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Se liga, Charles!

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Se liga, Charles!
Se liga, Charles!
Vincent Cuvellier
Heitor Ferraz Mello
Preconceito; Amizade; Solidariedade
Tradução
Temas
Guia de leitura
para o professor
Série Azul nº 16
96 páginas
2008996275016
O livro “Se ele não existisse, daria na mesma.” É assim
que o pequeno Benjamin se dá conta de que seu colega
de escola, Charles-Philippe, tão diferente de todos os
garotos e garotas da classe, não faz falta a ninguém.
No máximo, Charles serve para os outros lhe pedirem
coisas emprestadas, como canetas e dinheiro, que
nunca devolverão. Mas, por causa de um imprevisto,
Benjamin se vê obrigado a conviver com Charles. Daí
nasce a descoberta de que nem tudo que parece de
fato é. A convivência, de início forçada, logo se torna
agradável. Dela surgem a amizade, a autodescoberta e
a solidariedade.
O autor Vincent Cuvellier nasceu em Brest,
França, em 1969, e atualmente vive em
Nantes, no mesmo país. Era adolescente
quando escreveu seu primeiro livro, com
o qual ganhou o Jeune Écrivain, prêmio
literário para jovens autores. Publicou vários
livros, entre eles A motorista de ônibus,
lançado pela Edições SM em 2006, recebeu
prêmios e foi traduzido em diversos países.
Em seu site, fala de sua obra, de sua vida,
conversa com os leitores e apresenta histórias inéditas: www.20six.fr/vincentcuvellier.
O ilustrador Charles Dutertre nasceu em
Rennes, França, em 1972. Estudou BelasArtes em Cherbourg e em Rennes. Ainda
pequeno, decidiu tornar-se desenhista.
Atualmente, ilustra livros, matérias de jornal
e participa da revista em quadrinhos Patate
Douce. Trabalha com Vincent Cuvellier e já
ilustrou outro livro do autor.
Se liga, Charles!
Mergulhando
na temática
bullying
Têm sido constantes, nos dias atuais,
as referências ao bullying. Muitos blogs
foram criados para relatar experiências
desse tipo, vividas principalmente na
escola. Os maus-tratos dirigidos a
jovens ou crianças, ou o desprezo
de que foram vítimas, provocam
sofrimentos, com graves conseqüências
psíquicas. O bullying impõe um modelo
de comportamento tido como “correto”
e transforma em “estranhas” todas
as outras maneiras de se comportar.
É assim que, nas escolas, formamse os grupos: os jovens “populares”
desconsideram aqueles a quem
chamam de nerds; reproduzem
os padrões de beleza “ideais” e
menosprezam aqueles que não têm
as “medidas certas”. Mal sabem que
repetem modelos autoritários de
sociabilidade ou de beleza impostos
pela mídia, que os “naturaliza”.
É preciso identificar a origem
sociocultural do bullying e atuar
para que os comportamentos possam
ser modificados. A discriminação
é proibida pelo Estatuto da Criança
e do Adolescente, em seu artigo 5º
(“Nenhuma criança ou adolescente será
objeto de qualquer forma de negligência,
discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão, punindo na
forma da lei qualquer atentado, por
ação ou omissão, aos seus direitos
fundamentais”). Mas ela continua
ocorrendo, sem que nos julguemos
capazes, muitas vezes, de reagir contra.
Por isso, Se liga, Charles! ajuda na
atuação dos educadores. A narrativa
mostra como, a partir do conhecimento
e da convivência com aquele que
Vincent Cuvellier
Interpretando o texto
Ninguém e todo mundo
Benjamin não tem problemas, tem amigos. Aceito na classe, convive bem com sua turma e não sabe o que é sofrer de
bullying. Brinca quando pode, “zoa” a professora, inventando,
com a turma, apelidos engraçados para ela, tem bom desempenho em algumas matérias e péssimo em outras. Ele é como todo
mundo. Ao menos, como todo mundo com quem se relaciona. A
presença de Charles-Philippe em sua classe o intriga, porém: embora da mesma idade, a aparência e o comportamento estranhos
do menino destoam. Ele parece um velho! Mas o incômodo que
Charles provoca se resolve facilmente. Facilmente demais! Todo
mundo prefere... ignorar esse “ninguém”.
Entretanto, ninguém é igual a ninguém. Todo mundo é único.
Benjamin acaba descobrindo isso à força, quando a professora
o obriga a levar as lições escolares para Charles, que sofrera um
acidente. Ele havia caído da escada, e o tombo o obriga a ficar em
casa por dois ou três meses, imobilizado.
De início, Benjamin quer recusar a tarefa. Mas não há como
escapar. Na primeira vez que vai até a residência de Charles, ele
estranha tudo: a casa, sombria; os adultos, muito velhos, que ele
julga serem avós do colega, mas que na verdade são seus pais; a
impossibilidade de brincar e fazer bagunça no quarto, dado o
rigor com que a mãe controla o filho.
Benjamin tenta se desvencilhar da missão que a professora lhe
deu. Deixa de ir à casa de Charles num dia, mente no outro, mas
aos poucos descobre que o colega pode ser seu amigo. Charles
também sabe se divertir... As dificuldades, agora, são de Benjamin. Quer tanto contar o que lhe acontece, deseja tanto relatar
ao novo amigo suas aventuras com os colegas da escola que é incapaz de escutar e de ver Charles. Contudo, o garoto não se deixa
anular. Ele também sabe gritar para se fazer ouvir. Não esconde
aquilo de que gosta e o que faz: desenhos. É assim que Charles se
é desprezado, podem surgir a amizade e a percepção de que
ninguém é o que aparenta ser.
Sobre o assunto, ver os sites:
www.eduquenet.net.dislexiamaustratos.htm
www.medicina.ufmg.br/spt/saped/maus_tratos.htm
Se liga, Charles!
narrativa em
primeira pessoa
O narrador em primeira pessoa conta a
história a partir daquilo que ele conhece
da realidade. As vivências de Benjamin
concentram-se no que ocorre na escola,
no que ele sente e no que imagina – e
é por meio da linguagem estilizada do
garoto e de seus diálogos com Charles
que temos acesso a sua realidade. Daí a
freqüência com que surgem expressões
juvenis (como o próprio título do livro
indica) e um tipo de organização
sintática (frases curtas, quase sempre
coordenadas, e transcrições de diálogos
diretos).
Sobre as técnicas e o foco narrativos:
Leite, Ligia Chiappini Moraes. O foco
narrativo. 2. ed. São Paulo: Ática, 1985.
diário
Os capítulos curtos de Se liga,
Charles! apresentam o relato de fatos
à medida que eles ocorrem, com
pouco distanciamento temporal. Por
isso, temos aqui um registro que se
assemelha ao diário. Mesmo sem os
cabeçalhos de entrada das datas, os
capítulos funcionam como síntese dos
acontecimentos e reflexões que marcam
o dia-a-dia de Benjamin.
Quem escreve um diário, anota seus
pensamentos a partir dos eventos de
sua vida cotidiana. Isso supõe que o
sujeito que escreve (autobiográfica ou
ficcionalmente) e que, muitas vezes,
não tem condições objetivas para
agir no mundo exterior, busca
constituir-se e superar as dificuldades
a partir da escrita reflexiva e dos
comentários sobre o mundo que o
cerca, bem como sobre seus próprios
dilemas interiores. Desse ponto de
vista, são mais recorrentes os textos
escritos por adultos, como é o caso,
na literatura brasileira, de Memorial de
Aires, de Machado de Assis.
Vincent Cuvellier
distrai e suporta a lenta passagem dos dias, enquanto está convalescendo. Benjamin percebe que Charles não é um “ninguém”:
seus desenhos têm estilo e graça.
Graça e alegria, porém, não cabem na casa de Charles. Seus pais,
tão velhos e tão preocupados com a saúde do filho, não lhe permitem nenhum prazer arriscado. Benjamin, ao contrário, parece ter
uma família feliz, principalmente depois da separação temporária
de seus pais: andam de bicicleta, divertem-se, vão juntos até a praia.
Benjamin pode passear livremente e muitas vezes faz aquilo de que
mais gosta: ver os barcos e sonhar que um dia poderá comandar
um deles, acompanhar o movimento das ondas na proa e aprender
(sem que disso tenha clara consciência) que tudo muda. Charles
não: imobilizado na cama, nem a cadeira de rodas ele pode usar...
Como as ondas, que vão e vêm, Benjamin começa a perceber
não apenas que o garoto esquisito de sua classe se tornou seu
amigo, mas também que ele próprio tem suas tristezas e medos.
O pai volta a dormir no sofá e, no dia seguinte, seu prato não
está na mesa: haverá nova separação? Enquanto isso, os colegas
da classe fazem desenhos e bilhetes para Charles – e um namoro
entre ele e uma das meninas está prestes a se concretizar.
Certa noite, Benjamin dorme na casa de Charles. Preocupado
com a provável separação de seus pais, pressente o que sua mãe
lhe dirá no dia seguinte. Ele não quer alimentar sentimentos tristes, mas ali, na casa daquele que agora é seu amigo, pode chorar.
Decide, então, espantar sua tristeza – e também a do amigo. Na
volta da escola, num ímpeto de alegria, ajuda Charles a se sentar
na cadeira de rodas e saem os dois à rua, para verem juntos os
barcos no canal.
Um dia depois do outro
Se liga, Charles! é uma narrativa em primeira pessoa. Benjamin conta sua história à medida que os dias passam, como se
registrasse os fatos de sua vida num diário, com um mínimo de
distanciamento temporal. Embora não traga as marcas características do diário (a notação dos dias), cada capítulo representa um
registro dos acontecimentos pelos quais passa o protagonista.
A escrita busca imitar também o registro dos pensamentos de
Benjamin. Com a alteração de seu cotidiano, devido à obrigação
de levar as lições de casa ao colega acidentado, o menino descobre que as famílias não são todas iguais e que também ele tem
seus medos e suas fantasias.
*Os destaques remetem ao item Mergulhando na temática.
Se liga, Charles!
No entanto, o mais famoso no
mundo ocidental é O Diário de Anne
Frank. Escrito pela jovem judia, é
um documento histórico e literário.
De junho de 1942 a agosto de 1944
(quando foi levada pelos nazistas da
casa onde se escondia), Anne Frank
registrou sua vida, suas reflexões, as
impressões sobre o mundo de fora e
sobre seu próprio desenvolvimento.
A frase inicial desse diário pode representar uma síntese do que é o gênero: “Espero poder confiar inteiramente em você,
como jamais confiei em alguém até hoje,
e espero que você venha a ser um grande
apoio e um grande conforto para mim”.
Também importante como registro de
tempos de guerra há o Diário de Zlata.
A menina, de 11 anos, registra os eventos tais como os percebe, entre 1991
e 1993, quando os ataques sérvios
destruíram a Bósnia-Hersegóvina, parte
da ex-Iugoslávia.
Minha vida de menina é também um
dos diários mais significativos para a
literatura brasileira. Escrito por Alice
Dayrell de Caldeira Brant sob o pseudônimo de Helena Morley, registra seu
cotidiano e suas reflexões entre 1893
e 1895 em Diamantina, Minas Gerais.
Publicado em 1942, revela, com ironia
e bom-humor, as contradições de um
país que se mantinha escravocrata
mesmo após a abolição.
salvador dalí (1904-1989)
Benjamin e sua classe visitam o Museu
Salvador Dalí, na cidade de Figueras, na
Espanha. Dalí é um dos pintores mais
conhecidos do surrealismo, importante
movimento de vanguarda que surgiu em
1924, com o Manifesto surrealista, de
André Breton.
As obras surrealistas têm como
característica principal representar
conteúdos do inconsciente ou do
subconsciente por meio de técnicas
como a livre associação e o relato de
Vincent Cuvellier
A maneira pela qual Benjamin compara sua própria vida à de
Charles lhe traz amadurecimento. Ele nota a diferença entre a
educação que seus pais lhe dão e a que o amigo recebe. No entanto, também Benjamin tem problemas – os quais pouco a pouco
tem de enfrentar. A tristeza de que tenta escapar relaciona-se à
separação dos pais. Quando eles se reconciliam, os passeios coletivos voltam a acontecer, e a vida parece maravilhosa.
Benjamin sabe que a vida não é feita apenas de fatos, mas também de sonhos, como os que ele tem quando observa os barcos
no porto. O mar, as ondas e a possibilidade de romper as amarras: contemplando a paisagem, o garoto registra seus desejos.
Escrever, desenhar, criar
Charles não escreve como Benjamin, mas ambos têm suas
formas de criar. Os dois brincam com as palavras, já que não podem modificar ou enfrentar diretamente a realidade. Por exemplo, têm de comer couve-flor, mesmo sem gostar. E, já que não
há escapatória para a dieta que a mãe de Charles impõe, o jeito é
ficar repetindo “Que nojo! Que nojo!”.
Charles, porém, desenha. Enquanto está sozinho em seu quarto, aproveita para interpretar as lições da escola a seu modo, com
sua linguagem. Será por meio dela que o garoto vai construir
novas amizades e, assim, superar o desprezo que sentem por ele.
O menino esquisito tem talento para o desenho. Essa passagem da narrativa lembra um artista também “esquisito”, cuja
fama era indissociável de suas características físicas “esquisitas”
– os olhos esbugalhados e um fino e longuíssimo bigode. Tratase de Salvador Dalí, citado em Se liga, Charles! quando os alunos
fazem uma visita escolar ao Museu Salvador Dalí, em Figueras,
na Catalunha, Espanha.
sonhos e fantasias. Essa corrente artística visava libertar
a imaginação, de maneira que ela não fosse represada,
artisticamente, pelos critérios estreitos do realismo e
pelo pragmatismo da sociedade burguesa européia da
época.
Salvador Dalí nasceu em Figueras, Catalunha. Desde
menino, revelou talento para o desenho e logo iniciou
seus estudos na Escola de Belas-Artes de Madri, onde
conheceu o cineasta Luis Buñuel. Com ele faria os filmes
Um cão andaluz (1928) e A idade de ouro (1930). Após a
exposição que lhe deu notoriedade, em 1933, lançou-se
a uma vida orientada para a fama e o enriquecimento,
sendo expulso do grupo surrealista, que propunha uma
contestação política ao sistema capitalista.
Sobre a obra de Salvador Dalí:
www.historiadaarte.com.br/imagens/surpersistencia.jpg‫ݢ‬
Se liga, Charles!
Vincent Cuvellier
Dialogando com os alunos
As sugestões a seguir devem ser consideradas como estímulo
à atividade e à criatividade do professor ou da professora. Ele
ou ela, melhor do que ninguém, sabe como empregá-las com os
alunos.
Antes da leitura
A ilustração faz parte da própria história, complementando e
mesmo compondo o texto. Por isso, antes de os alunos iniciarem
a leitura – e como estratégia para sua motivação –, todos podem folhear o livro, escolhendo a página que lhes parecer mais
sugestiva. Cada aluno dirá o que pensa daquela página: o que
está acontecendo? A que se deve essa ilustração? Qual sua relação
com a história?
Nesse momento é importante que o professor registre em seu
diário de classe as hipóteses recorrentes, para que, ao final do
trabalho com o livro, elas sejam rediscutidas. Um livro passa a
existir cada vez que um leitor em potencial cria expectativas em
relação a ele, colocando a imaginação para funcionar, e é recriado cada vez que a leitura é realizada.
O professor pode ainda ensinar protocolos do registro da leitura: um pequeno caderno onde se anotam os livros lidos pelo
aluno. Para cada livro, abre-se uma página com os seguintes dados: título da obra, nome do autor e do ilustrador, cidade da editora, nome da editora, data da edição. A isso se acrescenta a data
da leitura. Depois dessas anotações bibliográficas, o aluno pode
registrar suas impressões de leitura, sem que o professor necessariamente avalie ou corrija esses apontamentos.
Durante a leitura
1.Charles está imobilizado; sua mente, porém, não pára... Depois que Benjamin lhe traz a matéria das aulas, os dois amigos brincam com os conteúdos disciplinares. Assim, a aprendizagem a respeito das fortalezas medievais e dos meios de
defender os castelos (com óleo quente sobre os que tentam
invadi-los) lhes possibilita brincar com as palavras e os significados: óleo quente serve para fritar batatas; assim, as pessoas
sobre quem se jogou o óleo são uma espécie de “batatas fritas”! Charles, impossibilitado de se mover, ocupa seu tempo
fazendo desenhos inspirado naquilo que aprendeu. Com sua
Se liga, Charles!
Vincent Cuvellier
habilidade, então, obtém o reconhecimento de Benjamin. O
colega observa que Charles desenha muito bem. A partir dessa seqüência, o professor poderá pedir que os alunos transformem um dos conteúdos disciplinares de sua livre escolha
(história, geografia, matemática etc.) em uma cena desenhada. É importante explicar a eles que a cena pode conter a representação do movimento de algo ou de alguém e incluir pequenas falas. A exposição dos desenhos permitirá que a classe
“adivinhe” a que conteúdo se refere cada um dos esboços. A
atividade possibilita o trabalho com a linguagem das artes
plásticas e também a revisão de conteúdos.
2.Benjamin tem medo de que seus pais se separem novamente.
À noite, pouco antes de pegar no sono, consegue chorar. Quem
sabe o que ele sonhará? A leitura dessa passagem permite ao
professor sugerir uma discussão sobre o medo das perdas. Todos
nós experimentamos esse sentimento e, quase sempre, fugimos
dele. No entanto, ele está dentro de nós, e é comum sonhar com
aquilo que tememos. Nos sonhos, os medos surgem de modo
figurado – e muitas vezes somente nós mesmos podemos decifrar o sentido das imagens oníricas. A partir dessa discussão,
o professor poderá introduzir algumas noções básicas sobre o
surrealismo e explicar aos alunos o que são imagens oníricas. A
atividade proposta, em função disso, é pesquisar quadros surrealistas e, se possível, fazer uma pequena exposição na classe
com reproduções das obras. Para finalizar a atividade, cada aluno produzirá seu próprio “quadro surrealista”, com base em um
tema nascido da conversa sobre o temor das perdas: “A figura
do meu medo”. O professor dirá que ninguém precisa explicar
o que significa a imagem que criou.
Depois da leitura
Após a leitura integral, a classe comentará o que achou do
livro. Para que a discussão seja livre (sem cobrança de “conteúdos” ou de técnicas narrativas), o professor pode criar uma roda
de bate-papo, bem informal, mas decisiva para a efetiva troca de
conhecimentos. Cada aluno diz o que gostou na história e o que
aprendeu com ela. Ao professor, não basta apenas comentar; é
preciso que ele construa ligações entre as várias opiniões, bem
como sua fundamentação na obra. Ele, então, pode, e deve, ocupar o papel de mediador, propiciando o compartilhamento e a
construção de um novo aprendizado. Isto é, quando o aluno ma-
Se liga, Charles!
Vincent Cuvellier
nifestar sua opinião, o professor indaga sobre os motivos dessa
posição e faz com que o colega seguinte se coloque com relação
à(s) fala(s) anterior(es). Não é preciso anotar nada no caderno
ou na lousa, pois a conversa, quando produtiva, permanece ativa
na memória da classe.
Para terminar o debate, é importante que o professor estabeleça uma ligação efetiva entre o que foi lido e a realidade vivida
pelos alunos. É comum que nas escolas, atualmente, o tema do
bullying seja trabalhado de vários modos, por exemplo, apresentando narrativas em que a discriminação e os maus-tratos a
alguém se devem à imposição de modelos de identidade. Neste livro, porém, esse é apenas o começo da conversa... Benjamin
discrimina Charles, ignorando-o. Mas o acaso o leva a aproximar-se de alguém que ele julgou, antes mesmo de conhecer de
fato, e então se dá conta de que estava errado. Assim, mais do que
bullying, temos aqui a história da construção de uma amizade.
Esse pode se tornar o tema em debate na classe, com relatos orais,
inicialmente, de um julgamento pelas aparências que se revelou
errado e injusto ou de um aluno ou conhecido que passou a gostar de quem desprezava. Depois de várias histórias contadas oralmente, cada aluno inventará uma escrita com o tema “De perto
ninguém é normal”.
Elaboração
do guia Ivone Daré Rabello (professoraDepartamento de Teoria Literária e Literatura
Comparada da USP); preparação Bruno Zeni; revisão
Márcia Menin, Anabel Ly Maduar e Gislaine M. Silva
doutora do
Fly UP