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PONTOS PE VISTA: O que pensam outros especialistas?

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PONTOS PE VISTA: O que pensam outros especialistas?
PONTOS PE VISTA: O que pensam outros especialistas?
LIVRO DIDÁTICO: do ritual de passagem à ultrapassagem
Ezequiel Theodoro da Silva*
À fina força dos costumes
Antes de adotar um livro didático,
pergunte criticamente
se não vais ser um professor apático!
Costumo dizer que, para uma boa parcela dos professores brasileiros,
o livro didático se apresenta como uma insubstituível muleta. Na
sua falta ou ausência, não se caminha cognitivamente na medida
em que não há substância para ensinar. Coxos por formação e/ou
mutilados pelo ingrato dia-a-dia do magistério, resta a esses
professores engolir e reproduzir a idéia de que sem a adoção do
livro didático não há como orientar a aprendizagem. Muletadas e
muleteiros se misturam no processo...
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Costumo lembrar que
o livro didático é uma tradição tão forte dentro da educação
brasileira que o seu acolhimento independe da vontade e da decisão
dos professores. Sustentam essa tradição o olhar saudosista dos
pais, a organização escolar como um todo, o marketing das editoras
e o próprio imaginário que orienta as decisões pedagógicas do
educador. Não é à toa que a imagem estilizada do professor
* Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Em Aberto, Brasília, ano 16, n.69, jan./mar. 1996
apresenta-o com um livro nas mãos, dando a entender que o ensino,
o livro e o conhecimento são elementos inseparáveis, indicotomizáveis.
E aprender, dentro das fronteiras do contexto escolar, significa
atender às liturgias dos livros, dentre as quais se destaca aquela do
livro "didático": comprar na livraria no início de cada ano letivo,
usar ao ritmo do professor, fazer as lições, chegar à metade ou aos
três quartos dos conteúdos ah inscritos e dizer amém, pois é assim
mesmo (e somente assim) que se aprende.
Costumo esclarecer que à perda crescente da dignidade do professor
brasileiro contrapõe-se o lucro indiscutível e estrondoso das editoras
de livros didáticos. Essa história começa a ser assim no início da
década de 70: a ideologia tecnicista sedimentou a crença de que os
"bons" didáticos, os módulos certinhos, os alphas e as betas, as receitas
curtas e bem ilustradas, os manuais à Disney etc... seriam capazes
—por si só—de assumir a responsabilidade docente que os professores
passavam a cumprir cada vez menos. Quer dizer: à expropriação das
condições de trabalho no âmbito do magistério correspondeu um
aumento gigantesco nas esferas da produção, da venda ou distribuição
e do consumo de livros e manuais didáticos pelo País.
Costumo ainda mostrar que esse apego cego ou inocente a livros
didáticos pode significar uma perda crescente de autonomia por
parte dos professores. A intermediação desses livros, na forma de
costume, dependência e/ou "vício", caracteriza-se como um fator
mais importante do que o próprio diálogo pedagógico, que é ou
deveria ser a base da existência da escola. Resulta desse lamentável
fenômeno uma inversão ou confusão de papéis nos processos de
ensino-aprendizagem, isto é, ao invés de interagir com o professor,
tendo como horizonte a (re)produção do conhecimento, os alunos,
por imposição de circunstâncias, processam redundantemente as
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lições inscritas no livro didático adotado. Dentro desse circuito,
onde esse tipo de livro prepondera mais que o professor e reina
absoluto, o ensino vira sinônimo de "seleção/adoção" dos disponíveis
no mercado; a aprendizagem, de consumo semestral ou anual do
livro indicado, sem direito à reclamação no Procon...
À viva força da forma
De um lado, o aluno sorumbático.
De outro, maquiavelicamente,
as doses de desânimo do livro didático.
O vigor do livro didático advém da anemia cognitiva do professor.
Enquanto este perde peso e importância no processo de ensino, aquele
ganha proeminência e atinge a esfera da imprescindibilidade. De
meio (que deveria ser), o livro didático passa a ser visto e usado
como um fim em si mesmo.
A perversidade dessa lógica atinge várias esferas, principalmente
por alçar o livro didático à condição de ponto de partida e ponto de
chegada de todo conhecimento trabalhado em sala de aula. Uma
forma imposta—e não uma forma possível—à qual os estudantes
têm de se encaixar.
E essa forma, parasitária e paralizante, vai alimentando e
cristalizando um conjunto de rotinas altamente prejudiciais ao
processo educacional do professorado e do alunado. Quais são essas
rotinas? Entre muitas, vale a pena ressaltar: a reprodução da
dependência ao recorte arbitrário dos conteúdos contidos nos livros;
a socialização de um tipo de aula onde o professor, por não ter voz
Em Aberto, Brasília, ano 16, n.69, jan./mar. 1996
e nem vez, é mero repassador e/ou cobrador de lições; a perenização
das carências de infra-estrutura pedagógica (bibliotecas, salasambiente, bancos de textos e informações, laboratórios etc.) nas
escolas; a mecanização da mente e a passividade diante de
atividades de estudo, considerando que as lições geralmente
obedecem a um modelo padrão de estrutura, etc. É óbvio, portanto,
que a liturgia do livro didático não eleva e nem enleva os seus
participantes, pelo contrário, parece alimentar um círculo vicioso,
de cujo centro vem sendo irradiada — há um bom tempo — a
sofrível qualidade da escola e do ensino brasileiros.
Vale ressaltar que essa forma (o livro didático) é muito ruim nas suas
características de produção. É "quadrada": obedece ao mesmo padrão
o seu feitio estrutural. É extremamente "rasa" no intuito de acomodar
informações aligeiradas e não muito fiel às fontes primeiras. É
"pegajosa" e "fria", congelando as possibilidades de movimento no
âmbito do ensino-aprendizagem. É "espalhafatosa": os fatos do
conhecimento se diluem nos adornos do produto para efeito de
convencimento dos consumidores. É "descartável" e "perecível",
considerando os meios modernos de circulação do conhecimento.
Cobrando força para fugir da forca
Do sistema nervoso simpático
faz parte, sutilmente,
a sujeição ao livro didático.
As determinações que levam o professor à dependência do livro
didático estão diretamente relacionadas à questão da identidade e
dignidade do magistério.
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O magistério, enquanto trabalho e profissão, vem sendo desfigurado
e desvalorizado ininterruptamente. A escravidão ao livro didático
faz parte de um conjunto maior de fatores que empobrecem as
condições para a produção de um ensino de qualidade.
A qualidade, enquanto intenção e meta, é pensada no ângulo dos
investimentos em quinquilharias. Esquiva-se, quase sempre, de
uma proposta concreta, honesta e duradoura no ser do professor,
no salário digno e na qualificação profissional continuada.
Continuada é a esperança, já um tanto abalada pelos efeitos da
desilusão constante, de que o mestre, com preparo e autoridade
para tal, encontre forças para agir historicamente sobre os
determinantes do seu trabalho.
O trabalho docente exige uma incursão prévia do professor nas
fontes do conhecimento de modo a proporcionar um roteiro —
síntese a ser reelaborada pelo grupo de estudantes. Pobre daquele
mestre que acredita em um livro único ou, bem pior, que adota
livro didático só!
Forçando a vista para entrar no tempo
É loucura do professor errático
querer sempre, insistentemente,
fazer aula só com didático.
No Brasil, como as recomendações e as providências sempre ficam
"para a próxima administração", as soluções já nascem velhas,
ultrapassadas ou esclerosadas. Na área educacional, essa verdade
cabe como uma luva; na área do livro didático, essa regra é mais
do que verdade.
De fato, a impressão que se tem é que o bombardeio de críticas ao
livro didático já foi feito por todos os lados, do seu nascimento nas
editoras, passando pelos recortes do conteúdo, pelas ilustrações e
exercícios até chegar ao uso alienado por professores e alunos. Apesar
dos pesares e das alfinetadas no "boneco", esse instrumento ainda
reina absoluto no campo educacional, em regime de palhaçada
reiterada de ano para ano (inclusive com o eterno atraso na sua
distribuição às escolas).
Só a reinserção do professor na condição de sujeito insubstituível
do ato de ensinar poderá varrer a barbárie pedagógica das escolas,
higienizando os ambientes e pondo para fora dali os badulaques
que, por força das circunstâncias e dos costumes, insistem em
permanecer na categoria dos didáticos.
Olhando um pouco mais atentamente para os fenômenos
comunicacionais deste final de século e tentando perceber
criticamente os efeitos da revolução eletrônica no cotidiano da vida,
convém perguntar se o livro didático já não é um objeto
ultrapassado. Dá para cocar a cabeça e hesitar em uma resposta,
quando a tecnologia vem conseguindo prensar um único CD-Rom
cerca de 200.000 páginas de texto impresso.
Didáticos são livros destinados a informar, orientar e instruir o
processo de aprendizagem. Livros didáticos não educam!
A ordem pedagógica estabelecida pelo livro didático será superada
em pouco tempo pelas conquistas tecnológicas da telemática. De
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fato, se idealmente é função do livro didático veicular, para efeito de
pesquisa e estudo, uma parcela do conhecimento, os atuais suportes de
base digital (bancos de dados, hipertextos, CD-Roms, video-disks etc.)
permitem parcelas bem mais abrangentes e diversificadas sobre
quaisquer temas científicos, abrindo caminho para a exploração
interativa e multifacetada pelo usuário.
A abordagem construtivista do conhecimento, a montagem do currículo
em ação e o imperativo contemporâneo do "aprender a aprender"
parecem também demonstrar a crescente obsolescência dos livros
didáticos. De fato, tais tendências afetam a organização escolar e, mais
especificamente, a estruturação do processo de ensino-aprendizagem,
impondo uma ampliação das fontes e referências do conhecimento junto
a docentes e discentes. Ampliação essa que está muito além das
possibilidades de qualquer livro didático ou até mesmo de um conjunto
deles.
É sabido que as novas técnicas de comunicação não eliminam as
precedentes; porém, em termos de potencial para estudo e
aprendizagem, as atuais redes computadorizadas de informação, por
permitirem a interatividade e a permuta, vão desbancar os livros
didáticos como os principais recursos de apoio ao professor. Daí a
literacia do computador, os equipamentos computadorizados, os bancos
de dados e as redes se colocarem como exigências do agora para todas
as escolas brasileiras. O retardamento da sua implantação e a demora na
sua propagação podem significar a continuidade de um ensino sem
substância, defasado no tempo, fechado e absoluto.
Poderão dizer que esta proposta nada mais é do que um exercício de
futurologia, que até a chegada dos computadores na escola os livros
didáticos são imprescindíveis, que o País é pobre, etc... Ora, o Brasil
Em Aberto, Brasília, ano 16, n.69, jan./mar. 1996
está a pedir, há muito tempo, uma escola hodierna, que forme
trabalhadores para os desafios da modernidade, que atenda aos quesitos
da empregabilidade e da globalização da economia. Outrossim, é
chegada a hora de demonstrar uma ousadia há muito esperada, qual seja
a de romper com linhas de investimentos que não deram certo: caso os
livros didáticos brasileiros fossem mesmo eficientes, o Brasil seria o
melhor país do mundo em termos de educação e escola.
Procurei, neste ensaio, refletir sobre vários aspectos que estão
relacionados à produção, à circulação e ao consumo de livros didáticos
na sociedade brasileira. A natureza polêmica e espinhosa do assunto
levou-me à adoção de um estilo não-acadêmico, sem citações ou
referências de apoio para sustentar as minhas afirmações. A
argumentação por mim privilegiada seguiu a linha da experiência
docente (27 anos de magistério em todos os níveis de ensino, da 1a série
do lº grau ao 4a ano da universidade) e das agruras vividas, sendo (ou
tentando ser) professor "de verdade" dentro de escolas públicas
marcadas por privações crescentes.
No início desta reflexão, afirmei que a grande maioria dos nossos
professores necessita da muleta "livro didático" para poder oferecer
algum tipo de conhecimento aos seus alunos. Entretanto, com esta
imagem eu não quis, de maneira nenhuma, atribuir culpa ao professor.
O mal necessário resulta de um conjunto de determinantes negativos na
esfera do trabalho docente, dentre os quais a mania do livro didático. É
hora de jogar a muleta fora! É hora de caminhar sobre as próprias
pernas, com autonomia e decisão!
Observando a paisagem social do presente, defendi a inserção na escola
das novas tecnologias de comunicação como alternativas
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aos livros didáticos. Isto se — e somente se — essas novas
tecnologias não vierem a reproduzir ou copiar os mesmos padrões
da organização e os mesmos protocolos de utilização dos atuais
Em Aberto, Brasília, ano 16, n.69, jan./mar. 1996
livros didáticos. Do contrário, estará para sempre decretada a
morte das capacidades de análise, avaliação e criatividade dos
professores e estudantes brasileiros.
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