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Experiências na Elaboração de Preparados Biodinâmicos

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Experiências na Elaboração de Preparados Biodinâmicos
Resumos do VI CBA e II CLAA
Experiências na Elaboração de Preparados Biodinâmicos
RICHTER, Ana Simone, CPRA, email: [email protected]; OLIVEIRA, Juliana, CPRA, email:
[email protected]; NEVES, Geraldo, email: [email protected]
Resumo
Este trabalho tem por objetivo relatar as experiências práticas adquiridas na elaboração e dos
preparados biodinâmicos desde 2006, no Centro Paranaense de Referência em Agroecologia –
CPRA, Pinhais, PR. A Agricultura Biológico-Dinâmica é uma das correntes de Agricultura de base
agroecológica que atende aos aspectos da sustentabilidade. No entanto, sua expansão junto aos
agricultores familiares tem sido tímida, em parte, fruto da idéia preconcebida de que seja de difícil
compreensão e execução. A elaboração dos preparados biodinâmicos no CPRA visa ampliar o
entendimento através da experimentação prática, simplificando processos, através de
adaptações, para posterior adoção por parte dos agricultores familiares.
Palavras-chave: Agricultura biológico-dinâmica, Antroposofia, agricultura biodinâmica
Contexto
O Centro Paranaense de Referência em Agroecologia – CPRA, localizado no município de
Pinhais, PR, foi criado em 2006 com a missão de promover e cooperar com ações de
capacitação, pesquisa, extensão e ensino nas áreas de Agroecologia, Agricultura Orgânica e
Educação Sócio-Ambiental. Desde a sua criação, o CPRA tem garantido espaço para a prática
das diversas correntes de Agricultura de base agroecológica, dentre as quais, a Agricultura
Biológico-Dinâmica. A Agricultura Biodinâmica, além de contemplar os diversos aspectos da
sustentabilidade, aporta princípios filosóficos postulados pela Antroposofia, que permitem um
crescimento espiritual do ser humano.
A despeito disto, tem tido pequena expansão no Paraná, o que pode ser atribuído, em parte, à
idéia de que a elaboração dos preparados biodinâmicos na propriedade é difícil, obrigando os
agricultores a adquiri-los constantemente, o que oneraria os custos de produção e geraria
dependência externa, tornando a atividade insustentável do ponto de vista econômico e social.
Para mudar este panorama, o CPRA passou a praticar a elaboração dos preparados biodinâmicos
e a divulgação dos resultados mediante capacitações de grupos de agricultores, técnicos,
estudantes, pesquisadores.
Descrição da Experiência
As experiências relatadas neste trabalho são fruto de observações feitas em grupos, baseadas
em erros e acertos durante oficinas e reuniões práticas envolvendo agricultores, estudantes,
professores e técnicos.
Dos preparados essenciais ao manejo biodinâmico, são produzidos no CPRA: P500, P501, P502,
P503, P504, P505, P506. Também vêm sendo produzidos outros preparados considerados
acessórios: Fladen, Esterco Líquido biodinâmico e Cinzas Dinamizadas.de Ervas espontâneas.
Resultados
P500 (chifre-esterco): a maior dificuldade é a identificação correta dos chifres de bovinos machos
e fêmeas. Usa-se esterco de gado fresco, que é colocado dentro de chifres de vacas alimentadas
exclusivamente a pasto, enterrados durante o inverno. (CORREIA-RICKLI, 1986). Em 2006 foram
usados 10 chifres. Em 2009, esse número foi de 34 chifres, incluindo chifres de búfalas. O
rendimento médio obtido é de 35 g de preparado seco por chifre. Em 2008 foram obtidos 775 g
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de P500 seco, volume suficiente para ser usado em aproximadamente 5 hectares.
P501 (chifre-sílica): usa-se cristal de quartzo, que é finamente moído em pilão de ferro,
peneirado, lavado para extrair as impurezas e colocado dentro de chifres de vacas (podem ser os
mesmos usados no P500). Os chifres são deixados em posição vertical por duas horas para
decantar e então retirar o excesso de água superficial. Depois, enterra-se os mesmos durante o
verão (CORREIA-RICKLI, 1986; STEINER, 1993; KOEPF et al., 1983). Em 2006 foram
enterrados 3 chifres, enquanto que em 2008, foram 32 chifres. Observou-se que a coloração do
preparado sofreu alteração durante o período em que esteve enterrado, passando de cinza
(antes) para vermelho-alaranjado (após), o que pode estar relacionado ao teor de ferro presente
na rocha. Em 2008 usou-se um imã para extrair as partículas de ferro presentes no material,
resultando em coloração mais clara.
P502 (Mil-folhas): a dificuldade de obter-se bexiga de cervo macho. Foi elaborado em 2008,
usando-se uma bexiga fresca, que foi inflada e deixada durante 3 meses, pendurada em local
ventilado. No mês de dezembro, a bexiga foi preenchida com flores frescas de mil-folhas (Achillea
millefollium L.) picadas, previamente colocadas em água morna. Depois foi novamente pendurada
para secar ao sol, até início de abril, quando foi enterrada durante o inverno (CORREIA-RICKLI,
1986; STEINER, 1993; KOEPF et al., 1983.
P503 (Camomila): tem-se usado tripas de gado secas, previamente reidratadas em água morna
com suco de um limão, cortadas em pedaços de 30 a 40 cm e viradas de forma a ficar com a
camada de gordura para fora. Estas são preenchidas com flores de camomila (Matricaria
chamomilla L.) secas e reidratadas em água morna, para facilitar a manipulação. As pontas das
tripas são amarradas com barbante e estas são colocadas para secar, penduradas em local
ventilado, à sombra, por uma semana e depois enterradas durante o inverno. (CORREIA-RICKLI,
1986; STEINER, 1993; KOEPF et al., 1983)
P504 (Urtiga): usa-se a urtiga (Urtica dióica), que apresenta boa adaptação às condições
climáticas da região. Anualmente, no mês de dezembro, colhe-se as plantas inteiras de urtiga,
que são amarradas em um feixe bem firme e enterradas num buraco, onde permanecem por um
ano. (CORREIA-RICKLI, 1986; STEINER, 1993; KOEPF et al., 1983)
P505 (Carvalho): a dificuldade está em obter-se a casca de carvalho-europeu (Quercus robur L.).
Esta é colocada dentro de um saco de pano, moída com uma marreta, depois umedecida e
colocada dentro de crânios de animais domésticos (ovinos, bovinos e eqüinos), sendo que o tipo
não alterou a qualidade do preparado. As caixas cranianas são enterradas em valeta com água
corrente e deixadas submersas durante o inverno. (CORREIA-RICKLI, 1986; STEINER, 1993;
KOEPF et al., 1983)
P506 (Dente-de-leão): a dificuldade se deve à identificação do dente-de-leão (Taraxacum
officinalle Weber), em função de existirem outras plantas semelhantes da mesma família. Em
2006 foram colhidas flores que geraram um preparado com cheiro forte e fétido, atraindo moscas
e indicando não ser a espécie correta. O P506 é elaborado com flores frescas ou secas
reidratadas, envolvidas por mesentério bovino, cortado em pedaços de 40 cm x 40 cm,
amolecidos em água morna e amarrados, formando trouxinhas, que são enterradas durante o
inverno (CORREIA-RICKLI, 1986; STEINER, 1993; KOEPF et al., 1983).
P507 (Valeriana): não elaborado devido à dificuldade adaptação da Valeriana officinallis L. às
condições climáticas da região. Em 2006 foram cultivadas 23 plantas que, durante o período de
floração, sofreram o ataque de pulgões e cochonilhas e definharam.
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Enterrio: as covas usadas para enterrar os preparados têm sido feitas 0,40 m largura x 0,60 m
comprimento x 0,40 m profundidade, em local drenado (CORREIA-RICKLI, 1986). Para reduzir as
perdas, coloca-se uma camada de telhas no fundo do buraco, sobre a qual é colocado o
preparado, que é coberto com outra camada de telhas, e por último com terra.
Armazenamento: quando desenterrados, os preparados são colocados sobre peneiras, em local
sombreado e ventilado para secar durante alguns dias. Depois são armazenados em potes de
barro, dentro de caixa de madeira, isolados por uma camada fibra de coco ou xaxim moído,
guardados em local escuro e seco. Apenas o P501 é armazenado em recipiente de vidro
transparente e colocado em local claro (CORREIA-RICKLI, 1986).
Fladen: dentro de um tonel com capacidade de 200 l, coloca-se 7 baldes de esterco de gado
fresco, 500 kg de pó de basalto e 200 g de casca de ovos. O conteúdo é dinamizado com pá de
corte de 40 a 60 minutos. Observou-se que o material altera a consistência durante o processo,
passando a formar uma massa uniforme e consistente. Isto se evidencia mais se o tempo de
dinamização for maior. Metade do conteúdo é então colocada dentro de uma caixa de madeira
(ou tonel de metal) sem fundo, enterrado a 30-40 cm de profundidade, coberta com tampa de
madeira e acrescenta-se os preparados de composto, sendo o P507 previamente diluído em água
morna, dinamizado por 15 minutos e aplicado com pulverizador ou regador. Depois adiciona-se o
restante do esterco e novamente P507. Cobre-se com a tampa e deixa-se curtir por 30 dias,
quando o conteúdo é revolvido e adiciona-se novamente os preparados de composto. Deixa-se
curtir por mais 30 dias. Em três anos consecutivos observou-se que o Fladen produzido no tonel
de metal apresenta textura friável, consistência homogênea, macia, com maior umidade,
enquanto o produzido em caixa de madeira é mais seco e apresenta textura grosseira, formando
bolas.
Esterco líquido biodinâmico: em 2006 comparou-se o esterco líquido com e sem a adição de
preparados de composto. Em dois tonéis de 200 l, encheu-se metade do conteúdo com esterco
fresco de gado, completou-se o volume com água, adicionou-se 0,5 kg de pó de rocha. No tonel
que recebeu os preparados, os mesmos foram colocados em trouxinhas de pano, suspensas por
barbantes e imersas na massa de esterco líquido. Por último, o P507, previamente dinamizado
por 15 minutos em água morna, foi aspergido sobre o material. O conteúdo dos dois tonéis foi
agitado diariamente com uma vara de bambu. Observou-se que no esterco líquido contendo os
preparados formou-se uma espuma espessa na camada superficial, não desprendendo mau
cheiro nem atraindo moscas. Ao contrário, o esterco líquido sem preparados não apresentou
espuma, exalava mau cheiro e atraía moscas.
Cinzas dinamizadas de ervas: obtidas mediante a queima de partes reprodutivas das ervas
espontâneas de maior incidência nas áreas de culturas. Cada espécie foi queimada
separadamente Assim, foram utilizadas sementes de papuã (Brachiaria plantaginea (Link) Hitch.);
plantas inteiras contendo rizomas de língua-de-vaca (Rumex obtusifolius L.) e losna-do-campo
(Ambrosia elatior L.) e tubérculos de tiririca (Cyperus rotundus L.). Dentro de um tonel de metal
fez-se uma pequena fogueira, na qual foram lançadas as partes reprodutivas de cada planta. No
final da queima as cinzas foram recolhidas, peneiradas e guardadas em recipientes para posterior
utilização. (CORREIA-RICKLI, 1986; STEINER, 1983)
Forma de Uso: as cinzas foram usadas tanto diretamente sobre o solo, como na diluição D8. Na
forma sólida, após uma hora de maceração em cadinho de porcelana, foram misturadas a 10 kg
de calcário ou cal, para aumentar o volume e facilitar a aplicação na área. Na forma líquida, foram
feitas diluições sucessivas na proporção de 1 parte de cinzas para 9 partes de água, agitando-se
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3 minutos, em movimento circular, obtendo-se a D1 e assim sucessivamente até a D8, que será
pulverizada sobre o solo em 3 tardes consecutivas, durante três anos consecutivos, na dosagem
de 50 a 60 l.ha-1 (CORREIA-RICKLI, 1986).
Dinamização: observou-se que o uso de água morna na dinamização produz um resultado melhor
do que a água fria, havendo maior dissolução do preparado e maior facilidade de obter-se o
vórtex (redemoinho). Quando o volume é pequeno, agita-se o recipiente. Se este for transparente
(plástico ou vidro), é possível observar-se o movimento da água e a formação do vórtex. Para
volumes maiores, a dinamização pode ser feita agitando-se o líquido mediante o uso de uma vara
ou vassoura suspensa por uma corda ao teto. Os recipientes utilizados são de vidro, madeira,
barro ou metal (centrífuga de mel adaptada) com as paredes pintadas de tinta esmalte.
Observou-se que a dinamização é um processo que altera as propriedades originais do líquido ao
longo do tempo, sendo tanto maior quanto mais prolongada. Nos primeiros 15 minutos, o líquido
apresenta um movimento caótico, não-sincronizado, que respinga gotas para fora do recipiente e
demanda mais energia para obter-se o vórtex, como se a resistência fosse máxima. À medida
que o tempo passa, aumenta a coesão do líquido, como que formando um corpo que obedece à
ordem dada pelos movimentos, apresentando mínima resistência ao ritmo imposto. No final de
uma hora de dinamização, o líquido apresenta-se uniforme, coeso, forma o vórtex ao menor
esforço e perde o mínimo conteúdo por respingos. Observou-se ainda que o movimento circular
do líquido produzido durante a dinamização tem seu centro de gravidade móvel, ou seja, além de
desenhar círculos concêntricos, o eixo vai desloca no mesmo sentido do movimento do líquido, ou
seja, o desenho obtido dos movimentos de dinamização respeita um padrão fractal.
Custo/benefício: o P500 e o P501 são os preparados fundamentais para o manejo biodinâmico e
os que promovem os resultados mais rápidos e visíveis. Por usarem materiais de fácil obtenção
no meio rural, todos os agricultores familiares podem produzir grandes quantidades, não sendo
necessária a sua aquisição. Os preparados de composto (P502 a P507) apresentam maior ou
menor grau de dificuldade na elaboração, conforme a disponibilidade local de seus insumos. Uma
forma de resolver estas dificuldades é a troca ou aquisição entre os agricultores. Neste caso, esta
pode ser feita em doses individuais ou através de kits contendo todos os preparados, que permite
produzir o Fladen, ferramenta importante de manejo biodinâmico para áreas extensivas,
pastagens e culturas perenes. Isto permite diluir os custos da aquisição, uma vez que um kit de
preparados biodinâmicos de composto é de R$ 75,00 e possibilita a elaboração de 75 kg de
Fladen, que por sua vez, pode ser usado numa área de 200 ha, o que representa de R$ 0,30 por
hectare.
Referências
CORREIA-RICKLI, R. Os preparados biodinâmicos: Introdução à preparação e uso. Botucatu:
Cadernos Deméter, 1986, n. 1, 63 p.
KOEPF, H.H.; PETTERSSON, B.D.; SCHAUMANN, W. Agricultura biodinâmica. São Paulo: Nobel,
1983, 333 p.
STEINER, R. Fundamentos da agricultura biodinâmica: vida nova para a terra. 7. ed. São Paulo:
Antroposófica, 1993, 240 p.
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