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Sujeitos explícitos em orações infinitivas de controlo e elevação

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Sujeitos explícitos em orações infinitivas de controlo e elevação
Sujeitos explícitos em orações infinitivas de controlo e elevação
Pilar P. Barbosa
Universidade do Minho/CEHUM
[email protected]
Abstract
This paper discusses evidence that control and raising infinitives have overt
subjects in European Portuguese as well as in the other Romance Null Subject
Languages (NSLs). Drawing on previous proposals that verbal agreement morphology
in the NSLs is “nominal”, it is suggested that the relation between a lexical subject “in
situ” and T is invariably mediated by verbal agreement in a configuration of clitic
doubling. This assumption, combined with a theory of control based on Agree, is argued
to adequately capture the existence of subjects of control and raising infinitives in these
languages as opposed to others.
Palavras-chave: Orações infinitivas, Controlo, Elevação, Redobro clítico
Keywords: Infinitive clauses, Control, Raising, Clitic Doubling
1. Introdução
No quadro dos estudos em Gramática Generativa, é geralmente assumido que as
construções infinitivas de controlo e elevação não possuem sujeitos nominativos com
matriz fonética. Em teorias do fenómeno do Controlo mais tradicionais (Chomsky,
1995; 2001; Landau, 2000; 2004), o sujeito das estruturas de controlo é PRO e o sujeito
das construções de elevação é uma cópia do DP movido para a posição de sujeito da
oração subordinante. Em teorias que seguem a abordagem de Hornstein (l999), PRO
não existe e o sujeito das orações infinitivas de controlo e elevação é sempre uma cópia
do sujeito elevado para a matriz. Independentemente da abordagem que se adopte,
porém, a ideia basilar é que, em construções infinitivas (sem concordância) o Tempo é
“defectivo” e, como tal, é de algum modo incompatível com um sujeito lexicalmente
realizado.
Não obstante isto, num artigo recente, Szabolcsi (2009) demonstrou que há
línguas em que as orações completivas infinitivas em construções de elevação e/ou de
controlo podem ter sujeitos expressos: são elas o húngaro, o italiano, o espanhol, o
romeno, o português do Brasil, o turco, o hebraico moderno, o russo e o finlandês. Em
particular, Szabolcsi propõe a seguinte generalização:
_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 97-114
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
(1) Os sujeitos expressos de orações infinitivas em construções de controlo só
podem ser pronomes. Os sujeitos expressos de orações infinitivas em
construções de elevação podem ser pronomes ou expressões nominais não
pronominais.
Szabolcsi observa ainda que as línguas examinadas não revelam um
comportamento homogéneo. O russo, o finlandês e possivelmente o hebraico apenas
admitem sujeitos expressos em construções de elevação. O húngaro, o italiano, o
espanhol, o romeno, o português do Brasil (PB) e o turco admitem sujeitos expressos
tanto em construções de elevação como em construções de controlo. O quadro que
emerge do artigo de Szabolcsi é, assim, o seguinte:
(2) a. Inglês, holandês, alemão ou francês
Não admitem qualquer tipo de sujeito expresso em construções infinitivas.
b. Russo, finlandês (hebraico??)
Só admitem sujeitos expressos em construções de elevação.
c. Húngaro, italiano, espanhol, romeno, PB, turco
Admitem sujeitos expressos quer em construções de controlo quer em construções
de elevação.
A ocorrência de sujeitos expressos em construções de controlo e de elevação no
italiano foi já observada em l986 por Burzio, que refere uma distribuição dos sujeitos
pronominais vs. não pronominais bastante semelhante à generalização em (1).
Posteriormente a isso, também Torrego (l996) e Belletti (2005) abordaram o mesmo
fenómeno (no espanhol e no italiano, respectivamente), mas o trabalho de Szabolcsi é o
único que abrange um número razoável de línguas e as agrupa em função dos padrões
observados. Se colocarmos de lado o PB, língua relativamente à qual nada será dito
neste artigo, verificamos que as línguas de sujeito nulo (LSN) pleno, do tipo do italiano,
admitem sujeitos expressos quer em estruturas de controlo quer em estruturas de
elevação. Neste artigo, proponho-me examinar o comportamento do português europeu
(PE) face aos mesmos contextos e apresentar uma teoria explicativa deste fenómeno que
procure captar as diferenças entre os três padrões de línguas mencionados em (2),
nomeadamente a correlação aparentemente existente entre a Propriedade do Sujeito
Nulo e a disponibilidade de sujeitos expressos tanto em construções de controlo como
em construções de elevação, com particular incidência nas línguas românicas. Nenhuma
das propostas aqui feitas se aplica ao PB, que, por estar neste momento a atravessar um
processo de mudança relativamente ao Parâmetro do Sujeito Nulo, justifica, só por si,
um estudo próprio.
Este artigo está organizado da seguinte forma. Na secção 2, faz-se uma breve
descrição da aplicação ao PE dos testes discutidos por Szabolcsi (2009) e argumenta-se
que as expressões que ocorrem nas orações subordinadas infinitivas em discussão são
verdadeiros sujeitos. Na secção 3, apresenta-se a análise proposta e, na secção 4,
considera-se uma análise alternativa e apresentam-se as razões pelas quais a análise
proposta é considerada mais adequada. O artigo conclui com uma pequena síntese das
ideias fundamentais.
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SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
2. Os dados
Nesta secção introduzo os dados discutidos por Szabolcsi (2009) e aplico a sua
bateria de testes ao português europeu.
2.1. Construções de controlo
Considere-se, em primeiro lugar, o seguinte exemplo:
(3) Só ele detesta ir ao mercado.
A frase transcrita em (3) é sinónima de Ele é a única pessoa que detesta ir ao
mercado e admite apenas esta interpretação. Já o exemplo (4), em que o sujeito ocorre
em posição pós-verbal, pode ter duas interpretações.
(4) Detesta ir ao mercado só ele.
[a] ‘É só ele que detesta ir ao mercado.’
[b] ‘(Elei ) detesta que seja o caso que vá só elei ao mercado.’
(4) é ambígua e tem as duas leituras indicadas em [a] e [b]. No primeiro caso, o DP
focalizado abrange no seu âmbito o verbo detestar, no segundo caso, não. Esta
dualidade de significado é facilmente explicada pelas duas possibilidades de
representação estrutural da frase: o pronome focalizado pode ser o sujeito da matriz (cf.
(5a)) ou então o sujeito da oração subordinada (cf. (5b)):
(5) a. [detesta [PRO ir ao mercado] só ele]
‘É só ele que detesta ir ao mercado.’
b. [pro detesta [ir ao mercado só ele] ]
‘(Elei) Detesta que seja o caso que vá só elei ao mercado.’
A interpretação indicada em (4b), com âmbito estreito do DP focalizado, é a única
leitura admissível quando consideramos exemplos como o que se transcreve a seguir,
em que o sujeito pós-verbal ocorre entre a forma verbal infinitiva e o seu complemento
(interessa-nos a versão de (6) em que não há pausa entre o sujeito e o complemento):
(6) Detesta ir só ele ao mercado.
A única análise possível de (6) (sem pausa entre o sujeito e o complemento) é aquela
em que o pronome focalizado é o sujeito da oração subordinada (cf. (7)), facto que
explica a impossibilidade da interpretação indicada em (6a).
(7) pro detesta [ ir só ele ao mercado]
Compare-se agora o exemplo (4) com o que se transcreve a seguir:
(8) Detesta ir ao mercado só o João.
[a] ‘ É só o João que detesta ir ao mercado.’
[b] *’(Elei) detesta que seja o caso que vá só o Joãoi ao mercado.’
Este exemplo é em tudo igual ao exemplo (4), com uma única diferença: o sujeito
não é um pronome, mas um nome próprio. Curiosamente, a leitura com âmbito estreito
desaparece neste caso e o sujeito pode apenas ser interpretado como sujeito da matriz. A
leitura com âmbito largo do DP modificado pelo operador de foco, que passamos a
designar de “leitura alta”, é a que corresponde à representação em (9a). A leitura em que
o referido DP tem um âmbito circunscrito à oração subordinada, aqui designada “leitura
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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
baixa”, corresponde à estrutura representada em (9b). Esta configuração, porém,
constitui uma violação da Condição C da teoria da ligação, o que explica a não
ambiguidade do exemplo (8) face à ambiguidade do exemplo (4).
(9) a. [detesta [PRO ir ao mercado] só o João]
b. *proi detesta [ir ao mercado só o Joãoi] Violação da Condição C
Esta explicação do contraste entre nomes e pronomes só funciona se o DP que
contém o operador de foco está numa posição baixa, no interior da oração infinitiva.
Convém desde já sublinhar que estes factos não estão relacionados com o
fenómeno da reestruturação (cf. Rizzi, l978). Como se sabe, os verbos de reestruturação
admitem a subida do clítico (cf. Quero vê-la / Quero-a ver). Adoptando este critério,
podemos concluir que detestar não cumpre os requisitos necessários para ser
considerado um verbo de reestruturação:
(10) a. Não detestei vê-lo.
b. *Não o detestei ver.
Do mesmo modo, não é possível recorrer à ideia de que a oração subordinada, nestes
casos, não é uma projecção de CP (cf. Costa, 2004; Alexiadou et al., 2008), visto que é
possível encontrar sujeitos pronominais controlados em orações infinitivas introduzidas
por um complementador visível. É o caso dos exemplos (11) e (12), do PE e do
espanhol, respectivamente, e ainda dos exemplos do italiano (13) e (14) mencionados
em Belletti (2005):
(11) Não sabemos [se assinar só nós a carta ou não].
(12) Espanhol [Torrego, l996]
No sabemos [si firmar nosotros la carta].
(13) Italiano [Belletti, 2005]
a. Gianni pensa [di parlare lui di questo problema].
b. *Pensa [di parlare Gianni di questo problema].
(14) Italiano [Belletti, 2005]
Maria mi ha chiesto [di parlare io com Gianni].
‘A Maria pediu-me para falar eu com o João’.
Em síntese, em construções de controlo obrigatório, as orações infinitivas podem
ter o que parecem ser sujeitos explícitos, os quais têm forçosamente de ser controlados.
A seguir, apresento os diversos tipos de sujeitos que podem ocorrer nestes contextos:
(i) Pronomes simples ou modificados por operadores de foco
(15) a. Odeiam ter de falar eles com o Rui.
b. Odeiam ter de falar com o Rui só eles / também eles / apenas eles.
(ii) Quantificadores partitivos
(16) Pensamos falar alguns de nós / vários de nós / muitos de nós com ela.
(iii) Certo tipo de nomes colectivos [Torrego, l996]
Torrego (l996) observa que certo tipo de nomes colectivos podem ocorrer nestes
contextos em construção com a flexão de primeira pessoa do plural no verbo da oração
principal:
(17) Não sabemos como falar com ela a turma toda / o grupo todo.
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SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
2.2. Construções de elevação
Szabolcsi (2009) nota que, em construções de elevação, se perde a distinção entre
pronomes e expressões-R(eferenciais) mencionada acima a propósito das construções de
controlo. Assim, os exemplos que se seguem admitem a leitura baixa do pronome ou do
DP modificado pelo operador de foco.
(18) a. Não pareço cantar só eu nesta gravação.
‘Não parece ser o caso que só eu cante nesta gravação’
b. Não parece cantar só o João nesta gravação.
‘Não parece ser o caso que só o João cante nesta gravação’
(19) Italiano
a. Non sembro cantare solo io su questo nastro.
‘Não parece ser o caso que só eu cante nesta gravação’
b. Non sembra cantare solo Gianni su questo nastro.
‘Não parece ser o caso que só o João cante nesta gravação’
O facto de os exemplos em (4), (18) e (19) admitirem a leitura baixa da expressão
focalizada é importante porque sugere que não são casos de backward control ou
backward raising (Hornstein, 1999; Polinsky & Potsdam, 2002), isto é, não podem ser
analisados em termos de movimento do sujeito para a matriz seguido de Spell Out da
cópia (para uma discussão de uma alternativa ligeiramente diferente desta que mantém a
ideia de backward control, consultar Alexiadou et al., 2008).
Para além disso, uma análise destes casos em termos de backward control/raising
deixa por explicar o contraste que se verifica entre as construções de elevação e as de
controlo no que respeita ao tipo de sujeitos que admitem. Recorde-se que, com os
verbos de controlo, apenas os sujeitos pronominais são compatíveis com a leitura baixa
(cf. (4) vs. (8)). Com as construções de elevação, qualquer tipo de sujeito é admitido (cf.
(18)/(19)). Na secção anterior, atribuímos a impossibilidade da leitura indicada em (8b)
a uma violação da Condição C da teoria da ligação. Esta explicação, porém, perde-se
numa análise baseada em movimento e backward control. Assumindo uma análise deste
tipo, a única explicação possível para as diferenças entre as construções de controlo e de
elevação consiste em estipular que, com verbos de controlo, a cópia do DP movido tem
de ser um pronome; com os verbos de elevação, tanto pode ser um pronome como uma
expressão-R. Esta estipulação parece-nos demasiado adhoc, pelo que não adoptaremos
aqui uma teoria do controlo obrigatório baseada no movimento.
2.3. Sujeitos múltiplos
Tanto os casos de controlo como os casos de elevação podem conter mais do que
um sujeito explícito. A seguir, transcrevem-se exemplos do PE e do Italiano com verbos
de controlo e de elevação:
(20) PE:
a. Só o João odiou resolver só ele o problema.
b. O João começou a responder ele antes que outros o fizessem.
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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
(21) Italiano
a. Solo Gianni vuole andare solo lui a scuola.
[Szabolcsi, 2009]
b. Gianni ha cominciato a ricevere regali solo lui.
[Szabolcsi, 2009]
c. I ragazzi risultarono aver riposto loro alla demanda. [Belletti, 2005]
Face a estes exemplos, poder-se-á colocar a hipótese de que os pronomes em
causa não são verdadeiros sujeitos, mas sim adjuntos anafóricos. Na secção seguinte,
argumentamos que esta hipótese não está correcta e que os pronomes em negrito em
(20) e (21) são todos verdadeiros sujeitos.
2.4. Evidência de que as expressões em causa são verdadeiros sujeitos
Em primeiro lugar, observamos que todas as expressões que surgem nestas
construções infinitivas podem ocorrer naturalmente enquanto sujeitos pós-verbais em
construções mono-oracionais:
(22) Falámos nós / só nós/ só nós os dois / alguns de nós / a turma inteira com ele.
Em segundo lugar, tal como observa Szabolcsi (2009) para o italiano, os pronomes
em causa podem ocorrer com um adjunto adnominal, o que sugere que não são eles
próprios adjuntos:
(23) Queremos ir ao mercado [só nós linguistas].
[a] ‘Queremos que seja o caso que só nós linguistas vamos ao mercado.’
[b] ‘Só nós linguistas queremos ir ao mercado.’
Todos os pronomes mencionados em (22) podem co-ocorrer com um sujeito pré-verbal
explícito em construções mono-oracionais, razão pela qual têm sido apelidados de
pronomes enfáticos (cf. Burzio, l986); o sujeito pré-verbal pode ser uma expressão
lexical ou mesmo um pronome:
(24) a. A Teresa / ela escreveu só ela / até ela o poema.
b. A Teresa / ela escreveu ela o poema (ninguém a ajudou).
‘Foi a Teresa / ela que escreveu o poema (ninguém a ajudou)’
c. A Teresa / ela escreveu o poema ELA, ninguém a ajudou.
‘Foi a Teresa / ela que escreveu o poema (ninguém a ajudou)’
(25) Italiano [Belletti, 2005]
a. Gianni verrà lui.
b. Lui verrà lui.
(26) Espanhol [Sanchez, l993]
Pedro abrió la puerta EL.
Para muitos autores, os pronomes enfáticos não são verdadeiros sujeitos e sim
adjuntos anafóricos Piera (l987), ou a realização fonética de um vestígio Burzio (l986).
Rigau (l987), Sola (l992), Barbosa (l995) e Belletti (2005), porém, defendem que eles
são sujeitos pós-verbais. No que se segue, apresento alguns dos argumentos de Barbosa
(l995).
A ideia de que estes pronomes são adjuntos (semelhantes à anáfora complexa do
inglês himself) enfrenta o problema de eles não terem exactamente as mesmas
propriedade das anáforas complexas. Em primeiro lugar, não são admitidos enquanto
adjuntos de um DP, contrariamente ao que sucede com a anáfora complexa
exemplificada em 27).
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SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
(27) a. *Apareceu a presidente ELA
b. *Falei com a presidente ELA
(28) a. Apareceu a presidente ela própria.
b. Falei com a presidente ela própria.
Em segundo lugar, os pronomes enfáticos diferem da anáfora complexa por serem
orientados para o sujeito:
(29) a. [O rapaz]i foi apresentado ao presidentek ELEi/*k / só elei/*k
b. [O rapaz]i foi apresentadok ao presidente ele próprioi/k
Estas duas propriedades tornam a ideia da adjunção pouco plausível. Por outro
lado, os pronomes enfáticos têm exactamente a mesma distribuição e interpretação dos
sujeitos pronominais pós-verbais. Assim, a par de (24b,c), encontramos (30a,b), em que
o sujeito pronominal em posição pós-verbal é interpretado exactamente do mesmo
modo que o pronome enfático: tanto em (30a,b) como em (24b,c) se obtém uma leitura
de foco exclusivo do pronome, parafraseável por meio de uma construção clivada, como
indicado nas glosas.
(30) a. Escreveu ela o poema (ninguém a ajudou).
b. Escreveu o poema ELA (ninguém a ajudou).
‘Foi ela que escreveu o poema (ninguém a ajudou).’
Tal como sucede em (24b,c), o pronome pode preceder ou seguir o objecto directo,
sendo que, no último caso, necessita de receber preso prosódico adicional (cf. (24c),
(30b)).
Neste artigo, assumo a análise da ordem VSO/VOS proposta em Ordónez (l998)
para o espanhol, Costa (l998) para o português e Cardinaletti (l998) para o italiano,
segundo a qual os sujeitos pós-verbais ocupam, em ambas as ordens, a posição em que
são gerados na base, no interior do SV, sendo que o verbo sobe para T; a ordem VOS é
derivada mediante subida do objecto. Deste modo (30a) é analisada como indicado em
(31a) e (32b) é analisada como indicado em (31b)
(31) a. [IP escreveu [vP ela escreveu o poema]]
b. [ IP escreveu [ o poema [ VP ela escreveu o poema ]]]
Em (31b) o pronome é o elemento mais encaixado. Daí que receba o acento
nuclear da frase pela Nuclear Stress Rule (cf. Cinque, l993), facto que pode explicar a
intuição de que o pronome nessa posição necessita de receber um peso prosódico
adicional. Uma vez que os sujeitos pronominais pós-verbais têm as mesmas
propriedades distribucionais e interpretativas dos pronomes enfáticos, é legítimo
concluir que estes pronomes são sujeitos pós-verbais e não adjuntos.
Face a esta conclusão, há três tipos de abordagem possíveis das construções de
“duplo sujeito” exemplificadas em (22-24):
a) o pronome enfático é a realização fonética do vestígio do sujeito movido para a
posição pré-verbal (Burzio, l986);
b) o pronome enfático e o sujeito pré-verbal formam um constituinte sintáctico
único, um DP “grande” do tipo proposto por Torrego (l995), Uriagereka (l995),
Cecchetto (2000) para dar conta das construções de redobro clítico das línguas
românicas (cf. (32); uma parte do DP (ou do QP, se se tratar de uma sintagma
quantificacional), DP2, (que pode ser um DP lexical, pro, ou PRO) move-se para a
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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
posição pré-verbal e a restante parte, formada pelo pronome enfático (D) ou por um
quantificador (como alguns ou vários, etc.), permanece na periferia direita da oração;
esta é a proposta de Belletti (2005):
(32)
DP1/QP
D/Q
DP2
(33) [[DP2 A Teresa / ela ] [T’ escreveu [VP [DP1 ela [ DP2 A Teresa / ela ]] o
poema]]
c) o DP em posição pré-verbal não é o sujeito temático e é antes um tópico em
Deslocação à Esquerda (doravante, DE) redobrado pelo sujeito pronominal expresso em
posição pós-verbal (Rigau, l987; Sola, l992; Barbosa, l995) (na representação que se
segue assumimos que os tópicos em DE são gerados na base na periferia esquerda da
oração):
(34) DPk [ TP V/v [ ... Pronome sujeitok ... ]
(35) [A Teresa / ela ]i [TP escreveu [vP elai [v’ escreveu o poema ]]]]
Uma forma simples de testar a hipótese c) consiste em ver se estas construções de
“duplo sujeito” são compatíveis com expressões quantificadas não referenciais. Como
se sabe, os quanficadores negativos não podem ocorrer em DE (cf. (36b) e (37b)):
(36) a. Esse livro comprei-o ontem.
b. *Nada comprei-o ontem
(37) a. Pierre il aime la musique.
b. *Personne il aime la musique.
Deste modo, a hipótese c) prevê que um quantificador negativo seja incompatível
com um pronome enfático numa construção mono-oracional, e, com efeito, esta
previsão é confirmada. O exemplo (38) é construído e ajuizado por mim, mas a
agramaticalidade de exemplos semelhantes em outras línguas é mencionada já por
outros autores, incluindo Szabolcsi (2009) e Belletti (2005):
(38) *Nenhuma criança escreveu ela o poema.
(39) Szabolcsi (2007)
Contexto: O professor trabalhou, e ...
a. Gianni ha lavorato anche lui.
‘O João trabalhou também ele’.
b. * Ogni ragazzo ha lavorato anche lui
todo rapaz trabalhou
também ele
(40) Belletti (2005)
*?Nessuno verrà lui.
Uma vez que estes quantificadores não podem ser gerados na base como tópicos
em DE, não há lugar para o pronome enfático na estrutura da frase:
(41) [Nenhuma criança escreveu [ VP nenhuma criança escreveu o poema]]
Estes dados constituem um forte argumento em favor da hipótese (c) e um
problema para as hipóteses (a) e (b). Se o pronome enfático é a realização fonética de
um vestígio, não se percebe por que razão esta opção é bloqueada com um quantificador
104
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
negativo. Na perspectiva de que o pronome enfático e o DP pré-verbal formam um DP
“grande”, também não há uma explicação óbvia para que tal DP não possa conter um
quantificador negativo, uma vez que sabemos que, em línguas que admitem construções
de redobro clítico – para as quais a ideia do DP “grande” foi inicialmente construída –,
os quantificadores negativos podem ocorrer neste tipo de construção de redobro 1:
(42) Espanhol (Torrego l998)
No le ablé a nadie.
Em face destes dados, concluímos que os pronomes enfáticos são genuínos
sujeitos pós-verbais. Dadas as afinidades entre os pronomes enfáticos e os pronomes
que ocorrem nas orações subordinadas infinitivas de controlo e elevação, concluímos
que também estes são sujeitos dessas orações.
3. Análise
3.1. Introdução
No seu artigo, Szabolcsi (2009) aplica os testes acima descritos a uma série de
línguas e observa a existência de três padrões distintos:
1. Línguas que não admitem sujeitos expressos nem em construções de controlo
nem em construções de elevação; é o caso do inglês, alemão e francês.
2. Línguas que admitem sujeitos expressos quer em construções de elevação quer
em construções de controlo; o caso do húngaro, italiano, espanhol, romeno, turco,
português do Brasil e, acrescentamos nós, português europeu.
3. Línguas que admitem sujeitos expressos apenas em construções de elevação,
como o russo, o finlandês e possivelmente o hebraico.
Szabolcsi observa que as línguas que caem no Padrão 1 são línguas sem sujeitos
nulos, sendo que todas as outras admitem algum tipo de sujeito nulo (o finlandês é uma
língua pro-drop parcial e o russo admite a não realização dos sujeitos expletivos). Por
outro lado, verificamos que as LSN pleno estudadas por Szabolcsi estão todas incluídas
no padrão 3. No quadro das línguas que obedecem a este padrão, a única excepção é o
PB, que tem vindo progressivamente a deixar de ser uma LSN pleno e se aproxima mais
do finlandês. Porém, colocando de lado o PB, que, por estar em processo de mudança,
necessitaria de um estudo mais aprofundado, que não cabe neste artigo, não deixa de ser
verdade que todas as LSN pleno estudadas por Szabolcsi obedecem ao padrão 3 e é essa
a correlação que pretendo explorar aqui (note-se que a correlação não funciona no
sentido inverso: nem todas as línguas que admitem sujeitos de infinitivos são línguas de
SN pleno, como é o caso do PB). Nesta secção, começo por apresentar as minhas
assunções acerca das propriedades sintácticas que caracterizam as LSN pleno. Depois,
mostro como estas assunções, associadas à teoria do controlo proposta em Landau
(2000, 2004), captam os três padrões de línguas acima descritos.
1 É certo que esta compatibilidade com expressões não referenciais ocorre apenas nas construções de redobro
com formas dativas. Nos dialectos do espanhol que admitem o redobro clítico com os clíticos acusativos, o
associado tem de ser [+específico]. Porém, Belletti assume que os sujeitos pós-verbais de uma forma geral
estão numa configuração de redobro clítico, e como estes podem ser qualquer tipo de quantificador (cf. Não
chegou ninguém), a opção terá de ser por uma configuração semelhante à do redobro de dativos do espanhol.
105
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
3.2. Teoria geral da Propriedade do Sujeito Nulo
Barbosa (1995), Pollock (l997), Alexiadou e Anagnostopoulou (l998), Kato (l999),
entre outros, propuseram que, nas LSN pleno, o afixo da concordância verbal é
[+D/N], isto é, tem o comportamento de uma categoria pronominal fonologicamente
expressa como um afixo no verbo elevado para T, sendo portanto capaz de “verificar” o
EPP e de atribuir um valor aos traços- de T. Por consequência, os sujeitos (expressos
ou nulos) não se elevam para Spec-TP, o que resulta na tradicionalmente designada
“inversão livre”:
(43) [ [T [V+Agr] ] [V/vP
sujeito ]]
Um exemplo como (44a) é, assim, analisado como indicado em (44b). O afixo de
concordância verbal verifica o EPP e o sujeito permanece in situ (para mais detalhes
sobre a proposta consultar as referências dadas acima):
(44) a. Telefonou a Maria
b. [ [T telefonou ] [vP a Maria]]
O exemplo (45), em que o sujeito é nulo, é analisado como em (45b), que mais não é do
que a configuração tradicionalmente associada à relação estabelecida entre um clítico
pronominal e a posição temática a que está associado:
(45) a. Telefonaram
b. [ [T telefonar-ami ] [vP proi ]]
Neste quadro, as construções SVO são instanciações de mecanismos de
anteposição de argumentos independentemente atestados. Um deles é a Deslocação à
Esquerda Clítica (DEC), em que o DP em posição pré-verbal é gerado na base numa
posição de adjunção ao núcleo oracional que dele é predicado, e é redobrado por pro em
posição argumental. Deste modo, o exemplo (46a) é analisado como ilustrado em (46b):
(46) a. A Maria telefonou.
b. [[ A Maria]i [TP telefonou [ proi ]]
Em (46b), o DP a Maria é legitimado por “regras de predicação” na acepção de
Chomsky (l977) (cf. também Raposo, l996). TP contém uma posição “aberta” (pro, uma
categoria pronominal sem referência independente) satisfeita pela entidade referida pelo
DP em DEC.
Para além da estrutura exemplificada em (46b), a ordem SVO pode também ser
derivada por movimento A-barra (ou de Foco, em algumas análises (cf. Martins, l994;
Raposo, l994) do sujeito directamente a partir da posição pós-verbal, tal como se ilustra
a seguir:
(47) [ QP ... [ I’ [I V QP ... ]]
Em Barbosa (1995) argumentei que as expressões quantificadas que não podem
estar deslocadas tais como quantificadores nús, quantificadores indefinidos não
específicos e operadores afectivos (no sentido de Klima, l964) são extraídas por
movimento A-barra sempre que precedem o verbo. Assim, o exemplo do português que
se segue será analisado como em (48b) (em que FP significa “Projecção Funcional”;
não entraremos aqui nos detalhes da posição de chegada deste tipo de movimento e
remetemos o leitor interessado para Barbosa, 2001):
106
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
(48) a. Alguém telefonou.
b. [FP alguém ... [T’ [ telefonou] [VP alguém ... ]]
Uma vez que esta análise assume que a posição temática do sujeito nas LSN
pleno é pós-verbal, prevê que as construções de DE com redobro por um pronome com
realização lexical, a existirem, envolvam um pronome em posição pós-verbal. E, com
efeito, esta previsão é confirmada. Como vimos na secção anterior, as construções com
pronomes enfáticos são incompatíveis com expressões quantificadas não referenciais, o
que sugere que são casos de DE com redobro pelo pronome em posição pós-verbal.
(49) [A Teresa] [ TP escreveu ela o poema]
No quadro desta análise, as frases com redobro por um pronome em posição pré-verbal (cf. 50a) são analisadas como exemplificado em (50b), isto é, envolvem
necessariamente dois tópicos em DEC:
(50) a. A Teresa, ela escreveu o poema.
b. [A Teresa]i [ ela]i [TP escreveu proi o poema]
Tópico Tópico
É sabido que nada impede a existência de tópicos múltiplos numa frase (cf. Esses
livros, à Maria, não os dou); portanto, não se prevê que (50a) seja agramatical, embora
se preveja que seja redundante e que este tipo de configuração seja pouco produtiva. E,
com efeito, as construções de redobro com um sujeito pronominal em posição pré-verbal são extremamente raras nas LSN contrariamente ao que sucede, por exemplo,
em francês e no PB coloquial (cf. Duarte, l993), em que são bastante frequentes. Em
contrapartida, as construções do tipo exemplificado em (49), com redobro por um
pronome em posição pós-verbal, são bastante produtivas nas LSN.
Um outro facto que encontra explicação imediata no quadro da análise
apresentada, é que, nas orações infinitivas (sem flexão) discutidas nas secções
anteriores, a posição do sujeito é sempre pós-verbal. Esta observação é já feita por
Torrego, que menciona os exemplos em (52) e (53):
(51) a. Não sabemos como assinar nós os dois a carta.
b. *Não sabemos como nós os dois assinar a carta.
(52) Espanhol [Torrego, l996]
a. No sabemos si asistir algunos de nosotros.
b. No sabemos si asistir todos los linguistas.
c. No sabemos si asistir los linguistas.
(53) a. *No sabemos si algunos de nosotros asistir.
b. *No sabemos si todos los linguistas asistir
c. *No sabemos si los linguistas asistir.
Este padrão é o previsto pela análise acima descrita, uma vez que, nesta teoria, a
posição pré-verbal exigiria uma configuração de DEC com pro no interior da infinitiva;
porém, pro não é uma possibilidade nestes casos dada a ausência de traços de
concordância na flexão verbal. Deste modo, prevê-se que, em orações infinitivas (sem
concordância), apenas seja atestada a ordem VS2.
2 Em Húngaro, o sujeito da oração infinitiva pode ocorrer em posição pré-verbal, mas trata-se de uma posição
de Foco ocupada também por objectos focalizados (cf. Szabolcsi, 2009).
107
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Curiosamente, Torrego (l996) observa que este tipo de construções admitem que o
sujeito seja um Sintagma-Qu em Spec-CP (compare-se (54) com (53a-c):
(54) Espanhol [Torrego, l996]
[Muchos de nosotros] no sabemos quantos firmar la carta.
No quadro da teoria aqui descrita, este facto também é previsto, uma vez a
extracção procede directamente a partir da posição posição pós-verbal, que é, como
vimos, a posição-A dos sujeitos, nesta teoria (cf. Barbosa, l995):
(55) Muchos de nosotros no sabemos [CP quantos [firmar [VP quantos la carta]]]
Apesar de a teoria acima proposta captar a posição ocupada pelos sujeitos
expressos das orações infinitivas nas LSN, a questão que se coloca agora é saber por
que razão estas línguas admitem a ocorrência de sujeitos em construções de controlo ou
de elevação, contrariamente ao que sucede em outras línguas, como o inglês, o francês
ou o alemão. Esta questão será discutida na secção seguinte.
3.3. Proposta
Os estudos de Belletti (2005) e Torrego (l996) convergem em torno da ideia de
que os sujeitos expressos das orações infinitivas de controlo e elevação estão numa
configuração de Redobro Clítico (Clitic Doubling). Esta será também a abordagem por
nós proposta, embora os detalhes da análise sejam substancialmente diferentes.
Recorde-se que, de acordo com a teoria da Propriedade do Sujeito Nulo pleno
apresentada na secção anterior, o afixo de concordância verbal tem o comportamento de
um clítico pronominal, sendo capaz de verificar o traço EPP em T bem como os traçosde T. Afirmámos acima que esta é a razão pela qual um sujeito lexical gerado no
interior de v/VP não sobe para Spec, TP, mas não fomos muito claros relativamente à
relação existente entre o sujeito lexical e o afixo de concordância. Alexiadou e
Anagnostopoulou (2001) defendem que a ordem VS corresponde a uma configuração de
redobro clítico apenas em espanhol e grego. Aqui, quero sugerir que os dados das
orações infinitivas de controlo e elevação indicam que a configuração de redobro clítico
é mais generalizada e se estende a (pelo menos) todas as línguas românicas de sujeito
nulo. Em particular, sugiro que as estruturas com sujeitos em posição pós-verbal nas
línguas românicas de sujeito nulo deverão ser analisadas da mesma forma que as
construções de redobro do clítico dativo em espanhol, que exemplifico a seguir:
(56) Juan le visitó al chico.
Como vimos, estas construções de redobro podem ocorrer com todo o tipo de
expressões, incluindo quantificadores negativos, portanto não considero que o DP
lexical seja um adjunto (contra Torrego, l996). No caso das construções com sujeitos
pós-verbais, a configuração em causa é, por hipótese, a abaixo indicada:
(57) [[T [V [Agr] ] [V/vP sujeito ... ]]
Agree
O afixo de concordância entra na derivação com os traços-phi valorados, verifica o
EPP e atribui um valor aos traços não interpretáveis de T. Sendo um núcleo (cf.
Chomsky, 2001) actua como sonda e encontra um alvo activo – o sujeito in situ – com o
qual estabelece a relação Agree. A ideia chave é que, nas LSN pleno, o sujeito
108
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
argumental (lexical ou nulo) não estabelece uma relação directa com T: a relação em
causa é invariavelmente mediada pelo afixo de concordância verbal. Esta ideia
desempenha um papel central na nossa proposta de explicação da ocorrência de sujeitos
expressos em orações infinitivas de controlo obrigatório.
Na secção seguinte veremos como esta proposta de análise dos sujeitos pós-verbais
se aplica aos dados de Szabolcsi (2009) 3.
3.4. Análise dos dados das orações infinitivas
3.4.1 Construções de elevação
Consideremos, em primeiro lugar, o seguinte exemplo e a sua respectiva
interpretação:
(58) Começaram a receber só elas / só as crianças bons papéis.
‘Começou a ser o caso que elas / as crianças eram as únicas a receber bons
papéis.’
Na interpretação indicada, o DP focalizado é sujeito da oração subordinada, como
se indica a seguir:
(59) [ T P [T começaram] [a [TP [T receber] [vP [só elas /só as c.] bons papéis]]]
Agree
Nesta representação, não há pro expletivo e o afixo de concordância verbal na
matriz estabelece uma relação de Agree à distância como o sujeito in situ da encaixada.
3 Torrego (l996) observa que a relação de concordância que se estabelece nestes casos é muitas vezes
semântica e não morfológica. Assim, em espanhol, os DPs colectivos los linguistas e muchos de los
linguistas combinam-se com os traços de concordância de primeira pessoa do plural:
(i) Espanhol:
a. Firmamos los linguistas / muchos (de los linguistas) la carta.
b. Firmamos la clase entera la carta.
Em PE, uma expressão singular de sentido colectivo combina-se com a flexão de primeira pessoa do plural,
quer numa construção mono-oracional (cf. (iia) quer numa construção de controlo (cf. iib).
(ii) a. Fomos embora a turma inteira.
b. Odiámos ter de falar o grupo todo com ele.
Tal como já foi observado por Torrego (1996), os padrões de concordância que se observam com os sujeitos
em posição pós-verbal são replicados nas construções de redobro clítico, facto que vem reforçar as
afinidades entre as duas construções:
(iii) Espanhol (Torrego, l996)
a. Nos vio a muchos de los linguistas.
b. Nos vio a los linguistas.
c. Nos vio a la clase entera.
O PE apenas admite o redobro clítico de objectos com pronomes e um reduzido número de expressões de
sentido colectivo. Com estas últimas, verifica-se o mesmo padrão de concordância observado com sujeitos
pós-verbais (cf. (iv)
(iv) Viu-nos à turma inteira / ao grupo todo a copiar.
Este paralelismo entre as construções com sujeitos pós-verbais e as construções de redobro clítico sugere
que estamos face a estruturas semelhantes.
109
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Recorde-se que, de acordo com A. Szabolcsi, as LSN, o finlandês e o russo têm
um comportamento semelhante nestes casos. Este facto encontra explicação no
pressuposto de que, em todas estas línguas, os sujeitos podem permanecer in situ (ou
numa posição de foco na subordinada) e estabelecer uma relação de concordância à
distância com a sonda com a qual concordam. Com efeito, Holmberg (2005) mostra que
os sujeitos podem permanecer in situ em finlandês e Bailyn (2004) faz observações
semelhantes relativamente ao russo.
Nesta perspectiva, e tal como foi defendido acima, as construções com duplo
sujeito são casos de DE com redobro por um sujeito pronominal em posição pós-verbal.
Sendo assim, esta hipótese prevê que uma construção de duplo sujeito não seja possível
se o sujeito é uma expressão não referencial e, com efeito, esta previsão confirma-se.
Comparem-se os seguintes exemplos (utilizamos aqui a locução acabar por para ter a
certeza de que não há reestruturação):
(60) a. A empregada não apareceu e o hóspede acabou por fazer ele o pequenoalmoço.
b. A empregada não apareceu, mas eu fui lá pessoalmente e
* nenhum hóspede acabou por fazer ele o pequeno-almoço.
Na minha opinião, há um contraste entre (60a) e (60b). Uma vez que a DE não é
uma possibilidade no caso de (60b), o sujeito da oração subordinada é o pronome
focalizado e o verbo superior não selecciona um argumento externo, o sintagma
quantificado não recebe uma função semântica, o que resulta numa violação do
Princípio da Interpretação Plena (Full Interpretation Principle).
3.4.2. Construções de controlo
Recorde-se que, nas construções de controlo, o sujeito expresso das orações
infinitivas tem de ser controlado pelo sujeito da matriz. Uma vez que, como vimos, os
dados aqui discutidos são problemáticos para uma análise em termos de backward
control, adopto uma abordagem baseada na noção de Agree. Em particular, adopto a
teoria de Landau (2000; 2004), que assenta na observação de Borer (l989) de que a
concordância abstracta das formas infinitivas é anafórica, isto é, os traços-phi de
T contêm o traço [-R(eferencial)]4. Para além disso, Landau assume que PRO é também
[-R], mais precisamente uma anáfora, no sentido de Reinhardt e Reuland (l993).
Associando estas duas ideias à teoria das LSN pleno apresentada na secção
anterior, proponho que, nestas línguas, o afixo verbal da forma infinitiva mantém o
traço [+N/D], mas não tem os seus traços-phi valorados, sendo portanto [–R]. Deste
modo, está activo para actuar como alvo e estabelecer uma relação de AGREE com os
traços-phi de T ou v da matriz recebendo assim um valor para os seus próprios traços-phi e verificando os traços não interpretáveis de T encaixado. Desta forma, um
pronome in situ é legitimado mediante a relação Agree estabelecida com o afixo verbal.
4 Note-se que esta sugestão de Borer (l989) se baseia, em parte, precisamente nos dados de Burzio (l986) do
italiano, com pronomes explícitos controlados.
110
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO
(61) [ Agr ... DP ... [CP [T [V [Agr [+N] [-R]] ] T [-R]] [vP
[ Pronome ]]]]
Agree
Agree
Agree
Em línguas em que a concordância verbal não é nominal, porém, o sujeito de uma
oração infinitiva de controlo obrigatório só pode ser ele próprio [-R] (e portanto PRO)
dado que tem de verificar directamente o traço [-R] em T. Esta situação abrange o
finlandês, o russo, o inglês, o francês, o alemão, etc. Dito por outras palavras, o que
permite que o pronome sujeito possa ocorrer em construções de controlo nestas línguas,
por oposição às restantes, é o facto de este não estabelecer uma relação directa com T
nas LSN.
Note-se que, nesta abordagem, a ocorrência de um pronome explícito numa
construção de controlo é apenas uma opção dado que nada impede PRO de ocorrer
como sujeito da oração subordinada numa configuração como (61).
A representação sugerida em (61) prevê que, neste tipo de configuração, e
contrariamente ao que sucede nas construções de elevação, sejam atestadas construções
com mais do que um sujeito explícito com expressões não referenciais, uma vez que a
oração superior contém uma posicão temática para o sujeito não referencial (que
corresponderá ao DP mais alto em (61)). Com efeito, esta previsão é confirmada:
(62) Estou certa de que [nenhum hóspede decidirá [fazer ele o pequeno almoço
todos os dias]].
Em (62), o QP nenhum hóspede é o sujeito de decidir, o qual, na nossa
perspectiva, se move para a posição pré-verbal por movimento A-barra. O pronome é
então interpretado como uma variável ligada:
(63) [ [nenhum hóspede]i decidirá [ [nenhum hóspede]i decidirá [ fazer elei o
pequeno almoço]]]
Esta situação difere dos casos de elevação, em que a presença dos dois sujeitos é
impossível quando o primeiro é uma expressão não referencial quantificada (cf. (60b)).
Este contraste entre as construções de elevação e de controlo é, na nossa opinião, um
forte argumento em favor da análise aqui proposta, em termos da noção de Agree, e um
problema para as teorias do controlo baseadas no movimento.
Recorde-se que, nestes casos, o sujeito da oração infinitiva não pode ser uma
expressão-R, restrição que atribuímos a uma violação da Condição C da teoria da
Ligação. Ao reinterpretarmos este fenómeno em termos da relação Agree, estamos a
adoptar a ideia de que, numa estrutura de controlo, o sujeito da oração subordinada é
forçosamente co-indexado com o antecedente na matriz podendo apenas ser interpretado
na Forma Lógica como uma variável ligada (assumimos aqui a abordagem à teoria da
ligação de Grodzinsky e Reinhart, l993): no caso de o sujeito ser uma expressão-R, tal
coindexação seria ininterpretável uma vez que uma expressão-R não pode ser
interpretada como variável ligada
Note-se ainda que um dos corolários da proposta de Landau (2004) é que as
orações infinitivas não são fases fortes. A abordagem aqui proposta herda essa
consequência.
111
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
4. Conclusões
Os dados discutidos neste artigo sugerem que, em PE, as orações infinitivas de
controlo e elevação podem ter sujeitos expressos de acordo com a seguinte
generalização:
(64) Os sujeitos expressos de orações infinitivas em construções de controlo têm
de ser pronome. Os sujeitos expressos de orações infinitivas em construções
de elevação podem ser pronomes ou expressões nominais não pronominais.
(64) é a generalização proposta no estudo de Szabolcsi (2009), que abrange uma
série de línguas. Szabolcsi observa que estas línguas diferem do inglês, holandês,
alemão ou francês, que não admitem qualquer tipo de sujeito expresso em construções
infinitivas. No caso do primeiro grupo de línguas, há uma subdivisão: o finlandês, o
russo e (provavelmente) o hebraico moderno só admitem sujeitos expressos em
construções de elevação. As restantes línguas evidenciam sujeitos expressos também em
construções de controlo, de acordo com o padrão descrito em (64). Se colocarmos de
lado o PB, que, por estar a atravessar um processo de mudança, exige um estudo à parte,
todas as LSN pleno estudadas por Szabolcsi (do tipo do italiano ou do PE) admitem
sujeitos expressos tanto em construções de controlo como em construções de elevação.
As línguas de pro-drop parcial, como o russo e o finlandês e (possivelmente) o hebraico
admitem sujeitos expressos apenas em construções de elevação.
Neste artigo, apresentámos uma teoria explicativa deste fenómeno que procura
captar a associação existente entre a Propriedade do Sujeito Nulo e a ocorrência de
sujeitos expressos em construções de controlo e elevação. Em particular, defendemos
que este fenómeno se relaciona com as propriedades “nominais” do afixo de
concordância verbal. Sendo [+N/D], é o próprio afixo verbal que verifica os traços
formais de T mediante subida de V para T, o que tem a consequência de que a relação
entre T e o sujeito argumental é invariavelmente mediada pelo afixo de concordância
verbal, numa configuração de “clitic doubling”. Defendemos que esta assunção,
associada a uma teoria do controlo baseada na relação Agree, como a de Landau (2000;
2004), capta adequadamente a ocorrência de sujeitos de orações infinitivas nestas
línguas quer em construções de controlo quer em construções de elevação.
A ocorrência de sujeitos in situ com concordância à distância em línguas pro-drop
parcial como o Russo ou o Finlandês explica a possibilidade de os sujeitos expressos
poderem ocorrer no interior de orações infinitivas em construções de elevação.
Concluímos assim que, a ser correcta, esta análise reforça as teorias do controlo
baseadas na operação Agree.
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