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Novas fronteiras para o futuro do envelhecimento

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Novas fronteiras para o futuro do envelhecimento
VOL.17 - Nº 36 - JUNHO DE 2006
Novas fronteiras
para o futuro do
envelhecimento
Paul B. Baltes e Jacqui Smith
ISSN 1676-0336
ATERCEIRAiDADE
VOLUME 17 - Nº 36 - JUNHO 2006
Publicação técnica editada pelo SESC
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
ISSN 1676-0336
A Terc. Id.
apresentacao 36
São Paulo
1
v.17
n.36
p. 1 - 72
15.08.06, 12:55
junho/2006
SESC - SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
Administração Regional no Estado de São Paulo
Presidente do Conselho Regional / Abram Szajman
Diretor do Departamento Regional do SESC/SP / Danilo Santos de Miranda
Superintendente Técnico-Social / Joel Naimayer Padula
Superintendente de Comunicação Social / Ivan Giannini
Gerente de Estudos e Programas da Terceira Idade / Cláudio Alarcon
Gerente de Artes Gráficas / Eron Silva
Comissão Editorial
José Carlos Ferrigno (Coordenação) / Celina Dias Azevedo / Elizabeth Brasileiro
Evelim Moraes / Fernando Fialho / Glaucianne das Mercês / Lilia Ladislau
Maria Aparecida Ceciliano de Souza / Maria Silvia de Souza Mazin / Marta Lordello
Gonçalves / Newton Cunha / Regina Célia Sodré Ribeiro
Projeto Gráfico - Gerência de Artes Gráficas: Cristina Miras/ Érica Dias/
Fábio Pinotti/ Lourdes Teixeira / Marilu Donadelli/ Sérgio Afonso
Auxiliares: Daniel Silva / Kelly Santos/ Roberta Alves
Fotografias:
Páginas 4 e 7: André Linn. Página 35: Lenise Pinheiro.
Páginas 32, 39, 45, 53, 61, 62, 65 e 66: Nilton Silva
Artigos para publicação podem ser enviados para apreciação
da comissão editorial, no seguinte endereço:
Revista A Terceira Idade - Gerência de Estudos e Programas
da Terceira Idade (GETI) - Av. Álvaro Ramos, 991
2o andar - CEP 03331-000 - Fone: (11) 6607-8000 Fax: 6607-8111
e-mail: [email protected]
Capa: André Linn. 4ª capa: Nilton Silva
A Terceira Idade/Serviço Social do Comércio. ST-Gerência de Estudos
e Programas da Terceira Idade. Ano 1 n. 1 (set. 1988)-
.-São
Paulo: SESC-GETI, 1988Quadrimestral
ISSN 1676-0336
1. Gerontologia-Periódicos 2. Idosos-Periódicos I. Serviço Social
do Comércio
CDD 362.604
Esta revista está indexada em:
Edubase (Faculdade de Educação/UNICAMP)
Sumários Correntes de Periódicos Online
SIBRA (SIBRADID - Sistema Brasileiro de Documentação e Informação
Desportiva - Escola de Educação Física - UFMG)
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ATERCEIRAiDADE
Novas Fronteiras para o Futuro do
Envelhecimento: da Velhice Bem Sucedida do
Idoso Jovem aos Dilemas da Quarta Idade
Paul B. Baltes e Jacqui Smith
A Desigualdade de Gênero na Terceira Idade
Teresinha Maria Nelli Silva
Avaliação Nutricional e Análise da Freqüência
Alimentar de Idosos em Salto do Lontra, Pr:
um Estudo de Caso
Gláucia Paulino da Silva e Lirane Elize Ferreto
A Motivação do Idoso em Programas
Intergeracionais de Atividades Físicas
Marcia Neide Zmorzynski
ENTREVISTA
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Professor Hermógenes
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Nº 36
JUNHO 2006
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Os Dilemas da Quarta Idade
O
aumento da população da Terceira Idade no Brasil e no mundo tem
sido sobejamente noticiado e comentado tanto na literatura especializada quanto
nos meios de comunicação de massa. Há países como Japão, Suécia, Espanha,
entre outros, com um contingente de mais de 20% de cidadãos maiores de 60
anos de idade. Mesmo os chamados países emergentes vivem essa realidade
demográfica. Projeções para 2050 nos revelam uma situação jamais imaginada:
a de que a Terceira Idade suplantará numericamente os integrantes da faixa
compreendida entre zero e 15 anos de idade! Teremos uma sociedade, portanto,
com mais velhos do que crianças. De fato, constatamos a presença constante e
crescente dos idosos no cotidiano das ruas e das organizações. Ativos e atuantes,
muitos ainda trabalham, outros usufruem atividades de lazer em suas mais
variadas formas, outros se dedicam ao trabalho voluntário ou a algum tipo de
militância política, ecológica, social ou cultural. Com todos os problemas advindos
da pobreza de uma parcela considerável dessa população, sobretudo nos países
do Terceiro Mundo, o envelhecimento saudável e participativo é uma conquista
da sociedade moderna. Gradativamente, o potencial dos idosos vai sendo revelado
e valorizado socialmente.
No entanto, outro dado demográfico importante e que ainda não tem sido
devidamente observado e considerado na formulação de políticas públicas é
aquele que nos informa sobre o crescimento, ainda mais exuberante, da população
dos muito velhos, ou seja, da chamada Quarta Idade, composta por pessoas com
mais de 80 anos de idade. Trata-se de fenômeno mais visível nos países
desenvolvidos, mas cuja tendência já pode ser notada em escala planetária. Sem
dúvida, para essa geração o maior desafio é representado pelas perdas físicas e
cognitivas que se avolumam e em relação às quais as possibilidades de sucesso
diminuem drasticamente. O processo de fragilização, portanto, desse segmento
populacional, se mostra irreversível e inexorável.
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Reflexo de nossa preocupação com o dilema da Quarta Idade é o empenho
que fizemos para trazer ao público brasileiro o artigo, nesta edição, do professor
Paul Baltes, renomado pesquisador do Instituto Max Plank de Berlim. Paul Baltes
se notabilizou internacionalmente por suas pesquisas dos efeitos do
envelhecimento sobre as funções cognitivas. Seus experimentos e sua aguçada
observação sobre o modus vivendi de pessoas idosas bem sucedidas, revelaram
a utilização eficaz dos mecanismos de seleção, otimização e compensação no
exercício de tarefas. Sua contribuição tem sido muito importante para a
implantação de políticas preventivas nessa área. No texto que ora publicamos, o
autor se debruça sobre os mais longevos, cuja acentuada fragilidade física e
mental, torna muito difícil a atenuação das perdas. A partir daí, Baltes encaminha
uma sensível reflexão sobre que atitude a ciência e a sociedade devem adotar
frente à fragilização da vida. O que pode e o deve, de um ponto de vista ético, ser
feito para manter a dignidade do ser humano.
Ao longo dessas quatro décadas em que o SESC São Paulo tem desenvolvido
o Trabalho Social com Idosos, mantivemos a preocupação não apenas em
responder às questões mais imediatas, mas também em nos antecipar, dando
visibilidade a questões que estarão na ordem do dia nos próximos anos. O
atendimento aos muito velhos, na perspectiva da manutenção de um final de
vida digno e de qualidade, se inscreve entre essas desafiadoras questões.
Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do SESC São Paulo
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Novas fronteiras para o
futuro do envelhecimento:
da velhice bem sucedida
do idoso jovem aos dilemas
da Quarta Idade1
PAUL B. BALTES
Co-diretor do Max Planck
Institute for Human
Development, em Berlim,
Alemanha. Diretor da
MaxNetAging, professor na
Free University of Berlin e
professor convidado de
Psicologia na University of
Virginia, USA. Paul B.
Baltes é um dos criadores
da teoria lifespan em
Psicologia e uma das
figuras mais importantes
da Psicologia e da
Gerontologia na
atualidade.
1
Este estudo é baseado na Conferência Plenária preparada para o Fórum de Valência, Espanha, realizado entre 1º
e 4 de abril de 2002. O Fórum de Valência foi promovido pela Associação Internacional de Gerontologia, com o
apoio da Assembléia das Nações Unidas sobre o Envelhecimento. Resume também o conteúdo de duas Conferências realizadas a convite pelo primeiro autor. A primeira ocorreu como parte da série de palestras Matilda Riley, do
Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos (Outubro de 2001); a segunda foi parte da série de
palestras George Maddox, na Universidade de Duke ( EUA), em março de 2002. Os autores agradecem a Matilda
Riley e a George Maddox, não só pelas suas importantes contribuições à Gerontologia, mas também por sua extraordinária visão sobre o futuro de uma sociedade que envelhece e de suas possibilidades de intervenção.
O presente artigo foi traduzido a partir do original publicado pela revista Gerontology, 2003, n. 49, p. 123-135, sob
licença de S. Karger Ag, Basel - Medical and Scientific Publishers.
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JACQUI SMITH
Psicóloga. Pesquisadora
Senior e Diretora Adjunta
da MaxNetAging, no Max
Planck Institute for Human
Development, Berlim,
Alemanha.
Resumo
Os dados de pesquisa sobre pessoas em idade
avançada (velhos-velhos) que revisamos, demonstram
que a Quarta Idade acarreta um nível de incompletude
biocultural, vulnerabilidade e imprevisibilidade que
a diferencia da Terceira Idade (velhice inicial), que é
marcada por aspectos mais positivos. Os velhos-velhos
estão no limite de sua capacidade funcional, o que
acarreta restrições às intervenções da pesquisa e da
política social. São necessários novos esforços para lidar com os desafios representados pelo crescente número de velhos-velhos nas populações e pela crescente
prevalência de fragilidade e de mortalidade psicológica (representada por perda de identidade, de autonomia psicológica e de senso de controle). A investigação sobre a Quarta Idade é um território novo e desafiador na pesquisa interdisciplinar. Futuros estudos e discussões deverão focalizar uma questão crítica: será que continuar investindo na extensão do ciclo
de vida até a Quarta Idade na verdade não reduzirá
a chance de viver e morrer com dignidade para um
número cada vez maior de idosos?
Palavras chave: velhice bem-sucedida, idosos-jovens,
velhos-velhos, Quarta Idade, Berlin Aging Study, envelhecimento intelectual.
Abstract
We review research findings on the oldest-old
that demonstrate that the fourth age entails a level
of biocultural incompleteness, vulnerability and
unpredictability that is distinct from the positive
views of the Third Age (young old). The oldest old
are at the limits of their functional capacity and
science and social policy are constrained in terms of
intervention. New theoretical and practical
endeavors are required to deal with the challenges of
the increasing numbers of the oldest old and the
associated prevalence of frailty and forms of
psychological mortality (e.g., loss of identity,
psychological autonomy and a sense of control).
Investigation of the Fourth Age is a new and
challenging interdisciplinary research territory.
Future study and discussion should focus on the
critical question of whether the continuing major
investments into extending the life span of the Fourth
Age actually reduce the opportunities of an
increasing number of people to live and die in dignity.
Keywords: successful aging; young old; oldest old;
Fourth Age; Berlin Aging Study; aging mind
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INTRODUÇÃO
Durante as últimas décadas, a ciência
gerontológica, as políticas sociais e os avanços
culturais, médicos e econômicos formaram
uma poderosa coalizão política que resultou em
grandes aumentos na longevidade e na qualidade do envelhecimento humano, especialmente na velhice inicial (Terceira Idade). Esses
avanços contribuíram para o estabelecimento
de um espírito de otimismo científico e político-social. Entretanto, novos dados científicos
sobre a velhice avançada obtidos nos últimos
anos, indicam que algumas das recomendações
gerais atualmente predominantes nas políticas
de envelhecimento podem estar baseadas em
pontos de vista inapropriados. Especificamente, há argumentos teóricos (BALTES, M. M.,
1998; BALTES, P.B., 1997; KIRKWOOD,
2002; OLSHANSKY, CARNES, DÉSESQUELLES, 2001; VERBRUGGE, 1994) e dados
empíricos (BALTES P. B.; MAYER, 1999;
SMITH; BALTES, P. B., 1999) sugestivos de
que o processo de otimização é mais difícil de
ocorrer na Quarta Idade do que na Terceira
Idade (ou velhice inicial). Cada vez mais, os
dados científicos sobre as perspectivas de sobrevivência na velhice avançada estão mais realçando perdas do que apontando ganhos nesse período. Os gerontólogos antevêem um futuro em que a pesquisa e a prática deverão ser
orientadas ao envelhecimento ótimo
(International Plan of Action on Aging, 2002).
Nós propomos que é necessário reconhecer as
duas faces do envelhecimento humano: os ganhos e as perdas. Essa revisão resume nossos
argumentos e fornece os fundamentos de pesquisa que apóiam tal ponto de vista.
As duas faces do envelhecimento são elegantemente capturadas pelos seguintes exemplos. O primeiro é uma história sobre o mundialmente famoso violoncelista Pablo Casals.
Quando ele tinha 80 anos, um jovem estudante lhe perguntou porque continuava a praticar
com tanto afinco. “Por que?” respondeu Casals.
“É simples. É porque quero tocar melhor!”.
Essa história ilustra uma perspectiva de ganho na velhice. Em particular, ilustra a idéia de
que a velhice tem muito potencial latente à espera de ativação através de uma melhor cultura material, médica, social e psicológica da velhice.
A segunda história, uma antiga saga grega, aponta os riscos associados à extensão exagerada do curso de vida. A lenda é sobre a deusa Eos (Aurora), que se apaixonou por um
mortal, Títono, príncipe de Tróia. Sabendo-se
imortal, Eos queria viver com ele e amá-lo para
sempre. Imbuída desse sentimento, a deusa implorou a Zeus que fizesse com que seu amado
se tornasse imortal. Zeus atendeu ao desejo de
Eos e agraciou Títono com a vida eterna. Entretanto, o dom de Zeus não incluiu as outras
condições desfrutadas pelos deuses gregos, a
saber, a juventude e a vitalidade eternas. Então, apesar da imortalidade, Títono envelheceu
como um ser humano comum: foi ficando cada
vez mais frágil e, embora seu corpo continuasse
vivo, sua mente morreu. Com muita dor no coração, Eos decidiu transferir o antigo amante
para um quarto separado, aonde, de acordo com
a lenda, ele vegetou para sempre.
Duas importantes questões são levantadas pelo espírito ambivalente dessa lenda grega. Primeiro, empurrar muito para a frente os
limites da velhice e tentar manter a saúde até
condições-limite, na realidade pode causar mais
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perdas do que ganhos à dignidade humana
(FIELD; CASSEL, 1997; LAWTON, 2001;
WILKINSON; LYNN, 2001). Assim sendo,
nós achamos que, levando-se em conta as extraordinárias necessidades e vulnerabilidades
da Quarta Idade, é preciso reorientar as políticas relativas ao envelhecimento. Uma questão
crítica é que, se prosseguirem os investimentos em favor do aumento da extensão de vida
na Quarta Idade, talvez aumente também o número de idosos com pouca chance de viver e
morrer com dignidade.
Uma segunda questão diz respeito ao teor
das políticas sociais em favor das necessidades
da velhice. Devem elas privilegiar os idosos ou
devem fazer parte de uma pauta de benefícios
que contemplem as necessidades de toda a sociedade e do curso de vida como um todo? Pensamos que definir políticas gerontológicas em
termos da alocação de mais e melhores recursos em benefício das populações mais velhas
poderá ocasionar prejuízos à saúde econômica, física, social e psicológica das sociedades e,
no futuro, prejudicar os próprios recursos destinados ao cuidado dos idosos. Em outras palavras, pode ser perigoso privilegiar as necessidades da velhice, se essa política limitar os
recursos necessários à melhoria das condições
nas fases iniciais da vida, da infância e da adolescência. É nas fases iniciais da vida que se
constroem os alicerces para o desenvolvimento
subseqüente e que se estabelecem os recursos
que, no futuro, serão necessários para o
enfrentamento da velhice. Talvez seja hora de
pensar nas idades iniciais, como forma de favorecer a velhice.
Para os gerontólogos, considerar a necessidade de modular a política gerontológica não
é uma tarefa emocionalmente fácil porque en-
volve um esforço de reflexão crítica que não é
coerente com o movimento geropolítico. Todavia, acreditamos que, a longo prazo, a Gerontologia e a população idosa serão mais beneficiadas se se levar em conta o impacto das políticas
gerontológicas sobre as pessoas de outras faixas
de idade e sobre a sociedade como um todo.
A distinção entre a Terceira e a Quarta Idades:
Aspectos históricos e definições
Vários autores afirmaram que para que
compreender o cenário futuro da população
que envelhece, é útil distinguir entre Terceira
e Quarta Idade (BALTES, M. M., 1998;.
BALTES, P.B.,1997; BALTES., P. B.; MAYER,
1999; BALTES, P B..; SMITH, 1999;
LASLETT, 1991; NEUGARTEN, 1974;
SMITH, 2001). As denominações Terceira
Idade e Quarta Idade sobrepõem-se aos rótulos velhice-inicial/idoso-jovem e velhice avançada/velho-velho, introduzidos por Neugarten
(1974) e pelo historiador Laslett (1991).
Laslett e Neugarten foram pioneiros na proposição da idéia de que existem múltiplas idades na velhice. Em particular, esses autores
reforçaram a idéia de especificidade da Terceira Idade. As denominações Terceira Idade
e Quarta Idade guardam alguma similaridade
com a distinção feita entre velhice normal,
velhice patológica, velhice bem-sucedida e velhice ótima (BALTES P. B..; BALTES, M..M.,
1990; GEROK; BRANDTSTÄDTER, 1992;
ROWE; KAHN, 1987), bem como com a noção de que a velhice avançada se caracteriza
por forte patologia.
O que especificamente significa a distinção entre Terceira e Quarta Idade? Primeira-
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mente, é preciso enfatizar que, como a maioria
dos fenômenos da evolução humana e da ciência, a noção de Terceira e Quarta Idades refere-se a mudanças evolutivas, e não à idade
cronológica. Consideradas como expressões
fenotípicas do envelhecimento, a Terceira Idade e a Quarta Idade são produtos dinâmicos e
em mudança, ou seja, estão sujeitas à evolução e à variação. O exame das diferenças entre o envelhecimento populacional nos países
desenvolvidos e nos países em desenvolvimento torna clara a influência das contingências
histórico-culturais. Nos países em desenvolvimento, a velhice começa e acaba em idades
cronológicas mais precoces do que nos países
desenvolvidos.
De modo geral, existem dois modos de
definir Terceira e Quarta Idades. O primeiro é
baseado em parâmetros populacionais e o segundo em parâmetros pessoais. Do nosso ponto de
vista, ambos são úteis para captar o que é essencial ao planejamento e à interpretação de dados
de pesquisa: existem descontinuidade e diferenças qualitativas entre as “idades da velhice”.
Definição com base em parâmetros populacionais
Em termos populacionais, o ponto que
marca a transição da Terceira para a Quarta Idade é a idade cronológica em que 50% dos indivíduos pertencentes à mesma coorte de nascimento não se encontram mais vivos. Segundo
esse critério, as pessoas acima desse ponto de
corte estão na velhice. Essa definição situa a
transição da Terceira para a Quarta Idade em
torno dos 75 ou 80 anos, nos países desenvolvidos, hoje (OLSHANSKY; CARNES; DÉSESQUELLES, 2001;
KANNISTO, 1996;
VAUPEL et al, 1998). Nos países em desenvolvimento, a idade de transição da Terceira para
a Quarta Idade é atualmente muito mais baixa.
Uma outra definição referenciada a critérios demográficos consiste em manter o critério de 50%, mas excluindo do cálculo as pessoas que morreram cedo. Assim, diz-se que a
idade que marca a transição da Terceira para
a Quarta Idade é aquela em que 50% das pessoas que atingiram 50 ou 60 anos já morreram. Para os países desenvolvidos, essa estratégia de corte situa o início da Quarta Idade
próximo aos 80 ou 85 anos. É esta última definição de Quarta Idade, com início aos 85
anos, que vamos usar neste texto. Serão apresentados dados sobre essa faixa de idade, dados esses provenientes de pesquisas realizadas em países desenvolvidos.
Definição com base em parâmetros individuais
O segundo modo de distinguir a Terceira da Quarta Idade é o individualizado. Teoricamente, o objetivo desse enfoque é estimar a
máxima duração da vida de um indivíduo, e
não a média da população. Com base em dados
atuais, excluindo-se doenças específicas que
impedem que se alcance uma longa vida, a
máxima duração de vida de um indivíduo varia entre 80 e 120 anos. Assim sendo, a transição para a Quarta Idade pode ocorrer em idades muito diferentes para diferentes indivíduos, por exemplo, aos 60 anos para alguns e aos
90 para outros (FINCH, 1996, 1998; FRIES,
1980, 1990; KIRKWOOD, 1999, 2000;
MANTON, 2001).
A definição com base na pessoa foi adotada por vários autores para estabelecer a dis-
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tinção entre a Terceira e a Quarta Idades. Por
exemplo, Kleemeier (1962) e Riegel e Riegel
(1972) teorizaram sobre o declínio terminal associado aos processos da morte e do morrer, na
velhice avançada. Entretanto, muitas mudanças
normais da velhice não são diretamente relacionadas à mortalidade. Morbidade e mortalidade são dois construtos relacionados, mas
conceitualmente independentes.
A distinção entre Terceira e Quarta Idade também pode ser feita em função da diferença entre o potencial para uma boa qualidade de vida, típico da Terceira Idade, e o potencial negativo da Quarta Idade para manter e
melhorar a qualidade de vida. As próximas sessões tratarão desse ponto de vista.
As Boas Novidades Científicas:
A Terceira Idade
Para evitar confusões a respeito de nossa mensagem central, vamos começar com
novidades positivas sobre a velhice. As informações a esse respeito foram geradas por pesquisas com pessoas e grupos pertencentes à
Terceira Idade, ou velhice-inicial. O otimismo predominante entre vários gerontólogos
é baseado nessas novidades (ver Quadro 1).
Quadro 1. Novidades recentes da Gerontologia.
As boas novidades da Terceira Idade (velhice inicial)
• Aumento na expectativa de vida: mais pessoas vivendo mais
• Substancial potencial latente para melhor competência física e mental na velhice
• Sucessivas coortes e gerações mostram ganhos em competência física e mental
• Evidências de reservas cognitivo-emocionais da inteligência na velhice
• Mais pessoas envelhecendo bem
• Altos níveis de bem-estar emocional e pessoal (plasticidade do self)
• Estratégias efetivas para administrar os ganhos e as perdas da velhice
As novidades não-assim-tão boas ou más: a Quarta Idade (velhice avançada)
• Consideráveis perdas em potencial cognitivo e em capacidade para aprender
• Aumento na síndrome de estresse crônico
• Considerável prevalência de demência (cerca de 50% entre os nonagenários)
• Altos níveis de fragilidade, disfuncionalidade e multimorbilidade
• Morrer em idade avançada: com dignidade?
Perspectivas para o século XXI: a era da incompletude crônica da mente e do corpo?
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Aumento da expectativa de vida:
mais idosos vivendo mais tempo
Sucessivas coortes ou gerações apresentam
ganhos em funcionalidade física e mental
Uma boa novidade sobre a velhice é o
contínuo crescimento das taxas de expectativa
de vida nos países desenvolvidos
(OLSHANSKY; CARNS; DÉSESQUELLES,
2001; KANNISTO, 1996; VAUPEL et al, 1998;
OEPPEN; VAUPEL, 2002; VAUPEL, 1997;
VAUPEL; CANUDAS, 2000; WACHTER;
FINCH, 1997). O que é novo é que essas projeções hoje incluem pessoas de 80 e 90 anos e
até mesmo centenárias. Embora ainda não haja
dados conclusivos de que a máxima duração
da vida ultrapassou os 120 anos, é claro que os
idosos que hoje têm 70, 80, 90 e 100 anos viverão mais do que os que alcançaram essas idades no passado.
Por exemplo, Vaupel (1997) mostra que,
hoje, os octogenários que residem em países
desenvolvidos têm uma expectativa média de
vida adicional de cerca de oito anos, quatro
anos mais do que os octogenários podiam esperar viver há cerca de 30 anos. Os centenários também estão vivendo mais, depois de atingir os 100 anos. Como sugere Vaupel, ocorre
hoje um aumento anual de 8% no número de
centenários, nos países desenvolvidos. Em parte, esse rápido aumento no número de centenários deve-se ao fato de haver mais pessoas
atingindo idades avançadas. Além disso, o
maior número de centenários é inerente à
melhoria das condições de vida dos muito idosos, em termos ambientais, sociais e
tecnológicos.
Outros dados positivos sobre as manifestações de velhice vêm de trabalhos que comparam coortes com base no seu nível de funcionamento físico e mental. Várias pesquisas recentes sobre plasticidade cognitiva, como por
exemplo a de Götemborg, na Suécia (STEEN;
DJURDFELDT, 1993; SVAMBORG, 1985), a
Swedish Twin Studies (McCLEARN et al,
1997), o Seattle Longitudinal Study, nos Estados Unidos (SCHAIE, 1996) e as nossas (
BALTES, P. B.; LINDERBERGER, 1988;
BALTES, P. B. ; WILLIS, 1982; LI, K. Z. H.et
al., 2001; LI S-C, A. S. H. et al, 2001;
LINDERBERGER; BALTES, P. B., 1997; LINDERBERGER; MARSISKE; BALTES, P. B.,
2000), mostram que os idosos que hoje têm 70
anos são comparáveis aos que tinham 65 há
30 anos. Isso sugere que, nos últimos 30 anos,
nos países desenvolvidos, os idosos ganharam
aproximadamente cinco “anos bons de vida”
(CRIMMINS; HAYWARD; SAITO, 1996). Há
também dados preliminares decorrentes de levantamentos nacionais realizados nos EUA
(MANTON, 2001; CRIMMINS; SAITO;
REYNOLDS, 1997; MANTON; STALLARD;
CORDER, 1997), segundo os quais, de modo
geral, os norte-americanos que hoje têm 65
anos ou mais apresentam menos incapacidades físicas (o que atesta sua competência para
o funcionamento na vida cotidiana) do que
coortes anteriores da mesma faixa de idade.
Ao interpretar tais dados, é preciso lembrar que os progressos atuais em expectativa
de vida e em competência física e mental não
resultam de algum progresso genético para a
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espécie humana, mas do efeito de forças culturais e sociais contemporâneas. Em conjunto,
melhoras ambientais e materiais; práticas médicas mais avançadas; melhoria na situação
econômica dos idosos; sistemas educacionais
e meios de comunicação mais efetivos; melhores recursos psicológicos, tais como leitura e
escrita em computador, e muitos outros fatores, estão permitindo que os idosos se aproximem do seu limite de máxima duração de vida
em condições mais saudáveis. Quando o corpo físico declina na velhice, o sistema ambiental que dá apoio ao envelhecimento do cérebro
e do corpo torna-se especialmente importante
(STERN; CARSTENSEN, 2000). Sem dúvida, uma boa política para a velhice requer atenção a fatores tais como os papéis sociais atribuídos aos idosos e a disponibilidade de sistemas de apoio inteligentes, incluindo computadores, melhor habitação, melhor acesso a cuidados à saúde e melhores transportes.
Dados longitudinais sobre as
reservas cognitivas da mente que envelhece
Talvez a melhor evidência do potencial
positivo da mente que envelhece derive de estudos longitudinais e de intervenção em que
os indivíduos são expostos à prática extensiva, a melhores condições de saúde ou a condições de vida favoráveis associadas ao trabalho
e ao lazer. A partir dessas pesquisas, sabemos,
por exemplo, que em países desenvolvidos, a
maioria dos idosos mantém intacto o nível de
funcionamento intelectual para atividades cotidianas, ou o seu desempenho intelectual, até
aproximadamente 70 anos (SCHAIE, 1996).
Sobretudo, a mente que envelhece tem
um considerável potencial para novas aprendizagens (STERN; CARSTENSEN, 2000;
BALTES
P.
B.;
STAUDINGER;
LINDERBERGER, 1999; WILLIS, 1996). Isto
é especialmente verdadeiro para áreas como a
linguagem e a especialização, em que as atividades mentais envolvem mais produtos da cultura e da experiência do que produtos da competência básica do cérebro (KRAMPE;
BALTES, P. B., no prelo; MARSISKE; WILLIS,
1998), e em que as atividades do dia-a-dia associadas ao trabalho, à educação e ao laser, colaboram para gerar ou manter vários tipos de
especialidade (ERICSSON; SMITH, 1991;
HORN; MASUNAGA, 2000; SALTHOUSE,
1999; SCHOOLER; MULATU, 2001; SMITH;
MARSISKE, 1997). Em alguns casos, as funções podem ser mantidas até depois dos 80
anos, como ficou demonstrado no Berlin Aging
Study (BASE), ao estudar competências dependentes da linguagem (SINGERS et al, 2002).
São muito relevantes os dados longitudinais
que atestam a estabilidade das principais funções cognitivas até depois dos 80 anos.
Sistemas de conhecimento especializado:
inteligência emocional e sabedoria
Há mais dados relativos às facetas positivas da inteligência na Terceira Idade. Pessoas dessa faixa ganham de todos os outros grupos de idade em categorias tais como inteligência emocional e sabedoria (BALTES, P. B.;
STAUDINGER, 2000; CARSTENSEN, 1998;
LABOUVIE-VIEF, 1994, 1999).
A inteligência emocional representa a
capacidade de compreender as causas das emoções (como o ódio, o amor ou o medo), de de-
14
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14
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senvolver estratégias para evitar situações de
conflito emocional e de modular seus correlatos
e suas conseqüências negativas. Nos idosos, os
altos níveis de funcionamento ou mesmo a
melhoria da inteligência emocional ficam evidentes quando eles lidam com problemas de relacionamento interpessoal ou com problemas existenciais (CARSTENSEN, 1998; LABOUVIE- VIEF,
1994, 1999; BLANCHARD-FIELDS; ABELES,
1996; STAUDINGER, 1999; STERNBERG,
1990).
A sabedoria é o exemplo por excelência
do potencial intelectual que existe na velhice
(PERLMUTTER, 1990). Ela implica nma combinação ideal de inteligência e virtude. Conduzimos pesquisas sobre a sabedoria há mais de
dez anos e a definimos como uma especialidade em matéria de comportamento, de atribuição de significado e de interpretação da vida
(BALTES, P.B.; STAUDINGER, 2000; STERNBERG, 1990; BALTES, P. B.; SMITH, 1990;
KUNZMANN; BALTES, P. B., no prelo;
STAUDINGER, 1999, 2001). Em nossas pesquisas, os adultos mais velhos são os que se
saem melhor em tarefas de sabedoria. Esses
dados apóiam a noção de que adultos mais velhos detêm formas especializadas de conhecimento e de habilidade que podem concorrer
para a criação de uma sociedade com forte senso de conectividade intergeracional e de produção cooperativa.
Capacidade reguladora-adaptativa no âmbito
subjetivo: plasticidade do self
Há dados sobre o ajustamento pessoal às
mudanças nas condições de vida, entre elas as
de saúde, que são tão otimistas quanto aqueles
provenientes da pesquisa sobre o potencial intelectual na velhice. Originaram-se de investigações planejadas para compreender os mecanismos que as pessoas usam para nutrir o seu
senso de bem-estar e de satisfação com a vida,
e para manter um senso positivo de controle e
otimismo (CARSTENSEN, 1998; LABOUVIEVIEF, 1994,1999; BRANDSTSTÄDTER,
1999; HECKHAUSEN, 1999; SMITH, 2001;
STAUDINGER; FLEESON, no prelo).
No Berlin Aging Study (BASE) ficou demonstrada a notável capacidade dos idosos para
regular o impacto subjetivo das perdas relacionadas à saúde (BORCHELT et al, 1999. Ver Figura 1). De modo geral, foi observada forte discrepância entre as avaliações subjetivas da saúde e o status médico avaliado por parâmetros
objetivos, ou seja, idosos de todas as idades tendem a avaliar sua saúde como melhor do que de
realmente é, segundo parâmetros clínicos. Assim, as avaliações subjetivas de saúde não diferem conforme a idade, embora a saúde objetiva
piore, o que significa que os indivíduos têm capacidade psicológica para transformar a realidade. Ao que tudo indica, essa capacidade permanece intacta durante a velhice, enquanto a
saúde do corpo declina.
Evidenciando ainda mais a notável
plasticidade do self dos idosos, a pesquisa demonstrou que os seres humanos, em sua maioria, são muito competentes para realizar adaptações e reconstruções internas. Quem precisa
lidar com uma doença compara-se com outras
pessoas que tenham uma doença similar ou
pior. O poder da plasticidade do self e a capacidade de transformar as próprias crenças são o
melhor seguro de bem-estar que um idoso pode
ter. Considerando-se o potencial adaptativo do
self, dados provenientes de auto-relatos não são
15
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15
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“xxxxxx”.
Saúde subjetiva em
comparação com os outros
Valor Relativo
0.50
0.00
Avaliação global de saúde subjetiva
- 0.50
Doenças objetivas
-1.00
-1.50
Saúde funcional objetiva
70
75
80
85
Idade
90
95+
Figura 1. Dados do BASE. Com a idade, aumenta a discrepância entre as avaliações subjetivas e
objetivas do status de saúde
os melhores indicadores da qualidade de vida
objetiva na velhice. As pessoas relatam bem-estar positivo, mesmo que suas circunstâncias
objetivas de vida sejam negativas.
Em conjunto, as novidades aqui apresentadas fazem com que alguns dentre nós sejam
chamados de “gerontólogos felizes”, epíteto criado pelo filósofo italiano Bobbio (1996). Mais
que isso, essas novidades figuram corretamente na linha de frente de agendas de ação política, tais como a da Segunda Assembléia Mundial das Nações Unidas sobre o Envelhecimento (World UN Assembly on Aging, 2002). Porém, chamamos mais uma vez a atenção para
o fato de que esses dados foram obtidos principalmente em países desenvolvidos, com idosos
entre 60 e 80 anos de idade. Segundo esses dados, as boas novas sobre a velhice são relativas
à Terceira Idade.
As Novidades Científicas
Não-assim-tão Boas: A Quarta Idade
Uma pergunta que decorre das boas novas sobre o aumento da longevidade é se os
dados sobre a plasticidade e a adaptabilidade
dos idosos-jovens podem ser generalizadas
para os velhos-velhos. Vários projetos importantes estão atualmente em curso nos Estados Unidos, na China e na Europa, com o fito
de explorar as características dos velhos-velhos e assim responder a essa pergunta
(BALTES, M. M., 1998; BALTES, P. B.;
SMITH, 1999; SMITH, 2001; VAUPEL et al,
1998; MANTON, 2001; McCLEARN et al,
1997; SUZMAN; WILLIS; MANTON, 1992).
A pesquisa sobre as diferentes idades da velhice é um dos assuntos de fronteira na pesquisa gerontológica.
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Diante dos dados de trabalhos recentes,
que distinguem entre as idades da velhice, o lado
positivo das novidades sobre o envelhecimento
humano começa a se esfarelar (ver a metade inferior do Quadro 1). Dados do BASE (BALTES,
P. B.; MAYER, 1999) ilustram essa ocorrência.
Apesar das mensagens otimistas a respeito da velhice inicial, os cientistas do BASE também deram a conhecer alguns dilemas e
disfuncionalidades da velhice avançada. Em
contraste com os idosos-jovens, os dados dos
nonagenários e centenários mostram claramente
algumas conseqüências negativas de adentrar a
Quarta Idade. Viver longamente parece ser um
importante fator de risco para a perda da dignidade para os idosos(FIELD; CASSELL, 1997;
LAWTON, 2001; WILKINSON; LYNN, 2001).
Os dados do BASE sobre o marcante declínio
da saúde física e mental na Quarta Idade (delineados abaixo), são todos da maior significância,
na medida em que se aplicam a subgrupos que
foram comportamental e biologicamente selecionados pela genética e pelo estilo de vida. Representam uma minoria que sobreviveu até a
idade avançada e que teve condições e vontade
de participar do estudo (LINDENBERGER;
GILBERT; LITTLE, 1999). De certa forma,
nossas observações sub-estimam as reais dificuldades da situação dos velhos-velhos.
Perdas no potencial cognitivo e na capacidade de
aprender
As investigações do BASE envolvendo
treino cognitivo oferecem um importante conjunto de dados que atestam a ocorrência de uma
expressiva perda no potencial intelectual dos
velhos-velhos. Singer et al (2001), entre outros,
conduziram um estudo envolvendo treino ex-
tensivo de memória. O programa de treino usado tinha se mostrado muito eficaz em pesquisas anteriores conduzidas com idosos jovens
(BALTES, P. B.; KLIEGL, 1992; KLIEGL;
SMITH; BALTES, P. B., 1989). No BASE,
muitos dos indivíduos com idade superior a 85
anos, excluindo-se os dementados, não conseguiram progredir com o treino de memória.
Não houve praticamente nenhum caso de bons
resultados, mesmo em condições de teste que
ofereciam boas chances de alto desempenho.
Entre os velhos-velhos mais saudáveis, as novas aprendizagens também se mostraram gravemente prejudicadas.
O self atinge os limites da funcionalidade na
Quarta Idade
Os dados do BASE na área do self, da
personalidade e das emoções, indicaram perdas no funcionamento subjetivo dos velhosvelhos (SMITH; BALTES, P. B., 1999; SMITH,
2001; SMITH; BALTES, P. B.,1997; SMITH et
al, 2002). Os velhos-velhos pioraram inclusive
naqueles aspectos que normalmente não declinam na velhice inicial, como por exemplo, satisfação com a vida, afeto positivo, satisfação
com a velhice e solidão.
Prevalência de demências na Quarta Idade
Talvez o indicador mais conhecido do
acentuado declínio da saúde mental que ocorre entre os velhos-velhos seja o dramático aumento na prevalência das demências (ver Figura 2) (EBLY et al, 1994). Os dados do BASE
confirmaram essa tendência: quase metade dos
idosos de 90 anos sofriam de alguma forma de
demência (HELMCHEN et al., 1999).
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Porcentagem/Prevalência
100
80
60
40
20
a
b
0
65 70
75 80 85 90 95+
Idade
70-74 75-79 80-84 85-89 90-94 >95
Idade
Figura 2. A prevalência de demência aumenta com a idade.
a Dados canadenses (Ebly et al, 1994). b. Dados do BASE
A demência é uma condição caracterizada por perda gradual de várias das qualidades
que nos distinguem como Homo sapiens:
intencionalidade, autonomia, vida independente, identidade pessoal e conexão social, entre
outras. Note-se que esses atributos são fundamentais para definir a dignidade humana e a
oportunidade de os indivíduos exercerem plenamente seus direitos humanos. A eficácia dos
tratamentos das demências é extremamente limitada. Em virtude da complexidade da
causação biogenética, num futuro próximo será
difícil encontrar uma solução médica eficaz,
exceto para as demências com etiologias genéticas bem definidas. Pode parecer um comentário triste, mas morrer antes de atingir as idades
mais avançadas é, hoje, a única forma de evitar
a demência tipo Alzheimer!
Indicadores holístico-sistêmicos
de funcionamento na Quarta Idade
Surge um quadro mais abrangente da
Quarta Idade quando as análises consideram
um grande número de indicadores físicos, médicos, psicológicos e sociais ao mesmo tempo
(BALTES, P. B.; SMITH, 1999). Tal enfoque
permite-nos ver a pessoa como um todo. O potencial para realizar uma análise holísticosistêmica talvez seja a grande força do BASE.
Mais do que qualquer outro, esse estudo se
baseia em muitas sessões de observação intensiva, incluindo avaliações médicas, psiquiátricas e psicológicas, assim como informações sociológicas, econômicas e relativas à história de
vida.
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100
a
lheres (SMITH; BALTES, M. M.,1998). Nossa
impressão é que, em geral, os anos ganhos na
velhice avançada aproximam os idosos de níveis de funcionamento que justificam o uso da
denominação “maus” anos para designar esse
período. Independentemente da validade desse rótulo, há pouca dúvida de que a Quarta
Idade testa os limites da adaptabilidade humana. Considerando-se essas perdas, viver uma
longa vida tem custos médicos, psicológicos
sociais e econômicos específicos.
Porcentagem por categoria
Porcentagem por categoria
Diante dessas medidas, que permitem a
construção de perfis holísticos e multivariados,
foram observadas consideráveis perdas quando os indivíduos atingem idades avançadas. A
Figura 3 resume os dados do BASE. Em comparação aos idosos-jovens, os velhos-velhos têm
cinco vezes mais probabilidade de aparecer
como um grupo que apresenta acentuada multidisfuncionalidade e morbidade (SMITH;
BALTES, 1999, 1997). Tal aumento de
disfuncionalidade afeta especialmente as mu-
80
60
40
20
0
m
Bo
é
o
di
M
Po
e
br
to
ui e
M obr
p
100
b
80
Feminino
60
40
Masculino
20
0
Bo
m
o
di
é
M
re
b
Po
to
ui re
M ob
p
Nível de funcionamento
Figura 3. Dados do BASE. Idade (a) e gênero (b) são fatores de risco
Para aqueles que pertencem a grupos com status funcional pobre
e muito pobre.
Os perfis dos grupos foram classificados pelo duplo critério de 23
indicadores psicológicos e sociais
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Neste ponto, cabe perguntar se esses dados se opõem aos de outras pesquisas, como
por exemplo a de Manton (2001) e a de
Crimmins (2001), as quais trazem uma mensagem das mais otimistas com relação ao crescente nível de vitalidade e de saúde ao longo
de sucessivas coortes ou gerações de norteamericanos, que hoje em dia apresentam menos déficits físicos do que a geração de seus
pais. Não há contradição. Ambos os fatos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo. As melhoras em competência física e mental de
coortes históricas ou gerações sucessivas são
muito menores do que os efeitos gerais da idade. Em termos comparativos, pode-se dizer que
o efeito do envelhecimento é dominante e que,
nos dias que correm, supera com folga a mag-
nitude dos avanços em saúde observados em
gerações sucessivas.
Viver e morrer na Quarta Idade
Na Quarta Idade, aumenta a probabilidade de que a vida atinja condições limite.
Quando isso acontece, a dignidade e os direitos humanos resvalam para um ponto especialmente crítico(Ver Quadro 2). Diante dessa
evidência, uma importante pergunta de pesquisa a ser feita é se os processos da morte e do
morrer diferem nas diferentes idades da velhice. Em outras palavras, qual é o status comportamental e mental de indivíduos que morrem aos 80, 90 ou 100 anos de idade?
Quadro 2. Viver e morrer na Quarta Idade (dados do BASE)
Observações comportamentais
• Tensões crônicas acumuladas na Quarta Idade: 80% dos idosos experimentam perdas em 3
a 6 áreas (multimorbidade), como por exemplo em visão, audição, força, capacidade funcional
em AVDs e em AIVDs, doenças e cognição.
• Crescente e sistêmica ruptura na adaptabilidade psicológica
• Perdas crescentes em satisfação e em contatos sociais
• Entre 85 anos e 100 anos e mais, perfil de funcionamento crescentemente negativo nos dois
anos que precedem a morte
• Perdas nas funções cognitivas
• Perdas em identidade (maior solidão e dependência psicológica)
Contexto social
• Os velhos-velhos são preponderantemente do gênero feminino
• A maioria das mulheres são viúvas e vivem sozinhas ou em instituições
• A maioria sofre hospitalização em algum momento dos últimos anos da vida
• A maioria morre sozinha num hospital ou numa instituição
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Os dados do BASE permitem concluir
que os anos que antecedem a morte na velhice
avançada são mais disfuncionais, principalmente no que diz respeito ao envelhecimento
intelectual (SMITH; GESDORF, 2001). Quando são considerados vários indicadores do self
e da cognição, o pior perfil é das pessoas mais
velhas nos dois anos que antecedem a morte.
É bem provável que o aumento da disfuncionalidade, que sobrevém com a idade, represente a sobreposição das trajetórias de mudança
terminal às trajetórias normais de envelhecimento.
De modo geral, parece que o perfil geralmente positivo da Terceira Idade passa a ser
menos positivo na Quarta Idade, como sugerem os dados do BASE. A taxa de mudança
negativa é maior quando a patologia se sobrepõe ao envelhecimento.
Tais dados dão margem à reflexão. Cada
vez mais, filósofos, cientistas sociais e cidadãos
de modo geral perguntam-se até que ponto vale
a pena sobreviver até a velhice avançada, ao
observar o quanto os direitos e a dignidade dos
velhos-velhos são ameaçados pela perda do senso de controle psicológico e do senso de identidade, em virtude das perdas inerentes ao envelhecimento e às patologias (ver abaixo).
Os “gerontólogos felizes”, no dizer de
Bobbio (1996), não estão preparados para
aceitar essas conclusões. Dirão, por exemplo,
que os dados negativos sobre a Quarta Idade
são um fenômeno transitório. Argumentarão
que, a longo prazo, a pesquisa e melhores
políticas sociais produzirão resultados mais
positivos. Mas um cientista tem a obrigação
de ser cuidadoso em suas predições. Tendo em
mente a incerteza que envolve os prognósti-
cos sobre essa questão, vamos apresentar nossa interpretação.
Proposições Metateóricas Sobre a Arquitetura
Biocultural da Quarta Idade
Quais são as explicações teóricas para as
disfuncionalidades associadas à Quarta Idade?
Baltes e colaboradores (BALTES, P. B., 1997;
BALTES, P. B.; STAUDINGER; LINDENBERGER, 1999; BALTES, P. B.; SINGER, 2001)
delinearam um conjunto de proposições
metateóricas que oferecem um quadro de referência interpretativo para os dados empíricos
sobre a vulnerabilidade e a resistência à mudança que caracterizam a Quarta Idade. Em essência, sugerimos que o plano biocultural da
ontogenia é incompleto para as idades mais
avançadas. A “morada da vida” produzida pela
biologia é incompleta, de uma incompletude
menos bela do que a da Sinfonia Inacabada de
Schubert. De fato, a arquitetura do curso da
vida reflete uma frustrante incompletude que
se torna mais evidente quanto mais claras se
tornam suas radicais implicações, na velhice
avançada.
A Figura 4 resume os três princípios
metateóricos que contribuem para a
incompletude da arquitetura biocultural do
curso de vida e para suas implicações para a
Quarta Idade (BALTES, P. B., 1997). A Figura
4 refere-se às funções de base biológica, mostrando que a pressão seletiva do processo
evolutivo da espécie age basicamente durante
a primeira metade da vida, assegurando competência reprodutiva e comportamento
parental eficaz (FINCH, 1996; SMITH, 2001;
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a
b
c
A plasticidade biológica
declina com a idade
A dependência à cultura
aumenta com a idade
A eficácia da cultura
diminui com a idade
Curso da vida
Curso da vida
Curso da vida
Figura 4. Representação esquemática dos três princípios (a-c) que governam
as dinâmicas entre a biologia e a cultura, que conduzem a um
aumento associado à idade, na incompletude da arquitetura
biocultural do curso de vida com o avanço da idade
KIRKWOOD, 2000; PARTRIDGE; BARTON,
1993). Como conseqüência, em comparação
com as idades iniciais, a organização do genoma
humano nos grupos mais velhos é caracterizada por expressões e interações genéticas deletérias. O declínio na fidedignidade genética
decorre mais de processos casuais do que de
um plano genético concernente ao envelhecimento (OLSHANKY; CARNES; GRAHSN,
1998). A essência da história é a seguinte: como
a evolução opera basicamente na primeira metade do curso de vida, ‘a biologia evolutiva não
é uma boa amiga da velhice’.
A Figura 4b trata das interações entre
biologia e cultura. Sugere que, no decorrer do
curso de vida, são necessários cada vez mais
recursos e práticas dependentes da cultura para
que o potencial biológico inerente ao genoma
humano possa ser explorado. Vamos discutir
duas idéias relativas à maior dependência com
relação aos ≠recursos da cultura durante o envelhecimento. Em primeiro lugar, para que o
desenvolvimento humano atingisse altos níveis
de funcionamento, foi necessário o aumento
da riqueza e a disseminação da cultura e das
oportunidades para a sua prática (BALTES,
P. B.; SINGER, 2001; DURHAM, 1991). Ou
seja, os aspectos materiais, mentais, sociais e
tecnológicos da cultura foram o principal motor para o rápido aumento da longevidade durante o século XX, e não mudanças no genoma
geradas pela evolução da espécie. Em segundo lugar, com o avanço da idade, ocorre um
aumento da dependência com relação à cul-
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tura, por causa dos fatos apresentados na Figura 4a. A velhice é associada a um declínio
do potencial biológico e da eficiência do organismo. Tal declínio exige mais dos recursos e
das práticas que dependem da cultura, do seu
papel compensatório e do auxílio que oferecem aos indivíduos.
Em terceiro lugar, como se vê na Figura
4c, Baltes (1997) argumenta que a eficácia da
cultura para compensar o declínio biológico
declina na velhice avançada. Isso se deve basicamente à perda de potencial biológico associado ao envelhecimento e à crescente perda do
potencial de aprendizagem. Há menos progresso para o mesmo in put. Como resultado, a possibilidade de intervenção torna-se cada vez
mais reduzida.
Esse conceito tripartite sobre as mudanças que acompanham o envelhecimento, mudanças essas associadas à arquitetura
biocultural incompleta do curso de vida, deve
ser levado em conta ao se especular sobre qual
será o futuro da velhice numa população em
que um número crescente de indivíduos atinge idades avançadas. Estamos certamente diante de uma constelação dinâmica e evolutiva
de mudanças, que pode ser alterada pelos avanços da ciência. Entretanto, nada mudará com
relação à crescente incompletude e
vulnerabilidade da espécie humana, nem com
relação à possibilidade de modificação e de
otimização nas idades mais avançadas.
A Administração dos novos Desafios e dos
Desencorajadores Diemas da Quarta Idade
Por vários motivos, os argumentos aqui
apresentados sobre a Quarta Idade causam
mais melancolia do que otimismo. Neste tópico final, pretendemos modular essa impressão
de completo pessimismo. A velhice guarda potenciais que ainda não foram descobertos e a
ciência e as políticas sociais são poderosas fontes de mudança positiva (MAX PLANCK
FORUM, 2002).
Medicina Genética e Tecnologia
A ciência contemporânea tem forte inclinação para as as ciências da vida e as
biociências. Não surpreende que, sempre que
se pensa em inovações que favoreçam a
otimização do envelhecimento humano, a contribuição da ‘nova genética’ seja logo mencionada (COTMAN; BERCHTOLD, 2002;
HARRIS, 2001). Embora o genoma humano
tenha levado milhares de anos para evoluir, a
ciência moderna sugere a possibilidade de
implementação, a curto prazo, de tecnologias
de correção genética. Há certamente alguma
esperança nessa linha de raciocínio
(KIRKWOOD, 1999). Porém, é necessário ter
cautela com as possíveis limitações. Trataremos de duas dessas limitações.
A primeira é inerente à incompletude da
arquitetura biogenética do curso de vida, acima comentada. A nossa metateoria sugere que
seria necessário mudar o sistema de funcionamento biológico como um todo para lograr os
efeitos almejados. O segundo argumento relativo aos limites da tecnologia de intervenção
genética é que a maioria das expressões de
morbidade e de doenças envolvem multicausalidade biológica. Muitos genes estão envolvidos no processo de envelhecimento e muitos
permanecem dormentes e podem se tornar
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operantes quando forem realizadas intervenções genéticas. Sabe-se que algumas doenças
são baseadas num só gene, o que as torna mais
passíveis de correção por meio de terapia genética. Contudo, são impressionantes os argumentos de alguns pesquisadores biomédicos
(HAYFLICK, 1996; HÖHN, 2002), segundo os
quais a complexidade da ação genética envolvida no envelhecimento humano é grande demais e é específica a cada pessoa, inviabilizando
as soluções rápidas e universais.
A despeito das incertezas que envolvem
as promessas da tecnologia de intervenção genética, pode ser que ela seja o melhor caminho
para se conseguir reparar a arquitetura
biocultural do curso de vida. Redesenhar o
genoma humano será quase como terminar a
Sinfonia Inacabada de Schubert. Com relação
ao futuro da Quarta Idade, as sociedades e os
planejadores de políticas deverão assumir uma
posição explícita diante da necessidade de um
aumento significativo na disponibilidade de
apoios derivados da moderna tecnologia
biomédica, incluindo seus componentes
comportamentais e de saúde (FRIES, 1980).
É essencial que esses esforços sejam vistos
como parte de um amplo e organizado esquema biocultural, e não simplesmente como produto de um determinismo genético (BALTES,
P. B.; SINGER, 2001; HARRIS, 2001).
Velhice bem-sucedida por meio de seleção,
otimização e compensação
Para além da promessa ainda não testada da tecnologia de intervenção genética, há
outras estratégias para se manejar a jornada
do envelhecimento nas idades mais avançadas.
Alem de políticas sociais, estruturas de apoio
amigáveis à velhice e políticas de saúde preventivas e corretivas, elas incluem estratégias
psicológicas de manejo da vida. A seguir resumimos uma teoria de manejo eficaz da vida,
articulada e testada por Margaret Baltes, Paul
Baltes e seus colegas, ao longo dos últimos dez
anos. Trata-se da teoria de otimização seletiva
com compensação.
Como se vê no Quadro 3, a teoria de
otimização seletiva com compensação parte do
princípio que, ao longo das várias etapas do
curso da vida, mudam os meios e as metas e,
com isso, as formas de alocação de recursos.
Nas fases iniciais da vida, prevalece o investimento em processos de ganho (crescimento).
Com o envelhecimento, os recursos passam a
ser cada vez mais investidos em manutenção
e correção.
Nosso exemplo favorito do significado
psicológico de otimização seletiva com compensação vem de uma entrevista com o pianista
Rubinstein, aos 80 anos de idade. Quando lhe
perguntaram como conseguia ser um grande
pianista de concerto com aquela idade, ele citou três razões: tocava menos peças, praticavaas com mais freqüência do que no passado, e
usava contrastes no andamento para simular
que estava tocando mais depressa do que realmente era capaz. Rubinstein reduziu seu repertório (seleção). Isso lhe permitiu praticar
mais cada peça (otimização). Finalmente, usou
contrastes na velocidade para mascarar as perdas de velocidade na mecânica do dedilhado,
um caso de compensação.
O caso de Rubinstein é um exemplo clássico daquilo que a Psicologia aponta como estratégia-chave de envelhecimento eficaz. Pessoas que selecionam, otimizam e compensam es-
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tão entre as que se sentem melhor e que são
mais atuantes. Na velhice, a arte de viver consiste numa busca criativa de novos e menores territórios do que aqueles que se administrou no passado. O mesmo vale para as culturas. Culturas que oferecem aos idosos novas
formas de seleção, otimização e compensação
são as que mais os ajudam a maximizar os
ganhos da velhice.
A imagem de territórios menores nos
traz à mente mais um exemplo de vida real,
que devemos a Brim (1992). Seu pai viveu
mais de 100 anos, 103 para sermos exatos.
Quando ainda era um idoso jovem, ele cuidava da fazenda, incluindo as colinas das vizinhanças. Aos 75 anos, passou a ter alguns
problemas de mobilidade. Concentrou-se então em seu jardim. Aos 90 anos, mal podia
andar e tinha deficiências de visão e audição.
Nessa época, passou a se dedicar a plantas de
interior. Mais tarde, concentrou-se nas flores
da janela que ficava perto de sua cadeira na
sala de estar. A janela tornou-se o centro de
suas atenções e de seu bem-estar subjetivo.
Nos escritos do grande épico grego Hesíodo,
há um ditado que traduz perfeitamente a estratégia de envelhecimento bem-sucedido dessa pessoa: “Metade pode ser melhor do que o
todo”.
CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS
Para concluir, retomamos a idéia de que
a velhice tem duas faces e, nesse contexto, sugerimos direções para futuras pesquisas e práticas. Por um lado, alguns dados científicos sugerem que as pessoas mais velhas podem ser
membros mais efetivos e produtivos da socie-
dade do que permite a atual cultura da velhice.
Assim, uma questão importante é investir esforços científicos e políticos em áreas que possam contribuir para uma melhor cultura da
velhice.
Por outro lado, acreditamos que os dados recentes, referentes à Quarta Idade ou aos
velhos-velhos, demandam muita atenção. Argumentamos que um produto colateral da recente adição de anos à vida das pessoas é o novo
e desanimador desafio de viver e morrer na
Quarta Idade. Existem evidências crescentes de
que a Quarta Idade não é simplesmente uma
continuação da Terceira Idade. Entre os velhosvelhos há uma forte prevalência de disfunção
e um reduzido potencial para a melhoria da funcionalidade.
Alem da disfunção física, o rápido aumento da mortalidade psicológica durante a
Quarta Idade é algo de especial significado. Ela
ameaça os mais preciosos aspectos da mente
humana, tais como intencionalidade, a identidade pessoal e o controle psicológico sobre o
próprio futuro, juntamente com a possibilidade de viver e morrer com dignidade.
A possibilidade de preservação da dignidade humana pode ser realmente reduzida na
Quarta Idade se as políticas sociais visarem predominantemente ao alongamento da vida depois da Terceira Idade. A saúde e a velhice bem
sucedida são limitadas pelo avanço da idade.
Para lidar efetivamente com os problemas da Quarta Idade, resultantes do aumento
da longevidade da população, é preciso alcançar novos patamares de recursos científicos,
médicos e sociais, bem como de recursos destinados a modular os efeitos desse processo.
Além disso, as sociedades deverão ponderar
cuidadosamente a questão dos direitos huma25
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nos e das responsabilidades humanas, e da
alocação de recursos para os diferentes sub-grupos que constituem a sociedade como um todo
(BINSTOCK, 1992). Uma sociedade vital requer justiça na alocação de recursos: a
otimização das condições futuras da população que envelhece requer grupos de jovens que
funcionem bem e que sejam produtivos, de forma a aumentar a probabilidade de que os recursos societais necessários ao amparo da velhice estejam disponíveis. Justiça etária na
alocação de recursos é um dilema nos países
em desenvolvimento, onde planos de longo alcance priorizam a alocação dos recursos já escassos para a população infantil, para os jovens
e para os adultos.
Do nosso ponto de vista, os cidadãos idosos, em sua maioria, estão consciente desse
dilema e também preparados para investir nos
jovens. Com esse espírito, esperamos que os
gerontólogos se congreguem em torno de um
novo compromisso, voltado para o fortalecimento das idades iniciais do curso de vida.
“Os idosos em favor dos jovens” é um mote
que poderia integrar o empreendimento da velhice, de modo a se alcançar um apropriado
equilíbrio entre as perspectivas dos diferentes grupos etários e a justiça etária. Se esse
mote for adotado, talvez as sociedades possam
avançar com mais cuidado e mais atentas às
conseqüências negativas de promover o envelhecimento biológico ou de exacerbar a
longevidade até os seus limites.
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SOBRE A TRADUTORA: Anita Liberalesso Neri é psicóloga, Professora Titular na Unicamp e foi cientista
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Idade foi facilitar ao leitor brasileiro o acesso a um texto que veicula recentes e importantes dados de pesquisa sobre as diferenças entre as diferentes idades e condições da velhice. A segunda razão foi o fato de o texto
alinhar argumentos teóricos sobre os limites do envelhecimento e da longevidade do ser humano e deles
derivar uma questão existencial da maior importância para a nossa reflexão: vale a pena? O terceiro motivo
foi de natureza política: neste momento em que a sociedade brasileira convive com políticas públicas que
anunciam o virtual direito de prioridade aos idosos, ainda que os direitos das crianças, dos jovens e dos
adultos não sejam completamente respeitados, parece-nos importante observar como a questão dos direitos
dos mais velhos, em confronto com os dos mais jovens, é pensada por cidadãos lúcidos de um país desenvolvido.
31
A Terceira Idade, São Paulo, v. 17, nº 36, p.7-31, jun. 2006
novas fronteiras2
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A Desigualdade de
Gênero na Terceira
Idade
TERESINHA MARIA
NELLI SILVA
Pedagoga pela USP.
Mestre e Doutora em
Educação pela
Pontifícia
Universidade Católica
de São Paulo.
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A Terceira Idade, São Paulo, v. 17, nº 36, p.32-38, jun. 2006
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15.08.06, 14:42
Resumo
Este artigo trata da desigualdade de gênero na
Terceira Idade, tendo como pano de fundo movimentos
feministas e estudos antropológicos, marxistas e
neomarxistas. Discute questões relacionadas ao peso
da tradição patriarcal na desigualdade entre homem
e mulher e o impasse da superação pela via estrutural.
O envelhecimento afeta os gêneros de modos diferentes,
determinados pelos papéis sociais que desempenham.
Palavras chave: gênero. desigualdade. relações
sociais. envelhecimento.
Abstract
This article deals with the unlikeness between
the genres within the Third Age, measured against the
frame of feminist movements and anthropological,
Marxist and Neo-marxist studies. It explores issues
related to the importance of the patriarchal tradition
on the differences between man and woman and the
impasse concerned to overcome it through a structural
way. Aging affects both genres in different ways, which
are determined by the social rules each one performs.
Keywords: genre; unlikeness; social relationships;
aging.
Uma breve revisão histórica dos movimentos feministas, fundamentada na antropologia e em estudos marxistas, nos remeterá à
situação da mulher contemporânea. Na década
de 1960, os artigos de Carmen da Silva, publicados na revista Claudia e reunidos no livro A arte
de ser mulher, contribuíram para a divulgação
de uma temática feminina. Ao propor e discutir
questões relativas ao universo feminino, a autora despertou o interesse pela condição social
da mulher e pelos movimentos em sua defesa.
O século XX foi marcado pelas lutas feministas, radicalizadas nos anos 1970 e
embasadas em intensa e extensa produção de
estudos e pesquisas, com avanços notáveis no
conhecimento científico da condição feminina na sociedade. O fato a se destacar é a instituição do Ano Internacional da Mulher, pela
ONU (1975), com o lema “Igualdade, Desenvolvimento, Paz” (SILVA, 1994, p. 18)
No Brasil, o movimento feminista foi
atuante. Blay (1980) cita o “Movimento Feminino pela Anistia” de 1975 formado para atender os envolvidos na revolução Militar de 1964.
A luta contra o aumento do custo de vida e
por melhores salários gerou o “Movimento
Contra a Carestia”, ampliando a participação
política da mulher. Ainda na observação de
Blay (1980), as mulheres abriram novos espaços sociais, que não os canais políticos tradicionais (partidos e sindicatos), com a criação de
organizações, como os clubes das mães e as
associações das donas de casa, que lhes permitiram reivindicar e obter direitos específicos.
Depois de 1980, os movimentos feministas no Brasil se fundem a movimentos sociais
mais amplos, unindo homens e mulheres na
contestação à ausência do Estado no atendimento às necessidades básicas da estrutura so33
A Terceira Idade, São Paulo, v. 17, nº 36, p.32-38, jun. 2006
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cial: educação, saúde, habitação e tantas outras. E o pressuposto da inferioridade feminina como algo “natural”, passou a ser contestado por antropólogas que, com suas pesquisas,
contribuíram para reforçar a argumentação dos
movimentos feministas contra a discriminação
da mulher.
Os trabalhos da pesquisadora Margareth
Mead (apud MOTA, 1980, p. 47) avolumam
os estudos para a construção de uma antropologia da mulher ao incluir a participação feminina, não mencionada por antropólogos do
sexo masculino, na organização social dos grupos estudados. A desigualdade dos sexos emerge dos estudos antropológicos, pedindo respostas que informem sobre o papel da mulher na
sociedade: quem é ela, o que faz, para quem?
O fato relevante foi deixar claro que a
ideologia da inferioridade feminina nasceu na
sociedade patriarcal, que estigmatizou a mulher com o papel de reprodutora e mantenedora
da infra-estrutura doméstica, atribuindo ao homem o papel de caçador, guerreiro e construtor da organização social.
Os movimentos feministas receberam,
por outro lado, influência dos fundamentos teóricos do socialismo . Para Karl Marx e Friedrich
Engels (apud ALAMBERT, 1980, p. 107), a condição sócio-econômica determina a desigualdade entre homem e mulher e está associada, por
sua vez, à apropriação dos meios e instrumentos de produção. A mulher perde autonomia e
liberdade com o casamento, quando se afasta
da atividade produtiva, e se torna economicamente dependente do homem. (até aqui)
Um quadro mais alentador começa a se
delinear com a entrada da mulher na atividade produtiva, com a diminuição do trabalho
doméstico graças ao avanço tecnológico e com
as lutas travadas nestes dois séculos. Por outro
lado, pensava-se que a entrada da mulher na
atividade produtiva faria com que muitas das
atividades do lar fossem transferidas para a
esfera pública, modificando a condição de desigualdade. O suporte de creches, lavanderias
coletivas, escolas em tempo integral, restaurantes de baixo custo, atenderia a família em sua
necessidade de serviços e consumo. Mas essa
idéia não se concretizou e o tempo da mulher
ocidental continua dividido entre os encargos
familiares e o trabalho fora de casa. Hoje, as
mulheres enfrentam dupla jornada, trabalho
doméstico e profissional, situação agravada
entre as de baixa renda.
Os estudos antropológicos demonstram
que a subordinação da mulher ao homem precede o capitalismo e a sociedade de classes. A
desigualdade entre os sexos resistiu aos tempos,
mantida na estrutura do poder patriarcal através do controle da sexualidade e da fertilidade.
Na tradição sócio-cultural, a inferioridade da
mulher se perpetua no desempenho dos papéis
decorrentes de suas obrigações biológicas de reprodução (gravidez, amamentação) e conseqüente restrição de deslocamento fora do lar.
A conclusão de que a superação do capitalismo pelo socialismo faria desaparecer a diferença entre as classes, mas não a desigualdade entre os sexos, enfraqueceu as análises marxistas enquanto fundamento dos movimentos
feministas de base materialista. A dificuldade
para erradicar a desigualdade de gênero da
estrutura social perpassa os sistemas sociais
de orientação socialista ou capitalista. Desvela as contradições sociais entre o primado
material e o cultural e também a força da tradição que atribui o poder ao homem. A mulher continua encerrada no modo de divisão
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de atribuições própria da economia da sociedade patriarcal.
O peso da tradição patriarcal atua de
modo determinista ou é possível quebrar essa
amarra histórica? Há lugar para a ação humana transformar a desigualdade de gênero?
A resposta teórica passa pelos
neomarxistas e seus estudos sobre a reprodução social e a cultural. As teorias de reprodução social estão representadas em Althusser
(1985), Bowle e Gentis (apud SILVA, 1990 , p.
6) e as de reprodução cultural em Bourdieu e
Passeron (apud SILVA, 1990, p. 6)
Na linha crítica da reprodução social e
cultural, os trabalhos de Michael Apple, Henry
Giroux e Paulo Freire, com apoio em Gramsci,
avançam nos estudos da dependência entre
educação e sociedade. Reunindo a teoria social neomarxista a estudos etnográficos, esses
autores aliam estrutura social à ação humana,
utilizando dialeticamente a dinâmica da acomodação e da resistência para atingir a emancipação.
Escrevi sobre esse paradigma crítico
que oferece a perspectiva antropológica, histórica, relacional e dialógica como alternativa para uma educação transformadora (SILVA, 1990, p. 5-17). A reviravolta teórica está
no aprofundamento de questões relativas à
hegemonia, cultura, poder e conhecimento,
desvelando a dominação engastada na
interação social cotidiana.
O modelo economicista de “base-estrutura”, ao imbricar as relações sociais na economia, é reducionista. Há espaço na educação
para a ação humana, dado que pessoas não são
espelhos passivos da economia, podendo atuar
como agentes no processo de contestação das
relações dominantes.
A educação do homem e da mulher, em
direção a uma sociedade igualitária, adentra a
construção do conhecimento, a interpretação
da realidade, a relação teoria-prática, a conscientização individual, sobre uma nova base de
interação social. Admitindo-se a possibilidade
de ação humana educativa a favor da # igualdade de gênero, por onde começar? O sonho da
transformação social cede lugar a ações humanas pontuais em canais abertos nas democracias ocidentais. Mudar a consciência para mudar
o mundo é a utopia educacional possível.
A família é o reduto que menos se abre à
# igualdade de gênero e seus papéis tradicionais resistem ao tempo. A mulher continua a
vivenciar a contradição suscitada pela ambigüidade de trabalhar em duas frentes: a doméstica e a profissional. Nesta área, tenta-se abrir
espaço no campo dos costumes, onde o privado
imbricado no público produz temas polêmicos
e controvertidos - como a divisão sexual do trabalho doméstico, a liberdade da contracepção, o
aborto, a violência contra a mulher -, reveladores
de que a conquista de direitos precisa vir acompanhada de mudança de mentalidade.
A não-separação entre o político e o pes-
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soal sugere novas relações entre homem e mulher, envolvendo um trabalho com a subjetividade. Ao questionar práticas culturais de subordinação da mulher ao homem, penetra-se
nas esferas econômica, política e simbólica, o
que dá a dimensão do trabalho de reverter e
subverter ideologias opressoras.
As organizações feministas ocidentais
estimularam conquistas civis básicas, incluindo o acesso ao ensino superior, a profissionalização e o direito ao voto. As mulheres participam da vida pública, ainda que minoritariamente nos centros do poder político. No momento atual, estão atentas à especificidade da
luta que lhes cabe e cientes da dificuldade de
mudanças estruturais em sua condição social.
A emancipação da mulher é um processo em andamento contínuo. Inscreve-se no
aperfeiçoamento da democracia, no trabalho
pedagógico de conscientização do seu papel
social, na sua capacidade pessoal de transformação do cotidiano doméstico, na elaboração
de uma nova concepção de homem e mulher.
Face à constatação de que o papel da
mulher continua sob a força da tradição patriarcal, o ideal da igualdade de classe, objeto da
revolução socialista, não se materializou, o que
faz com que o tema da desigualdade de gênero
# no âmbito das relações sociais continue não
resolvido e atual.
A condição da mulher no século XXI,
com as conquistas advindas dos movimentos
sociais traduzidas em direitos trabalhistas,
previdenciários, na área da saúde, família e
educação, ainda inclui metas relativas à igualdade entre os sexos. Modificar os fatores
condicionantes da estrutura social é uma tarefa utópica de mobilização de toda a sociedade.
A mulher vai continuar a exercer seu papel
histórico enquanto o sonho da igualdade não
se objetivar socialmente.
A desigualdade de gênero na terceira
idade merece uma reflexão à parte, se considerarmos que o idoso integra a lista dos excluídos da sociedade, ao lado da mulher e de outros segmentos minoritários. Nessa faixa
etária, a situação do homem e da mulher tem
algumas peculiaridades, conferidas pelas diferenças de papéis desempenhados socialmente.
O homem idoso, excluído do mercado de
trabalho pela aposentadoria por idade ou tempo de serviço, perde status social, sofre discriminação e marginalização. Ao encerrar sua participação pública pelo trabalho, retorna à área
privada, isto é, ao lar. Passa, então, a vivenciar
a situação de discriminação já sentida pela mulher trabalhadora.
É preciso notar que a repercussão da passagem para a aposentadoria é diferente para o
homem e para a mulher. As perdas sociais são
maiores para o homem, limitado agora à esfera
do lar - reduto da mulher - pela inatividade. A
ruptura do trabalho produz um choque de realidade e sérios problemas de ajustamento à sua
nova situação. A mulher afastada do mercado
de trabalho continuará a cumprir seu papel no
lar, onde o poder masculino não foi abalado.
O envelhecimento altera as questões de
gênero. Ao envelhecer, a mulher perde a função reprodutiva e vê reduzidas as funções domésticas, ganhando tempo livre e autonomia
para investir em seu crescimento pessoal. O
homem idoso imerso no cotidiano, condicionado pelo comportamento machista,
desestabiliza-se face ao ócio do “não-trabalho”,
com conseqüente perda da auto-estima. O seu
dilema está em descobrir uma nova identidade para enfrentar o universo discriminador,
já conhecido da mulher.
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Os preconceitos assimilados culturalmente, ligados a papéis tradicionais de gênero, dificultam o trânsito do homem idoso na
ocupação do seu tempo livre. As dicotomias
trabalho/lazer, industrial/manual, teoria/prática, mente/corpo, ciência/arte, objetividade/
subjetividade, reveladoras do que cabe a cada
sexo, nos dão a dimensão de sua dificuldade
de participar em novas atividades.
Há uma parcela da população masculina
idosa, refratária a programas da terceira idade
enquanto proposta social, educativa e cultural,
que abre um campo de estudos para o conhecimento dos motivos que dificultam sua participação. A problemática da desigualdade e das
diferenças de gênero é um campo fértil para
pesquisadores interessados nesse ciclo de vida.
A inclusão do idoso, além de uma questão social, é uma questão individual. A elaboração de um projeto de vida que atenda às necessidades desse ciclo exige mudança na
estruturação do tempo ocioso e reorientação
do espaço social e cultural, além de investimento educacional.
Por que para a mulher é mais fácil perseguir essas metas?
A resposta a essa questão deve considerar a herança patriarcal, que atribui o poder e
o comando da sociedade ao homem e não à
mulher. Esta situação se mantém até hoje, agravada no envelhecimento pela perda do poder
masculino, seqüela herdada do mundo industrializado e capitalista.
A crise atinge o homem idoso com intensidade maior porque ele perde o trabalho e
o poder que dele emana, experimentando o
ostracismo político e social. O trabalho é parte
constitutiva da sua identidade e mesmo a melhor preparação para a aposentadoria será in-
suficiente para preencher a ruptura vivenciada.
Encontrar atividade para o idoso será
outra das tarefas dos que se dedicam à sua
causa, já que continuar trabalhando é a melhor forma de preencher seu projeto de vida.
A premissa vale para homens idosos ativos que
querem voltar ao trabalho, remunerado ou
não, aproveitando suas habilidades, conhecimentos e experiências.
Assim, temos que admitir que o acesso
ao lazer, a programas culturais e ao trabalho
não-produtivo, não é opção para muitos homens idosos, embora os que deles se beneficiam ganhem conhecimento, amadurecimento e
qualidade de vida. A dificuldade vem da história individual, heterogênea, diversificada por
fatores sócio-econômicos e culturais que determinam habilidades e interesses restritos ao
mundo masculino.
A mulher amplia o seu domínio do particular ao público pelo trabalho, enquanto o
homem entra no privado ao se afastar do público, e a ele se restringe. Esse fenômeno produz mudanças nas relações sociais de gênero
calcadas na tradição patriarcal. Surgem dois
centros de poder diferentes: o do homem e o
da mulher.
Nesse contexto, a convivência entre os
sexos, com forças em equilíbrio, propõe o dilema: enfrentamento ou cooperação? Seja qual
for a resposta, o alvo é o autoritarismo, a dominação e a busca da igualdade de direitos.
Concluindo com base em todas essas considerações, cremos que as relações sociais de
gênero na terceira idade sugerem a possibilidade de um novo relacionamento entre homem
e mulher com base cooperativa e auxílio mútuo no enfrentamento comum da marginalização social.
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ago. 2002.
especial.
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Avaliação Nutricional e
Análise da Freqüência
Alimentar de Idosos em
Salto do Lontra, PR:
Um Estudo de Caso
GLÁUCIA PAULINO
DA SILVA
Economista Doméstica da
UNIOESTE – Campus de
Francisco Beltrão, PR.
LIRANE ELIZE FERRETO
Mestre em Saúde Coletiva.
Docente do Curso de
Economia Doméstica da
UNIOESTE – Campus de
Francisco Beltrão, PR.
avaliacao nutricional
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Resumo
O objetivo da pesquisa foi avaliar
nutricionalmente os idosos e seu consumo alimentar.
Como instrumento para verificar o peso, foi usada a
balança de consultório médico e, para verificar a altura, a fita métrica easyread. Realizou-se um estudo
de caso descritivo. O consumo alimentar foi verificado através de inquérito alimentar e de recordatório
24 horas, coletado durante uma semana. Das mulheres, 66,7% apresentaram peso normal, estando o restante abaixo ou acima do peso. Quanto aos homens,
25% estavam abaixo do peso e 75% com peso normal. Quanto ao consumo alimentar, os alimentos mais
consumidos são arroz, feijão, pão, sopa e café. O consumo de energia de ambos os sexos apresenta déficit.
Por outro lado, a ingestão de sódio é de quase 500%
(cinco vezes mais do que o recomendado) entre as
mulheres e de mais de 500% entre os homens. Esse é
um ponto importante, já que o excesso de sódio é um
dos fatores nutricionais que contribui para a hipertensão e, conseqüentemente, para as doenças
coronarianas. Deve-se investir em atividades e programas que incentivem uma alimentação saudável
que contribua a longo prazo para mudanças no perfil
da morbimortalidade da população idosa.
Palavras-chave: estado nutricional; envelhecimento; alimentação; saúde; consumo alimentar.
Abstract
The objective of the research was to
nutritionally evaluate the alimentary consumption
within aged people. The instruments used to verify
their weight were the medical doctor's office scale; for
their height, the easyread metric ribbon was utilized.
A descriptive case study was made. To verify their
alimentary consumption during one week, an
alimentary inquiry and a 24 hours reminder have
been used. Among women, 66,7 % showed normal
weight, while the remaining were either below or
above normal weight. Among men, 25% are below
normal weight and 75% present normal weight. As
to the alimentary consumption, the most ingested
products are rice, beans, bread, soup and coffee. The
energy intake of both genres is deficient. On the other
hand, sodium ingestion is nearly 500% (almost five
times more than the recommended rate) among
women and more than 500% among men. That’s an
important issue, since excessive consumption of
sodium is known to be one of the nutritional factors
that causes hypertension and, consequently, coronary
illnesses. Therefore, it’s necessary to focus in activities
and programs that stimulate healthful alimentary
habits that can contribute in the long term to changes
in the profile of the morbid-mortality of the aged
population.
Keywords: nutritional state; health ageing;
alimentation; alimentary consumption
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avaliacao nutricional
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Introdução
A modernidade e as descobertas no campo científico-tecnológico produziram grandes
avanços na área médica, contribuindo para a
redução das taxas de mortalidade, bem como
para a melhoria da prestação de serviços na
área social, que se refletiu na longevidade da
população.
Atingir a Terceira Idade é uma vitória.
Mas é importante considerar que essa é uma
etapa da vida que necessita de atenção e cuidados especiais com a saúde, principalmente com
relação à alimentação. Nessa fase, as pessoas
passam por uma série de alterações orgânicas,
socioeconômicas e ambientais, que influenciam as escolhas alimentares e determinam as
necessidades nutricionais. Avaliar o estado
nutricional e a freqüência alimentar contribui
para verificar como está a saúde dos idosos,
possibilitando intervenções na dieta alimentar
que, num curto espaço de tempo, podem produzir mudanças significativas no quadro das
doenças crônico-degenerativas.
Sabe-se que a alimentação é a principal
fonte dos nutrientes necessários ao desempenho das funções do organismo. Para fornecer
todos os nutrientes que o organismo necessita, é necessário que o consumo de alimentos
seja variado e em quantidades tais que possam
satisfazer essa necessidade.
Para a promoção da saúde na Terceira
Idade, é necessário manter o controle da
ingestão de nutrientes já que, no organismo
humano, a capacidade de sintetizá-los tem um
limite. Como o metabolismo interno diminui,
o organismo necessita em conseqüência de
menor quantidade de energia para desempenhar suas funções, ou seja, para manter seu
funcionamento normal. Os alimentos consumidos devem ser bem variados, compostos de
nutrientes de todas as fontes: carboidratos,
proteínas, lipídeos e vitaminas.
Referencial Teórico
O estado nutricional de uma população
expressa como, numa determinada situação, o
organismo é atendido em suas necessidades fisiológicas pelos nutrientes para manutenção de
sua composição e de suas funções. Deve haver
equilíbrio entre as necessidades do organismo
e os nutrientes ingeridos. Quando ocorre um
desequilíbrio entre a ingestão e os gastos para
manutenção, o estado nutricional sofre alterações que contribuem para o aumento da
morbimortalidade, principalmente entre crianças e idosos (ACUNA; CRUZ, 2004).
Dutra-de-Oliveira (1998) comenta que
um bom estado nutricional garante ao idoso
uma vida saudável e resistente a doenças crônicas e debilitantes. Caso contrário, a desnutrição e a obesidade podem se instalar.
A desnutrição pode provocar uma série de
complicações graves, como por exemplo:
infecções, deficiência de cicatrização de feridas, dificuldades do aparelho respiratório, insuficiência cardíaca, diminuição
da síntese de proteínas no fígado com produção de metabólitos anormais, diminuição da filtração glomerular e da produção de suco gástrico. (ACUNA; CRUZ,
2004, p.345-6).
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Já o sobrepeso ou obesidade agrava a saúde com a presença de doença isquêmica do
coração, hipertensão arterial, acidente
vascular cerebral, diabetes mellitus tipo 2,
colelitíase, osteoartrite, neoplasia maligna
de mama pós-menopausa e de endométrio,
esofagite de refluxo, hérnia de hiato e problemas psicológicos” (ACUNA; CRUZ,
2004, p.346).
A garantia da qualidade de vida na Terceira Idade depende de diversos fatores e
do estilo de vida do indivíduo, como os hábitos alimentares e a prática de atividade
física, pois o fornecimento adequado de
energia, proteínas, vitaminas e minerais
tem papel crítico na resposta imune e, portanto, a sua ingestão deficiente leva à tendência de contrair enfermidades
(DUTRA-DE-OLIVEIRA,1998).
Assim, uma correta avaliação nutricional
é fundamental para diminuir a “incidência de
doenças crônicas que é alta nos indivíduos idosos e o risco de desenvolvê-las ou de torná-las
mais graves, levando a incapacidades”.
(SAMPAIO, 2004).
Para verificar o estado nutricional dos
indivíduos, um dos instrumentos usados é a
antropometria, que tem se revelado um importante indicador. Esse instrumento fornece informações das “medidas físicas e de composição corporal e é método não-invasivo, de fácil
e rápida execução” (MENEZES; MARUCCI,
2005, p.170).
A avaliação antropométrica tem por objetivo verificar e controlar o peso corporal
para verificar possíveis mudanças de peso,
da composição corporal, da distribuição da
gordura e da água corporal, para identificar os possíveis riscos à saúde da população idosa (FRANK, 2004).
Consumo alimentar
A saúde na Terceira Idade é conquistada a partir de uma alimentação balanceada,
composta pelos diferentes alimentos, além de
variada nas cores e nas formas de preparo, bem
como na qualidade nutricional.
Devem estar presentes na alimentação do
idoso todos os grupos de alimentos. O grupo
dos construtores inclui feijão, carnes, leite e
derivados e grãos, responsáveis pela manutenção dos tecidos corporais e das células
especializadas do corpo.
O grupo dos reguladores atua no metabolismo orgânico e é composto pelas frutas e
verduras. O grupo dos energéticos, composto pelos cereais, raízes e tubérculos, é responsável pelo fornecimento de energia para
as atividades voluntárias ou involuntárias
do organismo. (FRANK, 2004).
A ingestão de energia recomendada para
o idoso varia de acordo com o sexo, a atividade
e a presença de doenças, entre outros fatores.
Recomenda-se uma ingestão de 1.900 kcal
para o sexo feminino e 2.300 kcal para o sexo
masculino (PHILIPPI, 1996) para suprir os
gastos vitais e das atividades diárias. Na prática, essa ingestão é o principal responsável pela
manutenção de um bom estado nutricional
(DUTRA-DE-OLIVEIRA, 1998).
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Frank (2004, p. 259) explica que:
A quantidade em que os alimentos são servidos ou ingeridos está diretamente relacionada à saúde do indivíduo, uma vez que
o consumo em excesso de alimentos e nutrientes implica no aparecimento de desordens orgânicas.
As desordens orgânicas resultam de uma
ingestão inadequada de nutrientes que é caracterizada, em geral, pela desnutrição ou pela obesidade. Segundo Campos, Monteiro e Ornelas
(2000), elas “se instalam devido a fatores que
afetam o consumo alimentar, como: fatores
socioeconômicos, alterações fisiológicas, efeitos colaterais de fármacos e diminuição de sensibilidade à sede.” Do ponto de vista
socioeconômico, a não-ingestão de uma alimentação adequada, por muitos idosos, pode ser
motivada por diversos fatores, como falta de
dinheiro e deficiências físicas que dificultam
as compras, fato que acaba em quadros de depressão e sentimentos de solidão.
Esses fatores podem conduzir os idosos à
desnutrição, acelerando o processo de envelhecimento, diminuindo as condições de
defesa orgânica, favorecendo, assim, o aparecimento de infecções (RODRIGUES;
DIOGO,1996).
Os hábitos alimentares desempenham
um papel considerável nas escolhas alimentares dos idosos (RODRIGUES; DIOGO,1996) e
há resistência em modificá-los, pois estão enraizados em preferências de paladar, em preconceitos, tabus, indiferença, inapetência, dificuldade de ingestão de líquidos e outros
(BARANZELLI, 2004).
O estado psicológico e emocional do
idoso afeta a ingestão de alimentos, já que alguns os usam como fonte de conforto e segurança, comendo excessivamente em decorrência de suas necessidade básicas de amor
(afetividade, contatos sociais). Problemas de
saúde também inerferem na alimentação adequada: idosos deprimidos não desejam comer.
A falta de estímulo para preparar e consumir
sozinho as refeições é outro aspecto a ser considerado (RODRIGUES; DIOGO, 1996).
Campos, Monteiro e Ornelas (2000,
p.163) comentam que, na realização do planejamento dietético alimentar, é imprescindível
a compreensão de todas as peculiaridades inerentes às mudanças fisiológicas naturais do
envelhecimento. E que é também imprescindível a análise dos fatores econômicos e
psicossociais, e das intercorrências farmacológicas associadas às múltiplas doenças que interferem no consumo alimentar e, sobretudo,
na necessidade de nutrientes.
Há que se procurar mecanismos que estimulem o idoso a consumir uma alimentação
saudável, que esteja de acordo com suas possibilidades e que lhe proporcione prazer. Caso
contrário, o idoso consumirá uma alimentação monótona e de baixo valor nutricional,
que contribuirá para aumentar suas debilidades orgânicas.
Metodologia
Foi realizado um estudo de caso
descritivo que corresponde a uma das formas
de pesquisa empírica, de caráter qualitativo,
sobre um fenômeno em curso e em seu contexto real (LIMA, 2004).
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A pesquisa foi feita junto a idosos que participam do Grupo Renascer, no Município de
Salto do Lontra, que tem 180 associados, sendo
as mulheres 60% e os homens 40%. Foi selecionado um pequeno grupo para a pesquisa já que,
em se tratando de um estudo de caso, o objetivo
é conhecer em profundidade a questão do consumo alimentar, correlacionado ao estado
nutricional. Optou-se por uma amostra intencional de oito membros. Para a seleção, foram
usados os seguintes critérios: a) residir na área
urbana do município, b) ser comunicativo, c)
representar liderança dentro do grupo e d) demonstrar interesse em participar da pesquisa.
A escolha ocorreu depois de vários encontros com o grupo, tendo sido identificados
os possíveis participantes da pesquisa a partir
dos critérios pré-estabelecidos. Depois de
contatados todos os depoentes para marcar as
entrevistas, foram agendados o horário e o local da coleta de informações, que foi realizada
de agosto a setembro de 2005, sendo utilizados os instrumentos padronizados para coleta.
Para a coleta de dados, utilizou-se a técnica da antropometria, conforme as orientações do
“Manual de Antropometria: como pesar e medir”, do Ministério da Saúde (SISVAN, 2004).
A aferição do peso corporal foi feita com
o mínimo de roupas possível, na balança yara
do consultório médico, encostando os calcanhares, quadris, escápula e parte occipital do crânio na superfície do aparelho. Para medir a altura, foi usada uma fita métrica easyread, com
marcação centímetro a centímetro até a altura
de 2 metros, estando o sujeito descalço.
Para a coleta dos dados de consumo alimentar, usou-se o inquérito alimentar e o
recordatório 24 horas, este último coletado
durante uma semana. A aplicação do questionário foi realizada pela pesquisadora, que op-
tou pela técnica de entrevista frente a frente.
Para avaliar o estado nutricional e o consumo alimentar dos entrevistados, optou-se
pelo software do Programa de Apoio à Nutrição (NUTWIN, 2002), que exige o peso em quilogramas (Kg) e a altura em centímetros (cm).
Para a análise dos dados antropométricos,
foi utilizado o Índice de Massa Corporal (IMC).
O estado nutricional foi classificado de acordo
com a proposta da FAO/OMS/UNU (FRANK,
2004, p.180), que estabelece para o sexo masculino o seguinte Índice de Massa Corporal (IMC):
## (- =) 20 kg/m2 baixo peso, 20,1 kg/m2 ≤
IMC ≤25 kg/m2 normal, 25,1 kg/m2≤ IMC≤
29,9 kg/m2 sobrepeso e IMC (+ =) ≥ 30 kg/
m2 como obesidade. Para o sexo feminino, a classificação é a seguinte: IMC ≤ 18,6 kg/m2 baixo
peso; 18,7 kg/m2 ≤ IMC ≤23,8 kg/m2 normal;
23,9 kg/m2≤ IMC≤ 28,5 kg/m2 sobrepeso e IMC
(+ =) ≥ 28,6 kg/m2 como obesidade.
Na análise do inquérito alimentar e do
recordatório alimentar, foram listados a freqüência do consumo alimentar e o consumo
de energia, vitaminas, minerais, proteínas,
carboidratos e gorduras, comparando-se esse
fatores com as necessidades nutricionais recomendadas para a população deste estudo.
Consideramos importante acrescentar
que os dados obtidos a partir da análise das entrevistas não pretendem ser generalizantes,
uma vez que a metodologia adotada não persegue tal finalidade por focalizar a relação do
sujeito (realidade micro) com as condições
macro-sociais que caracterizam os diferentes
períodos históricos em que os nossos
pesquisados viveram. Entretanto, entendemos
que os mesmos podem ser ferramentas úteis
para sujeitos que viveram durante um período
histórico com características semelhantes ao
que ora pesquisamos.
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Resultados
Tabela 1 - Distribuição do Estado Nutricional dos Idosos de Salto do Lontra,
Pr, Classificados por Sexo e de Acordo com os Valores Propostos
Pela FAO/OMS/UNU(1985).
IMC
Feminino (06)
Masculino (04)
Total (10)
N
%
N
%
N
Baixo peso
01
16,7
01
25
02
20
Normal
04
66,7
03
75
07
70
Sobrepeso
01
-
-
01
10
16,7
%
A tabela 1 apresenta os dados relativos à distribuição do estado nutricional dos idosos de
acordo com o IMC, sendo que 66,7% das mulheres estão na faixa normal, 16,7% com sobrepeso
e 16,7% com insuficiência de nutrientes. Quanto aos homens, 75 % estão dentro da normalidade
e 25% estão desnutridos. Observa-se que 70% da população entrevistada estão dentro da normalidade.
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Tabela 2. Distribuição da Freqüência de Consumo Semanal de Alimentos dos Idosos
de Acordo com a Faixa Etária
Alimentos *
Idade (60 a 70 Anos)
Consumo de 7 Dias
Idade (71 a 80 Anos)
Consumo de 7 Dias
Nº
%
Nº
%
Pão
4
57,1
6
85,7
Café
4
57,1
5
71,4
Margarina
2
28,6
2
28,6
Leite
2
28,6
3
42,9
Banana
2
28,6
4
57,1
Carne de gado
3
42,9
5
71,4
Carne de frango
3
42,9
1
14,3
Feijão
6
85,7
4
57,1
Arroz
7
100,0
7
100,0
Alface
4
57,1
2
28,6
Repolho
1
14,3
2
28,6
Sopa
3
42,9
6
85,7
Macarrão
2
28,6
3
42,9
Água
5
71,4
7
100,0
Vinho
0
00,0
2
28,6
Biscoito
4
57,1
2
28,6
A tabela 2, que apresenta a distribuição da freqüência de alimentos, mostra que o grupo com
idade entre 60 e 70 anos tem preferência por arroz (100%), feijão (85,7%), água (71,4%) pão
(57,1%), café (57,1%), alface (57,1%), biscoito (57,1%), carne de gado (42,9%), carne de frango
(42,9%), sopa (42,9%), margarina (28,6%), leite (28,6%), banana (28,6%), macarrão (28,6%) e
repolho (14,3%). Os idosos de 71 a 80 anos consomem arroz (100%), pão (85,7%), sopa (85,7%),
café (71,4%), carne de gado (71,4%), banana (57,1%), feijão (57,1%), leite (42,9%), macarrão
(42,9%), margarina (28,6%), alface (28,6%), repolho (28,6%), vinho (28,6%), biscoito (28,6%) e
carne de frango (14,3%). Observa-se que o consumo alimentar é maior na faixa dos 71 aos 80 anos.
(*) Obs. Cálculo feito a partir da média de freqüência do consumo.
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Tabela 3 - Distribuição de Energia dos Nutrientes Consumidos Semanalmente Pelos Indivíduos
Idosos.
Nutrientes *
Sexo Feminino (04)
Sexo Masculino (06)
Recomendado
Consumido
%
Recomendado
Consumido
%
Energia
1.900
1.518,3
-20,1
2.300
1.562,158 -32,18
Proteína
(10 a 15%)
190 – 285
70,25
- 63,1/-75,4
230 – 345
77,6
-66,2/-77,5
Lipídio
(15 a 30%)
285 – 570
55,81
-80,4/-90,2
345 – 690
48,6
-85,1/-92,1
Carboidratos
(60 a 70%)
1.140 – 1.330 192,67
-83,1/-85,6
1.380 – 1.610 206,6
-85,1/-87,2
A tabela 3 apresenta o consumo de energia, proteínas, lipídios e carboidratos dos entrevistados. Observa-se que, no sexo feminino, a ingestão recomendada de 1.900 kcal está com um
déficit de –20%, sendo que, no caso das proteínas, o déficit é de – 63,1% a - 75,4%; no caso dos
lipídios é de –80,4% a -90,2%; no dos carboidratos, de –83,1% a -85,6%. No sexo masculino, a
ingestão recomendada de 2.300 kcal tem um déficit de –32,1%, sendo o déficit de ingestão de
proteína de -66,2% a -77,5%; de lipídios de –85,1% a -92,1%; de carboidratos de – 85,1% a 87,2%.
(*) Obs. Cálculo feito a partir da média de freqüência do consumo de alimentos.
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Tabela 4 – Distribuição Média dos Nutrientes Minerais e Vitaminas Consumidos Semanalmente
Pelos Idosos de Acordo com o Sexo.
MINERAIS
VITAMINAS*
SEXO FEMININO (06)
Recomendado (mg)
Ca
P
Mg
Fe
Na
K
Zn
Vit. A
Vit. E
Vit. C
Niacina
Vit. B6
Vit. B12
800
800
280
10
500
2.000
12
800
8
60
13
2
2
Consumido
455
926
265
12
2.288
1.816
8
355
4
37
15
1
2
SEXO MASCULINO (04)
%
-43,1
15,8
-5,4
20,0
457,6
-9,2
-33,3
-55,6
-50,0
-38,3
15,4
-50,0
0,0
Recomendado(mg)
Consumido
800
800
350
10
500
2.000
15
1.000
8
60
15
2
2
493
1.030
312
14
3.692
2.279
10
218
3
63
16
1
3
%
-38,4
28,8
-10,8
40,0
638,4
14,0
-33,3
-78,2
-62,5
5,0
6,7
-50,0
50,00
A tabela 4 apresenta a distribuição de vitaminas e minerais na dieta alimentar das mulheres idosas. O consumo de vários minerais apresenta déficit: cálcio - 43,1%, magnésio -5,4%,
potássio – 9,2%, zinco - 33,3%, vitamina A -55,6%, vitamina E –50%, vitamina C –38,3% e
vitamina B6 -50%. Alguns minerais apresentam um consumo acima do recomendado: fósforo
15,8%, ferro 20%, sódio 457,6% e niacina 15,4%. Dos minerais da dieta, a vitamina B12 é o
único com o percentual adequado. No sexo masculino, há déficit de cálcio -38,4%, magnésio –
10,8%, zinco -33,3%, vitamina A -78,2%, vitamina E -62,5% e vitamina B6 – 50%. Acima do
recomendado: fósforo 28,7%, ferro 40%, sódio 638,4%, potássio 14,0%, vitamina C 5%, niacina
6,7% e vitamina B__ 50%.
(*) Obs. Cálculo feito a partir da média de freqüência do consumo de alimentos.
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Discussão
Fatores econômicos, culturais, sociais,
hábitos alimentares e uma ingestão incorreta
de nutrientes podem ser os fatores que contribuem para que 10% a 20% dos idosos entrevistados estejam desnutridos ou com
sobrepeso. Esses dados são semelhantes aos
encontrados pela pesquisa de Coutinho (1991
apud CAMPOS; MONTEIRO; ORNELAS,
2000). Os dados do estudo das mesmas autoras correspondem aos encontrados na pesquisa sobre prevalência de sobrepeso e obesidade
no sexo feminino. “O sobrepeso e, principalmente, a obesidade afetava, proporcionalmente, mais as mulheres do que os homens” (CAMPOS; MONTEIRO; ORNELAS, 2000, p.159).
Apesar do índice de 70% ser eutrófico, é necessário que o idoso dê atenção aos alimentos
que está ingerindo. A alimentação deve ser
devidamente balanceada para a promoção de
sua saúde.
A prevalência de desvios nutricionais
entre os idosos pode ser decorrente de condições peculiares do ambiente onde o idoso convive, de condições socioeconômicas e fisiológicas naturais da idade e pelo fato do idoso perder progressivamente, ao longo dos anos, a
mobilidade para realizar atividades diárias.
Nesse contexto, os efeitos da alimentação
inadequada, tanto por excesso como por
déficit de nutrientes, têm expressiva representação, o que reflete um quadro latente
de má nutrição em maior ou menor grau.
(CAMPOS apud CAMPOS; MONTEIRO;
ORNELAS, 2000, p.158).
Na análise do consumo alimentar, a tabela 2 revela que o idoso não tem uma alimentação saudável, variada e equilibrada. Sua dieta, conforme a tabela 3, não atinge o índice recomendado de calorias para manter suas atividades diárias. A dieta é pobre, constituída predominantemente de carboidratos, que são fonte
direta de energia mas que, quando ingeridos
em excesso, contribuem para o acúmulo de
gordura. Outro fator relevante é a monotonia
da dieta, baseada em alimentos de fácil preparo e baixo custo de aquisição.
Café é um alimento consumido diariamente entre os idosos estudados. Esse alimento apresenta um baixo valor nutricional, além
de ser prejudicial em presença de enfermidades como a hipertensão e a osteoporose
(FRANK, 2004).
O consumo de vinho se restringe à população masculina. Segundo Angelis (2000),
o hábito de ingerir pequenas doses de vinho
pode reduzir o risco de doenças cardíacas e
proteger o idoso contra a osteoporose.
Quanto ao consumo de proteínas, há um
déficit com relação ao percentual recomendado, o que demonstra que o consumo de alimentos desse grupo fica a desejar. As proteínas
desenvolvem um papel importante no organismo: a manutenção dos tecidos e sistemas
(FRANK, 2004).
O consumo de lipídios se limita ao de
óleo/banha do preparo das refeições. O consumo de margarina também está abaixo do recomendado para pessoas com mais de 60 anos. A
falta de lipídios pode comprometer as funções
energéticas, estruturais e hormonais do organismo, assim como seu excesso contribui para
o aparecimento de várias doenças crônicas.
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Frank (2004) comenta que, no idoso, as
alterações da composição corporal e a perda de
massa magra se refletem em alterações do requerimento de nutrientes, dentre eles os
energéticos e protéicos, que podem se tornar
deficitários com relação às necessidades do organismo.
A redução da massa protéica com o avançar da idade pode ser resultado de inúmeros fatores, como: redução da taxa de síntese protéica, aumento da degradação de
proteínas, diminuição da ingestão de proteínas e/ou energia, e/ou redução das atividades contráteis voluntárias. (FRANK,
2004, p.78).
Mesmo com um consumo deficitário,
encontramos idosos com sobrepeso, o que pode
significar que, embutido na alimentação, há um
consumo alto de calorias vazias, como as dos
açúcares, além da falta de atividade física.
Com relação às recomendações
nutricionais dos minerais e vitaminas, destaca-se um déficit para ambos os sexos. Isso demonstra que a dieta está pobre em alimentos à
base de cálcio, como o leite e seus derivados.
(…) sua inadequação nutricional, aliada
a outros fatores, culmina com o enfraquecimento da massa óssea e o desenvolvimento da osteoporose, levando à perda da autonomia e da qualidade de vida no decorrer do envelhecimento. (FRANK, 2004,
p.144).
Observa-se que os dados coletados são
semelhantes aos apresentados por Frank
(2004) numa pesquisa com idosos italianos não
institucionalizados, que também apresentaram
déficit de cálcio e ingestão (próxima a) adequada de ferro.
A ingestão de magnésio pelos idosos está
próxima do recomendado. Estudos sugerem
que o magnésio desempenha um papel relevante na homeostase da glicose (REIS; VELLOSO,
2002). É deficitária a ingestão de potássio, um
mineral que tem a função de manter o equilíbrio hidroelebolítico, que é importante na contração muscular, já que transmite os impulsos
nervosos. Sua deficiência pode ocasionar fraqueza muscular, paralisia e confusão
(ANGELIS, 2000).
O índice de inadequação de zinco é superior a 30%. A ausência desse mineral na dieta alimentar pode comprometer o sistema
imunológico, já que a ausência da vitamina E
pode comprometer a membrana celular e não
inibir a “peroxidação do LDL–colesterol, que
poderia, desta forma, promover um bloqueio
da oxidação nas artérias coronarianas que conduziria à aterosclerose e a ataques cardíacos”
(FRANK, 2004, p.104-5).
A ingestão de vitamina A e C também
apresenta déficit, sendo o da primeira maior
entre os homens e o da segunda existente apenas entre as mulheres. As variações no nível
de ingestão da vitamina A podem ser um fator
de risco para infecções ou neoplasias. Os dados de Frank (2004) são semelhantes aos
coletados quanto ao baixo consumo de vitamina A pelos homens, principalmente entre aqueles que moram sozinhos. A deficiência de vitamina C no organismo contribui para uma série de implicações fisiológicas e nutricionais.
Como exemplo, temos o escorbuto e danos
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oxidativos que levam ao envelhecimento celular e a doenças crônico-degenerativas
(FRANK, 2004).
A ingestão da vitamina B6 apresenta
déficit de 50% na dieta dos idosos. Frank
(2004) comenta que é possível que essa vitamina influencie os níveis de homocisteína, fator de risco para o desenvolvimento de enfermidades cardíacas.
O fósforo, o potássio, a niacina, a vitamina B12 e o sódio apresentaram uma ingestão
acima da recomendada. É de se ressaltar que a
ingestão de sódio está próxima a 500% nas
mulheres e superior a esse índice nos homens.
Sabe-se que o excesso de sódio é um dos fatores nutricionais que contribuem para o desenvolvimento da hipertensão arterial e de doenças cardiovasculares (BISI; CUNHA;
HERKENHOFF, 2003).
Considerações Finais
Esta avaliação do estado nutricional de
idosos concluiu que 70% deles estão na faixa
da normalidade. Mas, embora não apresentem
risco nutricional, esses idosos podem ser considerados uma população de risco, devido ao
consumo inadequado de nutrientes. Há uma
baixa ingestão de frutas e verduras e uma alta
ingestão de sódio e lipídios, situação que pode
induzir prejuízos à saúde, facilitando o desen-
volvimento de doenças cardiovasculares. Na
Terceira Idade, o déficit de nutrientes no organismo aumenta a probabilidade de instalação
de infecções e diminui a resistência do organismo. Os alimentos que fazem parte da dieta
alimentar são aqueles de baixo custo e de fácil
preparo.
Além do exposto, nessa dieta inadequada podem estar presentes outros fatores, como
a dificuldade no preparo dos alimentos por falta de mobilidade física, a falta de disponibilidade para o preparo, a falta de recursos financeiros, determinados hábitos alimentares, entre outros. Hábitos alimentares não saudáveis
favorecem o adoecimento, que geralmente resulta na instalação de doenças que exigem tratamento por períodos prolongados e intervenções caras com alta tecnologia (PAPALÉO
NETTO, 2002).
Entre os mecanismos para promover saúde à população da Terceira Idade, está a promoção de programas preventivos. Sem dúvida,
a educação alimentar deve ser entendida como
área prioritária de atuação. A educação alimentar objetiva a adoção voluntária de hábitos alimentares saudáveis, para que o indivíduo adquira saúde e bem-estar (CERVATO, 2005)
Portanto, é altamente recomendável o
investimento em atividades e programas que
incentivem uma alimentação saudável, para
que se alcance mudanças significativas no perfil da morbimortalidade da população idosa.
51
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A Terceira Idade, São Paulo, v. 17, nº 36, p.39-52, jun. 2006
avaliacao nutricional
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A Motivação do
Idoso em Programas
Intergeracionais de
Atividades Físicas
MARCIA NEIDE
ZMORZYNSKI
Professora de Educação
Física, graduada na
Pontifícia Universidade
Católica do Paraná – PUC/
PR. Extensão
Universitária em
Psicogerontologia:
Fundamentos e
Perspectivas, realizada na
Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo PUC/SP.
Instrutora de Atividades
Físicas do SESC/SP - Vila
Mariana.
motivacao
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Resumo
Este artigo relata a necessidade observada de um trabalho intergeracional num programa de atividade física que tem como foco principal a manutenção de indivíduos da terceira idade em atividades regulares de treinamento de força. Mostra as barreiras internas e externas que
os idosos enfrentam ao tentar superar a mudança de comportamento que a prática de exercícios
exige. Depois, conclui, através de uma pesquisa,
que o afastamento está ligado à dificuldade de
relacionamento com indivíduos mais jovens. Cita
a importância do profissional como mediador ao
proporcionar atividades que visem a aproximação entre pessoas de diferentes faixas etárias, promovendo assim a troca de conhecimentos e afetos
para combater a intolerância e o preconceito
etário, que ainda se processam na sociedade atual. Enfatiza a necessidade do idoso se valorizar
para ser valorizado, tendo sempre projetos para
tornar a vida mais produtiva e para mostrar que
é capaz de produzir e acrescentar, em qualquer
idade, ao grupo social a que pertence. Na prática, isso corresponde ao nível de segurança em que
o idoso se encontra porque, para um convívio social saudável, deve ser priorizado o respeito pelas
limitações individuais para que esse idoso possa
realizar qualquer atividade sem constrangimento. Por isso, criou-se um novo programa que inclui alternativas com especialistas da área para
desenvolver atividades adaptadas e de
integração. Concluiu-se que tanto a procura
quanto a manutenção dos alunos aumentou, mas
um melhor aproveitamento só aconteceria se
mudássemos a compreensão da sociedade com
relação ao processo de envelhecimento.
Palavras chave: atividade física; intergeração; idosos; jovens; barreiras; sociedade.
Abstract
This article describes the need of keeping
the elderly on exercising activities on a regular
basis, noted through an intergeneration work
applied in a program of physical activity whose
main focus is fitness in old age. It shows the
internal and external obstacles the senior citizens
face when trying to overcome the change of
behavior related to the exercise practices. Then it
concludes, based on a research, that their
withdrawal is linked to the difficulty of
relationship with younger people. It points out the
importance of a qualified professional’s rule as a
mediator to bring out activities which can reduce
the distance among people of different ages,
providing an exchange of knowledge and affection
to put out the intolerance and the age prejudice,
which still happens nowadays. It emphasizes the
necessity that the elderly have to value themselves
in order to be valued by others, having always
some projects to make their lives more productive
to show that they are capable to produce and to
add, at any age, to the social group they belong.
In practice, this is related to the level of security
in which the elderly find themselves, because a
healthy social conviviality depends of a priority
given to respect for individual limitations so that
these senior citizens may perform any activity
without constraint. That is why a new program
was created in which alternatives are sought with
specialized people of this area to develop suitable
activities of integration. The conclusion was that
the interest of students as well as their support
have increased, but a better utilization of it would
only happen if we changed the understanding of
the society in relation to the aging process.
Keywords: physical activity; intergeneration; elderly
people; young people; obstacles; society.
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Introdução
O aumento do índice de envelhecimento
populacional gerou estimulou a busca pela
melhoria da qualidade de vida das pessoas da
chamada Terceira Idade. Esse fenômeno fez
com que os estabelecimentos que oferecem programas de atividades físicas se reestruturassem
para atender esse novo público. Uma das preocupações passou a ser o desenvolvimento de
atividades físicas mais adequadas para a população de idosos, com o intuito de propiciar um
envelhecimento com qualidade de vida.
As mudanças que ocorrem ao longo do
processo de envelhecimento, no aspecto físico,
psicológico ou social, podem substituir rotinas
saudáveis por hábitos sedentários, acarretando sérios problemas para o idoso, como: redução no desempenho físico, diminuição da concentração mental, prejuízo da coordenação
motora, perda de força e massa muscular, rebaixamento da auto-estima, insegurança, isolamento social, apatia e perda de motivação.
A diminuição do desempenho físico é um
processo natural do envelhecimento mas, através da manutenção de uma vida ativa, esse processo pode ser amenizado de diversas formas,
como atestam os estudos e pesquisas na área.
Além disso, constata-se uma considerável evolução de conhecimentos na literatura
especializada. Publicações anteriores a 1995
condenavam com veemência o treinamento de
força para pessoas idosas, recomendando somente exercícios aeróbicos, como caminhadas.
A partir de 1995, essa visão passou a ser questionada em vista da constatação de inúmeros e
importantes benefícios do treinamento de força para esse grupo etário.
As pesquisas mostram que, a partir dos
30 anos de idade, as pessoas começam a perder
massa muscular, enquanto o percentual de gordura tende a aumentar. Perda de massa muscular significa perda de força, que vai se agravando com o tempo, a ponto de não se suportar com eficiência o peso do próprio corpo.
Hoje é bem estabelecido que o treinamento de força é mais um aliado na melhoria
da qualidade de vida quando o assunto é a saúde do idoso. Cada vez mais evidências científicas vêm apontando os ganhos de uma vida mais
ativa, um dos benefícios do trabalho orientado. Como resultado do treinamento de força
pode-se observar:
• mais velocidade ao andar;
• mais equilíbrio;
• auxílio no controle do diabetes, artrite
e doenças cardíacas;
• melhora da ingestão alimentar;
• diminuição da depressão;
• aumento da auto-estima;
• fortalecimento da musculatura;
• melhora dos reflexos;
• diminuição de problemas
cardiovasculares;
• manutenção da densidade óssea, prevenindo a tão temida osteoporose e suas
conseqüências degenerativas.
As quedas constituem um fato muito
comum na Terceira Idade, já que, por falta de
uma musculatura preparada, os idosos ficam
mais vulneráveis a fraturas. Daí a importância
de um reforço muscular. O músculo deve estar
forte para suportar qualquer tipo de fratura e
proteger a estrutura óssea.
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A motivação como fator primordial na integração
do idoso às demais gerações
Para que sejam alcançados todos os benefícios proporcionados a jovens e idosos pelas atividades físicas em geral e pelo treinamento de força em particular, é de suma importância que o praticante tenha prazer na prática
desses exercícios. É imprescindível que o corpo e a mente estejam em equilíbrio.
Ao procurar um programa de exercício
resistido para se exercitar, o idoso obtém informações sobre seus benefícios e, por isso,
passa a praticá-lo regularmente. Todavia, constatamos em nossa pesquisa que ele não consegue se manter nesse programa por mais de três
meses. Com isso, surgiu a pergunta:
• Por que esses idosos, tão disciplinados
e conscientes da importância da atividade física para a saúde, não conseguiram se manter
no programa de forma regular?
A experiência como professora de educação física me levou à proximidade com indivíduos de diversas faixas etárias, mas o contato
com idosos sempre me agradou mais. Em todos
os programas de atividade física de que participei, houve uma enorme dificuldade para manter o idoso de forma duradoura. Apesar dos esforços para reverter esta situação, não havia uma
estrutura que garantisse uma permanência mais
prolongada do idoso nessas atividades.
Pesquisando a literatura, encontramos
menções a algumas barreiras que podem contribuir para o afastamento dos idosos. Mas
uma pesquisa junto aos ex-alunos de tais cursos, com o objetivo de investigar os reais motivos que os levam à desistência, se mostrou
indispensável.
Os depoimentos colhidos indicaram que
a falta de interação intergeracional era o fator
que afastava os idosos dos programas de atividades físicas. Ficou claro que a relação entre
os mais velhos e os mais jovens precisava ser
repensada e que era preciso implementar alguns ajustes para motivar os idosos a continuar se exercitando nesse ambiente.
Reformulamos o nosso antigo programa
e tivemos resultados significativos, mas descobrimos que, para se obter um resultado realmente efetivo, precisaríamos mudar a sociedade no que diz respeito ao processo de envelhecimento.
Segundo O’Brien-Cousins (2002), os idosos enfrentam algumas barreiras cuja superação significa mudança de comportamento no
tocante à prática de exercícios. O autor fala de
“barreiras internas” e de “barreiras externas”.
As barreiras internas são aquelas relacionadas ao pensamento individual, aos sentimentos dos idosos, e foram assim classificadas
pelo autor:
a) Sentimento de intimidação - entendido como constrangimento pelo fato da
mídia veicular o corpo perfeito associado à prática de exercícios, o que faz com
que os idosos se constranjam com seu
corpo quando comparados a participantes mais jovens;
b) Ansiedade psicológica social - são os
sentimentos negativos que os idosos podem apresentar em resposta à possível
avaliação de que podem ser alvo por parte dos outros;
c) Saúde percebida - muitos idosos acreditam que não podem realizar atividades
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físicas por apresentarem determinadas
patologias ou ainda por limitações normais do processo de envelhecimento;
d) Baixa autoconfiança - muitas vezes, o
idoso não se acha mais capaz de realizar
as atividades propostas dentro de um programa e passa a evitá-lo, temendo o
insucesso;
e) Orientação de resultados - por causa
de experiências anteriores com atividades físicas que não apresentaram resultados, imaginam que agora, nesta fase da
vida, também não terão nenhum resultado quando se exercitarem.
f) Falta de tempo percebida - o idoso procura se ocupar com os afazeres do lar e
não prioriza os cuidados com a saúde,
deixando de reservar para eles uma parte do seu tempo.
As barreiras externas estão relacionadas
ao ambiente, a situações e à sociedade, e são
classificadas da seguinte forma:
a) Tecnologia orientada para a comodidade - ela promove e estimula a inatividade;
b) Falta de estímulo por parte da família
- muitas vezes por preconceito e falta de
conhecimento, ou por acreditar na falsa
idéia de que os velhos são frágeis e não
devem se exercitar;
c) Falta de companhia – como não conhece outras pessoas que fazem atividade física, o idoso fica inseguro ou sem
estímulo;
d) Distância do local para a prática - muitos idosos não têm, perto de casa, ambientes adequados para a prática de atividades físicas.
Certas condições médicas exigem programas modificados de atividades físicas, sendo necessário que um profissional especializado desenvolva um programa seguro e ao mesmo tempo prazeroso para essa faixa etária.
Assim, a falta de profissionais qualificados
poderia ser, # indiretamente, um dos motivos
das desistências.
Todos esses fatores podem pesar tanto
na procura quanto no afastamento dos idosos,
mas ainda assim acredito haver um motivo
mais forte para as desistências, pois os idosos
que procuram um programa de atividade física
já superaram, pelo menos em parte, as barreiras citadas acima: caso contrário, não teriam
deixado a ociosidade.
Para nos certificar do real motivo que
levou esses idosos a desistir das aulas, entramos em contato com 70 ex-alunos com mais
de 59 anos. Para a nossa surpresa, 68% deles
responderam que o motivo mais significativo
da sua desistência era a falta de motivação com
relação ao ambiente onde eram realizadas as
atividades físicas. Concluí que o problema não
estava relacionado ao espaço físico mas à falta
de entrosamento intergeracional, já que as relações entre os alunos de diferentes faixas
etárias não estavam de acordo com as expectativas dos indivíduos de idade mais avançada.
Era preciso criar um trabalho de atividades envolvendo todos os freqüentadores do
programa para que houvesse uma aproxima-
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ção entre pessoas de diferentes idades, promovendo a troca de conhecimentos e afetos para
se combater a intolerância e o preconceito
etário, ainda existente.
Está comprovado, por meio de pesquisas
científicas, que a atividade física contribui para
a qualidade de vida. No entanto, além desses
benefícios, buscamos a manutenção efetiva do
aluno nas atividades propostas, pois o bem-estar físico por si só não consegue manter o indivíduo por muito tempo em um determinado
ambiente, se ele aí não se sentir acolhido.
A participação em grupo propicia a
melhoria das relações sociais, o que acontece
mais facilmente quando temos pessoas da mesma faixa etária, com vivências e ideais parecidos. Num ambiente freqüentado por diferentes gerações, pode haver dificuldades de
integração. O idoso pode se sentir excluído,
uma vez que a sociedade preza a juventude, a
beleza e a força física. Os jovens, por sua vez,
não dão o devido valor aos velhos, que representam o oposto de tudo aquilo que é valorizado em nossa sociedade. Então, como pode o
idoso se sentir bem num espaço onde a maioria dos freqüentadores tem como referência o
padrão estético de pessoas jovens?
Como afirma Neri (1993), o idoso precisa acreditar que, na velhice, também ocorrem
ganhos e não apenas perdas, ou seja, que há
potencialidades e limitações, como ao longo de
todo o desenvolvimento. O mais importante é
que os idosos passem a valorizar os ganhos em
vez de apenas lamentar as perdas.
A forma de envelhecer está intimamente ligada à sociedade em que o idoso se insere.
Historicamente, verifica-se que o envelhecimento é tratado de forma diferente em cada
sociedade e mesmo em diversos momentos de
uma mesma cultura. Por um lado, valores culturais sedimentados por décadas exaltam o
potencial da juventude, associando a velhice à
improdutividade e à decadência. Por outro lado,
como o fenômeno do envelhecer é sempre cultural, o meio interfere diretamente sobre esse
processo (SALGADO, 1980; MERCADANTE,
1998).
Antes de tudo, o idoso deve se valorizar
para, então, ser valorizado. A idealização de
projetos de vida na Terceira Idade é também
de suma importância, pois lhe proporcionará
uma vida mais produtiva e a oportunidade de
mostrar à sociedade que é capaz de produzir
bons frutos. Com isso, as pessoas que estiverem ao seu redor terão a oportunidade de ver
essa fase da vida de forma diferente, passando a acreditar que a Terceira Idade não representa o fim, já que inaugura uma nova fase
com novos desafios a enfrentar. Assim, é conquistado o respeito dos jovens e o conceito de
“velho acabado” é substituído pelo de “velho
ativo”.
Completando o raciocínio, cito Beauvoir
(1990):
Como todas as situações humanas, a velhice tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo
e, portanto, sua relação com o mundo e com
a própria história. Por outro lado, o homem
não vive em estado natural. Na sua velhice, como em qualquer idade, seu estatuto é
imposto pela sociedade à qual pertence(...)
A sociedade destina ao velho seu lugar e
papel levando em conta sua idiossincrasia
individual, sua impotência, sua experiência. Reciprocamente, o indivíduo é condicionado pela atitude prática e ideológica
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da sociedade em relação a ele. Não basta,
portanto, descrever de maneira analítica
os diversos aspectos da velhice. Cada um
desses aspectos vai reagir sobre os outros e
ser afetado por todos esses outros. É nesse
movimento indefinido dessa circularidade
que é preciso apreender a velhice.
Um convívio social saudável com os idosos implica o respeito às suas limitações individuais, inclusive nas atividades físicas. Para
que esse clima favorável aconteça, o profissional envolvido precisa desempenhar um papel
de mediador entre o jovem e o idoso. O exercício dessa mediação exige do técnico um
aprofundamento de seus conhecimentos da
biologia e da psicologia do envelhecimento.
A partir de um embasamento teórico e
prático, elaboramos propostas de desenvolvimento das atividades já existentes. Evidenciouse a necessidade de fazer adaptações nas mesmas face às características físicas dos idosos.
A elaboração do trabalho intitulado
“Exercícios adaptados para a Terceira Idade”,
realizado por uma equipe de técnicos do SESC,
da qual fizemos parte, juntamente com a
capacitação e atualização dos profissionais envolvidos nessa área, tem permitido uma avaliação permanente dos professores em relação às
atividades, proporcionando subsídios significativos para a melhoria do programa já existente.
Este novo programa inclui atividades físicas adaptadas ao idoso, palestras com psicólogos e especialistas na área de gerontologia e
atividades conjuntas em salas de ginástica para
jovens, adultos e idosos. A principal preocupação consistiu na integração de gerações.
Com a melhoria dos programas, notou-se
uma demanda maior de alunos da Terceira Ida-
de pelos nossos serviços. Registrou-se não só um
aumento no ingresso às atividades como também uma permanência mais prolongada nos
cursos. O resultado foi realmente significativo.
Conclusão
Concluindo, cito Mardegan Júnior
(1993, p.71)
Uma nova abordagem sobre a meia-idade
do homem pressupõe não só uma revisão
de muitos valores e crenças enraizados na
nossa cultura como também uma
reformulação do modelo de vida e do papel
do homem na sociedade. Sem que se promovam mudanças de postura e de enfoque
que permitam apreender o que significa
realmente este período da vida do homem,
muito dificilmente se conseguirá estabelecer uma nova abordagem que contribua
para eliminar toda a mística que envolve
essa fase de transição. Além do mais, serão ainda necessários alguns anos e muitas pesquisas sobre a idade adulta para
confirmar ou não muitas afirmações e observações que ajudam a compor a imagem
negativa e destrutiva que acompanha a
crise da meia-idade. Um dos pontos que
precisam ser reformulados é a maneira
como encaramos o processo de envelhecimento. Nossa sociedade precisa urgentemente compreender que se tornar velho não
significa ser senil, enfermiço e assexuado.
A aproximação da velhice não reduz drasticamente qualquer faculdade do indivíduo
que o impeça de continuar ativo e útil ao
grupo social a que pertence.
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Entrevista
Professor
Hermógenes
José Hermógenes de Andrade Filho nasceu em 1921, em Natal, Rio
Grande do Norte. Considerado o pioneiro em medicina holística no Brasil,
possui mais de 42 anos de prática e ensino de yoga. Filósofo, poeta, escritor
e terapeuta, o professor Hermógenes costuma dizer que se sente mais jovem
hoje, aos 85 anos, do que se sentia aos 35. Doutor em yogaterapia, título
concedido pelo World Development Parliament, da Índia, é o criador do
treinamento anti-stress.
Mestre em Hatha Yoga, escreveu o livro "Autoperfeição com Hatha
Yoga", seu maior sucesso editorial. A esse livro seguiram-se outros 30,
alguns editados no exterior, além da tradução de seis volumes de cunho
filosófico e espiritualista. Publicou, entre outros, “Yoga para Nervosos” e
“Saúde na Terceira Idade”.
entrevista hermogenes
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REVISTA – E os primeiros anos no Rio de
Janeiro?
REVISTA – Conte-nos sobre seus primeiros anos.
Como era a vida na cidade de Natal, no Rio
Grande do Norte?
HERMÓGENES – Nasci em Natal numa família
que, graças a Deus, era pobre, de forma que a
possibilidade de me perder neste mundo foi
reduzida pelas dificuldades que tive de enfrentar na infância. Era grande a preocupação com
o orçamento familiar e houve muito sacrifício, principalmente da minha mãe, que trabalhava muito, e do meu pai também. Estudei
num colégio estadual e, quando terminei o ginásio, tinha desejo e capacidade para seguir
qualquer carreira, mas não havia nenhuma
faculdade, nada que me permitisse estudar.
Perdi um ano assim. Depois me ocorreu que
poderia entrar para a vida militar fazendo a
Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro.
Se fosse aprovado, teria logo casa para morar, uniforme, alimentação e um salário, além
da educação. Então, resolvi me inscrever. A
distância era grande, mas eu tinha um irmão
que trabalhava numa repartição estadual. Apesar do salário modesto, ele conseguiu juntar
alguma coisa para que eu viesse para a casa
de minha avó, que morava no Rio, a fim de
estudar para fazer o concurso para a Escola
Militar.
HERMÓGENES – Tive dificuldades imensas por
dois ou três anos. Era um problema depois do
outro, imprevistos aconteceram e eu tive que
lutar como um leão para sobreviver. Nessa época, eu teria uns 17 ou 18 anos. Mas consegui
vencer: ingressei na Escola Militar de Realengo,
passei no concurso; três anos se passaram e saí
aspirante do Exército. Como era época da Guerra, fui mandado para um regimento que, pelo
que se dizia, seria a última remessa de soldados brasileiros para a Europa. Estava preparado para ir para a guerra, mas minha mãe orou
tanto que acabou com ela antes que eu embarcasse (risos).
REVISTA – Isso ocorreu, portanto, em 1945, último ano da Segunda Guerra...
HERMÓGENES – Em 1945, por aí. Eu não sou
muito bom para memorizar datas, o que me
importa é o que está acontecendo hoje. Então,
tive uma vida normal no regimento, casei, tive
duas filhas. Mas o primeiro casamento terminou em desquite. Hoje as duas filhas já são avós
e eu já tenho bisnetos.
REVISTA – Nos anos 60 o senhor teve sérios problemas de saúde e essa experiência foi decisiva
em sua vida, não foi?
HERMÓGENES – Sim, eu tinha 35 anos quando
fui tomado por uma tuberculose. A doença foi
para mim um sofrimento e uma ameaça mas,
pela graça de Deus, foi também uma misericórdia divina na minha vida. Até de situações
como essa é possível tirar proveito, desde que
se confie em Deus. A yoga nem existia no Brasil, mas eu a conheci através da literatura es-
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A Terceira Idade, São Paulo, v. 17, nº 36, p.61-70, jun. 2006
entrevista hermogenes
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trangeira. Resolvi experimentar a yoga, fazer
uma experiência prática, e ela alavancou a
cura da tuberculose. Ao mesmo tempo, transformou a minha vida, transformou a minha
mente, transformou o meu caráter para melhor. A transformação foi tão auspiciosa que
me senti em dívida e obrigado a preparar um
livro que divulgasse a yoga, contribuindo para
a melhora de quem a praticasse. Tive então
essa experiência pessoal, eu e Deus, e dali tirei esse resultado. Compreendi que havia um
método e queria que outras pessoas tirassem
proveito dele. Esse método, que hoje é conhecido como Método Hermógenes, já salvou
muita gente, tem transformado muita gente.
Esse meu primeiro livro teve até agora 47 edições. Veja a quantidade de pessoas que se
transformaram e que começaram yoga através desse livro.
REVISTA – Como foi o começo dessa história?
Que livro o influenciou, que mestre o senhor
estudou? Como foi o início do seu estudo?
HERMÓGENES – Não estudei o método: eu o intuí.
E até hoje ele prova que é eficiente. O livro que
usei foi publicado na Suiça por um yogue chamado Sevaljaram Yesudiam. Com ele, aprendi
múltiplas técnicas, posturas e bases teóricas.
Através dele, aprendi a tecnologia da yoga.
Ele também me incentivou e motivou para
que eu estudasse mais. Fiz o primeiro lançamento desse livro carregado de alegria. A respeito desse meu livro, quero relatar uma história impressionante: é sobre um homem que
se tornou criminoso e passou um ano e meio
na solitária. Na prisão, ele leu uma xerocópia
desse meu livro e, empolgado, começou a praticar yoga sozinho, com a ajuda do livro, fa-
zendo tudo o que o livro indicava. O resultado é que essa leitura transformou sua vida.
O bandido se transformou num homem de
bem. Hoje, ele é professor de yogaterapia e
vive em Natal. Esse caso está num documentário (DVD) chamado Do Lodo ao Lótus. O
lótus é aquela flor que vai se desenvolvendo
em meio ao pântano. Foi importante a transformação daquele homem. É realmente impressionante o poder transformador da yoga.
REVISTA – O que é exatamente a Hatha Yoga,
professor?
HERMÓGENES – É uma tecnologia correspondente a uma anatomofisiologia original, que é a
verdadeira. Embora não use muito seu corpo, o homem é aquilo que a Hatha Yoga indica: um sistema holístico. Até o pensamento
que emitimos tem o poder de nos curar ou
nos adoecer. A escolha é nossa. Os pensamentos, os sentimentos, a alimentação, tudo
isso constitui o estilo de vida, que tem um
grande poder terapêutico e de crescimento.
Além do caso de transformação que descrevi, houve muitos outros. Apliquei yoga na
Santa Casa do Rio de Janeiro, apliquei em
várias instituições, em vários congressos científicos. E não parei nesse livro: aprendi
muito tratando de pessoas nervosas.
REVISTA – O senhor tem um livro chamado Yoga
para Nervosos, não tem? Como funciona essa
yoga?
HERMÓGENES – É difícil lhe dar uma resposta
breve, mas recentemente descobri um termo
que resume isso muito bem: essa yoga funciona desenvolvendo holisticamente o que chamo
de brandura - jorrando brandura. Se eu estou
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brando, não estou estressado, estou capacitado para lidar com a profundidade de mim
mesmo, que é muito rica. Esse estado implica um relaxamento. Mas é uma brandura
holística. Você pensa no que você é e no que
os outros são, pensa no sentimento em relação ao seu corpo.
REVISTA – Como são os cursos de yoga para crianças que o senhor ministra em sua academia?
Há uma adaptação para o público infantil?
HERMÓGENES – É claro. Como todo tipo de yoga,
um dos objetivos é reduzir a tensão. A yoga
para crianças exige disciplina, mas é muito mais
abrandada, para que a criança possa aprender
brincando. Já a yoga para a Terceira Idade tem
outro posicionamento, que é o objetivo da saúde plena. A yogaterapia explica a estrutura científica do método. Ficar de cabeça para baixo
e dar um nó no corpo tem um grande poder
curativo, mas se eu tirar do meu coração o ódio
por outra pessoa, retiro também todo o nervosismo de dentro de mim. A yoga desenvolve a
capacidade de ampliar o amor retornando a um
estado que sempre esteve presente, embora não
manifestado, que nos ajuda a servir aos outros.
REVISTA – Professor, como vencer o egoísmo e
como vencer o narcisismo que são, inegavelmente, forças muito poderosas? As pessoas
sempre acabam pensando em si mesmas em
primeiro lugar. Como vencer essa tendência?
HERMÓGENES – Eu tenho que lidar com o egoísta chamado Hermógenes e você com o egoísta
José Carlos. Nós queremos valores sociais acima das coisas, acima de Deus, acima do ego,
acima dos filhos, acima da profissão etc.. Isso
é o mal. Eu chamo esse mal – que é origem de
muitos outros males – de ego-esclerose: é a
supervalorização do ego, o superprestígio do
ego. Esses sentimentos levam o indivíduo ao
estresse, já que desejo conquistar o que julgo
ser bom para esse ego que eu amo, e quero
afastar do meu trajeto aquilo de que não gosto. Isso acontece comigo, com você, com o fotógrafo, com todo mundo. Isso é normal. Essa
doença é tão normal que a ela devotei a minha vida e a minha obra. A esse respeito tenho um DVD que se chama Que Deus me Livre de Ser Normal (risos). Numa sociedade
como a nossa, não é nada bom ser normal
porque a normalidade é ilusão. Para onde nos
leva essa ilusão? Para onde a mídia aponta e
para aquilo que o marketing trabalha. Então,
o meu caminho de libertação não vai por aí.
REVISTA – Cada vez mais pessoas aderem à prática da meditação para atingir determinados estados psíquicos, o que é um desafio muito grande. Como é possível alcançar essas metas?
HERMÓGENES – É um desafio certamente muito
grande e há forte probabilidade de frustração,
porque a disciplina é muito rigorosa e exige
muito. Então, como o meu desejo é democratizar a saúde, a paz e a felicidade, não exijo nenhuma disciplina rigorosa, mas ensino outros
caminhos, todos os caminhos que conduzem à
supervalorização do amor e da brandura, do
serviço ao outro. A meditação produz bons efeitos, mas às vezes também não produz efeito. O
sucesso da prática da meditação depende de
uma redução gradual da solicitação dos sentidos, dos desejos e prazeres sensuais. Então, é
solicitada uma vida mais austera. São verda-
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Como num lago, quando há uma
agitação muito grande na superfície,
não se pode ver o fundo, mas é no
fundo de nós mesmos que existe o
esplendor. Ele tem muitos nomes e um
deles, o mais conhecido, é Deus. É a
realidade, é aquilo que está dentro de
nós e que se mantém o mesmo no
passado, no presente e no futuro.
Nunca muda. Você experimenta aí,
verdadeiramente, a felicidade, e perde
as limitações próprias da vida em que
estava até então.
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A morte é um fenômeno que assusta
desnecessariamente as pessoas.
O que morre, o que é mortal, tem que
morrer. Mas o que não morre é o que
não tem que morrer. Quem estuda essa
filosofia de vida aceita a morte como
natural e ela não assusta mais.
deiras cadeias no pescoço das pessoas, as solicitações dos sentidos. Há pessoas que conseguem controlar quase tudo, mas quando chegam à sensualidade, são vencidas. Essa sensualidade passa pelo exagero na bebida, na comida, na sexualidade. Enfim, em tudo que dá
prazer. O yogue é aquele que dominou isso
tudo.
REVISTA – Em nossa sociedade, a mídia desempenha um papel decisivo para o consumismo,
não é?
HERMÓGENES – Sem dúvida. A televisão incentiva o domínio dos sentidos. Mas, se você conseguir dominar os sentidos e voltá-los para a
comunicação e a participação social, se conseguir dar ao seu corpo uma posição estável
e confortável a ponto de poder esquecê-lo, se
conduzir a sua brandura a ponto de
minimizar a respiração, você chega lá. Através de uma correta postura mental, as emoções se atenuam e perdem a voracidade. Os
pensamentos chegam a uma acomodação.
Mas a mente é uma “moleca danada” para
algumas pessoas. Como num lago, quando há
uma agitação muito grande na superfície, não
se pode ver o fundo, mas é no fundo de nós
mesmos que existe o esplendor. Ele tem muitos nomes e um deles, o mais conhecido, é
Deus. É a realidade, é aquilo que está dentro
de nós e que se mantém o mesmo no passado, no presente e no futuro. Nunca muda.
Você experimenta aí, verdadeiramente, a felicidade, e perde as limitações próprias da
vida em que estava até então.
REVISTA – Isso significa, professor, renunciar a
esses prazeres ou simplesmente moderá-los?
HERMÓGENES – Moderá-los a princípio. Depois,
você não precisa mais deles porque vai haver
uma “festa” muito mais interessante na riqueza interior que você adquire. Não é bem uma
substituição, mas é uma superação. Sem que
isso cause sofrimento. Alguns elos você perde,
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é uma libertação. Essa é a felicidade. Alguém
pode dizer: mas eu tenho dificuldades! Tem.
Por quê? Porque há uma distância interposta
entre a pessoa e o Ser infinito que ela é. Há
uma distância e uma diferença. A yoga consiste exatamente em reduzir essa diferença.
Como? Reduzindo o ego.
HERMÓGENES – Quando aprender a encontrar
prazer numa alimentação mais natural. Uma
alimentação mais sadia é não-tóxica. Sintetizando: alimentação basicamente ovo-lacto- vegetariana.
REVISTA – O senhor seguiu ou segue alguma
das tradições orientais existentes, alguma
específica?
HERMÓGENES – Ovo-lacto-vegetariana, se possível. Mas com pouco ovo. Peixe é possível,
mas não esquecer que peixe ainda é carne. Eu
viajo demais e vou a regiões onde não há verduras e legumes. Então, num almoço vem peixe. Eu acabo comendo. Mas não como carne
vermelha.
HERMÓGENES – Estou seguindo uma que abrange todas, convida a todos, não tem nenhum aspecto de organização, como a maioria. Tratase de uma organização internacional para ajudar as pessoas e encaminhá-las. É a organização de Sri Satya Sai Baba. Se você quiser saber
quem é Sai Baba, procure no comércio o livro
chamado O Homem dos Milagres, da editora
Nova Era. Esse livro foi traduzido por mim e é
fantástico. Sri Satya Sai Baba é considerado por
seus seguidores - e por alguns que não são seguidores mas são pesquisadores sérios - como
o Avatar desta era. É uma divindade assumindo o aspecto humano para poder atuar de
maneira salvadora no mundo. Como Cristo e
Buda, é Deus em pessoa. Ele está vivo e tem 80
anos. Sai Baba nos ensina a viver felizes e a
caminhar para a salvação, para uma libertação,
para a iluminação.
REVISTA – Professor, essa reflexão sobre a moderação, o controle dos prazeres e da sensualidade, inclui a questão da alimentação. Hoje se
fala muito em alimentação saudável. O que é
uma alimentação saudável? Como a pessoa
pode ter prazer com a refeição controlando o
que come? Como é possível isso?
REVISTA – Pode ser alimentação lacto-vegetariana ou só vegetariana?
REVISTA – E a bebida alcoólica?
HERMÓGENES – Se puder dispensar a bebida alcoólica, é melhor. O vinho tinto é aceitável com
moderação. Mas há uma diferença muito grande entre beber socialmente (que não seja hábito regular) e beber terapeuticamente. Aí, é a
própria pessoa quem sabe realmente o que se
passa em sua cabeça.
REVISTA - Como o senhor vê hoje a medicina? O
senhor fala em medicina holística. Na medicina de hoje, é palpável a influência dos conhecimentos do Oriente? O senhor vê isso de modo
otimista?
HERMÓGENES – Na semana passada, fui procurado por um médico que é responsável pela
parte de medicina da Universidade Estácio de
Sá, no Rio de Janeiro. Estão descobrindo que a
faculdade de medicina tradicional precisa conhecer as terapias que vêm do Oriente.
Yogaterapia – usei esse nome audaciosamente
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e já iniciei trabalhos com médicos, já participei de reuniões de estudos com médicos adeptos da yogaterapia, que é científica. A
yogaterapia tem um aspecto interessante. Na
medicina tradicional, o paciente é uma figura
passiva: é passividade obedecer ao terapeuta,
ao médico, que diz faça isso ou faça aquilo. Mas,
na yogaterapia, você precisa conhecer, a natureza e a fisiologia; a natureza dos seus pensamentos e emoções. Você tem que tomar consciência disso. Os alimentos têm a função de
melhorar o sistema imunológico, o sistema
sangüíneo, o sistema muscular etc.. Na
yogaterapia não utilizamos remédios e sim a
meditação. A medicina comum atua sempre
nas moléstias, enquanto a nossa é uma ciência
para prevenir, melhorar, promovendo a saúde.
Quando disse isso a esse médico, ele concordou: a medicina está muito voltada para a doença. Ela é patocêntrica: é centrada em Pathos.
A yogaterapia é a ciência holística para a promoção da saúde.
REVISTA – Como o senhor analisa o fenômeno
do envelhecimento? Que é o envelhecer, que
sentido tem isso, qual é sua natureza? Enfim,
como o senhor vê o processo de envelhecimento
humano?
HERMÓGENES – O envelhecimento vai se manifestando naturalmente. O tempo passa e as
nossas energias são gastas, nossas harmonias
interiores são perturbadas e então vamos revelando, fisicamente, uma destruição. Isso é o
envelhecimento. Agora, há os fatores que o
aceleram. Ter um corpo e não se responsabilizar por ele é um fator que acelera o envelhecimento. Você não deve cuidar do corpo apenas
quando está doente, deve dele cuidar permanentemente. O envelhecimento vai realmente
destruindo o sistema imunológico e outros sistemas vão sendo afetados também. Mas isso
também acontece com os jovens, só que seu
corpo tem capacidade de reagir ao processo
degenerativo. Os idosos vão perdendo essa capacidade regenerativa.
REVISTA – Como o senhor vê a situação da Terceira Idade hoje, no Brasil? Como é o envelhecimento num país como o nosso?
HERMÓGENES – Posso dizer o que tenho observado. Posso falar por mim. Particularmente,
eu sou feliz: notei um crescimento de bondade para comigo, de respeito. Agora, estou sabendo aproveitar. Não apago meu sorriso de
jovem, não me entrego à degradação física,
cuido de minha alimentação. Vivo a disciplina da yogaterapia, então meu processo de envelhecimento é mais lento. Nesse DVD, Deus
Me Livre de Ser Normal, há umas cenas profundamente emocionantes. Num abrigo de
velhos numa cidade na Bahia, Itabuna, há
uma professora de Yoga. Com as práticas que
aprendeu lá na academia, ela se curou de suas
doenças que já eram crônicas; livrou-se de
todas. Ela visitou o abrigo São Francisco e
viu lá um amontoado, um depósito de velhos.
Tomada de amor, sentiu uma compaixão muito grande por eles e resolveu, com os princípios que tinha aprendido comigo, criar uma
sistemática, uma metodologia para cuidar daqueles idosos. Conseguiu resultados fantásticos. O primeiro medicamento que os idosos desse abrigo tomam é o amor.
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REVISTA – O senhor pensa que os governos, os
poderes constituídos, devem tomar a iniciativa para que essas práticas pudessem chegar a
mais pessoas?
HERMÓGENES – É claro, é claro. Mas é difícil esperar algum resultado quando se trata de políticos. As políticas públicas deixam muito a desejar. Estou trabalhando com essa metodologia há
mais de 50 anos. Há pouco tempo, aconteceu o
primeiro caso de atenção do governo. O fato
ocorreu numa penitenciária de Natal, Rio Grande do Norte. Um prisioneiro trabalhou a yoga
terapeuticamente em si mesmo e nele tudo mudou, até o semblante. Tornou-se outra pessoa.
Morreu nele o “homem velho” e nasceu o “homem novo”, para usar a linguagem de São Paulo. Ao tomar conhecimento disso, o Secretário
de Justiça do Rio Grande do Norte não mediu
esforços na criação de um programa chamado
Mente Livre (no momento desativado). O rapaz vai para casa agora, após uma condenação
de 14 anos. Ele serviu de professor numa penitenciária. Ele se curou. Então, fica evidenciado
o poder desse método, o poder da yoga.
REVISTA – Sua academia de yoga no Rio de Janeiro funciona há muitos anos, não é?
HERMÓGENES – Há mais de 50, mas ainda pago
aluguel. Ainda não foi possível comprar uma
sede. Mas não fico triste por isso, fico alegre
porque estou cumprindo minha missão, passando o que a yoga me ensinou. Por essa escola passaram muitos alunos, acho que alguns ou
milhares. Não sei. Os que se destacaram passaram, a meu convite, a fazer parte da equipe
que que acompanha há anos como Instrutores
do método Hermógenes, tendo sido treinados
diretamente por mim ao longo desses 50 anos.
Também divulgo os conhecimentos através dos
meus livros. Todos esses professores, que você
vê hoje neste encontro, são professores de yoga
que eu ajudei a formar de forma indireta. E
não parei de escrever.
REVISTA – Uma questão difícil de abordar, um
assunto sobre o qual as pessoas resistem a falar, é a questão da morte. Como o senhor se
posiciona frente à morte?
HERMÓGENES - A gente aprende que a morte é
apenas um repouso necessário. Procuramos
fazer com que as pessoas entendam o que é isso,
entendam que a morte não alcança o Ser. Ela é
uma coisa relacionada ao corpo, mas o verdadeiro morador do corpo, o ser, não morre. A
morte é um fenômeno que assusta desnecessariamente as pessoas. O que morre, o que é mortal, tem que morrer. Mas o que não morre é o
que não tem que morrer. Quem estuda essa filosofia de vida aceita a morte como natural e
ela não assusta mais.
REVISTA – Professor, para encerrar, fale de seus
planos para o futuro.
HERMÓGENES – Deus é quem sabe, eu tenho 85
anos. Quero continuar produzindo, vivendo
junto à natureza, se possível ainda escrever
mais livros. Escrevi uns 30 livros. Quero escrever mais.
REVISTA – Professor, muito obrigado por esta
conversa tão prazerosa.
HERMÓGENES – Espero que você tenha lucrado
alguma coisa. Espero que sua filosofia de vida
e a de todos que lêem essa revista ganhem algo
com essa conversa. Obrigado.
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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO DE TRABALHOS
NA REVISTA A TERCEIRA IDADE
A revista A TERCEIRA IDADE é uma publicação interdisciplinar, editada desde 1988 pelo SESC –
São Paulo, quadrimestral e dirigida aos profissionais
que trabalham com idosos. Tem como objetivo estimular a reflexão e a produção intelectual sobre Gerontologia e seu propósito é publicar trabalhos técnicos e científicos nessa área, abordando aspectos da
velhice (físico, psíquico, social, cultural, econômico
etc.) e do processo de envelhecimento.
NORMAS GERAIS
Os textos podem ser dos seguintes tipos: reflexões
teóricas, revisões, estudos de casos, traduções autorizadas pelos autores.
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via impressa, além do arquivo em disquete.
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de sua publicação. No caso de aceitação, o(s) autor(es)
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substancial será submetida ao autor.
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O autor deverá adotar as seguintes normas na elaboração dos artigos:
a) Resumo: Deve apresentar de forma concisa o
objetivo do trabalho, os dados fundamentais da
metodologia utilizada, os principais resultados e conclusões obtidas e conter aproximadamente 200 palavras. Deve vir acompanhado por até cinco palavras
que identifiquem o conteúdo do trabalho (palavraschave)
b) Abstract: O resumo em inglês também não deve
exceder a 200 palavras. Deve vir acompanhado por
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c) No artigo devem constar as seguintes partes:
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d) As referências bibliográficas, notas de rodapé
e citações no texto deverão seguir as normas da ABNT
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citação).
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devem ser numeradas consecutivamente em algarismos arábicos na ordem em que surgem no texto e
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artigo.
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para que sejam feitas as devidas alterações.
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Serviço Social do Comércio SP
Revista A Terceira Idade – GETI
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O SESC – Serviço Social do Comércio é uma instituição de
caráter privado, de âmbito nacional, criada em 1946 por iniciativa
do empresariado do comércio e serviços, que a mantém e administra.
Sua finalidade é a promoção do bem-estar social, a melhoria da
qualidade de vida e o desenvolvimento cultural do trabalhador no
comércio e serviços e de seus dependentes – seu público prioritário
– bem como da comunidade em geral.
O SESC de São Paulo coloca à disposição de seu público
atividades e serviços em diversas áreas: cultura, lazer, esportes e
práticas físicas, turismo social e férias, desenvolvimento infantil,
educação ambiental, terceira idade, alimentação, saúde e
odontologia. Os programas que realiza em cada um desses setores
têm características eminentemente educativas.
Para desenvolvê-los, o SESC SP conta com uma rede de 30
unidades, disseminadas pela Capital, Grande São Paulo, Litoral e
Interior do Estado. São centros culturais e desportivos, centros
campestres, centro de férias e centros especializados em odontologia,
turismo social e cinema.
Conselho Regional do SESC de São Paulo
2004-2010
Presidente: Abram Szajman
Efetivos: Cícero Bueno Brandão Júnior, Eduardo Vampré do Nascimento,
Eládio Arroyo Martins, Elisete Berchiol da Silva Iwai, Ivo Dall’Acqua
Júnior, Jair Toledo, Jorge Sarhan Salomão, José Maria De Faria, José Maria
Saes Rosa, José Santino De Lira Filho, Luciano Figliolia, Manuel Henrique
Farias Ramos, Marcio Chaves Pires, Valdir Aparecido dos Santos, Walace
Garroux Sampaio
Suplentes: Amadeu Castanheira, Ariovaldo Maniezo, Arnaldo José
Pieralini, Benedito Toso de Arruda, Carlos Alberto D’Ambrósio, Dan
Guinsburg, João Herrera Martins, Maria Elena Taques, Mariza Medeiros
Scaranci, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik
Hussein Saab
Representantes do Conselho Regional Junto ao Conselho Nacional
Efetivos: Abram Szajman / Euclides Carli / Raul Cocito
Suplentes: Aldo Minchillo / Costábile Matarazzo Junior / Ozias Bueno
Diretor Regional: Danilo Santos de Miranda
Professor Hermógenes
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