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A Importância do Brincar na Educação Infantil

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A Importância do Brincar na Educação Infantil
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A Importância do Brincar na Educação Infantil
Natali Alves Barros Lira1
Juliana de Alcântara Silveira Rubio2
Resumo
Este artigo visa estabelecer as relações da criança com o
brincar; verificar os fatores que através do ato de brincar levam
ao desenvolvimento social, cognitivo e afetivo da criança;
mostrar que a brincadeira na Educação Infantil é um estímulo e
desenvolve aspectos cognitivos, afetivos e sociais.
Palavras Chave: Brincar ,Educação Infantil; importância do brincar.
1. INTRODUÇÃO
Brincadeira é coisa séria, pois brincando, a criança se expressa, interage, aprende
a lidar com o mundo que a cerca e forma sua personalidade, recria situações do
cotidiano se expressa; desta maneira percebe-se a importância do brincar como forma da
criança expressar-se e desenvolver suas habilidades de criação, de relacionar-se e de
interagir.
A maneira lúdica de aprender na educação infantil é de extrema importância, pois
leva o aluno a sensações e emoções fundamentais para o seu desenvolvimento. Afinal,
brincando a criança forma sua personalidade e aprende a lidar com o mundo. Assim,
pelo fato da brincadeira estar intrinsecamente ligada ao desenvolvimento infantil,
também deve estar inserida no contexto escolar com o objetivo de auxiliar o processo de
aprendizagem.
O presente artigo tratará da questão de como o brincar na educação infantil,
muitas vezes tem sido subelaborado a um segundo plano, ou usado apenas como forma
de entretenimento ou para ocupar o tempo ocioso das crianças.
A brincadeira é uma maneira surpreendente de aprendizagem, além de
promover a integração entre as crianças. Nesta fase, a criança está sempre descobrindo e
aprendendo novas coisas, é um ser em criação, o brincar nessa fase é fundamental para
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Aluna do curso de pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional da FAC-São Roque.
Mestre em Educação pela UNESP. Professora Orientadora.
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seu desenvolvimento social e cognitivo.
A maioria dos adultos, incluindo pais e professores, está preocupada apenas
com o aspecto pedagógico. Para estes, a escola representa um lugar sistemático de
aprendizado, enquanto consideram jogo, brinquedo ou brincadeira simplesmente um
lazer.
Dentro desta perspectiva, este artigo pretende levar pais e educadores a uma reflexão,
fazendo com que os mesmos adotem uma postura que transforme sua visão em relação
ao lúdico como forma de aprendizagem.
Uma vez, que os temas deste estudo foram apresentados, é necessário explicitar
o problema a ser investigado/questionado: A escola de educação infantil é um lugar para
se brincar, aprender; ou para se aprender brincando?
Frente a este questionamento, o artigo buscará verificar qual a contribuição do
lúdico, enquanto método de ensino aprendizado, no desenvolvimento infantil.
Este artigo pode ser de grande valia para escola, pais e educadores, uma vez que
o mesmo visa estabelecer as relações da criança com o brincar; verificar os fatores que
através do ato de brincar levam ao desenvolvimento social, cognitivo e afetivo da
criança.
2. O brincar na sociedade
É com carinho e uma dose de saudosismo que lembramos do nosso tempo de
criança, momentos prazerosos de alegria e amizade que se solidificavam com o brincar
e com o acompanhamento dos pais, que aproveitavam a nossa brincadeira para se reunir
no portão com os vizinhos.
O brincar é tão importante à criança quanto se alimentar e descansar, por meio
do brincar a criança estabelece relações de conhecimento consigo, com os outros e com
o mundo.
De acordo com Kishimoto (2004, p. 15), consideramos que o jogo tradicional
faz parte da cultura de um determinado povo, que transmite características próprias por
meio das gerações que se sucedem e com isso tornam o jogo tradicional uma
manifestação cultural sempre presente no cotidiano das crianças.
Considerado como parte da cultura popular, o jogo tradicional guarda a
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produção espiritual de um povo em certo período histórico. Essa cultura não
oficial, desenvolvida, sobretudo pela oralidade, não fica cristalizada. Está
sempre em transformação, incorporando criações anônimas das gerações que
vão se sucedendo.
A cultura é algo que pertence a todos e compreende objetivos comuns, brincar
é a primeira forma de cultura, uma linguagem pela qua l nos expressamos e nos
apossamos gradativamente.
Desde a antiguidade os seres humanos jogam e brincam entre si, o jogo
acompanhou a evolução histórica e esteve presente em todas as civilizações.
É certo que ao longo do tempo, esses jogos vão agregando novas características
e mudanças, pois é resultado das interações que os indivíduos fazem durante o uso de
tais práticas.
A compreensão das brincadeiras e recuperação do sentido lúdico de cada
povo depende do modo de vida de cada agrupamento humano, em seu tempo
e seu espaço. (Kishimoto, 2004, p. 63)
Kishimoto (2004) também descreve as influências que os portugueses, negros e
índios inseriram na cultura infantil brasileira: os portugueses trouxeram os versos,
adivinhas, parlendas, lendas, alguns jogos e brinq uedos como os jogos de saquinho,
amarelinha, bolinha de gude, jogo de botão, pião e outros; a influência negra contribuiu
com os jogos simbólicos e os índios instituíram as brincadeiras junto à natureza e aos
animais.
Essas influências são resultados do contato que existiu entre esses diferentes
povos quando se encontraram em nosso país. Com essa interação, podemos visualizar
uma grande variedade de jogos, brinquedos e brincadeiras que fazem parte não só da
cultura infantil popular do Brasil, mas que também aparecem e permanecem no
contexto social de outros povos.
O jogo e a brincadeira têm uma função sócio-cultural e educacional, segundo
Huizinga apud Darido e Rangel (2003):
O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e
determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente
consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si
mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma
consciência de ser diferente da “vida quotidiana”.
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Ariés apud Marcellino (2006) argumenta que para os adultos, o brincar não era
importante para a formação das crianças, a criança que brincava e jogava não produzia,
pois seu prazer estava no brincar e este não interessava para sociedade. O autor ainda
nos mostra como os jogos e as brincadeiras eram praticados sem distinção de idade ou
classe social. Porém, a partir dos surgimentos dos sentimentos da infância, “a escola e a
família retiraram juntas a criança da sociedade dos adultos”.
Com o surgimento da modernidade, a sociedade passou a estimular a
convivência das crianças com outras crianças, principalmente por meio da escola,
tirando-as das atividades de trabalho.
No passado as crianças tinham maior liberdade para brincar, mais espaço e
mais tempo, nas ruas e praças as pessoas se encontravam para brincar, correr, jogar e
aprender uns com os outros.
Os jogos tradicionais infantis aparecem de forma mais abundante no
cotidiano dos agrupamentos infantis de tempos passados, marcados por um
ritmo de vida mais lento. (Kishimoto 2004, p. 81)
Atualmente, por falta de espaço e segurança nas ruas, os jogos e brincadeiras
na vida das crianças tem se limitado ao espaço da escola, pois até mesmo em casa as
crianças têm sofrido influência da mídia e dos brinquedos eletrônicos e quando não é
isso, é a falta de tempo da criança que tem atividades programadas para o dia todo
(natação, inglês, judô, etc.) que não lhe sobra tempo para brincar, restando apenas o
espaço da escola.
Preenchido por obrigações e deveres, o tempo e o espaço para a criança brincar
e criar estão cada vez menores, impedindo-as de se tornarem autônomas e de fazerem
suas descobertas.
A preferência por brincadeiras de rua, presente na memória desses antigos
moradores de São Paulo, mostra o poder dos jogos tradicionais infantis,
perpetuados pela oralidade e pela apropriação do espaço coletivo. (Kishimoto
2004, p. 82)
Percebemos que o ritmo de vida mudou, refletindo mudanças no modo de
brincar da criança, as brincadeiras de rua quase não acontecem mais, a urbanização e a
violência trouxeram uma nova caracterização das ruas, que já não são adequadas para a
permanência das crianças.
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Essa mudança no contexto social influi diretamente na forma de brincar de
nossas crianças, as próprias limitações de espaço físico fizeram com que as crianças
passassem a brincar em seus quintais (quando este espaço existe), dentro de casa, com
brinquedos industrializados, jogos eletrônicos e o computador.
Influenciados pela mídia, as crianças desejam possuir vários brinquedos, as
novidades surgem dia após dia e os brinquedos rapidamente vão perdendo sua
especialidade, sendo necessária a substituição destes por outros mais arrojados, com
várias funções e atrativos.
Kishimoto (2004) aponta para a questão social que influencia no poder de
aquisição de brinquedos:
As condições sociais das crianças ricas estão associadas à utilização de
brinquedos industrializados ou artesanais e das crianças pobres, a brinquedos
construídos a partir de materiais facilmente disponíveis na natureza, como o
barro (Kishimoto, 2004, p.87).
As crianças de nível social mais elevado têm maior acesso a diferentes tipos de
brinquedos e atualmente vêm adquirindo diversos jogos eletrônicos, vídeos- game, jogos
para o computador, brinquedos que permitam a atividade em grupos ou sozinho.
Entretanto, podemos observar que houve o aumento da variedade de
brinquedos industrializados disponíveis no mercado, tornando acessível a aquisição de
diversos brinquedos às diferentes camadas sociais, onde não somente os ricos possuem
essa possibilidade, mas também as crianças menos favorecidas.
Segundo Almeida (2003, p. 37), ainda vale lembrar que, considerando a
realidade em que a criança vive não se pode esquecer que o brinquedo tem se tornado
objeto de consumo, a brincadeira tem perdido seu objetivo lúdico por conta dos
brinquedos contemporâneos, a criança não brinca mais, não explora, não cria, nem
representa concretamente seus pensamentos, valores, pois tudo já vem pronto, a criança
torna-se espectadora do “objeto brinquedo” e não interage com o mesmo.
Neste sentido, Wamser (2005, p. 11) também afirma:
A contemporaneidade nos tem revelado uma infância cada vez mais
tecnológica.
As crianças desde a mais tenra idade dominam o uso de
computadores, aparelhos eletrônicos e celulares. Como conseqüência disso,
para muitos de nossos educandos, o ato de brincar ocorre quase que
exclusivamente de modo eletrônico e virtual. Quando essa não é sua
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realidade é com o que sonham.
Com o avanço da tecnologia e a introdução do computador no ambiente social,
esse recurso tem entrado cada vez mais cedo ao acesso das crianças, seja nas casas ou
na escola.
Um produto inovador, transmissor de informações e influente nas relações
sociais, o computador apresenta uma nova face da realidade.
Por mais atrativo que seja o brinquedo eletrônico ou virtual, se a criança não
tiver prazer nele, este não terá valor algum, pois sua validade depende do interesse da
criança.
Muitas vezes a criança se vê obrigada a brincar sozinha, ou porque mora longe
de outras crianças, ou mora em apartamentos que não dispõem de espaços, em lugares
movimentados, que não permitem brincadeiras ao ar livre ou em grupos.
Diante dessa realidade, a criança também é estimulada a assistir desenhos na
televisão, filmes infantis, como forma de brincar, resultado da transformação da
sociedade, como ela não pode brincar na rua ou com outras crianças, esta é uma
alternativa assertiva na opinião de muitos pais, preocupados com a segurança de seus
filhos.
A televisão ajuda na construção da identidade, das relações sociais entre as
crianças, os adultos e o mundo. Quando a criança assiste aos desenhos, ela relaciona o
real com o imaginário, misturando a fantasia e a imaginação com o mundo real. O
problema é que o fio condutor dos desenhos é na maioria das vezes a violência e o
consumo, e a criança precisa de outras alternativas para lidar com seus conflitos.
É preciso estimular a reflexão de pais e educadores, atentando para as
mudanças que vêm ocorrendo na sociedade e a influência que esta tem sobre a educação
dos alunos. Se por um lado todo este avanço tecnológico tem oferecido conforto,
praticidade à população, o mesmo é responsável por um estilo de vida mais sedentário e
menos ativo.
Sendo assim, a criança não tem oportunidade para desenvolver seu
pensamento, sua criatividade, pois todas as informações já vêm prontas, a criança não
precisa pensar, não interage com brinquedo.
Uma boa alternativa é incentivar a criança a realizar em casa as brincadeiras e
jogos, estimulando-as a compreender e vivenciar o brincar como forma de aproveitar o
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tempo.
3. Jogo, brinquedo e brincadeira
3.1 Jogo
De acordo com alguns autores, dentre eles: Kishimoto (2003), Negrine (2002),
Froebel e Huizinga apud Kishimoto (2003), o jogo possui várias definições teóricas e
questionamentos a respeito de sua origem.
O que é pertinente ao nosso trabalho é que o jogo pode variar desde atividades
mais simples até aquelas que exigem maior concentração, onde existam regras
complexas, por exemplo. Podemos acrescentar ainda que nos jogos a criança poderá ter
uma criação e situação imaginária ou simbólica.
Negrine (2002, p. 46) diz que o simbolismo está relacionado aos fatores
biológicos da mente humana e à evolução desses processos, ou seja, com a capacidade
de memória, atenção, percepção e pensamento que no processo evolutivo vão se
transformando em processos mentais superiores e que apesar de serem oriundos dos
aparelhos biológicos do homem, somente evoluem porque o homem interage com o
meio.
O autor ainda complementa que no processo de aprendizagem e de
desenvolvimento, o exercício é importante para reafirmar a imagem de si próprio que a
criança tem.
Kishimoto (2003) descreve que no início do século XIX, o jogo surge como
inovação pedagógica por meio de Froebel, e passa a fazer parte da Educação Infantil,
ele enfatiza a importância do jogo livre para o desenvolvimento infantil, mas também
traz a idéia de jogo como material educativo no auxílio à prática pedagógica do
educador.
Huizinga apud Kishimoto (2003) aponta as características relacionadas aos
aspectos sociais do jogo: o prazer demonstrado pelo jogador, o caráter “não-sério” da
ação, a liberdade do jogo e sua separação dos fenômenos do cotidiano, a existência de
regras, o caráter fictício ou representativo e a limitação do jogo, no tempo e no espaço.
O jogo promove a integração da criança no grupo social, e também serve como
suporte para obtenção de regras.
Kishimoto (2003, p. 40), fala sobre os jogos de construção:
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Os jogos de construção são considerados de grande importância por
enriquecer a experiência sensorial, estimular a criatividade e desenvolver
habilidades da criança.
Fromberg apud Kishimoto (2003, p. 6), inclui as seguintes características ao
jogo infantil: simbolismo - que representa a realidade e atitudes; significação - que
permite relacionar ou expressar experiências; atividade - permite que a criança faça
coisas; voluntário ou intrinsecamente motivado - incorpora seus motivos e interesses;
regrado - de modo implícito ou explícito e episódico-caracterizado por metas
desenvolvidas espontaneamente.
Por ter diversas manifestações e variedades, torna-se difícil uma compreensão e
definição clara para o jogo, uma vez que diversos significados são conferidos para um
mesmo termo, o que é essencial é que o jogo pode ser utilizado como meio para educar,
mas para isso, precisam ser respeitadas as características da atividade lúdica.
3.2 Brinquedo
O brinquedo faz parte da vida da criança e está atrelado ao brincar, é
considerado como objeto lúdico no suporte para brincadeira.
Segundo Silva (2004, p. 25), pode-se dizer também que o brinquedo é uma
produção cultural da criança: no momento da brincadeira, a criança faz de qualquer
objeto seu brinquedo, ela o cria e recria de acordo com sua imaginação, com sua
brincadeira e contexto. Um exemplo disso é uma vassoura que se torna um cavalo para
criança enquanto brinca, ou mesmo com o brinquedo industrializado que normalmente
supõe uma brincadeira, ainda assim a criança o converte e lhe dá novo significado, ela o
reproduz, ou recria: uma boneca pode se tornar um microfone, ou um tecladinho virar
um computador, depende do que a criança deseja representar ou expressar, depende da
sua imaginação.
Tudo aquilo do mundo real que for usado pela criança para fazer suas
experiências e descobertas, para expressar-se e lidar com seu mundo interno e
subjetivo diante da realidade desses objetos, das coisas concretas e objetivas,
podem ser considerado brinquedo. Machado (2003, p. 35)
Segundo Wajskop (2007), brinquedo é o objeto de uso próprio da infância, cuja
ação lúdica é pura decorrência, e o brinquedo propicia a imaginação de situações e
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histórias diferentes e isso é que faz deles objetos especiais, ou seja, brinquedos. Os
brinquedos trazem em si um conjunto de imagens que convida as crianças a brincar e
que estão associados a um contexto cultural específico.
A criança pode fazer qualquer objeto se transformar num brinquedo, por meio da
imaginação ela muda seu significado.
Mesmo os brinquedos industrializados organizados nas prateleiras de uma
grande loja são apenas um potencial de brinquedos, não os são ainda. Esses
objetos se transformarão em brinquedos apenas quando forem usados pelas
crianças em uma situação de brincadeira, utilizados livremente para dar vida
aos enredos por elas inventados. (Wajskop 2007, p. 40)
Compreendemos então que brinquedo é qualquer objeto que se transforma a
partir da atuação da criança, tornando-se assim um suporte para a brincadeira e não um
objeto determinante na brincadeira. Com isso entendemos que não é o brinquedo que
delimita a brincadeira da criança, mas a brincadeira é que diz o significado do
brinquedo.
Neste momento lúdico, o brinquedo auxilia a criança na reconstrução de
elementos da realidade, o que faz com que ela os compreenda segundo sua maneira de
pensar.
O brinquedo estimula a representação, é um objeto pelo qual as crianças
estabelecem relações com o mundo que as cerca.
Ao assumir a função lúdica e educativa, o brinquedo educativo
merece algumas considerações: função lúdica: quando propicia diversão,
prazer e até desprazer, quando escolhido voluntariamente e função
educativa: o brinquedo ensina qualquer coisa que complete o indivíduo
em seu saber, seus conhecimentos e sua apreensão do mundo (Kishimoto,
2003, p. 37).
O brinquedo assume formas e significados de acordo com a necessidade das
crianças, é um objeto que pode ser transformado quando ligado à sua realidade ou a
manipulação desta. Por meio do brinquedo a criança reorganiza, constrói e reconstrói
relações entre situações no pensamento e situações reais.
Machado (2003, p. 34) nos diz com relação à ação do brincar da criança, que o
sucesso das experiências culturais adultas dependerá da confiança construída e
adquirida a partir de experiências boas na infância.
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A criança deve ser permitida se apropriar do brinquedo, sem interferências nem
exigências, ficando livre para buscar soluções, arriscar, desenvolver a autoconfiança e a
criatividade.
Exigir que a criança brinque com um brinquedo e forma de brincar específicos,
anulam a liberdade e a espontaneidade da brincadeira, causando reflexos nas atitudes e
escolhas que a criança tomará ao longo da vida.
A criança quando elege uma atividade, o faz de forma seletiva e, ao
selecioná-la, explicita uma preferência que determina o início de uma relação
com determinado objeto material. Na realidade, a tendência da criança, num
primeiro momento é de repetir o que já se sabe fazer,ou até mesmo explorar o
espaço e, num segundo momento, imitar a outro e, finalmente, vivenciar
novas experiências. (Negrine, 2002, p. 49)
O brinquedo industrializado é idealizado e produzido pelo adulto e sem
nenhuma interferência da criança, demonstra status social e muitas vezes, perde seu
caráter lúdico
De acordo com Machado (2003), os brinquedos-sucata são neutros e por isso
permitem muitos significados, a criança brinca, cria e recria de um jeito único e pessoal,
a criança pode usar seu corpo, seus movimentos e seus sentidos para que seja livre para
criar.
Concluímos então que brinquedo é qualquer objeto utilizado para fins de
brincadeira, seja ele, industrializado ou “criado” pela criança, quem determina o
significado do termo é a própria criança, em seu momento de brincadeira.
3.3 Brincadeira
Brincadeira é o lúdico em ação, é a ação expressa por meio do jogo ou do
brinquedo, entretanto, este fato não é via de regra, não são fatores determinantes para tal
ação. O ato de brincar pode ser conduzido independentemente de tempo, espaço, ou de
objetos, fato que na brincadeira a criança cria, recria, inventa e usa sua imaginação.
A brincadeira é uma linguagem infantil que mantém um vínculo essencial
com aquilo que é “não-brincar”. Se a brincadeira é uma ação que ocorre no
plano da imaginação isto implica que aquele que brinca tenha domínio da
linguagem simbólica. Isto quer dizer que é preciso haver consciência da
diferença existente entre a brincadeira e a realidade imediata que lhe
forneceu conteúdo para realizar-se. Nesse sentido para brincar é preciso
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apropriar-se de elementos da realidade imediata de tal forma a atribuir-lhes
novos significados. Essa peculiaridade da brincadeira ocorre por meio da
articulação entre a imaginação e a imitação da realidade. Toda brincadeira é
uma imitação transformada, no plano das emoções e das ideias, de uma
realidade anteriormente vivenciada. (RCNEI, v.1, p.27).
É por meio da brincadeira que a criança constrói suas aprendizagens e
conhecimentos, é nesse momento que sua imaginação se intensifica, e representa o
mundo social que a cerca, bem como as formas de comportamento que lhes são
referentes.
A brincadeira é um universo simbólico, onde a criança reconstrói e representa
sua realidade e aprende a dividir regras, é a partir daí que a criança, constrói riquíssimas
relações com seus pares e juntos fazem descobertas e adquirem novos conhecimentos.
Na brincadeira a criança pode modificar as regras, ela inventa e reinventa situações,
enfim, na brincadeira a criança tem liberdade para agir.
Nós educadores, devemos estar atentos ao brincar da criança, pois muitas
vezes, estamos preocupados com os resultados do jogo, com as habilidades e
competências que a criança deve desenvolver, ou até mesmo com aquilo que nós
consideramos importante para o seu desenvolvimento, e não observamos na riqueza
deste momento, que a criança por si só e na relação com seu par, alcançou ou superou
seus limites considerados essenciais para sua aprendizagem.
As dinâmicas de recreação propiciam a espontaneidade, a desinibição, a
liberdade, a integração, a coordenação, a participação em grupo, favorecem as relações
interpessoais, auxiliam no desenvolvimento da comunicação verbal e não-verbal e no
resgate de valores.
As cantigas e brincadeiras de roda, músicas, parlendas, mímicas permitem a
expansão da criatividade, desenvolve a atenção, a aproximação entre as pessoas, o
conhecimento e a valorização da cultura, a expressão oral e a audição.
O jogo simbólico deve ser utilizado de modo elaborado e com enfoque na
função que desempenha no desenvolvimento da criança, quando brinca de faz-de-conta,
a criança expõe suas angústias e medos, por meio da ação do brincar ela consegue
resolver seus conflitos.
Quando elas estão brincando frequentemente tornam o modelo adulto mais
complexo expandindo-o e transformando-o para dar-lhe um senso de controle
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e de poder. Na verdade, o faz-de-conta seria uma apropriação do mundo
adulto que é transformada pela maneira criativa como as crianças lidam com
esse conhecimento. ( Corsaro 2007, p. 19)
Ao brincar de faz-de-conta, a criança procura reorganizar suas situações
psicológicas, por meio da representação ela resolve seus conflitos internos, desenvolve
confiança e se tornam mais independentes dos pais e adultos.
A dramatização livre auxilia no desenvolvimento afetivo social da criança,
ela experimenta papéis e descobre como resolver problemas e conflitos de
ordem psicológica, ajudando-a a se ajustar a si mesma e ao meio ambiente
social à sua volta. (Rizzo, 1991, p. 193)
Segundo Santos(2001) os jogos simbólicos, também chamados de
faz-de-
conta, são jogos através do qual a criança expressa capacidade de representar
dramaticamente e a imitação é a base da expressão dramática. Os jogos de exercício
propiciam inúmeras aquisições para o desenvolvimento motor e intelectual do
indivíduo, pois a criança coloca em ação sua inteligência prática através de ordenações
sobre os objetos.
Na brincadeira o mais importante é a vivência afetiva, a expressão, a
descoberta, a realização e os novos significados que surgem.
Brincar é meio de expressão, é forma de integrar-se ao ambiente que o cerca.
Através das atividades lúdicas a criança assimila valores, adquire
comportamentos, desenvolve diversas áreas de conhecimento, exercita-se
fisicamente e aprimora habilidades motoras. No convívio com outras crianças
aprende a dar e receber ordens, a esperar sua vez de brincar, a emprestar e
tomar como empréstimo o seu brinquedo, a compartilhar momentos bons e
ruins, a fazer amigos, a ter tolerância e respeito, enfim, a criança desenvolve
a sociabilidade. (Ribeiro, 2002, p. 56)
Durante as brincadeiras de faz-de-conta as crianças podem reverter a situação
em que elas vivem, a partir daí elas entendem a natureza do poder e do status, elas
podem experimentar diferentes tipos de papéis e fazer combinações que não existem no
mundo real, é um tipo de poder de transformação que as crianças têm.
Brincadeira é coisa séria, pois brincando, a criança se expressa, interage, aprende
a lidar com o mundo que a cerca e forma sua personalidade, recria situações do
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cotidiano e expressa sentimentos básicos como o amor, o medo, raiva, ansiedade.
Brincar e recrear-se é o momento espontâneo da criança, processo em que esta
se expressa, experimenta, representa e adquire novos conhecimentos. Durante o
desenvolvimento dessas novas experiências e descobertas, neste momento lúdico, o
professor tem um papel de facilitador, pois este, em determinados momentos orienta e
dirige o processo e em outros, as crianças são responsáveis por suas próprias
brincadeiras.
3.4 Brinquedotecas
De acordo com Cunha (2002, p.13) as brinquedotecas surgiram no Brasil nos
anos 80 e foram criadas com objetivos de proporcionar estímulos para que a criança
possa brincar livremente.
A autora ainda enumera vários objetivos que podem ser alcançados durante um
trabalho na brinquedoteca como: estimular o desenvolvimento, a concentração, a
atenção, favorecer o equilíbrio emocional, desenvolver a inteligência a criatividade e a
sociabilidade, oportunidade para aprender a jogar, e a participar, e incentivar a
valorização do brinquedo como atividade geradora do desenvolvimento intelectual,
emocional e social, enriquecimento do relacionamento entre a criança e a família e
valorizar os sentimentos afetivos e cultivar a sensibilidade.
A principal finalidade da brinquedoteca é a valorização da atividade lúdica.
A escola pode ensinar a, a psicopedagogia pode cuidar dos problemas
de aprendizagem, a psicologia pode resolver problemas emocionais, a
família pode educar, mas a brinquedoteca precisa preservar um espaço para
a criatividade, para a vida afetiva para o cultivo da sensibilidade; um espaço
para a nutrição da alma deste ser humano criança, que preserve sua
integridade, através do exercício do respeito à sua condição de ser em
formação. (Cunha 2002, p.21)
De acordo com Cunha (2002, p. 13), as pessoas que trabalham na
brinquedoteca, os brinquedistas, são educadores preocupados com a felicidade e com o
desenvolvimento emocional, social e intelectual das crianças.
Cely (2002) diz que o objetivo da brinquedoteca é propiciar tempo e espaços
para que as crianças brinquem livres da obrigação de cumprirem metas determinadas
pelos adultos em determinados trabalhos, que se sintam alegres e felizes. É um espaço
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para a socialização, a construção e a representação.
A criança deve brincar por vontade própria, sem a obrigação de fazê- lo. A
brinquedoteca pode oferecer a possibilidade de a criança brincar com brinquedos que
desejaria ter e não possuem condições, pode auxiliar no desenvolvimento do respeito,
de cooperação, compartilhamento dos brinquedos, neste espaço a criança conhece novas
pessoas e estabelece novas relações, onde pode comunicar-se, conviver e interagir
livremente.
Brinquedoteca é o espaço para brincar. Não é preciso acrescentar mais
objetivos, é preciso valorizar a ação da criança que brinca.
4. O brincar e o jogo na escola
As crianças aprendem através da relação com outras pessoas, além do contato
com os objetos e com o meio ambiente, explorando e vivenciando, esses materiais.
Segundo Felipe (2001, p. 28), Piaget, Vigotsky e Wallon tentaram mostrar em
suas obras a capacidade de conhecer, aprender e construir que ocorre por meio das
trocas e interações entre sujeito e o meio. Sobretudo, o autor destaca as contribuições
dessa relação no sentido de desenvolver a capacidade afetiva, a sensibilidade e a autoestima, o raciocínio, o pensamento e a linguagem no desenvolvimento da criança,
quando interage consigo, com os objetos e com os outros.
A propagação dos jogos na área educacional se deu no século XVI como apoio
à prática pedagógica, e tinha como objetivo, a aquisição de conhecimentos diversos e a
partir daí, conquista seu espaço definitivo na educação infantil.
Entretanto, nos processo de expansão, a pré-escola acabou cerceando o jogo
livre proposto inicialmente por Froebel e criou condições para o
aparecimento dos jogos didáticos e educativos, com finalidades definidas. O
processo gradual de escolarização acabou dando uma nova forma ao jogo
pré-escolar; um jogo aliado ao trabalho escolar, um jogo que visa à aquisição
de aprendizagens específicas, definidas a priori, tais como forma, cor,
números, além de comportamentos mais amplos e complexos como
cooperação, socialização, autonomia entre outros. (Kishimoto 2002, p. 27 e
28)
Kishimoto (2002) ressalta a contribuição de Froebel quando institui nos jardins
de infância a utilização de brincadeiras e brinquedos, atividades livres e orientadas,
intercaladas por movimentos e músicas, todos estes aparecendo como suporte da ação
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docente destinados à apropriação de habilidades e conhecimentos.
Baseados em seus estudos, observamos a aplicação da teoria Froebeliana sobre
o brincar livre e promovedor do desenvolvimento era destinado apenas a classes
privilegiadas, em instituições específicas como os jardins de infância e em tempo curto
de curso. Já para os menos favorecidos eram destinadas as escolas maternais de caráter
assistencialista, por período integral, onde se acreditava que essa classe necessitava de
constante controle e disciplina.
Em Kishimoto (2002) podemos observar o aparecimento do brinquedo nas
escolas:
Os brinquedos ficam expostos como decoração e não servem de suporte ao
desenvolvimento motor da criança. Móbiles são pendurados no alto, nas
paredes, distantes do olhar e da mão da criança. Enfim o uso do brinquedo
destina-se a decoração da sala, e não como suporte de brincadeira ou de
estímulo para a exploração do ambiente. A falta de hábito em observar os
efeitos do uso de brinquedos e brincadeiras impede profissionais de creches
de compreenderem a necessidade de selecioná-los e adequá-los com
interesses e nível de desenvolvimento das crianças (Kishimoto, 2002, p. 34).
Dessa forma o brinquedo passa a assumir a condição de simples objeto
desprovido de valor lúdico, perdendo seu real significado que é favorecer a interação, a
representação e a criação da criança. O papel do educador é propiciar oportunidades
para as crianças brincarem, propiciar um amb iente de atividades ricas, prazerosas,
lúdicas, educativas e sociais diversas.
Fortuna (2003) diz:
(...) a escolinha e a creche são lugares de brincar, enquanto a escola (as
demais séries do ensino) é lugar de estudar.
Podemos afirmar que esta é a visão que se tem da escola de educação infantil,
apesar de certas instituições explorarem em suas propagandas várias vantagens, como
aulas de língua estrangeira, computação, escolinhas de esportes, o brincar é uma forma
das crianças adquirirem conhecimento, sendo considerado uma importante ferramenta
no processo pedagógico.
O problema é que, apesar de muitos educadores deixarem seus alunos
brincar, a efetiva brincadeira está ausente na maior parte das classes de
educação infantil. E o que é pior: à medida que as crianças crescem, menos
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brinquedos, espaço e horário para brincar existem. Quando aparece, é no
pátio, no recreio, no dia do brinquedo, não sendo considerada uma atividade
legitimamente escolar (Fortuna, 2003).
Considerado como essencial, o brincar na escola muitas vezes perde seu espaço
dando lugar a outras ações pedagógicas.
O jogo passou a ter um valor educativo a partir do século XIX, com as
contribuições de Froebel apud Kishimoto (2003, p. 16), em sua teoria ele enfatiza o
valor do jogo livre como forma do desenvolvimento infantil, mas não descarta o jogo
como o material educativo para auxiliar na aquisição do conhecimento.
Surgem então, debates a esse respeito, alguns estudiosos defendem que o jogo
deve ser livre, enquanto outros acreditam que deveria ser direcionado.
A partir dessa relação, da necessidade de brincar (livre) e a tarefa de educar
(direcionado) surge então o jogo educativo: mistura de jogo e de ensino, um meio de
instrução, um recurso de ensino para o professor e ao mesmo tempo um fim em si
mesmo para criança que só quer brincar. (Girard apud Kishimoto 2003, p.18).
O desequilíbrio dessas funções causa ou a falta do ensino (só o jogo), ou a falta
do jogo (só ensino).
Segundo Campagne apud Kishimoto (2003, p. 19 e 20), o jogo utilizado como
suporte pedagógico deve ser pensado e bem elaborado, pois se não for, perde sua função
lúdica quando empregado inadequadamente, para isso sugere critérios para escolha de
brinquedos para a prática pedagógica: o brinquedo deve ter valor experimental, que
permita a exploração e manipulação; valor da estruturação, que dá suporte à construção
da personalidade infantil; valor de relação, onde a criança entra em contato com seus
pares e adultos, com objetos, e com o ambiente em geral para propiciar o
estabelecimento de relações; e o valor lúdico, avaliar se os objetos possuem as
qualidades que estimulam o aparecimento da ação.
Utilizando-se destes critérios na escolha do jogo para uma situação de
aprendizagem o professor consegue obter bons resultados de acordo com as metas
pedagogicamente traçadas.
Quando brinca, a criança pensa e se organiza para aprender aquilo que está no
momento de aprender, na brincadeira espontânea a criança cria, escolhe e organiza seus
brinquedos, lidando com o mundo à sua maneira e aprendendo o que ela quer aprender.
Neste sentido, vale ressaltar nas palavras de Almeida (2003, p.37 e 38):
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“O brinquedo faz parte da vida da criança, simboliza a relação pensamentoação e torna possível o uso da fala, do pensamento e da imaginação. O
mundo do brinquedo é um mundo composto, que representa o apego, a
imitação, a representação e faz parte da vontade de crescer e desenvolver-se.
Ao brincar com as bonecas a criança descarrega seus sentimentos, exprime
suas necessidades de afeto. Faz do brinquedo a representação, constituindo
uma autêntica atividade do pensamento.”
Com este apontamento percebe-se a importância do brincar como forma da
criança expressar-se e desenvolver suas habilidades de criação, de relacionar-se e de
interagir.
A criança aprende melhor brincando e muitos conteúdos podem ser ensinados
por meio das brincadeiras, as atividades com jogos ou brinquedos podem ter objetivos
didático-pedagógicos que visem proporcionar o desenvolvimento integral do educando.
O ideal, de acordo com nossa vivência, é que as escolas de educação infantil
devem ter espaços e recursos que promovam a hora da brincadeira livre e dirigida.
Livre: onde a criança se expressa e desenvolve sua criatividade, o professor não
interfere, apenas observa e nesse brincar espontâneo, podemos diagnosticar as ações da
criança. Dirigida: a criança tem uma meta a alcançar, estabelecida pelo professor, o
professor é o orientador, mediador e deve ser parceiro nesse processo.
De acordo com Macedo (2003), a escola pode e deve ser um lugar de
brincadeiras e jogos (livres ou dirigidos) de atividades que significativas para a criança,
que estimulem seu pensamento e sua criatividade.
Chateau apud Kishimoto (2003, p. 21), considera que a escola tem uma
natureza própria distinta do jogo e do trabalho. Entretanto, ao incorporar algumas
características tanto do trabalho como do jogo, a escola cria a modalidade do jogo
educativo, destinada a estimular a moralidade, o interesse, a descoberta, e a reflexão.
As brincadeiras livres ou espontâneas permitem à criança chegar às suas
próprias conclusões sobre o mundo que a cerca, pois ela transforma e recria objetos
dando a eles novas formas.
Ramos apud Fortuna (2003), diz que a brincadeira não deve ser uma atividade
tão “largada” que dispense o educador, nem tão dirigida que deixe de ser brincadeira.
Entendemos que a ação do educador é fundamental no processo denominado
brincadeira, pois a sua intermediação poderá ser requisitada a qualquer momento, seja
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para incentivar ou para moderar as atividades.
“Ao permitir a manifestação do imaginário infantil, por meio de objetos
simbólicos dispostos intencionalmente, a função pedagógica do jogo subsidia
o desenvolvimento integral da criança” (Kishimoto, 2003).
Dessa forma, deixar a criança brincando sem um objetivo específico pode não
promover efetivamente a capacidade de interação, a busca e a troca de aprendizagens.
Todavia condicioná- los rotineiramente a atividades exclusivame nte dirigidas,
inibe o processo de criação, curiosidade e espontaneidade da criança, fazendo com que
ela não consiga expressar seus desejos e recusas, limitando o desenvolvimento da
autonomia.
Os materiais devem estar dispostos nas salas em mesas ou prateleiras, de
forma que a criança possa escolher apanhar e usar qualquer um, à sua
vontade. O trabalho livre e criador, realizado de forma diversificada
(oferecimento múltiplo e simultâneo de atividades) é o elemento propulsor
essencial do desenvolvimento de atitudes de ordem afetiva, intelectual e
social e, como tal, não pode ser substituído, em nenhuma hipótese, por outro
qualquer tipo de trabalho dirigido, onde o educador determina o que a criança
deve fazer e como. (Rizzo,1991, p.219).
Portanto, se na escola, proporcionamos o espaço, disponibilizamos materiais e
até mesmo nos envolvemos na brincadeira da criança, para que ela livremente se
expresse e desenvolva sua criatividade, estamos assim tornando esse momento
educativo, promovendo o desenvolvimento da criança, estamos assim respeitando o
caráter lúdico do jogo.
Os brinquedos constituem-se hoje em objetos privilegiados da educação das
crianças, desde que inseridos numa proposta educativa que se baseia na
atividade e na interação delas, tendo significado quando utilizados pelas
crianças para brincar. (Wajskop, 2007, p. 41)
Os brinquedos são objetos mediadores das brincadeiras, trazem consigo
informações que podem ser inseridos nas escolas considerando-se a seleção de acordo
com a faixa etária da criança e a necessidade de cada projeto ou propósito de trabalho.
O brinquedo deve apresentar desafios para a criança e deve estar adequado ao
seu interesse e suas necessidades criativas, ele deve ser um convite ao brincar, desde
que a criança tenha vontade de interagir com o mesmo; com isso, o brinquedo torna-se
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recurso didático de grande aplicação e valor no processo ensino aprendizagem. E é
nesse sentido que o professor pode e deve utilizar-se do brinquedo como recurso no
processo de ensino-aprendizagem.
Nesse sentido, qualquer jogo empregado pela escola, desde que respeite a
natureza do ato lúdico, apresenta o caráter educativo e pode receber também
a denominação geral do jogo educativo. (Kishimoto, 2003).
Para Kishimoto (2003) a discussão em torno da utilização do jogo com função
pedagógica deixa de existir quando se respeita a natureza do mesmo.Todo jogo, por si
só é educativo, seja ele direcionado ou livre, pois de uma forma, ou de outra, a criança
sempre adquire conhecimento por meio deste.
Contudo, no brincar livre, por meio da observação e registro do professor, é
possível diagnosticar as idéias, os valores e as fases do desenvolvimento da criança
podendo assim observar o momento adequado de intervir para aquisição de
conhecimento; no brincar direcionado, podemos propor brincadeiras ou jogos com
objetivos específicos a serem alcançados.
“O brincar livre deve ocorrer nas escolas? Talvez não, se a visão do
“professor” for à de um instrutor ou doador de conhecimentos. Entretanto,
dentro da noção do professor como um mediador e iniciador da
aprendizagem, o brincar livre e o dirigido são aspectos essenciais da
interação professor/criança, porque o professor tanto permite quanto
proporciona os recursos necessários e apropriados”. (Moyles, 2002, p.29)
De acordo com Moyles (2002), é preciso haver o equilíbrio entre o brincar livre
e o dirigido, pois ambos são necessários para o desenvolvimento da criança. Uma vez
que o brincar livre promove a descoberta, a criatividade e a autonomia da criança, o
brincar adequadamente dirigido pelo professor possibilita que a criança aprenda a partir
do conhecimento que ela ainda não possui; o professor pode sugerir um jogo, mostrar
como se joga, pode interagir na brincadeira, organizar materiais e espaço, assim sendo o
brincar está sendo orientado, mas, não perde sua função lúdica se a criança tem
liberdade em suas escolhas.
Propor atividades em que as crianças possam participar dando sugestões sobre
o que será feito, estimula a autonomia e o raciocínio, a atividade se torna atrativa, o
interesse e a concentração são maiores.
O educador infantil que realiza seu trabalho pedagógico na perspectiva lúdica
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observa as crianças brincando e faz disso ocasião para reelaborar suas
hipóteses e definir novas propostas de trabalho (Fortuna, 2003).
O momento de brincar das crianças é uma oportunidade para o educador
observar e refletir sua prática, analisando particularmente os avanços e necessidades de
cada criança, buscando reorganizar e replanejar sua proposta de trabalho, inserindo
novas estratégias que contemplem efetivamente a evolução da criança.
5. Considerações finais
Com a elaboração do tema proposto por este artigo pode-se notar a importância
do lúdico para a promoção do desenvolvimento da criança na Educação Infantil.
De acordo com a revisão bibliográfica e outras referências consultadas, pode-se
organizar e selecionar as principais contribuições que fundamentaram teoricamente o
presente artigo.
Considerando que o brincar enquanto primeira forma de cultura, enquanto
atividade biológica essencial e espontânea da criança, sempre esteve presente em seu
cotidiano, com o passar do tempo se transformou e agregou características específicas
de cada povo em seu espaço e tempo, todavia sendo perpetuado pela transmissão de
geração à geração.
Pode-se constatar que o jogo, o brinquedo e a brincadeira são instrumentos
mediadores no processo didático-pedagógico, são importantes ferramentas, auxiliares no
desenvolvimento cognitivo, motor, afetivo, psicológico e social da criança em
formação. Peças-chave neste processo, estimulam a relação da criança consigo mesmo,
com os outros e com o mundo.
Pode-se visualizar a transformação do contexto social, modificado e marcado
por um estilo de vida acelerado, abarrotado de compromissos e atividades, espaços e
tempos limitados, a introdução da tecnologia e do ambiente virtual, a violência e a
insegurança causadas pelo crescimento acelerado das cidades e do consumo, todos esses
são fatores contribuintes para a mudança no conceito de brincar na vida de nossas
crianças.
De acordo com toda essa constatação, concluí-se que o educador ocupa um
papel principal nesta situação, pois é na escola, e talvez somente na escola, que ocorram
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oportunidades para as crianças brincarem.
Portanto, o educador necessita refletir sobre a questão do brincar, criar espaços
e tempos que permitam a realização de jogos, brincadeiras, instituindo estratégias que
permitam a promoção e evolução integral da criança.
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