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Movimento institucionalista - Estudos e Pesquisas em Psicologia

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Movimento institucionalista - Estudos e Pesquisas em Psicologia
ARTIGOS
Movimento institucionalista: principais abordagens
Institutionalist Movement: main approaches
William Cesar Castilho Pereira *
Professor Adjunto III na PUC Minas. Professor do Curso de Mestrado em Psicologia do Instituto
Santo Tomás de Aquino - ISTA e do Instituto Santo Inácio - ISI.
Endereço para correspondência
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo explicitar as bases das experiências abarcadas pelo termo
“Movimento Institucionalista”, passando pela definição do conceito de instituição e por discussões
relativas ao processo de institucionalização. Por fim, analisam-se duas das diversas correntes
incluídas no Movimento Institucionalista: a Análise Institucional ou Socioanálise e a
Sociopsicanálise.
Palavras-chave: Movimento institucionalista, Análise institucional, Sóciopsicanálise, Psicanálise,
Materialismo histórico.
ABSTRACT
The present article has the goal of explaining the theoretical basis of experiences underlying the
term “Institutionalist Movement”. It starts discussing the concept of “institution” and the related
process of institutionalization. Finally it analyses two of the several trends of this Movement:
“Institutional Analysis” or “Social-Analysis” and “Social- Psychoanalysis”.
Keywords: Institutionalist Movement, Institutional Analysis, Social-Psychoanalysis,
Psychoanalysis, Historical Materialism.
ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, v. 7, n. 1, p. 10-19, abr. 2007
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Movimento Institucionalista: principais abordagens
O termo “movimento institucionalista” define uma série de teorias, práticas e experiências que
têm como premissa a autogestão e a auto-análise 1, objetivando impulsionar experiências
coletivas criadoras de novos saberes (BAREMBLITT, 1992). Podemos citar: análise institucional,
pedagogia institucional, psiquiatria democrática, sociopsicanálise, psicossociologia, esquizoanálise,
sociologia clínica, grupo operativo, educação popular e outros.
Ao invés de manter uma lógica identitária, esses movimentos buscam a lógica da diferença,
procurando desencadear rupturas objetivas e subjetivas em modos coagulados de experiências
institucionais, contrapondo à alienação a autonomia e a expressão da alteridade. Não se trata do
poder constituído e vertical, mas da concepção relacional do poder, que entende que o mesmo se
exerce por relações de forças, redes que se instauram em um espaço com multiplicidade de
pontos de resistência. A concepção relacional do poder significa também um poder difuso, sem
lócus privilegiado, como o Estado ou as classes dominantes. As formas de dominação não são
naturais nem contratuais, mas construídas como estratégias sobre a ação dos outros, e
determinadas historicamente (FOUCAULT, 1990, p. 29). Assim, novos atores, antes excluídos,
emergem no cenário da vida comunitária. Diferentes espaços são criados e ganham nova ordem
de significados.
O que é instituição?
O conceito de instituição, que acompanha a sociologia desde o seu nascedouro, encontra abrigo
em diferentes correntes, não somente neste campo disciplinar como em outros, tais como a
antropologia, as ciências políticas e a filosofia e, mesmo no interior desses campos, tem sido
empregado em sentidos muitos diversos, em aportes teóricos os mais distintos.
Não se pretendendo neste artigo esgotar a discussão sobre o tal conceito, tomar-se-á aqui, como
ponto de partida para a discussão que se empreende, a concepção de G. Baremblitt, que, de
forma concisa e clara, aponta que
as instituições são lógicas, são árvores de composições lógicas que, segundo a forma e o grau de
formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas e, quando não estão enunciadas de
maneira manifesta, podem ser pautas, regularidades de comportamentos(BAREMBLITT, 1992,
p.27).
As instituições são instâncias de saber que permitem a todo tempo recompor as relações sociais,
organizar espaços e recortar limites. A despeito de sua forma virtual, imaginária e simbólica, não
estão desvinculadas da prática social. Cada sociedade, segundo o modelo infraestrutural a que
obedece, cria um tipo de instituição, que será mantida e sustentada em todos os níveis, do Estado
à família, Igreja, escola, relações de trabalho, sistema jurídico, etc.
Quando há uma prevalência do instituído, as instituições e seus estabelecimentos capturam os
processos de subjetivação singulares, impondo-lhes seu próprio modelo através da centralidade
do poder, do saber, do dinheiro, do prestígio, da disseminação da culpa. Por outro lado, quando
as forças instituintes emergem, tem-se a possibilidade da produção de novos agenciamentos,
novas composições e arranjos próprios de subjetividades livres e desejantes.
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Por que nos instituímos? Essa é uma lei geral, presente em qualquer processo civilizatório.
Acontece que nós, humanos, somos ruptura, salto da natureza para a cultura. Somos, sim,
animais, mas animais políticos - zoon politikon -, tendo que criar as Leis da polis. O animal,
através do instinto, obedece integralmente à relojoaria cósmica. Segundo a concepção de sujeito
da Sociopsicanálise, tributária da psicanálise freudiana, a cultura é um esforço humano para
lançar pontes sobre o abismo. É preciso produzir a partir da falta. Busca-se, pelo trabalho e pela
linguagem, organizar o mundo social, humano e a natureza. Esse trabalho de criação e
metamorfose lingüística ocorreu com a sexualidade humana, que é regida pela pulsão. O objetivo
da pulsão é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional, o inconsciente. A pulsão não
tem objeto fixo, como os instintos. Os objetos pulsionais têm de ser “encontrados”. A pulsão não
traz, em si mesma, uma harmoniosa garantia de ordem. Para que o desejo possa servir à espécie
humana e ao esforço civilizatório, ele precisa ser institucionalizado. O Édipo - descoberta nuclear
de Freud - é a gramática do desejo e da lei que constitui relações de parentesco e possibilidades
de aliança entre os grupos humanos. Assim, em todas as instituições presenciamos os
atravessamentos edípicos com seus inevitáveis sintomas: independência e dependência, liberdade
e recalcamento, consciência e alienação.
Os seres falantes criam as instituições, visando à diminuição do estado de desamparo, inerente à
condição humana. Espera-se que as instituições criem estruturas razoáveis de apoio para
apaziguar as sensações de caos absoluto e destrutividade das relações. As grandes formações
culturais têm como função proporcionar, num mundo feito de linguagem, estruturas de apoio para
esses seres desgarrados da natureza.
Quando a estrutura institucional põe-se a serviço não do desejo, mas de privilégios, antiprodução
e iniqüidades, ela degrada-se, perde seu sentido original e transforma-se num instrumento
destruidor de liberdades democráticas. A instituição desvirtuada de seu propósito trabalhará para
o avesso da liberdade: a servidão. As grandes instituições e organizações geralmente temem a
união dos participantes, percebendo-os como possível força de resistência. As fantasias
inconscientes institucionais acreditam que a união entre os membros pode destruir a instituição.
Isso é freqüente em instituições totais e constituídas de autoridades despóticas. A imposição
unilateral de normas rígidas pode sacrificar, em nome de uma identidade narcisista, a própria
razão de ser comunitária, que são as pessoas com seus desejos.
A trama dialética entre instituinte, instituído e de institucionalização faz com que ela seja
realidade inacabada, projeto em construção. O instituinte não deve ser pensado como força que
resulta em instituído, mas como relação de forças permanente, que comporta tanto o poder como
as singularidades de resistência e produção de novos sentidos. Nas bordas do espaço instituído,
debate-se o espaço instituinte, não previsível e inexato. Por isso, a instituição não pode ser
compreendida somente como algo conservador, sem movimento contrário, face do instituído. O
instituinte sobrevive encoberto no seio de toda instituição através de seu germe transformador, o
desejo, iceberg do qual só vemos a ponta aguda, cuja parte submersa é uma potência energética.
Há nas instituições silêncios impostos e consciências caladas, em que a autoridade determina as
condições e os parâmetros da comunicação. O rompimento desse silêncio contribui para o
desmoronamento de restrições, obstáculos que vêem à tona e podem tornar-se reveladores da
estrutura institucional e daquilo que chamamos “não saber”, no sentido do desconhecido, do
censurado pela força violenta do instituído.
Basicamente, as instituições funcionam sob a heterogestão, ou seja, geridos por outrem, por um
“grande chefe”. Ao contrário, o movimento institucionalista busca princípios básicos de autogestão
e auto-análise. O axioma fundamental da autogestão é a igualdade de direito e de desejo. Crê-se
na autonomia dos grupos, calcada na participação, no saber, na experiência particular,
estabelecendo assim formas próprias de se manter, dirigir, criticar (auto-análise). O trabalho
autogestivo é acompanhado do prazer coletivo da criação, sem patrão e capataz que gozam
sozinhos e narcisicamente. O sistema de autogestão implica opção política e escolha livre dos
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atores sociais, mudança radical das relações de poder, saber, prazer e prestígio. Portanto, não se
trata simplesmente de destruir o poder centralizado, mas de resgatá-lo para os grupos. Não se
entende o sistema autogestivo como um lugar onde a lei esteja ausente. A lei nesse sistema
também é autogerida, visa ao direito de desejar. Ela é a grande avalista do desejo, não podendo
ser entendida no sentido de coibir: ao contrário, ela é a garantidora da participação dentro dos
grupos - a lei tomada como dispositivo político.
Na história dos grupos populares no Brasil, esses ideários estiveram sempre presentes, ora de
forma indizível, ora visível. Essa potência jamais necessitou de agências clássicas ou de um
suposto saber a conferir-lhe autoridade para deflagrar movimentos revolucionários, dando-lhe voz
e legitimidade. Entre rosários de crises e acontecimentos inesperados, foram sempre capazes de
emergir e ameaçar a sociedade. O processo de análise em instituições gera acontecimentos ou
forças potenciais que se apropriam de reservas conscientes e inconscientes, abrindo fissuras para
que o desconhecido venha à tona e seja elaborado. A palavra é condição imprescindível para que
esse processo de novas representações aconteça.
Saberes e práticas institucionalistas
Ao longo do tempo, o Movimento Institucionalista tem recebido contribuições teóricas e práticas
de diversos segmentos populares e acadêmicos.
No campo da religião cristã, são inúmeras as vocações orientadas por uma Utopia Ativa, como a
experiência comunitária dos primeiros cristãos e a vida religiosa mendicante. Esses ideais estão
também presentes nos princípios do Vaticano II, nas três Conferências Latino-Americanas e na
Teologia da Libertação.
No campo da filosofia, vários autores influenciaram esse movimento desde os primórdios da
filosofia grega, com os Pré-socráticos, Sofistas, Helenistas, Epicuristas e Estóicos. Da filosofia
moderna, o institucionalismo inspira-se no Racionalismo Espinoziano, em Nietzsche, Bergson,
Marx, Moro, Rabelais, Fourier e Bakunin.
Na área educacional, o institucionalismo encontra pensadores que propuseram práticas inventivas
e introduziram o paradigma educativo denominado “Escola Nova”. Foi a Escola Nova que levantou
mais alto a bandeira da autonomia na instituição de educação. Na perspectiva de uma escola
crítica e compromissada com as classes populares, está presente a concepção de institucionalismo
como ponto convergente das instâncias econômicas, culturais, sociais, políticas e ideológicas.
Nessa linha, a partir da década de 50, também estão diversos intelectuais brasileiros, como P.
Freire, A. Teixeira, D. Ribeiro, M. Gadotti, D. Saviani, M. Tragtenberg e C. Brandão.
Após a Segunda Guerra, tomou corpo uma nova cultura na área da saúde mental. Nessa época,
forças de intelectuais, usuários do sistema manicomial, familiares e setores populares mobilizamse no debate sobre o significante “loucura”. Em suas reivindicações pela democratização de
direitos e pela autonomia no enfrentamento de uma nova política pública no setor da saúde
mental, o movimento denominado “antipsiquiatria” transportou do espaço privado para o público
o debate sobre a loucura e seus desdobramentos na sociedade. No Brasil, a antipsiquiatria tomou
corpo a partir de profissionais vinculados a instituições, sindicatos, conselhos e organizações de
saúde.
Também se alinha aos princípios do Movimento Institucionalista o amplo espectro dos novos
movimentos sociais. Novos sujeitos, antes reprimidos ou desconsiderados socialmente, ganham a
condição de atores: mulheres, gays, negros, índios, favelados.
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Analisemos agora duas das diversas correntes incluídas no Movimento Institucionalista: a Análise
Institucional ou Socioanálise e a Sociopsicanálise.
Análise Institucional ou Socioanálise
A Análise Institucional ou Socioanálise é uma das modalidades do Institucionalismo mais
difundidas no Brasil. Protagonizada por René Lourau e Georges Lapassade a partir da década de
60, surgiu como um prolongamento da Terapia Institucional, da Pedagogia Institucional, da
Filosofia, da Sociologia Política e da Dinâmica de Grupo americana de Kurt Lewin. Direcionou-se
em seguida para a análise de grupos sociais (e não de indivíduos).
Trata-se de uma análise sustentada pelo coletivo, que assume a tarefa de pesquisar, questionar e
analisar a história, os objetivos, a estrutura e o funcionamento da organização, além dos
dispositivos, práticas e agentes grupais. No contrato de trabalho, os participantes comprometemse a tudo dizer, sem recear os “não-ditos” da instituição. Assim, a Socioanálise tem como objetivo
ultrapassar a psicossociologia grupal e a sociologia das organizações, ao analisar as
determinações ocultas dos grupos, tendo como protagonista o próprio coletivo. O papel do
analista consiste em auxiliar a elucidar os conteúdos adormecidos, a fim de, na medida do
possível, expor o material oculto, a partir do que os analistas institucionais denominam
“dispositivos analisadores”, os quais podem ser divididos em duas categorias: construídos e
espontâneos. Construídos são os dispositivos analisadores criados pelo analista e o coletivo para
deflagrar o processo de análise: o resultado de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, a exibição
de um filme, um psicodrama, etc. Espontâneos, por sua vez, são os fenômenos que fazem parte
do cotidiano das organizações institucionais: os fundadores, a missão, o poder, o dinheiro, a
sexualidade, a burocracia (leis, normas, regulamentos e constituições), a corporeidade, as
práticas do estabelecimento.
A principal fonte de coleta de analisadores concentra-se na pesquisa da história da instituição. O
interesse pela análise do material histórico embasa-se na premissa de que reconstruir o passado
auxilia na compreensão de como o mesmo está vivo e atuante no presente e, desde já,
determinando o futuro. O levantamento de dados históricos faz parte do modelo de pesquisa-ação
ou pesquisa participante: constrói-se de maneira democrática, porque o pesquisador faz com que
os sujeitos se transformem em protagonistas do saber. Utiliza-se a autogestão e a auto-análise:
os membros do grupo não recebem do exterior um saber, mas são provocados a tomar
consciência do que são e, sobretudo, de suas potencialidades.
Um dos aspectos relevantes da Socioanálise é que a equipe de analistas institucionais faz parte do
processo. Existe também para ela certo desconhecimento de como as características gerais do
sistema incidem no trabalho coletivo realizado; a isso se chama “análise da implicação”
(BAREMBLITT, 1992). Na ocasião de intervenção, a equipe de analistas deve examinar também
seus próprios conflitos e contradições.
Os sujeitos são vítimas de um desconhecimento das leis que regem a instituição e de um
doutrinamento por parte das classes dominantes. “Cada coletivo de uma organização está
alienado no não-saber, no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando”
(BAREMBLITT, 1992, p.80). No processo de intervenção, busca-se criar dispositivos para que esse
“mal-dito” seja descoberto em “bem-dizer” e, assim, ser reestruturado.
Os socioanalistas organizam a “subversão” (outra versão) da instituição com a ajuda da palavra e
da participação dos membros. Podemos dizer, de acordo com Lourau (1993), que a Análise
Institucional tem forças de teor instituinte e entra, portanto, em contradição com o já instituído,
produtor de uma imobilidade a ser quebrada com a intervenção. Portanto, o que a Socioanálise
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propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta, exaustivamente, os
analisadores, visando ao processo de auto-análise e autogestão.
A Sociopsicanálise e suas bases teóricas
A Sociopsicanálise foi criada por G. Mendel (1974), baseada nas teorias psicanalíticas de Sigmund
Freud e no Materialismo Histórico de Marx e Hegel, ampliando assim o universo de investigação
da escola analítica freudiana, antes limitada à esfera das representações psíquicas, estendendo-a
para o campo das relações entre classes no seio das instituições.
Mendel vai chamar de “classe institucional” a um conjunto de pessoas responsáveis, na
instituição, pelas relações sociais de produção e que possuem diferentes graus de influência sobre
ela. As posições de liderança e de cada um dos liderados, longe de representar uma relação
neutra, estabelecem vínculos de poder, saber, prestígio, como também seu oposto: domínio,
ignorância, descrédito.
Essa questão relaciona-se ao modelo patriarcal que, muitas vezes, atravessa a vida organizacional
das instituições, produzindo subjetividades de servidão voluntária. A Sociopsicanálise pretende
analisar os efeitos da prática da centralização do poder, do silêncio sagrado, da culpabilidade, do
medo, da dispersão e da antiprodução e, conseqüentemente, da redução do espaço político. A
proposta é animar nos grupos a reivindicação de seus desejos, para que não haja falsa
predominância de uns sobre outros. A capacidade de questionar e negociar mobiliza a mudança,
pois escolhas antes arbitrárias e concentradas nas mãos de poucos passam a ser discutidas em
escala maior, a fim de proporcionar participação de todos. Quando a classe institucional
conscientiza-se do campo do político, do conflito de interesses presente na instituição, há um
movimento de inovação. Por outro lado, quanto mais os sujeitos se sentem despossuídos de
poder, mais apresentarão fantasias regressivas e arcaicas, em um retorno do recalcado.
Conceitos psicanalíticos, assim como o materialismo histórico de Marx, foram utilizados e
reelaborados nessa concepção. Apesar das diferenças, ambos apresentam o conflito como
condição fundamental da realidade, e nisso repousa a justificativa de Mendel para a articulação do
psíquico com o sociológico, fazendo da Sociopsicanálise uma interseção de campos que culmina
com a análise do poder nos fenômenos institucionais.
A psicanálise, modelo desenvolvido a partir do séc. XX, transformou radicalmente o pensamento
ocidental sobre o homem. A razão pura, considerada pela ciência como único método capaz de
levar o homem à verdade, foi desalojada de seu lugar, em favor do inconsciente. O Ser não mais
estaria ao alcance, mas submerso em algo estranhamente preponderante. O complexo de Édipo,
núcleo das relações humanas, tornou-se referência nas teorias que utilizam modelos freudianos.
Em torno da proibição ao incesto, toda a civilização seria erguida, mas a realização de desejos
incestuosos continuaria a ocorrer nas fantasias inconscientes. O ser humano permanece ligado a
estádios preliminares da organização sexual, fazendo com que não se efetue por completo a
ordem social imposta a seus desejos. A doença neurótica diz do impasse do sujeito, frente ao
retorno daquilo que apresenta perigo para a consciência.
As instituições constituídas em torno de figuras de autoridades mitificadas, estabelecem fusão
entre seus componentes e alimentam-se das pessoas que lhe são confiadas. Assumindo um lugar
de onipotência, elas impedem que haja espaço para a disfunção, a desterritorização e a
singularidade. Anula-se a figura da Lei simbólica, que media os sujeitos e permite que o desejo
apareça. Tem lugar a lei tirânica: a autoridade muitas vezes encarna-se num agente que se
identifica narcisicamente à instituição. O discurso institucional passa então a exigir
comportamentos e atitudes de extrema fidelidade e coesão. Qualquer movimento de consciência
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crítica e alteridade é lido como traição e retaliação aos membros do grupo. Estes, não
suficientemente autônomos, tornam-se capturados por essa figura e desintegram-se em
sentimentos de terror e culpa. O processo a que o modelo paternalista submete os sujeitos faz
regredir a dimensão do político, permitindo aos setores conservadores institucionalizar a mudança
e capturar as forças vivas em estruturas e normas organizacionais burocráticas e rígidas.
Participantes de um grupo depositam no líder toda a onipotência possível, potência imaginária
com que tentam sanar suas impotências reais. A Sociopsicanálise objetiva que todos participantes
assumam politicamente a produção da tarefa, tomando o lugar de sujeitos autônomos.
As instituições sociais adoecem por um modo de relacionamento ultrapassado e excessivo, que
insiste em ocultar a dimensão política existente nessas relações. A proposta da Sociopsicanálise é
desvencilhar os vínculos humanos desses excessos, a fim de inscrever sujeitos autônomos num
sistema de relações atuais, de cuja vida possam participar, ter poder e saber e obter prazer.
A leitura marxista analisa a sociedade moderna através da expansão da divisão do trabalho e suas
formas de alienação, por um lado, e do surgimento dos que possuem os meios de produção e o
grupo do proletariado, por outro. Para compreender os fenômenos da divisão de classe e da
alienação, Marx estudou como as sociedades são produzidas historicamente pelos cinco modos de
produção: comunidade primitiva, escravagista, feudalista, capitalista e comunista. Verificou que,
historicamente, uma sociedade sempre começa pela divisão do trabalho, que organiza as relações
sociais instituídas a seguir.
Na luta pela sobrevivência, os humanos agrupam-se para explorar os recursos da natureza e
dividir as tarefas de homens, mulheres, jovens, crianças. Surge a primeira instituição: a família e
seu sistema hierárquico. Com as famílias e a troca de seus produtos entre si, nasce o comércio e
a propriedade privada. Da conquista de terras e do subseqüente produto da colheita e da criação
de gado produz-se o excedente, maior quantidade de produtos extraídos por um determinado
grupo em detrimento de outro. Vários grupos detentores do excedente passam a se impor, e
instala-se uma terceira instituição social: o trabalho servil, que desemboca na escravidão. A partir
daí, os mais ricos unem-se e decidem controlar o conjunto de famílias, meios e relações de
produção, força de trabalho, fundando a quarta instituição social: o poder político, de onde advirá
o Estado como conjunto de leis, grande avalista da classe dos possuidores, que utilizarão formas
alienantes para explorar, dominar e criar em torno de si símbolos que visam perpetuar seu poder.
Assim, a classe possuidora apropria-se não só da divisão social do trabalho, da troca, dos bens,
das armas, da religião, mas sobretudo do prazer e do poder político. Esse fenômeno, denominado
alienação, é sustentado pela ideologia hegemônica, centrada nas mãos de poucos em detrimento
de muitos. Para Marx, a alienação não é um conceito abstrato, pois se manifesta na divisão do
trabalho, no surgimento da propriedade privada, na posse exclusiva do excedente por uma
determinada parcela através da economia de troca e, por último, na sociedade moderna, onde o
produto do trabalho deixa de pertencer ao trabalhador, criando a cisão entre sujeito e objeto,
num processo de reificação do trabalhador com o fetichismo da mercadoria: “o trabalhador tornase um bem ainda mais barato do que aquele que produz. A desvalorização do mundo humano
aumenta em proporção direta à valorização do mundo das coisas” (MARX, 1974, p.63). A
mercadoria faz com que o valor de troca torne-se superior ao valor de uso e determine as
relações entre os homens. Privilegiam-se as relações entre coisas, que vão definir relações entre
pessoas. Com isso, a mercadoria assume formas (o dinheiro, o capital) que se convertem em
realidades soberanas e tirânicas. Logo, a “humanização” da mercadoria leva à desumanização do
homem, à sua coisificação, reificação (do latim res, “coisa”), sendo o próprio homem
transformado em mercadoria (sua força de trabalho tem um preço no mercado).
Para Marx, há duas fontes relacionadas à alienação: o processo de trabalho e a relação entre
trabalhador e produto. A primeira é determinada pela fragmentação do trabalho em tarefas
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rotineiras, desinteressantes e sem possibilidade de simbolização e prazer. A segunda diz da
sustentação da divisão de classes.
Paira sobre nós uma estrutura institucional perversa, cujo poder alojou-se dentro dos tecidos
psico-libidinais, sócio-culturais e econômico-políticos, tornando, assim, possível um elevado nível
de controle imperativo sobre os seres humanos e, conseqüentemente, uma forma social anômica.
Este é o modelo da sociedade moderna, que tenta ao máximo mascarar a arbitrariedade do
desejo de uma determinada classe hegemônica. Em toda estrutura perversa existe lei, mas o
perverso não conhece outra lei que não seja a de seu próprio desejo. O sistema capitalista nega o
limite, pois cada indivíduo pode, se for o mais forte, competitivo e brilhante, tudo obter. O
perverso precisa do Outro, pois ele não existe sem parceiro, com quem estabelece um contrato
em que existe uma cláusula implícita: “não se conhece outra lei que não seja a lei do meu
desejo”. Nessa concepção, é imanente ao capitalismo o controle dos meios de produção (o
excedente) por parte de uma classe e a existência de uma classe subordinada de trabalhadores
que nada possuem, nada têm e nada são (alienação).
Essa estrutura permite ao sistema capitalista aumentar ao máximo a produção de bens às custas
de um pesado sacrifício: a alienação de si e do outro. Assim, a sociedade industrial, tecnológica e
burocrática controla os indivíduos com a força do poder econômico. O homem, nesse modo de
produção, sente-se impotente e fragilizado pela alienação que subordina indivíduos,
transformando-os em repetição.
Há uma regressão do político ao psíquico, quando as classes não se podem desenvolver em sua
amplitude, quando seus membros não conseguem definir sua identidade pelo conflito interno.
A metodologia da sóciopsicanálise
Embasado nas teorias psicanalítica e do materialismo histórico, Mendel propõe uma análise da
instituição a partir das relações de poder entre classes. Ampliando o universo da escola freudiana,
antes limitado à esfera das representações psíquicas e suas derivações somáticas, o autor aplica-a
às relações de dominação no seio das instituições.
As classes sociais agrupam-se de acordo com o papel que cada indivíduo exerce no processo de
produção e as instituições repetem esse posicionamento. Formam-se, assim, as classes
institucionais, organizadas em relação ao poder. Há entre elas uma hierarquia e uma exigência
interna de se obter maior poder, começando no âmbito da própria classe e seguindo pela
hierarquia como um todo, no que Mendel chama “pulsão de exigência de poder de classe
institucional”. Essa situação conflituosa interclasses e interinstitucional é inscrita no sentido de
uma frustração dupla: não ter poder em sua totalidade e não “vencer” as “classes antagônicas”.
Há uma regressão do político ao psíquico, quando as classes não podem se desenvolver e não
conseguem criar sua identidade pelo conflito interno.
A dependência no mundo do trabalho é vivenciada como uma reedição da situação familiar
primária, levando a um refúgio nos processos primários inconscientes. Alguns sintomas comuns
são inibição afetiva, bloqueios intelectuais, boicotes, absenteísmo, acidentes de trabalho, brigas,
falta de comunicação, centralização de poder, de saber e prestígio. Há sintomas mais graves,
como somatizações, delírios e toxicodependências.
Quando as relações de poder no seio de uma organização são vividas de acordo com o modo
familiar, geram sentimentos de impotência. Instala-se, então, uma lógica do inconsciente que
tende a substituir aquela que se baseia nas relações de produção capitalistas, resultando daí uma
série de comportamentos comprometidos, como alienação, exploração e dominação.
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A sociopsicanálise toma como objeto de estudo um grupo no interior de um estabelecimento,
buscando fazer com que esse grupo tome consciência de seu lugar. Sua intervenção caracterizase por uma série de assembléias coletivas, nas quais o grupo de intervenientes deixa falar o grupo
em análise. As reuniões são gravadas e escutadas pelo grupo dos sociopsicanalistas, inclusive os
que delas não participaram, sendo as gravações posteriormente analisadas. As interpretações
feitas a partir daí são devolvidas ao grupo-cliente.
Para a sociopsicanálise, é importante considerar a existência do ser psíquico e do ser social nos
indivíduos e no coletivo. O papel do sócio-analista consiste em perceber sintomas e suas relações
com a opressão entre as classes, trabalhando através da fala para que a dimensão política não
seja substituída pelo viés psicofamiliar.
Considerações Finais
O movimento institucionalista, embora abranja um amplo campo teórico e pratico, é o saber
intersticial a sua marca principal, isto é, propostas que não se fixam, não se atêm a dogmas, mas
se constituem em proposição permanente, contando com dispositivos inéditos, fluidos e
desenquadrados, visando, operativamente, à autogestão das organizações. Neste artigo,
enfocamos duas correntes do movimento institucionalista: a análise institucional ou socioanálise e
a sociopsicanálise.
A Análise Institucional é um procedimento coletivo, que visa realizar análise dos integrantes de
uma organização, as relações, as estruturas, as atitudes, as convenções e as práticas habituais. O
papel do coordenador, analista institucional, é propor o surgimento do “não-dito”. Para isso, é
necessário criar “dispositivos analisadores” históricos, espontâneos e naturais. Os analistas
organizam a “subversão” (outra versão) da instituição com a ajuda da palavra, dos dispositivos
analisadores e da participação dos membros. De acordo com Lourau (1993), a Análise
Institucional tem forças de teor instituinte e entra, portanto, em contradição com o já instituído,
produtor de uma imobilidade a ser quebrada com a intervenção. Há uma íntima e imediata relação
desses dispositivos analisadores com a consecução do processo de auto-análise e autogestão. Já
que os membros do grupo assimilam um saber hegemônico sobre suas vidas, tomam consciência
do grau de alienação que estão submetidos e produzem um novo clima político de gestão e
administração de suas próprias organizações.
A Sociopsicanálise é uma proposta de intervenção que toma a psicanálise e o materialismo
histórico como referênciais teóricos. Os indivíduos de uma organização, desapossados de poder,
vêem-se submetidos a um esquema regressivo, infantilizado e extremamente culpabilizados pela
figura mítica da autoridade. Tais relações promovem uma regressão do político ao psicoafetivo, ou
seja, ao império do modelo psicofamiliar. A leitura marxista utilizada pelo autor, por sua vez,
analisa a sociedade moderna através da expansão da divisão do trabalho e suas formas de
alienação, por um lado, e do surgimento dos que possuem os meios de produção e o grupo dos
despossuídos, por outro. Desse modo, Mendel estabelece um diálogo entre a psicanálise e o
materialismo histórico, sinalizando como as instituições utilizam-se do desamparo fundamental
dos sujeitos por meio de alienação, divisão do trabalho, exploração e mitificação da relação
hierárquica. O modo próprio de intervir da Sociopsicanálise é o que Mendel vai chamar de “classe
institucional”, ou seja, a responsabilização dos indivíduos na instituição pelas relações sociais de
produção. A intervenção sociopsicanalítica se apresentaria como um meio de analisar os processos
regressivos que impedem o funcionamento da dimensão do político na instituição.
Alguns pontos são importantes para ambas: as assembléias, a autogestão e a autoanálise.
Particularizá-las, no entanto, é importante em alguns aspectos, buscando não cair no engodo de
segmentá-las fixamente em correntes estanques. Em linhas gerais, talvez possamos arriscar dizer
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que a Análise Institucional é mais revolucionária em seu processo, enquanto a sociopsicanálise é
mais moderada nas transformações que propõe. Como ponto comum, ambas reúnem-se sob a
égide da palavra como possibilidade para a instituição e seus membros.
Referências Bibliográficas
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Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos, 1992.
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______. O capital. Crítica da economia política. v. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
MENDEL, G. Sociopsicoanálisis 1 e 2. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974.
Endereço para correspondência
E-mail: [email protected]
Recebido em: 21/03/2006
Aceito para publicação em: 12/03/2007
Notas
*
Psicólogo Clínico. Analista Institucional. Doutor pela UFRJ.
Para maior compreensão acerca dos conceitos de auto-análise e autogestão, sugiro a obra de G.
Baremblitt, em especial, o Cap. I do Compêndio de Análise Institucional de outras correntes:
teoria e prática, p.17-18.
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