...

O estágio curricular supervisionado como componente

by user

on
Category: Documents
3

views

Report

Comments

Transcript

O estágio curricular supervisionado como componente
O estágio curricular supervisionado como componente teórico
e prático em cursos de formação inicial de professores
Nadiane Feldkercher*
Resumo
As orientações legais para a formação de professores apontam para a
articulação entre teoria e prática em tais cursos e esclarecem que a dimensão
prática deve ultrapassar o limite do estágio curricular supervisionado e estar
presente em todos os componentes curriculares do curso. Frente a isso, nesse
artigo, discuto e defendo a dimensão teórica e prática para os cursos de
formação inicial de professores, o estágio curricular supervisionado como
componente essencial para a formação do professor e a dimensão teórica e
prática dos estágios desses cursos.
Palavras-chave: formação inicial de professores; estágio curricular
supervisionado; teoria; prática.
Abstract
The legal guidelines for teachers’ education point to the link between theory
and practice in such courses and clarify that the practical effect may exceed
the limit of supervised curricular training and to be present in all components
of the course curriculum. Because of that, in this article, I discuss and defend
the theoretical and practical dimension to the courses of initial teachers’
education, the supervised curricular training as an essential component for
teachers’ education and theoretical and practical dimension of the training of
these courses.
Key words: initial teachers’ education; supervised curricular training;
theory; practice.
*
NADIANE FELDKERCHER é acadêmica do Mestrado em Educação pelo Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas. Linha de pesquisa: Formação de
professores: ensino, práticas e processos educativos.
110
Apontamentos iniciais
Ao se pensar a relação teoria e prática
nos cursos de formação inicial de
professores, de certo modo, existem
sensos comuns. No senso comum,
algumas pessoas acreditam que o
conhecimento da técnica e o
conhecimento prático são suficientes
para o professor ensinar; outras
acreditam que conhecendo a teoria é
possível uma boa atuação docente.
Porém, não é assim que compreendo o
trabalho do professor.
Ninguém se tornará um bom
profissional
apenas
executando
determinadas atividades ou estudando
teorias, pois vejo a prática intrínseca à
teoria e a teoria intrínseca a prática; nem
teoria nem prática têm fim em si - o que
explico melhor na seqüência.
A desarticulação entre teoria e prática
nos cursos de formação inicial de
professores perdurou por muitos anos.
Durante muito tempo a formação
ocorreu pelo modelo “3+1”, onde os
três primeiros anos eram teóricos e o
ano seguinte era o pólo prático da
formação de professores. A partir dessa
percepção, da dissociação e possível
defasagem nos cursos de formação
inicial de professores, a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB 9.394/96) estabeleceu,
no seu artigo 61, que a formação dos
profissionais da educação deve ter como
fundamento a associação entre teorias e
práticas.
Posterior a LDB, as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Formação
de Professores da Educação Básica
(Resoluções do CNE/CP no 1 e 2/2002 –
DCN) ressaltaram a necessidade de se
repensar a teoria e prática nos cursos de
formação de professores enfatizando
que não se deve polarizar essas
111
dimensões mas compreende-las como
componentes curriculares relacionais,
garantindo a sua unidade.
Igualmente a Pimenta e Lima (2004, p.
43) compreendo que o papel das teorias
é
As Resoluções CNE/CP no 1 e 2/2002
trouxeram novas perspectivas para a
prática como componente curricular e
para
o
estágio
curricular
supervisionado: elas não prevêem que a
dimensão prática seja vivenciada
somente no último ano do curso mas
indicam que a prática como componente
curricular seja vivenciada durante todo
o curso e que o estágio inicie na
segunda metade do curso. A Resolução
no 1/2002 indica ainda que a prática
deve estar presente em todas as
disciplinas que constituem o currículo
do curso de formação e não
exclusivamente nas disciplinas de
caráter pedagógico. Além disso, a
Resolução CNE/CP no 2/2002 estipulou
que das 1800 horas do curso de
formação inicial de professores 400
horas devem ser destinadas as práticas
como componente curricular e 400
horas para os estágios curriculares
supervisionados. Como as Resoluções
sugerem que a prática comece no início
do curso entende-se que ela não é
concebida como aplicação de teorias e
que tende a colaborar para que o aluno
compreenda como funciona o sistema
educativo e prepare-se para seu
posterior estágio de regência de classe.
[...]
iluminar
e
oferecer
instrumentos e esquemas para
análise
e
investigação
que
permitam questionar as práticas
institucionalizadas e as ações dos
sujeitos e, ao mesmo tempo,
colocar
elas
próprias
em
questionamento, uma vez que as
teorias são explicações sempre
provisórias da realidade.
Nessa função que as autoras atrelam a
teoria é perceptível que essa não se
desvincula da prática e que, com a
prática, a teoria está sempre se
reinventando.
Para compreender a dimensão prática da
formação de professores concordo com
Fávero (2001, p.65) quando expressa
que a prática é “um ponto de partida e,
também, de chegada”. A prática não é
reduzida a uma ação repetida ou a uma
experiência sem reflexão; a prática
proporciona a reflexão sobre o fazer, a
prática requer embasamento teórico e
possibilita também a (re)construção de
conhecimentos.
Idealiza-se, então, que teoria e prática
sejam indissociáveis durante a formação
inicial de professores e que a prática
não fique isolada ao estagio curricular
supervisionado.
Ante esses entendimentos é possível
visualizarmos um ciclo contínuo entre
teoria e prática, um vai e vem
ininterrupto: a teoria ilumina a prática e
assim possibilita novos fazeres; a
prática
comprova,
desmente
e
aperfeiçoa teorias; as teorias são
sustentadas por práticas e as práticas por
teorias. Enfim, teoria e prática são
indissociáveis.
Como as orientações legais, defendo
que a formação de professores deve
articular teoria e prática e, além disso,
considero
o
estágio
curricular
supervisionado
um
componente
curricular que não separa a prática e a
teoria. Dessa forma explicito o que
entendo por teoria e por prática.
Por si só a teoria não leva à
transformação da realidade e não se
objetiva. A prática também não fala por
si mesma. A partir disso, chega-se ao
conceito de práxis entendendo essa não
só como a unidade entre teoria e prática,
mas como uma “ação com sentido
humano [...] projetada, refletida,
112
consciente, transformadora do natural,
do humano e do social” (PEREIRA,
1982, p. 77).
Possivelmente seja nesse sentido que
Pimenta (2006, p. 83) argumenta que “a
atividade docente é práxis” e, explicita
esse conceito a partir da contribuição de
Vásquez que concebe práxis como uma
prática que se faz pela atividade humana
de transformação da natureza e da
sociedade, pela atitude humana diante
do mundo, da sociedade e do próprio
homem.
A partir dos apontamentos feitos até
então acerca da teoria e da prática nos
cursos de formação de professores
pergunto: como ocorre a articulação
entre teoria e prática nos cursos de
formação inicial de professores? Quem
são os encarregados pela formação
teórica e prática? O professor
responsável pelo estágio e a escola
campo assumem responsabilidades
maiores sobre a formação prática dos
professores?
O estágio na formação inicial de
professores
Um dos componentes curriculares que
constitui qualquer curso de formação
inicial de professores é o estágio
curricular supervisionado. O estágio
pode ser visto a partir de diferentes
perspectivas: por um lado pode ser
considerado o momento prático,
momento ou de aplicações de teorias e,
por outro lado, pode ser entendido como
uma disciplina de unidade entre teoria e
prática.
Como já mencionado, entendo o estágio
como um componente que integra teoria
e prática, porém faço a ressalva de que
não é somente esse componente
curricular o responsável por essa coesão
em cursos de formação inicial de
professores; a dimensão prática da
formação docente deve transcender ao
estágio curricular supervisionado ou,
conforme orientação do parágrafo
primeiro do artigo 12 da Resolução
CNE no 1/2002, a “prática, na matriz
curricular, não poderá ficar reduzida a
um espaço isolado, que a restrinja ao
estágio, desarticulado do restante do
curso”.
Compreendo o estágio na formação de
professores como um componente
essencial, um momento vantajoso para a
formação crítica e reflexiva do
professor e para a construção dos
saberes advindos da prática (LEITE;
GHEDIN; ALMEIDA, 2008). Lembro
que o foco desta discussão é o estágio
curricular, o estágio obrigatório para os
cursos de graduação. Para explicitar o
estágio obrigatório trago as orientações
da Lei nº 11.788/2008 - que dispõe
sobre estágio de estudantes - que no
artigo 2º diferencia estágio obrigatório
de estágio não-obrigatório:
§ 1º Estágio obrigatório é aquele
definido como tal no projeto do
curso, cuja carga horária é requisito
para aprovação e obtenção de
diploma.
§ 2º Estágio não-obrigatório é
aquele
desenvolvido
como
atividade opcional, acrescida à
carga horária regular e obrigatória.
O estágio curricular nos cursos de
licenciatura pode ser caracterizado por
um conjunto de tarefas temporárias com
vista à formação do futuro professor.
Em outras palavras Pimenta (2006, p.
21) expressa que o estágio é composto
por “atividades que os alunos deverão
realizar durante o seu curso de
formação, junto ao campo futuro de
trabalho”, no caso, na escola.
É possível entender ainda o estágio
como um “processo de apreensão da
realidade” (PIMENTA, 2006, p. 76) ou
como “um campo de conhecimento,
uma aproximação do estagiário com a
113
profissão docente e com os seus
profissionais em seu local de trabalho,
no concreto das suas práticas” (LIMA,
2009, p. 47). No estágio o professor em
formação
desenvolverá
atividades
temporárias que objetivam a sua
compreensão sobre o espaço escolar e o
seu total desenvolvimento como
professor.
Compreendo o estágio como um
momento de aprendizagens, tanto
teóricas quanto práticas do professor em
formação junto ao espaço de atuação de
um professor reconhecido. Ao encontro
dessa idéia Piconez (1991, p. 25)
argumenta que o estágio é “um
componente teórico-prático, isto é,
possui uma dimensão ideal, teórica,
subjetiva, articulada com diferentes
posturas educacionais, e uma dimensão
real, material, social e prática, própria
do contexto da escola brasileira”. Outras
autoras também compreendem que o
estágio articula teoria e prática, como
Pimenta e Lima (2004, p. 45) que
expressam que o estágio “é atividade
teórica
de
conhecimento,
fundamentação, diálogo e intervenção
na realidade” na qual o futuro professor
atuará. Além disso, o estágio
[...] deve ser um momento de
síntese dos conteúdos das matérias
de ensino, das teorias de
aprendizagem e das experiências
pessoais,
bem
como
deve
constituir-se em um processo de
reflexão-ação-reflexão,
que
ultrapasse a experiência (restrita)
no
colégio
de
aplicação.
(PIMENTA, 2006, p. 75)
No estágio é possível que o estagiário
reveja sua formação, reconheça em que
aspectos deve procurar maiores
conhecimentos e assim melhorar sua
atuação como professor. O estágio é
mais que “dar aulas”, é necessário
despertar no estagiário a idéia de que
ele está inserido em uma escola e,
assim, deve preocupar-se com todo o
contexto. O estágio é mais que “dar
aulas” porque se entende que o
professor não é um técnico que somente
dá aulas e volta para casa - como se a
docência se constituísse somente por
isso. O estágio não deve ser um tempo
curto e pontual, não deve configurar-se
basicamente pela observação ou práticas
com fins em si mesmas e sim, deve
buscar formar no estagiário uma visão
das diversas dimensões do trabalho
docente bem como a reflexão crítica
sobre suas ações.
Como Leite; Ghedin e Almeida (2008,
p. 35-36) defendo que no estágio o
estagiário deverá
[...] desenvolver a docência,
preparando-se para efetivar as
práticas de ser/estar professor, na
dinâmica complexa da realidade de
sala de aula.
O estágio deve oferecer ao aluno de
licenciatura condições para que
perceba que o professor é um
profissional,
inserido
em
determinado espaço e tempo
históricos, capaz de questionar e
refletir sobre a sua prática, assim
como sobre o contexto político e
social no qual esta se desenvolve.
Estagiar é se inserir no espaço escolar,
conhecer sua realidade, identificar e
diagnosticar seus problemas, participar
da gestão democrática da escola,
ensinar, instigar a aprendizagem de
todos os alunos, dentre outros.
Apontamentos finais
O estágio curricular supervisionado nos
cursos de formação inicial de
professores não é o responsável pela
formação prática desses profissionais. A
dimensão prática da formação, segundo
orientações legais, não deve ficar
isolada ao estágio e/ou desarticular-se
do restante do curso.
114
Para superar a desarticulação entre
teoria e prática nos cursos de formação
inicial de professores, as Resoluções
CNE/CP no 1 e 2/2002 estipularam que
a prática deve perpassar todo o curso,
deve desenvolver-se do início ao fim do
mesmo bem como estar presente no
interior de todas as disciplinas do
currículo de formação.
De outra forma, essas Diretrizes
também
trouxeram
uma
nova
perspectiva para o estágio: ele não deve
ser mais desenvolvido no último
semestre do curso mas iniciar na
segunda metade deste e totalizar, igual a
prática como componente curricular,
400 horas.
Esse desenho que se fez para a
composição dos currículos dos cursos
de formação de professores demonstra
que não é preciso primeiro dominar a
teoria para posteriormente desenvolver
a prática e intenciona superar o
distanciamento entre teoria e prática.
Assim tem-se a compreensão de que
concomitantemente a teoria sustenta a
prática e a prática sustenta a teoria, ou
seja, uma dimensão é dependente da
outra.
Como num curso de formação inicial de
professores, o estágio curricular
supervisionado também é composto
pela articulação entre teoria e prática. O
estágio não é nem aplicação de teorias
nem momento só prático da formação
de professores. O estágio na formação
de professores é um componente
curricular que tem a teoria intrínseca a
prática e vice-versa.
Percebo um ciclo contínuo entre teoria e
prática na formação de professores:
teorias explicam práticas, práticas
geram teorias, teorias advêm de práticas
e vice-versa: práticas explicam teorias,
teorias geram práticas, práticas advêm
de teorias. Por fim, teoria e prática são
elementos indissociáveis na formação
de professores como também no estágio
curricular supervisionado de cursos de
formação de professores.
Referências
BRASIL. Conselho Nacional de Educação.
Conselho Pleno. Resolução CNE/CP no 1, de 18
de fevereiro de 2002: Institui Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Formação de
Professores da Educação Básica, em nível
superior, curso de licenciatura, de graduação
plena.
Disponível
em:
<http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp0
1_02.pdf>. Acesso em: 09 ago. 2010.
______. Conselho Nacional de Educação.
Conselho Pleno. Resolução CNE/CP no 2, de 19
de fevereiro de 2002: Institui a duração e a
carga horária dos cursos de licenciatura, de
graduação plena, de formação de professores
da Educação Básica em nível superior.
Disponível
em:
<http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CP0
22002.pdf>. Acesso em: 09 ago. 2010.
______. Lei nº 11.788, de 25 de setembro de
2008: Dispõe sobre o estágio de estudantes.
Disponível
em:
<http://www.normaslegais.com.br/legislacao/lei
11788.htm>. Acesso em: 09 ago. 2010.
______. Presidência da República. Casa Civil.
Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.394,
de 20 de dezembro de 1996. Estabelece a Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Disponível
em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L9394.
htm>. Acesso em: 09 ago. 2010.
FÁVERO, M. L. A. Universidade e estágio
curricular: subsídios para discussão. In:
LINHARES, C.... [et.al]; ALVES, N. (org).
Formação de professores: pensar e fazer. 6.ed.
São Paulo: Cortez, 2001. p. 53-71.
LEITE, Y. U. F.; GHEDIN, E.; ALMEIDA, M.
I. Formação de professores: caminhos e
descaminhos da prática. Brasília: Líber Livro
Editora, 2008.
LIMA, M. S. L. O estágio nos cursos de
licenciatura e a metáfora da árvore. In:
Pesquiseduca. Santos, v. 1, n. 1, jan-jun. 2009.
p. 45-48.
PEREIRA, O. O que é teoria. São Paulo:
Brasiliense, 1982.
115
PICONEZ, S. C. B. A Prática de ensino e o
estágio supervisionado: a aproximação da
realidade escolar e a prática da reflexão. In:
______ (org.). A prática de ensino e o estágio
supervisionado. Campinas: Papirus, 1991. p.
15-38.
PIMENTA, S. G. O estágio na formação de
professores: unidade teoria e prática? 7ª ed. São
Paulo: Cortez, 2006.
PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e
docência. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2004.
116
Fly UP