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A AUTO-ORGANIZAÇÃO DOS ESTUDANTES NA
A AUTO-ORGANIZAÇÃO DOS ESTUDANTES NA ESCOLA ITINERANTE
SEMENTES DO AMANHÃ
Silvana Knopf1
RESUMO: Este trabalho sistematiza e reflete a prática pedagógica de Inserção na Escola,
orientada pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação a Docência - PIBID Diversidade,
na Escola Itinerante Sementes do Amanhã, localiza no município de Matelândia- PR,
desenvolvido durante o ano de 2014. Objetivamos apontar elementos da prática pedagógica
da Escola Itinerante Sementes do Amanhã, perpassando pelos elementos de organização da
prática pedagógica e a auto-organização dos educandos por meio dos núcleos setoriais e sua
influência nas formas de gestão na escola. Nosso caminho metodológico perpassou pelo
estudo de documentos do setor de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra, que abordam os principais conceitos presentes neste trabalho, entre eles a autoorganização e os núcleos setoriais. Entre os documentos estudados estão o Plano de Estudo da
Escola Itinerante do Paraná (2013) e relatórios da Escola Itinerante Sementes do Amanhã
(2014). Apontamos que, mesmo diante dos limites expressos, os elementos de autoorganização dos educandos, potencializados pela organização dos Núcleos Setoriais, em
muito fortalece a autonomia e iniciativa dos mesmos junto à condução da escola.
Palavras chave: Escola Itinerante, auto-organização dos estudantes, formas de gestão.
Introdução:
O texto sistematiza e reflete uma das práticas pedagógicas articuladas no curso de
Pedagogia para Educadores do Campo e o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação a
Docência - PIBID Diversidade, que vem potencializando a formação docente dos pedagogos
do Campo. Este projeto vem possibilitando maior intencionalidade na formação docente neste
curso.
O curso é realizado em parceria entre a Universidade Estadual do Oeste do ParanáUNIOESTE e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária-INCRA, com recursos
do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária.
A Pedagogia para Educadores do Campo visa formar pedagogos para atuarem nas
escolas do campo, capazes de organizar e fortalecer os processos pedagógicos da escola e da
1
Estudante do curso de Pedagogia para Educadores do Campo – Universidade Estadual do Oeste do
Paraná – Unioeste/Cascavel. [email protected]
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vida social da comunidade, articulado a um projeto de desenvolvimento social das
comunidades camponesas. Voltado à formação de camponeses, o curso é organizado em
período de alternância. Esse formato de organização do ensino pressupõe um Tempo
Universidade-TU e um Tempo Comunidade-TC. A alternância entre TU e TC tem
possibilitando que jovens e adultos camponeses e mesmo aos professores que atuam nas
escolas do campo sem a habilitação necessária, possam cursar o ensino superior sem que para
isso precisem abandonar sua comunidade.
Está distribuído em etapas2 divididas entre TU e TC, cada qual com sua função
política e pedagógica. Segundo o Projeto Político Pedagógico (2013):
Tempo Escola (TE), é o tempo presencial em que os estudantes estarão
juntos na Universidade ou em outro local, onde se desenvolverão as aulas e
orientações para trabalhos práticas nas comunidades de origem. Tempo
Comunidade (TC), é o tempo em que estudantes estarão em suas
comunidades desenvolvendo suas práticas, bem como outras atividades do
curso, como a pesquisa. Este tempo refere-se tanto aos trabalhos individuais
como também as atividades realizadas em grupo com o acompanhamento
pedagógico docente. (PPP, 2013, p. 18).
Na universidade os alunos se concentram para o estudo das disciplinas, leituras e
outras vivências pedagógicas e organizativas possibilitadas pelo curso. Na comunidade dá-se
continuidade aos estudos orientados pelos professores das disciplinas e também se retomam
as atividades que os estudantes estavam inseridos nas suas comunidades. Estes dois tempos
são articulados e propiciam maior relação entre teoria e prática na formação do pedagogo, que
pode ser mais potencializada mediante iniciativas direcionadas para a sistematização, estudo e
análise da realidade das escolas que os estudantes se inserem.
O Pibid Diversidade é uma iniciativa que vem qualificando a formação do professor
no curso, visa estimular os estudantes na iniciação à docência, proporcionando interação com
a teoria e a prática de uma sala de aula por meio do planejamento, estudo, sistematização e
reflexão das ações realizadas nas escolas de inserção.
Objetivamos com este trabalho apontar elementos da prática pedagógica da Escola
Itinerante Sementes do Amanhã, perpassando pelos elementos de organização da prática
pedagógica e a auto-organização dos educandos por meio dos núcleos setoriais e sua
2
A carga horária total do curso foi distribuída em oito etapas , sendo dois TU e dois TC por ano, num
total de quatro anos de curso.
650
influência nas formas de gestão na escola. Para tanto, apresentamos à prática pedagógica de
inserção na Escola articulada a proposta formativa do curso e ao Pibid Diversidade.
Nosso caminho metodológico perpassou pelo estudo de documentos do setor de
educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que abordam os principais
conceitos presentes neste trabalho, entre eles a auto-organização e os núcleos setoriais. Entre
os documentos estudados estão o Plano de Estudo da Escola Itinerante do Paraná (2013) e
relatórios da Escola Itinerante Sementes do Amanhã (2014).
Com vistas a uma exposição que facilite a compreensão dos leitores, organizamos o
texto em tópicos. No primeiro deles abordamos, de maneira breve, o histórico da escola
Sementes do Amanhã. Em seguida apresentamos os núcleos setoriais, sua função e
organização no interior da escola e sua condição a auto-organização dos estudantes.
1 A Escola Itinerante Sementes do Amanhã
A Escola Itinerante Sementes do Amanhã está localizada no acampamento3 Chico
Mendes, no município de Matelândia, Paraná. A área total do acampamento é de 380
alqueires. A fazenda, ocupada em 2004 por 106 famílias, era ocupada por extensas pastagens
e gado de corte.
Após a realização da ocupação o primeiro passo é organizar as famílias, que são
distribuídas em Núcleos de Base-Nb4 e Setores. São sete os setores organizados no
acampamento, mas o que nos interessa aqui é apresentar as ações do setor de educação, que
posteriormente darão origem a Escola Itinerante. O primeiro desafio desse setor, já no
primeiro ano de acampamento, foi organizar a educação de jovens e adultos, já que existiam
muitos analfabetos no local.
Outra demanda do setor de educação desse espaço foi pensar uma solução para
garantir o ensino formal ás crianças em idade escolar. Inicialmente essas crianças, filhos e
filhas de acampados, frequentavam a escola de uma comunidade próxima. Contudo, devido à
discriminação sofrida pelas crianças, por viverem numa área ocupada, e superlotação das
salas de aula, os acampados definiram pela organização de uma escola dentro do
3
Acampamento são áreas improdutivas ocupadas pelas famílias Sem Terra e ainda não regularizadas
como assentamento pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária-INCRA.
4
Os Núcleos de Base-Nbs são formados por cerca de 08 a 12 famílias e são a instância máxima de
discussão das famílias acampadas.
651
acampamento. Nesse período a experiência da Escola Itinerante já estava em curso em outros
acampamentos do estado, isso facilitou a abertura de mais uma escola.
A Escola Itinerante Sementes do Amanhã iniciou suas atividades letivas no
Acampamento Chico Mendes no dia 21 de abril de 2005 e nos seus primeiros anos de
existência atendeu as séries iniciais do ensino fundamental, sendo os educadores da própria
comunidade.
Atualmente passaram-se dez anos desde a ocupação e a Escola Itinerante acumula
nove anos de experiência. Os desafios e aprendizados desse período foram muitos, resistiu à
tentativa de despejo das famílias e em 2013 ampliou a oferta de ensino para as séries finais do
ensino fundamental. Na comunidade também estão em andamento turma de EJA fase I,
alfabetização.
Certamente esta escola vem afirmando o direito a educação de crianças, jovens,
adultos e idosos. É fruto da luta dos trabalhadores Sem Terra, por isso acompanha, influência
e incorpora na sua ação pedagógica as formas de organização da vida neste espaço.
Feita esta apresentação superficial, mas necessária, nosso próximo passo é apresentar
características desta escola de acampamento, conquistada pela luta organizada dos
trabalhadores do Movimento Sem Terra e mantida pelo Estado.
2 A proposta pedagógica e as principais características das formas de gestão da Escola
Itinerante Sementes do Amanhã
A proposta pedagógica que orienta a Escola Itinerante5 que estamos apresentando é
fruto de um longo processo de estudo e discussões, conduzidas pelo Setor de Educação do
MST-PR6. Orienta-se pelos pressupostos de educação transformadora defendida pelo MST,
que visa articular a educação á luta por transformação social.
O currículo que orienta as Itinerantes é organizado em Ciclo de Formação Humana7,
numa tentativa de contrapor a lógica excludente da seriação, pautando a organização do
5
As Escolas Itinerantes no Estado do Paraná são extensão da Escola Base, que se localiza em Rio Bonito
do Iguaçu-PR. Ela é a responsável pela vida legal dos alunos e pelo repasse de verbas as Escolas Itinerantes.
6
O Setor de Educação do MST Paraná foi constituído em 1997. Atualmente é formado por pessoas de
diferentes regiões e que assumem distintas funções como: organização, discussões e encaminhamentos sobre a
escola no Movimento, a infância, a formação de educadores e a alfabetização e escolarização de jovens e
adultos.
7
A Proposta Pedagógica dos Ciclos de Formação Humana para o Ensino Fundamental e Médio foi autorizado
pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná – SEDD-PR por meio da resolução n° 3922/10 de 2010. No
entanto, a escola já vinha trabalhando com esta proposta desde os primeiros anos de existências das Itinerantes.
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trabalho pedagógico numa perspectiva emancipadora. Nos ciclos de formação humana os
níveis de ensino estão organizados da seguinte forma, conforme destaca o PPP (2013).
Ciclo da vida
Infância
Ciclo da
Educ. Básica
Ciclo Único
da Educação
Infantil
I Ciclo do
Ensino
Fundamental
Idade
Anos
4 anos
5 anos
Educação
Infantil
6 anos
7 anos
8 anos
1° Ano
2° Ano
3° Ano
Classe Intermediária
Pré-Adolescência
II Ciclo do
Ensino
Fundamental
9 anos
10 anos
11 anos
4° Ano
5° Ano
6° Ano
12 anos
13 anos
14 anos
7° Ano
8° Ano
9° Ano
15 anos
16 anos
17 anos
1° Ano
2° Ano
3° Ano
Classe Intermediária
Adolescência
III Ciclo do
Ensino
Fundamental
Classe Intermediária
Juventude
Ciclo Único
do Ensino
Médio
Quadro elaborado pela autora.
Nesta lógica de organização das turmas por idade – fases da vida humana- são
organizados por agrupamentos de referência, que são mantidos durante o ano letivo. Caso
algum educando não consiga apropriação de determinado conteúdo, pode ser organizado novo
reagrupamento com crianças de idade e turmas diferentes para frequentar a classe
intermediária. Intermediária porque acontece entre os ciclos. Mesmo frequentando a classe
intermediária o aluno não fica retido e faz a progressão para o ciclo seguinte.
O processo Avaliativo8 acontece pautado nos pressupostos dos ciclos da vida e em vez
de nota os conhecimentos são representados por meio de parecer descritivo, que é resultado de
8
A Avaliação é Processual, Diagnostica Emancipatória, seguida de ferramentas específicas como: o
caderno de acompanhamento individual do educando, a pasta de acompanhamento individual, na qual é
653
um longo processo de acompanhamento e registro da vida escolar dos educandos.
Posteriormente o parecer é socializado com os pais no conselho de classe participativo9, que
acontece no final de cada semestre letivo.
A adoção do Ciclo de Formação Humana é orientada pela concepção de
desenvolvimento presente na obra de Vigotsky. De acordo ao PPP (2013), os ciclos exigem
uma mudança significativa nas concepções que dão sustentação as práticas pedagógicas e à
própria consolidação das mesmas, pois se representarem apenas mudança de forma e não de
conteúdo, será uma mudança inócua. Entendemos, então, que organizar a escola desta forma
significa romper com a fragmentação do saber e alargar os tempos de aprendizagem e
desenvolvimento, possibilitando a convivência com a diversidade. Esta proposta não
representa, portanto, apenas uma organização temporal, mas uma preocupação com o
processo permanente de desenvolvimento e aprendizagem dos educandos.
Na proposta por ciclos o ensino orienta-se pelos pressupostos da Escola Comuna da
União Soviética e da pedagogia do MST, que articula as bases da vida e da ciência por meio
dos Complexos de Estudo. Da experiência da escola comuna, sistematizada por Freitas (2009),
nos apropriamos do conceito de autogestão dos estudantes, auto-organização e trabalho socialmente
necessário, que conforme Pistrak apud Freitas, (2009).
Os trabalhadores da Escola-Comuna em sua atividade partiram de Marx e
Lênin sobre o desenvolvimento multilateral da personalidade no comunismo,
sobre a necessidade de combinar o ensino com o trabalho produtivo, com a
vida, sobre a formação do coletivo e a relação criativa com o trabalho e
estudo. (FREITAS, 2009, p.20).
Articulado a estes pressupostos, o acúmulo prático e teórico da pedagogia do MST
concebe a escola como espaço de formação da classe trabalhadora e aponta as matrizes
educativas fundamentais como cultura, luta social, história, trabalho e organização coletiva,
que precisam movimentar o ensino e as relações sociais vivenciadas pelos educandos.
Conforme o Caderno de Educação nº9 (1999), a proposta de educação do MST inova
em formas e espaços de organização dos estudantes, professores e comunidade, devendo
funcionar de forma planejada, coletiva e solidária. Propõe, efetivamente, uma nova forma
escolar, em que um dos aspectos é a estrutura orgânica da escola.
arquivada mensalmente um trabalho dos educandos e o parecer descritivo, que expressa o resultado final da
avaliação do educando.
9
O Conselho Participativo é o espaço leitura do parecer acompanhado pelos professores, pais e alunos.
654
Esta organização é embasada na forma de organização dos acampamentos, com
princípios de gestão democrática, auto-organização dos estudantes, coletivos pedagógicos,
direção coletiva e divisão de tarefas.
Para a pedagogia Socialista os fundamentos da autogestão, conforme Pistrak (2000)
visam constituir hábitos de saber trabalhar, viver e construir coletivamente, é preciso saber
lutar pelos ideais da classe trabalhadora, lutar tenazmente, sem trégua; é preciso saber
organizar a luta, organizar a vida coletiva, e para isso é preciso aprender, não de imediato,
mas desde a mais tenra idade o caminho do trabalho independente, a construção de coletivo
independente, pelo caminho do desenvolvimento de hábitos e habilidades de organização
coletiva.
A organização da escola desde estes pressupostos orienta-se por princípios de
autogestão que possibilitam maior participação do coletivo de educadores, educandos e
comunidade escolar em geral. Deste modo, os educandos, por meio dos Núcleos Setoriais,
vivenciam experiências de tomada de organização e tomada de decisão que contribuem
significativamente com os distintos processos de gestão da Escola Itinerante.
A Auto- organização dos estudantes
A implementação dos Núcleos Setoriais inicia no ano de 2013, a partir de estudo e
pesquisa sobre o ensino e as formas de organização da Escola Itinerante no setor de educação
do MST. O referido estudo resultou na elaboração do Plano de Estudo. O Plano de Estudo,
documento que reúne os conteúdos das diversas disciplinas, os objetivos formativos e de
ensino e tem como objetivo principal fazer a conexão dos conteúdos com a vida, ou seja,
trabalha com as porções da realidade, nas quais podem conectar-se os conteúdos de distintas
disciplinas, como destaca o documento.
Por plano de estudo deve-se entender o conjunto de decisões que fornece aos
educadores elementos para definir a amplitude dos conteúdos a serem
ensinados, os objetivos tanto de caráter formativo como de ensino, as
expectativas de desenvolvimento, as indicações das relações que tais
conteúdos e objetivos têm com a vida cotidiana dos estudantes, bem como
orientações metodológicas gerais que conduzam a uma organização da
escola e do ensino com significado para os estudantes do campo. (PLANO
DE ESTUDO, 2013, p. 9).
O núcleo setorial tem como função primordial trabalhar com a auto-organização dos
educandos, despertar nos mesmos a capacidade de juntos ajudarem a conduzir o processo da
escola, pois segundo Plano de Estudo (2013).
655
O objetivo principal do MST no âmbito da educação é ajudar a formar seres
humanos mais plenos e que sejam capazes e queiram assumir- se como
lutadores, continuando as lutas sociais de que são herdeiros, e construtores
de novas relações sociais, a começar pelos acampamentos e assentamentos
onde vivem e que são desafiados a tornar espaços de vida humana criadora.
Para isso é preciso educar as novas gerações de modo a que desenvolvam
uma visão de mundo que inclua estes objetivos; crianças e jovens ativos,
com iniciativa, multilateralmente desenvolvidos, com apropriação de
conhecimentos científicos relevantes, capazes de ligar teoria e prática, que
aprendam habilidades técnicas, hábitos sociais e valores de convivência e
trabalho coletivo. (PLANO DE ESTUDO, 2013, p.11).
Os núcleos setoriais são compostos por educandos das diversas turmas e idades
diferenciadas, para que ajudem a gestar a escola e se coloquem como sujeitos deste processo.
Atualmente, é indicados no Plano de Estudo (2013) a organização de sete Setores, conforme
apresentamos no quadro abaixo.
NÚCLEO SETORIAL
FUNÇÃO QUE ESTUDANTES EXERCEM
Memória
Os estudantes são responsáveis em guardar a memória da escola, produz registros
escritos da vida coletiva da escola, através de três instrumentos: a) Diário da Escola
, b) Pasta de Acompanhamento das Praticas Pedagógicas dos Complexos, c)
Arquivo Fotográfico e Audiovisual.
Apoio ao Ensino
Este núcleo se auto organiza em torno de tarefas ligadas a dimensão do ensino na
escola e o acesso ao conhecimento cientifico, desde o planejamento de ensino, o
quadro de tempos educativos e fazem isso desde a organização de materiais e
equipamentos de suporte ao ensino (TV, o Rádio DVD), e os materiais didáticos, a
organização da biblioteca, secretaria escolar. São responsáveis em receber visitas na
escola e apresentar a proposta pedagógica e organização no cotidiano escolar.
Comunicação
Os membros deste núcleo setorial atuam no processo de socialização de informação
na escola e acampamento, proporcionando a todos a conexão com os fatos que estão
acontecendo na escola, na comunidade e ao em torno, para isso organizam radio
escolar, jornal e murais. Realizam leitura do diário no tempo formatura para toda
comunidade escolar.
Finança/Estrutura
Exerce a função de planejamento financeira e administrativo da estrutura da escola.
Organizar os processos de finanças da escola, entradas de recursos, saídas,
planejamento financeiro, prestações de contas. Além disso faz o controle do
patrimônio da escola e da merenda escolar.
Embelezamento
É o núcleo responsável pela organização dos espaços, possibilitando a primazia do
belo na escola. Tem a função de proporcionar que os espaços da escola mesmo
improvisado, sejam acolhedores em harmonia com a natureza e a produção
humana. Neste sentido os estudantes se auto organizam através de três atividades
centrais: plantio de flores, árvores, arbustos ou seja o jardinamento da escola, a
organização estética da escola: identificação dos espaços, exposição de trabalhos e a
valorização dos símbolos na escola.
Saúde e Bem Estar
É responsável pelo bem estar da coletividade, que se preocupa com as diversas
questões da vida humana: desde a alimentação, a limpeza e higiene e saúde. Neste
núcleo setorial além de executar tarefas práticas de limpeza, faz orientações em
relação a boa alimentação, cuidado com higiene e espaços limpos, organizados.
Agrícola
É responsável pelas práticas agrícolas na escola e possibilita a vivência do cuidado
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com a terra e com o meio ambiente, planejarão a produção de alimentos para
consumo na escola e na comunidade através das hortas agroecológicas, pomar e
plantios de outros alimentos, também poderão fazer criação de animais
Quadro organizado pela autora.
A implementação dos Núcleos Setoriais acontecem nas doze Escolas Itinerantes do
estado, no entanto é a demanda específica de cada uma que determina quais núcleos serão
organizados em cada espaço. Na Escola Itinerante Sementes do Amanhã estão em andamento
os Núcleos Setoriais: finança, agrícola, saúde e bem-estar.
3 Auto-organização dos estudantes e sua relação com as formas de gestão na escola: um
passo na busca de mais autonomia dos estudantes.
A definição pelos Núcleos Setoriais que demandava trabalho concreto na escola foi
definida pelo coletivo de educadores durante a semana pedagógica da escola e os núcleos de
finança, saúde e bem-estar e agrícola, estão articulados á vida do acampamento.
Cada núcleo setorial é representado por um coordenador e uma coordenadora,
responsáveis pela participação nas reuniões com o coletivo pedagógico da escola, pelo
planejamento das atividades elencadas pelos próprios alunos e, quando necessário, articular a
comunidade para participar e contribuir em alguma atividade dos núcleos. Também,
participam da reunião da coordenação da comunidade para socializar e discutir a pauta deles.
Essa prática organizativa mexe e remonta todo o processo pedagógico da escola e faz os
sujeitos envolvidos refletir e replanejar sua prática educativa.
Para o desenvolvimento das atividades os núcleos se organizam em tempos semanais
programados pela escola. Neste momento cada núcleo precisa ter clareza de sua função na
coletividade.
Segundo as ações planejadas, o núcleo setorial da finança precisa compreender como
estão sendo administrados financeiramente os recursos que entram na escola e qual a
finalidade dos mesmos (exemplo: qual valor de fundo rotativo entra na escola e qual é o
destino dele). O trabalho do núcleo está diretamente articulado a disciplina de matemática, já
que precisa lidar com cálculos diversos e construções de tabelas.
O núcleo de Saúde e Bem Estar tem maior controle sobre a merenda escolar e a
construção do cardápio da escola, etc. Para isso os educandos precisam saber a data de
validade dos produtos, pensar e construir, juntamente com a cozinheira, um cardápio para a
escola, considerando as variedades de alimentos que a escola possui. É necessário que
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compreendam e saibam organizar um cardápio saudável, considerando os nutrientes
necessários ao bom funcionamento do organismo. Este setor está intimamente ligado à
disciplina de ciência e biologia.
O Núcleo Agrícola tem contato direto com a horta da escola e tem como principal
função, além de produzir, discutir a produção de alimentos saudáveis, cuidar e cultivar a
diversidade de hortaliças. Sua função para o coletivo da escola é a de melhorar a qualidade da
alimentação e complementar a merenda escolar.
Durante o desenvolvimento da prática na escola, são retomados estudos sobre a função
dos Núcleos Setoriais e os educadores, na função de mediadores, auxiliam os núcleos no
planejamento das ações, tomando o cuidado de não retirar dos educandos o protagonismo. É o
educando que deve organizar e programar as ações na escola, como destaca Almeida apud
Camini (2009).
A auto- organização dos estudantes é pensada como fio condutor da
formação e gestão da escola do campo. É assumir na concretude o que se
defende sobre “ser sujeito do processo”. Ninguém se faz sujeito se não “põe
a mão na massa”. E jamais alguém se torna sujeito esperando ou aceitando
que os outros façam por ele. Tornamo-nos sujeitos na ação. A estrutura
orgânica da escola está apoiando nos núcleos de base e na formação de
coletivos ou equipes disso, é possível levar nossos estudantes e professores a
compreenderem que há momentos de coordenar e outros de serem
coordenados, entendendo a importância de propor, avaliar e tomar decisões
coletivas sobre o processo (CAMINI, 2009, p. 227).
Em determinadas ações, conforme descritas no relatório (2014), percebemos que a
auto-organização dos educandos perpassa o chão da escola e reflete na organização do
acampamento, pois para organizar o trabalho os estudantes precisaram dialogar e organizar
esta a ação junto à comunidade. Esta ação afirma a pertinência da relação entre as ações de
trabalho que perpassam as demandas da escola, que de acordo ao Plano de Estudo (2013)
assumem dimensões pedagógicas. São iniciativas que se aproximam do conceito de trabalho
socialmente necessário.
Os núcleos se constituem espaço de vivenciar teoria e pratica, pois os educandos e
professores desenvolverão um conjunto de ações que perpassam a prática de planejamento
coletivo, a execução de tarefas e a apropriação de conhecimentos científicos. Deste modo, os
Núcleos Setoriais influenciam na gestão da organização do Trabalho Pedagógico e demandam
estudos específicos sobre determinados aspectos que as disciplinas precisam desenvolver.
Todavia, percebemos que há limites em movimentar as disciplinas para que as
demandas identificadas desde os Núcleos Setoriais se articulem aos conteúdos desenvolvidos,
658
pois esta ação demanda outras iniciativas, como a prática do planejamento coletivo, que ainda
é um exercício árduo entre os educadores.
As reflexões contidas no relatório (2014) apontam que em alguns momentos os
educandos deixavam de se auto-organizar, porque faltava a compreensão da necessidade de
fazê-lo.
Constamos que o que mais avança nesta forma de auto-organização dos estudantes são
as ações de trabalho específico dos núcleos, nas quais é possível desenvolver maior
autonomia, iniciativa e gosto pelo trabalho coletivo, dentre outros. Permanece o limite em
estabelecer a relação entre as ações desenvolvida nos núcleos e o ensino.
Conclusões do trabalho desenvolvido
Ao passo que retomamos estudos sobre a Proposta Pedagógica da Escola Itinerante,
percebemos quão as ações que estão em andamento nesta escola dão unidade aos pressupostos
e indicativos de organização do ensino e dos educandos.
No
entanto,
ainda
é
preciso
avançar na compreensão teórica sobre a mesma, pois quando a teoria não consegue ser
resignificada na prática cotidiana da escola, é porque ainda faltam elementos a ser
apropriados.
Por se tratar de uma proposta nova de organização escolar e de ensino, em alguns
momentos as disciplinas não conseguem fazer ligação direta com as atividades dos núcleos
setoriais, deixando lacuna entre a teoria e a prática dos educandos. Deste modo, destacamos a
importância dos educandos e professores permanecer em constante formação e estudo, a fim
de compreender o ensino desde a perspectiva dos Complexos de Estudo, bem como a gestão
democrática da escola, desde os processos de autogestão dos educandos.
Estes elementos e iniciativas em andamento, sem dúvida, contrapõe a cultura escolar
hegemônica, na qual as relações de poder são reguladas por leis, muitas vezes externas a
escola, que são incorporadas por professores e educandos, tornando-se submissos e passivos a
elas.
Os Núcleos Setoriais são iniciativas de autogestão dos estudantes, que mesmo com
limites, contribuem significativamente para formar outra postura politica e pedagógica no
coletivo escolar, na qual os educandos e professores são sujeitos destes processos.
Através desse processo planejado de Inserção na Escola, obteve-se melhores
condições de compreender o Núcleo Setorial dentro da Escola Itinerante Sementes do
659
Amanhã. No decorrer das atividades desenvolvidas, observamos que os educandos
entenderam a condução do Núcleo Setorial parte da própria auto- organização dos mesmos.
REFERENCIAS BIBLIOGÁFICAS
CAMINI, I. Escola Itinerante, na fronteira de uma nova escola, São Paulo, Expressão
Popular, 2009.
PPP. Projeto Político Pedagógico do Curso Pedagogia para Educadores do Campo da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Unioeste, Campus de Cascavel-PR, 2013.
PPP. Projeto Político Pedagógico da Escola Itinerante/ MST-PR, Curitiba, 2013.
RELATÓRIO DO PIBID, A prática com os Núcleos Setoriais, 2014.
FREITAS, L.C; CALDART, R.S; SAPELLI, M.L.S.(Orgs). Plano de Estudos da Escola
Itinerante, 1º Edição, Edunioste, Cascavel, 2013.
FREITAS, L. C. Introdução. In: PISTRAK, M. M. A Escola-Comuna. São Paulo:
Expressão. Popular, 2009.
MST. Como fazemos a escola de educação fundamental. Caderno de Educação nº9. São
Paulo: MST, 1999.
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