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- Sociedade Brasileira de Nefrologia

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- Sociedade Brasileira de Nefrologia
SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA
Departamento de Nefrologia da AMB, Fundada em 1960
Biênio 2005 / 2006
Órgão Oficial trimestral da Sociedade Brasileira de Nefrologia
DIRETORIA NACIONAL
Presidente: Pedro A. Gordan
Vice-Presidente: Jocemir Ronaldo Lugon
Secretária Geral: Patrícia Ferreira Abreu
1º Secretário: Waldir Eduardo Garcia
Tesoureiro: Hugo Abensur
CONSELHO FISCAL
Altair Jacob Mocelin (Presidente)
José Roberto Coelho da Rocha (Titular)
Antonio Américo Alves (Titular)
Daniel Rinaldi dos Santos
João Milton Martins O. Penido
Natalino Salgado Filho
DEPARTAMENTO DE
DEFESA PROFISSIONAL
Maria Ermecilia A. Melo (Coordenadora)
Alan Castro Azevedo e Silva
Antonio Américo Alves
Carlos Antonio do Nascimento
Carmen Tzanno Branco Martins
Roberto Gomes Serpa
Sergio Wyton Lima Pinto
DEPARTAMENTO DE DIÁLISE
Sergio Antonio Draibe (Coordenador)
Arthur Ferreira Tavares Neto
Elias Assad Warrak
Luiz José Cardoso Pereira
Mario Antonio Mafra Macedo
Roberto Pecoits Filho
Ronaldo Roberto Bergamo
DEPARTAMENTO DE TRANSPLANTE
Irene de Lourdes Noronha (Coordenadora)
Álvaro Pacheco e Silva Filho
Euler Pace Lasmar
Horácio José Ramalho
Margarida Maria Dantas Dutra
Maria Cristina Ribeiro de Castro
Valter Duro Garcia
DEPARTAMENTO DE ENSINO,
RECICLAGEM E TITULAÇÃO - DERT
Nestor Schor (Coordenador)
Emmanuel de Almeida Burdmann
Henry de Holanda Campos
João Cezar Mendes Moreira
João Egidio Romão Junior
José Osmar Medina Pestana
Luis Yu
DEPARTAMENTO DE
FISIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA
RENAL
Roberto Zatz (Coordenador)
Antonio Carlos Seguro
Claudia Maria de Barros Helou
Elvino José Guardão Barros
Mauricio Younes Ibrahim
Mirian Aparecida Boim
Terezila Machado Coimbra
DEPARTAMENTO DE
HIPERTENSÃO ARTERIAL
José Nery Praxedes (Coordenador)
Carlos Eduardo Poli de Figueiredo
Cibele Isaac Saad Rodrigues
José Luis Santello
Maria Eliete Pinheiro
Pedro Jabur
Sérgio Fabiano V. Ferreira
DEPARTAMENTO DE
INFORMÁTICA EM SAÚDE
Yoshimi Watanabe (Coordenador)
Paulo Sergio Luconi
DEPARTAMENTO DE
NEFROLOGIA CLÍNICA
Gianna M. Kirsztajn (Coordenadora)
Elizabeth de Francesco Daher
Ita Pfeferman Heilberg
Jenner Cruz
José Augusto Meneses da Silva
José Hermogenes R. Suassuna
José Roberto Coelho da Rocha
DEPARTAMENTO DE
NEFROLOGIA PEDIÁTRICA
Noemia Perli Goldraich (Coordenadora)
Alberto Zagury
Clotilde Druck Garcia
Maria de Fátima Santos Bandeira
Maria Goretti Moreira G. Penido
Paulo Cesar Koch Nogueira
Vera Hermina Koch
DELEGADO DA SBN NA SLANH
João Egidio Romão Junior
ESCRITÓRIO
Sociedade Brasileira de Nefrologia
Rosalina Soares
Secretária
Rua Machado Bittencourt, 205
Conjunto 53, Vila Clementino
CEP 04044-000, São Paulo, SP
Tel: (0xx11)5579-1242
Fax: (0xx11)5573-6000
E-mail: [email protected]
Portal: www.sbn.org.br
JORNAL BRASILEIRO DE NEFROLOGIA
Órgão Oficial trimestral da Sociedade Brasileira de Nefrologia
Editor
Ex-Editores
Jocemir Ronaldo Lugon
Prof. Dr. José Augusto Barbosa de Aguiar
Prof. Dr. César Costa
Prof. Dr. Emil Sabbaga
Prof. Dr. José Francisco Figueiredo
Prof. Dr. Horácio Ajzen
Prof. Dr. Décio Mion Jr
Prof. Dr. João Egidio Romão Junior
Editor Assistente
Waldir Eduardo Garcia
Editores Adjuntos
Roberto Zatz
USP – São Paulo, SP
Rui Toledo Barros
USP- São Paulo, SP
Marcus Gomes Bastos
UFJF – Juiz de Fora, MG
Frederico Ruzany
UERJ -Rio de Janeiro, RJ
Walter Duro Garcia Santa
Casa de Porto Alegre – P.
A., RS
Sérgio F.F.Santos
UFRJ – Rio de Janeiro, RJ
Noêmia Perli Goldraich
Hospital de Clínicas de
Porto Alegre – P.A. - RS
Editores Associados
Henry de H. Campos
Univ. Federal do Ceará – Fortaleza, CE
José H. R. Suassuna
UERJ - Rio de Janeiro, RJ
Maria Goretti M. Penido
Univ. Federal de MG – Belo Horizonte, MG
Maurilo Nazaré Leite Jr
UFRJ – Rio de Janeiro, RJ
Oscar Pavão dos Santos
UNIFESP- São Paulo, SP
Roberto Flávio S. Pécoits Filho
PUC- Curitiba, PR
Sebastião R. Ferreira Filho
UFU – Uberlândia, MG
COMISSÃO EDITORIAL
Agostinho Tavares
UNIFESP – São Paulo, SP
Alberto Zagury
Hospital Geral de Bonsucesso –
Rio de Janeiro, RJ
Aldo J. Peixoto
Section of Nephrology, Yale
University School of Medicine, New
Haven, USA.
Álvaro Pacheco e Silva
UNIFESP – São Paulo, SP
Antonio Carlos Duarte Cardoso
Univ. Federal do Amazonas –
Manaus, AM
Antonio Carlos Seguro
USP – São Paulo, SP
Antonio José B. Magaldi
USP – São Paulo, SP
Cláudia M.B.Helou
USP – São Paulo, SP
Clotilde Druck Garcia
Santa Casa de Porto Alegre –
Porto Alegre, RS
Deise de B. Monteiro de Carvalho
Hosp. Geral de Bonsucesso –
Rio de Janeiro, RJ
Domingos O. L. D’Ávila
PUCRGS – Porto Alegre, RS
Eduardo Homsi
UNICAMP, Campinas, SP
Elias David Neto
USP- São Paulo, SP
Elisa de A. Sampaio da Cruz
UFF - Niterói - RJ
Elisabeth de Francesco Daher
UFCE- Fortaleza, CE
Elvino Barros
UFRGS – Porto Alegre - RS
Emil Sabbaga
USP-São Paulo, SP
Emmanuel de Almeida Burdmann
USP - São José do Rio Preto -SP
Euler Pace Lasmar
Fundação Educacional Lucas
Machado-Belo Horizonte,MG.
Fernando A de Almeida
PUC – Sorocaba, SP
Fernando C. Fervenza
Mayo Clinic – Rochester, MN, USA
Frida Liane Plavnik
UNIFESP – São Paulo, SP
Gehard Malnic
USP – São Paulo, SP
Gianna Mastroianni Kirsztajn
UNIFESP – São Paulo, SP
Hugo Abensur
USP – São Paulo, SP
Irene L.Noronha
USP – São Paulo, SP
Istênio F. Pascoal
Centro Brasiliense de Nefrologia –
Brasília, DF
Ita Pfefermann Heilberg
UNIFESP – São Paulo, SP
Jenner Cruz
USP – São Paulo, SP
João Tomas Abreu Carvalhaes
UNIFESP – São Paulo, SP
Jorge P. Strogoff de Mattos
CDR Niterói – Niterói, RJ
José Antonio Arruda
University of Illinois Medical Center Illinois, Chigago, USA
José Bruno de Almeida
UFRGN – Natal, RN
José Gastão Rocha de Carvalho
UFPR – Curitiba, PR
José Luiz Santello
USP – São Paulo, SP
José Nery Praxedes
USP – São Paulo, SP
José Osmar Medina Pestana
UNIFESP – São Paulo, SP
José Pacheco Martins Ribeiro Neto
Instituto Materno Infantil Prof.
Fernando Figueira – Recife, PE
José R.Coelho da Rocha
Hospital da Beneficência Portuguesa
do RJ –Rio de Janeiro, RJ
José Silvério Santos Diniz
UFMG – Belo Horizonte, MG
Júlio Toporovski
Santa Casa de São Paulo –
São Paulo, SP
Lauro Monteiro Vasconcelos Filho
UFES- Vitória, ES
Luis Yu
USP – São Paulo, SP
Luiz Antonio Miorin
Santa Casa de São Paulo –
São Paulo, SP
Luiz Estevam Ianhez
USP – São Paulo, SP
Luiz Sergio Azevedo
USP – São Paulo, SP
Margarida M. Dantas
UFBA- Salvador, BA
Maria Almerinda V.F.R. Alves
UNICAMP – Campinas, SP
Maria de Fátima Bandeira
CDR Botafogo – Rio de Janeiro, RJ
Maria Eliete Pinheiro Lessa
UFAL- Maceió, AL
Maria Ermecília A. Melo
UFBA – Salvador, BA
Mário Abbud Filho
FAMERP - S. J. Rio Preto - SP
Maurício Younes-Ibrahim
UERJ – Rio de Janeiro, RJ
Miguel Cendoroglo Neto
UNIFESP – São Paulo, SP
Miguel Luis Graciano
UFF – Niterói, RJ
Mirian A Boim- UNIFESP
São Paulo, SP
Nestor Schor
UNIFESP – São Paulo, SP
Olberes Vitor Braga Andrade
UNIFESP – São Paulo, SP
Omar da Rosa Santos
UNI-Rio – Rio de Janeiro, RJ
Pasqual Barretti
USP – Ribeirão Preto, SP
Paulo Benigno Pena Batista
UFBA – Salvador, BA
Paulo César Koch Nogueira
UNIFESP – São Paulo, SP
Pedro Alejandro Gordan
UEL- Londrina, PR
Rachel Bregman
UFF- Niterói, RJ
Regina Célia Abdulkader
USP – São Paulo, SP
Reinaldo Martinelli
UFBA –Salvador, BA
Roberto Ceratti Manfro
UFRGS – Porto Alegre, RS
Rogério Mulinari
UFPR- Curitiba, PR
Sandra Tereza Neiva Coelho
UFPE – Recife, PE
Sérgio Antonio Draibe
UNIFESP – São Paulo, SP
Sérgio Wyton Lima Pinto
Hospital São João de Deus em
Divinópolis – Divinópolis, MG
Sônia Leite da Silva
UFCE – Fortaleza, CE
Vanda Jorgetti
USP – São Paulo, SP
Vera Hermina K. Koch
USP – São Paulo, SP
Yvoty Alves dos Santos Sens
Santa Casa de São Paulo –
São Paulo, SP
ESCRITÓRIO EDITORIAL
Jornal Brasileiro de Nefrologia
Adriana Paladini
Secretária
Rua Machado Bittencout, 205 Conjunto 53
Vila Clementino CEP 04044-000, São Paulo, SP
Tel: (0xx11) 5579-1242
Fax: (0xx11) 5573-6000
E-mail: [email protected]
PRODUÇÃO
Tec-Art Editora
(11) 5542-6897
SUMÁRIO
Volume XXVI
Número 1 Suplemento 1 Maio
2005
CONSIDERAÇÕES INICIAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1
GRAUS DE RECOMENDAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2
CONSIDERAÇÕES SOBRE DEFINIÇÕES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3
DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .4
INDICAÇÕES DE BIÓPSIA RENAL EM GLOMERULOPATIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .6
INVESTIGAÇÃO CLÍNICO-LABORATORIAL BÁSICA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7
Investigação de Síndrome Nefrítica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7
Investigação de Síndrome Nefrótica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7
Investigação de Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .8
Investigação de Hematúria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9
Investigação de Proteinúria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9
TRATAMENTO DAS GLOMERULOPATIAS PRIMÁRIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10
Síndrome Nefrítica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10
Síndrome Nefrótica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11
Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15
NEFROPATIA POR IgA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19
GLOMERULOPATIAS SECUNDÁRIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .22
Nefrite Lúpica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .22
Glomerulopatias Associadas a Infecções Virais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .27
Glomerulopatias Associadas a Doenças Parasitárias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30
Nefropatia Diabética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .32
Glomerulopatia e Amiloidose . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .34
RENOPROTEÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .36
CONSIDERAÇÕES FINAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .38
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
REALIZAÇÃO:
Diretoria da Sociedade Brasileira de Nefrologia
(gestão 2003-2004)
PUBLICAÇÃO:
Diretoria da Sociedade Brasileira de Nefrologia
(gestão 2005-2006)
Na área de Glomerulopatias, é difícil chegar-se a
um consenso em termos de conduta, especialmente no
que se refere aos tratamentos com fins curativos, que em
geral correspondem a drogas imunossupressoras. Também escassos são os estudos envolvendo grande número
de indivíduos, o que em parte se deve ao fato de que as
doenças glomerulares são de um modo geral pouco
comuns, destacando-se em termos de freqüência apenas
como causa de insuficiência renal crônica terminal, por
encontrarem-se entre as suas três principais causas.
Poucas são as publicações que apresentam orientações referentes à tomada de conduta em glomerulopatias e menos ainda no âmbito nacional. Assim, surgiu a
necessidade de serem desenvolvidas as atuais Recomendações da SBN, ainda que deixem muito a dever quanto
ao nível de evidências dos estudos até o momento realizados em glomerulopatias.
Gostaríamos de deixar claro que não consideramos
recomendável que as orientações aqui relatadas sejam
usadas para fins de tratamento dos pacientes na ausência
de treinamento adequado e experiência com este tipo de
doenças renais. Os esquemas terapêuticos, ainda que expostos de forma detalhada, podem conter sutilezas não
percebidas pelo leitor. É sempre aconselhável manter
contato direto com um especialista particularmente dedicado ao estudo das doenças glomerulares e que tenha
experiência prática confirmada nesta área, quando
necessário.
Nesta publicação, avaliaremos as diversas glome-
COMISSÃO ORGANIZADORA:
Coordenadora
Profª. Dra. Gianna Mastroianni Kirsztajn (UNIFESP/SP)
Consultor
Prof. Dr. Rui Toledo Barros (USP/SP)
Autores
Profª. Dra. Gianna Mastroianni Kirsztajn (UNIFESP/SP)
Prof.Dr.OsvaldoMeregeVieira Neto(USP/RibeirãoPreto)
Profª. Dra. Patrícia Ferreira Abreu (UNIFESP/SP)
Profª. Dra. Viktoria Woronick (USP/SP)
Profª. Dra. Yvoty Alves Santos Sens (FM Santa Casa/SP)
rulopatias tomando por base a sua apresentação sindrômica. As informações deste texto serão apresentadas da
forma mais simples e esquemática possível, pois não é
nossa intenção redigir um livro sobre glomerulopatias e
sim relatar de forma objetiva orientações gerais sobre
investigação e tratamento das glomerulopatias, sem nos
determos em patogênese, fisiopatologia, epidemiologia e
outras peculiaridades.
Por fim, as recomendações sobre a investigação e
tratamento das doenças glomerulares em adultos, aqui
apresentadas, foram elaboradas em resposta a uma solicitação da Diretoria da SBN (gestão 2003-2004). Foram
convidados para este trabalho nefrologistas com reconhecida experiência na área de Glomerulopatias e, durante o
processo, contamos com o Prof. Dr. Rui Toledo Barros
como consultor. Toda a equipe participou da redação final
e revisão do estudo, mas cada membro contribuiu de
forma mais expressiva na redação de determinados temas,
quais sejam: nefropatia por IgA (Dra. Yvoty Alves Santos
Sens), nefrite lúpica (Dra. Viktoria Woronik), classificação, glomerulonefrites secundárias a hepatites virais e
HIV (Dr. Osvaldo Merege Vieira Neto), nefropatia diabética e nefropatia secundária a esquistossomose (Dra. Patrícia Ferreira Abreu) e demais aspectos (Dra. Gianna
Mastroianni Kirsztajn).
Após a conclusão da redação, as recomendações
foram disponibilizadas para consulta pública no site da
SBN. As sugestões encaminhadas aos autores foram introduzidas no texto final.
Profª. Dra. Gianna Mastroianni Kirsztajn
Coordenadora
GRAUS DE RECOMENDAÇÃO
Estas orientações foram fundamentadas na medida
do possível em Graus de Recomendação (citados abaixo),
baseados em níveis de evidências.
SISTEMA DE GRADUAÇÃO PARA
RECOMENDAÇÕES
A- As recomendações foram baseadas em 1 ou
mais estudos de nível 1;
B- O melhor nível disponível de evidências foi de
nível 2;
C- O melhor nível disponível de evidências foi de
nível 3;
D- O melhor nível disponível de evidências foi
inferior ao 3 e incluiu opinião de um expert.
Níveis de evidências para estudos de tratamento:
1. Estudo randomizado controlado (RCT) que
demonstrou diferença estatisticamente significante em pelo menos um desfecho importante;
2. Um RCT que não preenche os critérios nível 1;
3. Um estudo não-randomizado com controles
contemporâneos selecionados por um método
sistemático OU
Análise de subgrupo de um estudo randomizado;
4. Um estudo antes-depois ou série de casos (de
pelo menos 10 pacientes) com controles históricos ou controles retirados de outros estudos;
5. Série de casos (de pelo menos 10 pacientes)
sem controles;
6. Relatos de casos (menos do que 10 pacientes).
CONSIDERAÇÕES SOBRE DEFINIÇÕES
Vale lembrar que algumas definições variam
bastante de um estudo para outro, o que se constitui em
uma das razões pelas quais é bastante difícil tirar conclusões sobre os resultados, especialmente no que se refere à
resposta aos tratamentos instituídos.
Neste item, a intenção não é estabelecer quais as
definições que foram utilizadas neste texto, mas sim demonstrar a diversidade de definições eventualmente utilizadas nas publicações consultadas.
É preciso estar alerta para esses detalhes, para não
referir como comparáveis resultados de fato diferentes.
Vale salientar que, para alguns grupos de glomerulopatias,
apesar dessas variações, em geral se observa consistência
entre as conclusões de diferentes artigos; além disso, os
estudos de metanálise procuram levar em consideração
essas diferenças.
A título de exemplo, as seguintes definições podem ser encontradas para os mesmos itens em diferentes
estudos:
• Síndrome nefrótica
- Proteinúria de nível > 3,5 g/m2 de superfície corpórea/dia (ou > 3,0 g/dia), associada a hipoalbuminemia e edema
- Proteinúria > 50 mg/kg/dia em crianças, associada a
hipoalbuminemia e edema
- Em ambas as situações, podem ou não ser citadas as
elevações de colesterol e triglicerídeos, como integrantes das definições
• Remissão completa de síndrome nefrótica
- Negativação da proteinúria
- Redução da proteinúria para níveis inferiores a 0,3
g/dia
• Remissão parcial de síndrome nefrótica
- Redução da proteinúria para níveis entre 0,3-2,0 g/dia
- Redução da proteinúria para níveis não-nefróticos
• Outras
- Definições extremamente variadas são utilizadas
para insuficiência renal, desde valores acima da faixa da normalidade, passando pela definição de dobrar a creatinina sérica, às definições de insuficiência renal terminal.
DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO
O diagnóstico de certeza das doenças glomerulares
é obtido através da biópsia renal. Uma orientação geral
para que se chegue ao diagnóstico é dada, a seguir, nos
itens referentes à investigação das diversas síndromes de
apresentação dessas doenças.
No que se refere à Classificação das Doenças
Glomerulares, diferentes propostas foram utilizadas nas
últimas décadas, mas certamente nenhuma é
completamente satisfatória. Apresentamos a seguir uma
Classificação das Doenças Glomerulares (1), que pode ser
útil para o leitor.
Vale salientar que, mais recentemente, diversas
glomerulopatias vêm sendo reconhecidas como de
natureza familiar (exs.: GESF familiar, Nefropatia por
IgA familiar, entre outras) e esta característica não é
contemplada nas classificações mais antigas.
Além de uma classificação geral envolvendo
diversos tipos histológicos, é de grande aplicação prática
a classificação sindrômica dessas doenças, a qual será a
base da apresentação das doenças nesse texto.
CLASSIFICAÇÃO DAS DOENÇAS
GLOMERULARES
(Adaptado de BRENNER e RECTOR, 2000)
Doenças glomerulares primárias
Doença de lesões mínimas
Glomerulosclerose segmentar e focal
Glomerulonefrite proliferativa mesangial
- com depósitos de IgA (Doença de Berger)
- com depósitos de IgM ou outros
Glomerulonefrite membranosa
Glomerulonefrite membranoproliferativa
- tipo I (depósitos subendoteliais)
- tipo II (doença de depósitos densos)
- outros tipos
Glomerulonefrite crescêntica
Glomerulonefrite fibrilar
Glomerulonefrite imunotactóide
Glomerulopatia do colágeno III
Glomerulonefrites das doenças sistêmicas
Lúpus eritematoso sistêmico
Doença mista do tecido conjuntivo
Dermatomiosite
Púrpura de Henoch-Schönlein (púrpura anafilactóide)
Artrite reumatóide
Granulomatose de Wegener
Vasculite sistêmica
Síndrome de Sjögren
Amiloidose (primária ou secundária)
Doença de cadeia leve ou pesada
Sarcoidose
Glomerulonefrite antimembrana basal glomerular
- sem lesão alveolar
- com lesão alveolar (Síndrome de Goodpasture)
Crioglobulinemia mista
Epidermólise tóxica
Dermatite herpetiforme
Arterite de Takayasu
Lesões glomerulares das doenças infecciosas
Bactérias
- Glomerulonefrite pós-estreptocócica
- Endocardite infecciosa
- Nefrite por “shunt”
- Sífilis, Tuberculose, Hanseníase
- Ricketsia, Clamídea, Micoplasma
Vírus
- Síndrome da imunodeficiência humana (HIV)
- Hepatites B e C (com ou sem crioglobulinemia)
- Citomegalovírus
- Epstein Barr (Mononucleose infecciosa)
- Herpes zoster
Protozoários
- Malária (malária falciparum, malária quartã)
- Toxoplasmose
Helmintos
- Esquistossomose
- Leishmaniose visceral
- Filariose
- Triquinose
- Estrongiloidíase
- Opistorquíase
- Tripanossomíase
Lesões glomerulares nas neoplasias
Carcinoma de cólon, pulmão, estômago, mama, rim,
tireóide, ovário, colo uterino, próstata, pâncreas
Tumor de Wilms
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
Melanoma
Mesotelioma
Leucemia
Doença de Hodgkin, Linfoma não-Hodgkin
Macroglobulinemia de Waldenström
Lesões glomerulares nas doenças metabólicas
Glomerulopatia diabética
Doença de Graves, Mixedema
Lesões glomerulares nas doenças heredofamiliares
Doença de Alport
Doença da membrana fina (hematúria familiar benigna)
Síndrome “nail-patella” (osteonicodisplasia)
Doença de Fabry e outras lipoidoses
Anemia falciforme
Síndrome nefrótica congênita (tipo finlandês)
Deficiência de α-1 antitripsina
Síndrome de Jeune (Distrofia torácica asfixiante)
Cistinose (adulto)
Síndrome nefrótica infantil (esclerose mesangial difusa e
síndrome de Drash)
Doença de Von Gierke
Síndrome de Marie-Charcot-Tooth
Síndrome de Hurler
Síndrome de Galloway-Mowat
Disautonomia familiar
Drogas, toxinas, alergenos
Probenecid
Paradiona, trimetadiona
Mercúrio orgânico ou inorgânico
Ouro orgânico
Penicilamina, bucilamina
Captopril
Picada de abelha
Pólen
Antitoxinas (doença do soro)
Vacinas
Lítio
Anti-inflamatórios não-esteróides
Tolbutamida
Heroína
Rifampicina
Repelente de insetos
Difteria, pertussis, toxóide tetânico
Prata
α-Interferon
Clonidina
Warfarin
Veneno de cobra
Anti-inflamatório não-esteróide
Fenindiona
Mefenitoína
Tricloroetileno
Bismuto
Meio de contraste
Perclorato
Miscelânea
Toxemia gravídica
Refluxo vésico-ureteral
Retocolite ulcerativa
Nefroesclerose acelerada ou maligna
Rejeição crônica de transplante renal
Estenose de artéria renal
Obesidade
Doença cardíaca congênita (cianótica)
Doença pulmonar hipoxemiante
Radiação
Síndrome de Allagile (displasia artério-hepática)
Lipodistrofia parcial com glomerulonefrite membranoproliferativa tipo II
Linfangectasia intestinal
Jejunoileíte crônica
Esferocitose
Insuficiência cardíaca congestiva
Pericardite constritiva
Insuficiência tricúspide
Necrose papilar
Síndrome de Gardner-Diamond
Doença de Castleman
Síndrome de Kartagener
Síndrome de Buckley
Doença de Kimura
Exposição a sílica
Oligomeganefronia
Pós-necrose cortical
Pós-nefrectomia
Agenesia renal unilateral
5
INDICAÇÕES DE BIÓPSIA RENAL EM GLOMERULOPATIAS
Uma vez estabelecido o diagnóstico clínico-laboratorial de glomerulopatia, são indicações de realização de
biópsia renal, desde que os rins apresentem dimensões
normais (ou aumentadas) ao exame ultra-sonográfico e
que sejam levadas em conta contra-indicações absolutas à
sua realização:
( 1 ) Síndrome nefrótica em pacientes adultos;
( 2 ) Insuficiência renal de causa não-esclarecida;
( 3 ) Glomerulonefrite rapidamente progressiva;
São situações em que não há consenso quanto à
indicação de biópsia renal em todos os casos, porém cuja
realização é defensável:
( 1 ) hematúria isolada de origem glomerular;
( 2 ) hematúria associada a proteinúria de pequena
monta;
( 3 ) proteinúria isolada de pequena monta.
Não se recomenda a realização de biópsia renal em
casos de nefropatia diabética com apresentação e evolução
típicas.
Por fim, não se justifica biópsia renal em caso de
glomerulopatia, quando os rins estão contraídos, pois dificilmente se chega ao diagnóstico da doença original nessas
condições, havendo mais riscos que benefícios.
Deve-se deixar claro que ao indicar biópsia renal
em glomerulopatias, deve-se programar o envio de material para análise pelo menos pelas técnicas de microscopia
óptica e de imunofluorescência. Salientando-se que, em
caso de hematúria isolada, além dessas é essencial que se
disponha também de microscopia eletrônica. Em qualquer
situação, consideramos boa prática, sempre que possível,
colher material adequado para a análise pelas três técnicas
e lançar mão da microscopia eletrônica (ME) quando
necessário para dirimir dúvidas eventuais.
INVESTIGAÇÃO CLÍNICO-LABORATORIAL BÁSICA
Em todos os casos, a obtenção de história clínica
de forma minuciosa é essencial para que se chegue ao
diagnóstico. A pesquisa de antecedentes pessoais e
familiares, assim como exame físico cuidadoso completam esta primeira etapa.
De acordo com o quadro sindrômico, a abordagem
em termos de investigação deve ser diversificada.
INVESTIGAÇÃO DE SÍNDROME NEFRÍTICA
Definição: caracteriza-se por início súbito de
hematúria, proteinúria, oligúria, hipertensão arterial sistêmica e déficit de função renal, embora não seja essencial
que todas essas alterações ocorram simultaneamente; está
sempre presente a hematúria, associada a pelo menos uma
das outras anormalidades. Edema pode estar presente em
grau variável. Trata-se de síndrome de expansão do volume extracelular, incluindo-se o compartimento intravascular.
Investigação proposta em caso de suspeita de
síndrome nefrítica aguda e possíveis achados:
• Urina I: hematúria macro ou microscópica com
dismorfismo eritrocitário; se proteinúria presente, fazer determinação em 24h: proteinúria pode
estar presente, mas geralmente é menor do que
3,0 g/dia.
• Creatinina sérica: pode ou não estar aumentada.
• Complemento: diminuição de CH50 e C3.
• Pesquisa de doenças de base – vide investigação
de glomerulonefrite rapidamente progressiva (2).
INVESTIGAÇÃO DE SÍNDROME NEFRÓTICA
Definição: síndrome caracterizada pela presença
de edema devido a hipoalbuminemia secundária a
proteinúria. Na prática, a albuminemia costuma ser
inferior a 3,0 g/dL e a proteinúria superior a 3,0 g/24h;
não são constituintes essenciais da definição hiperlipidemia (aumento de colesterol e triglicerídeos) e lipidúria,
embora em geral também estejam presentes.
Deve-se avaliar a presença e extensão do edema,
assim como caracterizá-lo (locais e horários de
surgimento ou agravamento, tempo de instalação, outras).
Uma vez constatadas as alterações urinárias que levam à
suspeita do quadro, a investigação deve ser completada
com a determinação de creatinina sérica, das proteínas
séricas (proteínas totais e frações ou eletroforese) e
proteinúria de 24 horas, assim como pela realização de
um exame ultra-sonográfico renal.
Uma vez feito o diagnóstico da síndrome nefrótica
em si, deve-se proceder à investigação etiológica, que terá
implicações na conduta terapêutica.
Os exames a serem feitos com esse objetivo
incluem:
1 - hemograma
2 - glicemia
3 - exame de fezes: pacientes com esquistossomose podem apresentar lesão glomerular
com síndrome nefrótica; se os antecedentes
para esquistossomose forem positivos e o
exame de fezes não demonstrar a presença de
ovos de S. mansoni, deve-se fazer biópsia de
valva retal na tentativa de estabelecer esse
diagnóstico
4 - pesquisa de anticorpos antinucleares
5 - sorologia para hepatites B e C;
6 - reação sorológica para sífilis, não só para
diagnóstico de sífilis em si, mas ressaltando-se
a aplicação do VDRL (falso-positivo) como
indício de lúpus eritematoso sistêmico;
7 - pesquisa de anticorpos anti-HIV, em pacientes
pertencentes a grupo de risco para síndrome de
imunodeficiência adquirida;
8 - exames específicos para outras doenças
infecciosas com base na suspeita clínica.
9 - avaliação dirigida a neoplasias: neoplasia é
uma possibilidade a ser aventada, particularmente em pacientes idosos, mas a extensão
da investigação deve ser julgada criteriosamente.
Investigação Clínico-Laboratorial Básica
8
Aspectos histológicos das glomerulopatias primárias.
Microscopia
óptica
Imunofluorescência Microscopia
eletrônica
DLM
Normal
Negativa
fusão dos processos
podais
GESF
hialinose e/ou
esclerose
segmentar e focal
Negativa ou IgM
e C3
esclerose focal, fusão
de processos podais
parede capilar
espessada;
espículas na
MBG (prata)
IgG e C3, granular,
nas alças capilares
depósitos
subepiteliais
GNMP I celularidade
mesangial;
aumentada
duplicação das
alças capilares
C3, imunoglobulinas
variadas
depósitos
subendoteliais;
interposição
mesangial
GNMP II igual ao tipo I
C3
depósitos densos
intramembranosos
GNMP III igual ao tipo I
igual ao tipo I
igual ao tipo I +
depósitos subepiteliais
GNM
Medidas gerais em caso de síndrome nefrótica
1 - Dieta
Muitos pacientes com síndrome nefrótica voltam a
apresentar uma diurese satisfatória após repouso no leito
e restrição leve de sódio.
A dieta do paciente com síndrome nefrótica que
mantém função renal normal deve ser hipossódica e
normoprotéica. A ingestão de líquidos deve ser controlada.
2 - Restauração do volume extracelular
Já que o volume plasmático pode estar contraído,
os diuréticos devem ser usados com cautela para evitar
hipotensão e insuficiência renal aguda. São mais efetivos,
nessa condição, os diuréticos de alça. Eventualmente é
necessário usar uma combinação de diuréticos para obter
o efeito desejado (por exemplo, diuréticos que atuem em
dois sítios diferentes, como clortalidona e furosemida).
Pacientes em anasarca podem requerer a administração
endovenosa de diuréticos de alça, às vezes associada ao
uso de expansores plasmáticos.
Infusões de albumina permitem aumentar a pressão
oncótica do plasma transitoriamente e, podem, dessa
maneira, expandir o volume plasmático, aumentando a
eficácia dos diuréticos utilizados. Pelo fato de a maior
parte da albumina ser excretada para a urina nas 24 a 48
horas que se sucedem à sua administração, esse tratamento
deve ser reservado para aqueles pacientes com evidências
clínicas de depleção profunda do volume intravascular.
3 - Prevenir complicações imediatas e tardias
4 - Controle rigoroso da pressão arterial
5 - Limitar progressão para insuficiência renal
crônica (IRC): medidas de renoproteção.
6 - Avaliar o risco do uso de drogas imunossupressoras no caso em questão versus medidas
preventivas que podem ser instituídas(3).
INVESTIGAÇÃO DE GLOMERULONEFRITE
RAPIDAMENTE PROGRESSIVA (GNRP)
Definição: é uma síndrome que se caracteriza por
declínio rápido da função renal (ao longo de dias ou semanas) associado a uma glomerulonefrite, geralmente em
presença de achados sugestivos de síndrome nefrítica
aguda. As glomerulonefrites que, clinicamente, têm um
comportamento rapidamente progressivo manifestam-se
freqüentemente, à histopatologia, como glomerulonefrites
crescênticas.
A classificação dessas glomerulonefrites baseia-se
no resultado do exame de imunofluorescência, cujos
achados caracterizariam três diferentes mecanismos de
injúria glomerular; portanto, é essencial que o material de
biópsia renal seja avaliado por esta técnica.
Classificação de acordo com a imunofluorescência:
I - Presença de depósitos lineares
Glomerulonefrite por anticorpos anti-membrana
basal glomerular (com ou sem síndrome de Goodpasture)
II - Presença de depósitos granulares de imunocomplexos
Glomerulonefrites pós-infecciosas: infecções
bacterianas, virais e outras
Doença de Berger - Púrpura de Henoch-Schönlein
Glomerulonefrite lúpica
Glomerulonefrite da crioglobulinemia mista
Glomerulonefrites idiopáticas
III - Ausência de depósitos significativos (pauciimune) - em geral associadas com ANCA
Glomerulonefrite da poliangeíte microscópica
Glomerulonefrite da granulomatose de Wegener
Glomerulonefrites idiopáticas (com crescentes
e/ou necrotizantes, sem evidências clínicas de vasculite
sistêmica)
Além da investigação básica que envolve exame
de urina (Urina I), proteinúria de 24 horas, creatinina sérica, ultra-sonografia renal, a escolha dos exames a serem
realizados depende da suspeita diagnóstica. Segue-se
uma apresentação simplificada dos exames laboratoriais
utilizados para investigação de cada tipo de GNRP:
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
- por anticorpo (Ac) anti-membrana basal glomerular (MBG): Pesquisa de Ac anti-MBG.
- por imunocomplexos: Pesquisa de FAN, antiDNA, crioglobulinas, ASLO, determinação do perfil de
complemento, sorologias para hepatites B e C, anti-HIV,
hemoculturas e, por vezes, ecocardiografia, conforme as
suspeitas clínicas mais relevantes em cada caso; outros.
- pauci-imune: Pesquisa de ANCA.
No que se refere às manifestações clínicas, as três
formas de GNRP compartilham hematúria, proteinúria,
diminuição do volume urinário, edema e hipertensão arterial. Os pacientes com doença por Ac anti-MBG podem
apresentar também hemorragia pulmonar com hemoptise
devido aos anticorpos dirigidos contra a membrana basal
alveolar. Achados clínicos similares podem também ser observados em poliangeíte microscópica e granulomatose de
Wegener(4) e lúpus eritematoso sistêmico(5) em decorrência do envolvimento dos vasos por processo de vasculite.
Vale salientar que, em caso de suspeita de GNRP, é
essencial um rápido diagnóstico, o que implica em
distinguir esta condição de outras causas de insuficiência
renal de início agudo e com achados urinários semelhantes.
Assim, a biópsia renal está indicada e deve ser feita o
quanto antes; porém, diferente do que se observa em outras
glomerulonefrites, o tratamento “específico” (pulsoterapia
endovenosa) deve ser instituído independe de sua realização e da disponibilidade do resultado, a menos que se constate uma contraindicação, como infecção relevante e ativa.
9
deve-se avaliar a função renal (creatinina sérica e/ou sua
depuração) e fazer uma exame ultra-sonográfico dos rins
e vias urinárias. Além disso, possíveis doenças de base
responsáveis por tal alteração devem ser investigadas, incluindo a pesquisa de consumo de complemento, exames
dirigidos a investigação de colagenoses e infecções virais,
por exemplo.
Havendo história familiar de doença renal,
insuficiência renal crônica ou transplante renal, a
realização de uma audiometria e avaliação oftalmológica podem ser bastante úteis na busca de evidências que favoreçam o diagnóstico de doença de
Alport.
Após esta avaliação inicial, se houver suspeita de
doença de Berger, doença de Alport ou doença de membrana fina, deve-se considerar a indicação de biópsia
renal. Lembrar, contudo, que tais doenças, enquanto se
manifestarem apenas como hematúria isolada, não têm
tratamento específico e que a biópsia trará informações
importantes; porém, neste primeiro momento, mais
utilizáveis para aconselhamento genético ou planejamento futuro, o que sem dúvida é relevante
(sobretudo para aquele paciente que seja candidato a
um transplante renal). De qualquer forma, essas
biópsias só devem ser feitas se houver disponibilidade
das técnicas de imunofluorescência e de microscopia
eletrônica, sem as quais os diagnósticos acima não
podem ser feitos (6).
INVESTIGAÇÃO DE PROTEINÚRIA
INVESTIGAÇÃO DE HEMATÚRIA
Em caso de hematúria de origem glomerular provável (presença de dismorfismo é um indício favorável),
Pacientes com qualquer nível de proteinúria
devem ser submetidos à mesma sistemática de investigação dos pacientes com síndrome nefrótica (7).
REFERÊNCIAS
1. Brenner BM, Rector FC: The Kidney. 6th ed. Philadelphia,
WB Saunders, 2000, p. 1267.
2. Mastroianni Kirsztajn G, Pereira AB: Síndrome Nefrítica. In:
Prado FC, Ramos JA, Valle JR. Atualização Terapêutica
2003. São Paulo, Artes Médicas, 2003, pp. 814-6.
3. Mastroianni Kirsztajn G, Pereira AB: Síndrome Nefrótica. In:
Prado FC, Ramos JA, Valle JR. Atualização Terapêutica
2003. São Paulo, Artes Médicas, 2003, pp. 816-8.
4. Jindal KK: Management of idiopathic crescentic and diffuse
proliferative glomerulonephritis: Evidence-based recommen-
dations. Kidney Int 55(Suppl. 70): S56-62, 1999.
5. Calamia KT, Balabanova M: Vasculitis in systemic lupus
erythematosus. Clin Dermatol 22(2): 148-56, 2004.
6. Mastroianni Kirsztajn G. Hematúria: Aspectos Clínicos. In:
Schor N, Srougi M. Nefrologia-Urologia Clínica. São Paulo,
Sarvier, 1998, pp. 133-8.
7. Burgess E: Conservative treatment to slow deterioration of
renal function: Evidence-based recommendations. Kidney
Int 55(Suppl. 70): S17-25, 1999.
TRATAMENTO DAS GLOMERULOPATIAS PRIMÁRIAS
Vale salientar que são poucas as situações em que
existem tratamentos consensuais em caso de glomerulopatias. A heterogeneidade dos desenhos dos estudos,
dos esquemas de tratamento empregados, dos critérios de
inclusão, dos desfechos estudados e as informações de
seguimento disponíveis são fatores que dificultam a
interpretação dos resultados dos estudos realizados sobre
tratamento em glomerulopatias.
Mesmo estudos prospectivos e randomizados
ainda revelam resultados bastante variáveis em relação às
opções terapêuticas mais adequadas para algumas doenças glomerulares. Em sendo assim, a seguir, serão expostas as medidas mais consistentes em cada caso, sempre
que possível, acompanhadas de uma avaliação do grau
das evidências para uma determinada recomendação.
É preciso lembrar antes de iniciar qualquer
tratamento com medicamentos imunossupressores os riscos decorrentes do uso dessas drogas (infecções, osteoporose, infertilidade, entre outros), particularmente em
pacientes com propensão a determinadas complicações.
Faz-se também rotineiramente o tratamento profilático para estrongiloidíase, face à gravidade dos quadros
observados diante desta infestação na vigência de imunossupressão.
Na seqüência, o tratamento será apresentado em
função das seguintes subdivisões:
• Síndrome Nefrítica
• Síndrome Nefrótica (DLM, GESF, GNM, GNMP)
• Glomerulonefrite rapidamente progressiva
• Nefropatia por IgA
• Glomerulopatias Secundárias a lúpus eritematoso sistêmico, doenças virais e parasitárias,
diabetes e amiloidose
• Renoproteção
SÍNDROME NEFRÍTICA
O protótipo desta síndrome é a glomerulonefrite
pós-estreptocócica.
Tratamento de síndrome nefrítica sem complicações (em caso de diagnóstico presuntivo de glomerulonefrite pós-estreptocócica)
• Dieta hipossódica e repouso enquanto houver
expansão do volume hídrico corporal.
• Sintomáticos: diuréticos, anti-hipertensivos.
• Imunossupressão: na maioria das vezes não é
necessário; apenas nos raros casos com oligúria prolongada, proteinúria nefrótica com hipoalbuminemia ou
insuficiência renal rapidamente progressiva, com crescentes glomerulares à biópsia renal, pode haver indicação
(que não é formal) de uso de imunossupressores.
SÍNDROME NEFRÓTICA
Tratamento Específico das Glomerulopatias que se
apresentam predominantemente com síndrome nefrótica
de acordo com os tipos histológicos
Tratamento de Doença de Lesões Mínimas (DLM)
(Recomendações baseadas sobretudo em estudos feitos
em crianças)
Tratamento de escolha: corticoterapia
Recomendação 1: Tratamento inicial
O tratamento de primeira escolha para DLM é
prednisona VO (Grau A), na dose de 1mg/kg/dia (máximo
de 80 mg/dia), por até 16 semanas em adultos (Grau C).
Comentários - Rec. 1: A DLM é responsável por
mais de 90% dos casos de síndrome nefrótica idiopática
em crianças pequenas. Devido à sua elevada freqüência, a
realização de numerosos estudos clínicos tornou-se
possível, gerando evidências suficientes para o tratamento
adequado. As doses e duração de tratamento são (para
crianças) de 60mg/m 2/dia (até um máximo de 80 mg/dia)
por 4 a 6 semanas e, depois, 40mg/m2/dia de prednisona
em dias alternados por 4 a 6 semanas.
Os primeiros estudos não-controlados na década
de cinqüenta já revelavam que mais de 90% das crianças
com essa condição respondiam a corticoterapia. Esquemas de tratamento bem aceitos foram propostos pelo
International Study of Kidney Diseases in Children
(ISKDC) e pelo Grupo Colaborativo Europeu Arbeitsge meinschaft fur Padiatrische Nephrologie (APN), que são
a base desta primeira recomendação(1,2). Terapias mais
curtas que esta implicaram em recidivas mais freqüentes
e mais precoces (3).
A análise retrospectiva de aproximadamente 400
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
crianças com DLM mostrou que aquelas que respondiam
às primeiras 8 semanas de terapia com remissão completa
e mantinham remissão ao longo dos próximos 6 meses
tinham um prognóstico excelente, com recidivas muito
raras ou ausentes. Já recidiva nos primeiros 6 meses previa recidivas posteriores nos próximos 3 anos. Não alcançar remissão nas primeiras 8 semanas também se associou
com o desenvolvimento de insuficiência renal(4).
Recomendação 2: Tratamento de recidiva
Pacientes que apresentam recidiva após o tratamento
inicial, devem ser tratados com prednisona VO (Grau A).
Comentários - Rec. 2: Em crianças, utiliza-se a
dose de 60mg/m2/dia (máximo de 80 mg/dia) até
negativação da proteinúria (mantida por 3 dias) e, depois,
40mg/m2de prednisona em dias alternados por 4 semanas.
A maior parte das crianças apresenta recidivas e o
esquema descrito é bem sucedido, sem implicar em doses
cumulativas maiores de corticóide, pois a redução é
iniciada com base na negativação da proteinúria e não no
tempo decorrido de tratamento (2).
Recomendação 3: Recidivas freqüentes
Pacientes que recidivam freqüentemente deveriam
ser tratados com um dos seguintes esquemas
(1) ciclofosfamida – 2 mg/kg/dia, 8 semanas (Grau A) ou
(2) clorambucil – 0,1-0,2 mg/kg/dia, 8 semanas (Grau A) ou
(3) prednisona (novamente) (Grau D) ou
(4) prednisona em dias alternados por tempo prolongado
(Grau D)
Comentários - Rec. 3: Define-se como recidivante
freqüente o indivíduo que responde a corticóide, mas
apresenta 2 recidivas nos primeiros 6 meses após a
resposta inicial ou tem 4 recidivas ao longo de um ano
qualquer. Há relatos de que até 1/4 das recidivas em
recidivantes freqüentes podem apresentar remissão
espontânea. A aplicabilidade das recomendações descritas em caso de recidivas múltiplas está claramente definida com base na sua graduação(3).
Recomendação 4: Córtico-dependência
Pacientes com DLM córtico-dependentes deveriam
ser tratados com
(1) ciclofosfamida - 2 mg/kg/dia – 12 semanas (Grau A) ou
(1) CsA – 4-5 mg/kg/dia para adultos (Grau A), por tempo
não-definido
Comentários - Rec. 4: Dez a 20% das crianças
terão 3 ou 4 recidivas córtico-sensíveis e metade delas
tornar-se-ão recivantes freqüentes ou córtico-dependentes. Diante da toxicidade implícita no tratamento prolon-
11
gado com corticóide, outras drogas tendem a ser utilizadas nessa situação (citotóxicos, CsA).
Córtico-dependência é definida como 2 recidivas
consecutivas que ocorrem durante o tratamento ou nos 14
dias que se seguem à conclusão da corticoterapia.
O uso repetido ou prolongado de corticóide nos
recivantes freqüentes ou córtico-dependentes associa-se
ao risco de efeitos colaterais como retardo de crescimento, osteoporose, obesidade e catarata.
Agentes alquilantes e CsA são efetivos em situações de córtico-dependência e produzem remissão mais
prolongada(3).
Recomendação 5: Córtico-resistência
As seguintes opções podem ser consideradas:
(1) Ciclofosfamida – 2 mg/kg/dia – 12 semanas (Grau D);
(2) CsA – 4-5 mg/kg/dia para adultos, por tempo não
definido (Grau D)
Comentários - Rec. 5: As alternativas atualmente
estudadas em córtico-resistência têm baixo nível de evidências favorecendo o seu uso, mas podem ser justificáveis
diante da tendência a progressão para insuficiência renal
crônica na ausência de controle da síndrome nefrótica.
Em indivíduos adultos com DLM, fala-se em
córtico-resistência com 16 semanas de uso da droga em
dose plena(5, 6) .
Proposta de algoritmo de tratamento de DLM
(Confirmada por biópsia renal em adultos)
Prednisona VO
å
Resposta
Não-resposta
Córtico-resistência
CFF ou CsA
Recidiva
Prednisona VO
å
Recidivas freqüentes
CFF, CLR, prednisona
Córtico-dependência
CFF ou CsA
Abreviações: CFF = ciclofosfamida; CLR = clorambucil;
CsA = ciclosporina.
Tratamento de Glomerulosclerose Segmentar e Focal
(GESF)
O curso da doença é variável. Os pacientes que não
respondem a tratamento tendem a evoluir para insuficiência
renal crônica, num percentual de casos que varia de 30 a
63%. Os pacientes não-tratados apresentam uma evolução
semelhante à dos que não respondem a tratamento.
Tratamento das Glomerulopatias Primárias
12
São considerados como fatores de mau prognóstico:
• Creatinina sérica inicial aumentada;
• Fibrose intersticial;
• Hipertensão arterial sistêmica;
• Proteinúria de nível nefrótico;
• Ausência de resposta a tratamento.
Não há achados clínicos ou histológicos definitivos capazes de prever a resposta a tratamento.
Recomendação 1
Tratamento com prednisona na dose de aprox. 1 mg/
kg/dia.
Manter tratamento por 6 meses antes de concluir que
o paciente é córtico-resistente.
Remissões associam-se a doses de pelo menos 60
mg/dia; se necessário, reduzir para 0,5 mg/kg/dia, mas
apenas após 3 meses (Grau D).
Comentários - Rec.1: Não têm sido desenvolvidos
estudos randomizados em síndrome nefrótica por GESF,
utilizando corticóide VO. Relatos de séries de casos dão
suporte ao uso de prednisona numa dose de 1 mg/kg/dia,
em adultos, em um tratamento inicial, por pelo menos 4
meses, não se podendo falar em córtico-resistência antes
de 6 meses de corticoterapia (7).
Essas recomendações não se referem ao tratamento da forma colapsante da GESF.
Recomendação 2
O uso de CsA em doses de aproximadamente 4-5
mg/kg/dia pode ser efetivo com o objetivo de reduzir
proteinúria.
Comentários - Rec.2: O esquema proposto para
tratamento com CsA tem sido de 4-5 mg/kg/dia (adultos),
em 2 tomadas. Em não-responsivos, é aconselhável
suspender com 6 meses; nos responsivos, uma
possibilidade é retirar 25% da dose a cada 2 meses, com
suspensão em 12 meses. Entretanto, recidiva após
redução da dose ou suspensão da CsA é muito comum
(Grau B) e o uso prolongado de CsA pode ser necessário
para manter remissão (Grau D) (7).
Esse tipo de esquema tem sido proposto em
situações de córtico-resistência e de córtico-dependência.
A CsA é uma droga nefrotóxica e que também
pode levar ao desenvolvimento de hipertensão arterial,
dentre outros efeitos indesejáveis. Diante disso, ao
indicar o seu uso em glomerulopatias, é importante
considerar a lesão túbulo-intersticial preexistente,
assim como monitorizar a função renal do paciente, os
níveis sangüíneos da medicação e seus efeitos
colaterais.
Recomendação 3
Terapia citotóxica (ciclofosfamida e clorambucil) pode
ser considerada como tratamento de segunda linha (Grau
D), mas as evidências não são conclusivas.
Comentários - Rec.3: Os estudos mais freqüentemente utilizaram agentes citotóxicos em conjunção com
prednisona em doses variáveis, o que dificulta a avaliação
dos resultados obtidos.
Recomendação 4
Plasmaferese ou adsorção de proteínas podem ser
recomendadas para pacientes submetidos a transplante
renal com GESF recorrente (Grau D).
Comentários - Rec.4: Esta recomendação baseia-se na possibilidade de que a a recorrência da GESF pós-transplante, em geral, esteja associada com a existência
de um fator circulante de permeabilidade glomerular. Os
resultados alcançados com essas medidas têm sido
variáveis e a plasmaferese tem sido utilizada, tanto antes
quanto após o transplante.
Proposta de algoritmo de tratamento de GESF
Prednisona VO
(dose alta, por até 6 meses)
å
Resposta
Não-resposta
Córtico-resistência
CsA
(alternativa: droga citotóxica)
Estudos mais recentes têm sugerido o uso de
micofenolato mofetil (MMF) em DLM e GESF, especialmente em situações de síndrome nefrótica multirrecidivante, mas os estudos realizados incluem poucos
pacientes e ainda carecem de consistência(8,9).
Finalmente, em casos de GESF secundária a
condições associadas com hiperfiltração e/ou massa
reduzida de nefrons, a abordagem terapêutica para todos
os pacientes com proteinúria deveria incluir um bom
controle da pressão arterial através de drogas que
bloqueiam o sistema renina-angiotensina, devido à sua
ação no sentido de reduzir proteinúria e dimimuir a
velocidade de progressão para insuficiência renal(10).
Tratamento de Glomerulopatia Membranosa (GNM)
A GNM pode ser secundária a diversas condições,
como hepatite B e outras infecções, terapia com diversas
drogas (por exemplo, ouro, penicilamina), lúpus eri-
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
tematoso sistêmico e neoplasias; entretanto, em adultos,
na maior parte dos casos, a GNM é idiopática. Apresenta-se mais freqüentemente como síndrome nefrótica, mas
por vezes também como proteinúria assintomática, com
ou sem hipertensão arterial.
Tem sido difícil estabelecer o papel de estratégias
de tratamento para GNM idiopática, devido ao curso
variável da doença e, particularmente por causa do desenvolvimento de remissão espontânea, considerado como
alto, e que pode vir a ocorrer meses ou anos após o início
da síndrome nefrótica. A questão do tratamento da GNM
pode ser abordada por duas vertentes: tratamento sintomático (controle de edema e dislipidemia) e terapias
dirigidas a induzir remissão da proteinúria e prevenir
progressão(11).
Utilizando um modelo preditivo, Cattran et al.(12)
demonstraram que o fator mais importante no sentido de
determinar a evolução a longo prazo em GNM foi o
período de 6 meses de proteinúria sustentada mais elevada. O modelo foi capaz de prever pacientes de alto risco
para progressão com uma acurácia de mais de 85%, independente das diferenças que apresentavam no período
basal.
São considerados como fatores de bom prognóstico em GNM:
(1) Ser do sexo feminino, criança ou adulto jovem;
(2) Doença secundária ao uso de drogas;
(3) Proteinúria inferior a 3,5 g/dia;
(4) Manutenção de função renal normal nos
primeiros 3 anos de doença(12).
As recomendações para tratamento imunossupressor em GNM referem-se até a presente data apenas às
situações em que se observa proteinúria nefrótica.
A posição mais aceita atualmente é a de que os
esquemas terapêuticos que incluem drogas citotóxicas
não devem ser prescritos para todos os pacientes nefróticos com GNM, mas estão indicados em caso de alto
risco de progressão, com base em idade, sexo, função
renal, pressão arterial, severidade e persistência da síndrome nefrótica, assim como grau de severidade da lesão
túbulo-intersticial.
Vale lembrar, ainda, que o uso de imunossupressores até o momento não é justificável em pacientes
com proteinúria não-nefrótica (11).
Recomendação 1
Corticosteróides VO não devem ser usados como
tratamento isolado (Grau A).
Comentários - Rec.1: Não há benefícios com
curso prolongado ou curto de corticóide VO, em dias
alternados, quer para induzir remissão de síndrome
13
nefrótica, quer para preservar a função renal em pacientes
com GNM. Vale salientar que, no U.S. Collaborative
Study of Adult Idiopathic Nephrotic Syndrome (CSAINS),
visto abaixo, o curto período de seguimento e a evolução
pior do que seria esperado no grupo placebo foram
motivo de críticas ao estudo(11).
Tabela. RCTs (3 estudos com nível de evidência
1) sobre corticoterapia VO em GNM.
Estudo Data N
CSAINS 1979 72
Esquema
Prednisona 100-150mg
VO dias alternados
8-12 semanas x
placebo
1989 158 Prednisona 45 mg/m 2
VO dias alternados
6 meses x placebo
Comentários
Queda rápida da função
renal em controles;
prednisona associou-se
com mais remissões.
Cattran*
Sem diferença nas taxas
de remissão a curto ou
longo prazo ou de
progressão para IRC
Cameron** 1990 107 Prednisona 125-150mg Discreto e precoce (3-6 me)
VO dias alternados
benefício na proteinúria;
8 semanas x placebo mas, sem diferença na
função renal ou proteinúria
em 36 meses.
* Toronto Glomerulonephritis Study Group
**British Medical Research Trial
Recomendação 2
Azatioprina não deve ser usada no tratamento de
GNM (Grau C).
Azatioprina é ineficaz em induzir remissão de SN ou
prevenir IR, isolada ou combinada com corticóide.
Comentários - Rec.2: Os poucos estudos com azatioprina sugerem que ela é inadequada para tratar GNM,
embora haja exceções (13).
Recomendação 3
Tratamento com agentes alquilantes induz remissão
prolongada em GNM (Grau A).
Comentários - Rec.3: A maioria dos estudos
controlados usou a combinação de corticóide com agentes
alquilantes e, por isso, recomenda-se o uso conjunto de
tais drogas. Face à toxicidade potencial desse tipo de
tratamento, muitos consideram que deve ser reservado
para pacientes com alto risco de progressão para
insuficiência renal (Grau A).
Diferentes estudos com GNM apresentam resultados conflitantes e uma das explicações para isso seria a
heterogeneidade das populações estudadas, algumas
envolvem pacientes com síndrome nefrótica bem definida
e com elevada proporção de pacientes com proteinúria
maciça; outras correspondem a pacientes com proteinúria
nefrótica e não-nefrótica analisados de forma conjunta(11),
Tratamento das Glomerulopatias Primárias
14
assim como a inclusão ou não de indivíduos que já
apresentam insuficiência renal, fatores com prováveis
implicações prognósticas. Os estudos também diferem
quanto às doses das medicações e tempo de uso, duração
de seguimento, definições de remissão, entre outros
aspectos.
Ponticelli tem publicado os resultados do tratamento de GNM com esquema de pulsoterapia com metilprednisolona EV (associado a prednisona VO) alternado,
a intervalos mensais, com o uso oral de clorambucil (a
pulso com metilprednisolona nos meses 1, 3 e 5 e o clorambucil nos meses 2, 4 e 6). Em publicação de 1984, em
que tal esquema foi comparado com terapia sintomática
ao longo de seis meses, em um RCT envolvendo pacientes com síndrome nefrótica por GNM(14), observou-se
remissão (parcial ou completa) em 23/32 tratados versus
9/30 controles. O estudo publicado em 1992 comparou o
esquema combinado já citado com corticóide usado de
forma isolada em 92 pacientes adicionais, favorecendo o
primeiro esquema (66% em remissão após 3 anos vs. 40%
dos controles)(15). A avaliação da sobrevida renal, com 10
anos de seguimento, revelou uma probabilidade de
sobrevida de 0,92 para os pacientes tratados com o
chamado “esquema de Ponticelli” versus 0,60 para
aqueles submetidos a tratamento sintomático(16).
Quando comparado o uso de ciclofosfamida com o
de clorambucil em metanálises de RCTs, não foram encontradas diferenças entre os resultados obtidos com essas
drogas. Mais recentemente, Perna et al., em metanálise
envolvendo pacientes com GNM, constatou apenas um
menor número de efeitos colaterais com ciclofosfamida(17).
O esquema de Ponticelli corresponde ao uso de
pulsoterapia com metilprednisolona no 1º, 3º e 5º meses
de tratamento (e manutenção com prednisona 0,5
mg/kg/dia VO) alternado com a droga citotóxica escolhida (clorambucil ou ciclofosfamida VO) no 2º, 4º e 6º
meses, num total de 6 meses de tratamento. Para maiores
detalhes quanto às doses recomendadas, consultar as
publicações do grupo de Ponticelli (11, 14, 15) .
Recomendação 4
CsA é uma opção de tratamento para pacientes com
GNM que têm risco elevado de IR progressiva (Grau B).
Comentários - Rec.4: O esquema de CsA
preferencialmente utilizado nesta condição é o de 4-5
mg/kg/dia por 12 meses. Freqüentemente a CsA é
usada em conjunção com corticóide nas séries
relatadas, com resultados promissores em termos de
remissão da SN, preservação da função renal e
nefrotoxicidade. A dose deve ser ajustada de acordo
com o nível sangüíneo (11).
ANTICOAGULAÇÃO
As complicações tromboembólicas, especialmente
trombose de veia renal, são freqüentes em síndrome
nefrótica em geral e mais ainda em GNM. As incidências
descritas são extremamente variáveis, indo de 5 a 60%,
possivelmente pelo grande número de casos subclínicos
que vêm a ser identificados em estudos que envolvem
pacientes assintomáticos. Independente destes achados,
não é usual fazer-se anticoagulação profilática nesta
condição, em todo o mundo.
Um estudo de modelo de decisão(18) mostrou que
os benefícios da anticoagulação profilática sobrepujariam
os riscos em síndrome nefrótica por GNM, mas não há
RCTs a esse respeito. Por isso, em geral, tal conduta é
recomendada apenas em casos de alto risco para trombose
venosa, como aqueles com proteinúria de nível nefrótico
severa ou prolongada.
Proposta de algoritmo de tratamento de GNM
Paciente com síndrome nefrótica
Avaliação da situação de risco
å
Baixo risco
Observação, Renoproteção
å
Baixo risco
Alto risco
Esquema com CFF ou CLR
Renoproteção
Alto risco
mesmas seqüências anteriores
Ausência de resposta
Alternativa: CsA
Há uma tendência mundial a não se tratar todos os
pacientes com síndrome nefrótica por GNM (face à boa
evolução espontânea em considerável número de casos),
mas a indicar o tratamento com drogas citotóxicas para
todos os que tiverem indícios de mau prognóstico, já que
estudos randomizados controlados têm demonstrado
benéficos, a longo prazo, com o uso dessas drogas, tanto
em relação à remissão da síndrome nefrótica, como à taxa
de progressão para insuficiência renal.
Tratamento de Glomerulonefrite Membranoproliferativa
(GNMP)
A GNMP pode ser subdividida do ponto de vista
histológico, classicamente em tipo I, tipo II e tipo III,
embora variações dessa classificação já tenham sido
propostas.
Para falar-se em GNMP primária é muito importante afastar como causas da doença as hepatites B e C,
particularmente esta última, HIV e outras infecções, além
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
de doenças do colágeno; em nosso meio, não podemos
esquecer da associação com esquistossomose.
A sobrevida renal da forma idiopática em 10 anos
é de aproximadamente 60%, com base sobretudo em
estudos europeus.
Síndrome nefrótica, hipertensão arterial e acometimento túbulo-intersticial são considerados fatores prognósticos desfavoráveis relevantes nesta glomerulopatia.
Recomendação 1
Tratamento em GNMP idiopática é reservado para
aqueles pacientes com proteinúria nefrótica, doença
intersticial na biópsia renal ou função renal reduzida
(Graus B e C).
Comentários - Rec.1: Os estudos de tratamento em
GNMP são por demais heterogêneos, variando em relação
aos tipos de GNMP incluídos, idade dos pacientes, definições de tratamentos bem sucedidos, duração de tratamento e de seguimento, entre outros pontos. A dificuldade
é ainda maior devido ao pequeno número de pacientes
incluídos, pois esta doença glomerular é pouco freqüente.
Há inclusive relatos documentando uma redução progressiva da incidência da GNMP em vários locais do mundo.
Recomendação 2
Crianças com GNMP idiopática, proteinúria nefrótica
ou função renal diminuída podem responder a corticoterapia em altas doses, que poderia ser mantida por 6-12
meses (Grau A).
Comentários- Rec.2: Estudo RCT(19) comparando
prednisona com placebo demonstrou que 61% das
crianças tratadas tinham função renal estável vs. 12% das
que receberam placebo, considerando um tempo médio de
tratamento de 130 meses. Outros estudos (níveis de
evidências 3 e 4) confirmaram esses benefícios(20).
15
Não foram observados benefícios do uso de drogas
imunossupressoras em estudos randomizados controlados
realizados em adultos.
Além das condições expostas acima, que correspondem à maior parte dos estudos, nos quais as principais
preocupações são a evolução da função renal em indivíduos com proteinúria nefrótica, é preciso lembrar dos
indivíduos cuja doença apresenta-se com proteinúria de
nível não-nefrótico. Neste caso, há uma tendência a optar
por medidas gerais de renoproteção. Por outro lado,
quando a GNMP tem uma apresentação rapidamente
progressiva, em geral é tratada segundo as orientações
para este tipo de apresentação. Na seqüência, é apresentado um resumo das situações de apresentação da
doença e das alternativas terapêuticas em cada caso.
Orientação geral para tomada de decisão terapêutica
em GNMP
(adaptado de Glassock) (22)
1 - Taxa de filtração glomerular normal/ proteinúria
não-nefrótica:
Crianças e adultos: controle cuidadoso da pressão arterial, preferencialmente com inibidor de enzima conversora de
angiotensina e/ou bloqueador de receptor de angiotensina;
2 - Taxa de filtração glomerular normal ou próxima do
normal/ proteinúria nefrótica:
Crianças: prednisona em dias alternados por período
prolongado;
3 - Taxa de filtração glomerular diminuída/ proteinúria
nefrótica:
Crianças: prednisona;
Adultos: aspirina e dipiridamol;
4 - Glomerulonefrite rapidamente progressiva:
Crianças e adultos: considerar pulsoterapia com
metilprednisolona; agentes citotóxicos/ outras alternativas
devem ser consideradas caso a caso.
Em todas as 4 situações, devem ser instituídas
medidas de renoproteção.
Recomendação 3
Adultos com GNMP idiopática, proteinúria nefrótica ou
função renal diminuída deveriam submeter-se a uma tentativa de tratamento com dipiridamol ou aspirina (Grau B).
Comentários - Rec.3: Apesar de ser uma recomendação baseada em estudos RCT, há algumas reservas
sobre os achados. Num dos estudos(21), o tratamento
determinou uma melhor evolução da função renal, mas se
questiona a representatividade do grupo controle, por ter
apresentado uma perda de função particularmente rápida.
Noutros, houve melhora da proteinúria, mas nenhum ou
pouco impacto sobre a função renal. Vale salientar
também a ocorrência de uma incidência aumentada de
sangramento entre os indivíduos tratados.
Tratamento das Glomerulonefrites Rapidamente
Progressivas (GNRP)
Tendo em vista que as GNRP representam uma
condição rara e de mau prognóstico, é incomum o desenvolvimento de estudos controlados envolvendo um número
adequado de pacientes acometidos por estas doenças.
O diagnóstico precoce e manuseio das conseqüências fisiopatológicas da doença glomerular (retenção de
líquidos, hipertensão arterial, hipercalemia, uremia) são essenciais para o sucesso do tratamento. As medidas dirigidas ao tratamento “específico” da injúria inflamatória
renal serão citadas na seqüência e baseiam-se em um
nível de evidência 3.
Tratamento das Glomerulopatias Primárias
16
1. GN crescêntica por Ac anti-MBG
A doença por Ac anti-MBG não-tratada tem de um
modo geral um mau prognóstico, com morte por
insuficiência renal ou hemorragia pulmonar. A abordagem terapêutica tem o racional (aqui exposto de forma
bastante simplista) de associar a rápida remoção de autoanticorpos patogênicos pela plasmaferese, prevenção da
síntese de novos anticorpos com CFF e ação antiinflamatória do corticóide (23).
Recomendações (Graus B e C)
Recomendação 1: Administração de metilprednisolona
7-15 mg/kg/dia até um máximo de 1g/dia por 3 dias, seguindo-se prednisona 60 mg/dia com redução progressiva.
Recomendação 2: Troca de 4 L de plasma/dia por
albumina por 14 dias ou até que Acs anti-MBG desapareçam. Plasmaferese não deveria ser utilizada em caso de
pacientes com anúria e crescentes envolvendo mais de 85%
dos glomérulos, exceto se houver hemorragia pulmonar.
Recomendação 3: Associar ciclofosfamida (corrigida
com base na função renal), por via oral, por 8 semanas.
Recomendação 4: O tratamento pode ser prolongado se anticorpos anti-MBG ainda forem detectáveis.
Protocolo de tratamento detalhado pode ser
encontrado no Fórum do Kidney International de 2003
sobre o tema (23).
O uso de plasmaferese vem sendo justificado face
ao mau prognóstico dos casos não-tratados, supondo-se
que a seu uso em associação com imunossupressores
aceleraria o desaparecimento dos Acs anti-MBG a partir
da circulação; mas, a maior parte das evidências são
de níveis 3 a 5; apenas um estudo revela evidências de
nível 2(24) apoiando este tipo de intervenção. Alguns
pacientes com perda avançada de função renal podem vir
a responder a plasmaferese, mas não é recomendada a sua
utilização em indivíduos anúricos a menos que eles apresentem hemorragia pulmonar (25).
Os pacientes que apresentam simultaneamente
anticorpos anti-MBG e ANCA devem receber o mesmo
tratamento inicial que aqueles apenas com doença por antiMBG, mas os primeiros devem ficar com o esquema de
manutenção como nos casos de vasculite ANCA-positiva.
A recuperação renal dos pacientes com doença
por anti-MBG de um modo geral depende da função
renal por ocasião do início do tratamento. Várias séries
revelam que a maior parte dos pacientes que começa o
tratamento com creatinina sérica <6,6 mg/dL recuperará
a função renal, mas quando superior a este número, a
recuperação é rara.
A presença de hemorragia pulmonar constitui-se
em uma indicação separada de tratamento intensivo,
independente da severidade da doença renal.
2. GN crescêntica por imunocomplexos
Como nos outros grupos de GNRP, deve-se
proceder, num primeiro momento, à pulsoterapia com
metilprednisolona, desde que não existam contraindicações, como uma infecção ativa relevante.
Na seqüência, o tratamento deve dirigir-se à
condição específica subjacente. Na maior parte dos
casos, as GN crescênticas por imunocomplexos são
secundárias; em sendo assim, num caso de nefrite
lúpica, por exemplo, lança-se mão do protocolo mais
adequado para esta condição. Tem sido sugerido que os
poucos pacientes com formas verdadeiramente idiopáticas sejam tratados como os portadores de GNRP
p a u c i - i m u n e( 2 5 ) .
3. GN crescêntica pauci-imune
Neste grupo destacam-se as vasculites ANCAassociadas, que compartilham similaridades histológicas
na biópsia renal, ausência ou escassez de depósitos
imunes, a potencial contribuição do ANCA em sua patogênese e respostas similares a agentes imunossupressores.
O envolvimento renal é comum e manifesta-se tipicamente como GNRP, levando a morte ou insuficiência
renal dentro de 2 anos em mais de 40 por cento dos
pacientes. A terapia-padrão para as vasculites ANCAassociadas generalizadas envolve o uso prolongado de
corticóide e ciclofosfamida (26).
Os casos ANCA-negativos que se apresentam
como GNRP pauci-imune acabam sendo tratados da
mesma forma.
Recomendações (Grau B)
Recomendação 1: Administração de metilprednisolona 7-15 mg/kg/dia até um máximo de 1g/dia por 3 dias,
seguindo-se prednisona 1 mg/kg/dia por 1 mês, reduzindose gradualmente nos próximos 6-12 meses.
Recomendação 2: Ciclofosfamida deve ser dada por
6-12 meses:
- Por via oral, numa dose de 2 mg/kg/dia, ajustada para
manter contagem de leucócitos entre 3000-5000/mL ou
- Por via endovenosa 0,5 g/m2/mês, aumentando mensalmente 0,25 g até um máximo de 1 g/m2 por mês; a dose
deve ser ajustada para manter o nadir da contagem de leucócitos (2 semanas após tratamento) entre 3000 e 5000/mL.
O tratamento deve ser feito mesmo em casos avançados.
Recomendação 3: Deve-se considerar plasmaferese
em pacientes com hemorragia pulmonar e naqueles com
doença severa, sem resposta a tratamento convencional.
Recomendação 4: Deve-se monitorizar recidiva com
seguimento clínico, testes de função renal e pesquisa de
ANCA.
Recomendação 5: O tratamento das recidivas deve
ser semelhante ao tratamento original.
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
Nachman et al. avaliaram 97 pacientes com GN
pauci-imune associada ao ANCA tratados com pulsoterapia com metilprednisolona seguida por prednisona por via
oral versus pulsoterapia seguida por prednisona associada a
ciclofosfamida por via oral, alcançando remissão em 77%
dos casos, sendo que 32 dos 75 pacientes permaneceram em
remissão por período prolongado; 22 dos 75 recidivaram e
isso em geral ocorreu nos 18 meses que se seguiram ao
final do tratamento. Constatou-se uma diferença
significante na taxa de remissão com corticóide apenas e
com o uso de ciclofosfamida (56% vs. 89%, p=0,003),
além do fato de que os tratados com ciclofosfamida
apresentaram um risco três vezes menor de recidivarem(27).
Vale salientar que estudos como o de Nachman
dão suporte ao uso de ciclofosfamida associada à prednisona após pulsoterapia com metilprednisolona em
17
pacientes com GNRP necrotizante pauci-imune, mesmo
nos dependentes de diálise (25).
Mais recentemente, avaliou-se em um número
grande de pacientes a possibilidade de substituição da
ciclofosfamida pela azatioprina, como um agente imunossupressor alternativo na manutenção da remissão.
Neste estudo, foram excluídos os pacientes com creatinina sérica superior a 5,7 mg/dL. A substituição precoce
da CFF pela AZA durante a remissão, usualmente com 3
meses de tratamento determinou taxas de recidivas similares às do regime controle de 12 meses de CFF (Grau
B). Os resultados favorecem uma terapia agressiva para a
doença ativa e de menor intensidade para manutenção da
remissão. É possível que novo tratamento com CFF se faça necessário numa recidiva tardia, o que reforça a importância de minimizar o nível inicial de exposição(23).
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Tratamento das Glomerulopatias Primárias
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TRATAMENTO DA NEFROPATIA POR IgA
A Nefropatia por IgA (NIgA) é considerada uma das
formas mais freqüentes de glomerulopatia primária no
adulto, com grandes variações em sua distribuição geográfica. É definida do ponto de vista histológico pela microscopia de imunofluorescência, que mostra a presença dominante ou co-dominante de depósitos da imunoglobulina A
no mesângio glomerular. A forma de apresentação clínica
mais freqüente é de hematúria macroscópica após episódios
de infecção, embora possa apresentar-se com hematúria e
proteinúria assintomática, e menos freqüentemente com
hipertensão arterial, síndrome nefrótica e insuficiência
renal. A evolução clínica é extremamente variável, sendo
benigna na maioria, embora insuficiência renal terminal
possa desenvolver-se lentamente em 20 a 30% em 10 a 20
anos. A lesão histológica mais comum da NIgA é a glomerulonefrite proliferativa mesangial segmentar e focal ou
difusa, com vários graus de expansão da matriz mesangial e
de proliferação celular, podendo superpor-se outras lesões
como glomerulosclerose segmentar e focal, infiltrado
inflamatório intersticial e crescentes epiteliais. Na forma
crônica, observam-se glomérulos escleróticos e fibrose
túbulo-intersticial. Sendo a evolução lenta, é importante
identificar possíveis fatores de risco para progressão,
citando-se: redução da função renal, intensidade e duração
da proteinúria e hipertensão arterial. Alguns autores consideram também a idade mais avançada no início da doença,
o sexo masculino, a presença de hipertrigliceridemia, hiperuricemia e o aumento da excreção urinária de proteínas de
baixo peso molecular. As alterações histológicas são
melhores indicadores prognósticos, sendo as principais: a
intensidade de esclerose glomerular, fibrose intersticial e
atrofia tubular, o grau de expansão e proliferação mesangial,
crescentes epiteliais em grande número, e a presença e
intensidade das lesões arteriolares.
Não há tratamento específico; embora tenham sido
investigadas diversas abordagens, nenhuma delas tem-se
mostrado realmente efetiva a longo prazo. O tratamento deve ser individualizado, considerando o quadro clínico, a lesão
histológica e a presença de fatores de risco para progressão.
Recomendação 1
Pacientes com hematúria microscópica isolada e/ou
com proteinúria <1g/dia, normotensos e com função renal
normal, parecem ser de baixo risco para má evolução, mas
devem ser avaliados periodicamente a fim de verificar qualquer mudança de comportamento durante a evolução (Grau C).
Há indícios de que se deve iniciar uso de inibidores de enzima conversora de angiotensina (IECA) e/ou
bloqueadores de receptor de angiotensina II (BRA) diante
de proteinúria persistente.
Recomendação 2
Pacientes com episódios de hematúria macroscópica
de repetição desencadeada por amigdalites recorrentes
podem beneficiar-se da tonsilectomia (pode diminuir os
episódios de hematúria macroscópica, embora pareça não
alterar a evolução) (Grau C).
Recomendação 3
O tratamento de escolha da hipertensão arterial em
pacientes com NIgA são os IECA ou BRA (Grau A).
Recomendação 4
Pacientes com proteinúria ≥ 1 g/dia, hipertensos ou
não, com função renal normal e lesões histológicas leves,
podem ser tratados inicialmente com IECA e/ou BRA. A
associação de IECA e BRA é mais efetiva (Grau B).
Comentários – Rec. 3 e 4: Busca-se reduzir a
pressão arterial para 125/75 mmHg e proteinúria para
níveis ≤ 0,5g/dia (Grau D) (1).
Estudo prospectivo e randomizado com acompanhamento de 6 anos mostrou que os IECA melhoram a
sobrevida renal de pacientes com proteinuria ≥ 0,5g/dia e
função renal normal ou moderadamente reduzida(2).
Outro estudo randomizado e prospectivo, comparando losartan com amlodipina, mostrou que embora ambos tenham reduzido os níveis pressóricos para valores
semelhantes, o losartan reduziu a proteinúria(3).
O estudo COOPERATE, prospectivo e randomizado, analisando 263 pacientes proteinúricos (metade com
NIgA), encontrou maior sobrevida renal e redução da proteinúria com a associação de IECA + BRA (com metade
das doses) comparado com monoterapia em dose plena(4).
Recomendação 5
NIgA com função renal normal: Quando os IECA e/ou
BRA não forem efetivos e persistir proteinúria ≥1g/dia,
inclusive em caso de síndrome nefrótica, com função renal
normal, ou naqueles em que a biópsia renal mostrar lesões
histológicas agudas importantes, ou em pacientes com
síndrome nefrótica, há indicação de corticóide (Grau B).
Nefropatia por IgA
20
Comentários - Rec. 5: De uma maneira geral,
corticóide tem sucesso variável. Estudos controlados e
não-controlados sugerem que, no adulto, o tratamento
prolongado (4 a 6 meses) diminui a proteinúria (Grau B),
mas ainda não está comprovado se previne a progressão a
longo prazo (Grau C).
Metanálise de estudos controlados comparando
corticosteróides com placebo, mostrou que os corticosteróides foram associados com menor proteinúria e menor
risco de evolução para insuficiência renal crônica(5). No
entanto, doses baixas de corticóide VO não têm sido efetivas nesses casos (6).
No esquema alternativo, mais agressivo, proposto
por Pozzi, de pulsoterapia com metilprednisolona 1g/dia
EV por 3 dias no 1º, 3º e 5º meses, mantendo prednisona
VO 0,5 mg/kg em dias alternados, não foram descritos
efeitos colaterais de maior gravidade(7).
Não há evidências de que os tratamentos citados
sejam efetivos quando a perda da filtração glomerular é
maior que 50 % a 60%.
Recomendação 6
Algumas situações merecem comentários à parte,
quadros de síndrome nefrótica com lesões histológicas
mínimas e depósitos imunes de IgA no mesângio, respondem ao corticóide com 80% de remissão semelhante a
nefropatia de lesões mínimas idiopática (Grau C).
Recomendação 7
NIgA com função renal alterada: Na NIgA com
indícios de evolução progressiva, não há nenhuma
conclusão definitiva se o tratamento precoce com outros
immunossupressores confira alguma vantagem, mas seu
uso pode ser racional quando iniciado precocemente (logo
que a creatinina se elevar acima do normal): prednisona
VO (40 mg/dia inicialmente, com redução progressiva) +
ciclofosfamida (1,5 mg/kg/dia por 3 meses, substituída por
azatioprina 1,5 mg/kg/dia até completar 2 anos) (Grau B).
Comentários - Rec. 7: Estudo prospectivo e
randomizado utilizando citostáticos com corticóide por 2
anos mostrou maior sobrevida renal que os controles,
embora a resposta tenha sido heterogênea e diretamente
proporcional aos valores iniciais da creatinina sérica(8).
Estudo prospectivo e randomizado, com pequeno
número de pacientes utilizando MMF 2g/dia, e acompanhados por 3 anos, não mostrou nenhum efeito na progressão
da doença ou na proteinúria(9).
Pacientes com algum grau de insuficiência renal e
evolução lenta e progressiva, o tratamento é mais controverso. Têm sido utilizado o óleo de peixe Ômega-3, com
poucos efeitos colaterais, embora sua efetividade ainda
não esteja comprovada, e haja necessidade de utilização
por tempo prolongado. Meta-análise do efeito do óleo de
peixe Ômega-3, não mostrou efeito significante, embora
sugerisse que possa ser efetivo quando utilizado por mais
de 2 anos e em pacientes com proteinúria acentuada(10).
Recomendação 8
NIgA na forma rapidamente progressiva com
crescentes e/ou lesões necrotizantes focais: não há
estudos controlados, embora nestes casos a terapêutica
deva ser agressiva com pulsoterapia com metilprednisolona associada a ciclofosfamida (Grau C).
Comentários - Rec. 8: Não há estudos controlados
devido a menor freqüência desta forma de apresentação
da N. IgA, e pela gravidade da doença.
Estudo aberto prospectivo de 12 pacientes com
NIgA crescentica mostrou que o tratamento com pulsoterapia com metilprednisolona seguida de prednisona oral,
associada a ciclofosfamida intravenosa mensal, estabilizou a função renal, reduziu a proteinuria e reverteu a
proliferação endocapilar e os crescentes glomerulares após
6 meses(11).
Proposta de Tratamento da Nefropatia por IgA em
Adultos
Proteinúria < 1g/dia persistente
Função renal normal
Pressão arterial normal
Proteinuria ≥ 1 g/ dia
Função renal normal
Pressão arterial
normal ou elevada
Proteinúria ≥ 3 g/ dia
Função renal normal
Proteinúria ≥ 3 g/ dia
Função renal alterada
IECA e/ou BRA
Lesões histológicas leves
IECA e/ou
BRA
Biópsia renal
Lesões histológicas agudas
moderadas ou graves
â
Corticosteróide
Lesões histológicas agudas
Corticosteróides + Citostáticos
MMF ?
Lesões histológicas crônicas
Óleo de Peixe – Ômega 3 ?
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GLOMERULOPATIAS SECUNDÁRIAS
NEFRITE LÚPICA
O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma
doença inflamatória multissistêmica auto-imune. O rim é
um dos principais órgãos-alvo do LES. Até 60% dos
pacientes adultos com LES apresentam envolvimento
renal(1). A nefrite lúpica pode apresentar-se como a única
manifestação clínica do LES ou, mais comumente, como
parte de um acometimento de múltiplos órgãos. A severidade da nefrite varia muito, indo desde lesões discretas
com doença subclínica a formas proliferativas difusas,
com potencial de progredir para IRC terminal.
A biópsia renal é necessária para que se faça um
diagnóstico preciso da nefrite lúpica, mas a sua realização
ainda é motivo de controvérsias. Por ocasião do diagnóstico, encontram-se entre as indicações de biópsia:
estabelecer a classe histológica (com implicações prognósticas e terapêuticas); excluir outras manifestações da
doença, como a microangiopatia trombótica; determinar
os índices de atividade e cronicidade da lesão; estabelecer
a causa de insuficiência renal aguda coexistente, entre
outras(2).
Classificação da Nefrite Lúpica
A nefrite lúpica é subdividida em seis classes
segundo a classificação da OMS (criada em 1982 e revisada posteriormente) (3), que é a classificação atualmente
mais aceita em todo o mundo (ver quadro abaixo), e
baseia-se na compreensão atual da patogênese das várias
formas da doença. Entretanto, em algumas situações, ao
utilizá-la, surgem dificuldades de classificação, de modo
que recentemente se fez uma nova proposta(4), que também é apresentada a seguir, com o fim de chegar-se a uma
melhor categorização dos vários tipos de nefrite lúpica.
Esta segunda classificação está em fase de avaliação
clínico-patológica na prática diária.
Classificação da O.M.S.
(revisão de 1995)
Classe I: Glomérulos normais
Classe II: Alterações mesangiais puras
Classe III: Glomerulonefrite proliferativa segmentar e focal
Classe IV: Glomerulonefrite proliferativa difusa
Classe V: Glomerulonefrite membranosa
Classe VI: Glomerulonefrite esclerosante avançada
Nova Proposta:
Revisão da classificação de glomerulonefrite em lúpus
eritematoso sistêmico, publicada em 2004 (International
Society of Nephrology Working Group on the Classi fication of Lupus Nephritis; Renal Pathology Society
Working Group on the Classification of Lupus Nephritis)
Classes
I e II: envolvimento puramente mesangial (depósitos
imunes mesangiais)
I - sem hipercelularidade;
II - com hipercelularidade;
III: Glomerulonefrite focal (< 50% do total de glomérulos estão acometidos), com lesões ativas ou escleróticas
IV: Glomerulonefrite difusa (≥ 50% dos glomérulos
acometidos), com lesões ativas ou escleróticas
IV - S (segmentar)
IV - G (global)
V: Glomerulonefrite membranosa
VI: Glomerulonefrite esclerosante avançada
Combinações de classes deverão ser relatadas
Tratamento
A abordagem terapêutica ideal nos casos de
nefrite lúpica ainda é um desafio, devido à heterogeneidade da doença quando de sua apresentação e ao
curso imprevisível(2). Embora seja incontestável que as
taxas de sobrevida renal e do paciente tenham melhorado
muito ao longo das últimas décadas, a nefrite lúpica tem
um efeito negativo sobre a sobrevida do paciente com
uma sobrevida global em 10 anos de 88 e 94% para os
pacientes com e sem envolvimento renal, respectivamente. Os resultados obtidos com os regimes imunossupressores atualmente disponíveis ainda são insatisfatórios, visto que: (1) a taxa de remissão renal após o tratamento de primeira escolha tem sido na melhor das hipóteses de 81%; (2) reativações renais ocorrem em um
terço dos pacientes com nefrite lúpica, em sua maioria
enquanto os pacientes ainda estão imunossuprimidos; (3)
cerca de 10 a 20% (5 a 10% em estudos mais recentes)
dos pacientes com nefrite lúpica evoluem para IRC terminal 5 a 10 anos após o início da doença; (4) a toxicidade relacionada ao tratamento é considerável. Por
fim, numerosos fatores prognósticos vêm sendo iden-
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
tificados, entre os quais citaríamos: raça não-branca;
condição sócio-econômica ruim; hipertensão arterial descontrolada; índices de atividade e cronicidade elevados
na biópsia renal (particularmente o índice de cronicidade); déficit de função renal quando da apresentação da
nefrite; má resposta ao tratamento inicial; reativações da
doença renal.
No estudo Euro-Lupus, o valor preditivo positivo de uma queda de 75% na proteinúria de 24 horas
com 6 meses de tratamento no que se refere à evolução
renal a longo prazo foi de 90%, sugerindo que a resposta
inicial pode ser um indicador da evolução a longo
prazo(2).
Objetivos Terapêuticos
O tratamento da nefrite lúpica tem por metas resultados imediatos e a longo prazo, como:
(1) remissão da atividade renal, de modo mais rápido possível;
(2) prevenção das reativações renais;
(3) prevenção ou interrupção da perda crônica da
função renal;
(4) cumprimento de todos os objetivos listados,
com o mínimo de toxicidade.
Além do tratamento imunossupressor, que discutiremos a seguir, são também importantes as medidas que
visam ao controle rigoroso da hipertensão arterial (se presente) com medicamentos anti-hipertensivos variados,
especialmente com a utilização dos agentes inibidores da
enzima conversora de angiotensina ou bloqueadores dos
receptores AT1 da angiotensina II, tendo em vista seus
efeitos antiproteinúricos e renoprotetores. Estes agentes,
por outro lado, não estão recomendados nas situações
onde ocorre perda aguda e importante da função renal(5).
Ainda no contexto de recomendações gerais, deve ser
destacado o controle da obesidade e da dislipidemia, a
interrupção do tabagismo e a restrição ao uso de drogas
potencialmente nefrotóxicas como antiinflamatórios nãoesteróides(6).
Esquemas de Tratamento
É preciso ter em mente que a doença é incomum e
estudos multicêntricos e de longa duração são necessários
para que se possa chegar a alguma conclusão no que tange
à melhor terapêutica. Além disso, mais recentemente, tem
ficado claro que o tratamento da nefrite lúpica consiste de
uma fase de indução e de uma de manutenção e que essas
fases precisam ser analisadas em separado no que se
refere à droga mais adequada para cada uma.
23
Deve-se ainda ressaltar que a maior parte dos
estudos terapêuticos iniciais em LES concentraram-se nas
formas proliferativas mais graves, particularmente na
classe IV; nos últimos tempos, tem-se dado mais atenção
também às classes III e V; para as demais classes, encontram-se comentários isolados na literatura, mas não estudos
controlados.
Nefrite Lúpica classes I e II da OMS
Pacientes com lúpus eritematoso sistêmico cuja
biópsia renal é compatível com a classe I da OMS, e aqueles com classe II que apresentam somente lesões mesangiais puras, têm bom prognóstico renal. De um modo
geral, não necessitam de terapêutica específica para o
acometimento renal, mas as manifestações extra-renais da
doença devem ser tratadas(3). Entretanto, essa posição não
é unânime e alguns defendem o uso de imunossupressão
na classe II no sentido de coibir a progressão para formas
mais severas.
A transformação de lesões mesangiais para outra
classe histológica geralmente se manifesta pelo aumento
da proteinúria e atividade do sedimento urinário. Nestes
casos, a re-biópsia pode ajudar a definir o tratamento mais
apropriado.
Nefrite Lúpica classe III da OMS
A nefrite lúpica classe III é caracterizada pela
presença de proliferação endo e/ou extracapilar em
menos de 50% dos glomérulos e está comumente
associada a depósitos subendoteliais. Lesões histológicas crônicas poderão estar presentes ou não. Vale a
pena ressaltar que, devido ao número de glomérulos
obtidos em biópsias renais, que via de regra é pequeno,
é difícil determinar-se com exatidão o grau de envolvimento renal (4). Talvez em grande parte por conta
disso se observe variabilidade no quadro clínico dos
pacientes com a classe III, desde hematúria ou proteinúria assintomáticas até síndrome nefrótica e disfunção renal(7).
Em relação ao tratamento devem ser consideradas
duas fases na classe III:
Glomerulonefrite focal leve caracterizada pelo
acometimento em menos de 25% dos glomérulos
(ausência de necrose) e função renal normal. Nesses
casos, após a avaliação clínica e laboratorial, o
tratamento com corticóide poderá ser realizado apenas
para as manifestações extra-renais (8). Nessa situação,
também alguns preferem fazer uma imunossupressão
mais branda para coibir a progressão para formas mais
severas.
Glomerulopatias Secundárias
24
Glomerulonefrite focal severa onde 40 a 50% dos
glomérulos são afetados, especialmente com presença de
crescentes ou necrose. Geralmente esses pacientes apresentam importante atividade clínica e laboratorial e o
tratamento será similar ao proposto para a classe IV(9).
Nefrite lúpica classe IV da OMS
Ainda que vários RCTs tenham sido realizados
envolvendo pacientes com a classe IV, a qualidade dos
mesmos é bastante variável e eles foram desenvolvidos
ao longo das três últimas décadas, apresentando uma
série de problemas metodológicos. Além disso, as populações são muitas vezes diferentes, ressaltando-se a
questão da raça (em alguns, há um percentual elevado de
indivíduos negros, o que se associa a uma pior sobrevida
renal na classe IV) e mesmo um certo número de pacientes de outras classes é observado em alguns estudos,
sem considerar a heterogeneidade da doença em si, severidade do déficit de função renal e tempo de seguimento
variáveis.
A seguir, relembraremos alguns dos estudos mais
importantes nessa área.
No estudo clínico do NIH com nefrite lúpica severa que utilizou ciclofosfamida endovenosa, Austin et
al.(10) constataram que apenas os pacientes que receberam ciclofosfamida endovenosa (CFF EV) em altas
doses por período prolongado (e não os que receberam
ciclofosfamida oral, azatioprina oral ou a combinação de
ambas) tinham uma menor probabilidade de evoluir para
IRC terminal comparados com os pacientes que
receberam apenas corticóide oral. O regime utilizado era
de CFF EV (0,75 a 1,0 g/m 2), por período prolongado,
prescrito mensalmente por 6 meses e depois
trimestralmente até um ano após a remissão.
Análise posterior deste mesmo estudo mostrou que
os regimes que incluíam ciclofosfamida (endovenosa ou
oral) apresentavam resultados melhores que os que continham apenas corticóide a longo prazo. Boumpas et
al.(11), em outro estudo, mostraram que os pacientes que
tinham nefrite lúpica severa e receberam ciclofosfamida
endovenosa por período prolongado (30 meses) e não os
que receberam um tratamento curto (6 meses) tiveram
uma probabilidade menor de dobrar a creatinina sérica
comparados com os que receberam pulsos de
metilprednisolona endovenosa; o tratamento curto (sem
manutenção com drogas citotóxicas) também se associou
a mais recidivas que o prolongado. Estudo mais recente
do NIH utilizou a combinação de pulsos de
metilprednisolona e de CFF EV, alcançando uma maior
taxa de remissão renal do que os pulsos de
metilprednisolona EV isoladamente.
No Euro-Lupus Nephritis Trial, os pacientes
(84% brancos) com nefrite lúpica proliferativa foram
alocados de forma aleatória para regimes de dose alta
de CFF EV (n = 46; seis pulsos a intervalos mensais e
dois pulsos trimestrais com doses ajustadas de acordo
com a leucometria) ou de dose baixa de CFF EV (n =
44; um total de seis pulsos de 500 mg administrados a
intervalos quinzenais), cada um dos quais seguido por
tratamento com Azatioprina (AZA). Não se observou
diferença entre os grupos no que se refere a falhas de
tratamento ou probabilidade de perda de função renal
(num seguimento de 73 meses). Os dados deste estudo
sugerem que CFF EV seguida por AZA num esquema
de tratamento considerado curto e de dose baixa é capaz
de alcançar bons resultados a longo prazo, questionando-se entretanto se a manutenção deve ser feita
com AZA, já que a taxa de reativações renais foi alta
(35% com 5 anos).
O uso seqüencial das drogas citotóxicas no
tratamento da nefrite lúpica severa tem sido visto
como um avanço na condução da doença. Mais
recentemente, tem-se proposto uma indução curta e
vigorosa (poucos meses) e manutenção da remissão com administração prolongada (anos) da mesma
droga citotóxica utilizada com menor freqüência (ex.:
pulsos a intervalos trimestrais de CFF) ou outro
imunossupressor considerado mais seguro (ex.: AZA),
com o objetivo de diminuir a toxicidade sem comprometer a eficácia (2).
Em sendo assim, alguns propõem iniciar o
tratamento de nefrite lúpica (classes III ou IV) com um
curso curto de CFF EV (3 a 6 meses) associado a corticóide, passando então para a fase de manutenção com
AZA ou MMF. É preciso ressaltar que não se constatou
até o momento uma clara vantagem do MMF sobre a
AZA quando usados na fase de manutenção; mas, elas
mostraram-se mais eficazes e seguras que CFF EV a
longo prazo(12).
Chan et al. relataram que MMF foi tão efetivo em
induzir remissão aos 12 meses quanto 6 meses de CFF
VO seguida por AZA, em estudo envolvendo pacientes
asiáticos com classe IV (13).
Apesar de numerosos estudos envolvendo pacientes com a classe IV terem sido realizados, os autores
que publicaram metanálises de RCTs referentes a esta
classe ainda são cautelosos ao tirar conclusões, pois há
muitas diferenças entre os grupos estudados, por mais
que se proceda a uma seleção dos mesmos. De qualquer
forma, seguem de forma esquemática algumas recomendações que dizem respeito à conduta terapêutica
neste grupo:
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
Recomendação 1
Deve-se fazer tratamento agressivo para pacientes
com classe IV, utilizando-se ciclofosfamida e corticóide
oral ou EV, e não azatioprina (Grau A).
As formas proliferativas da nefrite lúpica, não
apenas a classe IV (classes III, IV, antigas Vc e Vd) são
as mais graves e usualmente requerem tratamento agressivo para induzir remissão e prevenir morbidade renal
significante e mortalidade (3).
Recomendação 2
Ciclofosfamida e corticóide são as drogas a serem
utilizadas na fase de indução (Grau A).
Comentários - Rec.1 e 2: Devido ao evidente
aumento de risco de infertilidade com esta droga,
considera-se razoável que uma dose cumulativa efetiva
mínima de ciclofosfamida seja usada para esse fim(3).
Recomendação 3
Azatioprina e MMF são igualmente eficientes na fase
de manutenção em classe IV (Grau A).
Comentários - Rec.3: Isso é o que se pôde apurar
com base nos estudos realizados até o momento, mas que
ainda precisam ser ampliados (12).
25
Recomendação 2 (17,18)
A combinação de ciclofosfamida e corticosteróides é
superior a corticosteróides isolados na indução de
remissão. Pacientes com proteinúria nefrótica e perda da
função renal devem receber renoproteção e pulsos
mensais de ciclofosfamida e corticosteróides em esquema
semelhante à classe IV (Grau A).
Comentários - Rec. 2: O número de pulsos
mensais pode ser reduzido, de acordo com a evolução
clínico-laboratorial.
Recomendação 3 (17)
Ciclosporina (4-6mg/kg/dia) associada a corticosteróides é superior aos corticosteróides isolados na indução de remissão. Pacientes com síndrome nefrótica e função renal preservada habitualmente apresentam boa
resposta a esta combinação (Grau A).
Comentários - Rec. 3: A ciclosporina pode ser
associada a baixas doses de corticosteróides (5 a 10
mg/dia), e mantida por 6 a 12 meses. O número de recidivas com ciclosporina é maior, quando comparada à
ciclofosfamida.
Recomendação 4 (19)
Azatioprina (2mg/kg/dia) associada a corticosteróides
é eficaz na indução de remissão e pode ser alternativa ao
uso de ciclosporina (Grau C).
Recomendação 4
A plasmaferese não está indicada no tratamento de
pacientes com classe IV (Grau A).
Comentários - Rec.4: Não há evidências de benéficios com o uso de plasmaferese neste grupo de pacientes(3).
Por fim, a nefrite lúpica classe IV tem o pior
prognóstico entre as nefrites lúpicas se não for tratada,
embora a sobrevida renal em 5 anos tenha melhorado
significantemente durante os últimos 30 anos. Atualmente
a maior parte dos pacientes tratados alcança remissão
renal completa ou parcial com 12 meses e tem função
renal estável com 10 anos de evolução(3).
Nefrite lúpica classe V da OMS
Recomendação 1 (14, 15, 16)
Pacientes com proteinúria assintomática e função
renal preservada devem receber renoproteção e ser
avaliados periodicamente (Grau C).
Comentários - Rec. 1: Remissões espontâneas
parciais ou completas podem ocorrer e a função renal
freqüentemente permanece normal por 5 ou mais anos.
Nefrite Lúpica classe VI da OMS
Na constatação da perda crônica evolutiva da
função renal, havendo na biópsia renal, presença de
fibrose túbulo-intersticial e/ou esclerose glomerular
avançada, não estará indicada terapia imunossupressora
com corticosteróides ou citostáticos (minimizando assim
a toxicidade induzida pelas drogas), exceto para o
tratamento de manifestações extra-renais do LES. Nesta
situação, será fundamental o controle estrito da pressão
arterial sistêmica, assim como das alterações metabólicas
da insuficiência renal crônica.
Considerações Gerais
Por fim, diante de IRC terminal, os pacientes com
LES saem-se bem em diálise, mas há evidências de que a
morbidade é mais elevada naqueles que apresentam
também a síndrome do anticorpo antifosfolípide, sobretudo devido a eventos trombóticos. O transplante renal é
tão bem sucedido em pacientes com nefrite lúpica quanto
na população geral e a recorrência da nefrite lúpica é
considerada pouco freqüente, embora esta afirmativa
tenha sido contestada por estudo recente.
Glomerulopatias Secundárias
26
A condução do tratamento da nefrite lúpica é
muito individual e exige bastante experiência, os
casos são por demais heterogêneos e alguns pontos
devem ser lembrados no que se refere à resposta a
tratamento:
(1) não há consenso em relação ao que seria
remissão, considerando-se como uma das melhores
“definições” proteinúria de 24 horas inferior a 0,5 g e
número de eritrócitos inferior a 10 por campo na ausência
de déficit de função renal;
(2) alguns pacientes (cerca de 20%) nunca
alcançarão remissão renal, utilizando-se os esquemas
atualmente disponíveis;
(3) a sobrevida do paciente e a prevenção do
desenvolvimento de déficit crônico de função renal com
um mínimo de toxicidade e qualidade de vida adequada
são o resultado do que ocorre nas fases de remissão e de
manutenção;
(4) ainda há muita discussão no que se refere às
drogas mais indicadas para indução e manutenção(2).
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J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
GLOMERULOPATIAS SECUNDÁRIAS A
INFECÇÕES VIRAIS
Glomerulopatias secundárias a hepatites virais
Hepatite C
Existe associação entre hepatite C e glomerulopatia. A doença renal pode se manifestar por diferentes
padrões histológicos:
- Glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I
crioglobulinêmica
- Glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I
- Glomerulonefrite membranosa
- Glomerulonefrite fibrilar
- Glomerulonefrite imunotactóide
Os 3 primeiros são os tipos mais comuns, enquanto as glomerulonefrites fibrilar e imunotactóide são
muito raras. A hepatite C é a principal causa de crioglobulinemia mista, vasculite sistêmica que se manifesta por
púrpura palpável, glomerulopatia e hipocomplementemia.
Habitualmente há uma coexistência com glomerulonefrite
membrano-proliferativa tipo I, e o HCV pode ser detectado nos crioprecipitados. A glomerulonefrite associada a
crioglobulinemia mista apresenta algumas diferenças em
relação à glomerulonefrite membrano-proliferativa tipo I
não crioglobulinêmica, como presença de trombos intraluminais, proliferação endocapilar acentuada, imunofluorescência positiva para IgM nas alças capilares e padrão
de impressão digital à microscopia eletrônica. Habitualmente há queda nos níveis de complemento, acentuada
para C4 e discreta para C3.
A glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I
sem crioglobulinemia pode ser induzida pela hepatite C, e
também se associa a hipocomplementemia.
A glomerulonefrite membranosa também pode ser
induzida por hepatite C, que deve ser pesquisada mesmo
nos casos de doença aparentemente primária. Os níveis de
complemento tendem a ser normais e crioglobulinas ou
fator reumatóide não são detectados.
Tratamento da glomerulopatia associada a HCV
Tratamento de escolha:α-interferon
Recomendação 1 (1,2)
O tratamento de primeira escolha é α-interferon (2a
ou 2b) na dose de 3.000.000 UI SC 3 vezes por semana
durante 12 meses para portadores do genótipo 1, e
durante 6 meses para portadores dos outros genótipos,
independente da função renal (Grau A).
27
Comentários - Rec. 1: Se for determinado que a
doença hepática não é indicação para a terapia antiviral, a
decisão de tratamento da glomerulopatia deverá se basear na
relação entre o benefício para a doença renal e o risco
potencial das drogas antivirais. Nesse caso, deverá ser
indicado o tratamento para doença renal moderada a severa
(síndrome nefrótica, creatinina elevada, comprometimento
túbulo-intersticial à biópsia ou doença progressiva). O
tratamento dos portadores de genótipo 1 deverá ser
interrompido com 3 meses se não houver resposta virológica
nesse período. O índice de recidiva após a suspensão do
tratamento é elevado. Deve-se ressaltar que esse tratamento
indicado como primeira escolha deve ser instituído para
pacientes sem indicação para tratamento da doença hepática
e com indicação de tratamento da doença renal, conforme
descrito acima. Estudos recentes mostram superioridade de
α-interferon peguilado em relação ao α-interferon no
tratamento da hepatite C, entretanto, não há estudo clínico
controlado e randomizado com esta droga em relação às
glomerulopatias. Este fato, associado à recomendação de
não usar α-interferon peguilado em clearance de creatinina
< 50 ml/min/1,73m2, achado comum nas glomerulopatias
associadas à hepatite C, coloca α-interferon como droga de
1ª escolha para tratamento isolado das glomerulopatias
quando não houver indicação de tratamento da hepatopatia.
Caso haja indicação de tratamento da hepatopatia, este
deverá seguir o “Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas
das Hepatites Virais (Portaria do Ministério da Saúde No.
863 de 04/11/2002 para hepatite C”.
Recomendação 2 (3, 4, 5, 6, 7)
Pacientes não respondedores ou com recidiva após a
interrupção devem ser tratados com α-interferon peguilado + ribavirina se apresentarem clearance de creatinina
> 50 ml/min/1,73m 2 (Grau C). As doses e duração de tratamento são: α-interferon peguilado (1,5 mcg/kg/semana
SC para α-2b e 180 mcg/semana SC para α-2a) + ribavirina (1200mg /dia dividido em 2 doses por 12 meses para
genótipo 1 e 1000mg/dia dividido em 2 doses por 6 meses
para os outros genótipos).
Comentários - Rec. 2: O α-interferon peguilado
apresenta meia-vida prolongada, e a eliminação da
ribavirina está prejudicada em pacientes com clearance
rebaixado. Portanto estão contra-indicados em pacientes
com clearance de creatinina < 50 ml/min/1,73m2. O tempo
de tratamento é o mesmo citado na recomendação 1.
Recomendação 3 (8)
Rituximab (anti-CD20) para casos sem reposta adequada ao tratamento com interferon está em investigação.
Estudos preliminares mostraram benefício. A dose usada
foi de 375mg/m 2 nos dias 1, 8, 15, e 22 (Grau D).
Glomerulopatias Secundárias
28
Recomendação 4 (9, 10)
Em doença sistêmica severa (insuficiência renal
grave, envolvimento neurológico, vasculite necrotizante) a
terapia antiviral deve ser retardada por 2 a 4 meses e a
doença deve ser tratada inicialmente com plasmaferese (3
litros 3 vezes por semana) e, em seguida, iniciada terapia
imunossupressora: metil-prednisolona (7-15 mg/kg/dia) até
um máximo de 1g/dia por 3 dias, seguida de prednisona (1
mg/kg/dia) por 1 mês, reduzindo-se gradualmente nos próximos 2 a 4 meses e ciclofosfamida (2 mg/Kg/dia) por 2 a
4 meses para prevenir a formação de anticorpos (Grau D).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Hepatite B
A associação entre hepatite B e diversas formas de
doença renal está bem estabelecida. As principais formas
descritas são:
- Glomerulonefrite membranosa
- Glomerulonefrite membrano-proliferativa tipo I
- Nefropatia por IgA
- Poliarterite nodosa
Tratamento da glomerulopatia associada a HBV
Tratamento de escolha: α-interferon
Recomendação 1
(1, 2, 3, 4)
O tratamento de primeira escolha é α-interferon (α-2a
ou α-2b) (Grau C).
A dose recomendada é de 5.000.000 UI SC 6
vezes/semana (dose total de 30.000.000 UI/semana) por
um período de 16 semanas
9. Madore F, Lazarus JM, Brady HR: Therapeutic plasma
exchange in renal diseases. J Am Soc Nephrol 7:367-86,
1996.
10. D’Amico G: Renal involvement in hepatitis C infection:
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1998.
Comentários - Rec. 1: Se for determinado que a
doença hepática não é indicação para a terapia antiviral,
a decisão de tratamento da glomerulopatia deverá
basear-se na relação entre o benefício para a doença
renal e o risco potencial das drogas antivirais. Nesse
caso, deverá ser indicado o tratamento para doença renal
moderada a severa (síndrome nefrótica, creatinina
elevada, comprometimento túbulo-intersticial à biópsia
ou doença progressiva). α-interferon parece ser mais
efetivo em crianças e em pacientes de áreas nãoendêmicas. Em pacientes de áreas endêmicas, tem pouco
benefício. Deve-se ressaltar que esse tratamento
indicado como primeira escolha deve ser instituído para
pacientes sem indicação de tratamento da doença
hepática e com indicação de tratamento da doença renal,
conforme descrito acima. Caso haja indicação de
tratamento da hepatopatia, este deverá seguir o
“Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das
Hepatites Virais (Portaria do Ministério da Saúde No.
860 de 04/11/2002 para hepatite B”.
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
Recomendação 2
29
Recomendação 3
A eficácia de lamevudine, droga antiviral usada no
tratamento da hepatite B, ainda não foi demonstrada na
evolução da doença renal, portanto não está indicada para
esta finalidade isolada até o momento.
Comentários - Rec. 2: Lamevudine é droga
antiviral eficaz para o tratamento da hepatopatia. Caso
haja indicação para o tratamento da doença hepática,
poderá ser usado, salvo contra-indicações.
Corticosteróides e imunossupressores não devem ser
utilizados nas glomerulopatias associadas ao HBV.
Recomendação 4
(5,6)
Em pacientes com vasculite ativa, pode-se considerar a plasmaferese e o uso de corticosteróides e
imunossupressores por curto período para controle do
processo inflamatório (Grau D).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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GLOMERULOPATIA ASSOCIADA AO HIV
AIDS (síndrome da imunodeficiência adquirida)
ou a condição de portador do vírus da imunodeficiência
humana adquirida freqüentemente estão relacionadas
com nefropatia. A forma histológica associada primariamente ao HIV é a glomeruloesclerose segmentar e
focal; em geral, apresenta-se como proteinúria de
níveis variáveis ou mesmo síndrome nefrótica e evolui
rapidamente para insuficiência renal. Entretanto, o HIV
pode associar-se a muitas outras nefropatias, incluindo
insuficiência renal aguda devida a hipotensão, sepsis ou
uso de medicamentos, nefrolitíase devido ao uso de
indinavir, nefrite intersticial por citomegalovírus ou uso
de drogas, várias glomerulopatias, dentre outras. Entre
as doenças glomerulares, citam-se glomerulonefrite
pós-infecciosa, glomerulonefrite membranosa decorrente de hepatites B, C ou sífilis associadas, glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I decorrente
de hepatites B ou C associadas, glomerulonefrite por
imunocomplexos de IgA e glomerulonefrite lupus-like,
entre outras.
Tratamento da glomerulopatia associada ao HIV
Recomendação 1
(1, 2, 3, 4)
A terapia anti-retroviral combinada pode retardar a
evolução da nefropatia associada ao HIV (Grau C).
Considerando-se que esta é a terapia padrão para a
doença primária, deve ser considerada como tratamento
de primeira escolha.
Comentários - Rec. 1: A indicação de introdução
da terapia anti-retroviral combinada deve ser feita com
base na evolução da doença primária, em conjunto com
especialista.
Recomendação 2
(5, 6, 7)
Inibidores da ECA reduzem a proteinúria e retardam
a evolução da nefropatia associada ao HIV (Grau C).
Considerando-se o baixo grau de toxicidade destas
drogas, devem ser usados, exceto se houver contraindicações.
Glomerulopatias Secundárias
30
Recomendação 3 (8, 9, 10)
Recomendação 4 (11)
Corticosteróides podem reduzir a proteinúria e
retardar a evolução da nefropatia associada ao HIV (Grau
C). Entretanto, sua utilização deve ser evitada, e o risco
de contrair infecções avaliado em relação à possível
melhora da função renal.
Ciclosporina pode reduzir a proteinúria e retardar a
evolução da nefropatia associada ao HIV (Grau D).
Entretanto, o índice de recorrência com sua suspensão é
elevado e há poucos estudos. Sua utilização deve ser
evitada, e o risco de contrair infecções avaliado em
relação à possível melhora da função renal.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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GLOMERULOPATIAS ASSOCIADAS A
DOENÇAS PARASITÁRIAS
Nefropatia associada à esquistossomose
A esquistossomose é uma das grandes endemias
brasileiras. Causada pelo Schistosoma mansoni (única espécie encontrada no Brasil), infecta cerca de três milhões
de indivíduos. Apesar de estarmos vivenciando uma queda no número de pacientes infectados, bem como uma
redução das formas graves, estima-se que ainda haja 30
milhões de brasileiros expostos ao risco de contrair esta
doença(1).
A maioria dos portadores desenvolve a forma
benigna e assintomática, mas em 2 a 6% dos casos,
podem ser observadas as formas hepato-esplênica ou
hepato-intestinal, com graus variados de eosinofilia,
anemia e trombocitopenia(2). O método de diagnóstico
mais utilizado é a pesquisa de ovos do parasita nas
fezes(3,4). Testes sorológicos para a detecção de anticorpos podem ser realizados, entretanto eles não diferenciam
entre infecção antiga e recente. Com esta limitação a
detecção de proteínas do Schistosoma de fase aguda,
como CAA (circulating anodic antigen) e CCA
(circulating cathodic antigen), pode ser útil (5,6).
Todos os pacientes com formas ativas da parasitose (presença de ovoposição) ou com formas avançadas
deverão ser tratados. No Brasil, a droga de escolha é a
oxamniquina, podendo ser substituída pelo praziquantel
nos casos de resistência (7).
A incidência global de glomerulopatia relacionada
à esquistossomose é de 5% e, em indivíduos com a forma
hepato-esplênica, esta incidência se eleva para 15%(8).
Mesmo após a introdução do tratamento com oxamniquina, Correia et al. demonstraram que a prevalência do
envolvimento renal não se modificou: 11,4% no período
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
pré e 12,9% no pós-tratamento(9). Acredita-se que a injúria renal inicial seja secundária ao depósito de imunocomplexos (IC) circulantes, ou formados in situ, pois já
foi demonstrada a presença de antígenos derivados do
parasita ou de seus ovos em glomérulos humanos(10).
Outro fator a ser considerado na progressão da doença
renal é o grau de hipertensão portal na forma hepatoesplênica. Sabe-se que, nesses casos, a remoção dos IC
pelas células Kupffer está dificultada e isto favorece a
oferta desses IC para o rim. Entretanto, a carga parasitária
e a duração da infecção são importantes, já que a glomerulopatia também aparece na forma hepato-intestinal(10,11).
Vêm sendo relatadas na literatura brasileira cinco
formas histológicas renais no acometimento da esquistossomose: glomerulonefrite proliferativa mesangial
(GNPM), glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I
(GNMP), glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF),
glomerulopatia membranosa (GPM) e doença de lesões
mínimas (DLM). Provavelmente a GNPM é a forma mais
precoce e mais freqüente, seguida pela GNMP, favorecendo a hipótese do mesângio como alvo inicial. A
imunofluorescência é inespecífica e segue os padrões das
formas primárias(8,12,13). A apresentação clínica é variável, sendo a glomerulopatia assintomática em até 35%
dos pacientes. Entretanto, como o diagnóstico é realizado
de forma tardia, síndrome nefrótica, hipertensão arterial,
31
e hipocomplementemia são achados comuns(14). Tem-se
sugerido que, na época do diagnóstico, a glomerulopatia
já se encontra em fase avançada com predominância dos
mecanismos não-imunológicos de progressão da doença
renal. Corroborando esta hipótise, Sobh et al. não encontraram benefício na resposta clínica e histológica ao avaliarem 25 pacientes que utilizaram medicação antiparasitária(11). Martinelli et al.(15) não observaram resposta terapêutica com drogas imunossupressoras ou antiparasitárias
em 21 pacientes com esquistossomose hepato-esplênica e
GNMP. O curso clínico foi semelhante à forma idiopática
com evolução para insuficiência renal em quase 80% dos
casos. Em relação à GESF, o mesmo grupo acompanhou
15 pacientes com a forma hepato-esplênica e observou
resposta a corticóide em 30% dos casos. A presença de
hipertensão arterial ou insuficiência renal na época do
diagnóstico e a persistência de síndrome nefrótica
associaram-se à progressão da doença renal(16).
Recomendações
1 - Pacientes com a forma hepato-esplênica e GNMP
apresentam resposta insatisfatória a imunossupressão
e/ou antiparasitários (Grau D) (11,15)
2 - Pacientes com a forma hepato-esplênica e GESF
podem beneficiar-se com o uso de corticóide (Grau D) (16)
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Glomerulopatias Secundárias
32
NEFROPATIA DIABÉTICA
Cerca de 20% a 30% dos pacientes portadores de
Diabetes Mellitus (DM) evoluem com nefropatia. No diabetes tipo 2 (DM2) uma fração menor desenvolve insuficiência renal crônica terminal (IRCT), entretanto devido a
maior prevalência em relação ao diabetes tipo 1 (DM1),
esses pacientes constituem 50% do grupo de diabéticos em
diálise(1). Esta patologia tem-se tornado a principal causa de
IRCT nos Estados Unidos e Europa e a segunda causa no
Brasil(2). Entretanto, a instituição de medidas rígidas como
controle da glicemia, da pressão arterial, dos lipídeos, somada a um estilo de vida adequado sem fumo ou álcool e à
pratica de atividade física regular poderá modificar de modo
favorável a evolução natural da nefropatia diabética(3).
Podemos reconhecer três fases clínicas da nefropatia diabética: (1) nefropatia incipiente caracterizada
pela presença de albumina na urina de 24 horas entre 30 e
200 mg; (2) nefropatia clínica com proteinúria, inclusive
de nível nefrótico; (3) insuficiência renal.
Sem intervenções específicas, 80% dos pacientes
portadores de DM1 com microalbuminúria evoluirão para
nefropatia clínica e hipertensão arterial sistêmica (HAS) e
50% destes, num prazo de 10 anos, apresentarão IRCT
(3). Em relação ao DM2, a nefropatia clínica se desenvolverá em 20 a 40% dos casos, sendo que 20% destes
também apresentarão IRC terminal (4,5).
Controle Glicêmico
No estudo Diabetes Control and Complication
Trial (DCCT)(6), o controle glicêmico em pacientes com
DM1 foi responsável pela redução em 39% da ocorrência
de microalbuminúria e 54% de proteinúria. Nos pacientes
com DM2, o estudo United Kingdom Prospective Dia betes Study (UKPDS) mostrou, após um melhor controle
glicêmico, taxas reduzidas de retinopatia, neuropatia e
nefropatia. Com 12 anos de observação, houve uma redução em 33% no desenvolvimento de microalbuminúria (7).
Metas mais rígidas, isto é, hemoglobina glicosilada < 6%,
vêm sendo testadas no estudo ACCORD (8), com o intuito
de avaliar os riscos e os benefícios desta estratégia.
Recomendações(3,9)
1 -A redução da hemoglobina glicosilada diminui complicações microvasculares e neuropatia no diabetes (Grau A);
2 -Meta de hemoglobina glicosilada < 7% deve ser
alcançada (Grau B);
3 -Metas mais rígidas - com hemoglobina glicosilada <6% podem ser consideradas em pacientes individuais (Grau B);
4 -A redução da hemoglobina glicosilada diminui o risco de infarto agudo do miocárdio e morte cardiovascular (Grau B);
5 -Metas menos rígidas podem ser apropriadas para pacientes com história de hipoglicemia severa, idosos e
crianças muito novas (Grau D).
Controle Pressórico
No DM1, a hipertensão é usualmente secundária
à nefropatia, manifestando-se em paralelo com a
microalbuminúria. No DM2, ela está presente em 30%
dos pacientes na época do diagnóstico de diabetes e
apresenta etiologia variável podendo ser essencial,
secundária à nefropatia ou fazer parte da síndrome
plurimetabólica(10).
Tanto a hipertensão sistólica como a diastólica
aceleram a progressão da nefropatia e o tratamento agressivo é capaz de reduzir a albuminúria, a velocidade de
queda da filtração glomerular, a mortalidade e a necessidade de diálise(11). Em um intervalo de 16 anos, o controle pressórico diminuiu a mortalidade de 94% para
45% e a necessidade de diálise de 73% para 31% em
pacientes com DM1 e nefropatia já instituída(3).
A terapia anti-hipertensiva com inibidores da
enzima conversora de angiotensina (IECA) em DM1,
atingindo níveis de pressão sistólica e diastólica inferiores
a 130 e 80 mmHg, respectivamente, determina um benefício seletivo em relação a outras classes de drogas.
Observa-se um retardo na progressão de micro para macroalbuminúria, uma lentificação no declínio da taxa de
filtração glomerular nos pacientes já com nefropatia clínica e uma redução nos riscos de doença cardiovascular(12,13). No estudo UKPDS, o controle pressórico se
acompanhou de um benefício ainda maior que o controle
glicêmico com redução de 37% da ocorrência de qualquer
complicação microvascular no DM2(7). Ainda não existem comparações adequadas entre o IECA e o antagonista
do receptor da angiotensina (BRA), entretanto no DM2 o
uso de BRA diminuiu a taxa de progressão da nefropatia
incipiente para a nefropatia clínica e desta para a IRC
terminal(14, 15, 16) .
Recomendações(3,1)
1- Para diminuir o risco e/ou retardar a progressão da
nefropatia, deve-se otimizar o controle da pressão
arterial (Grau A);
2 -Nos pacientes hipertensos com DM1 e qualquer grau de
albuminúria, IECA reduz a progressão da doença renal
(Grau A);
3 -Nos pacientes hipertensos com DM2 e microalbuminúria, IECA e BRA reduzem a progressão da doença
renal (Grau A);
4 -Nos pacientes hipertensos com DM2, proteinúria e
creatinina > 1,5 mg/dL, BRA reduz a progressão da
doença renal (Grau A);
7) pacientes com intolerância para estas dro5 - Nos
gas, considerar o uso de β-bloqueadores, diuréticos ou bloqueadores de cálcio não-diidropiridínicos (Grau E) .
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
Controle Lipêmico
Pacientes portadores de diabetes apresentam uma
maior prevalência de anormalidades lipídicas, o que contribui como fator de risco independente para DCV (18). Estudos objetivando níveis de LDL-colesterol < 100 mg/dl, de
HDL-colesterol > 40 mg/dl e de triglicérides < 150 mg/dl
alcançaram reduções significantes nos eventos coronarianos e cerebrovasculares(19). A terapia farmacológica deve
ser iniciada após e, em alguns casos de maior risco, em
conjunto com intervenções para o controle glicêmico e
nutricional, a redução de peso, o não uso de fumo ou
álcool. A escolha da droga dependerá do tipo de alteração
encontrada, podendo ser realizada com estatinas, fibratos,
ácido nicotínico. Vale a pena ressaltar que a terapia combinada pode ser útil em alguns casos, entretanto o risco de
eventos adversos, como miosite, pode estar aumentado, especialmente nos pacientes diabéticos com insuficiência renal
(20,21). A elevação dos níveis lipídicos contribui para o desenvolvimento de glomerulosclerose; entretanto, na nefropatia
diabética, este achado não se encontra tão bem caracterizado. Um estudo prospectivo, em pacientes com DM1 e
HAS, associou níveis elevados de colesterol com progressão da doença renal(22). Também há evidências de que em
diabéticos normotensos com microalbuminúria, o controle
lipêmico com sinvastatina é responsável por queda de até
25% na excreção de albumina(23).
33
Uso de IECA/BRA em pacientes diabéticos
normotensos com albuminúria
Todo paciente diabético com excreção urinária de
albumina normal deverá ser rigorosamente tratado em
relação ao controle glicêmico, ao controle pressórico e ao
estilo de vida, a fim de reduzir o risco de evolução para
a fase de nefropatia incipiente. Em relação aos pacientes
com DM1, normotensos, sem microalbuminúria, ainda
não há evidências suficientes para se recomendar a
utilização de IECA ou BRA Entretanto, em pacientes
portadores de DM1, normotensos, com microalbuminúria, a utilização de IECA se mostrou eficaz em diminuir a excreção de albumina quando comparada ao
placebo (25,26, 27,28,29). Em relação ao DM2, a microalbuminúria não é um preditor tão eficaz de nefropatia
como no DM1. Nesses pacientes, a nefropatia clínica
ocorreu em 22 a 42%, mas observou-se uma alta
freqüência de morte por DCV. Em muitos casos ela está
presente no momento do diagnóstico de diabetes e é
geralmente devido a outros fatores como aterosclerose(30,31). Entretanto, Ravid et al . demonstraram que
apenas 12% dos pacientes em uso de IECA progrediram
para nefropatia clínica em relação a 42% no grupo
placebo(13). Pelo risco aumentado de nefropatia e de
DCV, a utilização de IECA ou BRA deve ser encorajada
em todo paciente diabético com microalbuminúria(13,32).
Recomendações (24)
1- Controle glicêmico, diminuição Da ingesta de gorduras
saturadas e do peso, aumento da atividade física, o não
uso de fumo ou álcool, melhoram o perfil lipêmico em
pacientes portadores de diabetes em geral (Grau A);
2- Deve-se iniciar terapia farmacológica se as metas de
redução dos lipídeos não foram alcançadas após as
medidas acima (Grau A)
3- A redução do LDL-colesterol para níveis abaixo de 100
mg/dL está associada com diminuição dos eventos
cardiovasculares (Grau A);
4- A redução dos triglicérides e o aumento do HDL-colesterol estão associados com a diminuição dos eventos cardiovasculares em diabéticos com DCV clínica (Grau A).
Recomendações
1- Todo paciente com DM1, normotenso, com microalbuminúria, deverá receber além do tratamento convencional, IECA (Grau A);
2 -Todo paciente com DM2, normotenso, com microalbuminúria, deverá receber além do tratamento
convencional, IECA (Grau A).
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GLOMERULOPATIA E AMILOIDOSE
Aproximadamente 10% dos pacientes com síndrome nefrótica idiopática acima da idade de 60 anos apresentarão amiloidose na biópsia renal(1). A principal manifestação clínica da doença é o envolvimento renal; outras
manifestações incluem insuficiência cardíaca congestiva
relacionada à cardiomiopatia restritiva, hepatosplenomegalia e neuropatia periférica(2). Embora o diagnóstico
de amiloidose AL seja mais comumente feito pela
detecção de paraproteína anormal através de imunofixação (em soro ou urina), documentação de discrasia de
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células plasmáticas na medula óssea continua a ser útil em
10 a 15% dos pacientes que não apresentam uma
paraproteína detectável no soro ou urina (2). A amiloidose
AA é observada em alguns pacientes com níveis elevados
de proteína amilóide A sérica circulante em estados
inflamatórios(3,4). Na biópsia renal, as fibrilas amilóides
têm 10 a 12 nm, quando observadas por microscopia
eletrônica, e diferem de outros tipos de fibrilas, como as
das glomerulonefrites fibrilares e imunotactóides(5,6).
A terapia convencional com agentes alquilantes,
dirigida a depletar o clone de células plasmáticas produtor
de cadeias leves, tem melhorado a sobrevida de pacientes
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 1 - Supl. 1 - Maio de 2005
com amiloidose AL, especialmente daqueles que
alcançam uma resposta hematológica, embora as taxas de
sobrevida ainda sejam baixas (apenas 50% em 1 ano) (2).
Transplantes de medula óssea e de células-tronco têm
sido úteis em pacientes selecionados (1,2). Em uma revisão
de pacientes em um centro único, 65 pacientes com
amiloidose AL com > 1 g/dia de proteinúria foram tratados com quimioterapia ablativa seguida por transplante
autólogo de células-tronco sangüíneas (7). A sobrevida foi
de aproximadamente 75% em 1 ano e > 50% em 2 anos
naqueles que tiveram uma boa resposta renal e esta era
mais provável entre os pacientes com uma resposta
hematológica completa. De um modo geral, os aspectos
que mais se associaram com uma melhor sobrevida do
paciente foram ser mais jovem, ter menos do que três
sistemas do organismo acometidos e ser capaz de tolerar
doses mais elevadas de terapia ablativa. Em sendo assim,
considera-se hoje que, para os pacientes mais jovens com
amiloidose AL e envolvimento renal predominante, o
transplante de células-tronco é uma opção terapêutica
35
razoável, mesmo para pacientes com IRC terminal.
Uma nova terapia promissora corresponde ao uso
de droga que reduz especificamente os níveis circulantes
do componente amilóide P, permitindo a dissolução das
fibrilas amilóides existentes, in vitro e em animais
experimentais (8). Este recurso terapêutico encontra-se em
investigação em humanos. Tal tratamento, se bem
sucedido, tem a potencialidade de atuar não apenas na
prevenção da deposição de novo material amilóide, mas
também na resolução de depósitos já existentes e,
eventualmente, possibilitar a reversão do dano aos
órgãos-alvo (8).
Em amiloidose AA, terapia intensiva direcionada à
reversão do estado inflamatório pode associar-se a uma
melhora significante das manifestações renais. Isso tem
sido visto em pacientes com artrite reumatóide que foram
tratados com pulsoterapia com ciclofosfamida (9). Em raros
casos, envolvimento renal e síndrome nefrótica têm sido
vistos em amiloidose AA associada a certos tumores
sólidos (10).
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RENOPROTEÇÃO
Nos últimos anos, tem-se observado progresso
expressivo na área de renoproteção, aqui entendida como
recursos para interromper ou pelo menos lentificar a
progressão das doenças renais para IRCT.
fatores de transcrição pró-inflamatórios e melhoram a
disfunção da célula endotelial em síndrome nefrótica (2).
Logo, as estatinas podem ter efeitos benéficos, que vão
além da redução dos níveis de lipídeos, em doenças
glomerulares inflamatórias (3).
1 - Dieta
4 - Medicações antiproteinúricas
Restrição de proteínas na dieta deve ser
considerada para pacientes com déficit de função renal
severo (creatinina sérica > 350 mmol/L) (Grau A).
Essa recomendação baseia-se em estudos que
envolveram várias doenças renais e não apenas glomerulopatias, mas nos quais essas doenças corresponderam a
um percentual expressivo da população avaliada; a
análise em separado dos pacientes com glomerulopatias
confirmou efeito benéfico da intervenção em alguns
estudos (1).
2 - Controle da pressão arterial
A necessidade de controle da pressão arterial está
bem estabelecida nas doenças renais de um modo geral e,
sem dúvida, nas doenças glomerulares, para as quais a
coexistência de hipertensão arterial é considerada um
fator de mau prognóstico. Em sendo assim, no que se
refere à renoproteção, tratar a hipertensão arterial é um
ponto consensual. Estudos vêm sendo feitos no sentido de
definir as metas de pressão e há indícios de que o alvo em
termos de pressão arterial depende do grau de proteinúria
e do nível de função renal.
No que tange às drogas de escolha, estudos com
doenças renais que compararam os inibidores da enzima
conversora da angiotensina com placebo e beta-bloqueadores mostraram que os primeiros são preferíveis para
fins de renoproteção (Grau A) (1).
3 - Tratamento da dislipidemia
Os inibidores da HMG coA-redutase (estatinas)
estão sendo cada vez mais usados para tratar as dislipidemias associadas com a síndrome nefrótica, em grande
parte com o objetivo de prevenir o desenvolvimento de
aterosclerose e doença arterial coronariana. No entanto,
sabe-se que as estatinas têm múltiplos efeitos, entre os
quais propriedades antiinflamatórias e imunomoduladoras; há relatos de que eles inibem a ativação de
Cada vez mais evidências se acumulam de que
reduzir proteinúria associa-se a uma melhor evolução
renal, independente do processo de doença subjacente (4).
O tratamento com bloqueadores das ações da
angiotensina II, tais como os IECAs e os BRAs retardam
a progressão da doença renal e reduzem a proteinúria (4).
No que diz respeito às doenças glomerulares
propriamente diatas, tem-se demonstrado em diferentes
glomerulopatias a ação antiproteinúrica tanto de IECA
quanto de BRA, a qual independe das suas propriedades
anti-hipertensivas (5,6).
BRAs têm sido comparados com outras drogas
anti-hipertensivas, constatando-se que, mesmo alcançando controle similar da pressão arterial, essas drogas têm
maior ação antiproteinúria. Foi o que se observou quando
BRAs e bloqueadores de canais de cálcio foram comparados em nefropatia por IgA: BRA revelou-se antiproteinúrico; houve aumento da proteinúria com amlodipina;
esse efeito tem sido descrito com os bloqueadores de
cálcio diidropiridínicos (7).
O uso de IECA associado a BRA também tem sido
amplamente avaliado. Estudo controlado randomizado
(COOPERATE), desenvolvido por Nakao et al., comparou losartan, trandolapril e a combinação losartan/ trandolapril em 263 pacientes com nefropatias crônicas proteinúricas não-diabéticas (65% de doença glomerular, das
quais 50% correspondiam a nefropatia por IgA). Embora
as características no período basal e o controle da pressão
arterial tenham sido equivalentes, a sobrevida renal
melhorou muito e a excreção urinária de proteína foi mais
reduzida com a terapia de combinação (8). A combinação
dessas classes de medicamentos é recomendável em
doenças glomerulares (Grau A), no entanto, é possível
que não seja tão efetiva em todos os tipos de doenças
glomerulares (9). Bons resultados com o bloqueio do
sistema renina-angiotensina têm sido também obtidos em
nefropatia membranosa (10) e GESF (11), mas não tão
expressivos quanto em Nefropatia por IgA.
J Bras Nefrol Volume XXVII - nº 2 - Supl. 1 - Junho de 2005
O racional para o uso combinado de IECA e BRA
é alcançar um bloqueio mais completo do sistema reninaangiotensina, que vem revelando-se mais renoprotetor
que o uso isolado de cada droga (8,12,13,14).
Evidentemente, a progressão ocorre em muitos
casos, mesmo com a inibição máxima do sistema reninaangiotensina, de modo que intervenções voltadas para
outros mecanismos são freqüentemente apropriadas com
vistas à prevenção de progressão para doença renal
terminal e suas complicações. Muitos concordam que tais
recomendações devem incluir: perda de peso, intensificação do controle pressórico, adição de outras drogas
37
antiproteinúricas, modificação do estilo de vida, incluindo por exemplo parar de fumar (11). Tem-se constatado
que, em doença renal, especialmente glomerulopatias, o
tabagismo tem ação deletéria sobre os rins primariamente
através de lesão das pequenas artérias interlobulares (15).
Acredita-se que uma abordagem que envolva o
controle de múltiplos fatores é a que terá mais sucesso na
prevenção da progressão da doença renal (glomerular ou
não), além de contribuir para redução da morbidade e da
mortalidade cardiovasculares expressivas associadas com
a doença renal crônica (16).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao concluir essa apresentação das recomendações
dirigidas ao diagnóstico e tratamento das doenças glomerulares, gostaríamos de lembrar que essas são doenças
pouco freqüentes, com tipos histológicos, evolução e
prognóstico extremamente variáveis e cujo curso pode ser
modificado por numerosos fatores (momento do
diagnóstico, idade, sexo, função renal na apresentação,
co-morbidades, dentre outros). Em sendo assim, em geral,
é bastante difícil estabelecer a melhor conduta. Não se
espera que as propostas aqui descritas sejam aplicáveis a
todos os casos, apenas com base no tipo de glomerulopatia estabelecido a partir da biópsia renal. Insistimos
que ao tratar glomerulopatias é muito importante a experiência prévia na área, como aquela adquirida em serviços
que concentram tais casos.
Algumas glomerulopatias não foram aqui discutidas, por serem incomuns ou por serem de menor interesse em nosso meio, com a conseqüente falta de suporte
em evidências para definição de conduta.
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