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CLODOALDO GONÇALVES LEME É GOL! DEUS É 10 A

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CLODOALDO GONÇALVES LEME É GOL! DEUS É 10 A
CLODOALDO GONÇALVES LEME
É GOL! DEUS É 10
A RELIGIOSIDADE NO FUTEBOL PROFISSIONAL PAULISTA E A
SOCIEDADE DE RISCO
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
PUC - SP
2005
CLODOALDO GONÇALVES LEME
É GOL! DEUS É 10
A RELIGIOSIDADE NO FUTEBOL PROFISSIONAL PAULISTA E A
SOCIEDADE DE RISCO
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
PUC - SP
2005
CLODOALDO GONÇALVES LEME
É GOL! DEUS É 10
A RELIGIOSIDADE NO FUTEBOL PROFISSIONAL PAULISTA E A
SOCIEDADE DE RISCO
Dissertação apresentada à Banca
Examinadora
da
Pontifícia
Universidade Católica de São
Paulo, como exigência parcial para
obtenção do título de Mestre em
Ciências da Religião, sob a
orientação do Prof. Dr. Frank
Usarski.
PUC - SP
2005
Dedico este trabalho a toda minha
família, pelo esforço prestado para que
eu concluísse este curso, em especial
para minha mãe Walkiria, meu pai
Alceu e ao meu irmão Douglas. Sem a
compreensão
de
vocês
seria
impossível concluir esta dissertação.
III
Agradecimentos – Um Time bom de bola
Primeira bola, primeiro chute, primeiro gol, primeira defesa; estádio lotado, estádio vazio,
gramado bom, gramado ruim, time ganhando, time perdendo; lutar, gritar, encenar,
reclamar; pedir, agradecer, chorar, sorrir, comemorar; ganhar, empatar, perder; nascer,
viver, morrer, ressurgir. O futebol é o mundo de muitas pessoas, sendo que grande parte
delas fazem com que este esporte continue encantado e encantando.
Assim, agradeço aos adeptos do futebol: dos que praticavam aos que praticam aos que
vão entrar em cena; do torcedor do estádio ao torcedor de “radinho”; daquele que ama a
aquele que odeia; do que escreve ao que fala; e, porque não, a todos que vivem na Terra,
em uma imensa bola de futebol conduzida por Deus; enfim, a todos os que vivem no
espiral risco/espetáculo que é a sociedade em que vivemos. Na sombra de vocês escrevi
este trabalho.
Gostaria de agradecer, especialmente, ao Prof. Dr. Frank Usarski que me orientou neste
estudo, sempre com palavras de incentivo e competência, me dando um rumo nos
momentos em que me perdi e, acima de tudo, pela sua amizade.
Exclusivamente ao meu grande amigo Rodrigo Wolf Apolloni, que colaborou muito na
construção dessa dissertação, sempre com ricas sugestões. Nossa amizade permanece
firme, com muito respeito e admiração.
À Luciene – bela parceira -, ao Afonso – fonte de motivação -, à Marlene – minha “guia” -,
ao Claudinei – grande caráter -, aos colegas de classe, das empresas onde trabalhei, aos
meus alunos, ex-alunos e ex-professores, aos meus amigos de todos os lugares – que
prefiro não citar nome para não excluir ninguém - pela ajuda (direta e indireta) e
companhia na caminhada que percorremos até agora. Suas amizades foram a minha
força.
Ao meu avô Mário Tuon (in memorian), que sempre esteve me incentivando nos
momentos em que mais precisei. Seria impossível começar este curso sem sua ajuda,
pois eu não tinha dinheiro nem para pagar a matrícula e, com suas “economias”,
IV
conseguiu me ajudar e socorrer nos momentos de mais aflições financeiras. O dinheiro é
a angústia de todo estudante pobre do país.
À senhora Aparecida Aiko Yoshida, que, solidária à minha situação, me concedeu uma
bolsa de estudo na escola de idiomas WIZARD, situada Caieiras. Foi uma grande ajuda.
Aos coordenadores da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior), entidade que me cedeu uma bolsa de estudo, sendo determinante para a
conclusão deste trabalho.
Aos professores da PUC-SP, aos funcionários e, principalmente à Andréia, secretária do
departamento do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião (sempre
muito prestativa, sanando todas as dúvidas e mantendo os alunos bem informados), que
durante o período do curso estiveram ao meu lado, o meu muito obrigado.
Aos clubes - assessores de imprensa, atletas e integrantes de comissões técnicas - que
me receberam de portas abertas para que eu realizasse a pesquisa de campo.
Finalmente, a Deus, que me fez progredir espiritualmente. Sem Ele, perderia o chão com
facilidade. Através de minhas orações encontrei conforto e respostas para muitas coisas e
isso eu não posso negar. Ajude-me meu Pai! Obrigado meu Pai!
Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar!!!
V
MANUELZÃO E MINGUILIM
“- Minguilim, este feixinho está muito pesado para você?
- Tio Terêz está não. Se a gente puder ir devagarinho como
precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa
demais, então eu acho que nunca que é pesado!”
Guimarães Rosa
NÃO UM CASO DOENTIO
Não um caso doentio,
Nem a ausência de grandeza, não,
Nada pode matar o melhor de nós,
A bondade, sim senhor, que padecemos:
- Bela é a flor do homem, sua conduta
E cada porta é a bela verdade
E não a sussurrante aleivosia.
Sempre ganhei, por ter sido melhor,
Melhor que eu, melhor que fui,
A condecoração mais taciturna:
- Recuperar aquela pétala perdida
De minha melancolia hereditária
- Buscar mais uma vez a luz que canta
Dentro de mim, a luz inapelável.
Pablo Neruda
VI
SUMÁRIO
RESUMO........................................................................................................................... 11
ABSTRACT.......................................................................................................................12
INTRODUÇÃO: “A benção, João de Deus!” - Dentro e Fora do Campo…................. 13
PRIMEIRA PARTE
FUTEBOL E RELIGIÃO: DENOTAÇÕES
1 - O APITO INICIAL.........................................................................................................24
1.1 – Considerações preliminares………………………………………...........……. 24
1.2 - Rolando a bola pela História……………………………………………............ 24
1.2.1 – A conquista da força e do respeito…………………………………….......... 28
1.2.2 – O globo, a bola e os deuses………………………………………...........…. 32
1.3 – Reflexões sobre o futebol no Brasil…………………………………...........…. 38
1.3.1 – O esporte que “caiu no gosto” do povo…………………………….............. 40
1.3.2 – “Deus de chuteiras” – aspectos marcantes da religiosidade
entre atletas, técnicos e dirigentes………………………………………...........…… 45
1.4 – Da “várzea” à “elite”: o futebol em São Paulo………………………...........… 53
1.4.1 – O futebol paulista contemporâneo………………………………….............. 56
1.4.2 – A “18ª regra” do futebol: Religião………………………...........……………. 59
1.5 - Conclusões ao capítulo……………………………………………...........…….. 63
2 – A RELIGIOSIDADE EM CINCO EQUIPES DE FUTEBOL DE SÃO PAULO............ 64
2.1 – Considerações preliminares……………………...........………………………. 64
2.2 - Lógicas e valores…………………………………………...........…………….... 64
2.2.1 – Situação vigente………………………………………………...........……….. 67
2.3 – O perfil das cinco equipes principais do futebol paulista……………............ 69
2.3.1 – Sport Club Corinthians Paulista……....……………………………………… 71
2.3.2 – Santos Futebol Clube………………………………….......………...........…. 72
2.3.3 – Sociedade Esportiva Palmeiras………………………...........…..…………..72
2.3.4 – São Paulo Futebol Clube………………………….…………...........……….. 73
2.3.5 – Associação Desportiva São Caetano…………………………..……........... 73
2.4 - No sucesso ou no fracasso: “Deus é fiel” …………....………...........……......74
2.4.1 – A leitura religiosa do futebol na mídia........................................................ 75
VII
2.4.2 – Será que “O domingo é para Deus, não para esportes
e outras diversões”? ………………………............................…..…............………. 81
2.4.3 - Sport Club Corinthians Paulista…………………………………………........ 85
2.4.4 - Santos Futebol Clube………………………………….......………...........….. 89
2.4.5 – Sociedade Esportiva Palmeiras………………………….............………….. 91
2.4.6 – São Paulo Futebol Clube…………..........……………….............…………. 95
2.4.7 – Associação Desportiva São Caetano………………………….................... 98
2.5 – Conclusões ao capítulo…...............………………………..………................. 101
3 – CONSTITUIÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA...................... 103
3.1 – Considerações preliminares....…………..……….......................................... 103
3.2 – Universo e limites da pesquisa…………………………..……....................... 103
3.2.1 – O perfil religioso dos clubes…………………………..…………................. 104
3.2.2 – O perfil social dos entrevistados……………………...........……................ 105
3.2.3 – O perfil religioso dos entrevistados…………………………....................... 106
3.2.3.1 – Religiosidade pessoal…………………………..……............……............ 107
3.2.3.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião....... 108
3.2.3.3 – Vida, perspectiva e história…………………………..…...........…............ 110
3.2.4 – Os integrantes de comissão técnica ......................................................... 110
3.2.4.1 - Religiosidade pessoal…………………………..………...........….............. 110
3.2.4.2 - Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião........ 112
3.2.4.3 - Vida, perspectiva e história…………………………..…………................ 115
3.2.5 – Os atletas…………………………..………….............................................. 116
3.2.5.1 - Religiosidade pessoal…………………………..…………......................... 116
3.2.5.2 - Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião........ 118
3.2.5.3 - Vida, perspectiva e história…………………………..……........................ 121
2.5 – Conclusões ao capítulo................................................................................ 121
SEGUNDA PARTE
REFLEXÕES TEÓRICAS
4 - A SOCIEDADE DE RISCO......................................................................................... 123
4.1 – Considerações preliminares……………........……………............................ 123
4.2 – Conceituando o risco…………………………..……….................................. 123
4.3 – A produção dos riscos……………........……………..................................... 130
VIII
4.4 – O risco em nossas vidas…………......…........……………............................ 142
4.5 – Risco em aldeia global………….........…........…………...........…................. 158
4.6 – Conclusões ao capítulo……………........……………..………....................... 172
5 – BRASIL, SOCIEDADE DE RISCO E ESPETÁCULO................................................ 174
5.1 – Considerações preliminares……………........…………….….........…………. 174
5.1.1 – Conceito de crise……………........……………........…..………….............. 174
5.1.2 – Tipos de crise ……………........……………..………….......….................... 175
5.2 – Raízes do risco no Brasil…...…………........……………..…......................... 175
5.2.1 – Efeitos da crise brasileira .........................…………….......…........………. 177
5.3 – O “Brave New World” como motor de crises …...……..……........………..... 178
5.3.1 – A distribuição de renda como motor de crises .............……….......……... 179
5.3.2 – A tentativa brasileira de superação da crise……………............................ 180
5.4 – Conceituando a Sociedade do Espetáculo.......…………….…..............…... 180
5.5 – Conclusões ao capítulo................................................................................ 182
TERCEIRA PARTE
ANÁLISE E DISCUSSÃO
6 – FUTEBOL E A SOCIEDADE DE RISCO................................................................... 184
6.1 – Considerações preliminares……………........………...................…............. 184
6.2 - Cenários do futebol na sociedade de risco……………........……….…......... 185
6.3 – Conclusões ao capítulo……………........……………..………….......…........ 206
7 – “VAMOS PARA O JOGO COM MUITA FÉ, GARRA E
DETERMINAÇÃO”: INTERPRETAÇÕES DAS ENTREVISTAS.............................. 207
7.1 – Considerações preliminares……………........……………..……........………. 207
7.2 – Tendência geral……………........……………..………….............…............... 208
7.2.1 – Religiosidade pessoal……………........……………..…………..........…..... 208
7.2.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião…....... 211
7.2.3 - Vida, perspectiva e história……………........……………..………….......…. 214
7.3 – Os integrantes de comissão técnica……………........…………….…............ 216
7.3.1 – Religiosidade pessoal……………........……………..………….….............. 216
7.3.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião…....... 218
7.3.3 – Vida, perspectiva e história……………........……………..……………....... 221
7.4 – Os atletas……………........……………..…………................................…..... 222
IX
7.4.1 – Religiosidade pessoal……………........……………..…................... ........... 222
7.4.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião.......... 225
7.4.3 – Vida, perspectiva e história……………........……………..………...........… 227
7.5 – Confrontações, Conotações e Imbricações entre os resultados
das entrevista dos integrantes de Comissão Técnica e Atletas…........................ 230
7.5.1 - Religiosidade pessoal……………........……………..........………….......…. 230
7.5.1.1 – Características comuns……………........……………..…………..…........ 230
7.5.1.2 – Principais diferenças……………........……………..………….......…....... 233
7.5.2 - Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião…....… 235
7.5.2.1 – Características comuns….…………........……………..………........……. 235
7.5.2.2 - Principais diferenças……….......……........……….......………..…………. 238
7.5.3 - Vida, perspectiva e história……………........……………….........…………. 239
7.5.3.1 - Características comuns……..………........……………..………........……. 239
7.5.3.2 - Principais diferenças…….......………........……………..…………...…..... 241
7.6 – Conclusões ao capítulo................................................................................ 241
8- SÍNTESE DOS RESULTADOS DA PESQUISA.......................................................... 242
8.1 – Capítulo 1..................................................................................................... 242
8.2 – Capítulo 2..................................................................................................... 243
8.3 – Capítulo 3..................................................................................................... 244
8.4 – Capítulo 4..................................................................................................... 244
8.5 – Capítulo 5..................................................................................................... 245
8.6 – Capítulo 6..................................................................................................... 245
8.7 – Capítulo 7..................................................................................................... 245
CONCLUSÃO................................................................................................................... 247
REFERÊNCIAS................................................................................................................ 256
ANEXOS........................................................................................................................... 276
X
RESUMO
Este trabalho procurou investigar as manifestações de religiosidade no futebol
profissional paulista. Dentro do universo de pesquisa, escolhemos cinco equipes que
disputam a primeira divisão do campeonato estadual (Sport Club Corinthians Paulista,
Santos Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras, São Paulo Futebol Clube e
Associação Desportiva São Caetano). Os principais motivos da escolha dessas equipes
foram: o grande espaço a elas atribuídas pelos meios de comunicação; por serem de
“massa” ou “emergentes”; e também por serem o “objeto do desejo” de muitos atletas
iniciantes e mesmo de profissionais consagrados do futebol.
De modo a entender a grande presença da religião e da religiosidade percebidas nos
gramados brasileiros em tempos recentes – através de manifestações e relatos de atletas
e integrantes de comissões técnicas –, buscamos trabalhar em duas linhas, uma de
caráter teórico-bibliográfico e, a outra, de caráter empírico. O caminho percorrido se
iniciou pela colocação, em um contexto de pesquisa, dos aspectos representativos do
futebol e suas conexões com a religião/religiosidade ao redor do mundo. O trabalho parte
de uma História do futebol (das práticas “proto-futebolísticas” ao esporte moderno) e, a
partir dela, à conexão com a realidade brasileira e paulista. Mostramos, em seguida, as
conexões dentro das equipes do nosso objeto de estudo e, também, como foi constituído
nosso trabalho de campo.
Para compreender o porquê das manifestações de religiosidade no futebol,
empregamos a teoria da Sociedade de Risco, de Ulrich Beck e, elementos da Sociedade
do Espetáculo, de Guy Debord, que são essenciais para a dissertação.
A aproximação das teorias risco/espetáculo em relação à realidade brasileira e,
principalmente, ao “esporte das multidões”, em conjunto com a pesquisa de campo
(realizada com vinte personagens do futebol), nos permitiram concluir que o risco é um
dos grandes motivadores das manifestações de religiosidade no futebol. Ou seja, o espiral
risco/espetáculo, fruto do sistema sócio-econômico capitalista, competitivo e excludente, é
determinante para a compreensão de nosso trabalho.
11
ABSTRACT
Our research was focused on analyzing religious manifestations in the professional
soccer league, in the state of São Paulo. We have chosen five teams that compete on the
first division league (Sport Club Corinthians Paulista, Santos Futebol Clube, Sociedade
Esportiva Palmeiras, São Paulo Futebol Clube and Associação Desportiva São Caetano).
The main reasons for choosing these five teams were: they receive massive exposition on
mass media; they have a great number of fans and/or they are emerging teams; they are
the “desire’s object” of begginers and mature professional soccer players.
In order to understand the great presence of religion and religiosity in the Brazilian
soccer in the past few years - through interviews and accounts with athletes, coaches and
staffs -, we worked in two different ways: theoretical-bibliographical and empirical. The
process began with the contextualization of the soccer representative aspects and its
connections with the religions/religiosity around the world, including Brazil and focusing in
São Paulo. On the following, we show the connections among the teams, which are our
study subject, and the way of our study was organized.
To provide a better comprehension about the reasons of why it’s possible to observe
so many religious manifestations in soccer environment, we use the theory of Risk
Society, by Ulrich Beck, and elements of Society of the Spectacle, by Guy Debord, which
was essential for this dissertation.
The approach of the two theories, Risk and Spectacle, to the Brazilian reality and
mainly to the “massive sports”, in connection with the research field (with a sample of 20
soccer professionals), allowed us to conclude that the associated risk is on of the main
motivation to the manifestations of soccer religiosity. So, the Risk/Spectacle theory,
caused from the competitive and excludent capitalist system which has a major
importance for the full comprehension of this study.
12
INTRODUÇÃO - “A benção, João de Deus!” Dentro e fora do campo
“Oh! Estou convencido de que o futebol vos dará iniciativa
(...). Se vós sereis mais tarde um grande comerciante, um
distinto jornalista, um ousado explorador, um industrial
previdente... para tudo isso é necessário que sejais um
homem de iniciativa, um bom jogador de futebol, não
tendo medo de golpes, sempre ágil, rápido nas decisões,
conservando o sangue frio. É necessário ser
autocontrolado, ou seja, exercer o governo de si mesmo...
Eu adoraria ver nossa atenção fixar-se em coisas
distantes, em obras de iniciativas, em homens de ação; eu
gostaria que vós tivésseis a ambição de descobrir a
América... O futebol é prólogo de todas as coisas. Tudo
isso, posto no mesmo saco, parte do mesmo programa: é
1
a educação ‘ir sempre adiante’”. (Barão de Coubertin)
Elitista, excludente, fantástico, apaixonante, mágico, místico, dramático, moderno,
globalizado... o futebol brasileiro, único pentacampeão mundial, já foi interpretado de
várias formas. Basta prestar atenção a qualquer lugar do país, das padarias aos palácios
de governo, que isso se mostra verdadeiro. Se for comprovado, então, que o futebol é o
“ópio” do povo (seria então o futebol, “marxisticamente” falando, uma religião), muitos
podem ser considerados “viciados”.2 Vale observar que, nesse elemento tão poderoso na
cultura, as manifestações religiosas sempre transpareceram, às vezes mesmo fora dos
padrões culturais locais.
Quando participam de situações competitivas das quais saem vitoriosos, os indivíduos
costumam atribuir suas vitórias a técnicos, preparadores físicos e familiares – e, é claro, a
Deus; o mesmo acontece quando um atleta se recupera de uma grave lesão. “Agradecer
a Deus” é uma atribuição comum não só no futebol; ainda assim, nas últimas décadas a
presença divina é percebida e propalada de forma intensa no meio futebolístico. Deus,
que em outros tempos aparentemente pertencia ao universo pessoal de cada atleta,
literalmente “entrou em campo” – interessante é o fato Dele jogar em todas as posições,
aparecer como torcedor e, também, como juiz; é a própria Onipresença presente “entre as
quatro linhas”.
1
AGOSTINO, G. Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. 1ª ed. Rio de Janeiro:
FAPERJ: Mauad, 2002, 272 p., p. 19.
2
Ao longo do trabalho usamos metáforas. A adoção de tais “licenças” tem por objetivo “traduzir” o futebol e
tornar a leitura do trabalho mais agradável. Ela não é feita sem a devida licença dos cânones científicos: de
acordo com MITHEN (MITHEN, S. A pré-história da mente: em busca das origens da arte, da religião e da
ciência. São Paulo: UNESP, 2002, 425 p. pp. 344-345), o uso de metáforas permeia a ciência.
13
Esse crossover bola-Deus sempre me chamou a atenção – primeiramente, por eu me
aperceber religioso em um país onde a religiosidade é um elemento central da vida; em
segundo lugar, por me aperceber torcedor, atleta e professor em um país onde... o futebol
é um elemento central da vida!
A partir dessa configuração, vieram os questionamentos: a religiosidade, a crença de
um atleta, sua fé - esses fatores podem levá-lo a conseguir vitórias no futebol? Por que
vemos atletas pedindo e agradecendo ao “Ser Superior” de suas religiões por conquistas
e recuperação de lesões? Jogando “x” contra “y”, esse “Ser Superior” torceria por quem?
Se o meu Deus torce para o Palmeiras, o do corintiano torce para o Corinthians? Ou Ele
está acima de tudo isso e, com efeito, não pode ser chamado de “torcedor”? Ou ele
“curte”, mesmo, vôlei feminino?
Essas são apenas algumas questões emergentes diante de tantas manifestações de
religiosidade no esporte. Mas, a bem da verdade, não desejamos chegar a todas as
respostas, pois muitas das perguntas se inscrevem exclusivamente em um contexto
personalíssimo. Buscamos, sim, saber como se dá a conotação entre a religiosidade e os
envolvidos com o futebol.
A título de exemplo, no esporte em geral, observamos o técnico do FINASA/Osasco –
antigo BCN/Osasco - e também técnico da seleção brasileira feminina de vôlei, José
Roberto Guimarães,3 pagar uma promessa em Santiago de Compostela, como
agradecimento pela conquista de um campeonato. Zé Roberto prometeu que percorreria
os 880 quilômetros do trajeto. Ele diz que percorreu o caminho em 28 dias e que foi uma
missão ao mesmo tempo árdua e interessante. Completa dizendo que foi difícil demais,
achando que está “quites” com o santo, não tendo nenhuma outra promessa em vista.4 No
kart, temos o piloto Júlio César Reis, que possui deficiências físicas - surdez e dificuldade
no equilíbrio – que não afetam seu talento nas pistas. Dentro de seu capacete, porém, há
diversos “santinhos garantidores”.5 Essas são algumas entre muitas manifestações.
3
Ver imagem da devoção de José Roberto Guimarães no anexo 1.
Cf. AKIE, E. Zé Roberto sofre, mas paga ‘dívida’ em Compostela. O Estado de São Paulo, 18 de junho de
2003, E3.
5
Cf. KNOPLOCH, C. Júlio desafia a surdez correndo de Kart. O Estado de São Paulo, 21 de junho de 2002,
E4.
4
14
Especificamente no futebol, as manifestações são intensas – um exemplo é a
freqüência com que atletas vão ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em
Aparecida, interior de São Paulo, para agradecer e pedir graças. Como também as
manifestações que se dão através de mensagens e imagens religiosas nas camisas dos
atletas, sendo mais evidentes entre os “Atletas de Cristo”, em sua maioria evangélicos
(ver anexo 2).
Por ser o Brasil um país de muitas carências sociais e distribuição de renda desigual,
o futebol acabou se transformando em um meio de ascensão social. Muitos sonham com
o profissionalismo, mas é um caminho difícil, a que poucos têm acesso, precisando
passar por diversas provações até chegar ao objetivo final. Nessa trajetória, por conta de
todas as dificuldades, há, muitas vezes, um apelo ao sobrenatural.
O futebol profissional no Brasil apresenta duas camadas qualitativas, duas realidades
que não são exclusivamente típicas da nossa cultura: a primeira, de alcance reduzido, é a
dos atletas bem-sucedidos, bem remunerados; a segunda é a dos atletas “comuns”, da
grande massa que não tem muito “mercado” e que limita sua carreira a atuar em times
“pequenos” ou, então, a completar os elencos das grandes equipes.
Para tanto, elegemos um grupo específico de “envolvidos” com o futebol, pois não é
possível abordar de forma ampla – pelo menos, em um estudo como o que estamos
realizando - o riquíssimo cenário futebolístico brasileiro, que abrange muitos clubes de
diversos Estados. Em função disso, optamos por focalizar nosso estudo em cinco equipes
que em 2005 disputam a primeira divisão do futebol profissional paulista, que possui um
dos mais disputados campeonatos do país e que é tido por muitos como uma “vitrine” de
atletas para os times europeus e asiáticos.6 As equipes escolhidas são: Sport Club
Corinthians Paulista, Santos Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras, São Paulo
Futebol Clube e Associação Desportiva São Caetano. O público-objeto da pesquisa foi
dividido em dois núcleos: o primeiro, formado por atletas profissionais de futebol; o
segundo, formado por integrantes da comissões técnicas de equipes profissionais.
6
Não abrimos mão, porém, da utilização de dados de outras realidades futebolísticas que permitam ilustrar e
esclarecer nosso tema.
15
Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo são o que, popularmente, os torcedores e
a crônica desportiva chamam de “clubes grandes”: contam com uma grande torcida (nem
sempre concentrada geograficamente na área da sede do clube), muitos títulos e muita
História; recebem atenção diária da mídia, exercem poder sobre a federação local
(Federação Paulista de Futebol – FPF), sobre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF)
e, mesmo, sobre a política local e até nacional. Já o São Caetano é uma equipe
“emergente”, sempre com bons atletas, boa comissão técnica, dinheiro para investimentos
e poucas dívidas - em breve, poderá ingressar no clube dos “grandes”. É, também, uma
equipe “simpática”, pela qual muita gente torceria sem grandes problemas. Afinal, quem
não quer torcer por um time competitivo?
O estudo ganha especial interesse por abranger um assunto que, por mais que seja
antigo na percepção dos intelectuais, é pouco explorado no Brasil: a religiosidade ligada
ao futebol. O país, vale observar, já conta com muitos estudos sobre futebol, tais como:
Visão de jogo: primórdios do futebol no Brasil, de José Moraes dos Santos Neto,7 em que
o autor descreve a origem do futebol no Estado de São Paulo, apontando características
comuns a todos os núcleos pioneiros do esporte no país; Vencer ou morrer: futebol,
geopolítica e identidade nacional, de Gilberto Agostino,8 no qual o autor fala do
cruzamento Estado x futebol, buscando a relação entre a constituição de selecionados
nacionais e a projeção de um imaginário sobre a nação como verdadeiro impulsionador
para grandes disputas internacionais – pouco há, porém, que se refira à questão religiosa
de maneira direta.9 O que existe são relatos de atletas e integrantes de comissão técnica
sobre a ajuda do sobrenatural, de Deus.
Conforme Nunes, “a tradição popular brasileira sempre vinculou futebol e religião,
especialmente a católica e as afro-brasileiras”.10 O estudo mais antigo a que tivemos
acesso foi realizado na USP em 1944. Mário Miranda Rosa, o autor, fez uma pesquisa
estudando a influência da superstição religiosa no comportamento de uma equipe de
7
Cf. NETO, J.M.S. Visão do jogo: primórdios do futebol no Brasil. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. 117 p.
Cf. AGOSTINO, G. Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional, op. cit.
9
Citamos alguns exemplos de livros para ilustrar o texto, mas sabemos que esses não são os únicos estudos
nessa linha.
10
NUNES, F.C. Atletas de Cristo: aproximações entre futebol e religião. São Paulo: PUC-SP, 2003, 129 p., p.
9 (dissertação de mestrado).
8
16
futebol profissional.11 O estudo se refere a um determinado momento do futebol brasileiro
e mundial, e focalizou a relevância da macumba para o esporte.
Em 1978, com a fundação do movimento dos Atletas de Cristo, os evangélicos
entraram nesse meio de forma expressiva. Como citado, não há informações sobre
estudos mais completos sobre o vínculo entre futebol e religião. Sobre os Atletas de Cristo
há duas dissertações, uma de um grupo local do próprio movimento em Porto Alegre12 e
outra realizada em São Paulo, onde o autor “mostra a inter-relação entre religião e
esporte, na configuração de um ‘ethos’ protestante que inspira o ‘comportamento
exemplar’ do atleta”.13 Esses limites valorizam nosso estudo.
O esporte – à luz de seus amantes - é distinto de muitas outras formas de atividade
humana por conta de seu tremendo potencial de emotividade, de passionalidade e,
também, por expor seus praticantes a riscos de lesões físicas, psicológicas e financeiras.
Por isso não podemos deixar de citar a importância do trabalho de psicólogos do esporte
no futebol e sua evidência hoje em dia.14 Esses profissionais têm como objetivo analisar
as bases e efeitos psíquicos das ações esportivas e do contexto, considerando, por um
lado, a análise de processos psíquicos básicos (cognição, motivação, emoção) e, por
outro, a realização de tarefas práticas do diagnóstico e da intervenção.
Por mais importante que seja o trabalho de psicólogos do esporte no futebol, porém,
ele não tem um alcance absoluto. Aonde ele não chega, chega a religião – uma prática
mais arraigada, de acesso mais fácil e, mesmo, mais aceita socialmente.
Lembremo-nos de que o Brasil é um país de crenças diversificadas; dentro desse
aspecto, não foi dada grande importância a uma determinada religião dos atletas ou dos
11
O estudo está presente em um livro publicado no ano de 1994. ROSA, M. Um ramo de arruda na chuteira
do futebol brasileiro: e os bastidores dos campeonatos do mundo de 1958 e 1962. 1ª ed. São Paulo: EDICON,
1994, 104 p.
12
Cf. NUNES, F. Atletas de Cristo: aproximações entre futebol e religião, op. cit., p. 10.
13
Ibid., p. 2.
14
A título de exemplo, podemos citar o trabalho da psicóloga Suzi Fleury, que já atuou na comissão técnica
de várias equipes do futebol brasileiro, muitas vezes a convite do técnico Vanderlei Luxemburgo. E o trabalho
da psicóloga Regina Brandão, que já acompanhou também muitas equipes, como a seleção brasileira
comandada por Luiz Felipe Scolari e atletas como o atacante Luis Fabiano, atualmente no Sevilha, da
Espanha, conhecido pela sua facilidade em marcar gols e por seu temperamento arredio.
17
integrantes de comissões técnicas, mas sim a como eles se referem e se relacionam ao
tema.
A fim de chegarmos às respostas, dividimos esta dissertação em três partes. A
primeira denominamos: Futebol e religião: Denotações. Ela foi subdividida em três
capítulos; o primeiro procurou abranger a relação entre futebol e religião, no mundo, no
Brasil e em São Paulo. O questionamento fundamental respondido, neste capítulo, é o
que se refere à relação histórica existente entre a religião e o futebol nesses lugares.
O segundo capítulo se refere à presença religiosa mais especificamente nas equipes
pertencentes ao objeto de estudo. Os questionamentos respondidos se referem à maior
presença de manifestações de religiosidade nessas equipes e à evidência de tais
manifestações. Além disso, mostramos a ligação das lideranças religiosas com o futebol e
também o discurso religioso da mídia esportiva.
No terceiro capítulo mostramos como foi constituído nosso trabalho de campo e
também começamos a fornecer algumas respostas aos questionamentos relacionados ao
nosso objeto de pesquisa.
A segunda parte da dissertação, denominada: Reflexões Teóricas, é composta por
dois capítulos, o quarto e o quinto. O quarto se refere à definição, à luz dos problemas
sociais – do elemento “risco” -, do que o autor identifica como motivador das
manifestações religiosas. No quinto, aproximamos o risco da sociedade brasileira. Além
disso, mostramos elementos da chamada “sociedade do espetáculo”, que convive
mesclada com a “sociedade de risco”.
A terceira parte, que tem como título: Análise e Discussão, foi subdividida em três
capítulos, o sexto, o sétimo e o oitavo. No sexto, mostramos cenários do futebol na
sociedade de risco. No sétimo, analisamos os resultados obtidos com as respostas dos
entrevistados, onde ficaram evidentes as motivações que levam os envolvidos com a
pesquisa a se manifestarem religiosamente; e, no oitavo, realizamos uma síntese dos
resultados da pesquisa.
Estabelecidas as três partes de desenvolvimento da dissertação, pudemos concluir o
trabalho determinando a validade das hipóteses iniciais (geral e particulares).
18
Em nosso projeto de pesquisa fornecemos uma hipótese “geral” de trabalho, que foi
desmembrada em quatro hipóteses “particulares”.
Tendo em vista a presença significativa de manifestações de religiosidade entre
atletas, técnicos de futebol e demais integrantes de comissão técnica – e segundo a
opinião de muitos deles, de que a fé potencializa o desempenho esportivo -, partimos da
hipótese geral de que uma crença religiosa pode ser um fator decisivo para a superação
das chamadas “situações de risco” vividas em suas trajetórias, em suas vidas dentro do
mundo do futebol e em suas vidas particulares. Vivemos em um mundo onde o
capitalismo se insere no futuro ao prever lucros e perdas – ou seja, ao “apostar no risco” continuamente. Nesse sentido, dentro do ambiente do futebol – que não é
profissionalmente dos mais estáveis -, o atleta, além de ter que enfrentar os riscos do
capitalismo, do “mercado futebolístico”, sofre também os riscos do seu meio de atuação.
Assim, não estando bem fisicamente, tecnicamente, taticamente, emocionalmente –
fatores que determinam seu rendimento – o risco de ser descartado é grande, pois a
competitividade é acentuada.
A verificação da hipótese geral só pôde ser confirmada/negada a partir da verificação
das seguintes hipóteses particulares:
• A noção de risco é acompanhada por um equivalente desenvolvimento de sistemas e
medidas de segurança, que permitem ao indivíduo sobreviver para jogar de novo.
Suponhamos que esses sistemas sejam uma maneira de regular o futuro, de normatizá-lo
e de submetê-lo à vontade. O paradigma da sociedade de risco é o de como poder evitar,
minimizar, dramatizar, canalizar os riscos e perigos que são produzidos. Nesse sentido,
os “atores do futebol” encontram na religião uma forma de anular ou minimizar os riscos
existentes, que no ambiente do futebol não são poucos.
• Os riscos sociais estão relacionados com desafios novos. No futebol acontece “um
desafio por segundo”. Se um desafio é perdido, pouca chance há de recuperação. Os que
se recuperam continuam – na linguagem dos “boleiros” – tendo que “matar um leão” por
jogo. Os que não se recuperam serão sempre perseguidos ou, então, obrigados a retornar
para a “sociedade comum” desprovidos de experiências, pois se limitaram ao futebol –
nem sempre por vontade própria, mas por circunstância do meio. Esse despreparo para o
19
mundo aumenta suas situações de risco, principalmente por negligenciarem – na maioria
das vezes - fontes primordiais para uma vida economicamente estável, como
escolaridade básica e formação profissionalizante.
• O futebol é um fenômeno que impulsiona nossa sociedade – nele, muitas vezes,
compensamos nossas frustrações. Quem pratica o futebol de alto nível é uma pessoa
comum, que por vezes acaba “endeusada”, o que aumenta sua responsabilidade; outras
vezes está em um momento difícil de sua carreira: a perda de um ente querido, uma
lesão, queda de rendimento esportivo, fato que o torna perseguido e cobrado. Nesse
momento acontece a busca do conforto no sobrenatural.
• O Brasil é um país de muitas crenças - participam do mesmo jogo católicos, evangélicos
etc. Há uma grande relação com o transcendente, e isto é uma estimulação benévola na
visão de muitos participantes do futebol. Todos pedem e agradecem: um ganha, outro
perde. Se não houver uma fé ingênua, algo de bom há de ser extraído de qualquer
resultado, principalmente da derrota, em que as crises e as buscas por explicações são
maiores.
A verificação das hipóteses particulares foi feita a partir do cruzamento dos dados
bibliográficos e empíricos obtidos na pesquisas. A verificação da hipótese geral foi feita a
partir de uma leitura de conjunto, por uma lente derivada do construto teórico adotado e
das respostas às hipóteses particulares.
O construto teórico nasceu de um cruzamento entre a teoria de Ulrich Beck sobre a
sociedade de risco e as considerações de Guy Debord a respeito da sociedade do
espetáculo. A teoria de Ulrich Beck permitiu entender o funcionamento da sociedade
atual, pois ela aborda situações de risco como desemprego, insegurança social,
discriminações, explorações, doenças e outros fatores que emergem em uma sociedade
de risco. Aplicamos a teoria, em um primeiro momento, aproximando a sociedade de risco
da sociedade brasileira, pois o Brasil é um exemplo modelar de sociedade de risco vivemos um cotidiano de desigualdade social, injustiça e corrupção. Na seqüência,
aplicamos a teoria da sociedade de risco ao futebol, que também é um ambiente
paradigmático dos riscos existentes, seja pelas “instituições”, seja por sua comunidade de
praticantes.
20
Essa percepção é a chave para a aplicação do segundo componente do construto
teórico, a saber, o trabalho de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo. Ressaltando
que risco e espetáculo estão inseridos no mesmo processo, buscamos determinar qual a
decorrência das manifestações de religiosidade que acontecem no futebol. Se
verdadeiramente é algo decorrente dos riscos existentes e, conseqüentemente, há a
busca do conforto divino, ou se ainda, não se distanciando um fator do outro - o binômio
risco/espetáculo - há a busca da ajuda “sobrenatural”, pois se há risco, o espetáculo é
maior e, um dos componentes básicos dos espetáculos competitivos, por sua vez, é o
risco.
Enfim, adotamos como procedimentos metodológicos necessários ao objeto da
pesquisa, em um primeiro momento, o estudo de bibliografia ligada ao futebol, às
religiões, à sociedade contemporânea, bem como referências úteis ao desenvolvimento
do trabalho; em um segundo momento, realizamos entrevistas com integrantes de
comissões técnicas e atletas de futebol profissionais. Quanto ao acesso a fontes
“teóricas”, não tivemos grandes dificuldades. A respeito do trabalho de campo, porém,
tivemos alguns obstáculos, principalmente pelo difícil acesso aos “simples mortais
tornados intocáveis semideuses” do futebol. Para superar essa situação tivemos o auxílio
de alguns assessores de imprensa dos clubes, bem como a “sorte” de contar com alguns
personagens que nos auxiliaram a buscar aspectos mais amplos de nosso objeto de
estudo.
Antes de seguir em frente é preciso fazer um adendo: qual a relação entre o título
escolhido para essa introdução e o texto que para ela construímos?
A música “A benção, João de Deus!”, composta para a visita do Papa João Paulo II ao
Brasil, em 1980, se tornou o “hit de crise” da torcida do Fluminense (RJ). Seria de
imaginar que ela foi adotada recentemente, depois da morte do pontífice. Ledo engano: o
“hino” é entoado há quase três décadas. “João Paulo II”, é o nome que foi batizado
recentemente o estádio do Mogi Mirim (SP), em homenagem ao papa após seu
falecimento. Quem joga lá e vence diz ser abençoado. Na reportagem “Um Fla x Flu
sobrenatural”, o jornalista Marcos Caetano ajuda a mostrar alguns elementos de nossa
dissertação:
Embalados pela mesma e eterna rivalidade, Flamengo e Fluminense voltaram a se
encontrar ''como se fosse pela primeira vez'' (Nelson [Rorigues], de novo), num
21
Maracanã lotado. Quando o Fluminense entrou em campo, retumbou pelo estádio o
cântico que, em 1980, marcou a primeira visita do papa ao Brasil e o triunfo da equipe
das Laranjeiras no campeonato estadual, convertendo-se, a partir daí, numa espécie de
segundo hino do clube: ''A benção, João de Deus!...''. Ao ouvir isso, pensei: se o papa já
cuidava do Flu quando estava por aqui, que dirá agora que está pertinho de Deus. Havia
algo de sobrenatural no ar. E quem acompanha o Fla x Flu há tantos anos sabe que,
quando isso acontece, o jogo jamais será como os outros. O primeiro tempo foi típico de
uma decisão: nervosismo, respeito de ambas as partes, troca interminável de passes,
muitos erros e poucas chances. Mas, até o intervalo, não vimos nada que justificasse a
mística do clássico. Os tricolores continuaram louvando João de Deus durante o
intervalo e o time voltou para o segundo tempo com ares de quem havia vivenciado uma
autêntica epifania. Tocando a bola velozmente, com contra-ataques incisivos e ajudado
por um pênalti inexistente, o Fluminense deu um banho de bola no Flamengo. O pênalti
certamente não foi obra de João de Deus. Pareceu, isso sim, obra do Sobrenatural de
Almeida [personagem de Nelson Rodrigues]. Mas atrevo-me a dizer que, em toda a
trajetória do clássico, jamais um time teve tamanho domínio em apenas 45 minutos. Não
fossem os seguidos erros de marcação de impedimentos e o Flu poderia ter obtido uma
goleada ainda mais humilhante. O Fla x Flu de ontem ficará eternamente gravado na
memória dos torcedores como o Fla x Flu do João de Deus. Com João de Deus (e - por
que não? - com o Sobrenatural de Almeida) cuidando do time lá do outro lado do
mistério, quem sabe o Fluminense voltará a ser imenso como nos tempos em que o
jovem Karol Wojtyla disputava as primeiras partidas de futebol nos campos de terra de
sua Polônia natal.15
Não sabemos se Deus (ou mesmo João Paulo II) ajuda seus fiéis em suas conquistas
no futebol. Não podemos criticar ou julgar quem acredita em “milagres”, mas podemos
afirmar que todos, como lembra a música de Gilberto Gil, acreditam que a fé não costuma
falhar. Para ilustrar essa “informação complementar”, incluímos duas imagens presentes
em um site dedicado ao fluminense16 e também uma foto:17
15
Notícia disponível em:
<http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/colunas/marcos/2005/04/03/jorcolmac20050403001.html> Acesso em
11 de julho de 2005.
16
As duas ilustrações estão disponíveis em: <http://www.flu.com.br/> Acesso em 11 de julho de 2005.
Também consta neste site o “hino ‘A benção João de Deus’” cantado por uma torcida do Fluminense e por um
padre.
17
A foto do torcedor do Fluminense no Maracanã está disponível em:
<http://esportes.terra.com.br/futebol/estaduais2005/interna/0,,OI515165-EI4507,00.html> Acesso em 15 de
julho de 2005. Vale destacar que atletas do Fluminense prestaram homenagens ao falecido papa através de
declarações e faixas.
22
1 - O APITO INICIAL
“Bola na trave não altera o placar. (...) Quem não sonhou
em fazer um gol e ser jogador de futebol. (...) Posso
morrer pelo meu time. Se ele perder, que dor, imenso
crime. (...) A chuteira veste a meia que veste o pé
descalço. O tapete da realeza é verde é o gramado.
Olhando para a bola eu vejo o sol. Está rolando agora. É
uma partida de futebol (...)” (“Partida de Futebol”, Skank 18
Samuel Rosa)
1.1 – Considerações preliminares
A fim de facilitar a visualização do tema, dividimos este capítulo em três blocos. Neles,
pretendemos discorrer sobre aspectos representativos do futebol, considerado como
“patrimônio da cultura”, buscando estabelecer sua ligação com a religião. No primeiro
bloco faremos uma análise histórica do futebol, procurando mostrar, de forma objetiva,
como a modalidade conquistou espaço e se firmou em todo o planeta através de símbolos
e de fatos concretos relacionados à religião e à religiosidade.
No segundo bloco vamos aproximar o futebol da realidade brasileira, mostrando as
transformações pelas quais a modalidade passou em nosso país e como ela "caiu no
gosto" da população. Como complemento ao bloco, vamos traçar uma linha com os
aspectos mais evidentes das manifestações de religiosidade em nossos atletas, técnicos,
dirigentes e adeptos envolvidos com o futebol nacional.
No terceiro bloco vamos interpretar o futebol paulista, indicando os elementos que o
fizeram evoluir e mostrando, também, a realidade deste esporte no Estado. Concluindo o
capítulo, vamos buscar evidências que apontem para as imbricações entre religião e
futebol em São Paulo. Por fim, pretendemos desvendar as possíveis tendências dessa
relação, dando ênfase para a discussão sobre marketing religioso no futebol.
1.2 – Rolando a Bola pela História
No mundo moderno, a prática do esporte tem um papel significativo como atividade
sócio-cultural. Nela, o ser humano é orientado a exteriorizar seus impulsos e tendências,
tanto como participante ativo quanto como espectador. Isso é muito claro no futebol: por
18
Letra disponível em: <http://www.cifrasweb.net/musica.phd?m=543>. Acesso em 16 de novembro de 2004.
24
onde rola a bola, de pé para pé, lá também está a emoção, sentimento visível já em
tempos remotos, quando o jogo de bola - em suas variantes - guardava tanto um aspecto
lúdico quanto, principalmente, um sentido religioso:
Na realidade, não há um primeiro futebol, já que suas origens são muito antigas. Nas
sociedades pré-industriais, era freqüente um jogo de “ralé”, de aldeia contra aldeia, sem
regras escritas e celebrando como parte de um rito de fertilidade ou para assinalar as
estações do ano.19
Jogos mais sofisticados praticados com os pés existiram em sociedades diferentes.
Há registros de que, por volta de 4.500 a.C., os ancestrais dos atuais japoneses
disputavam partidas de um jogo chamado Kemari. A bola, feita de fibras de bambu, era
jogada por nobres com as mãos e os pés. Os gandulas - é lógico - eram escravos sempre
prontos a repor a “pelota” em jogo. O imperador mítico chinês Huang-Tzu (2.500 a.C.)
teria feito do jogo de bola uma forma de treinamento militar - o T'su Chu - que, depois,
acabou se convertendo em prática lúdica. No T'su Chu os jogadores não podiam deixar a
bola cair no chão e tinham que passá-la por entre duas estacas fincadas no chão e
ligadas por um fio de seda.20
Na cidade-estado de Esparta, na Grécia, por volta de 800 a.C., praticava-se o
epyskiros, em que equipes de quinze jogadores chutavam uma bexiga de boi recheada
com areia e ar. O jogo era praticado nas casernas durante os treinamentos militares.
Cronistas da época registraram expressões usadas pelos praticantes durante a partida:
“bola longa”, “passe curto” e “bola para frente”.
No início da Era Cristã, a "bola da História" foi passada para Roma, que dominava boa
parte da Europa, Ásia Menor e norte da África. Entre os romanos, o futebol se chamava
harpastun e tinha semelhança com o epyskirus grego. As regras eram rígidas, tanto para
disputa quanto para o posicionamento dos jogadores em campo. Era utilizado, também,
como atividade militar: duas equipes estabeleciam linhas de defesa/ataque e esquemas
táticos, buscando atravessar a linha inimiga e, com isso, ganhar pontos. O exercício se
prolongava por horas; sua função básica – além de cultivar a resistência física dos
soldados – era proporcionar a comandantes e comandados maior visão do campo de
19
20
MURRAY, B. Uma história de futebol. 1ªed. São Paulo: Hedra, 2000, 284 p., p. 20.
Cf. HISTÓRIA do futebol: As origens do planeta bola. Placar, São Paulo, Abril, v.1, n.1, 1998, 18 p., p. 5.
25
batalha. Foi na Normandia (região do noroeste da França) que, em 50 a.C., surgiu um
esporte muito parecido com o futebol atual. Era o soule ou choule. 21
Uma obra de 1175 se refere a um jogo disputado por habitantes de cidades inglesas.
Nele, para comemorar a expulsão dos dinamarqueses no período anglo-saxão, os
jogadores chutavam uma bola de couro pelas ruas. A bola simbolizava a cabeça de um
oficial do exército invasor. A popularidade do jogo de bola cresceu de tal forma que, em
1314, o rei Inglês Eduardo II decidiu proibir sua prática – a realeza tinha medo de que os
jovens se descuidassem do arco-e-flecha, prática mais útil em uma época de guerras
freqüentes. Na Idade Média os "ensaios futebolísticos" não foram bem aceitos: em
essência, o jogo consistia na reunião de um grande número indivíduos que se dispunham
a correr atrás de uma bola, por onde quer que ela fosse, usando socos, pontapés e até
pauladas para obter seu domínio.22
Em 1529, na cidade Italiana de Florença, surgia o calcio fiorentino, o jogo de bola
arcaico que mais se assemelhou ao atual futebol. E ele nasceu no calor de uma batalha:
durante um cerco infligido à cidade por tropas do príncipe de Orange, duas forças
políticas florentinas resolveram acabar com uma velha rixa através de um jogo de bola.
Os partidários eram divididos em duas equipes - "verde" e "branca" - de 27 jogadores
cada. A primeira partida durou algumas horas e, desde então, passou a ser realizada
anualmente no dia 24 de junho – dia de São João, padroeiro da cidade. Em 1580 o calcio
ganhou as primeiras regras. Conta-se que os papas Clemente VII, Leão XI e Urbano VII
foram assíduos jogadores desse esporte e que, nos dias de jogo, os nobres colocavam
suas melhores roupas para presenciar o espetáculo na praça. No século XVII é que os
reis ingleses permitiram a prática de futebol em seu país. Ele teria voltado à ilha a partir
do retorno de ingleses refugiados na Itália, que teriam sido "fisgados" pelo calcio. Em
1681 foi disputado um jogo entre os servos do rei Carlos II e os do Conde D´Albemarie.
Os vencedores – ligados ao conde – foram premiados pelo rei. Começava a nascer o
futebol dos tempos modernos.23
O moderno futebol teve um discreto começo nos clubes e colégios da Inglaterra. As
regras variavam muito e, por conta disso, em 26 de outubro de 1863 representantes de
21
Ibid., p. 6.
Ibid.
23
Ibid.
22
26
clubes e escolas reuniram-se em Londres para decidir as regras do esporte.
Estabeleceram as leis e deram uma forma definitiva ao jogo, distribuindo através de livros
e cartilhas os ensinamentos para a prática do esporte que viria a se tornar uma paixão
mundial.24 O futebol evoluiu muito ao longo dos anos. Apesar disso, os 17 “mandamentos”
continuam os mesmos, com pequenas mudanças nas regras oficiais.
Embora estivesse presente nos primeiros jogos Olímpicos da Era moderna, em 1896,
o futebol só começou a ganhar importância na Olimpíada de 1908, realizada em Londres.
Entre este período, em 1904, mais precisamente no dia 21 de maio, em Paris, houve um
marco na história do futebol mundial: a fundação da Fédération Internacionale de Football
Association - a FIFA. Com a criação da entidade, o futebol passou a ser melhor
organizado e começaram a ser estudadas as possibilidades de torneios internacionais e a
realização de uma Copa do Mundo. “Um campeonato mundial, mesmo com um número
reduzido de participantes, era uma aventura que implicava pesados investimentos
financeiros. E ninguém queria correr este risco”.25
O Uruguai foi escolhido para ser sede da primeira Copa do Mundo, em 1930, por três
motivos: pelo prestigio adquirido com as conquistas da medalha de ouro nas Olimpíadas
de 1924 e 1928, pela comemoração do centenário de sua independência e porque motivo que consideramos de grande relevância para o que viria a ser o futuro do esporte a Associação Uruguaia de futebol oferecia passagens e estadia paga aos atletas, assim
como uma possível participação nos lucros obtidos com os jogos. Esses fatores foram
fundamentais para que outros países desistissem de sediar a primeira Copa do Mundo.
Apesar das promessas, essa primeira competição mundial, aberta a amadores e
profissionais, enfrentou sérios problemas. Um deles foi a depressão econômica que
atingiu o mundo a partir de 1929; o outro, o tempo: a viagem de navio da Europa para o
Uruguai durava quatro semanas, e a copa, apenas duas semanas!26 Apesar dos
24
Ibid., p. 7.
Ibid., p. 16.
26
Cf. MURRAY, B. Uma história de futebol, op. cit., p. 90.
25
27
problemas a Copa "emplacou" e, mesmo com uma pausa mais do que justificada no
período da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um evento de importância mundial.27
1.2.1 – A conquista da força e do respeito
Como percebido acima, apenas na década de 20 houve um reconhecimento maior do
esporte a partir da realização de jogos entre seleções nacionais. O futebol virou mania
principalmente nos anos pós-guerra, quando o entusiasmo pela "pelota" chegou às
mulheres, que começavam a ocupar postos de trabalho e a participar de atividades de
lazer antes exclusivamente masculinas.28
Foi após a repercussão do mundial do Uruguai que os governos se mostraram
interessados em assumir os encargos de uma nova Copa do Mundo. Era um evento de
mobilização nacional, de grandes dimensões, que valorizava a nação em diversos
sentidos, principalmente no político. Nesse período foi crescente a construção de estádios
– principalmente na Europa -, assim como se tornou comum a vinda de dirigentes
europeus para a América do Sul atrás de talentos argentinos, uruguaios e brasileiros.
Como não existia regime profissional nesses países – o profissionalismo teve êxito entre
as décadas de 20 e 30, começando na Inglaterra e partindo para outros países e
continentes, entre eles a América do Sul -, era fácil a ida dos jogadores e a FIFA permitia
esse tipo de transação.29
A popularização do rádio, nos anos 30, também trouxe um grande benefício ao
futebol. Afinal, ele atingia um público imenso e, de uma certa forma, "colocava todo
mundo dentro do estádio". No princípio houve o temor que o público deixasse de ir aos
estádios, mas ocorreu o fenômeno inverso. Todos estavam entrando em contato com o
"esporte das multidões". Cegos, doentes em hospitais e moradores das regiões rurais não
deixavam de acompanhar as "grandes batalhas" pelo rádio.30
27
Vale observar, porém, que não foram incomuns jogos entre contendores. Um exemplo dramático pode ser
encontrado na obra de DOUGAN, A. Futebol e Guerra: resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev
ocupada pelos nazistas. 1ª ed. São Paulo: Jorge Zahar Editores, 2004, 204 p.
28
Cf. MURRAY, B. Uma história de futebol, op. cit., p. 70.
29
Cf. AGOSTINO, G. Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional, op. cit., p. 59.
30
Cf. MURRAY, B. Uma história de futebol, op. cit., p. 101.
28
O mundo ficou sem disputas internacionais institucionalizadas durante os quase seis
anos da 2ª guerra mundial. Assim que o último tiro foi disparado, porém, o futebol voltou
com força ao cenário internacional, com seleções mais fortes e um estilo diferente. Os
atletas eram mais fortes e disciplinados, e, nesse esquema, começaram a despontar os
primeiros grandes nomes do esporte. A organização não afastou, porém, o uso político da
modalidade.31
Até pela dificuldade de organização e promoção, antes dos anos 60 do séc. passado
as partidas internacionais eram o grande destaque do calendário futebolístico. Foi nessa
época que, pela primeira vez, um fato do cenário político interferiu na realização do
esporte: os órgãos representativos da Indonésia, Egito e Sudão se recusaram a colocar
suas seleções em campo para enfrentar a seleção de Israel, nas eliminatórias da copa de
1966.32 Nos anos 70, com a expansão do uso de refletores, a evolução nas viagens
aéreas e os progressos das transmissões televisionadas, novas competições entre clubes
surgiram e ganharam popularidade.
A importância política do futebol pode ser vista em um dado numérico: a FIFA, hoje,
possui mais países afiliados do que a ONU! Muitos países surgiram na esteira da Guerra
Fria, na segunda metade do século XX; uma das marcas de independência, sem dúvida,
era a formação de um selecionado nacional de futebol.33
Neste momento, para aqueles que lutavam pelo direito de autodeterminação, ficava claro
quanto valia o reconhecimento de uma Federação Esportiva como um dos componentes
essenciais da afirmação da soberania. Neste sentido, o futebol atingiu uma projeção
bastante relevante, sendo um dos elementos decisivos na formação da identidade nacional
que se seguiu à implosão dos velhos impérios.34
A partir de 1974, com o “futebol total” praticado pelas seleções da Alemanha e
Holanda na Copa do Mundo, houve uma preocupação maior com a manutenção das
equipes não só em relação ao condicionamento físico, mas também em relação aos
aspectos tático e técnico. Nesse ano o brasileiro João Havelange assumiu a presidência
da FIFA, substituindo Stanley Rous.
31
Ibid., p.121.
Ibid., p.137.
33
Cf. AGOSTINO, G. Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional, op. cit., p. 202.
34
Ibid.
32
29
As conseqüências foram revolucionárias, não só porque um era Inglês e o outro brasileiro
– embora isso fosse importante –, mas porque representavam duas diferentes forças
históricas. Havelange era um homem mais sintonizado com a realidade das economias
terceiro-mundistas, acumulando uma fortuna no meio da pobreza terrível, enquanto Rous
estava ancorado a um passado em que os subordinados obedeciam as recomendações
sem se revoltar com a situação.35
O futebol chegou a outros países e o “negócio futebol” ganhou força. A prática deixava
de lado o espírito esportivo e ganhava o perfil de meio de ascensão social, principalmente
em países pobres que desenvolviam talentos nos jogos de bola improvisados. Jogar bem
podia ser um passaporte para uma vida melhor em um país onde o respeito aos cidadãos
fosse maior.
Na década de 90, o mercado televisivo passou a ser melhor explorado, abrindo
oportunidades de divulgação e negócios para empresas e até políticos.
Apesar de não ter causado um impacto notável sobre o futebol dentro de campo,
revolucionou sua organização e modificou seu efeito sobre o público. Pela televisão, a
arte dos grandes jogadores e o desempenho dos grandes times podem ser
acompanhados por milhões de pessoas, que antes só liam e ouviam as notícias.36
Uma grande iniciativa para consolidar a era do "futebol globalizado" foi tomada pela
FIFA ao realizar a Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos. A meta era captar a
atenção do maior público desportivo do mundo, para quem o futebol (soccer) sempre fora
um esporte "marginal". Na mesma época surgiu o conceito de "clube-empresa". Com
mais dinheiro envolvido, o esporte cresceu; os craques, por sua vez, ganharam cada vez
mais o status de “celebridades mundiais”, com salários polpudos e contratos milionários
de publicidade e direitos de imagem.
Vale observar que, com a globalização, os jogos deixam de ser "apenas" jogos, e os
atletas deixam de ser "apenas" atletas. Em termos simbólicos ou não, o fato é que o
futebol deixou os estádios e entrou, de forma brutal, “na cabeça” das pessoas. Não é à
toa, por exemplo, que uma forma comum de aprovação, no Brasil, é dizer "show de bola!"
Até Osama Bin Laden (quem diria) se rendeu aos encantos do futebol e até fez
observações críticas:
35
36
MURRAY, B. Uma história de futebol, op. cit., pp. 173-174.
Ibid., p. 202.
30
No começo de 1994, Osama Bin Laden passou três meses em Londres, onde visitou
colaboradores e banqueiros e foi assistir a jogos do famoso time de futebol Arsenal
quatro vezes. Sua afeição pelo jogo não o impediu de se envolver num plano para
massacrar os times norte-americano e inglês na Copa do Mundo de 1998 na França:
porém, Bin Laden disse a seus amigos que nunca havia visto uma paixão como a dos
fanáticos pelo futebol.37
No começo do século XXI, apesar das várias crises econômicas nacionais, o futebol
segue sendo um grande negócio. O mundial de 2002 foi o primeiro a ser transmitido pela
internet, o que alimentou especulações e contribuiu para unir bilhões de espectadores em
uma aldeia (ou seria estádio?) global.
E a globalização tende, de fato, a atingir em cheio o futebol: um de seus efeitos seria
a concentração das atenções em um grupo de dez ou, no máximo, vinte times que
atrairiam boa parte dos torcedores de todo o mundo. Existiria uma faixa secundária,
formada por algo entre vinte e trinta clubes, e o restante continuaria servindo apenas para
animar os públicos locais e para cultivar craques para as equipes do topo da cadeia. Essa
visão, de Alan Gilbert, do University College de Londres (UCL), parece estar sendo
corroborada por dados empíricos: o esvaziamento dos estádios, o aumento do número de
amistosos e o enfraquecimento das competições regionais.38
Para o bem ou para o mal, justamente por ser "demasiadamente humano", o futebol
corre o risco de cair – se já não aconteceu – em um espiral de alienação e consumo.
Poderá a engenharia genética criar "super-atletas"? Os laboratórios seriam capazes de
desenvolver drogas que aumentassem a resistência ou a acuidade mental dos jogadores?
Em um mundo de violência, não seria caso de afrouxar as regras e deixar que os
jogadores literalmente "dessem o sangue" nos gramados?39 Tais perguntas, de aparente
mau gosto, já não estão tão longe da realidade.
Em linhas gerais, longe de ser apolítico, o futebol serviu em diferentes contextos, tanto
contra poderes opressivos quanto como veículo para ações revolucionárias. Assim como
crianças e adultos vão continuar fazendo da bola um agradável passatempo, os governos
37
KUPER, S. Os jogos da copa não são apenas jogos. A semana. Artigo disponível em:
<http://ultimosegundo.ig.com.br/home/cadernoi/0,2945,790097,00.html> Acesso em 30 de maio de 2002.
38
Cf. JACOBS, C. Globalização vai levar a centralização de torcedores, prevê analista. Artigo disponível em:
<http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/bbc/artigo/0,,1398748,00.html> Acesso em 30 de outubro de 2003.
39
Cf. AGOSTINO, G. Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional, op. cit., p. 268.
31
e as sociedades vão continuar se servindo do "maior espetáculo da terra" para fins nem
sempre inspirados pelo "espírito esportivo".
1.2.2 – O globo, a bola e os deuses
O envolvimento de pessoas com atividades esportivas pode nascer de necessidades
de lazer, cultura física, superação, aprendizagem ou integração social. Seus participantes
podem ser divididos segundo padrões como grau de instrução, idade, sexo e profissão.
Evidenciando que o esporte acontece como fenômeno de massa e como espetáculo, com
objetivo primordial de proporcionar lazer, há grandes diferenças nos que se envolvem de
maneira amadora e profissional. Enquanto alguns buscam prazer, outros são capazes de
qualquer coisa para obter a vitória.
Algo que não pode ser desvinculado do esporte é o aspecto das motivações e sua
ligação com o divino. Uma relação que se estabelece entre clube, atleta e torcida. Isto é
mais evidente em nossos dias, como podemos perceber nesta figura40:
Mas a religiosidade associada aos esportistas não é um fenômeno moderno:
Tanto que no início dos jogos olímpicos, na Grécia antiga, por volta de 1220 a.C., homens já
exibiam sua força, habilidade física, controle psicológico em homenagens a Zeus, o líder do
40
Imagem do site português de esportes. Disponível em: <http://www.infordesporto.sapo.pt> Acesso em 13
de novembro de 2004.
32
panteão da mitologia grega. Os jogos eram realizados em cerimônias culturais e religiosas.
Atletas corriam nus e os vitoriosos eram glorificados à altura de grandes deuses.41
Vencer obstáculos e superar os limites do corpo são metas constantes na história de
muitos atletas. Por esse motivo o esporte é um fenômeno complexo, múltiplo e que exige
diversos olhares. É impossível analisar o esporte sem falar do seu simbolismo, da
sociedade em que está inserido, de sua repercussão na mídia, dos lugares das
competições e de todos seus encantos. “O futebol é mesmo assim, suas vigorosas
emoções, sejam trágicas ou épicas, fluem em direção ao imprevisível”.42 É um universo
maravilhoso, em que a maioria das pessoas, em algum momento, encontra identificação.
Em qualquer lugar onde haja uma competição esportiva de futebol, o ambiente é
cercado de fatores que nos fazem lembrar os aspectos da cultura local. Além do mais, o
dramático e passional vivem em profunda e misteriosa aliança no atleta e no torcedor.
As grandes competições desportivas desenrolam-se em cenários onde o espetáculo, não
um espetáculo banal, mas um espetáculo maravilhoso, a festa e todos os rituais
celebrados, instauram uma situação à reprodução dos grandes mitos das sociedades
arcaicas.43
O
estádio
é
comparado,
muitas
vezes,
a
marcos
dos
locus
religioso.44
Constantemente ouvimos ou lemos referências do tipo "um jogo no santuário x”, “cidades
santas”, "o templo está lotado", "as catedrais precisam de reforma", "vai haver uma
peregrinação” para ver certa equipe jogar. A linguagem religiosa é utilizada de forma
corriqueira, como se há muito tempo os personagens do espetáculo fossem deuses ou
demônios, santos, pecadores ou acólitos. “No desporto, temos traços duma experiência
vivida como se fosse profana e que é descrita, analogicamente, como religiosa”.45
Uma situação interessante a observar sobre o local do jogo é a questão da
responsabilidade de se “jogar em casa”. Como já afirmamos, os lugares onde acontece o
“culto à bola” são importantíssimos:
41
SGARIONE, M. Sangue, suor e muita fé. Superinteressante - Religiões: o mundo da fé. São Paulo, v.1, n.6,
fevereiro de 2004, 66 p., pp. 49-50.
42
AGOSTINO, G. Vencer ou morrer:futebol, geopolítica e identidade nacional, op. cit., p. 9.
43
COSTA, A. À Volta do Estádio: o homem, o desporto e a sociedade. 1ªed. Porto: Campo das letras, 1997,
215 p., p. 15.
44
A título de exemplo, no Brasil, o estádio Mário Filho (Maracanã) é citado sempre como o maior “santuário”
de futebol do mundo.
45
COSTA, A. À Volta do Estádio: o homem, o desporto e a sociedade, op. cit., p. 26.
33
A história das religiões fala-nos de tantos lugares festivos, onde o sagrado manifestava
particularmente a sua presença e onde a comunidade se sentia forte, praticamente
invencível, e preparada para enfrentar, com auxílio dos deuses, os maiores obstáculos da
vida.46
Podemos perceber no dia-a-dia do futebol que os atletas, quando jogam em seu
terreno, “em casa”, se sentem mais fortes (muitas vezes, porém, pode acontecer um
movimento inverso: há clubes que são conhecidos por “arrancar” resultados fora de casa);
os adversários visitantes, por sua vez, não têm vida fácil neste território. Existe uma
energia que corre do gramado para a arquibancada, da voz do radialista para os rádios de
pilha e para os ouvidos dos torcedores, das câmeras de TV para dentro das casas. Essa
força chega ao ápice em jogos decisivos, em que todos - do atacante à mãe do juiz - se
doam ao máximo. Por essa ótica, uma final da Copa do Mundo, por exemplo, reuniria de
forma exemplar os elementos de Otto para definir o “sagrado”47 um evento ao mesmo
tempo "tremendo" e "fascinante". “Jogando em casa em jogos decisivos, os futebolistas
são invadidos por um entusiasmo e uma emoção de natureza religiosa”.48
Contudo, mesmo “protegidos” pelas “divindades tutelares” que olham por seus
estádios, os futebolistas às vezes se vêem diante de outras potestades que podem vencêlos em seu próprio campo de batalha. Isto deixa o futebol mais emocionante e mais difícil
de ser compreendido. Existem fenômenos, nesse esporte, que fogem à capacidade
humana de controle.
A bola, podemos dizer com segurança, tem uma “natureza especial”. Ela traz, em si, o
ludens, é o símbolo perfeito do brincar, do brincar com outro, do interagir. A esfera é a
estrutura geométrica perfeita. Poucas pessoas no mundo não tiveram a oportunidade de
“bater uma bolinha”, seja no futebol ou em qualquer outro esporte. A vida sem as
"pelotas" seria mais difícil. Muitas vezes elas nem mesmo respeitam a forma: uma laranja,
uma lata ou mesmo uma pedra, por exemplo, podem garantir bons momentos de
46
Ibid., p. 29.
Por seu caráter genérico, o termo “Sagrado” – estabelecido por R. Otto no início do século XX – tem seu
uso colocado em suspeição por autores como USARSKI, F. Os Enganos sobre o Sagrado – Uma Síntese da
Crítica ao Ramo “Clássico” da Fenomenologia da Religião e seus Conceitos-Chave. Disponível em Revista
REVER, n. 4, ano 4, 2004, pp. 73-95.
<http://www.pucsp.br/rever/rv4_2004/t_usarski.htm> Acesso em 08 de junho de 2005. Em nossa acepção, o
“Sagrado” se refere ao sobrenatural.
48
COSTA, A. À Volta do Estádio: o homem, o desporto e a sociedade, op. cit., p. 30.
47
34
entretenimento. Brinquedo para uns, instrumentos de trabalho para outros, mas, acima de
tudo, motivo de alegria para a maioria.
As origens da bola situam-se nas noites dos tempos. É legitimo afirmar que os nossos jogos
com bola são recordações longínquas de partidas rituais cujo objetivo era a conquista
simbólica do globo solar por grupos adversários como expressão da conquista do poder.49
Esse objeto misterioso tem uma significação que vale a pena ser analisada. Em
termos simbólicos, a esfera - representação espacial do círculo - denota perfeição. No
futebol, a bola - "esfera máxima" - é o objeto a ser conquistado pelos pés, controlado,
passado para o outro e compartilhado. A equipe que conseguir usufruir mais das
situações favoráveis no contato com a bola é a vitoriosa. Quem consegue se manter mais
tempo com a bola nos pés - não precisa, necessariamente, vencer a partida –, demonstra
poder.
A bola é o que separa e o que une os adversários - todos querem ficar com ela, das
crianças aos adultos. O “dono da bola” é, ao mesmo tempo, um ser respeitado e odiado.
A bola é um verdadeiro meio de comunicação, sua linguagem é global e de fácil
interpretação: basta chutar e aguardar uma resposta.
Para muitos – no atual momento do futebol – a bola está sendo mal tratada, mas, se
imaginarmos o futebol como caça, revivendo os tempos arcaicos, a situação se mostra
comum, já que existiram os bons e os maus caçadores. A bola é o seu alvo; enquanto
muitos caçam de maneira sutil, outros caçam mal e, de quebra, atrapalham a caça dos
outros caçadores. O dano é mais grave se for infligido aos próprios companheiros. Outra
atitude comum em nossos tempos é a de mudança no objeto do desejo: ao invés de
"caçar" a bola, muitos caçadores/jogadores estão visando as canelas e joelhos de seus
rivais. Esses mal informados (ou mal intencionados) profanadores se esquecem de que
existem leis a serem seguidas. O culto à bola, a caça à bola, a reverência à bola, seja
como for denominada pelos seus adeptos, tem que ser feita dentro de limites. Os
excessos sempre fizeram mal a essa celebração ecumênica.
Os actores de nosso futebol nunca se podem esquecer de que estão a celebrar, através do
seu comportamento desportivo, o modelo mítico e os gestos rituais dos caçadores do
paleolítico e de que a presa, elemento sagrado deste ritual, é apenas a bola.50
49
Ibid., p. 13.
35
Sempre que participamos das “celebrações” esportivas, estamos envolvidos em
“rituais”, nas mesmas rotinas de preparação. Essa preparação tem poder e deve ser
cumprida, seja em jogos amistosos ou de campeonato. Assim, não é possível desvincular
o esporte dos rituais: basta lembrar que, por determinação da FIFA, nos jogos mais
importantes – como os da Copa do Mundo – as equipes se reúnem no centro do gramado
para a execução dos hinos nacionais das equipes. O mesmo se dá na abertura dos jogos
olímpicos, quando um atleta ascende a pira olímpica a partir de uma tocha que circulou
por diversos países.
Cerimônia no Templo de Hera, em Olímpia, marca o início da peregrinação (...) A chama
voltará a brilhar (...) Revivendo um ritual secular, a atriz Thalia Prokopio, como grande
sacerdotisa, invocará a luz sagrada de Apolo e usará os raios do sol para ascender a tocha
olímpica, que em seguida iniciará, pela primeira vez na história dos jogos, uma jornada de 78
mil km por cinco continentes.51
Nos referimos a rituais que todos presenciam em eventos de aldeia global, como a
Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas é possível estreitar o foco. Comecemos pela
oração que os atletas, desde as categorias de base, fazem antes de entrar em campo. O
pedido, seja nas categorias de base ou profissional, seja individual ou coletivamente, é de
proteção divina. Os vestiários são os locais onde, via de regra, são feitas as orações.
O tempo do futebol - e mesmo dos outros esportes - tem algo de cíclico. Existem
muitas repetições, a começar pela divisão de uma partida, em dois tempos. A Copa do
Mundo e as Olimpíadas de quatro em quatro anos, a Copa América a cada dois anos, o
Campeonato Brasileiro e o Paulista, disputados anualmente... Dentro de uma partida de
futebol oficial, antes do apito inicial, o árbitro atira uma moeda para cima e lança a
"primeira sorte", que permitirá ao capitão vencedor escolher o lado do campo para o
primeiro tempo ou a saída com a bola - mesmo aí, muitas vezes, a superstição prevalece
sobre considerações de ordem estratégica.
Sempre que caiba ao árbitro reiniciar o jogo, ele vai chamar dois atletas (um de cada
time) e lançar a bola para o alto, para que um deles ganhe o controle e faça o show
continuar. No caso da cobrança do arremesso lateral, a regra também determina que o
50
51
Ibid., p. 117.
JOGOS Olímpicos. O Estado de São Paulo, 25 de março de 2004, E2.
36
atleta eleve a bola acima da cabeça antes de devolvê-la ao terreno de jogo, não sendo
validado o gol caso ela ultrapasse as balizas do gol.
Se o desporto é capaz de produzir tais efeitos do imaginário colectivo de um povo é porque a
sua força significante é enorme e o poder do seu funcionamento simbólico é absolutamente
irresistível, talvez só comparável com o fenômeno religioso. E numa sociedade secularizada
como a nossa, mesmo o fenômeno religioso deverá, muitas vezes, sentir inveja do fenômeno
esportivo.52
O vínculo esporte e religião pode ser visto em dois exemplos de outras culturas. O
primeiro deles se refere a Paulo, o apóstolo dos gentios e conhecedor da cultura grega.
Valendo-se do exemplo de jovens que passavam os dias treinando em um estádio para
moldar o corpo e ganhar domínio de si, ele estabeleceu um paralelo entre os objetivos do
atleta e o da vida cristã. Nesse paralelo, observou a perseverança que norteia a vida do
esportista na busca da vitória e da superação de limites:53
Todos os atletas se impõem a si muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa
corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível. Assim, eu corro, mas não sem um
rumo certo. Dou golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e mantenho em
servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros.54
O segundo exemplo data da década de 40, na Polônia, e se refere a um jovem
estudante de teologia chamado Carol Wojtyla, que se tornaria mundialmente famoso a
partir de 1978 como o sumo pontífice da Igreja Católica. Em sua juventude, João Paulo II
jogava bola - diz-se, inclusive, que era um excelente goleiro. Mesmo no Vaticano,
afirmam, segue apaixonado por futebol e, mesmo que esteja com a saúde debilitada55,
não perde um jogo da seleção polonesa. Em 2003 recebeu a camisa pessoalmente do
técnico do time e, sem pestanejar, "sapecou" uma benção.56
Apesar da afeição que nutre pela "redonda", porém, João Paulo II também vestiu a
camisa da ortodoxia. Em 2004 ele lembrou aos milhões de católicos que o domingo deve
ser devotado a Deus e não aos esportes - a mensagem parece clara: é preciso retirar um
52
COSTA, A. A. Volta do Estádio: o desporto, o homem e a sociedade, op. cit., p. 133.
Cf. MACHADO, D.M. O atleta profissional de futebol no Brasil – Evolução Histórica Legislativa: jornada
de trabalho. PUC-SP, 2002, 87 p., p. 4. (dissertação de mestrado)
54
BÍBLIA Sagrada. 24ª ed. São Paulo: Ave Maria, 2000, 1750 p., I Coríntios, 9:25-27.
55
Carol Wojtyla, João Paulo II, morreu no dia 02 de abril de 2005. A dissertação estava em construção neste
período.
56
Cf. SGARIONI, M. Sangue, suor e muita fé, op. cit., p. 47, fev. 2004.
53
37
"certo ídolo esférico e dividido em gomos" do altar e voltar os olhos para Deus. Na mesma
mensagem, o papa criticou a cultura do "aqui-e-agora" e conclamou os católicos a
assistirem a missa dominical.57
Quando o domingo perde seu significado fundamental e se torna sujeito ao conceito secular
de fim de semana, dominado por coisas como entretenimento e esporte, as pessoas ficam
presas em um horizonte estreito em que não podem mais ver os céus (...) O domingo é o dia
supremo da fé, um dia indispensável, o dia da esperança dos cristãos.58
1.3– Reflexões sobre futebol no Brasil
O Brasil é o país do futebol – essa é uma realidade que pode ser confirmada pelos
dados do cotidiano. A quantidade de títulos que nossa seleção possui é muito grande em
todas as categorias que disputam os campeonatos mundiais; da mesma forma, atletas
brasileiros estão espalhados por todos os continentes, muitas vezes na condição de
astros de suas equipes.
Somos conhecidos como “artistas da bola”, mas, definitivamente, não fomos os
primeiros a “dar tratos à bola”. O esporte das multidões - como descrito anteriormente –
se espraia no tempo. Nem mesmo na América Latina fomos os primeiros a chutar uma
“pelota”. Trazido por imigrantes e marinheiros ingleses que aportaram em Buenos Aires
na década de 1860, o jogo começou como uma reunião informal entre amigos. Porém,
pouco a pouco, foi se espalhando. Primeiro pelo Uruguai, depois pelo Brasil e, assim, o
esporte foi se consolidando na América do Sul.59
Muitos atribuem a Charles Miller a condição de “pai do futebol brasileiro”. Nascido em
São Paulo, foi estudar na Inglaterra, onde conheceu o futebol nas escolas inglesas. Jogou
e pegou gosto pelo esporte. Atleta de destaque, chegou a integrar a seleção amadora de
1893. Morreu em 1953.
Em 1894, retornando ao Brasil, Miller trouxe na mala alguns itens de sua adoração: um livro
de regras do association football, uma camisa do Banister Scholl e outra do St. Mary, duas
bolas, uma bomba para enchê-las e um par de chuteiras60.
57
Cf. O DOMINGO é para Deus, não para esportes ou outras diversões. O Estado de São Paulo, 27 de março
de 2004, A20.
58
Ibid.
59
Cf. HISTÓRIA do futebol 2: o sonho vira realidade. Placar, v.2, n.2, 1998, 18 p., p. 4.
60
Cf. NETO, J. Visão de jogo: primórdios do futebol no Brasil, op. cit., pp. 27-29.
38
Não há dúvida de que Miller foi, de fato, um dos pioneiros do futebol no Brasil. Isso
não quer dizer, porém, que ele foi o "pai da matéria": sabe-se que mesmo antes dele
retornar da Inglaterra, em 1894, o futebol já era praticado no Brasil. Entre os anos 1880 e
1890, padres jesuítas paulistas haviam ido para a Europa visitar instituições de ensino e
de lá trouxeram algumas bolas e artefatos utilizados no futebol (ver anexo 3). De Charles
Miller o que se pode dizer, de fato, é que levou o futebol aos clubes, onde a prática
adquiriu um caráter competitivo. Ao contrário dos colégios, que tinham como objetivo
utilizar o esporte (e o futebol) como aliado na educação dos alunos.61
No outono de 1895, enquanto Miller treinava a elite inglesa, o futebol já vinha sendo
praticado não só nos colégios jesuítas, mas também no colégio de Petrópolis dos vicentinos,
e constava do planejamento anual do Ginásio Nacional (colégio D. Pedro II), além de já ter
começado sua disseminação entre os trabalhadores das ferrovias e das indústrias62.
Nós todos sabemos que é difícil derrubar um mito depois que ele é erguido e, assim,
Charles Miller sempre será conhecido como o introdutor do futebol no Brasil. Seu nome é
lembrado em todas as referências da história deste esporte e, por mais que existam
fontes primárias que mostram a bola rolando antes de 1894 por aqui,63 sua fama de “Pai
do futebol brasileiro” deve permanecer.
Na virada do século XIX para o XX, o futebol ainda engatinhava. Foi ganhando
adeptos, embora os clubes existentes se voltassem para o remo, o ciclismo e outros
esportes. O primeiro clube criado e reconhecido no Brasil, com ata lavrada, foi o Sport
Club Rio Grande, do Rio Grande do Sul. Nasceu em 19 de julho de 1900; a pretexto de
comemorar seu 25º aniversário, o alemão Chriistian Moritz Minemann reuniu dezesseis
amigos do clube Germânia e fundou o time. Dias depois, os jogadores receberam da
Inglaterra chuteiras, calções compridos e camisas. Comemora-se o dia nacional do
futebol em 19 de julho, dia da fundação do Rio Grande.64
E assim vários clubes surgiam no país. As pessoas tinham contato com o esporte e as
que gostavam passavam a divulgar e formar equipes. Muitos dos que formavam as
equipes eram viajantes que desembarcavam no Brasil: “O alemão Hans Nobiling foi outro
61
Ibid., pp. 18-30.
Ibid., pp. 33-35.
63
Em seu livro "Visão de jogo; primórdios do futebol no Brasil", NETO, J. (professor da PUC de Campinas),
afirma que há documentos, diários, fotografias e outras evidências fortes demais que não podem ser negadas.
64
Cf. HISTÓRIA do futebol 3: a paixão dos brasileiros pelo futebol. Placar, v.3, n.3, 1998, 18 p., p. 6.
62
39
que desembarcou no Brasil trazendo na bagagem uma bola e uma enorme vontade de
jogar futebol”.65 Como Charles Miller, Oscar Cox, também um estudante chegado da
Europa (da Suíça), “tanto falou dos encantos do jogo aos amigos que conseguiu reunir um
pequeno grupo de jogadores para ensinar as regras. Estava organizado o Rio Team”,66 no
Rio de Janeiro.
Algo importante de salientar é que, no início, esse esporte foi restrito a uma elite. Era
praticado por jogadores que pertenciam a famílias de posses, só em clubes fechados. Em
seus primeiros tempos no Brasil, era uma prática esportiva para atletas brancos, em que
não se permitia a participação de negros, mestiços e pobres. Paulatinamente e, com a
quebra de muitos preconceitos sociais, o futebol foi chegando às camadas mais
populares. Fator semelhante parece estar acontecendo com o tênis nos dias de hoje. “O
aparecimento de times populares fez com que muitas senhoras e gente de bens
começassem a deixar de freqüentar os estádios, ao mesmo tempo em que o povo
começava a invadi-los".67
O futebol brasileiro é um produto de consumo mundial. Hoje, em qualquer ambiente
onde exista uma “pelada”, ricos, pobres, brancos e negros se misturam. São tantos os
amantes do futebol que seu número ultrapassa tranqüilamente a soma do total dos
envolvidos com as demais competições esportivas existentes na terra tupiniquim. Há
pouco mais de 100 anos o futebol começou a ser jogado continuamente por clubes. Hoje,
clubes com equipes profissionais e amadoras não param de ser fundados, servindo de
lazer para alguns e de fonte de renda para muitos outros. Nesse cadinho, evidentemente,
também está a emoção.
1.3.1- O esporte que caiu no gosto do povo
É inegável a influência que o futebol teve na vida brasileira no início do século XX.
Ainda que em seu começo só fosse praticado pela elite, com a popularização foram
surgindo cada vez mais adeptos, de diversas camadas sociais. O futebol foi, aos poucos,
65
Ibid., p. 7.
Ibid.
67
CAMPOS, R. Futebol: identidade nacional e uso político. Campinas: Humanitas, jan/jul., 2000, 31-50 p., p.
31.
66
40
se transformando em um fenômeno que traduzia e identificava a cultura brasileira.68 Os
"17 mandamentos” do futebol eram (e são) de fácil compreensão – vejamos: I, o campo
de jogo (medidas, bandeiras, os postes e o travessão do gol...); II, a bola, uniformização e
modelo; III, o número de jogadores: onze no gramado, mais os reservas e dirigentes; IV, o
equipamento dos jogadores: caneleiras, chuteiras e numeração das camisas; V, o árbitro:
poderes e deveres; VI, os auxiliares; VII, a duração das partidas: paralisações e
prorrogações; VIII, saída inicial: sorteio e escolha de campo; IX, a bola em jogo e fora de
jogo; X, os gols marcados: quando a bola transpõe totalmente a linha de meta; XI, o
impedimento; XII, faltas e incorreções: penalidades, advertências e expulsões; XIII, tiros
livres; XIV, a cobrança de pênalti; XV, arremesso lateral; XVI, tiro de meta; XVII,
escanteio.
Entrar no jogo segue como algo muito fácil, sem contar que, quando jogado "para
simples deleite do espírito", o futebol não carece de uma observância tão estrita das
regras. Democrático, aberto a variações sem traumas, abriga gregos e troianos no mesmo
time; magros, gordos, brancos, negros, crianças, adultos, idosos, homens e mulheres
participam sem maiores problemas. Onze jogadores se tornam dois, cinco ou cinqüenta.
“Num país miscigenado como o Brasil, o fato de o futebol não exigir um biótipo especial e
poder ser praticado praticamente em qualquer lugar, colaborou na sua democratização”69.
O fascínio pelo futebol e as implicações políticas desse sentimento observados em
outros países também se manifestaram no Brasil. A industrialização atraiu pessoas para
as cidades; elas precisavam de lazer para suportar as muitas e mal remuneradas horas
diárias de trabalho; o futebol, tão atraente, não tinha praticamente custo de
implantação/manutenção: “Em 1921, já ocorria dispensa de funcionários públicos na hora
do jogo, isenção de clubes e campos do pagamento de impostos, e os jornais reservavam
grande espaço ao assunto”.70
Com a expansão da construção das ferrovias diversos clubes foram surgindo - os
"Ferroviários" - com as empresas ferroviárias construindo campos e estádios e
administrando clubes.
68
Ibid.
Ibid.
70
Ibid., p. 35.
69
41
As vantagens, entre outras, para o Estado, tanto no populismo varguista como nos governos
militares pós-64, eram o controle de lazer dos empregados e a difusão paternalista do
governo, do bem que ele fazia para a cidade, que podia orgulhar-se de possuir um bom
time.71
Como hoje em dia, o brasileiro "de jogos passados" começava cedo no futebol: a
maioria dos meninos tinha como primeiro presente de aniversário ou Natal uma bola;
antes, talvez, esses mesmos "guris" já estivessem chutando tudo o que vissem pela
frente. Da mesma forma, desde cedo essas crianças eram levadas, pelos pais, a torcer
por uma equipe. O brasileiro troca de mulher, de emprego e até de religião, mas não troca
de time. Apenas aos jogadores essas trocas são permitidas; mas, no caso deles, a
questão é de dever de ofício.
Os aspectos culturais do futebol no Brasil foram fixados com mais abrangência no
início dos anos 30, com a criação dos sindicatos que realizavam campanha pela
"proletarização" do esporte. Entravam em campo, definitivamente, a manipulação política,
a disputa ideológica e até territorial - o lazer popular se fixava fortemente a partir da
disputa entre os craques de bairros, cidades ou Estados.72
O futebol vai se transformando numa devoção e aí também entravam em campo as
superstições e outros aspectos da religiosidade popular: ascender velas, rezar, contratar
serviços de especialistas em mandingas, transformar a grama em água benta tocando-a e
fazendo o sinal da cruz antes de ir para dentro do campo, entrar em campo sempre com o pé
direito, ver o goleiro dar três batidinhas com o bico da chuteira e correr em volta das traves
(para fechar o gol) e o atacante comemorar o gol beijando a medalhinha pendurada no
pescoço, ajoelhando e fazendo o sinal da cruz, eram atitudes cada vez mais comuns. A
nação buscava no futebol a compensação para suas frustrações.73
Foi também no início dos anos 30, mais precisamente em 1933, que Getúlio Vargas
instituiu a profissionalização no futebol, superando os limites do "profissionalismo marrom"
que caracterizara o esporte por muitos anos.74 Desde então todos os governantes e
candidatos ao governo – principalmente em Copas do Mundo e em fases decisivas de
campeonatos estaduais e regionais – passaram a acompanhar o desfecho dos jogos e a
estabelecer uma ligação entre futebol, governo e povo.
71
Ibid., p. 36.
Ibid., p. 37.
73
Ibid.
74
Cf. AGOSTINO, G. Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional, op. cit., p. 142.
72
42
Em todo o mundo os anos 30 foram tensos, tanto na política quanto no futebol. Em
193075 foi realizada a primeira Copa do Mundo, competição quadrienal que só deixou de
ser disputada durante a Segunda Guerra Mundial, nos anos de 1942 - quando os campos
eram literalmente "de batalha" - e 1946 - quando o mundo acordou do pesadelo.
O Brasil foi o único país a participar de todas as copas - e a conquistar por cinco
vezes o título esportivo mais cobiçado do planeta. Isso, apesar dos sérios problemas que,
historicamente, acompanham as competições aqui realizadas. Corrupção, vaidade,
indisciplina, incompetência e falta de planejamento são termos normalmente associados
aos "cartolas" (dirigentes de clubes e federações) do futebol brasileiro.
As confusões começaram logo na primeira copa, disputada no Uruguai, e continuaram na
segunda, na Itália. Nas duas ocasiões, o Brasil não contava com seus melhores jogadores
devido a brigas entre seus principais dirigentes e foi facilmente eliminado.76
Na Copa da França, em 1938, as coisas foram diferentes e, por pouco, não chegamos
ao título. Na copa do Brasil, em 1950, construímos o maior estádio do mundo, todos os
jogos registraram grande participação do público, mas, mesmo assim, não fomos
campeões. Esse, sem dúvida, é o grande trauma do futebol brasileiro: no Maracanã,
"catedral da bola", vimos os deuses sorrindo para um time de camisas azuis. O goleiro
brasileiro, Barbosa, acabou apontado como o "Judas" desse triste - e, passados cinqüenta
anos, ainda traumático - mistério.
Na Hungria, em 1954, também não fomos campeões. Caímos diante dos próprios
húngaros, que, como o time brasileiro em 50, também não levou o “caneco”.77 Em 1958,
na distante Suécia, vencemos a primeira, com a novidade de levarmos uma comissão
técnica.78 Repetimos a dose no Chile em 1962,79 mas em 1966, na Inglaterra, não
passamos das oitavas de finais.80 No México, em 1970, o Brasil ganhou seu terceiro título
75
Antes de 1930, eram disputados alguns campeonatos, como a Copa América que foi disputada pela
primeira vez em 1916, na Argentina, sendo a equipe uruguaia a campeã.
76
Cf. FRANÇA 98: tudo sobre futebol e a copa do mundo. Revista oficial da XVI copa. Edição brasileira
RMC, 1998, 162 p., p. 49.
77
Ibid., pp. 49-50.
78
Cf. ISTO É: Rumo ao penta. Isto É, v.1, n.1, 1998, p. 1
79
Em 1962 a equipe do Santos foi a primeira equipe brasileira a ganhar a Copa Libertadores da América,
sendo bi em 63, juntamente com bi do mundial interclubes. Equipes como Palmeiras, Cruzeiro, Flamengo,
São Paulo, Vasco da Gama e Grêmio, também já foram campeões da Copa Libertadores da América, nem
sempre vencendo o mundial interclubes em Tóquio.
80
Cf. FRANÇA 98: tudo sobre futebol e a copa do mundo, op. cit., p. 50.
43
mundial com aquela que é considerada a melhor seleção de todas as copas.81 Em 1974,
na Alemanha, perdemos na reta final, o mesmo acontecendo na Argentina, em 1978,
onde acabamos invictos, mas em terceiro lugar.82
Em 1982, na Itália, voltamos na metade do caminho. Jogando um futebol brilhante,
dando espetáculo, mas sem força ou esperteza para vencer o futebol-força. Perdemos
nos pênaltis na Copa do México em 1986; em 1990, na Itália, acabamos derrotados
vexaminosamente pela bagunça e pela habitual confusão no preparo do selecionado.83
Nos Estados Unidos, em 1994, depois de 24 anos de “jejum”, voltamos a ganhar uma
Copa. Fomos o primeiro país a ganhar um tetracampeonato. Na França, em 1998,
perdemos nossa segunda final de Copa, dessa vez fora de casa, com uma surpreendente
(e polêmica) derrota na final para os anfitriões por três tentos a zero. Na primeira Copa do
século XXI, tendo pela primeira vez dois países como sede – Coréia e Japão –
conseguimos o pentacampeonato, um título festejado como nunca por todo o país e que
compensou a derrota na Copa anterior.
No futebol, apesar de alguns deslizes, fomos sempre (ou quase) os melhores, mas na
resolução de outros problemas continuamos empacados. Em um país de Terceiro Mundo
há sempre a necessidade de ganhar, de ser o primeiro em alguma coisa; essa
característica, típica dos derrotados em muitas outras coisas, acaba dificultando a
valorização de bons times e até dos vice-campeões. No Brasil, vice-campeonato é
ofensa.84
A necessidade de vitória nesse que é, para muita gente, o único investimento
brasileiro passível de dar retorno, faz com que até "milagres" aconteçam: mesmo sem ter
pão ou emprego, muitos torcedores dão um jeito de bater sua bolinha ou de assistir aos
81
No ano seguinte, em 1971, começava a disputa do campeonato brasileiro (quem comanda o futebol
brasileiro é a Confederação Brasileira de Futebol - CBF). O campeão do primeiro torneio foi o Atlético
Mineiro, com muitas equipes disputando o campeonato até hoje, estando entre as principais: Botafogo,
Flamengo, fluminense e Vasco da Gama do Rio de Janeiro; Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo,
equipes de São Paulo; Grêmio e Internacional do Rio Grande do Sul; Atlético e Cruzeiro de Minas Gerais;
Bahia e Vitória da Bahia; Coritiba, Atlético e Paraná, do Paraná, entre outros de demais Estados. Outro
campeonato importante brasileiro, a Copa do Brasil, começou a ser disputada a partir de 1989.
82
Cf. Isto É: Rumo ao penta, op. cit., p. 3
83
Ibid., pp. 2-4.
84
Cf. CAMPOS, R. Futebol: identidade nacional e uso político, op. cit., p. 41.
44
jogos do time do coração. Não é milagre - é necessidade vital. “O futebol é uma das
nossas poucas apresentações eficazes de nação, o jogo do “escrete canarinho” nos dá
aquela coesão imaginária para outros campos”.85
1.3.2 – "Deus de Chuteiras" – aspectos marcantes da religiosidade em
atletas, técnicos e dirigentes
Para quem não acompanha de perto o futebol brasileiro, essa expressão – "Deus de
Chuteiras" - soa estranha. Para quem vive na freqüência dos "boleiros", porém, seu
sentido é cristalino. A necessidade da presença de Deus como décimo-segundo jogador
aparece no discurso de atletas e técnicos. Sua presença é marcante nos apelos dos
torcedores e, a mídia esportiva, com sua necessidade de construir matérias cativantes
(apesar da mesmice de muitos jogos), faz do registro da religiosidade futebolística um de
seus motes.
Nenhum brasileiro consegue ser nada, no futebol ou fora dele, sem a sua medalhinha de
pescoço, sem os seus santos, as suas promessas e, numa palavra, sem o seu Deus pessoal
e intransferível.86
Desde o final do séc. XIX percebemos que a religião está escalada para entrar em
campo em todos os jogos do futebol brasileiro. Existe uma ligação que não pode ser
negada, a começar pela da entrada do esporte no país, pelas mãos - digo, pelos pés –
dos padres jesuítas dos colégios católicos. “Até 1887, padres e alunos jogavam juntos”.87
Entre o final do séc. XIX e começo do séc. XX surgiram clubes formados pelos
estrangeiros e não existia uma participação mais ativa do “povão”. E se os "gringos" não
queriam passar a bola, os ex-alunos dos colégios católicos não fizeram feio nessa área:
Assim como na Inglaterra, foram os ex-alunos, ou oldboys, provenientes dos internatos,
colégios, faculdades e outras ordens religiosas, os grandes divulgadores do futebol. (...) Aqui
no Brasil ocorreu fenômeno idêntico88.
O período entre 1910 e 1933 foi marcado pelo amadorismo e pela grande divulgação
do esporte. Esse período, de encantamento nacional pelo esporte, foi marcado pelo
85
Ibid., p. 47.
MARQUES, J. O futebol em Nelson Rodrigues: O óbvio ululante, o Sobrenatural de Almeida e outros
temas. 1ªed. São Paulo: Educ/Fapesp, 2000, 212 p., p. 141.
87
NETO, J. Visão de jogo: primórdios do futebol no Brasil, op. cit., p. 19.
88
Ibid., p. 23.
86
45
conflito entre os que defendiam o amadorismo e a subvenção dos jogadores. O período
inicial do profissionalismo, entre 1933 e 1950, foi marcado pela crescente participação (e
devoção) popular.89 Em 1936, Mário Miranda Rosa90 verificou que no futebol não se dava
a mínima atenção para a preparação física. Os treinamentos eram feitos apenas uma vez
por semana, em um coletivo disputado por 22 homens que corriam atrás de uma bola. Os
clubes não tinham nenhuma estrutura e não havia sequer médicos trabalhando nas
equipes.
Somente nos anos 40 comecei a compreender o porquê da ausência de conhecimentos
técnicos na prática de futebol, ao realizar uma pesquisa de fundo sociológico sobre “A Magia
no Futebol” e constatar, estupefacto, que o futebol paulista era um enorme terreiro de
macumba, onde o treinador não tinha vez ante a presença enaltecida do macumbeiro,
restando-lhe, então, o papel de “orientador psicológico” dos jogadores do time, acomodando
os conflitos entre os que acreditavam e os que não acreditavam na prática mágica para
resolver as vitórias esportivas (...) Transformei-me, sem querer, no adversário contumaz do
macumbeiro, procurando introduzir a tecnologia do futebol onde quase só havia o apelo à
magia.91
Em resumo, Rosa chegou à conclusão de que o apelo ao sobrenatural era costume
entre jogadores, técnicos e até entre os diretores dos clubes. Na falta de ciência e do
dinheiro, o "complemento mágico" supriria todas as carências. Diante dessa perspectiva,
o macumbeiro era uma figura-chave. Rosa também concluiu que, quanto maior era o
apelo ao elemento mágico, menor era o conhecimento da técnica de futebol.92
A partir de 1950, com o reconhecimento internacional, o futebol passou a ser objeto de
interesse econômico. O Brasil, que perdera a copa que havia sediado, sonhava em faturar
a taça pela primeira vez. Por aqui, portanto, o apelo também tinha muito de sonho, de
veneração. Em 1958 o Brasil dependia apenas de mais uma vitória, contra a seleção
anfitriã – a Suécia – para sagrar-se campeão. Não podia dar nada errado, era preciso
manter tudo como estava desde o começo, do toque de bola às camisas. Como as duas
equipes jogavam de amarelo, a seleção brasileira foi levada (por critérios técnicos) a
89
Ver nota 73, p. 42.
Mário Miranda Rosa foi um dos primeiros brasileiros que perceberam o baixo nível do futebol no país. Ele
tomou iniciativas no sentido de promover alguma evolução: sua preocupação não se limitava aos fatores do
campo de jogo, mas sim ao esporte como um todo. Seu livro “Um Ramo de arruda na chuteira do futebol
brasileiro... op, cit”, apresenta uma pesquisa feita nos anos 40. Foi a mais antiga obra a que tivemos acesso e
uma das únicas em que há a percepção da influência da religiosidade no futebol brasileiro. A pesquisa
limitou-se apenas ao aspecto da macumba no Sport Club Corinthians Paulista. O time, que ficou conhecido
naquela época no país por essa prática religiosa, faz parte do nosso objeto de pesquisa.
91
Ibid., pp. 15-16.
92
Ibid., pp. 23-27.
90
46
utilizar o uniforme reserva. Medo e frustração. As camisas brancas recordavam a
"maldita" final de 1950 e, portanto, haviam se convertido em tabu.93
No desespero, resolveram colocar o time em campo de camisetas azuis - só que a
delegação não dispunha das referidas peças de vestuário. A escolha da cor, que implicou
em uma correria pelas lojas de roupas da Suécia, foi determinada pelo chefe da
delegação, Paulo Machado de Carvalho, que havia trazido na mala uma imagem de
Nossa Senhora Aparecida (santa que, posteriormente, foi alçada à condição de padroeira
da seleção). Devoto e astuto, Carvalho deu a palavra final: “O Brasil jogará de azul. A cor
do manto de Nossa Senhora Aparecida”. Cobertos pelo “manto sagrado”, os jogadores
brasileiros não teriam nada a temer. Essa proteção divina, somada aos "esforços
espirituais" pessoais de alguns jogadores (como Zagalo, que carregava uma medalhinha
na meia) e à presença de "seres celestiais" (Pelé, o "deus do futebol"; Garrincha e Didi,
"anjos" etc.) parece ter sido, de fato, determinante: pela primeira vez, a taça do mundo era
nossa.94
A crença se manteve e, nas décadas seguintes, foram muitas as situações em que a
fé entrou em campo. Em se tratando de grupos de 20 a 30 pessoas (média de jogadores
por elenco de equipe), porém, vale observar que essa fé se manifestou de formas
diferentes. Em um país onde é possível ser católico e budista, evangélico e filho de santo,
muitas vezes o apelo é feito de forma indistinta, para todo agente de milagre - para
ganhar, toda ajuda é possível (nos casos mais radicais, talvez até a do próprio demônio...)
O sujeito, aqui, é, ao mesmo tempo e de uma só cajadada, católico, espírita, budista etc, etc.
Lembro de um amigo meu que conseguia ser marxista e macumbeiro. Ora, um povo aberto
para o sobrenatural não ia desesperar de Mané Garrincha.95
Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas”, foi um dos melhores jogadores de todos
os tempos. Muitos dizem, até, que seu futebol era maior que o do “Rei Pelé”. A história de
Garrincha não é muito diferente da de outros atletas, e facilita a montagem de um
93
Cf. CASTRO, R. Estrela solitária: um brasileiro chamado garrincha. 9ª ed. São Paulo: Companhia das
letras, 2002, 520 p., pp. 171-172.
94
Ibid.
95
MARQUES, J. O futebol em Nelson Rodrigues: O óbvio ululante, o Sobrenatural de Almeida e outros
temas, op. cit., p. 141.
47
interessante cenário. Mané foi um gênio, e, como costuma acontecer com os gênios,
também teve seus tormentos, materializados em lesões graves e em alcoolismo.
Em um de seus vários momentos de sofrimento - Garrincha se recuperava de uma
cirurgia no joelho - ele apelou a praticamente todo o arsenal divino que conhecia:
procurou pai-de-santo, trocou de pai-de-santo, procurou rezadeira, trocou de rezadeira...
Nessa busca, contou com a ajuda da mulher, da ex-mulher, de amigos, jornalistas e
pessoas próximas, que muitas vezes agiam sem o seu consentimento (ver anexo 4). Os
dirigentes do Botafogo (RJ) preferiam que os preparadores físicos do clube cuidassem de
sua recuperação. O tratamento chegou a começar, mas não havia continuidade; enquanto
isso, o apelo ao sobrenatural continuava. Na visita de um ex-presidente do Botafogo e
seu amigo, Carlito Rocha, houve um diálogo interessante:96
Carlito, muito alto, olhava para o céu como se quase pudesse tocá-lo e dizia para Garrincha:
“Você vai voltar a jogar, se Deus quiser! Repita comigo: Se Deus quiser!!!” E Garrincha,
obediente: “Se Deus quiser!!!”97
Dessa vez Mané voltou a jogar, mas, para infelicidade do futebol brasileiro, o milagre
não durou para sempre.98
O futebol brasileiro seguiu amparado pelas manifestações de religiosidade dos atletas
e da torcida. Em 1978, porém, um fato marcou essa trajetória: em Belo Horizonte, um
grupo de jogadores criou o movimento "Atletas de Cristo" - ADC (a entidade registrou
legalmente seu estatuto e regimento interno em Belo Horizonte no dia 22/02/84). O ADC
foi fundado pelo goleiro do Atlético-MG, João Leite - chamado pela imprensa desportiva
mineira de "goleiro de Deus" - a partir de um contato com o pastor (e ex-jogador de
basquete amador) Abrahão Soares. Os dois tinham a intenção de utilizar o esporte como
meio de evangelização de torcedores:
O movimento evangélico “Atletas de Cristo” é formado por atletas das mais diversas
modalidades esportivas, sobretudo por jogadores de futebol. Sua marca distintiva está no
96
Cf. CASTRO, R. Estrela solitária: um brasileiro chamado garrincha, op. cit., pp. 300-301.
Ibid., p. 301.
98
Garrincha morreu no dia 20 de janeiro de 1983 em decorrência de uma gastrite alcoólica hemorrágica e de
outras doenças resultantes do alcoolismo. Esse trágico desfecho de vida começou com sua debilitação dentro
de campo: jogador genial, foi transformado em peça imprescindível da equipe do Botafogo e, por conta disso,
acabou levado a jogar quando não reunia condições físicas.
97
48
fato de pertencerem
neopentecostais.99
a
igreja
evangélicas,
sejam
protestantes,
pentecostais
e
Apesar de ser uma associação em que
predominam os atletas evangélicos,100 o
ADC101 também alberga outros cristãos. O
movimento conta hoje com mais de 120
grupos que promovem encontros em que os
esportistas oram, compartilham experiências
e lêem a Bíblia. Alex Ribeiro, ex-corredor de
Fórmula 1 e diretor da organização há 18 anos, diz que “quem está bem com Deus está
bem consigo mesmo. Aqui, ensinamos que a alma do Pelé não é mais importante que a
do peladeiro”. Quem se torna um atleta de Cristo normalmente relata que precisou de
ajuda porque esteve “em baixa” e não conseguia suportar as pressões.102
O movimento Atletas de Cristo mostrou que a face catequética dos evangélicos havia
chegado ao futebol. Ainda assim, adeptos de outras religiões também mostraram sua fé.
Na Copa do Mundo de 1994, a imprensa americana desencadeou uma discussão que no
mínimo foi muito curiosa. As manchetes perguntavam: “Cristo ou Buda” – qual dos dois
vencerá a copa?”. As alusões eram ao melhor jogador da seleção italiana, Roberto
Baggio - budista declarado - e aos atletas de Cristo da seleção brasileira.103 Nessa
década (90), em que o futebol ia se tornando um negócio mais lucrativo e global, nossos
atletas, além de levarem seu futebol ao redor do mundo, levavam também suas crenças.
Para a copa de 1998, na França, os Atletas de Cristo envolveram 600 voluntários e um fundo
de 1 milhão de dólares para a realização de eventos, tais como: distribuição de folhetos,
Bíblias, exibição de vídeos em telões públicos com depoimentos de jogadores como Taffarel,
César Sampaio, Zinho, Jorginho, Cléber entre outros, técnicos e dirigentes como René
Simões (Técnico da seleção da Jamaica) e Alex Dias Ribeiro.104
Em 2002, antes, durante e mesmo depois da Copa, o mundo (ou, pelo menos, a
mídia) parece ter se dado conta - de forma radical - do elemento religioso no futebol. Não
99
NUNES, F. Atletas de Cristo..., op. cit., p. 9.
Ver mais informações no capítulo II e curiosidades nos anexos 5 e 6.
101
Imagem extraída do site oficial do Movimento. Disponível em: <http://www.atletasdecristo.org/> Acesso
em 15 de novembro de 2004.
102
Cf. SGARIONI, M. Sangue, suor e muita fé, op. cit., p. 47.
103
Ibid., p. 50.
104
NUNES, F. Atletas de Cristo..., op. cit., p. 55.
100
49
podemos deixar de citar casos noticiados como o da seleção da Arábia Saudita, que,
depois de perder por 8 x 0 para a seleção alemã, orou voltada para a Meca pedindo uma
vitória contra o time de Camarões (os desígnios de Alá, porém, são misteriosos: o time
perdeu por 1 x 0).
Outro caso interessante - e, infelizmente, mais próximo dos atuais tempos de
intolerância religiosa - foi o do jogador católico norte-irlandês Neil Lennon, que decidiu
não mais atuar em seu país depois de ser ameaçado por um grupo paramilitar
protestante.
No Brasil também há divergências internas de crença nas equipes. Isso, porém, não
parece ser motivo de grande preocupação - desde que, é lógico, esse "sincretismo" não
implique em derrotas. Em nosso modo de entender, os problemas relacionados ao grupo
podem acontecer a partir da composição de três posturas possíveis dos envolvidos:
simpatia, indiferença e oposição. Nessa composição, se não houver uma mediação por
parte da comissão técnica, o ambiente de trabalho se torna tenso e todo o investimento
de uma temporada pode acabar em nada.
Do mesmo modo que há diferentes posturas entre os atletas, existem também
diferentes posturas entre os técnicos. Para ilustrar vamos citar três exemplos: Felipão,
Cassiá e Vanderlei Luxemburgo.
Luiz Felipe Scolari sempre manifestou publicamente a sua fé. Devoto de Nossa
Senhora de Caravaggio, recorre também a Santo Antonio para encontrar forças nas horas
difíceis.105 Católico fervoroso, sempre diz que vai a igreja para agradecer, e não para
pedir, tendo a seguinte opinião: “Temos os evangélicos no nosso grupo; eles se reúnem
sempre, porque os católicos não fazem o mesmo?”106
Cassiá, ex-técnico do Grêmio de Porto Alegre, garante que foi demitido a pedido dos
Atletas de Cristo. Em sua opinião, os Atletas de Cristo são corporativistas, personalistas e
não vêem o grupo como um todo. Ele lembra que “No Grêmio, o ônibus, que levava os
jogadores para os jogos tinha dois andares. Os Atletas de Cristo ficavam no andar de
105
Cf. OGLIARI, E. Não importa o resultado, Felipão vai agradecer. O Estado de São Paulo, 30 de junho de
2002, E1.
106
SCOLARI vai à igreja para rezar e não para pedir. O Estado de São Paulo, 27 de junho de 2002, E3.
50
cima e o restante do elenco, na parte de baixo”. Ele também diz que muitos treinadores
convivem por necessidade com os Atletas de Cristo, mas não os suportam e não têm
coragem de tocar no assunto publicamente.107
Em 2002 Vanderlei Luxemburgo era aconselhado por Robério de Ogum, e, sempre
que possível, levava o médium para as concentrações para conversar e dar palestras
para o elenco. Robério de Ogum é o mesmo médium que, em 1993, aconselhava o grupo
e o técnico quando a equipe do Palmeiras conquistou o campeonato paulista depois de
16 anos de “jejum”. O título foi um dos primeiros de grande importância na carreira de
Luxemburgo.
Mesmo na era dos atletas globalizados, quando laptops fazem parte da bagagem da
maioria dos "guerreiros", a Bíblia continua sendo a maior companheira nas horas difíceis,
competições e nas questões mais pessoais. Ela é lida por católicos e por evangélicos,
mas, independentemente da crença, todos a lêem para controlar a ansiedade, se motivar
e se tranqüilizar.108
De acordo com o sociólogo Flavio Pierucci, da USP, todas as vezes que o ser humano se vê
em uma situação que não controla - como é freqüente na maioria das competições
esportivas – é comum que ele utilize de ritos e apele para uma força superior à dele.109
Ronaldo, "o Fenômeno", atleta global por excelência, é o maior exemplo recente da
"busca atlética pelas coisas divinas" no futebol. Mesmo sendo rico, brilhando na mídia,
saindo com mulheres lindas e freqüentando os lugares da moda, também passou por um
"calvário", no caso, o do próprio corpo. Para disputar a copa do mundo de 2002 e jogar no
Real Madrid, Ronaldo teve que vencer lesões e um inferno de cirurgias. Ele fez do futebol
um exemplo de fé e de perseverança, contando, para a sua recuperação, com os maiores
avanços tecnológicos existentes e, é claro, com uma dose excepcional de fé. Desde o
momento da lesão, que era grave, até sua volta aos gramados, sempre acreditou e “para
enfrentar o que viria pela frente, reforçou suas armas com a fé, indo pedir proteção a
Nossa Senhora Aparecida”.110
107
Cf. NUNES, F. Atletas de Cristo..., op. cit., p. 112.
Cf. BARSETTI, S. & VILARON, W. Bíblia, campeã de leitura na seleção. O Estado de São Paulo, 21 de
junho de 2002, E2.
109
Cf. SGARIONI, M. Sangue, suor e muita fé, op. cit., p. 51.
110
CALDEIRA, J. Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado. 1ª ed. São Paulo: Lance!/editora 34, 2002,
352 p., p. 306.
108
51
O atacante visitou ontem a basílica de Aparecida, na divisa dos Estados do Rio e São Paulo,
a fim de buscar conforto espiritual quatro dias antes do embarque para Barcelona, local de
início da preparação da seleção para a disputa da copa do mundo.111
O desgaste por causa da longa jornada com a seleção brasileira não vai impedir Ronaldo de
fazer uma visita especial à Basílica de Nossa Senhora Aparecida ainda esta semana. Vai
cumprir a promessa feita um mês antes da copa do mundo, quando esteve em Aparecida
com a mãe, Sônia Nazário. “Meu filho pediu força para disputar a copa e agradeceu por sua
recuperação. Merecia tudo isso”. (...) Segundo Sônia, Ronaldo retornará logo à Basílica. “Ele
prometeu um agradecimento especial a Nossa Senhora de Aparecida se ganhasse o título”,
disse ela, que vai acompanhá-lo ao templo católico.112
Artilheiro do mundial visita a Basílica da santa e agradece recuperação do joelho (...)
Ronaldo mostrou ontem ser bom pagador de promessas. Um mês depois da conquista do
pentacampeonato mundial, o artilheiro da seleção fez questão de reafirmar a fé na visita à
Basílica e agradecer à santa pela recuperação do joelho e pela excelente participação do
torneio. O craque que havia ido ao santuário em maio, antes da copa na Ásia.113
Será que existe futebol sem manifestações de religiosidade neste país? Pelo que
presenciamos no dia-a-dia, a resposta é clara: sem o fervor religioso não há jogo.
Interessante também é citar a corriqueira utilização de nomenclaturas religiosas no
ambiente do futebol – pelo menos, quando se fala de Brasil. Percebemos isto claramente:
templos são estádios; fiéis são torcedores; dízimos, os ingressos; cânticos, os hinos e
"bordões". E, os símbolos da fé, em vez de solidéus e crucifixos, são camisetas,
bandeiras, bonés e chaveiros. Os adeptos ficam irados somente em pensar em vestir as
camisas dos infiéis. “Vitórias do passado, milagres e injustas perseguições dos árbitros
são lembradas em um ritual cujo objetivo é espantar a incerteza e a dúvida, os grandes
inimigos de qualquer religião”.114
Existem também os patriarcas, fundadores, profetas, mártires, missionários e anjos
vingadores. Sem falar do messias que é o símbolo da vitória do bem contra o mal. “O pior
é que da mesma forma que a religião, o futebol tem no seu passado um rastro de guerras,
ódios, brutalidades, agressões injustificadas e intolerâncias”.115 Podem existir mais pontos
em comum, mas no futebol e na religião precisamos cultivar a ética e respeitar todos os
adeptos e seus pontos de vista. Sabemos que a vida do homem é dramática e, diante
dessa realidade, por mais que os atletas de nossa nação brilham nos campos e pareçam
111
BARSETTI, S. Em Aparecida Ronaldo pede conforto espiritual, mas não escapa do assédio. O Estado de
São Paulo, 10 de maio de 2002, E3.
112
BARSETTI, S. & VILARON, W. Artilheiro vai a Aparecida agradecer pela força. O Estado de São Paulo,
03 de julho de 2002, E2.
113
RONALDO paga promessa em aparecida. O Estado de São Paulo, 30 de julho de 2002, E4.
114
TORERO, J. Fé demais. Folha de São Paulo, 05 de setembro de 2003, D3.
115
Ibid.
52
distantes, como nós, buscam na fé o conforto para suportar a pressão de mundo cada vez
mais em desequilíbrio, com uma diferença: Eles precisam ser mais fortes que os mortais.
A revista “Mondial”, há alguns anos, não hesitava em afirmar: “Se Jesus tivesse jogado
futebol, ter-se-ia, chamado Keegan”. Se autor falasse a nossa língua teria talvez preferido
escrever: “Se Jesus fosse português ele teria jogado futebol e seu nome seria Eusébio”.116
No Brasil, a frase poderia ficar melhor assim: “Se Jesus fosse brasileiro, ele teria
jogado futebol e seu nome seria Pelé”.
O futebol é, atualmente, a modalidade desportiva mais assistida na TV tupiniquim:
“83% dos brasileiros preferem futebol na TV a qualquer outro esporte”.117 Percebemos,
também, a quantidade de líderes religiosos presentes em emissoras de televisão e rádio,
com programas que atingem grande público. Se a TV "hipnotiza", esse efeito é
multiplicado muitas vezes quando a figura na telinha é um pastor ou um centroavante.
Não há que negar a diversidade de hábitos dos telespectadores de acordo com sua renda
familiar - ainda assim, podemos afirmar que a tradição local, de vincular sempre futebol e
religião, perpassa toda a sociedade.
1.4 – Da “várzea” à “elite”: O futebol em São Paulo
No começo do século passado, como já vimos, o futebol era praticado tanto pela elite
econômica quanto pelas camadas populares da sociedade, mas não em conjunto. O
poder econômico cindiu o universo futebolístico de São Paulo em dois grandes grupos de
praticantes: para os primeiros jornalistas esportivos, assim como os primeiros dirigentes,
havia o “grande futebol” - representado por uma "elite" digna do reconhecimento oficial - e
o “pequeno futebol”, popular, discriminado por ser tido como "bruto" e incapaz de se
enquadrar nas regras do esporte.
Com o crescimento populacional e o acelerado desenvolvimento industrial houve uma
expansão da pobreza, sobretudo por conta dos baixos salários. O futebol popular era
considerado uma manifestação indesejável, reprimida pelas autoridades e rejeitada por
116
COSTA, A. À. Volta do Estádio: o homem, o desporto e a sociedade, op. cit., p. 25.
JIMENEZ, K. Estudo revela os gostos de cada povo diante da TV. O Estado de São Paulo, 04 de abril de
2004, T4.
117
53
quem não queria ver a bola tocada pelos pés sem chuteiras de operários, ambulantes,
negros e estudantes pobres.118
Os times "populares" do início de 1900 eram formados principalmente por
trabalhadores que chegavam da Europa para trabalhar nas indústrias e nas ferrovias. No
mesmo período, São Paulo também contava com equipes formadas por jovens afrodescendentes ligados principalmente ao trabalho doméstico e ao comércio ambulante para essas pessoas, foi uma época de transição da escravatura para o trabalho
remunerado.119
O jogo brasileiro é como se fosse uma dança. Isto pela influência, certamente, dos
brasileiros de sangue africano, ou que são marcadamente africanos em sua cultura: eles são
os que tendem a reduzir tudo a dança – trabalho ou jogo.120
A maior colônia de imigrantes europeus era a dos italianos, que, em sua maioria, se
fixou nos bairros do Bom Retiro, Brás, Belém, Bexiga e Barra Funda. O futebol tornara-se
popular em várias áreas da cidade: era jogado às margens dos rios Tamanduateí e Tietê,
em campos criados por ingleses, alemães e italianos. Os cinco primeiros times de futebol
da elite paulistana foram o São Paulo Athletic Club, Associação Atlética Mackenzie
College, Sport Club Germania, Sport Club Internacional e Clube Atlético Paulistano.121
Apesar das diferenças sociais, clubes elitistas e os populares acabavam jogando nos
mesmos gramados. Para evitar essa "indesejável" convivência, o Clube Paulistano e a
prefeitura de São Paulo construíram um campo de futebol no lugar do Velódromo da
cidade. Algumas equipes também jogavam na Mooca, no Cambuci e na chamada "várzea
do Carmo". Os times que jogavam no Carmo, inclusive, passaram a ser chamados de
"varzeanos" por conta do terreno em que disputavam as partidas. A partir de então, o
termo passou a simbolizar todo e qualquer time ou jogador brasileiro de má qualidade. Já
o problema com o "campo pesado" foi resolvido pela prefeitura de São Paulo, que fez
obras no local entre 1910 e 1911.122
118
Cf. NETO, J. Visão de jogo: primórdios do futebol no Brasil, op. cit., p. 60.
Ibid., p. 48.
120
GOMES, I.M. Deus no céu e o negro na terra: a visão de Gilberto Freyre sobre o futebol brasileiro. João
Pessoa, n.2, novembro de 2000, 10 p., p 2. Artigo disponível em: <http://www.cchla.br/caos/02-gomes.html>
Acesso em 07 de outubro de 2003.
121
Cf. NETO, J. Visão de jogo: primórdios do futebol no Brasil, op. cit., pp. 39-49.
122
Ibid., p. 49.
119
54
O gosto pelo futebol tomava conta da "locomotiva do Brasil". Equipes e campos de
futebol não paravam de surgir, até fora da capital: “Mesmo em cidades pequenas já
apareciam os times de futebol. A título de exemplo, podemos citar o Esporte Clube
Estrela, da cidade de Piquete (SP), criado em 14 de dezembro de 1914”.123
Com o tempo surgiram propostas para a criação de ligas em que só participariam
equipes da elite. Essas equipes disputavam partidas em nível regional e participavam de
confraternizações com os dirigentes. Estava institucionalizada a cisão entre "pobres" e
"ricos" no futebol paulista, que só viria a cair com o aumento da competitividade das
equipes "varzeanas". Essa evolução implicou em mudanças importantes: enquanto os
times populares passaram a fazer parte das ligas, as equipes da elite as deixavam.124
A primeira entidade organizadora do futebol paulista foi a Liga Paulista de Futebol
(LPF), criada em 13 de dezembro de 1901 e responsável pelo primeiro campeonato
estadual, realizado em 1902. Atualmente, o comando do futebol no Estado está a cargo
da Federação Paulista de Futebol, fundada em 11 de fevereiro de 1935. Em mais de cem
anos de realização, o campeonato paulista registrou temporadas sublimes e medíocres.
Essas flutuações foram motivadas por fatores como a atuação dos dirigentes,
organização dos campeonatos, emocionalidade das torcidas e até pela mídia desportiva.
Mesmo nos piores momentos, porém, os atletas mantiveram o prestígio junto ao "povão".
A institucionalização contribuiu para o crescimento do esporte. A partir de certa altura
do séc. XX, os municípios começaram a incluir os campos de futebol em sua relação de
"estruturas necessárias" (as outras eram as igrejas e os cemitérios).125 Aumentou o
número de equipes - criadas com apoio oficial ou de entidades particulares - e, por
conseqüência, nasceram competições amadoras, vistas como "escada" para participação
no campeonato estadual organizado pela Federação. Outra conseqüência foi a
profissionalização, que implicou em afastamento das elites "civilizadoras" e no ingresso
de negociantes e políticos na gestão do futebol. Com o profissionalismo, o futebol
penetrou ainda mais nas culturas urbana e industrial. A bola havia se convertido, também,
em meio de ascensão social.
123
CAMPOS, R. Futebol: identidade nacional e uso político, op. cit., p. 35.
Cf. NETO, J. Visão de jogo: primórdios do futebol no Brasil, op. cit., pp. 65-67.
125
Cf. CAMPOS, R. Futebol: identidade nacional e uso político, op. cit., p. 37.
124
55
Digamos que a massificação se confundiu com a profissionalização do futebol. Para muitos
ela simboliza a institucionalização de um espaço democrático: este jogo inventado para
divertir e disciplinar transformou-se, em especial no Brasil, no primeiro professor da
democracia e da igualdade.126
Um fato marcante foi a criação da "Lei de Acesso", em 1948, que fez com que o
futebol do interior se estruturasse melhor e que pudesse competir com os clubes grandes,
em sua maioria da capital.127 “Clubes grandes” são definidos como aqueles que possuem
grandes torcidas, títulos, boa estrutura física, bom elenco e, principalmente, tradição. Não
basta contar com um desses elementos e não se manter em evidência - o melhor
exemplo disso é a equipe do Bragantino, de Bragança Paulista. O time, que figurou entre
os principais do país no início dos anos 90 e conquistou até um título paulista (1990), foi,
até 2004, uma equipe em aparente declínio, disputando a divisão de acesso do
campeonato paulista, mas em 2005 conseguiu voltar à divisão principal.
Uma receita de sucesso no futebol é a da "dupla boa administração": ser bem
administrado dentro e fora de campo é fundamental para chegar a bons resultados - essa
combinação é necessária para as pequenas equipes interessadas em figurar entre os
“grandes”. Em São Paulo a receita é adotada por várias equipes, que tornam o
campeonato estadual um dos mais difíceis do Brasil. Ainda assim, “a ausência de um time
grande na disputa pelo título é fato raro na centenária competição estadual.”128
Independente das finais, porém, os “caipiras” sempre complicam a vida dos “grandes” e
não deixam o futebol perder nem o encanto, nem o apelo econômico.
1.4.1 – O futebol paulista contemporâneo
É difícil descrever o cenário do futebol paulista contemporâneo sem fazer referência
aos clubes que se destacaram em competições e que, por vários fatores, desapareceram.
Um bom exemplo é a equipe do Novorizontino, de Novo Horizonte, que no de 1990
chegou à final do campeonato paulista fazendo a final “caipira” contra o Bragantino. O
time, que perdeu a taça, não existe mais. As equipes do A.C. Ipiranga, o S.P.R. (que se
transformou no Nacional A.C.), a A.A. Portuguesa Santista, o Clube Atlético Juventus e o
126
PIMENTA, C.A.M. Torcidas organizadas de futebol: violência e auto afirmação – aspectos da construção
das novas relações sociais. 1ª ed. São Paulo: Vogal, 1997, 160 p., p. 43.
127
Cf. TIMES pequenos chegaram à final apenas uma vez. O Estado de São Paulo, 11 de abril de 2004, E1.
128
Ibid.
56
Jabaquara (da baixada santista) são equipes que colaboraram muito com o
desenvolvimento do futebol de São Paulo e que, hoje, estão quase esquecidas. Elas não
perderam sua importância, mas apenas disputam divisões inferiores ou completam a 1ª
divisão.129
Em 1933 o profissionalismo foi implantado definitivamente em São Paulo, o que
garantiu trabalho remunerado e com gratificação legalizadas a todos os seus
participantes, independente da origem social. Anteriormente existia o “amadorismo
marrom”, em que os jogadores recebiam determinadas importâncias em dinheiro,
produtos e bens. Bastava, para tanto, ter habilidade no jogo com bola.130
Outro marco foi a criação da chamada "Lei de Acesso", em 1948.131 Até então valia
um princípio de "inamovibilidade" entre os clubes, que nunca eram rebaixados. Isso
implicava, principalmente, em campeonatos muito semelhantes e na concentração de
títulos nas mãos das grandes equipes - Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos132 (e
também Portuguesa de Desportos, que ganhou espaço aos poucos).133 Com a nova
regra, os clubes do interior foram redimidos, deixando a condição de fornecedores de
atletas e assumindo a de verdadeiros competidores. A Ponte Preta e o Guarani, ambos da
cidade da Campinas, e o Paulista de Jundiaí (vice-campeão paulista de 2004 e campeão
da Copa do Brasil de 2005), são exemplos de equipes que aproveitaram a oportunidade
da Lei do Acesso. Outras equipes, como o XV de Piracicaba e o União São João de
Araras – primeiro clube-empresa do país -, tiveram participações importantes na 1ª
divisão, mas, em função de problemas com maus resultados, se alternam no campeonato
principal, fazendo boas e más campanhas.134
129
Cf. FEDERAÇÃO Paulista de Futebol. A história contemporânea do futebol paulista. Disponível em:
<http://www.fpf.org.br/novo_site/web/historico.asp> Acesso em 05 de outubro de 2003.
130
Cf. CORREA, R.C.P.B. O Direito do trabalho e o jogador profissional de futebol no Brasil. PUC-SP,
2002, 151 p., p. 40-42. (dissertação de mestrado)
131
Ver nota 127, p. 56.
132
Clubes que fazem parte do nosso objeto de estudo e que serão trabalhadas com mais detalhes a partir do
segundo capítulo, juntamente com a equipe do São Caetano.
133
A Portuguesa ganhou apenas um tÍtulo, em 1973, que foi dividido com o Santos. O árbitro da final,
Armando Marques, se perdeu na contagem da disputa dos penais e, por esse motivo, o campeonato paulista
foi dividido. Cf., FEDERAÇÃO Paulista de Futebol. A história contemporânea do futebol paulista.
Disponível em: <http://www.fpf.org.br/novo_site/web/historico.asp> Acesso em 05 de outubro de 2003.
134
Ibid.
57
Nos dias atuais poucos torcedores recordam ou sabem da importância de equipes
como a do Ipiranga; sem elas, porém, o futebol paulista não seria o que é. Times como
esse tornaram mais competitivo e levaram entusiasmo ao "campeonato bandeirante".
Em São Paulo (como em muitos lugares do Brasil e do mundo), foi nos anos 90 que o
futebol “saiu de campo” e adentrou de forma mais explícita em áreas como as do Direito,
Marketing e Economia. O esporte passou a ser uma das maiores fontes de renda direta
de cartolas e um excepcional veículo de divulgação de produtos e marcas. Esse processo
foi coroado pela criação dos "clubes-empresa".
Trouxe o art. 27 da “Lei Pelé” uma das mais importantes e polêmicas inovações ao direito
esportivo. Impôs uma formatação jurídica às entidades que queiram explorar as atividades
esportivas. Assim, somente as sociedades civis de fins econômicos, as sociedades
comerciais e entidades de prática desportivas que constituírem sociedade comercial estarão
juridicamente autorizadas a competir. Com essa exigência legal, buscou o legislador dar
transparência comercial às entidades desportivas, de modo a possibilitar a prestação de
contas à sociedade135.
A grande referência de uma parceria clube-empresa no Brasil é a do grupo
empresarial Parmalat com o Palmeiras, que durou por toda a década de 90. No começo, o
casamento rendeu bons frutos - o Palmeiras ganhou títulos que não ganhava há muito
tempo - mas, com o fim da parceria, o clube voltou a uma política de "pés no chão”. Outra
parceria, entre o Corinthians e a empresa norte-americana Hicks, Muse, Tate & Furst,
também teve sucesso, apesar de um conturbado "divórcio".
O futebol brasileiro contemporâneo não ficou alheio à mercantilização e à globalização
tecnológica. Já não é a renda dos jogos que move a equipe e garante a folha de
pagamento, mas o marketing do clube que virou empresa. Nesse cenário o torcedor não é
apenas o amante de uma equipe, mas o cliente de uma empresa que oferece produtos
como cartões de crédito, roupas, CDs, brinquedos etc. O patrocínio, por sua vez, assume
espaço na camisa do clube e acaba "carregado no peito" por todo torcedor
uniformizado.136
135
MACHADO, D.M. O atleta profissional de futebol no Brasil... , op. cit., pp. 25-26.
Cf. ANJOS, J.L. O tradicional e moderno: faces da cultura popular do futebol brasileiro. PUC-SP, 2003,
236p., pp. 89-90. (tese de doutorado)
136
58
A transformação dos clubes em empresas, contudo, é uma realidade difícil de se concretizar.
Há resistência natural, ante a estrutura conservadora dos clubes e falta de consciência dos
dirigentes na implantação e aceitação de um novo modelo137.
No começo do século XXI, a realidade do futebol paulista – e do Brasil – começou a
mudar a partir do estabelecimento de uma “política de pés no chão”. A disparidade
econômica entre os países ricos e o Brasil continuou produzindo uma "fuga das
chuteiras"; ainda assim, os investimentos locais continuam, mas em patamares menos
inflacionados e mais realistas. Ainda há salários muito altos, mas em menor proporção.
Os clubes negociam dívidas e aumentam sua presença no Tribunal de Justiça Desportiva
(TJD) - sinal de que o “tapetão” se tornou um campo tão importante quanto aquele onde
rola a bola.
Dentre os novos lineamentos da política de "pés no chão" está a crença no valor das
categorias de base, da "prata da casa", construída com poucos recursos e capaz de gerar
grandes resultados. O cenário econômico brasileiro é inclemente e a "política de pés no
chão" não salvou todas as equipes. Um dos poucos exemplos de times paulistas bem
sucedidos em relação à gestão é o São Caetano (campeão paulista de 2004). A equipe
chegou à elite do futebol brasileiro em 2000 e, desde então, é uma das agremiações mais
estáveis do futebol brasileiro. Em todo campeonato chega entre os primeiros colocados e,
quando vende um jogador, costuma substituí-lo por outro do mesmo nível.
1.4.2 – A “18ª regra” do futebol: Religião
Um ditado popular brasileiro prega que não se deve discutir religião, futebol e política.
Apesar da lição de sabedoria, os debates sobre esses temas, comuns em momentos
como jogos importantes, eleições ou encontros religiosos, seguem produzindo malentendidos e até - quando os participantes são fanáticos - conseqüências mais sérias.
São Paulo é a maior potência econômica do Brasil. Essa condição faz com que o
Estado seja um pólo natural de atração de indivíduos de todo o país e até do Exterior. São
pessoas de todas as classes sociais que mantém sua fé e que, por conta disso, fazem
com que futebol e religião permaneçam vivos e dotados de uma dinâmica impressionante.
O mais interessante é que, nesse cadinho social, futebol e religião caminham de mãos
137
Ibid.
59
dadas. A combinação desses dois "titãs" com a mídia resulta em sucesso absoluto de
marketing religioso, que pode ser entendido como a oferta de uma proposta religiosa para
um público receptivo e consumidor de bens simbólicos, sejam eles sagrados ou
profanos.138
Como podemos perceber, esporte e religião se cruzam na paróquia do bairro e até na
Praça de São Pedro. A mais famosa frase que relaciona futebol e religião no Brasil,
atribuída a Antonio Franco de Oliveira (Neném Prancha), é “Se macumba ganhasse jogo,
o campeonato baiano terminaria sempre empatado”.139
Em São Paulo, no final do séc. XIX, os sacerdotes incentivavam seus alunos à prática
do futebol. No séc. XX, apesar da "secularização da pelota", a presença cristã seguiu
firme, podendo ser vista em nomes de equipes (São Paulo, São Caetano, São José e
Santos, entre outros) e até em referências a estádios (como "Alto da Glória", do Coritiba
Football Club, e "Caldeirão do Diabo", nome pelo qual foi conhecida, por muitos anos, a
atual "Arena" do Atlético-PR). A influência chegou até a esfera privada: na terra do
samba, a maioria das crianças é batizada segundo os ditames cristãos e, de quebra,
ganha um "time do coração" - que, diga-se de passagem, não precisa ser o mesmo de
seus pais, mas de alguém que influencie fortemente o "projeto de torcedor".
Uma vez escolhido, o time passa a fazer parte do cotidiano do indivíduo e interfere até
em seus relacionamentos. Poderíamos perguntar, por exemplo, se um corintiano
"fundamentalista" conseguiria namorar uma palmeirense sem tentar "convertê-la". E um
herdeiro do casal, para que time torceria? É uma questão de honra sustentar a “fé” em um
Deus e em uma equipe; uma vez atribuídos pela cultura, esses valores dificilmente serão
substituídos.
Os exemplos da imbricação entre valores religiosos e futebolísticos são vários: um
significativo é o de fiéis torcedores que regularmente se dirigirem em romaria à cidade de
Aparecida em visita ao santuário de Nossa Senhora Aparecida (padroeira do Brasil),
agradecendo e pedindo graças pelos fatos ocorridos em suas vidas. Um dos grupos mais
138
NUNES, F.C. Atletas de Cristo..., op. cit., p. 9.
Torcedor incondicional do botafogo, Neném Prancha é considerado um dos maiores frasistas do futebol
brasileiro. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/esporte_17jan1976.htm> Acesso
em 17 de abril de 2004.
139
60
conhecidos de atletas religiosos é o dos Atletas de Cristo. Em 1985, ano da criação do
primeiro grupo em São Paulo, o Movimento começou a publicar um jornal mensal.
Produzido inicialmente de forma artesanal, em folhas de papel sulfite, o jornal chegou a
ter 35 mil exemplares rodados em uma única edição de 1999.140
O advento, nos clubes, de diversos tipos de marketing - como o político, social,
pessoal e administrativo - é comum. O Atlético de Sorocaba, do interior de São Paulo,
inaugurou um marketing diferente no futebol paulista. Em 2000, quando disputava a série
A3 (em 2004, disputou a primeira divisão e, em 2005, caiu para a “segundona”
novamente), o clube passou a ser administrado pela Associação das Famílias para a
Unificação e a Paz Mundial, entidade fundada e dirigida por Sun Miyung Moon, mais
conhecido como Reverendo Moon.141
Enquanto os evangélicos descobriram que a TV e o rádio poderiam funcionar como grandes
difusores de suas idéias e conceitos – seguido posteriormente pelos católicos, ainda que de
forma mais discreta -, os unificalistas (sem rotulação religiosa) vislumbram no futebol uma
maneira interessante de propagação.142
Propaganda, projeto de disseminação da filosofia e aumento do número de adeptos
são temas cuja análise requer cuidados. O futebol, na condição de modalidade esportiva
mais popular e difundida no mundo, é encarado como forma segura e eficaz de
divulgação – o Atlético de Sorocaba é a sexta equipe a levar a marca do Reverendo
estampada em suas camisas: são dois times na Coréia, um no Japão, um nos Estados
Unidos e dois no Brasil (a outra equipe brasileira é a do Cene, de Jardim, no Mato Grosso
do Sul).143 As pessoas responsáveis pela administração da equipe de Sorocaba
propagam valores "saudáveis", como saúde e bem-estar coletivo. O vice-presidente do
Atlético, Waldir Cipriani, diz que a preocupação não é com o marketing religioso, mas com
a família (como "centro") e Deus ("acima de tudo").144
140
Foi a edição de nº 175, de dezembro de 1999. Cf., NUNES, F. Atletas de Cristo: aproximações entre
futebol e religião, op. cit., p. 24.
141
Cf. VILARON, V. Clube inaugura marketing religioso. O Estado de São Paulo, 01 de fevereiro de 2004,
E6.
142
Ibid.
143
Cf. UM time com a marca do reverendo Moon. Superinteressante - Religiões: o mundo da fé, São Paulo,
v.1, n.7, março de 2004, 66 p., p. 7.
144
Cf. VILARON, V. Clube inaugura marketing religioso, op. cit.
61
Os atletas e funcionários do Atlético são livres para seguir qualquer religião, mas seus
dirigentes demonstram características idênticas às de pregadores fervorosos de outras
religiões. Os administradores têm um projeto de montar um dos maiores complexos
esportivos do país e, em 2007 ou 2009, realizar a Copa da Paz no Brasil (o torneio foi
disputado em 2003 na Coréia). Moon planeja, ainda, administrar mais 12 clubes ao redor
do mundo. O dinheiro não seria problema, pois a associação, criada na Coréia do Sul em
1954 e hoje presente em mais de 200 países, está entre os 50 maiores complexos
empresariais do mundo.145
O São Bento, a mais tradicional equipe de Sorocaba, disputou a divisão de acesso do
campeonato de 2004, conseguindo voltar à 1ª divisão em 2005146 e, com o crescimento
do seu maior rival, começa a se mexer. Um cartola do clube até brinca: “Bem que o Edir
Macedo – líder da Igreja Universal – poderia fazer o mesmo aqui”. O bom-humor, porém,
não é regra: o presidente do São Bento diz que utilizar o futebol para difundir princípios
religiosos não é uma boa idéia. Para ele, futebol não tem religião. Já o representante da
Igreja Católica da cidade, o padre Tadeu Rocha Moraes, diz que não encara a presença
do revendo Moon como ameaça e também não tem receio de perder fiéis. Ele diz que é
preciso entender que, embora essa denominação "marketing religioso" possa ser nova,
sua síntese já existe há muito tempo. O padre também diz que não consegue ver a Igreja
se envolvendo com futebol e que a preocupação dos católicos está na qualidade e não na
quantidade dos fiéis.147
As equipes do reverendo Moon não estão sozinhas no país. A Igreja Universal do Reino de
Deus fundou, no fim da década de 90, o Universal Futebol Clube, que disputa a terceira
divisão do campeonato carioca. Aos fãs do futebol, resta saber se no futuro as partidas serão
disputadas em estádios ou templos.148
Várias crenças têm usado o esporte, as artes e a música para difundir sua mensagem.
O futebol, especificamente, tornou-se um eficiente canal de propagação religiosa,
principalmente entre o público jovem. Essa afirmação, do sociólogo da Universidade de
São Paulo (USP), André Ricardo de Souza,149 contradiz a afirmação do padre Tadeu
145
Ibid.
Durante o campeonato, o ex-cardeal alemão Joseph Ratzinger – Bento XVI -, assumiu o papado. Não
faltaram aproximações do título Bento XVI, com a equipe do São Bento. Ver anexo 7.
147
Cf. VILARON, V. Clube inaugura marketing religioso, op. cit.
148
UM time com a marca do reverendo Moon, op. cit.
149
Ibid.
146
62
Rocha Moraes. Por essa tese, em pouco tempo teremos equipes patrocinadas pelo
Vaticano. Resta saber o que estará escrito na camisa.
Não se pode negar ao padre de Sorocaba, porém, razão em uma coisa: como ele
observou, a denominação "marketing religioso" é nova, mas a síntese já existe há muito
tempo. Basta lembrarmos de toda trajetória que fizemos do futebol ao redor do mundo até
chegar em São Paulo. A novidade é que, ao invés de estar impressa na camisa "pessoal"
do atleta - aquela, que ele usa sob a camisa oficial da equipe - a mensagem religiosa já
faz parte do uniforme número um, com o apelo religioso estampado no escudo do clube –
isto, se muitas equipes já não forem o foco das manifestações de religiosidade de
diversos adeptos.
1.5 - Conclusões ao capítulo
Nos propusemos abordar, neste capítulo, princípios que nos levam a refletir sobre a
entrada das manifestações de religiosidade no futebol. O campeonato de São Paulo é a
maior vitrine do futebol brasileiro, e essas manifestações são mais percebidas nesse
Estado. Diante deste aspecto, o próximo capitulo tratará da situação específica de 5
equipes paulistas (Corinthians, Santos, Palmeiras, São Paulo e São Caetano). Equipes
que figuram não só no cenário paulista, mas também brasileiro e mundial - elas e seus
atletas estão mais expostos em toda sociedade, o que facilita melhor o entendimento do
fenômeno “manifestações de religiosidade no futebol”, preenchendo também algumas
lacunas que não foram abordadas até agora, por exemplo, o porque dos Atletas de Cristo
terem maior evidência na mídia.
63
2 - A RELIGIÃO EM CINCO EQUIPES DE FUTEBOL DE SÃO PAULO
“Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa,
Que a magnética agradecida assim cantava (...)”.
(“Fio Maravilha”, Jorge Ben Jor)
2.1 – Considerações preliminares
Este capítulo, como o anterior, foi dividido em três blocos. No primeiro, mostraremos
que o esporte possui uma lógica própria e que os fenômenos a ele associados dependem
da sociedade em que está inserido, mas que o “ator” principal ainda é o Homem.
Destacaremos, também, a atual situação do esporte, compreendendo suas dimensões e
aproximando-o do no nosso objeto de estudo.
No segundo bloco evidenciaremos nosso objeto de estudo, indicando o universo das
equipes participantes de nossa pesquisa. Nessa parte do trabalho também será inserido o
perfil das equipes, bem como um breve histórico de cada uma.
No terceiro bloco entrarão em questão as manifestações de religiosidade das equipes
supracitadas. O cenário mostra as diversas situações em que presenciamos as
manifestações, o sincretismo150 existente no ambiente do futebol e o discurso de atletas e
técnicos de várias gerações. O foco inicial é dado no discurso religioso utilizado pela
mídia e a influência que as autoridades religiosas “exercem” sobre o futebol.
2.2 – Lógica e valores
As
características
políticas
e
econômicas
de
uma
sociedade
são
fatores
determinantes no meio esportivo, não sendo possível a compreensão das manifestações
esportivas buscando apenas o entendimento da sociedade em que estas se inserem. Os
fenômenos esportivos têm suas próprias leis de evolução, crises e cronologia
específica.151
150
Nosso conceito de sincretismo é o mesmo enunciado por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira: “a fusão de
elementos culturais diferentes, ou até antagônicos, em um só elemento, continuando perceptíveis alguns sinais
originários”.
151
Cf. MACHADO, A. Psicologia do esporte: temas emergentes. 1ªed. Jundiaí: Ápice, 1997, 194 p., p. 24.
64
Acreditamos que as questões sociais são decisivas para o meio esportivo, mas que
também existe uma lógica própria e que se forme um contexto próprio, mesmo um autogerenciamento dos fatos – o estabelecimento de regras e mesmo a autonomia para a
tomada de medidas disciplinadoras por meio de seus tribunais esportivos, entidades que
possuem autonomia, mas que, nem sempre, são respeitadas.152
O esporte apareceu de fato quando seus objetivos - como realidade específica e
irredutível a qualquer outra - se configuraram na realidade-padrão. Não é importante
determinar quando isso aconteceu, mas sim o conjunto de condições sociais que
determinou a oposição entre o jogo e o esporte, residindo nessa questão a dimensão do
controle da sociedade sobre a atividade.153
BOURDIEU (1980) nos diz que este “conjunto de condições sociais” foi a “constituição de um
campo de práticas específicas, dotadas de suas regras e lutas próprias”, existindo toda uma
cultura e competência especifica ao esporte, tanto a atletas, como dirigentes, jornalistas
esportivos e todo um corpo de especialistas que vivem direta ou indiretamente deste
campo.154
O esporte moderno, fenômeno social, não pode ser redutível a um simples jogo,
divertimento ou ritual; por isso, não podemos nos limitar ao estudo da sociedade. Existe
uma ruptura entre aqueles que seriam os ancestrais do esporte e o “esporte moderno”,
uma vez que esse último produziu toda uma lógica própria.155
A passagem jogo x esporte parece ter sido realizada por adolescentes das elites
burguesas, que tomaram elementos de jogos populares e modificaram seus significados e
função, desvinculando-os de festas agrárias, religiosas ou qualquer outra função social;
transformando-os em atividades que constituem fins em si, que podem ser praticadas nas
escolas, em horários livres ou em qualquer momento que se queira.156
Com a crescente profissionalização e valorização do mercado esportivo, hoje o
esporte pode ser um "trampolim social" para o indivíduo das camadas pobres que consiga
152
Ibid., p. 25.
Cf. LEME, C. Atividade física motiva? Análise do ponto de vista de adolescentes, Jundiaí: ESEF, 1999, 36
p., p. 6. (monografia de graduação)
154
MACHADO, A. Psicologia do esporte: temas emergentes, op. cit., p. 26.
155
Cf. LEME, C. Atividade física motiva?..., op. cit., p. 6.
156
Ibid.
153
65
se destacar no espetáculo esportivo.157 Ou seja, cada um dos segmentos da sociedade
está - de maneiras diferenciadas - envolvido com o esporte. Quaisquer manifestações
geradas nesse meio, como a religiosidade, serão diferentes, conforme o significado dessa
atividade para as pessoas.
Alguns fatores gerados pela Revolução Industrial - como a massificação do público e
de seus interesses, a frustração causada por uma sociedade em que as metas só podem
ser alcançadas por poucos e a "dissolução" dos interesses, sentimentos e emoções
individuais em nome da produção - são pertinentes ao nosso estudo. Isso se dá porque
eles causam diferentes reações e comportamentos diversos e não padronizados.
Tratar do esporte moderno é observar todo o verniz racional que, da organização, da
administração e do conhecimento científico, faz crer no desaparecimento de paradigmas e
modelos que outrora fizeram parte dos jogos populares. O esporte moderno existe com
novas indumentárias, mas a razão não foi, ainda, suficiente para erradicar as dimensões da
cultura tradicional que afluem no seu maior protagonista: o homem.158
Muitas vezes procura-se explicações para causas e efeitos do fracasso nos campos
com discursos racionais, tentando detectar aspectos que ainda não foram estudados.
Procura-se extinguir qualquer manifestação que não figure no meio acadêmico. Os jogos
inseridos em uma cultura racional adaptam-se a ela e não convém, para as estruturas
racionais, fazer-se equiparar ao que não é mensurável, explicável. No entanto, o
simbólico, o cultural, o místico e mítico seguem existindo. Em síntese, tomando por
referência Max Weber, podemos dizer que a modernidade ocasionou um certo
desencantamento do esporte. Mas permanecem laços que conduzem o Homem ao
encontro da cultura tradicional, que o unem às suas faces tradicionais religiosas, ou seja,
à sua ontogênese cultural, na busca de tradições exteriores ao lado racional do esporte
moderno.159
Em uma competição - por exemplo, um jogo de futebol - não podemos ter um excesso
de confiança apenas na ciência. Como visto anteriormente, a bola deve entrar no gol para
o tento ser validado - para que ela "cruze a linha", porém, depende do Homem, um ser
emocional que, inserido em um esporte passional, deixa o desencanto de lado e retoma
suas antigas crenças. Ele não é mais detido por "zagueiros" como o “pensar” e o “saber”
157
Ibid.
ANJOS, J. O tradicional e o moderno..., op, cit., p. 29.
159
Ibid., p. 29-30.
158
66
em um mundo carente de sentido, mas se utiliza de valores essenciais para a vida como a
transcendência.
2.2.1 – Situação vigente
O esporte pode ser compreendido a partir de três dimensões: esporte-educação, com
fim eminentemente social (manifestação educacional); esporte-participação ou esporte
popular, com princípio do prazer lúdico (bem-estar social de seus praticantes); e esporteperformance ou de rendimento, que exige uma organização complexa e investimentos,
passando cada vez mais a ser de responsabilidade da iniciativa privada. O esporterendimento traz consigo os propósitos de novos êxitos esportivos: suas regras são
preestabelecidas pelos órgãos internacionais responsáveis por cada modalidade; é
praticado por aqueles que se sobressaem entre todos os praticantes, fato que o impede
de ser democrático; sua dimensão social propicia espetáculos esportivos em que uma
série de possibilidades sociais positivas e negativas pode acontecer.160
A base do esporte no Brasil, tanto no nível amador como profissional, está nos clubes
de futebol particulares. Em um Estado como São Paulo, que recebe muitos imigrantes,
esses clubes são importantes porque ajudam o recém-chegado a se adaptar à vida na
cidade161 e a se integrar socialmente, seja como torcedor ou como “peladeiro” - a paixão
pelo esporte e o domínio da bola são tidos como valores universais que aproximam
indivíduos que, de outra forma, seriam perfeitos estranhos entre si. Esse fator ajuda na
sobrevivência das equipes pequenas e também das grandes, fortalecidas pelo desejo de
aproximação de neófitos que, via de regra, optam por um time "melhor", mais evidente.
Aos times menores restam as torcidas locais e uns poucos simpatizantes de fora.
Coletivamente os clubes de futebol servem como benfeitores de milhares de crianças e
adolescentes de talento, que recebem treinamento profissional e condicionamento físico,
atenção médica e às vezes até alojamento e dinheiro para os estudos.162
Sabemos da importância do esporte amador na formação do Homem e do atleta.
Temos consciência, também, de que o esporte amador está dividido em muitas categorias
160
Cf. TUBINO, M. Dimensões sociais do esporte. São Paulo: Cortez, 1992, coleção Polêmicas do Nosso
Tempo, v. 44, 79 p., pp. 31-36.
161
Cf. LEVER, J. A loucura do futebol: Rio de Janeiro, Record, 1983, 243 p., pp. 99-100.
162
Ibid., p. 101.
67
- entre elas "mamadeira", "fraldinha" e a "juniores", último estágio para chegar ao nível
profissional. Nosso objeto, porém, se limita a essa última categoria: o profissional.
O esporte-performance, de rendimento ou de competição - seja qual for a sua
denominação - faz parte do nosso objeto de estudo, pois, sendo reconhecido como
atividade cultural, é sempre um meio de progresso nacional e de intercâmbios
internacionais; sua organização não deixa de ser um fator de fortalecimento da sociedade;
há o envolvimento de vários tipos de recursos humanos qualificados, o que gera muitas
profissões de especialistas; ao criar uma "indústria do esporte", gera produtos de grande
sofisticação, favorecendo a mão-de-obra especializada; gera turismo e, pelo fenômeno
chamado efeito-imitação, exerce grande influência no esporte popular. O esporte de
rendimento, além do uso político-ideológico, é um grande negócio.163
A faixa etária do atleta profissional começa, em média, aos 21 anos, com alguns
indivíduos - como os que têm um bom rendimento nas categorias de base - chegando ao
"topo da evolução" com menor idade (16 anos). Os atletas de futebol profissionais estão
sempre na mídia; o número de informações a respeito em jornais, televisão e internet,
assim como a quantidade de profissionais envolvidos na estruturação dos departamentos
de futebol profissional, são imensos. O departamento é composto de técnicos, assistentes
técnicos, preparadores físicos, auxiliares de preparação física, treinadores de goleiros,
médicos, massagistas e mordomos. Os clubes mais privilegiados contam ainda, em seus
departamentos de futebol, com fisioterapeutas, fisiologistas, dentistas e psicólogos.
O futebol profissional em São Paulo apresenta dois níveis qualitativos, realidades que
não são exclusivamente típicas da nossa cultura: o primeiro, de alcance muito reduzido, é
o dos atletas de sucesso, bem remunerados; o segundo é a dos atletas “comuns”, da
grande massa que não tem muito “mercado” e que limita sua carreira a atuar em times
“pequenos” ou, então, a completar o elenco das grandes equipes.
Não é possível abordar de forma ampla – pelo menos em um estudo como o que
estamos realizando - o riquíssimo cenário futebolístico paulista, que abrange muitos
clubes de diversas cidades do Estado. Em função disso, optamos por focalizar nosso
estudo em cinco equipes que disputam a primeira divisão do futebol profissional
163
Ibid.
68
paulista,164 que possui um dos mais disputados campeonatos do país e que é tido por
muitos como uma “vitrine” de atletas para os times grandes. As equipes escolhidas são
Sport Club Corinthians Paulista, Santos Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras,
São Paulo Futebol Clube e Associação Desportiva São Caetano.
Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo são o que, popularmente, os torcedores e
a crônica desportiva chamam de “clubes grandes”: contam com uma grande torcida (nem
sempre concentrada geograficamente na área da sede do clube), muitos títulos e muita
história; recebem atenção diária da mídia, exercem poder sobre a federação local
(Federação Paulista de Futebol – FPF), sobre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF)
e, mesmo, sobre a política local e até nacional (o atual presidente da República, Luís
Inácio Lula da Silva, não esconde sua condição de corintiano – mesmo sabendo que, com
isso, corre o risco de perder votos de torcedores fanáticos de outros times!). Já o São
Caetano é uma equipe “emergente”, sempre com bons atletas, boa comissão técnica,
dinheiro para os cartolas investirem e poucas dívidas - em breve poderá ingressar no
clube dos “grandes”. É, também, uma equipe “simpática”, pela qual muita gente torceria
sem grandes problemas. Quem não quer torcer por um time competitivo?
Diante dos aspectos citados acima, fica claro que esses clubes sofrem mais pressões
do que os outros. Fatores como a pressão constante por resultados, a instabilidade, o
stress e a concorrência, aliados ao fato da exposição na mídia, mostra-nos o porquê da
pesquisa ser realizada com essas equipes.
2.3 – O perfil das cinco equipes principais do futebol paulista
O universo do futebol é muito grande e não envolve apenas clubes, jogadores e
torcida – ele inclui os patrocinadores, a mídia e o mercado. É o fator capitalista, que teve
seu auge na década de 90, quando muitas empresas – multinacionais, inclusive –
passaram a patrocinar os maiores clubes e a investir em clubes menores. Diante desses
164
As equipes que no ano de 2004 disputaram o campeonato paulista foram: Palmeiras, Corinthians, São
Paulo, Santos, São Caetano, Ponte Preta, Guarani, Portuguesa Santista, Portuguesa, América, União
Barbarense, Rio branco, Atlético Sorocaba, Juventus, Paulista, Santo André, Marília, Ituano, Mogi Mirim,
União São João e Oeste. A equipe do São Caetano sagrou-se campeã e as equipes do Juventus e Oeste de
Itápolis caíram de divisão, disputando a divisão de acesso em 2005. Foi uma competição que não empolgou, o
público não a prestigiou por conta do alto preço dos ingressos - no final, porém, como se trata de futebol,
“sobrou” emoção.
69
aspectos, vale lembrar de um ditado que diz: “Das coisas menos importantes da vida, o
futebol é a mais importante”.165
Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo são equipes com um passado de muitos
títulos estaduais, nacionais e até mundiais, mas com um presente mais difícil. Nos últimos
anos o Corinthians perdeu muitos excelentes jogadores, fato provocado, provavelmente,
por falhas administrativas e disputas internas pelo poder.166 O Santos, que viveu seu auge
na “Era Pelé”, não ganhava um título importante desde 1984; chegou a disputar algumas
finais, mas nunca com vitória. Em 2002 conseguiu revelar jovens bons jogadores e ganhar
o campeonato brasileiro e, se mantiver esses atletas no clube (algo difícil, diante das
propostas que recebem dos grandes clubes do Exterior), é candidato a ganhar mais
campeonatos.
Depois que a empresa multinacional que patrocinava a equipe do Palmeiras na
década de 90 deixou o clube em função do fim do contrato de publicidade, o time amarga
uma crise histórica: foi um dos últimos colocados no campeonato brasileiro de 2002 - caiu
para 2ª divisão e, sem grandes contratações, fez um bom campeonato em 2003 pela série
B e foi campeão, retornando para a elite. É um clube tradicional, mas sua trajetória
recente mostra que a má administração se reflete no futebol apresentado. Das quatro
equipes grandes do futebol paulista, é o São Paulo que aparenta uma situação mais
estável, mas também tem dificuldades de manter seus grandes atletas. Ao que tudo
indica, foi a última equipe a gastar uma quantia elevada na contratação de um renomado
jogador – Ricardinho, que pertencia ao Corinthians e foi comprado pelo São Paulo por R$
5 milhões, com salário mensal de R$ 300 mil. Como o jogador não se firmou na equipe, a
diretoria do São Paulo decidiu se desfazer do investimento - o fato, certamente, fez com
que os dirigentes "colocassem os pés no chão", como já acontecia nas outras equipes.
Como vimos no primeiro capítulo, a equipe do São Caetano chegou à elite do futebol
no ano de 2000, conseguindo um título expressivo em 2004. É uma das agremiações
mais estáveis do futebol brasileiro. Em todo campeonato chega entre os primeiros
colocados e, quando negocia um jogador de seu plantel, costuma substituí-lo por outro de
165
Citação anônima.
No período em que escrevíamos a dissertação, o Corinthians dava início a uma polêmica parceria com a
empresa MSI. Até a metade de 2005, fase de finalização do nosso trabalho, a polêmica se mantinha.
166
70
mesmo nível técnico. O São Caetano tem um dos melhores elencos do futebol paulista e
brasileiro.
Como no Rio, os clubes de São Paulo estão divididos pelas camadas sociais. O São Paulo é
o clube tradicional da elite. Surgiu das cinzas do Paulistano, que foi finalista do primeiro
campeonato estadual em 1902 e, em 1930, fechou as portas de seu departamento de futebol
em protesto contra o profissionalismo. O Corinthians é o time das massas; o clube foi
fundado por membros da classe trabalhadora – um motorista, um pedreiro, um sapateiro e
dois pintores. Eles escolheram o nome por causa do time inglês do Corinthians, que em
1910 fez uma turnê no Brasil. Em 1976, 70.000 corintianos encheram o Maracanã para
assistir uma semifinal do campeonato brasileiro – a maior torcida visitante na história do
Brasil. O Palmeiras é o time da comunidade italiana. Originalmente chamava-se Palestra
Itália, mas mudou de nome em 1942 quando o ministério da justiça determinou, em função
da Segunda Guerra Mundial, que nenhuma entidade esportiva poderia conter o nome de
países inimigos. O Santos é o único dos grandes times do estado de fora da capital. O clube
deve sua fama e sucesso grande parte a Pelé, que jogou ali entre 1956 e 1974, marcando
1.091 gols.167
Vamos trazer a seguir um pouco da história das equipes que pertencem ao nosso
objeto de estudo e saber mais sobre o São Caetano - time que possui poucos dados
históricos registrados e que, ao contrário das outras equipes abrangidas por este trabalho,
não dispõe de estatísticas que informem o número exato de seus torcedores.168
2.3.1 - Sport Club Corinthians Paulista
O Corinthians surgiu graças à audácia de cinco rapazes que, depois de assistirem ao
jogo de uma equipe inglesa, o Corinthians Team, decidiram fundar um time de futebol do
mesmo gênero. Era 1º de setembro de 1910 e os cinco operários - Joaquim Ambrósio,
Carlos da Silva, Rafael Perroni, Antônio Pereira e Anselmo Correia - se reuniram com
mais oito rapazes e fundaram o “Sport Club Corinthians Paulista”. O presidente escolhido
foi o alfaiate Miguel Bataglia, que, em seu primeiro momento como cartola, afirmou: “O
Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”. O Estádio do
Corinthians é o Alfredo Shuring (Fazendinha), seu mascote é o “Mosqueteiro”, seu
primeiro uniforme é camisa branca, calção preto e meias brancas169 e sua principal torcida
167
BELLOS, A. Futebol: o Brasil em campo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 2003, 350 p., pp. 336-337.
A equipe do Corinthians possui 17,4 milhões de torcedores, é a segunda maior torcida do Brasil, só
perdendo para a do Flamengo, do Rio de Janeiro; o São Paulo possui 9,2 milhões de torcedores, é a terceira
maior torcida, seguida do Palmeiras, com 9,1 milhões de torcedores e o Santos, oitava maior torcida do Brasil,
com 4,7 milhões de torcedores. Ibid., p. 334.
169
Cf. SEU time. Sport Club Corinthians Paulista. Disponível em:
<http;//www.futbrasil.com/seutime/Corinthians.html> Acesso em 24 de agosto de 2002.
168
71
é a “Gaviões da Fiel”. Entre os seus atletas mais ilustres estão Gilmar, Rivelino e
Sócrates.
2.3.2 - Santos Futebol Clube
No início da década de 1910 a cidade de Santos já havia sido contagiada por uma
nova mania nacional: o futebol. Assim, no dia 14 de abril de 1912, um grupo de
esportistas promoveu uma reunião no salão do Clube da Concórdia para discutir a
possibilidade de ser fundada uma agremiação para a prática da modalidade. Depois de
muita conversa, um dos presentes, Antonio Araújo da Cunha, afirmou que o nome da
cidade não poderia deixar de estar presente na denominação do novo clube. E assim,
exatamente às 22 horas e 33 minutos do dia 14 de abril de 1912, nascia o Santos Futebol
Clube. O Estádio do Santos é o Urbano Caldeira (Vila Belmiro), seu mascote é o “Peixe”,
seu primeiro uniforme é camisa branca, calção branco e meias brancas170 e sua principal
torcida é a “Torcida Jovem”. Entre os seus atletas mais ilustres estão Pelé, Pepe, Zito,
Carlos Alberto, Clodoaldo, Coutinho e, recentemente, Robinho.
2.3.3 - Sociedade Esportiva Palmeiras
Fundado por imigrantes italianos, o “Verdão” nasceu em 1914 com uniforme azul e o
nome de "Palestra Itália". Em 1942, por causa da Segunda Guerra Mundial, mudou de
nome para Palmeiras. O Estádio do Palmeiras é o Palestra Itália (Parque Antártica), seu
mascote é o “Porco”,171 seu primeiro uniforme é camisa verde, calção branco e meias
verdes172 e sua principal torcida é a “Mancha Alviverde” Entre os seus jogadores mais
importantes estão Ademir da Guia, Djalma Santos, Marcos, Rivaldo, Roberto Carlos e
Edmundo.
170
Cf. SEU time. Santos Futebol Clube. Disponível em: <http;//www.futbrasil.com/seutime/santos.html>
Acesso em 24 de agosto de 2002.
171
Este é um mascote que a torcida adotou recentemente. Antes, o mascote era o periquito.
172
Cf. SEU time. Sociedade Esportiva Palmeiras. Disponível em:
<http;//www.futbrasil.com/seutime/palmeiras.html> Acesso em 24 de agosto de 2002.
72
2.3.4 - São Paulo Futebol Clube
Devido a uma pendência financeira pela compra de uma sede na rua Conselheiro
Crispiniano - um palacete chamado de Trocadeiro - o "São Paulo da Floresta" teve
problemas e foi obrigado a se fundir com o "Tietê". Os cartolas do "Tietê" determinaram
que não se usassem cores, uniformes ou outros símbolos do São Paulo da Floresta. No
dia da extinção oficial do velho clube - 14 de maio de 1935 - o amor de alguns sócios pela
entidade implicou na criação do atual São Paulo: em 4 de junho daquele ano nascia o
Clube Atlético São Paulo, que, em 16 de dezembro, passaria a ser o São Paulo Futebol
Clube, o “Tricolor do Morumbi”, como o conhecemos. O Estádio do São Paulo é o Cícero
Pompeu de Toledo (Morumbi), seu mascote é “São Paulo” (o santo), seu primeiro
uniforme é camisa branca com duas listras rubro negras horizontais, calção branco e
meias brancas173 e a sua principal torcida é a “Independente”. Entre os seus atletas mais
ilustres estão Leônidas, Careca, Muller e Raí.
2.3.5 - Associação Desportiva São Caetano
A Associação Desportiva São Caetano nasceu em dezembro de 1989 por iniciativa do
então prefeito de São Caetano do Sul, Luís Tortorello. Na oportunidade um grupo de
esportistas, empresários, industriais e membros da comunidade se reuniram em uma
assembléia geral extraordinária no Palácio dos Esportes - sede da então comissão
municipal de esportes – visando a fundação de um clube para representar a cidade no
futebol profissional. Nessa oportunidade foi eleito o primeiro conselho deliberativo que,
por sua vez, em 04 de dezembro de 1989, elegeu a primeira diretoria executiva. Com isso
estava ressuscitado o futebol profissional na cidade, que já havia vivido boas fases com o
São Caetano Esporte Clube (por volta dos anos 30), Associação Atlética São Bento (anos
50) e o Saad Esporte Clube (anos 70), que chegaram a integrar a principal divisão
paulista. O Estádio do São Caetano é o Anacleto Campanella, seu mascote é o “Azulão”
(pássaro), seu primeiro uniforme é a camisa azul, calção azul e meias azuis174 e sua
principal torcida é a “Bengala Azul”. Em sua recente história destacam-se atletas como
Adhemar, Silvio Luiz e Dininho; e outros, que tiveram uma pequena, mas importante
173
Cf. SEU time. São Paulo Futebol Clube. Disponível em:
<http;//www.futbrasil.com/seutime/saopaulo.html> Acesso em 24 de agosto de 2002.
174
Cf. SEU time. Associação Desportiva São Caetano. Disponível em:
<http;//www.futbrasil.com/seutime/saocaetano.html> Acesso em 24 de agosto de 2002.
73
passagem, como Luiz Pereira (ex-Palmeiras), Serginho Chulapa (ex-São Paulo e Santos)
e Wladmir (ex-Corinthians).
2.4 – No sucesso ou fracasso: “Deus é fiel”
O Brasil é um país cujo povo é receptivo ao sobrenatural e que, ao mesmo tempo, tem
no futebol um de seus valores mais “importantes”. Uma das "riquezas da nação", esse
esporte interfere no dia-a-dia dos brasileiros: na psique, no trabalho e até na vida sexual.
Essa presença permite compreender as tantas manifestações de religiosidade no futebol
profissional paulista.
A crença no pensamento mágico/tradicional não é um privilégio de grupos populares,
embora eles sejam aceitos mais explicitamente e sem medo. Podemos dizer que nos grupos
populares a crença se apresenta como um discurso admitido, o que, no meio acadêmico e
social, comumente é debatido com reservas e silêncio (...) Há, na sociedade, tendências a
separar o que é do campo da crença e o que é do campo da razão, como se fosse possível
afastar todo e qualquer pensamento popular/tradicional da racionalidade. Parece que há um
campo provido de uma fronteira divisora, ou um disfarce de interesse científico, como se as
crenças populares estivessem flutuando no ar, sem que ninguém as assuma como próprias.
Embora o pensamento mágico e as buscas de suas manifestações não sejam propriedades
de grupos populares, estes as admitem publicamente. No entanto, quando se elevam
socialmente, os grupos/pessoas admitem ter apenas um gosto estético e ético, e
apresentam um disfarce com discursos acobertados por tendências de que precisamos
“conhecer nossa cultura” ou “dela participar”.175
A presença de elementos tradicionais segue existindo no cotidiano das equipes
pequenas e grandes - nestas, evidentemente, de forma mais visível. Pode-se dizer,
mesmo, que há uma "Santíssima Trindade à Brasileira", formada por Religião, Carnaval e
Futebol.176 Vale observar sua coexistência pacífica entre indivíduos e, muitas vezes, em
um mesmo indivíduo: que mal há, por exemplo, em um judeu carnavalesco e torcedor do
São Paulo? Ou em um budista étnico chinês "ligado" em passistas peladas e em passes
nas “peladas”? Essa tolerância é especialmente visível no futebol. Um bom exemplo é o
da Copa de 2002 (Japão-Coréia). O juiz havia acabado de apitar o final do jogo e os
jogadores comemoravam, cumprimentavam os adversários, integrantes da comissão
técnica se abraçavam, muito choro, riso e felicidade. Enquanto os vices-campeões
alemães recebiam (meio desenxabidos, é certo) o prêmio pela campanha realizada,
nossa seleção estava ajoelhada formando um círculo no meio do campo, rezando,
175
176
ANJOS, J. O tradicional e o moderno: faces da cultura popular do futebol brasileiro. op. cit., p. 187.
Cf. BELLOS, A. Futebol: o Brasil em campo, op. cit., p. 197.
74
orando, agradecendo aos Orixás. Católicos, Evangélicos,177 e Macumbeiros,178 brancos e
negros, jovens e velhos. Nossa nação estava ali representada. Não era um ato de quem
só busca Deus nas dificuldades, de quem se sente inferior, do desacreditado que vem de
um país miserável; era, sim, a atitude de quem tem a garra de lutar e a humildade de
pedir e agradecer à divindade.
Retornando para as manifestações de religiosidade nas cinco equipes paulistas,
podemos perceber várias atitudes relacionadas a fatos e elementos como vitórias,
derrotas, preparação para os jogos, atos de caridade e família. Vamos tentar nos referir a
esses elementos - dentro do possível - em uma ordem cronológica de ocorrência nos
clubes e, também, vamos desenvolver os temas de acordo com as fases vividas em
campeonatos, partidas ou qualquer outra fase que o atleta esteja passando. Antes de
entrar mais especificamente nos aspectos de religiosidade presenciados nos clubes,
porém, evidenciaremos essas manifestações na mídia e também entre algumas
autoridades religiosas.
2.4.1 – A leitura religiosa do futebol na mídia
Podemos perceber claramente que os atores do futebol e a torcida buscam
constantemente as forças sobrenaturais. Isso é visível em diversos momentos da vida do
atleta: nas vitórias, derrotas ou em qualquer outra situação. Porém, a situação em que
mais se destaca a presença religiosa, tomando o grupo como um todo, são nas fases em
que os campeonatos estão para ser finalizados, quando são revelados o campeão e os
rebaixados. Fato interessante a destacar é que, nesse momento de vida ou morte, a mídia
usa o discurso religioso de forma intensa.179 Mostraremos, agora, uma fase de um time
que ilustra bem essas presenças do registro religioso no futebol.
177
Entre todas as manifestações religiosas percebidas no futebol, as realizadas pelos evangélicos é que ficam
mais evidentes, sendo seus principais representantes os Atletas de Cristo.
178
Ainda que pareça se referir mais à Umbanda, o termo “Macumba” é usado muitas vezes de forma genérica
para definir as religiões afro-brasileiras.
179
A título de exemplo, o jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 03 de junho de 2002 - logo após o corte por
contusão do volante Emerson, peça fundamental no esquema de Felipão na Copa -, trazia a manchete: “Foi à
missa e voltou convocado”, relacionado ao fato do meio campista Ricardinho, que na época jogava no
Corinthians, receber a notícia da convocação ao sair de uma celebração. A matéria diz que houve festa na casa
dos familiares de Ricardinho, começada logo após a missa que ele assistia na igreja de Nossa Senhora
Aparecida, em Curitiba. Diz também que o jogador tinha ido rezar com o pai, após saber do corte do volante
Emerson. A reportagem completa dizendo que quando ele entrou no carro, depois da oração, recebeu o
75
A equipe do Palmeiras foi rebaixada de divisão no campeonato brasileiro de 2002.
Durante a fraca campanha que fez, a imprensa sempre associava a equipe paulista a um
determinado aspecto religioso. No futebol e em outros seguimentos, São Paulo é um lugar
onde o indivíduo precisa render mais para conseguir algo; para os que já se instalaram na
região, a cobrança, conseqüentemente, é alta. Tratando-se especificamente do futebol, a
cobrança é muito maior, ainda mais em se falando de uma equipe de grande massa, que
ocupa grande lugar em todos os veículos de comunicação e na vida das pessoas.
O Palmeiras estava há 35 dias sem ganhar (nove partidas!) e era o último colocado na
tabela de classificação. Quando conseguiu vencer o Paysandu jogando em casa, a
manchete no jornal o “Estado de São Paulo” era a seguinte: “No sufoco, o Palmeiras
ganha”. A matéria evidenciava o autor do gol palestrino, Itamar, como “O nome do
Salvador”, e a torcida foi chamada de “fiel” pelo apoio dado ao time em todos os
momentos. A torcida também levou para esse jogo uma bandeira com a imagem de
Nossa Senhora Aparecida, que depois da partida virou um amuleto dos torcedores e
passou a estar presente em todos os jogos.180
O Palmeiras continuava mal no campeonato, com uma campanha instável, mas a
torcida não se esquecia da bandeira com a imagem da santa, como no jogo em que a
equipe derrotou o Guarani.181 Quando o Palmeiras venceu o Botafogo do Rio de Janeiro,
o jogador Nenê comemorou o seu gol apontando as mãos para o céu,182 agradecendo a
graça recebida. Todos esses fatos eram mostrados em grande quantidade na mídia.
Quando o Palmeiras perdeu para o Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, a primeira
página do jornal “O Estado de São Paulo”, trazia o título: “Só milagre pode salvar o
Palmeiras”.183 No caderno de esportes, a manchete era a seguinte: “Palmeiras fica à
espera de milagres”. O goleiro Sérgio resumia que todos teriam que “dar a vida” para o
comunicado que ele acabava de ser convocado. Cf. FADEL, E. Foi à missa e voltou convocado. O Estado de
São Paulo, 03 de junho de 2002, E2.
180
Cf. NO SUFOCO, o Palmeiras conseguiu. O Estado de São Paulo, 27 de setembro de 2002, E1.
181
Cf. PALMEIRAS leva susto, mas volta a vencer. O Estado de São Paulo, 18 de outubro de 2002, E1.
182
Cf. FESTA, Os palmeirenses Muñoz e Nenê comemoram: os dois marcaram contra o Botafogo. O Estado
de São Paulo, 31 de outubro de 2002, Capa.
183
Cf. SÓ MILAGRE pode salvar o Palmeiras. O Estado de São Paulo, 04 de novembro de 2002, Capa.
76
time não cair. O jornal já dizia que ou Palmeiras conseguiria se livrar do rebaixamento por
milagre, ou, então, por uma ação dos cartolas.184
O Palmeiras jogaria com o Fluminense, no Rio de Janeiro, depois de já ter perdido
para o Vasco no final de semana anterior. O jornal o “Estado de São Paulo” trouxe a
seguinte manchete: “Reza do Palmeiras não resolve. Romário joga”. A referência estava
relacionada ao fato de que um dos maiores “matadores” do futebol brasileiro estar
recuperado de uma lesão, o que iria aumentar os problemas para o “verdão”. A capa do
jornal do dia seguinte mostrava os atletas do Palmeiras comemorando um dos gols da
equipe na vitória por 3 a 1 diante do tricolor carioca (não é preciso dizer que as mãos
estavam para cima, desta vez com os atletas ajoelhados).185 Interessante citar que a
primeira página do jornal também trouxe uma foto do presidente do Brasil, Luis Inácio Lula
da Silva, recebendo uma Imagem de Nossa Senhora Aparecida.186 Uma bela
representação de que, nas horas difíceis, a sociedade brasileira apela para Deus e para
todos os santos.
No caderno de esportes, a manchete era a seguinte: “Palmeiras vence e volta vivo do
Rio”. Nas fotos referentes a dois dos gols do "verdão", lá estão eles, os jogadores,
executando a já conhecida "postura de louvor" (ajoelhados, com as mãos apontando para
o céu).187 Será que foi reza, milagre, a bela exibição do Palmeiras, a má atuação do
Fluminense, ou outro “esquema” que garantiu a vitória do Palestra?
O Palmeiras tinha poucas chances de permanecer na primeira divisão. No penúltimo
jogo do campeonato, contra o Flamengo em São Paulo, o árbitro favoreceu o “Verdão” e o
Palmeiras conseguiu empatar, mas permanecia na zona de rebaixamento. Novamente
estava no jornal o registro religioso: “O juiz errou? O Palmeiras agradece”. O goleiro
Sérgio confirmou, após a partida, que faria uma viagem de agradecimento à Aparecida,
ressaltando que levaria luvas e uma camisa autografada após a despedida na Bahia.188
184
PALMEIRAS fica à espera de milagres. O Estado de São Paulo, 04 de novembro de 2002, E1.
Cf. ALÍVIO – Palmeirenses comemoram o primeiro gol, de Zinho; segunda divisão mais distante. O
Estado de São Paulo, 07 de novembro de 2002, Capa.
186
Cf. SANTA – Com Sarney, Lula ganhou imagem de N.S. Aparecida. O Estado de São Paulo, 07 de
novembro de 2002, Capa.
187
PALMEIRAS vence e volta vivo do Rio. O Estado de São Paulo, 07 de novembro de 2002, E1.
188
Cf. VILARON, W. O juiz errou? O Palmeiras agradece. O Estado de São Paulo, 15 de novembro de 2002,
E4.
185
77
Na semana do último jogo, contra o Vitória da Bahia, na Bahia, o clima foi tenso. A
"mala preta" (termo que, no Brasil, é indicador de esquemas de propina ou corrupção)
entrou na discussão e muitos jogadores fizeram comentários. Alguns diziam que oferecer
dinheiro para o outro time perder não era justo, mas para ganhar era uma motivação
extra. O jornal “O Estado de ao Paulo” publicou que o único constrangido com a situação
era o goleiro Sérgio. Religioso, ele disse que em dez anos de futebol nunca vira nada
daquilo, mas não descartou a possibilidade do fenômeno existir.189
A equipe foi derrotada pelo Vitória e rebaixada para a segunda divisão. Depois do jogo
a tristeza varreu a torcida do Palmeiras em todo o Brasil. Sua maior torcida, a Mancha
Alviverde, resolveu protestar de forma pacífica, fazendo o enterro simbólico de jogadores
e de dirigentes. Além disso, baianas fizeram a “lavagem” da calçada do Palestra Itália como se faz em Salvador, na Igreja do Senhor do Bonfim -, querendo afastar os maus
fluídos do clube, isto na iniciativa do presidente da Mancha, Paulo Serdan.190
Um dos maiores exemplos das últimas décadas relacionado ao registro religioso no
futebol é a atribuição de “São Marcos” ao goleiro Marcos, do Palmeiras. Um narrador
instituiu a expressão por conta das defesas “milagrosas” que o goleiro executou na Copa
Libertadores da América de 1999, ano em que apareceu com mais destaque no cenário
nacional.
O goleiro foi também homenageado na cidade de São Marcos, no Rio Grande do Sul,
onde recebeu o título de cidadão honorário pela consagração da expressão “São Marcos”,
que teria aumentado o moral dos habitantes da cidade. A homenagem aconteceu logo
após a Copa do Mundo de 2002, e o prefeito da cidade disse que a homenagem não tinha
qualquer conotação política. Marcus Vinicius Schil, organizador de um memorial na
cidade,191 ressaltou que a população local não se identificava com Marcos só pelo nome,
mas também por sua devoção religiosa.192
189
Cf. VILARON, W. Discussão do momento no quase rebaixado Palmeiras: a mala-preta. O Estado de São
Paulo, 16 de novembro de 2002, E1.
190
Cf. TORCIDA fará protesto contra diretoria e elenco. O Estado de São Paulo, 30 de novembro de 2002,
E2.
191
O memorial, de que não há notas se já foi construído e seria inaugurado apenas na presença do goleiro,
"terá uma placa de cimento em que Marcos irá cravar suas mãos para a eternidade” disse o prefeito.
192
Cf. ROZENBERG, M. São Marcos, RS, vai homenagear seu ídolo Marcos. O Estado de São Paulo, 12 de
julho de 2002, E5.
78
O dia 26 de abril é o Dia do Goleiro, segundo o jornal “O Estado de São Paulo” - uma
data para lembrar as proezas e angústias desses atletas “malditos”. A atividade do goleiro
é tão renegada que, segundo a sabedoria popular, "onde eles pisam não nasce grama" de fato, a área de atuação desse atleta é mais "pelada" que o resto do campo. No dia 26
de abril de 2004, Marcos falhou ao tentar dar um chutão para a frente - a bola bateu no
atleta adversário, ficando livre para que este marcasse o gol da vitória de sua equipe.
Como todo goleiro falha, Marcos também falhou. Só que dessa vez ele falhou no dia de
seu “xará”, São Marcos Evangelista. No jornal estava um desenho de Marcos com uma
auréola na cabeça, segurando um “frango”. Vale lembrar que, para os goleiros, muitas
vezes valem mais os erros do que os acertos.193
Ilustrando o aspecto da mídia e o registro religioso, citamos, para finalizar, o caso do
maior ídolo argentino de todos os tempos, Diego Armando Maradona, que em 2001
ganhou uma igreja fundada por seus fãs com o nome “Igreja Maradoniana”.194 O atleta
não é brasileiro e nem simpático ao nosso país, mas é um ídolo eternizado de uma nação
vizinha, sofrida como a nossa e que também tem no futebol uma fonte de alegria.
Cerca de 200 seguidores da “Igreja Maradoniana” reuniram-se anteontem à noite (...) Não
faltaram hinos em louvor do “deus” argentino, bem como rosário, um par de chuteiras em
forma de cruz, uma estatueta em santuário, rodeada por anjinhos, e outras manifestações de
fé. “Já chegou a Noite Feliz, já chegou o Natal. Os brasileiros estão chorando e é o
aniversário do papai, cantavam os seguidores da seita (...) Os fanáticos comeram e beberam
na passagem do ano "43 d.D." (depois de Diego). Só o homenageado não compareceu, pois
continua tratamento, em Cuba, para livrar-se de dependências de drogas.195
Maradona foi internado em estado grave pelo abuso de drogas em abril de 2004 em
uma clínica na Argentina. Como não poderia deixar de ser, a imprensa brasileira cobriu
todo o caso. Na primeira página do jornal “O Estado de São Paulo” de 20 de abril de 2004
a manchete era "Deus, salve Dieguito", mostrando um torcedor segurando a imagem de
Nossa Senhora e rezando. A clínica onde o “deus” estava internado se tornara ponto
vigília.196
193
Cf. GRECO, A. Para os números 1, só valem os erros. O Estado de São Paulo, 27 de abril de 2004, E1.
Cf. MARADONA ganha culto religioso. O Estado de São Paulo, 01 de novembro de 2002, E3.
195
MARADONA reverenciado por fiéis. O Estado de São Paulo, 31 de outubro de 2003, E2.
196
Cf. DEUS, salve Dieguito. O Estado de São Paulo, 20 de abril de 2004, Capa.
194
79
O caderno de esportes do jornal, no mesmo dia, trazia uma foto da frente da clínica,
com pessoas de todas as partes da Argentina demonstrando sua fé, rezando o terço,
pedindo. O jornal mostrava, também, a trajetória de ascensão e queda do “mito”.197
No dia 22 de abril de 2004, o jornal trouxe a manchete: “Maradona: o mito é explorado
até na UTI”. Um fotógrafo tentara tirar uma foto de Maradona na UTI - esse registro, sem
dúvida, “valeria ouro” para a mídia. Outro fato interessante foi que, por toda a madrugada,
a mais temida torcida Argentina, “La Doce” – os hooligans do Boca Juniors – cantavam
alto um repertório composto de palavras de apoio e xingamentos para seus maiores
adversários. Os vizinhos do hospital diziam que a presença do ídolo, ali, tornou suas vidas
um “inferno”.198 A reportagem também mostrava as manifestações pela recuperação do
craque que ocorriam na Índia!
Maradona estava em recuperação e os fiéis continuavam a peregrinação até o local
de sua internação. Não faltavam cartazes, frases e orações.199 A imprensa brasileira
acompanhava tudo de perto. Já no dia 1º de maio de 2004, o jornal “O Estado de São
Paulo” trazia a manchete: “Maradona age como se fosse imortal”, relacionando o fato do
“deus” fugir da clínica e aparecer jogando golfe na casa de um amigo, mesmo não
estando em boas condições de saúde. Os fãs do atleta na Argentina diziam: “Diego não
morre nunca... deus não morre”. Para parte da Argentina ele é um semideus, pois sempre
escapa da morte. Maradona também disse, quando estava em recuperação, que possuía
um Deus particular. O jornal brasileiro lançou a pergunta: até quando não será demais
para essa divindade paralela?200
Para muitos, Maradona é uma semidivindade, “o representante de Deus no campo de
futebol” e, com certeza, um dos últimos mitos que a Argentina “fabricou”, depois de
Gardel, Evita e Che Guevara. Em entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo” do dia 09
de maio de 2004, o antropólogo argentino Eduardo Archetti fez algumas considerações.
Disse que, se Maradona morresse, seu lugar de falecimento tornar-se-ia um lugar de
peregrinação, tornando séria a “Igreja Maradoniana”. Ele não compara Maradona à Pelé,
197
Cf. PALACIOS, A. O mundo torce por Maradona. O Estado de São Paulo, 20 de abril de 2004, E1.
Cf. PALACIOS, A. Maradona: o mito é explorado até na UTI. O Estado de São Paulo, 22 de abril de 2004,
E4.
199
Cf. PALACIOS, A. Recuperação de Maradona é lenta, mas anima. O Estado de São Paulo, 23 de abril de
2004, E4.
200
Cf. PALACIOS, A. Maradona age como se fosse imortal. O Estado de São Paulo, 01 de maio de 2004, E3.
198
80
diz que Diego é mais parecido com Garrincha, um grande jogador vindo da classe baixa
brasileira. Maradona é mais próximo de Garrincha, pois é um driblador. Pelé era
potencializado por outros companheiros. Garrincha enfrentava todos. Os heróis estão
sozinhos contra o mundo, afirmava Archetti. Ele concluiu dizendo que Maradona falou que
seu talento era um presente divino, que Deus o havia escolhido. Quanto ao futuro,
Archetti afirmou que o pior amigo de Maradona é ele mesmo.201
No momento de conclusão de nosso trabalho de pesquisa, Maradona estava lutando
para se manter longe das drogas. Resta saber se ele vai se ajudar ou se vai precisar da
ajuda de “outros”. É um “deus” precisando de um Deus. Para a torcida e a mídia - por
incrível que isso possa parecer - a mesma divindade.
2.4.2 – Será que “O domingo é para Deus, não para esportes e outras
diversões”?
Esta mensagem, que o Papa João Paulo II trouxe ao mundo em março de 2004 – e
que já foi citada no primeiro capítulo -, parece não surtir muito efeito no Brasil. Não porque
deixemos de reverenciar, pois continuamos com um poderoso interesse por diversas
crenças, mas porque muitos aqui reverenciam mais a “bola” do que o “Pai”. Esse aspecto
não se limita só aos adeptos. Como veremos a seguir, em determinados lugares do país
e, principalmente em São Paulo, até “santo” corre atrás de bola.
Durante toda a trajetória da “pelota” por aqui, presenciamos os “donos do altar”
sempre dando seus “chutinhos” pelos campos afora. No decorrer do trabalho vimos os
padres introduzindo o futebol no Brasil, que o Papa já “fechou o gol” e veremos no
próximo subtítulo que o padre Marcelo Rossi também não resiste ao encanto da maior
paixão brasileira. E as histórias dos representantes de Deus com a bola nos pés não
param por aí. Ninguém escapa da paixão pelo futebol.
O padre Alderígi Maria Torriani, a quem são atribuídos milagres no sul de Minas e cujo
processo de beatificação encontra-se em curso na Arquidiocese de Pouso Alegre (MG),
era torcedor do Flamengo. Ele nasceu em Jacutinga (MG) no dia 13 de novembro de
201
Cf. PALACIOS, A. Diego Maradona, o Garrincha argentino. O Estado de São Paulo, 09 de maio de 2004,
E2.
81
1895 e morreu em 03 de outubro de 1977. Seus seguidores o chamam de santo e, na
memória de todos, estão as lembranças de quando ele jogava bola com a batina
amarrada na cintura. Em sua biografia, escrita por seu antigo coroinha, Frei Felipe Gabriel
Alves, o Frei Felipinho, estão narradas todas as suas proezas esportivas. O frei diz que o
termômetro de sua autoridade de líder jamais baixava pelo fato de entrar em campo de
futebol e lutar para ganhar e vencer. O frei completa dizendo que o padre Alderígi era
diferente, pois era um santo que dava gargalhadas, gostava de cerveja e futebol. Mais
humano, impossível.202
O próprio frei Felipinho passou por uma situação interessante. Em uma fase de sua
vida ele era corintiano fanático e, em 1969, com a morte de dois jogadores do Corinthians
em um acidente de carro, deixou o fanatismo de lado. Ele diz que ficou muito abalado e,
após uma reflexão, percebeu que não chorava porque os atletas haviam morrido, mas
porque seu time do coração estava mais fraco e com poucas possibilidades de ganhar o
campeonato. O frei confessou que, daquele dia em diante, passou a torcer contra o
Corinthians como penitência.203
O convento do frei é o São Francisco, onde o fanatismo possui raízes. A porta do
quarto do frei Calixto tem um enorme brasão do Corinthians, ele possui muitos objetos
com o símbolo do clube e até a sua toalha de banho tem o símbolo corintiano. Ele conta
também com um chaveiro no bolso da calça que foi presente do “ex-corintiano forçado”, o
frei Felipinho. Frei Calixto diz que “o pior” é que seu chaveiro antigo tinha uma imagem de
Cristo e ele o trocou por um do Corinthians. E completa dizendo que não só reza pela
vitória do seu clube, como vibra no estádio como um torcedor comum, ficando muito
nervoso e comendo muito amendoim.204
O arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, não tem dúvida: São
Jorge salva. O autor do livro “Corintiano, graças a Deus”, de 82 anos (dos quais pelo
menos 38 de torcida), diz que, desde chegou à cidade, em 1966, só implorou por um
milagre - e foi atendido.205 O Corinthians foi quase rebaixado para a segunda divisão do
202
Cf. RIBEIRO, G. Até santo corre atrás de bola. Revista Já, ano 6, n 290, 26 de maio de 2002, 58p., p.14.
Ibid., pp.14-15.
204
Ibid., p.15.
205
Cf. MAYRINK, J.M. Dom Paulo Arns não tem dúvida: São Jorge salva. O Estado de São Paulo, 17 de
março de 2004, E1.
203
82
campeonato paulista em 2004, fazendo uma péssima campanha. Na última rodada do
campeonato a equipe precisava de uma vitória e perdeu para a Portuguesa Santista. Só
não caiu porque o São Paulo "deu uma forcinha" e não deixou o Juventus - que acabou
sendo rebaixado – ganhar.206
O cardeal passou o segundo tempo do jogo inteiro rezando. Disse que rezou para o
Corinthians pelo menos empatar, mas que o time foi perder. Ele afirma que a ajuda veio
do Céu e que chegou ao gramado do Pacaembu por intermédio do padroeiro do clube,
São Jorge. Dom Paulo adverte que o lendário mártir do século III, que venceu com sua
espada um temível dragão na Capadócia, a oeste da Armênia, continua poderoso e
atendendo as preces dos que recorrem a sua proteção.207
“Quando eu soube, depois do Concílio Vaticano II, que Roma estava limpando o calendário
católico, banindo santos de cuja origem não se sabia toda a verdade, pedi a Paulo VI que
salvasse são Jorge, protetor do Corinthians e padroeiro de tantas cidades pelo mundo
afora”. (...) Sabendo que Paulo VI gostava de futebol – ele torcia provavelmente pelo Milan,
paixão dos tempos de arcebispo de Milão – o cardeal sugeriu que São Jorge pudesse
continuar sendo honrado em âmbito regional, ainda que fosse cassado do culto universal da
igreja. Conseguiu. “O papa escreveu um bilhete ao responsável pelo setor, atendendo o meu
pedido”. (...) O santo continua nos altares de igrejas e catedrais.208
Muitos no Parque São Jorge atribuíam a um sapo enterrado no campo a
responsabilidade de o Corinthians ficar 23 anos sem ganhar um título. Quando soube que
os cartolas do clube pretendiam chamar um pai-de-santo para livrar o time da mandinga,
o arcebispo ligou para os diretores e ameaçou virar palmeirense. Depois disso, foi
convidado para dois jantares no clube e pediram para ele benzer o campo. Ele também
gosta do São Paulo porque teve um religioso entre os seus fundadores, o Monsenhor
Bastos. 209
Padre Pedro Bauer da Cunha é um grande amigo de Felipão, apaixonado por futebol
e, antes de tudo, torcedor fanático do Palmeiras, time que aprendeu a gostar desde a sua
infância, quando ouvia pelo rádio as façanhas da equipe. Ele é pároco da igreja de Nossa
Senhora da Graça e vice-diretor do colégio Pio XII, em Criciúma (SC). Luiz Felipe Scolari
admira o talento do padre para emocionar fiéis com o dom da palavra e o treinador se
206
Ibid.
Ibid.
208
Ibid.
209
Cf. BRASIL, U. Dom Paulo eterniza paixão corintiana em livro. O Estado de São Paulo, 01 de abril de
2004, E6.
207
83
confessa com ele até hoje. O padre sempre ajudou Felipão nas preleções para as
equipes, sendo uma espécie de "talismã" em todos os clubes que Felipe dirigiu.210
A alegria tomou conta do padre Pedro quando ele ficou sabendo que seu amigo viria
para São Paulo, em 1997, dirigir o Palmeiras. Felipe sempre mandava passagens para o
padre viajar a São Paulo e participar das concentrações da equipe. Sempre nos treinos o
padre estava com o agasalho do clube, hospedava-se na casa do treinador e conseguiu
ganhar confiança dos jogadores, incluindo os evangélicos, como César Sampaio e Evair.
Antes dos jogos importantes ele se reunia no quarto com os atletas para orar e cantar.
César Sampaio tocava teclado, enquanto Pedro comandava o coro sem distinção de
credo. Os mais próximos eram o goleiro Marcos e o lateral Arce.211
Em junho de 2000 - como, no mundo dos homens, nada é eterno - Luiz Felipe foi
treinar o Cruzeiro de Minas Gerais. Por coincidência, o padre também foi transferido para
uma paróquia de Minas, em Passos. Uma noite Felipão ligou para Pedro, pedindo para
ele ir para Belo Horizonte, pois o Cruzeiro iria disputar a semifinal da Copa Mercosul. O
adversário era o Palmeiras. Ao chegar ao estádio com a delegação do cruzeiro, Pedro foi
reconhecido imediatamente por seguranças do Palmeiras que gritaram perguntando se
ele ia dar a benção à equipe paulista. O padre ficou constrangido, fingiu que não ouviu e
foi para o vestiário do Cruzeiro, tentando ser o mais sincero que pôde ao desejar boa
sorte aos jogadores.212
Depois de abençoar o Cruzeiro, ele avisou Felipão que iria abençoar o Palmeiras
também. O técnico brincou com seu auxiliar, Flávio Murtosa, dizendo: “Não tem problema.
Vai lá abençoar seu palmeirinha”. Entrando no vestiário do Palmeiras, foi uma correria
só.213
Marcos, Arce e Galeano levantaram o padre e o carregaram nos ombros. Pareciam crianças.
O técnico Marco Aurélio levou um susto. “Quem é está figura?”, perguntou ao supervisor
Marco Aurélio Faria, que não tinha resposta. Passada a euforia, Arce foi direto ao assunto:
“Padre, o senhor estava na preleção do Luiz Felipe. Conta para nós o que ele planejou”. Por
um segundo o padre hesitou. O que fazer? Ser fiel ao amigo ou ao clube de coração? As
palavras saíram antes que ele tomasse a decisão. Virou-se para o meio campista do time e
210
Cf. OSTERMANN, R. C, Felipão: A alma do penta. 2ª ed. Porto Alegre: ZH publicações, 2002, 188 p., pp.
175-176.
211
Ibid., pp.183-184.
212
Ibid., p.184.
213
Ibid., pp.184-185.
84
lascou: “Magrão, o Felipe vai colocar o colombiano Viveros para te provocar. Quer te ver
expulso antes dos 10 minutos do segundo tempo”. Em seguida, revelou que Luiz Felipe
pretendia explorar o lado direito da defesa do Palmeiras, fazendo com que o lateral Arce,
preocupado com a marcação, deixasse de atacar.214
Padre Pedro ainda se aventurou a fazer uma previsão. Disse que Galeano iria marcar
um gol de cabeça. E no primeiro escanteio do jogo batido por Arce, o Palmeiras abriu o
placar com um gol de Galeano de cabeça. O Palmeiras eliminou o Cruzeiro vencendo
pelo placar de 2 a 1, mas o padre não deixou de ir para a casa de Felipão depois da
partida e participar de uma festa.215
Enfim, vamos às manifestações de religiosidade presenciadas nas cinco equipes
paulistas.
2.4.3 - Sport Club Corinthians Paulista
Em março de 1944, em um clássico Corinthians x Palmeiras, correu o boato de que o
Palmeiras havia contratado o macumbeiro que geralmente “trabalhava” para Corinthians.
Ele teria sido pago para fazer um "trabalho especial", destacando-se na "mandinga" o
boato sobre o atacante Servílio, que não devia chutar a gol, sob pena de quebrar a perna.
Uma pessoa do Corinthians mandou chamar o macumbeiro e exigiu dele – a troco de bom
dinheiro – que fizesse um “contra-trabalho”. Na segunda-feira após o jogo chegou ao
conhecimento do técnico que todos os jogadores jogaram com um ramo de arruda na
chuteira, por recomendação feita depois de uma sessão de macumba no próprio vestiário.
O técnico do Corinthians na época – Mário Miranda Rosa - diz que o que aconteceu
nesse clássico não lhe "entra na sua cabeça" até hoje.216
Houve uma bola atrasada, que Begliomi deixou passar abrindo as pernas para que o goleiro
Bino apanhasse. Bino, efetivamente, deu dois passos em direção a bola com todo o peso da
gravidade para a frente, curvado como estava. Não sei como, escorregou e caiu de costas,
enquanto a bola passava à sua direita, devagar, e mal teve forças para entrar na linha do
gol. Vitória do Palmeiras. (...) Não compreendo como aconteceu: Bino saiu em direção da
bola, mas ao cair não recebeu a bola contra si. Ela passou a sua direita. Como? (...) Mas
aconteceu. E a primeira previsão do macumbeiro prevaleceu. Vitória do Palmeiras 1 a 0.217
214
Ibid., p. 185.
Ibid.
216
Cf. ROSA, M. Um ramo de arruda na chuteira do futebol brasileiro: e os bastidores da copa do mundo de
1958 e 1962, op. cit., pp. 98-99.
217
Ibid., p. 99.
215
85
Rosa verificou que quanto menos conhecimento técnico havia em uma equipe, mais
vigorava o apelo à magia. Existia uma influência psicológica mesmo entre os dirigentes.
Rosa também diz que era uma constante luta entre a tecnologia e a macumba e que,
nesse março de 1944, venceu o macumbeiro.218
O Corinthians é uma equipe que sempre teve vínculo com os macumbeiros. Em 1976,
o lendário e folclórico, Vicente Matheus, presidente do clube, concedeu permissão para
um ritual de macumba no Parque São Jorge. Pudera: há um bom tempo o time não
ganhava campeonatos.219 Que mal poderia fazer? As coisas não podiam ficar piores e a
"equipe espiritual de emergência" tinha os maiores craques do Candomblé. Os
macumbeiros levaram pás e enxadas para cavar o gramado e descobriram dentes
humanos, um fêmur e um sapo. No ano seguinte, o Corinthians foi campeão220 (em 1977,
o técnico do Corinthians era Oswaldo Brandão. Espírita, antes da partida ele disse ao
jogador Basílio que este marcaria um gol. Dito e feito: o Corinthians ganhou o jogo da
Ponte Preta por 1 a 0, com um tento de Basílio).
Pai Nílson foi convidado para trabalhar no Corinthians em 1982 por Vicente Matheus,
presidente do clube na época. Na verdade, pela mulher dele. Marlene Matheus esteve no
terreiro de Pai Nilson nos arredores de São Paulo buscando orientação espiritual. Depois ele
trabalhou na sede do Corinthians, o Parque São Jorge, ganhando cerca de quatro salários
mínimos. “Todo esse negócio é muito disfarçado”, diz José Eduardo Savóia, um jornalista
que cobre o Corinthians. “Ninguém do clube jamais admitiria ter um pai-de-santo porque
estaria desvalorizando o trabalho do técnico e dos jogadores”.221
Pai Nílson também diz que fez trabalho para o Corinthians ser campeão do mundo da
FIFA em 2000 e que Exu foi pago para evitar gol de Edmundo. O Corinthians foi campeão
ao vencer o Vasco nos pênaltis por 5 a 4, depois de um magro 0 a 0 no tempo normal. O
"orientador espiritual" do Corinthians foi demitido em 2000, após 18 anos de serviços; na
saída, afirmou que a sua demissão havia sido uma "decisão dos deuses". Com a sua
saída, o Corinthians ficou um bom tempo sem vencer. Coincidência? Nada mais irrita o
218
Ibid., p. 100.
Em 1976, o Corinthians jogou uma semifinal de campeonato brasileiro contra o Fluminense no Rio de
Janeiro. Um dos jogadores do elenco na época era o jogador Ruço. Em uma entrevista para o jornal “O Estado
de São Paulo” em 01 de dezembro de 2002, Ruço disse que achava que Deus tinha olhado pela torcida do
“timão” naquele dia, dizendo que ela tinha que sair dali premiada, pela quantidade de torcedores, pela chuva
que tomou e pela festa que fizeram. Cf. CASTELLAR, M. Ruço, sobre o jogo: “Deus olhou aquela torcida”.
O Estado de São Paulo, 01 de dezembro de 2002, E3.
220
Cf. BELLOS, A. Futebol: o Brasil em campo, op. cit., pp.174-175.
221
Ibid., p.174.
219
86
pai Nílison do que ouvir o velho adágio cético-futebolístico: “se macumba ganhasse jogo,
o campeonato baiano terminaria sempre empatado”. Ele diz já ter provado que essa
asserção é falsa e que, se macumba não ganha jogo, pelo menos ajuda. E conclui: “Se
você está bem espiritualmente, você atua bem”.222
“A espiritualidade é muito importante para o atleta. Se ele vai bater um pênalti e está
bem espiritualmente, não vai errar. Quem tem fé tem índice maior de acerto”.223 Não, não
estamos repetindo a frase de Pai Nilson, mas citando outra "estrela" do universo religioso:
Padre Marcelo Rossi. Ele esteve no dia 06 de novembro de 2002 em um treino do
Corinthians e aproveitou para benzer o “timão”. Ex-professor de Educação Física e
torcedor do Corinthians, foi ao Parque São Jorge para conhecer os jogadores e realizar
um sonho de seu pai. Ele garantiu que estaria no Pacaembu no dia seguinte, pois há
muito tempo não acompanhava um jogo no estádio; disse, também, que a última partida
que havia assistido fora antes de entrar no seminário, e que havia acabado em briga.
“Não vou rezar para que o Corinthians ganhe, por exemplo”.224 Para Rossi, Deus não
favorecia apenas um time; ainda assim, ele observou que as manifestações religiosas
podem ser positivas para um atleta que tenha um lado espiritual mais desenvolvido. No
campo ele rezou com o grupo e acabou admitindo que torceria para o Palmeiras não cair
– o "verdão" caiu para a segunda divisão em 2002 -, já que não teria graça um
campeonato sem um dos maiores clássicos brasileiros. Além disso, admitiu, a reza tinha
uma justificativa mais pessoal: seu avô era palmeirense e não suportaria o
rebaixamento.225
Carlos Alberto Parreira, técnico do Corinthians na época, aprovou a visita - que
aumentou o moral até dos atletas evangélicos - e concluiu dizendo que uma pessoa que
fala de Deus é sempre bem-vinda ao grupo. Mesmo dizendo que abençoava o Corinthians
e a Portuguesa, o padre mais conhecido do Brasil não escapou de uma "saia justa": no
dia do jogo ele deu o pontapé inicial, foi aclamado pela torcida Gaviões da Fiel, mas
recebeu algumas ofensas da torcida Lusa. Pudera...
222
Ibid., pp. 173-174.
PADRE Marcelo dá a preleção. Folha de São Paulo, 07 de novembro de 2002, D3.
224
ZUKERAN, V. Padre Marcelo reforça o Corinthians. O Estado de São Paulo, 07 de novembro de 2002,
E3.
225
Ibid.
223
87
Religião e futebol têm coisas em comum e também elementos que, reunidos,
produzem situações inusitadas e até constrangedoras. Voltando ao "clássico do Padre
Marcelo": o Corinthians ganhou de 5 a 2 e, é lógico, não faltaram associações entre a
visita do padre e o resultado da partida como “Abençoado, Corinthians goleia 5 a 2”.226 Os
jogadores também disseram que Padre Marcelo Rossi era "pé-quente" e que sua benção
havia ajudado bastante. Ele também ganhou uma camisa no final da partida.227
Um dos jogadores mais lembrados do Corinthians pelo belo futebol, pelos títulos
conquistados, por um temperamento explosivo e por sua religiosidade explicita é Marcelo
Pereira Surcin, o Marcelinho Carioca, ou "Pé de Anjo". Ele é capaz de fazer jogadas
fantásticas ou de arrumar muita confusão, mas sempre em seu discurso está o apelo
religioso: “Deus me deu a dica de como bater a falta que originou o primeiro gol do
Coringão”. Isso, ao mesmo tempo em que deliberadamente deixava a marca das travas
da chuteira na canela do adversário. Seria essa uma espécie de "Ira Divina"? Marcelinho
é categórico ao dizer que conta com a ajuda de Deus - mas, pelo menos no caso dele, um
atleta de Cristo, onde estaria a ética Cristã?
Vital Bataglia do jornal a Gazeta Esportiva faz a crítica mais contundente: “Creiam, esse
Corinthians que joga sob o canto profano é o mais cristão de todos os corintianos, que
fizeram um pacto macabro com seu ídolo Marcelinho, que fala como Jesus e age com o
diabo no corpo. Marcelinho defende-se. “Sei muito bem separar as coisas. Dentro de campo,
acima de tudo não gosto de perder. Vou forte para a guerra. Se me derem, eu devolvo.
Xingo e grito também, como todo mundo. Não é porque eu sou cristão, que eu vou abaixar a
cabeça. Afinal, defendo o pão de meu filho”.228
Por onde passou, Marcelinho jogou um bom futebol, mas sempre esteve envolvido em
problemas, com jogadores, dirigentes, torcedores e jornalistas. O principal motivo reside
na contradição entre o discurso religioso e as atitudes em campo, tais como “choros”,
agressões a jogadores adversários, árbitros, auxiliares e técnicos.229
O fato de falar sempre em Deus e de, em certos momentos, não agir de acordo com a
filosofia que propagava, lhe rendeu a fama de radical e, até, de usar o nome de Jesus
Cristo para fazer marketing pessoal. Segundo Alex Dias Ribeiro, presidente do Movimento
Atletas de Cristo, "não basta freqüentar a igreja e professar o nome de Jesus, é preciso
226
Cf. ABENÇOADO, Corinthians goleia: 5 a 2. O Estado de São Paulo, 08 de novembro de 2002, E1.
Ibid.
228
NUNES, F.C. Atletas de Cristo..., op. cit., p. 107.
229
Ibid., p.109.
227
88
estar pleno de Deus para que, quando chutarem a nossa canela, não manifeste a nossa
pobre natureza humana."230 Convenhamos que essa declaração, em um esporte
passional como o futebol, apenas reforça a contradição entre o "sagrado" e o "profano".
2.4.4 - Santos Futebol Clube
A equipe do Santos Futebol Clube ganhou um campeonato em 2002 depois de uma
longa temporada de “jejum”. Nesse campeonato o fervor religioso veio à tona de modo
explícito: em suas comemorações, muitos jogadores apontavam para o céu – cena
comum – e também usavam camisas com mensagens religiosas. Foi o caso, por
exemplo, de Robert, que ao marcar um gol erguia a camisa do clube e mostrava outra,
com a frase “Jesus amo Você”.231 A imagem de Nossa Senhora Aparecida na camisa sob
o "manto oficial" do time também era comum: um dos jogadores que apelaram para a
Padroeira do Brasil foi o meia Elano. Ele mostrou a camisa na primeira partida da partida
final do campeonato brasileiro em que o Santos venceu o Corinthians por 2 a 0.232 Sua
equipe chegaria ao título uma semana depois, ao vencer o segundo jogo pelo placar de 3
a 2.
Nas semanas seguintes à conquista do Santos algumas discussões interessantes
tomaram conta da população e da mídia esportiva. O Santos entrou desacreditado no
campeonato e levantou a taça de forma surpreendente, revelando alguns bons jogadores
e a recuperação de outros. Entre estas revelações estava Robinho, considerado por
muitos como um sucessor de Pelé.
Luís Fernando Veríssimo, em sua coluna no jornal "O Estado de São Paulo", escreveu
uma crônica interessante. Nela, observou que, quando um Dalai Lama morre, seu espírito
reencarna em um recém-nascido em qualquer lugar do mundo. É preciso identificar o
espírito do Dalai Lama no seu sucessor e ele, como escritor, não sabia informar que
testes seriam necessários para revelar o Lama reencarnado; da mesma forma, confessou
não saber o critério para se conhecer o legítimo sucessor de Pelé. Ainda assim, decretou:
“Chamem os sacerdotes, é ele de novo. Não outro Pelé. O mesmo Pelé, em outra
230
Ibid., pp. 107-110.
Cf. RODRIGUES, J. Santos faz Flamengo perder o rumo na Vila Belmiro. O Estado de São Paulo, 27 de
outubro de 2002, E2.
232
Cf. SANTOS vence por 2 a 0. Foi pouco. O Estado de São Paulo, 09 de dezembro de 2002, Capa.
231
89
embalagem”. O Pelé, claro, não é o Dalai Lama. O Pelé faz propaganda do Viagra, algo
que o Dalai Lama não faria, mesmo morto e reencarnado. Mas, desde que parou de jogar,
seu espírito está à procura de uma nova morada. A busca acabou. O nome do Pelé,
agora, é Robinho, em uma morada mais frágil, que seria dispensada por muitos
treinadores ao redor do mundo. Assim como o "Rei do Futebol", o novo-Pelé-Robinho
nasceu no Santos; e o próprio Pelé, ao vê-lo em um treinamento na Vila Belmiro, afirmou:
"Sou eu".233
As discussões não pararam por aí. O talento de Robinho é indiscutível, mas, pelo
menos até o momento, não pode ser comparado ao de Pelé. Nelson Rodrigues, em uma
crônica escrita em março de 1958 e intitulada “a Realeza de Pelé”, disse: “O que nós
chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais
jogadores uma vantagem considerável – a de sentir um rei, da cabeça aos pés”.234 A
carreira de Robinho ainda é recente e não pode ser comparada à do “deus” Pelé. Até
Maradona, tido por "deus" na Argentina, acaba eclipsado - ao menos, para os brasileiros pela "luz" do eterno craque do Santos. A bem da verdade, o próprio Edson Arantes do
Nascimento rende homenagem a Pelé, a quem sempre se refere em terceira pessoa (o
discurso é semelhante ao observado em certas crenças religiosas, em que um "cavalo" o médium - é tomado por um espírito ou força superior). Em nossa opinião, Robinho é
mais um “anjo” com a bola nos pés.
No campeonato de 2003, Elano seguiu exibindo a camisa com a imagem de Nossa
Senhora235 (ver anexo 8 – fig. 1) e Diego continuou apontando para o céu sempre que
marcava um gol.236 O Santos estava disputando ainda em 2003 a Copa Libertadores da
América, um torneio muito difícil. Na semifinal do campeonato, numa disputa contra o
Independiente de Medellín, na Colômbia, a equipe obteve uma vitória de 3 a 2.
Elogios não faltaram, mas a imprensa colombiana "deixou escapar" manchetes de
inspiração religiosa: “Ilusão vermelha acabou”, “Santos foi letal”, “Santos com a bola nos
pés mostrou velocidade endemoniada” e "Independiente não conseguiu nem com a alma”.
233
Cf. VERISSIMO L. O Estado de São Paulo. 17 de dezembro de 2002, A4.
LOPES, M. Robinho, o novo Pelé? Especialistas discordam. O Estado de São Paulo, 18 de dezembro de
2002, E4.
235
Cf. RODRIGUES, J. Leão leva um Santos mais ofensivo para BH. O Estado de São Paulo, 05 de abril de
2003, E3.
236
Cf. SANTOS vence e não dá trégua ao Cruzeiro. O Estado de São Paulo, 10 de novembro de 2003, E1.
234
90
No Brasil não foi diferente: em uma foto no jornal “O Estado de São Paulo”, o lateral Léo
aparece junto com meia Fabiano apontando as mãos para o céu. Pergunta-se: há
expressão maior da fusão entre religião e futebol?
O Santos não conseguiu passar pelo Boca Juniors na final, ficando com o vicecampeonato. Após o apito final, os jogadores santistas se reuniram em campo e rezaram
antes de agradecer à torcida.237 Eles deram as mãos e, em voz alta, se dirigiram a Deus
ressaltando a importância de todos e do trabalho realizado. Foi a alegria de uns e a
tristeza de outros. Uma cena emocionante foi a do meio-campista do Santos, Paulo
Almeida, um símbolo da decepção santista. Ele deixou o campo aos prantos, envergando
uma camisa com a mensagem: Deus é fiel.238
O atleta Fabiano, de 25 anos, já citado, faz um relato interessante. Ele diz que
começou a freqüentar as reuniões dos Atletas de Cristo em 1999, quando jogava no São
Paulo - no período dessa entrevista ele estava no Santos e, atualmente, joga na Espanha
-, a convite do ex-jogador Gilmar. Resolveu participar do movimento e logo se tornou
evangélico, membro da Igreja Missão Mundial Graças e Paz. “Eu tinha acabado de chegar
do interior, não conhecia ninguém em São Paulo e me sentia muito sozinho. Foi essa a
primeira razão de começar a me reunir com eles”. Com o tempo a religiosidade foi
ocupando maior espaço em sua vida e, desde então, ele reserva as segundas-feiras para
encontrar outros integrantes da associação. Ele diz que sem Deus não seria nada e que,
antes de entrar em campo, sempre faz suas orações. Conclui dizendo que sempre que
marca um gol agradece à Deus e, que quando erra, pensa: "Ele sabe o que Faz".239 (ver
anexo 9)
2.4.5 - Sociedade Esportiva Palmeiras
O melhor jogador do Palmeiras de todos os tempos, Ademir da Guia, era conhecido
como "o divino”. A denominação foi atribuída pelo seu jeito de jogar, pela importância que
tinha para o time, pelos títulos que conquistou e por sua calma. Com esses atributos
dignos de um santo ou de um herói ungido por Deus, pode-se afirmar que Ademir da Guia
237
Cf. VICE, mas de cabeça erguida, Lance! 03 de julho de 2003, p.18.
Cf. MALUF, E. Fim do sonho para os meninos da vila. O Estado de São Paulo, 03 de julho de 2003, E1.
239
Cf. SGARIONE, M. Sangue, suor e muita fé..., op. cit., p. 49.
238
91
foi, de fato, “divino”. Como podemos verificar, nem só de apelos a Deus sobrevive a
equipe do Parque Antártica. Independente da crença, os jogadores sempre encontram um
caminho difícil pela frente, principalmente quando lembrados de que o Palmeiras ficou
conhecido, nos velhos tempos, como "academia de futebol". Em um cenário assim
glorioso (e, certamente, cobrador) sempre surgem comparações entre jogadores de hoje
e o "divino" Ademir da Guia.
Durante muitos anos, o pai-de-santo Robério de Ogum foi uma espécie de "12º
jogador" nos times comandados por Vanderlei Luxemburgo. Raramente o técnico deixava
de ouvir os conselhos do "guru". Foi assim no Palmeiras em 1993 e 1994, quando "Luxa"
alcançou vitórias nos campeonatos paulista e brasileiro, sendo a mais importante
conquista a do campeonato paulista de 1993 - o time não ganhava o título desde 1976. Ao
observar essa performance, não se pode deixar de notar o "arsenal religioso" colocado
em ação: muitas vezes o roupeiro do time, Chiquinho, surgia em campo com uma imagem
de Nossa Senhora Aparecida; na última partida do campeonato a equipe - que tem em
seu uniforme meias verdes - jogou de meias brancas; a mudança foi determinada por
Vanderlei Luxemburgo por orientação de Robério de Ogum.
Carlos César Sampaio, jogador do Palmeiras nessa época, era conhecido como “filho
de Deus”. Ele jogou na equipe de 1991 a 1994 e de 1999 a 2000, participando de muitas
conquistas e até do maior título que o Palmeiras já conseguiu, a Copa Libertadores da
América de 1999.
César Sampaio nasceu em uma família católica e tornou-se evangélico graças a palestras e
reuniões realizadas por Alex Dias Ribeiro e o pastor Johnny Monteiro para os jogadores do
Santos a partir do Natal de 1986. Alguns anos depois ele assumiu definitivamente a
condição religiosa. Hoje ele pertence á igreja Monte Santo, em São Paulo.240
Em uma entrevista dada em 1998, o atleta contou como um jogador deve agir: “Tem
que ser companheiro e honesto. Não existe pecadinho e pecadão. Omitir-se é um pecado.
Lembra do caso Maradona? Todo mundo disse 'o cara é drogado, deixa ele'. Mas
ninguém chegou lá e tentou ver qual era o problema, ninguém tentou ajudar”. Ele disse
também que na madrugada do jogo contra o Marrocos, na Copa do Mundo de 1998,
sonhou que um jogador do Marrocos fugiu de sua marcação e marcou um gol. Ele fez
240
NUNES, F. Atletas de Cristo: aproximações entre futebol e religião, op. cit., p. 97.
92
uma oração de manhã e ficou muito atento para isso não acontecer. César Sampaio foi o
líder evangélico do Brasil na Copa da França, baseando-se na leitura da Bíblia para
outros atletas.241
Os observadores europeus achavam que os encontros evangélicos contribuíam para
minimizar as tensões, ansiedades e as cobranças da imprensa brasileira. Em um dos
encontros dos Atletas de Cristo, foi abordada uma questão interessante e polêmica: “É
justo pedir a Deus a vitória contra o próximo?” Os textos bíblicos lidos admitiam a vitória
daqueles que se consagravam a Deus e que lhe rendiam honra e glórias excelsas. César
Sampaio sempre é fiel a Bíblia. Ele observa que, quando o emocional e o espiritual estão
preparados, o rendimento é melhor. Conclui dizendo que, em um momento difícil, a fé
sempre ajuda. Para o Movimento Atletas de Cristo, César Sampaio é considerado um
modelo.242 (ver anexo 10)
Em 1999 o goleiro do Palmeiras, Marcos, teve uma “oportunidade de ouro”. Ele era
considerado um bom goleiro, mas permanecia na reserva, pois o titular da equipe era
Veloso. Com a lesão que afastou Veloso da equipe, Marcos assumiu a camisa número 1
para nunca mais largar. A boa atuação naquele ano - e nos anos seguintes -, garantiram a
permanência e, também, o apelido de “São Marcos, o goleiro milagreiro”. No dia 27 de
abril de 2002, uma reportagem interessante foi publicada pelo jornal “O Estado de São
Paulo”. Ela mostrava o goleiro do Palmeiras, Marcos e, o goleiro do São Paulo, Rogério
Ceni, explicitando seus lados religiosos e supersticiosos.
Uma ilustração mostra o goleiro do Palmeiras fazendo o sinal da cruz em um de seus
jogos. Ele não esconde sua superstição pelo fato de entrar na área apenas com o pé
direito. “Se eu me esqueço e piso na área com o esquerdo, saio da área e entro de novo,
só que com o direito ou então algo de errado pode acontecer”. Marcos também é muito
religioso, não tirando nem em jogos nem em treinos os escapulários que carrega no
pescoço. Acredita que, com isso, tem proteção dos santos. O goleiro, que nasceu em
família católica, guarda em casa imagens de santos que ganhou de torcedores pelos
241
242
Ibid., pp. 97-98.
Ibid., pp. 99-100.
93
“milagres” que fez em 1999. Antes do início da partida ele se dirige à linha do gol e pede
proteção para todos os atletas.243
“Rezo, mas não do mesmo jeito que Ronaldo”. O polêmico goleiro que fez história no
Corinthians rezava estático sobre a linha do gol e beijava as traves. “As orações me ajudam
a manter a tranqüilidade e a não ter inveja de outras pessoas, como quando o goleiro
adversário faz grandes defesas”. Sua mãe, Antônia, freqüenta a igreja semanalmente.244
Rogério Ceni, como a maioria dos jogadores, tem uma supertição para a hora da
partida. “Entrar em campo com o pé direito, fazer o sinal da cruz e uma oração, deixar o
santo protetor de 'plantão’ ou usar medalhinha são algumas manhas do mundo do
futebol”. O amuleto do goleiro do São Paulo não chama muita atenção. Ele só entra em
campo calçando meia branca. Ele diz que não se sente bem com outras cores e que dela
não abre mão, pois esse uso lhe traz sorte. Rogério faz também o sinal da cruz e reza
antes de entrar em uma partida. Para ele, dependendo da fé que se tem, isso ajuda;
agora, se fizer por fazer...245
No dia 27 de abril de 2002 jogaram Palmeiras e São Paulo, times com atletas
religiosos dos dois lados. Uma regra diferente estava sendo testada nesse campeonato
paulista. Se o jogo terminasse empatado, quem tivesse menos cartões – amarelo ou
vermelho, com o cartão vermelho valendo mais que o amarelo – seria o vitorioso. O jogo
terminou 2 a 2 e a equipe de Rogério Ceni se classificou para a final por tomar menos
cartões. Marcos perdeu nesse dia, mas foi convocado para a seleção e, três meses
depois, se tornaria pentacampeão do mundo. “São Marcos” também repetia nos jogos da
seleção suas orações rápidas e fervorosas, erguendo as mãos sob o gol e rezando.246
(ver anexo 11)
Na disputa do campeonato brasileiro da série B, em 2003,247 o Palmeiras conseguiu,
com um elenco “médio”, a conquista do título e a volta para a primeira divisão. Foi um ano
duro para a torcida, que mostrou solidariedade comparecendo em grande massa em
243
Cf. MALUF. E. Marcos só entra na área com o pé direito e se ‘enfeita’ de escapulários. O Estado de São
Paulo, 27 de abril de 2002, E2.
244
Ibid.
245
Cf. HECICO, F. Rogério Ceni só entra em campo se estiver com meias brancas. O Estado de São Paulo, 27
de abril de 2002, E2.
246
Cf. MARCOS: O jogo vai começar. É hora de oração. O Estado de São Paulo, 24 de junho de 2002, E3.
247
O Palmeiras foi rebaixado para a segunda divisão em 2002. Exibimos um cenário “interessante” deste
episódio no subtítulo 2.4.1.
94
todos os jogos. O Palmeiras voltou à elite dentro de campo, ou seja, sem interferências
políticas. Nos gramados, porém, o time não abriu mão da crença no divino. Edmilson, o
autor do gol do título, disse que marcou um gol "Graças a Deus". Como já havia feito na
comemoração da Copa do Mundo, Marcos abraçou os companheiros e, com eles, rezou
ajoelhado no centro do gramado pela graça alcançada.248 O técnico Jair Picerni, discreto
em seu lado religioso, revelou que pretendia agradecer a boa campanha no Santuário de
Fátima, Portugal. Ele complementou dizendo que sempre visita a família de sua mulher,
que é portuguesa, e aproveita para rezar no local onde, segundo a tradição católica, três
pastores presenciaram a aparição de Nossa Senhora.249
No jogo em que o Palmeiras ganhou o título, a emissora Record, do bispo e fundador
da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, garantiu 40 minutos de liderança na
audiência (batendo a Rede Globo). Ao final da partida, porém, aconteceu uma cena
inusitada. Quando os jogadores do Palmeiras estavam reunidos no centro do campo
rezando o Pai Nosso250 e, em seguida, a Ave Maria, a emissora do bispo Macedo cortou a
transmissão – primeiro tirando o áudio e, depois, as imagens.
Não faltaram na comemoração atletas como o lateral-esquerdo Lúcio, que exibiu uma
camisa com a mensagem "Deus é fiel!!!". Bandeiras "religiosas", como uma com a
imagem de Nossa Senhora Aparecida (que esteve presente na campanha de 2002),251
também não faltaram. Da mesma forma, estiveram presentes torcedores rezando e
carregando imagens dos mais variados santos.
2.4.6 - São Paulo Futebol Clube
O São Paulo tem alguns atletas que se destacaram pelo seu lado religioso, como o já
citado Rogério Ceni, Márcio Araújo (hoje técnico de futebol) e Humberto (ex-atleta), entre
outros. No elenco do São Paulo de 2004 (que não deixou de fazer sua visita ao santuário
248
Cf. PARA Picerni, título vale mais do que um paulista. O Estado de São Paulo, 23 de novembro de 2003,
E2.
249
Cf. PICERNI prova ser vencedor e quer continuar o trabalho. O Estado de São Paulo, 24 de novembro de
2003, E5.
250
Cf. PALMEIRAS garante à Record liderança por 40 minutos. O Estado de São Paulo, 25 de novembro de
2003, D7.
251
Cf. ZUKERAN, V. Festa, goleada e final feliz para o Palmeiras. O Estado de São Paulo, 30 de novembro
de 2003, E6.
95
de Nossa Senhora Aparecida para receber sua benção), o lateral Cicinho era citado como
um exemplo de atleta evangélico comportadíssimo. Ele faz estudo bíblico e uma das
passagens da Bíblia que mais gosta é aquela que diz “nem só de pão viverá o homem”.252
Um atleta evangélico que também teve destaque no São Paulo futebol Clube foi Kaká,
negociado em 2003 e hoje atleta do Milan, Itália.
Kaká, um talento mais do que revelado, não teve muito destaque na Copa do Mundo
da Coréia-Japão, mas, diante da conquista, também se ajoelhou no gramado com seus
amigos de fé e de bola para agradecer a Deus. Seus pais são crentes e ele foi criado sob
princípios bíblicos. Sua chuteira traz a frase “Deus é fiel” e, diferente de outros atletas,
foge da badalação, procurando diversões mais “santas” em pizzarias e cinemas. Ele diz
que recebeu muitas bênçãos em sua vida e prefere ser reconhecido como crente por seu
testemunho. Ele é membro da Igreja Renascer em Cristo, freqüentando os cultos sempre
que possível. Quando se fala de namoro, Kaká diz esperar em Deus a pessoa certa. Kaká
diz também que sem fé é impossível agradar o Altíssimo e que, por isso, procura se
manter na presença de Deus, estudando sempre a Bíblia.253
Jorginho foi outro atleta evangélico do São Paulo (jogou na equipe em 1999). Foi
batizado na Igreja da Graça de Deus em 1986, por influência de um irmão que era
alcoólatra e que também havia se convertido. Ele diz que depois que “aceitou Jesus” tudo
mudou em sua vida, não só no futebol, mas na família também.254 Porém, nenhum atleta
evangélico do Tricolor do Morumbi teve tanto destaque quanto Silas e Muller. Silas
“aceitou Jesus” aos 15 anos, e entre os anos 1986-87, foi o cristão mais conhecido do
Brasil, segundo uma pesquisa encomendada pela Fundação Arthur S. De Moss.255
Através dos Atletas de Cristo, Silas consentiu em emprestar seu nome, sua imagem e seu
testemunho para a campanha de divulgação do livro Força para Viver. Três milhões de
cópias foram distribuídas de graça. Seiscentas mil pessoas escreveram de volta afirmando
ter se encontrado com Cristo como seu salvador ao lerem o livro.256
Silas diz que nas horas mais difíceis os companheiros procuram as pessoas para
saber mais sobre a palavra de Deus. Ele enfrentou também algumas gozações por ser
252
Cf. PAPAI do céu. Agora: Vencer, 16 de fevereiro de 2004, B14.
Cf. KAKÁ. Revista Eclésia, ano VII, n. 82, 2002, pp. 20-23.
254
Cf. RIBEIRO, A. Atletas de Cristo, São Paulo. 4ª ed. São Paulo, mundo cristão, 1995, 138 pp., 39-43.
255
Ibid., pp.33-34.
256
Ibid.
253
96
“santinho” demais e por não “chegar junto” nos adversários. Considera o futebol um dom
de Deus e acredita que terá retorno de tudo o que pedir a Ele. Segundo Silas, o futebol
também é um meio para falar de Cristo, pois ele conseguiu converter muitos atletas em
sua trajetória e também orou muito por todos. Além do testemunho dado nas
concentrações e campos, Silas pregava em várias igrejas.257
Muller, ao contrário da maioria dos jogadores que passam pelo processo de
conversão, nasceu em uma família evangélica, educado em uma igreja Batista de Campo
Grande, Mato Grosso do Sul. Ele é um jogador que começou bem a carreira de fé, mas
que teve muitos tropeços. Em 1986, já famoso, Muller decide abandonar o rigor
evangélico e passa a desfrutar dos “prazeres mundanos”, freqüentando lugares mais
badalados pelos jovens.
A situação trouxe alguns desconfortos para o Movimento Atletas de Cristo,
principalmente quando ele posou para uma foto em reportagem da revista Placar ao lado
de uma modelo da revista “Playboy”, Patrícia Paula. A reportagem trazia o sugestivo
título: “De atleta de Cristo a símbolo sexual”. A revista “Placar”, pouco tempo antes, havia
publicado uma matéria elogiando o Movimento. Muller era companheiro de quarto de Silas
na concentração e o episódio não abalou a amizade entre Muller e Silas. Ainda assim,
nas concentrações os dois deixaram de ficar no mesmo quarto.258
No dia 18 de dezembro de 1987 o jornal “Folha da tarde” estampou a seguinte
manchete: “Casamento sem Cristo – Muller, o Atleta de Cristo, preferiu deixar a igreja de
lado e apressar seu casamento com a ex-chacrete Jussara”.259 Ele teve dois filhos,
divorciou-se, reconciliou-se e passou a freqüentar várias igrejas até se fixar na
Assembléia de Deus do bairro do Bom Retiro. Em maio de 1993 Muller fez uma
autocrítica do tempo em que ficou “afastado de Jesus”; no mesmo ano se separou
Jussara, casando em seguida com Miriam, uma garota de 17 anos que havia conhecido
na Assembléia de Deus.260
257
Ibid., pp. 34-37.
Ibid., pp. 83-85.
259
Ibid., p. 88.
260
Cf. NUNES, F. Atletas de Cristo: aproximações entre futebol e religião, op. cit., p. 103.
258
97
Muller deixou Miriam em 1994 e voltou para Jussara. No mesmo ano foi expulso da
igreja por não seguir os conceitos bíblicos. Segundo um membro da Igreja, Muller teria
traído sua mulher, Miriam, com Jussara, ainda na lua-de-mel. Ele disse que casou com
Miriam para esquecer Jussara, mas descobriu que Jussara era a mulher de sua vida e
que acreditava no perdão dela e de Deus. Ainda em 1994, na Copa do Mundo,
freqüentava o grupo de Atletas de Cristo com os demais jogadores.261
Em 1998, quando Muller foi jogar no Cruzeiro, começou a freqüentar a Igreja
Pentecostal Portas Abertas, em Minas Gerais, sendo ordenado pastor evangélico no dia
08 de abril de 1999. A cerimônia contou com mais de dois mil evangélicos. Em 1999
Muller voltou a criar polêmica, dessa vez criticando o Movimento Atletas de Cristo na
revista evangélica “Vinde”. Ele disse que o movimento tem pessoas sérias, mas que só
serve para se promover e tirar dinheiro dos atletas. Na edição seguinte da revista, o
Pastor Nelson Bonilcar publicou uma carta em defesa do Movimento, lamentando o
espaço que a revista dava a pessoas imaturas como Muller, que opinavam levianamente
e diziam inverdades sobre o movimento e as pessoas envolvidas nele.262
Muller se transferiu para o Corinthians em 2000. A imprensa não deixou de exibir
manchetes como “O pastor da fiel” e “Muller chega para abençoar o timão”. Ele é um dos
poucos jogadores a jogar em todos times grandes de São Paulo. Jogou no São Paulo,
Palmeiras, Santos, Corinthians e também no São Caetano e Portuguesa, sempre com a
fama de "pastor da bola". Muller também construiu sua própria igreja no bairro de
Palmares, periferia de Belo horizonte, com o nome “igreja Pentecostal Vida com Deus”,
com capacidade para mais de mil pessoas, e que segue doutrina rigorosa.263
2.4.7 - Associação Desportiva São Caetano
No ano de 2000, apreciadores do futebol se surpreenderam com a ascensão de um
time até então desconhecido da maioria dos brasileiros, o São Caetano. O “azulão”, além
de apresentar um bom futebol, é um time simpático para todos, pois ainda não tem muita
tradição e demonstra características de um time bem administrado. Na edição de outubro
261
Ibid., pp. 103-104.
Ibib., pp. 104-105.
263
Ibid., p. 105.
262
98
a dezembro de 2001, a revista “A Bíblia no Brasil” publicou uma matéria com título: "Neste
time tem mais que futebol", relatando que a equipe do São Caetano reunia 14 jogadores
evangélicos que vinham conquistando vitórias e destaque no futebol nacional. A matéria
informava que esses atletas atribuíam seu sucesso à força da palavra de Deus.264
Tratava-se, segundo a revista, do clube que congregava o maior número de atletas
cristãos no país. Luciano Quadros, goleiro, diz que o São Caetano atrai atletas
evangélicos e que isso é muito bom o para o clube e para os torcedores porque todos são
muito unidos. Muller, atleta já citado, afirmou em sua primeira entrevista com a camisa do
azulão que o fato de poder se unir ao grupo de evangélicos pesou na decisão de deixar o
Corinthians.265
O grupo de evangélicos do São Caetano trabalha unido com todos os outros atletas, com a
equipe técnica e a diretoria, oferecendo o apoio da fé para que todos atuem com
profissionalismo, preservando o cuidado com o condicionamento físico e não deixando a
vaidade atrapalhar. “O importante é manter a união em todos os momentos, respeitando a
opinião do outro, seja em relação à fé ou ao trabalho. Isso acentua a vontade de dar o
melhor para a coletividade. Nós somos ativos, mas quem manda é o Espírito Santo”, afirma
Luciano.266
Luciano também relata como mergulhou na vida noturna e nas drogas, contando que
só se livrou do "mal" depois que conheceu sua esposa, a filha de um pastor. Ao conhecer
a Palavra, “aceitou Jesus” na mesma hora. Ele não nega que a fase de transição foi difícil,
mas diz que fez um pacto com Senhor e que, daí em diante, sua vida foi só de bênçãos.
Conclui dizendo que ele é uma vitória de Deus, pois estava perdido e Deus o tirou do
fundo do poço, e que é um exemplo do que Deus pode fazer por nós, tentando mostrar
aos outros muita paz e alegria.267
Wagner, outro atleta evangélico do grupo, dá um conselho: “Peça a orientação de
Deus e siga em frente”. Convertido ainda jovem, sentiu que Jesus o afastava das
tentações. Ele conclui dizendo que, com Cristo, passou a sonhar e a ter realizações tanto
profissionais quanto na vida pessoal. Ele se diz feliz mesmo nos momentos mais difíceis,
porque tem a Palavra ao seu lado.268
264
Cf. NESTE time tem mais que futebol. A Bíblia no Brasil, outubro a dezembro de 2001, pp. 25-27, p. 25.
Ibid.
266
Ibid., pp. 26.
267
Ibid., pp. 27.
268
Ibid.
265
99
Romualdo, centroavante da equipe, relata que encontrou um ambiente saudável e a
tranqüilidade que sempre havia buscado. Convertido pelas mãos de um amigo, diz que
teve uma vida de provações até encontrar a felicidade. Pensava que a igreja era "para
malucos", mas depois do desespero, de estar sem rumo, dinheiro e carreira, procurou a
Palavra e encontrou a paz. Ele se diz renovado e quer dividir as experiências com os
amigos.269
O atleta Magrão (não o que jogou no Palmeiras até 2005) diz que conheceu a
“Palavra” aos 17 anos, durante uma reunião de evangélicos no Palmeiras. Ele relata que
depende de Deus até hoje para suprir suas limitações e avançar com Sua benção tanto
na carreira quanto na vida pessoal. Ele atribui o fato de nunca ter passado por
dificuldades ao conhecimento da Palavra de Deus. Conclui dizendo que, quando sofreu
uma lesão no joelho, em 1997, a fé deu apoio e esperança para suportar a pressão e
tranqüilidade para suportar o sofrimento.270
Fabinho relata que, através de sua participação nas reuniões dos Atletas de Cristo,
Jesus mostrou o seu poder e ele acreditou. Para ele, o grupo de evangélicos do São
Caetano fortalece a equipe como uma família, unida nos bons e maus momentos. Conclui
dizendo que as reuniões não são obrigatórias. Elas acontecem às quintas-feiras e são
momentos em que os participantes renovam a fé e agradecem a benção de estarem
juntos fazendo o melhor pelo futebol e por suas carreiras.271
Em seus poucos anos de existência, o São Caetano “fez bonito”: além das conquistas
que obteve nas divisões de acesso, chegou em duas finais de campeonato brasileiro, em
2000 e 2001, sendo vice-campeão nos dois. Conseguiu também chegar à final da Copa
Libertadores da América, em 2002, obtendo outro vice-campeonato. A glória para a
equipe do ABC paulista chegou em 2004, quando ganhou o campeonato estadual. Os
torcedores e a imprensa desconfiavam da equipe, tida como "eterna vice-campeã". Esse
campeonato coroou a boa administração que ocorre em São Caetano. Para variar, lá
também estiveram presentes as manifestações de religiosidade.
269
Ibid.
Ibid.
271
Ibid.
270
100
Os atletas da equipe as demonstraram muitas vezes, como no segundo jogo da
semifinal, em que o time goleou o Santos por 4 a 0. Na comemoração de um gol,
Marcinho (que fez dois nesse jogo) correu pelo gramado acompanhado de outro atleta do
azulão, Mineiro, repetindo um gesto comum na "linguagem religiosa futebolística", ambos
apontaram as mãos para o Céu em agradecimento.272
Na partida final, quando o árbitro apitou o encerramento do jogo, o campo de futebol
se transformou em um “campo de milagres”. Não faltaram as camisas escritas “Jesus amo
você”, agradecimento a muitos santos e várias entrevistas emocionadas de atletas
lembrando o "nosso Deus". O goleiro Silvio Luiz (que era o goleiro titular da equipe
quando houve a matéria sobre os evangélicos da equipe, publicada pela revista “A Bíblia
no Brasil”, relatada anteriormente), jogador que disputou o maior número de partidas com
a camisa do São Caetano desde a sua fundação, era só alegria. Com a grande tatuagem
de Nossa Senhora Aparecida que carrega em suas costas, ordenou que todos
ajoelhassem e comandou uma vigorosa Ave Maria, gritando em ritmo quase militar - só
depois comemorou. Eram católicos e evangélicos em uma festa só, situação só vista,
nessa intensidade, no futebol. O que mais se via em campo, porém, eram as mensagens
na camisa dos atletas: “Deus é fiel!”. (ver anexo 8 – fig. 2)
2.5 – Conclusões ao capítulo
Neste capítulo, além de alguns aspectos sociais do futebol que foram mostrados e sua
relação com as equipes, nos propusemos a evidenciar as manifestações de religiosidade.
Pudemos perceber que no mesmo ambiente ocorrem manifestações variadas e que os
atletas emitem e recebem manifestações de outros atletas, dirigentes, torcedores e
demais adeptos.
Nosso interesse não foi mostrar que a fé pode ganhar ou perder um “duelo” - isto seria
impossível -, mas sim que ela entra em campo vestida de vários uniformes e, que, sob
eles, estão homens brasileiros. “Os brasileiros depositam maior confiança nos grupos
religiosos e igrejas para defender seus interesses na sociedade”.273
272
Cf. O NOME do jogo – Marcinho (à dir.) festeja gol do São Caetano; dos 4, ele fez 2 e armou 1. O Estado
de São Paulo, 04 de abril de 2004, Capa.
273
BRASILEIROS confiam mais em igrejas, ONGs e Exército. O Estado de São Paulo, 08 de novembro de
2002, A17.
101
Parlamento, grandes empresas, sistema educacional, justiça, entre outros, estão
desacreditados em diversas partes do mundo - no Brasil não é diferente. O futebol, como
fator de identidade nacional, é um grande negócio em nosso país. Ele surge como uma
forma de “fugir” dos problemas encontrados na sociedade. Quanto aos torcedores, ficam
algumas perguntas: Em que lugar eu posso gritar, xingar, sorrir, chorar e pular ao mesmo
tempo, sem ser chamado de louco? Em que lugar, depois de uma semana sofrida
agüentando o chefe ou qualquer outra pessoa, eu posso extravasar meus sentimentos
sem ser repreendido? Em que lugar da sociedade eu posso mudar algo apenas com o
meu grito, como pedir a saída de um técnico que não cumpre direito seu papel? Apenas
concluindo: o gol e a vitória da equipe fazem crescer as emoções, os sentimentos
religioso e de pertença nos torcedores.
Em relação aos atletas, as incertezas, o medo, as indefinições e as pressões que
sofrem no dia-a-dia, principalmente nas equipes de nosso objeto de estudo, os fazem
mais “expostos”. As equipes são instrumentos de “adoração”, podendo existir o “amor” e o
“ódio” em um piscar de olhos. Isso faz com que o jogador, o "herói", viva em uma situação
de risco constante. Essa situação faz com que o atleta busque individual ou coletivamente
alternativas para resolução dos seus problemas.
O futebol reflete a profundidade, a diversidade da fé brasileira; reflete, também, a luta
necessária para conseguir espaço e afirmação, mais difícil em um país de desigualdades
sociais. A concorrência é grande em todos os setores, o perigo existe e estamos em
“risco”. Esse fator será explorado no quarto capítulo, depois de mostrarmos como foi
edificada nossa pesquisa de campo.
102
3 – CONSTITUIÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA
“O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído.
O acaso vai me proteger enquanto eu andar (...)”.
(“Epitáfio”, Titãs)
3.1 – Considerações preliminares
Nosso trabalho de campo esteve voltado ao entendimento dos motivos que levam
atletas e integrantes de comissões técnicas a praticar, manter ou tecer considerações
sobre as manifestações de religiosidade no ambiente do futebol. Para isso, dividimos
nossa ferramenta de pesquisa em três questionários: um direcionado à direção do clube,
para obter os dados institucionais e do elenco no momento da pesquisa; outro, voltado
aos dados pessoais de cada atleta e de cada integrante de comissão técnica participante
da pesquisa, com o objetivo de traçar o perfil social; e um último questionário, com
perguntas direcionadas aos atletas e integrantes de comissões técnicas, buscando
compreender como eles interpretam a religiosidade no futebol.274 Pontuamos apenas as
questões que nos permitem fazer uma leitura fiel das manifestações de religiosidade no
futebol profissional paulista.
3.2 – Universo e limites da pesquisa
Como o leitor já sabe, as equipes de nosso universo de pesquisa são Sport Club
Corinthians Paulista, Santos Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras, São Paulo
Futebol Clube e Associação Desportiva São Caetano. Estivemos em contato com 20
personagens do ambiente do futebol - 13 atletas e 7 integrantes de comissões técnicas. A
pedido dos entrevistados, não indicaremos seus nomes – utilizaremos apenas suas
iniciais - e nem revelaremos os clubes, pois, como observado, nosso principal objetivo é
compreender como os profissionais interpretam a religiosidade no futebol. Outro motivo
que nos leva a não revelar o nome das entidades e entrevistados é o “trânsito” existente
entre atletas e integrantes de comissões técnicas nas equipes de nosso objeto de estudo.
274
Questionários aplicados disponíveis no anexo 12; Carta de apoio disponível no anexo 13.
103
3.2.1 – O perfil religioso dos clubes
O primeiro questionário abordou os dados da equipe. Como resultado dessa
indagação, não houve dificuldades em detectar que todas as equipes possuem um santo
protetor ou padroeiro, bem como uma capela ou, pelo menos, um nicho apropriado para
prática de oração ou homenagem a esses santos. (ver Quadro 1).
O protetor genérico dos atletas é São Cristóvão - também considerado, no Brasil,
como padroeiro dos motoristas e dos viajantes. O santo protetor “corintiano” é São Jorge
Guerreiro, um dos santos de maior devoção no Brasil. Sua presença vai além do
Catolicismo popular - na Umbanda, ele é identificado com Ogum, orixá vencedor de
demandas, protetor da casa e dos filhos.275 Os padroeiros do São Paulo e o São Caetano,
como os próprios nomes indicam, são os santos que lhes dão nome. No caso do
Palmeiras não há uma indicação de caráter oficial, mas, em nossa pesquisa, detectamos
uma preferência por Santo Expedito. Nossa Senhora do Monte Serrat é protetora da
275
São Jorge Guerreiro na Umbanda. Disponível em: <http://www.edeus.org/port/UmbandaBR.htm> Acesso
em 20 de maio de 2005.
104
cidade de Santos e, também, da equipe. Vale observar, ainda, a existência – em alguns
casos – de uma “preferência política” por algum santo, decorrente da crença de uma
pessoa influente na equipe (dirigente ou formador de opinião). Nossa Senhora Aparecida
também é cultuada/venerada por muitos.
Detectamos, também, a mobilidade das equipes em relação aos uniformes,
relacionada à mudança de patrocinadores e fornecedores de material desportivo. Da
mesma forma, os times sofrem os efeitos de uma poderosa dinâmica transformadora em
relação ao elenco (jogadores e equipe técnica). Diante desse fato, o atleta M.S.
(evangélico), relata que sempre fica ansioso quando o técnico vai convocar os jogadores
para determinada partida276:
A oração de ontem me ajudou. Eu não estava sendo convocado e Deus fez um milagre.
Orei. Pedi: ‘Senhor, quero ir para o jogo, eu quero ir’. Daí o senhor tirou um [outro
jogador] e eu estou convocado hoje para honra e glória no Senhor.
Também são comuns rituais de religiões Afro-brasileiras nos campos de futebol.
Questionado a respeito dessa presença religiosa, o integrante de comissão técnica e exjogador de futebol V.M. (espírita), relata que:
O time não vinha bem. Chegamos de manhã para treinar e, quando entramos no campo,
ele estava cheio de coisa – sal grosso, velas e muitas coisas mais. Tinha que pisar ali,
não aqui. Foi muito estranho. Mais tarde descobrimos que o treinador da equipe tomou
esta medida como forma de se proteger e de nos proteger. Mas não acredito e não
acreditava que aquilo poderia proteger o clube.
3.2.2 – O perfil social dos entrevistados
No segundo questionário, nos preocupamos em traçar o perfil social dos
entrevistados. Em relação à escolaridade, a presença de graduados em nível superior é
maciça entre os integrantes de comissões técnicas e pouco expressiva entre os
jogadores. A prevalência, entre os jogadores, é de graduados no ensino médio. Ainda
assim, o número de jogadores com menor nível de instrução (ensino fundamental
concluído) foi bastante expressivo, tendo chegado a cerca de 1/3 do total (Tab. 1).
276
Sempre nas partidas é selecionado um determinado número de jogadores e, no vestiário, o técnico decide
quem vai para o jogo, quem vai para o banco e quem vai ser cortado daquela partida.
105
Tabela 1
Nível de instrução
Ensino Superior
Ensino Médio
Comissão Técnica
Atletas
7 (100%)
1 (8%)
Zero
8 (61%)
Ensino
Fundamental
zero
4 (31%)
Dezesseis entrevistados eram casados (com variação na composição familiar) e, em
relação à moradia, os mais velhos relataram morar em casas próprias e os mais jovens
em casas alugadas ou cedidas pelos clubes. A maioria dos entrevistados – dezessete informou estar em uma faixa de renda compatível à da chamada “classe média alta” (mais
de R$ 3000,00); os outros três entrevistados informaram receber salários entre R$ 500,00
e R$ 3000,00 (classes “média” e “média baixa”).277
Houve uma tendência, entre os entrevistados, de afirmar ser de “classe média” antes
da prática do futebol e, depois de atuar no futebol profissional, ingressar na “classe alta”
(classificação determinada pelos próprios entrevistados).
3.2.3 – O perfil religioso dos entrevistados
O terceiro questionário, que diz respeito à religiosidade dos profissionais de futebol, foi
composto pelas seguintes perguntas:
1 - Você pertence a alguma religião?
2 - Esta religião foi adquirida em que fase de sua vida?
3 - Existe tempo para ir às celebrações de sua religião? Com qual regularidade freqüenta?
4 - Qual a relação que você vê entre futebol e religião? Se não vê esta relação diga o
porque?
5 - Como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com o grupo?
6 - Você pratica algum ritual antes de entrar em um jogo?
7 - A sua equipe possui algum ritual antes de entrar em um jogo?
8 - Você se lembra de algum jogo seu que foi decidido com alguma força sobrenatural, que
você atribua a Deus?
9 - Vocês perdem e ganham; são ajudados ou prejudicados pelos árbitros; sofrem lesões e
podem machucar alguém; são elogiados ou vaiados pelos torcedores. Lembrando destes
fatores, qual a importância da religião para o atleta, já que de um jogo para outro sua vida
pode mudar? Você acha que a religião é um fator a mais para a melhora de rendimento?
Ela ajuda no equilíbrio?
277
A classificação econômica por nós adotada segue orientação do professor Waldir Quadros, do Instituto de
Economia da Unicamp. Entrevista com o professor disponível em:
<http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/novembro2004/ju274pag05.html> Acesso em 31 de maio
de 2005.
106
10 - O que você acha desta reportagem dizendo que o time do São Caetano tem mais que
futebol, que reúne jogadores evangélicos e a equipe vêm conquistando vitórias e destaque
no futebol nacional. Eles atribuem o seu sucesso à força da palavra de Deus? (out a dez
de 2001 – A bíblia no Brasil). Qual a relação que você vê entre o sucesso da equipe e a
palavra de Deus?
11 - O que você acha desta fala do Padre Marcelo Rossi: “A espiritualidade é muito
importante para o atleta. Se ele vai bater um pênalti e está bem espiritualmente, não vai
errar. Quem tem fé tem índice maior de acerto”. (Folha de São Paulo, 07/11/ 2002). Você
acha que o Padre Marcelo Rossi tem razão?
12 - Lendo esta notícia: “Foi à missa e voltou convocado”, relacionado ao fato do meio
campista Ricardinho, ao sair de uma celebração, receber a notícia que foi convocado para
a seleção na vaga de Émerson. Qual a relação que você vê entre ir a missa e a
convocação para a seleção?
13 - Como você interpreta a fala do atleta ruço, ex-meia corintiano: “Deus olhou aquela
torcida”, sobre a semifinal do campeonato brasileiro de 1976?
14 - Frei Felipinho, era um torcedor fanático do Corinthians. Quando dois jogadores
morreram e ele ficou mais preocupado com o desfalque no time, passou a torcer contra
como penitência.(Revista Já, Diário de São Paulo, Até Santo corre atrás de bola, 26/03
2002). Em sua opinião, a paixão por um clube pode fazer um atleta, um técnico ou um
torcedor colocar este clube acima de sua religião existindo assim uma inversão de valores
e não havendo bom senso em atos?
15 - Como você interpreta a oração que os atletas do Santos fizeram logo após a partida
que foram derrotados pelo Boca Juniors na final da Copa Libertadores da América de
2003?
16 - Qual a importância para você de receber o apoio de um Pastor, Padre, Pai de Santo
ou qualquer outro líder espiritual?
17 - Qual a maior conquista em sua vida?
18 - Qual a maior derrota em sua vida?
19 - Qual seu livro de cabeceira?
20 - Você pratica alguma caridade?
21 - O que pretende fazer após o término de sua carreira como jogador de futebol?
22 - Você tem alguma história interessante relacionada ao aspecto religioso no futebol?
Mostraremos a seguir uma tendência geral e, em seguida (em subtítulos específicos),
apontaremos as inclinações mais específicas referente às questões, subdivididas entre
integrantes de comissão técnica e atletas. Também subdividimos o questionário. A
primeira parte vai da questão 1 até a 8; a segunda parte da questão 9 até a 16; e a última
parte da questão 17 até a 22. Sendo que a primeira parte aborda a religiosidade individual
dos entrevistados, a segunda refere-se à opinião dos entrevistados sobre a presença da
região entrelaçada ao futebol e, a última parte, ao modo de viver e histórias dos
entrevistados.
3.2.3.1 – Religiosidade Pessoal
À questão “Você pertence a alguma religião?”, todos os entrevistados responderam de
forma afirmativa, sendo que nove se denominaram católicos, sete evangélicos e os outros
quatro espíritas.
107
Os companheiros de equipe desempenham um papel importante na adoção religiosa
dos entrevistados: oito deles disseram ter sido “apresentados à religião” por outro atleta.
Os outros doze disseram seguir a religião de seus pais. A freqüência dos entrevistados às
cerimônias de suas religiões mostra a importância do elemento institucional: dezoito
informaram freqüentar o templo ou local de culto/cerimônias a intervalos que variam entre
uma vez a cada quinze dias e até três vezes por semana. Apenas dois entrevistados
disseram não ter tempo para participar de cerimoniais de caráter institucional.
Interrogados sobre a existência de uma relação entre futebol e religião, dezoito
disseram acreditar que ela é forte e importante; os demais disseram não haver nenhuma
relação. Sobre a interferência da religião em seus relacionamentos, as respostas foram
das mais variadas: uns disseram que ela “dá mais equilíbrio”, outros que “melhora a
conduta” e outros, ainda, que ela pode ajudar e/ou atrapalhar. Responderam também que
“Jesus faz a diferença” e que a religião “melhora a vida em tudo”. Todos mencionaram
que suas equipes possuem rituais prévios à entrada em campo (nos jogos e não nos
treinamentos) – dezoito dos entrevistados informaram participar de tais cerimônias. Um
não especificou o ritual praticado, mas dezenove deles informaram que rezam o “Pai
Nosso” e a “Ave Maria”, com algumas modificações na maneira de realizar a oração.
Uma crença significativa na possibilidade de intervenção divina no desfecho de
partidas de futebol foi detectada por meio da pesquisa: treze entrevistados disseram
acreditar que algum dos jogos de que participaram foi decidido graças à intervenção
divina; dois disseram acreditar em tal possibilidade (disseram, também, que os resultados
decorreriam da “vontade de Deus”) e cinco disseram não acreditar.
3.2.3.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
A religião funciona como apoio ao desempenho profissional. Questionados sobre o
papel da religião como fator de reforço ao rendimento, todos os entrevistados disseram
acreditar nessa hipótese (o grau dessa crença, porém, variou entre os participantes da
pesquisa). As respostas indicam crença no papel da religião para o “equilíbrio pessoal”,
para o rendimento e para a postura diante dos acontecimentos em campo, assim como
para o conforto existencial.
108
O papel da “palavra de Deus” foi considerado relevante para o sucesso da equipe:
doze entrevistados afirmaram que a palavra de Deus e o treinamento são importantes;
outros responderam não haver relação nenhuma; outros, ainda, disseram também que só
o treinamento é importante e que, para vencer na vida, “tem que ter Deus no coração” e
freqüentar alguma igreja. Outras respostas, menos expressivas, também foram
detectadas. Questionados sobre se a fé implica em um índice maior de acertos em
campo, três disseram que sim, três disseram que não; sete informaram que fé e
treinamento ajudam, um que é possível errar e acertar e seis que o ideal seria substituir a
palavra “fé” por “confiança”.
Em princípio, a participação em cerimônias religiosas (“missa”) não é considerada um
fator propiciatório para a convocação à seleção brasileira: segundo treze entrevistados, o
atleta só “chega lá” se estiver devidamente preparado; outros cinco disseram não ver
nenhuma relação entre a missa e a “camisa verde e amarela” (ao todo, portanto, 18
entrevistados expressaram sua crença na capacidade individual como motor para a
convocação à seleção). Os outros dois disseram, talvez “diplomaticamente”, que “tudo
que pedimos com fé, Deus nos dá”.
Perguntados sobre se Deus “olha” por alguma torcida, as respostas também foram
variadas. Os entrevistados responderam que “as pessoas têm o direito de criar as
imagens que quiserem”, que “Deus olha para quem está no seu caminho”, que “Deus olha
por todos”, que “quando se pensa positivo as coisas acontecem com mais facilidade” e
que “sempre se realiza a vontade de Deus”.
Na questão referente ao clube estar acima de sua religião, responderam que “Deus
deve estar em primeiro plano”, que “depende da relação existente entre religião e clube”,
que “deve que haver equilíbrio entre as ações” e, também, que “toda paixão preocupa”,
“tudo que extrapola é negativo, no futebol e fora dele”. Sobre orações realizadas dentro
de campo após uma derrota, alguns disseram que era uma forma de agradecer pela
campanha, outros que deveria ocorrer nos vestiários, como em todos os jogos, que é um
conforto coletivo, uma demonstração de que se deve orar nas derrotas e nas vitórias e,
também, que essa manifestação religiosa é uma forma de mostrar para a imprensa que o
grupo está unido.
109
Sobre a questão referente à importância de receber apoio de líderes espirituais, eles
disseram que “também é importante cuidar do lado espiritual”, que “não dá para provar
que eles ajudam”, que esses líderes “não tem importância nenhuma”, que os jogadores
“precisam de palavras de conforto”, que “precisam de proteção”, que “toda ajuda é
benéfica” e que “os líderes religiosos dão orientação, pois têm mais conhecimento [da
religião, de Deus] do que eles”.
3.2.3.3 – Vida, perspectivas e história
As respostas também foram diversas quanto à maior conquista em suas vidas: alguns
responderam que foi conhecer Jesus, que são seus filhos, a família, ser atleta
profissional, ter fé nas coisas e trabalhar com futebol profissional. Sobre a maior derrota,
tivemos como respostas “ter que deixar os pais muito cedo”, “fracasso na família”, “que tal
fracasso nunca existiu”, que “Deus sempre prepara o melhor”, que “de tudo tiramos algo
de bom”, que foi o falecimento do pai ou ter que deixar o futebol profissional.
A Bíblia é o livro de cabeceira de oito dos entrevistados, assim como livros
relacionados à profissão e ao espiritismo, assim como jornais. Alguns dos entrevistados
informaram não ter o hábito de ler. Dos entrevistados, dezenove informaram praticar
algum tipo de caridade. Todos os entrevistados têm alguma história interessante
relacionada ao aspecto religioso no futebol. Sobre o término de suas carreiras, uns
pretendem seguir carreira política, outros a de pastor evangélico, professor de Educação
Física, trabalhar com futebol profissional e mesmo, trabalhar com informática.
3.2.4 – Os integrantes de comissão técnica
3.2.4.1 – Religiosidade Pessoal
Todos os integrantes de comissão técnica disseram pertencer a uma religião. A
predominância é dos católicos, em que quatro se denominam, dois são espíritas e um
evangélico. Quanto ao primeiro contato com a religião, dois tiveram um primeiro contato
com algum companheiro de equipe e cinco receberam sua religião como herança familiar,
sendo que seis deles freqüentam as celebrações e um disse que não dispõem de tempo
para ir. Apenas um entrevistado relatou freqüentar uma vez a cada quinze dias, dois que
110
vão muito pouco e outros três que comparecem sempre que podem. Também só um
disse que vai de duas a três vezes por semana. Referente a esta questão, M.A. (católico),
nos diz que: “Existe, mas não freqüento com regularidade. Freqüento quando posso.
Quando viajo ou estou em cidades diferentes. O mais importante é orar, é estar perto de
Deus”.
Indagados sobre a relação existente entre futebol e religião, três disseram que não há
nenhuma relação, os demais acreditam que há uma relação importante. M.A. relata a
seguinte opinião a respeito desta questão:
Nenhuma [relação]! Não gosto da aproximação. Inclusive, digo que são coisas distintas.
O esporte é o esporte, como o nascimento das pessoas: ninguém define o que elas vão
escolher. Cada setor tem sua hora de importância. Eu gosto de ter minha hora de
oração. Em comunhão, os atletas às vezes rezam, seja qual for sua religião. Até prefiro
que seja isoladamente e, não consigo enxergar a participação da religião em sua
profissão. É uma coisa individual e não podem ser misturadas.
Também sobre esta questão, V.M. relatou:
O futebol é gerado por muita crença e misticismo. O jogador coloca a religião bem perto
do futebol. Se não existisse relação entre futebol e religião, os jogadores poderiam fazer
a oração individualmente, mas fazem coletivamente em busca de um objetivo.
Sobre como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com o grupo, três
disseram que ela pode ajudar e atrapalhar, outros três relataram que ela dá mais
equilíbrio e um disse que ela dá mais tranqüilidade. S.R. (católico) relata:
Fé é algo que a gente tem e às vezes podemos dividir com as pessoas, mas é uma
coisa muito particular. Com a relação ao grupo, não tem interferência nenhuma, mas
procuro seguir os preceitos de não prejudicar ninguém e sempre agir com honestidade.
Isso talvez não esteja ligado á religião, talvez seja uma questão de caráter.
C.M. (espírita) relatou:
Pessoalmente de forma positiva. Com o grupo, ela da equilíbrio para se relacionar, não
que a religião determine um tipo de relacionamento, mas você tem um equilíbrio, algo
que melhora o relacionamento.
A realização de rituais propiciatórios e/ou de proteção é predominante: seis dos
entrevistados informaram participar de tais rituais; o outro informou não praticar nenhum
111
ritual. Todos admitiram, porém, que há um ritual em sua equipe antes de entrar em
campo, sendo que cinco relatam que é rezado o Pai Nosso e uma Ave Maria; dois
observaram que católicos rezam o Pai Nosso e uma Ave Maria e os evangélicos fazem
orações diferentes. Sobre esta questão, A.A. (católico) relata:
Todo time faz ou tem uma oração. Não dá para falar de futebol e não ter uma oração no
vestiário antes de um jogo, todo mundo de mão dada, às vezes com a Santa [imagem]
no meio da roda. Isto vem desde as categorias de base.
Na questão referente à possibilidade de algum jogo de que participaram ter sido
decidido com auxílio de uma força divina, quatro disseram que não se lembravam, um
disse que pode ter acontecido e dois disseram que se lembravam de tal ocorrido. Diante
desse assunto, M.A. diz: “Sinceramente, não. Eu já perdi e ganhei muitas vezes. Nestas
vezes, a gente sempre pede alguma coisa e sabemos que Deus não está preocupado
com resultado de jogo”.
3.2.4.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
Na questão: Você acha que a religião é um fator a mais para a melhora de
rendimento? Ela ajuda no equilíbrio? Todos acreditam que a religião ajuda no equilíbrio.
M.A. relatou para nós:
Ela ajuda no equilíbrio, na compreensão das doenças, na fase difícil, nas lesões, nos
afastamentos, na pouca importância que o atleta tem muitas vezes no início de carreira.
Ela pode reforçar a busca, a luta, o envolvimento. Mas eu não vejo que ela pode mudar
as coisas. Eu acho que as pessoas têm que fazer mudar. Ela pode estar apoiada na
religião, mas não acredito que a religião ou a fé mude categoricamente um resultado de
jogo. Até porque todos merecem as mesmas coisas, uns mais, outros menos. Mas não é
no jogo que isto vai ser decidido.
Na mesma questão, A.A. relata:
A religião ajuda ter uma postura melhor e o atleta não extravasa. Os religiosos,
principalmente os evangélicos, não bebem, não fumam, não abusam. Assim, estão
melhores preparados para os treinos e os jogos, pois não ter vícios melhora o
rendimento, além do equilíbrio que é comum a religião trazer para as pessoas.
Sobre a relação entre a palavra de Deus e o sucesso da equipe, um disse que não há
nenhuma relação, outro que o treinamento é que é importante, dois relataram que há uma
112
boa relação e três dizem que a palavra de Deus e o treinamento são importantes. S.R.
nos disse:
No aspecto equipe eu não atribuo nada. Eu acredito no seguinte: quando há um grupo
que tenha uma predominância maior, principalmente em termos de união e princípios,
você acaba tendo muitos fatores que se agregam, que vão somando no âmbito do
relacionamento. Mas não atribuiria isso só à religião. Eu atribuiria à combinação melhor
entre um atleta e outro. Talvez um acredita no outro, sente mais confiança no outro. Isso
tem um resultado psicológico melhor.
C.M. relata: “O sucesso vem de cada um, não de Deus e, as pessoas tendo um
objetivo em comum, se unem mais para alcançá-lo”.
Sobre a questão referente à possibilidade de índice maior de acerto entre os
profissionais que têm fé, três informaram que não; três disseram que, em relação à
pergunta, seria melhor substituir a palavra “fé” por “confiança” e um disse que fé e
treinamento ajudam. M.A. relatou:
Ele tem que substituir a palavra fé por confiança. Confiança é uma coisa diferente.
Confiança é a pessoa estar equilibrada, é estar bem consigo mesma. E isto pode estar
relacionado à religiosidade, à fé, ao bem estar psico-social, mas não acho que a fé que
faz isso. A fé está incluída num destes setores. E ela cabe em um pedacinho, em uma
fração de várias, de inúmeras variáveis que tem o comportamento humano. Estar bem
relacionado com a família, ter saúde em casa, ter treinado bastante e ter se envolvido.
Tudo isso faz você não errar. A fé é um pedacinho disso.
V.M. diz:
Se isso fosse verdade, as pessoas religiosas nunca errariam pênalti. Era para João
Leite, goleiro e um dos fundadores dos Atletas de Cristo, ter pegado todos os pênaltis
em sua carreira.
Sobre a relação “ir à missa” x “convocação para a seleção”, quatro dizem que o atleta
se prepara para isso e os demais dizem que não há relação nenhuma. M.A. opina:
“Nenhuma [relação]. Até pela convocação do Ricardinho ser por uma lesão do Émerson.
Será que Deus machucou o Émerson para o Ricardinho ser convocado? De jeito
nenhum”.
Perguntados sobre se Deus olha por alguma torcida, quatro relataram que Deus olha
por todos, um que quando se pensa positivo as coisas acontecem com mais facilidade,
um que o atleta disse isso porque sempre teve fé e outro disse que as pessoas têm direito
113
de criar as imagens que quiserem. C.M. diz: “O que levou a torcida ao estádio foi a falta
de título. Deus olhou por aquela torcida, como olharia e olha por qualquer outra”.
“Deve haver equilíbrio entre as ações” foi a resposta de três dos entrevistados das
comissões técnicas em relação ao questionamento sobre se o clube pode estar acima de
sua religião; um disse que “depende da relação existente entre clube e religião” e outros
três responderam que “toda paixão preocupa, tudo o que extrapola é negativo, no futebol
ou fora dele”. A.A. disse para nós:
Nós presenciamos todos os dias – dentro e fora dos estádios – brigas e agressões. O
torcedor coloca a paixão acima de qualquer coisa. Principalmente se não for religioso.
Colocar o time acima de tudo, só se o atleta, torcedor, não tiver fé!.
C.M. opina:
Sim, principalmente os torcedores, pois os mais fanáticos deixam de lado algumas
coisas, a própria vida familiar. Eles torcem muito pelo clube. Até por carência em algum
setor da vida. Ele tem aquilo como uma fuga, principalmente as torcidas organizadas. Os
companheiros de torcida passam a ser a família destes e até o clube fica em segundo
plano.
Sobre orações feitas no campo após uma derrota, dois disseram que é uma forma de
agradecer pela campanha, um relatou que deveria ser feita no vestiário - como em todos
os jogos -, um disse que não é normal fazê-la no campo, dois que é uma forma de
conforto coletivo e um disse que foi uma forma de ganhar força e mostrar para imprensa a
união do grupo. S.R. relata:
Tudo é em pró do bem, da amizade e da luta que eles tiveram e não conseguiram ser
recompensados. Talvez foram compensados espiritualmente, porque cumpriram o dever
como jogador, não por ter jogado uma boa partida ou não, mas eles chegaram à um
objetivo, que era a final da libertadores. Foi um agradecimento que todos têm que fazer.
V.M. nos disse: “Foi um momento de ganhar forças após uma derrota. De mostrar
para a imprensa que todos estavam bem”.
Receber apoio de algum líder espiritual é importante? Nesta questão, dois
responderam que é de muita importância, pois precisam cuidar também do lado espiritual,
um relatou que não é possível provar se eles ajudam, outros dois lembraram que eles
114
precisam de conforto coletivo, um que precisam de proteção e um disse que toda ajuda é
benéfica. Diante disso, M.A. relata:
Quando nós estamos frágeis qualquer conforto é bom. Quando se é pequeno, é a mãe e
o pai. Quando a gente perde a mãe e o pai, substituímos pela esposa e filhos. Quando a
gente perde tudo e não acredita em ninguém, nós buscamos um líder religioso. Seja ele
quem for.
A.A. opina:
Uma vez em um clube, vinha em uma seqüência de maus resultados. Chamaram uma
moça que diziam ter poder. Tudo que vem para trazer a paz é benéfico, mas não muda
resultado do jogo. Só da tranqüilidade e união.
3.2.4.3- Vida, perspectiva e história
Sobre a maior conquista em suas vidas, um disse ser conhecer Jesus, um disse que
são seus filhos, dois que é a família, um que é a família e ser atleta profissional, um ter fé
nas coisas e poder ajudar os outros e sua família e um trabalhar com o futebol
profissional. Sobre a maior derrota, um relatou ser fracasso na família, um disse que ela
nunca existiu, outros três disseram não haver - pois de tudo se tira algo de bom -, um que
foi o falecimento do pai e outro ter que deixar o futebol profissional.
Para dois dos entrevistados, não há livro de cabeceira; um informou que é o livro de
sua profissão, um que é jornal, um disse ser a Bíblia ou qualquer livro de espiritismo, um
que é a Bíblia e um disse ser “A arte da Guerra”, obra escrita pelo estrategista militar
chinês Sun Tzu por volta de 400 a.C.. Em relação à prática de caridade, seis disseram
praticar, um não. Todos têm alguma história interessante relacionada ao aspecto religioso
no futebol e todos, também, disseram que pretendem trabalhar com futebol profissional
pelo resto de suas vidas. Entre muitas histórias interessantes, M.A. nos disse:
Não valorizo muito isso, mas tem uma história interessante relacionada à volta aos
gramados do atleta C. em uma partida que não era para ele jogar. Ele teve uma
contusão, teve uma doença. Ficou quase um ano e meio parado. Nós fomos à Aparecida
fazer um jogo treino e ele voltou naquela partida, sem haver expectativa. E aí eu usei um
pouco daquele simbolismo para reforçá-lo. Foi uma coisa de fé, sem dúvida, mas antes
de tudo nós aproveitamos aquela mística do cenário de Aparecida para colocá-lo em um
momento que ele não esperava. Porque eu precisava de um apoio maior. Aí eu digo: eu
perdi todos os apoios, as referências e alcancei os resultados. Ele voltou a jogar. Nós
depositamos aquela camisa na sala dos milagres de Aparecida e ele voltou a ser um
115
grande atleta. Voltou a jogar brilhantemente e tudo mais. Eu, na verdade, aproveitei
aquela estadia lá e usei a religião para apoiar o atleta. Foi a comunhão de um trabalho
bem feito com o apoio que a gente precisava naquele momento. Então até hoje eu me
lembro deste dia que foi marcante e, a partir daí, tudo deu certo. Foi um milagre? Não,
não foi um milagre! Nós estávamos fazendo as coisas como deveriam ser feitas. Houve
apoio? Houve apoio imenso da religião! Porque ela nos ajudou a ultrapassar uma
barreira que era o choque do retorno. Então eu sou muito grato, na minha fé católica, por
aquele dia, mas eu acho que foi uma comunhão de fatos que deixou a situação positiva.
3.2.5 – Os atletas
3.2.5.1 – Religiosidade Pessoal
Também em uma análise mais específica, todos os atletas pertencem a uma religião.
Seis se denominam Evangélicos, dois Espíritas e cinco Católicos. Quanto ao primeiro
contato com a religião, seis o tiveram por meio de um companheiro de equipe e sete
receberam sua religião como herança familiar, sendo que todos eles freqüentam as
celebrações; seis relataram que freqüentam sempre que podem e sete de duas a três
vezes por semana. Diante desta questão, R.J. (espírita) relata: “Penso e aprimoro dia a
dia. Freqüento 2 a 3 vezes por semana e sempre ascendo algumas velas”.
Indagados sobre a relação existente entre futebol e religião, dez disseram que há
“uma relação importante”, um que há “uma relação forte”, um que não há nenhuma
relação e outro, “que tem tudo a ver”. R.J. disse:
Uma relação forte. Principalmente o goleiro, pois tem uma responsabilidade muito
grande e trabalha com a perfeição. Então quando você erra ou tem alguma falha, você
procura resposta em tudo: Por que eu errei? Por que eu falhei? Se eu trabalhei a
semana inteira como eu errei? Mas como seres humanos, somos passíveis de erro.
Religião e futebol caminham juntos, paralelamente. Para achar respostas e ter conforto
em muitos segmentos da vida, temos que ter religião.
Também sobre esta questão M.S. (evangélico) relatou:
Uma relação muito importante, porque o futebol tem dois caminhos: ou você vai pelo
caminho diferente, mal, ou vai pelo caminho da religião. Na verdade, não existe religião
para mim. O único caminho é Jesus, que é caminho verdade e vida.
Sobre como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com o grupo, dois
relataram que ela “dá mais tranqüilidade”, um que ela “ajuda em tudo”, seis que ela “ajuda
116
de forma séria”, três “que melhora a conduta” e um “que Jesus Cristo faz a diferença”.
R.T. (evangélico) relatou para nós:
De forma muito séria. Todos os dias leio a Bíblia, procuro saber bastante da palavra de
Deus e faço minhas orações. Quanto ao nosso grupo também. Fazemos orações em
grupo, tem o pessoal que freqüenta a igreja e procuramos saber bastante da palavra de
Deus.
Algum ritual antes de entrar em um jogo é realizado por doze dos atletas; um informou
não praticar nenhum ritual. Todos admitiram, porém, que há um ritual em sua equipe
antes de entrar em campo, sendo que oito rezam Pai nosso e Ave Maria, um relatou que
católicos e evangélicos rezam/oram abraçados, um não especificou, outro disse que
rezam/oram de mãos dadas, em roda e ao redor de uma imagem religiosa (santa) e dois
observaram que católicos rezam o Pai Nosso e uma Ave Maria e os evangélicos fazem
orações diferentes. W.S. (evangélico) relata que:
Todas as equipes que eu acompanhei no Brasil fazem suas orações antes de entrar em
campo. Nosso grupo também faz e eu peço proteção de Deus, peço livramento, que ele
me abençoe para que eu possa fazer um bom jogo junto com minha equipe.
Na questão referente ao fato de lembrarem se algum jogo de que participaram havia
sido decidido por meio de alguma força sobrenatural (atribuída a Deus), onze disseram
que se lembravam, um disse que não e um relatou que “a vontade é de Deus”. M.F.
(católico) nos disse:
Lembro. Sempre acreditei em Deus, principalmente nos momentos difíceis. Em uma final
de campeonato paulista de juniores estávamos perdendo e viramos a partida. A união da
equipe e o poder de Deus ajudaram na conquista.
Ainda sobre a mesma questão, R.J. relatou:
Não só na hora que falhamos ou temos algum problema eu pergunto por que, mas na
hora que alcançamos uma vitória nós também questionamos o por que: Como eu peguei
esta bola? E isto aconteceu recentemente comigo em um jogo contra o Corinthians, no
último minuto de jogo em um chute de R. Foi uma defesa surpreendente e você acaba
achando que está fortalecido espiritualmente e que isso facilitou a defesa.
117
3.2.5.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
Na questão: Você acha que a religião é um fator a mais para a melhora de
rendimento? Ela ajuda no equilíbrio? Oito disseram que a religião ajuda no equilíbrio e
rendimento, um disse que a religião ajuda no equilíbrio, um relatou que ela produz
equilíbrio e tranqüilidade, um que Jesus dá conforto, um que ela melhora a postura e
outro que o treinamento é que é importante. M.S. relata: “A religião não. Jesus nas horas
de dificuldades ou alegria nos dá maior conforto”.
R.T. opina:
Com certeza! Ela ajuda no equilíbrio, pois estamos em risco constantemente. Ela ajuda
em tudo, nos da calma, equilíbrio, ajuda à não se desentender com o adversário, em
uma jogada que você se desentende com o juiz. As pessoas que são apegadas à Deus
tem mais equilíbrio nestes momentos e conseqüentemente um melhor rendimento .
Sobre a relação entre a palavra de Deus e o sucesso da equipe, nove disseram que a
palavra de Deus e o treinamento são importantes, um disse que é uma boa relação, outro
que para vencer na vida “tem que ter Deus no coração” e freqüentar uma igreja e dois que
“o Senhor honra a quem O honra”. W.S. relata:
Para você vencer na vida tem que ter Deus no coração e freqüentar alguma igreja.
Quem colocou esta frase foi muito feliz. Há algum tempo eu fiquei sabendo que a
maioria dos jogadores do São Caetano eram evangélicos e isto faz com que o grupo
tenha um só pensamento, que seja homogêneo e que tenha a auto-estima sempre
elevada.
M.F. nos diz a respeito da questão acima: “A palavra de Deus é importante, mas são
importantes também a união da equipe e o trabalho do dia a dia. Tem que ter qualidade”.
Sobre a questão referente a quem tem fé tem índice maior de acerto, três disseram
que sim, um disse que não (que a fé não implicaria em acertos ou erros), cinco que fé e
treinamento ajudam e quatro disseram que, em relação à pergunta, seria melhor substituir
a palavra “fé” por “confiança”. R.J. nos diz:
Sim. Quando nós estamos bem espiritualmente as coisas acontecem com mais
facilidade, você tem equilíbrio maior, uma força de pensamento maior e uma confiança
muito maior. E isto está relacionado à estar bem espiritualmente.
118
R.T. opina:
Espiritualidade pode ajudar, mas se quem for bater o pênalti for evangélico e o goleiro
também? Quem Deus vai ajudar? É bastante treinamento do batedor, do goleiro e, ter fé
também, mas é mais o treinamento. A competência de cada um que decide.
Entre a relação “ir à missa” x “convocação para a seleção”, nove disseram que o atleta
se prepara para isso, dois disseram que não há relação e dois que Deus concede tudo o
que é pedido com fé. W.S. nos diz: “É complicado, mas tudo que nós pedimos com fé
acontece. Então ele estava pedindo à Deus e conseguiu realizar um sonho dele que era
participar da Copa do Mundo”.
R.J. relata:
Temos que buscar Deus independentemente da religião, mas ele fez por merecer.
Porque lógico, não adianta ficar sem jogar, sem trabalhar e esperar que Papai do céu
abra a porta para você e lhe convoque. Primeiro você tem que mostrar seu potencial, o
seu valor e, depois, contar com a ajuda Dele para que você possa vir a participar da
seleção brasileira.
Perguntados sobre se Deus olha por alguma torcida, sete relataram que Ele olha por
todos, um que Ele olha para quem está em seu caminho, três que o atleta disse isso
porque sempre teve fé, um que quando se pensa positivo as coisas acontecem com mais
facilidade e outro disse que sempre se realiza a vontade de Deus. R.J. relatou: “Deus
sempre quer coisa boa, Ele não é destrutivo. O homem que é mal e atrapalha, muitas
vezes, a vontade de Deus. Deus olha por todos!”.
“Temos que diferenciar emoção de razão” foi a resposta de um dos atletas
entrevistados em relação ao clube estar acima de sua religião; cinco disseram que Deus
tem que estar em primeiro plano, cinco que tem que haver equilíbrio entre as ações e
outros dois que a religião pessoal tem que estar acima de tudo. W.S. nos disse:
A religião, a nossa conduta, tem que estar acima de tudo. A religião é o caráter do
homem. O homem tem que seguir ela e deixar outros amores. O primeiro amor tem que
ser por Deus e temos que acompanhar nossa vida religiosa dentro e fora de campo.
119
R.T. relata:
Hoje em dia sim, pois temos muitos torcedores tão fanáticos, que deixam até de comprar
uma roupa, comida, que deixam faltar algo dentro de casa para ir ao estádio, para ir ver
seu time jogar.
Sobre as orações feitas no campo após uma derrota, quatro disseram que foi um
conforto coletivo, dois que foi positiva, um que deveria ser realizada no vestiário como em
todos os jogos, outros dois relataram que é uma demonstração que devemos orar nas
vitórias e nas derrotas e quatro que eles agradeceram pela campanha. W.S. relatou:
A oração foi positiva, passou tranqüilidade e mostrou o grupo coeso, que Deus tinha algo
a mais para eles. Foi positivo não só para a equipe do Santos, mas para mostrar para a
torcida que a equipe tem fé e que pode chegar muito longe.
R.J. opina:
Não concordo, pois deveria fazer como meu time faz, independente da vitória ou da
derrota. Todas às vezes que a gente volta para o vestiário, procuramos agradecer.
Rezamos nossa Ave Maria e o Pai Nosso, igual nós rezamos antes de entrar em campo.
Nós agradecemos pelo resultado porque foi vontade Dele e também porque do outro
lado há onze jogadores iguais a nós com o mesmo intuito. Principalmente a gente ora
bastante quando alguém sai machucado de campo, rezamos se está tudo bem, rezamos
para ninguém sair lesionado e, se por acaso sair, rezamos para que volte o mais rápido
possível.
Receber apoio de algum líder espiritual é importante? Nesta questão, quatro relataram
que é de muita importância, pois precisam cuidar também do lado espiritual, um relatou
que não se pode provar que eles ajudam, outros dois lembraram que eles precisam de
conforto coletivo e seis disseram que precisam de orientação, pois os líderes espirituais
têm mais conhecimento [da religião, de Deus] que eles. W.S. diz:
Tem o pastor de minha cidade que fez meu casamento – Senhor J.L.. Sempre procuro
buscar Palavra com ele para me dar um conforto. Para que eu possa estar mais
tranqüilo e meditar na Palavra que ele passa para mim.
R.J. relatou o seguinte:
É de muita importância, pois são pessoas que abdicaram da vida para cuidar das
pessoas mais necessitadas, para ajudar o próximo. Então, eu acho que eles estão
voltados, que tem um tempo maior para cuidar dos outros e, por isso, acredito que eles
estão mais perto de Deus que nós pecadores, que temos pouco tempo e cuidamos mais
120
de nossa área física e material, esquecendo do espiritual. Eles estão ligados mais à área
espiritual do que material.
3.2.5.3 – Vida, perspectivas e história
Sobre a maior conquista em suas vidas, quatro disseram ser conhecer Jesus, cinco
disseram ser a família e ser atleta profissional e quatro disseram que é ser atleta
profissional. Sobre a maior derrota, um disse ser deixar os pais muito cedo para tentar a
vida no futebol, um disse que não existe, cinco que não tem, pois Deus sempre prepara o
melhor, quatro disseram não ter, pois de tudo se tira algo de bom, um disse ter sido o
falecimento do pai e outro ter que deixar o futebol profissional.
A Bíblia é o livro de cabeceira de sete dos entrevistados, um relatou ser algum livro de
Espiritismo, três disseram ser qualquer livro, um disse ser jornal e outro algum livro dos
Atletas de Cristo. Todos afirmaram praticar algum tipo de caridade. Também todos têm
alguma história interessante relacionada ao aspecto religioso no futebol e dois pretendem,
após o término da carreira de jogador profissional, ser professor de Educação Física, um
pretende seguir carreira política, um trabalhar com Informática, outro ser pastor e ajudar
as pessoas e oito pretendem trabalhar com futebol profissional. Entre muitas histórias
interessantes, M.F. nos disse:
Uma vez na roda de oração, antes de uma partida importante, havia um atleta faltando.
Era o evangélico Z.C. que, dentro da maioria de católicos, estava rezando sozinho em
um canto. Alguns reclamaram, e Z.C. disse que se ele não saísse da roda e rezasse
sozinho, a equipe iria perder. Ele saiu e orou só. Nesta partida ele fez dois gols, e tirou
sarro de todo mundo dizendo: ‘ta vendo, ta vendo, não falei, não falei’. Ele foi o homem
do jogo. O destaque da partida.
3.3 – Conclusões ao capítulo
Neste capítulo, indicamos como foi constituído nosso trabalho de campo e
evidenciamos alguns aspectos detectados na pesquisa. Os dados expostos fornecem os
elementos preliminares da pesquisa, que serão analisados em profundidade nos capítulos
seguintes.
121
4 - A SOCIEDADE DE RISCO
“A vida tornou-se angustiosa para Mário. Devorar seus trajes e
seu relógio não era ainda o fim. O que no fundo o alimentava
era a coisa terrível, o chamado ‘pão-que-o-diabo-amassou’.
Mistura horrível, composta de dias de fome, noites de insones e
sem luz, lar sem fogo, semanas sem trabalho, futuro sem
esperança, cotovelos rotos, insolências de porteiros, zombarias
de vizinhos, humilhações, dignidade ofendida, desgostos,
amargura e, por fim, sua própria derrocada”.
278
(“Os Miseráveis”, Victor Ugo)
4.1 – Considerações preliminares
Adotaremos a chamada “Teoria da Sociedade de Risco” como referencial teórico de
nosso trabalho. Não se pode negar que o risco é um fenômeno social e, diante dessa
constatação, é preciso analisar e compreender melhor os fundamentos teóricos que nos
levam à compreensão da abordagem proposta. Então, adotamos como referencial teórico
para o trabalho a teoria de Ulrich Beck, que aborda a sociedade de risco.279
Além desse trabalho, também serão adotadas para a produção de nosso construto
teórico obras de outros autores, como Anthony Giddens,280 Maria Manuela Machado da
Silva,281
Pedro
Hespanha
&
Graça
Pinheiro.282
Tais
escolhas
se
deveram,
fundamentalmente, ao enfoque dado por esses autores à questão do “risco”. Por certo
não pretendemos produzir uma análise profunda da teoria do risco. Os limites desta
dissertação não nos permitem ir a tanto. Nossa tarefa concentra-se na busca dos
referenciais básicos do risco abordados pelos autores para que possamos compreender a
evidência do risco na sociedade em que vivemos.
4.2 – Conceituando o risco
Na construção deste subtítulo, nos basearemos em Anthony Giddens283. Ele começa
nos dizendo que o desenvolvimento industrial global e a busca permanente dos países
278
HUGO, V. Os miseráveis. São Paulo: Hemus, 1985, 520 p.
BECK, U. La sociedad Del riesgo: Hacia una nueva modernidad. Barcelona: Paidós 1998, 304 p.
280
GIDDENS, A. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro:
RECORD, 2003, 104 p.
281
SILVA, M. Educação e sociedade de risco. Lisboa: Gradiva, 1993, 173 p.
282
GRAÇA C. & HESPANHA, P. Risco social e incerteza: pode o estado social recuar mais? Porto:
Afrontamento, 2002, 336 p.
283
GIDDENS, A. Mundo em descontrole..., op. cit.
279
123
pelo sucesso no campo econômico – a qualquer custo – podem ter alterado o clima
mundial. Muitas das espécies e, mesmo, muitas populações humanas foram
exterminadas sob a bandeira do “progresso”. Não sabemos que outras mudanças virão,
ou os perigos que elas trarão em sua esteira; temos certeza, porém, de que elas virão.
Essa questão (assim como muitas outras) pode ser lida a partir de suas perspectivas de
risco; o risco é, portanto, um fator de observação, uma concepção simples e reveladora
de algumas das características fundamentais do mundo em que vivemos.
Em um primeiro momento, o conceito de risco pode parecer irrelevante: afinal, as
pessoas não foram sempre obrigadas a enfrentar uma razoável parcela de riscos? Um
conhecidíssimo ditado popular – “Quem não arrisca, não petisca” – é a melhor prova
disso, uma vez que sintetiza a relação risco x progresso. Acontece, porém, que “petiscar”
nem sempre significa progredir, mas, muitas vezes, “sobreviver”. A vida, ao longo de
praticamente toda a História, foi violenta, penosa, eivada, enfim, de vários riscos. Uma
situação em que ainda se encontram centenas de milhões de pessoas, tanto nos países
pobres quanto nos bolsões de miséria dos países mais prósperos.
Na chamada Idade Média européia, salvo em alguns contextos marginais, não havia
conceito de risco. A idéia parece ter se estabelecido nos séculos XVI e XVII, originalmente
associada à exploração, pelos europeus, de partes do mundo por eles até então não
conhecidas.284
As culturas ditas “tradicionais” não tinham um conceito de risco porque dele não
precisavam. Risco é uma derivação do Pensamento Crítico; não é o mesmo que infortúnio
ou perigo. Ele se refere a infortúnios ativamente avaliados em relação a possibilidades
futuras. A palavra só foi utilizada em sua expressão “científica” em sociedades orientadas
para o futuro. O conceito de risco pressupõe, portanto, uma sociedade que tenta
ativamente romper os limites do seu dia-a-dia em nome de um progresso ideal.
As primeiras civilizações do mundo se desenvolveram, sobretudo as do passado, a
partir de uma visão determinista, baseada em idéias como destino, sorte, vontade dos
284
A palavra “risk” parece ter sido incorporada ao inglês através do espanhol ou do português, línguas em que
era usada para designar a navegação rumo a águas não-cartografadas. Mais tarde foi transferida para o tempo,
como quando usada em transações bancárias e de investimentos para os que emprestavam e os que contraiam
empréstimos. Mais tarde ainda, também passou a designar uma ampla esfera de outras situações de incerteza.
Não se pode dizer que uma pessoa está correndo risco quando um resultado é 100% certo.
124
deuses ou domínio de forças mágicas; um mundo de probabilidades, portanto,
praticamente vedado à intervenção do ser humano, que passava à condição de
expectador do próprio destino. Certamente tal visão não foi substituída por inteiro com a
modernização. Magia, conceitos de destino e de “sorte” ou “azar” ainda têm séria
influência em nosso dia-a-dia. Quem nunca “rezou para o santo” ou pediu a Deus coisas
como passar no vestibular, ganhar na loteria ou arrumar um cônjuge? A maioria dos
“jogadores” tem rituais que se prestam a reduzir o estresse psicológico relativo às
incertezas enfrentadas. O mesmo se aplica a outros riscos menos “interesseiros”, que,
pela simples condição vital, ou seja, de sobrevivência, não podemos deixar de correr.
Aliás, pensando bem, pode-se classificar basicamente todo risco como “interesseiro”,
visto que sua percepção guarda, em si, o desejo de preservar o bem “vida”. Em termos
menos instrumentais, porém, há que considerar o valor lúdico e até simbólico do arriscarse: certas pessoas obtêm prazer no jogo em si, em se expor pelo gosto do “frio na
barriga”, pela dose extra de adrenalina ou por mera bravata. Que dizer, por exemplo, do
brutal sentido lúdico de um jogador de “roleta russa”? Haja prazer em fazer da própria
vida um elemento de aposta!
O risco é a dinâmica mobilizadora de uma sociedade propensa à mudança, que
deseja tomar as rédeas do próprio futuro em vez de confiá-las à religião, aos ditames do
“estava escrito” ou aos caprichos da natureza. O capitalismo moderno se insere no futuro
ao prever lucros e perdas – ou seja, ao “apostar no risco” - continuamente. Nesse mundo,
“quem não arrisca” – definitivamente – “não petisca”.
Há muitos riscos, é claro, como os que afetam a saúde, que desejamos reduzir tanto
quanto possível. É por isso que, desde sua origem, a noção de risco é acompanhada por
um equivalente desenvolvimento de sistemas e medidas de segurança, que permitam ao
indivíduo sobreviver para jogar de novo.
“Navegar é preciso, viver não é preciso” – com esse verso, Fernando Pessoa abre um
dos mais belos poemas da língua portuguesa.285 Além dessa visão muito específica – de
um povo que se fez ir ao mar por um sonho de felicidade – há que se considerar o papel
285
O poema tem por título esta frase, lema dos Argonautas, personagens de um dos primeiros épicos gregos.
Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/sualingua/01/01_navegar.htm>,
<http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/navega.htm> e <http://www.magda.godinho.nom.br/palestra.htm>
Acesso em 02 de agosto de 2004.
125
das chamadas “Grandes Navegações” para a configuração da moderna noção de risco.
Afinal, formas de seguro náutico já eram conhecidas das antigas culturas marítimas; o
moderno conceito de seguro, porém, teve início no século XVI, com o começo das
“Grandes Navegações”. Em 1782 foi firmada, pela primeira vez, uma cobertura de riscos
além-mar por uma companhia de Londres, passo seguido pelo Lloyds of London, que
assumiu a liderança durante dois séculos da indústria dos seguros. Hoje, as pessoas
podem segurar – nosso sentido, aqui, é puramente técnico – até as próprias nádegas ou
seios!
Seguro é algo só concebível quando acreditamos num futuro humanamente
arquitetado. Diz respeito à segurança, mas, de fato, é “parasita” do risco e das atitudes
das pessoas com relação a ele. É uma espécie de “aposta ao contrário”, em que você só
ganha se “quebrar a cara” antes. Algo interessante a citar é que, se alguém faz um seguro
contra incêndio para sua casa, o risco não desaparece. Ele é apenas transferido, em
termos puramente econômicos, para a seguradora, em troca de pagamento. O comércio e
a transferência de risco não formam um aspecto meramente casual de uma economia
capitalista. De fato, o capitalismo é impensável e impraticável sem ele. A melhor prova
disso é que as seguradoras são um “negócio como outro qualquer” – expostas, portanto
(e ironicamente), a seus próprios riscos.
A idéia do risco sempre esteve envolvida com a modernidade, mas, hoje, o risco
assume uma importância nova e peculiar. Suponhamos que ele seja uma maneira de
regular o futuro, de normatizá-lo e de submetê-lo à nossa vontade. As coisas não param,
porém, por aí. Nossas tentativas de controlar o futuro tendem a ricochetear, a “cair sobre
nossas cabeças”, forçando-nos a procurar modos diferentes de relação com a incerteza.
Uma forma de explicar o que está acontecendo é fazer uma distinção entre dois tipos
de risco: o externo, experimentado como vindo de fora, decorrente da infalibilidade da
tradição ou da natureza (para este último caso, o Direito até forjou uma expressão: o
chamado “caso fortuito”),286 e o risco fabricado, criado pelo impacto de nosso
conhecimento do mundo, dizendo respeito a situações para as quais temos pouca
286
Caso fortuito: É expressão especialmente usada, na linguagem jurídica, para indicar todo caso, que
acontece imprevisivelmente, atuado por uma força que não se pode evitar. Cf. SILVA, P. Dicionário Jurídico,
v.1, 1ª edição. Rio de Janeiro: Cia. Editora Forense, 466 p., p. 315.
126
experiência histórica.287 Vale ressaltar que eles são diretamente influenciados pela
globalização. Ressaltamos, também, que as pessoas que vivem nas áreas ricas e pobres
– estas, aparentemente, mais do que aquelas – estão sujeitas a inquietações; grande
parte do que costumava ser natural, porém, não o é mais por completo, embora nem
sempre possamos saber ao certo onde termina a natureza e tem início o poder da
vontade.
O risco fabricado não se liga apenas à natureza – ou ao que, antes, era natureza.
Penetra em outros nichos da vida também. Tomemos, por exemplo, o casamento e a
família, que vêm sofrendo mudanças profundas em todo o mundo. À medida que o risco
fabricado se expande, passa a haver, nele, algo de mais arriscado. Cada vez que alguém
entra num carro, por exemplo, é possível calcular as chances que essa pessoa tem de se
envolver em um acidente. Isso é previsão atuarial – envolve uma longa série temporal. As
situações de risco fabricado não são assim. Simplesmente não sabemos qual é o nível do
risco e, em muitos casos, não saberemos ao certo antes que o mundo caia sobre nossas
cabeças.288
Se alguém – funcionário do governo ou autoridade científica – leva determinado risco
a sério, tem o dever de anunciá-lo, sob pena de omissão criminosa. O risco deve ser
amplamente divulgado porque é preciso convencer as pessoas de que ele é real – é
preciso fazer estardalhaço, gritar como fazem os animais gregários, para que todos se
escondam antes do bote do predador. Contudo, quando se faz estardalhaço e o risco
acabava se revelando mínimo, os envolvidos são acusados de alarmistas – e, como na
história popular do garoto que anunciava acidentes falsos a torto e a direito, perdem a
credibilidade.
Paradoxalmente, o alarmismo pode ser necessário para reduzir os riscos que
enfrentamos – contudo, quando ele surte efeito, a impressão que se tem é de que houve
287
A maior parte dos riscos ambientais, como os ligados ao aquecimento global, recai nesta categoria.
Esclarecendo também a distinção entre os dois tipos de risco, em uma cultura tradicional, na sociedade
industrial e no início da presente época, os seres humanos se inquietaram com os riscos provenientes da
natureza externa – de más colheitas, enchentes, pragas ou fomes. Recentemente, passamos a nos inquietar
menos com o quê a natureza pode fazer conosco, e mais com o que nós fizemos com a natureza. Isso assinala
a transição do predomínio do risco externo para o risco fabricado.
288
A título de exemplo, ninguém sabe – além das que nós já sabemos – quais serão as conseqüências, em
longo prazo, do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Assim como as conseqüências mais sérias
relacionadas à chamada doença da vaca louca, no Reino Unido ou ainda, as conseqüências das mudanças
climáticas globais.
127
exatamente isso: mero alarmismo. A situação relativa à AIDS é um exemplo. Os governos
fazem grandes campanhas de prevenção e, em muitos países, a velocidade de
disseminação do vírus caiu muito; além disso, enquanto a cura não vem, as novas
terapias dão bons resultados. Por conta dessas boas novas, porém, muita gente reage
dizendo coisas como “Eu não disse? Não era para tanto!” e, é claro, deixa os
preservativos de lado. Apesar de, em termos de agressividade, o HIV “andar mais para
gripe do que para Ebola” (ao contrário do que aconteceu no início da epidemia, quando o
número de mortes rápidas era muito maior), o risco de contaminação ainda existe e é
muito sério. A doença, vale lembrar, ainda é letal.
Alguns dizem que a maneira mais eficiente de enfrentar o crescimento do risco
fabricado é limitar a responsabilidade mediante a adoção do chamado “princípio do
acautelamento” - nem sempre sendo útil ou mesmo aplicável como forma de enfrentar
problemas de risco e responsabilidade. Tal conceito nasceu na Alemanha nos anos 80, no
contexto dos debates ecológicos. Em sua expressão mais simples, propõe que se deve
agir no caso de questões ambientais - e, por inferência, no caso de outras formas de risco
– mesmo que haja incerteza científica em relação aos riscos.
Os riscos envolvem algumas incógnitas, posto que, em muitos casos, não há como
abranger todas as possibilidades de desfecho. Há, sim, a consciência de que a
quantidade de variáveis é imensa, com o mínimo podendo alcançar o todo. É o que,
modernamente, convencionou-se a chamar “efeito borboleta”. Nas palavras de Leonardo
Boff: “Essas reflexões óbvias vêm confirmadas pela moderna teoria do caos. Ela alude ao
efeito borboleta: um farfalhar de asas de borboleta do meu jardim pode produzir uma
tempestade sobre o Pentágono”.289
Tomando por base, por exemplo, os alimentos geneticamente modificados, não há
como saber os efeitos, em longo prazo, de seu consumo. Não estamos falando que, por
conta das batatas fritas geneticamente modificadas consumidas hoje, as crianças do
futuro venham a nascer com trombas ou coisas assim – infelizmente, no campo das
possibilidades decorrentes da imprevisibilidade, até esta pode ser levada em conta!
289
BOFF, L. Paz e Efeito Borboleta. Disponível em: <http://www.cuidardoser.com.br/paz-e-efeitoborboleta.htm> Acesso em 02 de agosto de 2004.
128
Acontece, porém, que a pressão econômica para o cultivo e o consumo desses alimentos
impõe o risco e suas incógnitas.
Seja qual for nossa perspectiva, vemo-nos envolvidos num problema de administração
do risco. Com a difusão do risco fabricado, os governos não podem se escusar de
administrar – ou, ao menos, de tentar administrar – o problema. Eles precisam colaborar
uns com os outros, uma vez que muito poucos riscos desse novo estilo têm algo a ver
com as fronteiras nacionais.
Nossa época não é mais perigosa - nem mais arriscada – do que as de gerações
precedentes, mas o equilíbrio de riscos e perigos se alterou. Vivemos num mundo em que
os perigos criados por nós mesmos são tão ou mais ameaçadores que os vindos de fora,
das forças da natureza ou da “ira dos deuses”. Alguns, se confirmados, serão
genuinamente catastróficos, como o risco de uma resposta natural em grandes
proporções à devastação ambiental, uma guerra atômica ou a derrocada da economia
mundial por fatores como, por exemplo, o terrorismo (e as contramedidas a ele). Outros
perigos, porém, nos afetam “no varejo”, em nossos limites individuais: uma bolada
recebida em um “lugar errado”, uma briga com um cônjuge violento, um erro na dosagem
do remédio ou, mesmo, uma feijoada mal digerida podem implicar em profundas
transformações em nossa história pessoal.
Uma época como a nossa produz, inevitavelmente, um reavivamento religioso que
afeta tanto as religiões institucionais quanto movimentos como o da chamada “Nova Era”,
que propõe novos paradigmas a partir de demandas e ferramentas há muito conhecidas
pelo ser humano. Esse reavivamento se contrapõe à ciência ao “credo científico”.
Acontece, porém, que nossa relação com a ciência não é a mesma que foi observada em
tempos passados – basta pensar que, há 50 anos, esta dissertação provavelmente estaria
sendo produzida em uma máquina de escrever de recursos considerados, hoje, como
risíveis.
Um maior número de meios públicos de envolvimento com a ciência e a tecnologia
não eliminaria o dilema alarmismo x acobertamento do risco, mas poderia nos permitir
reduzir algumas de suas conseqüências mais danosas. É impossível adotar,
simplesmente, uma atitude negativa em relação ao risco. Isso equivaleria à reação (mais
129
do que conhecida) atribuída ao avestruz, animal que, conta a lenda, enfia a cabeça em
um buraco no chão ao pressentir o perigo. O risco, portanto, sempre precisa ser
disciplinado, mesmo porque sua busca ativa é um elemento essencial em um sistema
econômico dinâmico e em uma sociedade inovadora.
Viver numa era “global” significa enfrentar uma diversidade de situações de risco. Com
muita freqüência precisaremos de ousadia, e não de cautela, para adentrar às fileiras da
inovação científica ou de outras formas de mudança. Afinal, uma das raízes etimológicas
do termo “risk”, advinda das línguas ibéricas, é “ousar”.
4.3 – A produção dos riscos
Deste subtítulo em diante nos basearemos em Ulrich Beck.290 Ele começa nos dizendo
que na “Alta Modernidade” a produção social de riqueza vem acompanhada,
sistematicamente, pela produção social de riscos. Portanto, problemas e conflitos de
distribuição de riqueza da sociedade são substituídos por problemas e conflitos que
surgem na produção, definição e distribuição dos riscos produzidos de maneira técnicocientífica.
A distribuição de risco, nessa fase da Modernidade, está vinculada historicamente a
duas condições. Em primeiro lugar, se consuma na medida em que o nível alcançado
pelas forças produtivas humanas e tecnológicas – bem como pela segurança e
regulamento do Estado Social - podem reduzir objetivamente e excluir socialmente a
miséria. Em segundo lugar, depende, ao mesmo tempo, de que o crescimento das forças
produtivas no processo de modernização se libere dos riscos e das auto-ameaças de uma
medida desconhecida até o momento.
O paradigma da sociedade de risco se configura, pois, num engendramento para
evitar, minimizar, dramatizar e canalizar os riscos e perigos produzidos no processo
avançado de modernização. E, também, em sua fragmentação pelo mundo, a fim de que
não se constituam em obstáculos intransponíveis, que sejam suportáveis pelos
seguimentos ecológico, médico, psicológico ou por qualquer outra área social.
290
BECK, U. La sociedad Del riesgo..., op. cit. (tradução livre do espanhol)
130
Os paradigmas da desigualdade social se referem sistematicamente a épocas
determinadas pelo processo de modernização. Em primeiro plano na distribuição da
riqueza produzida socialmente - e nos conflitos de sua distribuição - se encontram,
entretanto, o pensamento e a atuação de seres humanos dominados por países e
sociedades que detém maior poder econômico, tecnológico e/ou militar.
No processo de modernização, que prevê tanto a existência de uma “ciência perversa”
quanto a liberação de “monstros” nem sempre relacionados ao princípio enunciado por
Rousseau, do homo homini lupus (o Homem como lobo do próprio Homem), a mente
humana tomba perplexa. Reage, muitas vezes, por meio de uma crítica (ora crescente) à
modernização que implica em ruidosas discussões públicas e, mesmo, em conflitos de
rua (como os verificados nos encontros dos representantes de governo dos países mais
ricos do mundo).
O empobrecimento de grande parte da população – o risco da pobreza - gerou uma
grande tensão social no século XIX. Os riscos à qualidade de vida e também à saúde são,
desde essa época, temas de processos de racionalização de conflitos e segurança
sociais.
Os riscos intranqüilizam continuamente as pessoas; esse desconforto é mais do que
justificado, uma vez que os perigos nos espreitam ocultos em sombras como a do
mercado de trabalho e da belicosidade de certos governantes afoitos em garantir a
própria segurança e deixar os miseráveis “ao Deus dará” (que leva, por exemplo, crianças
às “guerrilhas de rua” das grandes cidades brasileiras). A arquitetura social e a dinâmica
política das potências de auto-ameaça civilizatória se encontram aqui, no centro de nossa
atenção. Na seqüência, mostraremos cinco de suas facetas:
1 - Os riscos da produção de substâncias nocivas e tóxicas presentes no ar, na água e
nos alimentos, com conseqüências a curto e longo prazo para as plantas, os animais e
os seres humanos;
2 - Os riscos da desigualdade social, reflexo de uma equivocada distribuição de renda,
que causam um “efeito bumerangue” que afeta não apenas os que sofrem com a
desigualdade, mas, também, seus promotores. Ele não só trazem riscos à saúde, mas
também à convivência em um ambiente institucionalizado, uma vez que pervertem
regramentos criados exatamente para a manutenção da paz social;
3 - Os riscos se expandem no mundo capitalista. Na modernização, eles se
transformam, mesmo, em um big business. São necessidades dos “capitães de
131
indústria”. A sociedade industrial produz a partir do aproveitamento econômico dos
riscos por ela causados, das situações de perigo e do potencial político da sociedade
de risco;
4 - O potencial de produção de riquezas afeta os riscos. Isto está designado
civilizatoriamente, de maneira pragmática: na dita “sociedade de classes”, o ser
determina a consciência; nas situações de perigo, a consciência determina o ser (é o
famoso princípio do “salve-se quem puder!” ou do “não vai dar para todo mundo!”);
5 - Os riscos não afetam apenas as “grandes variáveis” da realidade, mas também têm
efeitos econômicos e políticos secundários, como o desaquecimento da produção e do
consumo, a hipertrofia estatal, a redução de expectativas de abertura de novos
mercados, a existência de um front legislativo altamente regulador e de um número
infinito de querelas jurídicas.
A sociedade de risco é uma sociedade catastrófica. Nela, o estado de exceção
ameaça se transformar no estado de normalidade. Em uma sociedade com esses traços
seria racionalmente impossível (ou, talvez, possível apenas na ficção) prever quais seriam
os novos riscos.
Tanto os riscos quanto as riquezas são objetos de divisão. Ambos acabam por
constituir situações de perigo e categorias; entretanto, também tratam de um bem
totalmente diferente dos relacionados a qualquer outra disputa. No caso das riquezas
sociais, trata bens de consumos, ingressos, oportunidades de educação, propriedades etc
– aspira, fundamentalmente, a um conjunto escasso de recursos. Em face dele, os
perigos são produtos adicionais de uma superabundância que há de impedir. Isto há de
suprimi-los ou negá-los - temos que reinterpretá-los. Assim, a lógica positiva da
apropriação se contrapõe uma lógica negativa de eliminar, de evitar, de negar, de
reinterpretar.
Os riscos da modernização se apresentam de uma maneira universal que é, a um
tempo (e em termos locais), específica e não-específica, o que implica na
imponderabilidade acerca de sua nociva progressão. A vivência do risco pressupõe um
horizonte normativo de segurança perdida, de confiança quebrada – uma nova e
assustadora configuração. As constatações do risco constituem simbioses, ainda
desconhecidas do desenvolvimento, entre as ciências da natureza e as ciências do
espírito, entre a racionalidade cotidiana e a racionalidade dos experts, entre valor e
sucesso. Não há uma divisão “racional”, radical e excludente, entre as categorias; há, sim,
novas e desafiadoras regras para o jogo da sobrevivência.
132
As definições do risco rompem o monopólio de racionalidade das ciências. As
pretensões, interesses e pontos de vista em conflito dos diversos atores da modernização
e dos grupos afetados são obrigados, nas definições do risco, a seguir juntos na produção
de efeito, culpado e vítima. As discussões públicas desempenham uma função nas
propriedades do risco que não é tratada nos estudos sobre o risco. É o caso, por
exemplo, da opção pela difusão das armas nucleares ou de decisões de caráter científico
cujas conseqüências sobre as gerações futuras não são bem conhecidas.
Existe uma superprodução de riscos. Nesse contexto, eles podem se tornar relativos,
complementares ou, então, competir pela supremacia. Cada interessado busca se
defender produzindo definições de risco e, assim, se proteger dos riscos que afetam seus
negócios. Os elementos geradores de ameaças ao solo, às plantas, ao ar, à água e aos
animais chegam, portanto, a um embate de “todos contra todos”, cujo prêmio são as
definições de risco mais vantajosas diante das possibilidades submetidas ao “bem
comum”.
A pluralidade de interpretações tem um fundamento na lógica dos riscos na
modernização. A tentativa é de colocar os efeitos nocivos em compartimentos estanques
que permitam visualizar um “culpado”. Porém, a interdependência sistemática dos
especialíssimos atores da modernização (na economia, agricultura, Direito e política)
implica na ausência de causas e responsabilidades isoladas.
Os riscos não se esgotam em conseqüências e danos passados, pontuais, mas
avançam sobre o futuro. Este componente repousa tanto no prolongamento dos danos já
visíveis quanto no estabelecimento de uma relação de dúvida a respeito do que poderá vir
pela frente (em termos figurados, a coisa funciona como em um caso de transtorno
obsessivo compulsivo, em que o indivíduo não consegue parar de se perguntar “E se?... E
se?”). Assim, os riscos têm a ver, essencialmente, com a previsão, com “apocalipses” que
ainda não chegaram, mas que, para todos os efeitos, são iminentes. Eles invadem o
momento atual exatamente porque se constituem em representações de futuro – ao pintar
o demônio que ainda não chegou, o pintor acaba olhando para (e sendo olhado por) seu
pior pesadelo.
133
A história da distribuição dos riscos mostra que eles, assim como as riquezas, seguem
um esquema de classes. A proporção, porém (para variar), é inversa: as riquezas e
acumulam em cima, os riscos, aos pés da pirâmide sócio-econômica. Quem detém mais
poder detém, também, melhores possibilidades de segurança contra riscos - o carro
blindado, o helicóptero, o melhor hospital, a salvadora mala de dinheiro; os alijados do
poder, por sua vez, se constituem na verdadeira “carne de canhão” dos riscos – enquanto
o pão dos primeiros tem mais chances do que o normal de cair com a manteiga para cima
(mais de 50%), o dos últimos há de seguir, com absoluta precisão, os ditames da
chamada Lei de Murphy (que preconiza o tropeço como fatal, desde que haja uma única
possibilidade de se enfiar o dedão numa pedra) e colar no chão.
Há, evidentemente, situações em que nem o poder “segura o rojão” – basta pensar,
por exemplo, nas erupções de Pompéia e do Cracatoa ou, então, nos “Vesúvios” criados
pelo próprio homem e que, mais dia, menos dia, hão de lançar cinzas, pedras e lava
sobre as cabeças. Esses riscos, porém, fogem da classificação comum do “pobre sempre
toma na cabeça” e entram na categoria a que chamaremos Götterdamerung.291 A nova
categoria se insere nas possibilidades na razão em que os riscos da modernização
relativizam as diferenças e os limites sociais. Em palavras muito simples, pode-se dizer
que, diante de tais riscos, vão sobrar sopapos para todo mundo!
Em termos objetivos, conclui-se que esses riscos estabelecem um perímetro dentro do
qual os afetados estão sujeitos a um efeito similar. Aí reside, precisamente, sua nova
força política: neste sentido, as sociedades de risco não são sociedades de classes; suas
situações de perigo, se é que podemos falar assim, vão além da estrutura marxista de
classes.
Ainda que possam ser configurados por elementos de uma única classe social
(pretensamente “protegidos”), os riscos da modernidade contêm um componente
perpassante: é o chamado “efeito bumerangue”, que faz com que as baixas se estendam
muito além das inicialmente previstas. Nesse “brincar de Deus”, sobram relâmpagos para
todos. Os efeitos secundários, anteriormente latentes, golpeiam também os centros de
291
Em alemão, no original. Götterdamerung, o “Crepúsculo dos Deuses”, era o termo da realidade, o ponto
final preconizado pela mitologia germânica. Equivale ao Ragnarock nórdico ou, mesmo, ao Khali Yuga dos
hindus.
134
suas produções. Assim, o efeito bumerangue não abraça apenas a vida, mas também os
meios representantes: o dinheiro, as propriedades e a legitimação.
Com a generalização dos riscos da modernização se põe em marcha uma dinâmica
social que já não compreende as categorias de classe. A propriedade, que implica em
não-propriedade, pode produzir relações sociais de tensão e conflito. Tais relações, por
sua vez, podem afiançar duramente identidades sociais recíprocas e antagônicas: os “de
cima” e os “de baixo”.
A distribuição eqüitativa e global de situações de perigo não pode enganar sobre as
novas desigualdades sociais dentro da sociedade de risco. Estas surgem em especial
onde – novamente em escala internacional – as situações de classes e de riscos se
escondem: o proletariado da sociedade mundial do risco vive sob as chaminés, junto às
refinarias e às fábricas químicas nos centros industriais do Terceiro Mundo. Alguém se
lembra do caso de Bhopal (Índia, 1984) quando milhares de pessoas morreram por conta
de um vazamento de gás da empresa Union Carbide?292 As indústrias que apresentam
potencial de risco têm se transferido para países onde, infelizmente, os seres humanos
são tidos menos como humanos e mais como “coisas” (é a tal da reificação). Isto não é
uma casualidade: existe uma força de atração sistemática entre a pobreza extrema e os
riscos extremos. Os riscos existem principalmente nos países subdesenvolvidos, onde a
própria infraestrutura deficiente (rodovias esburacadas, trens velhos etc.) ajuda a
aumentar as situações de risco.
As desigualdades das sociedades de classes e de risco podem se ocultar ou
condicionar - aquelas podem produzir estas. A distribuição desigual da riqueza social
apenas oferece bases superáveis e justificáveis para a produção de riscos. Aqui há que
distinguir exatamente entre a atenção cultural e política da difusão dos riscos. As
diferentes classes necessitam de satisfação material, muitas vezes imediatas. Neste
sentido, as certezas das sociedades de classes são as certezas da cultura da visibilidade:
a fome contrasta com o desperdício de alimentos, os palácios com os barracos, a
ostentação com os farrapos. A necessidade imediata compete com o conteúdo de riscos
292
Informações sobre o acidente de Bhopal disponíveis em:
<http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/south_asia/2211974.stm> Acesso em 03 de agosto de 2005.
135
conhecido. O mundo da carência e da sobre-abundância visível escurece sob o poder dos
riscos e os riscos negados também crescem especialmente de maneira rápida.
O trato com os riscos resulta em muitas diferenciações, bem como em novos conflitos
sociais. Isto já não segue o esquema da sociedade de classes. Surgem sobre o todo e a
réplica faz dos riscos a sociedade de mercado desenvolvida: os riscos já não são apenas
riscos, mas também oportunidades de mercado. É daí que, precisamente, é possível
compreender os contrastes entre quem é afetado pelos riscos e quem se beneficia deles.
Nesse sentido, a sociedade de risco se transforma, também, em uma sociedade da
ciência, dos meios de comunicação etc. E, assim, a sociedade de risco vai produzindo
novos contrastes de interesse, sempre como uma nova ameaça: amigo x inimigo, leste x
oeste, abaixo x acima, “Pax Americana” x “Eixo do Mal”, cidade x campo, negro x branco,
sul x norte etc. - todos expostos à pressão igualitária dos riscos civilizatórios que se
potencializam. Em conseqüência, a sociedade de risco dispõe de novas fontes de conflito
e de consenso. Em lugar da supressão da carência, aparece a supressão do risco.
É verdade que as ameaças crescem com os riscos, mas não implicam na criação de
uma política preventiva de dominação do risco. Aliás, não está claro que tipo de política e
de instituições políticas estão em condições de produzir. Certamente surge uma
“comunidade incompreensível”, que corresponde à incompreensão acerca dos riscos;
mas ela se configura mais como um desejo do que como uma realidade. Ao mesmo
tempo, este abismo produz um vazio de competência e de representatividade políticas
que esvaziam, por exemplo, a noção de respeito.
Na passagem da sociedade de classes para a sociedade de risco observa-se uma
mudança de qualidade na comunidade. As sociedades de classes estabelecem como
meta a igualdade, a superação das classes. A sociedade de risco é uma sociedade
desigual de per se, calcada na insegurança. O sonho da sociedade de classes significa
que todos querem participar do bolo. O objetivo da sociedade de risco é imunizar todos
contra o veneno. A força impulsionadora da sociedade de classes se pode resumir na
frase: “Tenho fome!”; o movimento que se põe em marcha na sociedade de risco tem
como bordão “Tenho medo!”. Em lugar da comunidade da miséria, aparece a sociedade
do medo. Nesse sentido, o tipo de sociedade de risco marca uma época social em que a
solidariedade surge pelo medo e se converte em força política.
136
As conseqüências vividas de maneira catastrófica pela maioria da humanidade estão
vinculadas, nos últimos dois séculos, ao processo social de industrialização e
globalização. Nesse período são verificadas intromissões drásticas e ameaçadoras às
condições de vida humana. Estas intromissões se representam em conexão com
determinadas etapas do desenvolvimento e das forças produtivas, da integração de
mercado e das relações de propriedade e poder. Poder-se-ia afirmar que isso sempre
existiu, que não há nada de novo sob o sol - as diferenças sistemáticas, porém, saltam
aos olhos. O imediatismo da miséria, vivida social e pessoalmente, contrasta hoje com a
intangibilidade dos perigos da civilização, dos quais só se pode estar consciente no saber
científico, sem poder vinculá-lo diretamente às experiências primeiras (a dimensão da dor
infligida, digamos assim, vem sempre “depois da bomba” e nunca antes dela).
Grupos diferentes são afetados pelo passado e pela atualidade. Antes, a afetação
tinha a ver com o destino social da classe. Hoje, o perigo surge de forma diferente: é
matreiro, sub-reptício, universal e não-específico. Esta distinção entre afetação pelas
posições de classe e risco é essencial. O potencial de ameaça que se assenta sobre os
determinantes da posição de classe, no caso da perda de um posto de trabalho, é
evidente para cada afetado. Nesse sentido, a afetação é clara - independentemente do
conhecimento. Em situações de perigo, as coisas do cotidiano podem mudar durante a
noite; podem, para usar uma figura antiga de risco assumido, servir como “Cavalo de
Tróia” dos que arrojam perigos e, com eles, os entendidos do risco, anunciando em suas
discussões o que há e o que não há que se temer.
Pode-se dizer que a sociologia política e a teoria da sociedade de risco são, em sua
essência, sociologia cognitiva. Não sociologia da ciência, mas precisamente sociologia de
todos os amálgamas e de todos os agentes de conhecimento, em suas combinações e
oposições conflitantes, fundamentos, pretensões, equívocos, irracionalidades, verdades e
impossibilidades de acessar o conhecimento que reclamam. Em resumo: a atual crise do
futuro não é visível; é, sim, uma possibilidade - uma imputação contra a qual invocamos
todos os espíritos e divindades, do último céu aos abismos ctônicos.
Através da produção de riscos as necessidades se desligam de sua âncora residual
em fatores naturais e, com isto, de sua limitação e de sua satisfação. A fome pode ser
aplacada e as necessidades, satisfeitas; em troca, os riscos são uma “cornucópia às
137
avessas”, um “buraco negro”. Ousando um pouco, podemos dizer que o capitalismo
desenvolvido absorveu, generalizou e normalizou a força destrutiva da guerra de
produção de riscos. A sociedade industrial se nutre dos riscos que produz, criando
situações de perigo social e perigos políticos potenciais que questionam as bases da
modernização conhecidas até agora.
Os enunciados sobre os riscos contêm uma parte de co-determinação em sua
representação cultural implícita de valores acerca de uma vida digna. A conscientização
acerca dos riscos deve se reconstruir como luta competitiva entre pretensões de
racionalidade, algumas opostas e outras ocultas. A história da conscientização e do
reconhecimento social dos riscos coincide com a história do “desencanto” com as
ciências. A outra face do reconhecimento é a refutação absoluta (“não vejo, nunca vi,
odeio quem pensa que vê o quê não existe!”) de tudo o que é científico.
A produção de riscos e seu conhecimento têm, portanto, seu primeiro fundamento em
uma visão cíclica da economia por parte da racionalidade técnico-científica, cuja mira está
dirigida para a melhoria da produtividade. Ao mesmo tempo, essa visão é enevoada por
uma “catarata do risco” produzida de forma sistemática.
O que, por um lado, faz crescer a produtividade, por outro faz surgir bronquites,
infertilidade, dermatites e cânceres. Muitos não podem lutar contra tais riscos porque
jamais teriam idéia de seus fatores; outros não os temem diante de demandas mais
imediatas (“o que é uma tossezinha, diante da garantia do pirão de cada dia?”); outros,
ainda, enxergam apenas “misteriosos e justos desígnios de Deus”, colocando em uma
mesma categoria as chuvas ácidas - assim como deslizamentos de terra, eventos
teratológicos etc. - e as precipitações bíblicas de fogo e enxofre (e se colocando, lógico,
na condição de pecadores). Diante dessas condicionantes não há, definitivamente, alerta
da Organização Mundial da Saúde que seja ouvido ou, se ouvido, levado a sério. A
prática enganosa de muitos cientistas aponta para diferenças categóricas no manejo dos
riscos entre a racionalidade e a racionalidade social.
Os cientistas insistem na legitimidade e, sobretudo, na “bondade fundamental” de seu
trabalho; mantém elevados os padrões teórico-metodológicos para assegurar sua carreira
e sua existência material. Daí que, em seu trato com os riscos, produzem regularmente
138
resultados ilógicos – são as famosas leis do “Infelizmente, o paciente não colaborou” e do
“Ufa, ele está vivo! – ainda que eu não saiba como”. A insistência acerca da sucessão de
causas não-prováveis faz com que um cientista seja tido como luminar. Para os afetados,
os tratos com os riscos têm implicações de mesma direção e sentido oposto: a insistência
sobre a sucessão de causas não prováveis potencia os riscos. Neste caso vigem perigos
que é preciso evitar e cuja escassa probabilidade já é, de per se, uma tremenda ameaça.
O fato de que o reconhecimento do risco seja negado sobre a base de uma posição
confusa de conhecimento significa que a necessária atuação contrária não se realiza - e o
perigo aumenta.
A divulgação da demonstração de casualidade significa uma “ruptura do dique” e,
imediatamente, o avanço brutal de uma maré de riscos e danos a reconhecer que, pela
extensão de seus efeitos, sacudiria toda estrutura política e social de um país. Em
qualquer caso, para os riscos da modernização, ser “boquirroto” é, basicamente,
inadequado.
Existem comportas cognitivas de cloacas envenenadas, sobre cujos comandos de
abertura-fechamento estão sentado os cientistas do risco. Eles também dispõem de
grande magia: “Abracadabra! Agora está, agora não está! Onde estará?” Isto também se
celebra em concreto, como na “dança da chuva ácida”. Em termos mais claros, a
determinação dos valores e limites de tolerância ou regulação sobre quantidades
máximas toleráveis é outro conceito para repisar a ignorância do que pode suceder. Há
muita contaminação em todo mundo. Resumamos: falta ética em muitas atitudes e
também não há regulamentação (um vazio enorme jurídico e de conhecimento) para uso
de pesticidas, toxinas, mecanismos geneticamente modificados, medicamentos etc. Não é
um delírio compreender que os valores-limite se referem a noções de tolerância do
Homem para com a natureza (e vice-versa). Forçados pela necessidade, os seres
humanos estão ameaçados em suas posições civilizatórias de perigo, não por
substâncias contaminadas individualmente, mas globalmente.
Os valores-limite de tolerância cumprem, seguramente, a função de uma
desintoxicação simbólica. São, por assim dizer, tranqüilizantes simbólicos contra as
notícias que se acumulam acerca das toxinas. Anunciam que há alguém que se ocupa
delas fazendo um esforço e prestando atenção. Acontece que tem o efeito de elevar um
139
pouco mais além dos limites para os experimentos com humanos. Não há um círculo
alternativo, somente quando as substâncias são postas em circulação e quando podem
descobrir quais os efeitos. Quanto aos experimentos laboratoriais, os efeitos para as
pessoas só podem ser estudados com fidelidade se forem executados com pessoas.
A formação da consciência do risco na civilização altamente industrializada não
significa certamente uma página gloriosa na história das ciências naturais. Forma-se
contra a negação constante dos cientistas, e continua sendo reprimida por ela. Ainda
hoje, a maioria dos cientistas se situa deste lado. A ciência se tem convertido no
administrador supremo da contaminação global do Homem e da natureza. Os riscos
mostram uma mudança que transcende os limites. A produção desenfreada de riscos
corrói os ideais de produtividade, sobre os que se orientam pela racionalidade cientifica.
As ciências da técnica aparecem, de forma cada vez mais clara, como um momento
de censura histórica: ou bem seguem trabalhando e refletindo o caminho palmilhado no
século XIX, então confunde os problemas da sociedade de risco com aqueles da
sociedade de classes industriais, ou bem, se plantam o reto de um domínio verdadeiro e
preventivo do risco.
As pretensões do conhecimento científico são necessárias para ganhar espaço para a
exposição de seus próprios pontos de vista. Se aprende a conhecer e a trocar os trilhos
das vias em término de argumentação científica, que permite marchar o trem uma vez em
direção a minimizar os riscos e, em outra direção, a tratá-los com seriedade. A
consciência do risco já não se trata, pois, de experiências de segunda mão, mas de
impossibilidade de experiência de segunda mão. Ademais, ultimamente nada pode saber
a cerca dos riscos, entretanto saber significa: ter experimentado conscientemente.
As ameaças da civilização fazem surgir uma espécie de “reino das sombras”
comparável aos panteões das divindades antigas mais nefastas; esse reino se esconde
sob o mundo visível e põe em perigo a vida humana. Já não estamos em contato com
“espíritos” ou com o “mana” que nossos antepassados percebiam nas coisas; por outro
lado, estamos expostos a radiações, enchemos nossos pulmões de toxinas e nos vemos
perseguidos em sonhos pelo medo do holocausto atômico (isso, sem contar a “miséria
psiquiátrica” em que se encontram milhões de pessoas: quem pode, usa Prozac; quem
140
não pode...). Com a consciência do risco crítico da civilização entra em cena no âmbito do
cotidiano uma consciência da realidade determinada teoricamente. Igual a busca de um
exorcista, também a busca do contemporâneo torturado pelas substâncias nocivas está
dirigida ao infinito, ou melhor, ao abismo. Com a sociedade de risco começa, pois, uma
época especulativa de percepção do pensamento cotidiano. Os espíritos vestem a
mortalha das substâncias nocivas e tóxicas, diáfanas, porém onipresentes.
A consciência generalizada do dano, manifesta em termos sociais e políticos na
ecologia e no pacifismo, bem como na crítica ecológica do sistema industrial, se expressa
em outras camadas de experiência: onde árvores tombam e animais são mortos, os
próprios seres humanos se sentem em certo sentido afetados. A situação de ameaça não
desemboca necessariamente na tomada de consciência do perigo, mas também pode
provocar a negação do medo. Nesta possibilidade de ocultar a mesma situação de
ameaça se diferenciam e ocultam a distribuição da riqueza e a distribuição do risco: não
se pode saciar a fome por sua negação (a barriga segue roncando), mas os perigos
sempre podem ser eliminados mediante a interpretação. Na experiência da miséria
material estão unidos, indissoluvelmente, os danos reais e a experiência subjetiva. Não
sucede o mesmo com os riscos. Deles é característico o condão de produzir a ausência
da consciência: na medida em que o perigo cresce, também cresce a probabilidade de
sua minimização e negação.
Na sociedade de risco são essenciais algumas capacidades, como antecipar perigos,
suportá-los, enfrentá-los biográfica e politicamente. É essencial, também, saber lidar com
as inseguranças do dia a dia. A sociedade de risco pode implicar em conseqüências para
a vida das plantas, dos animais e dos seres humanos; porém os efeitos sociais,
econômicos e políticos destes efeitos secundários também são ferozes: pânico no
mercado financeiro, desvalorização monetária, expropriação feita às escondidas, novas
responsabilidades, mudanças de mercado, deveres políticos, controle das decisões
empresariais, reconhecimento de pretensões de indenizações, custos gigantescos em
processos judiciais. Os riscos são reais quando os seres humanos vivem como seres
reais.
Quanto mais crescem os perigos no processo de modernização, mais claramente se
mostram ameaçados os valores centrais da generalidade; quanto mais claramente se
141
toma consciência disto, tanto mais profundamente é perturbado o tecido do poder e de
competências na relação entre economia, política e opinião pública. E é tanto mais
provável que baixe a pressão do perigo iminente, se redefinam responsabilidades, se
centralizem as competências de atuação e se cubram todos os detalhes do processo de
modernização com controles e planificações burocráticas.
Precisamente, com o crescimento dos perigos, surgem na sociedade de risco desafios
completamente novos na democracia. A sociedade de risco contém uma tendência a um
“totalitarismo legítimo” voltado à defesa contra os perigos; ainda que estabelecido sob um
pretexto justo, porém, acaba por piorar a situação (afinal, não deixa de ser um
totalitarismo, uma institucionalização do risco como parte da estrutura de poder).
Os desafios presente e futuro da sociedade, portanto, dizem respeito à transformação
das ameaças naturais à civilização em ameaças sociais, econômicas e políticas do
sistema – daí a justificativa para o conceito de sociedade de risco.
4.4 – O risco em nossas vidas
A peculiaridade de desenvolvimento da estrutura social em alguns países tem um
efeito profundo: a sociedade de classes é elevada, em bloco, a um patamar mais alto.
Diante de todas as desigualdades que se mantêm - e também diante das que aparecem
pela primeira vez - há um “extra” coletivo de ingressos, educação, mobilidade, direito,
ciência e consumo de massas. Como conseqüência, identidades e vinculações subculturais de classe são deduzidas ou desenvolvidas. Ao mesmo tempo, se põe em
marcha um processo de individualização e diversificação de situações e estilos de vida
que não respeita o modelo hierárquico das classes e camadas sociais e põe em xeque
seu conteúdo de realidade.
O caráter social de classes e as condições formais de vida podem se perder devido a
uma “mudança global” de nível, mesmo que permaneçam constantes as estruturas de
desigualdade. A elevação do padrão material de vida é só uma das muitas possibilidades
de mudar as condições de vida das pessoas sujeitas, em sua miséria, ao lado “vencido”
da desigualdade social. Permanecendo constantes as relações de desigualdade, tem
lugar uma transformação na relação trabalho x vida. O tempo livre foi prolongado e muito
142
melhor equipado em termos materiais - mais conforto, maior acesso a bens tecnológicos e
a regiões distantes do locus em que se vive etc. -, mas essas condições são para quem
tem um “bom” trabalho.
Tanto o aumento da capacidade econômica quanto da disponibilidade de tempo não
dedicado ao trabalho retribuído colidem com a zona de tabus tradicionais e com o modo
de vida determinada pelas classes e pela família.
A mobilidade social – bem como a mobilidade geográfica e a própria mobilidade
cotidiana entre a família e lugar de trabalho – mescla os caminhos e as situações de vida
dos seres humanos. O caminho de vida das pessoas se torna independente face às
condições e aos laços de onde provêm os que as contratam; adquirem, pois, uma
realidade própria que é vivida como um destino pessoal. O dinheiro ganho pelo indivíduo
tem um valor não só material, mas também social e simbólico, pois muda as relações de
poder no matrimônio e na família.
Também em relação à educação, temos o mesmo padrão: estabelecimento de
relações de classe estáveis no pós-guerra, mudanças com a ampliação e o
aprofundamento da educação nos anos 60 e 70 e, também, mudanças claras nas
relações de desigualdade. Com a redefinição estrutural (principalmente em relação ao
tempo de estudo formal), as orientações, as formas de pensar e os estilos de vida
tradicionais foram relativizados ou substituídos por condições de ensino voltadas a um
contexto transacional (encaminhamento pedagógico, conteúdos e formas lingüísticas de
tipo universalista).
Ao contrário do que acontecia no século XIX, atualmente os seres humanos já não se
reúnem em grandes grupos organizados socialmente para lutar por direitos sociais e
políticos. Se formalmente essa organização pode prevalecer – principalmente, sob
olhares acadêmicos específicos – em termos materiais, em termos específicos ela não se
verifica. Paradoxalmente, Marx pode ser considerado como um dos teóricos mais
decididos da individualização; esse paradoxo desaparece ao se perceber sua perspectiva
teórica de caráter histórico e político: o individualismo funciona como um fator dialético
para a observação da estrutura de classes. Para ele, o processo permanente de
individualização e liberação do sistema capitalista interfere de forma constante pela
143
experiência coletiva do empobrecimento e pela dinâmica da luta de classes
desencadeada deste modo.
Em seu tempo, Max Weber foi o pensador mais preparado para a percepção do
significado histórico do locus da liberdade do ser humano na inflexão “sociedades
tradicionais” x “modernidade”. Para ele, no princípio do século XX se estabeleceu um
desprendimento relativo aos vínculos entre a realidade-padrão e a religiosidade. Weber
observou que o abandono de elementos organizadores sociais determinados pela
instituição religiosa implicou, nas sociedades onde se verificou, em um rápido
desenvolvimento econômico. Nessas sociedades, a “trava católica do pecado”
relacionada aos ganhos econômicos foi substituída pela visão de que o trabalho agrada a
Deus e faz com que Ele recompense os seres humanos.
Com a modernidade, porém, Deus deixou sua posição central na realidade e passou a
ser encarado como um dado do pensamento crítico. O Homem, então, já não era
construído à imagem e semelhança de Deus; ao contrário, Deus era apenas um dado,
uma faceta em uma realidade fortemente relativizada.
Em uma existência carente de um “Deus-em-Si” e contemplada com a presença de
um “Deus-representação”, porém, os seres humanos foram devolvidos a si mesmos e
passaram a viver uma solidão infinita. Com as devidas precauções acadêmicas, podemos
perguntar se essa não seria, de fato, a realização do castigo divino registrado no Gênese.
Nessa perspectiva, “a ciência do bem e do mal”293 pode ser entendida como a
fragmentação derivada da modernidade. A “queda do Homem” implicou em um
afastamento radical de Deus.
Max Weber, um crítico da modernidade, acompanhou seu desenvolvimento e
percebeu que sua dinâmica de renovação é incessante. Simbolicamente, poderia ser
retratada como um fractal. No trato com o conceito de classes e camadas, a descrição e o
prognóstico, a teoria e a política, estão entrelaçados de maneira peculiar. Isto confere à
decisão sobre conceitos um dramatismo implícito de difícil controle só mediante
referências empíricas e teóricas. O conceito de “camada” é um conceito de “classe
liberalizada”, de “classe em estado de despedida”, de um trânsito em que a realidade
293
Gênesis, 2, 17.
144
social das classes escapa por entre as massas. O “elemento pensante” de tal camada,
porém, não se atreve a confessar a própria perplexidade; adota, então, uma atitude típica
dos cientistas: desinfeta suas ferramentas e “parte para outra”.
As camadas são o estágio indeciso entre as classes e as classificações. Assim, a
divisão entre classes e camadas potencializa a desigualdade social. Esse movimento de
desigualdade aumentou de forma avassaladora a partir dos anos 70, principalmente por
conta do estabelecimento de indústrias de base tecnológica voltadas à produção de
equipamentos eletro-eletrônicos. Ele continua a crescer em função da automatização
industrial, que corta milhares de empregos a cada ano e que desvaloriza brutalmente a
mão-de-obra humana. O que existe é uma nova pobreza, com os indivíduos sendo
afetados pela individualização e pelo desemprego maciço de uma maneira socialmente
visível e coletiva. Há uma carência no mercado – crescem as corporações, diminui o
número de empresas, aumenta o número de desempregados. O destino de muitas
pessoas é, cada vez mais, incerto.
O desemprego se concentra mais entre os menos preparados em termos
educacionais e também entre vítimas históricas de preconceito, como negros, mulheres,
trabalhadores de mais idade ou muito jovens, minorias étnicas, pessoas com problemas
de saúde e portadoras de necessidades especiais. Há de considerar, também, um cruel
fator decorrente do “baixo valor” da mão-de-obra: quando aparece, o trabalho – que é
agarrado com sofreguidão - pode ser informal ou ilegal (caso do tráfico de drogas),
humilhante, insalubre ou perigoso. Pode reduzir o indivíduo à condição de escravo. Ainda
assim, não há como negociar: para cada trabalhador que leva em conta tais elementos,
há dezenas de outros para quem o desespero fala mais alto.
Num mundo dominado pela “economia global” (que, em sua prepotência, faz
abertamente uso da guerra para alcançar seus intentos), a torrente de “desvalidos da
sorte” encontra outras pedras em seu caminho: violência, fome, incapacidade econômica,
impossibilidade de possuir uma casa própria, alienação decorrente do uso de drogas
lícitas (destilados populares) e ilícitas (crack).
145
Outro sentido do desemprego, tão cruel – senão mais – que os anteriores se refere à
relação entre o indivíduo e o seu meio. “Eu não me dou bem, não consigo emprego. Sou
um fracasso!” – o sistema, por sua vez, é perfeito. Haja cachaça para suportar isso!
A nova situação de pobreza é explícita e necessita de uma proteção política e
organizativa. Sem isto, ela continuará existindo. Mas o capitalismo do Estado, cuja força é
grande, passa a imagem inofensiva de desenvolvimento e, com isso, a exclusão segue
em frente. Nesse sentido, a insegurança – principalmente material - tende a crescer cada
vez mais e acaba existindo um choque global entre favorecidos e desfavorecidos. Por
uma parte, o “sistema” sinaliza com argumentos continuamente renovados a favor das
vantagens obtidas pelos trabalhadores no contexto do capital: bem-estar material,
abertura de oportunidades de formação, organização sindical e política, bem como
direitos e seguranças sociais obtidos deste modo. Não existe, porém “cafezinho de
graça”.
A bem da verdade, o capitalismo é instável. Como depende do ingresso de capital –
que hoje em dia não é encontrado em muitos bolsos – ele oscila, vende uma imagem
falsa de melhora, e a população abaixo da linha do Equador (salvo algumas exceções)
acaba como um navio sem rumo e que está fazendo água. Uma conseqüência é que
todos acabam precisando de auxílio: compensações jurídicas, médicas, psicoterapia
individual e em grupo. Sem grana até para a polenta, porém, como pensar em Jung ou
em tomografia? Vale citar uma representação artística dessa miséria - a letra “Deus, me
dê grana”, da banda brasileira “Camisa de Vênus”:
"Senhor, vou lhe falar: Nunca pedi assim!/ Sempre rezei pros outros/ Mas desta vez é pra
mim/ Perdi tudo o que eu tinha/ Sei que fiz muita besteira/ Mas se você não achar o meu
bolso, Deus / Por favor coloque na carteira/ Se eu fico aqui parado, nessa bobeira sem fim/
Logo, logo os "hôme" vão estar atrás de mim/ Você tá numa boa, é o dono do paraíso/
Então me empresta uns trocados, Deus, é só disso que eu preciso/ Deus me dê grana,
Deus, por favor/ Deus me dê grana, seu filho tá na de horror/ De manhã bem cedo, alguém
bate em minha porta/ É a proprietária que eu sonhei estava morta/ Pulo pela janela na
maior correria/ Mas é muito difícil, Deus, com a barriga vazia/ Deus me dê grana, Deus,
por favor/ Deus me dê grana, seu filho tá na de horror/ Quando passa aquela loura, que
mora aqui do lado/ Só de imaginar eu fico super excitado/ Mas como eu posso armar uma
treta decente/ Se até me falta pasta, Deus, pra eu escovar os dentes/ Deus me dê grana,
Deus, por favor/ Deus me dê grana, seu filho tá na de horror/ Senhor, eu sei que você é
gente fina/ Sei também que dureza nunca foi a minha sina/ Aceito de bom grado uma
146
bolada qualquer/ Pode me dar em cheque, Deus, ou em dólar se puder/ Deus me dê
grana, Deus, por favor/ Deus me dê grana, seu filho tá na de horror”294
Aí está: em certas circunstâncias, não há possibilidade de enfrentar a destruição e os
danos tout seul, sem uma ajuda especializada - nem que seja ela vinda de Deus!
Da metade do século XX para cá vem existindo uma mudança no significado da
família, da sexualidade, do matrimônio e da paternidade, mas, também, há uma rápida
mudança nas chamadas “culturas alternativas”, decorrentes dos setores privado e público.
Antes se falava de uma família feliz, casa nova, boa educação para os filhos e elevação
do padrão de vida. Hoje, muitos falam em outra linguagem, que gira em torno – de
maneira forçosa e vaga – da auto-realização, da busca de uma identidade própria, tendo
como objetivo o desenvolvimento das capacidades pessoais e da competitividade.
Mas isso não vale por igual para todos os grupos de população. Para os jovens mais
pobres, por exemplo, estes símbolos convencionais não têm valor - há, evidentemente, a
exceção do tráfico de drogas, que confere poder de compra por meio da
institucionalização do poder de fogo. A conseqüência da miséria total para os seres
humanos é que eles caem de maneira cada vez mais profunda em labirintos pessoais de
insegurança, questionamento e incerteza. Estas situações abalam também a ética entre
as pessoas, existindo muitas expressões de egoísmo e narcisismo. Outra decorrência
desta situação aparece nos conflitos e na produção de movimentos sociais, entre os quais
se destaca o Feminismo.
O motor da individualização está em pleno funcionamento e, portanto, não há maneira
de saber como fundar novos nexos sociais duradouros, comparáveis à estrutura profunda
de classes sociais, assim como por meio de novos meios de comunicação e informações.
Seria um passo para a passagem de uma sociedade de desigualdade para uma melhor,
mais humana. Com a necessidade de uma grande mobilização social, com os seres
humanos se unindo e buscando seus direitos e exercendo-os para a conquista de um
mundo mais justo, com menos riscos e com mais possibilidades e oportunidades de uma
qualidade de vida melhor. Aí entra a questão do exercício da cidadania.
294
Letra de Marcelo Nova, Karl Hummel e Gustavo Mullem. Disponível em:
<http://www2.uol.com.br/marcelonova/disco/correndorisco/deusme.htm> Acesso em 17 de setembro de 2004.
Outra música com apelo semelhante é “Mercedes Benz”, de Janes Joplin.
147
O mercado de trabalho tem que ser mais flexível, o que ajudaria. Há quem fale sobre
“economia solidária”, na qual empresas estabelecidas ou que empregam pessoas mais
pobres teriam prevalência no mercado. O que fazer, porém, quando tais empresas
passam a competir entre si, replicando o modelo de que pretendem fugir? Mesmo uma
“agenda positiva” traz contradições internas.
As questões relacionadas ao sexo dentro e fora da família “mesmerizam” as massas;
aparecem no “mesmo balaio” das representações de trabalho, desigualdade, política e
economia. É uma mescla desequilibrada do todo, do avesso, que complica os
questionamentos. Quem fala de família tem que falar, também, de trabalho e de dinheiro;
quem fala de matrimônio tem que falar, também, de educação, de trabalho e de
mobilidade. Quem, porém, fala o quê? Quem se educa para isso? Não há consenso sobre
o papel do homem e da mulher, não há uma constância no comportamento diante das
situações, em especial no mercado de trabalho, mas também nas seguranças sociais. A
equiparação da educação e a tomada de consciência das mulheres mais jovens sobre as
expectativas de igualdade chocam-se com o desenvolvimento do mercado e com o
pensamento de uma sociedade ainda patriarcal (muito mais nos países pobres).
Em todos os países do Ocidente cresce o número de divórcios, sendo que cada vez
menos os divorciados decidem casar de novo. Situações decorrentes, como a disputa
pela guarda ou pela simples atenção dos filhos, implicam em conflito. A unidade e a
constância dos conceitos de família, matrimônio, maternidade, mãe, pai etc., oculta a
crescente pluralidade de situações que se escondem por detrás deles, como: mãe
solteira, pai que educa o filho sozinho, mãe que trabalha e homem que fica em casa, pai
de “fim de semana” etc.
Cada vez mais as pessoas vivem sozinhas – vale lembrar que, como afirmavam
nossas cartilhas do ensino primário, “o Homem é um ser gregário” -, reforçando uma
anarquia e o esvaziamento dos modelos de relação entre homens e mulheres. Outra
mudança, é que antes só aos homens era permitido o sexo antes do casamento. Hoje, as
mulheres mantêm relações sexuais antes do casamento e assumem este ato. Mas
mesmo com estes conceitos e estas mudanças, uma relação estável está sempre em
primeiro plano.
148
No papel, já não vigoram normas que tratem diferentemente homens e mulheres;
ambos têm direitos iguais, havendo uma igualdade revolucionária de oportunidades
educativas. Mas tal revolução educativa não foi seguida por uma revolução no mercado
de trabalho, nem no sistema ocupacional. As portas se abriram na educação, mas, no
mercado de trabalho, muitas ainda estão fechadas. A mulher também vem conseguindo
espaço na política, esporte, meio religioso etc. O trabalho profissional qualificado para
mulheres jovens não foi afetado. Na comparação com suas mães, elas são preparadas e
estão alcançando seus objetivos. O espaço que a mulher vem conquistando não
depende, porém, somente dela, mas também de uma mudança no comportamento dos
homens.
Os homens estão divididos diante da situação. Uns aceitam, outros relutam e querem
que a mulher continue em casa, enquanto eles sustentam o lar. Alguns dizem que a
mulher se masculinizou, que perdeu o charme, mas, no entanto, muitos aceitam
tranqüilamente sua autonomia e completam que, sem o trabalho delas, seria difícil manter
uma casa e uma família. Como toda mudança exige adaptação, esse trajeto é comum.
Mas, sob as fachadas da ideal relação cultivada por ambos os lados, se acumulam
contradições, surgindo em muitas situações crises de identidade e, às vezes, inversão de
valores: a mulher tem que entender que a gravidez pode fechar oportunidades
profissionais para ela e – felizmente! - já não é considerado “constrangedor” um homem
chorar.
De acordo com a regra, a igualdade esbarra na natureza da pessoa. Muitos se
enganam diante deste aspecto: não é pela capacidade reprodutora da mulher, que só ela
tem que ser competente em todos os pontos da educação do filho; da mesma maneira, o
êxito do homem não está só ligado à sua condição econômica e sucesso profissional.
Estabelece-se uma obrigação crescente de harmonia em todos os assuntos do casal,
principalmente sobre sexo e, se cada um cumpre com suas obrigações, se respeita os
limites do outro, o relacionamento é saudável.
Os contrastes entre os sexos que emergem com a destradicionalização da família
estouram essencialmente na relação do casal, na cozinha, na cama e até no espaço dos
filhos. Suas discussões são sobre os riscos do dia a dia: insegurança, educação, falta de
lazer etc. Os contrastes de classes que surgem com o sistema industrial estão
149
fundamentados no modelo industrial de produção de maneira, por assim dizer,
imanentemente moderna. Assim, o contraste dos sexos é um produto base do sistema
industrial.
São diferentes de uma maneira histórica as situações de vida que se criam e
designam com a separação da família e produção. Assim, pois, não há um só sistema de
desigualdade que tem sua base na produção: diferenças de salário, de profissão, de
atitude ante os meios de produção etc. As classes e, dentro delas a família, encontram
muitas resistências, pois a transformação segue e as diferenças se fortalecem, causando
também insegurança na nova vida que surge. Os conflitos são constantes, a estrutura é
abalada, mas todos têm que estar preparados para as mudanças. A equiparação entre
homens e mulheres não se pode criar em estruturas institucionalizadas que pressupõem a
desigualdade. Não podemos forçar os novos seres humanos, “redondos”, a entrar nas
velhas casas “quadradas” que representam o mercado de trabalho, o sistema de
ocupação, a planificação urbana, o sistema de segurança etc.
Como pudemos perceber, as formas tradicionais de viver estão passando por
transformações; também outras mudanças representativas estão acontecendo e, de
maneira geral, interfere também nos relacionamentos: o aumento da expectativa de vida
vem alterando o tecido biográfico, as sucessões das fases de vida; os processos de
modernização vêm reestruturando o trabalho doméstico, em especial depois da Segunda
Guerra Mundial; se é correto afirmar que a maternidade segue sendo o vínculo mais forte
com a relação feminino tradicional, apenas se pode exagerar o significado que os
métodos anticoncepcionais e as possibilidades jurídicas para interromper a gravidez têm
para o desprendimento das mulheres a respeito a idéias tradicionais; o número crescente
de divórcios remete à fragilidade do sustento matrimonial e familiar e, por último, atua na
mesma direção a equiparação das oportunidades educativas, que é expressão de
motivação fortemente profissional das mulheres jovens.
A família se converte em um malabarismo com ambições divergentes entre as
profissões e suas exigências de mobilidade, obrigações educativas, deveres para com os
filhos e a monotonia do trabalho doméstico. Quando homem e mulher trabalham, melhora
a situação financeira da casa, mas os problemas daí decorrentes já foram mostrados
aqui. As contradições do mundo alcançam até o juiz que toma decisões “terminais” em
150
relação aos casais. Resumindo, há muitos tabus a serem superados na relação homem e
mulher. O primeiro a ser excluído foi Deus. A palavra fé, que em outros tempos significava
ter experimentado, tem hoje o tom ligeiramente mesquinho de porque sabemos. Com
Deus desaparece a força de seu procurador na Terra, o religioso institucional. Sem este
indivíduo, não há – para muita gente – como descarregar os medos e as culpas, bem
como obter orientações.
As classes estão com dificuldades para lidar com o sofrimento e até as intimidades
passam por mudanças. A morte, por exemplo, foi excluída do cotidiano, teve seu “ritual de
passagem” (dos vivos, evidentemente, em relação aos defuntos) abreviado ou, mesmo,
abolido – coisa do tipo “morreu, ensaca e pronto!” Como fica, numa situação como essa, a
psique dos vivos diante do “sumiço” de um pai, de um filho, de um irmão ou de um amigo?
É, para usar uma expressão popular, algo um tanto quanto “cabuloso”.
A modernidade está por trás disso: Deus não, o sacerdote não, suma-se o defunto, a
classe não, o vizinho não – tudo foi trocado pelo Tu. Sua grandeza é a inversão do vazio
que reina por qualquer lugar. Nesse sentido, o que as pessoas mais temem é a solidão e,
no dia-a-dia, tentamos lidar, desesperados, com essa “espada de Dâmocles”.
Com o avanço da modernização aumentam em todos os campos de atuação social as
decisões e as obrigações de tomar decisões. “Quem que vai fazer o quê? Vai você!”
Alguém tem que tomar consciência. Em todas as dimensões deve haver uma tomada de
decisões, deve existir uma eleição. Em acordos, erros e conflitos a ela relacionados se
manifestam com claridade cada vez maior os diversos riscos e conseqüências para
homens e mulheres. Pensando sistematicamente, a transformação das tomadas de
decisão significa duas coisas: a indecisão se torna o maior de todos os pecados, o novo
Tabu; quem decide, vence, está salvo – se acertar, acertamos na mosca; o erro, como
num duelo, representa uma forma de morte – errar não é mais humano.
Os matrimônios buscam soluções privadas, que tendem a uma divisão interna dos
riscos. Alguém deve assumir uma missão, ser afirmativo, enquanto ao outro caberá a
cessão do direito. Isso, evidentemente, nem sempre é tão simples. As pessoas levam
para a família muitos problemas a ela não relacionado e quase todos os conflitos acabam
ganhando um aspecto institucional. Essa situação leva, também, à redução no número de
151
filhos do casal: hoje em dia, para maioria um único filho já está “mais do que bom” diante
das circunstâncias de vida. O filho, muitas vezes, é um obstáculo no processo de
individualização. Ele acaba por definir a tendência do relacionamento - o casal vai e vem mas o “pimpolho” continua lá, louco por afeto e por quem lhe troque as fraldas. Os
conflitos seculares se acumulam e não sabemos como serão os resultados privados e
políticos.
Muitos vêem como um individualismo exacerbado os processos de mudança advindos
da modernidade; muitos, portanto, assumem uma paradoxal postura de “fundamentalismo
pós-moderno”, um retorno às velhas e drásticas fórmulas para tentar conter o avanço do
“novo”. O arcaico, então, ganha ares de estado da arte! Hoje, experts em administração
de empresas estudam atentamente os métodos “ultra-ortodoxos high tech” da Al-Qaeda,
tentando extrair algo para melhorar o próprio desempenho! É um tempo, definitivamente,
“tremendo e fascinante”.
A família pequena, celular, acaba se tornando uma alternativa para uma vida mais
segura, mas sua estabilidade é apenas aparente. O desenvolvimento histórico e os nexos
sociais que implicam nos conflitos se dão, por completo, fora do campo visual.
A vigência universal dos princípios da modernidade há de ser reclamada e imposta
frente a seu recorte patriarcal, no trabalho doméstico, nos parlamentos, no governo, nas
fábricas, no gerenciamento etc. O que significa igualdade, no detalhe, carece de
interpretação. Se a igualdade é interpretada no sentido de realizar para todos uma
sociedade de mercado de trabalho, implicitamente se está criando com a igualdade a
sociedade de solteiros completamente móveis. Levando isto às últimas conseqüências, a
figura fundamental da modernidade realizada é a pessoa que vive só, um “triste Homem
Vitruviano”.
Na vida que há de ser levada em solidão são necessárias normas que lhe assegurem
continuidade. Há que se construir e cultivar círculos de contatos para situações mais
diversas. Isto requer muita disposição da pessoa para viver bem e procurar, ainda, o
apoio de outros. É necessário, também, muito equilíbrio. Mas, na medida em que tem
êxito esta forma individualizada de existência, cresce o perigo de que isto se converta em
um tremendo obstáculo para uma possível vida a dois.
152
A desigualdade entre homens e mulheres não é um fenômeno superficial, que pode
ser corrigido nas formas e estruturas da família e da esfera profissional. Estas
desigualdades históricas estão incrustadas no esquema fundamental da sociedade
industrial, em sua relação de produção e reprodução, de trabalho familiar e retribuído.
Com elas surgem as contradições entre modernidade e contra-modernidade na sociedade
industrial. Portanto, não podem ser eliminadas fomentando a liberdade de eleição entre
família e trabalho. A igualdade entre homens e mulheres não pode ter êxito nas estruturas
institucionalizadas, pois esta tem seu ponto de referência na desigualdade. Uma dinâmica
de mercado de trabalho adaptada às necessidades da família só representaria um dos
lados. A convivência social das pessoas tende assumir uma nova feição. E isto deve ser
pensado.
A modernização não só conduz à formação de um poder estatal centralizado, à
concentração de capital e a um tecido de textura cada vez mais fina das divisões de
trabalho e das relações de mercado, da mobilidade, do consumo popular etc; também
conduz - e com isto entramos no modelo geral – a uma tripla individualização: dissolução
das precedentes formas sociais históricas e os vínculos no sentido de dependências da
subsistência e domínios tradicionais – dimensão de liberação; perda de seguranças
tradicionais em relação ao saber fazer, crenças e normas de orientação – dimensão de
desencanto; e um novo tipo de coesão social – dimensão de controle e de integração -,
com o qual o significado do conceito se converte precisamente em seu contrário.
Hoje, já não se produz uma integração social no âmbito da reprodução, as diferenças
de condições individuais suportam, assim mesmo, uma elevação muito evidente e as
simultaneidades de individualização, institucionalização e elevação não dão conta das
condições individuais originais. A individualização se converte na forma mais avançada de
socialização, dependente do mercado, das leis, da educação etc.
No curso dos processos de individualização realmente não desaparecem as
diferenças de classes, nem as relações familiares; mas bem permanecem no fundo em
relação ao novo – centro – emergente do modelo biográfico vital. Paralelamente, surgem
novas dependências. Estas remetem a contradições imanentes no processo de
individualização. E na modernidade avançada se realiza a individualização sob as
condições de um processo de socialização que impede gradualmente a autonomia do
153
indivíduo. Continua a transformação do indivíduo. A existência fica dependente de
intervenções e os conflitos e riscos, às vezes, impedem uma solução individual.
Individualização significa dependência do mercado em todos os aspectos da vida.
A televisão isola e eleva. Por uma parte, libera os homens de dependências vitais, de
experiências e conversações tradicionalmente consolidadas. Mas em sua vez todos se
encontram em uma situação similar: consomem programas televisivos fabricados
institucionalmente,
de
todos
os
tipos.
Isso
ocorre
transculturalmente
e
transnacionalmente, a televisão e as notícias estão ao mesmo tempo em todos os lugares
do mundo. O lado externo penetra no interior e influencia no privado das relações e
decisões, em todos os âmbitos: educação, trabalho, mercado de trabalho, sistemas de
comunicação etc. Esta dependência das instituições incrementa as situações de crises
das condições individuais geradas. As instituições atuam com categorias juridicamente
fixas de biografias normais, que cada vez correspondem menos à realidade. A sociedade
nascida das formas de vida da sociedade industrial – classes sociais, família nuclear,
funções sexuais e ofício – se emolduram em um sistema de instituições políticas,
administrativas e de previsão social que implica, cada vez mais, em um tipo de função
reitora própria da época industrial que se extingue.
Devido à dependência institucional, a sociedade individualizada também se vê
transpassada por todos os conflitos possíveis, vínculos e coalizões além das tradicionais
fronteiras entre classes sociais. O decisivo é como a sociedade individualizada concebe e
percebe o destino coletivo prefigurado institucionalmente e que aparece vinculado à vida
dos homens. A individualização também significa que a biografia pessoal fica à margem
de pautas prévias e aberta a situações em que cada qual há de eleger como atuar. As
opções sobre formação, profissão, trabalho, lugar de residência, eleição do parceiro,
quantidade de filhos etc., incluída as opções implícitas, não só podem, mas devem ser
decididas.
Na sociedade individualizada, cada qual há de aprender os inconvenientes a partir do
fracasso e a conceder a si mesmo a condição de centro de ação, como oficina de
planificação em relação a sua própria vida, sua capacidade, orientação, companhias etc.
Por conseqüência, se abrem as comportas para a subjetivação e a individualização dos
riscos e contradições originadas sócio-institucionalmente. Se antes o que ocorria era um
154
golpe do destino enviado por Deus e pela natureza, hoje as circunstâncias se interpretam
como fracassos pessoais, desde a privação de um exame até o desemprego e o divórcio.
Na sociedade individualizada, os riscos não só aumentam, mas também surgem
novas formas qualitativas de riscos pessoais: aparecem também novas formas de imputar
culpa, o que representa uma sobrecarga. Essas coações que impõem a auto-elaboração,
auto-planificação e auto-produção da biografia produzem, mais cedo ou mais tarde,
também novas exigências em formação, previsão, assistência terapêutica e atividade
política.
A importância adquirida pelo trabalho na sociedade industrial não encontra similar na
História. A importância do trabalho produtivo para a vida dos homens na sociedade
industrial não radica, ou pelo menos não essencialmente, no trabalho considerado em si
mesmo. O trabalho produtivo e a profissão, na época industrial, se converteram nos
pontos de contato do eixo da existência. Desde dentro da família isto é vivenciado - o
adolescente experimenta a profissão de seu pai como chave de compreensão do mundo.
Hoje em dia, quando um desconhecido pergunta a alguém quem ele é, a resposta não
parte da religião a que pertence ou da idade, mas sim à sua profissão. Quando
conhecemos a profissão de alguém, cremos conhecê-lo. A profissão é um meio de
identificação e, graças a isto, valorizamos o homem e atribuímos uma posição na
sociedade.
O tema do desemprego violento nos países industrializados do Ocidente continua
sendo discutido com critérios e categorias antiquados. Todavia impera a esperança, em
quase todos os âmbitos políticos e econômico, de que a raiz de uma recuperação da
economia durante este novo século recuperará o pleno emprego. As inseguranças desse
tipo de cálculo não devem induzir a enganos acerca de seu grande alcance político. A
interpretação assegurada não só em termos científicos, mas também em termos políticos
durante os últimos anos casa e coincide com a premissa de que temos que por em dúvida
sistematicamente: a continuidade do sistema ocupacional atual e seus pontos de apoio –
ocupação, trabalho, profissão etc.
O atual sistema de trabalho, surgido durante o século XIX a partir de duros conflitos e
crises sociais e políticas, se fundamenta em progressivas elevações de todos os aspectos
155
essenciais: do contrato de trabalho, do trabalho e do tempo de trabalho. A relação entre
processo de produção e trabalho social perde o referencial: a evidência de que a
cooperação direta significa trabalhar conjuntamente em um lugar fica alterada. E, assim, o
sistema ocupacional varia seu aspecto de maneira essencial. No lugar da configuração
ocupacional de trabalho, desenvolvida em grandes edifícios e fábricas, aparece uma
organização de ocupação invisível.
Evidentemente, a flexibilização espacial e temporal do trabalho não se produz do
mesmo modo em todos os campos do sistema ocupacional. É preciso supor que a
diversificação do tempo e da localização do trabalho se produzem de forma independente.
É possível combinar as ganâncias autônomas dos trabalhadores com a privatização dos
riscos de saúde e psíquicos do trabalho, graças à localização imprecisa do trabalho
remunerado. Se considerarmos conjuntamente as conseqüências da elevação do tempo e
espaço, podemos dizer que se dá o passo de um sistema, próprio da sociedade industrial,
do trabalho unificado, organizado fabrilmente ao longo da vida, cuja alternativa é o
desemprego, a um sistema cheio de riscos de subemprego mais flexível, plural e
descentralizado que não reconhece o problema do desemprego.
A sociedade industrial, distante dos velhos tempos do trabalho em casa, tornou basilar
o trabalho fora de casa. Essa separação entre o trabalho familiar e o remunerado volta a
diminuir o sistema da sociedade de risco, devido à desregularização dos empregos, das
redes eletrônicas etc. As categorias até hoje básicas – fábrica, profissão, emprego – já
não servem para a realidade emergente da organização do trabalho que advêm de forma
imperceptível socialmente. Também podemos descrever a perspectiva aqui esboçada
considerando que todo quanto foi contraposto em forma de antítese – trabalho formal e
informal, emprego e desemprego – no futuro se fundirá em um sistema novo, mais flexível
e plural em formas de subempregos que representam muitos riscos.
No interior do sistema ocupacional de pleno emprego, o emprego corresponde a um
esquema bipolar de branco/negro; emprego e desemprego se contrapõem. Na atual
situação de crise se descobre e difunde, como Deus Ex Máquina em suas vantagens e
inconveniências, o tempo de trabalho em termos de reserva de organização. Em tal
contexto é fácil compreender que a manobra para reduzir a carga horária de trabalho é
extraordinariamente escassa supondo-se a exigência apenas equivalências salariais.
156
Diante das greves – conquistas dos sindicatos – as empresas descobriram a força
produtiva do trabalho a tempo parcial, o subemprego, deste modo mais geral, a
desestandartização das normas de trabalho e as possibilidades organizativas aí implícitas
para o aumento da produtividade na base microeletrônica. Também isto ocorre de modo
desigual, contraditório e descontínuo.
O princípio da divisão do trabalho ou fragmentação do trabalho é substituído pelo
princípio contrário de reunificação de tarefas parciais em um nível superior de qualificação
e de soberania especialista. A grande quantidade de trabalhadores pouco qualificados ou
sem qualificação é substituída por uma reduzida quantidade de trabalhadores de
automatização profissionalizados. Neste sentido, há mais vantagens para as empresas do
que para o funcionário. Não que não exista crise nas empresas, mas o trabalhador é
sempre mais afetado pelos riscos. O processo de racionalização já não tem lugar só no
interior das formas industriais e no cenário do trabalho remunerado, mas que também se
orienta em seu sentido contrário.
Se alguém desperta do sono da rotina e da investigação e abre bem os olhos, se
delineará a inquietante questão do futuro da formação, ante a mudança do sistema da
sociedade industrial, e verá diante de si um mar de questões cuja clara urgência só
parece superada por seu caráter insolúvel. Há um fantasma que ronda a maioria das
profissões: a pessoa depois de obter uma qualificação, corre o risco de ficar sem
emprego. Isto significa que os fundamentos que dão sentido de modo imanente à
formação e ao sistema de ensino sofrem danos ou são destruídos pela interrupção
externa do mercado de trabalho. Hoje, o jovem fica mais tempo na escola a fim de eleger
uma formação completa, para evitar o desemprego e, mesmo assim não está seguro de
seu futuro. Muitos conseguem um emprego por sua vocação diante da sua cultura, mas
há filas nas instituições de ensino para se obter qualificação específica. Poucos
conseguem seguir caminho apenas com sua vocação primária e, também, poucas
instituições de ensino não são falhas e necessitam urgentemente de reformas.
Para uma grande quantidade de alunos que concluem seus cursos se interpõe entre,
formação e ocupação, uma zona cheia de riscos sobre sua função. O que fazer diante do
futuro que os espera é difícil. Muitos precisam até de acompanhamento psicológico diante
das situações que vão encontrar, pois as portas do sistema ocupacional estão quase
157
fechadas e a população não pára de crescer e, em todas as camadas da sociedade,
aumentam a tendência de adquirir formação complementar e adicional devido ao
desemprego que ameaça a todos. Mas, além de tudo, os jovens se sentem tranqüilos e
esperançosos, pois acham que, de algum modo, seus esforços serão premiados.
A quantidade de trabalho na sociedade industrial diminui e o sistema laboral se
impregna de novos princípios organizativos. O trânsito do sistema educativo ao
ocupacional se acha inseguro e precário; entre ambos se situa uma zona negra de subocupação cheias de riscos. Há alguns que defendem uma superespecialização, outros
acham que leva muito tempo e a um desperdício – que não pode ocorrer na sociedade de
risco. Há também uma distribuição desigual de oportunidades sociais mediante a
formação, e isto deve ser revisto. Entretanto, mesmo com esses problemas educacionais,
quem não faz um estudo qualificado de seu futuro se destrói. O nível de analfabetos no
mundo continua alto e, se a situação é difícil para quem estuda, pode-se imaginar para
aqueles que não têm esta oportunidade que, muitas vezes, é obra do descaso do
governo. A situação é caótica e, se não existir uma reforma nas instituições –
principalmente de ensino – a distribuição de riscos continuará assombrando todos os
setores e todos os habitantes do mundo.
4.5 – Risco em aldeia global
Partimos, a seguir, de uma idéia central: se antes existiam perigos gerados
externamente (por “vontade” dos deuses e da natureza), hoje eles – vistos como riscos –
radicam sua presença na simultânea construção científica e social; e, também, em um
triplo sentido: a ciência se converteu em causa e em instrumento de definição e fonte de
solução para os riscos, o que torna o conhecimento algo altamente valorizado pela
sociedade capitalista.
O desenvolvimento técnico-científico se faz contraditório pelos intercâmbios de riscos,
bem como por sua co-produção e co-definição, em sua crítica pública e social. Esta
perspectiva se desenvolve mediante quatro teses:
1 – De acordo com a distinção entre modernização e a tradição da sociedade
industrial, podemos diferenciar dois grupos em relação à ciência, prática e vida pública,
que são os conhecimentos simples e reflexivo. No primeiro caso, se aplica a ciência ao
158
mundo resultante da natureza, do homem e da sociedade; no segundo as ciências já
estão enfrentadas e seus próprios produtos, defeitos e problemas, induzidos; também
se encontram, porém, ante uma segunda criação civilizatória. A lógica do
desenvolvimento da primeira fase consiste em uma generalização da ciência parcial,
na qual as exigências de racionalidade científicas no conhecimento e na ilustração
ainda a fazem livre da auto-referência metódica da dúvida científica. A segunda fase
consiste em um “transconhecimento” que levou à dúvida científica também os
fundamentos imanentes e as conseqüências externas da própria ciência. Assim, ocorre
que o encanto da exigência da verdade e ilustração se desfaça;
2 – Como conseqüência do anterior, tem lugar uma transcendental quebra do
monopólio das exigências de conhecimento científico: a ciência resulta cada vez mais
necessária, porém, mesmo assim, insuficiente para a definição socialmente vinculada
à verdade. Essa perda de função não é casual. Tampouco se lhe impõe as ciências
desde fora. Mas bem se trata de uma conseqüência da realização e diferenciação das
exigências da validade científica - é o produto da reflexibilidade do desenvolvimento
científico-técnico baixo condições de risco. Por uma parte, a ciência começa a
estender a força metódica de sua dúvida, que afeta tanto em suas relações internas
como externas, quanto em seus próprios fundamentos e conseqüências práticas. Por
outra parte, com o processo de auto-exame da ciência, aumenta o universo infinito e
incontrolável dos resultados parciais condicionais, inseguros e desconexos;
3 – Os critérios para decidir a independência crítica da investigação científica são os
tabus da invariabilidade surgidos com a realização das reivindicações cognoscitivas
científicas: quanto mais avança a generalização da ciência - e quanto mais claramente
penetram na consciência pública as situações de perigo -, maior é a pressão
manipuladora política. Tanto maior é, por conseqüência, a ameaça de que a civilização
técnico-científico se converta em uma sociedade tabu originada cientificamente;
4 – Ainda não foram perdidos os fundamentos de racionalidade científica na exigência
de mudança generalizada. O que foi feito pelos homens pode ser, por eles, mudado
(ainda que o conhecimento permaneça, o que faz com que, por exemplo, o
desarmamento nuclear gere uma falsa impressão de paz: tão logos os ânimos
“azedem”, as armas voltam aos silos, ainda mais letais). A geração da ciência reflexiva
permite perceber e questionar o abuso da racionalidade científica. O decisivo não é se
a ciência contribui, por sua parte, para o autocontrole dos riscos práticos, nem se o
alcança mais adiante de seu próprio raio de ação e se esforça por dialogar –
politicamente – a favor das mudanças de resultados. O importante é que tipo de
ciência toma impulso a partir da relação com a previsibilidade de suas conseqüências
supostamente imprevisíveis. Assim, pois, riscos e prejuízos são interpretados metódica
e objetivamente, e se tratam cientificamente - ou bem se toleram e ocultam.
A fase inicial da cientificidade (conceituação sob os critérios científicos de amplos
aspectos da existência humana) primária, durante a qual indivíduos “profanos” como os
índios da América, por exemplo, foram desalojados de seus territórios e casas e
confinados em reservas, há muito tempo deixou de existir; com isso, colocou fim ao mito
da superioridade e a inclinação ao poder que caracterizava a relação entre ciência, prática
e vida pública. Hoje em dia, quando se observa, todavia, essa lógica de desenvolvimento
– que constituiu um tema central da sociedade clássica -, ela está presente nas zonas
159
marginais de modernização. Surgiram conflitos diante a cientificidade reflexiva, tratando
principalmente dos riscos e erros auto-gerados.
O ingresso no (e do) mundo científico trouxe muitos problemas – erros para os quais
não se acham culpados -, mas não se pode perder a confiança na ciência. Pois, apesar
de suas perversões (como o eugenismo ou o desenvolvimento de armas químicas e
bacteriológicas), os resultados de muitos estudos beneficiam grande parte da população.
Há que se considerar mesmo, que, em certa medida, a “ciência do mal” traz resultados
positivos (esse é, sem dúvida, um assunto dos mais controvertidos): sem a Segunda
Guerra Mundial, por exemplo, muitas vidas teriam sido poupadas; sem ela, porém – e
sem seus “cientistas em uniformes” - provavelmente o desenvolvimento de tecnologias
(como a do radar ou dos foguetes) e até de correntes filosóficas (como o ideário ecológico
e dos pacifistas) seria bem menos veloz.
A transformação de erros e riscos em oportunidades de expansão e perspectivas de
desenvolvimento da ciência e da técnica se converteu, podemos dizer, em algo
ultraestável. A investigação científica sobre os riscos da modernização conduz a que o
próprio desenvolvimento técnico-científico - facilitado em termos interdisciplinares – se
converta em problema. Isso significa que, antes de tudo, é preciso acabar com todas as
dificuldades e conflitos que existem entre as distintas ciências e as respectivas profissões.
O descobrimento dos riscos da modernização se faz forçosamente obstaculizado pelo
“vespeiro” das relações de competência entre diferentes profissões científicas. Ele suscita
toda classe de resistência contra ingerências “expansionistas” nos problemas domésticos
e nos locais de financiamentos cuidadosamente criados, estabelecidos em cada profissão
científica mediante a contribuição de todas as forças ao longo de diferentes gerações. Os
riscos da modernização lhes são impostos desde fora, mediante o reconhecimento
público, tal como se lhes foram apresentados.
No curso deste processo, a ciência experimenta não só uma brusca perda de
credibilidade pública, mas também de campos de aplicação e influência. Os riscos da
modernização consolidam socialmente um jogo de tensões entre ciência, empirismo e
vida pública, desencadeando uma crise de identidade, novas formas de organização e de
trabalho, novos fundamentos teóricos e novos desenvolvimentos tecnológicos. A
160
assimilação de erros e riscos adere, por assim dizer, ao curso de controvérsias sociais
que têm lugar, entre outras coisas, pela confrontação; e mescla com movimentos sociais
de crítica, da ciência e da modernização. A discussão pública dos riscos da modernização
é o caminho para a reconversão dos erros em oportunidades de expansão sob as
circunstâncias da cientificidade reflexiva. Um exemplo de movimento é o de defesa do
meio ambiente, pois as ameaças são cada vez mais explícitas.
O modelo da cientificidade simples se funda na ingenuidade de crer que o ceticismo
da ciência pode, por uma parte, institucionalizar-se e, por outra, limitar-se aos objetos
científicos. Portanto, são excluídos do ceticismo tanto os fundamentos do conhecimento
científico quanto as questões da aplicação prática dos resultados científicos. O que se há
de generalizar como ponto de vista da racionalidade se converte em seu oposto segundo
o ponto de vista de auto-valorização do mercado. Nesse sentido, o modelo da
cientificidade simples, modernidade e contra-modernidade estão sempre mesclados
contraditoriamente. A expansão do ceticismo nas condições da cientificidade reflexiva
pode reconhecer-se em duas atividades:
1- Científico-teórica: a transição da cientificidade simples à reflexiva é impulsionada,
também, a partir da instituição da ciência. Os agentes da censura são as disciplinas
autocríticas da ciência: Teoria da Ciência e História da Ciência; Sociologia do Saber e
da Ciência; Psicologia e Etnologia da Ciência etc. Pode-se afirmar, pois, que
desmoronam as bases da auto-dogmatização da racionalidade científica, com êxito
crescente desde o princípio do século passado;
2 – Investigadora: já foi dito que a prática científica nos informa acerca da Teoria da
Ciência sobre a auto-inspeção – de fato, não se conhece prática mais investigativa do
que estar na senda filosófica. Mas não é possível defender impunemente o princípio de
falsa ação para, em seguida, anunciar sua perfeita inutilidade. Aqui não ocorreu nada,
em absoluto. Com o avanço da prática científica a verdade foi perdida - há sempre
uma dúvida e os riscos aumentam. A verdade acompanhou a modernidade em seu
elemento relativizante e fragmentário. A religião científica do anúncio e do controle da
verdade está se secularizando no curso de sua cientificidade. A pretensão da verdade
da ciência não resistiu ao embate do auto-exame empírico e da teoria da ciência. A
verdade aspirava à condição de divindade – hoje, ela se humanizou, se relativizou,
perdeu os atributos de infalibilidade e, na esteira desse “desencanto”, abriu uma porta
para controvérsias.
Na cientificidade reflexiva melhora o nível de conhecimento, mas, paralelamente
crescem os riscos cientificamente co-produzidos e co-definidos. As ciências são objeto de
distintas influências sociais segundo as condições de risco. A investigação, ao tratar os
riscos de desenvolvimento técnico-científico, está ligada aos interesses e conflitos sociais.
Produz-se um deslocamento e a formação de zonas indefinidas, difíceis de resolver, entre
161
validade e gênese, contexto de gênese e aplicação, aspecto axiológico e objetivo de
investigação, ciência e política.
Hoje estamos experimentando a fase da dissolução do monopólio da verdade
científica. Em termos absolutamente radicais para os cientistas “fundamentalistas”, podese colocar sua visão de mundo em pé de igualdade, por exemplo, com a cosmologia dos
Dogon ou com os conceitos médicos chineses tradicionais. “A verdade”, como afirma o
bordão de um seriado de TV, “está lá fora”.295 Lá fora onde, cara pálida? Quem é
Diógenes e que homem ele procura? Será sua discricionariedade melhor, por exemplo,
que a de um índio cinta-larga? Salve Shakespeare: That´s the question...
Faz-se cada vez mais necessário relacionar os resultados científicos à definição da
verdade relacionada com o social; mesmo isso, porém, é cada vez mais insuficiente.
Devido a esse desacordo entre a condição necessária e suficiente, e pelas zonas de
crises assim geradas, se produz a perda de função da ciência em relação a seu fim mais
genuíno, qual seja, a fixação do paradigma do conhecimento. Os destinatários e usuários
dos resultados científicos – na política, na economia e nos meios de comunicação da vida
cotidiana – certamente dependem cada vez mais dos argumentos científicos em geral,
mas estão cada vez mais desligados dos achados particulares e do juízo da ciência sobre
a verdade e a falsidade de seus enunciados.
As conseqüências repercutem nas condições de produção de conhecimento. A ciência
perdeu o santo verniz da veracidade e é refém da opinião de indivíduos/instituições que
podem determinar, a qualquer hora, qual é a verdade. Quanto mais imperceptíveis são os
riscos do desenvolvimento técnico-científico e quanto mais influem na consciência
pública, tanto mais aumenta a pressão nas estâncias políticas e econômicas; e tanto mais
importante é, para os agentes sociais, o recurso ao poder de definição de ciência, tanto
para minimizar, distrair e redefinir, quanto para agravar ou parar críticas metodológicas
como interferências externas à definição. Nesse sentido, a diferença entre o vulgo
ignorante e o cidadão culto desaparece e se converte em uma competição entre
diferentes combatentes. Se antes a ciência convencia em sua qualidade própria, hoje é
decisiva a crença nela ou na “anticiência” (em método, planejamento e orientação). Isso
se deve à pluralidade contraditória de linguagens científicas.
295
“Arquivo-X” (“X-Files”).
162
As reações nas ciências ante a perda do monopólio da verdade são diversas. Vão da
total falta de compreensão, passam pela tendência à obsolescência da profissionalização
e chegam até os intentos de liberalização. Internamente, a ciência se converte em um
assunto à margem da verdade; externamente, em um assunto sem cultura. O
conhecimento, que sempre se transforma logo em erro, deve ser uma necessidade
natural institucionalizada da sociedade, comparável às de comer, beber e dormir, como
um projeto (e uma prática) interminável. A primeira vista, em resumo, a ciência perde sua
capa de santidade e se faz irrenunciável.
A perda da verdade, da cultura e de sua transformação em algo imprescindível são
sintomas do mesmo processo: o surgimento de uma época própria da sociedade de risco,
que media entre a ciência e critica à ciência. A vertiginosa perda da segurança não tem
porque conduzir, na ciência, a uma abertura ou a uma redefinição; pois, em realidade,
ocorre em paralelo uma agudização da competência no interior das profissões. A
insegurança sistematicamente analisada obriga a excluir a dúvida nas relações externas e
leva a vender conhecimentos seguros de forma convincente. Mas aí entram em conflitos
mais ou menos claros sobre os intentos de retomada do monopólio e de reformulação do
saber.
Na cientificidade reflexiva, quando aparecem os riscos auto-produzidos pelo trabalho
científico, provar seu caráter inevitável se converte, também, em um objetivo central da
tarefa explicativa científica. Se nas circunstâncias da cientificidade simples, o interesse
pela explicação coincide com o de seu aproveitamento técnico, nas circunstâncias da
cientificidade reflexiva isto coincide, e devem ser primordiais as interpretações científicas
cuja explicação signifique a exclusão dos riscos. Assim, pois, modernos e antimodernos
se conectam novamente: a sociedade de risco dependente da ciência está, também, cada
vez mais funcionalmente inclinada em relação aos resultados científicos, a negar, ocultar
ou dissimular os riscos precisamente porque resultam claramente imagináveis.
Grandes empresas e celebridades estão por trás dos riscos, algo que torna perigoso
“mexer” com eles. Os riscos e conseqüências possíveis se convertem propriamente em
condicionantes que delimitam a própria investigação. Quando aumenta a pressão em
favor de se atuar frente às situações de risco, a civilização técnico-científica se converte
em uma sociedade tabu: campos, relações, condições em que todos estes, em princípio,
163
seriam modificáveis, ficam à margem de todo suposto de mudança por impor imperativos
do sistema ou as dinâmicas internas. Por toda parte, na civilização técnico-científica,
cresce o tabu da invariabilidade, que é um novo tipo de dilema, quando se assume uma
análise neutra dos problemas. O risco é um problema externo e interno no ambiente em
que está e suas conseqüências não podem ser ignoradas, visto que uma coisa condiciona
a outra.
Cada vez mais as ciências se encontram em situação menos aptas à satisfação da
necessidade de segurança dos clientes que se encontram sob a pressão da tomada de
decisões. Supõe-se que o avanço da ciência até a geração da insegurança seja
irreversível (a tecnologia da fissão nuclear seria um marco dessa visão). Assim mesmo, a
ciência se considera constante em seus pressupostos e formas históricas. Entretanto, ela
tem mudado o mundo como nenhuma instituição ou pessoa jamais pôde fazer. O fator
decisivo para que as ciências contribuam para o autocontrole e a paralisação dos riscos
práticos não está na sua capacidade de ir além do próprio raio de influência esforçandose por colaborar e aconselhar – politicamente – para a aplicação os seus resultados. O
essencial é determinar que classe de ciência é fomentada na previsão de suas
conseqüências secundárias supostamente imprescindíveis. É necessário atenção extra
aos riscos e perigos, reduzindo, assim, as inseguranças.
Em relação aos riscos civilizatórios, se enfrentam principalmente duas opções: a
eliminação de causas derivadas da industrialização primária, ou as conseqüências e
sintomas da industrialização secundária pela expansão do mercado. A auto-geração de
prejuízos na modernização se arraiga na consideração pontual e no tratamento de
sintomas. Por exemplo: o tratamento das enfermidades da civilização, tais como diabetes,
câncer, enfermidades cardíacas, permite entender isso. Tais enfermidades podem ser
combatidas em seus pontos de origem: o estresse e a contaminação pela velocidade e
pelos hábitos do mundo moderno podem ser substituídos por uma vida mais vigilante em
relação ao tempo pessoal (kairós se sobrepondo a um cronos perverso), pela prática de
atividades físicas, por uma alimentação adequada e, principalmente, por uma maior autoaceitação. Mas também é possível eliminar os sintomas mediante “poções e práticas
mágicas”: fluoxetinas, stents, viagras e mesmo, próteses de silicone que inflam as mamas
e (em tese) aumentam a auto-estima. A este respeito, as situações de risco que a
civilização encontra podem ser benéficas ou maléficas.
164
A sociedade de risco é uma sociedade autocrítica. Gera pontos de referência e
pressupostos da crítica que têm a ver com os riscos e perigos. A crítica dos riscos não é
uma crítica de valores normativa. Precisamente onde tradições e, por tanto, os valores
são destruídos (anomia, reificação, caos), surgem os riscos. A crítica se funda, no
entanto, na tradição do passado face às ameaças de futuro. Com a sociedade de risco,
cria-se a possibilidade de uma sociedade que, por sua vez, se separa da tradicional e é
autocrítica. O conceito de risco se assemelha a uma experimentação que permitiria
examinar não só o conjunto do projeto de construção, mas, também, cada componente do
edifício da civilização em seu potencial de auto-ameaça.
A investigação tecnológica e política feita a partir das teorias até hoje mais
confirmadas e mais atraentes se referem à capacidade de erro e de falhas do
pensamento humano e de sua ação. Ao aumentar o risco, cresce a inclinação a submeterse ao infalível de modo que se perde a própria capacidade de aprender. Muitas vezes, o
equívoco humano causa catástrofes. Isso deve ser evitado a todo custo. Os seres
humanos pensam que podem tudo e, portanto, desejam fazer tudo (de descer as
cataratas do Niágara em barricas a brincar de roleta-russa), atitude que acaba por gerar
mais riscos. As ações têm que ser mais objetivas e não podem serem executadas apenas
por meio da imaginação e do pensamento de certos indivíduos.
Quanto mais elevado é o grau de especialização, maior é o alcance, a quantidade e a
imprevisibilidade das conseqüências secundárias da ação técnico-científica. Com a
especialização não só surge o imprevisível e o caráter secundário das conseqüências
secundárias imprevisíveis; também aumenta a probabilidade de que se imaginem e
transformem os efeitos secundários previstos. A divisão do trabalho levada a seu ponto
máximo é responsabilidade do todo: as conseqüências secundárias, seu caráter
imprevisível e a realidade permite a aparição desse destino inevitável.
A questão da racionalidade e da irracionalidade da ciência não deve ser traçada só
em relação à atualidade e ao passado, mas, também, com vistas ao futuro. Podemos
aprender com nossos erros, o que significa que sempre é possível estabelecer uma outra
ciência. É possível não só gerar outra teoria, mas outra teoria de conhecimento, outra
relação entre teoria e prática, assim como outra prática desta relação. Temos que
compreender melhor e acompanhar mais de perto o desenvolvimento, diminuindo, assim,
165
as condições de imprevisibilidade. É necessário viver hoje, mas é necessário um projeto
futuro. Isto ajudaria a diminuir a cegueira e o silêncio diante os riscos.
O juízo da mudança do sistema político no contexto da situação do risco é dividido em
quatro teses:
1 – O processo inovador que tem lugar durante a modernização em oposição à
hegemonia da tradição se separa no projeto da sociedade industrial. As relações de
vida comunitária social se destroem e a investigação científica e técnica ficam
submetidas, pois no mercado só vige a regra do efeito da ganância econômica;
2 – Existe uma demarcação política e não-política no permanente processo de
renovação em curso na modernidade. O projeto do Estado do bem-estar social perdeu
sua energia utópica em seu processo de auto-geração. Ademais, seus limites e
aspectos sombrios são fatos conscientes. Mas quem se lamenta e critica a paralisação
crescente da política admite que também o oposto é certo. A tranqüilidade é afetada
pelas mudanças e pelas desigualdades cada vez mais presentes;
3 – A perda do poder de realização e configuração estatal não são expressões de uma
renúncia política, mas produto da geração da democracia e do Estado Social,
circunstância na qual os cidadãos aprendem a utilizar, para assegurar seus interesses
e direitos, todos os meios de controle e assessoramento público e jurídico. O
desenvolvimento técnico-científico deixa de ser um âmbito não político em função do
alcance de seu potencial de transformação e da capacidade causar danos;
4 – O sistema político está ante a ameaça de ser despossuído da constituição
democrática. A política se converteu em assunto de desenvolvimento. As decisões se
dão por vozes às vezes anônimas e há uma perda de legitimação de alguns setores.
Os políticos têm que, muitas vezes, mudar sua conduta para agradar o eleitorado.
O descobrimento de condições restritivas para a intervenção política impulsionou a
discussão sobre a ingovernabilidade e a democracia do sistema eleitoral, mas nunca se
traça a questão acerca da possibilidade de surgimento de outra sociedade em função do
desenvolvimento, que talvez prescinda da planificação, do pacto e da consciência. Hoje,
no parlamento, as associações – sindicatos, empresários e todos os interesses
organizados que se diferenciam na sociedade industrial – também têm direito de opinar.
As reações mais ou menos imprudentes a esses fenômenos se resumem, graficamente,
pela expressão novas imprevisibilidades. E se podem referir, também, a duas vertentes.
Por uma parte, a o fim do locus da estrutura social e do comportamento político dos
eleitores que, durante a última década, se converteu em um fator de intranqüilidade na
política; por outra, a mobilização e os protestos dos cidadãos, assim como os movimentos
sociais que defendem seus direitos quando afetados.
166
O desenvolvimento político experimentou uma censura em sua continuidade que o
dividiu, e não cabe atribuir esse fenômeno só ao desenvolvimento técnico-econômico,
mas também a circunstâncias internas: o conceito, os fundamentos e os instrumentos da
política – e do âmbito não político – se apagam e requerem uma nova determinação
histórica. Tanto a formulação programática da tomada de decisões quanto suas
realizações hão de se entender melhor como processo de atuação coletiva, que significa,
no melhor dos casos, que se garanta aprendizagem e criatividade coletivas. No que diz a
respeito ao avanço da democracia aplicada, ela origina novos critérios e reivindicações
que convertem a mera votação em algo insuficiente e próprio da paz e do caráter
autoritário das relações dominantes.
Um dos últimos passos, diante às obrigações do Estado, foi a garantia jurídica em
seus termos da liberdade de imprensa, que permite múltiplas formas de opinião pública
graças à existência dos meios de comunicação – periódicos, rádio, televisão – e as novas
possibilidades
tecnológicas.
Ainda
que
esses
meios
possam
ser
controlados
economicamente (caso comum em países como o Brasil, onde os “impérios de
comunicação” são subvencionados pelo governo e estão comprometidos com
anunciantes), eles são decisivos para uma mudança profunda do poder social. O
chamado “quarto poder” interfere sobre os demais, e até juízes têm suas decisões
examinadas em várias instâncias de controle; e isto é característico na medida em que,
por uma parte, os juízes também defendem sua independência jurídica frente a
ingerências políticas e, por outra, os cidadãos tentam mudar sua situação de “súditos”
entre o decreto estatal a participantes, também defendendo seus direitos em juízos contra
o Estado. Está viva, portanto, uma nova cultura política.
Precisamente essa mobilização cidadã por temas tão distintos adquire uma especial
importância porque existem, também, outros foros centrais de sub-política: discussões
jurídicas e meios de comunicação específicos para o exercício de seus interesses – em
proteção do meio ambiente, no movimento anti-nuclear, na proteção de dados etc. – que
podem ser utilizados (pelo menos pontualmente) com grande eficácia. Está havendo uma
tomada de consciência da população acerca de seus direitos; isto está acontecendo
universalmente e de maneira bem orientada. Em paralelo podemos perceber, também,
que foi perdida a índole em muitos tribunais, pois as áreas de conflito são grandes e,
muitas vezes, há manipulação dos juízes – armas nucleares, direito familiar e do trabalho
167
são exemplos bem corriqueiros desta situação. Recordando os romanos – que, como
civilização transnacional, também viveram profundas crises de identidade e de confiança
nas instituições - pode-se invocar, aqui, o velho brocardo: Quis custodiet ipsos custodes?
(“Quem vigia os vigilantes?”)
As conseqüências políticas face às ameaças são muitas, não só em relação à área
ambiental, mas também, à privacidade das pessoas. Hoje em dia, em alguns países
(como a China), até os nascimentos são controlados pelo governo. Os problemas extrafamiliares se tornam familiares, causando crises como a do aumento das separações de
casais. Até a igualdade entre homens e mulheres traz conseqüências muitas vezes
prejudiciais, como a perda de identidade, a unificação dos indivíduos como seres
assexuados e, mesmo, a individualização. Mesmo diante desses fatores se mantém a
ficção do sistema político-administrativo como centro da política. Mas, assim, não é
considerado um desenvolvimento central: a demarcação da política.
A modernização abre novas possibilidades. A engenharia genética eleva o Homem à
condição de Criador, de divindade. É possível gerar novas substâncias e mesmo seres
vivos que revolucionam os fundamentos biológicos e culturais da família. Que tal citar, por
exemplo, a bioética, nascida no contexto de questões desafiadoras como a da clonagem
ou da produção de fetos para extração de células-tronco? Essa geração do princípio de
projeto e construção, que deveria servir para auto-compreensão do sujeito, incrementa os
riscos e politiza situações, condições e meios em sua gênese e interpretação. Nunca se
poderia esperar que a fé existente no progresso resultaria em riscos (no final do século
XIX, as “Exposições Mundiais” chamavam a atenção da sociedade para o “admirável
mundo novo” propiciado por ciência tida como desconhecedora de limites). Mas, como já
foi dito, progresso e riscos caminham juntos. Não se perdeu a fé no progresso; houve,
sim, uma perda de confiança em alguns de seus fundamentos. O que causa maior
perplexidade, atualmente, é a engenharia genética: por mais que todos saibam dos
benefícios que pode trazer estas experiências, o medo existe – quem me garante, afinal,
que o consumo de salgadinhos produzidos com milho geneticamente modificado não
implique, por exemplo, no nascimento de uma tromba em minha cara?296 É, de fato, um
296
O exemplo, aqui, é “bufão” para reforçar a dúvida. Vale, efetivamente, o princípio da “Navalha de
Okham”, segundo o qual devem ser descartadas as hipóteses mais mirabolantes e preservadas apenas as
necessárias.
168
lineamento científico que vai trazer – já está trazendo – discussões intermináveis e,
mesmo assim, resultados surpreendentes.
Segundo sua auto-concepção declarada, a medicina tem como fim a saúde; mas, em
verdade, criou circunstâncias totalmente novas na relação do homem consigo mesmo,
com a enfermidade, com os sofrimentos e com a morte; além disso, transformou o mundo.
A fim de compreender os efeitos revolucionários da medicina é preciso ponderar a
respeito das promessas de cura e das opiniões sobre sua imaturidade. A medicina ajuda
a melhorar o bem-estar dos indivíduos, mas paralelamente, ajuda a aumentar sua
quantidade. A população mundial cresce, graças, principalmente, à queda da mortalidade
infantil e ao aumento da expectativa de vida. As conseqüências têm sido o aumento
espetacular da população, especialmente nos países de Terceiro Mundo. Quais serão as
conseqüências ambientais e sociais da coexistência de milhares de pessoas em áreas
exíguas ou que já tiveram seus recursos naturais esgotados? Só apelando, mesmo, para
a crença na Astronáutica e na possibilidade de colonização de outros mundos – algo que,
até o momento, só teve êxito na ficção científica.
Pode-se dizer que os médicos estão tratando melhor seus pacientes (isso valeria para
a rede pública de saúde do Brasil?), cuidando não apenas do corpo, mas, também, da
“alma”, das redes neurais banhadas por misteriosas substâncias como a serotonina e a
noradrenalina. O poder de cura – ou, pelo menos, de ouvir os problemas – alcança a
família, a escola, o trabalho, o Ser. Até mulheres estéreis, seres historicamente rejeitados
pelas sociedades patriarcais interessadas em gerar varões, podem ter filhos graças à
fecundação in vitro. As questões referentes aos embriões, porém, não deixam de causar
polêmicas. De modo geral, hoje se vêem e discutem muitas das questões éticas
originadas pela perda constantes culturais, vigentes até hoje, que provocam o
desenvolvimento técnico-médico em curso. A capacidade de alterar a natureza humana
assusta, mas, ainda assim, deve ser devidamente estudada a fim de se chegar à sua
melhor aplicação.
Deste modo surge e se mantém, de vez, um total desequilíbrio entre discussões e
controles externos e o poder de definição interno da prática médica. As opiniões pública e
política estão, via de regra, desinformadas do que está sendo gerado, neste momento,
nos laboratórios e institutos de pesquisa de todo o mundo. Assim, basta que os cientistas,
169
em um primeiro momento, “coloquem a cara de fora” e digam Eureka! Essa exclamação,
porém, nem sempre ultrapassa o presente; não pode ser colocada como certa, em suas
conseqüências, em relação ao futuro. Uma bela prova disso são as receitas de
medicamentos psiquiátricos, imensas folhas de papel que prevêem os mais diversos
efeitos colaterais, de “destrambelhamento completo” a prisão de ventre – e que sempre
deixam um espaço para frases do tipo “efeitos como xxxxx ainda não foram observados,
mas... “.
Assim, o espiral em decisões e construções médica não só se amplia na realidade
ambígua da sociedade de risco, mas também cria um inesgotável desejo de medicina. É,
pois, uma área que provoca uma constante expansão do mercado e de serviços médicos.
Todos dependem da medicina, mas seu futuro – como muitos – também é incerto e, por
mais que tenham muita importância, os trabalhadores da área também correm risco de
ficar desempregados ou de serem tomados como obsoletos. Eles não deixam de fazer
parte, portanto, da sociedade de risco.
Nas mãos da sub-política econômica estão os fios centrais do processo de
modernização, em forma de cálculo econômico e de contribuição econômica (por
exemplo, em relação aos riscos), assim como de configuração tecnológica no próprio
centro de trabalho. A divisão do trabalho em capacidades de modernização causa ao
Estado clara desvantagem. Ela atribui o poder de decisão primário, sem responsabilidade
pelas conseqüências, às empresas, enquanto que à política cabe a missão de legitimar
democraticamente as decisões que ela não tomou e de depurá-las de seus efeitos
laterais. A mudança social é substituída pelo modelo incorporado de mentes confusas.
Afinal, a mudança permanece desconhecida. Nisto se manifesta a contra-modernidade da
crença no progresso. É uma espécie de “religião desencantada da modernidade”. Ela
possui todas as características da crença religiosa: confiança no desconhecido, no
imprevisto, no inconcebível. Em lugar de Deus e das igrejas, sobem aos altares e púlpitos
as forças produtivas e seus pais e dirigentes: a ciência e a economia.
As inseguranças e os riscos fazem parte também das questões econômicas. Todos os
setores estão sob ameaça, até o trabalho remunerado corre risco, juntamente com
unidades fabris. A confusão acerca do futuro traz confusões gerais, mas o certo é que
todos terão dificuldades e as estratégias precisam ser traçadas para enfrentar este
170
fenômeno natural - o risco. É previsível que se mudem até os postos de trabalho e as
qualificações, para acompanhar os novos sistemas de produção e seus limites, sendo a
microeletrônica, por exemplo, uma das justificativas deste caminho.
O que está surgindo não é produção industrial, nem familiar, nem serviços, nem um
setor informal, mas algo distinto: um deslocamento ou interpretação de fronteiras, numa
combinação e formas de cooperação que vão além dos setores, de cujas características e
problemas agora começamos a tomar consciência e a perceber empiricamente.
Ao aumentar o risco e as inseguranças, cresce o interesse das empresas na
flexibilidade, um reclame proposto reiteradamente, mas que hoje resulta inevitavelmente
pelo caráter decisivo da competência, devido, por uma parte, ao relacionamento entre
cultura política e desenvolvimento técnico, e por outra, à possibilidade de configuração
eletrônica dos processos de produção e as oscilações do mercado. Há de se prever, para
os próximos enfrentamentos entre administração, comitês de empresa, sindicatos e o
pessoal ocupado, que estará na ordem do dia a necessidade de tomar decisões sobre o
modelo de sociedade próprio da empresa. Isto significa que a atividade laboral entrará em
uma dimensão desconhecida, impulsionada pela pressão de legitimação. O poder
configurador do empresariado não se elimina, mas perde sua objetividade apriorística,
seu caráter inevitável e seu aspecto de utilidade geral, pois passa a ser sub-política. Por
todas as partes aparecem conseqüências perigosas, mas destacam-se alternativas.
A mudança natural do modelo de progresso aparece com todo seu caráter ameaçador
quando as conseqüências secundárias adquirem a proporção e as formas de uma
mudança de época social. Aparecem zonas de crise de uma configuração política do
futuro, desencadeada em três variantes:
1 – Retorno à sociedade industrial: os riscos provocados pela sociedade industrial não
representam ameaça. São, como antes, incentivos para mobilizar novas forças
criativas científicas e técnicas, e constituem os degraus que conduzem ao progresso.
Nesse sentido, muitos pressentem as oportunidades que se abrem para o mercado e
extrapolam sua confiança na antiga lógica diante das capacidades futuras de superar
tecnicamente os problemas do presente. A negação das variáveis apontadas na pósmodernidade, porém, não elimina os riscos;
2 – Democratização do desenvolvimento técnico e econômico: as inovações
econômicas e técnicas se converteram no motor permanente das transformações
sociais e isto exclui participação, controle e oposição. Os fins que pretendem alcançar
são claros: acabar com situações em que a participação se volta apenas a discutir
171
formas de reversão de problemas causados por decisões erradas. Por essa tendência,
as conseqüências e o âmbito de transformações da microeletrônica, da manipulação
genética etc., são de competência prévia dos foros políticos. As conseqüências deste
processo são fáceis de prever: impedimentos burocráticos para a racionalização
empresarial e para a investigação científica, assim como a manipulação dos
legisladores por protagonistas sociais mais poderosos (detentores do capital). Mas
esta é só uma variante do modelo do futuro. O conjunto de interesses da economia se
separa pela pressão da seletividade dos riscos;
3 – Política diferencial: o caráter irreversível da superação da política executiva por um
processo político que perdeu seu caráter específico, sua oposição, sua conceituação e
seu âmbito de influência não há de gerar só lamentações. Aí se anuncia uma época
nova de modernização, que designamos com a característica da reflexibilidade. A lei
da diferenciação funcional comporta e se desativa por “desdiferenciações” (conflitos e
cooperações devido aos riscos, moralização da produção, diferenciação da subpolítica). A compreensão desse desenvolvimento é difícil devido à realidade
aparentemente invariável da sociedade industrial. Nesse sentido continuam existindo
os riscos e inseguranças na continuidade da modernização. E a sociedade de risco é
sempre brindada pelas desgraças da humanidade, que não pode viver tranqüila diante
as incertezas da vida – principalmente das futuras.
4.6 - Conclusões ao capítulo
Pudemos perceber, neste capítulo, que o risco e o perigo fazem parte da sociedade
em que vivemos. São fatores fundamentais, variáveis de importância máxima. O risco não
só existe em âmbito mundial, mas também no local, sendo o Brasil um exemplo modelar
de “sociedade de risco”. Vivemos um cotidiano de desigualdade social, injustiça e
corrupção – isso, apesar de o brasileiro médio ser trabalhador, criativo e honesto. O
desemprego assombra o país há décadas e não há perspectiva de melhora; a máquina
estatal, via de regra, é conduzida por políticos inábeis e movidos por um senso político da
pior espécie, o que a torna lenta, gargantuesca e incoerente. Em nossa opinião, essa
realidade “macunaímica” tem como base e fim uma estrutura de poder perversa, que
garante a uma pequena parcela da sociedade poderes políticos, econômicos e legais
extraordinários, enquanto que, aos demais cidadãos – a maioria, dos homeless aos
“malabaristas” da classe média – apenas faculta a luta para “manter a cabeça de fora em
um mar revolto”.
Voltando a nossa análise específica, podemos verificar que uma das esperanças do
povo pobre para uma melhora de vida é o futebol. O esporte, que pode funcionar como
“escada” para a ascensão social, guarda uma série de características acessíveis à
população: pode ser praticado em quase todo lugar, com bolas, laranjas, latas e até
pedras. A infraestrutura do ambiente de jogo depende apenas de quatro tijolos ou pedras
172
(para os gols) e, para práticas mais sofisticadas, da observação do desnível do terreno
onde as partidas são disputadas (é o famoso “fator ladeira”). A falta de acesso a outros
esportes faz com que multidões dediquem seu tempo de lazer à “pelota”, o que implica
em um nível técnico muito bom, mesmo que “regado” a cerveja e a churrasco (acepipes
rateados, é claro, entre os jogadores). Por fim, vale observar que, por uma “graça da
fisiologia”, o talento independe de classe social e, mesmo, de uma constituição física
“ideal” (o “arquetípico” Garrincha é um belo exemplo).
Apesar das supracitadas vantagens do esporte, ele também é absolutamente marcado
pelo fator risco. O caminho do sucesso profissional é, literalmente, uma “guerra de foices”
em que uns poucos – os mais talentosos – obtêm grandes prêmios, enquanto milhares
(os chamados muitas vezes de “medíocres” e “pernas-de-pau”) devem se contentar, no
máximo, com salários um pouco acima da média das classes baixas brasileiras.
Normalmente, quando se pensa em futebol, vêm à mente grandes equipes, como
Corinthians, Grêmio de Porto Alegre, Cruzeiro ou Flamengo; o que dizer, porém, das
milhares de pequenas equipes que reciclam até os uniformes – times que tem como sede
até praças e botecos? Elas acabam sendo a tábua de salvação para o “exército de
boleiros”, que, quando derrotado pela concorrência, retorna para uma sociedade
desconhecida e, por conta disso, eivada de riscos extras.
E os próprios “reis” e “príncipes” do futebol também estão sujeitos a riscos. Basta
comparar, em termos rápidos, quatro “gênios”: Pelé, Maradona, Ronaldo e Romário. O
primeiro é, sem dúvida, o exemplo fundamental de sucesso: um homem que, por conta de
um talento ímpar, se dividiu, estabelecendo uma figura falível (o “Édson”) e uma eterna
(“Pelé”); o segundo representa o êxtase e a agonia: o jogador que “derrotou sozinho os
ingleses” e que, com o tempo, foi vencido pela cocaína; o terceiro simboliza a redenção, a
“vitória sobre o mal” (uma lesão no joelho) pelo talento e pela abnegação; o quarto, por
fim, é o que nos parece o mais interessante: de um indivíduo que, graças à sua peculiar
forma de gerenciar o próprio talento, dobrou o meio à sua vontade - que jogador, no
mundo, treina apenas quando quer e, ainda assim, é capaz de desequilibrar um jogo?
O risco no futebol – para “gênios”, “enganadores” e “ruins de bola” será abordado no
capítulo seis, porém, antes, vamos fazer uma leitura dos “riscos” na sociedade brasileira.
173
5 – BRASIL, SOCIEDADE DE RISCO E ESPETÁCULO
“Quem é miserável que diz tudo que sabe?
Onde foi que ele aprendeu a jogar?
Vou contar para vocês como eu afundei.
E todas as peças que o destino me pregou.
297
(...) É, cara, é muito duro!”
5. 1 – Considerações preliminares
Este capítulo é dividido em dois blocos, no primeiro, faremos uma aproximação entre
a sociedade brasileira e o elemento risco, apontando suas principais vertentes e as
situações do cotidiano que deixam seu aspecto mais evidente. Utilizaremos como base
para esta parte do trabalho, autores como Alcides Ribeiro Soares,298 Álvaro Gomes299 e
Ênio Resende;300 faremos uso, também, de artigos publicados em jornais e documentos
eletrônicos
No segundo bloco, mostraremos de forma breve qual o entendimento que se tem por
sociedade do espetáculo, pois em nosso trabalho, sociedade de risco e sociedade do
espetáculo, fazem parte de um espiral, caminhando sempre juntas. Utilizaremos como
base para conceituar a sociedade do espetáculo, o trabalho de Guy Debord301.
5.1.1 – Conceito de Crise
Poucos conceitos são tão caros ao ser humano quanto o de crise. A bem da verdade
ele só existe diante de um referencial cultural, uma vez que, na natureza, crises não
existem, sendo apenas etapas de um sistema contínuo de causas e efeitos. Na
perspectiva humana, porém, elas trazem em si ansiedade, esperança e medo decorrentes
dos elementos: “incômodo”, “premência de mudança” e “risco”. Assim, tanto uma simples
dor de barriga quanto uma crise nuclear se caracterizam como crises ou, então, como o
pior dos desfechos de uma crise anterior.
297
PAUGAM, P. Desqualificação Social: ensaio sobre a nova pobreza. São Paulo: EDUC/Cortez, 2003, 331
p. p. 83.
298
SOARES, A. R. Política econômica e concentração de renda. 3ª ed. São Paulo: Cliper, 2002, 111 p.
299
GOMES, Á. Paz só com justiça social. São Paulo: Anita Garibaldi, 2002, 328 p.
300
RESENDE, Ê. Chega de ser o “País do futuro”: novos paradigmas para resolver o Brasil 1ª ed. São Paulo:
Summus, 2001, 219 p.
301
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, 240 p.
174
5.1.2 – Tipos de crise
Pode-se estabelecer uma divisão básica dos perfis de crise: eles podem ser de
natureza biológica, psicológica, organizacional, econômica, política e social, e têm como
conseqüência riscos para seus sujeitos. Quando agudas, possuem um lado positivo, uma
vez que demandam de um esforço de superação – vencidas as condições de risco, os
sujeitos se mostram mais preparados (em tese) para enfrentar situações futuras de
mesma magnitude. Quando crônicas são nefastas, na razão em que tendem tanto a
moldar os sujeitos às suas condições quanto a afastá-los da perspectiva crítica
necessária à superação.
5.2 – Raízes do risco no Brasil
Em um país como o Brasil, o risco está relacionado às necessidades pressionadas. É
uma crise crônica (nefasta, portanto) que leva os indivíduos, em nome da sobrevivência, a
sofrer e responder de forma permanente a uma brutal pressão. É uma sociedade de
competição pela sobrevivência.
É comum ouvir a teoria popular de que o Brasil evoluiu menos que outros países em
termos sociais e econômicos por conta da falta de crises agudas, isto é, de situações
brutais de estragos e perdas como as causadas por catástrofes naturais e guerras em seu
território. É uma assertiva a considerar. Afinal, nossas crises agudas nunca deixaram
“cicatrizes coletivas”.
Vivemos, porém, uma crise institucional de longa data: de natureza política e cultural,
ela se desdobra em intermitentes crises econômicas e éticas com agravamento da
também permanente crise social. Trata-se de uma crise tornada crônica, de causas
longínquas, que se transformaram, em alguns casos, em círculos viciosos, o que
justamente nos faz acostumar com elas, deixando de produzir os efeitos positivos de uma
crise passageira circunstancial. Uma crise como essa, que não provoca uma resposta
social ordenada, não é do tipo que faz a sociedade se revigorar e reconstruir. Pelo
contrário, uma “crise à brasileira” produz efeitos negativos como apatia e descrença, baixa
auto-estima, deterioração de princípios éticos e diminuição do espírito empreendedor.
175
Nas empresas, onde as crises possibilitam grandes e imediatos riscos de perdas e até
de sobrevivência, é mais desenvolvida a consciência de como encarar as crises de forma
mais positiva, bem como a competência de saber lidar com elas. Muitas das empresas e
dos executivos brasileiros que melhor conseguiram aprender com sucessivas crises
econômicas e de mercado estão hoje mais madurecidos e competitivos. Neles foi
incorporada a idéia de que crise significa oportunidade para crescer.
O Brasil – outra acha em nossa “fogueira crítica” - também é um país violento. Há
pessoas que acreditam na possibilidade de que as mortes se dão por uma perversidade
intrínseca dos indivíduos. Valeria, em toda a sua força – como vimos no capítulo 4 -, o
aforismo rousseuniano de que o “Homem é o lobo do Homem”. Obviamente que essa
pode ser uma das suas manifestações, mas, para que possamos agir com conseqüência,
precisamos produzir informações que apontem nessa direção.
É possível que parte das mortes violentas no Brasil seja causada pelos próprios
aparelhos do Estado, que seriam responsáveis pela segurança pública. Nesse caso,
também seriam necessárias evidências que indicassem tal conclusão. Portanto, a
intervenção sobre o problema deve ser respaldada no conhecimento sobre o mesmo e
não em suposições.
Certo é que as populações mais pobres, destituídas de capital econômico e cultural,
são as maiores vítimas da violência. Assim, estão mais expostas aos riscos do que outros
segmentos da sociedade. Dos diversos os tipos de violência, dois chamam a atenção na
atualidade: um, reificante, que nega os direitos elementares ao ser humano, que fica
desprovido de emprego, moradia, saúde, educação e lazer; o outro, decorrente do
primeiro, é a violência urbana, que tem deixado milhões de pessoas traumatizadas e
isoladas por grades e por uma atitude defensiva.
O aumento da violência tem relação direta com a nova forma de acumulação
capitalista que leva à exclusão. No Brasil, metade da população economicamente ativa se
encontra no trabalho informal, sem as condições mínimas de dignidade. Os trabalhadores
da economia formal também sofrem a violência da exploração e do sofrimento mental. A
violência é algo inerente ao capitalismo, principalmente quando se busca a maximização
do lucro a qualquer custo, mesmo sacrificando vidas humanas. Entretanto, mesmo dentro
176
desse sistema perverso é possível diminuir consideravelmente os níveis de violência.
Temos um grande exemplo no século passado, quando a humanidade viveu – pelo
menos, por um determinado período - grandes avanços nas áreas cultural, social
econômica e tecnológica a partir da revolução de 1917 na União Soviética.
É inquestionável, portanto, que o aumento da violência tem uma relação direta com a
crise social, com o aumento de desemprego, com a falta de condições básicas essenciais
para a população, como saúde, educação e moradia. A título de exemplo, podemos citar o
caso da população carcerária de São Paulo: 74,5% possuem o ensino fundamental
incompleto e 95% vêm de um meio miserável; dois terços dos presidiários com menos de
21 anos tinham cursado até a 4ª série e 97% deles, quando foram presos, estavam
desempregados ou fazendo “bicos”. Isso mostra que quase todos esses indivíduos são
oriundos de uma parcela da população relegada a uma condição desumana.302
5.2.1 – Efeitos da crise brasileira
De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) estabelecido pela
Organização das Nações Unidas,303 o Brasil ocupa a 65ª posição em um universo de
pesquisa de 177 países. A situação se mostra com maior clareza quando as bases de
dados do Índice (relacionadas a renda, educação e saúde) são vistas em separado: o
país fica em 63º lugar entre os países de maior renda per capita, em 62º entre os com
melhores índices de educação e cai para a 111° posição em relação à longevidade da
população.304 A colocação do país é um indicativo poderoso do efeito de nossa histórica
crise, uma vez que dispomos de uma série de condições favoráveis à riqueza e ao
desenvolvimento e, mesmo assim, somos compelidos a uma condição de miséria.
Apesar de ocorrer avanços econômicos no Brasil, a riqueza do país continua
concentrada nas mãos de uma minoria da população. O que significa que PIB maior não
distribui renda. O Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2004 mostra que a
distribuição de renda e a vulnerabilidade externa são os pontos fracos do Brasil, nos
indicadores econômicos. Mas, apesar da desigualdade, o Brasil melhora em sua
302
Cf. GOMES, Á. Paz só com justiça social..., op. cit., p. 185.
IDH. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/idh/> Acesso em 14 de março de 2005.
304
Cf. MANSO, B. P. Dados defasados fazem Brasil cair sete posições. O Estado de São Paulo, 15 de julho
de 2004, A10.
303
177
exportação de tecnologia.305 O Brasil é o 12º em gastos com a saúde privada e, Mário
Shefer, integrante do Conselho Nacional de Saúde, diz que os planos de saúde
movimentam quase metade do orçamento de saúde do país, mas atendem ao equivalente
a um quarto da população. Para ele, tal desproporção é um indicativo do quanto o setor é
mal controlado306.
O brasileiro também sofre exclusão cultural: um exemplo é que as produções de
cinema dos Estados Unidos representam 85% das platéias de cinema do mundo todo e o
país domina todas as maiores bilheterias internacionais. Edgar Telles Ribeiro, diplomata
responsável pela política cultural do Itamaraty, diz que o desenvolvimento não pode ser
pensado apenas em seus aspectos econômicos, e que é preciso combater a
concentração de conteúdos a homogeneização das culturas que vêm apagando e
ameaçando singularidades. Para o ministro da cultura, Gilberto Gil, subsídio é
fundamental e ele apóia a quebra da hegemonia cultural dos EUA.307
Diante de um aspecto mais específico, educação, os meninos correm maior risco de
repetir de ano e deixar os estudos. Eles são maioria da 1ª à 4ª série, mas da 5ª em diante
as meninas dominam as salas de aula. Disparidades de gênero da vida escolar são o foco
de relatório que foi lançado pela Organização das Nações Unidas para a Educação,
Ciência e Cultura (Unesco) em 06 de novembro de 2003. A entidade tem como meta a
correção de problemas nas turmas de educação básica até 2005 e, nos demais níveis, até
2015. Entre os motivos para a redução do número de meninos da escola estão a
repetência e o abandono de estudo para trabalhar. A situação é semelhante na maioria
dos países da América Latina.308 A meta da ONU é importante, mas enquanto este e
outros fatores não forem equilibrados neste país, continuaremos sendo um belo exemplo
de sociedade de risco.
5.3 – O “Brave New World” como motor de crises
Há que se considerar também que, nos últimos trinta anos, todo o mundo vive uma
seqüência de crises. A evolução tecnológica provoca crises que exigem adaptação.
305
Cf. DANTAS, F. PIB maior não distribui renda. O Estado de São Paulo, 15 de julho de 2004, A11.
Cf. FORMENTI, L. Saúde: mais gastos privados. O Estado de São Paulo, 15 de julho de 2004, A11.
307
Cf. MEDEIROS, J. O desafio da expansão cultural. O Estado de São Paulo, 15 de julho de 2004, E12.
308
Cf., WEBER, D. Meninos correm maior risco de repetir de ano e deixar estudos. O Estado de São Paulo,
06 de novembro de 2003, A10.
306
178
Quando ocorrem, provocam ruídos, tensões, dor e conflitos: o melhor exemplo é o que
podemos chamar de “fundamentalismo pós-moderno” expresso nas atitudes de Osama
Bin Laden e de George W. Bush. No século XXI, a Jihad309 está mais próxima das armas
atômicas do que dos combates entre cristãos e mouros.
5.3.1 – A Distribuição de renda como motor de crises
Um dos maiores problemas do chamado “Mundo Emergente” é o da distribuição de
renda. Por sua importância e complexidade, o tema é objeto, há muitos anos, de
considerações acadêmicas. As análises passam por fundamentos como os seguintes:
1 – O que diferencia os chamados países “desenvolvidos” de países “em
desenvolvimento” (“subdesenvolvidos” ou “emergentes”) é que, nos primeiros, a
classe média constitui a maior parcela da população e, nos segundos, as classes
pobre e miserável predominam. Uma classe média mais ampla significa maior poder
aquisitivo e alto nível de poupança, o que proporciona melhores condições de vida à
maioria, assim como movimenta e fortalece a economia do país;
2 – A melhor distribuição de renda e o crescimento da classe média promovem o
que se pode chamar de “círculo virtuoso da economia”, que gera progresso
crescente: aumenta o consumo, movimenta a indústria e o comércio criando mais
emprego, o que resulta em maior consumo e aquecimento de produção e vendas.
Paralelamente, cresce a receita de impostos para o governo, que poderá investir em
projetos que geram mais emprego e movimentam mais a economia. Com a
economia forte, melhoram os investimentos públicos em todas as áreas, de
previdência social a infraestrutura. O contrário disso, o círculo vicioso, é a recessão,
cujas conseqüências principais são queda de consumo, desemprego, fechamento de
empresas, aumento de pobreza e da criminalidade, sociedade deprimida, aumento
de crises políticas, falência do poder público, quebra da jurisdição estatal etc;
3 – A distribuição de renda promove, além do progresso material, mais justiça social
recompensatória, diminuição de conflitos trabalhistas e sociais, povo com autoestima elevada e mais feliz;
4 – Com maior poder aquisitivo, a população tende a melhorar seu padrão de
alimentação, vestuário, bens de uso doméstico e transporte pessoal; busca mais
lazer e entretenimento, voltando a ler, a assistir a jogos esportivos, fazendo mais
turismo e dando mais festas em casa, como já fez com mais freqüência em melhores
tempos. De modo especial, boa parte da população tornará a fazer o que interrompe
em situações de dificuldades e crises: buscar meios de melhorar seus
conhecimentos.
309
Palavra árabe que pode ser traduzida como “guerra santa” ou “luta santa”. Conceito mais amplo disponível
em: < http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/2001/09/18/jorint20010918004.html> Acesso em 14
de março de 2005.
179
5.3.2 – A tentativa brasileira de superação da crise
Uma sociedade que luta contra uma crise crônica dissipa mais recursos que outra,
que luta contra um grave problema pontual. Um tornado nos Estados Unidos pode
implicar na morte de centenas e em um prejuízo de bilhões de dólares; a corrupção no
Brasil já matou milhares (por exemplo, pessoas que deixaram de receber cuidados
básicos de saúde) e implica em prejuízos que não podem ser calculados (um dólar, em
um país carente, vale mais do que um dólar em um país rico).
A crise mais aparente no Brasil é a da economia. Atitudes recentes mostram uma
tentativa de superação. O país adotou uma política feroz de produção de superávits
fiscais e de exportações, buscando, com isso, melhor gerenciar a economia e, ao mesmo
tempo, consolidar uma imagem positiva junto a investidores internacionais e ao Fundo
Monetário Internacional (FMI). Os juros, elevados constantemente em nome da segurança
econômica, conseguem manter a inflação sob controle. Infelizmente tais medidas,
louváveis por princípio, também têm efeitos devastadores: depressão da atividade
econômica e redução do nível de emprego, achatamento econômico da classe média,
aumento da desconfiança em relação aos políticos (o PT, visto durante anos como
“reserva política moral”, se descaracterizou completamente com o chamado “escândalo
do mensalão”, pois sua conduta e estratégia, não se diferenciam das dos outros partidos)
e, mesmo, um aumento da estima por governantes populistas.
5.4 – Conceituando a sociedade do espetáculo
A palavra espetáculo surge da idéia de expectativa de espera, de “spectare”. O que
espera? Espera-se que se verá, o que será mostrado. O espetáculo acontece num
espaço e num tempo determinado, delimitado e especificado. Não exclui a possibilidade
de enxergarmos algo espetacular durante o caminho para o trabalho, ou repentinamente
quando vemos um fenômeno da natureza. A palavra passou a ser usada para as mais
diversas manifestações de coisas belas e inusitadas, ou apenas coisa que, de alguma
maneira, causam a sensação de encantamento e de encontro com o sublime. Mas o
encontro que se passa no espetáculo é sempre promovido algo externo ao indivíduo que
assiste, estabelecendo assim uma relação de passividade, de recebimento, de
180
expectativa de uma das partes, enquanto a outra age criando um movimento. Movimento
esse que pode ser dos mais diversos.
Em toda a vida da sociedade moderna reina acumulação de espetáculo. Tudo que era
antes vivido tornou-se representação. Feuerbach diz que o nosso tempo prefere a
imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.
Podemos pensar que a questão não seja mais de preferências ou de escolhas: o mundo
tornou-se o das representações, das imagens, das aparências. É impossível viver em um
determinado local hoje e estar alheio aos acontecimentos e informações expostas por
meio de imagens e propagandas de como se deve viver. Desde a fralda do nenê, até a
dentadura do idoso. Desde o alimento, até o corpo esculpido. Somos impedidos de viver
longe do espetáculo pela enxurrada de imagens que se converteu a vida humana310.
As imagens que se destacaram, ou que se destaca de cada aspecto da vida fundemse em um fluxo comum, na qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser
estabelecida. A realidade cada vez mais parcial torna-se objeto de contemplação; viver é
fazer parte do espetáculo. O espetáculo, não é um conjunto de imagens, mas uma
relação social entre pessoas, mediadas por imagens311. E ele tornou-se efetivamente a
realidade que nos é apresentada; é o mundo que se objetivou. Considerando isso, o
espetáculo é ao mesmo tempo, o resultado e o projeto do modo de produção existente no
mundo. Adquire formas específicas como a propaganda, a publicidade, a informação, os
movimentos cibernéticos e faz parte da constituição do modelo atual da sociedade. O
espetáculo inverte o real, que torna-se um produto a ser contemplado; a realidade surge
no espetáculo e o espetáculo é real. Produz-se então uma forma de alienação
recíproca312, onde o espetáculo se torna produtor de sentidos para a realidade. Emprego
de sentidos principalmente devido sua condição de tempo. Passa-se o tempo e o
espectador vive tantos outros ali presentes na sua apresentação, que descreve formas de
ser e de ter da própria existência do espectador. Seu mundo é transformado em imagens,
e as imagens tornam-se eficientes para o “fazer ver”. O “fazer ver”, por diferentes
310
Cf. DEBORD, G., A sociedade do espetáculo..., op. cit., p. 75.
Ibid., p. 112.
312
A alienação se constitui num processo de perda de controle. No capitalismo perde-se a possibilidade de
gerenciar racionalmente a economia tendo como base as necessidades da imensa maioria da sociedade, e não
tomando como base a busca frenética de lucro para a pequena minoria dos empresários. Os trabalhadores, que
são criadores da sociedade, de suas riquezas e seus valores, terminam submetidos pelo produto de seu próprio
trabalho. Alienação é uma inversão, onde as coisas valem mais que o ser humano. Cf. CEPIS. Introdução ao
pensamento Marxista (guia de estudo). São Paulo: Peres, 98 p., pp. 51-52.
311
181
mediações, coloca o sujeito como espectador de uma realidade e de um mundo que ele
não pode tocar diretamente.
5.5 – Conclusões ao capítulo
Pudemos perceber – novamente - neste capítulo, que o risco, o perigo, fazem parte da
sociedade em que vivemos. Este risco não só existe no âmbito mundial, mas local
também, sendo o Brasil um exemplo muito explicito da “sociedade de risco”. O Brasil é um
país de desigualdade social, de injustiças e de muita corrupção. O desemprego assombra
o país a décadas e não há perspectiva de melhora. Em nossa opinião a realidade é a
seguinte: para alguns está ótimo, para outros nem tanto e a maioria agoniza.
Como já observado, um dos elementos da crise é o risco. De acordo com o Dicionário
Aurélio, ele pode ser entendido como uma “situação em que há probabilidades mais ou
menos previsíveis de perda ou ganho como, por exemplo, num jogo de azar, ou numa
decisão de investimento".313 O risco é, portanto, um fenômeno cultural e social. Como
pudemos perceber no quarto capítulo, o risco, por sua vez, é entendido também como
perigo ou ameaça objetiva, que é inevitavelmente mediado por processos culturais,
históricos e sociais e não pode ser conhecido com isolamento dos mesmos.
Tomando como ponto de partida esse entendimento, no próximo capítulo vamos
aproximar o futebol (também um fenômeno social) da “sociedade de risco” e, também, da
chamada “sociedade do espetáculo”. Em nosso objeto de pesquisa tais sociedades se
entrelaçam, com efeitos sensíveis sobre a figura do “homem-atleta”, tanto dentro quanto
fora do ambiente do futebol. Pois, para poder pensar o risco como espetáculo no futebol
torna necessário dissecar algumas estruturas que aparentemente não estão evidentes e,
o futebol, é um espetáculo que de certa forma não podemos tocar. Remete a toda nossa
humanidade aos limites que nós seres humanos, podemos vencer fisicamente, mas não
se deixa tocar. Permanece ali, envolto nos estádios, mostrando o poder que é a raiz do
espetáculo. Mostra-se como uma representação da sociedade hierárquica onde alguns
podem mais, e outros podem menos.
313
Conceito disponível em: <http://www.galegale.com.br/artigo_info.asp?cod=7> Acesso em 14 de março de
2005.
182
6 - FUTEBOL E A SOCIEDADE DE RISCO
“Rir é correr risco de parecer tolo.
Chorar é correr risco de parecer sentimental.
Estender a mão é correr risco de se envolver.
Expor seus sentimentos é correr risco de mostrar seu
verdadeiro eu.(...) Mas os riscos devem ser corridos,
Porque o maior perigo é não arriscar nada. (...)”.
(Sêneca)
6.1 – Considerações preliminares
O risco é entendido como um fenômeno social. Não por acaso, este capítulo seguirá
estes caminhos, procurando aproximar o futebol – também um fenômeno social – dá
sociedade de risco, relembrando que não é possível separar, pelo menos no trabalho que
propomos, a sociedade de risco, da sociedade do espetáculo.
Se por um lado o futebol funciona como amenizador psicológico de indivíduos
mergulhados em uma crise crônica – estamos nos referindo aos brasileiros -, por outro,
pode ser uma tentativa real de escapar do “inferno em fogo brando” de todos os dias.
Poucos aspirantes a craque, porém, conseguem chegar ao estrelato, “ao palco
iluminado”. Para os que não chegam os riscos são maiores, pois eles voltam com menos
preparo para a sociedade – para que serve um “perna-de-pau” sem outros talentos?
Os que conseguem o êxito no futebol são especiais, mas não estão livres dos riscos.
Tais riscos acompanham o atleta por toda a sua carreira, seja no ambiente do futebol ou
fora dele (em sua vida particular).
184
6.2 – Cenários do futebol na sociedade de risco
A partida de futebol transcorre sem maiores problemas. De repente, quase que “por
brincadeira”, um atleta cai em campo. Por trinta segundos, ninguém se apercebe das
dimensões do problema: logo, um companheiro grita desesperadamente. Correria e
apreensão. As torcidas silenciam. A imagem da vítima, registrada pelo fotógrafo de um
grande jornal, lembra a de Cristo na Pietà (Fig. 4).314 Em campo, jogadores, comissões
técnicas, árbitro e auxiliares dão as mãos, pedindo uma intervenção divina. Moribundo, o
atleta morre pouco depois de dar entrada em uma UTI. Essa, de forma singela, é a
descrição da morte de Paulo Sérgio da Silva, 30, conhecido como Serginho, jogador do
São Caetano que participava de uma partida contra a equipe do São Paulo pelo
Campeonato Brasileiro de 2004.
O caso aconteceu no dia 27 de outubro, poucos dias antes da ocorrência de outra
situação dramática ligada a um jogador de futebol: o seqüestro de Marina Souza da Silva,
mãe do jogador Robinho, do Santos. O craque, com propostas para se transferir ao
futebol europeu, tomou um cruel “carrinho” da vida que, como dizemos na gíria, “quebroulhe as pernas”.
As situações acima descritas são um indício importante; poderiam ocorrer, sem
dúvida, em outros contextos, com pessoas de outros segmentos profissionais. No futebol,
314
À esquerda, imagem da Pietà. Disponível em: <http://www.christusrex.org/www1/citta/Bs-Pieta.jpg>
Acesso em 15 de novembro de 2004; à direita, imagem da agonia de Serginho reproduzida na edição de nº
1878 da revista Veja, 03 de novembro de 2004, pp. 90 e 91.
185
porém, parecem denotar algo diferente: no primeiro caso, um jogador com conhecido
potencial de risco cardíaco “opta” por continuar correndo atrás da bola, tentando driblar o
próprio coração; no segundo, um garoto talentoso foge da pobreza fazendo “diabruras”
em campo; é um vencedor – alguém que “assumiu o risco de ser grande” - que não
consegue escapar, porém, da violenta “marcação” da sociedade brasileira.
Os dois casos são emblemáticos do risco extremo assumido por uma categoria
profissional cujos integrantes se assemelham, simbolicamente, aos gladiadores romanos.
“Vencer, vencer, vencer, uma vez Flamengo, Flamengo até morrer...”, sentencia o refrão
do hino de um dos mais importantes clubes de futebol do Brasil; é a nota perfeita daquilo
a que estamos nos referindo.
O futebol profissional é, provavelmente, o espetáculo mais querido pelo homem em
todos os tempos; aproxima-se do “sagrado”, cria deuses e demônios, arremessa anjos do
Céu para, em seguida, os resgatar do Inferno. É, por conta disso, uma verdadeira “panela
de pressão” cujo conteúdo principal é o risco.
César Sampaio, ex-atleta e hoje, comentarista esportivo315, compara a reta final do
campeonato brasileiro à “lei da selva”: “Quando amanhece na floresta é correria geral. O
leão corre para comer (seriam os times que almejam algo); o veadinho foge para não ser
comido (lembra a luta contra o rebaixamento)”.316
Aos 36 anos, o experiente atleta antecipou o fim de sua carreira, pois estava na
reserva, mas mesmo assim contribuía muito com o grupo. Depois de sofrer um
traumatismo craniano em um choque com o atacante Osmar do Palmeiras, suas filhas o
aconselhavam em relação às partidas: “Se a bola vier alta, sai de perto, cuidado”,317 é a
recomendação das meninas, que sempre oram quando ele está em campo. A justificativa
de César para estar atuando até aquele momento – tinha 18 anos de carreira – é que
315
César Sampaio aposentou-se do futebol no final de 2004 jogando pela equipe do São Paulo Futebol Clube
e, atualmente, é comentarista esportivo da rádio Jovem Pan de São Paulo.
316
HECICO, F. Sampaio elogia: “São Paulo tem volantes para 10 anos”. O Estado de São Paulo, 15 de
outubro de 2004, E2.
317
HECICO, F. Sampaio, na reserva, pode parar este ano. O Estado de São Paulo, 06 de novembro de 2004,
E8.
186
risco existe em todos os lugares: “Risco há onde quer que a pessoa esteja. Nossa vida
está nas mãos de Deus”.318
Concordamos com a opinião de César Sampaio, de que risco há em qualquer lugar,
mas no futebol profissional eles são maiores, vão muito além de uma reta final de
campeonato, seja ele qual for. Para ingressar nesse esporte é preciso assumir o próprio
instinto de sobrevivência, alimentá-lo com velocidade, visão periférica e malandragem;
seguir por essa senda “como mané” seria algo muito difícil. Além dos riscos ambientais
(torcida, imprensa, fatores físico, técnico, tático e emocional, entre outros), os
“gladiadores” também estão expostos aos mesmos riscos sociais da grande maioria da
população (falta de escolaridade, empregos precários, exclusão social, entre outros), se
suas carreiras não “decolarem”.
Não é necessário abrir muito o leque para perceber os riscos inseridos na sociedade e
no esporte, mas o futebol registra várias histórias de atletas que tiveram problemas de
saúde - ou com bebida, drogas, desentendimentos em família etc. - e que puderam
continuar sua carreira após tratamento adequado. Podemos citar o atleta Washington,
atleta do Clube Atlético Paranaense em 2004, que teve um problema de coração, foi
submetido a uma angioplastia, voltou a jogar futebol e a fazer gols - no entanto, teve que
assinar um termo de compromisso assumindo riscos. O nigeriano Kanu também passou
por problema coronariano e, com o devido acompanhamento, pôde dar seguimento a sua
carreira.319 Outros não tiveram a mesma sorte: é o caso do atacante William, 17, do
Palmeiras, que em exames teve detectado um bloqueio na porção esquerda do coração;
segundo os especialistas, só poderá voltar a jogar com um avanço da medicina.320
Nenhum caso se compara, porém, ao de Serginho, que nos permite fazer uma leitura
interessante.
Lembramos que era um jogo entre dois times batizados com nomes de santos: São
Paulo x São Caetano. No caso dessa partida em especial, porém, o milagre parece ter
ficado no vestiário, ou, então, ter sido expresso por meio dos “misteriosos caminhos do
Senhor” (a fatalidade parece ter chamado a atenção da opinião pública para o potencial
risco de vida em campo, o que talvez permita salvar outras vidas no futuro por meio de
318
Ibid.
Cf. LEITE, A. Histórias de quem venceu o coração. O Estado de São Paulo, 29 de outubro de 2004, E4.
320
Cf. VILLA NOVA, G. Palmeirense teve de parar. O Estado de São Paulo, 29 de outubro de 2004, E4.
319
187
reforço do apoio em atendimento médico de emergência). Outro “milagre”, sem dúvida, foi
a união das torcidas, perplexas diante de um fato que não escolhe time ou pessoa
(lembrando uma imagem popular, podemos dizer que a morte se veste de negro, cor que
está sendo abandonada até pelos “famigerados” árbitros).
Retomando a tragédia, não importa se a morte foi acidental, se havia sido “escrita por
Deus”, se o atendimento foi adequado ou não, se houve falhas na avaliação médica ou se
o uso do desfibrilador teria revertido a parada cardiorrespiratória. São relevantes, sim,
algumas questões: Serginho tinha condições de atuar profissionalmente? E se não
tivesse, o que iria fazer da vida? Como sair das “quatro linhas” como projeto que não se
cumpriu para voltar à sociedade? O São Caetano não deveria proibir o atleta de jogar? O
zagueiro resolveu assumir a responsabilidade de exercer sua atividade profissional
mesmo sabendo dos riscos existentes? Ele poderia ter feito isso?
O risco, que seria igual a 1%, resolveu se manifestar em grande estilo. Risco que fez
com que atletas, técnicos, dirigentes, árbitros, cronistas e torcidas se expressassem
religiosamente. Manifestações presentes em jornais, emissoras de rádio e televisão e
internet, muitas vezes de forma apelativa. Sem mencionar outros fatos que envolveram
pessoas pelo Brasil e que não chegaram à mídia: que dizer, por exemplo, daquela pessoa
que, ao acompanhar o caso do jogador, resolveu “dar um pulo” no posto de saúde para
fazer um chek-up antes da “pelada” do próximo domingo?
Na seqüência da vida, do futebol, do restante da partida interrompida pela morte de
Serginho – os 31 minutos restantes foram jogados uma semana depois, como pede o
regulamento da competição –, além de ambas as torcidas gritarem o nome do atleta em
sua homenagem e do placar eletrônico do estádio do Morumbi mostrar a frase: “Valeu
Serginho, seu show continua”, os atletas do São Caetano também fizeram sua
homenagem exibindo uma faixa com os dizeres: “O mundo e tudo que ele oferece passa,
mas aquele que faz a vontade de Deus vive para sempre. Obrigado Serginho”. O falecido,
como muitos no meio futebolístico, era um atleta religioso.
O espetáculo futebolístico pressupõe que sejam criadas condições necessárias, como
bons gramados, estádios que ofereçam segurança, conforto, maior preocupação com a
saúde do atleta e calendário organizado. No Brasil, em termos administrativos, o futebol
188
ainda está engatinhando, principalmente se comparado ao futebol europeu. É necessário
que exista uma mudança na idéia e nas atitudes dos atletas, dirigentes e torcedores, para
a compreensão de que o futebol é um grande negócio, inserido na globalização e não
imune às transformações que ocorre no mundo321. Assim, conforme Ianni:
Nenhuma mercadoria é inocente. Ela também é signo, símbolo, significado. Carrega valor
e usos, valor de troca e recado. Povoa o imaginário da audiência, auditório, público,
multidão. Diverte, distrai, irrita, ilustra, ilude, fascina. Carrega padrões e ideais, modos de
ser, sentir e imaginar. Trabalha mentes e corações, formando opiniões, idéias e ilusões.322
O mundo globalizado, como pudemos perceber, está rodeado de riscos, mas também
está rodeado de espetáculo. O futebol é um esporte que está inserido na sociedade de
risco e na sociedade de espetáculo - um direciona o outro: risco, que pode levar ao
espetáculo; espetáculo, que pode nos expor aos riscos. Nesse sentido, mostraremos o
cenário que é o futebol brasileiro, além do mostrado anteriormente, entre o risco e o
espetáculo, em todos os âmbitos atingidos pelo futebol.
Em primeiro lugar, é provável que a maioria dos brasileiros não queira ver a seleção
de futebol do país fora da Copa do Mundo. Ter um dos melhores futebol do mundo tem
sido uma das formas mais permanentes de elevar nossa auto-estima e manter no espírito
patriótico. Mas, na primeira vez em que o Brasil deixar de ir à Copa haverá uma crise no
País, que provavelmente trará como resultados positivos uma reformulação significativa
da maneira de dirigir e organizar o esporte.323
O espetáculo do esporte, do futebol, é tão evidente, que na falta de heróis “clássicos”
para cultuar, cultuamos heróis do esporte, figuras como Pelé, Ronaldinho, Gustavo
Kuerten e Ayrton Senna. Esse olhar sobre os vitoriosos, sobre a vitória, evidencia o apego
que o brasileiro tem ao passado – um apego aparentemente, maior do que o reservado ao
futuro.
Este comportamento se verifica tanto nas pressões por solução rápida para crises dos
times de futebol e da seleção brasileira quanto nas pressões por solução de complexos
problemas do país, culturais e políticos, que tiveram origem há muitas décadas, algumas
321
Cf. SANTOS, T.C. Globalização, Mundialização e Esporte: o futebol como megaevento. Peligro de gol:
estúdios sobre deporte y sociedad en América Latina. Argentina: CLACSO, 2000, 270 p., pp. 68-70.
322
IANNI apud SANTOS, T.C. Globalização, Mundialização e Esporte: o futebol como megaevento. Peligro
de gol..., op. cit., p.70.
323
Cf. RESENDE, Ê. Chega de ser o “País do futuro”, op. cit., p. 35.
189
até em sua colonização (...) E aí nos comportamos como a maioria das torcidas de futebol
do Brasil: em vez de estimular o time diante das falhas cometidas na busca de vencer os
desafios e as diversidades, apressamos a vaiá-lo. De maneira predominante, comportamonos no campo político, em relação aos nossos governantes, como nos campos de futebol,
ante as dificuldades do nosso time.324
Uma mensagem freqüente na mídia brasileira é a de que o Brasil possui “180 milhões
de técnicos de futebol” – trata-se, sem dúvida, de um indício da pressão a que estão
expostos os astros do futebol. Outro bordão clássico é o do “jeitinho brasileiro”, que, se
tem um significado muito negativo (relacionado, por exemplo, à corrupção), tem um muito
positivo, ligado à criatividade. Para resolver problemas, fugimos dos padrões em muitas
coisas: há melhor exemplo que o do “cheque pré-datado”, uma instituição brasileira
dificilmente compreendida fora do país?
O exagero na publicidade de firmas que patrocinam os eventos esportivos no país; a
abertura dos cofres estatais para os atletas de elite; os patrocínios “misteriosos”; a
utilização política de eventos; atletas e dirigentes que só pensam em luxo “momentâneo”;
a alienação do povo pela contratação de uma “estrela” pelo seu time; as questões
relacionadas à frase “não importa a fonte, o importante é que veio e temos dinheiro”; a
“dança” de contratos entre televisão, patrocinadores, clubes e outros; promoções de
amistosos apenas com interesse econômico; os números das exportações de jogadores e
dos jogadores sem “mercado” que mudam de profissão, pois estão passando sufoco em
seus clubes – esses são alguns exemplos da “fragilidade” estrutural por que passa o
futebol no país. Para essa situação ficar mais clara, vamos evidenciar situações do
mundo da bola que mostram estes aspectos. Risco, futebol e espetáculo.
Na revista Veja do dia 12 de janeiro de 2005, uma reportagem chamava a atenção:
“Emprego de alto risco: nos últimos anos, poucos técnicos brasileiros passaram por
grandes times europeus. Não conseguiram muita coisa”.325 A notícia dizia respeito à
contratação do técnico Vanderlei Luxemburgo pelo clube Real Madrid, da Espanha, um
dos maiores do mundo, com receita anual de algo em torno 700 milhões de euros. O
salário anual de Luxemburgo é de R$ 7 milhões, sendo os riscos nas mesmas proporções
do salário, pois a exposição é maior e qualquer erro ou atrito podem ser fatal não só para
324
325
Ibid., pp. 40-48.
ELE chegou lá. Veja. São Paulo, Abril, ed. 1887, ano 38, n.2, 12 de janeiro de 2005, 114 p., p. 81.
190
ele, mas também para outros técnicos do país, que têm pouco “mercado” na Europa,
onde as portas estariam fechadas “de vez”.326
Retomando para nossa situação interna, vamos nos concentrar em mostrar situações
desse começo de milênio no âmbito do futebol, dentro e fora das “quatro linhas”. Muitos
jogadores ganham projeção rapidamente e atraem oportunistas. Alguns por gols bonitos,
outros por passes perfeitos, dribles caprichados ou pedaladas atrevidas. Esses são os
ingredientes que transformam os garotos em astros detentores de um poder muito
grande: eles podem dissipar dinheiro se casando, por exemplo, em um castelo francês,
comprando Ferraris ou bancando festas e viagens para amigos. A mudança brusca é
complicada e a rotina incomoda, fazendo transparecer o desconforto que é a “periferia do
futebol”.327
Leão, técnico do São Paulo Futebol Clube em março de 2005, diz que a pressão que
vem de fora é mais forte do que se imagina. Ela vem de amigos e parentes, empresários,
pastores, aproveitadores de todos os tipos, que se penduram nas costas do atleta o dia
inteiro. Leão também afirma que a maior dificuldade é a vaidade de quem se vê no centro
de atenção de uma hora para outra. Quanto maior a fama e o salário do atleta, maior o
número de interesseiros “na sua cola”. A maioria é presa fácil porque tem baixa
escolaridade.328
Leão usa o fanatismo religioso como exemplo de comportamento que pode ser negativo.
“Não sou contra a fé, pois ela ajuda”, pondera. “O excesso faz mal, ainda mais se vier
reforçado pelos falsos amigos”, conta. “Às vezes, o jogador perde pênalti e diz que foi
Deus quem quis e não percebe que foi falha sua, porque treinou mal. Só que vêm os
chupins e falam que estão certos, que são o máximo. É duro lidar com isso”.329
Depois de anos atuando como principal dirigente do Palmeiras/Parmalat, José Carlos
Brunoro mudou de carreira. Ele abriu mão da atividade após experiências frustrantes, diz
que os atletas gostam mais de trabalhar com “roleiros”, dos que lhes vendem dez carro
por ano e, todos aqueles que procuram abrir seus olhos, são tachados de inimigos.
Brunoro afirma também que o atleta precisa de um bom assessoramento no começo da
326
Ibid.
Cf. GRECO, A. De repente, a fama (e um monte de aproveitadores). O Estado de São Paulo, 13 de julho
de 2003, E6.
328
Ibid.
329
Ibid.
327
191
carreira, para depois se firmar. Assim, terá mais cuidado com contratos, com
investimentos em grupos de pagodes, com a “noite” e com as “mulheres”.330
Outras situações de risco para os atletas são as confusões em que se metem durante
as partidas, como as brigas em campo. No dia 09 de julho de 2003, o Corinthians
enfrentava o Santos pelo campeonato brasileiro. Houve um desentendimento entre os
atletas e começou uma pancadaria em que muitos atletas se envolveram. A Justiça
Esportiva puniu com rigor os responsáveis pelo tumulto, com penas que variavam de 3
partidas até 60 dias de punição em um julgamento que durou três horas e que foi
acompanhado pelo árbitro da partida e por alguns atletas que participaram do fato.331
“Kaká rasga mais de US$ 1 milhão para ir à Itália”. Esta notícia do dia 16 de agosto de
2003 no jornal “O Estado de São Paulo” parece ser um absurdo para qualquer cidadão
comum, mas quando se trata de uma estrela do futebol, cifras como essa se tornam
minúsculas ao ponto de certas “transações” brincarem com os números como se fosse a
realidade de muitos, quando na verdade é a realidade da minoria. A notícia seguia “Meia
abre mão dos 15% da negociação e chega hoje a Milão. São Paulo fica com US$ 8,2
milhões”. Parece incrível, mas Kaká abriu mão de US$ 1,2 milhão para se transferir para
o Milan. É, pelo menos, o que garantiam as partes envolvidas no negócio. O meia teria
direito a 15% do total da transação, por cláusula contratual com o São Paulo, mas foi
obrigado a ceder, por causa da exigência do clube brasileiro. De acordo com o
empresário do atleta, Wagner Ribeiro, o sonho de Kaká jogar de no Milan falou mais alto
e ele receberia bem mais que os R$ 80 mil mensais do São Paulo: 1,4 milhão de euros na
primeira temporada, além do bônus por metas e aumento nos anos seguintes. Realidade
de poucos ou não?332
Com os pés no chão, falando das crises nos clubes, o futebol tem de bancar a área
social. O quadro se inverteu de 20 anos para cá com a drástica queda no número de
sócios, o que provoca conflitos internos entre os dirigentes. Os mais velhos devem
recordar que, antes, os dirigentes assinavam os cheques para contratar algum jogador e
330
Ibid.
Cf. BARSETTI, S. & CASTELAR, M. STJD suspende Doni por 40 dias. O Estado de São Paulo, 16 de
julho de 2003, E1.
332
Cf. MALUF, E. Kaká rasga mais de US$ 1 milhão para ir à Itália. O Estado de São Paulo, 16 de agosto de
2003, E6.
331
192
que havia as famosas “vaquinhas” nos departamentos. Houve uma época em que o clube
bancava o futebol. Bons tempos! As transformações econômicas e sociais mudaram esse
quadro. Ao mesmo tempo em que o futebol passou a movimentar mais dinheiro, a parte
social definhou diante do crescimento da violência urbana e da proliferação dos
condomínios. Esses, a cada ano, tornam-se verdadeiros complexos esportivos,
desmotivando a freqüência nos clubes. Outros fatores que afastam o público dos clubes
são os shoppings. Antigamente o ponto de encontro eram os clubes, hoje existem vários
pontos de encontro espalhados pela cidade e com diversos atrativos para jovens e
adultos, com muito mais profissionalismo que um clube.333
Mas, mesmo o futebol, tendo na maioria das vezes que manter os clubes, nem a sua
parte faz. No futebol nacional é uma prática comum o atraso no pagamento dos salários.
O surpreendente é o fato de os técnicos continuarem admitindo tal política. Os técnicos
brigam por lugar até em clube que não paga, mesmo em times que vivem dando calote
basta o cargo ficar vago para se formar uma fila. Imagine-se o seguinte: determinado
patrão tem por hábito atrasar ou, simplesmente, não pagar o salário de um funcionário. E,
estranho, em vez de boicotá-los, os empregados almejam ser contratados por ele,
disputam a vaga. É mais ou menos essa a relação dos clubes de futebol brasileiro com os
técnicos e, porque não, com os atletas também. Não importam os riscos. O importante é o
espetáculo. É estar no palco. Enquanto não houver uma legislação séria, essa “dança” vai
continuar. Quem não está devendo à alguém no futebol brasileiro?334
O atleta Narciso, do Santos Futebol Clube, através de exames de rotina realizado
pelos médicos do clube, recebeu a notícia que estava com leucemia e passou a lutar
primeiro pela sua vida e depois pela sua volta ao futebol. Todos sabem da gravidade da
doença. Narciso tem muito a agradecer. Fala do Santos, que bancou todas as despesas
do transplante de medula e pagou os salários nos quatro anos de tratamento e agradece
ao técnico e ao presidente que sempre o apoiaram na luta contra o câncer que ele
venceu. Seu futuro no futebol, porém, segue incerto.335
333
Cf. VILARON, W. Futebol tem de bancar a are social. O Estado de São Paulo, 19 de outubro de 2003, E5
Ibid.
335
Cf. RODRIGUES, J. O pesadelo acabou para Narciso. O Estado de São Paulo, 19 de outubro de 2003, E8.
(Quando estávamos finalizando nosso trabalho, Narciso estava organizando seu jogo de despedida do futebol
profissional)
334
193
Adil, atleta que jogou pelo Sport Club Corinthians Paulista, quer voltar à rotina do
esporte três anos após o acidente automobilístico que “truncou” a sua vida. Ele driblou a
morte e a paralisia e agora prepara o retorno ao esporte, se possível como gerente de
futebol, administrador ou qualquer cargo em que possa transmitir aos mais novos,
experiência de vida e de profissão. Com quase 40 anos, ele pode pensar em atuar nos
bastidores do futebol, mas, se estivesse em começo de carreira, que destino teria? Adil
vive de pensão por invalidez, da ajuda de Adão Ferreira, seu procurador, e do que
poupou, apesar de alguns calotes. Acima de tudo, é otimista (ele é brasileiro).336
Alguém já pensou em um patrocinador investir em dois times da mesma cidade e
ainda rivais? O Lemon Bank pretendia investir e conquistar o mercado paulista
associando sua marca à Palmeiras e Corinthians; assim exibiria sua marca nas camisas
de duas das maiores equipes do Brasil. Como os clubes não têm dinheiro, o parceiro
seria responsável pelas contratações e, já para o ano de 2004 – a matéria foi vinculada à
imprensa em outubro de 2003 – contrataria como reforços para as equipes, grandes
jogadores. Tudo isso era uma estratégia de marketing fácil de ser entendida. O Lemon
Bank surgiu com uma proposta de ser um banco popular, cujo foco de mercado são os
chamados “sem banco” (que integram as classes mais baixas da economia brasileira),
universo que reúne cerca de 25 milhões de pessoas. O banco conseguiu se consolidar
em algumas equipes do nordeste e estava “de olho” em potenciais clientes de São Paulo.
O objetivo era evitar o fenômeno ocorrido com Pepsi ou Parmalat, de sectarismo por parte
da população. As multinacionais garantiram a simpatia dos torcedores dos times com os
quais mantiveram acordo de patrocínio. Por outro lado, cultivaram a antipatia dos rivais.
Estar presente nos dois times seria a forma de estar bem com todo mundo. E a equipe do
São Paulo? Não interessaria no momento, pois os torcedores são-paulinos têm a fama de
pertencer à elite social. Parte considerável deles está nas chamadas classes A e B e,
portanto, não se incluíam no nicho mercadológico do banco.337 Não se pode saber se a
decisão final foi boa ou ruim, mas a negociação não foi concretizada.
Diante da quantidade de investidores que planejam investir no futebol brasileiro, nem
sempre com sucesso, não se pode negar que, no país, o futebol é cada vez mais um
336
CF. GRECO, A. Adil dribla a paralisia e sonha com o futebol. O Estado de São Paulo, 19 de outubro de
2003, E8.
337
Cf. VILARON, W. Banco quer investir em Corinthians e Palmeiras. O Estado de São Paulo, 28 de outubro
de 2003, E1.
194
grande negócio, principalmente para os empresários do ramo e para a Confederação
Brasileira de Futebol (CBF). A CBF vem ampliando a exploração da marca da equipe
pentacampeã mundial e fortalecendo um filão que se solidificou em 2003: o de promover
seleções amadoras (sub-20, sub-18, sub-17, sub-15 e assim por diante). Só em 2003, as
seleções brasileiras disputaram 13 competições internacionais, com 80 jogos em solo
estrangeiro, e levaram o espetáculo verde-e-amarelo para 17 países, percorrendo 330 mil
quilômetros, o equivalente a dez voltas ao redor do planeta. Muitos torneios só são
realizados graças a presença do Brasil, sem a CBF arcar com gasto nenhum. Esse
excesso agrada muito aos jogadores e raramente aos clubes, que não concordam com
tantas competições em um curto espaço de tempo. Para alguns há a valorização dos
jogadores, para outros há um desgaste muito grande do atleta.338 Além disso, qual a
vantagem de perder um “valor” do time várias vezes por ano e desfalcar os plantéis?
É o espetáculo e o risco no futebol globalizado, pois a CBF não recusa convites do
Exterior, os empresários querem a valorização dos seus atletas, os clubes não sabem o
que fazer e a maioria dos jogadores fazem o que lhes é pedido.
Dando seqüência, é do conhecimento de todos que os atletas que estão no topo são
rodeados de privilégios, mas nem sempre seu relacionamento com os clubes é bom.
Tanto é que, em setembro de 2003, apareceu na mídia esportiva uma discussão sobre a
CLT, INSS e os jogadores de futebol, com uma reação em cadeia e os cartolas querendo
que, a partir daquele momento, os jogadores fossem tratados como trabalhadores
normais. A título de exemplo, um dos tópicos da discussão era no sentindo de enviar ao
INSS os atletas que ficassem sem jogar por mais de quinze dias, seguindo, assim, as
normas da CLT. Clubes como o Corinthians, pagam o salário integral para o atleta
durante o período de tratamento e, caso a direção quisesse encaminhar ao INSS ou ao
SUS, estaria livre de muitas despesas. O secretário de Administração do Coritiba Football
Clube, Domingos Moro, afirmou que era preciso corrigir o desequilíbrio na relação
jogador/clube; outros dirigentes diziam que, como os clubes pagam tributos e
contribuições, aquela era uma opção viável. Mas, enquanto alguns clubes só abriram os
olhos naquele momento, pelo menos três equipes que disputavam a primeira divisão do
campeonato brasileiro da época – Vitória, Criciúma e Paraná – já utilizavam o “auxílio338
Cf. BARSETTI, S. & MENDES, F. Seleção brasileira $. A. O Estado de São Paulo, 09 de novembro de
2003, E6.
195
doença” do governo federal. O presidente do Paraná dizia que pagavam o INSS em dia e
não era barato. Então porque não utilizar?339
Na guerra em que se transformou a relação dos atletas com os clubes, nem tudo
estava contra os jogadores, pois o Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo
mobilizou-se, colocando advogados trabalhistas à disposição dos jogadores que se
sentissem prejudicados por qualquer medida dos clubes e inovou concretizando um
antigo sonho, confeccionou a “Cartilha do Atleta Profissional de Futebol”. A obra traz uma
série de orientações e é bem eclética. Segundo Reinaldo Martorelli, presidente do
Sindicato, o trabalho é bastante didático, cheio de ilustrações e que esclarecem ao
jogador de futebol questões das mais diversas com as quais qualquer um pode se
deparar durante a carreira. Para atrair a atenção, a cartilha se parece muito com as
utilizadas em escolas de ensino fundamental e procura ser útil a todos os atletas.340
Um dos principais problemas verificados pelo sindicato é o desconhecimento absoluto dos
jogadores em relação aos assuntos mais burocráticos, como a elaboração de contratos e
pagamentos de taxas de impostos. Pela falta de familiaridade com o assunto, muitos se
tornam vítimas de aproveitadores. “Jovens, com dinheiro, acabam atraindo muita gente
que só quer tirar proveito da situação” (...) Por isso, até orientação financeira, sobre as
melhores formas de investir o dinheiro, consta na cartilha. “Alguns compram dez
apartamentos, não conseguem alugar, e depois têm que vender dois para pagar dívidas de
impostos e condomínios que ficaram acumuladas. É esse tipo de situação que queremos
evitar”, explica Martorelli.341
Um dos pivôs da crise clube/atleta foi o jogador Vampeta, que na época era
funcionário do Corinthians. Depois de sofrer uma cirurgia no joelho esquerdo, o atleta
tinha obrigação de comparecer aos exames periodicamente, algo que não estava
acontecendo e os responsáveis pela sua recuperação não tinham como avaliar sua
melhora e, nessa discussão, havia a hipótese de o jogador rescindir o contrato.342
A história se desenrolou por um bom tempo. Vampeta teve problemas com o técnico
que não o escalou para uma partida e afirmou que não vestiria mais a camisa do
Corinthians, mas reviu sua posição, acatou a posição da diretoria e voltou a jogar. É claro,
por dinheiro. Disse que no final do ano as coisas eram difíceis e que não poderia correr
339
Cf. VILARON, W. Reação em cadeia: INSS vira bandeira nacional. O Estado de São Paulo, 18 de
setembro de 2003, E1.
340
Cf. O SINDICATO contra-ataca com cartilha. O Estado de São Paulo, 18 de setembro de 2003, E1.
341
Ibid.
342
Cf. VAMPETA tem reavaliação hoje. Será que vai? O Estado de São Paulo, 18 de setembro de 2003, E1.
196
riscos. Voltou a jogar, mas comprometeu seu “currículo” no Corinthians e manchou sua
imagem em relação a uma negociação com outros clubes.343
Ainda diante da polêmica provocada pelo caso Vampeta, evidenciou-se o fato do
melhor trato dado às estrelas dos clubes. Os “bibelôs”, atletas bajulados, que quase
ninguém se atreve a contrariar. Estão acima do bem e do mal e recebem tapinhas nas
costas, mesmo depois de cometer erros. A título de exemplo, temos atletas como
Edmundo, Romário, Luis Fabiano, entre outros. São os intocáveis. Brigam, falam demais,
mas são sempre perdoados. Qual a justificativa para tal proteção? Além do argumento de
que punir o jogador seria o mesmo que punir o clube, pois assim se desvalorizaria o
patrimônio, existe algo a mais. Os dirigentes muitas vezes têm medo de entrar em atrito
com um “intocável”, pois eles poderiam usar a moral que têm com o restante do grupo
para tumultuar o ambiente e jogar o elenco contra a diretoria e comissão técnica.344
O problema no futebol brasileiro é estrutural e não pode ser negado pelas situações
que presenciamos todos os dias. Edward Freedman ficou famoso nos bastidores do
futebol mundial como diretor de merchandising do Manchester United, onde trabalhou por
sete anos. Ele esteve presente no 1º Fórum Internacional “O grande negócio do esporte”,
realizado nos dias 13 e 14 de novembro de 2003 na cidade do Rio de Janeiro. Indagado
por um repórter do jornal “O Estado de São Paulo” sobre por que o Brasil, famoso em
todo o mundo como o país que revela os melhores jogadores de futebol, tem boa parte de
seus clubes quebrados financeiramente, respondeu de forma clara que obviamente era
pela má administração. E afirmou que, para um clube ter uma marca forte, precisa de
profissionais especializados, que entendam o mercado e saibam otimizar as
oportunidades comercialmente. Disse que o maior obstáculo é fazer as pessoas
entenderem que a parte de negócios deve dispor de estrutura própria e organizada. E
que, embora a função principal do clube seja “jogar”, ainda precisa gerar receitas com o
sucesso do time. Questionado sobre o fato de os clubes espanhóis, italianos, ingleses e
franceses terem dinheiro, mesmo sem grandes performances em campo, respondeu que
o fato de ter dinheiro não significa que vão produzir bons jogadores. Freedman disse
acreditar que quanto mais pobre o país, melhor a produção de atletas. Isso porque os
343
Cf. VILARON, W. Vampeta recua e fica. Por dinheiro. O Estado de São Paulo, 12 de novembro de 2003,
E1.
344
Cf. ELES brigam, falam demais, mas são sempre perdoados. O Estado de São Paulo, 12 de novembro de
2003, E1.
197
jogadores pobres até passam fome e precisam fazer tudo bem feito para conseguir uma
vida melhor. Concluiu dizendo que para os clubes brasileiros serem fortes, bastava
estruturá-los e promovê-los corretamente, mas Freedman insistiu que existe um mito no
Brasil. Muitos clubes europeus, embora tenham grande faturamento, estão diante de
imensas perdas, uma vez que os jogadores ficam com a maioria dos lucros.345 Não há
espetáculo sem risco!
Falta de estrutura, mal-estar criado por atletas e dirigentes - assim caminha o futebol
brasileiro em todos os seus níveis. No quadrangular final do brasileiro da série B, em
2003, a equipe pernambucana do Sport (Recife), punida com a perda de um mando de
campo, ameaçou colocar uma partida para ser disputada em Serra Talhada, terra do
temível Lampião. A cidade fica a seis horas de Recife e dispõe apenas de um hotel, que
seria ocupado pelo Sport. A equipe visitante, o Palmeiras, deveria se hospedar a 250
quilômetros ou a três horas de ônibus de Serra Talhada, onde o calor é muito forte. Entre
os jogadores do Palmeiras, alguns atletas diziam que jogar em Serra Talhada seria um
risco para as duas equipes, pois os alambrados são baixos e facilitariam invasões de
arquibancada e campo, os vestiários eram precários, isso sem contar que o lugar – pelo
menos, era no que acreditavam - era cheio de pistoleiros. Discussões à parte, o lugar
estipulado para ser disputada a partida não foi Serra Talhada, mas o Estádio Gigante do
Agreste, em Garanhuns, sendo respeitado assim o mínimo de 150 quilômetros de
distância da cidade à qual pertencia a equipe.346
A definição da realização da partida do Palmeiras contra o Sport em Garanhuns não
amenizou as críticas de muitos atletas e jornalistas. O jogo foi marcado para a noite em
um local com a iluminação precária. O goleiro Marcos do Palmeiras disse que seu time
acabaria sendo mais prejudicado do que o adversário que perdeu o mando de jogo, pois,
além da iluminação, o gramado era muito ruim. Outros atletas diziam que o gramado
parecia os “terrões” onde começaram a carreira e que essas condições exigiriam
sacrifício a que não estavam acostumados. Muitos ainda diziam que o maior prejudicado
345
Cf. VILARON, W. Até gringo dá bronca em cartola brasileiro. O Estado de São Paulo, 13 de novembro de
2003, E3.
346
Cf. BARSETTI, S. & ZUKERAN, V. Palmeiras pega Sport na terra de Lampião, O Estado de São Paulo,
13 de novembro de 2003. E2.
198
seria o Sport, pois necessitava da vitória, algo mais difícil em um campo precário.347 Mas,
mesmo com as críticas sobre o local do jogo, o técnico e os jogadores do Sport
aprovaram a iluminação e o gramado do estádio. O palco para o espetáculo estava
pronto, os riscos eram aceitáveis.348
Pior do que atuar em “terrões” ou estádios precários é não atuar. É não fazer parte do
show! Em 1996, a Portuguesa de Desportos, equipe de São Paulo, montou um belo time
e encantou o país chegando a ser vice-campeã brasileira. Muitos jogadores se
destacaram, como Alex Alves, Rodrigo Fabri, Zé Roberto, Emerson, César, Roque e Tico.
Zé Roberto, por exemplo, atua até hoje na Europa e é atleta da seleção brasileira, bem
diferentes de seus companheiros, Roque e Tico, que no final de 2003, passados sete
anos da “grande equipe da Lusa”, estavam sem clube.349
Eles passaram por vários clubes sem expressão, muitas vezes sem receber. Com o
sonho de ainda voltar a disputar um campeonato paulista e dar a volta por cima na
carreira, aprimoravam a parte física e sempre disputavam “peladas”. A parte física era
aprimorada com corridas na rua ou em academias que patrocinavam os atletas e os jogos
disputados eram sempre na várzea. Viveram bons momentos e, quem vê a situação de
ambos hoje não imagina que já tiveram uma vida estável, dinheiro, carros importados,
roupas de grife e que curtiram muitas viagens. Hoje, cortaram muitos gastos. Roque
garante que não está passando necessidade. Ele desconversa sobre o assunto, embora
sua mãe exponha que seu marido, aposentado, voltou a trabalhar e que o filho teve que
desfazer até dos planos de saúde. Evangélica, ela acreditava que Deus abriria as portas
para seu filho e que algum dirigente se lembraria dele, revelando que seu medo era que o
filho caísse em depressão. Roque, assim como Tico, até hoje deve sonhar com a volta ao
palco do espetáculo; mas, enquanto não voltam, vivem no purgatório da sociedade de
risco.350
347
Cf. ZUKERAN, V. A bronca de Marcos: “Puniram o palmeiras!”. O Estado de São Paulo, 19 de novembro
de 2003, E3.
348
Cf. LACERDA, Â. Sport espera um Palmeiras mais forte. O Estado de São Paulo, 22 de novembro de
2003, E3.
349
Cf. HECICO, F. Os primos pobres de Zé Roberto querem jogar. O Estado de São Paulo, 17 de novembro
de 2003, E6.
350
Ibid.
199
A transformação de Luis Augusto no “monstro” que representa a avareza exige
maquiagem e fantasia: ele passou, também, por aulas de expressão corporal, impostação
de voz, postura e relaxamento. O que isso tem a ver com futebol? É um atleta de futebol
desempregado que agora assusta público de parque para garantir renda. Com três anos
de experiência no futebol profissional, ele cansou de insistir na área esportiva e resolveu
ir em busca de outras oportunidades. Foi assim que encontrou um emprego inusitado.
Saindo do palco do futebol para figurar no palco de um parque. O jogador, agora
“monstro”, é só mais um personagem que traduz os números alarmantes do desemprego
e que mostra que é preciso ter jogo de cintura para sobreviver. Ele afirma ter enviado
mais de cem currículos para empresas, além de fitas de vídeo para empresários e clubes
de futebol, dizendo que o ramo é muito concorrido e, mesmo tendo curso técnico em
turismo, a situação está difícil. 351
Agora, imaginem para os atletas que não têm nenhum estudo. O que fazer? Como
todos os brasileiros, Freitas encontrou na adversidade uma nova chance, embora seus
sonhos continuem os mesmos. Diz que em seu coração ainda é jogador de futebol, mas
precisa de dinheiro. Conclui dizendo que quando se está desempregado tem de se
agarrar a todas as oportunidades.352
O trabalhador empregado no país tem que continuar aproveitando as oportunidades,
principalmente os atletas, pois se não aproveitam, correm sérios riscos de serem
descartados em um ambiente onde a concorrência cresce a cada dia. Ainda mais se
levarmos em conta que a fórmula: jogador de futebol + infância modesta + sucesso +
dinheiro + tentações da ‘vida mundana’ = preocupação. E esta preocupação existe em
vários âmbitos, da família, do clube, da imprensa, da torcida e do próprio atleta, que sem
um apoio, sem uma estrutura, dificilmente alcançará êxito na carreira353. Os que
conseguem êxito, por mais que estejam a cima do bem e do mal, têm que manter uma
postura adequada. A título de exemplo, alguns atletas estão sendo transformados em
brinquedos, em heróis para as crianças, ao lado de bonecos consagrados como Homem-
351
Cf. GLENIA. F. O jogador de futebol que virou monstro. O Estado de São Paulo, 27 de março de 2004,
C4.
352
Ibid.
353
Cf. MÃES palmeirenses em alerta geral. O Estado de São Paulo, 04 de abril de 2004, E3.
200
Aranha, Scooby-Doo, entre outros354. Com uma diferença fundamental: os atletas existem
na vida real e são de carne e osso. Fato que deixa uma porta aberta para pular de herói à
vilão em qualquer momento. Na vida do herói “vivo” e atuante, o céu é bem próximo do
inferno!
Um dos motivos da queda do céu para o inferno na vida do jogador de futebol pode
ser a combinação de mau rendimento pessoal e da equipe, com as noitadas, que se sabe
não são poucas em todos os meios, e a maioria dos atletas não fogem à regra. Na
semifinal do campeonato paulista de 2004 a equipe do Palmeiras foi desclassificada pelo
Paulista de Jundiaí e, um dos motivos da perda do jogo – segundo a opinião de muitos –,
foi a presença de atletas nas “baladas” na semana que antecedeu a partida decisiva. A
situação causou muita polêmica, atletas foram mais cobrados pela torcida e pela diretoria
e desestruturou o elenco que passou por uma pequena reformulação355.
Todas rodadas de campeonatos existem ao redor do mundo são e vão ser
eternamente vistas e analisadas através do risco e do espetáculo. No futebol um não vive
sem o outro e, como já foi citado, não há espetáculo sem risco; nem risco sem
espetáculo. Esta situação ficou evidente com determinados fatos mostrados no decorrer
da escrita e, para ficar mais transparente a ideologia do futebol-espetáculo e os riscos,
lembremos que transmitido mundialmente pela televisão, o esporte tornou-se um dos
vetores da globalização. Sua ideologia disfarça seu caráter político, a monetarização
generalizada dos “valores” esportivos, fraudes e trapaças de todos os tipos e, sobretudo,
doping maciço em todos os estágios.
Para melhor localizar o leitor, a globalização do esporte, iniciada verdadeiramente a
partir da II Guerra Mundial com a multiplicação sem fim das competições, duplicou-se com
uma “esportivização” do mundo como vetor político-ideológico comum ao conjunto das
potências financeiras que submetem o planeta à sua imposição. Depois que o Barão
Pierre de Coubertin lançou o movimento irresistível de propagação esportiva, ao
ressuscitar os Jogos Olímpicos em Atenas, em 1896, o fenômeno esportivo caracterizouse pela combinação de vários fatores: um desenvolvimento sem precedentes da maioria
dos esportes em todo o planeta, sua homogeneização internacional pela codificação de
354
Cf. GLENIA F. Sucesso do cinema inspiram novos brinquedos. O Estado de São Paulo, 06 de abril de
2004, B14.
355
Cf. RÍMOLI C. Picerni joga duro com os baladeiros. O Estado de São Paulo, 09 de abril de 2004, E3.
201
regras unificadas, e o desaparecimento progressivo das técnicas corporais ou dos jogos
típicos dos países356.
A unidade desse conjunto reconfigurou simultaneamente o tempo do mundo
(estabelecimento de calendários competitivos cada vez mais apertados, servindo de
referências aceitas por todos) e o espaço geopolítico (multiplicação de locais de esporte:
junto dos edifícios, nos estádios, em casa diante da televisão, no meio do mato), e tudo
isso num espetáculo transmitido mundialmente pela televisão. Até parece surgir dessa
articulação inédita do tempo e do espaço uma nova História, formada pelas façanhas,
recordes e desempenhos, criando, por isso mesmo, mitos e “lendas fabulosas”, dos quais
os campeões seriam os deuses, no meio de um oceano de imagens.
Essa pandemia esportiva – a extensão de sua esfera de influência no interior da vida
diária – é, de fato, perceptível na globalização do esporte enquanto universo implacável
de “ganhadores”, eventualmente demolidores. O espaço público, reduzido a uma tela de
sonho televisionado, está saturado de esporte, a tal ponto de comprometimento que a
política, por exemplo, é considerada, também ela, como um esporte. O “tifo” esportivo
contaminou as consciências com uma velocidade incrível, fazendo de cada indivíduo um
torcedor em potencial. A ponto de o esporte ser atualmente exercido no mesmo registro
que as necessidades – beber, comer ou dormir – e ter se tornado o espaço-tempo quase
que exclusivo dessas multidões movidas por suas paixões: um chute a gol, um sprint ou
uma quebra de serviço. O esporte é a vida diária e, para muitos indivíduos, não há mais
nada fora dele, a não ser o vazio abissal do jargão, televisivo, da inautenticidade.
Se os estádios permitem o exercício efetivo da competição, o verdadeiro fascínio pelo
espetáculo que se apodera das multidões seduzidas é o resultado precisamente do poder,
ao mesmo tempo banalizado e hipnótico, da retransmissão generalizada das competições
– de um único ponto do mundo, o estádio, para todos os pontos possíveis, para cada casa
– e de acordo com uma transmissão que lhes é própria: ao vivo, o instantâneo, em
câmara lenta e a repetição de todos os ângulos, em cadeia.
356
As considerações que seguem desta nota, até o primeiro parágrafo da página 205, encontram-se em: A
ideologia do esporte-espetáculo, pp. 30-35. Disponível em:
<http://www.pfilosofia.pop.com.br/04_miscelanea/04_17_lmd/lmd033.htm>. Acesso em 17 de março de
2005.
202
Por seu próprio modo de manifestação, o esporte tornou-se um dos vetores da
globalização em curso, ou seja, uma “espacialização planetária” sob o regime de um
tempo único reificado, literalmente coagulado, constituído pelo poder universal da
divulgação televisiva. O tempo, ainda marcado pela historicidade, um tempo complexo, de
uma certa fluidez dialética, foi substituído, portanto, pelo tempo do esporte, que divide a
História ao ritmo das competições, dos recordes, das tele-transmissões. O esporte
“realmente existente” não é senão um frenesi de competições, a organização planetária
de sua rotação permanente num calendário universal. Atualmente, o esporte não é mais
do que um dos componentes de um tempo e de um espaço autonomizados no e pelo
capital. Ele é a tomada de posse do tempo e do espaço à sua imagem e como imagem.
Novas estrelas da globalização, os campeões tomaram o lugar das vedetes do cinema
e do show business. O esportista de alto nível tornou-se o modelo publicitário a ser
seguido, com quem a juventude deve se identificar – o melhor exemplo é o inglês
Beckham. Não somente os patrocinadores constroem a imagem dos esportistas como
produtos globalizados padrão, mas a globalização veicula as figuras planetárias de
esportistas uniformizados à imagem de seus calçados: a língua comum deles é o jargão
anglo-esportivo, seu modo de vida é homogeneizado – mesmas “bebidas energizantes”,
mesmos hotéis de luxo, mesmas paixões por carros potentes, mesmos treinamentos,
mesmos dopings, mesmo interesse pelas contas bancárias.
Contratados por times, escuderias ou equipes controladas por interesses financeiros
poderosos, esses happy few dedicam seu tempo a encontros em torno do globo terrestre,
apresentando-se em espetáculo diante de – muitas vezes - uma imensa platéia de
deserdados e de oprimidos, reduzidos à condição de telespectadores fanatizados ou
máquinas de aplaudir, como nos reality shows.
O poder efetivo da ideologia do esporte é o resultado da multiplicação infinita das
imagens da competição sem outra mediação que não sejam comentários redundantes de
uma aflitiva banalidade. A globalização televisiva permanente transforma a paixão
esportiva em paixão pela imagem, em “iconomania”, para retomar o conceito de Günther
Anders. A contaminação geral das consciências provém, portanto, dessa intoxicação
esportivo-televisiva incessante. Esta, por meio da série de imagens infinita imposta pelas
tecnologias digitais, que prendem cada indivíduo diante de suas telas (telão, telefone
203
celular, DVD, televisor, internet etc.), celebra não somente os novos ícones do esporte,
mas distila de forma maciça a visão esportiva do mundo.
“A ideologia”, diz Engels, “é um processo desempenhado pelo pretenso pensador
provavelmente com consciência, mas com uma falsa consciência. As forças motrizes
verdadeiras que o põem em movimento permanecem desconhecidas para ele, pois se
não fosse assim, não seria um processo ideológico. Ele imagina também forças motrizes
falsas ou aparentes”. É dessa forma que a ideologia esportiva põe em prática a ação
imaginária de hipóstases imaginárias (a idéia olímpica, a paz olímpica, o fair-play, o
espírito esportivo etc.) desconhecendo, disfarçando ou recalcando as forças motrizes
reais do esporte: o acúmulo do capital esportivo, a corrida desenfreada ao bom
rendimento, os efeitos deletérios da competição.
Nos êxtases nacionais – até há quem fale de uma espécie de “orgasmo” – que
saturam o espaço público em caso de vitória, os amigos do esporte gostam, portanto, de
reconhecer a manifestação de uma união sagrada regeneradora. Os campeões seriam,
então, a vanguarda de uma sociedade reconciliada consigo mesma. A expressão da
dissociação quase esquizofrênica existente entre os discursos oficiais – que reforçam, a
seu modo, os produtores da boa consciência esportiva – e as tristes evidências do “meio”:
aumento e agravamento da violência dentro e fora dos estádios, escândalos repetidos de
corrupção mafiosa ou semimafiosa, monetarização generalizada dos “valores” esportivos,
fraudes e trapaças de todos os tipos e, sobretudo, doping maciço em todos os estágios.
A lei esportiva tem como função essencial manter a pureza do dogma atlético, o
caráter imaculado do mito olímpico. É em nome dessa ilusória “idéia esportiva” que
numerosos ideólogos propõem restaurar os valores que o meio seria encarregado de
exaltar. Ora, além do fato de que o altruísmo nunca foi mais do que um mito idealista, é
precisamente em nome desse suposto altruísmo que a competição esportiva se colocou,
desde sempre, a serviço de interesses econômicos, políticos e ideológicos que, quanto a
eles, são bem reais.
Ao invocar de maneira quase mística os “valores eternos do esporte”, essa ideologia
procura ser cumprida como profecia auto-realizadora, reduzindo o abismo existente entre
a realidade mundana da prática efetiva do esporte-espetáculo capitalista e a esfera
204
celeste da “idéia esportiva”. À maneira de um imperativo categórico, ela tenta adaptar os
costumes pouco brilhantes a um ideal idolatrado, do qual Coubertin foi o grande
“sacerdote”. Os artigos da “seita” esportiva – fair play, respeito pelo adversário, trégua
olímpica, amizade entre os povos, festa da juventude etc. – cantados em prosa e verso,
são encontrados há anos em falsas associações: entre o esporte e a cultura, o esporte e
a paz, o esporte e a democracia, o esporte e a emancipação dos povos, os deserdados e
as mulheres, o esporte e o respeito pelo meio ambiente etc.
Por uma série de equações perversas, a ideologia esportiva ousa até identificar o ideal
à sua negação pura e simples, como podemos perceber em diversas propagandas e
divulgações de pequenos a grandes eventos esportivos que atingem e atingiram
diferentes massas ao longo do tempo.
Não há dúvida que o esporte (principalmente o futebol) foi mercadorizado e, a
mercadorização do esporte significa a extensão da lógica da mercadoria para o âmbito
das práticas corporais (de lazer), tanto no sentido de consumo de prestação de serviços
(serviços e equipamentos) quanto na produção e no consumo do espetáculo esportivo e
de seus subprodutos. Normalmente se discute ou se entende que a mercadorização do
esporte-espetáculo, como aprofundamento do esporte profissional, com seu acoplamento
ao sistema dos meios e comunicação de massas. É claro que esse esporte é hoje um
segmento, dos mais significativos da economia mundial (as cifras que o negócio do
esporte movimenta são realmente significativas). Mas esse é apenas o lado mais evidente
do processo.357
O futebol e outros esportes competitivos são definidos como qualquer segmento ou
setor do mercado: produtivo ou não produtivo. Mas, precisamos lembrar que o futebol no
Brasil está ligado á identidade e destino. O futebol seria no Brasil antes de um jogo, ou
ainda um esporte vivido como jogo, porque está relacionado fortemente a outras esferas
que não apenas àquelas que se realizam no campo. Primeiro porque a palavra jogo, em
língua portuguesa, relaciona-se fortemente, ao contrário de play na língua inglesa, com
sorte e azar, e não por acaso o futebol está associado a um jogo de aposta popular, que é
a loteria esportiva. Além disso, há no futebol, como de resto em toda a sociedade
357
Cf. BRACHT, V. apud LUCENA R. & PRONI M. Esporte, história e sociedade. Campinas: Autores
Associados, 2002, 250 p. p. 196.
205
brasileira, uma marcante presença de elementos religiosos e de superstição, na qual a
idéia de destino tem um importante papel.358
Há um jogo que se passa no campo, jogado pelos jogadores como atividade
profissional e esportiva. Há um outro jogo que se passa na vida real, jogado pela
população brasileira, na sua constante busca de mudança para seu destino. E um terceiro
jogo jogado no “outro mundo”, onde entidades são chamadas para influenciar no evento
e, assim fazendo, promover transformações nas diferentes posições sociais envolvidas no
evento esportivo. Tudo isso revela como uma dada instituição, no caso o Football
Association, inventado pelos ingleses, pode ser diferencialmente apropriada.359
No futebol há indivíduo, pessoa, crença, massa, risco e espetáculo!
6.3 - Conclusões ao capítulo
O futebol é um belo exemplo de uma radicalíssima “sociedade interna de risco”, assim
como de sociedade espetáculo. Como forma de cultura popular e como arte que vende o
risco e o limite humano, o futebol transita entre os homens ao longo de sua história. Ele
traz consigo as ambigüidades da linguagem dos riscos e os processos sociais nela
referenciados. Tendo o atleta, o homem, como centro do espetáculo, o futebol organiza
em sua estrutura cenas que retratam e deflagram a condição humana de estar
simultaneamente em risco e insegurança. Isso fica claro no status que cada partida de
futebol recebe: “jogo do século”, “jogo do ano”, “partida de vida ou morte”, “milhões em
jogo”... Como forma de opinião do público sobre a arte, ou sobre algum atleta, ter status
significa ter reconhecimento e prestígio. No caso do futebol atual – globalizado, em risco e
espetacularizado – prestígio garante melhor contrato, melhor salário e possibilidades de
conseguir diversos “prêmios” extras.
O status está relacionado com risco e com gestão de riscos? Aparentemente, quanto
maior o perigo ou o risco representado pela partida, mais público – em todos os setores –
a partida consegue atrair. O futebol em sua história traz características de profunda
transformação. As formas de risco mudam, mudam os espetáculos. Mas bola não para de
rolar!
358
359
Cf. VAZ, A.F. apud LUCENA R. & PRONI M. Esporte, história..., op. cit., pp. 146-147.
Ibid., p. 147.
206
7 - “VAMOS PARA O JOGO COM MUITA FÉ, GARRA E DETERMINAÇÃO”:
INTERPRETAÇÕES DAS ENTREVISTAS
“Seleção ameaçada pelo cansaço: Belletti foi cortado e
Maicon, chamado. Ronaldinho e Emerson tiveram dores
musculares. Parreira criticou o calendário da FIFA. (...)
Cicinho será o novo titular e agradece a chance: ‘Pedi a
Deus uma oportunidade na seleção e Ele me concedeu’”
360
(O Estado de São Paulo, 24 de junho de 2005)
7.1 – Considerações preliminares
O objetivo deste capítulo é analisar o sentido atribuído pelos indivíduos entrevistados
às suas condutas, experiências e opiniões sobre as manifestações de religiosidade no
futebol. Nossa hipótese geral é de que a crença religiosa pode ser um fator decisivo para
os atletas e integrantes de comissão técnicas colocarem em um contexto controlado as
chamadas “situações de risco” vividas em suas trajetórias, na sua vida dentro do mundo
do futebol e na sua vida particular. Para isso, porém, não é possível descartar a
sociedade do espetáculo, pois, em nosso objeto de pesquisa, “sociedade de risco” e
“sociedade do espetáculo” se entrelaçam, com efeitos sensíveis sobre a figura do “homem
atleta”.
Uma vez que é impossível esgotar a realidade social, é evidente que a análise das
respostas de nossos entrevistados constituem apenas modelos ou tendências que
permitem compreender, por racionalização utópica, a diversidade das experiências vividas
e as opiniões perante as manifestações de religiosidade no futebol. Em outras palavras,
nossa análise foi constituída segundo a determinação do objeto de estudo e dos eixos
teóricos adotados para compor um conjunto coerente com a confusão e a infinita
diversidade da realidade.
Como ferramenta para elaboração das interpretações, utilizaremos o mesmo
procedimento do item 3.2.3, em que inicialmente mostramos as inclinações gerais, para
depois desenvolvermos a análise categórica entre os integrantes de comissões técnicas e
os atletas. Dando seqüência, concluiremos este segmento do trabalho de pesquisa com
uma confrontação entre os dados da análise dos resultados das entrevistas obtidos junto
às categorias “integrantes de comissão técnica” e “atletas”.
360
Cf. GRECO, A. & PRÓSPORE, L.A. Seleção ameaçada pelo cansaço. O Estado de São Paulo, 14 de junho
de 2005, E1.
207
7.2 – Tendência geral
7.2.1 - Religiosidade Pessoal
Qualquer que seja a compreensão da religião, ela reflete algo de básico e de íntimo no
Homem: seus desejos, angústias, criatividade, inteligências e propósitos.361 Mostraremos,
a seguir, um quadro de Pascal Boyer362 presente no livro “A persistência dos deuses:
religião cultura e natureza” (de Eduardo Rodrigues da Cruz),363 que procura indicar quais
são as principais formas de entendimento por parte dos fiéis e dos investigadores da
religião.
Cenários da origem da religião
A maioria dos relatos das origens da religião enfatiza uma das seguintes sugestões: a mente
humana necessita de explicações, o coração humano busca conforto, a sociedade humana requer
ordem e o intelecto humano é inclinado a ilusões. Para expressar isso de modo mais detalhado,
aqui vão alguns cenários:
A religião fornece explicações:
• As pessoas criaram a religião para explicar fenômenos naturais intrigantes.
• A religião também explica experiências intrigantes: sonhos, presciência etc.
• A religião explica a origem das coisas.
• A religião explica por que o mal e o sofrimento existem.
A religião prevê conforto:
• As explicações religiosas tornam a morte mais suportável.
• A religião alivia a ansiedade e provê um mundo mais confortável.
A religião assegura a ordem social:
• A religião mantém a sociedade unida.
• A religião perpetua uma determinada ordem social.
• A religião dá suporte à moralidade.
A religião é uma ilusão coletiva:
• As pessoas são supersticiosas e acreditarão em qualquer coisa.
• Os conceitos religiosos são irrefutáveis.
• Refutar é mais difícil do que crer.
361
Cf. CRUZ, E.R. A persistência dos deuses: religião cultura e natureza. São Paulo: UNESP, 2004, 91p., p.
36.
362
BOYER, P. Religion Explained: The evolutionary origins of religious thought. New York: Basic Books,
2001, 384 p., p. 5.
363
CRUZ, E.R. A persistência dos deuses: religião cultura e natureza, op. cit., p. 37.
208
À questão “Você pertence a alguma religião?”, todos os entrevistados disseram
pertencer a alguma, com variações nas opções – católicos, evangélicos e espíritas. Tais
respostas destacam a abertura do povo brasileiro à religiosidade e também a pluralidade
e vitalidade religiosa de nosso país, também refletida no futebol. Vale destacar que tanto
o cenário brasileiro quanto o do futebol estão relacionados a um importante quadro de
risco, que se reflete, muitas vezes, no grau de proximidade entre o indivíduo e a religião.
Não se deve limitar, porém, a religiosidade à pressão social e/ou profissional, uma vez
que a família ou companheiro desempenham papéis importantes na adoção religiosa dos
entrevistados; esse fato evidencia aproximação face à religião,364 bem como sua
incorporação ao cotidiano dos indivíduos. A vivência da religião não é, por sua vez, a
mesma em cada pessoa, variando em intensidade. Percebemos variações na freqüência
às celebrações de sua crença, com dois dos entrevistados que disseram pertencer a uma
determinada religião, ressaltando, porém, sua distância das cerimônias de caráter
institucional. Em outras palavras, pode-se dizer que a “vivência do transcendente” tem
caráter pessoal, ou seja, ela é exercida com liberdade pelos indivíduos: uns vivenciam
individualmente (a partir de regras de seu foro íntimo), outros seguem determinados
preceitos de sua religião e outros, por fim, buscam uma maior proximidade em relação a
líderes espirituais ou à religiosidade institucionalizada.
À questão: “Qual a relação que você vê entre futebol e religião? Se não vê esta
relação, informe por quê?” os entrevistados respondem, de modo categórico, que entre
esses dois fenômenos há uma relação estreita, pois até os que se mostram mais céticos
observam que ela é sempre presenciada nos envolvimentos do futebol, o que também
nos leva a postular a seguinte pergunta: existe futebol sem manifestação religiosa neste
país? Com base em informações que serão apresentadas mais adiante, poderemos tecer
considerações a esse respeito.
“Como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com o grupo?” As
respostas a essa pergunta evidenciaram o fator positivo da religião em relação ao
indivíduo e ao grupo, uma vez que ela pode servir de apoio pessoal e institucional. Ela faz
frente às pressões sociais potencialmente geradoras de desequilíbrio psíquico365 e, no
364
365
Que não é necessariamente um chamado, mas uma apresentação recebida com entusiasmo.
Cf. CRUZ, E.R. A persistência dos deuses: religião cultura e natureza, op. cit., p. 54.
209
caso específico das equipes de futebol, serve como fator de coesão/tranqüilização em um
ambiente marcado pela precariedade e pela competitividade extrema. As respostas que
obtivemos podem ser comprovadas por essa citação.
Todos mencionaram que suas equipes possuem rituais prévios à entrada em campo
(em jogos e não nos treinamentos); apenas dois dos entrevistados informaram delas não
participar. Resta a pergunta: acabariam, tais indivíduos, segredados em algum grau pelo
restante da equipe? Os rituais são a observância escrupulosa de certos gestos e
palavras, individuais e coletivos, cujo sentido imediato não captamos, mas que são
necessários para que estabeleça uma conexão entre o nosso mundo (por vezes chamado
“Profano”) e um outro (no caso, chamado “Sagrado”) que guia nossos destinos. Ao serem
realizados, os rituais remetem-nos à origem das coisas, para além de qualquer passado,
para aquilo que ajuda a constituir a identidade de um grupo e que não pode ser
esquecido. Os rituais são também formas de súplica, expiação da culpa e agradecimento
face ao que é mais poderoso que nós. Por fim, os rituais sugerem a possibilidade de um
repouso seguro e definitivo, diante das incertezas e agruras da existência.366
“Você se lembra de algum jogo seu que foi decidido por meio de alguma força
sobrenatural, que você atribua a Deus?” Nas respostas dadas a essa questão pudemos
detectar uma possibilidade significativa de crença na intervenção divina no desfecho de
partidas de futebol. Há que se perguntar, porém, qual é a distinção entre religião e magia,
na medida em que esta também lida com entidades e forças ocultas e poderosas. No
passado, o discurso científico estabeleceu limites rígidos a respeito: enquanto “religião” se
referia a um contato benigno e reverente com o sobrenatural, “magia” era identificada com
a manipulação mal-intencionada e supersticiosa de “forças perversas”, funcionando,
muitas vezes, a partir de um princípio de ataque e contra-ataque. Hoje essas fronteiras
não são tão nítidas.
Partindo da premissa de que a maioria das religiões supõe algum elemento de contato
com as “realidades últimas” por meio de símbolos, encantamentos e gestos, o fato é que
toda religião contém elementos mágicos: a oração, a súplica e o rito não deixam de ser
tentativas ou formas de intervir no curso dos acontecimentos. Mesmo as práticas de
cunho imanentista, como a meditação, os mantras e o esvaziamento das perturbações da
366
Ibid., pp. 32-33.
210
consciência não deixam de possuir resíduos mágicos: a administração, a nosso favor, de
uma força extra-sensorial e determinante no fluir da existência.367 Ou seja, no relato de
treze dos entrevistados, Deus - elemento central da maioria das religiões e, também, um
ente que pode ser motivado por meio de atitudes específicas do crente - tem uma
presença efetiva.
7.2.2 - Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
Questionados sobre o papel da religião como fator de reforço ao rendimento, todos os
entrevistados disseram acreditar nessa hipótese (o grau dessa crença, porém, variou
entre os participantes da pesquisa). Tais respostas nos levam a acreditar que a afiliação a
alguma religião pode ser o melhor e mais poderoso remédio contra todo tipo de doenças,
desde a simples ansiedade ou insônia até graves problemas cardíacos ou o câncer.
Modernos estudos científicos têm demonstrado que pessoas que vivem em comunidades
religiosas levam uma vida mais saudável que as demais, e que acreditar em Deus faz
bem à saúde. Pessoas com princípios religiosos costumam beber e fumar menos do que
as demais – elas possuem uma vida mais “regrada”, mesmo por força de um controle
atribuído à divindade ou a seus pares. Além disso, a participação em reuniões coletivas e
o compartilhamento de temores, dúvidas e ansiedades ajuda a descarregar as tensões.
As pessoas religiosas sofrem menos dores crônicas, insônia, ansiedade, depressão,
infertilidade ou problemas cardíacos.368
O papel da “palavra de Deus” foi considerado relevante para o sucesso da equipe.
Pudemos observar uma tendência à aproximação de Deus nos momentos de dúvida,
pavor, temor, pânico ou abandono, bem como nos de comemorações de conquistas e
mesmo nos de resignação pela derrota. “Chegamos, graças a Deus” – essa será,
provavelmente, a primeira frase do nosso primeiro navegante espacial ao chegar a outro
planeta habitado, estabelecendo os “contatos imediatos” com outros seres do Universo.
No entanto, se no percurso da viagem houver um problema potencialmente fatal na nave,
a última frase da tripulação provavelmente será: “Deus, ajude-nos, por favor”.369 Na “nave
futebol” as coisas não são muito diferentes: Deus “está lá”, generoso e brilhante nas
vitórias, arcano e pedagógico nas derrotas. Ele, porém, nunca, “pipoca” na hora do jogo.
367
Ibid, pp. 31-32.
Cf. ESKIN, P. A medicina na bíblia. São Paulo: MEDSI, 2003, 360 p., p. 47.
369
Ibid, p. 62.
368
211
Questionados sobre se a fé implica em um índice maior de acertos em campo, houve
uma tendência em dizer que “fé” e “treinamento” ajudam e que também é preciso
substituir a palavra “fé” por “confiança”. Na relação “fé” e “treinamento”, podemos dizer
que, enquanto o treinamento preconiza uma melhora direta no rendimento específico do
atleta, a fé transcende e vai em direção a outros elementos essenciais. Dentro desse
contexto podemos entender que a fé é inseparável do atleta, pois se constitui em atributo
essencial à sua existência. Pela própria natureza, ela está intimamente ligada à realidade
psicológica do ser que crê, pois envolve sentimentos, emoções, vontades, desejos,
atitudes e demais aspectos da personalidade. Em relação à troca da palavra “fé” por
“confiança”, podemos dizer que a fé dá aos homens segurança psicológica e outorga um
sentido à vida, visto que é a única arma (ou, pelo menos, a mais acessível) contra a
angústia intrínseca à existência.370 A convicção de que existe algo Maior, com que
podemos contar, é um refrigério de primeira grandeza.371
A participação em cerimônias religiosas (“missa”) não é considerada um fator
propiciatório para a convocação à seleção brasileira: segundo dezoito entrevistados, o
atleta só “chega lá” se estiver devidamente preparado, fato que mostra a crença na
capacidade individual como motor para a convocação à seleção. Ou seja, na hora da
convocação, participar de missas, cerimônias ou cultos religiosos, se mostra de pouco
valor: Deus não está no templo, mas no empenho durante os treinamentos, literalmente
na “ponta da chuteira”; além de trazer a marca de “veículo de Deus”, o corpo também
guarda uma religiosidade interna que é, sim, um fator essencial à convocação para a
“Seleção Canarinho”.
Perguntados sobre se Deus “olha” por alguma torcida, as respostas também foram
variadas, com uma tendência maior à resposta “Deus olha por todos”. O que nos leva a
dizer, novamente, que nossos entrevistados percebem que Deus tem uma participação
efetiva em tudo, assim como Ele é elemento central da maioria das religiões e que é
responsável pela origem tudo e manutenção de todos – sem ser “pelego”, “pusilânime” ou
“vendido”.
370
Cf. ZIEGLER, J. La Victoria de los Vencidos, trad. De Manuel Serrat Crespo. Barcelona: Ediciones
B.S.A, 1988, 214 p., p. 128.
371
Cf. ESKIN, P. A medicina na bíblia, op. cit., p. 315.
212
Na questão referente ao clube estar acima de sua religião, a prioridade das respostas
foi de que deve haver equilíbrio entre as ações. Percebemos então que, para os
entrevistados, futebol e religião têm seus reais valores, e que um não sobressai em
relação ao outro. Eles se equiparam - segundo Cruz, o futebol provoca paixões e debates
acalorados. O objetivo, é claro, não é chegar a um consenso, mas prolongar o prazer de
se torcer por um time. Mesmo que ninguém consiga convencer o outro de que o juiz é ou
não ladrão, todos concordam que ele deve seguir as regras comuns que sejam
consideradas razoáveis e justas pelas partes em disputa. É aí que está o ponto
importante: há, ao redor da “ilha de discussões”, o “oceano das regras do jogo” que a
todos envolve. Sem esse vasto conjunto de crenças e ações compartilhadas, nenhuma
discussão valeria a pena. Guardadas as devidas proporções, o mesmo vale para a
política e para a religião. No caso desta, as “regras do jogo” são mais importantes e
comuns do que podemos imaginar.372
Sobre orações realizadas dentro de campo após uma derrota, a tendência foi salientar
que a essa prática é para “agradecer pela campanha” e também para a obtenção um
“conforto coletivo”. Assim, retomando ao quadro da página 208, podemos dizer que as
explicações religiosas tornam a morte – a derrota - mais suportável e que a religião alivia
a ansiedade e provê um mundo mais confortável. Enfim, as orações mostram muito mais
um papel de reforço de coesão grupal do que uma tentativa de superar a incompreensão
dos “misteriosos desígnios de Deus”.
Na questão referente à importância de receber apoio de líderes espirituais, as
respostas mais expressivas foram: “também é importante cuidar do lado espiritual” e “os
líderes religiosos dão orientação, pois têm mais conhecimento [da religião, de Deus] do
que nós”. Nesse sentido, o apoio dos líderes espirituais é importante, pois, do mesmo
modo que temos os profissionais que zelam pela saúde física e mental do ser humano
(profissionais da área da saúde como médicos, enfermeiros, educadores físicos,
psicólogos etc.), é preciso, também, que tenhamos os que cuidam do lado espiritual do
Homem (rabinos, padres, pastores, pais-de-santo, freiras, missionários, diáconos, crentes,
fiéis etc). Eles dedicam toda sua vida pela luta em favor da saúde física, mental e
espiritual de todos os seres humanos.373
372
373
Cf. CRUZ, E.R. A persistência dos deuses: religião cultura e natureza, op. cit., p. 11.
Cf. ESKIN, P. A medicina na bíblia, op. cit., p. 11.
213
7.2.3 - Vida, perspectivas e história
As respostas também foram diversas quanto à maior conquista em suas vidas, sendo
as mais evidentes: “minha família e ser atleta profissional” e “conhecer Jesus”. Diante a
questão da família, Giddens nos diz que, entre todas as mudanças que estão se dando no
mundo, nenhuma é mais importante do que aquelas que acontecem em nossas vidas
pessoais – na sexualidade, nos relacionamentos, no casamento e na família. Há uma
revolução global em curso no modo como pensamos sobre nós mesmos e no modo como
formamos laços e ligações com outros. É uma revolução que avança de maneira desigual
em diferentes regiões e culturas, encontrando muitas resistências.374 Mas, mesmo se
sabendo que existe uma crise global a respeito da família, ela continua sendo de grande
importância para os nossos entrevistados, como também há uma grande importância em
ser atleta profissional, pois pelos riscos e incertezas que vivemos hoje, o futebol acaba
sendo um mercado que, por mais que seja muito competitivo, pode deixar seus
participantes estabilizados economicamente.
Quanto à maior conquista ser “conhecer Jesus”, evidencia-se, outra vez, a presença
marcante da religião na vida de nossos entrevistados. Vale observar, porém, que essa foi
a resposta dada por cinco dos sete evangélicos neopentecostais375 que responderam à
nossas questões.
Sobre a maior derrota, as respostas revelaram um grande otimismo – demonstrado,
pelo menos, em nível de auto-representação – dos entrevistados. Como exemplo de
respostas, podemos indicar: “não tenho [derrotas], pois de tudo tiramos algo de bom” e
também “não tenho, pois Deus sempre nos prepara algo melhor”. Essas respostas
também mostram uma resposta passiva e fatalista em relação a Deus, que se mostra
artífice de “caminhos” nem sempre claros para os crentes.
374
Cf. GIDDENS, A., Mundo em descontrole..., op. cit., p. 61.
O teólogo luterano neopentecostal Richard A. Jensen explica que a palavra “pentecostal”, nessa definição,
refere-se ao fato de que muitas das experiências que são centrais a esse movimento, como, p. ex. a glossolalia,
são igualmente assuntos centrais nas igrejas pentecostais clássicas. O prefixo “neo”, que significa novo, é
empregado para indicar que o que está sendo descrito não é a igreja pentecostal, mas cristãos em igrejas
protestantes e católicas que partilham muitas experiências igualmente vivenciadas por seus irmãos e irmãs
pentecostais. Cf. SCHULER, A. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas/RS: ULBRA, 2002, 512 p. p.
329.
375
214
A Bíblia é o livro de cabeceira de oito dos entrevistados. Para essas pessoas, a obra
mostra exemplos de que é essencial que a vida esteja associada à fé e à confiança em
Deus.376 A Bíblia não é apenas um livro para o indivíduo ler na busca de paz espiritual,
mas também um inspirador de confiança, otimismo e, mesmo, resignação diante das
atribulações.377
Dezenove dos entrevistados informaram praticar algum tipo de caridade, o que mostra
uma relação representativa com as obras, sejam elas religiosas ou não. A caridade pode
estar relacionada tanto a um desejo de retribuição (muitos atletas nasceram em
ambientes economicamente comprometidos) quanto à percepção do papel social do
indivíduo face à sociedade (os dois elementos também podem aparecer juntos). O
Cristianismo, que ressalta o papel da compaixão e da fraternidade, pode, com efeito, estar
relacionado à opção pela caridade. Não se pode esquecer, porém, a hipótese de
investimento em marketing pessoal, associado, por exemplo, a pretensões políticas
futuras.
Todos os entrevistados têm alguma história interessante relacionada ao aspecto
religioso no futebol, fato que também mostra que, para eles, há uma relação importante
entre futebol e religião.
Sobre o término de suas carreiras, pudemos perceber que os integrantes de comissão
técnicas e os atletas têm consciência da profissão que exercem e que ela é o sonho de
muitos, mas a realidade de poucos. Eles sabem do valor que é dado a quem trabalha com
o futebol de alto nível e dos riscos que correm se saírem desse meio, pois o que restaria
seria o desemprego ou empregos “tradicionais” do meio futebolístico, em times médios ou
pequenos. Para eles, o trabalho no futebol é um modo privilegiado da expressão do Eu
dentro da sociedade. Por isso, talvez, a maioria dos entrevistados pretenda continuar
trabalhando com futebol profissional sem previsão ou vontade de sair desse segmento.
376
377
Cf. ESKIN, P. A medicina na bíblia, op. cit., p. 148.
Ibid, p. 347.
215
7.3 – Os integrantes de Comissão Técnica
7.3.1 – Religiosidade Pessoal
Todos os integrantes de comissão técnica entrevistados pertencem a alguma religião.
Um dado a ressaltar é que apenas dois deles foram convertidos/apresentados a uma
religião por companheiros, como é o caso de V.N.: “Em 1996, quando ainda era jogador
de futebol, fui levado por um amigo ao centro espírita e me senti bem”.
M.A., por sua vez, nos disse: “[Minha religião decorre da] Composição familiar.
Sou católico desde o nascimento”.
Interessante observar que os dois (do total de sete) integrantes de comissão técnica
que informaram ter se convertido ou “apresentados à religião” em idade mais avançada
foram jogadores de futebol. Para eles, houve transformações na vida religiosa quando
eram atletas; os demais permaneceram na religião que herdaram da família. Verificamos
que eles não freqüentam as celebrações com regularidade, que possuem uma crença,
mas não seguem as “regras” da instituição religião. C.M. nos relatou: “Tempo existe, mas
só dedicamos à religião quando mais precisamos. Então, freqüento uma vez a cada 15
dias ou uma vez por mês. Não sou muito freqüente em minhas visitas”.
Tal citação pode refletir que, nos momentos mais difíceis, nas situações de risco, há
busca no conforto sobrenatural, há o apelo à religião – pode-se dizer, pois, que essa
religiosidade assume um aspecto instrumental.
A relação futebol e religião pode ser presenciada nas duas colocações a seguir, onde
evidenciamos que, por mais que não exista na visão dos entrevistados uma ligação direta
futebol x religião, no mínimo, indiretamente esses dois fenômenos se conectam. C.M.
relata:
Não vejo nenhuma relação. O que eu vejo são pessoas, atletas que se dedicam à uma
religião. Hoje em dia existem muitos atletas voltados ao lado das religiões evangélicas,
mas não que exista uma religião, seria mais uma “muleta” para que ele venha obter
sucesso dentro da profissão do que em relação ao próprio futebol.
216
A.A. informa:
Minha resposta pessoal é que não há relação, mas não posso negar que os atletas
religiosos cometem menos exageros e, para o atleta, isso é bom, pois se afastam das
drogas, bebidas etc. Mas não pode direcionar tudo que acontece no campo à vontade de
Deus. Se não treinar, não tem resultado.
Na questão referente a como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com
o grupo, podemos dizer que a ela se ramifica em dois segmentos: pessoalmente, sempre
de forma positiva; no âmbito do grupo, com restrições. M.A., por exemplo, relatou:
Na minha vida ela interfere positivamente. Nos momentos de fraqueza, de
agradecimento, eu tenho necessidade de apoiar em minha fé. Em relação ao grupo, eu
procuro isolá-la. Não tem nada a ver ficar falando de minha crença para as outras
pessoas.
A.A. nos disse:
Ela ajuda a ter boa fé, ensina os ensinamentos de Deus, ter boa conduta, a sempre
ajudar os outros. No grupo, depende da personalidade dos indivíduos que o compõe, do
nível cultural, das experiências vividas. Assim, ela pode ajudar e atrapalhar.
A realização de rituais propiciatórios e/ou de proteção é predominante. O que nos leva
a deduzir que, seja em situações concretas, como mal-estar no grupo, ou situações
imprevisíveis - como a ansiedade do que pode ocorrer em uma partida - algum ritual é
realizado. M.A. nos diz:
Eu faço uma oração! Durante o próprio jogo eu peço proteção. Às vezes eu fantasio,
sonho um pouco [com] um resultado positivo. Embora saiba que não possa misturar
isso, mas agente acaba por fé pedindo alguma coisa. É assim.
S.R. relata: “Nós rezamos antes de entrar na partida. Não é isolado, é no grupo”.
Houve predominância também em dizer que é rezado o “Pai Nosso” e a “Ave Maria”
como um ritual “global”. Diante disso, C.M. faz um relato interessante:
Como toda equipe de futebol, nossa equipe realiza um ritual antes, e após o jogo
também. Existe o ritual de se abraçarem e rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, mas de um
tempo para cá, eu notei que os atletas que freqüentam igrejas evangélicas não rezam a
Ave Maria. Todos rezam o Pai Nosso e, na hora de rezar a Ave Maria, só os católicos
rezam. Os evangélicos fazem outro tipo de oração que não dá para entender porque fica
tudo misturado.
217
Na questão referente à possibilidade de algum jogo de que participaram ter sido
decidido com auxílio de uma força divina, a principal tendência foi em dizer que não
se lembravam de tal ocorrido. Nesse sentido, para os integrantes de comissão
técnica, o trabalho, o treinamento é de muita importância. Como relata a seguir S.R.:
Eu tenho uma convicção que em todas as equipes, que entre todos os atletas, sempre
vai haver um rezando, orando, seja como for, para ganhar o jogo. Eu não acredito que
Deus se preocupe com este tipo de coisa. Se existe alguma preocupação superior, não
seria com uma partida de futebol. Futebol se ganha em campo e eu não atribuo nada
fora de campo à vitória ou derrota de uma equipe.
7.3.2 – Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
Na questão: Você acha que a religião é um fator a mais para a melhora de
rendimento? Ela ajuda no equilíbrio? Todos acreditam que a religião ajuda na
promoção/manutenção do equilíbrio. O fato transparece nas respostas dos integrantes de
comissão técnica: segundo eles, porém, a influência se reflete na melhora individual, não
se estendendo ao coletivo. Mas o grupo não é composto de vários indivíduos que, quando
estão bem, podem ajudar a todos? C.M. relatou:
Religião ajuda no equilíbrio! Independente de qualquer que seja a religião ela ajuda no
equilíbrio, mas atribuir vitórias ou derrotas eu acho isso uma coisa boba, que somente
pessoas pouco esclarecidas podem atribuir isto a Deus. O que tem que ser feito é o
trabalho diário, treinamento e planejamento. Assim você pode conseguir vitórias. O
importante é que a pessoa que freqüenta algum tipo de igreja tenha equilíbrio,
principalmente para não ser expulsa em jogos, para ela se concentrar melhor.
S.R. opinou:
Se a pessoa acredita e tem fé, ela ajuda e muito. É como um doente que está na cama
de um hospital. (Eu acho que isso é até provado cientificamente), se ele acreditar, se ele
tem fé em alguma coisa, ele vai ter um melhor desempenho. Na vida da gente é assim.
Quando nós temos algum medo, alguma convicção ou qualquer problema, não se
apegamos a Deus ou à religião para que as coisas de mal não aconteçam com você? E
isso é de grande importância para o atleta de futebol.
Sobre a relação entre a palavra de Deus e o sucesso da equipe, a resposta que
prevalece é a da importância da união dos fatores “Palavra de Deus” x “Treinamento”. Em
outras palavras, vale o ditado popular: “Deus ajuda a quem se ajuda”. A palavra de Deus
seria um fator a mais para a melhora de desempenho, colaborando com os
218
desempenhos: físico, tático, técnico e emocional, mas não mais importante que eles. M.A.
nos relatou:
[influência] Nenhuma! Acho que isso é uma maneira de envolver o grupo, de criar
religiosidade, mas eu não vejo diferença entre atletas religiosos e outros. Já vi atletas de
mal comportamento serem campeões e já vi atletas exemplares perderem. A religião não
ganha e não perde. Ela não está no resultado de um jogo. Quem diz isso faz uma
falácia, é uma forma de iludir as pessoas e eu não acredito nisso. A religião pode ajudar
em outras coisas na vida do atleta.
Sobre a questão referente à possibilidade de se verificar um índice maior de acerto
entre os profissionais que têm fé, podemos dizer novamente que, na opinião dos
integrantes de comissão técnica, o trabalho, o treinamento é muito importante, como nos
relata S.R.:
Em partes! Porque se você tiver confiança em você, não é preciso acreditar em nada.
Tem muita gente que é ateu, mas confia nele mesmo e acabou. Vai lá e bate! A religião,
a fé, atua como forma de ajuda. Um atleta que trabalha, que treina, tem mais chances de
acertar. Confiança é uma coisa. Acreditar em Deus é outra coisa.
Na relação “ir à missa” x “convocação para a seleção”: a relevância do trabalho do dia
a dia é valorizada novamente, como cita A.A.:
Foi convocado porque sempre teve bom desempenho. Apareceu a oportunidade e foi
convocado e, se outro atleta tivesse ido rezar com ele naquele momento, com certeza
não seria convocado.
C.M. emite sua opinião:
Ele foi convocado porque o atleta que estava na seleção se machucou e ele era o
primeiro da lista. Se ele estivesse na casa dele dormindo, iria ser convocado do mesmo
jeito.
Perguntados sobre se Deus “olha” por alguma torcida, é percebida com certa
evidência a resposta “Deus olha por todos”, sendo que, se Deus olha por todos, o que faz
a diferença é quem melhor trabalha, treina e aproveita melhor as oportunidades, seja
atleta ou não. Mas não é descartado o papel significativo das torcidas. A esse respeito,
M.A. nos disse:
As pessoas têm direito de criar as imagens que quiserem. Alguém diz que Deus olhou
aquela torcida; outros podem dizer que o torcedor foi uma energia positiva para os
atletas em campo, e isso é muito verdadeiro. A energia que a torcida do Corinthians
219
passou no Maracanã, contra o Fluminense, em 1976, foi mais importante que tudo.
Aquela energia foi uma comunhão de pessoas e, quando há uma comunhão de pessoas
por um objetivo, ele acontece. Não me pergunte se isso é Deus, Religião, saúde, ou
qualquer coisa. Isso é um fato que acontece e é positivo.
V.M. opina:
A torcida é contagiante e passa energia positiva para o jogador de futebol. Quando se
pensa positivo, as chances das coisas acontecerem são mais fáceis. Mas Ruço quis
saudar a torcida com a frase “Deus olhou esta torcida”, pois Deus olha por todos.
“Deve haver equilíbrio entre as ações no futebol ou fora dele” foi a resposta que
prevaleceu quando indagados sobre se o clube pode estar acima de sua religião, seja no
âmbito do futebol profissional ou fora dele, situação que mostra a equivalência das
instituições, percebida, como por exemplo, na declaração de M.A.:
Pode! Porque se a pessoa não tem religião, seu clube está acima disso; se a pessoa
não tem família, o clube está acima disso. Qualquer coisa que você foque como
importante em sua vida está acima das outras. Não importa se o sujeito tem religião ou
não e ache que o clube é mais importante. Ele optou por aquilo! Não vejo nenhum
castigo na pessoa não ter religião. Muitas vezes ele tem confiança, fé. Se ele é solidário;
se ele ajuda as pessoas, ele tem religião, mas não sabe disso, mas ele tem! O fato de
você ser uma pessoa boa, compreensiva, em outras palavras, é praticar religião.
Conceituar as coisas é que é difícil. Não dá para você ficar situando e definindo
situações. O cidadão que nunca recebeu informação, por exemplo, um índio ou um
esquimó: que religião eles têm? Eles têm a alma que Deus deve ter dado a eles. Eles
praticam as coisas que descobriram. Ele vai descobrir a religião? Ele não sabe o que é
religião! Mas ele faz coisas boas e isso é religião.
Sobre as orações feitas no campo após uma derrota, fica evidente nas respostas
desses entrevistados um sentido de agradecimento pela campanha e também uma forma
de conforto, com significado amplo, pois a oração não foi restrita ao grupo; todos que
acompanhavam pelos meios de comunicação o jogo, presenciaram o fato. C.M. nos disse:
Como pessoa envolvida no futebol, foi comum. Eles não queriam mostrar para todos. O
problema é que a oração foi feita dentro de campo e a imprensa mostrou para todos.
Não concordo com eles terem rezado em campo. Tem que ser particular. Não tinha que
se feito ali, o agradecimento tinha que ser feito no vestiário.
M.A. opina: “Um conforto coletivo! Apenas isso! Juntaram-se ali para dizer “Ó!
Estamos juntos! Perdemos, mas foi tudo bem”. Foi um conforto coletivo!”.
Observa-se, pois, que a oração/reza feita publicamente após uma derrota também
sinaliza para a manutenção da coesão grupal (em princípio, se todos rezam juntos, é
220
porque o perdão é grupal, não há uns mais culpados do que outros). Fica uma questão –
de foro íntimo dos entrevistados - em aberto: será que, em silêncio, muitos dos derrotados
não rezam pedindo para se manter na equipe?
Receber o apoio de um líder espiritual é importante? Novamente nesta questão
evidencia-se a importância de receber “conforto”, principalmente pelo papel pontifical dos
líderes religiosos, que traz paz e conforto. Como nos diz C.M.:
É importante, desde que seja democrático. Todos têm que ouvir todos, assim, não divide
o grupo, não se formam “panelas” e são esclarecidas algumas questões individuais, mas
que colaboram coletivamente.
V.M. opina: “Não dá para provar que os líderes espirituais tragam algum benefício,
mas, às vezes, trazem um conforto imediato”.
7.3.3 – Vida, perspectivas e história
Sobre a maior conquista em suas vidas, as respostas variaram entre a importância da
família - esposas, filhos ou parentes mais próximos – e a significância de estar atuando no
ambiente do futebol profissional. Sobre a maior derrota, percebemos também a presença
da família e do futebol. A família diz respeito a algumas perdas, seja por falecimento de
parentes ou separação de casais. O futebol diz a respeito ao medo de afastamento da
atividade, pois a representação é de que se trata de um meio altamente dignificante. Mas
a resposta que mais ouvimos foi “Não tenho [derrota], pois de tudo tiramos algo de bom”.
Resposta que parece mostrar certa maturidade em relação à vida, onde um dia ganhamos
e outro perdemos; da mesma forma, pode mostrar uma demasiada confiança no “Criador”
e em seus muitas vezes estranhos (para os seres humanos) desígnios.
Houve uma variação muito grande nas respostas a respeito de qual era o livro de
cabeceira do entrevistado; não existiu uma tendência para determinada linha de leitura.
Todos lêem o que está ao alcance e o que é de seu interesse no momento,
demonstrando, assim, que não há dependência de uma leitura regular. Lêem,
basicamente, para se informar.
221
A caridade faz parte da vida dos entrevistados, mas, como já foi citado, não sabemos
a motivação desses atos.378 Sabemos, sim, da importância que os integrantes de
comissão técnica - técnico, preparador físico, médico ou supervisor de futebol - dão a sua
profissão, pois todos, em nenhum momento, manifestam o desejo de deixar este
segmento profissional. Poderíamos afirmar também, levando em conta a questão “Você
tem alguma história interessante relacionada ao aspecto religioso no futebol?”, que, entre
religião e futebol, a relação é significante, como nos relata A.A.:
Não vou citar nomes, pois muitos atletas daquela final (...) ainda atuam. Na descida para
o vestiário, depois da derrota nos pênaltis, um atleta disse “perdemos porque foi vontade
de Deus”. Era um atleta religioso e, outro atleta, que não era religioso, partiu para briga.
Foi constrangedor. Por isso eu digo que não pode atribuir o resultado a Deus, mas ao
treinamento. (...) Alguns atletas falam que são religiosos, mas em um momento de
dificuldade, esquecem da palavra de Deus e os ensinamentos da Bíblia. Muitos atletas
religiosos também brigam. São religiosos até pisarem sem seu calo.
E também C.M.:
Aconteceu com um atleta que jogava no (...) Antigamente os atletas molhavam a camisa
com éter para jogar, talvez para dilatar o nariz ou melhora de rendimento. Existiam as
velas acesas ao lado de nossa Senhora Aparecida, no vestiário. Ao fazer a oração perto,
a vela caiu na camisa dele e acabou pegando fogo, causando quase um sério acidente.
(...) Havia também um técnico que pedia para o roupeiro jogar sal grosso dentro da
chuteira na véspera do jogo. E o roupeiro falava que aquilo não atrapalhava só ele, pois
perdia tempo com algo que ele não acreditava, mas também os atletas, pois o sal
grosso, por ser em pedrinhas, acabava atrapalhando o jogador, chegando até cortar o pé
de alguns atletas.
7.4 – Os atletas
7.4.1 - Religiosidade Pessoal
Como já observamos, todos os atletas entrevistados pertencem a alguma religião. Um
importante elemento constatado se refere ao número de evangélicos entre os
participantes da pesquisa, que superou os de católicos e espíritas. Ainda que o Censo de
2000 (IBGE) tenha constatado o crescimento significativo da população evangélica (e de
adeptos de outras alternativas) em nosso país,379 o Brasil permanece um país de maioria
católica. Que fatores poderiam influenciar a “balança religiosa” entre os atletas
entrevistados? A resposta de M.S. pode lançar alguma luz sobre a questão: “Quando
378
379
Ver página 215, segundo parágrafo.
Cf. CRUZ, E.R. A persistência dos deuses: religião cultura e natureza, op. cit., p. 15.
222
cheguei em São Paulo estava meio deslocado. Então eu conheci a família do (...). Eles
freqüentavam a igreja Renascer e me levaram para lá. Eu gostei, me adaptei e estou lá
até hoje”.
A situação relatada por M.S. pode ser reforçada pela citação abaixo, que nos mostra
algumas indicações do motivo das transformações que ocorrem no perfil religioso do
brasileiro:
O aumento mais significativo, tanto em temos percentuais como em termos de número
de aderentes, é certamente dos evangélicos, em particular dos pentecostais. Um das
razões disso é que, em tempos de crise, as religiões de entusiasmo tornam-se mais
atraentes. Mas há outros motivos igualmente fortes. Seja pelo fato da tradição contar
menos, seja pela diminuição do ritmo de crescimento populacional do Brasil, esse
aumento se deve principalmente às conversões.380
Mas, mesmo havendo conversões ou apresentação a uma religião por um
companheiro de equipe, a religião dos pais e avós mostra-se um fator importante na
escolha por parte dos entrevistados. W.S., por exemplo, relatou: “Minha família era
evangélica e eu prossegui”; a mesma resposta, mas referida a uma religião diferente, foi
dada por M.F.: “Meus pais eram católicos e eu herdei deles essa crença.”
Todos atletas disseram freqüentar as celebrações de sua religião. Isso nos mostra o
peso
institucional
da
religião
para
esses
entrevistados.
Eles
freqüentam
os
cultos/missas/reuniões, no momento que estão ausentes de jogos, concentrações, entre
outras atividades integradas ao meio futebolístico. M.S., por exemplo, nos disse:
“Freqüento sempre que posso. Vou de terça, quinta e domingo, mas depende de quando
tem concentração e jogo aqui no (...)”. Um dado significativo observado é da relação
prestigiosa entre futebol e religião – todos os atletas informaram não ser possível
desvincular a religião do futebol. Percebemos que a crença confere uma certa estrutura
para o atleta suportar a pressão do dia-a-dia e para lidar com situações que fogem ao
controle pessoal (como lesões físicas, por exemplo). R.T. nos relatou: “Deus nos ajuda a
ter força, superação, espírito guerreiro e nos tirar de lesões. Pedimos a Deus para não
sairmos machucados das partidas. Esta é a relação que vejo com Deus, entre religião e
futebol”. W.S., por sua vez, nos disse: “Futebol e religião tem tudo a ver. Há situações no
jogo, na vida do atleta que você precisa pedir a Deus que lhe de livramentos, pois nem
380
Ibid., p. 21.
223
todos entram com a cabeça no jogo. Muitos entram para dar pancada. Então religião e
futebol têm tudo a ver”.
Sobre como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com o grupo, todos
afirmaram que a interferência é positiva: “de forma séria” foi a resposta que mais ouvimos.
Nesse sentido, podemos salientar novamente o vínculo expressivo entre futebol e religião,
como os presenciados nas declarações de R.J.: “Sou muito fiel quando sigo uma tradição
ou uma religião. Procuro passar para o grupo os ensinamentos e aprendizados de minha
religião para o amadurecimento de todos, principalmente dos mais jovens”. E também na
de W.S.: “Ela dá mais tranqüilidade para lidar com as coisas. O aprendizado que temos
da religião é possível passar para os companheiros, para que eles possam ter a mesma
conduta que nós evangélicos temos”.
A aderência, a realização de rituais antes de entrar em um jogo é uma regra, uma
tradição em todas as equipes e, principalmente, entre os atletas. Particularmente, na
oração pessoal, o que eles pedem é o seguinte, como relata W.S.: “Peço proteção de
Deus. Peço livramento. Peço que Deus me abençoe para que eu possa fazer um bom
jogo”. R.J. nos disse: “Acendo velas. Peço proteção para nós e para os adversários”.
Nos rituais religiosos realizados coletivamente, nas orações feitas pelo grupo - em que
se sobressaem o “Pai Nosso” e a “Ave Maria” – evidencia-se o apelo ao sobrenatural nos
momentos que antecedem a “batalha”. R.J. nos disse: “Rezamos o Pai Nosso e a Ave
Maria. Há uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que também levam em todos os
jogos, independente se é no Brasil ou no exterior. O roupeiro sempre leva a imagem junto
com a gente. É necessário fazer esses rituais”. M.F. relatou: “Rezamos o Pai Nosso e a
Ave Maria. Fazemos uma corrente e rezamos pedindo para que saia tudo bem para nós e
para o adversário. Nós não sabemos o que pode acontecer e por isso pedimos proteção”.
Na questão referente ao fato de lembrarem se algum jogo de que participaram havia
sido decidido por meio de alguma força sobrenatural (atribuída a Deus), a predominância
foi da resposta “sim”. O que nos leva a deduzir que a participação de Deus na vida do
atleta é efetiva. O divino acompanha o atleta em todos os seus momentos. R.T. nos disse:
Sim, foi em 2001. Jogava pelo juvenil do (...) e foi contra a Ponte Preta, lá em Sumaré.
Nós estávamos perdendo por 2x1 e esse resultado nos classificaria, mas o treinador não
224
falou do regulamento para nós e, dentro de campo, pensávamos que estaríamos fora.
Eu e um companheiro pedimos a ajuda do Senhor. Oramos em campo e depois de dois
minutos marcamos um gol e conseguimos a classificação.
W.S. nos relatou: “Foi em 2003 contra o Guarani. Nós jogávamos por um empate e no
final do jogo estava dando câimbras em minhas duas pernas. Coisa inacreditável. Eu
consegui buscar força em Deus e nós vencemos”.
7.4.2 - Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
Na questão “Você acha que a religião é um fator a mais para a melhora de
rendimento? Ela ajuda no equilíbrio?” prevaleceu a resposta de que ela ajuda nos dois
fatores. Isso significa que, para o atleta, algumas das funções da religião colaboram com
outros desempenhos: o físico, tático, técnico e emocional. Sobre isso, R.J. nos disse:
Ela dá equilíbrio. Quando você está bem espiritualmente, quando você está protegido é
porque você acredita nisso. Porque no futebol há muita inveja, muito olho gordo, pois
estamos onde 90% da população gostaria de estar. Tem que estar se cuidando porque a
inveja é muito grande e qualquer ato impensado pode acarretar um problema muito sério
e, estando bem espiritualmente, estas coisas diminuem.
M.F. relata: “Ela ajuda no rendimento e no equilíbrio. No futebol hoje você é um rei,
mas amanhã você não sabe o que vai ser. Deus é fundamental”.
Sobre a relação entre a palavra de Deus e o sucesso da equipe, a resposta mais
comum foi a de que a palavra de Deus e o treinamento são importantes. Nesse sentido,
podemos dizer que para nossos entrevistados não adianta treinar sem rezar e vice-versa.
Um fator completa o outro, como relata R.J.:
Todos têm que acreditar em alguma coisa. Deus é um só! Todas as religiões buscam o
mesmo sentido de, no final, ir ao encontro de Deus. Então, tudo o que fizer é válido e
nada melhor do que atribuir as vitórias e também as derrotas à Deus, pois faz parte de
sua vida no contexto geral.
M.S. opinou: “O Senhor honra a quem honra Ele!” (sic)
Na questão relativa ao peso da fé no índice de sucesso em campo, as respostas
mostraram que tanto o treinamento quanto a fé são tidos como fundamentais. No
momento de cobrar um pênalti, então, vale tanto a precisão oriunda do treinamento
225
quanto uma “ajudinha” de Deus. A esse respeito, W.S. opinou: “Ele tem razão. Você tendo
fé, você acerta! Não adianta cobrar um pênalti com dúvida. O evangélico nunca tem
dúvida! Ela vai com aquela certeza. Então, hoje em dia a tranqüilidade e a certeza são
muito importantes do futebol”. M.F., por sua vez, nos disse: “Acho que tem. Não adianta
só estar bem fisicamente. Tem que estar bem espiritualmente, pois no momento do
pênalti, tem que pensar positivo e ter firmeza”.
A relação “ir à missa” x “convocação para a seleção” não foi vista como de grande
importância pelos atletas. Segundo eles, não basta ser “carola” para chegar à seleção.
Deus não está no templo, mas está no empenho durante os treinamentos e os jogos. M.F.
relatou: “Não foi convocado porque foi rezar. Foi convocado porque sempre acreditou nele
e pensou positivo”. R.T. opinou: “Foi coincidência ele receber a notícia após sair da missa.
Ele trabalhou para isso”.
Perguntados sobre se Deus olha por alguma torcida, a resposta mais evidente foi:
“Deus olha por todos”. Se essa influência, pois, é geral, o diferencial se estabelece por
meio do trabalho e do aproveitamento das oportunidades. Deus olha por todos,
principalmente pelos que seguem a ética da religião. A esse respeito, W.S. nos disse:
Deus olha para quem anda em seu caminho e para quem faz as coisas tudo direito.
Quando a gente entra em campo, não adianta a gente pedir a Deus a vitória. Nós temos
que pedir a Deus não só abençoar a gente, mas também a equipe adversária. Vai
ganhar aquele que tiver mais disposição, principalmente se tiver fé em Deus e, quem
tem Deus no coração, sempre tem a maior chance de sair vitorioso.
R.T. opinou: “Deus não olha só para uma torcida. Ele olha por todas. Seja qual for o
clube. Deus olha por todos”.
Indagados sobre o clube poder estar acima de sua religião, as respostas mais
observadas foram “Deus tem que estar sempre em primeiro plano” e “tem que haver um
equilíbrio nas ações”. Então, para alguns a figura de Deus é mais importante do que tudo;
para outros, clube e religião se equiparam, pois, em suas respostas, dizem que tem que
haver equilíbrio na forma de lidar com essas duas instituições. M.S. relatou: “Às vezes nós
colocamos muitas coisas à frente de Deus e deixamos Ele (sic) em outros planos. Deus
tem que estar em primeiro plano”.
226
R.J. nos disse:
O futebol é emocionante. É o esporte que eu sou apaixonado, mas não pode confundir
as coisas. Deus está acima de tudo, pois se as pessoas pensarem assim, até os que vão
aos estádios evitariam muitas confusões, brigas, desavenças e outras coisas que não há
necessidade. Temos que diferenciar emoção da razão.
Sobre as orações feitas em campo após uma derrota, ficou evidente nas respostas
dos atletas que elas se prestam ao agradecimento pela campanha e também como uma
forma de conforto de “amplo espectro”, servindo para pedir bênçãos a todos os que
acompanharam a disputa. Obtivemos relatos distintos sobre este assunto. M.S. nos disse:
“Esta oração foi uma grande benção. Uma grande demonstração que não é só nas
vitórias que devemos orar, mas nas derrotas também”. R.T. opinou: “Foi um momento de
agradecer pela campanha, pela participação na final, pelo bom momento vivido e pela
necessidade de conforto em uma situação delicada”.
Receber apoio de algum líder espiritual é importante? Também nesta questão
evidencia-se a importância de receber “conforto”. Os líderes religiosos têm maior
conhecimento das agruras dos fiéis e, também, possuem um contato diferenciado com
Deus. Como nos diz M.S.: “Precisamos de uma orientação, pois eles têm mais
conhecimento [da religião, de Deus] que nós, para orientar nossa vida de uma forma
correta”. R.T. relatou: “É importante um pastor orar pela gente, impor as mãos na gente e
pedir a proteção do Senhor, para que ele nos guarde, nos dê força para superar as
dificuldades, para superar os obstáculos que tem no futebol”.
7.4.3 - Vida, perspectivas e história
Sobre a maior conquista em suas vidas, as respostas circularam entre a importância
da família - esposas, filhos ou parentes próximos -, a significância de estar atuando no
ambiente do futebol profissional e “conhecer Jesus”. Respostas que mostram a validade a
que têm a família, a profissão381 e a figura de Jesus Cristo - apontado como o maior troféu
de suas trajetórias. Podemos perceber, então, que a religião é fundamental do ponto de
vista dos atletas. Ela não só complementa o todo, como interfere diretamente nas ações
diárias dos que com ela mantêm vínculo e, indiretamente, nos demais componentes do
381
Ver página 214, primeiro e segundo parágrafo.
227
grupo e outras pessoas mais próximas, seja no convívio de trabalho ou através dos meios
de comunicação. R.T. nos disse: “A minha maior conquista foi Deus ter me colocado aqui
no (...), pois é o time que toda minha família torce e é o clube que eu amo também. Foi
uma grande vitória que Deus deu para mim”. M.F. relatou: “Foi chegar ao
profissionalismo. Foi uma glória. Sempre acreditei que poderia chegar e cheguei”. M.S. foi
pragmático: “Conhecer Jesus”.
Sobre a maior derrota, percebemos também a família e o futebol presentes. Mas as
respostas que mais ouvimos foram “Não tenho, pois de tudo tiramos algo de bom” e “Não
tenho, pois Deus sempre nos prepara algo melhor”. Respostas que podem indicar
maturidade em relação à vida, onde um dia ganhamos e outro perdemos, assim como
uma aparentemente demasiada confiança no “Criador”. W.S. nos relatou: “Sempre fui
vitorioso! Nunca tive uma derrota que me deixasse frustrado. Porque eu sei que caso eu
não consiga algo, Deus nos está preparando outra coisa melhor”. R.J. nos contou: “Minha
maior derrota foi ser obrigado a deixar meus pais, minha casa muito cedo, para tentar a
vida no futebol, mas de tudo tiramos algo bom e hoje eu estou aqui”.
“A Bíblia” foi a resposta que mais ouvimos em relação a qual seria o livro de cabeceira
dos entrevistados. A presença dessa obra no cotidiano mostra que nela eles procuram
sentido para a vida e informações, lições e exemplos para desenvolver sentimentos de fé
e justiça, amor e fraternidade, verdade e fidelidade, paz e harmonia interior.
A caridade faz parte da vida dos entrevistados, mas, como já observado, não
sabemos a motivação desses atos.382 Sabemos, sim, da importância que os atletas dão à
sua profissão, pois poucos querem deixar esse segmento e tentar a vida em outras áreas,
principalmente por não terem oportunidade para tentar. A citação abaixo completa bem
essa situação:
Silas encerrou a carreira no ano passado e procurou saber o que costumava acontecer
com aqueles que paravam. Com a ajuda de uma organização americana, a GamesOver,
ligada à NFL, a Liga Nacional de Futebol Americano, levantou a situação de alguns exatletas, principalmente jogadores de futebol. Os números são assustadores. Entre os
cerca de 500 entrevistados, 65% não têm graduação escolar ou diploma em qualquer
área para poder encarar o mercado de trabalho. Cerca de 25% estão arruinados
financeiramente depois de um ano. O número dobra, 50%, após dois anos inativos. E o
mais alarmante: 78% estão, além de quebrados, divorciados e desempregados após
382
Ver página 215, segundo parágrafo.
228
dois anos de aposentadoria. “Nos EUA, onde os números caem consideravelmente, eles
têm um nível educacional formado antes da entrada no meio esportivo, fazem faculdade,
adquirem estrutura psicológica, social e financeira. Aqui, a maioria utiliza o futebol para
sair da pobreza”, salienta o ex-meia.383
Com base nas respostas à questão “Você tem alguma história interessante
relacionada ao aspecto religioso no futebol?”, podemos ressaltar que a relação entre
religião e futebol é significativa. R.T. nos relatou:
Por ser um jogador de defesa, de meio-campo, mais de marcação, que fica contenção,
eu nunca fui muito de fazer gols. Teve uma época que eu disse para mim: Eu preciso
fazer gol! Eu preciso fazer gol! Cheguei a pedir em orações, em orações para o Senhor.
Eu dizia: Senhor, eu preciso fazer um gol! Eu tenho que fazer um gol! E, em 2002, Ele
me fez o artilheiro do juvenil, mesmo jogando de zagueiro. Ele me fez o artilheiro do
juvenil do (...).
W.S nos disse: “Eu jogava no (...) de minha cidade e nós tínhamos um treinador que
antes do jogo costumava jogar sal grosso em cima das pessoas e, um jogador evangélico,
que iria ser atingido pelo sal, no momento da ação disse para o técnico: Você está
amarrado em nome de Jesus! Foi muito engraçado”.
R.J., também nos contou uma história interessante:
Quando eu estava desempregado – oito meses parado -, depois que eu tive problema
com uma (...) e fiquei oito meses sem clube, procurei uma ajuda espiritual. Eu fui a uma
senhora e ela me pediu para fazer algumas coisas e, se eu fizesse o que ela estava
pedindo, em sete dias estaria empregado novamente, estaria jogando. Eu não estava
desempregado, só não estava jogando, pois estava recebendo. Eu queria jogar! Eu fiz o
que ela passou para mim: alguns banhos, alguma coisa, mas não acreditando muito.
Acreditando que não iria dar certo. Eu duvidava da palavra dela. Como não tinha nada a
perder mesmo, pensei: tudo o que vier é para o lado bom. Tudo o que for para ajudar eu
faço. E, por incrível que pareça, depois de sete dias eu tinha assinado contrato com a
(...). Foi uma coisa que marcou demais a minha vida e, depois disso, que foi em 1999,
nunca mais eu deixei de me cuidar espiritualmente.
383
LOPES M.R. & LOSSOM.J. O que fazer quando acaba a fama? O Estado de São Paulo, 08 de junho de
2005, C4.
229
7.5 - Confrontações, conotações e imbricações entre os resultados da
entrevista dos integrantes de comissões técnicas e atletas
Manifestações de religiosidade no futebol não dão acesso a um estudo completo da
religião; elas representam, sim, um caminho para o estudo de formas que esse fenômeno
adquire numa sociedade ou num determinado ambiente. Com efeito, pode-se analisar a
clientela a que foram dirigidas as perguntas, mas, por mais que os entrevistados
convivam em um mesmo locus, as respostas sofrem variações – algo típico da condição
humana. Todavia, se é possível conhecer as características dos atletas e dos integrantes
de comissões técnicas, interessante, também, é saber os pontos de convergência e
divergência de suas respostas. Para realizar essa tarefa, recorremos aos dados
particularizados de nossa clientela, detectados nas entrevistas.
Vale observar que as respostas obtidas com as entrevistas podem diferir de um
indivíduo para o outro segundo suas respectivas realidades sociais, econômicas e
culturais. Essas realidades nos permitem apontar as características comuns e as
diferenças da religiosidade manifestada por nossos entrevistados.
7.5.1 - Religiosidade pessoal
7.5.1.1 – Características comuns
Convém notar, em primeiro lugar que, à questão “Você pertence a alguma religião?”,
todos os entrevistados responderam afirmativamente. Disseram, também, que dispõem
de tempo para freqüentar as celebrações. Nesse sentido, podemos dizer que, quando o
atleta ou integrante de comissão técnica (na condição de fiel) está no estado religioso,
Ele se sente em relação com forças que apresentam as duas características seguintes:
elas o dominam e elas o sustentam. Ele sente que elas são superiores àquelas que se
dispõe ordinariamente, mas ao mesmo tempo, há impressão de que participa desta
superioridade. Ele pode mais. Sem dúvida, na maior parte das vezes, concebe de uma
maneira ilusória, o sentido no qual exerce esse poder excepcional. Acreditamos
erroneamente que ele nos permite dominar o mundo, impor-lhe nossas vontades, tornalos dócil a nossos desejos. Mas a ilusão diz respeito unicamente à natureza dos fins
para os quais ele pode ser empregado, não sobre sua realidade. Enganamo-nos sobre
aquilo para que pode servir o afluxo de vida que sentimos em nós; interpretamo-lo mal;
designamos-lhe fins para os quais ele é impróprio. Mas este afluxo, nele mesmo, nada
tem de imaginário; ele é real. Essa vitalidade realçada se traduz nos fatos, pelas ações
230
que ela inspira. O homem tem uma confiança, um ardor de viver, um entusiasmo que ele
não sente em tempos ordinários. As provações da existência encontram nele maior
resistência; ele é capaz de maiores coisas e o prova pela sua conduta. É essa influência
dinamogênica da religião que explica sua perenidade.384
“Esta religião foi adquirida em que fase de sua vida?” Essa questão nos permitiu
detectar dois elementos-chave: em primeiro lugar, o importante papel da família na
religiosidade individual; em segundo lugar, o valor da conversão como caminho religioso
dos atletas evangélicos.385 Assim, podemos constatar que, também no futebol, a
conversão religiosa exerce um papel importante, com reflexos na mudança de caráter
individual e nos projetos de vida.386 Percebemos isso, nitidamente, nos relatos que
obtivemos.
A disposição de tempo para ir às celebrações de sua religião foi outro fator de
semelhança entre os entrevistados. Evidencia-se, assim, que
Os ritos sacramentais, os êxtases, os exorcismos, as histórias sagradas permitem aos
indivíduos ou às comunidades religiosas saírem, em uma certa duração, do cotidiano
opressor para outro plano de libertação do sofrimento e sensação de felicidade.387
Também notamos convergências nas respostas às questões: “Você pratica algum
ritual antes de entrar em um jogo?” e “A sua equipe possui algum ritual antes de entrar em
um jogo?” Esses rituais – orações em grupo, súplicas etc. - praticados por atletas ou
integrantes de comissão técnica no âmbito individual ou coletivo, parecem consistir em
uma tradição no futebol – eles são encontradas desde as categorias de base até às de
veteranos.
Tradição e costume foram a essência da vida da maioria das pessoas durante a maior
parte da História humana e, levando isso em conta, não podemos encarar as tradições
como “neuroses coletivas” ou “tolices”.388 Assim, como o conceito de risco a que já nos
384
DURKHEIM, E. O problema religioso e a dualidade da natureza humana. São Paulo: UNICAMP, 1977,
138 p., p. 5.
385
Apenas um se converteu para outra religião sem ser evangélica. De católico, passou a ser espírita.
386
Cf. MENDONÇA, A.G. O presente status do estudo das religiões: campo religiosos e fenomenologia.
Artigo in: GUERRIERO, S. (org). O estudo das religiões: desafios contemporâneos. São Paulo: Paulinas,
2003, 181 p. p. 159.
387
Ibid., p.170.
388
GIDDENS, A. Mundo em descontrole..., op. cit., pp. 48-50.
231
referimos em outro capítulo, a noção de tradição não existia em tempos medievais, uma
vez que elas estavam em toda a parte.
Todas as tradições, eu diria, são inventadas. (...) É simplesmente errôneo, porém, supor
que, para ser tradicional, um dado conjunto de símbolos ou práticas precisa ter existido
por séculos. (...) As características distintas da tradição são o ritual e a repetição (...) À
medida que o papel da tradição muda, contudo, novas dinâmicas são introduzidas em
nossas vidas. (...) A repetição é movida pela ansiedade. (...) Na tradição, o passado
estrutura o presente através de crenças e sentimentos coletivos partilhados.389
A citação acima nos dá respaldo para fazer uma leitura interessante dos rituais no
ambiente do futebol. Primeiro, vale lembrar que as tradições nunca acabam, mas vão se
transformando com o passar do tempo. Podemos dizer, então, que houve uma
transformação interessante no futebol, percebida a partir do início dos anos 80. O “Pai
Nosso” e a “Ave Maria” eram as principais orações realizadas, as âncoras dos rituais
praticados pelos entrevistados antes dos “duelos” futebolísticos - com o aumento da
população evangélica registrado no Brasil, porém, muitos personagens do futebol também
aderiram a novas crenças e, diante disso, a tradição se transformou. Hoje, em muitos
times, as duas orações seguem sendo bastante importantes - na hora da “Ave Maria”,
porém, os não-católicos fazem uma oração diferente. Como o “Pai Nosso” é uma oração
cristã universal, todos a rezam. Ressaltamos, também, que os espíritas fazem as duas
orações. Diante ainda dessa questão, podemos dizer que a tradição da prática de rituais
realizados previamente antes dos jogos visa reduzir riscos ou as possibilidades de
mudança.
A tradição, o carácter repetitivo da produção e da transmissão das informações
simbólicas permitem que a regulação social seja possível e que o comportamento
humano não seja afectado por uma transitoriedade insuportável para a vida em grupo.
(...) É evidente que ninguém se pode furtar àquilo que é, de facto, uma obrigação geral:
com a passagem do tempo todos terão que cumprir. (...) A tradição contribui para
assegurar uma certa estabilidade das representações e, por conseqüência, do
comportamento social390.
A tradição não pára de se transformar. Isso tem a ver com as mudanças sociais,
políticas, econômicas e também religiosas. Então, para a tradição mudar, é necessário
que as coisas mudem à sua volta e que haja razões para a mudança. É por isso que a
389
390
Ibid., p. 50-57.
HATZFELD, H. As raízes da religião. Lisboa: Crença e religião, 1993, 284 p. pp. 53-55.
232
tradição é diferente de sociedade para sociedade, podendo ser oral e escrita.391 No
ambiente do futebol ela é oral.
7.5.1.2 – Principais diferenças
Em relação à religião a que pertencem os entrevistados, detectamos nas respostas
dos integrantes de comissões técnicas que, em quantidade, os católicos estão em
primeiro lugar, os espíritas em segundo e, em seguida, os evangélicos. Entre os atletas,
os evangélicos vêm em primeiro lugar, seguido pelos católicos e na seqüência, aparecem
os espíritas. Tal situação evidencia o aumento da população evangélica, principalmente
entre os mais jovens. Aparentemente, o discurso neopentecostal é mais adequado aos
indivíduos mais jovens, que, além de carecer das palavras motivadoras e de conforto,
também são atraídos por música, encontros, palestras, discussões, “baladas” e outras
coisas que esse segmento religioso proporciona.
Sobre a regularidade na freqüência às celebrações de sua religião, é interessante
lembrar que todos têm tempo para ir, mas que os atletas as freqüentam com muito mais
regularidade que os integrantes de comissão técnica – vale lembrar que, em termos
profissionais, os dois grupos dispõem do mesmo tempo.
Outra diferença foi sentida diante da pergunta: “Qual a relação que você vê entre
futebol e religião? Se não vê essa relação, diga o porquê:” As respostas a essa questão
nos deram possibilidades de perceber que os integrantes de comissão técnica, por mais
que pareçam céticos diante da relação existente entre esses dois fenômenos, não
conseguiram desvincular um do outro em seus depoimentos, onde, mesmo indiretamente,
“futebol x religião” se entrelaçam.
Diferentes foram as respostas dos atletas, que disseram existir uma relação de vital
importância. Nesse sentido, podemos salientar que, mesmo existindo uma diferença no
ponto de vista da relação entre ambos os grupos, para os entrevistados a religião é muito
percebida no futebol, onde existem os fatores Recompensa/Compensador.
391
Ibid., p. 57-59.
233
Compensadores seriam como substitutos para recompensas desejadas. Ou seja, eles
fornecem uma explicação sobre como a recompensa desejada (ou um equivalente) pode
ser obtida, mas propõe um método de obtenção da recompensa que é, por sua vez,
complexa e demorada. Geralmente a obtenção será no futuro distante ou mesmo em
outra realidade, e a verdade da explicação será bastante difícil, se não impossível, de
ser verificada com antecedência. Quando uma criança pede uma bicicleta e o pai propõe
que ela deixe seu quarto limpo e não tire nenhuma nota baixa durante um ano, período
após o qual ela ganhará seu presente, um compensador foi determinado no lugar da
recompensa desejada. Pode-se distinguir compensadores de recompensas por que uma
é a coisa desejada, e a outra é a proposta feita para que se ganhe a recompensa.
Enquanto seres que buscam recompensas, os humanos irão sempre preferir a
recompensa ao compensador, mas freqüentemente não se tem opção, já que algumas
das coisas que queremos não podem ser obtidas em quantidade suficiente e, outras, às
vezes, sequer podem ser obtidas, aqui e agora, por ninguém. Os compensadores se
apresentam em abundância em todas as áreas da vida, mas meu interesse principal são
os compensadores religiosos. Permita-me lembrar apenas o mais óbvio deles. A maioria
das pessoas deseja a imortalidade. Ninguém sabe como alcançá-la no aqui e no agora –
a Fonte da Juventude continua sendo ilusório. Mas muitas religiões fornecem instruções
sobre como essa recompensa em particular pode ser obtida a longo prazo. Quando o
comportamento se pauta por este conjunto de instruções, a pessoa aceitou o
compensador. Dessa forma, se está também demonstrando comprometimento religioso,
uma vez que as instruções sempre incluem certas exigências frente à frente com divino.
De fato, geralmente é necessário entrar em uma relação de troca à longo prazo com o
divino e com instituições divinamente inspiradas, de maneira a seguir as instruções: as
igrejas se baseiam nessas relações de troca392.
Também notamos divergências nas respostas da questão “Como a religião interfere
em sua vida e no relacionamento com grupo?” Podendo dizer que, individualmente, a
religião interfere de forma positiva para ambas clientelas. Já no âmbito do grupo, ela se
ramifica: os atletas acham que é de grande valia para a manutenção do elenco; diferente
da visão dos integrantes de comissão técnica, em que muitos dizem que ela pode ajudar
ou atrapalhar, devido às “vivências” serem variadas e que, diante disso, poderiam ocorrer
tensões entre os “crentes” de denominações diferentes ou corporativismo entre os
“crentes” de mesmas denominações.
Tensão com o ambiente sócio-cultural circundante é equivalente à desvio sub-cultural,
caracterizado por diferença, antagonismo e separação. (...) Quanto maior a tensão de
um grupo religioso, maior o número e o valor percebido dos compensadores de que ele
pode fornecer por recompensas escassas. (...) Quanto mais baixa a tensão de um grupo
religioso, maior e mais valioso o estoque de recompensas que ele pode obter do exterior
e fornecer aos seus membros393.
“Você se lembra de algum jogo seu que foi decidido com alguma força sobrenatural,
que você atribua a Deus?” Para os atletas, Deus é “escalado” em todos os jogos; para os
392
STARK, R. & BAINBRIDGE,W. S. A Theory of Religion. New Brunswick, New Jersey: Rutgers
University Press, 1996, 386p. p. 36. (Tradução livre do inglês)
393
Ibid., p. 142-144.
234
integrantes de comissão técnica, porém, pode haver uma colaboração Dele, mas tem que
haver merecimento para essa ajuda existir. Citando novamente Stark, os compensadores
mais gerais podem ser sustentados somente por explicações sobrenaturais; sobrenatural
se refere a forças além ou fora da natureza que podem suspender, alterar ou ignorar as
forças físicas; religião, por sua vez, se refere a sistemas de compensadores gerais
baseados em assunções sobrenaturais.394 Nesse sentido, fica evidente a relação
“futebol/religião” entre nossos entrevistados e, por mais que ela exista em diferentes
graus – para os atletas é de grande importância; para os integrantes de comissão técnica,
de média importância - ela não pode ser desprezada. Principalmente se levarmos em
conta que
Deuses são seres sobrenaturais tendo atributos de consciência e desejo. (...) Religião é
um termo que se refere a sistemas de compensadores gerais baseados em hipóteses ou
concepções sobrenaturais. (...) Os humanos tenderão a conceptualizar fontes
sobrenaturais de recompensas e custo com deuses. (...) Os deuses tendem a apreciar
elevadas relações de trocas395.
Interessante ressaltar, ainda em relação à questão acima, é que, para os integrantes
de comissão técnica que foram ex-jogadores de futebol, Deus também é “escalado” em
todo o jogo, existindo para esses então, o mesmo conceito dos atletas.
7.5.2 - Opinativo sobre questões referentes ao futebol enleado à religião
7.5.2.1 – Características comuns
À questão: “Vocês perdem e ganham; são ajudados ou prejudicados pelos árbitros;
sofrem lesões e podem machucar alguém; são elogiados ou vaiados pelos torcedores.
Lembrando destes fatores, qual a importância da religião para o atleta, já que de um jogo
para outro sua vida pode mudar? Você acha que a religião é um fator a mais para a
melhora de rendimento? Ela ajuda no equilíbrio?” podemos dizer que a religião ajuda os
entrevistados, pois, levando-se em conta alguns questionamentos básicos ligados à
natureza da vida da matéria - sofrimento, morte, vida após morte, cura, entre outros, bem
como questionamentos específicos do mundo do futebol -, a religião traz muitas
394
395
Ibid., p. 39.
Ibid., pp. 82-83.
235
respostas. Diante desses fatores, seu futuro se torna demasiadamente incerto – por conta
disso eles carecem, além da força e capacidade física, de um apoio espiritual.
O corpo humano possui limitações de diversas ordens. Porém o espírito supera todas as
limitações pela força in natura que possui. É por conta dessa energia que recuperamos
sentido para as coisas e damos novos prosseguimentos ao transcurso da vida. Dito em
outras palavras, é por conta dessa energia espiritual que o ser humano exterioriza uma
potência capaz de interferir na vida. (...) Esforço é o envolvimento com a essência das
coisas e não resultado obtido pela ação sobre elas. É por isso uma marca transcendente
da vida. Ele dispensa a comparação de resultado, porque já desempenhou sua tarefa de
elevar o ser humano396.
Uma outra característica comum é em relação à pergunta: “O que você acha desta
reportagem que informa que o time do São Caetano tem mais que futebol, que reúne
jogadores evangélicos e a equipe vêm conquistando vitórias e destaque no futebol
nacional. Eles atribuem o seu sucesso à força da palavra de Deus? (out a dez de 2001 –
A bíblia no Brasil). Qual a relação que você vê entre o sucesso da equipe e a palavra de
Deus?” As respostas evidenciaram que deve haver um equilíbrio nos fatores de
desempenho tático x físico x técnico x emocional x espiritual. Assim, podemos dizer que,
se um desses “motores” não estiver bem, o grupo pode a vir sofrer queda de rendimento,
pois essa integração se constitui em um sistema de melhoria contínua.
O nosso corpo expressa os nossos estados emocionais por uma linguagem própria, os
sinais fisiológicos. O nervosismo, estado de baixa qualidade para quem vai entrar em
campo, apresenta alteração de respiração, batimentos cardíacos, tremor muscular,
aumento de sudorese e agitação. Dificilmente um profissional nesse estado poderá jogar
seu melhor futebol técnica, tática e fisicamente falando.397
O aspecto espiritual corrobora os demais, pois:
Pesquisas modernas têm demonstrado que pessoas que vivem em contato com
comunidades religiosas levam uma vida mais saudável que as demais, e que acreditar
em Deus faz bem a saúde. Pessoas com princípios religiosos costumam beber e fumar
menos que as demais e a participação em reuniões coletivas ajuda a descarregar as
tensões. As pessoas religiosas sofrem menos dores crônicas, insônia, ansiedade,
depressão, infertilidade ou problemas cardíacos398.
396
ALVES, R.D. A intuição mística e o agir religioso: a partir de Bergson. São Paulo: Loyola, 2003, 150 p.
pp. 72-73.
397
FLEURY, S. Competência emocional: o caminho da vitória para equipes de futebol. São Paulo: Gente,
1998, 182 p., p. 173.
398
ESKIN, P. A Medicina na Bíblia... , op. cit., p. 357.
236
Também houve semelhanças nas respostas à questão: “Lendo esta notícia: ‘Foi à
missa e voltou convocado’, relacionado ao fato do meio campista Ricardinho, ao sair de
uma celebração, receber a notícia que foi convocado para a seleção na vaga de Émerson.
Qual a relação que você vê entre ir a missa e a convocação para a seleção?” A
individualidade do atleta, relacionada ao seu bom rendimento no âmbito das capacidades
específicas do futebol, foi de grande importância para sua convocação. Nessa questão,
tanto os atletas quanto os integrantes de comissões técnicas não determinaram a
participação em cerimônias religiosas como fator de convocação para a seleção brasileira.
Nesse sentido, mesmo sabendo que a religião é uma das fontes primordiais de sentido
para suas vidas e que, na maioria das vezes, o “alimento” para a fé está nos locais de
celebração, as “regras do jogo” são democráticas: quer ter tua fé, tenha, quer ir ao templo
vá! Mas treine muito que Deus ajuda a quem trabalha!
“Como você interpreta a fala do atleta Ruço, ex-meia corintiano: ‘Deus olhou aquela
torcida’, sobre a semifinal do campeonato brasileiro de 1976?” Atletas e integrantes de
comissão técnicas não fraquejaram em responder que Deus olha por todos. Podemos
dizer, então, que Deus se comunica com os homens em conformidade com as leis de
funcionamento da mente humana e, por mais que ainda saibamos muito pouco sobre o
funcionamento da mente normal - e muito menos sobre uma vivência religiosa ou mística
(ressaltando-se, aqui, também fenômenos inexplicáveis)399 -, Deus dá atenção para todos
de forma igual e não escolhe fiéis.
“Como você interpreta a oração que os atletas do Santos fizeram logo após a partida
que foram derrotados pelo Boca Juniors na final da Copa Libertadores da América de
2003?” Agradecimento pela campanha e conforto coletivo foram as respostas mais
ouvidas dos entrevistados a essa questão. Tal semelhança pode nos dizer que
Uma oração pode não conseguir fazer um milagre ou salvar uma vida. Uma oração não
é somente para pedir algo ou receber um favor. Uma oração é para nos lembrar de
nossa natureza fraca e limitada, finita no tempo e no espaço. E para nos mostrar que,
seja onde estivermos, nunca estaremos sós. E que, através da fé, tudo podemos
conseguir, inclusive paz e felicidade.400
399
400
Ibid., p. 15.
Ibid., p. 360.
237
Sobre a importância de receber o apoio de um pastor, padre, pai-de-santo ou de
qualquer outro líder espiritual, as respostas mostram que esses líderes desempenham um
papel relevante na vida dos entrevistados.
Os especialistas religiosos atuam como intermediários entre seus clientes e as
supostas fontes das recompensas gerais desejadas – os deuses. (...) Um intermediário
é uma pessoa que recebe recompensas em intercâmbios com uma parte a fim de
fornecê-las a outra parte por meio de outros intercâmbios. (...) Os especialistas
religiosos instruem outros a oferecer recompensas materiais, físicas e
comportamentais aos deuses. (...) Ao definir recompensas comportamentais desejadas
pelos deuses, os especialistas religiosos podem influenciar as normas. (...) Normas
são as regras que determinam qual comportamento é esperado ou proibido em
diversas circunstâncias. Portanto, elas equivalem a explicações culturalmente
compartilhadas que regem os termos dos intercâmbios.401
Os especialistas religiosos também determinam normas, ditas vindas da divindade,
que aumentam as capacidades de seus clientes, as posses, enfim, aumentam
recompensas. Diante dessa questão, podemos dizer também que é da natureza do
sobrenatural os deuses não serem observados tomando posse física de recompensas
materiais com eles intercambiadas; que os especialistas religiosos atuam como
receptores para os deuses e definem, em parte, quais recompensas materiais recebem; e
que os especialistas religiosos compartilham das recompensas físicas oferecidas aos
deuses, como por exemplo deferência, honra e adoração. Concluindo, os especialistas
religiosos desempenham um campo amplo de funções, que vão do indivíduo ao Estado.402
7.5.2.2 - Principais diferenças
Convém notar que, em resposta à pergunta “O que você acha desta fala do Padre
Marcelo Rossi: ‘A espiritualidade é muito importante para o atleta. Se ele vai bater um
pênalti e está bem espiritualmente, não vai errar. Quem tem fé tem índice maior de
acerto’. (Folha de São Paulo, 07/11/ 2002). Você acha que o Padre Marcelo Rossi tem
razão?”, as respostas dos dois grupos variaram. Enquanto os atletas, em sua maioria,
afirmaram que “fé e treinamento ajudam”, os integrantes de comissões técnicas em sua
maioria afirmaram que “é preciso substituir a palavra fé por confiança”. Para o atleta, a
convicção é de que alguma crença religiosa pode ajudá-lo a conseguir os acertos; para os
integrantes de comissão técnica, a segurança íntima de procedimento é que determina o
401
402
STARK, R. & BAINBRIDGE,W. A Theory of Religion, op. cit., pp. 98-99.
Ibid., pp. 99-101.
238
acerto ou não e, por mais que “fé e confiança” estejam inseridas no contexto de acreditar
com segurança, fé diz respeito às coisas transcendentes; confiança é um termo mais
mundano.
Também houve divergências nas respostas referentes à questão: “Frei Felipinho, era
um torcedor fanático do Corinthians. Quando dois jogadores morreram e ele ficou mais
preocupado com o desfalque no time, passou a torcer contra como penitência.403 Em sua
opinião, a paixão por um clube pode fazer um atleta, um técnico ou um torcedor colocar
este clube acima de sua religião existindo assim uma inversão de valores e não havendo
bom senso em atos?” Nas respostas, a diferença foi no sentido de quê, enquanto os
atletas afirmaram que Deus deve estar em primeiro plano e que deve haver equilíbrio
entre as ações, os integrantes de comissão técnica evidenciaram que deve existir
equilíbrio entra as ações no futebol ou fora dele, ressaltando que nas respostas destes,
não foi detectada nenhuma alusão à religião. Percebemos, assim, a importância da figura
de Deus para os atletas, pois pode ser que, para eles, a aceitação da existência de Deus
criador do universo, da terra e da vida traga menos angústia existencial;404 para os demais
entrevistados, Ele completa o todo.
7.5.3 - Vida, perspectiva e história
7.5.3.1 - Características comuns
À questão “Qual a maior conquista em sua vida?” houve semelhanças nas respostas:
família, atuar no futebol profissional e fatores relacionados à fé. Tais respostas mostram
que, o mundo do futebol - seja qual for a função do indivíduo dentro dele - pode estimular
o convívio familiar e religioso, bem como uma supervalorização da profissão. Em síntese,
podemos dizer que se tornar jogador é um processo penoso, em que há necessidade do
apoio familiar e da fé. Pelas circunstâncias vividas para chegar ao alto nível, pelos
sacrifícios vívidos, a maioria dos entrevistados não vêem perspectivas de vida fora dele. A
vida sem o futebol não tem sentido.
403
404
ATÉ Santo corre atrás de bola. Revista Já. Diário de São Paulo, 26 de março de 2002.
Cf. ESKIN, P. A medicina na bíblia..., op. cit., p. 65.
239
“Você pratica alguma caridade?” A partir das respostas que obtivemos a essa
questão, podemos dizer que é aceitável a tese de que a religião, num determinado
estágio, se volta para interesses e proteção de pequenos grupos. Isso caracteriza o
estático do agir religioso.405
Entretanto isto não pode transformar-se em constância e fixidez para o agir religioso.
Afinal, a religião participa do movimento do constante fluir do novo através da
transformação que o tempo realiza. Nesse sentido, temos a apontar que uma das
evidências do movimento do tempo é a constatação do dado unitivo que a religião pode
realizar. Isso é a caridade humana.406
A caridade subsistiria naquele que a possui, mesmo quando não houvesse outro ser
vivo na face da Terra. Ela é uma particularidade da “alma aberta”, é própria do “espírito”,
que, através da intuição, opera na vida prática, uma vez que manifesta uma nobreza do
espírito que é o amor. Por isso ela é a essência da pessoa, que não precisa ser provada
pelo aspecto prático da obrigação. A caridade simplesmente existe, está no âmago do
ser, refletindo a auto-doação através da abertura da alma para o mundo e para o outro.407
Outra característica comum foi captada nas respostas à pergunta “O que pretende
fazer após o término de sua carreira como jogador de futebol?” Podemos nos apropriar,
aqui, da mesma argumentação à resposta de “Qual a maior conquista em sua vida” - a
maioria dos entrevistados não vê perspectivas de vida fora do futebol. A vida sem o
futebol não tem sentido. Além de pouco conhecimento em outras áreas, principalmente
para os atletas, trabalhar em tal segmento é dignificante e promissor.
Também houve semelhança nas respostas à pergunta “Você tem alguma história
interessante relacionada ao aspecto religioso no futebol?” Todos disseram haver alguma,
porém em perspectivas diferentes. Os contextos mudaram, variando em histórias de
superação, humor e conquistas, entre outras, mas o fundamental foi a aproximação dos
fenômenos “futebol x religião”.
405
Cf. ALVES, R.D. A intuição mística..., op. cit., p. 94
Ibid.
407
Ibid.
406
240
7.5.3.2 - Principais diferenças
À questão “Qual a maior derrota em sua vida?”, tanto atletas quanto integrantes de
comissão técnica responderam, em sua maioria, que não têm. Para os primeiros, “Deus
sempre prepara o melhor”, para os segundos, “de tudo tiram algo de bom”. Os atletas,
podemos dizer, supervalorizam o papel de Deus em suas vidas; já os integrantes de
comissão técnica pensam: “fazendo bem, as coisas acontecem naturalmente”. Para estes,
a dependência maior é da competência individual.
Outra característica diferente é em relação à pergunta: “Qual seu livro de cabeceira?”
Nas respostas, percebemos uma variação muito grande no caso dos integrantes de
comissão técnica; quanto aos atletas, a Bíblia foi o best-seller. Enquanto uns estão mais
abertos a um conhecimento global, outros preferem alimentar a fé - podemos dizer, pois,
que a fé religiosa pode atuar como um remédio para quase todos os tipos de “doenças”
dos atletas.
7.6 – Conclusões ao capítulo
Nos propusemos a executar neste capítulo, uma análise das entrevistas realizadas
com os atletas e integrantes de comissões técnicas. Obtivemos uma quantidade
considerável de relatos para a análise das respostas, o que nos levou a – em nome da
unidade do trabalho de pesquisa – selecionar as que nos pareceram mais interessantes
face ao nosso objeto de estudo.
Além de uma tendência geral, mostramos as tendências específicas e também
sobrepusemos as respostas dos integrantes de comissões técnicas e atletas, deixando
assim nosso trabalho “bem amarrado”, podendo ele ser analisado em diversos âmbitos.
Uma síntese do trabalho será abordada no próximo capítulo, não se limitando à pesquisa
de campo, mas a todo conteúdo descrito até aqui.
241
8 – SÍNTESE DOS RESULTADOS DA PESQUISA
"O difícil, vocês sabem, não é fácil. (...) Jogador tem que
ser completo como o pato, que é um bicho aquático e
gramático". (Vicente Matheus - eterno presidente do
408
Corinthians) .
Como foi possível observar, ao final de cada capítulo da dissertação incluímos um
sub-ítem denominado Conclusões ao Capítulo. Seu objetivo, foi o de dar base para a
construção desta síntese, que trará respostas às indagações feitas na introdução de
nosso trabalho. Para facilitar a compreensão, vamos apresentar as sínteses teórica e
empírica subdivididas em capítulos, apontando as principais conclusões neles detectadas
à luz do construto teórico de que fizemos uso.
8.1 – Capítulo 1
A análise do desenvolvimento histórico do futebol e de sua relação com a religiosidade
mostra inicialmente que, em todos os locais e períodos em que esse esporte floresceu,
foram constatados os aspectos do risco x espetáculo x religiosidade. Por meio da
observação das instituições e dos indivíduos, percebemos a estreita ligação entre cada
um desses aspectos, bem como suas derivações, entre as quais se conta o uso de um
“marketing religioso futebolístico”. Há momentos em que o indivíduo divulga uma “marca”
religiosa por sua própria conta, para expressar sua crença religiosa e, também, a
instituição religiosa a que pertence. Em outros momentos é a instituição religiosa que faz
uso do indivíduo para promover seus produtos.
Considerando o papel da religião como mecanismo regulador do estresse social e da
pressão do meio sobre o indivíduo, podemos dizer que o marketing religioso no futebol se
enquadra no modelo de sociedade de risco e sociedade do espetáculo. O futebol é uma
atividade de alto risco e de grande visibilidade; a religião a ele associada reduz a
percepção desse risco ao mesmo tempo em que gera uma representação de paz interior
e segurança do indivíduo face ao meio em que ele está inserido.
408
Frases do mundo do futebol. Disponível em:
<http://bacaninha.cidadeinternet.com.br/home/mensagens/engracadas/2002/10/frases_do_mundo_do_futebol/
frases_do_mundo_do_futeboL.htm>. Acesso em 05 de julho de 2005.
242
Não podemos esquecer de que, pelo fato de o futebol ser espetáculo, ele também
pode servir como veículo de propaganda409 de uma determinada religião. A mescla futebol
x religião produz uma verdadeira “potência de espetáculo” - a esse respeito, nos
permitimos citar um verso da música “Filho Maravilha”, de Jorge Bem Jor, que expressa
tanto o aspecto heróico do jogador quanto sua condição de “ungido por Deus” (os
destaques são nossos).
E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão e gol
Sacudindo a torcida
Aos trinta e três minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol
Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade em gol
Foi um gol de classe
Onde ele mostrou sua malícia e sua raça
Foi um gol de anjo
Um verdadeiro gol de placa
Que a galera agradecida assim cantava
Filho Maravilha nós gostamos de você
Filho Maravilha, faz mais um prá gente ver.410
8.2 – Capítulo 2
A análise das equipes do nosso objeto de estudo nos confirma a relação risco x
espetáculo x religiosidade. Mostra ainda que todos os indivíduos que participam, que
estão “conectados” ao mundo do futebol, não se encontram imunes à “radiação” que este
esporte/espetáculo emite em todos sentidos, seja através da mídia, pelas lideranças
religiosas, pelos integrantes de comissão técnica, atletas, enfim, por todos os adeptos.
Detectamos nessa parte do trabalho que a presença de “notícias do futebol ligadas ao
sobrenatural” nos meios de comunicação são mais evidentes em fases finais de
campeonatos, onde as equipes podem alcançar o “Céu”, ou seja, o título de campeão (ou
as melhores classificações); o “Purgatório” das classificações intermediárias, que não
409
Entendemos propaganda, aqui, principalmente como uma difusão ideológica. Por meio de seus “produtos
religiosos”, ela difunde um corpo doutrinário – ideológico, portanto.
410
Letra disponível em: <http://jorge-ben-jor.letras.terra.com.br/letras/46645/> Acesso em 05 de junho de
2005. Em outra de suas composições, “Goleiro (eu vou lhe avisar)”, Jorge Bem Jor relaciona os “arqueiros” a
palavras como “Paraíso”, “Jardim do Éden”, “Destino” e “Bola de Cristal”.
243
rebaixam o clube, mas que também não agradam a torcida; e o “Inferno”, representado
pela queda de divisão ou pela perda de um título.
Percebemos também que ações diferenciadas, incomuns, de atores do meio
futebolístico, são utilizadas pela mídia como elemento de aproximação face ao universo
religioso – nesse caso, certas atitudes se tornam “pecados”, certas vitórias “milagres” e
certos indivíduos, “santos” (o melhor exemplo é o goleiro do Palmeiras no ano de 1999,
quando a equipe conquistou a Copa Libertadores da América: “São” Marcos).
Outro ponto interessante é o do papel desempenhado pelas lideranças religiosas, que
têm uma participação efetiva na vida diária de muitos clubes, exercendo assim grande
influência, ora de forma negativa; ora de forma positiva.
O futebol evoluiu, o espetáculo cresceu, mas as manifestações de religiosidade
sempre foram presenciadas. Muitas se mantiveram inalteradas. Outras se tornaram mais
complexas, na razão em que o esporte ganhou mais visibilidade e um número maior de
“fiéis” (torcedores), “denominações” (equipes) e “pontífices” (jogadores e treinadores).
8.3 - Capítulo 3
No terceiro capítulo mostramos como foi constituído nosso trabalho de campo e
também começamos a fornecer algumas respostas aos questionamentos relacionados ao
nosso objeto de pesquisa. A partir das respostas foi possível verificar elementos como a
presença de santos protetores nas equipes, o perfil social e religioso dos entrevistados e
também, as tendências das respostas, em forma quantitativa.
8.4 – Capítulo 4
Este capítulo nos deu suporte para entender o “mundo dos riscos”. Ele é a chave para
a compreensão e verificação de nossas hipóteses. Com a leitura da Teoria da Sociedade
de Risco, fica fácil o entendimento da sociedade em que vivemos, pois o risco, o perigo,
não pode ser negado no mundo atual. Um mundo em que a incerteza e a instabilidade,
seja qual for seu âmbito, é a principal preocupação do dia a dia.
244
8.5 – Capítulo 5
Nesta parte, aplicamos a sociedade de risco à sociedade brasileira. Não era essa
nossa principal intenção – nosso foco principal é religião e futebol -, mas percebemos que
o Brasil é um exemplo modelar de sociedade de risco. Todos os elementos que Ulrich
Beck relaciona em sua teoria são verificados perfeitamente aqui, situação que nos faz
parafrasear Celso Furtado, que diz “Nunca estivemos tão distante do país que sonhamos
um dia”.411 Uma pequena frase capaz de detonar um turbilhão de lembranças, emoções e
expectativas, dos dias que o Brasil era um país que acalentava sonhos.412
8.6 - Capítulo 6
Os riscos são evidentes: para se chegar ao espetáculo correm-se riscos; quem faz
parte do espetáculo corre risco; para se manter no espetáculo corre-se risco; deixar o
espetáculo é correr riscos. Os elementos que se entrelaçam em nossa dissertação “risco
x futebol x espetáculo” se evidenciaram na escrita deste capítulo: risco de se dedicar ao
futebol e não alcançar o objetivo de chegar ao profissionalismo; risco de não figurar nas
equipes que pagam bons salários; pior, risco de atuar em equipes que não cumprem seus
deveres com os profissionais; risco de lesões; risco de doenças; risco de sofrer violência –
dentro e fora de campo; risco de deixar o futebol e, daí, fazer o que? – uns não
conquistaram nada e nem todos que conquistaram, são bons empreendedores; risco de
serem enganados; risco com o interesse de relacionamento por questões “aparentes”;
Enfim, riscos, riscos e riscos, permeiam o ambiente e os “envolvidos” com futebol –
principalmente brasileiro e, isso, nós verificamos neste capítulo.
8.7 – Capítulo 7
O sétimo capítulo forneceu em detalhes as respostas dos entrevistados aos
questionamentos relacionados ao nosso objeto de pesquisa.413 A partir de uma análise
voltada à qualificação, foi possível interpretar as entrevistas em três tendências: uma
411
BIONDI, A. O Brasil privatizado II: O assalto das privatizações continua. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2003, 95 p., p. 11.
412
Ibid.
413
A estrutura das entrevistas foi mostrada no capítulo três, assim como algumas tendências e resultados
referentes a situação religiosa do clube.
245
geral e duas expressas em subdivisões: integrantes de comissões técnicas e atletas.
Interessante, também, foi sobrepor os resultados das entrevistas, podendo, assim,
verificar os pontos de convergências e divergências entre os integrantes de comissões
técnicas e atletas.
Houve respostas que se aproximaram e também que se distanciaram entre si, mas o
principal aspecto verificado foi que, em situações de risco, os procedimentos são os
mesmos entre todos: acontecem rituais, apelos, ou qualquer outro “encontro” com o
sobrenatural. Enfim, deve-se executar algum rito porque, se não for assim, os “deuses” se
“enraivecem”; aplacados, os “deuses” ajudarão o indivíduo num momento de perigo, pois
“o universo simbólico defende o indivíduo do supremo terror, outorgando uma legitimação
fundamental às estruturas protetoras da ordem institucional”.414 Nesse sentido, os rituais
controlam a ansiedade.
Finalizando, não é possível negar que mudanças ocorrem na vida cotidiana e no
mundo do jogo infantil e adulto.415 O futebol fornece uma excelente ilustração dessa
atividade lúdica por parte dos adultos. A transição entre as realidades é marcada pelo
apito inicial e final do árbitro. Quando o árbitro apita o início do jogo, do espetáculo, os
“atores da bola” são “transportados para um outro mundo”, com seus significados próprios
e uma ordem que pode ter relação, ou não, com a ordem da vida cotidiana.
Quando o árbitro apita o final do espetáculo, os “envolvidos” com o futebol “retornam à
realidade”, isto é, à realidade predominante da vida cotidiana, em comparação com a qual
a realidade apresentada no futebol aparece agora frágil e passageira, por mais vívida que
tenha sido a representação alguns poucos momentos antes, mas que deixou sinais em
seus participantes. Sinais positivos e negativos, mas que interferem no cotidiano dos
“adeptos”, antes, durante a após o espetáculo, pois no espetáculo do futebol sabemos
que o risco está escalado em todas as partidas; a “manifestação de religiosidade” é o que
melhor marca esse risco, que procura anular com mais competência o perigo existente.
414
415
BERGER, P.L. & LUCKMANN, T. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 247 p. p. 139.
Ibid., p. 43.
246
CONCLUSÃO
“Foi um presente de Deus. O Senhor honrou nossa fé e
trabalho“. (César Sampaio ao comentar o gol mais bonito
416
de sua carreira)
A pesquisa realizada nos permitiu estudar as relações que se estabelecem entre o
ambiente do futebol e as manifestações de religiosidade nele percebidas. Inicialmente,
verificamos o fato de que é impossível compreender tais relações em separado, ou seja,
fora do contexto social em que vivemos. As conexões necessárias ao entendimento dos
elementos pesquisados só são visíveis em um mesmo sistema socioeconômico, a saber,
o capitalismo, sendo este um elemento determinante para a edificação de nossa
dissertação. Não é possível chegar a conclusões acerca dos elementos tomados da
individualidade dos entrevistados sem vislumbrar, antes, os componentes da realidadepadrão da sociedade brasileira.
O capitalismo se tornou dominante há tanto tempo que tendemos a tomá-lo como
“normal” ou “natural”, mesmo em suas mazelas. A economia, portanto, deve ser
competitiva; num tal contexto, o espaço para os chamados “valores humanos” (tomados,
de modo geral, como valores que elevam a condição pessoal do indivíduo além de sua
capacidade produtiva ou de consumo) é estabelecido a partir de certas condicionantes
(como a da atitude religiosa, por exemplo). Voltando à condição de competição e
consumo do capitalismo, percebemos que no futebol, assim como em muitos outros
campos de ação pessoal, o sucesso só é alcançado mediante um esforço extraordinário.
Não há jogador “de ponta” que não alie ao seu talento pessoal uma tremenda dose de
preparo físico e a percepção da necessidade de vencer e de administrar os bens
conquistados em sua atividade profissional – esses fatores estão intimamente ligados à
aprovação por cartolas, comissões técnicas e, principalmente, pelos torcedores. Os
profissionais que melhor atendem à exigência dos “consumidores” são os vencedores; os
que não conseguem, são perdedores.417 Ressaltamos, porém, que a “macroeconomia do
futebol” atual não é competitiva, pois geralmente o mercado é dominado por oligopólios,
416
O gol mais bonito da carreira de César Sampaio foi também o gol que garantiu a classificação do
Palmeiras para a final do Campeonato Brasileiro de 1993. Na comemoração desse gol tão emblemático,
Sampaio deixou bem clara uma de suas marcas registradas: a religiosidade fervorosa. Cf. O monstro do
Parque Antártica. Disponível em: <http://www.gazetaesportiva.net/idolos/futebol/cesarsampaio/abertura.htm>
Acesso em 09 de julho de 2005.
417
Cf . SINGER, P. Introdução à economia solidária. 1ª ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 126 p. p. 7.
247
de modo que clubes “grandes” têm maior poder aquisitivo e, portanto, maior possibilidade
de escolha; já os pequenos são obrigados a gastar seus recursos no essencial à sua
sobrevivência e, na maioria das vezes, apenas figuram de forma “complementar” nos
campeonatos – se por acaso se destacam, tendem a retornar à mediocridade em pouco
tempo, por conta do desmonte dos plantéis decorrente da venda de jogadores e da
valorização de seus salários (o que segue a melhor lógica capitalista).
A apologia da competição chama a atenção apenas para os vencedores - a sina dos
perdedores fica na penumbra. O que acontece com os clubes que quebram ou que
deixam de existir por conta de fusões ou do desinteresse das instituições que os
financiam? E com os atletas e integrantes de comissão técnica que não conseguem
emprego? Aí, prevalece uma “regra darwiniana” – os ameaçados de extinção só deixam
tal condição se correrem mais, se competirem mais, se vencerem. A mesma regra faz
com que os competidores de sucesso acumulem vantagens e que estabeleçam uma
distância cada vez maior em relação aos concorrentes.
O capitalismo e o risco social produzem desigualdades crescentes, uma verdadeira
polarização entre perdedores e ganhadores. Por mais que transmita uma imagem de
“glória”, o cenário do futebol é cruel: enquanto poucos ganhadores avançam em suas
carreiras, os perdedores são dispensados ou não conseguem emprego. Por não terem se
dedicado a outras formações que não a do esporte, acabam alijados de possibilidades em
um mundo onde quem joga bola está dividido, grosso modo, entre os profissionais e os
“boleiros de domingo”.
Nos clubes, os “funcionários da bola” ganham salários de acordo com uma escala de
“rendimento” que rege esse mercado e, como há uma forte rivalidade, as carreiras são
instáveis – em princípio, poucos são os que conseguem algum benefício decorrente
desse
quadro
(entre
eles
estão
cartolas
e,
principalmente
“caça-talentos”
e
administradores de carreiras de atletas).
A partir das considerações dos primeiros parágrafos desta conclusão, podemos emitir
pareceres acerca das quatro hipóteses particulares e da hipótese geral estabelecidas em
nosso trabalho de pesquisa. São as hipóteses particulares:
248
1 – “A noção de risco é acompanhada por um equivalente desenvolvimento de sistemas e
medidas de segurança, que permitem ao indivíduo sobreviver para jogar de novo.
Suponhamos que ele seja uma maneira de regular o futuro, de normatizá-lo e de
submetê-lo à nossa vontade. O paradigma da sociedade de risco é de como poder evitar,
minimizar, dramatizar, canalizar os riscos e perigos que são produzidos. Nesse sentido,
os ‘atores do futebol’ encontram na religião uma forma de estagnar os riscos existentes,
que no ambiente do futebol, não são poucos”.
Essa hipótese pode ser confirmada pelas respostas a nossas entrevistas, e
corroborada pela chamada “Teoria da Sociedade de Risco”. Como presenciamos nos
relatos, não se adentra em uma partida de futebol sem realizar rituais, pedidos e orações,
sejam eles executados com a finalidade de alcançar alguma vitória ou a manutenção da
integridade física e/ou mental. No relato de diversas situações da vida dos entrevistados
percebemos relações de proximidade com o divino, com o transcendente. De acordo com
a teoria de Ulrich Beck, elas se justificam, pois na passagem da sociedade de classes
para a sociedade de risco observa-se uma mudança de qualidade na comunidade.
As sociedades de classes estabelecem como meta a igualdade, a superação das
classes. A sociedade de risco é uma sociedade desigual de per se, calcada na
insegurança. O sonho da sociedade de classes significa que todos querem participar do
bolo. O objetivo da sociedade de risco é imunizar todos contra o veneno. A força
impulsionadora da sociedade de classes pode ser resumida na frase: “Tenho fome!”; o
movimento que se põe em marcha na sociedade de risco tem como bordão: “Tenho
medo!”. Em lugar da comunidade da miséria, aparece a sociedade do medo418 sentimento que existe no futebol e em outros nichos profissionais/sociais.
2 - Os riscos sociais estão relacionados com desafios novos. No futebol acontece “um
desafio por segundo”. Se há a perda de um desafio, pouco há de chance para se
recuperar. Os que se recuperam continuam – na linguagem dos “boleiros” – tendo que
“matar um leão” por jogo. Os que não se recuperam, vão ser sempre perseguidos, ou
voltaram para a “sociedade comum”, desprovidos de experiências, pois se limitaram ao
futebol – nem sempre por vontade própria, mas por circunstância deste meio. Esse
despreparo para o mundo aumenta suas situações de risco, principalmente por
418
Ver último parágrafo da página 136 da dissertação.
249
negligenciarem – na maioria das vezes - fontes primordiais para uma vida
economicamente estável, como escolaridade básica e formação profissionalizante.
Essa hipótese também pode ser confirmada pelas respostas a nossas entrevistas e é
corroborada com a “Teoria da Sociedade de Risco”. Nas respostas referentes às suas
maiores conquistas e também às suas maiores derrotas, pudemos perceber a valorização
que tem o meio futebolístico, pois há o fato triunfal de ter alcançado o objetivo e de ter
chego ao futebol profissional e, ao mesmo tempo, há o receio de deixar escapar essa
oportunidade que pode ser única, correndo-se, assim, o risco de não haver outras.
Entretanto, não podemos negar que o nível de escolaridade é baixo, assim como o
conhecimento em outras áreas; o salário, porém, é muito alto, funcionando como uma
espécie de “retribuição concentrada” de uma atividade profissional a termo.
Nesse sentido, a profissão também se torna um fator de status social. Retornando à
teoria de Ulrich Beck, ela nos diz que, hoje em dia, quando um desconhecido pergunta a
alguém quem ele é, a resposta não parte da religião a que pertence ou da idade, mas sim
da sua profissão. Quando conhecemos a profissão de alguém, cremos conhecê-lo. A
profissão é um meio de identificação e, graças a isto, valorizamos o indivíduo e lhe
atribuímos uma posição na sociedade.419 Se esse indivíduo indicar que atua em uma
grande equipe do futebol profissional, esse impacto é muito mais sensível.
Outro aspecto que Ulrich Beck aborda em sua teoria, e que se encaixa perfeitamente
nesta segunda hipótese, é o de muitos conseguirem um emprego por sua vocação diante
da sua cultura, enquanto há filas nas instituições de ensino para se obter qualificação
específica. Poucos conseguem seguir caminho apenas com sua vocação primária e,
também, poucas instituições de ensino não são falhas e/ou não necessitam urgentemente
de reformas. Ainda segundo Ulrich Beck, há também uma distribuição desigual de
oportunidades sociais mediante a formação, e isso deve ser revisto. Entretanto, mesmo
com esses problemas educacionais, quem não faz um estudo qualificado de seu futuro
pode estar caminhando para uma situação de vida insustentável. O nível de analfabetos
no mundo continua alto e, se a situação é difícil para quem estuda, pode-se imaginar para
aqueles que não têm esta oportunidade.
419
Ver segundo parágrafo da página 155 da dissertação.
250
3 - O futebol é um fenômeno que impulsiona nossa sociedade – nele, muitas vezes,
compensamos nossas frustrações. Quem pratica o futebol de alto nível é uma pessoa
comum, que às vezes acaba endeusada, o que aumenta sua responsabilidade; outras
vezes está em um momento difícil em sua carreira: a perda de um ente querido, uma
lesão, queda de rendimento esportivo, fato que o torna perseguido e muito cobrado.
Nesse momento acontece a busca do conforto no sobrenatural.
Essa hipótese é confirmada principalmente pelo fato de o futebol ser o maior
espetáculo nacional e, por esse motivo, estar absolutamente presente na vida da
sociedade, mesmo na de pessoas que dele não gostam. O simples fato de se conviver
com torcedores (no trabalho ou na escola, por exemplo) implica em uma relação com a
realidade específica do futebol – se o indivíduo não aprecia o esporte, pode ser visto com
desconfiança e, em certas situações, acabar isolado.
Alguns capítulos trabalhados ao longo dessa dissertação, mais especificamente os de
número um, dois e seis, serviram, entre outras funções, para que pudéssemos identificar
a “espetacularização” do futebol, evidenciando também as ligações existentes entre
comissão técnica, atleta, torcida, mídia, líderes religiosos, políticos etc. Diante de tantos
olhares, é impossível que não existam vários tipos de pressões em cima dos “donos do
espetáculo”, pois, além de terem que responder às suas expectativas – de melhora das
potências individuais -, de conquistarem seu espaço, têm também que responder às
expectativas de terceiros – suas ações determinam a “vida” de muitos adeptos.
Como vimos no decorrer do trabalho, o risco está presente na construção do
espetáculo do futebol. Se há risco, o espetáculo é maior (o combate entre gladiadores é o
exemplo rematado do risco extremo e do delírio coletivo por ele provocado); um dos
componentes básicos dos espetáculos competitivos, por sua vez, é o risco. É a
combinação desses fatores – risco/espetáculo –, que traz a emoção das apresentações.
Para quem está no “palco”, atuando, há uma preocupação evidente com a situação futura,
pois não se pode deixar de correr risco para não perder o “foco” principal da vida.
Em resumo, na sociedade de risco a preocupação com o que pode acontecer no
futuro não é visível; é, sim, uma possibilidade - uma imputação contra a qual invocamos
todos os espíritos e divindades, do último céu aos abismos. Ainda assim, a perspectiva de
251
sobrevivência funciona como motor da vida.420 Nós presenciamos, nas respostas de
nossos entrevistados, o papel de “contrapeso do risco” representado pela necessidade do
sobrenatural.
4 - O Brasil é um país de crenças diversificadas - participam do mesmo jogo católicos,
evangélicos etc. Há uma grande relação com o transcendente, e isto é uma estimulação
benévola na visão de muitos participantes do futebol. Todos pedem e agradecem: um
ganha, outro perde. Se não houver uma fé ingênua, algo de bom há de ser extraído de
qualquer resultado, principalmente da derrota, onde as crises e as buscas por explicações
são maiores.
Na quarta hipótese, o fator “diversidade religiosa” nos campos de futebol é confirmado
por dados obtidos na pesquisa referentes à afiliação do indivíduo a alguma religião e
também a denominação religiosa com que ele mantém vínculo. Sobre a relação com o
transcendente ser um estímulo benéfico, mesmo os que acham que não há uma ajuda
direta consideram, indiretamente, que ela pode influir positivamente em alguma esfera.
Também não há dúvidas sobre a importância dos pedidos de orações e agradecimentos
diante das incertezas dos resultados, pois, quando se aumenta a pressão em favor de se
atuar frente às situações de risco, os integrantes de comissão técnica e atletas fazem
seus pedidos e, depois do desfecho da situação, seus agradecimentos.
Nas derrotas, os indivíduos descarregam seus medos e culpas diante de sua crença,
assim como buscam explicações e orientações com os respectivos líderes espirituais,
pois o risco é um problema externo e interno no ambiente em que é percebido, e suas
conseqüências não podem ser ignoradas, visto que uma coisa condiciona a outra. O risco
existe dentro e fora das “quatro linhas” e, com a existência de tantos riscos, a busca de
conforto “divino” se torna uma regra.
Estabelecidas as considerações relativas às hipóteses “particulares”, podemos partir
para a verificação da hipótese “geral”, aplicando o construto teórico por nós estabelecido
para esta pesquisa:
420
Ver terceiro parágrafo da página 137 da dissertação.
252
“Tendo em vista a presença significativa de manifestações de religiosidade entre
atletas, nos times, entre técnicos de futebol e demais integrantes da comissão técnica – e
segundo a opinião de muitos deles, de que a fé potencializa o desempenho esportivo -,
uma crença religiosa pode ser um fator decisivo para esses colocarem em um contexto as
chamadas “situações de risco” vividas em suas trajetórias, na sua vida dentro do mundo
do futebol e na sua vida particular. Vivemos em um mundo capitalista, e o capitalismo
moderno se insere no futuro ao prever lucros e perdas – ou seja, ao “apostar no risco” continuamente. Neste sentido, dentro do ambiente do futebol – que não é
profissionalmente dos mais estáveis -, o atleta, além de ter que enfrentar os riscos do
capitalismo, do “mercado futebolístico”, sofre também os riscos do seu meio de atuação.
Assim, não estando bem fisicamente, tecnicamente, taticamente, emocionalmente –
fatores que determinam seu rendimento – o risco de ser descartado é grande, pois a
competitividade é acentuada”.
Com base nas respostas às hipóteses particulares, afirmamos que a hipótese “geral” é
plenamente confirmada, pois, por mais que a religião seja um fenômeno arraigado
culturalmente no país, o ambiente do futebol proporciona uma busca real de respostas por
meio do transcendente. Assim, as manifestações de religiosidade no futebol são fruto do
risco vivido por seus participantes; elas são evidenciadas materialmente por esse esporte
ser um “grande espetáculo”.
Inicialmente, não há como negar que todos os seres humanos estão sujeitos a falhas,
seja por meio dos pensamentos ou ações. Mas, ao aumentar o risco, cresce a inclinação
ao erro, pois a probabilidade de sofrer pressões e, assim, se desestruturar
emocionalmente, é enorme - pois nem todos possuem uma integração psicofísica capaz
de suportar algum impacto, seja ele positivo ou negativo.
O futebol é um esporte espetacular e de grandes riscos. Quem nele atua não pode
considerar a hipótese de erros, pois eles podem causar grandes estragos. A obrigação do
batedor de pênalti é fazer o gol; a do goleiro, ainda que com menores chances de
sucesso, é defendê-lo.
Muitas vezes, o equívoco provoca catástrofes. Isso deve ser evitado a todo custo. O
mundo do futebol também funciona assim, mas o erro, aí, além de prejuízos individuais,
253
pode trazer risco ao patrimônio do clube e, mesmo, à integridade física dos profissionais
do esporte (depredações, arremesso de objetos, brigas entre torcidas, invasões de
gramados etc).
Há seres humanos que pensam que podem tudo e, portanto, desejam fazer tudo; tal
atitude implica no estabelecimento de uma verdadeira fonte de riscos. No futebol, o risco
existe, procurem as pessoas ou não – seus participantes são forçados, pelas
circunstâncias, a “fazer de tudo”, do trabalho de beque ao de centro-avante. Se um
professor falta a uma aula, ou se um empregado falta ao serviço, normalmente há um
substituto e a situação é contornada sem causar um grande estrago.
Agora, imaginem um “funcionário da bola” que deixe de jogar uma partida importante
ou que não queira jogar porque está com dor de barriga, ou ainda, que deixe de ir ao
treinamento porque está em uma “fase difícil” com a namorada. Alguma crise existirá,
implicando em multa para o ausente, críticas e cobranças pela mídia e, principalmente,
por torcedores revoltados com os “danos” causados ao espetáculo. O risco é percebido,
aí, de forma cristalina.
O fato do atleta entrar em campo já é uma situação de risco, pois, se ele não
desempenhar um bom papel - por mais que tenha a melhor das intenções - não sabe o
que o espera depois. Não se pode fugir do risco nesse ambiente, principalmente pela
utilidade que se tem da imaginação nesse esporte – imaginar a melhor forma de executar
- e do imaginário dos envolvidos – vai acontecer! Esses fatores estão no campo da
subjetividade, mas a sociedade de risco exige formas de ações objetivas. O que fazer
então? Buscar a ajuda do “divino”?
Sim! Como percebemos em nossas entrevistas, e no decorrer da construção desta
dissertação, a situação de risco existente no ambiente do futebol profissional (e fora dele
também) motiva seus participantes a se manifestarem religiosamente. Ilustrando a
situação, poderíamos dizer que:
“Uma pessoa está morrendo de sede e há um copo de água. Só que a pessoa é baixa
e copo está em uma parte alta do local, sem possibilidade dela pegá-lo. O que fazer nesta
situação, considerando-se que, ao mesmo tempo em que a sede aumenta, surgem mais
254
pessoas sedentas, algumas delas potencialmente mais competentes para alcançar o
copo? Até passa pela cabeça do nosso personagem a possibilidade de contar com
alguém que apanhe a água e a divida, mas ele se lembra de que um amigo lhe disse que,
em uma situação parecida, não houve solidariedade. À memória vêm, novamente, as
palavras de seu amigo: diante disso, valeu a regra do ‘que vença o melhor!’. Então,
percebendo sua impossibilidade de pegar o copo, e diante de suas limitações físicas e
existenciais (estas, em relação às incertezas do futuro), apela para Deus – e se Ele me
trouxesse o copo? E seu eu ferisse a pedra com o cajado e brotasse uma fonte cristalina?
Que Deus me ajude!”
Concluindo nosso trabalho de pesquisa, estamos conscientes de não ter esgotado o
objeto de estudo que atraiu nossa atenção; talvez, porém, esse esforço tenha permitido
verificar e compreender alguns aspectos das manifestações de religiosidade no ambiente
do futebol profissional. O campo, sem dúvida, é dos mais ricos, podendo produzir
inúmeras análises de grande interesse acadêmico.
255
REFERÊNCIAS421
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ABENÇOADO, Corinthians goleia: 5 a 2. O Estado de São Paulo, 08 de novembro de
2002, E1.
A BOLA da vez. O Estado de São Paulo, 01 de fevereiro de 2004, Guia da Libertadores
2004, Capa.
AKIE, E. Zé Roberto sofre, mas paga ‘dívida’ em Compostela, O Estado de São Paulo, 18
de junho de 2003, E3.
ALEGRIA de uns, tristeza de outros, O Estado de São Paulo, 03 de julho de 2003, E3.
BARSETTI, S. Em Aparecida, Ronaldo pede conforto espiritual, mas não escapa do
assédio, O Estado de São Paulo, 10 de maio de 2002, E3.
__________. Ronaldo: “Brasil reage na hora certa”, O Estado de São Paulo, 01 de julho
de 2003, E2.
__________. “Você foi convocado!” E Dedê começa a tremer, O Estado de São Paulo, 15
de abril de 2004, E3.
__________. Zinho, eufórico, diz que disputou final de copa, O Estado de São Paulo, 07
de novembro de 2002, E1.
BARSETTI, S. & CASTELLAR, M. Reza do Palmeiras não resolve, Romário joga, O
Estado de São Paulo, 06 de novembro de 2002, E4.
________________________. STJD suspende Doni por 40 dias. O Estado de São Paulo,
16 de julho de 2003, E1.
BARSETTI, S. & MENDES, F. Seleção brasileira $. A. O Estado de São Paulo, 09 de
novembro de 2003, E6.
BARSETTI, S. & VILARON, W. Artilheiro vai a Aparecida agradecer pela força, O Estado
de São Paulo, 03 de julho de 2002, E2.
_________________________. “Bíblia”, campeã de leitura na seleção. O Estado de São
Paulo, 21 de junho de 2002, E2.
BARSETTI, S. & ZUKERAN, V. Palmeiras pega Sport na terra de Lampião. O Estado de
São Paulo. 13 de novembro de 2003. E2.
421
Nossa relação de referências está dividida para facilitar a consulta do leitor. Assim, dividimos em “artigos
de jornais”, “revistas”, “livros” etc, sempre mantendo a ordem alfabética. O leitor também perceberá que
algumas obras aqui presentes, não foram citadas no corpo da dissertação, porém, ao menos, elas serviram
como “inspiração” para a construção trabalho.
256
BENÇÃO de padre Marcelo ilumina timão para o clássico. Diário de São Paulo, 07 de
novembro de 2002, C1.
BRASIL, U. Dom Paulo eterniza paixão corintiana em livro. O Estado de São Paulo, 01 de
abril de 2004, E6.
BRASILEIRO confia mais em igrejas. ONGs e Exército. O Estado de São Paulo, 08 de
novembro de 2002, A17.
BUENO, R. & RIBEIRO, L. Corinthians e Lusa fazem o clássico da fé. Folha de São
Paulo, 07 de novembro de 2002, D3.
CAETANO, M. Le maillot jaune, O Estado de São Paulo. 28 de julho de 2003, E2.
CASTELLAR, M. Ronaldo: Agradecimento e fé em um fisioterapeuta, O Estado de São
Paulo, 02 de julho de 2002, E4.
_____________. Ruço, sobre o jogo: “Deus olhou aquela torcida”. O Estado de São
Paulo, 01 de dezembro de 2002, E3.
CENAS da Copa. O Estado de São Paulo, 14 de julho de 2002, E4.
CHADE, J. Festival de Sevilha celebra o futebol. O Estado de São Paulo, 05 de novembro
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COM muito orgulho! Lance! 03 de julho de 2003, Capa.
DAMATTA, R. Torcer. O Estado de São Paulo, 20 de junho de 2002, D12.
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DANTAS, F. PIB maior não distribui renda. O Estado de São Paulo, 15 de julho de 2004,
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DIAS, M. Olha o sambão: aqui é o país do futebol. O Estado de São Paulo, 22 de outubro
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257
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FORMENTI, L. Saúde: mais gastos privados. O Estado de São Paulo, 15 de julho de
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GLENIA, F. O jogador de futebol que virou monstro. O Estado de São Paulo, 27 de março
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GOODBORY, J. & LISTER, S. Muçulmano e judeu desafiam ódio. O Estado de São
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A HISTÓRIA das copas de 30 a 62, ISTO É, 40 min, son., color., VHS NTSC, n.2, 1998.
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MACHADO, D.B. O atleta profissional de futebol no Brasil – Evolução histórica e
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mestrado)
NUNES, F.J. “Atletas de Cristo”: aproximações entre futebol e religião. São Paulo: PUC,
2003, 129 p. (dissertação de mestrado)
275
ANEXO 1
Imagem sobre a manifestação religiosa de José Roberto Guimarães422:
422
Imagem disponível em: SANGUE, Suor e muita fé. Religiões: o mundo da fé. A força do espiritismo, op.
cit, pp. 50-51.
277
ANEXO 2
Fotos de atletas em manifestações religiosas423:
423
Fotos disponíveis em: <http://www.atletasdecristo.org/index.php?page=fotoseventos.php> Acesso em 26
de julho de 2005.
278
ANEXO 3
Imagens do futebol em colégios católicos no final do século 19424:
424
Imagens disponíveis em: NETO, J. M. S. Visão do jogo: primórdios do futebol no Brasil, op. cit., pp. 20-
25.
279
ANEXO 4
Imagens de manifestações religiosas ao redor de Mané Garrincha425:
425
Imagens disponíveis em: CASTRO, R. Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha, op. cit., pp.
303-333.
280
ANEXO 5
Evangelização na final da Copa das Confederações426
- Estamos na final! - foi a grande constatação depois de celebrarmos a vitória sobre a Alemanha
em Nüremberg apesar de todos os prognósticos contrários. - Mas como aproveitar esse momento
único para compartilhar o amor de Deus com os bilhões de fãs de futebol do mundo inteiro?
Troquei uma idéia com o Jorginho sobre a melhor estratégia e ele achou que deveríamos usar as
camisetas. - Mas qual seria a melhor mensagem?
Jorginho sugeriu "Jesus ama Alemanha", Argentina, Itália, etc. Liguei para o Douglas Lucas, um
designer que é nosso colaborador, em S. Paulo, encomendando os lay-outs e para o pessoal do
SRS (Sportler Ruft Sportler) descobrir um lugar para fazer as camisetas. Eles consultaram a
multidão de conselheiros de Altenkirche e sugeriram que a melhor mensagem seria "Jesus ama
Você" em vários idiomas.
Douglas trabalhou no domingo e mandou os arquivos via e-mail para o Bernd Breitmair, na
Alemanha, que já tinha encomendado as camisetas, mas pediu um reforço em oração porque toda
vez que ele tenta fazer alguma coisa envolvendo o nome de Cristo a oposição é enorme.
Oramos pela confecção das camisetas e para que os atletas se dispusessem a usá-las de boa
vontade pois até então não tínhamos falado com eles...
Viajamos de carro para Frankfurt e o Jorginho conseguiu reservar um quarto grande no hotel da
seleção, onde seis atletas comprometidos com Deus apareceram para a reunião.
O Pr. Anselmo falou sobre o duelo de Davi e Golias em I Samuel 17. As muitas lições que
pudemos aprender com essa história serviram não só para o jogo contra a Argentina mas para a
vida de cada um de nós.
Depois desse estudo, o Jorginho explicou a missão de Atletas de Cristo no mundo do esporte e eu
expliquei nossa visão de alcançar o mundo para Cristo através da linguagem universal do esporte
em nossa geração. Mostrei os lay-outs e os atletas toparam vestir a camisa com muito amor.
Oramos e eles saíram da reunião com o espírito certo para pegar a Argentina. (...)
No fim da tarde, um dos nossos atletas confessou que estava tão tenso que de dez em dez
minutos ele tinha que se atirar de joelhos no chão do seu quarto para pedir paz a Deus e clamar
para que tudo desse certo no jogo. Anselmo e eu voltamos ao hotel para conversar com ele. Seu
semblante era tenso. Cantei para ele uma antiga música de Vencedores que dizia:
Ah como é bom poder aos pés da cruz depositar - Este meu fardo pesado e árduo de carregar - E
não ter que andar ansioso de nada senão - A Deus tudo levar em grata e súplice oração - E a paz
de Deus então - Mente e coração guardará - Em Cristo Jesus
Depois lhe lembramos do Salmo 37: Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e ele tudo fará.
E ele fará resplandecer a tua justiça e o teu direito como o sol ao meio dia.
426
Texto de Alex Dias Ribeiro. Informações disponível em:
<http://www.atletasdecristo.org/index.php?page=fotoseventos.php&id_galeria=321>. Acesso em 15 de julho
de 2005.
281
Terminamos orando. Quando abrimos os olhos seu semblante tinha mudado completamente e
pudemos resenhar e rir um bocado.
O jogo - Oramos nas arquibancadas - Um membro da comissão técnica falou: - Deixa eu sentar
perto desses dois porque eu estou muito nervoso. (...)
A celebração - Nossos atletas vestiram a camisa louvando a Deus e tomaram a iniciativa de se
ajoelharem junto com todo o time para agradecer a Deus. No peito de sete deles o mundo leu, ao
vivo via satélite, "Jesus Ama Você" em vários idiomas. Muitos cristãos choraram de emoção e uma
semente foi plantada no coração de um número de pessoas que não podemos imaginar.
Celebramos muito nas arquibancadas e oramos agradecendo pela vitória. Depois fomos encontrar
os atletas no hotel e ficamos resenhando, louvando, orando e rindo até bem tarde.
Pus a cabeça no travesseiro sob a luz dos primeiros raios sol e o canto dos pássaros anunciando
um novo dia. Peguei no sono com minha memória passando e repassando o replay dos atletas
usando as camisas. Acordei com a mesma imagem na tela de minha mente. Abri os olhos, beijei a
camiseta Jesus Aime Toi que sobrou pra mim, e comecei a cantar de alegria e gratidão:
Sim eu amo a mensagem da cruz. - 'Té morrer eu a vou proclamar - Levarei eu também minha
cruz. - Até por uma coroa trocar.
A grande lição - Desde a Copa de 58 eu acompanho o esporte como torcedor e peladeiro, de 67
em diante como piloto e de 86 para cá como diretor de Atletas de Cristo.
Foi tempo suficiente para aprender que: 1 - Ganhar ou perder faz parte do jogo; 2 - Temos que
aprender a conviver com o sucesso e o fracasso; 3 - Não é dos fortes a vitória, nem dos que
correm melhor, mas tudo depende do tempo e do acaso. Ec 9:11
Ou seja, você pode ter o melhor carro e não vencer a corrida; o Brasil pode ter o melhor time e a
bola não entrar de jeito nenhum, como na derrota para o México.
Acompanho a Seleção Brasileira como capelão desde a Olimpíada de Seul. Foram 33 jogos, 5
finais, 3 títulos de campeão e 2 de vice e nunca vi tudo dar tão certo como nessa final. O futebol do
Brasil fluiu de jeito tão natural, o esquema tático funcionou, os atletas erraram pouquíssimos
passes, a pontaria dos artilheiros funcionou e a bola entrou nas horas certas.
As manchetes falaram da volta do futebol arte, dream team, quarteto maravilhoso, favorito para a
Copa do Mundo e mil e um elogios rasgados. Mas como pode um time tão criticado por causa de
derrota para o México se tornar o melhor do mundo em apenas 10 dias jogando com os mesmos
atletas? - E por que foi tão fácil?
- Tem a ver com o poder de Deus e a fé dos atletas, aplicadas essas lições que aprendemos com a
história de David e Golias: 1 - Mesmo sendo campeão de pedra ao alvo, Davi não se meteu a
enfrentar o gigante confiando na sua habilidade, mas no Senhor dos exércitos a Quem Golias
vinha desafiando; 2 - E toda terra saberá que há Deus em Israel. Toda essa multidão saberá que o
Senhor salva, não com espada, nem com lança porque do Senhor é a batalha . (I Sm 17:46 e 47)
E isso ficou bem claro quando o mundo assistiu nossos atletas creditando a vitória a Deus e
declarando o amor de Jesus por cada indivíduo da multidão dos que os viram ao vivo via satélite.
O privilégio de sermos parceiros de Deus nessa missão, não tem tamanho. (Alex)
282
ANEXO 6
Fotos de atletas em manifestações religiosas427:
427
Fotos disponíveis em: <http://www.atletasdecristo.org/index.php?page=fotoseventos.php>. Acesso em 15
de julho de 2005.
283
ANEXO 7
Montagem com a foto do papa Bento XVI... que virou até nome de torcida!:
Sorocaba, SP, 24 (AFI) - O São Bento acaba de ganhar mais uma torcida organizada.
Nas arquibancadas do estádio Walter Ribeiro (CIC) na partida do próximo domingo,
contra o Mirassol, pela segunda rodada da segunda fase do Campeonato Paulista da
Série A-2, estará presente a facção “Bento XVI”, cujo nome é uma homenagem ao novo
Papa. Vale lembrar que quando o atual pontífice substituiu João Paulo II, não faltaram
torcedores beneditinos mais gaiatos que colocaram em circulação na internet uma
fotomontagem divertida com Bento XVI (foto)428. (...) Sorocaba, SP, 19 (AFI) - Seria só
coincidência ou os céus estão mesmo conspirando a favor do São Bento este ano? No
Campeonato Paulista da Série A-2, o Azulão, em estado de graça, reina absoluto, com 35
pontos e na liderança isolada do Grupo 2 - disparado a melhor campanha da competição.
De quebra, o time do técnico Carlos Rabello pode exibir orgulhoso o título de ser o único
dos 88 clubes profissionais do Estado de São Paulo a não ter perdido uma partida sequer
na temporada.Também seria só coincidência que o ex-cardeal alemão Joseph Ratzinger,
eleito nesta terça-feira, tenha escolhido o nome de Bento XVI e seja torcedor do time de
Sorocaba? Pelo menos é isso o que dá a entender uma foto - de autoria desconhecida que já anda circulando na internet e arrancado boas risadas dos torcedores beneditinos e
também sorrisos amarelos dos rivais [do atlético de Sorocaba]. Confira!429
428
Nova torcida organizada do São Bento homenageia o Papa. 24/05/2005. Notícia disponível em:
<http://www.futebolinterior.com.br/osite/internac.php?nid=80103>. Acesso em 05 de julho de 2005.
429
Estariam os céus ajudando o São Bento na série A2? 19/04/05. Notícia disponível:
<http://www.futebolinterior.com.br/osite/internac.php?nid=77202>. Acesso em 05 de julho de 2005.
284
ANEXO 8
Foto de Elano, ex-atleta do Santos, exibindo camisa com manifestação religiosa – Nossa
Senhora430.
Fig.1
Foto de Marcinho, ex-atleta do São Caetano, exibindo camisa com manifestação religiosa
– Deus é fiel431.
Fig.2
430
Foto disponível em: <http://www.gazetaesportiva.net/idolos/futebol/elano_santosfc/index.htm> Acesso em
15 de julho de 2005.
431
Foto disponível em: <http://www.futebolnews.com/home/especiais_2004_camp_paulista1.asp> Acesso em
15 de julho de 2005.
285
ANEXO 9
Foto de Fabiano, ex-atleta do Santos, exibindo camisa com manifestação religiosa – O
Senhor é meu pastor432:
432
Imagem disponível em: SANGUE, Suor e muita fé. Religiões: o mundo da fé. A força do espiritismo, op.
cit., pp. 46-47.
286
ANEXO 10
César Sampaio, o craque-evangélico ex-atleta do Kashiwa Reysol, Palmeiras (foto),433 e
de muitos outros clubes, fala da sua religiosidade434:
Quando terminou o jogo entre Kashiwa Reysol e Kashima Antlers, pela 5ª rodada da J.League , há
pouco mais de uma semana, o volante César Sampaio caminhou até o círculo central do gramado
do Estádio Kashiwanoha e agradeceu aos céus, de joelhos, pela magra vitória de 1 a 0 sobre o
Antlers. (...)
Desde 1996, após “uma bronca” da filha Gabriela, César Sampaio comemora agradecendo a
Deus. Atleta de Cristo desde quando subiu para o time profissional do Santos, “Sampa” leva a
mensagem do Evangelho para todos os cantos e se reúne com os religiosos duas vezes por
semana, em Tokyo. (...)
Bate-bola com César Sampaio
International Press: Quando foi que você se apegou à religião e se tornou um Atleta de Cristo?
César Sampaio: Foi por volta de 89, quando havia subido para o profissional do Santos e tive o
primeiro contato com a palavra de Deus com os Atletas de Cristo. Era um grupo de São Paulo, que
se reunia com os esportistas cristãos para divulgar o Evangelho.
IP: Que tal jogar no Reysol, um time que reúne um santo Sampaio e um capeta Edilson...?
César Sampaio: Ah! Santo não! Todos nós temos pecados. Eu também tenho minhas falhas e
procuro me apegar a Deus para melhorar mais. Com Edilson já jogamos juntos no Palmeiras e ele
já participou diversas vezes das nossas reuniões (de igreja) lendo a Bíblia, buscando na palavra de
Deus uma orientação para a vida. Somos amigos, as esposas também são amigas.
IP: Você é apegado à Bíblia, tem alguma passagem que guarda como filosofia de vida?
433
Foto de César Sampaio quando atuava pelo palmeiras. Disponível em:
<http://www.gazetaesportiva.net/idolos/futebol/cesarsampaio/abertura.htm> Acesso em 15 de julho de 2005.
434
ARASHIRO O. São Sampa. Entrevista disponível em:
<http://www.ipcdigital.com/portugues/esporte/576/index5.shtml> Acesso em 15 de julho de 2005.
287
César Sampaio: Sou muito apegado à Bíblia onde busco a palavra de Deus, a motivação e o
incentivo diário nos vários versículos. Tem um versículo que diz: “Mas buscai primeiro o seu reino e
a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Está no Livro de Mateus, capítulo 6,
versículo 33. Sem dúvida, estando em paz com Deus, você consegue ter motivação, superar as
dificuldades e também administrar os momentos esportivos.
IP: De que forma a religião ajuda você a viver o dia-a-dia?
César Sampaio: Todos nós somos limitados. Muita gente pensa que por sermos jogador de
futebol, não temos problemas. Somos ídolos para alguns, mas temos necessidades sentimentais,
espirituais, familiares, enfim... Passamos por uma dificuldade grande, ficamos quatro meses sem
vencer (com o Reysol). Particularmente, vi nos japoneses muita insegurança. Quando ele cai uma
vez, tem uma dificuldade muito grande de se reerguer. Na religião, na Bíblia, Deus tem me dado
motivação para superar esses problemas.
IP: Você tem levado a palavra de Deus para algum colega de time?
César Sampaio: Religião é algo muito particular, a gente não pode impor para ninguém, cada um
tem a sua e eu respeito todas. Mas temos o Tanoue, lateral direito, que se converteu. Tem uma
igreja em Tokyo que a gente congrega e temos um pastor. Tanoue aceitou a Jesus e vem
participando das reuniões. É um restaurante que às quartas-feiras e domingos é fechado para
reuniões e tem também trabalho social com jovens que têm problemas familiares e ex-drogados...
IP: Como você observa o mundo de hoje, cheio de conflitos, injustiças e como a fé poderia ajudar a
construir um mundo melhor?
César Sampaio: Acho que a carência espiritual tem tido uma influência direta. As pessoas têm
procurado resolver seus problemas da maneira com que elas pensam. As pessoas têm procurado
prevalecer pelas suas idéias, não respeitando o amor ao próximo. No Gênesis diz que quando
Deus fez o homem – a obra-prima da criação de Deus - o fez para desfrutar do Jardim do Éden.
Deus criou o homem não para ser mandado, e sim para mandar. Mas quando o homem começou a
querer mandar em outro homem, começaram também as divergências e as guerras. O homem foi
criado para administrar tudo o que Deus criou. Através do pecado de Adão e sua expulsão do
Paraíso, vimos que o homem antes queria prevalecer pela força, depois pelos ideais e quanto mais
adeptos da sua religião, mais poder ele tinha. Isso reflete até hoje, a carência de Deus é algo
visível e para prevalecer um ideal sobre um outro ponto de vista os homens têm se desrespeitado
um ao outro, com guerras, drogas, delinqüência. É uma maneira de prevalecer na sociedade e isso
é algo visível da falta de contato com Deus.
IP: Por tudo isso, virou marca registrada do César Sampaio ajoelhar-se no gramado e olhar para o
céu, após um gol marcado ou uma vitória...
César Sampaio: Antes eu comemorava de outro jeito. Mas um dia minha filha Gabriela chegou e
me disse ‘poxa, pai, a gente fica fazendo oração para você, para Deus te proteger e não se
machucar e você nem agradece a Deus...’ Foi então que desde 96 mudei minha maneira de
comemorar.
IP: Hoje te chamam de santo, mas algum dia já te chamaram de Pelé...
César Sampaio: Ah! Isso foi no início da minha carreira, no Santos. O técnico era o Cabralzinho,
que hoje está no Figueirense e ele disse que Pelé era muito... que poderia queimar minha carreira
com comparações. Para começar como Pelé não ia dar muito certo não...
288
ANEXO 11
Curiosidades sobre o goleiro Marcos435:
O católico Marcos
Marcos Roberto Silveira Reis, o "São Marcos", é católico fervoroso e segue alguns rituais
nos jogos. Pouco antes do início de cada partida, o goleiro fica alguns segundos estático
sobre a linha do gol, fazendo uma série de orações. Quando tudo termina, ele se ajoelha
na pequena área, abre os braços e agradece a Deus a vitória. Para a torcida, os milagres
ocorrem quando as mãos de "São Marcos" impedem os atacantes adversários de
balançar a rede.
Cidadão Benemérito
Este atleta da seleção brasileira de futebol foi homenageado com o título de cidadão
benemérito de São Marcos, após sua brilhante atuação na Copa do Mundo de 2002.
435
Imagens e informações disponíveis em: <http://www.goleiromarcos.hpg.ig.com.br/home.htm>. Acesso em
15 de julho de 2005.
289
ANEXO 12
Dados da equipe
Nome:
Ano de fundação:
Local:
Estádio:
Uniforme nº 1:
Mascote:
Capela ou igreja no clube:
Santo protetor do clube:
Títulos oficiais:
Presidente:
Técnico:
Nº de atletas do elenco:
Nº de atletas do elenco entrevistados:
Nº de integrantes da comissão técnica do futebol profissional:
Nº de integrantes da comissão técnica do futebol profissional entrevistados:
290
Perfil social
Nome:
Idade:
Idade:
Nacionalidade:
Cidade:
Tempo de profissionalismo:
Escolaridade:
Ensino fundamental incompleto (
)
Ensino fundamental (
)
Ensino médio incompleto
(
)
Ensino médio
(
)
Superior incompleto
(
)
Superior
(
)
Outros:
Estado civil:
Casado (
)
Solteiro (
)
Composição familiar:
Moradia:
Própria (
)
Alugada (
)
Cedida (
)
Renda familiar
Até R$500,00 (
)
De R$500,00 a R$3.000,00 (
Acima de R$3.000,00 (
)
)
Classe Social
Antes da prática do futebol:
Baixa (
)
Média (
)
Alta (
)
)
Alta (
)
Em sua fase atual no futebol:
Baixa (
)
Média (
291
Questionário sobre manifestações de religiosidade no futebol aplicado em
atletas e técnicos para saber suas interpretações sobre o tema
1 - Você pertence a alguma religião?
2 - Esta religião foi adquirida em que fase de sua vida?
3 - Existe tempo para ir às celebrações de sua religião? Com qual regularidade freqüenta?
4 - Qual a relação que você vê entre futebol e religião? Se não vê esta relação diga o
porque?
5 - Como a religião interfere em sua vida e no relacionamento com o grupo?
6 - Você pratica algum ritual antes de entrar em um jogo?
7 - A sua equipe possui algum ritual antes de entrar em um jogo?
8 - Você se lembra de algum jogo seu que foi decidido com alguma força sobrenatural,
que você atribua a Deus?
9 - Vocês perdem e ganham; são ajudados ou prejudicados pelos árbitros; sofrem lesões
e podem machucar alguém; são elogiados ou vaiados pelos torcedores. Lembrando
destes fatores, qual a importância da religião para o atleta, já que de um jogo para outro
sua vida pode mudar? Você acha que a religião é um fator a mais para a melhora de
rendimento? Ela ajuda no equilíbrio?
10 - O que você acha desta reportagem dizendo que o time do São Caetano tem mais
que futebol, que reúne jogadores evangélicos e a equipe vêm conquistando vitórias e
destaque no futebol nacional. Eles atribuem o seu sucesso à força da palavra de Deus?
(out a dez de 2001 – A bíblia no Brasil). Qual a relação que você vê entre o sucesso da
equipe e a palavra de Deus?
11 - O que você acha desta fala do Padre Marcelo Rossi: “A espiritualidade é muito
importante para o atleta. Se ele vai bater um pênalti e está bem espiritualmente, não vai
errar. Quem tem fé tem índice maior de acerto”. (Folha de São Paulo, 07/11/ 2002). Você
acha que o Padre Marcelo Rossi tem razão?
12 - Lendo esta notícia: “Foi à missa e voltou convocado”, relacionado ao fato do meio
campista Ricardinho, ao sair de uma celebração, receber a notícia que foi convocado para
a seleção na vaga de Émerson. Qual a relação que você vê entre ir a missa e a
convocação para a seleção?
13 - Como você interpreta a fala do atleta ruço, ex-meia corintiano: “Deus olhou aquela
torcida”, sobre a semifinal do campeonato brasileiro de 1976.
292
14 - Frei Felipinho, era um torcedor fanático do Corinthians. Quando dois jogadores
morreram e ele ficou mais preocupado com o desfalque no time, passou a torcer contra
como penitência.(Revista Já, Diário de São Paulo, Até Santo corre atrás de bola, 26/03
2002). Em sua opinião, a paixão por um clube pode fazer um atleta, um técnico ou um
torcedor colocar este clube acima de sua religião existindo assim uma inversão de valores
e não havendo bom senso em atos?
15 - Como você interpreta a oração que os atletas do Santos fizeram logo após a partida
que foram derrotados pelo Boca Juniors na final da Copa Libertadores da América de
2003?
16 - Qual a importância para você de receber o apoio de um Pastor, Padre, Pai de Santo
ou qualquer outro líder espiritual?
17 - Qual a maior conquista em sua vida?
18 - Qual a maior derrota em sua vida?
19 - Qual seu livro de cabeceira?
20 - Você pratica alguma caridade?
21 - O que pretende fazer após o término de sua carreira como jogador de futebol?
22 - Você tem alguma história interessante relacionada ao aspecto religioso no futebol?
293
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