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Um imenso Portugal? Carlos Lessa A mais recente pesquisa sobre

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Um imenso Portugal? Carlos Lessa A mais recente pesquisa sobre
Um imenso Portugal?
Carlos Lessa
A mais recente pesquisa sobre aceitação avaliação do governo de Luiz Inácio
Lula da Silva revela que cresceu de 51% para mais de 60% aqueles que consideram
seu governo ótimo e bom e que, nos meses pós-eleitorais, sua curva de aceitação
está em acentuado crescimento.
Maurício Dias, editor da revista Carta Capital, me mostrou os resultados de uma
pesquisa de prognósticos para o Brasil: 88% dos integrantes das classes "C" e "D"
acham que o Brasil vai melhorar e progredir em 2007.
O impressionante é que mais de 80% dos integrantes das classes "A" e "B" têm
a mesma avaliação.
Entendo que o "povão" tenha percebido algumas melhorias. A curva do salário
mínimo real de 2003 a 2006 foi ascendente e, deflacionado, sugere um ganho de
2003 até hoje, de quatro salários mínimos.
De forma simplificada, esta política agregou algo como um "décimo quarto
salário". Como esse é o piso salarial da grande massa de contratados e baliza as
pensões e aposentadorias dos estamentos menos favorecidos, é inquestionável que o
salário mínimo cumpriu um papel relevante.
Ao mesmo tempo, fala-se que o Bolsa-Família já atingiu 11 milhões de pessoas.
Cria uma renda monetária firme, significativa, para o povo dos grotões e um
complemento importante para a pobreza urbana.
É visível o impacto do programa na melhoria de faturamento das cadeias
comerciais populares nas regiões Norte e Nordeste. Devido à taxa de câmbio, alguns
itens tiveram seus preços - relativo e absoluto - reduzidos.
É de imensa importância a redução do preço da saca de cimento. Quase 30%
do cimento vendido é destinado aos "formiguinhas". Numa ausência de uma política
habitacional, o "povão", que vai melhorando e ampliando sua habitação precária,
percebe, no preço do cimento, o mais importante item de sua "aplicação patrimonial".
Outras iniciativas governamentais tiveram uma orientação popular. O programa
Luz para Todos é de fundamental importância para trazer o brasileiro do século XVIII
para o século XX. A ampliação de linhas de crédito para pessoas físicas com desconto
em folha deve antecipar alguns de seus sonhos.
Quanto aos muito ricos - as 20 mil famílias para as quais se destinam 70% dos
juros de dívida pública pagos pelo governo federal - está tudo muito bem, pois obtém
um rendimento financeiro espetacular, dada a brutal taxa de juros real.
O segmento bancário do mercado de capitais tem quebrado recordes de
lucratividade no Brasil. Nossos bancos privados - inclusive o Banco do Brasil - são
campeões em rentabilidade na escala mundial.
As empresas brasileiras capitalizadas e sólidas em seus mercados têm investido
cada vez mais no exterior. Em 2006, foi líquida a saída de capitais do Brasil.
As delícias financeiras de aplicar no mercado externo brasileiro podem ser feitas
mediante a compra de Títulos de Dívida Pública ao Tesouro Nacional. Esta "inovação"
do Banco Central do Brasil entranha a dívida externa com a dívida pública. Brasileiros,
mediante a circulação internacional pelos paraísos fiscais, podem desfrutar dos altos
juros da dívida soberana brasileira e gozar da proteção internacional contratual. Filiais
de multinacionais estão obtendo bons lucros e remetendo saborosos dividendos a
taxas de câmbio extremamente confortáveis.
Ainda assim, a grande elite do dinheiro preferiria outro presidente ao Lula, coisa
que com candidez foi perguntada ao Dr. Setúbal: "Por que financiou meu adversário
com maior doação, se eu faço tudo o que vocês querem?".
A declaração presidencial é solidamente ancorada nos balanços dos bancos e na
declaração do presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), que disse:
"O Lula faz tudo o que nós pedimos".
Creio que os muito ricos sempre querem mais. Consideram magnífica a
situação, mas querem a blindagem da voluptuosa política monetária e cambial que
desfrutam. Querem contenção dos gastos públicos; a desmontagem do sistema
previdenciário. Colocam estas alternativas como precedentes a qualquer tentativa de
redução significativa de juros pagos pelo governo federal. Provavelmente
consideraram que o outro candidato prosseguiria o processo de privatização e geraria
novos grandes e bons negócios.
O presidente Lula sabe do amor crescente do "povão". Agora mesmo quer
elevar o salário mínimo para R$ 375 reais e a imprensa noticia a oposição do
Ministério da Fazenda.
O meu enigma atravessa os setores médios da sociedade brasileira. O poder de
compra de sua renda vem caindo sem parar. Seus filhos e netos, desempregados,
cada vez mais migram para o exterior. Hoje, o Brasil perde quase 150 mil jovens
migrantes.
Tudo sugere um clima de renúncia ao crescimento. O Brasil somente supera o
Haiti. Talvez o presidente da República esteja imaginando um imenso Portugal,
exportador de capitais e jovens, garantidor dos rendimentos e do patrimônio dos que
ficam.
Carlos Lessa é professor - titular de Economia Brasileira do Instituto de Economia
da UFRJ e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) (endereço eletrônico: [email protected]). Escreve mensalmente, às
quartas-feiras, no jornal Valor Econômico. Este texto foi publicado no dia 20 de
dezembro de 2006.
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