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Fisioterapia Cães com hérnia de disco cervical

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Fisioterapia Cães com hérnia de disco cervical
Ramalho, F. P.; Formenton, M. R.; Isola, J. G. M. P.; Joaquim, J. F. G.; Tratamento de doença de disco intervertebral em cão com fisioterapia e reabilitação veterinária
– relato de caso / Treatment of intervertebral disc disease by physical therapy and rehabilitation in a dog – Case Report / Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e
Zootecnia do CRMV-SP / Journal of Continuing Education in Animal Science of CRMV-SP. São Paulo: Conselho Regional de Medicina Veterinária, v. 13, n. 1 (2015), p. 10 – 17, 2015.
C l í nica de P equenos A nimais
Tratamento de doença de
disco intervertebral em
cão com fisioterapia e
reabilitação veterinária:
relato de caso
Treatment of intervertebral disc disease by
physical therapy and rehabilitation in a dog:
a case report
Resumo
Summary
A doença do disco intervertebral (DDIV) é a causa mais frequente
The intervertebral disk disease (IDD) is the most common
de lesão medular em cães. Aproximadamente 15% das discopa-
cause of spinal cord injuries in dogs. Approximately 15% of
tias em cães acometem a região cervical. A fisioterapia veterinária
discopathies in dogs affects the cervical region. The veterinary
tem despertado grande interesse nos médicos veterinários, tendo
physiotherapy has aroused great interest among clinical
em vista sua importante aplicação, não invasiva, em diversos tra-
veterinarians, in view of the non-invasive treatments in several
tamentos. O objetivo deste trabalho é contribuir com informa-
cases. The objective of this paper is to contribute with more
ções referentes à possibilidade de tratamento de cães acometidos
information related to the treatment of dogs affected by
pela DDIV cervical com as técnicas de fisioterapia veterinária e
cervical IDD by using veterinary physiotherapy techniques and
relatar o caso de um tratamento bem sucedido, bem como revisar
to describe a well succeeded case of treatment, as well as to
a literatura sobre o tema.
review the literature related to cervical IDD.
Recebido em 4 de novembro de 2014 e aprovado em 27 de novembro de 2014
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Fernanda do Passo Ramalho1
� [email protected]
Maira Rezende Formenton2
José Geraldo Meirelles Palma Isola3
Jean Fernandes Guilherme Joaquim4
�
Palavras-chave
Doença do disco intervertebral; fisioterapia veterinária;
reabilitação veterinária e hérnia de disco cervical.
Keywords
Intervertebral disk disease; veterinarian physiotherapy;
veterinarian rehabilitation and cervical disc herniation.
A
coluna vertebral dos cães, do ponto de vista anatômico e neurofuncional, pode ser dividida em cinco
regiões: cervical, torácica, lombar, sacral e caudal
(WHEELER; SHARP, 1999). Essa divisão facilita o
estudo, a anamnese e a neurolocalização das enfermidades que acometem a medula espinhal dos cães.
A doença do disco intervertebral (DDIV) é a causa mais frequente
de lesões na medula espinhal dos cães (BRAY; BURBIDGE, 1998;
BRAUND, 1996). Aproximadamente 15% das discopatias em cães
acometem a região cervical, sendo a dor o sinal clínico mais evidente (BRAUND, 1986; JANSSENS, 1991; TOOMBS, 1992; GILL;
LIPPINCOTT; ANDERSON, 1996; PADILHA FILHO; SELMI, 1999).
A fisioterapia já é bastante difundida na medicina humana, com estudos claros sobre seu benefício terapêutico em diversas enfermidades.
Na medicina veterinária, embora haja um uso crescente das técnicas de
reabilitação, há relativamente pouca literatura científica que dê suporte
ao seu uso. Apesar disso, nos últimos anos, a fisioterapia veterinária tem
despertado grande interesse nos médicos veterinários, tendo em vista sua
aplicação não invasiva, em diversos tratamentos (LEVINE et al., 2008).
Doença do disco intervertebral cervical em cães
A DDIV cervical é a segunda desordem do gênero mais comum
em cães com acometimento do disco intervertebral. Em 90% dos
1 M.V. Msc. Veterinária Autônoma FR.VET
2 M.V. Mestranda VCI/FMVZ/USP, Instituto Bioethicus, Fisioanimal
3 M.V. Msc. Veterinário Autônomo capesvet
4 M.V. Msc. Instituto Bioethicus
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animais com doença discal cervical, um dos quatro espaços cervicais craniais está envolvido. Os sinais clínicos
podem variar desde a fraqueza muscular, espasticidade
dos membros do mesmo lado do corpo (hemiparesia),
passando pela debilidade de todos os membros (tetraparesia), até a paralisia dos quatro membros (tetraplegia).
Espasmos cervicais, dor à palpação, rigidez cervical e
relutância em flexionar ou estender a cabeça e pescoço
são aspectos básicos da DDIV cervical (BRAUND, 1986).
A etiologia da DDIV até os dias de hoje ainda é imprecisa. Sabe-se que a causa da enfermidade é a degeneração
do DIV. Essa degeneração pode ser fibroide ou condroide.
O que leva a esse quadro ainda é motivo de pesquisa, embora traumas, desidratação dos discos por sedentarismo
ou hipomobilidade e condrodistrofias estejam entre causas já estabelecidas (BRAUND, 1996).
O diagnóstico presuntivo é baseado na história
clínica do paciente e por meio de exames físico e neurológico. O diagnóstico definitivo é obtido com o auxílio
de exames complementares de imagem (radiografia
simples, mielografia, tomografia computadorizada e
ressonância magnética). Exames complementares (hemograma, bioquímicos séricos e análises do líquido
cefalorraquidiano) são interessantes para excluir outras
doenças que apresentam sinais clínicos semelhantes
(TOOMBS; BAUER, 1998).
Os tratamentos da DDIV variam de acordo com a
gravidade e consistem essencialmente em medicamentoso ou cirúrgico. Independentemente do tratamento
de escolha, a associação com as técnicas de fisioterapia e reabilitação veterinária podem gerar efeitos
benéficos desejáveis (BRISSON, 2010; LECOUTEUR;
GRANDY, 2004).
Tipos de hérnia de disco
Na maioria dos casos de cães com hérnia discal, o problema é oriundo de uma extrusão do disco, ao invés de
protrusão (CHERRONE et al., 2004). Tanto a protusão
como a extrusão podem ocorrer nos três sentidos: ventral, dorsal ou lateral, embora o sentido dorsal seja o
mais comumente encontrado (TOOMBS; BAUER, 1998;
LECOUTEUR; GRANDY, 2004).
A hérnia de Hansen tipo I é a saída do núcleo após a
ruptura do anel fibroso dorsal. A hérnia de Hansen tipo
II é a ruptura parcial da região dorsal do anel fibroso, gerando uma protusão do núcleo pulposo em sua direção.
Mais recentemente foi descrito um terceiro tipo de hérnia
de disco, a hérnia de Hansen tipo III. Esse tipo é caracterizado por uma extrusão de apenas parte do núcleo
pulposo, porém em alta velocidade gerando lesão à medula sem causar compressão (LAHUNTA; GLASS, 2009).
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Sintomas e diagnóstico da DDIV cervical
O sinal clínico mais frequente e característico da DDIV
da coluna cervical é a dor. O posicionamento de cabeça
baixa, orelhas para trás, pescoço rígido, locomoção cautelosa e espasmos dos músculos da coluna cervical são as
manifestações clínicas da dor cervical mais comumente
observadas. Os sintomas podem aparecer de forma aguda,
mas a severidade aumenta com o decorrer dos dias ou
das semanas. A dor pode ser refratária ao tratamento
medicamentoso. Os cães que possuem lesões do disco intervertebral cervical exibem sinais de disfunção medular,
variando de leve ataxia a tetraparesia (COATES, 2000).
Nos exames neurológicos, é necessária a verificação
da propriocepção consciente, sendo que quase todos
os pacientes respondem de forma negativa a esse teste
(JURINA; GREVEL, 2001).
O diagnóstico preciso somente pode ser realizado no
caso de suspeitas de enfermidades cervicais com o emprego de exames de diagnóstico por imagem, como a
radiografia, mielografia, tomografia computadorizada e
a ressonância magnética (OLMSTEAD, 1995; TOOMBS;
BAUER, 1998).
Tratamento
O tratamento mais apropriado vai depender do quadro
clínico do paciente e como ele se apresenta nos exames
físico e neurológico, assim como da duração do processo
(LECOUTEUR; GRANDY, 2004).
As formas principais de tratamento são as “conservadoras” (tratamento clínico e reabilitação) e cirúrgicas,
como a fenestração e a descompressão ventral. O tratamento clínico conservador sem o auxílio das técnicas de
fisioterapia e reabilitação pode ter êxito, mas a recuperação pode ser muito longa e 36% dos cães apresentarão
recidivas (RUSSELL; GRIFFITHS, 1968).
A necessidade do tratamento cirúrgico está sempre
baseada na severidade e na duração dos sinais clínicos,
no déficit neurológico acentuado e progressivo, na dor
constante e no insucesso do tratamento conservativo
(SIMPSON, 1992). O tratamento não cirúrgico deverá
ser adotado quando se tratam de lesões leves ou em estágios iniciais da doença (RUSSELL; GRIFFITHS, 1968).
A fisioterapia veterinária se realizará de forma programada com o auxílio de agentes físicos, massagens,
exercícios distintos e hidroterapia, conforme as características e a severidade da patologia de cada paciente
(MILLIS; LEVINE; TAYLOR, 2004).
Tratamento clínico conservativo e cirúrgico
O tratamento clínico conservativo pode combinar repouso em ambientes restritos, reabilitação física, e a
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prescrição de medicamentos, como analgésicos, relaxantes musculares e antiinflamatórios não esteroides ou
glicocorticoides (DEWEY, 2003).
Muitos autores ressaltam a importância do repouso
em gaiola, que consiste em manter o cão o tempo todo
em uma área limitada pequena durante seis semanas,
permitindo assim a cicatrização do ligamento longitudinal caudal e prevenindo possíveis herniações adicionais
(COATES, 2000; DEWEY, 2003).
O tratamento cirúrgico é indicado para animais que
apresentem episódios recorrentes da DDIV cervical,
aos que não respondem ao tratamento conservativo,
ou quando há dor persistente e déficit neurológico moderado ou severo (OLSSON, 1952; CHIERICHETTI;
ALVARENGA, 1999).
Existem diferentes técnicas cirúrgicas para abordar
a DDIV cervical, entre elas citam-se: a descompressão
ventral (FITCH; KERWIN; HOSGOOD, 2000), a fenestração de disco (FRY et al., 1991), a laminectomia dorsal
e a hemilaminectomia (ROSSMEISL et al., 2005).
Fisioterapia e Reabilitação
O objetivo da fisioterapia em pacientes com déficits
neurológicos é conseguir a recuperação dos tecidos
nervosos lesionados, chegando o mais próximo possível
da normalidade, prevenir o desenvolvimento da atrofia
muscular, melhorar a função dos membros parésicos e/
ou paralisados e prevenir o desenvolvimento de contraturas e de fibrose nos tecidos moles. Se aplicada em
conjunto com a terapêutica médica e cirúrgica, pode
proporcionar uma recuperação mais rápida e completa
(FOSSUM et al., 2007).
Pedro e Mikail (2009) relataram que, durante toda a
fase inicial da reabilitação, o paciente deve ser mantido
em repouso, uma vez que isso pode reduzir a dor e a inflamação da raiz nervosa.
A fisioterapia pode ser iniciada 48 horas após a
cirurgia. Já em pacientes submetidos ao protocolo médico, a cinesioterapia ativa não deve ser iniciada pelo
menos nas duas semanas seguintes ao aparecimento
dos sinais clínicos, pois uma excessiva mobilização
física pode levar à extrusão de mais material de disco
(LECOUTEUR; GRANDY, 2004; MILLIS; LEVINE;
TAYLOR, 2004).
Algumas modalidades de tratamento podem ser relativamente simples de serem realizadas em casa e pelo
próprio proprietário do animal, o que é menos um fator
de estresse para o animal; outras requerem técnicas mais
apuradas e equipamentos específicos, devendo ser realizadas por profissionais habilitados (MILLIS; LEVINE;
TAYLOR, 2004).
Alongamentos
O alongamento muscular é indicado quando a amplitude
de movimento está limitada, comprometendo o desempenho funcional (POLIZELLO et al., 2009).
Técnicas de alongamento são, frequentemente, realizadas em conjunto com exercícios de amplitude de
movimento para melhorar a flexibilidade das articulações
e a extensibilidade dos tecidos periarticulares dos músculos e dos tendões (MILLIS; LEVINE; TAYLOR, 2004).
Massagens
A massagem ajuda na recirculação de líquidos intersticiais para os vasos linfáticos, e do sangue e linfa das
extremidades para suas circulações principais. É provável
que ajude também na circulação sanguínea dos tecidos
lesionados, melhorando o transporte de nutrientes para
a sua reparação; o que previne ou reduz a formação de
tecidos fibrosos, e ajuda na remoção dos produtos das reações inflamatórias, prevenindo assim as dores crônicas.
Em doentes com déficits neurológicos, é importante para
reduzir a ocorrência de espasmos musculares, preservar a
mobilidade e flexibilidade dos membros e estimular a recuperação da sensibilidade (MILLIS; LEVINE; TAYLOR,
2004; FOSSUM et al., 2007).
Mobilização articular
A imobilização de uma articulação é prejudicial para a
saúde da cápsula articular, dos ligamentos, dos ossos e dos
músculos a ela associados. Na mobilização de uma articulação são efetuados todos os movimentos de forma passiva
e sem provocar dor ao paciente. O objetivo é a manutenção
da integridade da articulação ao minimizar as contraturas
de tecidos moles e músculos, as lesões da cápsula articular
(a mobilização da articulação promove a circulação do líquido sinovial para melhorar a nutrição da cartilagem) e a
atrofia muscular resultantes da paralisia do membro; além
de melhorar a circulação sanguínea do membro e aumentar a sensibilidade (FOSSUM et al., 2007).
Eletroestimulação
A eletroestimulação resulta da aplicação de uma corrente
elétrica, gerada por um estimulador, aos músculos inervados por um nervo motor, com o emprego de eletrodos
colocados na pele, causando a despolarização do referido
nervo e consequente contração muscular. É frequentemente utilizada para a reabilitação de pacientes com
patologia muscular ou neurológica (MILLIS; LEVINE;
TAYLOR, 2004; FOSSUM et al., 2007).
Outra modalidade de eletroterapia utilizada na reabilitação da coluna cervical é o TENS (em inglês, Transcutaneal
Electrical Nerve Stimulation). É indicado principalmente
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para o alívio da dor, pois pode promover boa analgesia e
pode ser utilizado diariamente (PEDRO; MIKAIL, 2009).
Laser terapêutico
Tem uma excelente indicação para dor e ação antiinflamatória, auxiliando a reduzir a utilização de
medicamentos que, no longo prazo, poderiam causar
diversos efeitos colaterais. O laser é aplicado de forma
pontual no local da lesão. As radiações do laser aceleram a
cicatrização por atrair um maior número de fibroblastos,
aumentar a produção de colágeno e estimular a microcirculação. Nos casos de pacientes acometidos pela DDIV
cervical o laser é também indicado por promover analgesia com a redução da condução das fibras axonais C
(de condução lenta dos impulsos nervosos), responsáveis
pela dor crônica persistente (PEDRO; MIKAIL, 2009).
Termoterapia
O calor tem ação vasodilatadora, aumenta a velocidade
de condução dos impulsos nervosos, causa relaxamento
muscular, eleva o limiar da dor, aumenta as atividades
enzimática e metabólica e aumenta a extensibilidade do
tecido conectivo. O calor é o agente terapêutico de eleição em lesões crônicas (FOSSUM et al., 2007).
As técnicas de aquecimento podem ser aplicadas cerca
de quatro horas antes da mobilização, estiramento das articulações e dos exercícios terapêuticos, pois aumentam
a elasticidade dos tecidos e a mobilidade das articulações
(FOSSUM et al., 2007).
Cinesioterapia
Os objetivos dos exercícios terapêuticos incluem a prevenção
das disfunções, a melhora, a restauração ou a manutenção
da normalidade da força, da mobilidade, da flexibilidade
e da coordenação. Os exercícios terapêuticos são incrementados de acordo com a evolução do quadro clínico e a
estabilização da coluna cervical (PEDRO; MIKAIL, 2009).
Hidroterapia
A hidroterapia é a execução de exercícios dentro da água
com o objetivo de aumentar a massa e força muscular,
a mobilização ativa das articulações e a agilidade dos
membros, sem que se exerça força direta sobre as estruturas ósseas e articulações (WHEELER; SHARP, 1999;
MILLIS; LEVINE; TAYLOR, 2004; FOSSUM et al., 2007).
Em animais que sofrem da DDIV cervical, a hidroterapia
deve ser utilizada com cautela, em fases mais avançadas do
tratamento, sendo contraindicada em casos de dor aguda
(PEDRO; MIKAIL, 2009). Em animais tetraparéticos há sérios riscos de afogamento ou pneumonia por aspiração de
água se não forem tomados os devidos cuidados.
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Objetivos
Os objetivos deste trabalho são contribuir com informações referentes à possibilidade de tratamento de cães
acometidos pela DDIV cervical com as técnicas de fisioterapia veterinária, relatar o caso de um tratamento bem
sucedido, bem como revisar a literatura sobre o tema.
Relato de caso
Um animal da espécie canina, sem raça definida (SRD),
fêmea, com aproximadamente seis anos de idade e pesando 15,2 Kg, no dia 30 de outubro de 2012, com o
quadro clínico: cabeça baixa, orelhas para trás, pescoço
rígido, dificuldade de locomoção, espasmos dos músculos da coluna cervical, hiporexia, vocalização e outros
sintomas indicativos de dor aguda.
De acordo com o histórico do animal, vivia em apartamento com piso de textura lisa e submetida ao convívio
com escadas por aproximadamente três anos. Apesar de
possuir um comportamento calmo e não ter o hábito de
correr e pular no piso liso com frequência, a paciente tinha a rotina de subir e descer as escadas de um prédio de
três andares, em média, três vezes ao dia.
A avaliação clínica, apoiada em exames físicos, ortopédicos e neurológicos, revelou características físicas
indicativas de uma genética condrodistrófica, espasmos
musculares na região cervical, reações de dor aguda,
propriocepção consciente ausente nos quatro membros,
estado mental deprimido, debilidade generalizada, tetraparesia, dor profunda presente nos quatro membros
e a localização da lesão foi presumida de estar na região
cervical cranial abaixo do forame magno.
A paciente foi encaminhada para o exame radiográfico
onde foi constatada por meio da projeção latero-lateral a
redução de espaço intervertebral entre C5 e C6, sugestivo de hérnia de disco, e uma calcificação entre C3 e C4
(Figura 1 - (A), (B)).
(A) (B) Figura 1 – (A), (B): Imagens radiográficas na projeção latero-lateral evidenciando redução
de espaço intervertebral entre C5 e C6, sugestivos de hérnia de disco, e calcificação entre
C3 e C4. Fonte: Ramalho et al (2014).
O tratamento clínico prescrito foi a utilização do antiinflamatório não esteroide firocoxib, na dose de 5mg/Kg
de peso corporal, uma vez ao dia, durante 10 dias consecutivos. Para analgesia foi prescrito a associação dos
fármacos: cloridrato de tramadol 1mg/Kg a cada 8 horas,
C l í nica de P equenos A nimais
dipirona sódica 30mg/Kg a cada 6 horas e gabapentina
5mg/Kg a cada 12 horas, durante 10 dias. No caso da
gabapentina, o desmame necessário do fármaco foi realizado da seguinte forma: durante os 10 primeiros dias de
tratamento foi administrada a dose de 5mg/Kg, passando
para 3,5mg/Kg por mais cinco dias, seguido de 2mg/Kg
por três dias e finalizando com 0,5mg/Kg por mais três
dias. Também foram prescritos protetores da mucosa
gástrica, como o omeprazol, na dose de 1mg/Kg e ranitidina, na dose de 2mg/Kg.
O tratamento fisioterápico foi determinado em três
fases, de acordo com a evolução da paciente. Na primeira
fase, foram prescritas três sessões semanais, durante duas
semanas consecutivas. Nesse período, foi solicitado o repouso absoluto. Nessas sessões da primeira fase, foram
realizados alongamentos (Figura 2 - (A), (B)), massagens e mobilizações articulares passivas (de acordo com
o limite de dor da paciente); além da aplicação do laser
terapêutico infravermelho de comprimento de onda de
808nm, sendo 14 Joules por ponto de tratamento, a cada
48 horas, nas saídas das raízes nervosas; termoterapia
com aplicação de luz infravermelha com o propósito de
obter relaxamento muscular, elevar o limiar de ativação
de receptores neurológicos de dor e diminuição dos espasmos musculares (Figura 3 - (A), (B)); e aplicações de
TENS na frequência de 90 Hz, com corrente de 20 mA,
durante 20-30 minutos, três vezes na semana para obtenção de uma melhor analgesia.
Após essas duas semanas, a paciente foi reavaliada e
considerada apta a passar para a segunda fase de tratamento. Nesse momento, a paciente já não apresentava
mais a dor aguda e a medicação já havia sido removida
(com exceção da gabapentina), sendo mantida, apenas,
a dipirona sódica, a cada oito horas, para um auxílio no
controle da dor.
Nessa segunda fase, foram prescritas duas sessões semanais por mais duas semanas de tratamento. Nessas
sessões, foram realizados alongamentos, massagens, mobilizações articulares passivas e foram adicionados exercícios
terapêuticos de estação assistida e exercícios isométricos
controlados (com a utilização de prancha e bola). Nessa
fase, foi reduzida a quantidade de Joules na aplicação do
laser infravermelho, sendo utilizados seis Joules com um
caráter anti-inflamatório e a utilização do TENS foi mantida da mesma forma para analgesia, nos finais das sessões.
No final dessas duas semanas de tratamento em segunda fase, foi efetuada uma nova reavaliação e a paciente
passou para a terceira e última fase do tratamento. Nessa
etapa, ela já conseguia levantar-se e locomover-se, apesar
de ainda persistir uma deficiência proprioceptiva e de
ainda manter uma postura de pescoço baixo (Figura 4).
A paciente já não utilizava nenhuma medicação e já não
estava mais sendo mantida em repouso absoluto, apesar
de estar restrita a atividades em pisos de textura lisa.
(A) (B) Figura 2 – (A), (B): Exercícios de alongamento e de amplitude de movimento na primeira
fase do tratamento fisioterápico
Fonte: Ramalho et al (2014)
Figura 4 – Paciente entrando na terceira fase do tratamento de reabilitação com considerável melhora clínica, porém ainda com déficit proprioceptivo e postura de pescoço baixo.
Fonte: Ramalho et al (2014).
(A) (B) Figura 3 – (A), (B): Aplicação de laser terapêutico e de luz infravermelha (termoterapia).
Fonte: Ramalho et al (2014)
Na terceira fase, foi determinada a manutenção de
duas sessões semanais, por mais duas semanas, passando
a uma única sessão por semana, por mais duas semanas, totalizando mais quatro semanas de tratamento.
A paciente passou a realizar caminhadas assistidas, caminhadas em pistas de propriocepção e os exercícios
terapêuticos foram mantidos.
Ao final dessa terceira fase, a paciente não apresentava mais déficit proprioceptivo e nenhum outro
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sintoma indesejável; sendo assim considerada de alta
do tratamento com a ressalva da indicação de uma manutenção quinzenal.
Concomitantemente ao início do tratamento fisioterápico, instituíram-se sessões de acupuntura semanais. As
sessões de acupuntura foram realizadas durante quatro
semanas (total de quatro sessões). Após a quarta sessão,
por cautela, esse procedimento foi suspenso, uma vez que
a paciente passou a rejeitá-lo, ficando excessivamente
nervosa durante a sua execução.
Discussão
Grande parte dos autores é unânime em afirmar que a
DDIV é a causa mais comum de injúrias à medula espinhal no cão; sendo que as alterações degenerativas são
mais frequentes nas regiões cervicais, bem como nas
últimas vértebras torácicas e lombares (BRAUND, 1986;
JANSSENS, 1991; TOOMBS, 1992; BRAUND, 1996;
BRAY; BURBIDGE, 1998; PADILHA FILHO; SELMI,
1999; LECOUTEUR; GRANDY, 2004; BRISSON, 2010).
Esse dado reafirma a importância da realização de estudos que colaborem com informações sobre a fisioterapia
e a reabilitação veterinária sendo empregadas em tratamentos de cães acometidos pela DDIV cervical, para que,
assim, se aumente a taxa de sucesso e o índice de recuperação desses pacientes.
Levine et al. (2008) relatam que, nos últimos anos, os
veterinários têm apresentado um maior interesse pela
especialidade da fisioterapia veterinária e isso tem aumentado à medida que são divulgados novos relatos de
reabilitações bem sucedidas.
Brisson (2010) e Fossum et al. (2007) referem que, independentemente do tratamento de escolha (conservativo
ou cirúrgico), a associação com as técnicas de fisioterapia
e reabilitação veterinária podem gerar efeitos benéficos
desejáveis ao paciente portador da DDIV cervical.
Pedro e Mikail (2009) destacam que um período
breve de uma a duas semanas de repouso em ambiente
restrito é aconselhado para pacientes acometidos pela
DDIV cervical. No presente relato, foi verificado que,
para a paciente, o repouso nas duas primeiras semanas
foi imprescindível para uma boa recuperação e para o sucesso do tratamento. Porém, o repouso não inviabilizou
o início prematuro das sessões de fisioterapia, evitandose assim a ocorrência de efeitos indesejáveis do repouso
rígido prolongado, tais como a atrofia muscular, o desenvolvimento de contraturas ou o agravamento na perda
das funções dos membros parésicos, como descrito por
Fossum et al. (2007).
Millis, Levine e Taylor (2004) ressaltam a importância
da realização das sessões de fisioterapia de curta duração,
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diariamente, em pacientes acometidos pela DDIV cervical.
No caso relatado, a paciente não foi submetida a tratamento diário, e tal decisão foi tomada devido ao quadro
de dor aguda que inviabilizava a manipulação constante
da paciente. Após a primeira fase do tratamento, a paciente
foi reavaliada e não foi verificada a necessidade da instituição de uma rotina diária de sessões, uma vez que ela estava
respondendo de maneira gradual e benéfica com os dias de
repouso intercalados às sessões.
Fossum et al. (2007) afirmam que a termoterapia
profunda não deve ser aplicada em áreas com processos
de inflamação aguda. Na paciente do presente relato de
caso, a termoterapia utilizada foi superficial, por meio da
aplicação da luz infravermelha na fase inicial do tratamento, onde havia um processo inflamatório agudo. Esse
procedimento teve um efeito benéfico, pois promoveu a
redução do espasmo muscular; o que contribuiu para o
sucesso da analgesia. Após essa fase aguda, a termoterapia superficial continuou sendo empregada antes dos
exercícios terapêuticos, aumentando a elasticidade dos
tecidos e a mobilidade das articulações.
Wheeler e Sharp (1999) afirmam que o prognóstico
de um animal acometido pela DDIV cervical varia de
acordo com a gravidade, a duração da doença e dos déficits neurológicos existentes. A idade e o peso do animal
são fatores prognósticos do tempo de recuperação. No
caso da paciente aqui descrita, os déficits neurológicos
observados foram proprioceptivos, paresia dos quatro
membros e diminuição da sensibilidade superficial e da
sensibilidade profunda. Com o emprego de tais parâmetros, a gravidade da DDIV cervical aqui relatada foi
considerada como leve-moderada.
Considerações finais
Um programa de reabilitação apropriado e específico às
necessidades do animal é fundamental para o plano de
tratamento de cães com hérnia de disco cervical. Para
isso se deve considerar a origem do problema; a gravidade e as causas dos sinais clínicos; a progressão da
doença (aguda ou crônica) e a participação do animal; e,
principalmente, o envolvimento do proprietário no plano
&
de reabilitação. C l í nica de P equenos A nimais
Referências
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