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Texto sala_TB_Um dia destes

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Texto sala_TB_Um dia destes
TIAGO BAPTISTA
Um dia destes…
26 FEV – 17 ABR 2010
Et in Arcadia Ego. Poussin pintou por duas vezes este tema, do qual a segunda versão de 1638 é a mais
conhecida. Quatro pastores, figuras idealizadas, rodeiam um túmulo de pedra onde lêem esta inscrição,
manifesto do transitório da vida. Tiago Baptista ao citar este ícone da pintura do classicismo francês realiza por
seu turno a enunciação de um credo sobre o modo como pensa e realiza a actualização de uma pintura de
história.
Tendo tido acesso a um projecto de sinopse de trabalho realizado pelo pintor, percebi que o conjunto dos seus
esforços conduz-se num propósito crítico sociocultural de amplas linhas. As pinturas para Tiago Baptista,
exactamente como na perspectiva de Poussin, são veículos para a visualização de discursos poéticos próprios e
originais para os quais contribui a clareza de concepção, o tal disegno, resultante do balanço das uniões entre
lirismo e razão, sensibilidade e intelecto, apropriada para a representação de cada tema dado. Assim sendo, o
autor, ao delinear um universo literário e crítico próprio, prossegue na criação de dispositivos dramatúrgicos que
melhor correspondam ao dramatismo do enunciado. Estes, mais uma vez de modo análogo a Poussin,
caracterizam-se pela criação de um espaço no qual os elementos denotam significados pretendidos. O espaço é
quase invariavelmente exterior, denso e carregado. As paisagens não se referem tanto a uma arcádia idealizada
mas sim à paisagem rural portuguesa, frequentemente pontuada de pequenas fábricas e casas de pato bravo.
As figuras são contemporâneas modeladas directamente do universo de conhecimentos pessoais do autor, ou de
figuras públicas, como no caso do pioneiro da mocidade portuguesa. As acções que estas figuras executam
referem-se invariavelmente ao subtexto pensado.
Pode no entanto, ao observar-se continuamente a produção gráfica e pictórica de Tiago Baptista, notar-se uma
outra tendência que desta vez o afasta de Poussin e que é o realismo observável justamente nestes elementos
que escolhe. O autor estabelece aqui, nesta inclusão do prosaico, um espaço de confronto ou tensão entre duas
linhas de leitura; a de uma mensagem politicamente idealista, escatológica e global transmitindo uma vontade
universalista de mundividência e a outra, de um paisagismo imediato, de uma etnografia brutal, muito
conterrânea e contemporânea, de um país, ele próprio dilacerado entre a sua estrutura orgânica e primeva e a
cega obsessão do desenvolvimento. Este realismo, esta imediata relação que nos oferece com o quadro cultural
referido é bem expressa nos porcos, no cordeiro da Josefa, nos calhaus, na vestimenta urbana casual, no bombo
furado das Nicolinas de Guimarães. Aqui, neste último exemplo e noutros, jogam-se também conotações sexuais
mais ou menos óbvias. A grandiloquência do tema proposto e por vezes explícito, é contrariada intencionalmente
também nesta inclusão de iconografias populares, conferindo um aspecto fortemente irónico que frequentemente
se sobrepõe a qualquer consideração de classicismo imputável às imagens que Tiago Baptista nos apresenta.
Este aspecto torna-se mais evidente após uma observação da natureza do universo gráfico do autor onde este
rua antónio maria cardoso, 31 (chiado) | 1200-026 lisboa | +351 210 170 765 | [email protected] | www.3m1arte.com
mal-estar surge textualmente e completamente limpo de referências académicas. Nicolas Poussin, como modelo
formal e conceptual, cede aqui o terreno a Robert Crumb.
É todavia a omnipresença da ruína, do arruinado, que acaba por constituir a vertente mais relevante e genuína
desta representação de fim de festa, desta incapacidade de formar discursos teleológicos, que a pintura de Tiago
Baptista pretende apresentar. Refiro a pretensão por estar convencido que não é a partir de um programa
explícito que se faz uma pintura. A qualidade de uma imagem constitui-se como uma capacidade de se transmitir
um sentimento de sentido completamente independente do que explicitamente está nela representado. Na
pintura de Tiago Baptista o explícito é dobrado pelo implícito, num pleonasmo feliz. De algum modo os
programas que o autor se propõe a seguir na execução de cada uma das suas pinturas e que por si só querem
transmitir esta ideia de crise ou cataclismo, são tornados irrelevantes pelo material sensível que aqui é
apresentado, ou seja; é naquilo que se desprende entre os elementos, no sentido mediado pictórico como
material sensível, que se sente a constante do luto nestas imagens que aqui nos são apresentadas. As cores são
opacas e carregadas e as formas amassadas como corpos de barro. Este sentido lutuoso funciona aqui de um
modo semelhante a Courbet onde este peso se sente em quase toda a obra. Por aqui se pode vislumbrar
também o enorme potencial metafórico deste trabalho; a difusa narrativa que se desprende nas pinturas de Tiago
Baptista é subconsciente e é justamente por aí que obtém o seu poder; o de poder constituir-se como uma
espécie de trauerspiel emocional e íntimo, emergente e pré-revolucionário.
André Poejo, Lisboa 2010
rua antónio maria cardoso, 31 (chiado) | 1200-026 lisboa | +351 210 170 765 | [email protected] | www.3m1arte.com
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