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“o que os outros irão pensar?”: discussões

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“o que os outros irão pensar?”: discussões
“O QUE OS OUTROS IRÃO PENSAR?”: DISCUSSÕES DOCENTES SOBRE
GÊNERO E PROFISSIONALIZAÇÃO
Osmar Arruda Garcia1
Resumo: Esta comunicação faz parte de minha pesquisa de mestrado, que tem como tema a
formação docente em gênero e diversidade sexual. O objetivo geral da minha pesquisa é
compreender o modo como uma política específica de formação continuada docente, na perspectiva
do gênero e da diversidade sexual, é apropriada por professores (as) de escolas públicas,
averiguando suas possíveis contribuições para o enfrentamento da negação e do silêncio impostos a
essas temáticas. O objeto da investigação é o curso “Gênero e Diversidade na Escola” (GDE),
realizado no polo de Jaú (SP), nos anos 2009-2010. Essa comunicação privilegia um recorte da
minha investigação. Pretende-se, nesse recorte, analisar um debate ocorrido entre os dias 6 e 16 de
setembro de 2009. O debate sucedeu em um fórum da plataforma online (Moodle), intitulado “Caso
1 – Unidade 1”, do módulo “Gênero”, no qual os (as) cursistas discutiram um exemplo de caso
sobre gênero e profissionalização. Dessa forma, busca-se, nesta comunicação, discutir sobre as
percepções dos (as) docentes, a partir da apresentação do exemplo de caso e quais as contribuições,
que segundo eles (elas), os (as) professores podem dar, em sala de aula, a fim de cooperar com a
melhoria da equidade de gênero.
Palavras chave: Profissionalização. Gênero. Educação.
As assimetrias de gênero e o trabalho
É notório, em nossa sociedade, que há expectativas sociais que envolvem desde as maneiras
de se comportar (andar, falar, vestir,...) até as maneiras de se relacionar no trabalho e os modos
como tais atividades são realizadas. Isso devido a uma “crença” na inferioridade das mulheres, que
foi construída através de um longo processo histórico, ou seja, por meio da cultura, as relações
sociais de poder entre homens e mulheres foram historicamente produzidas. Contudo, essas
diferenças não decorrem daquelas contidas na anatomia de seus corpos. Pois, como afirma Dagmar
Elisabeth Estermann Meyer (2009) pode se considerar que as diferenças entre os homens e as
mulheres são uma construção social e cultural, que foram produzidas discursivamente e, portanto,
não são biologicamente determinadas.
Nos anos 1970, houve uma busca – por parte das feministas e teóricas de gênero – com o
intuito de diferenciar a dimensão biológica da dimensão social no que se refere às relações entre
homens e mulheres. Para isso partiu-se da premissa de que, na espécie humana, há machos e
fêmeas, mas a maneira de se portar, estar e se colocar no mundo, assim como interpretá-lo, enfim de
ser homem ou mulher, é concretizada pela cultura. Para a teoria de gênero todas essas diferenças
foram construídas histórico-socialmente a partir do sexo biológico. Portanto, gênero pode ser
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Professor de Educação Básica - Prefeitura de Rio Claro/SP e Mestrando em Educação da Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo (FEUSP).
1
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
percebido como a construção social da diferença sexual, assim como uma forma primária de atribuir
sentido as relações de poder (SCOTT, 1995).
Todas as formulações do conceito de gênero contribuem e se entrelaçam a uma luta política,
na qual as mulheres buscavam alterar a sua posição de subalternidade perante os homens. É
possível, portanto, identificar duas vertentes existentes no movimento de mulheres daquela época.
Uma vertente sufragista, que buscava que as mulheres tivessem os mesmos direitos ao voto que os
homens e outra liberal, cuja busca se dava mais pela ruptura com a norma heterossexual, o controle
do corpo, o direito ao aborto, a maternidade como uma escolha e a crítica a família (GONÇALVES,
2010). Entretanto, como exposto no parágrafo anterior, nesse texto, predomina a ideia de que o
gênero é uma construção social da diferença sexual e está estreitamente imbricado com as redes de
poder. E essa construção atravessa as discussões sobre a divisão sexual do trabalho, obviamente.
Pois, “se observarmos com atenção, veremos que a distribuição de homens e mulheres no mercado
de trabalho e as desigualdades decorrentes podem ser socialmente compreendidas e atribuídas às
assimetrias de gênero2” (CLAM, 2009, p. 40).
Embora a divisão sexual do trabalho tenha sido tema de muitos trabalhos em diversos países,
foi na França dos anos 1970 que surgiu uma onda de muitas pesquisas relacionadas ao tema. Essa
onda foi impulsionada pelo movimento feminista, e por meio dos trabalhos realizados se
assentariam as bases teóricas desse conceito (HIRATA, KERGOAT, 2007). Segundo Helena Hirata
e Danièle Kergoat (2007) o movimento feminista na França se dispôs a repensar o trabalho, elas
observam que havia no país um projeto coletivo que serviu como base para a aparição do termo
divisão sexual do trabalho com uma ambição maior do que denunciar as desigualdades. Partia-se,
portanto, da ideia de que a ocupação doméstica também era um “trabalho” e dessa forma a
definição do termo deveria obrigatoriamente incluir o serviço doméstico.
Na França aplicam-se duas acepções para a divisão sexual do trabalho. Na primeira estudase a distribuição de homens e mulheres no mercado de trabalho, e como essa distribuição varia no
tempo e espaço, analisando “como ela se associa à divisão desigual do trabalho doméstico entre os
sexos” (Hirata, Kergoat, 2007, p. 596). Já na segunda acepção a utilização do termo divisão sexual
do trabalho possibilita mostrar que as desigualdades são sistemáticas e permite articular a descrição
da realidade refletindo sobre os processos pelos quais a diferenciação que hierarquiza as atividades
na sociedade são utilizadas para criar um sistema de gênero (HIRATA, KERGOAT, 2007). Para as
autoras a divisão sexual do trabalho
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Desigualdades de oportunidades, condições e direitos entre homens e mulheres, gerando uma hierarquia de gênero
(GDE, 2009, p. 43).
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[...] é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos;
mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os
sexos. Essa forma é modulada histórica e socialmente. Tem como características a
designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e,
simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social
adicionado (políticos, religiosos, militares etc.) (HIRATA, KERGOAT, 2007, p. 599).
Elas ainda identificam que há dois princípios norteadores dessa forma particular de divisão
do trabalho. Um princípio de separação no qual se considera a existência de trabalhos específicos
para homens e de trabalhos específicos para mulheres. E também o princípio hierárquico no qual se
considera que o trabalho de um homem vale mais que o de uma mulher. O que as pesquisadoras
consideram não significar que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável, já que para elas
essa tem uma incrível plasticidade (HIRATA, KERGOAT, 2007).
É possível, ainda, notar que ao longo de nossa história, o espaço público sempre foi
considerado como pertencente ao homem, já o espaço privado pertencente à mulher. Não é difícil
entender o porquê isso ocorre principalmente em uma sociedade que é tradicionalmente marcada
pelo patriarcalismo3, na qual ao homem cabia o papel de provedor da casa, enquanto à mulher cabia
o papel de cuidadora do lar e dos filhos. Tudo isso, obviamente, refletiu na divisão do trabalho,
onde as mulheres eram consideradas aptas a realizar somente aquelas atividades que melhor se
enquadrassem ao cuidado, a maternidade e ao espaço doméstico.
Com relação às profissões é possível observar, ainda hoje, casos em que algumas são
julgadas como femininas e por isso desprestigiadas, além da separação entre as assim consideradas
e as julgadas masculinas. Então, as atividades que normalmente são realizadas no espaço doméstico
e, portanto, privado, são também mal remuneradas e geralmente realizadas por mulheres, como
cozinhar e costurar. Com os efeitos da globalização nos anos 1990 se o trabalho masculino se
estagnou, houve um crescente aumento do trabalho remunerado das mulheres. Contudo para Hirata
e Kergoat (2007) esse aumento se traduziu em uma precarização e vulnerabilidade. A separação,
nesse caso, institui diferenças para além do prestígio.
Parece necessária observar ainda que quando os afazeres identificados com a figura
feminina alcançam prestígio social e, por isso, passam a ser bem remunerados, começam a ser
perseguidos pelos homens. Dessa forma, essas profissões começam a ser por eles ocupadas e
desejadas, ainda que, frequentemente, os homens que as exercem sejam considerados homossexuais
devido às marcas de gênero culturalmente atribuídas a tais ocupações. Porém o contrário também é
verdade, quando alguns afazeres começam a ser identificados apenas com as mulheres como no
3
Um modelo no qual a importância do papel da mãe se resume a sua função de protetora da família, onde há o
isolamento do núcleo familiar de outros parentes, e o papel do pai é o de sustentar a casa, ou de “chefe de família”.
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caso do magistério, por exemplo, o prestígio diminui e consequentemente a remuneração passa a ser
baixa e o descaso com os benefícios concedidos aumenta.
Toda essa discussão, sobre a divisão sexual do trabalho não tem encontrado espaço na escola
e tampouco sido incorporada pelo currículo escolar da forma como deveria, pois as questões
relacionadas ao gênero e a diversidade sexual são consideradas um assunto um tanto “espinhoso”
em tal ambiente. Já que muitos consideram que a discussão e a abordagem do tema da educação
sexual na escola pode ser considerado como algo danoso, uma vez que poderia estimular
precocemente a sexualidade de crianças e adolescentes (CAMARGO; RIBEIRO, 2003).
Ainda sobre a distância entre a educação sexual e a instituição escolar pode se ressaltar que
pesquisadores (as) (CAVALCANTI; DINIS, 2008; SOUZA; DINIS, 2010) tem afirmado que na
formação inicial, os futuros (as) educadores (as) poucas ou nenhuma vez tiveram contato com o
tema. E quando esse contato ocorre, normalmente, está muito mais vinculado a uma escolha
particular do professor responsável por disciplinas das áreas de psicologia da educação, por
exemplo, do que pela ementa dessas (SOUZA; DINIS, 2010).
Dessa forma, um curso como o “Gênero e Diversidade na Escola” (GDE), pode
proporcionar contribuições no que tange a formação continuada docente sobre as temáticas de
gênero e diversidade, uma vez que na formação inicial essa temática praticamente não é discutida.
Portanto analisar as discussões, realizadas durante formações como essas, pode oferecer grande
contribuição para pensar em novas formações assim como refletir sobre as que já foram realizadas.
Sobre os dados e a investigação
Essa comunicação tem como ponto de partida minha pesquisa de mestrado, com o título
provisório de “Formação Docente em Gênero e Diversidade Sexual: apreensão de conceitos e
superação de preconceitos”. A pesquisa tem como objetivo geral compreender o modo como uma
política específica de formação continuada docente, na perspectiva do gênero e da diversidade
sexual, é apropriada por professores (as) de escolas públicas. Busco, também, averiguar suas
possíveis contribuições para o enfrentamento da negação e do silêncio impostos às temáticas de
gênero e diversidade sexual, na escola. Na pesquisa parto de hipóteses como a falta de formação
inicial docente no que tange as temáticas de gênero e diversidade sexual, bem como a pouca
produção acadêmica sobre as contribuições, de formações com esses temas, para a melhoria na
superação do preconceito.
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Privilegio, nesse texto, um recorte da minha investigação que tem como campo de pesquisa
o GDE. Esse curso foi lançado em 2006, como projeto piloto, por iniciativa da SPM e do Conselho
Britânico em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
(SECADi), a Secretaria de Ensino a Distância (SEED), a Secretaria Especial de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e o CLAM, além da coordenadoria da mulher e dos
movimentos sociais dos estados e dos municípios participantes. Sendo que a partir de 2008 ele foi
realizado em convênio com as universidades públicas do país, através da Universidade Aberta do
Brasil (UAB).
Analiso, nesse recorte, um debate, que ocorreu entre os dias 6 e 16 de setembro de 2009. Tal
debate aconteceu em um fórum4 da plataforma online (Moodle5), intitulado “Caso 1 – Unidade 1”.
A discussão desse exemplo de caso era parte integrante do material didático contido no livro de
Conteúdo do GDE, no módulo “Gênero”.
Participaram do debate 26 professores (as) da Educação Básica da cidade de Jaú, estado de
São Paulo. Esses participantes eram cursistas do GDE, de uma turma formada por 30 docentes. Essa
foi a primeira turma formada pelo polo da Universidade Aberta do Brasil (UAB), na referida
cidade, no ano de 2009. E a coordenação geral do curso ficava sob a responsabilidade da Profa. Dra.
Célia Regina Rossi da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Instituto
de Biociência, Departamento de Educação do campus de Rio Claro. Sob a responsabilidade da
professora estavam também outros 8 polos onde o curso era oferecido.
O exemplo de caso (fictício) discutido pelos (as) docentes trazia para o debate a temática da
“orientação vocacional”. A situação relatada, no exemplo, tratava de oficinas profissionalizantes
oferecidas a estudantes do ensino médio, de uma escola situada na cidade de Maringá (PR). No
exemplo afirmava-se que uma das oficinas era intitulada “Moda e Costura”. Observa-se então, ter
havido maior procura de vagas, da referida oficina, pelas garotas, já que das trinta vagas disponíveis
apenas duas foram preenchidas por garotos, o que segundo a direção da unidade educacional era
culturalmente esperado.
“O que os outros irão pensar? O que irão falar de mim?”
4
O fórum de discussão é um espaço criado para a realização de discussões sobre uma determinada temática. [...]As
mensagens são apresentadas em uma lista e conectadas ao tema principal de discussão, gerando assim um enlace de
comentários e respostas que nos permite identificar as conexões existentes entre as mensagens postadas (ALVES, 2009,
p.192).
5
"Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment" um software livre de apoio à aprendizagem, que é
executado em ambiente virtual, esse programa permite a criação de cursos online, páginas de disciplinas, grupos de
trabalho e comunidades de aprendizagem.
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“O emprego da palavra „outro‟ aparece associado ao estranho da identidade, a tudo que lhe é
contrário, distinto e inverso” (HERMANN, 2011, p. 138). É com esse pensamento inicial que
pretendo problematizar a escrita da professora Marina6 em um dos comentários realizados no
fórum. A palavra outro da forma como foi exposta no subtítulo dessa parte do texto, provocou-me
no sentido de questionar: Quem são esses outros? Ou então: será que esse outros são tão diferentes
dela (Marina)?
Nadja Hermann (2011) observa que a questão do outro não teve grande peso no pensamento
filosófico como as questões sobre a alma, a justiça ou as causas do mundo, durante a época
medieval. Para ela a abordagem mais explícita sobre a questão do outro aparece, sobretudo, no
pensamento moderno, partindo do princípio da subjetividade e do pensamento sobre o modo como
o sujeito se relaciona com o outro, aquele que lhe é estranho. Dessa forma, partindo da escrita que
segue, começarei as análises a fim de responder as questões anteriormente colocadas. Escreveu a
professora:
Escolhas são sempre um momento de reflexão e a maioria das pessoas pensam O QUE OS
OUTROS IRÃO PENSAR? O QUE IRÃO FALAR DE MIM?
Muitas vezes, [as pessoas] não são preconceituosas nas suas escolhas, sendo muito bem
resolvidas. Mas, rapidamente preocupam-se com o senso comum e caem na mesmice de
classificar profissões, costumes e hábitos como femininos e masculino (Marina, 08/09/2009
7
– 19h06min) .
Tradicionalmente, as pessoas são socializadas – como visto anteriormente – de forma que as
expectativas sociais e culturais que guiam o seu modo de agir, pensar, falar ou se portar se alinhem
ao corpo biológico por meio das assimetrias de gênero. Assim é possível reconhecer na fala da
professora toda essa expectativa no seu modo de pensar. Isso parece confirmar a existência de um
atravessamento do outro na identidade das pessoas as quais ela se refere. Marina possibilita,
portanto, a reflexão sobre a reiteração das assimetrias de gênero, por pessoas, que pela sua
observação, ainda que se considerem “bem resolvidas” deixam-se atravessar pelo outro que é
preconceituoso. Ou que dentro de si guardem características desse(s) outro(s), que talvez não
esteja(m) tão afastado(s) dela assim.
Hermann (2011) assinala que esse outro aponta aquilo que ultrapassa a intimidade do eu, ou
seja, o estranho. Essa é uma forma de olhar colocada pela alteridade, um olhar sobre o eu que é
atravessado pelo outro. Pode se presumir que esse outro atravesse a identidade das pessoas
apontadas pela docente e que, talvez, ele não seja assim tão diferente delas, pois na verdade, esses
indivíduos possivelmente foram socializados de formas muito semelhantes, assim como também
6
7
Todos os nomes aqui utilizados são fictícios a fim de preservar a identidade dos sujeitos das análises.
As escritas dos (as) professores (as) foram todas destacadas em itálico para diferenciá-las das outras citações.
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pode ter sido socializada a professora. Hermann (2011) explicita que a medida que esse outro
(estranho) pode tirar as pessoas daquilo que lhe é familiar e habitual, também cria condições para
quebrar aquela unidade inquestionável que lhes é dada por meio do pertencimento a uma tradição
(familiaridade).
É esse, outro, que ao mesmo tempo em que se distancia pela exclusão devida a sua diferença
e estranheza, se aproxima pela sua familiaridade com aquilo que constitui a identidade das pessoas.
Outro que as interrogam e as colocam para pensar sobre as razões e os motivos pelos quais pensam
da forma como pensam.
Porém, penso que ao questionar-se sobre o que esses outros irão pensar, provavelmente, as
pessoas estejam se perguntando pelos seus pares. Assim como Marina pode, talvez, estar delegando
os questionamentos que tem dentro de si para o outro, estranho, mas que pode ser muito parecido
com ela. É por esse motivo que passo a analisar, neste momento, dentre as escritas postadas no
fórum, temas e pensamentos que possam possibilitar uma compreensão sobre esses outros – os
pares de Marina. Sinto que ao analisar esses pensamentos poderei chegar a uma resposta aceitável
sobre o questionamento que expus no início dessa parte do texto sobre a semelhança ou a diferença
desse outro com relação a professora Marina.
Foi possível por meio de repetidas e atenciosas leituras das postagens realizadas pelos (as)
cursistas, no fórum investigado, observar a percepção deles sobre as assimetrias de gênero. Dentre
os apontamentos dos (as) docentes pude analisar que alguns apontavam atitudes positivas, outros
apontavam atitudes negativas e por vezes ambas apareciam em uma mesma escrita, com relação a
temática do gênero. Dessa forma sistematizei os apontamentos em alguns temas que chamaram a
atenção, separando-as em positivas e negativas guiado pelas teorias de gênero. Assim relacionei
essas percepções divindo-as, conforme segue:
Atitudes negativas: a inconsciência dos indivíduos que julgam as pessoas por suas atitudes
e aparência; a rotulação de meninos mais delicados como gays; a feminização do magistério e o
consequente estranhamento de docentes do sexo masculino na educação infantil; a divisão de tudo
em “coisas de homem” e “coisas de mulher” que é resquício de uma sociedade patriarcal como a
nossa; a divisão entre brinquedos de meninos e meninas; o uso do rosa para meninas e do azul para
meninos como um sistema de classificação cor/sexo biológico; a orientação das crianças a
comportamentos considerados masculinos ou femininos; o reconhecimento de que ainda se vive
numa sociedade preconceituosa e machista; a omissão dos próprios preconceitos pelas pessoas em
nome do politicamente correto.
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Atitudes positivas: mudança de costumes dos homens com relação aos tratamentos de
beleza e estéticos; redefinição dos papéis masculinos e femininos; mudanças significativas quanto a
condição de inferioridade das mulheres; as dissonâncias nas profissões antes consideradas
adequadas a apenas um dos gêneros; a assunção das pessoas em fazer aquilo que gostam apesar dos
rótulos; o reconhecimento de que os bebês não nascem com características femininas ou masculinas
definidas; a percepção de que não é o corpo que define seu gênero.
Esse levantamento das atitudes positivas e negativas discutidas pelos (as) professores (as)
pode ajudar a refletir sobre o tema do outro, ainda que, obviamente, não tenha, nessa análise,
conseguido esgotar os temas levantados pelos (as) docentes. Mas acredito que dentre aquilo que me
propus a analisar nesse trabalho tenha levantado aqueles mais pertinentes.
Os temas levantados ajudam a perceber a existência de um outro multifacetado que de
alguma forma pode atravessar a identidade individual que, também, pode apresentar muitas faces.
Um “eu” que sofre influências advindas de sua socialização e que dessa forma pode, por muitas
vezes, considerar que o outro seja o portador tanto das atitudes positivas quanto, principalmente,
das negativas anteriormente levantadas. Sendo que na maioria das vezes transmite-se ao outro
aquilo que as pessoas não querem enxergar em si mesmas.
Na análise das escritas dos (das) professores (as), as atitudes negativas aparecem em maior
número que as positivas. Foram realizados 31 comentários pelos (as) docentes (as) participantes do
curso, no fórum de discussão sobre a temática da orientação vocacional. Dentre os 31 comentários
postados no fórum em 10 deles foi possível observar que os (as) docentes reconhecem essas atitudes
em si mesmos (as), e em 16 deles reconhecem-nos nos outros. Dos (das) 30 docentes matriculados
(as) no curso apenas 4 não realizaram nenhum comentário no fórum em questão.
Considerando o exposto nos parágrafos anteriores, analiso que Marina pode estar refletindo
sobre o (des)encontro dela com esse outro. Esse estranho que ela quer excluir talvez esteja dentro
dela mesma, já que essas questões que ela julga que as pessoas façam a si mesmas talvez sejam
feitas por ela própria. Talvez ela não esteja falando do outro e na possibilidade, apenas, de
encontros como aponta Sílvio Gallo (2008), pelo contrário, talvez Marina esteja falando de um
outro que se reduz ao estranho, que não atravesse a sua própria identidade, do qual ela se
desencontra. Porém apesar de ela pensar assim, ao que parece esse outro (seus pares) a encontra e a
atravessa.
Contudo, em 15 dos comentários realizados pode se perceber que há ideias sobre a
contribuição que educadores (as) podem dar a fim de proporcionar uma melhora na realidade sobre
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o preconceito de gênero, no que tange também a profissionalização, assim como, para as assimetrias
de gênero em geral. Isso revela um aparente equilíbrio entre atitudes positivas e negativas.
Esses outros (os pares de Marina) apontam dentre as contribuições, por exemplo, que
devemos nos policiar dia-a-dia, ter cuidado com nossas atitudes (Michelle, 06/09/2009 –
11h07min), já que no mundo moderno, não existem mais papéis exclusivamente masculinos e
femininos: o homem sozinho, já não garante o sustento da família, e a mulher por sua vez, ao sair
para o mercado de trabalho, precisa cada vez mais da ajuda do companheiro nas tarefas
domésticas e na educação dos filhos (Cesar, 06/09/2009 – 11h35min). Penso que deve se observar
que Michelle é uma das pessoas que nota os preconceitos como algo presente nela mesma, ao passo
que Cesar visualiza essas atitudes em outras pessoas, porém as contribuições que apontam
caminham em uma mesma direção de superação desses preconceitos.
A professora Marta observa que a escola deveria ser a chave mestra para desconstrução
desse mito. Essa observação não é exclusivamente dela, pois em grande parte das contribuições
apontadas reconhecesse que a escola assim como os (as) educadores (as) são potencializadores (as)
na busca de uma problematização e consequente redução dos preconceitos. Ainda que, algumas
vezes, aponte-se que eles (elas) possam exercer uma influência negativa também.
Os (as) docentes dão, inclusive, exemplos interessantes sobre trabalhos os quais dizem já ter
observado na prática em sala de aula, como o que relata Mary (08/09/2009 – 12h36min):
[...] vejo muitas colegas de Educação Infantil que estimulam seus alunos a brincarem de
casinha e as alunas a jogarem e brincarem de carrinho com os colegas. Essa postura fará
diferença, pois através da brincadeira, as crianças vivenciam a realidade e podem refletir
sobre ela.
Esse tipo de prática exposta por Mary corrobora com o pensamento exposto pela professora
Leila (08/09/2009 – 11h57min) que acredita que devemos então fazer um trabalho de
desconstrução desses preconceitos, pois dessa forma, estaremos realmente contribuindo para a
transformação e construção de uma sociedade constituída de cidadãos, independente de serem
masculinos ou femininos.
Dessa forma pode se concluir que há encontros e desencontros entre Marina e seus outros,
que ao mesmo tempo demonstram ter atitudes positivas e negativas. Essas atitudes parecem
atravessar a identidade indivual da professora. Pois quando ela se pergunta pelo que eles irão
pensar, obviamente, é esse outro existente dentro dela que a questiona também.
Considerando o que outros possibilitaram pensar
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Por meio desse texto pude esclarecer – com base em teorias e pesquisas realizadas - que
graças as assimetrias de gênero existentes na sociedade as pessoas criam expectativas sobre o modo
como as pessoas devem se portar, assim como o tipo de ocupação e trabalho que venham a exercer.
Porém, pesquisadores (as) tem se debruçado sobre essa temática da profissionalização na sua
intersecção com o gênero e assim possibilitado observar que é necessário que ocorram mudanças.
Observei que ao questionar-se sobre o outro, talvez a docente Marina, assim como as
pessoas em geral, não esteja se perguntando apenas por aquele (a) que lhe é diferente e estranho.
Talvez ela esteja se perguntando pelo outro que está presente dentro de si, que atravesa a sua
identidade, que possibilita que ela constitua a sua identidade tal qual essa se apresenta. Dessa forma
as escritas analisadas possibilitaram observar um outro que é multifacetado. Aquele outro no qual
ao mesmo tempo em que se notam atitudes negativas, se notam, também, atitudes positivas.
Enfim, é possível observar um aparente equilíbrio quando se trata - no caso dos (das)
professores (as) – entre aqueles que sugerem possíveis contribuições que podem dar, no trabalho em
sala de aula e na escola, para que se possa um dia viver em uma sociedade com maior equidade de
gênero. Tanto quanto aqueles que apesar das percepções sobre as assimetrias de gênero, não
ofereceram sugestões para uma melhora nessa desigualdade e hierarquia de gêneros.
Um curso, como o GDE, visa que essa discussão ocorra na formação continuada docente
como modo de possibilitar uma melhoria na equidade de gênero na sociedade. Assim é possível
acreditar que o curso cumpra um papel importante, ao menos no que diz respeito a desestabilização
do pensamento sobre as atitudes relacionadas as assimetrias de gênero, presentes na sociedade, bem
como no cotidiano escolar. Ainda que se tenha a clareza que apenas uma formação continuada,
como a realizada no GDE, não poderá sanar todas as mazelas relacionadas as assimetrias de gênero
na sociedade. Entretanto, não se pode deixar de observar a sua importante contribuição, na
desestabilização de “verdades” tidas como imutáveis, quando falamos em tais assimetrias.
Justamente por que ainda que hoje saibamos que o corpo biológico não deve e não poderia
estabelecer os modos de ser estar e pensar no mundo de hoje, tal fato ainda ocorre mesmo que
veladamente.
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na formação docente em biologia. Pro-posições, Campinas, v. 21, p. 119-134, 2010.
“What will people think?” Teachers’ discussions about gender and professionalization
Abstract: This communication is part of my masters‟ research, whose topic is teachers‟ training in
gender and sexual diversity. The overall purpose of my research is to understand how a specific
public policy of continuing teacher education in gender and sexual diversity is appropriated by
public school teachers, examining its possible contribution for the confrontation of denial and
silence about these topics. The object of the research is the teachers‟ training program “Gender and
Diversity in School” (GDE) held in the city of Jaú (São Paulo State) during 2009-2010. This
communication focuses on a specific angle of the research, in which I intend to analyze a debate
that took place in September, 2009 at a forum of the online platform Moodle entitled “Case 1 –
Unity 1” in the module “Gender.” In this activity the teachers debated a case study on gender and
professionalization. Therefore, in this communication I discuss the perceptions of the participants
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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
about the case study and how they think teachers can contribute to improve gender equality in the
classroom.
Key-words: Professionalization. Gender. Education.
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