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checa é pior que turra
MANUEL MARIA
CHECA É PIOR QUE TURRA
CARICATURAS DA GUERRA COLONIAL
FICÇÃO
PORTO
1996
MANUEL MARIA
TÍTULO
CHECA É PIOR QUE TURRA
AUTOR
MANUEL MARIA
© MANUEL MARIA
Beneficiário da SPA –
Sociedade Portuguesa de Autores
1996 / 1.ª EDIÇÃO / 1000 EX.
EXECUÇÃO GRÁFICA
EDIÇÕES ASA, SA
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CHECA É PIOR QUE TURRA
À Noca e à Sílvia, com muito amor, pela
estabilidade emocional proporcionada,
sem a qual não seria possível este livro.
À minha mãe, aos meus irmãos e à
memória de meu pai.
A todos os que, em terras de África,
comigo partilharam momentos inesquecíveis de profunda solidariedade, de uma
forma muito especial os Homens do meu
pelotão.
A todos os que, das mais diversas formas,
lá ou cá, me ajudaram a ultrapassar esse
período difícil da minha vida.
À memória dos que não puderam acompanhar-nos no regresso.
Um agradecimento muito especial à ECOP Empresa de Construções e Obras Públicas ARNALDO DE OLIVEIRA, S.A.,
cujo patrocínio foi fundamental para a viabilização da presente edição.
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MANUEL MARIA
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CHECA É PIOR QUE TURRA
I
«Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Conforme tem sido difundido, as Forças Armadas desencadearam, na madrugada de hoje, uma série de acções com vista à libertação do país do regime que, há longo tempo, o domina.
Nos seus comunicados, as Forças Armadas têm apelado para
a não intervenção das forças policiais, com o objectivo de se
evitar derramamento de sangue. Embora este desejo se mantenha
firme, não se hesitará em responder, decidida e implacavelmente,
a qualquer oposição que venha a manifestar-se.
Consciente de que interpreta os verdadeiros sentimentos da
Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua
acção libertadora e pede à população que se recolha às suas
residências. Viva Portugal!»
Manhã do dia 25 de Abril de 1974. José António ainda mal
acreditava no que ouvia. A cumprir o serviço militar em
Moçambique, encontrava-se no Porto, em casa de seus pais, a
gozar os últimos dias de férias. «Que coincidência!», pensava. A
notícia fora-lhe dada por seu pai. Incrédulo, ligou o rádio e não
se mostrou convencido, enquanto não ouviu o comunicado do M.
F. A., que era transmitido com uma periodicidade regular.
Então, correu desalmadamente em direcção a casa do seu amigo
Augusto que se encontrava na cama com uma perna partida.
Julieta abriu a porta. «Quem é, Julieta?», perguntou Augusto do
seu quarto. A irmã, que era um pouco surda, não teve tempo de
responder, tal a rapidez com que José António se abeirou do
amigo que ficava surpreendido com a sua visita àquela hora:
– Estarei com visões?! Julieta, que horas são?
– Dez – responde a irmã.
– Pensei que o meu relógio estivesse avariado! Já agora, tal
dono, tal relógio!
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MANUEL MARIA
José António esboçou um ténue sorriso que se desvanecia no
arfar ofegante. Não o beliscava, de leve que fosse, a ironia do
amigo. Durante as férias, apenas respeitava o ritual das refeições, participando nelas com um certo espírito devoto, razão
pela qual os seus horários eram tidos como sagrados. De resto,
considerava-se um profanador do tempo, e sentia, até, um certo
prazer por saber que não tinha de estar sujeito ao toque dum
qualquer despertador e muito menos ao duma corneta.
– Ainda não ouviu o rádio? – perguntou com a respiração
ainda acelerada.
– Não, porquê?
– Houve um golpe de estado em Lisboa.
– De que lado?
– Dizem que pretendem libertar o país do regime que o domina e aconselham a população a permanecer em casa para não
dificultar as operações. Por enquanto, não sei mais nada. Ligue o
rádio, que estão a transmitir o comunicado a cada momento.
«Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas...»
Assim que este foi repetido, Augusto não se conteve e, num
gesto brusco e determinado, lançou a roupa da cama para trás,
ergueu o tronco, rodou o corpo para a direita e deixou-se escorregar até que os pés, pendentes, tocassem no chão.
– Como vês, a esquerda é a única que se aproveita! – disse,
exibindo o gesso da perna direita.
– É... mas o verdadeiro equilíbrio só o mantemos quando
caminhamos com ambas. A propósito, aonde é que vai com tanta
pressa?
– Aonde é que vamos, queres tu dizer... Neste estado, sozinho, não me dá jeito ir a lado algum. Vamos à baixa ver o
ambiente.
– Você está mas é maluco! Com gesso na perna e ...
Interrompendo-o prontamente:
– Se calhar, sou algum inútil, algum anormal...
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CHECA É PIOR QUE TURRA
– Não, não é inútil, nem anormal. Anormal é o estado em que
se encontra e a circunstância que estamos a viver. Indefinidas
como estão as coisas, imagine que, por obra e graça do diabo, é
obrigado a dar aos calcanhares. Como é que faz? Ou pensa que é
como ir assistir ao desfile das marchas populares?
Sem esconder a falta de resignação:
– Vê se consegues perceber o que se passa e vem dizer-me.
– Logo que saiba mais alguma coisa, cá estarei.
José António sentia uma alegria do tamanho do universo pelo
facto de ter dado a notícia, em primeira mão, ao amigo. Augusto,
empregado do comércio, com cinquenta e seis anos de idade, era
um lutador anti-fascista que não havia, sequer, escapado às prisões da P.I.D.E., devido à amizade que mantinha com pessoas
suspeitas de pertencerem ao Partido Comunista. A P.I.D.E., contudo, nunca conseguiu provar que fosse membro daquela organização clandestina.
Naquele instante, tudo lhe vinha à memória em catadupa: o
primeiro encontro com Augusto, a primeira vez que entrara em
sua casa, as vezes sem conta que saíra desta depois de ter olhado
para cada um dos lados como um ladrão ao abandonar o seu
covil. Conhecera-o numa curta viagem de comboio. Ambos utilizavam este transporte diariamente para se deslocarem para os
seus empregos. Tinha, então, dezassete anos e intrigava-o o facto
de Augusto, apesar da simples instrução primária, ser o verdadeiro animador cultural das curtas viagens de todos os dias.
«Afinal de contas, eu até fiz o liceu! Não, não pode ser; ele só
tem a quarta classe! Não pode saber mais do que eu, que diabo!
Então para que andam as pessoas a estudar?», dizia para consigo, como se a sua hipótese pudesse contrariar uma tese já confirmada. Como seria possível um homem simples ser possuidor
de conhecimentos tão profundos?
Certo dia, Augusto convidou José António a passar por sua
casa, antes da hora do jantar, para lhe emprestar um livro de que
lhe havia falado. O problema que o intrigava dissolveu-se como
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MANUEL MARIA
um cubo de gelo exposto ao sol, quando viu, não sem espanto, a
biblioteca do amigo. Compreendeu, então, que a cultura deste
não era, efectivamente, apenas o fruto da escolaridade mínima
obrigatória, e jurou a si mesmo que, a partir daquele momento,
utilizaria todas as suas economias na compra de livros, para que,
um dia, pudesse exibir, com orgulho, as prateleiras da sua sabedoria. Tal decisão não se fez esperar. Não se pode dizer que
tenha passado a ser um rato das livrarias, mas tornara-se um
visitante assíduo dos pavilhões que, pouco tempo depois, expunham os seus escaparates aos que, por obrigação ou devoção,
passeavam pela Praça do Município.
Augusto, através das leituras que ia aconselhando, foi-se tornando o responsável por uma personalidade que renascia. Todavia, tal facto tinha o seu próprio preço: José António sentia que
os alicerces da sua educação eram postos à prova a cada
momento, como que sujeitos a permanentes abalos sísmicos.
Sobretudo as suas convicções de fé pareciam ruir como um
gigantesco arranha-céus num tremendo terramoto. E não é fácil
encarar um terramoto com a serenidade e a lucidez com que o
fizera Sebastião José de Carvalho e Melo.
Após o almoço, dirigiu-se à baixa portuense para verificar se
a vida da cidade decorria com normalidade.
Na paragem do autocarro, a bicha alongava-se, como que
indicando que havia já algum tempo que não passava qualquer
um. A movimentação militar era o tema das conversas e José
António começava a inquietar-se com a demora. Parecia-lhe
demasiado tempo à espera. E logo agora que a sua curiosidade
se aguçava cada vez mais! Queria ver com os seus próprios
olhos, queria dizer ao amigo da perna engessada e aos camaradas que deixara no Tacuane: «eu vi com os meus próprios
olhos!»
Decorrido algum tempo, era apenas mais um que se movimentava no meio de grupos desorganizados que se atropelavam
mutuamente. Esporadicamente, ouvia tiros, o que o impressio8
CHECA É PIOR QUE TURRA
nava, pois já tinha esquecido a arma que lhe estava distribuída e
que, havia quase um mês, descansava no distrito da Zambézia.
Hordas humanas, subindo e descendo a avenida num vaivém
idêntico ao das ondas do mar, apedrejavam, indiscriminadamente, as janelas dos edifícios entre a Praça do Município e a
Praça da Liberdade. Liberdade era a palavra de ordem, enquanto
o boato espalhava que a P.I.D.E./D.G.S. estava fechada, e fazia
constar que o Partido Comunista estava metido no assunto.
Os mais distraídos poderiam perguntar como estava o resultado do futebol, tantos eram os pequenos aparelhos de rádio pregados nos ouvidos dos mais ávidos pelas últimas. Falava-se do
cerco ao quartel do Carmo, em Lisboa, onde se refugiara Marcelo Caetano, mas, de concreto, pouco se sabia. Ouvia-se deste e
daquele para se tentar formular um juízo que poderia, contudo,
não corresponder à realidade. Nos momentos mais propícios, o
boato, o omnipresente boato, ganha foro de líder na república da
insensatez.
No meio da barafunda, tropeçou em alguém a quem pediu
desculpa. Hesitou por instantes e atirou-se de braços abertos:
– Natália! Tu também aqui, no meio desta malta toda!
Natália, uma elegante morena de longo cabelo grafite, mulher
do tipo que José António costumava designar por gazela, dada a
harmonia das formas deste tímido animal tropical, não sabia o
que dizer. Só a surpresa é verdadeiramente surpreendente. O
abraço foi mudo e prolongado, e o silêncio, carregado de uma
grande amizade, ganhava contornos de ternura e até de um certo
erotismo. Ambos pareciam não querer deixar de sentir o calor de
seus corpos.
Recomposta da surpresa, Natália retorquiu:
– Eu?! Que me dirás tu?! Eu faço a minha vida aqui. A ti é
que te imaginava lá no meio daquela mata selvagem!
– Acho que tens toda a razão. Estou de férias, isto é, quase
no fim das férias. Daqui por uma semana, já lá estou novamente.
– Então o que me dizes a isto?
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– Isso gostaria eu de te perguntar. Gostaria de saber qualquer
coisa de mais concreto. Tenho um amigo que está na cama com
uma perna partida e, a esta hora, está em pulgas por não poder
andar aqui. Espera que vá lá contar-lhe o que se passa.
– Testemunhar-se isto é extraordinário, mas o teu amigo, a
esta hora, já deve saber mais do que tu. O M.F.A. tem estado
constantemente a emitir comunicados.
– Explica-me lá: o que é isso do M.F.A.?
– Para já, sabe-se que é um movimento militar que diz pretender restaurar a liberdade em Portugal. Ainda há instantes,
soube que o Carmo está cercado e inundado de povo à espera
que o Caetano se renda. Parece-me que o Partido Comunista está
metido no assunto.
– Aliás, nem admira! O Partido Comunista sempre esteve
metido em tudo! Pelo menos, da fama nunca se livrará. Mas eu,
confesso, não percebo rigorosamente nada de política e, se calhar
por isso, acho que ainda não acredito no que vejo!
– E a tua vida? Como é aquilo por lá?
– Olha, Natália, isso é assunto para uma grande conversa e,
com certeza, não será este o momento mais oportuno para se
falar dele. Sabes que o que se está a passar pode vir a ter grandes reflexos na nossa vida de lá de fora? Comecei a desconfiar
logo que tive conhecimento do movimento das Caldas da Rainha.
Apesar de não ser político, só quem fosse ingénuo é que acreditaria que as coisas ficariam por ali.
– Já soubeste do livro do Spínola?
– Já, já comprei alguns exemplares para pessoas que mo
pediram, mas ainda não me dediquei a lê-lo. Eu sei que é uma
desculpa muito esfarrapada, mas o tempo de férias, aqui, é tão
pouco e as solicitações são tantas... E a preguiça também...
Quem já o leu foi o meu comandante de companhia que esteve
cá, também de férias, no mês anterior.
As horas iam passando e, à medida que as pessoas saíam dos
seus empregos, o grito de liberdade ecoava lêvedo nas gargantas:
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CHECA É PIOR QUE TURRA
«democracia sim, fascismo nunca mais; democracia sim, fascismo nunca mais...»
A torre do Município batia as dezanove horas. Os transportes
públicos procuravam cumprir o seu ritual diário, mas os seus
habituais utentes pareciam deles divorciados. Nas paragens,
apenas algumas mulheres, provavelmente preocupadas com a
hora do jantar, já que muitos deles não perdoam um pequeno
atraso à mesa.
Uma delas desabafava:
– Revolucionário como é, também anda, de certeza, por
aí...Valha-me Deus, este meu homem só serve para me dar consumições! Calcule a senhora a minha preocupação se ele não me
chega a casa à hora do costume...Até se me aperta o coração!
– Não se aflija, minha senhora. Se calhar, só devemos estar
tristes por ser tão tarde... – retorquiu a outra.
Às dezanove e cinquenta, novo comunicado do M.F.A. As
pessoas inquietam-se e os que se encontram mais afastados do
amigo que tem o aparelho encavalitam-se nos outros para ouvirem melhor:
«Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Continuando a dar cumprimento à sua obrigação de manter
o País ao corrente do desenrolar dos acontecimentos, o Movimento das Forças Armadas informa que se concretizou a queda
do Governo, tendo Sua Excelência o Professor Marcelo Caetano
apresentado a sua rendição incondicional a Sua Excelência o
General António de Spínola...»
E o grito do Chile de Allende começava a ganhar eco: «o
povo unido jamais será vencido, o povo unido jamais será vencido...»
– Nem posso acreditar, Natália!
– E se nos encontrássemos amanhã em qualquer lado? Falaríamos de tudo isto e das nossas vidas...Da tua, claro, porque a
minha tem pouco que contar, limita-se a algumas viagens a
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MANUEL MARIA
Coimbra para não perder o contacto e ir fazendo umas cadeiritas
até acabar o curso.
– Ainda te falta muito?
– Dois anos, se tudo correr bem.
– Fica combinado. Passo por tua casa e vamos até qualquer
lado tagarelar um pouco.
Desceram a avenida por entre a multidão até se confundirem
com ela.
No dia seguinte, José António dirigiu-se a casa de Natália.
Ela própria o recebe à porta:
– Ah, és tu! Entra, estava à tua espera.
Entrou e Natália acompanhou-o a uma pequena sala de estar.
– Senta-te. Vou avisar a minha mãe da tua chegada. Deseja
muito conhecer-te. Falei-lhe do encontro fortuito de ontem e ela
ficou cheia de curiosidade.
José António lançou o olhar ao redor da sala. Sem ostentar
qualquer luxo, a elegância e o bom gosto da decoração não
escondiam o toque feminino conferido pelas mulheres da casa. O
conforto do sofá convidava ao relaxe e, inclinando a cabeça para
trás, viu desenhar-se, diante dos seus olhos, a forma simétrica de
um dos apocalipses da humanidade. Levantou-se e deteve-se, por
instantes, diante do quadro que reproduzia a obra de Picasso.
«Não!...Não haverá uma Guernica em Portugal!»
– Mãe, apresento-te o José António.
Estremeceu. Não sabia bem se devido ao seu pensamento, se
às palavras que, inesperadamente, Natália dirigira à mãe. Voltou-se um pouco atabalhoadamente, mas procurou recompor-se,
estendendo a mão:
– Muito prazer, como passou?
– Bem, muito obrigado. O prazer também é meu. A Natália
não fez mais nada senão falar de si, depois que chegou ontem a
casa. Confesso que morria de curiosidade!
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– Ontem... Foi muito agradável. Um encontro do acaso... E,
no entanto, nenhum de nós lá estava por acaso.
A senhora sorriu.
– E o que pensa do acaso de ontem?
– Não sou político – e quem é que o é neste país? – mas penso que não aconteceu por acaso. Respeitando melhor opinião,
penso que há anos que tudo isto se vinha preparando. É natural
que haja causas próximas que terão conduzido ao dia de ontem,
mas as remotas são tantas... e perdem-se no passado, embora
não se percam na memória.
– Veremos o rumo que isto vai tomar...
– Mãe, por amor de Deus, não sejas agoirenta!
– Natália, a expectativa da tua mãe é legítima. Não se trata
de agoiro ou de meio agoiro: estamos apenas na primeira cena do
primeiro acto e não conhecemos ainda o final da peça...
D. Eduarda abana a cabeça num gesto subtil, manifestando o
seu acordo às palavras de José António e acrescenta:
– Fala-se da libertação dos presos políticos. Parece que é
uma das intenções do Movimento e o povo, agora, exige-o.
– Parece-me o corolário lógico.
– Seria uma atitude bastante importante e de inteira justiça.
Afinal, esses infernos de granito, sorvedouros de sofrimento e
expiação humana, ainda são baluartes do regime deposto.
– Sem dúvida, e acho que é chegada a hora de se transformar
os carrascos em máscaras desprezíveis ou ridículas caricaturas.
– A Natália disse-me que se está a preparar uma grande
manifestação para o 1º de Maio.
– Isso posso eu garantir-lhe, mãe! Está a ser preparada e já
nada a poderá impedir!
– Isto faz-me lembrar os passarinhos de estimação. São muito bonitos e cantam muito bem, mas, quando se apanham com as
gaiolas abertas... adeus, que este é que é o meu mundo! Portugal
está a transformar-se num mar de passarinhos com as gaiolas
abertas.
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– Está cá no 1º de Maio?
– Infelizmente, não. Embora seja daqui a dias, já cá não estarei. Embarco no dia 30, isto é, embarco se, entretanto, a Região
Militar de Moçambique aderir ao Movimento. Caso contrário,
como estou apresentado no Quartel General do Porto, deixo-me
ficar por cá até receber novas instruções. Estou na expectativa...
– É pena – diz Natália – embarcares precisamente na véspera
do 1º de Maio.
– Garanto-te que fico bastante desolado por não poder participar nessa manifestação. Deve ser uma coisa memorável. Se é
possível falar de sensações puras, penso que essa poderá aproximar-se imenso delas.
– Já tomaste café, Zé António?
– Ainda não. Sempre que posso fazê-lo na companhia de uma
jovem simpática, nunca vou só! Não, ainda não tomei. Estava à
tua espera.
– Então vamos. Até logo, mãe.
– Até breve, D. Eduarda. Foi um prazer conhecê-la.
– Não se esqueça de passar por cá antes de embarcar.
– Farei todo o possível, mas não prometo, para que, depois,
não me chamem mentiroso. Uma vez mais, até breve.
Entraram num café sem grande rebuliço. José António olhou,
por instantes, a sala e dirigiram-se para uma mesa, num dos
cantos, donde podiam observar toda a movimentação, apesar de
não se encontrarem minimamente interessados no que quer que
se pudesse passar no café, já que o centro das suas atenções
eram eles próprios.
Assim que o empregado pousou os dois cafés na mesa, José
António ofereceu o seu pacotinho de açúcar a Natália:
– Toma! É para ficares ainda mais doce!
Introduziu a pequena colher na chávena e começou a mexer.
– Não adoças o café?! – perguntou ela.
– Não!
– Então, para que mexes?
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CHECA É PIOR QUE TURRA
– Para arrefecer!
Natália sorriu. Parecia-lhe o final duma anedota. Ambos
continuaram o ritual, sorvendo golo a golo, até o fundo da chávena ficar a descoberto.
– Já não fazes a tua vida em Coimbra? – perguntou ele.
– Não, a estadia permanente fica muito cara. O custo de vida
está incomportável e era uma sobrecarga muito grande para o
orçamento familiar. Não posso exigir mais sacrifícios aos meus
pais, por isso resolvi montar o meu «quartel general» em casa e
passar por Coimbra aos fins-de-semana, sempre que possível,
para fazer a recolha dos apontamentos e tomar contacto com
aquilo que possa interessar-me.
– E as frequências?
– Se me sinto preparada, vou fazê-las, se não, faço os exames
finais. É a chamada lei do desenrasca. Não será o melhor método, mas o possível e de circunstância.
– Continuas a mesma defensora da condição feminina?
– Nasci mulher... Se fosse homem, seria defensor da condição
masculina, apesar de que os machos não têm muito de que se
queixar. O machismo é uma doença infantil que tende a agravarse com a idade adulta. Eles, assim que nascem, aprendem a
assumi-lo e elas aprendem a aceitá-lo...
– Pois é, concordo contigo. Mas as mãezinhas, como mulheres, não estão isentas de culpa. Uma das leis do machismo contribui decisivamente para uma maior permanência das mães em
casa: as chamadas mulheres domésticas. Assim sendo, não restam quaisquer dúvidas de que as crianças estão muito mais tempo em contacto com as mães do que com os pais. E sabemos,
perfeitamente, que as crianças são, nas mãos da mãe, aquilo que
o barro é nas mãos do oleiro. Pelo menos, enquanto as circunstâncias não se alterarem...
– E quantas mães têm consciência disso? Falas como se
tivéssemos uma população escolarizada e culta, mas sabes,
muito bem, que não é essa a nossa realidade. As nossas mães
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agem como foram educadas a agir. Não podemos ser cegos a
apontar-lhes o dedo. Mas, acima de tudo, não viemos aqui para
entrarmos neste tipo de discussão. Proponho que mudemos de
assunto e que fales da tua vida.
– Falar sobre o quê, concretamente?
– Sobre o que tem sido a tua vida em África: a guerra, as
perspectivas que se abrem agora com os novos dados, sei lá... o
que tiveres para contar.
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