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Simmel e a cidade moderna - UNIVERCIENCIA.ORG Revistas em
Ricardo Ferreira Freitas
RESUMO
É nas grandes cidades que se dá a maior parte das produções midiáticas
e, em geral, elas também são o cenário e o argumento dessas produções.
Isso acontece no jornalismo, na publicidade e em toda a indústria do
entretenimento. Daí a relevância de se considerarem diferentes argumentações teóricas que possam servir de reflexão a essas práticas comunicacionais. Neste artigo, nos apoiamos na herança teórica de Georg
Simmel como importante alternativa para a compreensão da comunicação nas metrópoles.
Palavras-chave: Cidade; comunicação; Simmel; indivíduo; dinheiro;
conflito.
ABSTRACT
Most of the media productions takes place in the big cities. In general, the
media themselves are the scenery and plot of these productions. This happens
in journalism, in advertising as well as in the whole industry of entertainment. Therefore, the relevance of considering different theoretical arguments
that may serve as a reflection on these communicational practices. In this
article, we rely on George Simmel’s theoretical inheritance as an important
alternative to the comprehension of communication in the metropolises.
Keywords: City; communication; Simmel; individual; money; conflict.
Professor adjunto da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Pósdoutor e doutor em sociologia pela Universidade Paris V/Sorbonne e mestre em comunicação e cultura pela ECOUFRJ. Autor de Centres commerciaux: îles urbaines de la post modernité. Paris: L’Harmattan, 1996. Em 2005, lançou,
com Rafael Nacif, a coletânea Destinos da cidade: comunicação, arte e cultura. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2005.
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Simmel e a cidade moderna:
uma contribuição aos estudos
da comunicação e do consumo
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Os problemas mais profundos da vida moderna têm sua fonte
na pretensão do indivíduo de afirmar sua autonomia e a especificidade
de sua existência diante dos excessos de poder da sociedade, da herança
histórica, da cultura e da técnica provenientes do exterior [...]
(Simmel 2004: 169)
Para ampararmos nossa discussão sobre a relação entre a comunicação social e a cidade contemporânea, optamos em nos debruçar neste artigo sobre o pensamento de Georg Simmel, não só pela atualidade
de seus textos, mas sobretudo devido à sensibilidade com que trata os
assuntos relevantes à modernidade. Moda, dinheiro, mulher, conflito,
sociedades secretas, entre outros temas geniais, enriquecem sua obra. A
cidade é um dos seus assuntos preferidos. Nas últimas décadas, muitos
são os autores que resgataram suas idéias, como Featherstone, Watier,
Bourdin e Maffesoli, dando-lhe lugar nas ciências sociais e disciplinas
afins. Trazer o pensamento de Simmel para a área de comunicação social
não é a idéia principal deste texto, mas, sim, um reforço à consolidação
de seu nome como uma fonte de inspiração possível aos estudos midiáticos, especialmente no que tange às questões urbanas e de gênero.
Alain Bourdin nos lembra no seu livro La métropole des individus
que, entre os fundadores da sociologia alemã, Simmel, Weber, e Tönnies
se destacam no debate intelectual e político sobre as metrópoles. Inspirados pelo crescimento exponencial de Berlim entre 1867 e 1913, período
em que a cidade passa de 700 mil a 4 milhões de habitantes, eles discorrem sobre os mais diversos temas da modernidade, como comunidade, gênero, economia e trabalho, encontrando nas metrópoles pontos de
convergência e de mobilização. Entre esses pensadores, Simmel é o que
Tradução livre do autor em todos os trechos de Simmel retirados do livro Philosophie de la modernité.
Georg Simmel nasceu em Berlim, em março de 1858, e morreu em Estrasburgo, em setembro de 1918. Até ingressar como titular de cátedra na Universidade de Estrasburgo, em 1914, Simmel trabalhou quase trinta anos na
Universidade de Berlim como conferencista e professor convidado. Inspirado em Kant, amigo de Weber e Tönnies,
sua filosofia se aproximou mais da sociologia, campo ao qual dedicou boa parte de seus escritos.
Neste artigo, interpreto a modernidade como antecedente à época contemporânea, mas com aspectos absolutamente presentes nos dias de hoje. Parto do princípio de que esses momentos se fundem em um cotidiano complexo na contemporaneidade. O pensamento de Simmel me interessa justamente por isso, apesar de datado em
alguns aspectos. Trata-se, no meu ponto de vista, de uma maneira pioneira de interpretar a sociedade informacional em que vivemos.
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mais se preocupa com a elaboração de uma problemática da metrópole,
propondo uma postura metodológica que entenda a cidade como o lugar no qual se elabora uma nova forma de conceber e de compreender a
sociedade, lugar de reflexão máxima da modernidade (Bourdin 2005: 1718). Para isso, Simmel explora segmentos da realidade para compreender
o social por meio de um olhar atento às interações dos indivíduos entre si
e deles com os espaços urbanos, escapando assim de uma simples dicotomia indivíduo-sociedade. Não é à toa que sua obra marca atualmente
algumas das perspectivas teóricas da sociologia urbana.
O indivíduo e a cidade: do avarento ao blasé
Segundo Simmel, o individualismo moderno é um dos motores fundamentais das grandes cidades. Simmel não opõe o indivíduo à sociedade,
ao contrário, ele compreende a individualização como outra face da socialização. A metrópole é, nesse contexto, um ambiente no qual o cidadão
reivindica sua autonomia e sua especificidade diante dos grupos com que
convive. O intelecto do homem nas metrópoles é infinitamente mais estimulado que nas pequenas cidades ou no campo, constituindo-se como um
dos efeitos marcantes da intensificação da vida nervosa no cotidiano. Para
Simmel, essa “intensificação da vida nervosa” resulta das trocas rápidas e
ininterruptas das impressões externas e internas vividas nas metrópoles.
Para lidar com o bombardeio aos estímulos visuais e auditivos, o homem
da cidade não reage de forma direta e emocional, como faz o homem da
pequena cidade, mas, sim, de forma indireta e intelectual (Simmel 2004:
170). É uma forma de resposta a todas as solicitações sensoriais típicas da
excessiva quantidade de comunicações presente nas metrópoles. Simmel
considera que o homem encontra dificuldade para se adaptar a uma troca
permanente de impressões sensoriais e que, nas pequenas cidades, há mais
ambiente para a afetividade. “[...] a cada saída à rua, com o ritmo e a diversidade da vida social, profissional e econômica, a grande cidade estabelece
[...] uma profunda oposição com a cidade pequena e com o campo, cujos
modelos de vida sensível e espiritual têm um ritmo mais lento, mais habitual e que se desenvolve de forma regular” (idem: ibidem).
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O cidadão deve, então, se proteger nas metrópoles e, por isso, é obrigado a mascarar seus sentimentos e, muitas vezes, não reagir às solicitações
exteriores, assumindo um certo ar blasé no cotidiano. Na verdade, nessa
visão simmeliana, as pessoas blasés só existem nas grandes cidades, palcos
do teatro do espetáculo social. Lugares de máscaras e de papéis sociais que
se transformam em papéis de representação teatral. A incapacidade de reagir às novas estimulações com a energia necessária é uma das principais
características desse comportamento blasé. Outro aspecto fundamental é
a atenuação das diferenças entre as coisas, não no sentido de que elas não
poderiam ser percebidas, mas de tal maneira que o valor das diferenças entre elas se anula (idem: 174). Segundo Frédéric Vandenberghe, um ponto
comum entre o pensamento de Simmel e o de Benjamin reside na hipótese
de que o homem urbano desenvolve uma espécie de compensação para se
defender da aproximação entre ele e as coisas. Essa compensação se daria
pela tomada de uma distância interior que conduz a uma estetização da
realidade, na qual o intelecto funciona como um órgão de proteção contra
a hiperestimulação nervosa das cidades (Vandenberghe 2001: 89-90).
O cidadão é, então, blasé na medida em que neutraliza algumas diferenças individuais, já que as cidades são lugares privilegiados de trocas, por
meio do dinheiro, por exemplo. Aliás, a atitude blasé é impregnada pela
economia monetária, visto que o dinheiro avalia da mesma maneira (por
números) a maioria das coisas, sendo o denominador comum de todos os
valores. O dinheiro é, nesse sentido, o mais importante nivelador da sociedade, esvaziando as coisas de seus conteúdos, ou seja, de seu possível valor
específico e incomparável. A influência do dinheiro não se manifesta somente na preponderância do intelecto sobre a vontade e as paixões, mas,
também, na dominação do quantitativo sobre o qualitativo. Nessa perspectiva, a modernidade se caracteriza por uma espécie de intelectualidade
calculadora que gere a construção das opções de vida dos cidadãos. Para
Simmel, essa calculabilidade passou a fazer parte da vida cotidiana, levando as pessoas a passarem os dias inteiros a avaliar, a calcular e a reduzir os
valores qualitativos em valores quantitativos (idem: 88-89).
O dinheiro, exatamente por ser o meio incondicional para se conseguir as coisas, transforma-se em fim absoluto de todas elas. Nas grandes
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cidades, o fato de a necessidade econômica substituir os meios pelos
fins provoca a inversão psicológica do meio em fim absoluto. Portanto,
se nas metrópoles tudo é colorido pelo interesse por dinheiro, isso explica, segundo Simmel, a perda do sentido que caracteriza a modernidade. Assim, o dinheiro seria o deus terrestre da modernidade, ou seja,
o centro das coisas mais opostas, mais estranhas, mais afastadas que
nele encontram seu ponto comum e entram em contato. Brincando
com as figuras do avarento, do pródigo, do cínico e do blasé, Simmel
constrói uma interessante alegoria com esses personagens urbanos. No
comportamento do avarento, por exemplo, nota-se bem que o dinheiro
é o valor absoluto da modernidade, já que ele goza com o dinheiro que
possui e não utiliza. Mas esse valor também é notado no comportamento do pródigo, que dilapida seu patrimônio. Em ambos os casos,
o dinheiro é a base da felicidade no cotidiano. Já para o cínico, que
conhece o preço de tudo mas não conhece o valor (moral) de nada, e
para o blasé, para quem os valores são indiferentes, o dinheiro anestesia
todos os valores.
A cidade e a economia monetária
Se um dos princípios que difundem a modernidade na sociedade é
a economia monetária, é claro que ela (a modernidade) tende a se
manifestar nas grandes cidades. Sendo sedes da economia monetária, metrópoles como Berlim, Londres e Paris, entre outras citadas por
Simmel, caracterizam-se, no início do século XX, pela aceleração geral
do tempo, dadas a intensificação do comércio e a multiplicação dos
contatos superficiais entre estranhos (Vandenberghe 2001: 89). Nesse
panorama, o intelecto do homem urbano dialoga intimamente com
a economia monetária. Daí, o excesso de racionalidade nas relações
que o habitante da grande cidade desenvolve com seus fornecedores,
clientes, empregados, entre outros atores sociais. Em uma região mais
restrita, o inevitável conhecimento das individualidades daria uma tonalidade mais afetiva ao comportamento, superando a simples avaliação objetiva do que se produz e do que se recebe em contrapartida
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(Simmel 2004: 171). Do ponto de vista do que Simmel chamaria de
psicologia econômica, as relações anteriores à modernidade eram baseadas na produção para o cliente, que encomendava a mercadoria, de
maneira que produtor e cliente se conheciam mutuamente. Já a grande
cidade moderna se alimenta quase completamente da produção para
o mercado, ou seja, para clientes desconhecidos que nunca são vistos
pelo produtor, o que caracteriza uma objetividade implacável que afeta
o interesse das duas partes.
[...] as grandes cidades, enquanto sedes por excelência da circulação do
dinheiro, são os lugares nos quais os valores mercantis das coisas se impõem com uma amplitude diferente da que ocorre nas relações menores
e são também os lugares específicos para se ser blasé. Nelas, culmina em
uma certa medida o sucesso da concentração dos homens e das coisas que
empurra o indivíduo até a sua mais alta capacidade nervosa; pelo crescimento somente quantitativo das mesmas condições, o sucesso se inverte
em seu contrário, nesse fenômeno específico de adaptação que é o caráter
blasé, no qual os nervos descobrem uma última possibilidade de acomodar conteúdos e a forma de vida na grande cidade [...] (idem: 175).
Na tentativa de se resguardar da proximidade com as pessoas socialmente muito distantes, o habitante da grande cidade esconde sua
sensibilidade com atitudes que priorizam a indiferença em relação aos
outros. Simmel argumenta que, sem esse distanciamento, nós não poderíamos viver juntos. A forma de vida nas grandes cidades é o solo
mais fecundo para esse imaginário, muitas vezes pontuado de conflitos, os quais, em uma visão simmeliana, são momentos de interessante desenvolvimento da sociedade. O conflito é uma forma pura de
sociação necessária à vida do grupo, e à sua continuidade, como o
consenso.
“A sociedade só é possível pela existência das formas de sociação, verdadeiro a priori lógico da sua existência. A
primeira delas é a determinação quantitativa dos grupos, que, a partir de dois elementos mínimos, influi na sua
organização. Há uma série de formas de convivência, de unificação e de ação recíproca entre os indivíduos, que
atendem só ao sentido que tem o número dos indivíduos sociados nas referidas formas. A segunda condição é o
processo dominação-subordinação, que importa interação entre dominante e dominado, entre autoridade e certa
liberdade de aceitação do subordinado. Distingue Simmel entre autoridade e prestígio, antecipando-se em muitos
pontos às conhecidas idéias de Weber sobre os tipos de dominação. A terceira condição é o conflito [...]” (Ver Moraes Filho, 1983, p. 22-23).
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Ele é indispensável à coesão do grupo. O conflito não é patológico nem
nocivo à vida social, pelo contrário, é condição para sua própria manutenção, além de ser o processo social fundamental para a mudança de uma
forma de organização para outra (Moraes Filho 1983: 22-23).
O conflito e o homem urbano
O conflito é substância fundamental à organização da sociedade, visto
que seu ordenamento, para se adequar à sua época, deve avançar. Apesar
das interpretações muitas vezes dualistas sobre a construção das relações
sociais, sempre à procura da unidade na dualidade ou da dualidade na
unidade, a visão de Simmel sobre o conflito como força de interação e
de associação é absolutamente pertinente às questões contemporâneas.
O conflito é, inicialmente, fruto de uma hostilidade e de uma oposição
de idéias ou de valores, mas, ao unir na mesma luta os seus opostos, ele
evidencia que não há oposição sem adesão. O conflito pressupõe, portanto, o reconhecimento da existência do inimigo e de seus interesses, já
que, se não houvesse interesses comuns, a divergência não teria objeto
para existir ou se fazer presente.
Se toda ação recíproca entre os seres humanos é uma socialização, o combate, que é uma das mais vigorosas formas de ação recíproca, e que é
logicamente impossível se o limitarmos a um elemento singular, deve ter
o valor total da socialização (Simmel 2004: 355).
Assim, as relações conflituosas se dão pela correlação das energias
que as alimentam, de tal maneira que somente o conjunto das duas
partes envolvidas pode constituir a unidade concreta da vida do grupo.
Para Simmel, faz parte da essência das almas humanas não se deixar ligar por um só fio condutor. O homem, especialmente o das grandes cidades, convive com a pluralidade de formas diferenciáveis de relações
sociais (idem: 361). As ações recíprocas – que implicam a interação
de, pelo menos, dois indivíduos – criam em cada um características
inexplicáveis se as considerarmos isoladamente. Daí a necessidade de
religar cada ponto periférico ao centro do qual emana, idéia que orquestra o que Simmel chamaria de geometria social. A experiência
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vivida como movimento unitário e criador, na qual está subentendida
a oposição entre formas e conteúdos, permite religá-las de maneira dinâmica e relacional de tal modo que essa oposição se transforma em
interação.
A distância calculada dos homens e das coisas e a cultura da subjetividade constituem, na verdade, duas faces diferentes de um mesmo
fenômeno, já que, ao se proteger por trás de uma imagem de civilidade,
o homem pode se abrigar das pressões sociais e adquirir uma considerável liberdade pessoal. Essa dialética entre a alienação e a liberação
caracteriza a modernidade, dando lugar ao desenvolvimento simultâneo da objetividade e da subjetividade. Não só os conteúdos culturais
se cristalizam em uma espécie de universo cultural hipertrofiado e
autônomo, mas esse universo unificado se decompõe por sua vez em
uma pluralidade de mundos irredutíveis e inseparáveis uns dos outros,
seguindo cada um sua própria lógica objetiva e imanente. O substrato
do mundo é constituído, nesse ponto de vista, de uma multiplicidade
infinita de conteúdos que existem também para além do tempo e do
espaço. Simmel chama a totalidade desses conteúdos de Welstoff (matéria do mundo). Na condição de multiplicidade de conteúdos, essa
matéria do mundo pode ser sintetizada em unidade pelas formas, apesar de elas serem historicamente variáveis. A forma que religa sistematicamente os conteúdos em uma rede de relações é, portanto, o princípio
de unificação da multiplicidade amorfa. Simmel distingue diversos tipos de formas – o conhecimento, a arte, a filosofia, a religião, a ética
e mesmo o amor. Quando a totalidade dos conteúdos é sintetizada de
maneira sistemática por uma só forma específica, ela se constitui como o que Simmel chama de “mundo”. Nessa perspectiva, o “mundo”
seria um conjunto de conteúdos no qual cada peça é retirada de seu
isolamento e agregada a um sistema unificado, em uma forma que é,
em princípio, capaz de conter o conhecido e o desconhecido (Vandenberghe 2001: 96-97).
O instinto de autoconservação do indivíduo na grande cidade o obriga a um comportamento de natureza social que não é negativo, mas,
sim, da ordem da proteção. Afinal, ele está em vários “mundos”. A ati-
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tude dos habitantes das grandes cidades, em relação uns aos outros, designa, na verdade, um caráter reservado. “Nós não conhecemos, muitas
vezes mesmo de vista, nossos vizinhos próximos, e parecemos ser frios
e sem coração ao olhar dos habitantes das pequenas cidades” (Simmel
2004: 175). Se o encontro exterior e contínuo de um número incalculável de seres humanos resultasse nas mesmas reações interiores que vivemos nas pequenas cidades, onde as pessoas da localidade são conhecidas
e onde se tem uma relação – mais ou menos próxima – com cada um,
viveríamos uma atomização da intimidade. É, portanto, essa defesa, ou
seja, o direito de desconfiar do outro, um dos principais elementos da
reserva do homem urbano.
Simmel, a comunicação e o consumo
É nas grandes cidades que se dá a maior parte das produções midiáticas
e, em geral, elas também são o cenário e o argumento dessas produções.
Isso acontece no jornalismo, na publicidade e em toda a indústria do entretenimento. A metrópole é, nesse sentido, um fantástico laboratório de
interpretação das manifestações locais e globais da contemporaneidade.
Daí, um dos principais aspectos da importância da obra de Simmel para
os estudos da comunicação, levando em conta, obviamente, a atualização de alguns pontos. As descrições das tendências da modernidade são
um bom exemplo do arsenal que ele nos deixou como possibilidade de
reflexão sobre a pluralidade do cotidiano urbano. Um objeto, uma obra
de arte, uma manifestação, um evento, os modos de ação recíproca nos
transportes públicos servem de referências para propor as interpretações
da experiência social (Watier 2003: 8).
A comunicação urbana aporta um conjunto de conhecimentos fundamentais para a compreensão da dinâmica social contemporânea,
principalmente se considerarmos que as metrópoles não podem mais
ser vistas como um conjunto de efeitos mecânicos do desenvolvimento das indústrias modernas, mas, sim, como lugares de explosões midiáticas e comunicacionais de todas as ordens e dimensões. Simmel
constata que existe uma correlação entre o crescimento dos tipos e dos
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tamanhos dos grupos nas metrópoles e o domínio da ação individual.
Assim, não é exatamente o pertencimento a um grupo de pequeno porte que determina a possibilidade de individualização do cidadão, mas,
sim, a individualidade do grupo que determina o grau de adesão de
seus componentes. A comunicação social tenta justamente criar grupos todo o tempo. Grupos de leitores de um jornal, de trabalhadores
de uma empresa, de consumidores de uma marca, de voluntários em
projetos comunitários, por exemplo.
Uma conseqüência do aumento dos tipos e dos tamanhos dos grupos
reside na necessidade de encontrar meios que favoreçam a interação entre seus membros. Desta forma, Simmel concebe o nascimento de meios
de comunicação generalizada, como o dinheiro, que possibilitem associações entre indivíduos diferenciados psicológica, social e geograficamente (idem: 104). A diferenciação individual vinculada à diferenciação
social e em relação com os meios de troca modifica as distâncias que os
indivíduos desenvolvem com seus domínios. O dinheiro intervém como
causa e efeito de uma separação espacial do sujeito e de sua posse, como
os acionistas que nunca colocaram os pés na sua empresa, por exemplo.
“Um simples olhar sobre as transações nas bolsas de valores é eloqüente
para confirmar a pertinência da apreciação e a um grau que Simmel não
podia, evidentemente, perceber” (idem: 105).
O pensamento de Simmel sobre o dinheiro nos remete ao que hoje
é compreendido como consumo. Longe de propormos uma visão reducionista, também podemos admitir que o consumo é, simultaneamente,
o meio e o fim de todas as coisas. O mundo da comunicação social,
especialmente o construído pela publicidade e propaganda e pela indústria do entretenimento, remete-nos a um consumo infindável, no qual
o processo de consumir é muito mais importante que os objetos ou serviços adquiridos. O consumo agrega valor ao cotidiano e, segundo os
argumentos do marketing, os cidadãos não existem sem ele ou, em outro
prisma, não têm como exercitar sua cidadania. “Se o consumo tornou-se
um lugar onde freqüentemente é difícil pensar, é pela liberação do seu
cenário ao jogo pretensamente livre, ou seja, feroz, entre as forças do
mercado” (Canclini 1995: 64).
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Simmel (1991: 51) várias vezes assinalou que já no século XIX a publicidade se apoderou dos assuntos de Estado a um ponto tal que os governos passaram a ter de publicar seus dados administrativos e financeiros,
os quais até então todos os regimes acreditavam ter de manter secretos,
para poderem subsistir. Com isso, como avalia Simmel, a política, a administração e a justiça perderam seu caráter secreto e inacessível. Simultaneamente, a vida moderna teve de desenvolver técnicas para manter
secretos os assuntos privados em meio à promiscuidade das grandes cidades, o que anteriormente era possível apenas no isolamento geográfico.
Novas maneiras de agrupamentos e de meios de comunicação e de relações devem ser necessariamente desenvolvidas para dar conta da multiplicidade metropolitana de códigos, tanto no contexto macropolítico
como nas questões das microassociações. Quase um século após, Michel
Maffesoli (1992: 39) considera que, na pós-modernidade, só o presente
importa, o que justifica o crescimento de novas formas de pertencer ao
coletivo. Um coletivo unido pelo objeto e pela imagem.
Consumir significa existir socialmente ou, em outras palavras, estar
integrado à sociedade. Os diferentes grupos atraem-se e rejeitam-se de
acordo com os valores minúsculos que compartilham e com o grau de
individualização do grupo, ou seja, de identificação e projeção do cidadão em relação a ele. O papel do consumo, nesse quadro, é o de cimentar o novo cenário social que se estrutura. Assim, as incertezas, incluindo
as de ordem afetiva, graças ao dinheiro, dão origem às culturas dos sentimentos inspirados pelo consumo, propiciando a lógica da agregação
aparentemente diferenciada.
Mais algumas considerações
A maneira como Simmel interpretou as transformações sociais da modernidade é absolutamente pertinente a algumas das grandes questões
da contemporaneidade. Na área de comunicação social, como foi dito
no início deste artigo, Georg Simmel ainda não é suficientemente valorizado. No entanto, sua obra pode alimentar diversas discussões sobre a
comunicação social contemporânea com alguns ingredientes bastante
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excitantes. Toda a sua abordagem sobre a relação entre indivíduo, dinheiro e cidade é especialmente significativa, sobretudo para aqueles
que se dedicam aos estudos do consumo com base em uma visão de
comunicação.
As manifestações comunicacionais das grandes cidades são fascinantes. Vozes em todos os tons, as mais variadas cores, inesperados
movimentos. Inúmeras revelações e acordos habitam suas ruas em uma
interminável teatralidade genial e imprevista. As palavras, as coisas e os
corpos brincam e brigam com a arquitetura e as paisagens em um jogo
que constrói, desconstrói e ao mesmo tempo retrata a comunicação de
cada época. A cidade toma conta de nossas vidas, ela faz parte de nossas
histórias. Daí o nosso convite para compreender um pouco melhor sua
polifonia.
As metrópoles, com suas explosões permanentes de comunicações,
agregam e desagregam os indivíduos. A animação dessas agregações
está relacionada aos acontecimentos e aos desejos no cotidiano urbano. Com isso, uma multiplicidade de valores recai sobre uma espécie
de narcisismo coletivo que alimenta a dialética entre o individualismo
e o agrupamento, enfatizando, muitas vezes, a estética mais do que a
ética, ou mesmo fundindo ética e estética em valores comuns. Trata-se
da natureza das paixões compartilhadas dos dias de hoje que promovem, ao mesmo tempo, estilos particulares, modos de vida, ideologias,
indumentárias, valores sexuais. Em todos esses aspectos o consumo
está presente.
Estudar os meandros que permeiam as narrativas urbanas do consumo e tentar interpretá-las pelo viés da teoria da comunicação é um
grande desafio que nos seduz. Por isso, nosso interesse pelo agir urbano.
As surpresas que as cidades nos oferecem com suas efervescências culturais são convites permanentes à paixão. Nesse panorama, entendemos a
mídia como cúmplice das cidades, retratando-as ou transformando-as. A
cidade e a comunicação são assuntos que se retroalimentam permanentemente. É, portanto, na área de comunicação social que, no nosso entender, reside uma série de segredos-chave para a melhor compreensão
dos nossos tempos.
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