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Dias e noites de amor

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Dias e noites de amor
Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. 15 - julho de 2015
DIAS E NOITES DE AMOR E DE GUERRA DE EDUARDO GALEANO
José Henrique de Paula Borralho 1
(UEMA)
Liana Márcia Gonçalves Mafra
2
(UEMA)
Resumo
O livro Dias e noites de amor e de guerra, de Eduardo Galeano, apresenta-se como
expressão literária, social e histórica de um período de tensão, violência, repressão e suas
consequências, vivenciadas nos países da América Latina, principalmente Uruguai e
Argentina, na ditadura militar. Em meio às questões centrais discutidas, reflete-se sobre a
polêmica atuação e produção literária do escritor uruguaio, analisando especificamente
como se estabeleceu o diálogo entre a memória, história e a literatura, como possibilidade
de produzir outra versão para a história da América Latina, considerando que após décadas
de regimes militares, a memória coletiva ainda se encontra fragmentada.
Palavras-chave: Literatura; Memória; Ditadura Militar.
DAYS AND NIGHTS OF LOVE AND WAR BY EDUARDO GALEANO
Abstract
The book “Days and nights of love and war” by Eduardo Galeano presents itself as a
literary, social and historical expression in a tense, violent and repressive time and its
consequences taken place in Latin American countries, mainly, in Uruguai and Argentina,
during military dictatorship. Amidst discussed central questions, it is about polemical
performance and literary production by the Uruguayan writer, analyzing specifically
how dialogue among memory, history and literature happened as a possibility of producing
other version to Latin America History, considering that after decades of military regimes,
collective memory is still fragmented.
Keywords: Literature; Memory; Military Dictatorship.
DÍAS Y NOCHES DE AMOR Y DE GUERRA DE EDUARDO GALEANO
1
Profº Adjunto do Departamento de História e Geografia UEMA, do Programa de Pós-Graduação em História, Ensino e
Pesquisa. E-mail: [email protected]
2
Profª do Instituto Federal do Maranhão, IF-MA, aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em História, Ensino
e Narrativas. E-mail: [email protected]
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Resumen
El libro Días y noches de amor y de guerra, de Eduardo Galeano, se presenta como
manifestación literaria, social e histórica de un período de tensión, violencia, represión y
sus consecuencias, vividas en los países de América Latina, principalmente Uruguay y
Argentina, en la dictadura militar. Entre las discusiones centrales, se reflexiona acerca de la
polémica actuación y producción literaria del escritor uruguayo, analizando esencialmente
como se ha establecido el diálogo entre la memoria, la historia y la literatura, como
posibilidad de producir otra versión para la historia de América Latina, considerando que
tras décadas de regímenes militares, la memoria todavía se encuentra fragmentada.
Palabras-clave: Literatura; Memoria; Dictadura Militar.
DIAS E NOITES DE AMOR E DE GUERRA DE EDUARDO GALEANO
Um escritor das cidades das letras
Em vários livros Eduardo Galeano expõe a problemática existente entre a
transmissão da memória da América Latina e a história oficial, pois esta região está
encolhida tanto no mapa como na história (GALEANO, 1990), onde os vencedores
impõem sua memória como legítima, apresentando a história oficial como “vitrine onde o
sistema exibe seus velhos disfarces, mente pelo que diz e mente pelo que cala” (p. 30).
Segundo o autor, a história real da região está reduzida à vitória de ricos, brancos, machos
e militares.
Tal perspectiva enquadra-se no campo de análise estabelecido pelo também
escritor Uruguaio Ángel Rama em As cidades das Letras (1985), cujo conteúdo recai sobre
a história da região, desde a chegada dos espanhóis no século XVI até a fundação das
cognominadas cidades revolucionadas, fruto da modernização da região no século XX,
tendo Brasília como ápice de tal projeto. Ángel Rama cognomina de A cidade das Letras o
espaço administrativo, burocratizado, letrado, exercido por intelectuais, literatos,
congêneres, que sempre estabeleceram papéis sociais no processo de atrelamento da região
ao colonialismo europeu e/ou na busca pela emancipação da região em relação às exmetrópoles.
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Eduardo Galeano, sob este prisma, seria um escritor a serviço do processo de
politização, conscientização dos sujeitos latino-americanos, quer denunciando práticas de
mandonismos transcontinental, continental, como no caso dos países europeus e dos
Estados Unidos da América, quer na exposição dos aparatos burocráticos dos estados da
região a serviço do grande capital e das elites políticas locais perpetrando práticas
autoritárias e de exclusão social.
Em suas andanças pelo mundo e, especificamente, pela América, Galeano colocase como caçador das vozes não contempladas/esquecidas contra a amnésia das histórias
que merecem ser recordadas e que foram excluídas da história oficial. Afirma, com
peculiar ênfase, que não é historiador, e apresenta-se como escritor da história do ponto de
vista dos povos dominados/vencidos/excluídos.
Sou um escritor que se sente desafiado pelo enigma e pela mentira, que gostaria que o presente
deixasse de ser uma dolorosa expiação do passado e gostaria de imaginar o futuro em vez de
aceitá-lo: como um caçador de vozes que andam esparramadas por aí. Porque a memória que
merece resgaste está pulverizada (GALEANO, 1990, p.30).
A propósito de não se considerar historiador, difere da assertiva de Gabriel García
Márquez quando afirmou que era necessário escrever a história da Colômbia antes que os
historiadores a escrevessem. A perspectiva de Galeano necessariamente não é antitética à
narrativa científica histórica, mas um entrecruzamento entre história e literatura. Sob esse
aspecto Eduardo Galeano é uma das tantas e expressivas faces da relação
história/literatura, não definindo em si o que é um campo e/ou outro, mas perscrutando o
passado no desvelamento da passeidade, do real vivido.
Acerca dessa relação história e literatura, assevera Borralho (2013, p. 18).
História e literatura são campos e espaços distintos muito mais pelo desenvolvimento histórico que
balizaram a especificidade de cada área do que essencialmente a pergunta inicial originadora de cada
uma dessas respectivas formas de indagação do lógus. A angústia em descobrir o que é, pergunta
norteadora da definição de ser e do tempo em Heidegger (2006), está presente nas duas e demais
áreas, ainda que a busca se dê de forma por vezes análoga.
Ambas perscrutam a indagação do narratário estabelecendo patamares dísticos sobre a percepção d o
ser, quer dizer, a história se coloca no plano das condições objetivas das sociabilidades humanas,
como homens e mulheres estabelecem seus códigos, como vivem, se organizam, se relacionam
econômica, política e culturalmente não deixando escapar, ou pelo menos tentando, a dimensão
prática do que Platão cognominou enquanto mundo real. A literatura também, afinal, todo escritor está
inserido em uma determinada realidade social, porém, a dimensão da vida prescrita no texto literário,
diferentemente da história, não se atem ao que a ciência determina como verdade, quer dizer, o que
está descrito na literatura existe em alguma estância, situação ou condição, resta tão somente
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compreendermos que ambas as estâncias não são análogas ou mesmo incomplementares, são apenas
disposições da mesma condição ontológica, descritas sob ângulos distintos.
As breves narrativas de Galeano desenham em um painel poético, histórico,
fantástico, expressando as experiências individuais, e não se constituindo como uma
narrativa dos fatos vista a partir de cima. Como já mencionado, o escritor coloca-se como
um caçador de vozes, pois para ele o passado mudo cansa. As vozes que Galeano caça se
misturam à sua própria voz, entrecruzando memória individual às coletivas. A sua
literatura é produzida em contato com a sociedade, a história e a cultura da época.
Tudo aquilo que tinha ocorrido na América, de alguma misteriosa maneira tinha me ocorrido,
embora eu não soubesse, e os personagens de sua história eram gente que eu tinha amado, ou
odiado, embora tivesse esquecido, ou achasse que tinha esquecido. Uma viagem do eu ao nós:
dizendo para a América, me dizia. E buscando-a, me encontrava (1990, p.39).
Desse modo, neste artigo andar-se-á pela obra Dias e noites de amor e de guerra 3
(2011) que se apresenta como testemunha de uma época, na qual o autor relata suas
próprias memórias e/entre as memórias de outros, através das histórias que lhe chegam,
que vive, busca ou cria. As histórias presentes na obra foram retiradas, ouvidas, vividas em
suas andanças por alguns países da América.
Depois me levantei e caminhei. Sentia a areia nas plantas dos pés descalços e as folhas das árvores
tocavam meu rosto. Tinha saído do hospital feito um trapo, mas tinha saído vivo, e não me
importavam porra nenhuma o tremor do queixo ou a frouxidão das pernas. Me belisquei, ri. Não
tinha dúvidas nem medo. O planeta inteiro era terra prometida. Pensei que conhecia umas tantas
estórias boas para contar aos outros, e descobri, e confirmei, que meu assunto era escrever. Muitas
vezes tinha chegado a me convencer de que esse ofício solitário não valia a pena se um o
comparava, digamos, com a militância ou a aventura. Tinha escrito e publicado muito, mas me
faltou coragem para chegar ao fundo de mim e abrir-me por completo e oferecer isso. Escrever era
perigoso, como fazer o amor quando se faz como deve.
Aquela noite percebi que eu era um caçador de palavras. Para isso tinha nascido. Essa ia ser minha
maneira de estar com os demais depois de morto e assim não iam morrer totalmente as pessoas e
coisas que eu tinha querido. Escrever era um desafio. Eu sabia. Desafiar-me, me provocar, dizer a
mim mesmo: “Não vai conseguir”. E também sabia que para que nascessem as palavras eu tinha
de fechar os olhos e pensar intensamente em uma mulher (GALEANO, 2011, p. 54).
Dias e noites de amor e de Guerra
Dias e noites de amor e de guerra foi escrita quando o autor estava no exílio e sua
narrativa é motivada pelo contexto da violência praticada pelo regime militar. A obra
apresenta-se como sendo seu livro que trata com mais profundidade e especificidade as
3
Escrito em 1978, no exílio na Espanha.
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barbáries das ditaduras militares nos países latino-americanos, relatando a memória de um
período truculento (os anos 60 e 70), pois, para o autor, faz-se necessário compor outra
história do período, tendo em vista que a história oficial manipulou e destruiu documentos
e pessoas que contariam o que ocorreu. Deixando desse modo lacunas com fatos
descontínuos, fragmentados e “impõem sua própria memória como memória única e
obrigatória” (GALEANO, 1990, p. 30).
Diante dos eventos-limites, com suas práticas de repressão, a arte não se calou e
um novo campo abriu-se, o da arte combate, que denuncia, resiste e clama por um novo
estado das coisas. Alfredo Bosi (2002) esclarece que o termo resistência entrelaçada a
termos como cultura e narrativa surgiu no período do combate ao fascismo/nazismo e
forças afins: “foi um tempo excepcional, um tempo quente de união de forças populares e
intelectuais progressistas. Tempo que perdurou na memória dos narradores do imediato
pós-guerra, e que produziu o cerne da chamada literatura de resistência” (p.125). Essa
prática literária que está ligada à política, ao compromisso social e à resistência ata o
sujeito ao seu contexto social e histórico, é um movimento interno ao foco narrativo.
É nesse sentido que se pode dizer que a narrativa descobre a vida verdadeira, e que esta abraça e
transcende a vida real. A literatura, com ser ficção, resiste à mentira. É nesse horizonte que o
espaço da literatura, considerado em geral como o lugar da fantasia, pode ser o lugar da verdade
mais exigente (BOSI, 2002, p. 135).
Alfredo Bosi, em suas reflexões sobre a poesia e sua força resistente, acentua que
ela não sucumbe à “usura do tempo, roedor silencioso”, pois a poesia também é gerada a
partir de momentos sofridos e insofridos da práxis, onde “a recusa irada do presente, com
vistas ao futuro, tem criado textos de inquietante força poética” (2000, p.185). Segundo o
autor, as palavras dos poetas são como flechas impacientes contra o discurso do
dominador/opressor.
Alberto Pucheu (2014) afirma que sempre houve uma intrínseca relação entre
poesia e política, embora contemporaneamente
A coesão originária de poesia e política – que, em nossa cultura, é sancionada desde o início pela
circunstância de que o tratado aristotélico sobre a música está contido na Política e o lugar
temático da poesia e da arte tenha sido situado por Platão na República – é algo que não é
necessário nem mesmo ser colocado em discussão: a questão não é tanto saber se a poesia seria ou
não relevante com respeito à política, mas se a política estaria ainda à altura de sua coesão
originária com a poesia. (p. 217)
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Por seu compromisso com a sociedade, repudiando a passividade, Galeano coloca
a literatura (crônicas, crônica poética4) a serviço da resistência, do engajamento, do
protesto. Ademais, o autor também foi vítima, pois sofreu diretamente as ações violentas
do período militar, sendo obrigado a deixar seu país e viver no exílio, na Argentina e
Espanha, principalmente. Por conta do seu posicionamento contra o regime teve seu nome
incluído na lista do esquadrão da morte, fatos registrados na memória literária da obra Dias
e noites de amor e de guerra.
Uma escrita polêmica
Eduardo Hugbes Galeano nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1940. Ao longo de
sua vida trabalhou em várias áreas, e em todas foi peregrino pelos caminhos da América,
morrendo em várias encruzilhadas da caminhada, mas ressuscitando sempre. Em
Montevidéu dirigiu jornais e algumas revistas, que foram sucessivamente fechadas pelo
governo militar. Foi chefe de redação do semanário Marcha e diretor do jornal Época. Em
face da perseguição, Galeano teve que se exilar em 1973, em Buenos Aires, onde
participou e dirigiu a revista Crisis. Em 1985, com a abertura política regressa ao Uruguai,
depois de um exílio de doze anos em Argentina e Espanha. Em sua escritura convivem o
jornalismo – vértebra de sua obra –, o ensaio e a narrativa literária, sendo, sobretudo, um
cronista do seu tempo, que retrata com acuidade a sociedade contemporânea, penetrando
em suas chagas e em suas máscaras cotidianas. Em Dias e noites de amor e de guerra,
Galeano refere-se à revista Marcha, publicação, que durante décadas, deu voz ao povo
uruguaio e terminou sendo silenciada em 1974 pela ditadura.
Notícias5
Do Uruguai.
Queimaram as coleções e os arquivos de Marcha.
Fechar o jornal parecia pouco.
4
Acerca dos limites tênues entre os estilos literários, tais como a poesia a prosa (romance, contos e crônicas)
e a noção de prosa poética, Edgar Morin (2001) afirma se tratar de uma convenção da linguagem, afinal,
prosa e poesia se complementam e se intercalam, por vezes se confundem. Quem concorda com essa
perspectiva é Agambem (2009), Pucheu (2010), Borralho (2014), dentre outros.
5
Ao longo do livro, Galeano repete alguns títulos em narrativas diferentes que refletem fatos corriqueiros no
contexto. Desse modo, há repetição constante de Sistema, Notícias, Os filhos, sonhos, Guerra da rua, guerra
da alma.
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Marcha tinha vivido trinta e cinco anos. Cada semana demonstrava, só com sua existência, que
não se vender era possível.
Carlos Quijano, que foi seu diretor, está no México. Se salvou por um triz.
Marcha já não existia e Quijano insistia em ficar, como num velório. Chegava à redação na hora
de sempre e sentava na escrivaninha e lá permanecia até o anoitecer, fantasma fiel de um castelo
vazio: abria as poucas cartas que ainda chegavam e atendia o telefone, que tocava por engano
(GALEANO, 2011, p. 199).
Sobre a revista, Enrique Serra Padrós6 esclarece que durante a ditadura uruguaia,
a imprensa sofreu duras restrições. Escritores e jornalistas foram perseguidos. O emblemático
semanário Marcha, entre outros, foi definitivamente proibido após desgastantes clausuras
temporárias. Muitos dos seus integrantes foram presos, condenados ao ostracismo e/ou obrigados a
exilar-se diante de ameaças de novas prisões ou de morte, como aconteceu com seu vice-diretor, o
jornalista e maestro Julio Castro, sequestrado e desaparecido em 1977. (2013, p. 86)
Quando o Galeano coloca que “queimaram as coleções e os arquivos de Marcha.
Fechar o jornal parecia pouco”, e Padrós expõe que “muitos dos seus integrantes foram
presos, condenados ao ostracismo e/ou obrigados a exilar-se diante de ameaças de novas
prisões ou de morte”, estamos diante de práticas de regimes ditatoriais comuns e naturais
nesse período, assim como, o apagamento de qualquer fato, pessoa que pudesse servir de
registro das ações do estado. Como retrata na última Notícias do livro,
Notícias
Da Argentina.
Às cinco da tarde, purificação pelo fogo. No pátio do quartel do Regimento Catorze, em Córdoba,
o comando do Terceiro Exército “procede a incinerar esta documentação perniciosa, em defesa de
nosso mais tradicional acervo espiritual, sintetizado em Deus, Pátria e Lar”. Jogam-se os livros nas
fogueiras. De longe, se avistam as chamas altas. (GALEANO, 2011, p. 200)
Ao longo de sua vida, Galeano dedicou-se a criticar e a denunciar a repressão e a
violência do estado e as consequências das ações ditatoriais sobre os cidadãos da América,
pois as experiências eram comuns aos países latino-americanos, submetidos a governos
autocráticos, onde era proibido lembrar. Galeano denuncia que o plano de extermínio da
memória era aniquilar provas de que houve algo além de silêncio, cadeias e tumbas:
“arrasar a erva, arrancar pela raiz até a última plantinha ainda viva, regar a terra com sal.
Depois, matar a memória da erva. Para colonizar as consciências, suprimi-las; para
suprimi-las, esvaziá-las de passado” (GALEANO, 2011, p. 200).
6
Professor Drº da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRG, Departamento de História. Suas
pesquisas recaem sobre as ditaduras civil-militares latino-americanas.
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Contudo a memória resiste, reaparecendo pouco a pouco em palavras teimosas,
como em Dias e noites de amor e de guerra que se destaca com uma obra de posição
crítica e de denúncia diante do quadro político e social da América Latina e apresenta-se,
estruturalmente, composta de 256 narrativas breves, cujos personagens são uma mescla de
fictícios e históricos. Assim como em outras obras, aqui, também se depara como produto
da mesma atividade – a memória – onde o autor dialoga com seu próprio passado.
Galeano, assim, considera que após Veias Abertas da América Latina (2013)7, sua
produção escrita foi incorporando mundos e evoluindo até chegar a esse estilo de pequenas
histórias de uma linguagem nua, em que se propõe a dizer mais, com menos, através da
micro-história, pequenos relatos da vida cotidiana, chamada por alguns de fragmentos. A
narrativa é composta de uma sequência de ações, personagens, com linearidade temporal,
ainda que fragmentada. Cada texto tem título e data, com aparência de diário .
Ressalta-se que apesar da extensa experiência literária que possui, a historiografia
literária é escassa em relação ao autor. Sobre isto, González (1998) afirma que é difícil
classificar Galeano, o que causa a limitada presença do escritor nas historiografias da
literatura. E expõe algumas interrogações que qualquer aproximação com a obra de
Galeano suscita: desde que marco genérico estudar a obra de Galeano? Onde situá-lo?
Como denominar seus textos? Ou seja, o crítico e o historiador literário enfrentam muitas
dificuldades diante da escritura do Galeano. Para González, se existe algum traço que
defina a obra de Galeano é o seu projeto criativo pelas margens e à margem das
convencionais divisões dos gêneros literários. Outro ponto que coloca o autor no centro das
críticas é o fato de que sua escrita também não respeita as fronteiras estabelecidas
tradicionalmente entre literatura e história, ultrapassando em sua própria escrita tanto o
conceito de literatura como o de história.
Diana Palaversisch (1995), por sua vez, avança nas análises do autor e argumenta
que o estilo único também é uma das razões para que exista pouca crítica literária sobre o
escritor uruguaio, pois os críticos não sabem como abordar seu extenso trabalho. Se seus
textos não reconhecem as fronteiras estabelecidas, tampouco fiscais. Em diversas ocasiões,
7
A obra foi publicada em 1971, simultaneamente, no Uruguai, pela Editora de la Universidad de la
República, em Cuba, pela editora Casa de las Américas, e no México, pela Editora del Siglo XXI. No Brasil,
foi publicada em 1978, pela editora Paz e Terra, como o volume 12 da Coleção Estudos Latino Americanos.
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Galeano se mostra em desacordo com as tradicionais divisões genéricas impostas pelos
críticos, como expõe no ensaio: Diez errores y mentiras frecuentes sobre literatura y
cultura en América Latina (1989, p.65), onde critica a existência de barreiras a atividade
criadora imposta por ideólogos especializados: “Até aqui, dizem-nos, tem-se o gênero
romance; este é o limite do ensaio; lá começa a poesia.”8 Sobre a necessidade de
classificação de sua obra, Galeano costuma destacar que não pertence a nenhum gênero e
ao mesmo tempo quer pertencer a todos. E não aceita que a voz humana seja classificada
como se fosse um inseto.
Em Dias e noites de amor e de guerra, cada relato, cada fragmento, pode ser lido
separadamente, abrindo qualquer página dos livros, e cada um transmite seu próprio
sentimento, produzindo um rico mosaico de histórias.
A perspectiva narrativa que Galeano emprega imita o movimento do olho de uma câmera,
alternando-se entre as perspectivas em primeiro plano e grande angular. Enquanto que o primeiro
plano revela o aspecto íntimo, a-histórico, ou, se quiser, sub-épico da vida, a grande angular
ilumina a dimensão coletiva, histórica e épica da experiência. (PALAVERSICH, 1995, p. 171)
Em relação à “estratégia do fragmento”, José Ramón González analisa os escritos
de Galeano como uma subversão da renúncia à totalidade:
de forma só aparentemente paradoxal, cabe afirmar que o fragmento não supõe uma renúncia à
totalidade. Pelo contrário, uma estrutura caleidoscópica, como a de Galeano, que privilegia o
fragmentário, revela uma sutil estratégia discursiva: o autor, consciente da impossibilidade de
representar o todo, opta por invocá-lo indiretamente (GONZÁLEZ, 1998, p. 105).
A australiana Diana Palaversich desponta como uma das poucas pesquisadoras
que estudou a fundo o autor. Segundo ela, em sua escrita, Galeano parte da experiência
humana e revela os movimentos mais amplos da história, “e não escreve nem uma análise
sócio-histórica, nem tampouco um panfleto político” (PALAVERSICH, 1995, p. 107). O
que Galeano produz é a possibilidade de diálogo entre narrativa literária e narrativa
histórica. Para Palaversich, quando Galeano reescreve as histórias de outrem, ele recupera,
recria as vidas alheias, seleciona, interpreta e, em consequência, transforma o invocado.
Assim, “a espontaneidade da memória – evidente nos testemunhos orais, transcritos
8
Tradução nossa: “Hasta aquí, se nos dice, llega el género novela; este es el límite del ensayo; allá comienza
la poesía.”
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posteriormente – em Dias e Noites se transforma em uma narrativa mais consciente de seu
artifício literário” (p. 96).
86
“Guerra da rua, guerra da alma” 9
Como já citado anteriormente, a obra central deste artigo está composta de relatos
que registram a violência dos anos de chumbo da América Latina. O autor-narradorpersonagem caminha(m) por vários países da América Latina – Uruguai, Argentina,
Guatemala, Chile, Cuba e Brasil – e em cada espaço vai recuperando, através da memória,
as histórias dos homens comuns. Segundo o autor, “a memória guardará o que valer a pena.
A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo. Febre de
meus adentros: as cidades e as gentes, soltas da memória, navegam para mim: terra onde
nasci, filhos que fiz, homens e mulheres que me aumentaram a alma.” (GALEANO, 2011,
p. 10)
Representando a própria história – fragmentada –, a narração de Galeano é
também fragmentada. São silêncios, vozes sem rostos, rostos desfigurados ou
desaparecidos, contudo, personagens da mesma ação e vítimas da violência e do medo,
como estratégia de poder.
O Sistema
Os encapuzados se reconhecem pelas tosses.
Massacram alguém durante um mês e depois dizem ao que sobrou desse alguém: “Foi um
engano”. Quando sai, perdeu o trabalho. Os documentos também.
Por ler ou dizer uma frase duvidosa, um professor pode ser demitido; e fica sem trabalho se for
preso, mesmo que por uma hora e por engano.
Aos uruguaios que cantem com certa ênfase, em uma cerimônia pública, a estrofe do hino nacional
que diz: “Tiranos tremei!”, se aplica a lei que condena “o ataque à moral das Forças Armadas”:
dezoito meses a seis anos de prisão. Por rabiscar em um muro Viva a liberdade ou jogar um
folheto na rua, um homem passará na cadeia, se sobreviver à tortura, boa parte de sua vida. Se não
sobreviver, o atestado de óbito dirá que pretendeu fugir, ou que se enforcou, ou que faleceu vítima
de um ataque de asma. Não haverá autópsia.
Inauguram uma cadeia por mês. É o que os economistas chamam de Plano de Desenvolvimento.
Mas e as jaulas invisíveis? Em que relatório oficial ou denúncia da oposição figuram os
prisioneiros do medo? Medo de perder o trabalho, medo de não encontra-lo; medo de falar, de
escutar, de ler. No país do silêncio, pode-se terminar em um campo de concentração por culpa do
9
Os títulos das seções que aparecem entre aspas são também títulos das narrativas do livro Dias e noites de
amor e de guerra (GALEANO 2011).
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brilho do olhar. Não é necessário despedir um funcionário: basta fazer com que saiba que pode ser
demitido sem sumário, e que ninguém lhe dará nunca outro emprego. A censura triunfa de verdade
quando cada cidadão se converte no implacável censor de seus próprios atos e palavras.
A ditadura converte em cadeias os quartéis e as delegacias, os vagões abandonados, os barcos em
desuso. Não converte também em cárcere a casa de cada um? (GALEANO, 2011, p. 87)
Galeno considera a maquinaria do medo poderosa, onde as pessoas são treinadas a
temer a tudo, sendo, portanto, o álibi que necessita a estrutura militar do mundo . E as
ditaduras militares na América Latina utilizaram desse artificio para manutenção e
legitimação do poder. E utilizaram de todo tipo de violência que permitisse a instauração e
permanência do regime militar, violento, arbitrário, legitimado pelo Estado – como o
desrespeito à Constituição Federal; os Atos Institucionais; intervenção em sindicatos,
associações estudantis; censura a qualquer posicionamento contrário ao regime;
perseguição a intelectuais, artistas, jornalistas, considerados subversivos e perigosos ao
sistema; ditadura do medo, para enquadramento da sociedade, deixando-a paralisada,
calada. Assim, a prática de atos de violência, de tortura, não era a única arma do regime,
mas também a criação de jaulas invisíveis, de prisioneiros do medo. A respeito do contexto
do Uruguai, Enrique Padrós afirma que “as Forças Armadas passaram a ter a ingerência e
controle de todos os setores da administração estatal através da rede de oficiais de ligação,
o que esvaziava o perfil civil e político daquela” (2013, p.90). Quem se posicionasse contra
o regime era inimigo do país. Quem se atrevesse a denunciar as injustiças cometia delito de
lesa-pátria: “eu sou o país, diz a máquina. Este campo de concentração é o país: esta
podridão, este imenso baldio vazio de homens” (GALEANO, 2011, p. 43).
Acerca da ditadura no Uruguai, Necersian comenta que (2013, p. 165):
Em 27 de junho de 1973, Bordaberry dissolveu as Câmaras de Senadores e de Deputados,
substituindo-as por um Conselho de Estado, cujos membros foram oportunamente nomeados ou
excluídos pelo Executivo. Este era o início formal da ditadura, que teve o apoio de uns poucos
colorados e blancos. A esta altura, já estava claro que estes militares não tinham nada de
“reformistas e progressistas”. Na noite do golpe, Bordaberry deu seu primeiro discurso: na
intenção de outorgar legalidade à tomada do poder, assegurou que “não permaneceria na cadeira
presidencial nem um minuto além do estabelecido na Constituição”. Certamente, a Constituição
uruguaia ainda continuava “vigente”, para além das alterações apontadas. Durante toda a ditadura
militar e até 1980, quando ocorreu o plebiscito sobre a Constituição, o Executivo cívico-militar
ditou decretos institucionais que, na prática, se sobrepunham e alteravam o sistema previsto pela
Constituição de 1967. Poucos dias após o golpe, foi declarada ilegal a Convenção Nacional de
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Trabalhadores (CNT) e mais tarde, em 28 de novembro, declararam-se ilícitos todos os partidos e
grupos de esquerda.10
Como se observa, a América Latina viveu nos anos da ditadura o que se considera
estado de exceção. Para o filósofo italiano Giorgio Agamben (2004), “estado de exceção
apresenta-se como a forma legal daquilo que não pode ter forma legal” (p.12), sendo a
suspensão de total ou parte da constituição, configurando-se como “terra de ninguém, entre
o direito público e o fato político e entre a ordem jurídica e a vida.” (p.12) Para Agamben,
o totalitarismo moderno configura-se como estado de exceção, com aproximação à guerra
civil legal, a insurreições, resistências, onde é permitida “a eliminação física não só dos
adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer
razão, pareçam não integráveis ao sistema político.” (p.13) O regime militar foi um regime
de exceção que criou um estado de exceção por anos em alguns países da América Latina.
Neste contexto, o direito público é suprimido pelo regime político, pelo sistema, pela
máquina, como expõe Galeano nas Notícias:
Notícias
Do Uruguai.
Uma moça de Salto morre na tortura. Outro preso que se suicida.
O preso estava na cadeia de Libertad há três anos. Um dia encrespou, ou olhou torto, ou algum
guarda se levantou de mau humor. O preso foi enviado à cela de castigo. A que chamam “a ilha”:
incomunicáveis, esfomeados, asfixiados, na “ilha” os presos cortam os pulsos ou ficam loucos.
Este passou um mês na cela de castigo.
Então se enforcou.
A notícia é de rotina, mas há um detalhe que me chama a atenção. O preso se chamava José
Artigas. (2011, p. 193)
Notícias
Da Argentina.
10
Tradução nossa: “El 27 de junio de 1973, Bordaberry declaró disueltas las Cámaras de Senadores y de
Representantes, remplazándolas con un Consejo de Estado, cuyos integrantes fueron oportunamente
designados o desechados por el Ejecutivo.41 Este era el comienzo formal de la dictadura, que tuvo el apoyo
de unos pocos colorados y blancos. A esta altura, ya estaba claro que estos militares nada tenían de
“reformistas y progresistas”. La noche del golpe, Bordaberry dio su primer discurso: en un intento por
otorgar legalidad al asalto al poder, aseguró que “no permanecería en el sillón presidencial ni un minuto más
de lo establecido por la Constitución”. Ciertamente, la Constitución uruguaya aún continuaba “vigente”, más
allá de las alteraciones señaladas. Durante toda la dictadura militar y hasta 1980, cuando se plebiscitó la
Constitución, el Ejecutivo cívico-militar dictó decretos institucionales que, en la práctica, se superponían y
alteraban el sistema previsto por la Constitución de 1967. Pocos días después del golpe, fue declarada ilegal
la Convención Nacional de Trabajadores (CNT) y más tarde, el 28 de noviembre, se declararon ilícitos todos
los partidos y agrupaciones de izquierda.”
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Luís Sabini se salvou. Conseguiu sair do país. Tinha desaparecido no fim de 75 e no mês seguinte
soubemos que tinha sido preso. De Haroldo Conti não há rastros. Foram buscar Juan Gelman em
sua casa de Buenos Aires. Como não estava, levaram seus filhos. A filha apareceu uns dias depois.
Do filho não se sabe nada. A polícia diz que não está com ele; os militares dizem a mesma coisa.
Juan ia ser avô. A nora, grávida, também desapareceu. Cacho Paoletti, que nos mandava textos lá
da Rioja, foi torturado e continua preso. Outros escritores que publicavam na revista: Paco
Urondo, baleado, tempos atrás, em Mendoza; Antonio Di Benedetto, na cadeia; Rodolfo Walsh
desapareceu. Na véspera de seu próprio sequestro, Rodolfo enviou uma carta denunciando que as
Três A são as Três Armas, “a fonte do terror que perdeu o rumo e só pode balbuciar o discurso da
morte”. (2011, p. 195)
Com ironia, Galeano expõe que as Notícias de mortes, violência, torturas, abusos
de poder já estavam banais naquele momento, já era um costume nacional. E como se
observa no título, são notícias diárias e semelhantes tanto no Uruguai como na Argentina.
O autor chama a atenção para o último episódio (da primeira notícia), descrição de um
preso que se enforcou na cela de castigo, não suportando, como muitos, aquela situação. O
curioso e irônico é que o preso chama-se José Artigas, mesmo nome de um uruguaio de
Montevidéu, do século XVIII, José Gervasio Artigas, personagem da história do Uruguai,
conhecido por sua trajetória nas lutas pela independência da América, ele é considerado o
herói nacional da construção do país.
Nas Notícias narradas por Galeano, o regime age com total poder sobre a vida e
direito dos cidadãos, o que conjuga com Agamben quando reflete sobre plenos poderes,
característicos do estado de exceção:
A expressão ‘plenos poderes’ (pleins pouvoirs), com que, às vezes, se caracteriza o estado de
exceção, refere-se à ampliação dos poderes governamentais e, particularmente, à atribuição ao
executivo do poder de promulgar decretos com força-de-lei. Deriva da noção de plenitudo potestis,
elaborada no verdadeiro laboratório da terminologia jurídica moderna do direito público, o direito
canônico. Como veremos, o estado de exceção constitui muito mais um estado ‘kenomatico’, um
vazio de direito, e a ideia de uma indistinção e de uma plenitude originária do poder deve ser
considerada como um ‘mitologema’ jurídico, análogo à ideia de estado de natureza (não por acaso,
foi exatamente o próprio Schmitt que recorreu a esse ‘mitologema’). Em todo caso, a expressão
‘plenos poderes’ define uma das possíveis modalidades de ação do poder executivo durante o
estado de exceção, mas não coincide com ele (AGAMBEN 2004, p.17).
Franco (2003, p. 353) afirma que nas catástrofes na América Latina os direitos
civis foram ignorados, ocasionando “políticas de extermínio premeditado de contingentes
de opositores, em massacre dos humilhados”, vivendo em constantes ameaças, repressão e
censura arbitrária.
Nos relatos Notícias observa-se que a narrativa de Galeano traduz o que ele ouviu,
leu, imaginou e não apenas o que ele viveu e experimentou. E o autor destaca isso em
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vários momentos da narrativa, contudo, os atos ditatoriais eram semelhantes e por vezes,
simultâneos entre os países. E como se coloca como um caçador de vozes perdidas, de
corpos invisíveis, Galeano reconstitui as lembranças referentes ao período, sem a
necessidade de legitimidade do que narra. A obra base destas reflexões apresenta-se como
um meio de não esquecimento das ações e reações do estado de exceção do período,
reescrevendo-as, rememorando-as. Sobre seu próprio ofício Galeano destaca que
Guerra da rua, guerra da alma
Escrever tem sentido? A pergunta me pesa na mão. Se organizam alfândegas de palavras. Para que
nos resignemos a viver uma vida que não é a nossa, nos obrigam a aceitar como própria uma
memória alheia. Realidade mascarada, estória contada pelos vencedores: talvez escrever não seja
mais que uma tentativa de pôr a salvo, em tempos de infâmia, as vozes que darão testemunho de
que aqui estivemos e assim
fomos. Um modo de guardar para os que ainda não conhecemos, como queria o poeta catalão
Salvador Espríu, “o nome de cada coisa”. Quem não sabe de onde vem como pode averiguar
aonde vai? (2011, p. 194)
Quando se recusa a aceitar a “memória alheia”, “estória contada pelos
vencedores”, Galeano tem a intenção de “pôr a salvo” as vozes emudecidas e
silenciosas/silenciadas em decorrência do período truculento e sombrio da América Latina.
E “quem não sabe de onde vem” pode sabê-la também através da produção cultural da
época – como a literatura – que se opôs ao ofuscamento e ao esquecimento, pois “o
apagamento da memória – e com ela, da responsabilidade – é parte integrante de muitos
assassinatos em massa” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p, 78). Novos assassinatos são
cometidos quando se nega que o fato tenha ocorrido, faz-se novas vítimas.
Em sua maioria, são mortos sem cadáver. (...) Um único fuzilado pode desencadear um escândalo
mundial: para milhares de desaparecidos, sempre resta o benefício da dúvida. Como na Guatemala,
parentes e amigos realizam a perigosa peregrinação inútil, de prisão em prisão, de quartel em
quartel, enquanto os corpos apodrecem nos baldios e dos depósitos de lixo. Técnica das
desaparições: não há presos que reclamar nem mártires que velar. Os homens, a terra engole; e o
governo lava as mãos: não há crimes que denunciar nem explicações para dar. Cada morto morre
várias vezes e no final só resta, na alma, uma névoa de horror e incerteza (GALEANO, 2011, p.
13).
Seligmann-Silva (2003) destaca que na América Latina, especificamente, as
manifestações políticas da memória apresentam-se com mais dificuldade diante da figura
do desaparecido, pois “essa prática destrói qualquer possibilidade de luto ligado a um
determinado espaço, ela quebra a cadre de la mémorie” (p. 83), ou seja, a ausência de
cadáveres e documentos nas ditaduras dificultam a tarefa da memória, do historiador ou de
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qualquer outro que queira rememorar, registrar e denunciar o horror. Com ironia, Galeano
expõe que o julgamento e a sentença eram imediatos. Os corpos eram jogados em qualquer
lugar, com estratégias para que não pudessem ser identificados. Assim, os sobreviventes
silenciam-se atemorizados.
91
Aquele fora oficialmente declarado “o ano da paz” na Guatemala. Mas já não se pescava na zona
de Gualán, porque as redes traziam corpos humanos. Hoje a maré devolve pedaços de homens às
margens do rio da Prata. Há dez anos, os cadáveres apareciam nas águas do rio Motagua ou eram
descobertos, ao amanhecer, nos barrancos ou na beira dos caminhos: esses rostos sem traços não
seriam identificados jamais. Às ameaças se sucediam os sequestros, os atentados, as torturas, os
assassinatos. A NOA (Nova Organização Anticomunista), que proclamava operar “junto ao
glorioso exército da Guatemala”, arrancava a língua e cortava a mão esquerda de seus inimigos. A
MANO (Movimento Anticomunista Nacionalista Organizado), que funcionava na órbita da
polícia, marcava com cruzes negras as portas dos condenados. No fundo do lago San Roque, em
Córdoba, aparecem agora corpos submergidos com pedras, como encontraram os camponeses
guatemaltecos, nas vizinhanças do vulcão Pacaya, um cemitério clandestino cheio de ossos e
corpos em decomposição. (GALEANO, 2011, p. 12).
O regime censurou, torturou, fuzilou, porém a dor causada não foi somente a
física, que deixa marcas, feridas e sangue exposto. O regime autoritário também manipulou
a memória, mutilou a história, deixou chagas na alma e traumas nas vidas. E para resistir às
atrocidades, a pena de Eduardo Galeano não se silenciou e tenta corrigir, por meio da ação
dos personagens nas narrativas, as omissões da história na América Latina, através da
operação da memória, dentro da literatura de resistência, por vezes chamada de engajada,
de protesto, e também por meio da literatura de testemunho.
Ressalta-se que foi a partir da década de 70 que cresceu o tipo de escrita
qualificada com a expressão literatura de testemunho, “a escolha do termo obedeceu à
necessidade de acolher um alto número de originais que se situavam na intersecção de
memórias e engajamento” (BOSI, 2002, p.221). Logo, não somente historiografia e não
somente ficção, testemunho, colocando o sujeito no centro dos estudos e modificando a
percepção de subjetividade e de hierarquia dos fatos. Beatriz Sarlo (2007) considera o
testemunho como um “discurso”, ato de enunciação cujo narrador está envolvido nos fatos.
Afirma ainda que “A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados, nem
pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os
humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo” (SARLO, 2007, p.
119).
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Seligmann-Silva (2003), por sua vez, aponta que o sujeito que depõe e dá o
testemunho é um sobrevivente e ele mesmo, em geral, é quem narra o trauma e os fatos.
“As cicatrizes e feridas deixadas expostas na América Latina são as marcas de um trauma.
Esses traços podem ser lidos por nós se não nos deixarmos ofuscar pelos holofotes
brilhantes de uma sociedade toda ‘fascinada’ pela mídia” (p. 85). Assim, memória assume
grande importância para a história, constituindo-se fonte para a produção do conhecimento
científico. Desse modo, a história se alimenta também da memória.
Para Galeano, a atitude de lembrar contrapõe-se a imposição de um congelamento
e parcialização da realidade histórica e não deixa de ser uma opção política, mostrando-se
relevante para enfrentar os desafios da história recente da América Latina, pois “quem não
sabe de onde vem como pode averiguar aonde vai”? (2011, p. 194).
É a hora dos fantasmas:
Eu os convoco, persigo, caço
Desenho-os com terra e sangue no teto da caverna. Me vejo com os olhos do primeiro homem.
Enquanto dura a cerimônia sinto que em minha memória cabe toda a história do mundo, desde que
aquele homem esfregou duas pedras para se esquentar com o primeiro foguinho11 (GALEANO,
2011, p.28).
O autor-narrador-personagem está cheio de gente. Quando recorre à própria
memória não lembra sozinho, configurando-se também como registro de pertencimento e
de identidade individual e do coletivo. Assim, a narrativa desenvolve-se na primeira pessoa
e tais relatos atingem mais o coletivo que o individual, pois esses focos narrativos em
primeira pessoa juntam-se a outros infinitamente.
Quando reconstrói suas memórias a partir das memórias de outros, Galeano
retoma o conceito de memória coletiva defendida pelo sociólogo Maurice Halbwachs
(2006, p. 30), que afirma que “nossas lembranças permanecem coletivas e nos são
lembradas por outros, ainda que se tratem de eventos em que somente nós estivemos
envolvidos. [...] Isto acontece porque jamais estamos sós.” O teórico afirma ainda que a
memória reconstrói o tempo passado e apoia-se no compartilhamento de interesses e
lembranças em comum com outras pessoas. Para Galeano (1990, p.37), os escravos, vindos
da África também acreditavam que todos temos duas memórias, “uma memória, a
11
No Livro dos Abraços, outra produção literária do Galeano, está destacado o que significa para o autor os
foguinhos (los fueguitos) e somos todos um mar de foguinhos.
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individual, vulnerável ao tempo e à paixão, condenada, como nós, a morrer; e outra
memória, a memória coletiva, destinada, como nós, a sobreviver”.
Jacques Le Goff (1992, p.477) destaca que se deve trabalhar para que “a memória
coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens”, tentando salvar o
passado, pois em regimes, como os das ditaduras latino-americanas, têm-se
memórias/esquecimentos manipulados, com o intuito de atender às necessidades da
ideologia dominante. Por conseguinte, a memória coletiva é falseada segundo as
necessidades do presente. Para o autor,
a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder.
Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das
classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os
esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da
memória coletiva (LE GOFF, 1992, p. 427).
Desse modo, no que concerne a Eduardo Galeano, observa-se que sua produção
no período da ditadura é política e histórica, considerando que apresenta outra noção de
“verdade”, diferente da versão dominante. Dessa forma, compreende-se que ouvir os ecos
de vozes que emudeceram também se aplica à literatura e, especificamente, às obras
citadas de Eduardo Galeano, pois o autor põe-se como testemunha de várias vidas.
Beatriz Sarlo coloca que reprimir o passado com a interdição da lembrança é uma
empresa destinada ao insucesso, pois não depende de um ato de vontade ou de lei. Ele
continua sempre vivo e pode irromper em lembranças espontâneas, involuntárias, ou
rondar “o fato do qual não se quer ou não se pode lembrar” (2007, p. 9). De acordo com a
autora,
Propor-se não lembrar é como se propor não perceber um cheiro, porque a lembrança, assim como
o cheiro, acomete, até mesmo quando não é convocada. Vinda não se sabe de onde, a lembrança
não permite ser deslocada; pelo contrário, obriga a uma perseguição, pois nunca está completa. A
lembrança insiste porque de certo modo é soberana e incontrolável (SARLO, 2007, p. 10).
A autora destaca ainda, através de sua reflexão sobre a literatura na esfera das
ditaduras do Cone Sul, que os atos de memória são peças importantes para a reconstrução
do passado e para a reparação por meio da justiça e condenação dos ditadores. A reparação
e justiça só foram possíveis devido aos relatos das testemunhas e vítimas dos governos
militares.
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“Os ventos e os anos”
Como últimas reflexões, observa-se como a literatura também reagiu diante das
atrocidades cometidas pela ditadura, representando situações de violência e denunciando-a,
para evitar o silêncio absoluto da sociedade.
Pois se há histórias que não são conhecidas, faz-se necessário que sejam
rememoradas, (re) significadas, e a literatura, por seu turno, também assume o papel de
contá-las, a partir da sua versão. Beatriz Sarlo (2007, p. 118) ressalta que a literatura pode
trazer uma “figuração do horror artisticamente controlada” e “representar aquilo sobre o
que não existe nenhum testemunho em primeira pessoa”.
Desse modo, ressalta-se que a memória coletiva deve ser salva do esquecimento,
uma vez que ela transporta outro lado da história que pertence aos silenciados pelo tempo
histórico. Torna-se fundamental contar o que se passou para evitar sua repetição, assim
como, para obter uma reparação judicial e moral.
Para Galeano, a voz do oprimido continua soando no tempo, até que alguém ouça,
a resgate e a apresente para a posteridade, mesmo que viaje a voz, “que sem a boca
continua.” O autor, anuncia as vozes emudecidas e silenciosas/silenciadas ao longo da
história, pois, sua produção intelectual está atrelada, intrinsecamente, ao sujeito histórico, e
para quem deseja navegar e conhecer a história, a memória pode ser também o ponto de
partida. Para ele, o ofício do escritor é “celebração dos encontros, duelo dos adeuses: não é
verdade que às vezes as palavras são capazes de levar você a um lugar no qual você já não
está?” (2011, p.153).
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