...

Prestes - TL Gomes portfolio

by user

on
Category: Documents
5

views

Report

Comments

Transcript

Prestes - TL Gomes portfolio
Horieste gomes
&
Francisco Montenegro
A COLUNA
Miguel Costa/Prestes eM goiás
goiânia
2010
© 2010 Horieste gomes & Francisco Montenegro
somos gratos pelo seu apoio e contamos com a sua cooperação
na divulgação do nosso livro. também receberemos com alegria e
levaremos em consideração suas apreciações críticas e sugestões.
enviar para:
Horieste Gomes
rua C-263, nº 36, ed. Pontal Nova suíça, ap. 1504,
bairro Nova suíça – goiânia-go – Cep: 74280-260
e-mail: [email protected]
Francisco Montenegro
rua teresina, nº 389, ed. Flamingo gold, ap. 1202,
bairro alto da glória – goiânia-go – Cep: 74815-715.
e-mail: [email protected]
CaPa, Projeto gráFiCo e editoração:
thiago luis gomes
MaPas/roteiros:
antônio teixeira Neto
g633c
gomes, Horieste
Montenegro, Francisco
a Coluna Miguel Costa/Prestes em goiás/ Francisco
Montenegro e Horieste gomes. goiânia: ed. do autor, 2010.
288 p.: il.
1. História – Brasil. 2. História – goiás. 3. Coluna Prestes –
História – goiás. 4. revolução – Brasil. i. Montenegro,
Francisco. ii. título
Cdu:
impresso no Brasil
Printed in Brazil
2010
94 (81)
94 (817.3)
Dedicatória
Ao Waldik Catão Pinto Montenegro, baiano
de Caitité, que nutria simpatia pelos
revoltosos da Coluna (in memoriam).
A todos os combatentes, muitos deles heróis
anônimos, que se aventuraram por um Brasil
desconhecido e construíram uma das mais
belas páginas de nossa História.
Não vencemos, nem fomos vencidos
lourenço Moreira lima
Nossos agradecimentos
8
os cidadãos identificados com a história política do
Brasil, alaor souza Figueiredo e juarez Costa Barbosa, que fizeram a leitura e análise do texto original e deram uma efetiva contribuição para a melhoria do conteúdo deste livro.
ao prestimoso amigo Binômino da Costa lima (Meco), fazendeiro, ambientalista residente em jataí há várias décadas, e conhecedor profundo do sudoeste de goiás que, além de prestar uma valiosa entrevista sobre a marcha e o comportamento dos revolucionários
da Coluna e de oferecer documentos e fotos de revoltosos, teve a cortezia de nos acompanhar até a fazenda do seu filho sérgio, onde fomos recebidos com o maior préstimo possível; além das visitas a pon-
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
te do Cedro, a invernada da fazenda Zeca lopes, local onde houve o
combate frontal da Coluna contra as tropas do major Klinger, ocasião
em que nos repassou lições de história e sabedoria.
a ermelinda ribeiro Prestes, filha de luiz Carlos Prestes e de
altamira rodrigues sobral, conhecida por Maria Prestes, que, gentilmente, respondeu as perguntas da entrevista por nós formuladas,
além de nos repassar o poético e científico texto do seu irmão, luiz
Carlos Prestes Filho, intitulado O Vento da Coluna Prestes.
ao amigo, professor antônio teixeira Neto, dr. em Cartografia, que se incumbiu de mapear o itinerário da marcha da Coluna pelo Brasil, baseado nos relatos do diário de lourenço Moreira lima, A
Coluna Prestes – Marchas e Combates (1934); no roteiro do mapa de escala 1:15.000.000, elaborado por Miguel Costa, inserido no livro de Ítalo landucci, Cenas e Episódios da Revolução de 1924 e da Coluna Prestes
(1952); nos relatos e roteiros do comandante, joão alberto lins de Barros, em seu livro Memórias de um Revolucionário (1953); e, principalmente, nos roteiros que fazem parte do livro-tese de anita leocádia
Prestes, A Coluna Prestes (1990).
a pesquisadora cultural de santa Cruz de goiás, Fátima Paraguassú, que teve a gentileza de gravar o depoimento do sr. alberto
da Paz (albertão) e de isabel teixeira, atinente a passagem dos revoltosos pela região. junta-se ao seu depoimento, o relato oral que obtivemos do sr. alberto, em santa Cruz, em 10 de julho de 2008 e 28 de
janeiro de 2010.
a todos aqueles que contribuiram com depoimentos, documentos, fotos, requisições, livros, outras mais doações e préstimos necessários à elaboração deste trabalho de pesquisa histórica, exemplificando com o musicista Vagner rosafa, que muito nos ajudou na
busca de livros pioneiros sobre a Coluna; a Profª lídia gonçalves de
araújo, pelo empréstimo de sua tese, A Coluna Prestes: Memória e Política em Goiás; o Prof./historiador tarcísio rossi arantes, pelas fotos
e texto do diálogo de sua irmã Célia arantes com o comandante siqueira Campos; os advogados, josé divino alves e josé Honorato, de
Piracanjuba, com informações; o sr. gildo Mundim, neto de antônio
10
Nossos agradecimentos
Martins Mundin, que na época da passagem dos revoltosos em Pouso alto (Piracanjuba), era o intendente Municipal, repassando-nos cópia da foto histórica do siqueira e do imposto de guerra por ele cobrado; a eliane Brum, jornalista da revista Época, que nos enviou o
livro de sua autoria, Coluna Prestes: O Avesso da Lenda (1994); o sr. Paulo sampaio, de Pires do rio, pelas fotos cedidas sobre as fazendas Brejo e Moinho, visitadas pelos revoltosos de siqueira Campos, e da estação de Pires do rio, além de nos prestar importantes esclarecimentos;
a equipe do Museu Ferroviário de Pires do rio – ercy rocha, Cláudia, Fidélio e ivani – que nos atenderam com a maior boa vontade e
presteza; o professor de História, ubiratan Paulo galli Vieira, de urutaí, que gentilmente nos acompanhou pela cidade e ao campus do CeFet, colocando-nos em contato com pessoas, informantes sobre a mencionada queda de um avião, no ano de 1926, a exemplo do diretor da
instituição federal, o Prof. sebastião, e da gentil sra. Maria de lourdes Carneiro, que abriu o seu arquivo histórico sobre o suposto acontecido; ao sr. elson gonçalves de oliveira e senhora, dedicando-nos
os livros Cristianópolis e Vianópolis de sua autoria; o sr. Fábio Viegas e
senhora, de Pires do rio, que nos atenderam em nossas pretensões; a
senhora Maria das graças Carvalho, filha de adauto e dalva Carvalho, neta de Zeca lopes, e proprietária da Fazenda Morada alta (conhecida por fazenda Zeca lopes, nome do antigo proprietário), pessoa, solícita, que abriu as portas de sua propriedade a nossa
investigação, além de doar foto da sede da fazenda que leva o nome
do seu pai; a senhora Maria eloá de souza lima, residente em jataí,
que através do seu livro Serra do Cafezal, faz parte da memória da Coluna; ao Comando geral da Polícia Militar de Minas gerais e academia de Políca Militar, representadas na pessoa do tenente e historiador Francis albert Cotta que nos atendeu de maneira solícita, em nossa
busca de informações; ao instituto do trópico subúmido da PuC-go,
que se dedica à pesquisa e preservação do bioma cerrado, domínio
de muitas maratonas dos revolucionários da Coluna Miguel Costa/Prestes, e aos que contribuíram, liberando arquivos, fotocopiando
documentos, repassando-nos informações.
11
Vamos começar pelo princípio
joão alberto lins de Barros
Introdução
8
uando nos propusemos escrever a epopéia da
marcha dos “revoltosos” pelo Brasil, mais especificamente pelo território de goiás e tocantins, tínhamos em conta, em certo sentido, o grande volume de publicações até então impressas sobre a Coluna Prestes ou
Miguel Costa/Prestes.
a tarefa inicial foi a de buscar as principais fontes escritas em
goiás e em muitos dos estados brasileiros – rio grande do sul, são
Paulo, Mato grosso do sul, Minas gerais, Bahia, tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará, rio grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Bahia, distrito Federal –, missão essa cumprida com êxito, em grande
parte por Francisco Montenegro, e fazer a leitura das mesmas.
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
o passo seguinte, dedicamos a análise criteriosa dos documentos
através do emprego do método analógico, a fim de extrairmos a veracidade histórica inserida nas narrativas dos escritores, sejam as favoráveis a conduta dos homens da Coluna diante das circunstâncias
dos fatos, sejam as contrárias ao comportamento dos colunardos.
ao relato oral, atribuímos o valor correspondente de “verdade histórica” nele inserido, quando o depoimento prestado pelo informante revelou-se embasado em mais de uma fonte comprobatória, ou por testemunha(s) insuspeita(s) do mesmo acontecimento.
levamos em consideração, também, a natureza da fonte ou fontes de
informações utilizadas pelo depoente, por exemplo, o relato oral transmitido por familiares, parentes e amigos próximos, quando testemunha ou partícipe direto do fato acontecido. Procuramos avaliar o
grau de subjetividade expresso na narrativa do depoente, o seu domínio da informação, local e geral, sobre o acontecimento, a idade
em que presenciou a ocorrência do fato, o seu nível de compreenssão e discernimento para entender as ações dos envolvidos, principalmente nos atos tidos como “condenáveis”.
Procuramos trabalhar os acontecimentos como um “processo
histórico”, em que as falas e os fatos se articulam, propiciando ao leitor uma visão mais totalizadora do acontecido.
a tarefa final, foi a de planejar a estrutura do trabalho a ser desenvolvido – começo, meio e fim – e produzir o texto histórico narrativo. Para tanto, além de inserirmos uma descrição geral, de síntese, da marcha da Coluna pelo Brasil, com o propósito do leitor ter
uma visão de conjunto dessa marcha, concentramos o nosso trabalho, particularmente, na descrição regional no âmbito do antigo estado de goiás, que na época abrangia também o território do atual
estado do tocantins.
também, procuramos enfatizar situações e acontecimentos a
que julgamos importantes na reconstituição do fato histórico, incluindo muitos deles que não mereceram uma atenção maior de muitos dos escritores que nos antecederam. o capítulo sobre o papel das
Fazendas para a sobrevivência da Coluna; o que relata a Guerra de Mo-
14
Introdução
vimento X Guerra de Posição; o relativo ao Papel das Mulheres na Coluna, são exemplos dessa nossa abordagem.
Buscamos construir um livro de leitura fácil e agradável, oferecendo uma visão da Marcha da Coluna no âmbito de um nível didático, acessível a todos, especialmente aos jovens dos dias de hoje
que necessitam ter melhor domínio sobre os acontecimentos históricos – muito deles delegados, propositamente, ao esquecimento –, para que possam, no presente, conhecer e discernir melhor sobre a verdadeira conduta dos homens que construíram a nossa história.
Conhecer os valores dos passado, projetá-los no presente e deles extrair lições de sabedoria para que possamos construir o futuro irradiante de um novo Brasil.
semelhante a outros episódios, a exemplo da Balaiada, de Canudos, de Zumbi dos Palmares, das lutas do Contestado, da revolução Farroupilha, da revolta da Chibata, dos 18 do Forte de Copacabana, das lutas de trombas e Formoso, da guerrilha do araguaia
e tantos outros marcantes acontecimentos, este livro traz um pouco
da recente História do Brasil que permaneceu ignorada durante muito tempo. ele faz parte das lutas do povo brasileiro.
Finalmente, concluímos que a Marcha da Coluna é um fato histórico épico, uma verdadeira epopéia que não pode continuar a ser
desconhecida por muitos segmentos de nossa sociedade, brasileiros
que desejam ver esclarecidas as verdades históricas de nossa Pátria.
Que a história brasileira seja pesquisada e estudada em todas
as nossas escolas e centros de formação e qualificação dos jovens brasileiros, desde o ensino fundamental ao superior; nas academias e nos
quartéis, a fim de formar o cidadão de hoje e o homem do amanhã, é
o nosso grande desejo.
goiânia, fevereiro de 2010
Os autores
15
Sumário
8
Histórico da Coluna
as revoltas militares e o movimento tenentista de 5 de julho de 1924
21
23
a formação da Coluna Miguel Costa/Prestes:
união da brigada Paulista com a brigada rio grande
28
Objetivos táticos e estratégicos da Coluna
45
a guerra de movimento pelos estados brasileiros:
a Coluna como símbolo de resistência
a redescoberta do Brasil pelo comando da Coluna
45
53
o principal objetivo estratégico da Coluna:
a derrubada do governo artur Bernardes
62
As forças inimigas da Coluna
Militares legalistas e polícias estaduais
Coronéis e jagunços
Guerra de Moviemento X Guerra de Posição
o sensacional “raid” empreendido por siqueira Campos
Fazendas, fogões e potreadas
67
67
70
75
78
Fogões e potreadas
93
93
112
O papel das mulheres na Coluna
119
A Coluna na “Terra das Águas Verdes”
131
131
137
151
154
Fazendas no território goiano
a Coluna no sudoeste goiano
o combate na invernada Zeca lopes
Circular aos comandantes dos destacamentos
Bertoldo Klinger e sua “majestade”a gasolina
a marcha da Coluna pelo Planalto Central:
o combate de anápolis
a travessia da Coluna pelo Nordeste de goiás
174
182
189
o Q.g. da Coluna em Porto Nacional:
diálogos de convivência e sabedoria
191
Bertoldo Klinger nas malhas da Justiça
209
Apreciação crítica sobre a Coluna Miguel Costa / Prestes
223
258
incursões de siqueira Campos pelo sudeste goiano
Perfil dos comandantes da Coluna
Entrevistas
ermelinda ribeiro Prestes
265
265
273
Referências bibliográficas
281
Binômino da Costa lima
Todas as grandes causas tiveram seus mártires antes dos seus heróis,
sejamos os mártires que os heróis hão de vir
tenente Mário Portela Fagundes
Histórico da Coluna
8
aguncinho e aldo (mascotes do rio grande do sul e de goiás)
que tinham apenas 12 anos quando se incorporaram a Coluna,
Nestor Veríssimo, aníbal Benévolo, o tenente Modesto lafayette Cruz, o sargento aldo Manneti entre outros, o primeiro, como
uma homenagem dos autores a todos os outros lutadores anônimos, alguns desertores, e, felizmente, poucos traidores. enfim, participantes em
maior ou menor grau de envolvimento, na maior epopéia da história
brasileira. os comandantes são, até aos dias de hoje, lembrados por seus
feitos, como isidoro dias lopes, Miguel Costa, antônio siqueira Campos, djalma dutra, joão alberto, Cordeiro de Faria, juarez távora, lourenço Moreira lima, emygdio Miranda, ari Freire, andré trifino Corrêa, e, entre eles, o mais lembrado de todos, luiz Carlos Prestes.
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
Na perseguição sistemática à Coluna, o governo caricato de artur Bernardes, que governou o Brasil, sob estado de sítio, foram mobilizados milhares de soldados, sub-oficiais e oficiais, inclusive, o tenente
que foi preso por dois meses por suspeita de ser rebelde, que participou
da revolução Paulista de 1924; que declamava versos de olavo Bilac a
seus companheiros legalistas de farda, e que viria a ser Presidente da
república do Brasil com o advento do golpe político-militar de 31 de
março de 1964, o marechal Humberto Castelo Branco, além de dezoito
generais – Fernando setembrino de Carvalho, tasso Fragoso, antenor
de santa Cruz Pereira de abreu, eurico de andrade Neves, Monteiro
de Barros, Firmino antônio Borba, Cândido Mariano da silva rondon,
azeredo Coutinho, Nestor sezefredo Passos, joão Nepumuceno da Costa, alfredo Malan d’angrogne, Pantaleão teles Ferreira, eduardo artur
sócrates, joão gomes ribeiro Filho, álvaro guilherme Mariante, diógenes Monteiro tourinho, Marçal Nonato de Faria, Nicolau silva – e forças militares estaduais das polícias de são Paulo, do rio grande do sul,
Mato grosso, Minas gerais, goiás e de outros estados. No conjunto, efetivos de forças públicas de 14 estados da união, por onde a Coluna transitou pelo território nacional em sua “guerra de movimento”, opondose à “guerra de posição”, também conhecida por guerra de trincheiras
ou guerra de reserva, empreendida pelas forças legalistas.
Não conseguindo dar combate real e efetivo a Coluna, que causava pânico por onde passava, pelo medo que a população do interior
tinha de qualquer um que usasse farda (legalista ou revoltoso), e, acima de tudo, pela propaganda mentirosa e difamatória que era feita contra os “revoltosos”, o governo apelou para coronéis do sertão e seus jagunços que, cada qual, em seu domínio era senhor de “baraco e cutelo”.
Nomes como Horácio de Matos, Franklin de albuquerque, abílio Wolney, aldo Borges, Floro Bartolomeu, totó Caiado e outros mais, muitos
deles anistiados por crimes que cometeram e pelos quais respondiam
processos, tendo os seus nomes incluidos como “oficiais” de forma vergonhosa no almanaque do exército, sob o repúdio verbal ou silencioso
dos que compunham aquela força de caráter nacional. aos bandidos
não faltaram dinheiro e nem condições para ação, além da cumplici-
22
Histórico da Coluna
dade tácita aos bárbaros crimes que cometeram durante a caminhada
em vão no sentido de derrotar a Coluna, a exemplo do “Capitão ludovico ou dr. aldo Borges que ao cometer estrupos, arrancava os lábios das estupradas com a peixeira, a fim de que elas ao se lembrarem
da vileza cometida por seus algozes não demonstrassem tristezas, pois,
estariam sempre sorridentes.” (liMa, l. M., 1979, p. 139-140).
As revoltas militares e o movimento tenentista
de 5 de julho de 1924
a Coluna não será nunca bem entendida pelos que buscam compreendê-la em todo o seu contexto histórico, sem se retornar ao passado, à revolução Farroupilha, à Canudos, à revolução da Chibata, o episódio heróico dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, e, principalmente,
a revolução Paulista de 5 de julho de 1924, data do aniversário do levante do Forte de Copacabana, que foi o grande responsável pelo surgimento da Brigada Paulista. juntamente com os levantes militares do
rio grande do sul, e da consequente formação da Brigada riograndense,
dá-se o surgimento da Coluna Miguel Costa/Prestes.
Nos dois últimos levantes, o movimento conhecido por “tenentismo” exerceu invulgar influência nos destinos da Coluna. Quase todos os oficiais, tantos os rebeldes quanto os repressores, em termos de
atuação, tanto no episódio do levante de 5 de julho dos cadetes do Forte de Copacabana contra as tropas da Vila Militar, quanto na revolução Paulista, tiveram formação militar na escola da Praia Vermelha, ou
na escola Militar de realengo. a mesma formação militar vamos encontrar em muitos dos combatentes na epopéia que mudaria, no futuro próximo, os rumos do Brasil, conhecida por Coluna Prestes. entretanto, no dizer de anita leocádia Prestes (1991, p. 313) em sua pesquisa
histórica que redundou em sua brilhante tese de doutorado, “se a presença da jovem oficialidade se fez sentir, principalmente, na fase de for-
23
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
mação e direção da Coluna Prestes, a sua participação nas fileiras rebeldes foi numericamente muito reduzida. a Coluna não se configurou, portanto, como uma força armada de elite.”
o começo, 5 de julho de 1924 – exatamente dois anos após o 5 de
julho de 1922, no rio de janeiro, com a revolta do Forte de Copacabana – eclodiu em são Paulo com a revolução Paulista sob o comando do
general isidoro dias lopes, com o apoio da Força Pública de são Paulo
comandada pelo major Miguel Costa. o combinado, era que nessa data eclodiriam rebeliões em diversos quartéis do país, fato que não aconteceu, pois, os levantes previstos ocorreram em datas diversas: 12 de julho em Mato grosso, 18 de julho em sergipe, 23 em Manaus, 28 e 29 de
outubro no rio grande do sul, revelando-se “a falta de coordenação entre os diversos movimentos, o que facilitou a tarefa repressiva do governo.” (MoCeliN, 1958, p. 19). Foram, 22 dias de resistência dentro da
capital paulista, inclusive na estação da luz para onde o Quartel-general havia se mudado, mobilizando cerca de 6 mil homens sendo que dois
mil eram civis e mal municiados, em luta contra as forças bernardenses
que contavam com 18 mil soldados, avançavam e fechavam o cerco à cidade, o chamado “Círculo de Ferro”, além de aguardar reforços, em marcha, que deveriam totalizar o efetivo de 30.000 combatentes.
Nesse palco de luta o governador de são Paulo, Carlos Campos,
já havia se retirado da cidade, instalando-se num local seguro, e, com
o apoio do governo Bernardes determinou que a cidade fosse bombardeada, e, se preciso fosse, arrasada. Mais de 500 mortos, a maioria
de civis, e quase 5 mil feridos é o balanço trágico da cidade de são Paulo castigada pelos bombardeios e os combates de infantaria.
diante desse quadro sombrio e sem possibilidade de êxito, o general isidoro dias lopes optou pela retirada de suas tropas no dia 28
de julho, a fim de evitar o esmagamento de seus companheiros. o embarque na estação da luz e o trajeto escolhido foi o de seguir pela estrada de ferro Paulista até a cidade de Campinas, depois, deslocar a tropa pela estrada de ferro sorocabana rumo à cidade de Bauru, e desta
até às margens do rio Paraná próximo a Porto epitácio. o percurso foi
feito em luta constante, quase diária, por cerca de três meses. diz lou-
24
Histórico da Coluna
renço Moreira lima (1979, p. 62): “o exército revolucionário, que contava perto de seis mil homens, ao sair de são Paulo, chegou ao Paraná
com três mil e oitocentos, tendo na fuga perdido uns dois mil e duzentos por mortes, deserções, extravios e aprisionamentos.”
No sul as adesões tardavam. eram adiadas pelos mais diversos
motivos, até que na noite de 28 para 29 de outubro de 1924, levantouse o 1º Batalhão Ferroviário de santo Ângelo sob o comando do capitão luiz Carlos Prestes e do tenente Mário Portela Fagundes. Foi o começo de uma série de levantes que se sucederam por regimentos e
batalhões: o 3º regimento de Cavalaria independente, de são luiz
gonzaga, sob o comando do tenente joão Pedro gay; o 2º regimento
de Cavalaria independente, de são Borja, sob o comando dos tenentes sandoval Cavalcante de albuquerque e aníbal Benévolo, este considerado o principal articulista do movimento conspirador, além de
contar com a participação de antônio siqueira Campos, que viera da
argentina, país onde estivera exilado; o 5º regimento de Cavalaria independente, de uruguaiana, sob as ordens do capitão juarez távora,
que repassa o comando dos rebeldes ao caudilho maragato, Honório
leme; a bateria do 2º regimento de artilharia a Cavalo, de alegrete,
sob o comando do tenente joão alberto lins de Barros; o 3º Batalhão
de engenharia, aquartelado em Cachoeira, sob o comando do capitão
Fernando távora. (Prestes, a. l., 1991, p. 119).
ocorridos os levantes, as tropas rebeldes dirigiram-se para são
luiz gonzaga, ponto de convergência de todos os que se rebelaram no
sul com o apoio dos maragatos, a exemplo de Honório leme e de vários outros “caudilhos” ligados a assis Brasil (Felipe e joão Fortinho,
leonel rocha, Pedro aarão, Zeca Neto, inocêncio e joão silva, juca raimundo, júlio Barrios, Mário garcia, sezefredo aquino, Nestor Veríssimo e outros), veteranos de 1893 e de 1923, em luta permanente contra
o governo de Borges Medeiros.
desta cidade, o itinerário traçado era de ir ao encontro das forças
paulistas que se encontravam acantonadas no Paraná, próximo à Catanduvas. entretanto, havia necessidade de furar o cerco de são luís
que se antevia pela aproximação de 14 mil homens das tropas gover-
25
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
de rio Pardo, a Coluna realiza uma manobra de 90°entre essa cidade e
Campo grande, faz a travessia da estrada de ferro Noroeste e se concentra na vila de jaraguari, local onde ocorre uma reestruturação do comando militar. lourenço Moreira lima e juarez távora registram que
a nova reorganização militar pôs término às divergências que existiam
entre soldados paulistas e rio-grandenses, e se deu um pouco mais a
frente, no lugar conhecido por “deserto de Camapuã”, que realmente
não se tratava de uma região com características desérticas, mas sim,
um território êrmo.
da vila de jaraguari, feita a travessia do “deserto” numa caminhada em diagonal/Ne rumo ao estado de goiás, chega ao povoado
de Baús, e deste a Cabeceira alta, de onde seria efetuada a passagem
para goiás.
Nesta caminhada, antes de penetrar no território goiano, ocorre várias escaramuças, confrontos com agrupamentos de soldados da
Polícia Mineira, a exemplo dos combates em Couto Magalhães e dois
Córregos. sempre há perdas de ambos os lados.
em Mato grosso, ainda por ocasião dos primeiros embates na
Cabeceira do apa, Klinger havia enviado uma carta aos comandantes
da Coluna, propondo a cessão da luta armada, com a não punição dos
oficiais subordinados e garantia de liberdade a todos, extensiva a um
décimo dos praças. o portador da missiva, o motorista e o automóvel
foram aprisionados pela Coluna. segue abaixo o teor da carta, datada
de 21 de maio de 1925:
sr. Major Miguel Costa, Capitão Prestes
e demais chefes dos revolucionários em Mato grosso.
Meus destemidos camaradas.
apresento-lhes meus cumprimentos com o propósito de convidá-los a
por termo à inglória luta pelas armas.
o destacamento onde sirvo está, só ele, com um efetivo equivalente ao
total dos vossos combatentes.
já vos rodeiam outros destacamentos e continua crescendo o efetivo das
34
Histórico da Coluna
= ESTRUTURA DE COMANDO DA COLUNA =
Vanguarda da Coluna
Fazia o reconhecimento
do terreno (estradas,
fazendas, cidades) e
das forças inimigas
Coronel
Coronel
Oswaldo Cordeiro de Farias
Djalma Soares Dutra
Comandante do 1º destacamento
Comandante do 4º destacamento
Estado-Maior
Central de comando,
de onde saíam todas
as decisões. Concentrava
o grosso da Coluna
general Comandante
general de Brigada
Miguel Alberto C. R. da Costa
Luiz Carlos Prestes
Comandante-geral da Coluna
Comandante-militar da coluna
Coronel
Juarez Fernandes do N. Távora
subchefe do estado-Maior
Retaguarda da Coluna
Cobriam também os flancos
da Coluna. a cada 20, 30 Km,
os destacamentos se
revezavam nas posições
Coronel
Antônio de Siqueira Campos
Comandante do 3º destacamento
Coronel
João Alberto Lins de Barros
Comandante do 2º destacamento
35
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
tropas fiéis ao governo, que de toda a parte vêm chegando, inclusive
do rio grande do sul.
se não for pois uma completa subversão da lógica dos fatos, não mais
podeis pretender êxito para a vossa causa.
apelo pois para o vosso patriotismo, que tem sido certamente o supre-
mo móvel da vossa ação, a fim de ter afinal um termo esta luta ingrata,
que já agora só pode, sem outro resultado, aumentar a desgraça do país
e de seus filhos, cavar mais fundo a cisão e aumentar os ódios.
ofereço de iniciativa exclusiva minha que será imediatamente posta em
aplicação sob minha responsabilidade pessoal se aceitardes o seguinte:
1 – todas as forças revolucionárias de Mato grosso entregam suas armas, munições, cavalos e todo o material de qualquer espécie que te-
nham em seu poder;
2 – todos os oficiais e um décimo dos praças, a critério dos chefes re-
volucionários, terão livre trânsito para passarem incontinente a fron-
teira mais próxima;
3 – Pormenores a fixar entre um chefe representante dos revolucioná-
rios e um representante meu.
Vosso camarada
Bertoldo Klinger
Major comandando um destacamento
Como não houve resposta, Klinger enviaria da cidade de Mineiros uma segunda correspondência aos comandantes das forças revolucionárias, vazada nos seguintes termos:
Mineiros, 29-junho-1925.
snrs. Chefes das Forças revolucionárias em goiáz.
Meus camaradas.
saudação.
36
Histórico da Coluna
37
Ora, se a estratégia pedia uma luta longa,
e se nossas forças eram obviamente minoritárias,
a opção natural seria a tática de guerrilhas
osvaldo Cordeiro de Farias
Objetivos táticos e
estratégicos da Coluna
8
A guerra de movimento pelos estados brasileiros:
A Coluna como símbolo de resistência
guerra de movimento está muito presente nos estados sulinos, particularmente no rio grande do sul,
palco de duas sangrentas revoluções: a Federalista de 1893, e a revolução de 1923, contra o governo de Borges Medeiros, além de incontáveis contendas entre chefes caudilhos maragatos e chimangos.
Como já citamos anteriormente, em carta enviada ao general
isidoro dias lopes, escrita de Barracão (Paraná), em fevereiro de 1925,
Prestes já definira muito bem a tática a ser empregada na luta contra
as tropas dos governo artur Bernardes. disse ele:
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
a guerra no Brasil, qualquer que seja o terreno, é a guerra do mo-
vimento. Para nós revolucionários o movimento é a vitória.
a guerra de reserva é a que mais convém ao governo que tem fá-
bricas de munição, fábricas de dinheiro e bastante analfabetos pa-
ra jogar contra as nossas metralhadoras. Com menos de 1.000 ho-
mens armados e, tendo para mais de 4.000 cavalos, consegui passar,
em pleno campo, por entre mais de 10.000 homens do governo. Nun-
ca foi possível determinar qual a minha verdadeira direção de mar-
cha e impraticável se tornou a perseguição. [Prestes está se referindo a manobra da travessia do cerco de são luiz gonzaga].
Com a minha coluna armada e municiada, sem exagero, julgo não
ser otimismo afirmar a V. exa. que conseguirei marchar para o Nor-
te e dentro de pouco tempo atravessar o Paraná e são Paulo, dirigindo-me ao rio de janeiro, talvez por Minas gerais.
se a divisão de são Paulo igualmente movimentar-se e marchamos
em ligação estratégica e, talvez, em algumas circunstâncias, mesmo
tática, impossível será o governo obstar a nossa marcha. (Prestes,
a. l., 1991, p. 421).
No entanto, se logo após o encontro das duas divisões, o apelo
de Prestes não conseguiu convencer a maior parte da oficialidade que
comandavam as tropas da divisão de são Paulo, da necessidade do enfrentamento com as tropas bernardenses por meio da guerra de movimento, seu posicionamento de dar sequência a luta prevaleceu. Havia
a necessidade de se “manter acesa a chama da revolução.” (Prestes,
a. l., 1991, p. 174).
em sua histórica série de entrevistas à pesquisadora aspásia Camargo e ao jornalista Walder de góes, entre 1976 a 1980, o general osvaldo Cordeiro de Farias, referindo-se a estratégia e a tática adotadas
pela Coluna, assim se expressou:
Cedo percebemos que, embora muito mais fortes, as forças do governo
só não nos haviam destruído porque nós adotávamos a guerra de mo-
vimento. em grande parte, agradecemos esse aprendizado aos caudi-
46
Objetivos táticos e estratégicos da Coluna
lhos. em todos aqueles combates do passado, eles haviam sido forçados
pelas circunstâncias a se movimentar com grande rapidez, assimilando
métodos da guerra de movimento, que é a guerra de guerrilha. Para en-
tender a Coluna Prestes é preciso discernir o que era a nossa estratégia
e o que era a nossa tática. Queríamos uma luta prolongada. a estratégia
da Coluna, portanto, era durar [...]. ora, se a estratégia pedia uma luta
longa, e se nossas forças eram obviamente minoritárias, a opção natural
seria a tática de guerrilha. e foi assim que tivemos por norma não en-
frentar em condições desvantajosas forças superiores às nossas [...]. a ca-
racterística principal da guerrilha é o movimento, uma luta em que o
atacante aparece, desaparece e só reaparece bem mais adiante. jamais,
na guerra de movimento, assume-se uma posição defensiva, esperando
recursos materiais da retaguarda. (CaMargo; góes, 1981, p. 102-105).
o combate na Fazenda Zeca lopes, no qual as tropas da Coluna
sediadas na invernada tiveram que enfrentar, nos moldes de guerra de
posição, um inimigo poderoso, bem armado e municiado, além de bem
comandado por um competente oficial do exército, Bertoldo Klinger,
deixou um saldo de elevado número de mortos e feridos de ambas as
partes, em quantidade maior do lado dos revoltosos, e serviu de advertência aos comandantes da Coluna no sentido de jamais abandonarem
a guerra de movimento, única tática possível para “manter viva a revolução libertadora.” (liMa, l. M., 1979, p. 155). ela já tinha sido experimentada no noroeste do rio grande do sul, em 1924, por Prestes e
seus comandados da divisão rio grande, muito embora a guerra de
trincheiras tenha sido mantida, por força das circunstâncias, em iguaçú.
No dia 26 de junho de 1925, o destacamento de joão alberto dá
entrada na cidade de Mineiros. No dia 27, pelas 16 horas, a retaguarda do destacamento de Cordeiro de Farias que vigiava a ponte do Cedro, sobre o rio Verde, próxima à cidade, foi atacada por soldados de
Klinger. ocorreu combate e antes de prosseguir a marcha, os soldados da Coluna atearam fogo na referida ponte que era de madeira,
com o intuito de retardar a perseguição dos legalistas. No dia 29, a
Coluna estava acampada na invernada Zeca lopes, protegida pelos
47
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
o governo concentrou mais de 20 mil homens em Montes Claros (Minas gerais), temendo que dessa região os revoltosos caminhassem rumo ao rio de janeiro. uma outra coluna legalista margeava a
leste do rio são Francisco em direção a montante, e, pela retarguarda,
duas colunas de mais de mil homens iam em perseguição à Coluna. o
Ministro da guerra, general setembrino de Carvalho, já havia designado o general álvaro guilherme Mariante para comandar as operações das tropas bernardenses em goiás, Minas gerais e oeste da Bahia.
a leste do são Francisco, no estado de Bahia, as tropas legalistas ficaram sob o comando do general diógenes Monteiro tourinho. o comando supremo, em todo o Nordeste ficou sob as ordens do general
joão gomes ribeiro Filho que, desde são luís, no Maranhão, dirigia as
operações de combate contra os revoltosos.
É nesse momento, em que a Coluna estava sendo cercada por
tropas inimigas de todos os lados, que Prestes, em comum acordo com
a sua oficialidade, executa uma manobra inesperada para os legalistas: em vez de seguir em frente adentrando o território mineiro rumo
a riachão, norte de Minas gerais, amoita-se atrás de montes existentes na região – enquanto a coluna inimiga perseguidora passa – e faz
um retorno imediato, em marcha rápida, acelerada, de 60 a 70 Km por
dia para o interior da Bahia, operação militar esta conhecida por “laço húngaro” ou “oito de contas”1 que se fecha em lençóis, (de jatobá
a rio Pardo, ituaçu e lençóis, na Chapada diamantina), remanso e
1 o trajeto percorrido se assemelhava ao ornamento vistoso e dourado, em forma de laço, costurado nos
ombros da túnica do uniforme do exército, cujo nome é “laço húngaro”.
52
Objetivos táticos e estratégicos da Coluna
santo sé às margens do rio são Francisco. Não sendo possível efetuar
a travessia do rio por estar muito cheio, em plena estação das águas (o
livro de anita, cita 30 Km de largura), a Coluna agora dirige-se para
dentro do estado em direção à cidade de Mundo Novo, e desta ruma
para Monte alegre, corta a linha da estrada de ferro e passa por tucano, Pombal, Cícero dantas, jeremoabo, salgado do Melão e rodelas,
faz a travessia e penetra novamente no estado de Pernambuco.
A redescoberta do Brasil pelo comando da Coluna
diante da realidade que enfrentou, sem condições concretas
de efetuar sua marcha rumo à capital federal (rio de janeiro), não
mais procurando obter uma vitória militar propriamente dita contra os seus adversários, a Coluna se preserva, sendo concebida para “fustigar, desaparecer e renascer periodicamente. e conseguiu.”
(druMMoNd, 1999, p. 59).
os novos rumos que a Coluna revolucionária tomaria após a
sua travessia pelo Planalto Central goiano, fez com que o seu comando
militar tomasse contato direto com a realidade econômica-social reinante no Brasil interiorano: uma população pobre, carente e desprovida de tudo, dos mínimos recursos para se manter e totalmente dessasistida pelo poder público, além de alarmada pela propaganda que
os governistas e chefes locais difundiam sobre a má conduta dos revoltosos, taxando-os como malfeitores da pior espécie. Quando, em
verdade, a não ser casos de comportamentos de indivíduos de má índole – que não se justificam – e que quando descobertos foram punidos com rigor pelo comando da Coluna, os malfeitores da população
civil de cidades, povoados e fazendas foram, em grande número, policiais de baixo nível de conduta, jagunços e “patriotas”que se aproveitavam da situação da má fama criada contra os revoltosos, para cometer atrocidades e saquear bens de pessoas.
53
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
amigo particular de Bernardes e dono do jornal carioca a Noite – re-
giamente pagos pelo governo Federal e armados pelo Ministério da
guerra, empenhar-se-iam em mover, a partir dos sertões baianos,
uma perseguição atroz e permanente aos rebeldes.
diante dos repetidos insucessos sofridos pelas forças militares governistas no combate à Coluna Prestes, os jagunços dos coronéis nor-
destinos passaram a ser o principal instrumento do governo artur
Bernardes na luta contra os revoltosos.
Com o objetivo de destroçá-los, todos os meios seriam válidos. Para
isso, o dinheiro correria a rodo, sendo fartamente distribuído entre os
“coronéis” a serviço da legalidade.
assim, geraldo rocha, primo do deputado federal Francisco
rocha, que servia de intermediário entre Bernardes e os demais coronéis na distribuição do dinheiro público e repasso das ordens para perseguir os revoltosos, telegrafava a deocleciano teixeira, de Caitité, em 7 de abril de 1926: “estou autorizado pelo dr. presidente da
república a assegurar aos chefes civis que quem liquidar esse movimento terá o prêmio de 500 contos de réis e autorizo a oferecer esse
prêmio aos seus amigos.” (Prestes, a. l., 1991, p. 362).
geralmente, durante a marcha da Coluna, os coronéis e seus
jagunços foram
[...] inimigos tenazes e eficientes, mas nem por isso deixaram de cair
numa das várias ciladas que a estratégia de Prestes soube armar. em
goiás, em setembro de 1926, por exemplo, uma série de manobras
rápidas fez com que tropas legalistas da Força Pública de são Paulo
trocassem cerrado tiroteio em olhos d’Àgua, rio dos Bois, com um
grupo de jagunços que vinha seguindo os rebeldes [...]. aliás, essa
não foi a única vez que a Coluna provocou combates sangrentos en-
tre forças que a reprimiam. (druMMoNd, 1999, p. 72-73).
72
Foto: Reprodução
As forças repressivas da Coluna
Estado-Maior do Batalhão Patriótico “Lavras
Diamantinas” : Comandante-chefe coronel Horácio de
Matos (sentado) e de pé os capitães Ezequiel de Matos,
Francisco Costa e Franklin de Queiróz
73
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
um capote de uniforme e tinha no bolso um bilhete, escrito a lápis, endereçado a “Modesto”e assinado “távora”.
esse bilhete era uma ordem para o combate. referia-se ao ataque geral,
que seria acompanhado de gritos, e dava indicação para retirada [...].
o morto era lafaete a. W. Modesto [o correto é Modesto lafayette
Cruz], um dos veteranos revolucionários, incorporado desde são Pau-
lo. tombou a uns metros da linha de fogo do pelotão Pires Ferreira,
conduzindo pessoalmente um F. M.; e a poucos metros dele, já visivelmente desgarrado, morreu o seu municiador, quase menino.
durante a tarde de 30 ainda ouve inquietações esporádicas.
a última seria uma das 21 horas; tanto que no dia 1° de julho, desde
o clarear, nossas sondagens acusavam livre nas imediações.
Nessa noite de 30 ainda recebemos reforço de pessoal, víveres e munição; gasolina, não! somávamos agora 120 infantes mais as guar-
nições das 5 Mtr. P.; no início dos combates, a 29, éramos apenas 80
infantes, com as 5 Mtr.
até alta noite ouvíamos do lado adversário o ruído característico do
ferro de picaretas contra o chão duro: provavelmente abriam covas
para os mortos.
aí se insere um caso vivido de “mentira como terra, em tempo de
guerra”: mais tarde, sobretudo em rio Verde, nas palestras da sol-
dadesca com os moradores, quando pouco a pouco foram chegando
e passando mais elementos do “meu” dst., até o total duns 300 homens, todos eles tinham figurado naqueles 80!2
tivermos onze feridos, ao todo, nos 2 dias de combate. um deles veio
a morrer. No dia 30 fomos forçados a enterrar junto à linha de fogo,
porque demasiado incomodava a decomposição, o morto abatido no
volante do nosso caminhão ponteiro; aos demais, em número de 12,
os reunimos e queimamos à falta de material de sapa e de tempo.
2 No seu informe de n° 39, o major Klinger registraria que, “no dia 29, partiu com mais 7 caminhões vg carro
socorro e um faetom, de Cedro para Mineiros distante uma légua. daí prossegui às sete horas com 12 caminhões de tropa inclusive 5 Mtp. antes mandei emissário oferecer mais uma vez a cessação da luta mediante unicamente garantia de vida”(KliNger, 1949, p. 135). Pelo número de caminhões, dá para deduzir
que, provavelmente, havia um efetivo maior do que os 80 homens citados.
146
Fotos: Valdik Montenegro
A Coluna na “Terra das Águas Verdes”
Mausoléu no Cemitério
Bonfim, em Belo
Horizonte (MG),
dedicado à memória dos
soldados mineiros,
muitos deles mortos em
combate com os rebeldes
da Coluna
147
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
Cumprido este dever, sr. general, volveremos novamente os olhos pa-
ra V. excia. e seus dignos companheiros. Mais uma vez o afirmamos:
parte-se de dor o nosso coração ao ver essa plêiade de jovens e distintos brasileiros metidos nessa luta insana, entranhados em nossos re-
motos e bravios sertões, separados há tantos meses de seus pais, mães,
esposas talvez e filhos, perseguidos pelo governo, e ignorando quan-
do raiará para todos a aurora da paz.
e o mesmo sentimento que nos tem obrigado a lamentar as misérias do
nosso povo, excita-nos a procurar um meio de contribuirmos para a
conclusão de tantas angústias.
Por isso, sr. general, perguntamos a V. excia., se não haveria um meio
de tentarmos, perante as altas autoridades da república, um entendi-
mento entre o governo e os revolucionários. embora desconhecidos
no Brasil, embora privados de meios de comunicações, não nos seria
possível procurar alguns intermediários capazes de iniciarem ao me-
nos uma troca de ideias?
se V. excia, achar que este nosso propósito não é inoportuno nem exa-
gerado, peço-lhe o obséquio de indicar-me qual deveria ser nossa atitu-
de, quais nossas palavras, quais condições enfim que julgar convenientes, para iniciar alguma tentativa junto ao governo da república. [...]
fr. josé M. a. audrin.
Porto Nacional, 21 de outubro de 1925. (audrin, 1946, p. 254-255).
já, o escrivão da Coluna, lourenço Moreira lima, dá outra
interpretação como podemos extrair do seu diário. Vejamos dois
exemplos:
No Piauí, como aconteceu nos outros lugares por onde passamos, for-
maram-se à nossa retarguarda, bandos de ladrões que saqueavam os
povoados abandonados, praticando toda a sorte de tropelias.
as tropas bernardescas, por sua vez, também arrasavam as proprieda-
des e cometiam as maiores violências contra os habitantes, furtando,
198
Foto: Arquivo Público Mineiro
A Coluna na “Terra das Águas Verdes”
Foto histórica que reúne o comando da Coluna, em Porto Nacional (GO), em
1925. Da esquerda para a direita, sentados: Djalma Dutra, Siqueira Campos,
Luiz Carlos Prestes, Miguel Costa, Juarez Távora, João Alberto e Cordeiro de
Farias. Atrás, em pé: Pinheiro Machado, Atanagildo França, Emygdio
Miranda, João Pedro, Paulo da Cunha Cruz, Ari Salgado Freire, Nelson
Machado, Manoel Lira, Sadi Machado, Trifino Correia e Ítalo Landucci
roubando, incendiando, estuprando mulheres e matando os homens
com uma ferocidade inaudita.
Não procuro com isso eximir as nossas forças da responsabilidade de
muitos prejuízos causados ao povo, mas mostrar que a maioria das acu-
sações que nos foram feitas eram caluniosas.
Como tive oportunidade de dizer, as nossas forças foram obrigadas à
prática de certas medidas extremas de represálias, mas somente naquelas localidades cujos habitantes se armavam e nos receberam à bala.
Nos lugares em que fomos recebidos sem hostilidade, mantivemos a
ordem e garantimos, escrupulosamente, o respeito à vida e à proprie-
dade, fazendo apenas, por escrito, as requisições indispenssáveis. (liMa, l. M., 1979, p. 221-222).
199
Os tenentes foram surpreendidos não pelos combates que encontraram,
mas pelo atraso por onde passaram
Binômino da Costa lima
Entrevistas
8
Binônimo da Costa Lima
inômino da Costa lima, mais conhecido por “seu Meco”, nasceu na fazenda alto do Bonfim, município
de jataí, em 13 de julho de 1930, data bem próxima
da passagem dos revoltosos pelo sudoeste goiano. Fazendeiro, apreciador da leitura, grande conhecedor e pesquisador
sobre os povos e costumes da região, é fonte de informações, principalmente, históricas e geográficas. essa breve entrevista – feita entre os dias 17 e 18 de agosto de 2009 – tenta resgatar, através das palavras de “seu Meco”, alguns fatos preciosos e sua opinião sobre a
passagem da Coluna pelo sudoeste goiano.
A Coluna Miguel Costa / Prestes em Goiás
Quando o rondon constatou o blefe mandou a notícia para o Prestes dizendo que tinha sitiado o grupo do siqueira e que iria aniquilar o “dodói” dele. o Prestes caiu na armadilha e tornou a pular o araguaia para trás, numa travessia extremamente difícil e
dramática, para salvar seu companheiro.
Nessa volta do siqueira ele veio mais para o oeste e passou
em jataí no dia 31 de dezembro de 1926. Para receber os cem contos de réis por não passar em jataí. Pagaram outra vez. em sua saída, os rapazes de uma fazenda, entrincheirados debaixo do assoalho da casa, abriram fogo quando os últimos da retaguarda iam
passando e conseguiram balear dois, um morreu logo adiante e o
outro morreu no pernoite.
Você tem conhecimento de alguma pessoa em Jataí, Rio Verde, enfim, no Sudoeste, que possui em seu poder, como relíquia, uma
“requisição” assinada por comandante da Coluna?
Quem poderá ter alguma coisa assim é o senhor Pedro Malaquias, comerciante em Mineiros.
Como Você justificaria os excessos cometidos pela “rabeira” da
Coluna?
relatam que a rabeira da Coluna, chegando a uma fazenda
em Caiapônia, encontrou um rapaz que perguntado pela estrada
para se chegar à Caiapônia, não respondeu. depois de perguntarem várias vezes e não tendo resposta deram-lhe um pescoção, sendo revidado com uma facada no peito. Mataram o rapaz e incendiaram a fazenda. depois ficaram sabendo que o rapaz era
surdo-mudo.
Que fato ocorrido durante a marcha da Coluna que, por sua singularidade, despertou a sua maior atenção?
o que sempre me intrigou foi o fato de ter havido o combate
na fazenda do Zeca lopes. Por tudo me leva a crer que os revoltosos queriam esse combate. a Coluna, deslocando a cavalo, saben-
270
Fly UP