, com uma sensibilidade mais sentimentalista e
nostálgica. Vários monumentos e eventos históricos citados por ela também aparecem em
outras narrativas, inclusive as pretéritas, como a de Nestor Lima, Antonio Fagundes e
Pedro Amorim.23 Esses monumentos e eventos históricos ganharam forte atribuição
simbólica a ponto de se elaborar uma gramática espacial assuense. Por exemplo, o evento
da libertação dos escravos foi discursivamente trabalhado para simbolizar os ideais de
liberdade do povo assuense e sutilmente projetar o envolvimento da família Wanderley
no evento. Assim se expressou Sinhazinha:
No Açu havia muitos escravos, mas eram bem tratados. Quando a
Princesa Imperial, Isabel a redentora concedeu a liberdade total a todos
os escravos do Brasil, no Açu, eram todos livres. A Baronesa da Serra
Branca, (nossa tia Biloca) libertou os muitos que possuía, banqueteouos com um farto jantar e ela mesma, serviu-os a mesa. 24
Em outra produção datada de 1950 e contida na coletânea de textos publicada
em sua homenagem, organizada por Celso da Silveira, em 1990, aparece no final do
soneto o enunciado da libertação dos escravos, dessa feita articulado a outro enunciado
bastante recorrente acerca de Assú, qual seja, os festejos ao padroeiro São João Batista:
E por que fugens tanto, ó mês de junho,
Tu que tens o teu o céu da cor do abrunho
Quão formoso e gentil te mostras tu?
É porque numa data abençoada
Foi feita áurea, solene, festejada
A redenção do escravo, aqui no Assu.25
Em Anotações, a história de Assú se confunde com a história da família
Wanderley, uma vez que Sinhazinha costura sua escritura em torno da participação da
família no soerguimento da cidade. Por isso, sua história se inicia tratando da nobreza de
23
Estes escritores são considerados como integrantes da primeira geração de “historiadores” assuenses,
com obras produzidas na década de 1920, ocasião em que discursaram sobre a cidade por meio de relatos
históricos concatenados à historiografia da época desenvolvida nos institutos históricos.
24
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p.7.
25
SILVEIRA, Celso da (Org.). Paisagens da Minha terra. Assú: Nordeste Gráfica, 1990, p.36.
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sua linhagem, desdobrando-se na trajetória de homens de bravura, heroísmo e
inteligência. Assim, ela cita primeiramente o Coronel Manoel Wanderley como homem
valente, honesto e bem feitor. A falta do domínio das letras lhe era compensado pelos
feitos nobres. Posteriormente elenca João Maurício Wanderley, a quem rende rápida
enunciação. Segue o relato, dessa feita, se remetendo a João Carlos Wanderley a quem
atribui que “[...] fez do Açu que era uma Vila, uma cidade tradicional”. Por outro lado, a
escritora apresenta descontentamento em virtude do não reconhecimento da cidade para
com seus familiares, oportunidade em que estes não apareceriam sequer em um nome de
rua do Assú, inclusive “Dr. Luiz Carlos Wanderley (meu pai), primeiro médico
Açuence!” Teatrólogo, poeta (escreveu quando estudante na Bahia) [...]”.26
Sinhazinha requer reconhecimento para com os feitos de sua família,
demonstrando que a própria cidade existe por meio da força política e intelectual de seus
consanguíneos. A terra de história, poesia e tradição emerge vinculada às estratégias
discursivas que alçam os Wanderley enquanto mestres na arte de fazer o espaço assuense.
Não se deve perder de vista o sentimento patriótico constante no discurso de Sinhazinha,
algo encontrado em outros escritores assuenses com certa frequência. Neste aspecto, os
Wanderley aparecem como servidores da pátria em nome do bem comum da nação, do
Estado e da cidade.
Em Anotações, a poetisa volta a criticar os tempos modernos, tempos outros que
tanto a incomodavam, tempos em que as relações amorosas ganhavam ares fragmentários,
tonalidade artificial, características não românticas. Relatando sobre a questão,
Sinhazinha Wanderley mostra a:
[...] diferença da moral daquele tempo com o de hoje! Até a forma de
amar era diferente. Quem amava, era deveras e não com estes flirts
modernos que quase sempre são – sem futuro. Olhavam-se de longe,
iam a janela vê-los passar quando os pais não estavam presentes e,
quando noivos, nunca ficaram sós, o pai ou uma parenta mais velha,
estavam sempre a vigiá-los. O amor durava mais e os casamentos eram
mais felizes. O nosso antepassado amava mais a poesia, sem lhe
conhecer a grandeza. Se eram contrariados em amor, recorriam logo no
verso para desabafar sua mágoa27
26
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p.4.
27
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p.4.
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Essa postura de apego a moral e aos bons costumes por parte desta poetisa pode ser
compreendida por meio da própria expressão memorial operada por ela. Assim, seu
posicionamento é arquiescriturado por uma vivência em um contexto ainda tradicional,
caracterizado pelo zelo à moral e atos respeitosos. Um contexto de coronéis, homens de
política, como seu pai, enfim, homens públicos, enquanto por outro lado convivia com
mulheres, geralmente dedicadas ao espaço privado do lar, às prendas domésticas e rotinas
religiosas. Provavelmente por essa ótica, ela tenha continuado em sua escritura se
ressentindo por não ver mais as antigas modinhas e serenatas vinculadas a este mundo tão
apreciado em suas palavras. Assim relata que:
As serenatas antigas eram muito mais harmoniosas que as de hoje. O
Rádio, abafou-as no coração dos modernos, mas não daqueles que se
honram e se gloriam de ser sertanejo. Hoje, nas serenatas (nas poucas
que aparecem) predominam a chula, o bolero, o samba do Rádio. Não
deixa nada que agrade ao ouvido, nem debite o coração. Antigamente
as modas eram escolhidas, eram cantadas ao som de 2 ou 3 violões, 1
ou duas flautas. Quem tinha sua predileta, ia homenageá-la com uma
modinha terna. Ela ouvia e no dia seguinte só pensava na serenata. Hoje
só falam na grandeza do século XX, mas eu que sou uma sertaneja
velha, passadista, aprecio do modernismo, somente o que é útil, no que
respeita as leis da moral e do coração, acho-o de todo descontrolado.28
A falta das serenatas do Assú dos velhos tempos é um indício de quem vivenciou
um momento e o elegeu como um Assú boêmio, espaço romântico, algo semelhante a
uma fábula espacial, harmoniosamente cantado, poetizado e rimado conforme a cultura
da época. Era a pedagogia dos espaços morais. Assim, para Sinhazinha, o século por
excelência é o XIX, marcado pelo patriarcado, moralismo, civismo, comportamentos
recatados, divisões acentuadas de gênero, entre outros. Por isso, ela prefere ser passadista
em detrimento de ser modernista.
Sinhazinha considera o rádio um “abafador” das tradições musicais antigas, a
exemplo da serenata. Entretanto, embora o rádio seja esse elemento poderoso da
modernidade, o mesmo não consegue abafar a tradição musical de um sertanejo, habitante
do sertão, isto é, o sertanejo aparece como figura resistente ao descontrole da
modernidade, manifestando-se ao lado do que é “seguro”, notadamente do passadismo.
Esse posicionamento de Sinhazinha pode ser compreendido à luz da expressividade que
o rádio alcançou na década de 1950, pois nessa época, conforme Carmo:
28
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p. 11.
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O rádio é a grande porta voz de evasão e mobiliza os desejos. Concursos
de Miss Universo e de Rainha do Rádio eram as verdadeiras guerras.
Ângela Maria e Cauby Peixoto são os dois cantores mais populares da
época. Ouvia-se rádio costurando na máquina Singer com tecidos
comprados nas Casas pernambucanas. A novela de sucesso, O direito
de nascer, provocava lágrimas.29
Esses esclarecimentos são fundamentais para se entender a crítica de Sinhazinha
ao rádio, pois nos anos de 1950 este veículo de expressão se consolidava como o grande
meio de comunicação brasileiro, haja vista que, desde o seu aparecimento na década de
1920, o rádio ganhou conotações e usos políticos, chegando em 1950 com uma
programação diversificada, inclusive contando com o dinamismo das radionovelas, a
exemplo de O direito de nascer. Dessa forma, esse complexo radiofônico fora um dos
elementos a reter o tempo das pessoas, pois em detrimento da promoção de serenatas
tradicionais, os sujeitos passaram a ouvir o rádio, bem como a programação deste último
começava a fazer com que as pessoas preferissem escutar uma radionovela a participarem
da velha e calma conversa de fim de noite na calçada.
Sinhazinha considera que ritmos como o samba e o bolero não agradavam aos
ouvidos, nem tocavam os corações. Nos anos 50 do século XX, vive-se o momento do
samba canção. Cantores como Cauby Peixoto, Jamelão, Nelson Gonçalves, entre outros,
ganhavam expressão no rádio. O discurso desse tipo de samba pautava-se nas desventuras
do amor, culminando com a autopunição e o desejo de morte. Ou seja, é um estilo musical
que caminhava na contramão do romantismo de Sinhazinha, pois é o melódico do
sofrimento amoroso. O samba trouxe uma maior instrumentalidade em detrimento das
serenatas elencadas por Sinhazinha, regidas ao som do violão e da flauta, pois o batuque
torna-se a batida mais forte, por sua vez, influenciando o remelexo, o movimento
corporal, algo que batia de frente com a moralidade dessa poetisa. Também se faz
necessário lembrar que os críticos do samba-canção os estereotiparam de “música cafona”
e de “baixa qualidade”, por isso suas ressonâncias em discursos diversos que passaram a
desqualificar tal ritmo musical.30
Toda essa atmosfera denota o rastro escriturístico de Sinhazinha Wanderley,
pois, ao que tudo indica, a primeira estação sonora de Assú apareceu por volta do início
29
CARMO, Paulo Sérgio do. Culturas da Rebeldia: a juventude em questão. São Paulo: Editora SENAC,
2001, p. 17.
30
CALDAS, Waldenyr. Iniciação à música popular brasileira. São Paulo: Àtica, 1989.
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dos anos de 1950, portanto, próximo do momento em que ela escrevia suas Anotações.31
Daí, em 1951 a Revista da Província noticiava que:
Ainda outro aspecto da administração do dr. Edgar Montenegro que
merece destaque é o interesse que s. s, vota à vida social da cidade que
governa. Haja vista o grande surto de progresso promovido pela “voz
do município”, que serve de intercambio entre a administração e o povo,
divulgando sempre, para conhecimento do público, dados específicos
das realizações da Prefeitura e seus futuros planos de trabalho, bem
como transmitindo-lhe farto noticiário social, programas de música e
canto [grifos nossos], palestras educativas, alem de propaganda
comercial e outros assuntos de interesse geral.32
Por isso, as Anotações de Sinhazinha traduzem uma escritura tracejada por
visões tradicionais, ancoradas numa concepção espacial de uma “terra de história, poesia
e tradição” no cenário potiguar. Sua discursividade se consubstanciou como mais uma
narrativa fabricante de um Assú dos “velhos e bons tempos”, sua narrativa expressou o
discurso da saudade em relação ao Assú antigo, pois que, ao relatar e construir uma
história acerca de sua terra, essa poetisa inscrevia traços de uma saudade do Assú de seu
tempo. O sentimento de Sinhazinha parece ser da constatação de uma ausência e a
necessidade de uma presença, daí porque se considera que seu discurso se pauta numa
sensibilidade nostálgica, pois:
A saudade é constatação de ausência e morte, bem como de esperança
de presença e ressurreição. Experimento de tristeza e alegria, aflição e
apaziguamento, fala de nossa condição de seres mortais, de seres
finitos, de seres para o tempo, aguça nosso sentimento de fugacidade e
alteridade.33
Assim, Sinhazinha Wanderley teve sua escritura perpetuada não só nas
Anotações que escreveu, mas na própria inscrição musical que também produziu. Ao
finalizar Anotações, exclamou: “Vou terminar, Boanerges, deixando-lhe o hino que
parodeio sobre o Açu que os alunos do meu tempo, devem conhecer. Compuz ao tempo
31
O Município (Assú) na década de 1950 registraria em sua contabilidade dispêndio com a manutenção
do serviço fônico denominado a “Voz do Município”, oportunidade em que a Receita Geral do
Município referente ao ano de 1958 registrava a gratificação do locutor, controlista e zelador do referido
serviço, além de despesas com o aluguel do Prédio que abrigava o Studio da referida estação sonora.
Para maiores informações acerca de esta questão, ver a Receita Geral do Município do Açu (1958).
Conforme o Arquivo da Prefeitura Municipal do Assú.
32
Revista da Província. Em franco progresso o município do Açu’. Ano 2, nº 2, Natal, nov. 1951, p.12.
33
ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. As sombras do tempo: A saudade como maneira de viver e
pensar o tempo e a história. In: ERTZOGUE, Marina Haizenreder; PARENTE, Temis Gomes. (Orgs.).
História e sensibilidades. Brasília: Pararelo, 2006, p.117.
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a música”.34 O hino ao qual Sinhazinha se refere foi oficializado pelo Poder Público
Municipal assuense no ano de 1969, a partir da LEI municipal nº 06/69 de 11.10.1969:
Qual um canto harmonioso
Das aves, pelo ramado
A minh´alma te festeja
Meu Assú, idolatrado.
Estribilho
Torrão bendito hei de amar-te
Dentro do meu coração
Salve, Assú estremecido,
Salve, salve ó meu sertão.
Palmeiral da minha terra
As várzeas cobrindo estás
Tu que és útil pelo inverno
E pela seca ainda mais.
Valoroso, florescente,
Em face dos mais sertões
Hão de erguer-te o nosso esforço
Nossos bravos corações.35
A letra do hino municipal do Assú, de autoria de Sinhazinha Wanderley, se
consubstancia como mais um acontecimento discursivo/musical que se liga à produção
identitária do espaço assuense, de modo que, além de expressar o sentimento de
patriotismo, agencia o interesse da autora em se situar em um espaço tradicional, um
espaço de seu tempo, um recorte sonorizado como harmonioso e identificado como
“torrão bendito”, coberto pelos palmerais tão úteis conforme as estações climáticas
anuais; um hino que fornece índices de identificação para com “Meu Assu, idolatrado”;
um lugar salvo pela localização sertaneja. Um sertão caracteristicamente semelhante ao
pertencente à espacialidade Nordeste inventada após 1920 e descrito por Albuquerque
Junior em A Invenção do Nordeste e Outras Artes, oportunidade em que este evidencia
que o sertão foi inventado como um espaço “[...] onde tudo parece estar como antes, um
espaço sem história, sem modernidade, infenso a mudanças. Um espaço preso ao tempo
cíclico da natureza, dividido entre secas e invernos”.36 Por isso, por uma gramática
musical, captam-se os acordes de uma paisagem inscrita como florescente, uma paisagem
que faz pulsar as almas, que invoca os corações, ou seja, Assú sendo produzido pelos
toques narrativos e pelos tons pedagógicos.
34
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, s/p.
35
Disponível em <http://assu.rn.gov.br/simbolos-hino/>. Acesso em 01 de abril de 2012, às 15h e 2 min.
36
ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 5ª. ed. – São
Paulo: Cortez, 2011, p. 182.
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Ainda em termos de tradição e civismo, Sinhazinha se declara uma apaixonada
por Assú em Anotações. Assú é sua pátria, sua geografia nacional. Tomando de
empréstimo um escrito de Virgilio Cardoso, sugere que os filhos amem a pátria, que
demonstrem afeto a ela, pois esta:
[...] carece de nós! Sim! Precisa do nosso apoio físico, cívico, moral!
Que importa que seja velha e triste! É quando a mãe mais carece do
carinho dos filhos é quando a velhice abate as forças. Amemo-la e
respeitemos o seu glorioso passado, a sua imorredora tradição [...].37
Sinhazinha Wanderley convoca os assuenses para amarem sua cidade como se
fosse sua pátria, sua mãe. Ela se utilizou da concepção de mãe como metáfora para
evidenciar que, frente ao desapego dos costumes passados mais autênticos, era preciso
com carinho dá apoio nos ditames físicos, cívicos e morais. A metáfora da mãe também
foi uma expressão pessoal sua, pois mediante as condições que ela se encontrava já
próxima da morte, desolada, sem companhia, demonstrava ressentimento por não contar,
assim como o Assú, com o amor de seus filhos (assuenses) a quem ela se sentia mãe por
ter os ensinado quando professora do grupo escolar. Essa metáfora da mãe explica em
parte a postura de Sinhazinha para com os novos tempos marcados pela dispersão da
juventude. Representa, ainda, as condições pelas quais as mulheres de seu tempo
exerceram o magistério, oportunidade em que a professora era a personificação da mãe,
pois:
A mulher, que em princípio educava os filhos, poderia ser também a
mestra de todos, estendendo para fora da casa a tarefa para qual fora
talhada. Do sentido vagamente metafórico de “responsável pela
formação do homem de amanhã” o papel formador atribuído à mulher
se foi tornando literal, até se colar à identidade feminina uma vocação
natural para as lides do magistério.38
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O discurso da tradição em Sinhazinha Wanderley, assim como em Nestor Lima
e outros escritores assuenses, emerge como mais um aporte pedagógico que visou à
invenção de uma tradição identitária de uma espacialidade (Assú), uma vez que,
Conforme Hall, as identidades “[...] tem tanto a ver com a invenção da tradição quanto
37
CALDAS, Maria Carolina Wanderley. Anotações. Assu: Mimeo, 1954, p. 17.
38
LAJOLO, Mariza; ZILBERMAN, Regina. A Formação da Leitura no Brasil. 2ª. ed. São Paulo: Ática,
1998, p. 262.
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20
com a própria tradição [...]”.39 Isto é, a identidade está no cerne da invenção das tradições,
pois estas últimas, ao estabelecerem uma ligação do presente com o passado, só ganham
notoriedade ao estipular uma relação de pertencimento e reconhecimento com esse
mesmo passado. Daí, a invenção de uma tradição arregimentar aspectos da história, da
linguagem e da cultura para produzir uma pedagogia da memória, uma situação de
afetividade, seja a uma pessoa, a um objeto qualquer ou a um espaço. A formação
discursiva que postula “Assú terra de história, poesia e tradição” recebe dos enunciados
da escritora aqui em análise reforço na sua positividade, pois vários signos dessa
formação emergem no discurso de Sinhazinha como uma vontade de verdade impondose em detrimento de outros.
Além do mais, parece ter corrido por dentro das artérias do discurso dessa poetisa
o desejo de que algo apagasse esse novo cenário estilhaçador dos bons costumes e
tradições citadinas do Assú. De modo subjetivo, parece que seu desejo era que ocorresse
algo parecido com o inverno vivido por Marcovaldo, Personagem principal do conjunto
de contos que deu origem ao livro intitulado Marcovaldo ou as estações na cidade
(1994), de autoria de Ítalo Calvino, oportunidade em que a cidade em que este morava
ficou perdida na neve, de modo que este muito se alegrou, pois a neve invalidava a jaula
em que havia aprisionado sua vida. Assim, ao ser encarregado de remover a neve das
proximidades do local onde trabalhava, Marcovaldo pôde brincar, pôde sonhar com esta,
desenhando com a neve novas ruas, novas casas, enfim, outra cidade conforme seus
desígnios.40 Portanto, talvez esse fosse o anseio de Sinhazinha Wanderley: desmanchar
aquela gaiola que lhe prendia há tempos a uma cidade que não era sua, não pertencia aos
seus interesses. Provavelmente, se as cidades fossem escritas em tabuletas de cera, a
exemplo dos escritos que eram compostos nestes instrumentos em boa parte da Idade
Média e início da Idade Moderna, ocasião em que, quando não mais satisfaziam ao uso
eram apagados, possivelmente Sinhazinha apagaria Assú moderno para inscrever Assú
dos tempos antigos, assim perfazendo um movimento de apagar e inscrever o seu
39
HALL, Stuart. Quem precisa de identidade. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e
Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 9 ed. Petropólis: Vozes, 2009. p. 109.
40
Especificamente neste trecho de apoio ao nosso texto tomamos por base o conto intitulado “inverno: a
cidade perdida na neve”. Neste último, Marcovaldo se depara, ao amanhecer, com a cidade perdida em
meio à neve que ali caia. Desse modo, este operário aproveitou tal situação para viver outra cidade para
além daquela que lhe sufocava, uma cidade (de neve) na qual ele mesmo poderia criar e recriar, fazer e
desfazer aos próprios caprichos por meio do brincar com a neve.
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21
espaço.41 Suas produções elaboradas em momentos próximos à morte teriam como mote
a saudade de Assú de antigamente, daí suas produções concorrerem para a arquitetura de
uma paisagem assuense, um quadro pintado com letras garrafais no qual estava expresso:
“EU SINTO QUE ESSA VIDA JÁ ME FOGE”.
RECEBIDO EM: 10/10/2014
41
PARECER DADO EM: 10/02/2015
CHARTIER, Roger. Inscrever e Apagar: cultura escrita e literatura. Tradução de Luzmara Curcino
Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 2007.
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