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Trauma e linguagem
Opção Lacaniana online nova série
Ano 6 • Número 16 • março 2015 • ISSN 2177-2673
Trauma e linguagem: acorda1
Heloisa Caldas
Agradeço a oportunidade que os organizadores dessas
jornadas me deram de falar nessa plenária. Agradeço também
a Marie-Hélène Brousse pela atenção de ler e comentar minha
intervenção.
Trauma
não
psicanálise.
Provavelmente
é
um
foi
termo
trazido
específico
da
por
da
Freud
medicina, que descreve variados tipos de traumatismos. No
entanto, será preciso distinguir aqui a forma totalmente
diferenciada com que Freud importou esse termo. Trauma em
grego quer dizer ‘ferida’ e metonimicamente veio a indicar
o evento que causou a ferida. Em psicanálise, Freud situou
o
trauma
no
trabalho
inconsciente
sobre
a
ferida,
sua
impossível cicatrização, por assim dizer.
É preciso esclarecer isso porque é comum confundir o
acontecimento violento, suposto provocador do trauma, com o
trauma
como
trabalho
psíquico.
Dessa
confusão
deriva
a
procura atual e frequente, inspirada em uma terapêutica de
prevenção, que pretende evitar os eventos traumáticos ou
tratá-los buscando fazer desaparecer seus efeitos o mais
rapidamente possível. A isso a psicanálise se recusa. Nada
a prevenir, tampouco a curar. O trabalho da psicanálise é,
justamente,
acolher
o
trauma
em
sua
‘elaboração’,
que
podemos aproximar aqui ao termo lacaniano ‘subjetivação’
referindo ao trabalho do sujeito sobre o ponto em que teria
sido objeto de uma violência. A operação de sujeito depende
da linguagem. Então, para pensar o trauma gostaria de tomálo segundo as dimensões do espaço e do tempo criados pela
linguagem.
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
1
1. O espaço do trauma
O trabalho de Freud sobre o trauma remonta aos seus
estudos
de
neurologista
sobre
as
afasias.
As
afasias
decorrem em geral de traumatismos, no sentido médico do
termo, danos de tecidos cerebrais que provocam rupturas no
seu funcionamento. Essa clínica tão neurológica levou Freud
a se interessar, no entanto, mais por seus efeitos do que
por suas causas. Em vez de privilegiar o tecido nervoso que
se rompe, ele se voltou para a linguagem, que não deixa de
ser também um tecido, embora não seja orgânico. Começa
nessa
mudança
de
perspectiva,
a
meu
ver,
a
diferença
crucial entre trauma, no sentido daquilo que fere, e trauma
em psicanálise. Advém dessa mudança na pesquisa de Freud, a
articulação fundamental entre trauma e linguagem.
Freud destaca assim, desde o início de seu trabalho, o
trauma como aquilo que leva ao nascimento do Spracheapparat
(aparelho de linguagem) e funda uma escrita corporal. Não
se trata do corpo orgânico que independe da fala, mas do
corpo que, para a psicanálise, só o é como falante. Corpo
que nasce assim a partir de duas dimensões espaciais: a da
carne
e
a
da
linguagem.
Estes
dois
espaços,
que
Freud
tratou no limite entre interno e externo, receberam de
Lacan um tratamento topológico moebiano e resultaram na
noção de extimidade: o íntimo afetado pelo externo. Se,
para Freud, o trauma é mobilizado pelo encontro com das
Ding – a Coisa externa ao corpo que o leva a falar – Lacan
retira
daí
outro
conceito,
o
de
objeto
a
–
resto
inassimilável do encontro da carne com a linguagem. Assim,
para Lacan, o trauma não causa a linguagem. Ao contrário, a
linguagem causa o trauma.
Há uma sutileza teórica nessa torção feita por Lacan.
Se
das
Ding
mantinha
uma
exterioridade
em
relação
à
linguagem, o conceito de objeto a, ao contrário, só pode
ser pensado a partir da linguagem. Essa torção implica
também
numa
mudança
do
conceito
Opção Lacaniana Online
de
real.
O
real
que
Trauma e linguagem: acorda
2
chamamos
de
lacaniano
não
se
encontra
exterior
à
realidade discursiva. Ele se coloca como o avesso dessa
realidade. Logo, não há sujeito pré-linguístico, assim como
não há trauma extralinguístico.
Podemos fazer então um paralelo entre Freud e Lacan.
Freud pensa através do aparelho de linguagem o advento do
inconsciente;
Lacan
propõe
o
falasser
como
conceito
lacaniano homólogo ao de inconsciente para Freud. Se o
trauma
funda
o
inconsciente,
Lacan
virá
a
dizer
que
o
falasser seria um nó tecido de letra e gozo. Um nó sempre
possui
furos.
A
corda
é
bem
expressiva
dessa
lógica.
Podemos vê-la se romper brutalmente, como na imagem do
cartaz deste evento, mas também podemos perceber os furos
existentes entre as cerdas que se trançam. São, aliás, os
furos
inerentes
Certamente,
o
ao
trançar,
trauma
aparece
o
que
de
constitui
forma
mais
a
corda.
visível
e
localizável na corda que se rompe. Vai dar trabalho para
refazer o nó. A corda jamais será como antes. No entanto, a
trança, que é a própria corda, também tem furos que seu
trançado produz e organiza. A corda rompida perde essa
organização - nisto reside seu maior perigo. Porém, mesmo
no trançado, ainda que contido, o mal-estar do furo jamais
desaparece. Localizar o trauma nos interstícios da própria
corda como a não corda que ela mesma produz, ilustra melhor
o real lacaniano do trauma. No trançado temos a corda, nos
furos se aloja acorda.
Podemos chamar a corda de linguagem, tecida com fios
de simbólico e imaginário; podemos pensar os furos como o
real, no sentido lacaniano do termo, pois eles restam do
traçado singular de cada corda. Não é um real para todos.
Cada corda tece o seu. É por conta de um trauma, traçado de
forma tão singular, que algo jamais será bem-entendido,
ainda que se busque na linguagem um sentido comum para o
privado. A questão passa a ser como viver com isso, esticar
ou afrouxar a corda respeitando seus furos e o mal-estar
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
3
que
deles
decorre,
estreitar
ou
alargar
os
furos
que
acessam o gozo através do objeto a.
Encontramos
nisso
uma
diferença
radical
entre
a
concepção do trauma em psicanálise e a forma como ele é
tratado
no
traumático
diagnóstico
(TEPT)
do
de
Transtorno
DSM.
A
de
descrição
estresse
desse
pós-
transtorno
repousa na ideia de que o traumatismo é um evento externo,
localizado
fora
do
corpo,
cujos
efeitos
no
manejo
da
linguagem são concebidos como transtorno. São problemas,
tais
como:
as
ruminações,
as
lembranças
intrusivas
e
recorrentes, as recordações que assaltam o paciente, fixas,
espontâneas,
involuntárias,
difíceis
de
serem
interrompidas, parecendo ter vida própria. Vejam que, no
espaço
criado
encontra
pela
as
linguagem,
formações
do
no
qual
um
inconsciente,
psicanalista
um
psicólogo,
baseado nesse tipo de diagnóstico, encontra um transtorno.
Não reconhecem a razão, depois de Freud, das formações
inconscientes.
Essa concepção de linguagem descrita no quadro do TEPT
colabora para o ideal atual de transparência absoluta, que
demanda que se possa dizer tudo e da melhor forma. A pouca
psicologia
que
acompanha
esse
diagnóstico
–
feito,
em
parte, para colaborar com a medicalização psiquiátrica –
propõe que o traumatizado precisa falar imediatamente. O
tratamento
consiste
em
o
rapidamente
possível
seu
conhecimento
restabelecer
seu
eu
perspectiva
sujeito
neoliberal
tratado
recolocado
na
perspectiva,
positiva2.
e
deve
se
a
ultrapassar
passou,
trauma
forçá-lo
e
ser
feliz
Segundo
de
psicologia
ela,
o
e
sobre
o
mais
que
se
numa
psicologia,
produzir,
ser
o
rapidamente
Deriva
norte-americana
pode
o
para
Sustentado
da
consumo.
trauma
falar
organizar
cognitivo.
capitalista
engrenagem
uma
curar;
isto:
dessa
chamada
visto
de
como
necessário à mudança das pessoas. Apostando na resiliência,
uma concepção de elasticidade do trabalho psíquico que faz
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
4
com que se possa ultrapassar um modelo homeostático do
psiquismo
tirando
crescimento,
partido
chegaram
a
das
rupturas
criar
uma
nova
para
seu
sigla
como
orientação no tratamento do Estresse pós-traumático: PTG
condensa post traumatic growth3.
Em
que
mutação
isso
difere
subjetiva?
da
Difere
psicanálise,
em
dois
que
aspectos
aponta
à
capitais:
primeiro, porque o trabalho subjetivo em psicanálise se dá
pela via do inconsciente, ao passo que, nessa proposta,
temos um adestramento cognitivo do comportamento sustentado
por sugestão; segundo, porque não se exige que a mutação
subjetiva
leve
o
sujeito
à
felicidade.
A
pretensão
da
psicologia que visa o PTG é a de que se possa, através da
resiliência, tirar o melhor proveito do trauma, obedecendo
ao
imperativo
de
felicidade.
Desconhece-se
a
força
da
pulsão de morte. O espaço da linguagem é usado, assim, para
eliminar o trauma.
Freud demonstra o quanto falar é relevante para conter
o desamparo e o horror radical vivido no trauma. Mas é
preciso tomar a fala, justamente, pelos furos, e não pela
clareza de comunicação. Seu aparelho de linguagem não trata
da comunicação, nem tampouco da eliminação do trauma. Ao
contrário, ele parte do pressuposto do impossível de dizer
o
real.
Logo,
falar
do
trauma
é
menos
dizê-lo
do
que
construir bordas em torno de um impossível dizer. Isso não
pode ser confundido com um relato confessional que pretenda
dizer tudo, como nos testemunhos jurídicos que esperam que
crianças possam depor sobre abusos sofridos para corroborar
provas de criminalização do abusador4. Sobre o testemunho,
no campo jurídico, Lacan aponta ao real: “o objetivo de que
o gozo se confesse deve-se, justamente, ao fato de que ele
seja inconfessável”5.
Vamos
encontrar
o
trauma,
assim,
no
que
fixa
a
repetição em torno de um ponto, no qual algo “resta por
executar”6 – os termos são de Freud. Lacan os retoma, de
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
5
certa
forma,
ao
apontar
o
inconsciente
como
o
não
realizado e o dispositivo analítico como o discurso que
pode abrir ou fechar caminhos para o objeto a, propiciando,
ou não, sua captura pelo esquema da nassa7. Esses objetos
são os “achados”8 inconscientes, dados de memória que em
articulação com outros, criam novas associações relativas
ao gozo em torno do qual gravitam. Posteriormente Lacan vai
tratar
dessas
imantadas
de
rememoração,
reminiscências
gozo
que
abrindo
como
podem
novas
letras,
entrar
vias
de
peças
no
avulsas
trabalho
circulação
de
para
o
indizível, não tanto pelo que guardam de verdade, mas pelo
gozo que escoam.
É preciso então destacar que o trabalho analítico dá
lugar
a
recordações
sem
lugar,
mas
também
constata
e
preserva um não lugar em relação ao sentido. O coração do
trauma consiste, a rigor, na dialética entre o localizável
e o não localizável.
O trauma, então, não é facilmente localizável. Ele
guarda, em relação à linguagem e ao corpo, a posição êxtima
de uma experiência vivida fora de si. Podemos dizer que ele
se dá na dimensão espacial do corpo, mas não o corpo que se
pensa
ter
na
ilusão
do
eu,
composto
pela
boa
forma,
Gestalt, do estádio do espelho; tampouco é o corpo fálico
que se ordena segundo o campo do simbólico. O corpo no
trauma predomina como real, fora dos semblantes, fora do
inteligível e calculável, fora de si. É um ponto de gozo
sobre o qual Miller tem insistido muito nos últimos anos: o
gozo no corpo como Outro.
As neuroses de guerra provocadas pela Primeira Guerra
Mundial trouxeram complicadores às concepções freudianas de
trauma. Se a psicanálise “havia nascido com as questões do
trauma
postulando-o
precisava
passar
a
como
lidar
a
com
origem
do
neuroses
sujeito”9,
produzidas
ela
pela
guerra. No entanto, Freud insiste em distinguir as neuroses
traumáticas das neuroses espontâneas, opondo “a realidade
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Trauma e linguagem: acorda
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psíquica à realidade material ou histórica do sujeito”10.
O
termo
traumático
fica
reservado
às
contingências
que
abalam a organização psíquica, ao passo que o termo trauma
é reservado ao que diz respeito à etiologia da neurose.
Ainda
assim,
o
trabalho
de
Freud
não
foi
o
de
generalizar os traumatizados por esta ou aquela razão. O
pouco que fez disso falhou. Refiro-me a seu comentário de
que aqueles que não foram feridos, embora tenham chegado
perto disso, tinham mais chances de se traumatizar do que
os que efetivamente foram feridos. Segundo Laurent, esse
palpite
freudiano
não
se
sustentou
nas
estatísticas
produzidas a partir da Segunda Guerra Mundial11.
O
mais
relevante
da
pesquisa
de
Freud
sobre
as
neuroses traumáticas foi destacar o trabalho subjetivo de
retorno compulsivo às lembranças do trauma, o que colaborou
muitíssimo
para
seus
avanços
na
teoria
pulsional,
distinguindo as pulsões de vida e de morte, revendo os
princípios
do
funcionamento
mental.
Assim,
um
episódio
qualquer, vivido pela criança, pode ser traumático se seus
efeitos vierem a demonstrá-lo. Ao contrário, uma tragédia
não necessariamente produz um trauma. Isso não quer dizer
que não se possa estar imerso em um ambiente cultural – por
exemplo, as guerras e as tragédias naturais – que facilite
a mobilização de excessos de gozo. No entanto, esses fatos
ou episódios cairão para cada um de formas diferenciadas.
Há
cordas
e
preparatório12
cordas.
para
o
Laurent,
XX
em
Encontro
um
recente
Brasileiro
do
vídeo
Campo
freudiano, lembra uma pontuação de Lacan: quando se tem
“uma
relação
verídica
com
o
real”13,
se
pode
responder
melhor à guerra e suas vicissitudes. Isso não equivale, de
forma
alguma,
à
resiliência
que
a
psicologia
positiva
pretende alcançar insuflando nas pessoas uma vontade de
superação, a partir de um projeto que pretende controlar e
produzir respostas generalistas ao trauma. O trauma, para a
psicanálise, se desfia em vicissitudes sempre ímpares e,
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Trauma e linguagem: acorda
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portanto, impossíveis de generalizar, calcular, prever a
partir
de
condições
pessoais.
Trata-se
genéticas
de
poder
ou
esforços
responder,
de
da
vontade
forma
mais
singular e privada, a partir de seu sinthoma, aos novos
desarranjos
do
real,
que
acontecimentos
inesperados
e
violentos produzam.
2. O tempo do trauma
O fato de que o evento traumático não determine o
trauma, faz com que só saibamos do trauma a posteriori.
Consequentemente, não há prevenção contra o trauma. Apenas
o efeito atesta a causa, o que desdobra o trauma em dois
tempos: o segundo tempo decide sobre o primeiro. Essa lição
foi
dada
por
Freud
a
respeito
de
uma
paciente,
Emma
Eckstein, curiosamente a mesma paciente em questão no sonho
da
injeção
de
Irma14.
Vejam
o
quanto
Freud
conseguia
extrair da sua clínica. Se contarmos a história no sentido
cronológico, ela se tornaria um trauma no senso comum do
termo.
Será
preciso
retroceder
na
cronologia,
como
fez
Freud, pelo vetor retroativo da narrativa em análise. Esse
tempo
retroativo
deve-se,
também,
à
linguagem,
cujo
desdobramento promove um afastamento do que conta, ao mesmo
tempo em que o retoma como narrativa.
Emma
fala
em
análise
da
impossibilidade
de
entrar
desacompanhada em uma loja devido à ideia que lhe ocorre,
de
que
os
vendedores
ririam
de
sua
roupa.
Coisa
mais
estranha e sem causa aparente alguma. A crença de que o
inconsciente
iria
revelar
o
segredo
disso
sustenta
a
continuidade da análise. Uma lembrança da paciente responde
ao
desejo
do
analista
pela
causa
de
seu
sintoma.
Ela
propõe, como uma suposição, que tudo teria começado quando,
aos 12 anos, entrou numa loja de tecidos e se deparou com o
riso de dois vendedores. Pensara que riam de seu vestido e
saiu dali correndo. Evoca que se sentiu atraída por um
deles. A lembrança não ajuda muito, pois não explicava, no
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Trauma e linguagem: acorda
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atual
sintoma,
porque
ela
evitava
entrar
em
lojas
desacompanhada. Caso estivesse acompanhada de alguém, ela
podia facilmente entrar. Por que eles não ririam de sua
roupa, caso ela estivesse acompanhada? Há um dado que se
oculta. Freud intitula essa lembrança de próton pseudos15:
falsa
conclusão
devida
a
uma
falsa
premissa.
Portanto,
ainda é pouco - a análise continua. Ela vem a lembrar,
então, de outra cena, anterior, por volta dos seus 8 anos:
ao
entrar
assediada
numa
pelo
confeitaria
dono
do
sozinha,
ela
estabelecimento;
ao
havia
sido
tocar
seus
genitais, por cima da roupa, ele riu. Os dados corroboravam
a teoria que Freud elaborava na época, de que na etiologia
das neuroses havia um trauma devido a um abuso sexual.
Freud diz que o “perturbador num trauma sexual é, sem
dúvida,
a
liberação
do
afeto”16,
ou
seja,
a
excitação
sexual, esta sim abusiva, que se manifestara em ambas as
cenas, mas que só a posteriori assustou Emma17. Segundo
Freud, ela já havia sido despertada na primeira cena sem
significação
alguma,
apenas
como
excesso
pulsional.
O
sintoma fóbico responde a isso. Ele gravita em torno de um
riso e de roupas que, por deslocamento, se conectavam à
excitação sexual. Emma não cessa de se afastar disso, para
inexoravelmente encontrar isso que não cessa de não se
escrever: o sexual. Vejam que os próton pseudos são as
mentiras histéricas, cuja verdade consiste em apontar ao
real.
Freud
não
nos
conta
a
continuação
dessa
análise.
Viemos a saber pelo sonho de Emma/Irma que sua análise se
interrompeu. No sonho, Freud se culpava por isso e, de
forma espetacular, conclui com a fórmula da trimetilamina,
substância tão sexual que condensa suas dúvidas: Irma não
abria facilmente a boca para contar seus segredos; quando
Irma
abria
aspectos
a
do
boca,
sua
garganta
trauma
sexual
era
um
de
horror.
Irma
Dois
na
transferência/resistência com Freud. O desejo do analista
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
9
de Freud talvez tenha aí recuado. Ainda assim é ele que
movimenta esse sonho para concluir com uma fórmula que não
diz nada, signo do real do sonho, do sexual e do gozo.
Na época, o caso Emma, assim como as várias histórias
que suas pacientes lhe contavam, propiciava material para
Freud afirmar que a etiologia das neuroses se assentava
sobre um encontro prematuro com a sexualidade. Um abuso
sexual. Mas as narrativas sempre mudam no curso de uma
análise. O desejo do analista tem um forte papel nisso. Por
fim, Freud verifica que eram narrativas que demonstravam
mais o desejo sexual infantil de suas pacientes do que o
fato de terem sido abusadas. O trauma passa, então, a ser
visto como o encontro com o sexual e causa da constituição
da
fantasia.
A
fantasia
seria,
assim,
uma
resposta
ao
enigma do sexual.
Mas o problema temporal e espacial continua. O que
havia antes? Quando o trauma sexual chega à criança se ele
está lá desde sempre? Freud recua no tempo do trauma. Com a
ajuda de colaboradores, o trauma original se perde nas
brumas
das
primeiras
experiências
de
desamparo,
na
eminência da perda amorosa da mãe, no nascimento.
Lacan pôs um fim nessa busca pelo tempo perdido do
trauma, ao situá-lo no encontro da criança com a linguagem.
Entrar
com
sua
carne,
sem
saber
prévio
algum,
para
inscrevê-la como corpo em um mundo povoado por desejos e
demandas
paradoxais,
estabelecer
uma
separação
do
caldo
cultural, de forma a poder se valer do material disponível
e com isso estabelecer um campo de gozo, não pode acontecer
sem mal-estar excessivo: eis o trauma. Ninguém precisa de
tragédias. Ainda assim, elas acontecem. Basta ter linguagem
para que tragédias aconteçam. O trauma é uma experiência de
não saber, e seu aspecto mais crítico não se deve tanto à
perda no campo do saber. Essa perda só é trágica na medida
em que o saber administra o gozo. Ao se perder o saber se
está
à
mercê
de
uma
experiência
Opção Lacaniana Online
de
gozo
ameaçadora.
O
Trauma e linguagem: acorda
10
trauma
denuncia,
de
forma
bem
radical,
o
quanto
a
coalescência entre gozo e saber é um artifício, homólogo à
tessitura da corda que pode se romper.
Freud
deixou
de
lado
a
teoria
da
sedução
porque
percebeu que não era no tempo atribuído às lembranças pela
narrativa que localizava temporalmente o trauma. Podemos
aventar que, caso Emma/Irma tivesse seguido sua análise,
caso o umbigo do sonho se colocasse a cada vez que a
paciente brindasse o analista com uma história, teríamos
talvez uma versão que desalojaria o abuso até mesmo do
episódio no qual ela foi tocada aos 8 anos.
Afinal, quem não foi tocado de forma surpreendente
pelo contato sexual? Para isso basta uma imagem, o ranger
de uma cama, um gemido atrás da porta que desperte no corpo
uma estranha excitação. A rigor, não é o abuso, que por ser
qualificado de sexual, produz o trauma. Isso pode de fato
até
acontecer,
as
estatísticas
têm
denunciado
seu
crescimento que, assim como o de muitas outras formas de
violência, podemos atribuir à mutação da ordem simbólica
que passa da regulação do Nome-do-Pai à da cifra. O choque
de horror do abuso sexual se deve, além de suas condições
de violação, à invasão súbita e excessiva de gozo no corpo.
Quanto a isso, podemos inverter o sintagma ‘abuso sexual’
para a frase ‘o sexual abusa’. Abusa como acontecimento de
gozo no corpo, alheio ao já subjetivado; fura a corda da
imagem e da ordenação simbólica de um corpo instituído;
assusta, pois o corpo é Outro.
Essa perspectiva psicanalítica do sexual se descola do
que hoje se fala tanto sobre o abuso sexual traumático,
pois
aborda
o
encontro
com
o
sexo
além
e
aquém
das
condições de violência em que ele possa se dar. Novamente,
não se trata do evento, mas dos efeitos desse evento. O
encontro com o sexo – na medida em que os humanos não
dispõem de uma programação sexual a cumprir e precisam se
valer
dos
semblantes
de
sua
Opção Lacaniana Online
época
–
é
um
encontro
Trauma e linguagem: acorda
11
necessário com a pulsão, no que ela traz de excesso. Além
disso,
sendo
o
trauma
sexual
universal,
isso
não
o
generaliza, pois cada trauma é único.
O encontro com o trauma se dá segundo dois aspectos:
um
deles
é
desamparo,
o
reencontro
o
outro
com
o
mal-estar
celebra,
original
reiteradamente,
de
o
incomensurável gozo de um encontro surpreendente com um
gozo sem nome. Na repetição se atualizam, a cada vez, as
faces do direito (o simbólico que cinge o real) e do avesso
do trauma (o real que fura o simbólico), para lembrar um
desenvolvimento teórico de Laurent18. É sempre um segundo
tempo em relação ao primeiro. Os tempos se multiplicam, mas
o trauma reitera sempre o segundo tempo, em busca do tempo
perdido. De reiteração em reiteração, o trauma se dá na
dimensão infinita do eterno entre dois tempos, um compasso
de dois tempos, fora do tempo cronológico.
Em um exercício hipotético, podemos propor que exista
alguém não traumatizado. Mas não lhe peçam que fale de sua
vida, como se faz em análise. Basta a linguagem para que se
evoque, através dela mesma, o real que estar nela implica.
O trauma inevitavelmente se coloca porque o dispositivo
psicanalítico
é
apoiado
na
linguagem,
na
retroação
do
sentido, na transferência que lhe faz obstáculo, tornando
presente um ponto cego, surdo e mudo. Por isso podemos
dizer que, para a psicanálise, o trauma é de certa forma um
conceito universal. Ou seja, não se faz outra coisa em
análise senão falar do impossível de falar, contar o não
contabilizável. Podemos fazer o exercício de colocar isso
nas
fórmulas
lacanianas:
por
um
lado,
todos
somos
traumatizados. Seria outra forma de falar da castração.
Pelo
outro
lado,
porém,
somos
traumatizados
de
forma
nãotoda, uma vez que não existe uma forma exemplar para
lidar com o trauma, assim como não existe A mulher ou O
Outro. A forma como cada um trata subjetivamente seu trauma
faz acorda absolutamente singular. Quanto a isso, o trauma
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
12
não
é
generalizável,
mesmo
quando
temos
tragédias
de
massa ou vivemos numa época de muita violência, como a
atual.
1
Trabalho apresentado nas XXIII Jornadas Clínicas da Escola
Brasileira de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro, em outubro de
2014. A imagem do evento que trazia uma corda que se rompera foi
inspiradora para o título e para algumas considerações do texto.
2
A psicologia positiva tem contado com a contribuição mais
significativa do psicólogo norte-americano Martin Seligman, expresidente da APA e autor de A felicidade autêntica. Rio de
Janeiro: Editora Objetiva, 2009.
3
Crescimento pós-traumático.
4
Cf. MIRANDA, L. (2014). “Do trauma não se fala por decreto”.
Trabalho apresentado nas XXIII Jornadas Clínicas da Escola
Brasileira de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro, em uma das
mesas simultâneas do eixo sobre Trauma e Linguagem.
5
LACAN, J. (2008/1972-1973). O seminário, livro 7: a ética da
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 98.
6
FREUD,
S.
(1976/1916-1917).
“Fixação
e
traumas
–
o
inconsciente. “Conferência XVIII de Conferências introdutórias
sobre a psicanálise”. In: Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XVI. Rio de
Janeiro: Imago Editora.
7
LACAN, J. (1973/1964). O seminário, livro 11: os quatro
conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor.
8
IDEM. Ibidem.
9
LA SAGNA, P. (2015, mar.). “Os mal entendidos do trauma”. In:
Opção Lacaniana online nova série, n. 16, disponível em:
www.opcaolcaniana.com.br.
10
IDEM. Ibidem.
11
LAURENT, É.
(2014). “O trauma generalizado e singular”.
Disponível
em:
<http://www.encontrocampofreudiano.org.br/2014/02/o-traumageneralizado-e-singular_9241.html>. Acesso em: 10/09/2014.
12
IDEM.
[Video].
Disponível
em:
<http://www.encontrocampofreudiano.org.br/2014_08_01_archive.htm
l>. Acesso em 10/09/2014.
13
LACAN, J. (2003/1947). “A psiquiatria inglesa e a guerra”.
In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 106.
14
TEIXEIRA, A. (2010). “O sonho da dessuposição de Fliess”. In:
Almanaque
online,
nº
6.
Disponível
em:
<http://www.institutopsicanalisemg.com.br/psicanalise/almanaque/almanaque6.htm>.
Acesso
em
05/09/2014.
15
Cf. FREUD, S. (1976/1895). “Projeto para uma psicologia
científica”.
In:
Edição
standard
brasileira
das
obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. I. Op. cit., p.
368.
16
IDEM. Ibid., p. 372.
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
13
17
Emma relata inclusive que após a cena na confeitaria, esteve
lá uma segunda vez. Ao falar disso a Freud, se recrimina por ter
voltado lá como se quisesse provocar nova investida.
18
LAURENT, É. (2002, jun.-jul.). “El revés del trauma”. In:
Virtualia – Revista digital de la Escuela de la Orientacón
Lacaniana,
nº
6.
Disponível
em:
<http://virtualia.eol.org.ar/006/pdf/elaurent.pdf>.
Acesso
em
09/09/2014.
Opção Lacaniana Online
Trauma e linguagem: acorda
14
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