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Cavaleiros, monges e sabres de luz: o imaginário

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Cavaleiros, monges e sabres de luz: o imaginário
Detalhe do pôster do filme Star Wars (1977).
o imaginário medieval na saga Star Wars
Cavaleiros, monges e sabres de luz:
Ademir Luiz da Silva
Doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Professor da Universidade Estadual de Goiás-Anápolis (UEG) e do Mestrado Interdisciplinar Territórios e
Expressões Culturais no Cerrado (TECCER). Autor, entre outros livros, de Uma breve
história do Templo: da fundação da Ordem dos Templários à criação da Ordem de
Cristo — séculos XII-XIV. Goiânia: Editora da PUC/Kelps, 2012. [email protected]
Cavaleiros, monges e sabres de luz:
o imaginário medieval na saga Star wars*
Knights, monks and light sabers: medieval imagery in the Star wars saga
Ademir Luiz da Silva
resumo
abstract
O objetivo deste artigo é analisar as
This paper analyzes the influences of the
influências do imaginário tradicio-
imaginary traditionally associated with
nalmente relacionado com a Idade
the Middle Ages on the science fiction
Média na saga de ficção científica Star
saga Star wars, produced by George Lucas.
wars, produzida pelo cineasta norte-
First, we define the difference between
americano George Lucas. Inicialmente,
the concepts of “medieval reminiscences”
definimos a diferença entre os con-
(presence of residual medieval elements in
ceitos de “reminiscências medievais”
the modern world), and “medievalities”
(a presença residual de elementos
(medieval mythology, in its mystical, ro-
medievais no mundo moderno), e
mantic, and adventurous characteristics);
“medievalidades” (a mitologia me-
we try to establish how film uses these
dieval, no que ela possui de místico,
elements to present different perspectives
aventuresco e romântico), procuran-
of the Middle Ages. Based on the analysis of
do estabelecer de que modo a mídia
different aspects of the saga - such as plot,
cinematográfica se utiliza desses
characters, settings and visual elements -
elementos para apresentar distintas
we assume that it takes place during what
perspectivas do medievo. Com base na
would be the equivalent of the medieval
análise de diferentes componentes da
period of that “galaxy far, far away.” In
saga, tais como entrechos dramáticos,
its plot we find both the controversial idea
personagens, ambientações e aspectos
that the Middle Ages would be a “age of
visuais, partimos do princípio de que
darkness” and the romantic notion of the
ela se passa no que seria o equivalente
Middle Ages as the privileged place of
ao período medieval daquela “galáxia
magic and chivalrous heroism.
distante”. Estão presentes em seu enredo tanto a polêmica concepção de que
a Idade Média seria um “período de
trevas” quanto a noção romântica de
que o medievo é o lugar privilegiado
da magia e do heroísmo cavalheiresco.
palavras-chave: Idade Média; Star
keywords: art history, philosophy, inter-
wars; medievalidades.
disciplinarity
℘
* Este artigo é resultado das
pesquisas de meu estágio de
pós-doutorado, realizado na
Faculdade de Artes Visuais da
UFG, sob a supervisão do Prof.
Dr. Edgar Silveira Franco.
196
“Como todos os sonhos, também o da Idade Média corre o risco de
ser ilógico, e fonte de admiráveis deformidades”.
Umberto Eco, Dez modos de sonhar a Idade Média.
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
Artigos
A saga Star wars, concebida pelo produtor, roteirista e diretor George
Lucas, é ambientada “há muito tempo, numa galáxia distante”. Contudo, é
evidente que esse universo ficcional espelha nosso mundo. Partindo dessa
perspectiva, seria possível indagar em qual período histórico, dentre os
estabelecidos pela tradição erudita/acadêmica, encontra-se essa galáxia
distante? Arrisco-me a afirmar que está em sua Idade Média. Não o multifacetado medievo de Huizinga1 ou a “bela” Idade Média de Jacques Le
Goff 2, rica em alta filosofia e avanços técnicos. A Idade Média de Star wars
é àquela dos contos de fadas e aventuras de gesta lidas com entusiasmo
por D. Quixote.
Muitos de seus habitantes, destacando-se alguns dos protagonistas,
representam conhecidos arquétipos tipicamente relacionados com o imaginário medieval. Planetas são tratados como reinos, com direito a monarquia
e distribuição de títulos de nobreza. Num universo dominado por pistolas
laser, as armas de maior destaque cinematográfico são espadas estilizadas,
os sabres de luz. O vilão Darth Vader é representado como um cavaleiro negro, com os traços que tal personagem tradicionalmente carrega, incluindo
a lealdade a seu suserano. O velho Obi-Wan Kenobi da Primeira Trilogia é
um monge e eremita; e também um mago branco, sendo Merlin referência
óbvia. Sua contraparte jovem da Segunda Trilogia, além de seu aprendiz
Anakin Skywalker, são membros de uma Ordem monástico-militar. O
Imperador Palpatine um bruxo praticante de magia negra. A Princesa Leia,
com suas atribuições de política de carreira e comandante militar, seria
uma adaptação moderna das antigas princesas em perigo das canções de
gesta, carregando sutis traços de Joana D’arc em sua persona. Sua mãe, a
Rainha Padmé Amidala, é uma nobre envolvida num jogo de cortesia com
seu paladino protetor. Han Solo, a despeito do figurino calcado na estética
do faroeste, e Chewbacca, apesar de ser alto e poderoso, encarnam respectivamente um cavaleiro secular sem herança, ganhando a vida em torneios,
e seu escudeiro. Ou ainda, se abrirem ainda mais o leque da imaginação,
Renart3, o Raposo, ou talvez Robin Hood e João Pequeno. Luke Skywalker
é um tipo de Percival, um fazendeiro ingênuo que se torna um guerreiro
poderoso motivado pela fé numa religião antiga. É sua conversão para tal
credo que lhe permite enfrentar e derrotar o monstro Rancor, de Episódio
VI – o retorno de Jedi, certamente um tipo de dragão, sempre presentes nessas
categorias narrativas. Outros exemplos abundam.
É preciso desde o início estabelecer que Star wars não é exatamente,
ou simplesmente, uma transposição do que deveria ser uma aventura medieval para o espaço. Na verdade, suas fontes de referências são as mais
diversas, indo desde a mitologia greco-romana até o faroeste, a Guerra
Cível americana, as duas Grandes Guerras do século XX e a filosofia
oriental, com destaque para o código de honra samurai. Contudo, dentre
as inúmeras fontes de inspiração para o desenvolvimento do projeto, as de
caráter reconhecidamente “medievais” destacam-se. Em termos puramente
cinematográficos, sabe-se, por exemplo, que numa das primeiras versões
do roteiro do filme original de 1977 a história centrava-se na busca por
uma espécie de Santo Graal, um cristal encantado. Ademais, o clássico
A fortaleza escondida, de 1958, dirigido por Akira Kurosawa, ambientado
durante o feudalismo japonês, apresentou para Lucas as linhas gerais e o
ponto de vista da narrativa.4
Cf. HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média. São Paulo:
Cosac Naify, 2010.
1
Cf. LE GOFF, Jacques. Uma
longa Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010,
p. 51 e 52.
2
Trata-se de uma figura de caráter antropomórfico, entre humano e lupina, que caracterizase pela esperteza e sagacidade.
Possivelmente suas origens
estão atreladas às fábulas de
Esopo. Segundo Jacques Le
Goff, Renart e um “instrumento
da heroização da artimanha na
cultura medieval e europeia
mais do que qualquer outro
herói ambíguo neste imaginário em que, como já vimos,
não existe herói perfeito”. LE
GOFF, Jacques. Heróis e maravilhas da Idade Média. Petrópolis:
Vozes, 2009, p. 240.
3
EBERT, Roger. A magia do cinema. Rio de Janeiro: Ediouro,
2004, p. 480.
4
197
LE GOFF, Jacques. Heróis e
maravilhas da Idade Média, op.
cit. , p. 30 e 31.
5
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1989,
p. 79.
6
Cf. ECO, Umberto. Pós-escrito
a o nome da Rosa. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1985, p. 20.
7
MACEDO, José Rivair. Cinema e Idade Média: perspectivas
e abordagens. In: MACEDO,
José Rivair e MONGELLI,
Lênia Márcia (orgs.). A Idade
Média no cinema. São Paulo:
Ateliê Editorial, 2009, p. 18.
8
FRANCO JÚNIOR, Hilário.
A Idade Média: nascimento do
Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 170.
9
MACEDO, José Rivair, op.
cit., p. 15.
10
198
George Lucas sonha sua Idade Média
Segundo Le Goff, “a Idade Média hoje está na moda, entre sombra e
luz. [...] Veremos aqui, após o renascimento do Romantismo, um terceiro
renascimento do imaginário medieval com duas invenções supremas do
século XX: o cinema e as histórias em quadrinhos”.5 George Lucas, oriundo
da geração baby boom, os norte-americanos nascidos após a Segunda Guerra
Mundial, testemunhou o avanço e vulgarização do imaginário medieval nas
mídias populares. Espectador de TV, frequentador de seriados de matinês,
entusiasta de filmes de aventura e leitor de quadrinhos, Lucas incorporou
toda essa subcultural, onde o galã Robert Taylor encarnava Lancelot na
versão hollywoodiana do Ciclo Bretão, no filme Os cavaleiros da Távola Redonda, de 1953, dirigido por Richard Thorpe, e o Príncipe Valente, criado
por Hal Foster, era considerado a quintessência da sofisticação e realismo
em arte sequencial. O que não pode ser desconsiderado por antecipação,
uma vez que “só se volta ao período medieval remendando-o, nunca
reconstruindo-o na sua plenitude e autenticidade”.6
Na universidade da Califórnia, onde cursou Cinema, os horizontes
culturais de Lucas se ampliaram. Acrescentou em seu repertório de leituras
obras cultuadas pela geração de estudantes de Maio de 68, tais como A erva
do diabo, de Carlos Castaneda, e O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. Ambas
o influenciaram na composição de seu universo ficcional. De Castaneda
tirou o direcionamento espiritual de Star wars. De Tolkien a ambientação.
Tolkien, antecedendo George Lucas em muitas décadas, escrevendo
de modo contemporâneo a Joseph Campbell, autor de O herói de mil faces,
utilizou a estrutura básica dos ciclos heroicos tradicionais para elaborar o
enredo de suas narrativas. Acreditava que o ato de escrever não dependia
apenas da habilidade narrativa e do cultivo do estilo, sendo, parafraseando Umberto Eco, um fato cosmológico.7 Implicava na necessidade de
se criar todo um universo com regras próprias, mas que fosse verossímil
em comparação com a realidade. Durante parte considerável de sua vida,
escrevendo livros como O Hobbit, O senhor dos anéis e o inacabado O Silmarillion, Tolkien empenhou-se na meticulosa construção do que chamou
de Terra Média, um mundo em grande parte inspirado em lendas, mitos
e na geopolítica da Europa medieval, para o qual chegou a desenvolver
mitologias, populações e sistemas linguísticos inteiros.
Inegavelmente, a Terra Média de Tolkien representa um paradoxo
teórico, por seus sucessivos distanciamentos e aproximações do medievo
dito real. No texto de introdução de A Idade Média no cinema, intitulado
“Cinema e Idade Média: perspectivas e abordagens” o medievalista brasileiro José Rivair Macedo, observou que “aos já habituais temas de uma
mitologia contemporânea do Medievo (os Templários, a Távola Redonda
e o Graal, as Cruzadas etc), somam-se os dragões e os monstros de uma
Idade Média que deve muito ao universo criado por J. R. Tolkien em O
senhor dos anéis”.8 Tolkien, sendo um estudioso acadêmico do período,
possuía plena compreensão dos desdobramentos hermenêuticos de seu
projeto estético. O que nem sempre ocorre entre os artistas que optam por
representar a Idade Média em suas obras.
“De fato, a Idade Média é a matriz da civilização ocidental cristã” 9,
mas num tudo que se advoga como medieval o é realmente. O que torna
fundamental estabelecer distinções entre o que seria factível ou não de
ser definir como tal. Segundo Macedo, existe uma clara diferença entre
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
Artigos
os conceitos de “reminiscências medievais” e “medievalidades”. Para ele,
por ‘reminiscências medievais’ devem-se entender as formas de apropriação dos
vestígios do que um dia pertenceu ao Medievo, alterados e/ou transformados com o
passar do tempo. Nessa categoria encontram-se, por exemplo, as festas, os costumes
populares, as tradições orais de cunho folclórico que remontam aos séculos anteriores
ao XV e que preservam algo ainda do momento em que foram criados, mesmo tendo
sofrido acréscimos, adaptações ou alterações no decurso do tempo.10
Por outro lado,
Defrontamo-nos com uma das manifestações mais tangíveis da “medievalidade”, em
que a Idade Média aparece apenas como uma referência, e por vezes uma referência
fugidia, estereotipada. Assim, certos índices de historicidade estarão presentes em
manifestações lúdicas, obras artísticas ou técnicas de recriação histórica (...), mas
a Idade Média poderá vir a ser uma realidade muito mais imprecisa na inspiração
de temas (magos, feiticeiros, dragões, monstros, guerreiros, assaltos a fortalezas)
produzidas pelos meios de comunicação de massa e pela indústria cultural.11
Umberto Eco, no artigo “Dez modos de sonhar a Idade Média”,
arrola uma lista de perspectivas contemporâneas acerca do medievo. Três
dessas “medievalidades” relacionam-se diretamente ao modo como Lucas
construiu Star wars:
1 – A Idade Média como maneira e pretexto. A de Tasso, para sermos mais claros,
a do melodrama. Não existe real interesse por uma época, a época é vivida como
“lugar” mitológico onde reviver personagens contemporâneos.
2 – A Idade Média como lugar bárbaro, terra virgem de sentimentos elementares,
época e paisagem fora de toda e qualquer lei [...] O medievo é eleito como espaço
escuro, dark ages por excelência. Mas naquele escuro se quer ver uma outra luz. [...]
9 – A Idade Média da Tradição. Local onde tomou forma (quero dizer: de modo
iconograficamente estável) o culto de um saber bem mais antigo, o do misticismo
hebraico e árabe, a da gnose. É a Idade Média sincretista, que vê na lenda do Graal,
nos acontecimentos históricos dos Cavaleiros do Templo e a partir destes, passando
pela fabulação alquímica, nos Iluminados da Baviera, até na atual maçonaria de
rito escocês, o desenrolar de uma única e contínua história de iniciação. Acrítica e
antifilosófica, está Idade Média vive de alusões e de ilusões.12
Confirmando Eco, Ismail Xavier percebeu essa vocação melodramática de Guerra das estrelas13 ao destacar que nele “O melodrama encontrou
novas tonalidades vítreo-metálicas sem perder seu perfil básico, evidenciando sua adequação às demandas de uma cultura de mercado ciosa
de uma incorporação do novo na repetição”.14 A velha luta entre o bem
e o mal ganhou tintas tecnológicas e estetizadas. Coloriu e deu ritmo às
adaptações das aventuras tradicionais de personagens como El Cid, Robin
Hood e Ivanhoé.
Nota-se que nas adaptações cinematográficas de seus ciclos de
história costumam centrar parte considerável da duração em entreveros
românticos entre o protagonista e seu interesse amoroso imediato. Nota-se
aqui a transmutação do herói trágico em herói romântico. Detalhe importante, segundo a lógica comercial de parte considerável dos produtores de
Hollywood, para o fortalecimento da identificação do público médio de
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
11
Idem, ibidem, p. 16 e 17.
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios, op. cit.,
p. 81 e 82.
12
Ismail Xavier refere-se ao
primeiro filme da saga, lançado
originalmente como Star wars,
ou, em português, Guerra nas
estrelas. Apenas em seu primeiro relançamento, em 1978,
foi renomeado de Episódio IV
– Uma nova esperança.
13
XAVIER, Ismail. O olhar e a
cena. São Paulo: Cosac & Naify,
2003, p. 88 e 89.
14
199
MACEDO, José Rivair, op.
cit., p. 18.
15
FRANCO JÚNIOR, op. cit.,
p. 17.
16
17
Idem, ibidem, p. 19.
cinema com os personagens na tela. Não raro, esses heróis arriscam multidões inteiras na tentativa de salvar suas princesas. A ação melodramática
não permite que o espectador perceba a incongruência de tais opções.
Parece-lhes justas, na medida em que são os desdobramentos lógicos da
ação empreendida. Também por isso, “é no âmbito da ‘medievalidade’, e
não no dá historicidade medieval, que o cinema alusivo ao Medievo deve
ser pensado”.15
Esses sonhos da Idade Média evocam, constantemente, pesadelos. O
medievo, conforme citou Eco, é o tempo da barbárie; por extensão, o tempo
do conflito, do avanço das forças obscuras que solapam a criatividade, a
democracia, a individualidade etc.
A ideia de Idade Média nasce de um preconceito. Quando Vasari,
no século XVI, numa coletânea biográfica de artistas, popularizou o termo
Renascimento, estava cristalizando séculos de negação de todo um período
da história humana. Ainda no século XIV, Petrarca, sentindo-se pioneiro
de novos tempos, referia-se aos séculos imediatamente anteriores como
tenebrae, o Tempo das Trevas. Em 1469, o bispo Giovanni Andrea, em sua
função de bibliotecário papel, cunhou o termo media tempestas, o Tempo
Médio. Meio caminho entre o período clássico e o vivido. Rabelais, no século
XV, referiu-se a uma “espessa noite gótica”. O definitivo estabelecimento
do conceito veio em 1688 com o manual escolar de Christopher Keller,
também conhecido como Cellarius, no qual definia uma cronologia com
fins didáticos para a História Universal, dividida em Antiguidade, Idade
Média e Modernidade. Sendo que
O termo expressava um desprezo indisfarçado pelos séculos localizados entre a
Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. Este se via como o Renascimento da
civilização grego-romana, e portanto tudo que estivera entre esses picos de criatividade artístico-literária (de seu próprio ponto de vista, é claro) não passava de um
hiato, de um intervalo. Logo, de um tempo intermediário, de uma idade média.16
Apenas no século XIX, com o movimento romântico, o preconceito
contra o medievo recuou. “O ponto de partida fora a questão da identidade
nacional, que ganhara força significativa com a Revolução Francesa”.17 O
tema Idade Média, reconhecido como fonte de vitalidade e paixão, passou
a ocupar o imaginário literário da época enquanto necessário contraponto
ao racionalismo iluminista. Grandes autores ocuparam-se de obras de ambientação medieval, tais como o alemão Goethe, autor de Fausto, e o francês
Victor Hugo, autor de O corcunda de Notre Dame. Além disso, após ser dado
como esgotado e transformado em sátira por Cervantes em D. Quixote de
La Mancha, o gênero novela de cavalaria voltou a gerar obras importantes
como Ivanhoé, do escocês Walter Scott, e os doze poemas narrativos Os idílios
do rei, do inglês Alfred Tennyson, retomando o ciclo arturiano.
A recorrência da Idade Média como era das trevas
O célebre texto de abertura do filme original estabelece desde o primeiro momento que se vive um momento de crise, de “trevas”.
É um período de guerra civil. Partindo de uma base secreta, naves rebeldes atacam
e conquistam sua primeira vitória contra o perverso Império Galáctico.
Durante a batalha, espiões conseguem roubar os planos secretos da arma decisiva
200
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
Mas é do âmago dessas trevas surgem as oportunidades para o
heroísmo. “A Idade Média considerava a epopeia como monumento do
feudalismo valente, na luta contra os infiéis, e o romantismo considerava-a
como monumento do patriotismo religioso”.18
O medievo vivia um estado permanente de guerra. Feudo contra
feudo, reino contra reino, constantes disputas de fronteiras marcavam um
cenário que poderia ser descrito, alargando seu sentido geral, de guerra
civil. Como em O senhor dos anéis. E seguindo o exemplo da obra de Tolkien,
um dos temas transversais de Star wars são as diferentes concepções de
tecnologia.
Quando, em Episódio IV – uma nova esperança, Obi-Wan Kenobi presenteia Luke Skywalker com uma espada cujo fio é um lamina laser comenta
nostálgico: “É o sabre de luz de seu pai. É a arma de um cavaleiro jedi. É
mais jeitosa e certeira que uma arma laser. Uma arma elegante, para dias
mais civilizados” 19(00:33:43). Essa evocação retoma uma impressão dominante na Baixa Idade Média, onde já se usava pólvora com regularidade
e as espadas da cavalaria andante tornaram-se arcaicas, símbolos de um
passado que apenas homens de frágil saúde mental, como o já citado fidalgo
D. Quixote, querem preservar. O laser é a pólvora, o sabre de luz, a espada
de metal. O primeiro representa o combate à distância, a luta asséptica e,
de certo ponto de vista, covarde; o segundo a justa entre dois guerreiros
que se metem em habilidade, mas também em coragem, honra e fidalguia.
A primeira trilogia de Star wars se passa claramente em um período
considerado de decadência por seus contemporâneos. Decadência civilizacional e moral. Obi-Wan Kenobi, sempre em seu tom saudoso, relembra que
“por mais de mil gerações os Cavaleiros Jedi foram os guardiões da paz e
da justiça na Velha República. Antes da Era das Trevas. Antes do Império”20
(00:34:00). Essa desagregação da unidade republicana a partir da guerra
separatista é evocada no texto de abertura de Episódio II – o ataque dos clones:
Há apreensão no Senado Galáctico. Milhares de sistemas solares manifestaram sua
intenção de deixar a República.
Esse movimento separatista sob a liderança do misterioso Conde Dooku, tornou
difícil para o pequeno número de Cavaleiros Jedi manter a paz e a ordem na Galáxia.
A Senadora Amidala, ex-rainha de Naboo, está voltando ao Senado Galáctico para
votar a delicada questão de criar um Exército da República para ajudar os combalidos Jedi…
Faz-se eco ao Império Romano. Ao longo da Segunda Trilogia,
formada pelos episódios 1, 2 e 3, têm-se como pano de fundo da tragédia
da família Skywalker os últimos anos da Velha República. O subtexto
político é evidente. Guia e pauta os elementos românticos e aventurescos
que se sobressaem na narrativa. Não é por acaso que algumas das cenas
visualmente mais impactantes da saga se passam no Senado Imperial. A
grandiosidade do ambiente ressalta o poder que dali emana e está sendo
minado. É sintomático, por exemplo, que a luta mais importante da saga,
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
Artigos
do Império, a ESTRELA DA MORTE, uma estação espacial blindada com poder
suficiente para destruir um planeta inteiro.
Perseguidos pelos sinistros agentes do Império, a princesa Leia, apressa-se em voltar
para casa a bordo de sua nave estelar, protegendo os planos roubados que podem
salvar seu povo e restaurar a liberdade na galáxia...
CARPEAUX, Otto Maria.
História da literatura ocidental,
v. 1. Rio de Janeiro: Alhamba,
1978, p. 143.
18
Guerra nas estrelas (EUA,
Star wars episode IV – a new
rope, 1977). Direção e roteiro:
George Lucas. Produção: Gary
Kurtz. Música: John Williams.
Elenco: Mark Hamill, Harrison
Ford, Carrie Fischer, Alec Guinness, Peter Cushing. Aventura
/ Ficção. Cor, som, 121 min.
DVD.
19
O ataque dos clones (EUA,
Star wars episode II – attack of the
clones, 2002). Direção: George
Lucas. Roteiro: George Lucas;
Jonathan Hales. Produção: Rick
McCallum. Música: John Williams. Elenco: Ewan McGregor,
Natalie Portman, Hayden
Christensen, Ian McDiarmid.
Aventura / Ficção. Cor, som,
142 min. DVD.
20
201
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios, op. cit., p. 83.
21
ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 99.
22
travada entre Yoda e Palpatine, se passe no Senado; inclusive destruindo-o
fisicamente. Essa destruição é, ao mesmo tempo, simbólica e real. A República, que possuía todos os defeitos e qualidades das democracias, ruiu,
dando lugar à ditadura.
Os anos de ouro daquela “galáxia distante” acabaram definitivamente quando, em Episódio IV – uma nova esperança, o governador Tarkin,
comandante da Estrela da Morte, anuncia que “o Senado Imperial deixará
de nos causar transtorno. Acabo de receber a notícia de que o Imperador
dissolveu o Conselho definitivamente. Os últimos remanescentes da Velha
República foram varridos” (00:37:18).
O fracasso da resistência republicana gerou uma galáxia dominada
por uma entidade político-religiosa de poder absoluto, que domina todos
os aspectos da vida daquela sociedade multiestelar. O Império Galáctico representa uma versão caracteristicamente maligna da Igreja Católica, maior
autoridade do medievo, que, principalmente, desde os desdobramentos da
Reforma Protestante ganhou contornos maléficos no imaginário popular,
sobretudo nas nações de predominância protestante. Fazendo esse espelho,
o Império Galáctico possui tentáculos que alcançam todos os planetas da
galáxia, impondo a autoridade de um antipapa, um papa negro, encarnado
na figura do imperador Palpatine.
Entende-se aqui Idade Média não como um período cronologicamente reconhecível e estabelecido no calendário, mas como uma condição
histórica, num sentido explicitamente preconceituoso, marcada por alguma
condição de atraso. Essa noção de Idade do Meio é um conceito que retorna
de tempos em tempos. Nas últimas décadas o debate sobre uma Nova Idade
Média foi acirrado. Na década de 1980, Umberto Eco travou uma polêmica
com o teórico italiano Roberto Vacca acerca do que seria exatamente essa
condição. Eco explica que “quando Roberto Vacca falou da Idade Média
próxima vindoura, ele estava pensando na derrocada dos grandes sistemas
tecnológicos, derrocada que instauraria uma nova Idade Média feudal ou
pré-feudal, fundada na penúria e na luta pela sobrevivência”.21 Portanto,
para Vacca a Nova Idade Média advém de uma sucessão de tragédias que
acabam estabelecendo uma espécie de “projeto de apocalipse”, no qual se
perde o acesso às conquistas tecnológicas da sociedade moderna. Condição
que faria retroceder as conquistas morais e éticas.
Eco é menos dramático e, conforme explica no artigo “A nova Idade
Média”, o medievo, enquanto estado de espírito, jamais se diluiu completamente nas sociedades contemporâneas. O que ele faz é mapear as permanências, onde identifica nas relações entre Estado e Igreja, nas formas
de pensamento, na cultura popular, no neonomadismo, em resquícios do
pensamento medieval. “A Idade Média conservou a seu modo a herança do
passado não para hibernação, mas para contínua retradução e reutilização,
foi uma imensa operação de bricolage em equilíbrio instável entre nostalgia,
esperança e desespero”.22
O monasticismo jedi
Se Star wars está repleto de referências medievais, a mais evidente é
a questão monástica. Os cavaleiros jedi, detentores do monopólio religioso
da Galáxia, soldados e sacerdotes da Força, reproduzem o que seriam as
“ordens religiosas militares, de ‘Cavaleiros de Cristo’. Trata-se do resultado
da conversão do cristianismo à guerra. O surgimento de uma personagem
202
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
Artigos
que reunia em si mesma o monge e o guerreiro”.23 Mas não apenas isso.
Segundo Huizinga,“como ideal de vida bela, a concepção cavaleiresca tem
aspectos peculiares. É um ideal essencialmente estético, feito de fantasias
coloridas e sentimentos elevados, que também almeja ser um ideal ético:
o pensamento medieval só pode conferir nobreza a um ideal de vida se o
puder vincular à piedade e à virtude”.24
Essa é a concepção por trás da criação do conceito da cavalaria jedi.
Os jedis são poderosos, rápidos, ágeis; porém devem ser humildes e agem
a serviço de uma causa, supostamente, maior. Eles praticam violência,
até matam, mas sempre em função de sua obrigação de manter a “paz da
galáxia”. Percebe-se uma clara relação entre os cavaleiros jedi e a tradição
heroica relacionada às ordens militares criadas nos tempos das Cruzadas e
da Reconquista, sobretudo à confraria monástica dos Cavaleiros do Templo
de Salomão.
São Bernardo, abade do mosteiro cisterciense de Claraval, na França, patrono da Ordem dos Templários, foi o principal responsável pelo
desenvolvimento da mística em torno do miles Christi, o “Soldado de
Deus”. A personagem heroica, romântica e misteriosa, de fé inabalável,
movido por um sentimento particular de cruzada, saiu de seus escritos.
Defensor da ortodoxia da Igreja disseminou a Teoria dos Dois Gládios:
“O Gládio espiritual e o gládio material pertencem, um e outro, à Igreja.
Mas o segundo deve ser manejado a favor da Igreja e o primeiro pela
própria Igreja”.25
A expansão europeia da Ordem dos Templários deve ser interpretada a partir da Reforma Gregoriana, iniciada em meados do século IX, por
Cluny e, posteriormente, continuada por Cister, no século XII. Pretendia-se
retornar a uma estrita observância da Regra de São Bento, marcada pelo
espírito de humildade, penitência e busca pela solidão contemplativa,
fortalecendo espiritualmente a Igreja, permitindo seu domínio moral
sobre a sociedade laica, por intermédio de um exemplo de disciplina e
comprometimento. Ao mesmo tempo, certa vocação guerreira sempre foi
implícita na mentalidade monástica.26 Não por acaso, os monges regulares,
inspirados nos mártires cristãos da Antiguidade e, sobretudo, em Paulo
de Tarso, passaram a se designar como milites Dei, soldados de Cristo.
Comparavam o cordão que amarravam seus hábitos com o cinturão dos
centuriões romanos, o cingulus militiae.
Vocação que se cristalizou com o desenvolvimento das ordens de
cavalaria, a miles Christi propriamente dita. A ideologia das ordens Mmlitares criadas após as cruzadas, não apenas a dos templários, mas também
dos hospitalarios e dos cavaleiros Teutônicos, além de outras, pode ser
entendida como uma tentativa de recuperação do prestígio e pureza da
cavalaria medieval a partir de sua adesão a estes movimentos monásticos
que pretendiam renovar e moralizar os negligentes quadros da Igreja.
Serviam como ampliação, extensão e braço armado desta reforma.
A principal inspiração veio de Santo Agostinho.27 Ainda no século
V, o futuro doutor da Igreja defendia a santificação da guerra contra os
pagãos e infiéis. Uma guerra justa, a jus bellicum. Entendia-a como uma
versão sagrada da Bellum Romanum, a guerra romana, a luta em defesa do
modelo civilizatório do Império Romano, agora encarnado na nova Roma
cristã, na qual a ética cristã substitui a pax romana e, consequentemente, o
bispo de Roma passou a representar o papel anteriormente desempenhado
pelo imperador.
LE GOFF, Jacques. Heróis e
maravilhas da Idade Média, op.
cit., p. 119.
23
HUIZINGA, Johan, op. cit.,
p. 99.
24
25
FRANCO JÚNIOR, op. cit.,
p. 97.
Cf. FLORI, Jean. A cavalaria:
a origem dos nobres guerreiros
da Idade Média. São Paulo:
Madras, 2005, p. 186.
26
SANTO AGOSTINHO. A
cidade de Deus: contra os pagãos.
Petrópolis, Vozes, 1999, p. 64.
27
203
A REGRA PRIMITIVA DOS
CAVALEIROS TEMPLÁRIOS.
Comentários de Pinharanda
Gomes. Lisboa: Hugin, 1999,
p. 3 e 4.
28
Cf. DUBY, Georges. A sociedade cavalheiresca. São Paulo:
Martins Fontes, 1989, p. 88.
29
Nesse cenário, os Templários foram responsáveis em introduzir a noção de perigo no cotidiano da miles Christi. Antes deles, ser um “soldado de
Cristo” poderia ser compreendido como uma designação metafórica. E de
fato era. Contudo, com o Templo e a estabelecimento de seu modo de vida, foi
incorporado um sentido lato. Assumindo o papel de guardiões das estradas e
dos lugares santos, atividades externas à sua sede, os Templários diferenciavam-se das outras ordens, que agiam primordialmente dentro da segurança
de hospedarias e hospitais. Os monges-guerreiros deveriam estar preparados para lutar, matar e morrer, participar de perseguições e escaramuças.
Foi, sobretudo, por meio de textos de Bernardo de Claraval que se
divulgou essa nova concepção de miles Christi e, por extensão, de cruzada.
A cruzada permanente. Neste sentido, a afirmação de que Bernardo de Claraval criou a figura popular do cavaleiro templário, pode parecer exagero,
mas esta muito próxima da realidade. Sua autoridade moral e, sobretudo,
intelectual junto aos maiores dignitários da Igreja foi o que tornou viável
o desenvolvimento do conceito de monge-guerreiro, conforme existiu a
partir de meados do século XII.
O certo é que, morra-se no leito ou na guerra, preciosa será, sem dúvida, aos olhos
do Senhor, a morte dos seus santos. Mas na guerra, seguramente, é tanto mais
preciosa quanto é a mais gloriosa. Oh!, que vida tranquila, quanto é pura a consciência! Oh!, digo, que vida tranquila, quando se espera a morte sem medo, e, bem
ao contrário, é ela vivamente desejada com prazer e recebida com devoção. Oh!,
verdadeiramente santa e segura milícia, e, por completo livre do duplo perigo que
ao género humano sói, amiúde, pôr à prova, quando Cristo não é o único motivo de
se militar. De facto, todas as vezes que tu, combatendo, o faças na milícia profana,
deves temer inteiramente ou que te mates deveras na alma com matar o inimigo no
corpo, ou que sejas acaso morto por ele, a um tempo, no corpo e na alma. Considerase um facto que o perigo ou a vitória do cristão não reside no evento guerreiro mas
nas disposições do coração.28
Se a ideia do guerreiro cristão lutando pela defesa circunstancial de
sua religião não era de todo estranha ao medievo, a de um monge-guerreiro
em tempo integral era. Causava estranheza tal mistura de missões. A
imagem de um homem de oração empunhando uma espada, derramando
sangue, cortando cabeças, ainda que de infiéis, levando uma existência
aventureira, não era de modo algum facilmente assimilável. A noção de
cruzada jamais deixou de possuir certa conotação de aventura utópica. Em
Episódio IV – uma nova esperança, quando Obi-Wan Kenobi revela para Luke
Skywalker que seu pai não foi um piloto de cargueiro, mas um grande
guerreiro, acrescenta que essa verdade lhe foi escondida porque: “Seu tio
teve medo que você seguisse alguma cruzada idiota e idealista como seu
pai fez” (00:33:26).
Desde meados do século XI, a Igreja, sobretudo a francesa, forjou um
modelo de comportamento moral para a aristocracia no qual sua vocação
militar justificava seus privilégios sociais. Ao longo dos séculos XI e XII,
a liturgia católica ganhou cada vez mais força nas cerimônias de sagração
do cavaleiro, até transformar-se em um verdadeiro sacramento. A criação
da milícia de Cristo, religiosos dedicados à vida de armas, foi o extremo
desta tendência. Em termos absolutos, a grande modificação trazida pela
ideia de miles Christi foi à introdução da cavalaria no plano divino de salvação do mundo.29
204
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
Artigos
Os jedi identificam-se como tal perspectiva religiosa, filiando-se a uma
profecia que prevê “o equilíbrio da força”, portanto a um “plano divino”.
O texto de abertura de Episódio I – a ameaça fantasma30 apresenta-os como os
“guardiões da paz e da justiça na galáxia”, preocupados com o fato de que
A desordem instalou-se na República Galáctica. A cobrança de taxas pelas principais
rotas de comércio para sistemas remotos está sendo contestada.
Esperando resolver o problema com poderosas naves de guerra, a gananciosa Federação do Comércio bloqueou toda remessa para o pequeno planeta Naboo.
Enquanto o Congresso da República discute indefinidamente sobre essa sequência
de eventos, o supremo Chanceler enviou secretamente dois cavaleiros Jedi, guardiões
da paz e da justiça na galáxia, para porem fim ao conflito…
Nota-se que a missão jedi nesse caso se refere a uma querela de caráter
político e econômico. O que está em jogo nesse momento são taxas e rotas
comerciais, não disputas de caráter iminentemente militar. São diplomatas.
Mas, diplomatas preparados para o combate, se ele se fizer necessário, for
inevitável e, sobretudo, revelar-se justo.
O conceito de guerra justa pressupunha combate ao inimigo com o
qual o entendimento não era possível. O inimigo é o outro, o estrangeiro.
A guerra significava uma forma extrema de alteridade. Há, basicamente,
três tipos de argumentação na filosofia da guerra. O primeiro, de extrato
antropológico, estimava que a guerra faz parte da natureza humana. O
segundo, de extrato político, apontava que o surgimento de situações de
guerra sempre atende jogos específicos de interesses. O terceiro tipo de
argumentação indicava que a guerra era criadora de valor, de ordens ou
de justiça.31 Nessa concepção filosófica da guerra encontra-se o gérmen
da cruzada. Uma total entrega do guerreiro à causa de Cristo, à defesa
de sua fé. A otimização desta visão de mundo levou ao desenvolvimento
do conceito de miles Christi. Colocou uma espada nas mãos dos monges,
obrigando-os a dispor-se a sujar seus hábitos de sangue.
Segundo Michael Walzer32, em Guerras justas e injustas, autores medievais faziam distinção entre jus ad bellum, a justiça do guerrear, e a jus
in bellum, a justiça no guerrear. No primeiro caso, exige-se que os motivos
da agressão e da defesa sejam considerados justos pelos contendores. O
segundo exige consciência das normas positivas de combate. Não são teses
complementares, sendo independentes em termos lógicos. Nada impede
que uma guerra justa seja travada de maneira injusta ou que uma guerra
injusta seja travada de modo justo e civilizado, dependendo da perspectiva
de ação do guerreiro envolvido no combate.
O dualismo entre os cavaleiros jedi e sith está aqui representado.
Embora seja o símbolo máximo de uma religião, e, por conseguinte, um
conhecimento teoricamente restrito para iniciados, a energia da Força, em
princípio, seria neutra. Nem boa nem má. Perspectivas como “lado bom”
ou “lado negro” da força são, na prática, abstrações. O uso que se faz dela
é que determina, dentro dos padrões comportamentais daquela sociedade,
o que é bem e o que é mal.
Em Episódio I – uma nova esperança, Obi-Wan explica que
A ameaça fantasma (EUA, Star
wars episode I – the phantom
menage, 1999). Direção e roteiro: George Lucas. Produção:
Rick McCallum. Música: John
Williams. Elenco: Lean Neeson, Ewan McGregor, Natalie
Po����������������������������
rtman, Jake Lloyd, Ian McDiarmid. Aventura / Ficção. Cor,
som, 136 min. DVD.
30
Cf. CASTILLO, Monique. A
paz: razões de Estado e saberia
das nações. Rio de Janeiro:
Difel, 2001, p. 7.
31
WALZER, Michael. Guerras
justas e injustas: uma argumentação moral com exemplos
históricos. São Paulo: Martins
Fontes, 2003, p. 34.
32
Vader foi seduzido pelo Lado Negro da Força.
Luke: Da Força?
Obi-Wan Kenobi: A Força é o que dá poder ao jedi. É um campo de energia criado
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
205
FRANCO JÚNIOR, Hilário,
op. cit., p. 191.
33
A vingança dos sith (EUA,
Star wars episode III – revenge
of the sith, 2005). Direção e
roteiro: George Lucas. Produção: Rick McCallum. Música:
John Williams. Elenco: Ewan
McGregor, Natalie Portman,
Hayden Christensen, Ian McDiarmid. Aventura / Ficção. Cor,
som, 139 min. DVD.
34
FLETCHER, Richard. A cruz
e o crescente. Rio de Janeiro:
Pocket Ouro, 2010, p. 188.
35
por todos os seres vivos. Ele nos envolve e penetra. É o que mantém a galáxia
unida” (00:34:35).
Para os membros da religião de Estado, os jedis, o chamado Lado
Negro seria uma espécie de heresia. Qualquer coisa que os contraria deve
ser combatido como impuro e deturpado. Hilário Franco Jr, no glossário de
Idade Média, explica que heresia significa “literalmente ‘escolha’, quer dizer
adoção de ideias e posturas contrárias aos valores religiosos oficialmente
aceitos pela comunidade [...] as heresias medievais foram muitas vezes
uma transferência de aspirações socioeconômicas para o plano espiritual”.33
Ainda nesse episódio, fica estabelecido que Vader é um homem de fé,
talvez fanatizado à religião. Trava uma discussão com um militar na ponte
comando da Estrela da Morte sobre esse tema. Seu interlocutor afirma que
Esta Estação é hoje o maior poder do universo. Sugiro que o usemos.
Vader: Não tenha tanto orgulho desse terror tecnológico que construiu. A capacidade
de destruir um planeta é insignificante perto do poder da Força
Oficial: Não tente nos assustar com suas feitiçarias, lord Vader. A sua devoção
doentia à antiga religião não ajudou a descobrir os dados roubados. Nem lhe deu
clarividência para encontrar a fortaleza rebelde.
Vader: Eu acho perturbadora a sua falta de fé (00:38:08)
Numa analise superficial parece tão devoto quanto Obi-Wan Kenobi. No texto de abertura de Episódio III – a vingança dos sith34, encontramos
referência a essa neutralidade da Força.
Guerra! A República está desmoronando sob o ataque do impiedoso Lorde Sith Conde
Dooku. Há heróis em ambos os lados. O mal está em toda a parte.
Em uma manobra surpreendente, o diabólico líder dróide General Grievous invadiu
a capital da República e sequestrou o Chanceler Palpatine, líder do Senado Galáctico.
Enquanto o exército separatista de dróides tenta escapar da capital sitiada com seu
valioso refém, dois cavaleiros Jedi lideram uma desesperada missão, para resgatar
o Chanceler preso…
Destacamos o trecho que estabelece que “há heróis de ambos os
lados”. O conde Dooku, munido de seu título de nobreza que remete diretamente ao feudalismo medieval, é um idealista da causa separatista. É
um herói de guerra que, assim como Anakin Skywalker, foi manipulado,
usado e descartado por Palpatine. De seu ponto de vista, travava uma
Guerra Justa. De fato, a rigor, jedis e sith são praticantes da mesma religião,
a partir de tradições iniciaticas diferentes. Assim como as duas grandes
religiões monoteístas: Islã e Cristianismo.
Os cristãos encontraram os muçulmanos pela primeira vez como conquistadores: é
bastante compreensível que tenham visto o islã como intrinsecamente belicista. Dada
a atmosfera intelectual e religiosa da época, a única maneira pela qual conseguiram
explicar o islã de forma convincente para eles mesmos foi como um tipo aberrante
de cristianismo. Temos aí os dois ingredientes essenciais da imagem cristã do islã:
Maomé como um pseudoprofeta, impostor, herege; seus seguidores como homens
sanguinários e violentos.35
Essa imagem de impostor herético é intrínseca a figura de Palpatine.
206
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Artigos
Mas o chamado Lado Negro pode ser, sobretudo, uma perspectiva política
de caráter autoritária. Em Episódio II – o ataque dos clones (00:48:27), Anakin
e Padmé dialogam sobre suas convicções:
Padmé: Você não gosta mesmo de políticos.
Anakin: Gosto de dois ou três. Mas não estou certo sobre um deles. Não acho que
o sistema funcione.
Padmé: Como o faria funcionar?
Anakin: Os políticos deveriam sentar, discutir o problema, concluir o que é melhor
para o povo e fazer.
Padmé: É o que fazemos. Mas as pessoas nem sempre estão de acordo.
Anakin: Deveriam ser convencidas.
Padmé: Por quem?
Anakin: Não sei. Alguém.
Padmé: Você?
Anakin: Claro que não.
Padmé: Quem, então?
Anakin: Alguém sábio.
Padmé: Está me soando como uma ditadura.
Anakin: Bem, se é o que funciona.
O ocaso da Idade Média marcou justamente o surgimento dos Estados Modernos e, dentro desta estrutura administrativa, as monarquias
absolutistas, nas quais os reis mantinham autoridades centralizadoras e
inquestionáveis. Nesse sentido, o Imperador Palpatine, a exemplo do papa
Inocêncio III, levou ao extremo a Teoria dos Dois Gládios. Estabeleceu um
sistema semelhante ao Cesaropapismo nesse universo ficcional. Unificou
as funções imperiais e pontifícias em sua pessoa. Existe aqui certa influência da organização religiosa romana, na qual o Imperador era também o
Sumo Pontífice. Nesse caso, o efeito imediato seria a submissão da Igreja
ao Estado, como de fato se observa no Império Galáctico. Antes de ser um
antipapa ou papa negro, Palpatine é um líder de Estado. Não aparece em
nenhum dos filmes imposições imperiais relativas a questões dogmáticas ou
de liberdade de culto. Todas as querelas são de fundo político-econômico.
O hábito negro que o Imperador usa não refletia necessariamente seus
hábitos e governo.
Regras da vida monástica
Mas, como se sabe, diz um espirituoso ditado que “o hábito faz o
monge”. Esse jogo de palavras, com humor implícito, reflete as relações
entre as práticas cotidianas e a vestimenta que se usa cotidianamente. Os
miles Christi caracterizavam-se por exibir a cruz em seus hábitos. No medievo não existia a expressão “cruzada”, tais expedições eram conhecidas
como peregrinatio contra paganos, a “peregrinação contra os pagãos”, e
quem participava delas eram àqueles que “levavam a cruz”. Dessa forma,
por exemplo, os Hospitalarios, identificados pelos mantos negros ornados
com uma cruz branca, eram responsáveis pela acomodação dos peregrinos e da manutenção dos hospitais. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos,
que usavam túnicas brancas com uma cruz negra, era responsável pelo
atendimento aos enfermos. A Ordem dos Templários, que se distinguia
pelas vestes brancas ornadas com uma cruz vermelha, tinham por obriArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
207
CISTER – DOCUMENTOS
PRIMITIVOS. Lisboa: Colibri,
1999, p. 99.
36
A REGRA PRIMITIVA..., op.
cit., p. 98 e 99.
37
38
Idem, ibidem, p. 117.
O retorno de Jedi (EUA, Star
Wars episode VI – return ot the
jedi, 1983). Direção: Richard
Marquand. Roteiro: George
Lucas; Lawrence Kasdan.
Produção executiva: George
Lucas. Produção: Howard Kazanjian. Música: John Williams.
Elenco: Mark Hamill, Harrison
Ford, Carrie Fischer, Alec Guinness. Aventura / Ficção. Cor,
som, 134 min. DVD.
39
NETO, Jônatas Batista. História da Baixa Idade Média (10661453). São Paulo: Ática, 1989,
p. 28.
40
gação proteger os peregrinos em trânsito, além de guardar o Templo de
Jerusalém e o Santo Sepulcro. Os jedis por sua vez carregam um símbolo
específico da confraria.
A Regra XVI dos monges cistercienses, de acordo com a edição traduzida e comentada pelo medievalista português Aires A. Nascimento,
determina que “o vestuário seja simples: capa, túnicas, calçado, polainas,
chinelas, romeira que cobre apenas os ombros e o peito; [...] As peles sejam grossas e simples”.36 No caso da vestimenta do monge jedi, conforme
apresentada nas duas trilogias, é possível observar certa aplicação dessa
perspectiva.
A primeira vez que o espectador é apresentado visualmente a um
cavaleiro jedi ocorre no início do primeiro filme da trilogia original, chamado então de Guerras nas estrelas e, posteriormente, rebatizado de Episódio
IV – uma nova esperança. Trata-se de Obi-Wan Kenobi encapuzado, de braços
abertos, estendendo todo o pano da roupa, e gritando; com o objetivo de
afugentar alguns nômades bárbaros da espécie conhecida como Povo da
Areia, que atacavam Luke Skywalker. Com o entrevero resolvido, o ancião
retira o capuz e se revela. Suas roupas são simples e práticas, aparentemente
pensadas para proteger das temperaturas extremas encontradas no deserto.
O tecido da roupa de Kenobi parecer ser rústico e grosso, determinando
uma vida ascética.
Na Regra dos Cavaleiros Templários, conforme a edição crítica de
Pinharanda Gomes, lê-se que “mandamos, que os vestidos sejam sempre
de uma cor, como branco ou negro, ou por melhor dizer de burel [...]. Mas
porque este vestido nem há-de mostrar vaidade, nem gala”.37 Nem mesmo
um general experiente como Kenobi, por sua condição de monge-guerreiro,
deve deixar-se seduzir pela vaidade. Não exibe medalhas e galardões. O
elemento monástico é dominante sob a estética militar. Uma afirmação
de humildade. “Há-de haver grande cuidado em que um não dê a outro
ocasião de sentimento; porque a Suma Clemência uniu com vínculo de
Irmandade e amor igualmente aos ricos, e aos pobres”.38
De fato essa característica de neutralidade da vestimenta jedi é
observada no início de Episódio I – a ameaça fantasma, quando o droide
que recebe Qui-Gon Jinn e seu então aprendiz Obi-Wan Kenobi na nave
capitania da Federação de Comércio informa a seus proprietários acredita
“que os embaixadores são cavaleiros jedi” (00:03:45). A incerteza é um
dado importante aqui, pois quando a dupla foge para Tatooine, também
conseguem passar praticamente despercebidos. Portanto, o hábito jedi não
é exatamente um emblema, tampouco um uniforme. Vide que jedis importantes como Aayla Secura, conhecida por seu visual azul, não o usam. E
mesmo Luke Skywalker, quando reconhecido como um jedi formado por
Yoda, em Episódio VI – o retorno de Jedi39, optou por uma roupa cível, sem
capuz ou capa, e inteiramente negra.
Uma curiosa distorção da tradição monástica foi revelação de que
os yong.li, jovens aprendizes jedi ou pré-padawans, são cooptados desde
a infância. Na Idade Média o mais comum é que as crianças
Aos 07 ou 08 anos de idade era enviados a corte de um amigo da família. [...] Lá,
tornava-se pajem, aprendia música e canto e servia à dama do castelo. Aos 14 ou
15 anos, era transformado em escudeiro e, a partir daí, começava a receber um treinamento militar que se estendia até os 20 anos: cuidava dos cavalos, da armadura,
servia o senhor à mesa e aprendia a cavalgar e manejar armas.40
208
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
A REGRA PRIMITIVA..., op.
cit., p. 98, 99 e 121.
41
42
Idem, ibidem, p. 103.
43
Idem, ibidem, p. 105.
DUBY, Georges. Guilherme
Marechal ou o melhor cavaleiro
do mundo. Rio de Janeiro: Graal,
1988, p. 67 e 68.
44
Amor e cortesia
A Idade Média foi, essencialmente, um período de extrema desconfiança com a mulher. A religião cristã, que ocupava o centro da existência
humana de então, relegava à figura feminina o papel de arma diabólica de
tentação do homem. Numa perspectiva de comparação entre o medievo
a representação feminina em Star wars descortina-se para a rainha Padmé
Amidala papel semelhante ao desempenhado por personagens como Guinevere, a rainha do rei Artur, Isolda, amante de Tristão, e Heloisa, amante
de Abelardo. Pertencem, de acordo com essa visão, a tradição de Pandora
e Eva, como causadoras de grandes males, não por serem necessariamente
ruins, mas por serem mulheres e carregarem todos os “defeitos femininos”:
curiosidade extrema, ingenuidade pecaminosa e furor uterino. O amor,
que inspiraram cunhou tragédias. Derrubou o reinado de Artur, matou
Tristão e castrou Abelardo.
Em Star wars, analisando sua narrativa sob um ponto de vista “conservador”, sem levar em conta subtextos psicológicos mais sofisticados, o
amor por Padmé provocou a conversão de Anakin ao lado negro da Força
e sua subsequente queda e decadência física ao fim do duelo com Obi-Wan
Kenobi. O combate entre amigos era compreendido na Idade Média como
a mais extrema das situações. A luta entre Artur e Lancelot e entre Tristão e
seu tio Marcos não representavam apenas conflitos pessoais, mas a crise de
uma época. Isso porque na Idade Média não existia o conceito de amor, tal
qual é conhecido nas sociedades modernas. Na verdade, o termo “amor”
era usado para “designar o sentimento que os homens têm uns pelos outros”.44 O amor, portanto, era usado para designar amizades masculinas.
Em Episódio III – a vingança dos sith, ao final do duelo no qual desmembra
seu ex-aprendiz Anakin Skywalker, Obi-Wan Kenobi exclama consternado:
“Você era meu irmão, Anakin. Eu amava você” (02:00:33). Certamente, os
princípios da lealdade e vassalagem eram implícitos. O que havia entre
homens e mulheres era a cortesia. Fazia-se a corte, mas a realização física do
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
209
Artigos
Contraditoriamente, em Star wars, muito jovens, com talvez cinco
anos ou menos, vão morar no Templo Jedi em Coruscant, a capital da
República, onde recebem educação ético-religiosa, treinamento físico e de
controle da força. Lembra o sistema espartano. Na realidade, era incomum
a presença de crianças nos mosteiros. A célebre história de Marcelino Pão
e Vinho representa exatamente uma incomum exceção. Na regra dos templários encontramos a indicação de que “ainda que a Regra dos Santos
Padres permite receber aos moços aos mosteiros; não é conveniente, que
vós outros vos encarregueis deles (...) porque é melhor não fazer os votos
na primeira idade que faltar a eles na madura”.41
Nesse sentido, durante o Episódio I – a ameaça fantasma, a introdução
de Anakin Skywalker no Templo Jedi aos oito anos, estando muito “velho”
para ser treinado, é uma liberdade poética. Da mesma forma que a longa
trança que caracteriza um padawan, pois a regra Ttmplária é clara quando
afirma que “não há dúvidas que é de Gentios levar tranças e copetes; e pois
isto parece tão mal a todos, o proibimos e mandamos, que nenhum traga
tal alinho”.42 Por outro lado, foram fiéis quando estabelecem que raramente
cavaleiros jedis viajem sozinhos. Também entre os Templários o correto
seria que “os que saírem dessa maneira nem de dia, nem de noite vão sem
companhia; isto é sem Cavaleiro, ou Religioso dos Perpétuos”.43
LE GOFF, Jacques. Uma longa
Idade Média, op. cit., p. 35.
45
CISTER – DOCUMENTOS
PRIMITIVOS, op. cit., p. 96.
46
DUBY, Georges. Guilherme
Marechal ou o melhor cavaleiro do
mundo, op, cit., p. 69.
47
LE GOFF, Jacques. A função
cultural: a imagem e o vivido.
In: O apogeu da cidade medieval.
São Paulo: Martins Fontes,
1992, p. 196.
48
desejo deveria ser contido, sob pena de provocar tragédias. Neste sentido,
o amor cortês era relacionado com a luxúria feminina.
Esse sentimento era universalmente aceito. “A grande diferença, creio,
entre mentalidades medievais e mentalidades modernas está na ausência,
na Idade Média, de um sentimento (e de práticas) de laicidade – ainda que
a distinção entre clérigos e leigos seja essencial, mas também religiosa”.45
Acreditamos que também por isso o cavaleiro jedi, seguindo a tradição
monástica ocidental, fazia voto de castidade. No tópico VII da Regra de
Cister lemos que “Nenhuma mulher entre na residência das granjas, a não
ser por mandado do abade ou do prior, nem alguém fique a sós a falar com
uma mulher”.46 O caso de amor entre o jedi Anakin Skywalker e a senadora
e ex-rainha Amidala é proibido não por entraves de ordem social, devido
à diferença de classes, sendo ela uma nobre e ele um ex-escravo, mas por
tabus religiosos.
O medievalista francês George Duby aponta que ligações amorosas
secretas entre jovens donzelas e cavaleiros eram recorrentes Para o chefe
da casa o maior perigo era o de “dar o nome a filhos gerados por outra
semente e que assim usurparão os bens ancestrais”.47 Cria-se, portanto um
clima tenso, de eterna vigília e desconfiança nos castelos, o que muitas vezes
poderia justamente aumentar a excitação das jovens damas, ansiosas para
jogar o perigoso jogo do amor. No caso de um monge, o que se colocava
em foco era mais o estrito código de obediência da confraria. No referido
caso entre Anakin e Padmé existe também a questão da legitimidade real.
Casaram-se em segredo ao final de Episódio II – O ataque dos clones. Sabemos que Naboo não é uma monarquia tradicional, na qual o título real é
hereditário e vitalício. Trata-se de uma adaptação da estrutura republicana,
na qual o monarca é escolhido por votação para exercer o poder durante
um período determinado de tempo. Mas, supõem-se, apenas membros da
casta real podem se candidatar ao posto. Nesse caso, os gêmeos Luke e Leia
que nasceram ao final de Episódio III – a vingança dos Sith pertenciam a Casa
Real do planeta Naboo, com todos os direitos de descendência garantidos?
Trata-se de uma causa para ser levada às cortes supremas de Coruscant. Afinal, como demonstrou Le Goff, na Baixa Idade Média “o espaço
é um espaço jurídico que inclui o interior e o exterior, cuja definição e utilização estão subordinadas ao senso comunitário, ao ‘comum serviço’”.48
Mas, em caso positivo, haveria outro, e maior, problema: se fossem criados
como irmãos, no luxo da corte de Naboo, Luke e Leia viveriam uma vida
de aventuras?
Retomando Umberto Eco, em sua fantasia espacial George Lucas foi
hábil em “sonhar a Idade Média” fazendo de seus moços cavaleiros, monges
e dragões elementos cênicos reconhecíveis para o grande público. Soube
perceber que, para o imaginário, uma espada permanece uma espada,
mantendo todo seu simbolismo, independente da lâmina ser de metal ou
de luz. Essa luz é um efeito cosmético, mais do que um sentido por si só.
Se os mitos heroicos sempre se reescrevem, como propôs Joseph Campbell,
o grande mérito de Lucas foi o de demonstrar que os valores do medievo
romântico ainda geram interesse na contemporaneidade.
℘
Artigo recebido em outubro de 2013. Aprovado em fevereiro de 2014.
210
ArtCultura, Uberlândia, v. 16, n. 28, p. 195-210, jan-jun. 2014
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