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AS NARRATIVAS E AS TRAJETORIAS DAS HISTORIAS DE VIDA

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AS NARRATIVAS E AS TRAJETORIAS DAS HISTORIAS DE VIDA
AS NARRATIVAS E AS TRAJETÓRIAS DAS HISTÓRIAS DE VIDA DOS
EDUCADORES: OLHARES SINGULARES E ESTRUTURANTES DA DOCÊNCIA
Geisa Arlete do Carmo Santos –UNEB/FVC
RESUMO
O presente artigo trata de narrativas e trajetórias das histórias de vida dos educadores
com olhares singulares e estruturantes da docência, no qual se objetiva dialogar o
caminho traçado na pesquisa “Histórias de vida e o abandono da profissão docente:
entre partidas e chegadas” que teve como ponto de partida a busca pela descoberta do
desencanto com a profissão docente, que passou a ser observada e pensada através das
singularidades e dos aspectos estruturantes da prática educativa dos docentes que se
desencantaram. Objetivei conhecer como os colaboradores ingressaram na profissão e
se constituíram professores. Desse modo, encontrei na minha trajetória profissional a
ancoragem para continuar pelos trilhos das narrativas das histórias de vida, a começar
pela minha. A metodologia da pesquisa foi fundamentada pelas entrevistas narrativas
abertas de Bauer (2002). O caminho das entrevistas teve com foco as histórias de vida
de sete professores, pertencentes a escolas públicas e particulares da Educação Básica
em Salvador-BA. Os dados das entrevistas foram analisados à luz da abordagem (auto)
biográfica. As questões norteadoras que sustentaram a pesquisa: o que caracteriza o
abandono da profissão? Como ingressaram e como se constituíram professores? Como
os professores vivenciaram a experiência profissional frente aos problemas da
contemporaneidade? Dessa forma, As articulações entre as narrativas e as trajetórias
das histórias de vida dos educadores inauguraram olhares singulares e estruturantes para
o ser professor que compreende a construção em si e no outro. Este olhar possibilita aos
educadores perceberem como estão diante do mundo e com o mundo. A forma peculiar
como cada docente vincula-se com o trabalho e a trajetória da história de vida é que
determina o desenrolar do percurso profissional. Perceber a pertinência das histórias de
vida do educador, trazendo as implicações que o levaram ao abandono da profissão foi o
primeiro passo para considerar a cultura das narrativas para este estudo. Com as
narrativas das histórias de vida, busquei conhecer os diferentes percursos e os
desencantos que sofreram os colaboradores da pesquisa. Ao tecer as relações, intento
reconhecer a compreensão da minha narrativa pessoal e o possível eco que desabrocha a
partir da narrativa do outro. O estudo possibilitou conhecer a estruturação de uma
reflexão crítica sobre alguns elementos que são considerados como geradores das
singularidades e estruturas que emergem através das tensões nas quais os professores
estão imersos, como as condições de trabalho do docente, as experiências vivenciadas
frente aos problemas da sociedade, e as condições de trabalho que o professor é
submetido.
Palavras-chave: Narrativas; Histórias de vida; Trabalho docente
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ABSTRACT
This article deals with narratives and trajectories of the lives of educators with unique
looks and structuring of teaching, in which the objective is to engage in research in the
footsteps of "Stories of life and the abandonment of the teaching profession between
arrivals and departures" that was starting point to search for the discovery of
disenchantment with the teaching profession, which came to be seen and thought
through the singularities and the fundamental aspects of the educational practice of
teachers who have become disenchanted. Objetivei know how the employees joined the
profession and teachers formed. Thus, I found in my career to continue anchoring the
rails of the narratives of life histories, starting with mine. The research methodology
was based on interviews narratives open Bauer (2002). The path of the interviews was
to focus on the life stories of seven teachers, belonging to public and private schools of
basic education in Salvador, Bahia. Interview data were analyzed in the light of the
approach (auto) biographical. The guiding questions that supported the research: what
characterizes the abandonment of the profession? As entered teachers and how they
formed? As experienced teachers the professional experience of the problems facing the
contemporary world? Thus, the joints between the narratives and the trajectories of the
lives of educators inaugurated looks natural and structuring to be a teacher who
understands the building itself and on the other. This look allows educators to realize
how they are before the world and the world. The peculiar shape as each teacher is
bound up with the work and the evolution of life history determines the course of the
career. Understand the relevance of the life histories of the educator, bringing the
implications that led to the abandonment of the profession was the first step to consider
the culture of the narratives for this study. With the narrative of the life stories, I sought
to know the different routes that have suffered disappointments and employees of the
research. When weaving relationships, attempt to recognize the understanding of my
personal narrative and can echo the narrative unfolds from the other. The study has
helped understand the structure of a critical reflection on some elements that are
considered as generators of singularities and structures that emerge through the tensions
in which teachers are immersed, as the working conditions of teachers, the experiences
regarding the problems of society and working conditions that the teacher is submitted.
Keywords: Narratives, Stories of Life, Teacher's work
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AS NARATIVAS E AS TRAJETÓRIAS DAS HISTÓRIAS DE VIDA DOS
EDUCADORES: OLHARES SINGULARES E ESTRUTURANTES DA DOCÊNCIA
O presente artigo trata de narrativas e trajetórias das histórias de vida dos
educadores com olhares singulares e estruturantes da docência, no qual se objetiva
dialogar o caminho traçado na pesquisa “Histórias de vida e o abandono da profissão
docente: entre partidas e chegadas” que teve como ponto de partida, a busca pela
descoberta do desencanto com a profissão docente, a qual passou a ser observada e
pensada através das singularidades e dos aspectos estruturantes da prática educativa dos
docentes que se desencantaram. Objetivei conhecer como os colaboradores ingressaram
na profissão e se constituíram professores.
Desse modo, encontrei na trajetória profissional a ancoragem para continuar
pelos trilhos das narrativas das histórias de vida, a começar pela minha. A metodologia
da pesquisa foi fundamentada pelas entrevistas narrativas abertas de Bauer (2002). O
caminho das entrevistas teve como foco as histórias de vida de sete professores,
pertencentes a escolas públicas e particulares da Educação Básica em Salvador-BA. O
local inicial de pesquisa foi o Sindicato de Professores no Estado da Bahia –
SINPRO/BA, por se tratar de um espaço onde os Professores fazem suas rescisões
trabalhistas. Os dados das entrevistas foram analisados à luz da abordagem (auto)
biográfica. As questões norteadoras que sustentaram a pesquisa: o que caracteriza o
abandono da profissão? Como ingressaram e como se constituíram professores? Como
os professores vivenciaram a experiência profissional frente aos problemas da
contemporaneidade? Dessa forma, as articulações entre as narrativas e as trajetórias das
histórias de vida dos educadores inauguraram olhares singulares e estruturantes para o
ser professor que compreende a construção em si e no outro.
Este olhar possibilita aos educadores perceberem como estão diante do mundo e
com o mundo. A forma peculiar como cada docente vincula-se com o trabalho e a
trajetória da história de vida é que determina o desenrolar do percurso profissional.
Perceber a pertinência das histórias de vida do educador, trazendo as implicações que o
levaram ao abandono da profissão foi o primeiro passo para considerar a cultura das
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narrativas para este estudo. Com as narrativas das histórias de vida, busquei conhecer os
diferentes percursos e os desencantos que sofreram os colaboradores da pesquisa.
A forma peculiar como cada docente vincula-se com o trabalho e a trajetória da
história de vida é que determina o desenrolar do percurso profissional. Perceber a
pertinência das histórias de vida do educador, trazendo as implicações que o levaram ao
abandono da profissão foi o primeiro passo para considerar a cultura das narrativas para
este estudo. Assim, inspirada em Souza (2006), busca-se entender que a pertinência,
[…] da narrativa (auto) biográfica inscreve-se num amplo movimento
de investigação […] o qual tem adotado a abordagem biográfica como
perspectiva epistemológica sobre a aprendizagem dos sujeitos, a partir
de suas próprias experiências. A opção e a inscrição desta pesquisa
neste campo e nesta abordagem nascem da necessidade de ampliar os
estudos sobre histórias de vida e mais, especificamente, sobre as
narrativas (p. 49).
Essa reflexão destaca a importância da narrativa (auto) biográfica. Desse modo,
essas considerações moveram-me a continuar articulando as marcas das histórias de
vida de cada sujeito com a sua experiência profissional. Nesse sentido Souza (2006),
oportuniza refletir sobre:
As itinerâncias, as aprendizagens e o desejo do conhecimento, como
uma das possibilidades do desenvolvimento pessoal e profissional, são
o caminho que busco para reafirmar a minha identidade profissional,
bem como, cada vez mais, melhor compreender o fenômeno
educativo, especificamente no que tange ao processo de formação e
desenvolvimento pessoal e profissional do educador. Um educador em
construção, expressa uma reflexão sobre tempos e espaços de
formação. Tempos marcados na memória e nas histórias sobre o
sentido da vida e da profissão (SOUZA, 2006, p. 19).
Depreendo, com Souza (2006), a importância do tempo, a memória e as narrativas
da trajetória pessoal e profissional na construção do ser professor. Assim, “procuro
despir-me do que aprendi… Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me
ensinaram, e raspar a tinta com que pintaram os sentidos… Desencaixotar minhas
emoções verdadeiras desembrulhar-me” (PESSOA, 1997, p. 118). É nessa perspectiva
de desembrulhar que tencionei cruzar as trajetória de vida e o percurso profissional com
a intenção de ancorar os significados de tornar-se professora.
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A pesquisa ganhou forma com a contribuição da itinerância profissional. A
curiosidade intelectual e a afetividade sempre estiveram presentes no processo
construtivo dos saberes da docência. Para Souza (2006, p. 16), “o conhecimento de si
propiciado pelas narrativas inscreve-se como um processo de formação porque remete o
sujeito numa pluralidade sincrônica e diacrônica de sua existência”. Percebo que, ao se
contar para si e para o outro, apresenta-se um caminho fecundo de construção da própria
existência, que vai da trajetória de vida pessoal para a profissional na qual é possível de
se reconhecer e de se reinventar. Para Delory-Momberger (2008, p. 22), “a escrita
biográfica não dissocia jamais a relação consigo mesmo da relação com o outro”. O
reconhecimento da minha narrativa pessoal possibilita a compreensão da história
vivenciada por outro. Delory-Momberger (Id.) sublinha: “A narrativa do outro é um dos
lugares onde experimentamos nossa própria construção biográfica”. Atentar para a
narrativa e a escrita de mim e a escuta sensível da narrativa do outro pode caracterizar
uma nova maneira de produzir conhecimento.
Remeto a uma reflexão sobre a relação ensino-aprendizagem com o humano que
tenho a minha frente e percebo que, de nada valerá o conhecimento se não for para me
aproximar do outro. “A vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda e
como recorda para contá-la” (MARQUEZ, 2004, p. 3). Cursei o magistério na década
de 80, período marcado pelas mudanças no cenário político-econômico e social. Souza
(2003) sinaliza que,
A demarcação da década de 80, como tempo/espaço de análise,
afirma-se por várias questões: […]. Queda do Muro de Berlim,
“colapso do socialismo real” e, por conseguinte, a gênese das teses da
crise das classes. […] As políticas de formação, empreendidas
historicamente na sociedade brasileira, no sentido de que as mesmas
reafirmam as desigualdades e contribuem para uma formação centrada
na racionalidade técnica, sendo profundamente marcadas pela
consolidação da crise de identidade dos profissionais da educação e de
uma respectiva descaracterização do trabalho docente (p. 432).
Em meio à turbulência de transformações, tornei-me professora primária. O
encantamento pela profissão foi do tamanho do meu desejo. No pico dos conflitos e das
mudanças, o primeiro emprego aconteceu. No exercício da docência, ainda no segundo
ano letivo, fui convidada para assumir a coordenação pedagógica da escola em que
trabalhava. Entre alegria e surpresa, passei ao contexto de articuladora com os docentes
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e discentes, fui desafiada a conquistar a confiança dos colegas professores, dos pais e
dos estudantes. Penso que, nesse movimento, dei os primeiro passos em direção à escuta
dos professores que, na maioria das vezes, demonstravam desânimo, revelado nas
conversas cotidianas. A frase “Não me seqüestre! Sou Professor!” aparecia estampada
nas camisetas dos colegas que demonstravam insatisfação pelo salário que recebiam. No
Sindicato de Professores no Estado da Bahia (SINPRO-BA), os anos 1980 foi o
momento de “organização, lutas e conquistas”!
Esta década foi marcada por muitos avanços na organização e na luta do povo
brasileiro e em especial no Estado da Bahia, pelo seu Sindicato bastante fortalecido.
Uma onda de greves parecia mostrar que a classe trabalhadora buscava resgatar seus
direitos, golpeados duramente pela ditadura militar. No plano político nacional,
realizaram-se eleições diretas para governadores e prefeitos das capitais, criando-se
espaço para uma grande mobilização popular, talvez a maior na história política do país.
Para os profissionais da escola que eu coordenava, as condições de salários e respeito
aos direitos trabalhistas continuavam sem solução. Colegas de outras escolas
organizavam movimentos e chamavam o sindicato, que passava a fazer as negociações.
Nos doze anos de exercício da docência e da coordenação pedagógica, já na
década de 1990, as mudanças dos anos 80 continuavam ditando transformações. Em
meio a muitos assuntos, um se destacava: a insatisfação por ser professora!
Explicitavam suas negatividades com a profissão ao referirem-se sobre as doenças que
adquiriram e os baixos salários. Parece que o tempo não passou! Ao escrever sobre essa
passagem, perguntei: como nos tornamos professores? Tomei como referência Nóvoa
(2000, p. 16), quando diz que “a identidade […] é um lugar de lutas e de conflitos, um
espaço de construção de maneiras de ser e estar na profissão”. Para Nóvoa, o processo
identitário caracteriza a forma como cada um se sente e se diz professor dentro da
complexidade da apropriação e do sentido da sua história pessoal e profissional.
Na escrita das narrativas (auto)biográficas, voltei no tempo, senti o cheiro da casa
onde morava, a lembrança da primeira escola que se revelou a maior incentivadora para
que me tornasse professora. O desafio passa pela tessitura entre minha identidade
pessoal e profissional, com os vestígios da história de vida revelados pelo sentimento de
busca e transformações. Recorro a Delgado (2006), quando diz que,
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As narrativas são traduções dos registros das experiências retidas,
contêm a força da tradição e muitas vezes relatam o poder das
transformações. História e narrativa, tal qual história e memória,
alimentam-se. […] Narrativa, sujeitos, memórias, histórias e
identidades. É a humanidade em movimento. São olhares que
permitem tempos heterogêneos. É a história em construção. São
memórias que falam (p. 44).
É nesta perspectiva que o diálogo entre a trajetória pessoal e profissional
encontrou nas narrativas um espaço importante para a compreensão dos aspectos que
norteiam as trajetórias docentes, seus encantos e desencantos, sua vivacidade e doença;
um espaço capaz de reconstruir caminhos marcados por rupturas e desejos adormecidos.
Os reencontros com as histórias de vida e o conhecimento de si provocam nos docentes
as marcas significativas do processo, em face do reencontro com o sentido de
pertencimento a partir das próprias descobertas. Os colaboradores da pesquisa narraram
com emoção suas trajetórias pelo desencanto, para Ivone,
De 2000 a 2008, uma estranha mudança ocorreu com a clientela da
escola pública: “comecei a perder o tesão pela educação. Como
professora concursada percebi que era e é tudo um grande fingimento
a educação onde eu trabalhava. Colegas doidos por aula vagas, muitas
faltas, faz de conta, desencanto, [...] não via resultado no meu
trabalho. Então resolvi fazer a troca1.
Professora Ivone demonstra o desencanto e sinaliza as mudanças de perfil dos
estudantes e dos seus pares. Afirma sentir-se uma “extraterrestre” na escola onde
trabalhava. Suzete, viveu a docência por 20 anos. Sonhava, desde criança, em ser
professora, mesmo sendo um sonho difícil para a mãe aceitar por ser uma profissão de
salário baixo; mesmo assim, comprou- lhe um quadro e giz. Suzete, não resistiu! O
desencanto foi maior que seu sonho e desabafa:
... não quero saber de escola nunca mais, o que vivi foi o descaso dos
descasos com o ser humano, sem tempo para nada. Quando fui pedir
minha demissão da escola em que passei onze anos, quase que os
donos me bateram. Fui maltratada e nem me perguntaram o porquê de
estar saindo! Cansei de receber meu salário, se é que posso chamar de
salário receber depois que paga tudo e por pedaços de R$10,0 ou
R$20,0. Hoje sou valorizada! Trabalho feliz!
1
Troca, no sentido de saída da educação. A professora não gostou do nome abandono.
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Áurea fez magistério mesmo sem desejar, sua mãe era professora e dona de uma
escolinha; aos 14 anos começou ajudá-la na escola. Tornou-se professora de jovens em
situação de risco em um bairro de alta criminalidade de Salvador. Acredita ter “tomado
gosto” por educação quando ainda menina e ajudava a mãe. Porém desabafa:
O professor tem nível superior, é qualificado. Ele é mal remunerado,
não reconhecido. Eu ganho um salário que a minha colega está lá
trabalhando, atuando em outras coisas, ganha muito mais do que eu.
Eu acho isso desleal, eu acho isso desumano. Entendeu? Isso é
desigualdade. E continua: hoje o fato de eu ir pra polícia também
contribui, porque eu quero a minha estabilidade. Eu quero dizer: eu
ganho melhor.
Percebe-se nas palavras de professora Áurea o desencanto com a profissão apesar
de se entender que a docência esteve perto e distante ao mesmo tempo. Pois, a
professora buscava um reconhecimento profissional por parte de colegas e sociedade, o
que nem sempre é declarado. Sabe-se o quanto árduo se torna a profissão quando não
estamos estimulados.
Gleydes entrou na escola muito cedo por ter sua mãe como professora
primária. Construiu uma boa caminhada na educação, Fez o curso de magistério por
estímulo da mãe. Estagiou mas não se "empolgou", para ampliar a sua formação
especializou-se em História da África. Desabafa:
... não acredito que o ser humano trabalhe sem reconhecimento
econômico, social e moral. Infelizmente, a questão de ter saído da
educação foi essa. Fui procurar um trabalho que me desse um pouco
mais para poder estudar. Posso afirmar que eu fui o que minha mãe
queria que eu fosse!
Nas palavras da professora Gleydes aparece o desencanto pelo não
reconhecimento financeiro, social e moral, e por fim o confirmação que realizou o
sonho da mãe e não o seu próprio sonho.
Mônica remeteu-se à infância como um período de muitos dengos e medos. Tornouse uma dedicada profissional, mãe e companheira. Viveu muitos desafios e obstáculos.
A certeza de vencer sempre esteve presente nos momentos considerados “atrapalhados”.
58
Para ela, a família foi quem estimulou para a docência. Formou-se com 20 anos, ficou
por 12 anos na docência. Mônica em um dado momento relatou que:
... a pressão com o professor é demasiada; os diretores pressionam os
coordenadores que cobram dos professores, a chamada hora das
‘conversas’[...] eu acredito que a educação deixa a desejar, mas não é
culpa do professores; também, não é dos pais. Acho que todos
precisam se unir e vê o que é possível fazer.
Professora Mônica sinaliza para a retirada das culpas sobre os professores e os
pais, é oportuno atentar que a professora desencanta por desacreditar na educação.
Percebo nos relatos das colaboradoras desencantos diferenciados. O desencanto
trabalhado na pesquisa passa pelo sentido de desistir, abandonar, mudar. Fica
evidenciado que a história de vida e a trajetória de formação são fatores determinantes
para a realização pessoal e profissional.
Márcio afirma que: caiu de pára-quedas na educação. Quando percebeu já
estava com quatorze anos na docência e mesmo tendo entrado sem perceber por ter
começado como docente nos primeiros semestres da Faculdade, sabia que aquele lugar
atendia suas necessidades financeiras o que lhe deixava no dilema entre permanecer e
ser feliz em outro espaço. Já que aquele estava lhe trazendo muitas tristezas. Não
conseguia sair do mal-estar gerado pelo desrespeito, pressão psicológica, estresse,
desânimo com a falta de interesse dos estudantes. Márcio adentra outro processo
formativo paralelo ao exercício da docência e ao concluir a nova graduação abandona a
profissão. Conclui sinalizando que: creio ter fechado meu ciclo profissional sem
mágoas!Sala de aula faz parte o passado.
Nesse sentido, a busca de si e de nós, sinaliza que a evolução de cada sujeito, no
seu processo narrativo. Nas recordações e memórias, os docentes entrelaçam a vida
pessoal e profissional nos valores, na família, nos interesses pessoais, nas opiniões,
amizades; enfim, em tudo que, de certa forma, contribui para o seu modo de ser, agir e
pensar.
As histórias de vida põem em evidência quem somos como pessoas e profissionais
e, ainda, nossas ações pedagógicas que se mostram diante da itinerância do percurso
pessoal e profissional. Nóvoa (2000) enfatiza que:
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[…] apesar de todas as fragilidades e ambigüidades, é inegável que as
histórias de vida têm dado origem a práticas e reflexões extremamente
estimulantes […]. O movimento nasceu no universo pedagógico,
numa amálgama de vontades de produzir um outro tipo de
conhecimento, mais próximo das realidades educativas e do
quotidiano dos professores (p. 19).
As narrativas das histórias de vida favorecem o transparecer das emoções, dos
fatos e das experiências que são singulares e plurais nas vivências e decisões de cada
professor. Nos relatos dos professores, por meio de narrativas (auto) biográficas das
histórias de vida justifica-se um tempo e ampliam-se as possibilidades deles se
reconhecerem no processo, tendo em vista as experiências vividas e as narrativas
construtivas de formação da identidade pessoal e profissional. Já é possível constatar
que o abandono2 deve-se a vários fatores. Dentre eles, o desistir da profissão significa
libertar-se de um peso. Veja como o coloca Suzete:
Não me arrependi mesmo, [...] eu me libertei daquilo, que estava me
fazendo mal e eu tentando ficar com aquilo. [...] O sentido de
abandono pra mim foi tirar um peso das minhas costas, aquela
tonelada, meu Deus! Que eu carreguei esses vinte anos, pesada… mas
todo dia eu remava… vou conseguir… vou conseguir Ave Maria!
Nessa situação, quando a frustração é grande e as experiências confirmam o
sentimento de fracasso e desencanto, a história de vida é marcada mais profundamente.
O descortinar do abandono tem sua ação na insatisfação de alguns docentes que
não aceitaram conviver com o desencanto, embora tenham passado boa parte de sua
vida profissional convivendo. O sentimento de inutilidade do trabalho docente causa
fortes indicadores de insatisfação nos professores que se vêem com a percepção que seu
trabalho nada tem a contribuir com a sociedade diante do contexto educacional.
Suzete apresenta, no seu discurso, uma relação forte com as questões financeiras
que permeiam a docência e o seu desencanto e consequente abandono.
Eu me desencantei mesmo foi com o salário, né? Porque é defasado
mesmo. Uma das coisas que era pra receber, um salário digno de um
professor, porque o professor enfrenta várias coisas durante aquele
período que ele está na sala.
2
No sentido de: renunciar, desistir.
60
Nessa declaração, percebi o desejo, também, por reconhecimento e valorização de
si e do seu trabalho, que em toda a entrevista fica evidente nesta professora.
Compreendi que, para ela, especialmente, o sonho virou um pesadelo tamanho, ao
tempo em rejeitar de forma tão definida. Assim, conclui sua narrativa: “Não quero mais,
nunca voltar para a escola”.
Parece que esse sentimento não é único da professora Suzete. Roberta, nas suas
andanças “pós-escola”, descobre que pode ganhar mais trabalhando menos. Novamente,
giro o olhar para a questão financeira. Dessa vez, com menos ou quase nenhum
descontentamento com a educação, nem a busca frenética pelo reconhecimento
profissional, mas, principalmente, na busca de melhor qualidade de vida, tempo para a
família e menos desgaste no campo da profissão.
A remuneração. Foi justamente uma das causas que me fez me afastar
da educação, né. Os professores hoje pra que eles possam ter uma
renda melhor, o quê que eles fazem? Eles trabalham em duas escolas,
em três escolas. Então isso cai muito a qualidade do ensino porque é
humanamente impossível um professor trabalhar de sete a às doze em
uma escola com vinte e cinco crianças em classe, sai doze, engole uma
comida pra tá uma na outra escola e trabalha até seis da tarde. Então
assim, o problema maior que eu diria assim, que eu pude presenciar,
eu acho que é isso, porque a pessoa na busca de um reconhecimento
melhor financeiro termina tendo que se sobrecarregar e aí a qualidade
cai. (Roberta)
A questão financeira atinge com severidade os docentes que não vêem em suas
atividades nenhuma oportunidade de melhoria salarial. O profissional busca
compensação. Segundo Esteve (1999),
O status social é estabelecido, primordialmente, a partir de critérios
econômicos. [...] O salário converte-se em mais um elemento da crise
de identidade dos professores. [...] Paralelamente à desvalorização
salarial produziu uma desvalorização social da profissão. [...] O
professor é visto como um pobre diabo que não foi capaz de arranjar
uma ocupação mais bem remunerada. A interiorização desta
mentalidade levou muitos professores a abandonar a docência[...](p.
105).
61
Nos relatos dos colaboradores, o sentimento de desencanto para muitos é intenso,
assim como a vontade de ter tido voz dentro do sistema educacional, ser respeitado, ter
conseguido transformar a realidade educacional. Para outros, porém, a exemplo de
Roberta que, mesmo abandonando, semeia belas histórias quando, em sua narrativa cita:
[...] a minha ruptura com a educação, foi um dilema muito grande,
foram muitas análises, muitos divãs pelo pela minha vida, porque
decidi sair de educação foi uma decisão dura, né? sofrida, muito
sofrida porque ao mesmo tempo em que eu queria ter mais qualidade
de vida, queria ganhar mais, e eu não via essa possibilidade dentro da
educação, [...] foi uma área que eu me encantei muito na coordenação.
Mônica aponta, também, claramente como a causa do abandono o fator financeiro:
“eu parei porque achei que estava na hora de ganhar mais um pouquinho [...] não estava
dando mais para viver com o salário de professor”.
Identifico, ainda, presente nas políticas de valorização do magistério, a temática
dos baixos salários, carecendo ainda de maiores cuidados para se resolver, no cenário
brasileiro.
A professora Ivone reflete o desencantamento com a educação no comportamento
dos colegas de trabalho. Para ela, esse foi um fator determinante para o abandono da
profissão. Durante seus relatos, ela declara a presença descuidada, descomprometida,
desanimada e sem perspectiva da maioria dos colegas com os quais conviveu.
Era professor procurando aula vaga, é professor infeliz, é professor
que não cumpre conteúdo programático, é professor que falta muito,
que, apesar dos vários cursos, não vê a avaliação como um feedback
do seu trabalho pra melhora do processo educacional do aluno e eu
comecei a ver que eu era uma extra-terrestre. (Ivone)
Na narrativa de Márcio, encontro, como fator principal para sua saída, o
engessamento da estrutura educacional, quando afirma: “[...] saudades dos meninos, da
estrutura que eu vivia, quero correr léguas bem longe”. Embora seja visível que sua
entrada e permanência na educação, por 15 anos, se deu por acaso, como afirma o
colaborador: “eu nunca pensei em ser professor, quando pisquei eu tava dentro da sala
de aula”; a identificação com o contexto não existia. Para Márcio foi uma relação de
sobrevivência: “eu fui sobrevivendo nessa coisa”. As histórias tecidas e descortinadas,
62
por meio das narrativas, inscrevem-se na singularidade e na subjetividade do olhar dos
colaboradores sobre o ser professor. Nesse sentido, Márcio observa e acrescenta que,
Toda profissão tem um tormento, mas ser professor é um tormento pa-r-t-i-c-u-l-a-r. Você não consegue se desvincular das coisas, você
cria uma SIMBIOSE, você não sabe mais o que é você, e o que é, pra
você tudo fica igual. Segunda-feira e domingo é a mesma coisa. […]
Você se enterra naquilo.
Instalam-se, aqui, narrativas marcantes dos colaboradores desconhecidos, mas que
teceram e escreveram, no dia-a-dia, suas próprias histórias — ricas e inigualáveis.
Emoções, lágrimas, sorrisos, alegrias, descobertas, orgulho pela profissão,
dificuldades, desafios, registros e análises de saudades, sentimentos e lembranças que
foram resgatadas, sonhos que se fazem e se renovam, vidas que foram partilhadas. Fica
evidente que não nascemos professores, tornamos - nos professores por uma série de
fatos, vivências, convivências, práticas, que vamos constituindo e instituindo ao longo
dos
anos.
Professores/educadores,
que,
mesmo
entre
dúvidas,
dificuldades,
realinhamento de rotas, acreditam na educação como um caminho de mudanças e,
devido à essa crença, buscam formas e meios para viver uma educação melhor, mais
humana. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre
assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
As vozes e os sentidos expressos dos colaboradores sobre seu ingresso na
docência tiveram forte influência nos exemplos de exercício profissional dos membros
da família que, na sua maioria, estavam presentes na escola.
Os problemas presentes nas histórias de vida e nas narrativas relacionados à
docência, tais como, descaso dos estudantes, desvalorização profissional, faz-de-conta
dos colegas, frustrações frequentes, expectativas (financeiras e de reconhecimento
profissional) geradas na profissão levaram os colaboradores a descrever diferentes
procedimentos para lidar com tais situações, tais como, fechar-se em si, entristecer-se,
buscar outros caminhos profissionais.
Os professores colaboradores desta pesquisa afirmam que queriam ser professores
desde a infância e, mesmo percebendo que não é a tão sonhada profissão, continuaram e
63
se esforçaram para exercê-la com empenho e satisfação por pensarem que conseguiriam
vencer os desafios. Dejours (1992, p. 49) versa que “executar uma tarefa sem
investimento material ou afetivo exige a produção de esforços e de vontade, em outras
circunstâncias suportadas pelo jogo da motivação e do desejo”. A motivação e o desejo
aqui correspondem aos aspectos positivos da docência, a relação com os colegas, os
agradecimentos de alguns estudantes; contudo a permanência depende das respostas da
sociedade e do contexto educacional, as quais, não sendo satisfatórias, acabam por
enfraquecer e causar a ruptura definitiva com a profissão.
Depois de percorrer caminhos singulares, emergem as causas do desencanto e o
porquê do abandono. Os dados da pesquisa apontam que a dimensão financeira é a
maior causa do desencanto e abandono da docência.
Ouso alimentar o necessário debate sobre políticas de valorização profissional
especialmente no tocante ao trabalho docente que é árduo e desafiador. Aventuro
também sugerir que dentre os profissionais da educação, aqueles que saboreiam a sala
de aula merecem um reconhecimento especial. Deixo em aberto este marcante e
primeiro aspecto de parada.
DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do
trabalho. Trad. Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. 5. ed. ampl. São
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