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A identidade dos lugares e a sua representação colectiva

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A identidade dos lugares e a sua representação colectiva
O que é a POLÍTICA DE CIDADES POLIS XXI
A
Política de Cidades POLIS XXI, lançada publicamente pelo
XVII Governo em Abril de 2007, através do Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, visa superar as
debilidades do sistema urbano nacional e responder aos desafios
cada vez mais complexos que se colocam às cidades portuguesas,
tornando-as motores efectivos do desenvolvimento das regiões e
do País.
Beneficiando da experiência acumulada dos anteriores programas
nacionais e comunitários dirigidos à resolução de problemas urbanos e à dinamização do desenvolvimento urbano (PROSIURBE, POLIS, URBAN e URBACT I, entre outros), a Política de Cidades POLIS
XXI integra-se nos objectivos da Estratégia de Lisboa e da Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável (ENDS) e tem no
Modelo Territorial e nas Orientações Estratégicas para os sistemas
urbanos dos diversos espaços regionais do PNPOT um referencial
fundamental para a sua implementação.
Partindo do reconhecimento de que o nosso modelo de desenvolvimento, cada vez mais dependente do conhecimento e da inovação,
exige às cidades uma elevada qualificação das suas funções e uma
forte capacidade de fixação e atracção de pessoas qualificadas e de
actividades inovadoras, a Política de Cidades POLIS XXI tem como
ambição tornar as cidades portuguesas:
• Territórios de inovação e competitividade;
• Territórios de cidadania e coesão social;
• Territórios de qualidade de ambiente e de vida;
• Territórios bem planeados e governados.
Para concretizar esta ambição, a Política de Cidades POLIS XXI
assume no período 2007-2013 os seguintes objectivos operativos:
• Qualificar e integrar os distintos
espaços de cada cidade;
• Fortalecer e diferenciar o capital humano,
institucional, cultural e económico de cada cidade;
• Qualificar e intensificar a integração da cidade
na região envolvente;
• Inovar nas soluções para a qualificação urbana.
A prossecução destes objectivos concretiza-se em três eixos de
intervenção, traduzindo uma visão de cidade a diferentes escalas
territoriais:
• Regeneração urbana;
• Competitividade / diferenciação;
• Integração regional.
No âmbito dos Programas Operacionais do QREN 2007-2013 foram
reservados cerca de mil milhões de Euros de FEDER para financiar
os seguintes instrumentos da Política de Cidades:
• Parcerias para a regeneração urbana;
• Redes urbanas para a competitividade e a inovação;
• Acções inovadoras para o desenvolvimento urbano;
• Equipamentos estruturantes do Sistema Urbano Nacional.
Estão igualmente criados mecanismos para assegurar a articulação
dos instrumentos específicos da Política de Cidades com outros domínios de intervenção previstos nos Programas Operacionais regionais e que têm particular relevância para o sucesso das operações
integradas de desenvolvimento urbano.
Prevê-se ainda que a Política de Cidades POLIS XXI venha a recorrer a outras fontes de financiamento, compreendendo recursos
públicos nacionais e comunitários e também a instrumentos de
financiamento europeus, em particular o Banco Europeu de Investimento (BEI). Adicionalmente, o Estado procurará novas formas
de financiamento, quer no quadro de parcerias público-privado,
quer criando condições para um maior envolvimento de fundos
privados.
A Política de Cidades POLIS XXI será implementada segundo uma
abordagem descentralizada. Pretende-se apoiar projectos de
iniciativa local que serão seleccionados mediante procedimentos
concursais de âmbito nacional ou regional, consoante o programa
de financiamento público a utilizar. A sua concretização assentará
no recurso generalizado à contratualização, tanto no que respeita
ao estabelecimento de parcerias locais para o desenvolvimento dos
projectos, como no acesso aos recursos financeiros que o Estado
disponibiliza para o efeito.
O instrumento de política
«Acções Inovadoras para o Desenvolvimento Urbano»
E
ste instrumento da Política de Cidades destina-se a apoiar projectos que
tenham por objectivo desenvolver soluções inovadoras de resposta
a problemas urbanos identificados, transferir, para aplicação nas cidades
portuguesas, soluções testadas com sucesso noutros países ou, ainda, generalizar soluções que tendo sido já aplicadas com resultados positivos em
território nacional, careçam de replicação a uma escala mais alargada para
assegurar a sua adopção sustentada.
Nessa perspectiva, foram identificadas oito áreas temáticas para a implementação deste instrumento de política:
a) Prestação de serviços de proximidade;
b) Acessibilidade e mobilidade urbana;
c) Segurança, prevenção de riscos e combate à criminalidade;
d) Gestão do espaço público e do edificado;
e)Construção sustentável;
f) Ambiente urbano;
g) Criatividade e empreendedorismo na valorização
dos recursos territoriais;
h) Governação urbana com incremento da participação
dos cidadãos e dos actores económicos e sociais.
Este leque inicial de temas poderá vir a ser ampliado no futuro. Tal como
sucede nos outros domínios de implementação da Política de Cidades, os
projectos a apoiar serão seleccionados através de procedimentos concursais
abertos ao longo do período 2008-2013.
Este instrumento de política tem suporte financeiro no Eixo IX (Reforço do
sistema urbano nacional) do Programa Operacional Temático «Valorização
do Território» (POVT) do QREN 2007-2013, tendo sido reservados 90 milhões
de Euros para esse efeito.
A selecção das candidaturas e o acompanhamento dos projectos co-financiados está a cargo da DGOTDU, que actua na qualidade de organismo intermédio de gestão, ao abrigo de contrato de delegação de competências com
a Autoridade de Gestão do POVT.
A abertura dos procedimentos concursais
e os respectivos resultados são anunciados
na comunicação social e nos sítios da
Internet da DGOTDU, da Autoridade de
Gestão do POVT e do QREN.
Mais informações em:
www.dgotdu.pt/pc
www.qren.pt/
www.povt.qren.pt/
Série POLÍTICA DE CIDADES - 3
A identidade dos lugares
e a sua representação colectiva
Bases de orientação para a concepção, qualificação
e gestão do espaço público
Nota de apresentação
E
sta nova série de publicações da DGOTDU, especificamente dedicada às áreas temáticas referenciais para
a implementação do instrumento da Política de Cidades POLIS XXI, «Acções Inovadoras para o Desenvolvimento Urbano», tem por objectivo principal fornecer elementos de apoio à preparação de bons projectos
para candidatura a este domínio de intervenção do Eixo IX do Programa Operacional Temático “Valorização do
Território”.
Para além desta finalidade imediata, pretende-se também que estas publicações constituam uma base geral
de informação e divulgação, tendo como principais destinatários as autarquias locais e os técnicos particulares.
As questões abordadas são amplamente reconhecidas como fazendo parte dos grandes desafios que hoje se
colocam ao desenvolvimento urbano e territorial europeu, pelo que é da maior importância que sejam incluídas
nas agendas municipais e nas nossas práticas de urbanismo e de ordenamento do território.
O objectivo destes documentos não é apontar soluções técnicas ou metodologias para a acção concreta,
mas sim chamar a atenção para algumas das questões mais significativas que hoje se colocam nas áreas temáticas seleccionadas, sensibilizar os diferentes intervenientes nos processos de desenvolvimento urbano e territorial para a necessidade da sua consideração e fornecer bases para um aprofundamento de conhecimentos.
Nesta óptica, as publicações da Série Documentos de Orientação POLÍTICA DE CIDADES obedecem a uma
estrutura comum, com uma primeira parte de enquadramento do tema, orientada para identificar e situar os
desafios que actualmente se colocam, uma segunda parte contendo exemplos de boas práticas, que possam
ser inspiradoras da concepção dos projectos a candidatar ou da actuação das autarquias, e uma bibliografia de
referência.
Este documento de orientação trata do papel da qualificação do espaço público no reforço da identidade
dos lugares e da sua apropriação colectiva.
O espaço público é o principal património comum dos habitantes da cidade. Nas suas diversas formas – rua,
praça, terreiro, jardim ou parque – é um elemento primordial da estruturação dos tecidos urbanos. É igualmente
um elemento central da organização do ‘mapa mental’ que cada um faz para si e lhe permite reconhecer-se e
orientar-se na cidade e um palco onde se exprimem a vivência individual e colectiva da cidade. Pela forma como
se organiza e é construído e pelo modo como é usado e mantido, o espaço público, exprime muito do que é cada
cidade e a sociedade que nela habita.
Julho de 2008
Vitor Campos
Director-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano
Ficha Técnica
Título
A identidade dos lugares e a sua representação colectiva
Bases de orientação para a concepção, qualificação e gestão do espaço público
Série
Política de Cidades - 3
Julho de 2008
Autor
Pedro Brandão, Centro de Sistemas Urbanos e Regionais (CESUR),
Departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa
Editor
Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano
Campo Grande, 50, 1749-014 LISBOA
www.dgotdu.pt • [email protected]
Design e produção gráfica
Vítor Higgs
Impressão e acabamento
Europress, Editores e Distribuidores de Publicações, Lda.
Tiragem: 500 exemplares
ISBN: 978-972-8569-43-3
Depósito legal: 279131/08
© Propriedade da DGOTDU – Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor
1.
Objectivos
Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público
Ideias feitas, dificuldades e experiências
Conceitos de identidade urbana
a. Memória colectiva
b. Uso e apropriação do espaço
c. Espírito do lugar
d. Redução da identidade, cidade-espectáculo e publicidade
e. A organização simbólica do espaço – arte e democracia
2. Diversidade e dimensões do espaço público
Espaço público e identidade urbana
a. As diferentes tipologias do espaço público
b. As diferentes morfologias do espaço público
c. Os elementos de informação e significado do espaço público
d. Tendências actuais e novas características do espaço público
Uma síntese: dimensões do espaço público
3. Papéis estratégicos e performance identitária do espaço público
A percepção do valor identitário do espaço público
a. Valores e indicadores identitários – a imagem
b. Estratégias de espaço público para a identidade dos lugares
4.
5. 6.
11
12
18
24
Um roteiro para a gestão da identidade urbana
‘Hardware’ e ‘software’ do espaço público
Um roteiro, uma responsabilidade social pela identidade dos lugares
30
Exemplos
34
Bibliografia
57
Objectivos
P
ossegue-se com este trabalho um objectivo
de sensibilização e mobilização; chamamos
a atenção para os factores imateriais e de valor
mais intangível das qualidades do espaço urbano.
Tais qualidades espaciais definem a identidade
dos lugares e contribuem para a sua valorização
e papel inovador, não só através do desenho de
espaço público mas também das suas referências simbólicas, comunicativas ou evocativas. Tais
qualidades e referências do espaço urbano contribuem seguramente, tanto para a sua apropriação
colectiva pelas populações, como para a competitividade das cidades.
www.sxc.hu
Não se trata, nesta matéria de predominante
subjectividade, de criar referências normativas,
mas da proposta de bases para a compreensão
da qualidade identitária nos projectos de espaço público (poder-se-ão encontrar analogias nos
espaços privados, principalmente quando de uso
colectivo). Tais bases são pois colocadas em primeiro lugar num nível técnico doutrinário, procurando-se depois encontrar, em dez casos exemplares de características diversas, uma manifestação
prática de tais bases, de forma empírica e compreensível.
Visa-se assim contribuir para as orientações
da DGOTDU, no que respeita aos requisitos do
espaço público, para a concepção e gestão de
projectos, nomeadamente os que se venham a
candidatar no âmbito da Política de Cidades, na
perspectiva de reforçar a identidade dos lugares
e sua apropriação colectiva, em situações de diversa natureza.
1. Conceitos
e princípios
sobre identidade
e espaço público
A
nossa paisagem urbana é hoje objecto de
vários processos de regeneração, decorrentes de transformações diversas: novas extensões urbanas, novas infra-estruturas viárias,
novos equipamentos, a recuperação de centros
históricos, ou antigas zonas industriais.
Incluem-se frequentemente nas obras no espaço público objectivos de qualificação estética e
simbólica e a construção de uma nova imagem, ou
a valorização da sua identidade prévia. Mas nem
sempre essas obras são bem apropriadas pelos
seus destinatários (e por isso nem sempre a sua
sustentabilidade económica é razoável).
Seja porque não integram, ou integram pouco
valor prático articulado com os valores simbólicos, seja ao invés, porque os significados não são
percebidos como relevantes, seja porque o desejo
de exibição é excessivo, ou por outras razões, ficaram aquém dos objectivos. E a desadequação
evidencia-se com o tempo.
IDEIAS FEITAS, DIFICULDADES E
EXPERIÊNCIAS
A noção de Identidade é frequentemente
invocada nos projectos urbanos, seja no desígnio de respeitar contextos e continuidades seja,
pelo contrário, no de facilitar a adesão das populações à inovação, que tais projectos possam
conter.
Não é fácil definir o que faz a identidade dos
lugares, pois facilmente podemos ser sugestionados por ideias feitas:
• É a nostalgia pelo que esses lugares
foram no passado?
• É o seu carácter ‘típico’, ‘pitoresco’
ou ‘espontâneo’?
• É uma colecção de curiosidades locais?
• É um sinal do ‘amor bairrista’,
auto-estima de um grupo?
• É a ambição de consagrar uma marca
ou imagem (institucional ou comercial)?
A dificuldade, para além da falta de clareza do
conceito, tem outras origens:
a) Memória e identidade são valores
subjectivos. Os vários actores
(administração, técnicos, investidores,
utilizadores) terão diferentes percepções,
valorações e prioridades conforme o
seu interesse. Tratando-se de valores
intangíveis, não quantificáveis, como avaliar,
ou medir, a identidade de um lugar?
b) A qualidade do espaço público não
é objecto de regulação sistemática (as
excepções estão nas prescrições ligadas
à segurança, protecção de crianças e
deficientes e poucas mais), não sendo
possível nem desejável a imposição de
ferramentas normativas abrangendo todo o
leque de critérios relevantes.
c) A experiência não apresenta muitos
exemplos consensuais quanto às suas
qualidades. O carácter multifacetado do
espaço público, a diversidade (de contextos,
de componentes, de programa) e a falta de
uma prática de ‘feedback’ a partir da gestão
e apropriação das obras feitas, não ajudam
a construir consensos.
Partimos, assim, para a resolução desta dificuldade com uma procura de clareza de conceitos
1. Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público • Página 12
e princípios. De que estamos a falar quando falamos da identidade urbana?
CONCEITOS DE IDENTIDADE URBANA
Sobre a identidade dispomos de definições de
diferentes origens disciplinares que nos podem
ajudar a estabelecer melhor, o conceito de identidade urbana ou identidade dos lugares.
PB
Uma referência inicial vem-nos da psicologia
da adolescência: “O sentimento óptimo da identidade é... vivido como um bem estar... o sentimento
de se sentir em casa no próprio corpo... e a segurança interior de um reconhecimento antecipado
por aqueles que contam”1.
Na psicologia social e ambiental sublinha-se
a pertença a um ambiente (bairro, cidade) como
parte da identidade construída, de acordo com
categorias socioespaciais: territorial (limites),
comportamental (práticas), social (estilo de
vida) e temporal (história comum). O ‘simbolismo à posteriori’, isto é, o significado acrescentado a um espaço, é assim relacionado com a
‘apropriação’ desse espaço2.
Já para os sociólogos o carácter de construção social é sublinhado pela história do grupo,
comportando um espaço reflexivo e de superação – a ideia moderna de emancipação de uma
identidade3; e pelo elenco das finalidades da acção que constroem três tipos de ‘identidade’: a
identidade legitimadora, que se aplica às estruturas de poder; a identidade de resistência, que
se aplica a grupos com necessidade de afirmação contra um padrão dominante; e a identidade de projecto, a partir da redefinição do grupo
num papel transformador da identidade4.
Finalmente, na antropologia, a identidade
espacial consiste na afirmação totémica de territórios, na fronteira com o outro, com a qual
nos construímos como comunidade5.
1
2
3
4
5
Erikson, E. H., Identity, Youth and Crisis, Norton, New York, 1968
Pol, H. e Valera, S., ‘Symbolisme de l’Espace Public et Identité Sociale’,
Villes en Parallèle, 28-29, 1999
Giddens, A., Modernidade e Identidade Pessoal, Celta, Oeiras, 1994
Castells, M., O Poder da Identidade, FCG, Lisboa, 2003
Lévi-Strauss, C., La Pensée Sauvage, Agora-Pocket, Paris, 1990
1. Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público • Página 13
Para encontrar um traço comum ou dominante destas definições reafirmamos o que dissemos
sobre a identidade noutro contexto e que se implica na noção de identidade urbana:
PB
O conceito de identidade comporta sempre
uma referência de interactividade, em que as relações com o que é exterior, são constitutivas da
identidade6. A percepção da identidade faz parte
da própria noção de identidade urbana – transmitida pela educação, pela comunicação - faculta
o reconhecimento do carácter de um lugar, não
tanto como sendo constante mas como sendo coerente consigo próprio. Individualmente, a identidade é percebida pelo sentimento de pertença,
através de uma coerência entre narrativas e experiência pessoal (individual ou social) do lugar.
Porém, cada vez mais é por mediatização da
imagem que a identidade é percebida na escala
urbana – são as imagens justapostas ou retransmitidas por vários meios, que nos facultam a percepção e o reconhecimento daquilo que é destacado, ou diferenciado, num contexto genérico. É
pela publicidade que se nos apresenta a imagem
do que há a visitar numa cidade, que se nos transmite a história, ou a fantasia, da identidade de um
‘destino’ turístico. A banalização dos ‘clichés’ corresponde à redução da identidade.
Vejamos agora o elenco de conceitos associados à percepção da identidade dos lugares.
A memória
dos lugares é
construída, ‘em
camadas’.
Vista de uma
varanda da
Torre de Belém
sobre a torre
de controlo do
Porto de Lisboa
a) Memória colectiva
É à ‘memória colectiva’ que é atribuída frequentemente a própria identidade espacial – um
lugar seria produto de uma sedimentação de vivências das quais a comunidade teria a memória, não podendo existir um (o lugar), sem o outro (a memória). Tal não parece rigoroso. Sobre
a memória dos lugares poderemos dizer que ela
é construída em ‘camadas’ – cada indivíduo tem
uma memória individual e outra colectiva, com
limites maiores (que inclui as ‘lembranças dos ou-
tros’, isto é, do meio) mas que ainda se perspectiva a partir ‘de dentro’.
Distingue-se a memória colectiva da memória
histórica por esta ser perspectivada a partir de
fora: a memória histórica é baseada no isolamento de um momento ou período, na busca do que
o diferencia do anterior e do posterior, para compreender a transformação, enquanto a memória
colectiva trata da permanência e continuidade7.
Temos então que a memória colectiva é contínua, definida por adição de referências e por
enlaces entre várias memórias:
• Ligadas ao passado: antepassados
(história pessoal, local, familiar);
• Ligadas a pessoas e acontecimentos
especiais (desastres, guerras);
• Ligadas a alterações técnico-económicas
(a fábrica, a energia, o transporte);
• Ligadas a hábitos culturais ligados ao
espaço (festa, religião, desporto,
gastronomia).
Para os cidadãos radicados num lugar ao longo de uma geração ou mais, o aspecto físico da
cidade, tem especial interesse. A sensibilidade
ao desaparecimento de uma rua, um edifício ou
uma árvore, pode ser maior do que a um acontecimento ou inovação de importância maior. Mas
a identidade não se circunscreve ao domínio da
memória colectiva. Quando há uma transformação radical, a remanescência da identidade
anterior pode ser compensada na toponímia – a
‘antiga rua’, ou em outros elementos ‘mnemónicos’, fixadores de um discurso de evocação, de
algo que deixou de existir (por isso deverão ser
elementos subtis). Mas sempre alguma coisa desaparece quando outra coisa aparece.
b) Uso e apropriação do espaço
Outra ideia associada à identidade dos lugares é que ela depende da continuidade do uso:
1. Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público • Página 14
Além dos significados carregados de uma
história ou de um imaginário, há sempre novos
significados que se podem acrescentar a um lugar, nomeadamente os que são construídos com
os novos usos – os lugares vão-se assim transformando pelo homem, que a eles também se
acomoda e com eles se identifica, com a afirmação espacial do próprio eu. A identidade é, portanto, resultado de um processo de construção.
A ideia de apropriação deverá ter em conta
os limites da adequação entre espaço e uso –
quer limites sociais (os velhos são menos adaptáveis, por exemplo) quer limites culturais (uma
igreja dificilmente é aceite para funcionamento
de uma discoteca).
Outra noção empírica é a de que um uso
intenso está relacionado com padrões de conservação assumidos pelos próprios utilizadores,
traduzindo uma conduta cívica e ambientalmente consciente: seja a de conservar/manter/cuidar, de adaptar/adequar, ou de participar/vigiar.
Pelo contrário, o uso escasso ou desadequado
conduziria ao abandono, ao desgaste, à destruição (vandalismo) e por isso, para o prevenir, talvez que a educação e a promoção ambiental devam ser menos centradas na divulgação e mais
na apropriação.
PB
o ‘afeiçoamento’ dos utentes a um lugar e reciprocamente, a boa adaptação do espaço ao uso.
Apropriação é um conceito antinómico de alienação, quando o sujeito não se identifica com
os objectos e lugares socialmente produzidos. A
apropriação é pois um processo ‘contra a alienação’8, capaz de promover o desenvolvimento
social, baseado na vida quotidiana:
• Na simples relação de encontro,
proximidade, vizinhança, entre diferentes
grupos que integram a comunidade
(patente no jogo de crianças, no namoro
dos jovens, na presença tranquila dos
velhos);
• Na interacção quotidiana entre as
actividades urbanas, a presença no mesmo
espaço de distintas funções, desde as
simples actividades de estar e circular, às
de maior envolvimento social (religioso,
cultural, desportivo, político).
Novos significados são sempre acrescentados a um lugar:
é o ‘espírito do lugar’ . Ronda Prim, Barcelona
6 Brandão P., A Cidade entre Desenhos, Livros Horizonte, Lisboa, 2006
7 Halbwachs, M., La Mémoire Collective, PUF, Paris, 1950
8 Lefebvre, H., Le Droit à la Ville, Anthropos, Paris, 1968
1. Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público • Página 15
c) Espírito do lugar
Algumas noções e definições ambíguas têm
marcado este ‘constructo’ de ideias sobre a identidade dos lugares, o ‘genius loci’9, que pode estar
patente em traços urbanos tais como:
• Um cenário especial, panorama, paisagem
humanizada (imagem);
• Características formais de edifícios,
espaços, ‘skyline’ urbano (ícones);
• Simbolismo ou monumentalidade do
espaço (significados).
d) Redução da identidade,
cidade-espectáculo e publicidade.
A função representativa na cidade (Christine
Boyer), é desempenhada de modo diferente na
história da modernidade, em três ciclos:
• A cidade como obra de arte
(do Renascimento até ao século XX);
• A cidade como panorama
(movimento moderno);
• A cidade como espectáculo
(globalização).
Caberá colocar aqui uma pergunta simples:
Todos os lugares têm o seu ‘espírito’, ou tratase de algo de que carece a maioria dos lugares?
Juntam-se àquelas noções, outras mais ‘etéreas’,
sobre os elementos prévios fundacionais (preexistências) do espaço, de tipo material ou mais ou
menos ‘espiritual’, que legitimam outras tantas
dúvidas:
• Serão lugares habitados por seres
imateriais, como deuses?
• Serão campos de força, dotados de
consciência própria?
• Lugares autênticos, orgânicos, não
intencionais, não desenhados?
• Narrativas de fundação ou arquétipos do
lugar antepassado?
• Essência última de uma interioridade, ou
de um carácter único?
Hoje, a experiência perde valor, substituída
por meios de comunicação que definem a identidade dos lugares oferecendo uma percepção da
realidade alternativa às narrativas da experiência
colectiva. O monumento como símbolo figurativo
é então substituído pela publicidade urbana – o
‘outdoor’ e o néon porque o poder político ‘já não
necessita de construir monumentos comemorativos, que carecem de representação figurativa,
mas sim de monumentos especulativos como os
arranha-céus’.10
Em vez da negação (não existe ‘espírito do
lugar’) poderíamos perguntar como estas distintas ideias sobre tal ‘espírito’ podem ser úteis,
não tanto por propósito defensivo (protecção, ou
prevenção da mudança) mas para entender melhor a complexidade do ‘fazer lugar’. Tomamo-las
então por aquilo que valem como noções operativas, isto é, para nos ajudarem a pensar, numa
área difícil do pensamento sobre a cidade, na ordem do simbólico.
Teremos hoje então os ‘skylines’ urbanos, já
não como panoramas mas como instrumentos
para aumentar o prestígio e a capacidade da cidade ser desejada, uma identidade afirmada como
forma de publicidade, da cultura global de consumo urbano, em que o espaço e a própria cidade
se definem numa imagem ‘espectacular’, ou num
produto de consumo.
Os novos ‘skylines’ urbanos oferecem uma
identidade afirmada como forma de publicidade,
uma imagem ‘espectacular’ que não dispensa a
organização simbólica do espaço público.
Torre Agbar de Jean Nouvel em Barcelona e
escultura de Gromley na Expo 98, Lisboa
1. Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público • Página 16
Apoderar-se da memória e do esquecimento é
uma preocupação dos poderes dominantes, principalmente em regimes autoritários. ‘O mecanismo
de organização simbólica da cidade em regime totalitário é a imposição. O cidadão tem a obrigação
de aceitar a versão oficial da memória colectiva,
os seus nomes das ruas, os seus monumentos, as
suas arquitecturas’ 11.
Também a deificação da tecnologia como
o instrumento inquestionável de inovação e de
progresso, plasmado numa imagem ‘de futuro’,
ou mesmo a promoção de uma marca ‘ambiental’
decorativa e anestesiante, trivializadas pela publicidade, reflectem outros tantos objectivos de tipo
comercial.
Como se processa a organização simbólica do
espaço na democracia? Certamente não do mesmo modo autoritário e manipulador das ditaduras.
Se um estado totalitário é produtor compulsivo de
símbolos dos seus valores, na democracia, em que
etimologicamente o povo é soberano e intervém
no governo da coisa pública, não bastam objectos formalmente inovadores, ou distintos do convencionalismo da ‘arte de regime’ - a construção
simbólica faz-se pela participação no desenho do
espaço público. Tal desiderato aparece explicitado
em qualquer campanha eleitoral para os órgãos
de governo local, mas também em múltiplas possibilidades de participação e associativismo que
se podem exprimir em liberdade.
Quando o espaço deixa de ser realidade cultural e se transforma em produto transaccionável (o
que ‘vende’), necessita de uma aparência de diferenciação competitiva, mas que na realidade corresponde à redução da sua própria identidade.
PB
e) Organização simbólica
do espaço - arte e democracia.
A organização simbólica do espaço reconhece-se tradicionalmente no espaço público em
elementos como a toponímia, a estrutura dos traçados, a arquitectura, os monumentos. Na nossa
época acrescem os meios de comunicação.
Os acontecimentos excepcionais, com uma
afirmação da comunidade em momentos festivos
ou de crise, são registados na memória ou em documentos como fotografias, notícias na imprensa
local, ou em obras de arte e eventos comemorativos - são momentos em que o papel simbólico do
espaço acolhe e retransmite a identidade. Mas a
política e o simbolismo do espaço colocam ainda
em questão a expressão do próprio poder no espaço público, seja em regimes totalitários seja em
democracia.
Assim o poder político democrático deve reconhecer as necessidades de expressão individual
e colectiva no espaço público, de maiorias e minorias, e oferecer-lhes meios, canais e agentes
(intérpretes, técnicos, artistas, facilitadores) para
assegurar a equidade, com pluralismo estético e
de forma qualificada, construindo o espaço público com códigos simbólicos da cidadania. São estas
as marcas de uma arte participativa e interveniente no meio urbano, fundada a partir da vida quotidiana e da sua relação com o lugar.
Pintura colectiva
no pavimento com
participação livre
dos transeuntes.
Londres, Tate Gallery
PB
PB
A finalidade de entrar no circuito das cidades
com boa imagem internacional, é cada vez mais
prosseguida com o expediente simplista do recurso a obras de arquitectos e artistas famosos, cuja
necessidade ou adequação pode ser duvidosa,
mas que se julga satisfazerem um imaginário de
inovação e ‘glamour’ mediático, inerente ao autor
em si.
9 Schulz, K. N., Genius Loci, Mardaga, Liège, 1981
10 Maderuelo, J., La Pérdida del Pedestal, Círculo de Bellas Artes, Madrid, 1994
11 Peredo, A. P., Los Significados de la Ciudad, Edicions de l’Escola Massana, Barcelona, 2004
1. Conceitos e princípios sobre identidade e espaço público • Página 17
2. Diversidade
e dimensões
do espaço público
A
clarado o conceito de identidade, consideremos também uma definição de espaço
público, para melhor entendimento da sua missão
na construção da identidade urbana:
É o espaço que é fundador da forma urbana,
o espaço ‘entre edifícios’ que configura o domínio
da socialização e da vivência ‘comum’, como bem
colectivo da comunidade. Podendo em última análise, ser ou não de propriedade pública (e mesmo
podendo ser não apropriável, como o espaço aéreo), os espaços públicos devem ser sempre vistos
como bens de utilização livre, de acordo com um
padrão de uso socialmente aceite. Ou, ‘que traduzem uma interacção equilibrada entre o homem
e o meio, ostentando uma singularidade que os
homens reconhecem facilmente’ 12.
PB
ESPAÇO PÚBLICO E IDENTIDADE URBANA
As dimensões da identidade urbana têm por
base não só características tipológicas e morfológicas do espaço público mas também os significados, através dos elementos que transmitem informação simbólica, tanto nas formas tradicionais
como nas novas tendências, configurando uma
crescente diversidade e complexidade da identidade.
a) As diferentes tipologias de espaço público
Formam o ‘elenco’ de casos, classificados por
afinidades de sentido urbano. Tal leque é dinâmico, sempre se acrescentando novos tipos decor-
2. Diversidade e dimensões do espaço público • Página 18
b. As diferentes morfologias do espaço público
Acrescentam-lhe diversidade, pois o mesmo
tipo de espaço pode ser origem de formas urbanas muito distintas, consoante as suas características dimensionais, de escala, ou dos elementos agentes da definição da sua forma:
• Perfis e dimensão das ruas - a forma
do ‘chão’, a sua divisão por usos e
utilizadores distintos, o seu equipamento,
a dimensão da altura e profundidade
do espaço, definido por edifícios,
elementos naturais, elementos artísticos e
comunicacionais;
• Escalas - decorrentes de necessidades
de edificação, umas de grandes dimensões
(comércio, serviços, logística)
e outras de pequenas dimensões
(desenho de mobiliário urbano) e
normas de relação instituídas na escala
arquitectónica e urbanística;
• Elementos agentes de definição da
forma - podem ser edifícios, ou outros
elementos, como a iluminação (a forma
nocturna do espaço), a disposição
do mobiliário (os sub-ambientes), as
estruturas naturais (relevo, água,
arborização), o espaço monumental.
QUADRO 1 – TIPOLOGIAS DE ESPAÇO PÚBLICO
a. Espaços – traçado
Encontro Circulação 1 Largos, praças
2 Ruas, avenidas
b. Espaços - ‘paisagem’ Lazer – natureza Contemplação 3 Jardins, parques
4 Miradouros, panoramas
c. Espaços – deslocação
Transporte
Canal Estacionamento 5 Estações, paragens, interfaces
6 Vias-férreas, auto-estradas
7 ‘Parking’, silos
d. Espaços – memória
Saudade Arqueologia Memoriais 8 Cemitérios
9 Industrial, agrícola, serviços
10 Espaços monumentais
e. Espaços comerciais Semi-interiores
Semi-exteriores 11 Mercados, centros comerciais, arcadas
12 Mercado levante, quiosques, toldos
f. Espaços gerados
Por edifícios Por equipamentos Por sistemas 13 Adro, passagem, galeria, pátio
14 Culturais, desportivos, religiosos, infantis
15 Iluminação, mobiliário, comunicação, arte
PB
Elementos de iluminação mobiliária ou decoração contribuem para a definição da forma
www.sxc.hu
rentes de transformações estruturais na cidade.
Consideramos um elenco de 15 tipologias organizadas por 6 referências estruturais:
• Traçado - espaço de encontro (largos,
praças) ou circulação (ruas e avenidas);
• Paisagem - de lazer (parques e jardins) ou
de contemplação (panoramas);
• Deslocação – de transporte, canal,
estacionamento;
• Memória – espaços de saudade, memória,
arqueologia;
• Economia - comércios, semi-interiores e
semi-exteriores;
• Espaço gerado – por edifícios ou sistemas.
12 Brandão, P., Águas, S. e Carrelo, M., O Chão da Cidade, CPD, Lisboa, 2002
2. Diversidade e dimensões do espaço público • Página 19
PB
• A toponímia - a nomeação das ruas e
outros lugares faz-se a partir da relação
entre memória colectiva e poder político,
que escolhe os referentes de que é mais
próximo e que lhe interessa representar,
ou que os muda, quando o referente deixa de ser política ou socialmente conveniente. A tensão reactiva ocorre quando
a mudança não tem consenso e os habitantes empenham-se em usar o topónimo
anterior;
Na toponínia e na planta da
cidade utiliza-se a linguagem
verbal para a nomeação dos
sítios associada a elementos
gráficos de orientação
• A planta da cidade - ajuda-nos a compreender significados que podem ou não
estar representados na toponímia: a explicação da origem da forma urbana, da
sua evolução, da peculiaridade das suas
partes (a história de um bairro, de uma
antiga fábrica). A cidade ‘imaginável’, é
uma cidade cuja estrutura, expressa na
planta, facilita a identificação do significado pelos cidadãos, na permanência do
traçado das ruas, parte indissociável da
memória13. A planta pode ainda dar origem a um ícone gráfico;
• A arquitectura - a crítica do funcionalismo ingénuo e a ideia de uma nova
monumentalidade comprovou que a continuidade de um padrão de edificações
é parte da identidade de um local; pelo
contrário, a reconstrução significativa da
forma urbana é em certos momentos feita
por substituição de edifícios, com a introdução de novos referentes (por exemplo,
edifícios em altura, com referência ‘tecnológica’)14;
• A arte (os monumentos) - a cidade é
geradora de uma organização simbólica, no espaço público, uma trama de representações15, que podem ter o papel
de ‘traço’ (testemunho), de ‘mensagem’
(sentido moral ou cívico da evocação) ou
‘forma’ (sentido estético). Esta organização integra as obras de arte, num complexo de símbolos em que o cidadão e a
comunidade se revêem (ou se quer que se
revejam).
d) Tendências actuais
- novas características do espaço público
Podem ser provenientes não apenas do talento dos autores, mas também, ou principalmente,
de novos ‘factos’ urbanos com impacto no espaço
público, tais como:
• O automóvel - a evolução da deslocação
requer novas soluções: umas vezes compatível, outras segregado, o espaço automóvel
é quase sempre abrasivo da identidade de
ruas, praças, vistas, elementos naturais; mas
por vezes é condição de viabilidade;
• As identidades inventadas (produzidas) - a tematização do espaço-fantasia,
induzida por funções lúdicas ou pelo turismo, impõe traços exóticos (a palmeira
‘tropical’ e o relvado ‘nórdico’) reduzindo
a identidade a simulacros vulgares de consumo rápido;
• A privatização, ou reequilíbrio dos limites
público-privado - o crescente desempenho
de funções colectivas em espaços privados
ou de gestão privada (o centro comercial)
pode favorecer a lógica comercial, limitar o
2. Diversidade e dimensões do espaço público • Página 20
PB
c) Os elementos de informação e significado
no espaço público
São os que formam um cenário visual identificador, não só pelas referencias icónicas mas também pela sua estrutura e e pelos seus elementos
comunicativos:
acesso, ou o uso social do espaço, ou impor
regras de conduta, quando não discriminações sociais ou económicas;
A cidade já não é possível sem o automóvel,
a cidade já não é possível com o automóvel
• O valor comunicacional do espaço público - apropriado pela publicidade, com
finalidades no plano comercial ou no plano
político, diminuindo a importância reconhecida a vistas e panoramas, impõe-se de forma irrecusável a transmissão de mensagens
que não são de interesse geral e poluem o
espaço público com impactos excessivos;
• Estetização do espaço público - o ‘produto’ de moda ou aparência superficial de
‘décor’, pode merecer apreciação pela actualidade ou tradição dos traços estilísticos
do seu design (mais ‘limpos’ nos seus ritmos,
padrões, equilíbrio, proporção, escala, materiais ou cor), mas substituindo por vezes outras identidades, com outra autenticidade.
UMA SÍNTESE: DIMENSÕES DO ESPAÇO PÚBLICO
O espaço público, que consideramos como sendo de acesso comum e matriz da urbanidade16 contem, em síntese, várias dimensões da Identidade:
• Morfológica – O espaço público da cidade até ao século XX baseia-se no traçado,
garantindo a relação directa dos edifícios
com a rua, a praça. Com o urbanismo ‘Carta
de Atenas’ e o automóvel universal, dá-se a
rotura: a disposição dos edifícios autónoma
do espaço público. Hoje dá-se o reverso: da
cidade contra a rua17, passamos à nova ideia
de rua18 como matriz do espaço público.
13 14 15 16
17
18
Lynch, K., A Imagem da Cidade, Gustavo Gilli Reprints, Barcelona, 1998
Rossi, A., A Arquitectura da Cidade, Cosmos, Lisboa, 1977
Debray, R., ‘Trace, Forme ou Message ?’, Cahiers de Médiologie, 7, Paris, 1999
Portas, N., ‘L’Emergenza del Progetto Urbano’, Urbanistica, 110, Roma, 1998
Le Corbusier, Manière de Penser l’Urbanisme, L’Architecture d’Aujourd’hui, Paris, 1946
Jacobs, J., The Death and Life of Great American Cities, Penguin Books, London, 1994
2. Diversidade e dimensões do espaço público • Página 21
• Visual e perceptiva – As imagens mentais
que temos da cidade, a legibilidade do tecido
urbano, a orientação, a representação do espaço, podem ter variações de sentido cultural e estético. Os espaços icónicos e simbólicos distinguem-se dos ‘lugares indistintos’ (a
que injustamente chamamos não-lugares),
mas se nem todos os lugares podem ser excepcionais, a qualidade ‘genérica’ do espaço
público é também identitária.
• Vivencial e funcional – O conforto, a tranquilidade, o envolvimento (activo ou passivo)
do utente no espaço, seja no quotidiano seja
nos momentos festivos e de socialização19,
reclamam um espaço que proporcione a vida
colectiva mas também o anonimato, a privacidade e a salvaguarda da intimidade no ‘espaço vital’ da pessoa. Os aspectos temporais da
utilização do espaço público (o dia e a noite,
o permanente, o temporário e o efémero), determinam o seu êxito.
• Social e cultural – O espaço e as suas
características formais, influencia os comportamentos, em actividades, que podem
ser necessárias, opcionais, ou sociais. As necessidades psicológicas, segurança, sentido
de pertença e auto-estima, a expressão estética e comunicativa, a arte, são índices da
humanização da paisagem e da inclusão, na
esfera pública, simbolizados no espaço público, como um todo expressivo dos valores do
colectivo20.
• Económica e legal – São as pessoas que
conferem vitalidade ao ambiente urbano,
como espaço de fluxos económicos,21 que
presume condições:
• propriedade dos espaços (o que
conservar, do espaço herdado);
• elementos legais (factores
processuais e de gestão da mudança);
• condições de mercado (viabilidade
económica, função de uma procura,
disponibilidade de meios de
investimento e validade do retorno).
Certos projectos conseguem uma boa performance em todas estas dimensões do espaço público e não apenas num ou outro aspecto pontual,
porque a sua complexidade exige articulação entre vários objectivos. Por exemplo as novas praças em Barcelona (na imagem a Praça Les Corts)
projectadas a partir dos anos 80 em todos os
bairros, oferecem respostas ao nível da centralidade ‘local’, de funções e vivências quotidianas,
articuladas com elementos simbólicos, evocativos
de memórias identitárias.
2. Diversidade e dimensões do espaço público • Página 22
Elementos de dimensão simbólica não são contraditórios
com uma boa performance do desenho na dimensão
funcional e vivencial.
Praça Les Corts de Carme Pinos em Barcelona.
Fotos A. Remesar
19
20
21
Gehl, J., Life Between Buidings, Arkitects Forlag, Copenhagen
Remesar, A., El Arte Contra el Pueblo. Tensiones entre la Democracia, el Diseño Urbano y el Arte Publico,
Monografías socioambientales, UB, Barcelona, 1999
Castells, M. e Borja, J., Local y Global, Taurus, Madrid, 1997
2. Diversidade e dimensões do espaço público • Página 23
E
m estudo para a CCRLVT (2002, adaptado
em ‘O Chão da Cidade’, op. cit.), mencionámos critérios e parâmetros da qualidade do
espaço público:
Identidade
• promove o carácter formal e os
significados reconhecíveis no local;
• promove os padrões característicos
da cultura e do desenvolvimento local;
• promove a criação de novos elementos
de diferenciação.
Continuidade, permeabilidade,
continuidade
• proporciona uma boa integração
no contexto e na malha urbana;
• possibilita o reconhecimento, diurno
e nocturno de marcos de orientação;
• estabelece uma clareza de delimitações,
entre espaço público e privado.
Segurança, conforto, aprazabilidade
• promove a segurança de pessoas e bens
e a relação segura peões – tráfego;
• oferece qualidade visual e relação
intensa e aprazível com a envolvente;
• incorpora critérios de conforto,
utilidade, ergonomia para os utentes.
Acessibilidade e Mobilidade
• oferece facilidade de movimentação,
e/ou de atravessamento e/ou ligação;
• promove a interligação dos padrões de
movimentação (modos e percursos);
• atento às expectativas e necessidades
no uso do espaço, sem exclusões.
Diversidade e adaptabilidade
• flexibilidade para adaptação a usos
diversos e a possíveis mudanças futuras;
• compatibilidade com a escolha de
diferentes serviços e equipamentos;
• promove a diversidade formal (natural/
artificial) e alternativas de vivência.
Robustez e resistência
• adequação às solicitações do uso e
desgaste e aos elementos do clima;
• adequação à prevenção do vandalismo;
• adequação ao maior tempo útil de vida
possível, diminuindo a manutenção.
Sustentabilidade
• Económica – é viável no tempo, produz
valor superior ao consumido;
• Ambiental – com pouco impacte
ecológico, na construção e manutenção;
• Social – corresponde às aspirações e
necessidades, promove a equidade;
• Cultural – reconhecimento dos
significados, com clareza e consistência.
A avaliação pode também incidir sobre
diferenças de grau na satisfação de requisitos22:
Vitalidade
• responde a funções, gostos e
necessidades humanas;
Sentido
• pode ser percepcionado no tempo e no
espaço dos utentes;
Adequação
• corresponde aos padrões e preferências
dos utentes;
PB
3. Papéis
estratégicos
e performance
identitária
do espaço público
A sustentabilidade é um conceito cultural
e é também índice de duração. Praça em Elvas
3. Papéis estratégicos e performance identitária do espaço público • Página 24
Acessibilidade
• beneficia os públicos destinatários das
actividades;
Controlo
• pode ser gerido pelos que trabalham ou
residem na vizinhança.
As ligações visuais
permitem não
apenas as vistas
mas também
a relação entre
os edifícios e o
espaço público
nos dois sentidos
Eficiência
• medida pelo custo de criar e manter um
espaço a nível satisfatório;
Justiça
• medida pelo modo como os
benefícios de um espaço, em todos os
anteriores requisitos, são socialmente
distribuídos.
A PERCEPÇÃO DO VALOR IDENTITÁRIO
DO ESPAÇO PÚBLICO
Como percepcionamos o valor do espaço público, pela sua performance identitária? O valor
é de certa forma uma noção inerente a toda a
acção de avaliação. Os valores da Identidade no
espaço público podem ser intrínsecos (valores
em si mesmos como o valor da vida), mas mais
frequentemente são valores relativos, com um
carácter contextual e operativo, que difere de
uma cultura para outra, de um actor urbano para
outro e de uma época para outra. São valores intangíveis que se manifestam de forma recorrente
no espaço público, como o valor da pertença, o
valor emocional, o valor estimativo ou sentimental, o valor estético e simbólico.
a) Valores e indicadores identitários – a imagem
É através da percepção social do valor identitário do espaço, isto é, do seu reconhecimento
como tendo um carácter único e especial, que a
qualidade e a competitividade urbana se impõem.
O valor identitário traduz-se no que chamamos uma imagem, com atributos de:
PB
Aos quais também se juntam:
QUADRO 2 - METODOLOGIA DE DIAGNÓSTICO
DE VALORES IDENTITÁRIOS
Acessos e ligações – É acessível e bem ligado a outros lugares?
• Pode-se avistar o lugar à distância e tem-se uma visão larga a partir dele?
• Tem boas vistas - contemplar – ver (verdes, pessoas, mar, movimento)?
• Há uma ligação fácil entre o espaço e edifícios adjacentes?
• Os passeios têm ligação fácil-contínua a áreas adjacentes?
• Há opções variadas para chegar ou sair (carro, autocarro, metro, bicicleta)?
Conforto e imagem – É confortável e projecta boa imagem ?
• Qualidade funcional (andar, estar, sentar, falar)?
• O espaço causa uma boa impressão? Há motivos a fotografar?
• Há espaços suficientes para sentar à sombra, ao sol?
• A área parece segura? Terá vigilância regular?
• Os peões dominam os veículos no uso do espaço, ou o inverso?
Usos e actividades – É atractivo para as actividades das pessoas?
• Há pessoas usando o espaço ou está vazio?
• É usado por pessoas de várias idades, sexos, culturas, deficientes?
• Há vários tipos de actividades a decorrer?
• Pode-se identificar alguém responsável presente ou acessível?
• Há conflitos de uso (cargas-descargas, limpeza, venda ambulante, ‘graffiti’)
Socialização e significados – É sociável, as pessoas encontram-se, identificam significados?
• Há pessoas em grupos, sorrindo, falando uns com os outros, cumprimentam-se?
• Existem sinais de memórias compreensíveis (monumentos, árvores, narrativas)?
• Podem-se identificar pessoas diferentes que usarão o espaço com frequência?
• Há vivências sociais (festas, jogos, quiosques, cafés) e sítios de interacção?
• Há uma visão de futuro, ou orgulho da comunidade, partilhado com o visitante?
PB baseado em PPS
22 Carmona, M., Value of Urban Design, citado em Public Places, Urban Spaces
3. Papéis estratégicos e performance identitária do espaço público • Página 25
Legibilidade
• identidade, distinção como coisa;
Estrutura
• identidade na relação da coisa com
outras e com o observador;
Significado
• identidade de elementos distintivos,
relativa a referências claras.
Baseando-se nos atributos conforto, acesso,
actividade e sociabilidade, o Project for Public
Space – uma associação internacional sobre o espaço público – propõe um método de diagnóstico
da percepção dos valores identitários do espaço
público.
Mesmo os valores intangíveis podem ser ava-
QUADRO 3.
QUADRO DE VALORES
E INDICADORES
liados, seja por indicadores, seja pelas percepções
que os actores (destinatários, proprietários) têm
da sua relação com os atributos do espaço. Os indicadores são manifestações indirectas do valor, por
exemplo, a pertença ao clube desportivo local, ou
a simples nomeação do ‘local de onde se é’ manifestam um valor de ‘pertença’ a um colectivo.
Podemos observar alguns daqueles valores e
indicadores no Quadro 3.
Noutra perspectiva, a imagem da cidade não
é em si mesma a identidade, mas é algo que se
vai configurando em resultado de percepções da
identidade. Conforme é positiva ou negativa, a
imagem influencia mais ou menos favoravelmente
o desenvolvimento económico-social. Nesta perspectiva a imagem pode ser programada, posicio-
nada, em relação às concorrentes, recorrendo às
ferramentas do ‘marketing’ urbano, desde que se
assegure autenticidade23.
b) Estratégias do espaço público
para a identidade dos lugares
A tendência actual, do espaço público ser
reconhecido como valor em si mesmo24, tem relevância tanto política como económica (vide
comercial). O reconhecimento do espaço público
como um activo tornou-se tão evidente que ele é
objecto de frequentes manifestações de excesso,
em espaços públicos ‘emblema’, tratados como
palco de exibição e ‘show-off’.
Mas o espaço público pode responder também
a outras estratégias, de uma identidade urbana
orientada para a qualidade de vida e a competitividade real:
QUADRO 4 - ESTRATÉGIAS DE ESPAÇO PÚBLICO PARA A IDENTIDADE URBANA
1. Estratégias
1.a. Identificação
de conhecimento e nomeação
Promover opções de toponímia reconhecidas por um maior consenso social, através do envolvimento
de actores locais
1.b. Narrativa
Divulgação de discursos sobre os lugares e os elementos de tradição, de natureza literária, monográfica ou outra
2.a. Sentido de paisagem
e ‘espírito do lugar’
Sublinhar potencialidades do lugar decorrentes de valores
paisagísticos permanentes no lugar
2.b. Referência urbana,
forma, escala e centralidade
Sublinhar um carácter urbano acentuando nos mapas mentais as
referências estruturantes do espaço
2.c. Imagem e visibilidade
Reforçar o carácter icónico de ‘landmarks’ de melhor qualidade visual, ou melhorar relações com o seu entorno
3.a. Vivências, usos
e utilidades
Estimular as condições que facilitem a presença de diferentes utilizadores no espaço e a sua interacção
3.b. Gestão, participação
Facilitar a intervenção dos utilizadores em decisões sobre a gestão do espaço e seu uso permanente ou temporário
4.a. Evocação, comemoração
Processos envolventes da comunidade, celebrando acontecimentos, ciclos naturais ou outros relevantes
4.b. História
Estudos e testemunhos da história local, explicação da evolução da forma dos lugares em diferentes períodos
5. Estratégias
de projecção e
renovação
5.a. Inovação
Estímulo a processos de renovação da identidade com proposta de valores de inovação positivos
5.b. Criatividade, valor
artístico, estética
Acções e processos de valorização da qualidade plástica com a recriação artística da imagem do espaço
6. Estratégias
de significação
6.a. Simbolismo
Monumentalização do espaço associada a elementos de significação com referentes simbólicos
6.b. Marca, tema
Programação e construção de uma imagem de identidade visando
públicos e conteúdos preestabelecidos com autenticidade
2. Estratégias
de legibilidade
3. Estratégias
de apropriação
4. Estratégias
de celebração
PB
23 Elizagarate, V., Marketing de Ciudades, Pirámide, Madrid, 2003
24 Portas, N., ‘L’Emergenza del Progetto Urbano’, Urbanistica, 110, Roma, 1998
3. Papéis estratégicos e performance identitária do espaço público • Página 27
PB
Ribeira, Porto
QUADRO 5 - ‘CHECKLIST’: AVALIAÇÃO DO CARÁCTER
EM CONTEXTO DE SALVAGUARDA REABILITAÇÃO
• Localização, população
Compreender como o perfil social da área de contexto informa o carácter
• Origens e desenvolvimento
Descobrir como a área cresceu e evoluiu – a sua filiação morfológica
• Usos existentes e prévios
Elencar os usos que moldaram a área – grupo social, edifícios, espaço público
• Significado arqueológico
Peritagem eventualmente necessária para detectar traços significantes
• Histórico arquitectónico
Qualidade de edifícios existentes referidos a estilos e tradições dominantes
• Edifícios de acompanhamento
O papel do espaço público na identidade dos
lugares, depende do contexto urbano:
• Histórico – papel de compatibilidade de
traços herdados com a vida real;
Periférico – criação de centralidades
alternativas e sinais de diferenciação;
• Consolidado – consistência, resistência
a tendências abrasivas com renovação;
• Emergente – papel de fundação, em
áreas com predomínio da infra-estrutura.
Assim, o tipo de intervenção reclama estratégias de identidade em duas direcções:
Definição da paisagem urbana e modos de ocupação públicos e privados
• Material existente e prévio
Interesse de detalhes de construção local para uma aparência visual própria
• Estruturas naturais
Reconhecer a parte vital do ambiente natural no aspecto distinto do local
• Relação com entorno
Ter em conta o território – relevo, vistas, ‘landmarks’, traçados urbanos
• Abandono, degradação
Ameaças ou traços negativos existentes com impacto
• Áreas neutras
Assegurar oportunidades de valorização para o desenho contemporâneo
PB adapt. de English Heritage 1997
Estratégias de intervenção
de qualificação e valorização
Concentra-se no ‘upgrading’ do espaço,
na sua adaptação a novas funções e
requisitos da vida contemporânea (o mais
frequente é o automóvel), ou a inclusão
de novas valências económicas, de uso,
novas tecnologias, elementos artísticos
ou comunicacionais. Em locais protegidos
o equilíbrio não depende só do bem
protegido, mas também da relação com o
contexto.
3. Papéis estratégicos e performance identitária do espaço público • Página 28
PB
Contribuição para um conjunto e carácter da área
• Relação de espaços
QUADRO 6 - MELHORIA DE AMBIENTES CARACTERIZADOS
POR PREDOMÍNIO DA INFRA-ESTRUTURA
QUALIDADES
ACÇÕES DE MELHORIA
Cuidado
e aparência
Canais - taludes, ligações,
Corredores verdes (linha)
Entrada, organização de ‘parking’
Vias de peões, sinalização
Boas vindas
Conforto
e segurança
Ícone, nós e chegadas marcadas
Núcleos centrais ‘claros’ (ponto)
Limpeza, elementos naturais acolhedores
Hierarquia, Lojas, ‘streetdressing’
Trama de (área) habitacional
Ruas reconhecíveis
Áreas de concentração de serviços
Separação ‘natural’ de tráfego mais lento
CARÁCTER
ACÇÕES DE VALORIZAÇÃO
• Qualidade de pavimentos
Pavimentos
e contenção de equipamentos
• Plantar árvores de rua, cor e cenário,
vedações temporárias
Marcos locais
• Acentuar marcos visuais, ‘décor’,
Espaço urbano
• Melhor vivência de frente edificada,
pavimentos, luz, arte .
‘eventos’ pontuais
• Encorajar comércio de rua, actividades,
Vida de rua
toldos, esplanadas
• Introduzir alternativas, entre zonas
calmas e de actividade
PB
Estratégias de intervenção
na fundação da urbanidade
Concentra-se na conjugação de elementos
(espaciais, funcionais, simbólicos) em
locais carentes de atractabilidade e poder
congregador dos utentes (residentes ou
visitantes) mas que a partir do predomínio
visual da infra-estrutura inicial são desde
logo capazes de gerar novos sentidos de
identificação, clareza e coerência, a várias
escalas de ‘fundação’.
Espaço de ‘praça’ no interface
do Metro de Odivelas
3. Papéis estratégicos e performance identitária do espaço público • Página 29
A
lém do objectivo de um espaço público
cujas características formais facilitem a
percepção da identidade e a sua apropriação colectiva, os processos sociais que se desenrolam
no espaço público devem também ser objecto de
uma gestão convergente com tais objectivos.
‘Hardware’ e ‘software’ do espaço público
Os actores num projecto de espaço público
(Administração Pública, proprietários e investidores, moradores e utentes) desempenham papéis importantes na construção e sustentação da
identidade dos lugares.
O processo de construção da Identidade não
é só fruto de uma obra, do ‘hardware’- implica o
acordo dos actores quanto aos objectivos, uma
dinâmica negocial e comunicacional na gestão
de um ‘software’ que em si mesmo é criador de
Identidade e facilitador da sua representação no
espaço público:
Papéis Institucionais da Administração
• Contratar bons profissionais,
sensíveis ao projecto e relacioná-los
com outros actores;
• Promover painéis consultivos
com opinião própria, para informar
as decisões;
• Distinção da qualidade – instituir
prémios, realizar concursos
para escolha de soluções;
• Evitar soluções de ‘alcance curto’,
juntar vários problemas e garantir
continuidades;
• Criar exemplos de qualidade
não só em espaços excepcionais
mas também correntes.
Papéis profissionais de técnicos
e agentes culturais
• O espaço público decorre
de um processo – o desenho
deve ser adaptável, flexível;
• Aclarar os programas e suas
contradições, discutir a viabilidade
de objectivos e meios;
• Resolver problemas;
não considerar nenhuma forma
desenhada como única, ou última;
• Resistir a soluções ‘standard’:
recriar com referência ao contexto,
garantindo fiabilidade;
• Avaliar, fazer o ‘feed-back’
pós-ocupação.
Papéis mediadores com destinatários
• Ultrapassar os ‘deficits de voz’
dos destinatários resolvendo falhas
comunicativas;
• Relativizar argumentos
conservadores, promovendo
o sentido ‘de projecto’;
• Ser capaz de operar a nível
elevado (argumentar se necessário
com a decisão de topo);
• Argumentar sobre a
necessidade de recursos,
focalizado no resultado
de qualidade;
• Possuir informação e capacidade
de avaliação económico-financeira
realista.
Empena com pintura e esplanada.
Bairro do Raval em Barcelona
4. Um roteiro para a gestão da identidade urbana • Página 30
PB
4. Um roteiro
para a gestão da
identidade urbana
Uma estratégia de construção e valorização
da Identidade através do espaço público, deve assim incluir, para lá das acções de ‘hardware’, também acções de ‘software’, através de uma gestão
pró-activa, com envolvimento dos actores no
diagnóstico, na preparação de programas, mobilização para a mudança, actividades de gestão e
avaliação pós-ocupação, usando vários recursos
articuladamente:
Elementos efémeros e temporários
Organização de eventos mobilizadores,
intervenções efémeras ou projectos
temporários de ‘demonstração’ de novas
identidades ou de ‘reinterpretação’
de identidades existentes. O processo
de concepção, produção, instalação e
usufruto de tais elementos e a sua gestão,
pode prever processos envolventes da
comunidade e não apenas o carácter
institucional da ‘oferta’.
Comunicação no espaço público
Construção de mapas e itinerários que
podem ser geridos como processos
identitários em si mesmos, com funções
de orientação, evocação e significação. A
nomeação dos lugares, a construção de
símbolos, exigem interacção. A presença
da arte nos espaços públicos não deve
ser banalizada. O significado temporal e
adequação ao sítio, justificam um processo
comunicativo próprio.
Marca de cidade
Discussão dos valores em que a comunidade
se quer rever, dos conteúdos da imagem de
identidade a programar e sua autenticidade
enraizada. O processo de construção de
marca não é ‘exterior’ à vida social, antes
exige levantamento de traços de identidade
e expectativas dos vários públicos e o
desenho participado de estratégias de
projecção da identidade presente no futuro.
Reprodução dos processos
de participação colectiva
Mobilização de segmentos de público mais
disponíveis (crianças, idosos) em actividades
envolventes, com efeito reprodutivo. Um
projecto de intervenção no espaço público
significa sempre uma transformação,
cuja aceitação é mais fácil nos grupos
mais disponíveis. Se for programado com
acções múltiplas e articuladas pode ser
reprodutivo, na ‘federação’ de vários
objectivos e interesses e na gestão do
processo de uso e manutenção.
Metodologia de trabalho participativo,
com maquete dos ‘desejos’ dos destinatários
4. Um roteiro para a gestão da identidade urbana • Página 31
QUADRO 7 - ROTEIRO PARA A GESTÃO
DO PROCESSO DE IDENTIDADE NO ESPAÇO PÚBLICO
Processo
Definidos através de
Objectivos da valorização
Recomendações para a acção
1.
Caracterização
do ‘lugar’ como
paisagem
Elementos naturais e
artificiais, panorama,
relevo, vegetação, luz.
Reforçar o conhecimento, no sentido da revelação
do lugar; Realçar os elementos distintivos originais
(geradores) do espaço.
Conservar elementos naturais de grande qualidade
(árvore, fonte, ribeiro); o ecossistema natural
contribui para a identidade da transformação referindo
um projecto ao lugar de que faz parte.
2.
Carácter como
cultura urbana
Ruas, edifícios notáveis,
‘grão’ urbano, materiais,
escala.
Melhorar a compreensão dos motivos/sentidos da
forma construída; Reforçar elementos distintivos da
humanização do lugar; Evidenciar o desenvolvimento
histórico da forma urbana.
Num projecto de transformação, integrar estruturas
urbanas prévias (não apenas o elemento fachada), ajuda
à continuidade do tecido, retendo elementos de escala
distintiva do ambiente urbano.
3.
Continuidade
e abertura
Relações edifícios-espaços,
público-privado,
alinhamentos.
Definir os limites público-privado e os elementos de
transição; Estimular as relações de complementaridade entre espaços, eliminar zonas mortas, sem uso
ou sem controlo.
As aberturas de edifícios para o espaço público,
os espaços semipúblicos ou semi-privados, criam
zonas de continuidade, protecção, e controle de
acesso (frentes recuadas, pátios, ‘parkings’).
4.
Atracção,
segurança
e conforto
Sentido de protecção,
da tranquilidade,
da boa aparência.
Promover espaços atractivos para o uso de toda a
sociedade com estímulo da sensação de segurança;
Estimular a limpesa, bom acabamento, facilidade de
utilização,adequação ao uso.
Edifícios em pontos notáveis com comércio
e esplanadas atractivos contribuem para a identidade
e segurança. Os equipamentos públicos, como rede
de socialização, devem oferecer conforto ao utente.
5.
Movimento,
acessibilidade
Intensidade do acesso
a meios de deslocação
diversos.
Assegurar a permeabilidade e interconexão
de diferentes espaços, acesso a meios de diferentes
velocidades, colectivos ou individuais; ruas e passeios
ligados a percursos frequentes e alternativas.
Novos percursos pedonais devem integrar os
existentes incluindo acesso aos sistemas de transporte
público e vice-versa; as junções depercursos devem ligar
pontos de diferentes tipos de mobilidade.
6.
Visibilidade
e orientação
Vistas, pontos de foco,
permeabilidade visual,
clareza visual.
Conferir aos lugares uma imagem clara e reconhecível de e para; Facultar elementos facilitadores do
reconhecimento e da orientação (vistas, luz, informação, sinalização).
Possibilidade de avistar os principais percursos
e a partir destes os marcos visuais. Actividades mais
intensas localizadas em locais mais legíveis conferem
identidade.
7.
Adaptabilidade
e diversidade
Usos temporários,
eventos, usos mistos
e articulados.
Facilitar mutações por factores sociais, técnicos ou
económicos; Possibilitar escolhas na apropriação
colectiva do espaço; Eliminação de obstáculos à mudança, adaptação de escala, infra-estruturas flexíveis.
Adaptabilidade dos elementos chave do espaço
público – pisos térreos, esquinas, passagens (pés
direitos, acessos) a mudanças de uso, usos mistos,
possibilidades de escolha.
8.
Comunicação,
significado
e simbolismo
Elementos
comunicacionais,
monumentais,
de estetização.
Evidenciar as qualidades e sentido do espaço;
Favorecer a qualidade da informação disponível em
função de necessidades; Melhorar a percepção dos
significados e valores identitários (toponímia, arte).
As actividades colectivas são em si mesmas simbólicas
da comunidade devendo ser localizadas em locais
destacados. A comunicação deve ter por referencias
estes locais, de carácter monumental-artístico.
9.
Participação
Acções de diagnóstico,
sistematização de
necessidades e/ou opinião
colectiva (método UDA).
Envolvimento dos utentes em acções
de conhecimento, divulgação, desfrute, conservação,
gestão ou mobilização na transformação do espaço.
A cooperação e a interacção devem sustentar a relação
de parceria de todos os actores; Programas de objectivos
estratégicos em diálogo entre população, técnicos e
Administração.
PB
4. Um roteiro para a gestão da identidade urbana • Página 32
Um roteiro, uma responsabilidade social na identidade dos lugares
Vimos que a apropriação colectiva tem por
base a percepção do valor identitário, definido
através dos elementos integrantes da formação
do valor e do seu reconhecimento social, como
específicos de um lugar ou de uma comunidade.
Por isso, apresenta-se adiante uma selecção
de casos, o ‘feed-back’ da experiência medida
não pela fotogenia mediática, mas pela apropriação dos espaços na vida quotidiana e do seu
contributo para o sentido de pertença de uma
comunidade. Com eles poderemos aprender a
beleza e a subtileza da construção da identidade
dos lugares.
O processo de valorização da identidade pode
ser desenvolvido como uma ‘agenda’, um conjunto de ‘processos’, aos quais correspondem objectivos específicos e ainda as acções, para melhorar
a percepção do valor identitário do lugar e para
facilitar a sua apropriação colectiva ao longo do
tempo.
Tais objectivos e acções contribuem para um
processo contínuo de pensamento estratégico,
acção e avaliação, com a partilha da responsabilização social pelo espaço público, com efeitos
positivos na manutenção, na durabilidade dos espaços e na sua vivência como ‘casa comum’.
PB
Um roteiro para a gestão não é um conjunto
de receitas mágicas para assegurar a construção
ou conservação de uma identidade. Será um método de ‘agendamento’, de negociação de interesses e motivações, em que a avaliação dos meios
e dos resultados não se faz no tempo curto, nos
efeitos ‘espectaculares’ ou ‘milagrosos’ de um
espaço subitamente intérprete de vontade colectiva. Pelo contrário, é mais sábio e prudente encarar esta agenda, este roteiro, como um processo
discreto, de tecer uma responsabilidade social
sobre o espaço público, entendido como lugar da
representação e da interacção, como construção
da urbanidade.
4. Um roteiro para a gestão da identidade urbana • Página 33
5.
PB
5.1 Novas
Ramblas
em Barcelona
C
riação de uma nova identidade ‘de bairros’
através de novas ‘ruas’, desenhadas como
‘símbolos em si’. Elementos unificadores do espaço com conjugação de funções circulatórias
de vários tipos e velocidades.
As novas Ramblas (Brasil, Prim, Poblenou,
Vernera, Raval) ao trazerem para os bairros uma
marca de urbanidade bem característica de Barcelona, correspondem também a um reforço da
coesão de uma ‘marca da cidade’.
Na Rambla Brasil, uma sobreposição de dois
canais e duas velocidades. Detalhes identificadores como a iluminação e o mobiliário urbano,
reforçam o seu carácter de ícone urbano.
Na Rambla Prim, a identificação de uma periferia pobre com desenho de um espaço de forte
vivência, onde os moradores vêem e são vistos,
encontram e se encontram.
Na Rambla Vernera, um elemento artístico
narrativo da vida do bairro dá-lhe unidade e memória colectiva – la Línea.
Na Rambla Raval, a valorização da multiculturalidade num espaço de convívio de geometria
larga fruto da demolição de edifícios degradados, num bairro onde se incluem equipamentos
culturais de topo.
Rambla Brasil
5.1. Exemplos - Novas Ramblas em Barcelona • Página 36
PB
Rambla Prim
Rambla Raval
Rambla Brasil
Rambla Vernera
5.2
Arte Pública
E
spaço da avenida principal da Expo 98 e
espaços adjacentes formando um eixo pontuado por intervenções artísticas de diferentes
partidos estéticos e significados, que conferem
identidade visual com uma escala monumental
humanizada.
Uma estratégia de legibilidade, celebração e
projecção (imagem de futuro), com um roteiro
para a gestão da identidade do novo.
Pavimentos em calçada com desenhos actuais (Rigo), a estátua do Rei Sol (João Vieira), no
alinhamento dos vulcões (WetDesign), a arqueologia da torre Galp (Graça Dias e Egas Vieira), e
nos espaços adjacentes os monóculos (Chafes),
a praça das bandeiras (pavimento de Conduto),
compõem um roteiro de gestão da identidade
complexo: visibilidade (foco) e criação de carácter de cultura urbana (humanização, escala, comunicação de significados).
Pavimento de Fernando Conduto
5.2. Exemplos - Arte Pública na Expo • Página 38
na Expo
Torre Galp
de Graça Dias e Egas Vieira
PB
Pavimento de Rigo
Monóculos de Rui Chafes
Vulcões de WetDesign e estátua do
Rei Sol de João Vieira
5.2. Exemplos - Arte Pública na Expo • Página 39
5.3
Metro
E
spaço de identificação a uma escala metropolitana gerando um sentido de centralidade multipolar, com qualificação do espaço canal,
espaços de paragem, compatibilizando usos novoa e antigos numa regra adaptada a diferentes
contextos.
Um roteiro para a gestão, centrado no movimento e acessibilidade – assegurar a interconexão, ligando tecidos de diferentes aglomerados
(alguns deficits na informação local, nos espaços
de ‘hinterland’), para construir uma nova identidade, à escala metropolitana, com atracção,
conforto para os utentes numa nova rede de socialização.
As estratégias são de conhecimento (novos
mapas mentais), de apropriação (vivência tempoespaço), de legibilidade (da diversidade urbana e
do próprio ícone-Metro na cidade) e de projecção
(marca).
Componentes: estações e paragens, canal,
mobiliário e comunicação.
no Porto
PB
PB
PB
PB
PB
5.3. Exemplos - Metro no Porto • Página 41
5.4
Passeio
Marítimo de Oeiras
P
ercurso paisagístico com grande intensidade de uso concebido
com simplicidade de desenho e economia de recursos, foi capaz
de se constituir num novo espaço de encontro e interacção social parte
de uma nova centralidade e imagem atractiva, com a comunicação de
uma forte iconicidade, capaz de personalizar uma imagem de marca.
Estratégias de apropriação (baseada na utilidade e nas vivências e
interacções), de um verdadeiro lugar de encontro; de legibilidade, tirando partido do espírito do lugar (como percurso panorâmico); de projecção, baseada na marca e tema (o ‘waterfront’ marítimo).
O roteiro de gestão da identidade é baseado no partido da paisagem, com potencial simbólico em si mesmo (o elemento menos feliz é
uma desnecessária escultura junto ao ‘parking’, num desajustado registo de banalidade kitsch). Por outro lado, oferecendo boas condições de
mobilidade e de estada, com um pavimento polivalente (acessível para
diferentes utentes e tipos de mobilidade (patins, bicicletas) interconectando diferentes destinos (bar de praia, marina, pousada) com conforto,
diversidade, adequação a usos múltiplos.
Componentes da acção: um percurso de perfil não muito largo com
pavimento betuminoso contínuo, de grande acessibilidade com mobiliário de apoio contido. Programa para uso 24 horas (iluminação excessiva) e esplanadas de praia com desenho actual de simplicidade. Elementos de informação tematizando o lugar com narrativa, e elementos
de comunicação de apoio a práticas desportivas (indicações métricas).
Visando a barreira do trânsito na estrada marginal, um anunciado projecto complementar incluirá ligação ao jardim urbano no lado oposto.
5.4. Exemplos - Passeio Marítimo de Oeiras • Página 42
PB
5.4. Exemplos - Passeio Marítimo de Oeiras • Página 43
5.5
Centro
Histórico de Almada
E
spaços em rede, ou sistema de espaços
qualificados na estrutura urbana de Almada-Velha, com percursos oferecendo novas
acessibilidades e atracção, unindo equipamentos
ligados ao passado do lugar, com qualidade na
escala e pormenores.
Estratégia de conhecimento (narrativas sobre o percurso arqueológico-industrial ribeirinho) com elementos simbólicos de evocação; de
apropriação através da gestão do ‘mix’ de usos,
com papeis culturais desempenhados por equipamentos (casa da cerca, museu, jardim botânico), e qualificação do traçado tradicional (com
pavimentos, balizadores, muretes e sinalética de
dimensões especiais para condicionamento do
trânsito); e de projecção de uma nova identidade
com o elevador-ícone.
O roteiro pressegue objectivos de reforço do
carácter como cultura urbana, continuidade, visibilidade (o elevador é um elemento de referencia) e adaptabilidade.
Componentes da acção: equipamentos, qualificação de espaços da trama urbana (largos,
jardim do coreto, ruas) culminando no elemento
inovador, o elevador e o jardim do rio na plataforma inferior, na margem, com a valorização escarpa e da relação visual com Lisboa.
5.5. Exemplos - Centro Histórico de Almada • Página 44
PB
5.6
Praça
do Mosteiro de Alcobaça
O
projecto procura incentivar a união entre a cidade
e o mosteiro. A configuração do ‘Rossio’ assenta
na génese da Abadia Cisterciense, no seu relacionamento
com o território, e modificações vividas ao longo dos séculos. A água, e todo o seu simbolismo, foi cúmplice dos
monges. Para abastecer e drenar a abadia, criaram levadas e ramais que a captam e distribuem, no fundo de dois
vales, antes da confluência de dois rios, o Alcôa e o Baça
à cota mais baixa.
Celebrar a água e sentir a presença dos rios é determinante: repor a inclinação da praça e as caleiras de drenagem à superfície revela o escoar da água para o rio.
Uma estratégia de conhecimento com uma narrativa
implícita à revelação de traços de preexistencias; legibilidade pelo desenho; de celebração associada à evocação
e monumentalização e melhor acessibilidade pedonal (do
ponto de vista do acesso automóvel a solução não é consensual, nomeadamente no impacte às actividades económicas da praça e do turismo).
O roteiro da identidade do espaço público privilegia
o sentido do lugar e a cultura urbana, a compreensão do
motivo da forma da cidade, integrando estruturas prévias,
com uma imagem clara e reconhecível.
Componentes da acção: uma caleira de água corrente
marca o alinhamento entre a igreja e o castelo. O chafariz
da Praça D. Afonso Henriques é restaurado e recolocado à
cota original bem como a rua, libertando-se o cunhal e os
vãos do mosteiro. O saibro evoca o antigo terreiro.
5.6. Exemplos - Praça do Mosteiro de Alcobaça • Página 46
JMR
5.6. Exemplos - Praça do Mosteiro de Alcobaça • Página 47
5.7
Parque
Urbano em Benavente
C
onjunto de lugares em paisagem rural, lacustre
e de campina, qualificados com um percurso
oferecendo funções recreativas compatibilizadas com
outras produtivas, necessárias à comunidade, estimulando a auto-estima e respeitando o ecossistema.
Uma estratégia de apropriação através da gestão
de usos mistos, de carácter lúdico e também de carácter produtivo (ribeirinho e taurino) bem característicos da vida local. Vivências episódicas (festivas)
são também acolhidas no programa de funcionalidades dos espaços criados
Por outro lado, uma estratégia de legibilidade, em
busca de um ‘espírito do lugar’, sempre reinterpretado para servir a vida no presente com detalhes elegantes e bom uso dos materiais.
O roteiro de gestão da identidade assenta assim
na caracterização do lugar como paisagem (lúdica e
produtiva), na continuidade e abertura dos percursos
(atravessando campos, canais e também estradas),
assegurando a acessibilidade ao movimento, visibilidade e orientação dos utentes e permitindo uma diversidade de ambientes que promete adaptabilidade
aos ciclos da natureza.
Os componentes da acção – caminhos, passereles
e viadutos-pontes pedonais, canais e ancoradouros,
esplanada, terreiro de corridas e parque de merendas – revelam-se ao longo de um percurso, a partir da
entrada, no aglomerado urbano e estendendo-se pelo
território acompanhando o ritmo das marés.
5 . 7. E x e m p l o s - P a r q u e U r b a n o e m B e n a v e n t e • P á g i n a 4 8
PB
5 . 7. E x e m p l o s - P a r q u e U r b a n o e m B e n a v e n t e • P á g i n a 4 9
5.8
Piscina
fluvial na Lousã
P
rojecto pioneiro (1966), é um espaço lúdico num
enquadramento de montanha que inclui elementos histórico-simbólicos (castelo, capela) e produtivos (azenha) compatibilizando os usos anteriores
(festas religiosas, romarias) numa arquitectura paisagista, pelo ‘espírito do lugar’.
A estratégia é de legibilidade, projecção e apropriação. A intervenção é de certa forma mimética,
tratando de modificar, como se tudo lá estivesse
estado desde sempre. O material dominante (xistos,
ardósias) é o que constrói os edifícios preexistentes.
A unidade dada ao conjunto nas suas diferentes componentes confere legibilidade à paisagem assim compósita.
Para a época, a identidade criada teria ainda a
componente de projecção (o turismo nascente), mas
hoje é das características vivenciais do lugar (ponto
de encontro até das comunidades emigrantes da região na sua visita de verão), que se apropria uma comunidade, com os seus lugares de identificação.
O roteiro da gestão da identidade passa aqui pelos
elementos geradores originais de um lugar-paisagem,
uma ‘compilação’ de elementos naturais e construídos, comunicando o seu simbolismo de carácter histórico, religioso e produtivo.
As componentes da acção são vários espaços em
torno da piscina, o restaurante, um centro ambiental
na azenha, valorização de acessos, ponte e percursos
na serra, sob a protecção da capelinha e do castelo.
PB
5.8. Exemplos - Piscina fluvial na Lousã • Página 51
5.9
Site
de Arte Pública de Barcelona
Escultura
de Claes Oldenburg
P
rocesso de comunicação de um ‘museu
virtual de escultura pública’, oferecendo informação ao cidadão sobre a localização e características das obras, a sua história, enquadramento local e características
estilísticas, propondo itinerários, e várias valências de interactividade dos utilizadores.
Na gestão urbana trata-se de uma ferramenta importante para apoio à conservação,
e um instrumento de gestão da identidade
colectiva, pelo conhecimento e pela participação.
O ‘site’ apresenta o catálogo das obras
artísticas situadas no espaço público da cidade de Barcelona ou visíveis a partir dele.
Obras representativas da arte pública, formam uma narrativa: são manifestações do
decoro, da ornamentação ou da memória
da cidade, que a sociedade construiu com
vontade de permanência no espaço público,
todas elas sendo hoje elementos de representação e de identidade. O catálogo pretende ser exaustivo, sem considerar critérios
devaloração, se bem que esteja presente o
comentário crítico independente. 1575 obras
permitem seguir não só a evolução da cidade, mas também a história e a arte da Catalunha.
Escultura
de Rebeca Horn
www.bcn.es/artpublic
Escultura
de Juan Muñoz
PB
Estátua de Colón
5.10
Sinalética
U
m projecto de design de comunicação ‘inclusivo’, realizado em 2003 – “Sinais, a Cidade
Habitada”, propôs-se interpretar um desígnio político local – a alteração da toponímia num bairro estigmatizado, rejeitando a nomeação dos diferentes
locais por algarismos e números das indicações técnicas da urbanização do Plano de Chelas projectada
nos anos 70.
participada em Marvila
Estratégia de nomeação
A restauração de nomenclaturas anteriores, do
período de ocupação rural, resulta de uma identidade
local afirmada com base em convicções fortes (numa
acção anterior os actores locais haviam já instalado
uma sinalética ‘espontânea’ no espaço público).
Estratégia de participação
O projecto foi desenvolvido com a participação das
escolas locais, no levantamento do território, dos lugares a sinalizar e da opinião local, através de inquéritos
e entrevistas. Incluiu como principais produtos materiais:
• O desenho de novo símbolo gráfico e cores
da freguesia, com participação democrática
através de sondagem sobre as preferências da
população e o debate entre as actores locais e
representativos de grupos associativos;
• Produtos de comunicação como um ‘site’,
um mapa da freguesia com locais, serviços e
informações, e conexões ao resto da cidade;
• Um novo sistema de sinalética, com suportes e
desenho realizados com especiais especificações
de durabilidade, manutenção e personalização,
como produto final de maior visibilidade;
• Discussão pública e processo de decisão sobre
os locais a sinalizar conforme importância
atribuída pela comunidade aos diferentes
locais e consequente localização e tipologia de
sinalética.
5.10. Exemplos - Sinalética participada em Marvila • Página 54
PB
7. B i b l i o g r a f i a • P á g i n a 0 0
Bibliografia
Manuais e recomendações sobre espaço público
Autorias dos exemplos
AAVV, By Design, DETR/CABE, 2000.
Brandão, P., Águas, S. e Carrelo, M., O Chão da Cidade,
CPD, Lisboa 2002.
Alcobaça – Praça do Mosteiro
Gonçalo Byrne e João Pedro Falcão e Campos;
Fotos assinaladas: José Manuel Rodrigues.
Carmona, M. et al., Public Places, Urban Spaces,
Architectural Press, Oxford, 2003.
Alcochete – Parque urbano
NPK – Leonor Cheis, José Veludo, José Lousan, Rosário Salema.
Cowen, R. et al., Arm yourself with a Place-Check,
a users guide, Urban Design Alliance,
London, 2001.
Almada – Centro Histórico
CMA- Maria José Lopes, Helena Moreira e Anabela Felício.
Ensaios sobre espaço público e design urbano
Borja, J. e Muxí, Z., El Espacio Público: Ciudad y
Ciudadania, Electa, Barcelona, 2003.
Brandão, P., A Cidade entre Desenhos,
Livros Horizonte, Lisboa, 2006.
Brandão, P. e Remesar, A., Espaço Público
e Interdisciplinaridade, CPD, Lisboa, 2000.
Gehl, J., Life Between Buildings, Arkitetens Forlag,
Copenhagen, 1996.
Sobre imagem, identidade e arte urbana
Elizagarote, V., Marketing de Ciudades,
Pirámide, Madrid, 2003.
Lynch, K., A Imagem da Cidade,
G. Gilli Reprints, Barcelona, 1998.
Maderuelo, J., La Pérdida del Pedestal,
Círculo de Bellas Artes, Madrid, 1994.
www .sxc.hu
Sítios úteis
Arte Pública de Barcelona – www.bcn.es/artpublic
Expo 98 – www.parqueexpo.pt
Metro do Porto – www.metrodoporto.pt
PPS (Project for Public Spaces) – www.pps.org
UDA (Urban Design Alliance) – www.udal.org.uk
UDA checklist – www.placecheck.info
Barcelona – Arte Pública
Coordenação: Antoni Remesar,
Carma Granda e Ignazi Lecea.
Barcelona - Ramblas
Brasil - Henrich e Tarrasó;
Poblenou - Henrich, Hom e Martorell;
Prim - Sanjosé, Barragán e Tersol;
Raval - Cabrera e Artigues;
Vernera - Periel e Lauradó.
Expo – Avenida central
Plano de pormenor RISCO.
Coordenação Manuel Salgado.
Lousã – Piscina
Desenho e direcção da obra - Hermenegildo Corvelo, desenhador.
Execução - Manuel Alves Seco, mestre-de-obras
Marvila – Sinalética
Direcção do projecto:
Centro Português de Design - Pedro Brandão;
Extramuros - Mário Caeiro.
Oeiras – Passeio marítimo
Sidónio Costa Pardal.
Porto – Metro
Eduardo Souto de Moura.
Agradecimento
Antoni Remesar, Universidade de Barcelona
Imagens e informações de arquivo
sobre a Praça Les Corts
6. Biblografia • Página 57
NÚMEROS DA SÉRIE JÁ PUBLICADOS
1.
2.
A energia nas cidades do futuro
Cidades Inteligentes, governação territorial e tecnologias de informação e comunicação
PRÓXIMO NÚMERO DA SÉRIE
4.
Alterações climáticas e desenvolvimento urbano
Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional
Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades
Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano
Fly UP