...

OS DIREITOS FUNDAMENTAIS EM TIMOR‑LESTE

by user

on
Category: Documents
155

views

Report

Comments

Transcript

OS DIREITOS FUNDAMENTAIS EM TIMOR‑LESTE
OS DIREITOS
FUNDAMENTAIS
EM TIMOR‑LESTE
TEORIA E PRÁTICA
Título
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste: Teoria e Prática
1.ª Edição, Março 2015
Autoras
Bárbara Nazareth Oliveira
C arla de M arcelino Gomes
R ita Páscoa dos Santos
Revisão Científica
Prof. Doutor Jónatas M achado
Mestre Cristiana Lopes
Fotografia da capa
Yuichi Ishida
Publicação
Ius Gentium Conimbrigae — Centro de Direitos Humanos da Faculdade de Direito
da Universidade de Coimbra
Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça de Timor‑Leste
Execução gráfica
Coimbra Editora, S.A.
R. Ferreira Borges, 77-79
3000-180 Coimbra
Tiragem inicial 250 exemplares
ISBN 978-989-20-5236-6
Depósito Legal n.º 389 471/15
Biblioteca Nacional de Portugal – Catalogação na Publicação
OLIVEIRA, Bárbara Nazareth,
e outras
Os direitos fundamentais em Timor-Leste : teoria
e prática / Bárbara Nazareth Oliveira, Carla de
Marcelino Gomes, Rita Páscoa dos Santos
ISBN 978-989-20-5236-6
I – GOMES, Carla de Marcelino
II – SANTOS, Rita Páscoa dos
CDU
342
É permitida a reprodução, total ou parcial, desta obra, por qualquer meio, desde que não seja para fins comerciais e que seja
devidamente identificada e citada.
BÁRBARA NAZARETH OLIVEIRA
CARLA DE MARCELINO GOMES
RITA PÁSCOA DOS SANTOS
OS DIREITOS
FUNDAMENTAIS
EM TIMOR‑LESTE
TEORIA E PRÁTICA
Provedoria dos Direitos Humanos
e Justiça Timor‑Leste
Ius Gentium Conimbrigae
Centro de Direitos Humanos
Faculdade de Direito
Universidade de Coimbra — Portugal
Díli, Timor‑Leste — Coimbra, Portugal
2015
As opiniões inseridas na presente publicação são da exclusiva responsabilidade das autoras.
A realização desta publicação só foi possível com o apoio financeiro de:
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
Governo da Nova Zelândia
Agência Sueca de Cooperação Internacional (SIDA)
Ius Gentium Conimbrigae — Centro de Direitos Humanos da Faculdade de Direito
da Universidade de Coimbra — Portugal
A todos os juristas timorenses, atuais e
futuros.
A vossa perseverança perante os desafios
incomensuráveis que enfrentais, como verda‑
deiros guardiões dos direitos fundamentais
em Timor‑Leste, foi o que nos motivou a
escrever este livro.
Prefácio do Provedor dos Direitos Humanos e Justiça
de Timor‑Leste
É com enorme prazer que a Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça
publica o primeiro livro inteiramente dedicado à questão da proteção e pro‑
moção dos direitos fundamentais em Timor‑Leste.
No âmbito das competências do Provedor de proteção e promoção dos
direitos humanos e da boa governação, tal como definidas nos seus Estatutos,
é importante o desenvolvimento de materiais que possam contribuir para a
criação de uma cultura de respeito por estes padrões. Entendo que a publica‑
ção de um livro desta natureza, visando discutir o enquadramento jurídico da
proteção dos direitos fundamentais no país, bem como a sua aplicação pelos
vários atores jurídicos, representa um importante passo nesse sentido.
O desenvolvimento deste livro assenta, desde logo, na necessidade iden‑
tificada de se desenvolverem materiais de referência que possam apoiar a
implementação dos direitos fundamentais pelo Estado, com especial atenção
aos tribunais. Não há dúvidas quanto à obrigação que impende sobre o
Estado de respeitar, proteger e promover os princípios e padrões de direitos
humanos, enquanto parte do Direito internacional público. Aliás, os com‑
promissos assumidos perante a comunidade internacional bem como a His‑
tória que culminou na República Democrática de Timor‑Leste demonstram
o empenho incondicional do país em assegurar o gozo das garantias funda‑
mentais pelo seu povo. Por outro lado, a inclusão dos direitos civis e polí‑
ticos, assim como os sociais, culturais e económicos num texto constitucional,
em que a conformidade de qualquer norma com as garantias fundamentais
pode ser suscitada perante os tribunais, é prova da posição‑chave que estes
padrões assumem no ordenamento jurídico e da sua relevância para a con‑
cretização da Constituição.
No entanto, a nossa experiência até à data evidencia um certo grau de
dificuldade na concretização das garantias fundamentais em situações con‑
Coimbra Editora ®
8
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
cretas, por força da real complexidade desta matéria. Acredito que o acesso
a materiais académicos representa uma ferramenta importante para ultrapas‑
sar este desafio. Um livro como o que agora se publica representa ainda um
instrumento importante para impulsionar a tradução das garantias funda‑
mentais na elaboração de normas jurídicas, na interpretação das leis pelo
poder judiciário e na aplicação destas pelos diferentes órgãos que formam o
executivo.
Não obstante o facto de as matérias de direitos fundamentais suscitarem
importantes questões teóricas, a realidade impôs o desenvolvimento, antes de
tudo, de um material com um foco específico na sua aplicação. Assim, o livro
adota uma abordagem teórico‑prática relativamente às questões dos direitos
fundamentais numa perspetiva fundamentalmente jurídica.
Com o amadurecimento do ordenamento jurídico em Timor‑Leste, a
necessidade de aceder a materiais académicos especificamente desenvolvidos
para o contexto nacional crescerá. Esta obra possui a capacidade de, em mui‑
tos aspetos, de forma inédita, dar já alguma resposta a esta necessidade, mas,
será imprescindível o desenvolvimento ulterior de outros materiais dedicados
ao aprofundamento de questões específicas deste ramo do Direito, incluindo
estudos sobre o sentido e alcance de certas garantias fundamentais em
Timor‑Leste.
O Provedor gostaria de agradecer ao Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD), ao Governo da Nova Zelândia e à Agência Sueca de
Cooperação Internacional (SIDA) pelo apoio técnico e financeiro prestado, sem
o qual a publicação deste livro não teria sido possível.
O Provedor gostaria de expressar o seu agradecimento às autoras deste
livro. A sua experiência combinada de mais de 20 anos de trabalho em/
sobre Timor‑Leste, na elaboração de diplomas legislativos, assessoria jurí‑
dica, ensino e formação, bem como a sua formação académica especializada
na área de direitos humanos representaram uma fonte fundamental de
conhecimento.
A Provedoria agradece ainda ao Ius Gentium Conimbrigae — Centro de
Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, por
ter embarcado connosco neste desafio e por ter formado esta parceria, que
esperamos seja duradoura. Considero que a revisão científica por professores
da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra foi uma mais‑valia para
a sua produção, sobretudo, devido à necessidade de clarificação de muitas das
questões consideradas, e ainda a um escasso acesso a materiais publicados nesta
área relativos a Timor‑Leste.
Coimbra Editora ®
Prefácio do Provedor dos Direitos Humanos e Justiça de Timor‑Leste
9
Espero verdadeiramente que a Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça,
através da publicação deste livro e por via da concretização desta parceria,
entregue aos profissionais e estudantes de Direito um material didático, de
nível académico, que é de Timor‑Leste e sobre Timor‑Leste, refletindo as par‑
ticularidades do nosso ordenamento jurídico.
Díli, 10 de Dezembro de 2014.
Dr. Silvério Pinto Baptista
O Provedor
Coimbra Editora ®
Prefácio do Ius Gentium Conimbrigae
É com alegria que o Ius Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Huma‑
nos (IGC/CDH) da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra se
associa a esta iniciativa de redação de um livro sobre direitos fundamentais em
Timor‑Leste. O IGC/CDH, primeiro centro universitário de ensino e investi‑
gação na área dos Direitos Humanos, em Portugal, tem como principal fina‑
lidade estudar e compreender questões internacionais contemporâneas, com
particular ênfase naquelas que são de especial relevância no âmbito dos Países
de Língua Oficial Portuguesa. Assim sendo, a elaboração deste estudo inscreve‑se
manifestamente no objeto estatutário do IGC/CDH e, mais do que isso, na
sua razão de ser académica e científica.
O presente livro constitui um marco importante na relação institucional
entre o IGC/CDH e a Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça de
Timor‑Leste, que se ambiciona duradoura e frutuosa. A realização desta obra
contou com a contribuição de várias entidades e pessoas, a quem o IGC/CDH
agradece reconhecidamente. Desde logo, um agradecimento à Provedoria dos
Direitos Humanos e Justiça de Timor‑Leste e às autoras, sem os quais não teria
sido possível concretizar este projeto. Cumpre igualmente agradecer aos doa‑
dores que, compreendendo a premência de tal empreitada, acreditaram na sua
boa execução. Agradecemos, ainda, à equipa que o IGC/CDH destacou para
a execução deste projeto e a todos os que nele intervieram, pelo seu empenho
e dedicação.
Esta obra dedica‑se à análise do sistema de direitos fundamentais estabe‑
lecido em Timor‑Leste, visando, assim, contribuir para um reforço do conhe‑
cimento sobre esta matéria. Apresenta a característica de analisar, de forma
inédita, algumas singularidades próprias de Timor‑Leste, fazendo uso de uma
vasta quantidade de informação e dados provindos do direito comparado, sem,
no entanto, perder de vista a Constituição Timorense e demais fontes norma‑
tivas, a doutrina e a jurisprudência nacionais. A análise integrada entre a teoria
Coimbra Editora ®
12
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
e a prática proporciona ao utilizador uma leitura abrangente e de fácil acesso.
Ao mesmo tempo, esta obra procura uma perfeita sintonia com as preocupações
transnacionais do constitucionalismo contemporâneo, no sentido de fortalecer
o respeito pelos direitos humanos, a democracia e o Estado de Direito e de
promover os valores e princípios da boa governação. Este livro discorre sobre
algumas matérias que ainda não foram alvo de estudo e oferece pistas para o
diálogo no âmbito do Direito e da Justiça. É, portanto, um livro dedicado aos
direitos fundamentais em Timor‑Leste, que se espera venha a ser de utilidade
no país, mas, também, em outros países aos quais Timor‑Leste poderá servir
de inspiração.
Fazemos votos de que as reflexões contidas nesta obra possam prestar um
merecido tributo ao desenvolvimento notável que se verifica na construção do
ordenamento jurídico timorense e, assim, de certa forma, contribuir para o
desenvolvimento da doutrina e do próprio Direito timorenses.
Coimbra, 10 de Dezembro de 2014.
Professor Doutor Jónatas Machado
Diretor Executivo do Ius Gentium Conimbrigae/
Centro de Direitos Humanos da Faculdade de Direito
da Universidade de Coimbra
(Assinatura)
Coimbra Editora ®
Agradecimentos
A elaboração do presente livro só foi possível devido à contribuição de
várias instituições e pessoas que, acreditando no projeto, nele colaboraram, de
alguma forma e em determinado momento do percurso. Considerando a
essencialidade dessa colaboração, afigura‑se‑nos da mais elementar justiça que,
nesta sede, lhes prestemos o merecido tributo público.
O resultado final foi superiormente enriquecido devido aos prestimosos
e pertinentes comentários e sugestões do Professor Doutor Jónatas Machado e
da Mestre Cristiana Lopes, ambos docentes da Faculdade de Direito da Uni‑
versidade de Coimbra, e que, para além da sua qualidade de revisores científi‑
cos deste livro, nos permitiram um frutífero diálogo intelectual, sempre dando
primazia à liberdade académica das autoras que se responsabilizam pelas opções
tomadas. A ambos agradecemos de forma muito sentida.
Cumpre‑nos também agradecer aos seguintes investigadores e colabora‑
dores que nos acompanharam, tantas vezes a desoras e com prazos limitados,
mas, sempre com empenho, profissionalismo e dedicação: Dr.ª Fabiana Ramos
Pereira, Dr.ª Maria Inês Basto, Dr.ª Rute Baptista, Dr.ª Joana Simão, Dr.ª
Camilla Capucio, Dr. Rui Carlos Dissenha e Dr.ª Maria da Graça Canto Moniz.
O apoio institucional de várias entidades constituiu o esteio sobre o qual
pudemos erigir as fundações do projeto, desde logo, a Provedoria dos Direitos
Humanos e Justiça (PDHJ) de Timor‑Leste, que liderou o projeto, e o Ius
Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Humanos (IGC/CDH) da Faculdade
de Direito da Universidade de Coimbra que prestou o acompanhamento técnico.
Quanto à PDHJ, gostaríamos de agradecer, em especial, ao Dr. Sebastião Dias
Ximenes, ex‑Provedor dos Direitos Humanos e Justiça, por ter dado início a
esta parceria e prestado um apoio instrumental ao desenvolvimento deste livro.
Ainda, gostaríamos de agradecer ao Dr. Silvério Pinto Baptista, entretanto
nomeado Provedor, e ao Dr. Rui Pereira pelas leituras e comentários pontuais.
No que respeita ao IGC, cumpre‑nos agradecer a toda a sua equipa, particular‑
Coimbra Editora ®
14
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
mente, à Dr.ª Ana Filipa Neves, à Dr.ª Catarina de Marcelino Gomes, e à
Dr.ª Bárbara Alves, pelos diversos contributos que facilitaram todo o processo.
O apoio de outras entidades, a quem prestamos o nosso agradecimento,
revelou‑se igualmente importante, como é o caso da Representação do Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) em
Timor‑Leste, especialmente a Dr.ª Cláudia Diaz, pelo seu contributo na fase
inicial do processo, do PNUD Timor‑Leste, particularmente, a gerência do
Projeto de Capacitação da PDHJ, pela mediação e execução de tarefas impres‑
cindíveis, do Tribunal de Recurso, por, de forma célere, proporcionar o acesso
aos acórdãos desse Tribunal, na sua página oficial, na internet, e do ABA‑UNDP
International Legal Resource Center (ILRC), pelo estudo “International research
on the right to non‑discrimination in international, regional and domestic contexts
relevant to Timor‑Leste” elaborado por Dr.ª Christina Salib, Dr. Devin O’Neill
e Dr.ª Glenda T. Litong. Por fim, urge mencionar a Coimbra Editora e os seus
profissionais que acolheram este nosso projeto, com a competência habitual,
transformando‑o em publicação.
Outros agradecimentos são igualmente devidos, nomeadamente, nas pes‑
soas da Dr.ª Sara Abrantes Guerreiro, do Dr. Felismino Cardoso e do Dr. Ber‑
nardo Ayala, pela troca de ideias e comentários sobre matérias pontuais, que
enriqueceram a análise contida aqui. Gostaríamos também de agradecer à Dr.ª
Délia Belo, à Dr.ª Florisbela Meyknecht e à Dr.ª Monica Maria Santos Del
Vecchio, por in extremis nos terem permitido o acesso a materiais de manifesta
importância.
De significativa relevância foi também a contribuição de vários atores judiciais
timorenses que, em questões concretas, nos auxiliaram com comentários e com a
partilha de algumas das suas experiências e conhecimento.
Por último, cumpre‑nos agradecer, terna e reconhecidamente, às nossas
famílias e amigos pelo apoio incondicional, paciência e afeto.
As autoras
Coimbra Editora ®
Apresentação
O presente livro designado Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste: Teoria
e Prática é fruto de uma parceria entre o Ius Gentium Conimbrigae/Centro de
Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em
Portugal e a Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça de Timor‑Leste.
Este livro trata primordialmente de um assunto: os direitos fundamentais
em Timor‑Leste, analisados de uma perspetiva jurídica. Esta publicação enseja
tecer reflexões e parâmetros jurídico‑normativos, com o intuito de auxiliar na
compreensão das normas constitucionais relevantes para os direitos fundamen‑
tais. Pretende também refletir sobre a forma como os direitos fundamentais
são incorporados no ordenamento jurídico timorense, tanto do ponto de vista
teórico, como prático. É igualmente objetivo deste livro poder contribuir,
ainda que de uma forma singela, para um entendimento abrangente e para
uma aplicação reforçada da proteção normativa e jurisdicional dos direitos
fundamentais e dos direitos humanos, em Timor‑Leste. Assim, coloca à dis‑
posição de juristas, profissionais na área do Direito, estudantes, académicos e
público em geral, ferramentas analíticas que poderão auxiliar na utilização e
no estudo dos direitos fundamentais, no desenvolvimento do ordenamento
jurídico, na interpretação judicial das suas normas e na realização e análise
dos atos administrativos. Foi concebido como um potencial instrumento de
trabalho na atividade diária dos profissionais de Direito.
Quanto ao conteúdo, o presente livro assenta na análise dos direitos fun‑
damentais, à luz do ordenamento jurídico timorense que, desde a restauração
da independência de Timor‑Leste, tem observado uma evolução notável e em
conformidade com a essência dos direitos fundamentais e dos direitos humanos.
Do ponto de vista metodológico, pretende‑se apresentar uma visão geral e
introdutória dos direitos fundamentais em Timor‑Leste, de uma forma que,
sistemática e sinteticamente, auxilie no entendimento desta matéria verdadei‑
ramente complexa.
Coimbra Editora ®
16
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O estilo escolhido oscila entre, por um lado, uma narrativa pedagógica e
simplificada da análise e, por outro lado, uma elaboração mais aprofundada de
algumas temáticas identificadas como prementes. Nesta linha, optou‑se por utilizar,
tanto quanto possível, uma linguagem direta e objetiva. Assim, a estrutura adotada,
bem como os conteúdos selecionados e a sua dimensão resultam do que conside‑
rámos serem as necessidades mais pertinentes de análise no contexto de Timor‑Leste,
pelo que a sistemática adotada é reflexo dessas opções iniciais. No decurso da
análise e da escrita, socorremo‑nos de fontes primárias e secundárias, nomeada‑
mente, do corpo normativo existente, de documentos e relatórios oficiais e da
sociedade civil, da emergente jurisprudência nacional, da ainda escassa doutrina
sobre o ordenamento jurídico timorense, do direito comparado e respetiva doutrina
e jurisprudência, sobretudo, oriundos dos países de língua oficial portuguesa e de
outros que se situem na mesma tradição civilista ou apresentem uma realidade
socioeconómica e cultural aproximada à de Timor‑Leste. Note‑se, porém, que, à
altura da escrita, a Guiné‑Equatorial ainda não tinha sido admitida como membro
da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), pelo que, quando nos
referimos genericamente aos países da CPLP, aquele país não está incluído na nossa
análise. Mais, dada a relação umbilical entre o ordenamento jurídico timorense e
o direito internacional dos direitos humanos, esta fonte foi igualmente utilizada e
notar‑se‑á que ambos surgem entrelaçados ao longo do livro.
Reconhecendo a importância fulcral entre a teoria dos direitos fundamen‑
tais e a sua aplicação prática, foi preocupação das autoras proceder a um enlace
entre aquelas duas dimensões, a teoria e a prática, pelo que, sempre que opor‑
tuno e possível, a análise assenta nesses dois pilares fundacionais de todo o
sistema dos direitos fundamentais. O conteúdo, estrutura e alcance do presente
livro assumem, portanto, esse método de integração entre teoria e prática, com
o objetivo de auxiliar a densificação e a concretização quotidiana dos direitos
fundamentais em Timor‑Leste, designadamente, pelos poderes públicos.
O livro está estruturado em seis capítulos. O Capítulo I é uma introdução
à natureza e ao conceito dos direitos fundamentais e humanos, no âmbito
nacional e internacional. Dada a ligação intrínseca entre a Constituição e os
direitos fundamentais, entendeu‑se que seria importante elaborar um capítulo
de introdução à própria Constituição da República Democrática de Timor‑Leste.
Assim, o Capítulo II apresenta‑nos, de forma sucinta, a estrutura da Consti‑
tuição e as suas principais características no âmbito da organização política e
judiciária, do sistema legislativo, do ordenamento jurídico e dos princípios
orientadores da hermenêutica constitucional que são relevantes aos direitos
fundamentais, debruçando‑se, ainda, sobre a história da elaboração da Cons‑
Coimbra Editora ®
Apresentação
17
tituição timorense. O Capítulo III é dedicado ao regime dos direitos funda‑
mentais, nomeadamente, aos direitos civis, políticos, económicos, sociais e
culturais e à sua contextualização e efetivação no âmbito do ordenamento
jurídico de Timor‑Leste. O Capítulo IV aborda as limitações aos direitos fun‑
damentais, entre elas, as restrições do âmbito dos direitos fundamentais e a
suspensão do seu exercício. Atenta a fundamentalidade do princípio da igual‑
dade na construção de todo o sistema de direitos fundamentais, o Capítulo V
é dedicado a uma análise mais aprofundada do princípio da igualdade e a um
dos seus reflexos, a proibição da discriminação. Por fim, o Capítulo VI
debruça‑se sobre a tutela jurisdicional dos direitos fundamentais, ou seja, sobre
os meios jurisdicionais de que os particulares dispõem, de modo a garantir a
efetividade dos seus direitos e a reagir contra as suas violações, e ainda sobre
os métodos de controlo da constitucionalidade.
Considerando a complexidade das matérias analisadas e o facto de a legis‑
lação, a jurisprudência e a doutrina nacionais estarem em fase de franca evo‑
lução e de maturação, o contributo que se pretende é sobretudo o de conferir
linhas possíveis de interpretação e de análise. Assim, e sobretudo em algumas
matérias previsivelmente fraturantes, oferece‑se propostas de reflexão e não
necessariamente respostas precisas e definitivas, pelo que, este é um recurso
didático assumidamente em progresso e inacabado. Por essa razão, e porque é
um trabalho datado no tempo, deverá o utilizador certificar‑se de que possui
um conhecimento atualizado do ordenamento jurídico timorense.
Sublinha‑se ainda que, visando a mais abrangente difusão possível do
presente livro, ele poderá encontrar‑se em versão eletrónica, na internet, nas
páginas oficiais da Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça de Timor‑Leste
e do Ius Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Humanos da Faculdade de
Direito da Universidade de Coimbra.
Fazemos votos para que este livro possa representar um, ainda que humilde,
contributo para a realização dos direitos fundamentais em Timor‑Leste, estes
que representaram um elevado desígnio na luta de libertação timorense.
Díli, Timor‑Leste e Coimbra, Portugal
Agosto de 2014
Bárbara Nazareth Oliveira
Carla de Marcelino Gomes
Rita Páscoa dos Santos
Coimbra Editora ®
Aprezentasaun
Livru ida‑ne’e ho naran Direitu Fundamentál sira iha Timor‑Leste: Teoria
no Prátika sai nu’udar rezultadu husi parseria ida entre Ius Gentium Conimbri‑
gae/Centro de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de
Coimbra, iha Portugál no Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça de
Timor‑Leste.
Livru ida‑ne’e trata liuliu asuntu ida: direitu fundamentál sira iha
Timor‑Leste, ne’ebé hetan analiza husi perspetiva jurídika ida. Publikasaun
ida‑ne’e koko atu halo reflesaun no parámetru jurídiku‑normativu, ho objetivu
atu hametin komprensaun kona‑ba norma konstitusionál sira‑ne’ebé relevante
ba direitu fundamentál sira. Livru ne’e mós hakarak atu reflete kona‑ba forma
oinsá direitu fundamenál sira ne’e inkorpora iha ordenamentu jurídiku
Timor‑Leste nian, tantu hosi vizaun teórica, no mós prátika. Mós objetivu
ida husi livru ida‑ne’e mak atu bele kontribui, maski ho forma ida simples,
ba koñesimentu ida‑ne’ebé komprensivu no atu reforsa aplikasaun liu husi
protesaun normativa no jurisdisionál husi direitu fundamentál sira no husi
direitus umanus, iha Timor‑Leste. Nune’e, tau iha dispozisaun husi jurista
sira, profisionál sira iha área Direitu nian, estudante, akadémiku sira no
públiku ein‑jerál, instrumentu analítiku sira‑ne’ebé bele ajuda ema hirak ne’e
hodi utiliza no estuda direitu fundamentál sira, hodi dezenvolve ordenamentu
jurídiku, hodi hala’o interpretasaun judisiál husi sirania norma sira no hodi
implementa no analiza aktu administrativu sira. Desenvolve Livru ne’e nu’udar
instrumentu potensiál ida ba iha atividade serbisu diária husi profisionál sira
Direitu nian.
Kona‑ba ninia konteúdu, Livru ida‑ne’e bazeia ba análize husi direitu
fundamentál sira, tuir pontu‑vista ordenamentu jurídiku Timor‑Leste nian,
ne’ebé bele observa katak, dezde restaurasaun independénsia Timor‑Leste
nian, iha duni evolusaun ida estraordinária no tuir esénsia husi direitu fun‑
damentál sira no direitus umanus. Hosi pontu‑vista metodolójiku, Livru
Coimbra Editora ®
20
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ne’e iha hanoin atu aprezenta vizaun jerál no introdutória ida husi direitu
fundamentál sira iha Timor‑Leste, ho forma ida ne’ebé, sistemátika no ho
sintetiku, atu ajuda hametin komprensaun matéria ida‑ne’e ne’ebé kompleksu
tebetebes.
Estilu ne’ebé hili iha Livru ne’e maka estilu ida‑ne’ebé namlele entre
narrativa pedagójika ida, ne’ebé halo análize simples liu, no elaborasaun
ida‑ne’ebé kle’an liu husi temátika balu ne’ebé identifika nu’udar importante.
Iha liña ida‑ne’e, hili atu utiliza, bainhira posivel, linguajen ida‑ne’ebé direta
no objetiva. Nune’e, estrutura ne’ebé adota, no mós konteúdu sira‑ne’ebé
hetan hili no ninia dimensaun, hanesan rezultadu ba iha sá ida mak ita kon‑
sidera nu’udar nesesidade sira‑ne’ebé relasiona ba análize kontestuál
Timor‑Leste nian, no ho nune’e sistemátika ne’ebé adota sai lalenok husi
opsaun inisiál sira‑ne’e. Durante Livru nia análize no eskrita, uza fonte pri‑
mária no sekundária sira, liuliu, korpu normativu ne’ebé iha ona, dokumentu
no relatóriu ofisiál sira no husi sosiedade sivil, jurisprudénsia nasionál ne’ebé
mosu‑mai, doutrina uitoan kona‑ba ordenamentu jurídiku Timor‑Leste, no
mós direitu komparadu no ninia doutrina no jurisprudénsia, liuliu, hosi nasaun
sira ho lian ofisiál portugés no nasaun sira seluk ne’ebé tuir tradisaun sivilista
hanesan ka aprezenta realidade ida sosioekonómika no kulturál besik realidade
Timor‑Leste nian. Observa katak, iha tempu ne’ebé hakerek livru ida‑ne’e,
Guiné‑Equatorial seidauk tama nu’udar membru husi Komunidade Estadu
Lian Portugés nian (CPLP — tuir akronizmu iha lian Portugés), ho nune’e,
bainhira refere iha aspektu jerál ba CPLP, Estadu ne’e la inklui iha ami nia
análize. Ho tan, tanba relasaun sentrál entre ordenamentu jurídiku Timor‑Leste
nian no direitu internasionál husi direitus umanus, maka fonte ida‑ne’e mós
hetan utiliza, no bele nota katak buat rua ne’e mosu‑mai ho liga ba malu iha
Livru ne’e tomak.
Ho rekoñesimentu ba iha importánsia krusiál entre teoria direitu funda‑
mentál sira no sirania aplikasaun prátika mak sai preokupasaun husi hake‑
rek‑na’in sira atu dezenvolve koneksaun ida entre dimensaun rua ne’e, teoria
no prátika, ne’ebé, bainhira iha oportunidade, análize hetan harii iha pilar
funsionál rua sira‑ne’e husi sistema tomak husi direitu fundamentál sira. Livru
ne’e‑nia konteúdu, estrutura no alkanse asume, portantu, métodu integrasaun
ida‑ne’e entre teoria no prátika ho objetivu atu apoiu densifikasaun no konkre‑
tizasaun loroloron husi direitu fundamentál sira iha Timor‑Leste, liuliu, husi
podér públiku sira.
Livru ne’e‑nia estrutura konsiste husi kapítulu hamutuk ne’en. Kapítulu
I nu’udar introdusaun ida kona‑ba natureza no konseitu husi direitu funda‑
Coimbra Editora ®
Aprezentasaun
21
mentál no direitu umanu sira, iha ámbitu nasionál no internasionál. Tanba
ligasaun inerente entre Konstituisaun no direitu fundamentál sira, haree katak
importante atu elabora kapítulu introdusaun ida kona‑ba Konstituisaun Repú‑
blika Demokrática Timor‑Leste rasik. Nune’e, Kapítulu II aprezenta mai ita,
ho forma badak, estrutura husi Konstituisaun no ninia karaktér prinsipál sira
iha ámbitu husi organizasaun polítika no judisária, husi sistema lejizlativu, husi
ordenamentu jurídiku no husi prinsípiu orientadór sira husi interpretasaun
konstitusionál ne’ebé relevante ba direitu fundamentál sira, hakru’uk, mós,
kona‑ba istória elaborasaun Konstituisaun Timor‑Leste nian. Kapítulu III
dedika ba iha rejime husi direitu fundamentál sira, liuliu, ba direitus sivil,
polítiku, ekonómiku, sosiál no kulturál, no ba ninia kontestualizasaun no
efetivasaun iha ámbitu husi ordenamentu jurídiku Timor‑Leste nian. Kapítulu
IV trata kona‑ba limitasaun ba iha direitu fundamentál sira, entre hirak, res‑
trisaun iha ámbitu direitu fundamentál sira no suspensaun ba ninia ezersísiu.
Ho fó atensaun ba iha knaar fundamentál husi prinsípiu igualdade iha kons‑
trusaun sistema tomak husi direitu fundamentál sira, Kapítulu V dedika ba iha
análize ida kle’an liu kona‑ba prinsípiu igualdade no ninia refleksu ida, proi‑
bisaun hasoru diskriminasaun. Ikusliu, Kapítulu VI konsidera hela kona‑ba
tutela jurisdisionál husi direitu fundamentál sira, ka dehan de’it, husi meiu
jurisdisionál sira‑ne’ebé ema partikulár sira iha atu garante direitu sira‑nia
efetividade no reaje hasoru violasaun sira, no mós husi métodu sira kontrolu
ba konstitusionalidade.
Ho konsidera kompleksidade husi matéria sira‑ne’ebé hetan analiza no
bazeia ba iha faktu katak lejizlasaun, jurisprudénsia no doutrina nasionál sira
sei iha hela iha faze evolusaun no maturasaun, Livru ne’e nia objetivu atu sai
nu’udar kontributu ba iha liña sira posivel ba interpretasaun no análize. Nune’e,
no liuliu iha matéria balu ne’ebé bele lori opiniaun diverjente, Livru ne’e ofe‑
rese proposta sira refleksaun nian no la fó resposta sira‑ne’ebé lolooss no defi‑
nitivu, ho nune’e, Livru ne’e sai nu’udar rekursu didátiku ida ne’ebé sei iha
progresu dezenvolvimentu kontinuadu. Tanba razaun ida‑ne’e, no tanba livru
ne’e sai hanesan serbisu ida‑ne’ebé tuir prazu tempu ida‑nian, maka leitór sei
asegura atu iha koñesimentu ida atualizadu kona‑ba ordenamentu jurídiku
Timor‑Leste nian.
Subliña mós katak, ho intensaun atu garante katak Livru ne’e‑nia asesu
sei ida ne’ebé luan liu mak bele hetan ninia versaun eletrónika, iha internet,
iha pájina ofisiál sira husi Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça de
Timor‑Leste no husi Ius Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Humanos
da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Coimbra Editora ®
22
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Ami dezeja livru ida‑ne’e sei bele reprezenta kontributu umilde ida iha
realizasaun husi direitu fundamentál sira iha Timor‑Leste, direitu sira‑ne’ebé
sai nu’udar objetivu boot tebes ida iha luta ba libertasaun Timor‑Leste nian.
Díli, Timor‑Leste no Coimbra, Portugal
Fulan‑Agostu tinan‑2014
Bárbara Nazareth Oliveira
Carla de Marcelino Gomes
Rita Páscoa dos Santos
Coimbra Editora ®
Siglas e Acrónimos
ACNUDH — Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos
ANAAA — Agência Nacional para a Avaliação e Acreditação Académica
ASEAN — Association of Southeast Asian Nations (Associação de Nações do Sudeste
Asiático)
CAVR — Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação
CC — Código Civil
Aprovado pela Lei n.º 10/2011, de 14 de Setembro
CCT — Convenção Contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis,
Desumanos ou Degradantes
Adotada e aberta à assinatura, ratificação e adesão pela resolução
n.º 39/46 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 10 de Dezembro
de 1984.
Entrada em vigor na ordem internacional: 26 de Junho de 1987, em
conformidade com o artigo 27.º, n.º 1.
Ratificada pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 9 /2003, de 17
de Setembro
CDC — Convenção sobre os Direitos da Criança
Adotada e aberta à assinatura, ratificação e adesão pela resolução
n.º 44/25 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 20 de Novembro
de 1989.
Entrada em vigor na ordem internacional: 2 de Setembro de 1990, em
conformidade com o artigo 49.º
Ratificada pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 16/2003, de 17
de setembro
CDPD — Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
Adotada pela resolução A/RES/61/106 a 13 de Dezembro de 2006 e
aberta à assinatura a 30 de Março de 2007.
Coimbra Editora ®
24
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
CEDAW — Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against
Women (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri‑
minação Contra as Mulheres)
Adotada e aberta à assinatura, ratificação e adesão pela resolução n.º 34/180
da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 18 de Dezembro de 1979.
Entrada em vigor na ordem internacional: 3 de Setembro de 1981, em
conformidade com o artigo 27.º, n.º 1.
Ratificada pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 11 /2003, de 17
de Setembro
CEDR — Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial
Adotada e aberta à assinatura e ratificação pela resolução 2106 (XX) da
Assembleia Geral das Nações Unidas, de 21 de Dezembro de 1965.
Entrada em vigor na ordem internacional: 4 de Janeiro de 1969, em
conformidade com o artigo 19.º
Ratificada pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 10 /2003, de 17
de Setembro
CIDTM — Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de todos os tra‑
balhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias.
Adotada pela resolução 45/158, de 18 de Dezembro de 1990, da Assem‑
bleia Geral das Nações Unidas.
Entrada em vigor na ordem internacional: 1 de Julho de 2003, em
conformidade com o art. 87.º, n.º 1.
Ratificada pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 23/2003, de 19
de Novembro.
CNRT — Congresso Nacional para a Reconstrução de Timor‑Leste
CRDTL — Constituição da República Democrática de Timor‑Leste
CP — Código Penal
Aprovado pelo Decreto‑Lei n.º 19 /2009 de 8 de Abril (com as alterações
decorrentes da Lei n.º 6 /2009 de 15 de Julho, Lei n.º 17/2011, de 28
de dezembro e Lei n.º 5 /2013/III)
CPDF — Convenção Internacional para a Proteção de todas as Pessoas contra o
Desaparecimento Forçado
Adotada a 20 de Dezembro de 2006 pela Assembleia Geral das Nações
Unidas na sua 61.ª sessão, através da resolução A/RES/61/177, e aberta
à assinatura a 6 de Fevereiro de 2007.
Entrada em vigor na ordem internacional: 23 de Dezembro de 2010,
em conformidade com o artigo 39.º
CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
CPC — Código de Processo Civil
Aprovado pelo Decreto‑Lei n.º 1 /2006, de 21 de Fevereiro
Coimbra Editora ®
Siglas e Acrónimos
25
CPP — Código de Processo Penal
Aprovado pelo Decreto‑Lei n.º 13/2005, de 1 de Dezembro
CSMJ — Conselho Superior da Magistratura Judicial
DUDH — Declaração Universal dos Direitos Humanos
Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas na sua
Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948
ECOSOC — Economic and Social Council of the United Nations (Conselho Económico
e Social das Nações Unidas)
F‑FDTL — FALINTIL — Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor‑Leste
FRETILIN — Frente Revolucionária de Timor‑Leste Independente
IGC/CDH — Ius Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Humanos da Faculdade
de Direito da Universidade de Coimbra
OIT — Organização Internacional do Trabalho
ONG — Organização não‑governamental
ONU — Organização das Nações Unidas
PDHJ — Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça
PIDCP — Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
Adotado e aberto à assinatura, ratificação e adesão pela resolução 2200A
(XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 16 de Dezembro de 1966.
Entrada em vigor na ordem internacional: 23 de Março de 1976, em
conformidade com o artigo 49.º
Ratificado pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 3/2003, de 22 de
Julho
PIDESC — Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais
Adotado e aberto à assinatura, ratificação e adesão pela resolução 2200A
(XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 16 de Dezembro de 1966.
Entrada em vigor na ordem internacional: 3 de Janeiro de 1976, em
conformidade com o artigo 27.º
Ratificado pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 8 /2003, de 17
de Setembro
PNTL — Polícia Nacional de Timor‑Leste
PNUD — Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
STJ — Supremo Tribunal de Justiça
TSAFC — Tribunal Superior Administrativo, Fiscal e de Contas
UNMIT — United Nations Integrated Mission in Timor‑Leste
UNTAET — United Nations Transitional Administration in East Timor
Coimbra Editora ®
Capítulo I — N
atureza e Conceito dos Direitos Funda‑
mentais e Direitos Humanos
SUMÁRIO
1.Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direi‑
tos Humanos
1.1 Visão Geral
1.2 Conceitos afins: direitos fundamentais e direitos humanos
1.3Características e Classificação dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos
1.4 Funções dos Direitos Fundamentais e dos Direitos Humanos
2. O “Desenvolvimento” dos Direitos Fundamentais e Direi‑
tos Humanos
2.1Antecedentes históricos dos direitos fundamentais e dos direitos humanos
2.2 O Futuro dos Direitos Fundamentais e dos Direitos Humanos
2.3 O Contexto Nacional: Os Direitos Fundamentais e os Direitos Humanos
em Timor‑Leste
3. Fontes dos Direitos Fundamentais e dos Direitos Humanos
3.1Ao Nível Nacional
3.2Ao Nível Internacional
4.Relação entre o Direito Interno e o Direito Internacional
4.1Receção do Direito Internacional Geral ou Comum
4.2Receção do Direito Convencional
4.3Conflito entre o Direito Interno e o Direito Internacional
Visão Global
Este capítulo dedica‑se a prover um panorama das normas de direitos
fundamentais e de direitos humanos no seu âmbito nacional e internacional.
Incluem‑se breves descrições sobre o conceito e a natureza daqueles, assim como
um resumo do seu antecedente histórico. Neste capítulo, a posição dos direitos
humanos no ordenamento jurídico de Timor‑Leste é também alvo de reflexão.
Foram também incorporadas breves notas sobre a função dos direitos humanos
na História do país.
Palavras e Expressões‑Chave
Direitos fundamentais e direitos humanos
Dimensão Jusnaturalista
Gerações e categorias dos direitos fundamentais e dos direitos humanos
Fontes de direitos fundamentais e de direitos humanos
Receção do direito internacional
1. Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e
Direitos Humanos
1.1 Visão Geral
O que são os direitos fundamentais? E os direitos humanos? Quais as
características determinantes para considerar uma garantia como um direito
fundamental ou um direito humano, e diferenciá‑la dos outros tipos de direi‑
tos, por exemplo, um direito comum no Direito civil?
Os direitos fundamentais e os direitos humanos são situações jurídicas de
bastante complexidade, tanto ao nível conceitual como ao nível prático.
Coimbra Editora ®
30
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Pode dizer‑se que os direitos humanos (e na sua raiz, os direitos funda‑
mentais) são aqueles direitos e liberdades que as pessoas detêm pelo simples
facto de serem dotadas de caráter humano, possuindo uma natureza essencial
para garantir a existência do indivíduo. Para além disso, considera‑se que tanto
os direitos fundamentais como os direitos humanos estão intimamente ligados
a uma visão de igualdade e de liberdade dos indivíduos. Esta conceitualização
enraíza‑se na tese jusnaturalista (1). Jónatas Machado resume eficazmente este
conceito, quando diz que:
“A primeira tese [dos direitos fundamentais], de inspiração prepon‑
derantemente lockeana e kantiana, corresponde ao pensamento de autores
como Rawls, Dworkin, Richards, etc., que partindo de teses neo‑contra‑
tualistas ou de um discurso filosófico político‑moral, procuram identificar
um conjunto de direitos fundamentais deduzidos a partir de princípios
de justiça (fairness) ou de prerrogativas morais da personalidade, afirmando
a sua inegociá­vel prioridade na ordenação da comunidade política.” (2)
Os direitos fundamentais e os direitos humanos são muitas vezes definidos
pela sua finalidade: proteger poderes e esferas de liberdade das pessoas, aplicá‑
veis primordialmente na relação pessoa — Estado (dimensão negativo‑defen‑
siva).
Os direitos fundamentais podem também ser definidos com o recurso a
uma abordagem positivista que os define através da sua inclusão em um texto
constitucional. Isto é, os direitos fundamentais são o resultado de um processo
de constitucionalização. Gomes Canotilho refere este processo como “a incor‑
poração de direitos subjetivos do homem em normas formalmente básicas,
subtraindo‑se o seu reconhecimento e garantia à disponibilidade do legislador
originário” (3). Ainda, Jorge Miranda considera que os direitos fundamentais
Para reflexões sobre a natureza filosófica dos direitos humanos, ver, Jeremy
Waldron, Theories of Rights (New York: Oxford University Press, 1984). Vide, também,
A. John Simmons, The Lockean Theory of Rights (Princeton University Press, 1994).
(2)
Cfr. Jónatas Machado, Liberdade Religiosa Numa Comunidade Constitucional
Inclusiva: Dos Direitos Da Verdade Aos Direitos Dos Cidadãos ([Coimbra]: Coimbra
Editora, 1996), 161‑162.
(3)
J. J. Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
7.ª edição (Coimbra: Almedina, 2003), 378.
(1)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 31
são entendidos como “os direitos ou as posições jurídicas subjectivas das pessoas
enquanto tais, individual ou institucionalmente consideradas, assentes na
Constituição”. (4)
Nem o conceito filosófico, nem o positivista fornecem uma compreensão
exaustiva daquilo que são realmente os direitos fundamentais e os direitos
humanos. O conceito filosófico é, de certa forma, abstrato, devido à sua natu‑
reza humana e ao princípio de justiça, e o positivista demasiado restritivo devido
ao enfoque quase que puramente na codificação das normas. Desta forma, a
conceptualização dos direitos fundamentais e dos direitos humanos é fortalecida
com uma apreciação das suas principais características, classificações e funções.
A exploração dos seus desenvolvimentos históricos representa, também, uma
ferramenta de auxílio neste processo.
1.2 Conceitos afins: direitos fundamentais e direitos humanos
Em primeiro lugar, mostra‑se elementar fazer uma reflexão sobre as expres‑
sões direitos fundamentais e direitos humanos. A Constituição de Timor‑Leste
utiliza estes termos de forma distinta, como evidenciado no seu preâmbulo
quando identifica que o respeito e a garantia dos direitos humanos e dos direi‑
tos fundamentais representam um dos meios para o desenvolvimento do país e
da sociedade. (5)
Analisando os textos constitucionais de vários países e a posição atual na
doutrina, o principal ponto diferencial entre os direitos fundamentais e os
direitos humanos é a sua fonte: os direitos fundamentais são encontrados nos
textos constitucionais, enquanto os direitos humanos referem‑se às garantias
fundamentais integrantes do Direito internacional. Em termos gerais, os direi‑
tos humanos são os direitos da pessoa humana reconhecidos pelas normas de
Direito internacional em vigor (que podem assumir a forma de normas con‑
vencionais, costumes ou princípios do Direito internacional).
Segundo Gomes Canotilho e Vital Moreira, os direitos humanos “distin‑
guem‑se dos direitos fundamentais porque estes são os direitos constitucional‑
mente positivados e juridicamente garantidos no ordenamento jurídico
[interno], enquanto os direitos [humanos] são os direitos de todas as pessoas
Jorge Miranda, Direitos Fundamentais: Introdução Geral (Lisboa, 1999), 11.
“Constituição da República Democrática de Timor‑Leste, Maio de 2002”,
Preâmbulo para. 14.
(4)
(5)
Coimbra Editora ®
32
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ou coletividades de pessoas independentemente da sua positivação jurídica
nos ordenamentos político‑estaduais” (6). Desta forma, os direitos humanos
trazem uma dimensão jusnaturalista‑universalista, enquanto os direitos fun‑
damentais possuem um caráter jurídico‑institucionalmente garantido, com
uma limitação espaço‑temporal. De forma semelhante, José de Melo Alexan‑
drino considera que os direitos fundamentais denotam a “expressão constitu‑
cional que designa as situações jurídicas fundamentais das pessoas reconhe‑
cidas (…) [n]a Constituição” (7). Por outro lado, este mesmo autor considera
os direitos humanos como aqueles que se referem às situações jurídicas resul‑
tantes da natureza ou da condição de ser humano e que o Direito interna‑
cional reconhece. (8)
Embora no século XXI a maioria dos padrões dos direitos humanos se
encontrem positivados no direito convencional internacional, a positivação não
é uma característica essencial destas garantias. O mesmo não se pode dizer sobre
os direitos fundamentais, que devem essencialmente estar positivados na cons‑
tituição, embora possamos reconhecer como fundamentais direitos que não se
encontram consagrados expressamente no texto da Constituição.
Sem dúvida, tanto os direitos fundamentais como os direitos humanos
partilham de verdadeiras semelhanças, possuindo na sua origem os mesmos
valores éticos (de justiça e igualdade), apresentando características essenciais à
natureza humana e tendo como finalidade comum a protecção da dignidade
da pessoa humana.
Os direitos fundamentais são, portanto, aquelas garantias positivadas e
previstas na constituição, com força normativa‑constitucional. Para Timor‑Leste,
os direitos fundamentais são principalmente aqueles adscritos nos artigos 29.º a
61.º da Constituição, e os direitos humanos as normas contidas nos costumes
internacionais, tratados ratificados por Timor‑Leste e em outras fontes de Direito
no âmbito do Direito Internacional Público.
A separação entre direitos humanos e direitos fundamentais no ordena‑
mento jurídico de Timor‑Leste pode, porém, padecer de falta de pragma‑
J.J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, Constituição Da República Portuguesa
Anotada, 4.ª Edição, vol. I (Artigo 1.º a 107.º) (Coimbra: Coimbra Editora, 2007),
240.
(7)
José de Melo Alexandrino, Direitos Fundamentais: Introdução Geral (Principia,
2007), 30.
(8)
Ibid., 34.
(6)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 33
tismo. Apesar de a elaboração da Constituição de Timor‑Leste ter sido
influenciada pela Constituição portuguesa, uma parte significativa dos direi‑
tos fundamentais reconhecidos na Constituição de Timor‑Leste espelha‑se
nos padrões de direitos humanos encontrados ao nível do Direito interna‑
cional. Desta forma, o uso das expressões direitos humanos e direitos funda‑
mentais resulta de uma natureza particularmente linguística, denotando
sobretudo a fonte específica de uma norma, quer ao nível constitucional,
quer ao nível internacional.
É de pertinência apontar para o facto de que, em Timor‑Leste, à seme‑
lhança da Constituição moçambicana de 2004, preferiu‑se utilizar o termo
direitos humanos e não direitos do homem, que, além de acompanhar melhor a
tradução da expressão human rights, garante uma perspetiva neutra no género.
No nosso entender, esta diferença relativamente à Constituição portuguesa
evidencia a exposição que Timor‑Leste teve ao sistema internacional de direitos
humanos durante a sua História.
1.3 Características e Classificação dos Direitos Fundamentais e dos
Direitos Humanos
Como já exposto, a compreensão do conceito dos direitos fundamentais
e dos direitos humanos apoia‑se em uma análise das suas características e clas‑
sificações.
As principais características quer dos direitos fundamentais, quer dos direi‑
tos humanos são: fundamentabilidade, universalidade, inalienabilidade, indi‑
visibilidade, interdependência e interrelação.
a) Fundamental: estes direitos representam questões essenciais para o ser
humano, no que respeita à sua existência e à sua autonomia. Eles
contêm uma natureza de necessidade, não representando somente
aspetos desejáveis. São direitos inerentes à própria noção de pessoa
humana, como direitos básicos das pessoas.
b) Universal: todas as pessoas podem ser titulares destes direitos. No
âmbito internacional, esta característica significa que todas as pessoas,
independentemente do local onde residam, da sua nacionalidade ou
cultura possuem direitos humanos. A existência de categorias de
direitos especificamente relevantes a certos grupos, por exemplo,
mulheres, crianças e pessoas portadoras de deficiência, não ferem a
característica de universalidade dos direitos humanos e dos direitos
Coimbra Editora ®
34
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
fundamentais (trata‑se das designadas diferenciações positivas, necessá‑
rias ao respeito pelo princípio da igualdade, como será visto infra (9)).
c) Inalienável: o caráter de inalienabilidade é um dos mais proeminentes
dos direitos fundamentais e dos direitos humanos. Esta característica
refere‑se à permanência e à indisponibilidade destas garantias, signi‑
ficando que estas garantias não podem ser retiradas, exceto em certas
circunstâncias e de acordo com os procedimentos aplicáveis, e o seu
tetular não pode dispor, abdicar delas. Estes direitos extinguem‑se
somente com a morte do titular.
d) Interdependentes e Interrelacionados: esta característica relaciona‑se
principalmente com a implementação destas garantias, provendo que
o gozo de um direito tem impacto no gozo de outro direito. Estas
relações encontram aplicação tanto nos direitos económicos, sociais,
e culturais como nos direitos civis e políticos.
Estas características não representam somente a posição da doutrina inter‑
nacional e nacional, mas refletem o conceito de direitos humanos previsto na
Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) (10) e reiterado na Decla‑
ração e Programa de Ação de Viena. Esta última solidifica claramente estas
características quando prevê que “todos os direitos humanos são universais,
indivisíveis, interdependentes e inter‑relacionados”. (11)
As classificações dos direitos fundamentais e dos direitos humanos repre‑
sentam um instrumento importante para identificar os seus beneficiários, as
fontes, assim como algumas questões específicas relativas à sua implementação,
incluindo a sua força jurídica.
Segundo a Teoria Geracional dos direitos humanos, tradicionalmente,
estes podem ser classificados em três gerações de direitos, refletindo o desen‑
volvimento dos diferentes padrões dentro do direito convencional (12).
Vide Capítulo V, 3.1.3 Diferenciação Positiva e Ação Afirmativa.
Adotada pela Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas 217 A (III),
10 de Dezembro de 1948.
(11)
Declaração E Programa de Ação de Viena, A/CONF.157/23, 1993. Resultado
da II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993, a Declaração de Viena é
um dos documentos mais abrangentes adotados consensualmente pela comunidade
internacional sobre o tema dos direitos humanos.
(12)
Esta classificação surgiu inicialmente como uma tentativa de conceptua‑
lização do processo de positivação dos direitos civis e políticos e dos direitos econó‑
(9)
(10)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 35
Revela‑se útil debater esta classificação aqui, visto que ela ajuda a compreen‑
der o sentido das garantias, assim como o seu desenvolvimento dentro deste
sistema.
A primeira geração corresponde aos direitos civis e políticos inseridos nas
visões tradicionais das liberdades civis e políticas proeminentes nas democracias
liberais Ocidentais, com base no princípio de não‑ingerência do Estado na vida
pessoal do indivíduo (momento liberal). Por muitos anos, a posição predomi‑
nante era que somente estes direitos eram verdadeiros direitos humanos.
Exemplos de garantias que fazem parte dessa geração são o direito à vida, o
direito à liberdade e o direito à privacidade. Os direitos fundamentais surgem
como direitos de defesa e, também, como direitos de participação política
(momento liberal e momento democrático, respetivamente).
A segunda geração dos direitos humanos aporta principalmente os direitos
no âmbito económico, social e cultural, que exigem, para a sua realização,
comportamentos positivos do Estado, sendo muitas vezes referenciados como
os direitos a prestações. Estes direitos relacionam‑se com o padrão de vida das
pessoas e com as suas necessidades básicas, exemplificadas pelos direitos à
educação, à saúde, a um padrão de vida adequado e à segurança social.
Os chamados direitos coletivos representam o núcleo da terceira geração
dos direitos humanos, incluindo o direito ao desenvolvimento, a um meio
ambiente saudável e à paz. Estes são também chamados de direitos da solida‑
riedade ou direitos difusos, os seus titulares são grupos e comunidades e fun‑
dam‑se num ideal de construir um futuro melhor dentro de um espírito de
solidariedade internacional (13). Porém, estes não são, na sua maioria, reconhe‑
micos, sociais e culturais em tratados internacionais distintos. Sabe‑se, porém, que
a razão desta separação se relaciona com a polarização ideológica da política mundial
no período da Guerra Fria, contrapondo‑se uma visão do Estado liberal a um Estado
de cunho intervencionista. Para discussões sobre esta questão, ver, Jayme Benvenuto
Lima Junior, ‘O Caráter Expansivo dos Direitos Humanos na Afirmação da sua
Indivisibilidade e Exigibilidade’, in Direitos Humanos, Globalização Econômica e
Integração Regional: Desafios do Direito Constitucional Internacional, ed. Flávia Pio‑
vesan (Max Limonad, 2002); Mashood A. Baderin and Robert McCorquodale, ‘The
International Covenant on Economic, Social and Cultural Rights: Fourty Years of
Development’, in Economic, Social and Cultural Rights in Action, ed. Mashood A.
Baderin and Robert McCorquodale (Oxford University Press, 2007).
(13)
Para uma reflexão mais aprofundada sobre este assunto, vide, Philip Alston,
‘A Third Generation of Solidarity Rights: Progressive Development or Obfuscation of
Coimbra Editora ®
36
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
cidos no direito convencional internacional, à exceção da Carta Africana dos
Direitos dos Homens e dos Povos, que prevê, por exemplo, o direito de um
povo à existência e à paz e segurança (14). Como consequência da limitada
positivação, esta geração de direitos ainda não conta com uma aceitação expan‑
siva ao nível internacional.
Há ainda correntes doutrinárias que consideram a existência de uma quarta
geração de direitos humanos relacionada com os aspetos da manipulação gené‑
tica, biotecnologia e bioengenharia. (15)
Note‑se, no entanto, que a categorização em gerações não pode ser enten‑
dida de forma rígida. Tal deve‑se aos desenvolvimentos no sistema internacio‑
nal de direitos humanos, principalmente aqueles que resultaram do reconhe‑
cimento da força jurídica dos direitos económicos, sociais e culturais e da
existência de deveres de natureza positiva dos Estados em relação aos direitos
civis e políticos, o que conduziu à aproximação das duas primeiras gerações. (16)
A Constituição de Timor‑Leste incorpora como direitos fundamentais as
três gerações de direitos humanos. Especificamente em relação aos direitos da
terceira geração, a CRDTL adscreve no seu artigo 61.º‑1 o direito a um
ambiente sadio e ecologicamente equilibrado, com uma especial perspetiva de
salvaguarda do meio ambiente para as futuras gerações. Outros direitos huma‑
nos de terceira geração não são previstos como normas de direitos fundamen‑
tais, mas como princípios fundamentais nas relações internacionais no âmbito
do artigo 8.º da Lei Fundamental. Estes incluem aspetos do direito ao desen‑
volvimento, direito à paz e ao desarmamento mundial (17).
International Human Rights Law?’, Netherlands International Law Review 29, no. 03
(1982): 307‑322.; Karel Vasak, ‘Revisiter La Troisième Génération Des Droits de
l’Homme Avant Leur Codification’, Héctor Gros Espiell Amicorum Liber: Persona
Humana Y Derecho Internacional II (1997): 1649.
(14)
Carta Africana Dos Direitos Humanos E Dos Povos, O.U.A. Doc. CAB/
LEG/67/3/Rev.5, 1981., art. 19.º a 24.º.
(15)
Cfr. Norberto Bobbio, A Era dos Direitos (Campus, 1992), 9.
(16)
V. por exemplo, Antônio Cançado Trindade, Tratado de Direito Internacio‑
nal Dos Direitos Humanos, vol. I (Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris, 1997), 390.
Para uma perspetiva mais prática sobre esta matéria, ver, Vital Moreira e Carla de
Marcelino Gomes, eds., Compreender Os Direitos Humanos: Manual de Educação Para
Os Direitos Humanos, 2013, 51‑58; Luis María Diéz‑Picazo, Sistema de Derechos Fun‑
damentales (Madrid: Thomson‑Civitas, 2013).
(17)
Artigo 8.º‑1 e 2.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 37
No que respeita à classificação dos direitos fundamentais, uma análise da
doutrina portuguesa revela o uso de diferentes categorias (18). Estas, na quase
sua totalidade, possuem valia no sistema dos direitos fundamentais de
Timor‑Leste. Contudo, apresentamo‑las com algumas variações como conse‑
quência da existência de aspetos singulares na Constituição timorense em
relação à sua homóloga portuguesa.
As principais categorias ou classificações são:
a) Direitos fundamentais individuais e institucionais: os direitos funda‑
mentais na Constituição reportam sempre aos indivíduos, porém,
alguns direitos só podem ser garantidos num âmbito institucional,
dentro de uma perspetiva de coletividade, como em associações,
grupos e instituições stricto sensu. Estes direitos ainda são garantias
individuais, mas a sua realização é condicionada à atribuição de
direitos a determinadas instituições. Como explicado por Gomes
Canotilho, “o duplo carácter atribuído aos direitos fundamentais
— individual e institucional — faz com que hoje, por exemplo, o
direito de constituir família se deva considerar indissociável da pro‑
teção da instituição família” (19). Outros exemplos incluem a proteção
à família (artigo 39.º), a liberdade de imprensa (artigo 41.º), o direito
a constituir partidos políticos (artigo 46.º‑2), a liberdade sindical
(artigo 52.º), entre outros.
(18)
Gomes Canotilho faz uma categorização geral focada especificamente na
atuação estatal, desta forma diferenciando entre direitos de defesa e direitos a prestações.
Utiliza, ainda, a diferenciação entre direitos fundamentais formalmente constitucionais
e direitos fundamentais sem assento constitucional e direitos formal e materialmente
constitucionais. Por sua vez, Jorge Miranda identifica quatro diferentes categorias de
direitos fundamentais: individuais e institucionais, comum e particular, liberdades e
garantias e direitos, liberdades e garantias e direitos sociais. José Alexandrino identifica
algumas das mesmas categorias utilizadas por Jorge Miranda. Ainda, Alexandrino
categoriza as garantias de acordo com a sua fonte (dentro ou fora da Constituição) e
a sua força jurídica (direitos, liberdades e garantias e direitos sociais). Cfr. Gomes
Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição; Miranda, Direitos Funda‑
mentais: Introdução Geral; de Melo Alexandrino, Direitos Fundamentais: Introdução
Geral, 2007.
(19)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 397.
Coimbra Editora ®
38
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
b) Direitos fundamentais universais, comuns e particulares: ao passo que
os direitos fundamentais universais são uma titularidade de todos
aqueles sob a jurisdição de Timor‑Leste, os direitos comuns são espe‑
cificamente acordados aos cidadãos nacionais, e os direitos particula‑
res representam atribuições a membros de determinados grupos, como
consequência da categoria social que integram ou das situações dura‑
douras em que se encontram. Exemplos de direitos comuns previstos
na Constituição seriam o direito à participação política e ao voto e o
direito a emigrar do país (respetivamente, artigo 46.º‑1, artigo 47.º‑1
e artigo 44.º‑2) e de direitos particulares, os direitos das crianças
(artigo 18.º), da terceira idade (artigo 20.º), das mulheres
(artigo 39.º‑4) e dos trabalhadores (artigo 51.º e 52.º).
c) Direitos fundamentais e garantias fundamentais: os direitos representam
em si próprios os bens protegidos, enquanto as garantias são os ins‑
trumentos para assegurar a fruição destes bens. As garantias são
acessórias aos direitos, possuindo uma relação através do nexo que
possuem com estes. Como explicado por Jorge Miranda “os direitos
declaram‑se, as garantias estabelecem‑se” (20). Por exemplo, ao direito
à vida (artigo 29.º‑1) correspondem as garantias da proibição da pena
de morte (artigo 29.º‑2) e a garantia de não‑extradição aos países que
impõem a pena de morte (artigo 35.º‑3); ao direito ao trabalho
(artigo 50.º‑1) enumera‑se a proibição de lock‑out como uma de suas
garantias (artigo 51.º‑3).
d) Direitos, liberdades e garantias e direitos económicos, sociais e culturais:
os direitos económicos, sociais e culturais — artigos 50.º a 61.º —
possuem um objetivo específico: atingir a igualdade, partindo da
existência de desigualdades e situações de necessidade. De um modo
diferente, os direitos, liberdades e garantias — artigos 29.ºa 49.º —
recaem sobre uma situação de igualdade entre os indivíduos. Como
exposto por Jorge Miranda, os direitos, liberdades e garantias são
“direitos de libertação do poder e (…) direitos à protecção do poder”,
enquanto os económicos, sociais e culturais são “direitos de libertação
da necessidade e, ao mesmo tempo, direitos de promoção” (21). Gomes
Canotilho utiliza uma expressão semelhante quando intitula estas
Miranda, Direitos Fundamentais: Introdução Geral, 56.
Cfr. Ibid., 62.
(20)
(21)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 39
duas categorias de, respetivamente, “direito de defesa” e “direito às
prestações”.
e) Direitos formalmente constitucionais e direitos só materialmente fundamen‑
tais: os direitos formalmente constitucionais são aqueles que se encontram
expressamente consagrados nas normas constitucionais (normas que
possuem a forma constitucional), e os direitos só materialmente funda‑
mentais são aqueles que não se encontram previstos nos preceitos cons‑
titucionais. Por força do artigo 23.º que consagra o princípio da cláusula
aberta, a Constituição de Timor‑Leste considera como direitos funda‑
mentais aqueles constantes da lei, incorporando, desta forma, os direitos
só materialmente fundamentais (22). Os direitos só materialmente funda‑
mentais podem estar positivados, por exemplo, no direito internacional
recebido na ordem jurídica interna ou em legislações nacionais.
1.4 Funções dos Direitos Fundamentais e dos Direitos Humanos
Na tarefa de conceptualização dos direitos fundamentais e dos direi‑
tos humanos pode utilizar‑se uma análise funcional destas normas.
Neste âmbito, Gomes Canotilho vem à nossa assistência identificando
quatro funções primordiais dos direitos fundamentais (que representam
também funções dos direitos humanos): (I) função de não‑discriminação;
(II) função de defesa ou liberdade; (III) função de prestação social; e (IV)
função de proteção perante terceiros (23). A funcionalidade dos direitos
fundamentais, como veremos, encontra‑se diretamente relacionada com as
categorias e classificações dos mesmos.
A função de não‑discriminação enraíza‑se na visão de igualdade que se
encontra no seio do conceito dos direitos fundamentais. Esta função primária
e básica visa assegurar que o Estado trate todos sob sua jurisdição como indi‑
víduos fundamentalmente iguais. A função de não‑discriminação aplica‑se aos
Este artigo introduz um conceito importante no sistema dos direitos fun‑
damentais no que respeita à abertura do sistema. Para uma maior reflexão sobre este
assunto, vide, Capítulo III, 3.2 Outros Direitos Fundamentais.
(23)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 407‑410.
Note‑se que Gomes Canotilho apresenta as quatro funções segundo uma ordem dife‑
rente, listando a função de não‑discriminação em último lugar. Uma vez que a origem
dos direitos fundamentais está relacionada com uma visão de igualdade, as autoras
preferiram apresentar, em primeiro plano, esta função dos direitos fundamentais.
(22)
Coimbra Editora ®
40
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
direitos fundamentais e aos direitos humanos de todas as categorias, nomea‑
damente, os civis e políticos, bem como os sociais, económicos e culturais. (24)
A função de defesa está proximamente relacionada com a defesa da pessoa
humana e da sua dignidade perante os poderes estatais. Esta função é bem
acentuada nos direitos, liberdades e garantias pessoais (normalmente categori‑
zados como direitos civis e políticos no âmbito internacional). A função de
defesa dos direitos fundamentais é tanto de caráter negativo como positivo,
refletindo, respetivamente, planos jurídicos objetivos e subjetivos. Na perspetiva
negativa da função de defesa, os direitos fundamentais constituem normas de
competência negativa para os poderes públicos, proibindo a sua ingerência na
esfera jurídica individual protegida pelos direitos fundamentais. Esta perspetiva
negativa encontra‑se lado a lado com uma positiva, em que o indivíduo,
enquanto titular de direitos fundamentais, detem o poder de exercer positiva‑
mente os seus direitos e de exigir a não‑interferência dos poderes públicos de
forma a evitar agressões lesivas àqueles direitos (25). A proibição de censura ao
exercício da liberdade de expressão, por exemplo, contida no artigo 40.º‑1 da
CRDTL, captura claramente a função de defesa dos direitos fundamentais, em
que o Estado não deve censurar uma publicação e, caso o faça, o autor possui
o poder de exigir um término a tal censura.
Os direitos fundamentais também possuem uma função de prestação social
e esta pode ser resumida como a capacidade dos indivíduos, por virtude da
titularidade dos direitos fundamentais, de obter algo através do Estado, como
por exemplo, saúde, educação e segurança social. Esta função é normalmente
servida pelos direitos económicos, sociais e culturais. Apesar de ainda existir
algum debate sobre o alcance da efetividade destes direitos (26), a função de
prestação social prevê uma dimensão objetiva juridicamente vinculativa, obri‑
gando os poderes públicos ao desenvolvimento e execução de políticas sociais
ativas propensas à criação de instituições (por exemplo, hospitais e escolas),
serviços (por exemplo, serviços de segurança social) e ao fornecimento de
prestações (por exemplo, salário mínimo, subsídio de desemprego, bolsas de
estudo, habitações económicas). (27)
Ibid., 409‑410.
Ibid., 407‑408.
(26)
Vide Capítulo III, 4. Efetividade dos Direitos Fundamentais.
(27)
Cfr. Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
408‑409.
(24)
(25)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 41
A quarta função — de proteção perante terceiros — incorpora o significado
de que os direitos fundamentais também possuem uma função capaz de
ultrapassar a relação indivíduo‑Estado. Canotilho explica que “da garantia
constitucional de um direito, resulta o dever do Estado de adotar medidas
positivas destinadas a proteger o seu exercício diante de atividades perturba‑
doras ou lesivas dos direitos praticados por terceiros” (28). Esta função condi‑
ciona o Estado à criação de normas reguladoras de relações jurídico‑civis
capazes de garantir a observância dos direitos fundamentais na relação entre
indivíduos (esta questão é também denominada de aplicação horizontal dos
direitos fundamentais). Por exemplo, é a função de proteção perante terceiros
que determina o dever do Estado de regulamentar o casamento de uma forma
a assegurar a igualdade entre os cônjuges, de estabelecer um sistema de segu‑
rança pública para salvaguardar o direito à vida e à integridade física, entre
outros.
2. O “Desenvolvimento” dos Direitos Fundamentais e
dos Direitos Humanos
2.1 Antecedentes históricos dos direitos fundamentais e dos direitos
humanos
A história do desenvolvimento dos direitos fundamentais e dos direitos
humanos é complexa e complementar. Nesta pesquisa, deparamo‑nos com um
grande volume de informação (29). Apresenta‑se, de seguida, uma breve síntese
das principais etapas deste desenvolvimento histórico. O resumo oferecido por
Jorge Miranda molda‑se bem aos nossos objetivos. Quatro fases são reconhe‑
cidas no desenvolvimento histórico dos direitos fundamentais, com uma quinta
Ibid., 409.
José Carlos Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição
Portuguesa de 1976, 4. ed. (Coimbra: Almedina, 2009), 51‑72; Gomes Canotilho,
Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 380‑388; de Melo Alexandrino, Direi‑
tos Fundamentais: Introdução Geral, 2007, 9‑18; Fábio Konder Comparato, A Afirma‑
ção Histórica Dos Direitos Humanos, 4. ed. (São Paulo: Saraiva, 2005). Ver, também,
Andrew Clapham, Human Rights A Very Short Introduction (Oxford‑New York: Oxford
University Press, 2007), 23‑56.
(28)
(29)
Coimbra Editora ®
42
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
fase que evidencia especificamente os direitos humanos ao nível internacio‑
nal (30).
Liberdade dos
Antigos
1.ª Fase
Liberdade dos Modernos
Direitos
estamentais
2.ª Fase
Direitos
universais
Direitos liberdades
e garantias
Direitos liberdades
e garantias
e direitos sociais
3.ª Fase
4.ª Fase
Proteção interna
Proteção
internacional
5.ª Fase
Observa‑se que, para nos debruçarmos sobre a História dos direitos fun‑
damentais, é necessário considerá‑la dentro de uma realidade em que o indi‑
víduo, a autoridade e as liberdades se distinguem (31).
A primeira fase relaciona‑se com a forma de encarar a liberdade durante
a Antiguidade. Nesta época, as liberdades representavam, antes de mais nada,
a participação pública na vida da Cidade. Da segunda à quinta fase, é per‑
cetível a marca do Cristianismo e da sua visão do indivíduo, dentro do
período denominado Liberdade dos Modernos, que se prolonga desde o final
da Antiguidade até aos dias atuais. Para os modernos, as liberdades represen‑
tavam instrumentos para a realização da vida pessoal. Na segunda fase, carac‑
terizada pelos direitos estamentais, nos séculos XV e XVI, são previstos os
direitos relacionados com os grupos, as corporações, as ordens e categorias,
representando um dos primeiros sinais do Estado moderno. A terceira fase,
berço da filosofia jusnaturalista de John Locke (século XVIII), comporta uma
Miranda, Direitos Fundamentais: Introdução Geral, 18‑19.
Ibid., 17‑18.
(30)
(31)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 43
conceção de direitos universais que emanavam da natureza humana e eram
oponíveis contra os governantes. É neste tempo que, como resultado de vários
movimentos sociais no período pré industrial, surgem os principais docu‑
mentos jurídicos dos direitos fundamentais: o Bill of Rights nos Estados
Unidos (1776) e a Declaração do Homem e do Cidadão na França (1789).
As teses religiosas que pregam a unidade da humanidade e a igualdade de
todos perante a divindade fazem parte desta fase. Neste momento, foi dado
início ao estabelecimento de mecanismos de proteção no âmbito interno, na
maioria das vezes, através de normas constitucionais. Estes mecanismos de
protecção foram, eventualmente, fortalecidos na quarta fase com o estabele‑
cimento de tribunais com jurisdição constitucional e procedimentos como o
habeas corpus e a tutela direta (por exemplo, a figura do amparo). A quarta
fase é caracterizada ainda pela contraposição entre os direitos, liberdades e
garantias e os direitos sociais. Esta divisão foi o resultado das profundas
clivagens políticas, ideológicas e sociais do século XIX e XX. A última dis‑
tinção neste desenvolvimento histórico dos direitos fundamentais reporta‑se
à quinta fase relacionada com o processo de internacionalização dos direitos
fundamentais encontrados no nível nacional. Foi somente no século XX, a
partir do final da primeira guerra mundial, que o sistema de direitos funda‑
mentais passou a ter uma natureza internacional. Foi nesta fase que os dife‑
rentes Estados firmaram compromissos perante a comunidade internacional
para assegurar os direitos humanos àqueles sob sua jurisdição. As instâncias
internacionais de natureza jurisdicional ou quasi jurisdicional para a proteção
dos direitos humanos, que são atualmente de fundamental importância para
a concretização das normas de direitos humanos, figuram como inovações
deste período (32).
A História do desenvolvimento dos direitos fundamentais possui um
foco Ocidental. Esta realidade é frequentemente relatada como um desafio
à universalidade dos direitos humanos. No entanto, análises demonstram
que religiões e tradições não ocidentais, como o Corão muçulmano, o con‑
fucionismo Chinês, assim como tradições Africanas, similarmente incluem
aspectos relacionados com os direitos fundamentais, como a dignidade da
Ver, Ana Maria Guerra Martins, Direito Internacional Dos Direitos Humanos
(Almedina Editora, 2006); Philip Alston and James Crawford, eds., The Future of UN
Human Rights Treaty Monitoring (Cambridge University Press, 2000), 201‑332.
(32)
Coimbra Editora ®
44
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
pessoa humana e os direitos da coletividade (33). É verdade que esta visão dos
direitos fundamentais distancia‑se, de certa forma, do individualismo dos
preceitos fundamentais encontrados na História do Ocidente, ao concen‑
trar‑se, muitas vezes, num valor comunitário acima do indivíduo. Em virtude
destas diferenças de perspetivas, entra‑se, por vezes, ao nível internacional,
em um debate que questiona a universalidade dos direitos humanos face à
existência de um relativismo cultural. Este debate é constantemente refutado
por profissionais e académicos originários de diversos países e culturas (34).
Para Timor‑Leste, a inclusão de direitos civis e políticos, assim como de
direitos económicos, sociais e culturais, e o condicionamento do reconheci‑
mento das normas e usos costumeiros à sua conformidade com a Constituição
demonstram a aceitação da universalidade dos direitos fundamentais (35). A este
facto adiciona‑se a ratificação por Timor‑Leste de vários tratados interna‑
cionais, incluindo ambos os pactos internacionais de direitos humanos e a
Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra
as Mulheres.
Ao nível internacional, a Segunda Guerra Mundial foi o decisivo facto
histórico impulsionador da criação do sistema do Direito internacional dos
direitos humanos. O respeito pelos direitos humanos e a garantia da igualdade
entre as pessoas representam alguns dos objetivos primordiais identificados
na Carta das Nações Unidas de 1945 (36). Na sequência da adoção da Decla‑
(33)
Para uma discussão mais aprofundada sobre esta questão, ver William Theo­
dore De Bary, Asian Values and Human Rights: A Confucian Communitarian Perspective
(Harvard University Press, 1998); Fatsah Ouguergouz, The African Charter on Human
and Peoples’ Rights (Martinus Nijhoff Publishers, 1997); Ann Elizabeth Mayer, Islam
and Human Rights: Tradition and Politics (Westview Press, 1999).
(34)
Ver, por exemplo, Amartya Sen, Human Rights and Asian Values (New York:
Carnegie Council on Ethics and International Affairs, 1997); Wolfgang Kersting,
Universalismo e Direitos Humanos (EDIPUCRS, 2003); Jack Donnelly, Universal Human
Rights in Theory and Practice (Cornell University Press, 2003); Marco Antônio Gui‑
marães, ‘Fundamentação dos Direitos Humanos: Relativismo ou Universalismo?’, in
Direitos Humanos, ed. Flávia Piovesan, vol. 1 (Juruá Editora, 2006), 55‑67.
(35)
Artigo 2.º‑4 prevê “[o] Estado reconhece e valoriza as normas e os usos
costumeiros de Timor‑Leste que não contrariem a Constituição e a legislação que trate
especialmente do direito costumeiro”.
(36)
O Artigo 1.º da Carta das Nações Unidas estabelece os seus objetivos. De
acordo com o Artigo 1.º‑3 um dos objetivos desta organização é “realizar a cooperação
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 45
ração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas em 1948, a
Comissão de Direitos Humanos iniciou a preparação de um texto que viesse
a tornar‑se um tratado internacional com força jurídica contendo normas de
direitos humanos e algumas medidas para a sua implementação. Devido às
divergências políticas sobre a inclusão das diferentes categorias de direitos
humanos em um único documento vinculativo, foram elaborados dois tra‑
tados, um sobre os direitos civis e políticos e outro sobre os direitos econó‑
micos, sociais eculturais. Em 16 de Dezembro de 1966, a Assembleia Geral
das Nações Unidas aprovou o Pacto Internacional sobre os Direitos Econó‑
micos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e
Políticos, tendo ambos entrado em vigor na ordem jurídica internacional em
1976. (37)
Realça‑se que, mesmo antes da adoção dos instrumentos de direitos huma‑
nos das Nações Unidas, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) já
havia aprovado vários Tratados incidindo sobre garantias específicas dos direi‑
tos dos trabalhadores (38). À semelhança, o direito internacional humanitário
foi positivado antes dos primeiros documentos vinculativos universais dos
direitos humanos (39). Com esta realidade, pode dizer‑se que o direito interna‑
internacional, resolvendo os problemas internacionais de carácter económico, social,
cultural ou humanitário, promovendo e estimulando o respeito pelos direitos do homem
e pelas liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou
religião”.
(37)
O Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais
entrou em vigor no dia 3 de Janeiro de 1976, três meses após a 35.ª ratificação, como
estipulado no seu artigo 27.º. O Pacto International sobre os Direitos Civis e Políticos
entrou em vigor em 23 de Março de 1976, três meses após a 35.ª ratificação, como
estipulado no seu artigo 49.º.
(38)
Por exemplo, a Convenção sobre os Direitos de Associação e de Coligação
dos Trabalhadores Agrícolas de 1921, Convenção sobre a Liberdade Sindical e a Pro‑
tecção do Direito Sindical de 1948 e Convenção sobre a Igualdade de Remuneração
de 1951.
(39)
Em 1949, foram adotadas quatro Convenções de Genebra sobre o direito
internacional humanitário. Estas incluem várias garantias em estreita relação com os
direitos humanos, como por exemplo, o direito à vida, a proibição da tortura e o direito
ao processo equitativo. Sobre a relação entre o direito internacional humanitário e os
direitos humanos, ver Roberta Arnold, International Humanitarian Law and Human
Rights Law: Towards a New Merger in International Law (BRILL, 2008).
Coimbra Editora ®
46
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
cional humanitário, assim como o direito internacional do trabalho, foram
precursores no processo de internacionalização dos direitos humanos.
Encontramo‑nos, nos dias de hoje, perante um vasto leque de convenções
internacionais na área dos direitos humanos. Após a adoção de tratados que
regulam direitos de todas as pessoas (direitos universais), evidenciou‑se uma
nova tendência para a adoção de tratados prevendo direitos particulares de
certos grupos. Estes tratados dirigem‑se a grupos que a História mostrou serem
vítimas de sérias violações de direitos humanos e, por consequência, necessitam
de uma especial proteção. Nesta categoria, incluem‑se os tratados sobre os
direitos das crianças, das mulheres, dos trabalhadores migrantes e das pessoas
portadoras de deficiência. O quadro abaixo lista os principais tratados de direi‑
tos humanos das Nações Unidas, bem como as datas da sua adoção e entrada
em vigor (40).
21 Dez 1965
Entrada em
Vigor
4 Jan 1969
16 Dez 1966
23 Mar 1976
16 Dez 1966
23 Mar 1976
15 Dez 1989
5 Dez 1991
16 Dez 1966
3 Jan 1976
10 Dez 2008
5 Maio 2013
Adoção
CEDR
PIDCP
PIDESC
Convenção Internacional sobre a Elimi‑
nação de Todas as Formas de Discrimi‑
nação Racial
Pacto Internacional sobre os Direitos
Civis e Políticos
PIDCP PF1 — Protocolo Facultativo
referente ao Pacto Internacional sobre os
Direitos Civis e Políticos
PIDCP PA2 — Segundo Protocolo Adi‑
cional ao Pacto Internacional sobre os
Direitos Civis e Políticos com vista à
Abolição da Pena de Morte
Pacto Internacional sobre os Direitos
Económicos, Sociais e Culturais
PIDESC PF — Protocolo Facultativo ao
Pacto Internacional sobre os Direitos
Económicos, Sociais e Culturais
Os tratados internacionais não entram em vigor imediatamente após a sua
aprovação pela resolução da Assembleia Geral, mas sim quando o número mínimo de
Estados previsto no texto do tratado submete os instrumentos de adesão ou de ratifi‑
cação. Vide, Capítulo I, 3.2.1 Os Tratados Internacionais de Direitos Humanos.
(40)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 47
Adoção
CEDAW
CCT
CDC
CIDTM
CDPD
CPDF
Entrada em
Vigor
3 Nov 1981
Convenção sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação contra as
Mulheres
CEDAW PO — Protocolo Opcional à
Convenção sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação contra as
Mulheres
Convenção contra a Tortura e Outras
Penas ou Tratamentos Cruéis, Desuma‑
nos ou Degradantes
CCT PF — Protocolo Facultativo à
Convenção contra a Tortura e Outras
Penas ou Tratamentos Cruéis, Desuma‑
nos ou Degradantes
Convenção sobre os Direitos da Criança
CDC PFCA —Protocolo Facultativo à
Convenção sobre os Direitos da Criança
relativo à Participação de Crianças em
Conflitos Armados
18 Dez 1979
CDC PFVC — Protocolo Facultativo à
Convenção sobre os Direitos da Criança
relativo à Venda de Crianças, Prostituição
Infantil e Pornografia Infantil
Protocolo Facultativo à Convenção sobre
os Direitos da criança relativo à Instituição
de um Procedimento de comunicação
Convenção Internacional sobre a Prote‑
ção dos Direitos de Todos os Trabalha‑
dores Migrantes e dos Membros das suas
Famílias
Convenção sobre os Direitos das Pessoas
com Deficiência
CDPD PF — Protocolo Facultativo à
Convenção sobre os Direitos das Pessoas
com Deficiência
Convenção Internacional para a Proteção
de todas as Pessoas contra o Desapareci‑
mento Forçado
25 Maio 2000 18 Jan 2002
Coimbra Editora ®
10 Out 1999 22 Dez 2000
10 Dez 1984
26 Jun 1987
18 Dez 2002
22 Jun 2006
20 Nov 1989 2 Set 1990
25 Maio 2000 12 Fev 2002
19 Dez 2011
14 Abril 2014
18 Dez 1990
1 Jul 2003
13 Dez 2006
3 Maio 2008
13 Dez 2006
3 Maio 2008
20 Dez 2006
23 Dez 2010
48
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
2.2 O Futuro dos Direitos Fundamentais e dos Direitos Humanos
Pode dizer‑se que, em um ou dois séculos, muito foi alcançado no que
respeita às garantias dos direitos fundamentais e dos direitos humanos.
Apesar deste avanço, ainda ocorrem, em todos os cantos do mundo, viola‑
ções de direitos humanos, que, em certas situações são violações de colos‑
sal gravidade. É, porém, inegável afirmar que os padrões hoje reconhecidos
proporcionam uma rede de segurança importante para o gozo dos direitos
fundamentais e dos direitos humanos. A existência de uma série de direitos
fundamentais nas constituições dos Estados representa a regra e não a
exceção.
Mas como será o futuro dos direitos fundamentais e dos direitos humanos?
Apesar de haver ainda um número substancial de violações destas garantias em
todo o mundo, é de assinalar o fortalecimento de mecanismos de implemen‑
tação nos níveis nacionais, regionais e internacional. Os movimentos populares
pró‑democracia em países árabes no início de 2011 (a chamada Primavera
Árabe), os julgamentos de líderes de ditaduras militares na América Latina e
do regime do Khmer vermelho no Camboja e as acusações contra um presidente
em exercício, pelo Tribunal Penal Internacional, afiguram alguns dos exemplos
recentes do robustecimento destes sistemas. Em Timor‑Leste, a promulgação
da lei sobre a violência doméstica, o fortalecimento dos sistemas de responsa‑
bilização das forças de defesa e segurança, assim como a diminuição das taxas
de mortalidade infantil e materna demonstram a seriedade com que os direitos
fundamentais são encarados.
Nesta teia de fortalecimento da proteção dos direitos humanos e dos
direitos fundamentais encontra‑se uma tendência para o aumento de situações
jurídicas consideradas como direitos fundamentais e direitos humanos. Por um
lado, este aumento demonstra a importância atribuída aos direitos humanos e
aos direitos fundamentais. Porém, por outro lado, um acréscimo nos padrões
de direitos fundamentais e de direitos humanos pode diluir o caráter de fun‑
damentalidade destes, esbatendo o limite entre direito fundamental e direitos
de outra natureza.
Ao nível internacional, encontram‑se opiniões divergentes sobre esta
questão, por parte dos Estados, dos organismos especializados das Nações
Unidas e da doutrina de juristas de reconhecido mérito. Alguns Estados
manifestam‑se, de forma veemente, questionando a necessidade de se criar
novos padrões de direitos humanos, argumentando que aqueles já reco‑
nhecidos são capazes de proporcionar a proteção necessária aos indiví‑
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 49
duos (41). De distinta forma, diferentes mecanismos dos direitos humanos
ao nível das Nações Unidas desenvolvem regularmente estudos argumen‑
tando a favor do reconhecimento de novos padrões (42). A posição da
doutrina encontra‑se frequentemente dividida sobre esta questão. (43)
Em relação aos direitos fundamentais na Constituição de Timor‑Leste, esta
mantém‑se em linha com os dois principais tratados internacionais de direitos
humanos: o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e o Pacto
Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Observa‑se que
a Constituição timorense não inclui certos padrões que figuram como direitos
fundamentais nas constituições de vários dos países de língua portuguesa, como
é o caso do direito de antena e garantias relacionadas (artigo 49.º da Constitui‑
ção moçambicana), direito à livre iniciativa económica (artigo 38.º da Consti‑
tuição angolana), liberdade de escolha de profissão e acesso à função pública
(artigo 47.º da Constituição portuguesa), entre outros. É importante salientar
A questão da proliferação de padrões de direitos humanos foi já levantada
por alguns Estados na década de 90. Por exemplo, a Declaração e Programa de Acção
de Viena, aprovada na Conferência Mundial sobre Direitos Humanos em 1993 expres‑
samente discute esta questão no seu parágrafo II.A‑6 ao considerar “a necessidade de
manter o alto nível de qualidade das normas internacionais existentes e de evitar a
proliferação de instrumentos de Direitos Humanos” (Documento da Assembleia Geral
da O.N.U., A/CONF.157/23, 12 de Julho de 1993). Mais recentemente, vários Esta‑
dos membros das Nações Unidas, através de uma resolução da Assembleia Geral das
Nações Unidas, expressaram a preocupação em reconhecer a existência de um direito
à água e ao saneamento apesar de este não estar previsto especificamente como padrão
autónomo de direitos humanos em instrumentos internacionais (General Assembly,
Department of Public Information, GA/10967, 28 July 2010).
(42)
Ver, por exemplo, United Nations, Report of the Independent Expert on the
Issue of Human Rights Obligations Related to Access to Safe Drinking Water and Sanita‑
tion, Catarina de Albuquerque (Human Rights Council, 1 July 2009), para. 55‑59;
United Nations, Report of the Independent Expert in the Field of Cultural Rights, Farida
Shaheed, 21 March 2011, para. 58‑76.
(43)
Ver, por exemplo, Philip Alston, ‘Conjuring up New Human Rights: A
Proposal for Quality Control’, The American Journal of International Law 78, no. 3
(1984): 607‑21; Lance Gable, ‘The Proliferation of Human Rights in Global Health
Governance’, The Journal of Law, Medicine & Ethics 35, no. 4 (2007): 534‑44; Jona
Razzaque, ‘Right to a Healthy Environment in Human Rights Law’, in International
Human Rights Law: Six Decades After the UDHR and Beyond, ed. Mashood A. Baderin
and Manisuli Ssenyonjo (Ashgate Publishing, 2010), 115‑135.
(41)
Coimbra Editora ®
50
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
que vários autores da doutrina portuguesa questionam a inclusão de alguns des‑
tes direitos e garantias relacionadas, como direitos fundamentais (44). A abertura
constitucional aos direitos fundamentais e a receção do direito internacional,
ambas previstas na Constituição timorense (respetivamente nos artigos 9.º e
23.º), garantem uma ampla proteção aos direitos fundamentais, complemen‑
tando vigorosamente as garantias expressas no seu texto. (45)
2.3 O Contexto Nacional: Os Direitos Fundamentais e os Direitos
Huma­nos em Timor‑Leste
Em Timor‑Leste, os direitos fundamentais e os direitos humanos desem‑
penharam uma função proeminente no desenvolvimento da sua História. Os
direitos humanos — especificamente o direito à autodeterminação — figurou
como a principal norma jurídica utilizada para assegurar a independência da
nação. Menções específicas ao direito à autodeterminação do povo timorense
estão assentes em vários documentos das Nações Unidas, incluindo na resolu‑
ção do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Dezembro de 1975,
meses após a invasão da Indonésia a Timor‑Leste (46), assim como em resoluções
anuais da Assembleia Geral, adotadas entre 1975 e 1982. (47)
(44)
Ver, Jorge Miranda e Rui Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2. ed.,
Tomo I (Coimbra: Coimbra Editora, 2010), 883‑884; Gomes Canotilho e Moreira,
Constituição Da República Portuguesa Anotada, 2007, I (Artigo 1.º a 107.º):602; José
de Melo Alexandrino, Direitos Fundamentais: Introdução Geral (Principia, 2007), 52‑55.
(45)
Vide, Capítulo I, 4. Relação Entre o Direito Interno e o Direito Internacio‑
nal e Capítulo III, 3.2 Outros Direitos Fundamentais.
(46)
O.N.U., Resolução Do Conselho de Segurança, 384 (1975), 1975.
(47)
O.N.U., Resolução Da Assembleia Geral, 3485 (XXX), 1975; O.N.U., Reso‑
lução Da Assembleia Geral, 31/53, 1976; O.N.U., Resolução Da Assembleia Geral, 32/34,
1977; O.N.U., Resolução Da Assembleia Geral, 33/39, 1978; O.N.U., Resolução Da
Assembleia Geral, 34/40, 1979; O.N.U., Resolução Da Assembleia Geral, 35/27, 1980;
O.N.U., Resolução Da Assembleia Geral, 36/50, 1981; O.N.U., Resolução Da Assembleia
Geral, 37/30, 1982. A resolução de 1982 foi a última resolução da Assembleia Geral
das Nações Unidas em relação à situação de Timor‑Leste durante a ocupação da Indo‑
nésia, apesar de a questão de Timor‑Leste continuar a ser incluída anualmente na
agenda deste órgão entre 1982 e 1998. Tal deveu‑se ao facto de a questão de Timor‑Leste
ter sido, a partir de 1983, lidada sob a égide do Secretário‑geral das Nações Unidas e
o debate na Assembleia Geral ser anualmente adiado com base na recomendação do
seu Comité Geral.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 51
A História de Timor‑Leste, desde a colonização Portuguesa até à restau‑
ração da sua independência em 2002, é narrada no relatório da Comissão de
Acolhimento, Verdade e Reconciliação, publicado em 2005 (48). No que diz
respeito à questão dos direitos humanos, aquele relatório debate os padrões
violados por diferentes instituições, durante a História de Timor‑Leste, analisa
a utilização daqueles direitos como instrumento de sensibilização para a causa
da independência e a inclusão de garantias fundamentais em documentos dos
diferentes movimentos sociais e partidos políticos de Timor‑Leste. (49)
Durante a resistência de Timor‑Leste à ocupação da Indonésia, foram
utilizados vários mecanismos internacionais para a promoção dos direitos
humanos do povo timorense, incluindo a extinta Comissão dos Direitos
Humanos (50), o Conselho de Segurança (51), a Assembleia Geral das Nações
Unidas (52) e o Tribunal Internacional de Justiça (53). Alguns direitos funda‑
mentais já estavam presentes na Constituição de Timor‑Leste de 1975,
nomeadamente, o direito ao trabalho, à educação e à saúde, o direito à par‑
ticipação política, a liberdade religiosa e a igualdade entre homens e mulhe‑
res (54). Os manifestos da Associação Social Democrática Timorense (ASDT)
e da Associação Popular Democrática Timorense (Apodeti) de 1975 também
incorporavam estes preceitos ao proclamarem o respeito pelos direitos huma‑
nos e pelas liberdades individuais.
Em 1999, ao povo timorense foi dada a oportunidade de exercer o seu
(48)
CAVR, Chega! Relatório Da Comissão de Acolhimento, Verdade E Reconcilia‑
ção de Timor‑Leste (Dili, 2005).
(49)
Ver, em especial, CAVR, Chega! Relatório Da Comissão de Acolhimento,
Verdade E Reconciliação de Timor‑Leste (Dili, 2005), cap. 3 a 7.
(50)
Ver, por exemplo, O.N.U., Resolução Da Comissão de Direitos Humanos,
1997/63, 1997.
(51)
O.N.U., Resolução Do Conselho de Segurança, 1975. e O.N.U., Resolução do
Conselho de Segurança, 389 (1976), 1976.
(52)
Nota de rodapé n. 46.
(53)
East Timor (Portugal v. Australia), Judgement, I.C.J. Reports 1995 (Tribu‑
nal Internacional de Justiça 1995). Um resumo em português do acórdão encontra‑se
publicado no http://www.cedin.com.br/site/pdf/jurisprudencia/pdf_cij/casos_contecio‑
sos_1991_02.pdf (acedido a 10 de Agosto de 2014).
(54)
CAVR, Chega! Relatório Da Comissão de Acolhimento, Verdade E Reconcilia‑
ção de Timor‑Leste, 2005, cap. 3.
Coimbra Editora ®
52
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
direito à autodeterminação (55), através de um referendo sobre o seu estatuto
político. O estatuto político escolhido pelos timorenses foi a independência
como Estado soberano, sendo esta restaurada em 20 de Maio de 2002. Como
expresso em seu primeiro relatório para o sistema de Revisão Periódica Uni‑
versal das Nações Unidas, “[a] luta do povo timorense para ganhar a sua inde‑
pendência foi, em sua essência e em todas as dimensões, uma luta pelos direi‑
tos humanos”. (56)
A Constituição da República Democrática de Timor‑Leste reconhece uma
gama de direitos fundamentais, doando‑lhes uma posição de grande proemi‑
nência ao considerar a sua garantia como um dos objetivos principais do
Estado. (57)
A vontade de Timor‑Leste de participar na comunidade internacional é
expressa pela sua adesão, sem reservas, a sete dos principais tratados internacionais
de direitos humanos. Já em 2003, Timor‑Leste ratificou o PIDCP e o seu segundo
protocolo adicional (58), o PIDESC (59), a CCT (60), a CEDR (61), a CEDAW e seu
A autodeterminação é reconhecida como um direito e enquanto princípio
do direito internacional. A Carta das Nações Unidas reconhece a autodeterminação
como um de seus objetivos e como um princípio basilar para a relação pacífica e
amistosa entre os Estados (artigos 1.º‑2 e 55.º). O artigo 1.º‑1 comum ao Pacto Inter‑
nacional sobre os Direitos Civis e Políticos e ao Pacto Internacional sobre os Direitos
Económicos, Sociais e Culturais prevê : “Todos os povos têm o direito a dispor deles
mesmos. Em virtude deste direito, eles determinam livremente o seu estatuto político
e dedicam‑se livremente ao seu desenvolvimento económico, social e cultural.” Ainda,
o Tribunal Internacional de Justiça considerou a autodeterminação dos povos como
um princípio erga omnes do direito internacional (East Timor (Portugal v. Australia),
Judgement, I.C.J. Reports 1995, 29 (Tribunal Internacional de Justiça 1995), vol. I.C.J.
Reports 1995, para. 29.) Vide, Capítulo I, 3.2.5 Os princípios gerais do Direito inter‑
nacional.
(56)
Relatório Nacional Submetido de Acordo Com O Parágrafo 15 (a) Do Anexo
Da Resolução 5/1 Do Conselho de Direitos Humanos: Timor‑Leste, 19 July 2011,
para. 122. (tradução livre das autoras).
(57)
Artigo 6.º/b.
(58)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 3/2003, de 22 de Julho; Resolução
do Parlamento Nacional n.º 13/2003, de 17 de Setembro.
(59)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 8/2003, de 17 de Setembro.
(60)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 9/2003, de 17 de Setembro.
(61)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 10/2003, de 17 de Setembro.
(55)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 53
protocolo opcional (62), a CDC (63) e o protocolo facultativo relativo à venda de
crianças, prostituição infantil e pornografia infantil, bem como o Protocolo
relativo à participação de crianças em conflitos armados (64) e a CIDTM (65).
Timor‑Leste é também um Estado parte da Convenção de 1951 sobre o Estatuto
dos Refugiados e seu protocolo de 1967 (66), das quatro Convenções de Genebra
relativas à proteção de vítimas de conflitos armados e dos seus três protocolos
adicionais (67), do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas Contra
o Crime Organizado Transnacional, relativo à Prevenção, Repressão e Punição
do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças (68), das Convenções
Números 29, 87, 98 e 182 da Organização Internacional do Trabalho (69), assim
como do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. (70)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 11/2003, de 17 de Setembro; Reso‑
lução do Parlamento Nacional n.º 12/2003, de 17 de Setembro.
(63)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 16/2003, de 17 de Setembro.
(64)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 17/2003, de 17 de Setembro; Reso‑
lução Do Parlamento Nacional N. 18/2003, de 17 de Setembro. Timor‑Leste declarou
ser 18 anos a idade mínima para o recrutamento voluntário nas forças armadas.
O artigo 3.º‑2 desta Convenção requer que o Estado parte, no momento da ratificação
ou adesão, faça uma declaração “indicando a idade mínima a partir da qual autoriza
o recrutamento voluntário nas suas forças armadas”. Note‑se ainda que a Convenção
dos Direitos da Criança proíbe, no seu artigo 38.º‑3, o recrutamento para forças
armadas de crianças menores de 15 anos.
(65)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 23/2003, de 19 de Novembro.
(66)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 20/2003, de 17 de Setembro.
(67)
A ratificação para adesão da Convenção de Genebra I para Melhorar a
Situação dos Feridos e Doentes das Forças Armadas em Campanha, Convenção de
Genebra II para melhorar a Situação dos Feridos, Doentes e Náufragos Das Forças
Armadas no Mar, Convenção de Genebra III Relativa ao Tratamento dos Prisioneiros
de Guerra, Convenção de Genebra IV Relativa à Protecção das Pessoas Civis em Tempo
de Guerra, Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra relativo à Protecção das
Vítimas dos Conflitos Armados Internacionais e Protocolo Adicional II relativo à
Protecção das Vítimas dos Conflitos Armados Não Internacionais foi feita em 2002
pela Resolução Do Parlamento Nacional N. 18/2002, de 9 de Setembro. O Protocolo
Adicional III relativo à Adoção de um Emblema Distintivo Adicional foi ratificado em
2009 através da Resolução Do Parlamento Nacional N.º 22/2009, de 10 de Junho.
(68)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 29/2009, de 9 de Setembro.
(69)
Respetivamente, Convenção sobre o Trabalho Forçado (ratificada pela Reso‑
lução do Parlamento Nacional n.º 10/2009, de 8 de Abril), Convenção sobre a Liber‑
(62)
Coimbra Editora ®
54
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
3. Fontes dos Direitos Fundamentais e dos Direitos
Humanos (70)
Uma compreensão sobre os direitos fundamentais e os direitos huma‑
nos requer uma análise das suas fontes normativas. Sendo a questão das
fontes de Direito e a sua capacidade de criar normas jurídicas um assunto
de caráter introdutório do Direito em geral e do direito civil em particular,
afigura‑se relevante prover um resumo genérico das diferentes fontes e da
sua capacidade de criar normas jurídicas no ordenamento nacional e inter‑
nacional no âmbito do sistema dos direitos fundamentais e dos direitos
humanos.
As fontes do Direito, em seu sentido técnico‑jurídico, podem ser definidas
como os modos de formação e revelação das normas jurídicas em um determi‑
nado ordenamento jurídico. Tradicionalmente, são enumeradas quatro fontes
do Direito: a lei, a jurisprudência, o costume e a doutrina. As diferentes fontes
são ainda classificadas como fontes imediatas (ou diretas) do Direito ou fontes
mediatas (indiretas) do Direito. As fontes imediatas são aquelas que criam
normas jurídicas, enquanto as fontes mediatas ocupam uma função de contri‑
buição para a formação das normas jurídicas, sem representarem, propriamente,
uma norma de valor legal. (71)
É possível encontrar normas de direitos fundamentais e de direitos huma‑
nos nas quatro fontes tradicionais do Direito.
dade Sindical e a Protecção dos Direitos Sindicais (ratificada pela Resolução do Parla‑
mento Nacional n.º 7/2009, de 25 de Março); Convenção sobre a Aplicação dos
Princípios do Direito de Sindicalização e de Negociação Coletivas (ratificada pela
Resolução do Parlamento Nacional n.º 8/2009, de 25 de Março) e a Convenção Rela‑
tiva à Interdição das Piores Formas de Trabalho das Crianças e à Acção Imediata com
Vista à sua Eliminação (ratificada pela Resolução do Parlamento Nacional n.º 9/2009,
de 8 de Abril)
(70)
Resolução do Parlamento Nacional n.º 13/2002, de 13 de Agosto.
(71)
Sobre as fontes de Direito, ver, por exemplo, A. Castanheira Neves, Curso
de Introdução Ao Estudo Do direito:Lições Proferidas a Um Curso Do 1.º Ano Da Facul‑
dade de Direito de Coimbra No Ano Lectivo de 1971‑72 (Coimbra, 1971), 407‑ss; José
de Oliveira Ascenção, O Direito — Introdução E Teoria Geral, 13.ª ed. refundida
(Coimbra: Almedina, 2010), 255‑ss; Miguel Reale, Lições Preliminares de Direito,
25.ª Edição (São Paulo: Saraiva, 2001), 129‑172.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 55
3.1 Ao Nível Nacional
No âmbito geral das fontes de Direito em Timor‑Leste, as leis são as
principais fontes imediatas (ou diretas) do Direito, como claramente previsto
no artigo 1.º do Código Civil (72). As leis são definidas como “todas as dispo‑
sições genéricas provindas dos órgãos estaduais competentes” (artigo 1.º‑2 do
Código Civil e também artigo 2.º‑2 da Lei n.º 10/2003, de 10 de Dezembro,
sobre Interpretação do Artigo 1.º da Lei n.º 2/2002, de 7 de Agosto e Fontes
do Direito).
Refira‑se, desde já, que a Constituição é a lei suprema de Timor‑Leste. (73)
Relembra‑se, como já visto, que o próprio conceito de direito fundamental
aponta para a sua positivação no texto Constitucional, sendo, regra geral,
necessária a sua inclusão na lei constitucional.
As leis e outros diplomas legislativos representam instrumentos importan‑
tes como fontes tanto de normas de direitos fundamentais como de normas
necessárias para a aplicação destes.
Normas positivadas em leis ordinárias podem estabelecer normas de direi‑
tos fundamentais. Tal é fruto da abertura do sistema dos direitos fundamentais
estabelecida no artigo 23.º da Constituição timorense, segundo o qual os
“direitos fundamentais consagrados na Constituição não excluem quaisquer
outros constantes da lei”. Quando os direitos fundamentais são previstos nas
leis, possuem um carácter extra constitucional e são classificados como direitos
só materialmente fundamentais, como já mencionado quando da análise sobre
a classificação dos direitos fundamentais. Considerando esta abertura do sistema,
deparamo‑nos com a difícil tarefa de identificar quais as normas previstas em
leis ordinárias que podem ser consideradas como direitos fundamentais (em
sentido só material) e quais aquelas que não podem ser consideradas como tal.
O critério determinante é o critério de fundamentalidade das normas previstas
na legislação ordinária. (74)
As leis e outros diplomas legislativos são também da máxima importância
para a implementação dos direitos fundamentais. A própria Constituição faz
referência à necessidade da regulamentação por lei de vários padrões de direitos
Lei n.º 10 /2011, de 14 de Setembro.
Artigo 2.º da Constituição timorense de 2002. Vide Capítulo II, 2.2 Prin‑
cípios Fundamentais.
(74)
Vide Capítulo III, 3.2 Outros Direitos Fundamentais.
(72)
(73)
Coimbra Editora ®
56
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
fundamentais. Este é o caso do direito de manifestação (artigo 42.º‑2) (75), do
direito à objeção de consciência (artigo 45.º‑2), do direito à greve
(artigo 51.º‑1) (76), do direito à assistência social (artigo 56.º‑1) e do direito à
saúde (artigo 57.º‑2). As leis podem ainda estabelecer o sistema para a imple‑
mentação de um certo direito fundamental, assim como as instituições respon‑
sáveis para a sua execução. Por exemplo, o direito fundamental ao sufrágio
previsto no artigo 47.º da Constituição é implementado no contexto das elei‑
ções, através de uma gama de atos legislativos, nomeadamente, leis eleitorais (77),
legislação que estabeleça e regule órgãos da administração eleitoral (78), crimi‑
nalize atos que colidam com o gozo deste direito (79) e que crie a base legal para
a constituição de partidos políticos. (80)
As normas e usos costumeiros podem ser também considerados como
fontes imediatas do Direito em Timor‑Leste em virtude do seu reconhecimento
Constitucional (81) e da regulamentação do seu valor jurídico pelo Código Civil
timorense (82). Note‑se, no entanto, que as normas e usos costumeiros só podem
ser considerados como fonte imediata do Direito se passarem por uma análise
de constitucionalidade e legalidade (83). A conformidade das normas e usos
Este direito fundamental foi regulamentado pela Lei n.º 1/2006, de 8
de Fevereiro (Liberdade de Reunião e Demonstração).
(76)
Este já regulado pela Lei n.º 4/2012, de 21 de Feveveiro (Lei do Trabalho).
(77)
Lei n.º 6/2006, de 28 de Dezembro (com alterações decorrentes da Lei
n.º 6/2007, de 31 de Maio e Lei n.º 7/2011, de 22 de Junho), Lei n.º 7/2006, de 28
de Dezembro (com alterações decorrentes da Lei n.º 5/2007, de 28 de Março e Lei
n.º 8/2011, de 22 de Junho) e a Lei n.º 3/2009, de 8 de Julho (Lideranças Comuni‑
tárias e sua Eleição).
(78)
Lei n.º 5/2006, de 28 de Dezembro (com alterações decorrentes da Lei
n.º 6/2011, de 22 de Junho) e Decreto‑Lei n.º 7/2013, de 22 de Maio.
(79)
Decreto‑Lei n.º 19/2009, de 8 de Abril (Aprova o Código Penal).
(80)
Lei n.º 3/2004, de 14 de Abril (Sobre Partidos Políticos).
(81)
A Constituição prevê o reconhecimento e a valorização das normas e dos
usos costumeiros no seu artigo 2.º‑4.
(82)
O artigo 2.º do Código Civil estipula que “[a]s normas e os usos costumei‑
ros que não contrariem a Constituição e as leis são juridicamente atendíveis.”
(83)
A Constituição timorense e a sua homóloga portuguesa difereciam‑se sobre
o reconhecimento das normas e usos costumeiros, uma vez que a Constituição portu‑
guesa não reconhece expressamente esta fonte de Direito. De certo modo, a Consti‑
tuição timorense aproxima‑se mais da Constituição angolana (artigo 7.º da Constitui‑
ção da República de Angola de 2010). Porém, a Constituição timorense não determina
(75)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 57
costumeiros, como parte da cultura tradicional timorense, com os direitos
fundamentais, especialmente, o direito à igualdade de género, é questionada (84).
Portanto, por vezes, poderá haver uma relação de confronto entre os usos
costumeiros e os direitos fundamentais.
As outras fontes de Direito — a jurisprudência e a doutrina — são fontes
indiretas ou mediatas do Direito em Timor‑Leste.
A competência do Supremo Tribunal de Justiça na uniformização da
jurisprudência ilustra, por exemplo, a função importante da jurisprudência na
interpretação e concretização do Direito, ao ponto de a jurisprudência chegar
a ter um efeito de força obrigatória interna para os tribunais. (85)
Com o funcionamento do Tribunal de Recurso e o amadurecimento do
sistema jurídico e judicial de Timor‑Leste, os números de decisões judiciais
estão a aumentar exponencialmente, resultando no fortalecimento de uma
jurisprudência nacional (86). Exemplos de acórdãos que têm vindo a lançar o
desenvolvimento de uma jurisprudência na área específica dos direitos funda‑
mentais incluem:
•Acórdão de 16 de Agosto de 2007 (Proc. 02/ACC/2007): neste acór‑
dão, o Tribunal considerou que o direito à igualdade contido no
artigo 16.º da Constituição é violado quando tratamento desigual é
dado a pessoas em situações análogas sem existir “fundamento sério,
claramente a força jurídica dos costumes, como o faz a Constituição angolana.
Entende‑se que o novo Código Civil clarificou a força jurídica dos costumes conside‑
rando estes “juridicamente atendíveis” desde que não contrariem a Constituição e as
leis (artigo 2.º do Código Civil).
(84)
Relatório Inicial À Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Dis‑
criminação Contra a Mulher (CEDAW), Resolução Do Governo N.º 4/2008, de 27 de
Fevereiro, de 27 de Fevereiro.
(85)
O valor dos acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de fixação (ou uni‑
formização) de jurisprudência está previsto no artigo 498.º‑1 do Código de Processo
Civil (“A doutrina do acórdão que fixar jurisprudência uniforme constitui jurisprudên‑
cia obrigatória para todos os tribunais timorenses”) e no artigo 322.º‑3 do Código de
Processo Penal (“O recurso para a fixação de jurisprudência vincula todos os tribunais
de Timor‑Leste”).
(86)
Por exemplo, em 2004, o Tribunal de Recurso publicou 50 acórdãos. No
ano de 2009, foram publicados 66 acórdãos, e, em 2010, o número subiu para 74.
Coimbra Editora ®
58
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
legítimo e razoável” (87). Este tribunal considerou ainda que o princí‑
pio da igualdade transpõe três aspetos distintos: “igualdade na criação
do direito, a igualdade na aplicação do direito e a igualdade de opor‑
tunidades”. (88)
•Acórdão de 23 de Setembro de 2010 (Proc. 59/CO/2010/TR): o
Tribunal declarou que o direito à produção de provas representa uma
garantia ao direito de acesso ao tribunal (artigo 26.º‑1 da Constitui‑
ção) e às garantias do processo criminal (artigo 34.º‑3 da Constitui‑
ção). (89)
•Acórdão de 20 de Agosto de 2008 (Proc. 02/CONST/08/TR): o Tri‑
bunal considerou a natureza do direito à petição previsto no artigo 48.º
da Constituição, distinguindo este direito da garantia fundamental de
acesso aos tribunais contida no artigo 26.º da Constituição. (90)
O Tribunal de Recurso tem utilizado a jurisprudência de outros países
como instrumento de auxílio na interpretação das normas aplicáveis em
Timor‑Leste. Note‑se que o Tribunal não se limita à jurisprudência de países
de língua Portuguesa, examinando também outras jurisdições, incluindo juris‑
dições que não seguem o sistema civilista de Direito, principalmente, em casos
que não se debruçam sobre matérias de caráter processual. É relevante destacar
que, na determinação do uso de jurisprudência estrangeira, o Tribunal de
Recurso considera analiticamente as decisões dos tribunais de outras jurisdições,
incluindo a portuguesa e a brasileira, num processo que pode incluir a identi‑
ficação de semelhanças e diferenças entre as jurisdições estrangeiras e o orde‑
namento jurídico nacional, dando uma ênfase especial ao contexto socio‑cul‑
tural timorense. (91)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 16 de Agosto de 2007, Proc. n.º 02/AAC/
/07/TR, 264 (Tribunal de Recurso 2007).
(88)
Ibid. Ver, também, Tribunal de Recurso, Acórdão de 15 de Fevereiro
de 2011, Proc.01/RC/2009/TR (Tribunal de Recurso 2011).
(89)
Tribunal de Recurso, Acórdão 23 de Setembro de 2010, Proc. n.º 59/CO/
/2010/TR, 10 (2010).
(90)
Cfr. Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto de 2008 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva da Constitucionalidade), Proc.02/2008/TR (Tribunal de Recurso
2008).
(91)
Cfr. Tribunal de Recurso, Acórdão 15 de Fevereiro de 2010, Proc. n.º 13/
/CIVEL/2009/TR, 7 (2010).
(87)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 59
A utilização da doutrina é um instrumento de grande valia no processo
judicial de interpretação das normas. Em Timor‑Leste, a existência de doutrina
é ainda limitada, não existindo volumes de estudos científicos sobre o Direito
aplicado à realidade do país, incluindo na área dos direitos fundamentais. Há,
no entanto, alguns exemplos de juristas de outras jurisdições que se debruçaram
sobre questões jurídicas de Timor‑Leste, prestando, assim, apoio ao desenvol‑
vimento de uma doutrina nacional. Como consequência desta realidade,
revela‑se frequente o uso da doutrina Portuguesa pelo Tribunal de Recurso (92).
Entre os principais autores da doutrina Portuguesa utilizados por este tribunal,
na área dos direitos fundamentais, incluem‑se Gomes Canotilho, Vital Moreira
e Jorge Miranda.
3.2 Ao Nível Internacional
As normas de direitos humanos podem ser encontradas nas diferentes
fontes do Direito internacional público, sendo os tratados e os costumes as
suas principais fontes.
O ponto de partida para a identificação das fontes do Direito ao nível
internacional é o artigo 38.º‑1 do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça,
que é geralmente considerado pela doutrina, incluindo a doutrina portuguesa,
como o elenco tradicional das fontes do Direito internacional (93). O artigo 38.º‑1
do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça identifica cinco fontes do
Direito internacional a ser aplicado por este próprio tribunal: as convenções
internacionais, o costume internacional, os princípios gerais do Direito, as
(92)
A doutrina e o direito brasileiro, espanhol, italiano e americano são tam‑
bém utilizados pelo Tribunal de Recurso. Cfr. Tribunal de Recurso, Acórdão de 29
de Abril de 2010, Proc. 20/C0/10/TR, 926‑ss31 (Tribunal de Recurso 2010); Tri‑
bunal de Recurso, Acórdão de 31 de Outubro de 2007, Proc. 40/C.O./2007/TR,
14 (Tribunal de Recurso 2007); Tribunal de Recurso, Acórdão de 14 de Junho
de 2010, Proc. 24/CO/10/TR, 71‑72 (Tribunal de Recurso 2010); Tribunal de
Recurso, Acórdão de 15 de Fevereiro de 2011, Proc.01/RC/2009/TR, 35‑36 (Tri‑
bunal de Recurso 2011), 35‑36.
(93)
Esta é a posição aceite por grande parte da doutrina portuguesa e interna‑
cional. Ver, por exemplo, Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao
Pós‑11 de Setembro, p. 103‑ss. 2013; Antônio Augusto Cançado Trindade, A humani‑
zação do direito internacional (Editora del Rey, 2006), 30‑96.
Coimbra Editora ®
60
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
decisões judiciais e a doutrina (94). Às cinco fontes identificadas no Estatuto do
Tribunal Internacional de Justiça é adicionada uma sexta fonte: os atos das
organizações internacionais (ou os instrumentos de soft law). (95)
As convenções ou tratados internacionais, os costumes e o jus cogens são
fontes principais de Direito (ou utilizando a linguagem do Direito interno,
fonte imediata ou direta de Direito), sendo os princípios gerais do Direito
(excluindo o jus cogens), as decisões judiciais, a doutrina e as decisões de orga‑
nizações internacionais fontes secundárias (ou fontes mediatas ou indiretas) de
Direito.
Apesar de serem encaradas como diferentes fontes de Direito internacional,
o direito convencional, o costume, os princípios gerais do Direito, as decisões
judiciais, a doutrina e as decisões de organizações internacionais não atuam de
forma isolada. Sobre este assunto, Jorge Miranda aclara que:
“[As] categorias de fontes surgem em abstrato com suficiente auto‑
nomia. Em concreto, são interdependentes e as normas através delas
criadas entrelaçam‑se sistematicamente, sem prejuízo de consideração de
zonas diferenciadas (direito internacional universal e direito internacional
regional, direito das Nações Unidas, direito europeu dos direitos dos
homens, (…) etc.).” (96)
Para além do entrelaçamento entre as diferentes fontes no Direito inter‑
nacional, note‑se a existência de uma sobreposição de diferentes regras, em que
uma certa regra coexiste como uma norma em várias das fontes do Direito
(94)
Artigo 38.º‑1: “O Tribunal, cuja função é decidir em conformidade com o
direito internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará: a) As con‑
venções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam regras expressamente
reconhecidas pelos Estados litigantes; b) O costume internacional, como prova de uma
prática geral aceite como direito; c) Os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas
nações civilizadas; d) Com ressalva das disposições do artigo 59, as decisões judiciais
e a doutrina dos publicistas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxi‑
liar para a determinação das regras de direito.”
(95)
Entre muitos, ver, Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico
Ao Pós‑11 de Setembro 2013, 139‑140; Miranda, Curso de Direito Internacional Público,
2009, 49‑51; Ian Brownlie, Princípios de Direito Internacional Público (Lisboa: Funda‑
ção Calouste Gulbenkian, 1997), 15.
(96)
Cfr. Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 44.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 61
internacional, representando ao mesmo tempo uma norma convencional, uma
norma consuetudinária e jus cogens. Um claro exemplo é a proibição da tortura
que, positivada no PIDCP e na Convenção contra Tortura, representa também
um costume internacional e é amplamente considerada como jus cogens. Esta
sobreposição é, de certa forma, acentuada no ramo dos direitos humanos em
virtude das raízes humanistas deste e do nível acentuado de positivação das
suas normas.
3.2.1 Os Tratados Internacionais de Direitos Humanos
Uma parte considerável dos padrões de direitos humanos encontra‑se hoje
prevista em tratados. Os tratados de direitos humanos são universais ou regio‑
nais e tratam de um conjunto específico de direitos e garantias (por exemplo,
os direitos civis e políticos ou a proibição da tortura), ou um grupo específico
de titulares dos direitos (por exemplo, crianças, mulheres e pessoas portadoras
de deficiência).
Os padrões de direitos humanos amparados nos tratados incorporam um
sistema forte de proteção, contendo mecanismos internacionais específicos
para o controlo das obrigações assumidas pelos Estados. É neste contexto que,
atualmente, o conjunto dos tratados de direitos humanos criou um nível
internacional de controlo e reclamação, ao qual chamamos de sistema inter‑
nacional de proteção de direitos humanos. É de relevância notar que os tra‑
tados internacionais de direitos humanos beneficiaram de uma experiência
histórica em comum que dominou a evolução do direito internacional dos
direitos humanos, na última metade do século XX. Os instrumentos elabora‑
dos mais recentemente não só obtiveram proveito desse regime convencional
estabelecido anteriormente, mas também foram desenvolvidos com base nas
convenções anteriores, aumentando ainda mais o conteúdo e o alcance das
suas garantias.
Parece‑nos necessário sublinhar aqui que todas as fontes de Direito inter‑
nacional dos direitos humanos são relevantes no seu âmbito normativo. Por
outro lado, reconhece‑se que o desenvolvimento contemporâneo dos direitos
humanos ao nível internacional é formado primordialmente por um elevado
nível de positivação ou codificação.
No ordenamento jurídico interno de Timor‑Leste, um tratado interna‑
cional é designado como “qualquer acordo concluído entre dois ou mais
sujeitos de Direito Internacional Público, destinado a produzir efeitos jurí‑
dicos e regulado pelo Direito Internacional Público” [(artigo 1.º/k) da Lei
Coimbra Editora ®
62
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
n.º 6/2010, de 12 de Maio (Sobre Tratados Internacionais)]. Com base nesta
norma, o conceito de tratado internacional aplicado no ordenamento jurídico
timorense envolve quatro elementos distintos:
a)A existência de um acordo de vontades;
b)Acordo entre sujeitos de Direito internacional, que tenham agido
nesta qualidade;
c)A produção de efeitos jurídicos; e
d)A regulamentação pelo direito internacional.
Em uma conceptualização mais simplificada poderia dizer‑se que os tra‑
tados estabelecem direitos e deveres entre as suas partes ou determinam outros
efeitos nas relações entre elas.
Os tratados que consagram os direitos humanos conformam com os qua‑
tro elementos constitutivos de um tratado como fonte de Direito internacional
identificados acima, porém, possuem um certo grau de particularidade em
relação à produção de efeitos jurídicos quando comparados com outros tipos
de tratados.
Recorda‑se aqui, com base no conceito e nas funções dos direitos huma‑
nos, que os tratados de direitos humanos não pretendem, no seu plano nor‑
mativo principal, a criação tradicional de direitos e deveres entre os Estados
Partes do tratado. A intenção dos Estados ao participar dos tratados interna‑
cionais de direitos humanos é o reconhecimento de que os indivíduos são
titulares de direitos face ao Estado.
“Os tratados modernos sobre os direitos humanos em geral (…) não
são tratados multilaterais do tipo tradicional, concluídos em função de
um intercâmbio recíproco de direitos para o benefício mútuo dos Estados
contratantes. Os seus objetivos e fins são a proteção dos direitos funda‑
mentais dos seres humanos, independentemente da sua nacionalidade,
tanto frente ao seu próprio Estado, como perante os outros Estados con‑
tratantes. Ao aprovarem estes tratados sobre os direitos humanos, os
Estados submetem‑se a uma ordem legal dentro da qual eles, para o bem
comum, assumem várias obrigações, não em relação com os outros Esta‑
dos, mas sim para com o indivíduo sobre a sua jurisdição.” (97)
Corte Interamericana de Direitos Humanos, Opinião Consultiva OC‑2/82,
de 24 de Setembro de 1982, para. 29 (tradução livre das autoras).
(97)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 63
Para além do enunciado acima, é importante salientar que aos tratados de
direitos humanos remontam aspetos particulares sobre os efeitos jurídicos
decorrentes da sua violação. A estes tratados não é aplicável o princípio geral
do direito segundo o qual o incumprimento das obrigações por uma das partes
de um acordo alivia a outra das suas obrigações, uma vez que têm por objetivo
regular primordialmente o relacionamento entre o Estado e os indivíduos sob
a sua jurisdição, e não relações inter‑Estatais (98). Isto é, a violação das normas
dos tratados de direitos humanos não são causa de denúncia por uma das
partes, nem implicam a cessação dos seus deveres, mas acionam mecanismos
variados que possuem como objeto a garantia do cumprimento das normas
convencionais. (99)
As principais características dos tratados de direitos humanos elaborados
sob a égide das Nações Unidas são:
•
•
•
•
Tratados‑normativos: estipulam normas reguladoras ou comandos de
caráter geral e concretos, com uma pretensão para a sua validade
internacional. Os tratados internacionais de direitos humanos não são
tratados‑contratos que se esgotam com a realização de prestações
recíprocas.
Multilaterais: são vários os Estados parte dos tratados de direitos huma‑
nos, ao contrário dos tratados bilaterais ou trilaterais, por exemplo.
Solenes: sujeitos a um critério formal de ratificação (em sentido amplo)
por parte de um Estado que estima fazer parte do tratado internacio‑
nal de direitos humanos. (100)
Abertos: os Estados podem tornar‑se parte do tratado, a qualquer
momento, ainda que não tenham participado no momento da sua
adoção e mesmo depois da sua entrada em vigor no Direito interna‑
cional.
Vale a pena ressaltar que o artigo 60.º‑5 da Convenção de Viena de 1969
sobre o Direito dos Tratados prevê que “[o] disposto nos números 1 a 3 não se aplica
às disposições relativas à proteção da pessoa humana contidas nos tratados de natureza
humanitária, nomeadamente às disposições que proíbem toda a forma de represálias
sobre as pessoas protegidas pelos referidos tratados.”
(99)
Ver, Corte Interamericana de Direitos Humanos, Opinião Consultiva OC‑2/82,
de 24 de Setembro de 1982, para. 29
(100)
Artigo 3.º‑1 e 2 da Lei n.º 6/2010, de 12 de Maio.
(98)
Coimbra Editora ®
64
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
•
•
•
•
Institucionais ou não institucionais: a vasta maioria dos tratados prin‑
cipais de direitos humanos é institucional, pois estes tratados criam
entidades específicas com a função de monitorizar a sua implemen‑
tação, os Comités. Os protocolos facultativos aos tratados são, na sua
maioria, com a exceção do Protocolo à Convenção contra a Tortura,
não institucionais.
Exequíveis por si mesmos, não exequíveis ou mistos: a exequibilidade
relaciona‑se com a capacidade de um tratado ser implementado de
forma plena — ou, ainda, de possuir plena efetividade — sem a
necessidade de um outro tratado ou uma lei de conformação. (101)
Perpétuos: uma vez que os tratados internacionais de direitos humanos
possuem uma duração indefinida.
Tratados principais ou acessórios: os protocolos facultativos (ou proto‑
colos adicionais) aos tratados de direitos humanos são exemplos de
tratados acessórios. Os protocolos são necessariamente subsequentes
ao tratado principal e deles dependentes, e somente um Estado parte
do tratado principal pode tornar‑se parte do tratado acessório.
Os tratados são de grande importância no sistema das fontes no direito
internacional, representando o método mais confiável para a identificação das
normas que foram acordadas entre e pelos Estados.
Seguindo as etapas processuais previstas na Convenção de Viena sobre os
Direitos dos Tratados de 1969, o artigo 4.º da Lei n.º 6/2010, de 12 de Maio,
identifica que a feitura de um tratado internacional é um procedimento com‑
posto por quatro fases principais: 1) a negociação do texto e a sua adoção; 2)
o consentimento dos Estados a serem vinculados (adesão ou ratificação); 3) a
comunicação ou notificação internacional desta vinculação; e 4) entrada em
vigor do tratado.
Especificamente em relação aos tratados de direitos humanos, a negocia‑
ção do texto dentro das Nações Unidas pode percorrer diferentes caminhos no
que respeita à sua origem e duração. A negociação dos tratados universais de
direitos humanos das Nações Unidas culmina com uma resolução da Assembleia
Geral, uma atividade deste órgão em conformidade com a sua função de
Para uma tentativa de definição sobre eficácia, aplicabilidade, exequibilidade
e justiciabilidade, vide, Capítulo III, 4.1. Conceitos Conexos e Afins : Aplicabilidade,
Exequibilidade, Eficácia e Justiciabilidade.
(101)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 65
“desenvolvimento progressivo do direito internacional e a sua codificação”,
como previsto no artigo 13.º‑1/a da Carta das Nações Unidas. O esboço do
texto do tratado pode ser realizado pela própria Assembleia Geral, como foi o
caso da Convenção sobre os Direitos Humanos das Pessoas Portadoras de
Deficiência, como também pode ser desenvolvido por órgãos subsidiários com
especialidade em direitos humanos, como ocorreu com a Convenção Interna‑
cional para a Proteção de todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado.
O tempo necessário para o esboço, a negociação e a adoção de um tratado
internacional de direitos humanos é relativo e depende de vários fatores,
incluindo o assunto em questão e a dinâmica existente na política internacional.
Por exemplo, a Convenção Internacional para a Proteção de todas as Pessoas
contra o Desaparecimento Forçado (CPDF) foi precedida de uma declaração
não vinculativa e foi necessário mais de duas décadas desde as primeiras discus‑
sões formais sobre um instrumento internacional nesta área até à adoção desta
Convenção. De uma forma bastante mais breve, por exemplo, a Convenção
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) precisou de menos de
5 anos desde o primeiro passo no processo do seu esboço até à sua adoção.
Para que um tratado internacional de direitos humanos entre em vigor no
ordenamento jurídico internacional é necessário um número mínimo de rati‑
ficações ou adesões por Estados. A ratificação e a adesão a um tratado repre‑
sentam a expressão da vontade de um Estado de ser vinculado pelos termos do
tratado (102). A ratificação como mecanismo de vinculação de um tratado é
precedida pela assinatura do mesmo (103). Os Estados que não assinaram o tra‑
tado no momento da sua adoção, ou por não terem participado do processo
de adoção ou por decidirem pela não‑assinatura naquele dado momento, podem
ainda tornar‑se parte do tratado através de um instrumento de adesão (104).
Todos os atuais tratados de direitos humanos permitem a adesão de qualquer
Estado, refletindo a tendência de motivar o maior número de Estado partes
Ver, por exemplo, o artigo 25.º da CEDAW.
O artigo 1.º/d da Lei n.º 6/2010, de 12 de Maio define a assinatura de
tratados solenes como o “acto que autentica o texto e obriga o Estado a não actuar no
sentido de inviabilizar a sua futura vinculação ao tratado”. Esta mesma lei ainda define
a ratificação como “uma forma de vinculação a um tratado solene” (artigo 1.º /j).
(104)
O artigo 1.º/b da Lei No. 6/2010, de 12 de Maio define adesão como “uma
forma de vinculação a um tratado não autenticado pelo Estado, não tendo este, igual‑
mente, participado na sua negociação e adopção”.
(102)
(103)
Coimbra Editora ®
66
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
incluindo aqueles que não participaram diretamente no desenvolvimento do
texto do tratado. Para a maioria dos Estados, a opção por um instrumento de
ratificação ou de adesão é, frequentemente, uma escolha política. No entanto,
para Timor‑Leste, visto que se tornou membro das Nações Unidas em 2002,
a possibilidade de tornar‑se um Estado parte de um tratado através da sua
ratificação existe unicamente para os tratados adotados pela Assembleia Geral
das Nações Unidas depois de 2002. (105)
Os tratados de direitos humanos estabelecem critérios diferentes quanto
ao número mínimo de ratificações necessárias para a sua entrada em vigor.
A maioria destes tratados requer 20 ratificações, entre os quais, a CDPD
(artigo 45.º), a CEDAW (artigo 27.º), a CCT (artigo 27.º) e a CDC
(artigo 49.º). Outros tratados condicionam a sua entrada em vigor a um maior
número de ratificações, como é o caso dos dois Pactos internacionais que
prescrevem um mínimo de 35 ratificações (artigo 49.º do PIDCP e artigo 27.º
do PIDESC) e da CEDR que requer 27 ratificações (artigo 19.º). De forma
semelhante ao processo de negociação e adoção, o período entre a adoção de
um tratado e a sua entrada em vigor varia. A CIDTM demorou mais de doze
anos para obter o número mínimo de ratificações. Para o PIDCP e o PIDESC,
foi preciso quase uma década para obter as 35 ratificações necessárias. A CDC,
seguida da CDPD e da CEDAW, são as convenções, até à corrente data, que
contaram com os prazos de maior brevidade entre a data das suas adoções e a
respetiva entrada em vigor.
No âmbito do direito internacional dos direitos humanos, a possibilidade
de formular reservas permite aos Estados tornarem‑se parte de um instrumento
convencional ao aceitarem a maioria das disposições aí contidas, mesmo que
tenham dificuldades em garantir todos os padrões de direitos previstos num
De entre os tratados de direitos humanos adotados depois de 2002,
Timor‑Leste até à data assinou o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura
em 16 de dezembro de 2005 (Reference: C.N.964.2005.TREATIES‑24 (Depositary‑
Notification) e o Protocolo Facultativo ao PIDESC em 28 de Setembro de 2009
(Reference: C.N.665.2009.TREATIES‑30 (DepositaryNotification). No momento da
adoção da CDPD, do seu protocolo opcional e da CPDF, em 2006, Timor‑Leste
preferiu não assinar estas convenções. Assim, caso Timor‑Leste decida tornar‑se Estado
parte destes tratados, a sua vinculação deverá ser feita pelo instrumento de adesão.
A ratificação por Timor‑Leste dos onze tratados de direitos humanos deu‑se através do
processo de adesão.
(105)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 67
determinado tratado (106). As reservas representam um instrumento através do
qual um Estado, no momento da assinatura, ratificação ou adesão, declara a
vontade de que, na aplicação do tratado a esse Estado, o efeito jurídico de certa
norma convencional é excluído ou modificado (107). Timor‑Leste não submeteu,
até a data, qualquer reserva aos tratados de direitos humanos de que faz parte.
Porém, o instituto da reserva aos tratados de direitos humanos é uma prática
relativamente frequente. (108)
Em relação aos tratados internacionais de direitos humanos, a CEDR (109),
a CEDAW (110), a CDC (111), a CIDTM (112), a CDPD (113) e o Protocolo Opcio‑
nal à CDPD (114) preveem expressamente a admissibilidade geral de reservas
pelos Estados partes. Dois dos instrumentos acessórios, o Protocolo Opcional
à CEDAW (115) e o Protocolo Facultativo à CCT (116), proíbem na sua totalidade
a elaboração de qualquer reserva, enquanto o protocolo facultativo ao PIDCP
(Segundo Protocolo Adicional ao PIDCP (117)) e a CCT (118) só permitem
reservas a algumas de suas normas. Os restantes tratados internacionais de
direitos humanos, num total de 3 tratados principais (119) e 5 tratados acessó‑
rios (120), não contêm qualquer referência expressa ao instituto das reservas.
Cfr. Human Rights Committee, General Comment N. 24: Issues Relating
to Reservations Made upon Ratification or Accession to the Covenant or the Optional
Protocols Thereto, or in Relation to Declarations under Article 41 of the Covenant, 1994,
para. 4.
(107)
Cfr. artigo 1.º‑1/d da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados.
(108)
Ver as ratificações e declarações às convenções sobre direitos humanos em
https://treaties.un.org.
(109)
Artigo 20.º
(110)
Artigo 28.º
(111)
Artigo 51.º
(112)
Artigo 91.º
(113)
Artigo 46.º
(114)
Artigo 14.º
(115)
Artigo 17.º
(116)
Artigo 30.º
(117)
Artigo 2.º
(118)
Artigos 28.º e 30.º
(119)
Os dois pactos, PIDCP e o PIDESC, e a CPDF.
(120)
Os três protocolos facultativos à CDC (o relativo à venda de crianças,
prostituição infantil e pornografia infantil, o relativo à participação de crianças em
conflitos armados e o relativo à instituição de um procedimento de comunicação), o
(106)
Coimbra Editora ®
68
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Apesar da falta de qualquer menção expressa, as reservas são, no entanto,
admissíveis por força da regra geral da permissibilidade do instituto de reser‑
vas, no âmbito dos tratados multilaterais, como uma norma do direito inter‑
nacional costumeiro. (121)
As reservas incompatíveis com o objeto e o fim do tratado são sempre
proibidas. Este critério de compatibilidade é considerado como um limite
material às reservas aplicável a todos os tratados multilaterais, incluindo os
tratados internacionais de direitos humanos (122). Nos tratados sobre os direitos
humanos, a determinação da existência de uma violação do limite material das
reservas é realizada através de uma análise casuística pelo Comité relevante (123),
primeiro protocolo facultativo referente ao PIDCP e o recentemente aprovado proto‑
colo facultativo ao PIDESC.
(121)
Note‑se que esta regra que se encontra atualmente positivada na Convenção
de Viena sobre o Direito dos Tratados (CVDT) representa uma norma de costume
internacional. Evidência clara de tal posição é o facto de vários Estados que não são
parte da CVDT terem feito reservas ao PIDCP ou ao PIDESC (e.x. Paquistão, Trini‑
dade e Tobago, Estados Unidos, França, Gâmbia, Mónaco e outros). Esta norma
convencional inspirou‑se no parecer do Tribunal Internacional de Justiça de 1951,
proferido a propósito das inúmeras reservas feitas a normas da Convenção contra o
Genocídio (Reservations to the Convention on Genocide, ICJ Reports 1951, p. 15 (Tri‑
bunal Internacional de Justiça 1951). Ver Quoc Nguyen, Pellet Alain, and Patrick
Daillier, Direito Internacional Público, 2. ed. (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,
2003), 186; Sir Ian McTaggart Sinclair, The Vienna Convention on the Law of Treaties
(Manchester University Press ND, 1984), 51‑ss. Para uma perspetiva histórica quanto
à aceitação das reservas, vide, Joaquim da Silva Cunha e Maria da Assunção Pereira,
Manual de Direito Internacional Público, 2. ed. (Coimbra: Almedina, 2004), 239‑241.
(122)
Todos os tratados de direitos humanos que autorizam expressamente a
introdução de reservas proíbem aquelas incompatíveis com o objeto e o fim do
tratado (e.x. artigo 28.º‑2 da CEDAW e artigo 51.º‑2 da CDC). Relativamente aos
tratados que não contenham uma norma expressa sobre a admissibilidade de reservas,
este limite tem sido referido por órgãos internacionais. Comité dos Direitos Huma‑
nos, Rawle Kennedy v. Trinidade e Tobago, CCPR/C/67/D/845/1999, 6.5 (1999).
(123)
Como já reconhecido em 1993 pela Declaração e Programa de Ação de Viena
e reitarado pelo Comité de Direitos Humanos no seu Comentário Geral n.º 24 em 1994.
(Declaração E Programa de Ação de Viena, 1993, para. 39; Comité dos Direitos Humanos,
Comentário Geral N. 24, de Abril de 1994, para. 18.) Ver, por exemplo, Comité dos
Direitos das Crianças, Observações Finais Do Comité, Reino Unido, de Outubro de 2002,
para. 6‑7; Comité para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres, Observações
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 69
o qual pode vir a considerar como inválida a reserva que viole o objeto e o fim
do tratado. (124)
Apesar da permissibilidade do instituto de reservas na maioria dos tratados
de direitos humanos, para garantir o caráter universal dos direitos humanos e
como consequência da interdependência entre os diferentes padrões, mostra‑se
desejável a restrição do uso do instituto de reservas (125). Neste sentido, os
Comités têm frequentemente solicitado a retirada das reservas aos tratados
internacionais de direitos humanos. (126)
Está ainda ao alcance dos Estados parte de um tratado a possibilidade de
emitir declarações interpretativas que visem esclarecer o sentido de determinadas
disposições do tratado. Desta forma, as declarações interpretativas distinguem‑se
das reservas na medida em que as declarações não visam limitar ou excluir a
aplicação de uma disposição do tratado. Como exemplo de uma declaração
Finais Do Comité, Malásia, de Maio de 2006, para. 9‑10; Comité dos Direitos das
Crianças, Observações Finais Do Comité, Jordânia, 28 June 2000, para. 10‑11; Comité
dos Direitos Humanos, Observações Finais Do Comité, Botsuana, de Abril de 2008, para.
14. Note‑se que tanto o Comité de Direitos Humanos como a doutrina portuguesa
consideram que a regra geral relativa aos tratados multilaterais segundo a qual uma reserva
submetida por um Estado parte deve ser aceite pelos restantes Estados parte não é apli‑
cável em relação às convenções internacionais de direitos humanos. Ver, Comité dos
Direitos Humanos, Comentário Geral N. 24, para. 17‑18; Machado, Direito Internacional:
Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setembro 2013, 346.
(124)
O Comité de Direitos Humanos considerou inválida uma reserva de Tri‑
nidade e Tobago ao Protocolo Facultativo referente ao PIDCP que limitava o acesso
ao sistema de comunicação do Comité de Direitos Humanos a certo grupo de pessoas
por considerar a reserva discriminatória e, desta forma, violar o objeto e fim deste
protocolo (Comité dos Direitos Humanos, Rawle Kennedy v. Trinidade e Tobago,
CCPR/C/67/D/845/1999 (1999)). Sobre o debate relativo às consequências que as
reservas consideradas inválidas acarretam, ver Ryan Goodman, ‘Human Rights Treaties,
Invalid Reservations, and State Consent’, American Journal of International Law 96
(2002): 531‑560.
(125)
Declaração E Programa de Ação de Viena, 1993, para. 5, 26 e 46.
(126)
Vide Comité para a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migran‑
tes e dos Membros das suas Famílias, Observações Finais Do Comité, México, de Maio
de 2011, para. 9‑10; Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Observações
Finais Do Comité, Nova Zelândia, 26 June 2003, para. 25; Comité contra Tortura,
Observações Finais Do Comité, República Da Indonésia, 2 July 2008, para. 38; Comité
dos Direitos Humanos, Observações Finais Do Comité, Suíça, 3 November 2009.
Coimbra Editora ®
70
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
interpretativa, temos a declaração feita pela República da Indonésia ao artigo 1.º
do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (127). Apesar da dife‑
rença conceptual, na prática, a distinção entre declarações e reservas é uma
tarefa muitas vezes difícil uma vez que vários Estados utilizam declarações
interpretativas para evitar o recurso às reservas, já que as reservas são, por vezes,
censuradas. (128)
Vale a pena ressaltar aqui que, em grande parte dos tratados internacionais
de direitos humanos, a concretização dos padrões de direitos humanos previs‑
tos nos tratados beneficia de uma gama de instrumentos interpretativos elabo‑
rados pelos Comités dos tratados. Apesar desta fonte do Direito internacional
possuir uma natureza não vinculativa, são instrumentos particularmente impor‑
tantes para a aplicação dos tratados ao nível nacional, questão a ser considerada
abaixo. (129)
A conclusão de tratados por Timor‑Leste
Um tratado internacional de direitos humanos entra em vigor para um
determinado Estado somente quando este decide, formalmente, fazer parte
deste acordo internacional, através do processo de ratificação ou de adesão ao
tratado e da comunicação ou notificação internacional da vinculação. A vin‑
culação de um tratado por um Estado é na verdade um processo que segue
regras procedimentais dentro do direito internacional e outras regras previstas
no direito interno de um Estado.
No que diz respeito à celebração de acordos e tratados internacionais, a
Constituição timorense prevê um sistema de divisão de competências entre o
(127)
A República da Indonésia declarou que a expressão “direito à autodetermi‑
nação” que consta do artigo 1.º do PIDCP não se aplica a um Estado soberano e
independente e não pode ser entendida como uma autorização ou encorajamento a
qualquer ação que possa colocar em causa a integridade territorial ou a unidade política
de Estados soberanos e independentes.
(128)
Cfr. Comité dos Direitos Humanos, Comentário Geral N. 24, para. 3;
Nguyen, Alain, and Daillier, Direito Internacional Público, 182. Os Comités dos
tratados de direitos humanos frequentemente analisam o teor das declarações, opi‑
nando sobre a sua verdadeira natureza. A título de exemplo, ver Comité dos Direitos
das Crianças, Observações Finais Do Comité, Djibouti, 28 June 2000, para. 9; Comité
dos Direitos Humanos, Observações Finais Do Comité, Tailándia, 8 July 2005, para. 7.
(129)
Vide Capítulo I, 3.2.3 Atos das Organizações Internacionais ou Soft Law.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 71
Presidente da República, o Parlamento Nacional e o Governo. De forma
bastante resumida, para a ratificação de um tratado internacional na área dos
direitos humanos é atribuído ao Governo um papel de negociação
(artigo 115.º‑1/f) (130), ao Parlamento Nacional é incumbida a responsabilidade
de ratificação (artigo 95.º‑3/f) e o Presidente da República é competente para
a formalização da ratificação com a ordem de publicação do tratado no Jornal
da República (artigo 85.º/a). (131)
O Parlamento Nacional tem a competência para ratificar tratados ou
convenções por força do artigo 95.º‑3/f da Constituição. Este artigo, porém,
não define claramente as áreas desta competência. Para identificar estas áreas,
mostra‑se necessária uma análise da competência do Governo e do Presidente
da República no contexto da ratificação de tratados (artigo 115.º‑1/f), assim
como a consideração das competências do Parlamento Nacional previstas no
artigo 95.º. O artigo 115.º‑1/f inclui a competência do Governo para a cele‑
bração de tratados e acordos naquelas áreas que não sejam da competência do
Parlamento Nacional ou do Presidente da República. Como o Parlamento
Nacional possui a reserva material da competência (ou a competência exclusiva)
de legislar na área de direitos, liberdades e garantias (artigo 95.º‑2/d), este
possuia competência para ratificar os tratados de direitos humanos, como
previsto no artigo 95.º‑3/f.
Como exposto por Jaime Valle, a competência para a ratificação dos tra‑
tados internacionais pelo órgão legislativo apresenta‑se como uma solução pouco
adotada por outras jurisdições, que prevêem, na sua maioria, a atribuição da
ratificação de tratados ao Chefe do Estado (132). É assim na maioria dos demais
países de língua portuguesa (133), e também na maioria dos Estados que perten‑
(130)
Note‑se que o Governo tem a competência para aderir aos tratados que não
sejam da exclusiva competência do Parlamento Nacional, como prescreve o
artigo 115.º‑1/f da Constituição.
(131)
Para uma maior explicação, ver, Jaime Valle, ‘A Conclusão Dos Tratados
Internacionais Na Constituição Timorense de 2002’, Revista ‘O Direito’, no. Ano 139.º,
IV (2007): 879 ‑ss.
(132)
Cfr. Ibid., 10. Para uma discussão sobre o processo de ratificação de trata‑
dos em Portugal, ver Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 91‑115.
(133)
Cfr. artigo 135.º/b da Constituição portuguesa; artigo 84.º‑VIII, da Cons‑
tituição brasileira; artigo 82.º/b da Constituição santomense; artigo 136.º/a da Cons‑
tituição cabo‑verdiana; artigo 121.º/c da Constituição angolana; artigo 68.º/e da
Constituição guineense.
Coimbra Editora ®
72
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
cem à Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) (134), na qual
Timor‑Leste pretende integrar‑se.
Vale a pena observar que a Constituição utiliza o termo “ratificação” em
lato sensu, associado tanto a um instrumento de ratificação no seu sentido
estrito, como a um instrumento de adesão.
Em Timor‑Leste, certos aspetos do processo de ratificação de tratados inter‑
nacionais já se encontram codificados na Lei n.º 6/2010, de 12 de Maio (Sobre
Tratados Internacionais). Para que Timor‑Leste se torne um Estado parte dos
tratados internacionais multilaterais, para além da ratificação de acordo com o
ordenamento jurídico nacional, é ainda necessário o envio de uma carta de rati‑
ficação para a organização internacional responsável, por exemplo, as Nações
Unidas e a Organização Internacional do Trabalho (135). Após o recebimento desta,
as Nações Unidas publicam um instrumento de notificação de depósito (deposi‑
tary notification) assinado pelo Secretário‑Geral. Aquele instrumento serve como
mecanismo de publicitação da ratificação para a comunidade internacional,
informando uma nova associação de um Estado ao tratado internacional. (136)
Após a conclusão do processo de ratificação de um instrumento interna‑
cional, resta apenas, para que este possa produzir efeitos na ordem interna,
proceder à sua publicação no jornal oficial, como condiciona a parte final do
artigo 9.º‑2 da Constituição, e reiterado pelo artigo 9.º‑4 da Lei No. 6/2010.
(134)
Cfr., por exemplo, artigo 11.º da Constituição indonésia de 1945;
artigo 26.º da Constituição cambodjana de 1993; secção 190 da Constituição tailandesa
de 1997.
(135)
Cfr., por exemplo, artigo 47.º da CDC, artigo 84.º‑1 da CVDT,
artigo 10.º‑1 da Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho.
(136)
Vale a pena ressaltar a falta de notificação de depósito por parte de
Timor‑Leste às Nações Unidas em relação ao Protocolo Facultativo ao PIDCP, apesar
de haver uma resolução do Parlamento Nacional sobre a sua ratificação (Resolução do
Parlamento Nacional n.º 15/2003, de 30 de Julho). Não nos é possível identificar a
causa desta discrepância. Atualmente, Timor‑Leste não figura como um Estado parte
do primeiro Protocolo Facultativo ao PIDCP e, assim, esta convenção internacional
não é recebida no ordenamento jurídico nacional. Em relação à Convenção de Viena
sobre o Direito dos Tratados, note‑se que decorreram quase dez anos entre a data da
ratificação pelo Parlamento Nacional e a data da aceitação do depósito de adesão ao
tratado aos 8 de Janeiro de 2013 (ver Resolução do Parlamento Nacional N.º 5/2004,
de 28 de Julho e Secretary General, ‘Depositary Notification (C.N.23.2013.TREA‑
TIES‑XXIII.1)’ (United Nations, 10 April 2014).
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 73
Recorda‑se que a publicação de um tratado é ordenada pelo Presidente da
República, nos termos do artigo 85.º/a da Constituição.
3.2.2 O Costume Internacional
O costume internacional é uma resposta às necessidades da comunidade
internacional assente no acolhimento de uma certa conduta habitual, por uma
maioria representativa dos membros desta comunidade, com a convicção de
que esta conduta possui um caráter obrigatório. Enquanto as normas conven‑
cionais são definidas através das provisões nos tratados ou convenções, pos‑
suindo, assim, regras bem definidas, os costumes são originários da conduta
dos Estados. O costume é resolutamente um reflexo da natureza evolutiva do
Direito internacional.
Em linhas gerais, o costume internacional refere‑se a uma prática habitual
dos Estados com a convicção de que tal prática se tornou obrigatória. O costume
possui dois elementos: o elemento objetivo da prática habitual (ou o uso) e o
elemento subjetivo da convicção da sua obrigatoriedade (o opinio juris). (137)
O artigo 38.º do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça é a fonte desta
definição ao estabelecer que o costume é “a prova de uma prática geralmente
aceite como sendo de Direito”.
Um exemplo de um costume internacional é a proibição da tortura.
A prática reiterada da existência de uma proibição da tortura conjuntamente
com uma opinião de que esta representa um dever legal, fez com que fosse
considerada um costume internacional antes mesmo da positivação da proibi‑
ção da tortura aquando da adoção da Convenção contra a Tortura em 1984. (138)
Enquanto um tratado internacional é vinculativo somente para as suas
partes, através da expressa vontade de se obrigarem às suas normas (instrumento
de adesão ou de ratificação), uma norma consuetudinária não carece de tal
consentimento específico expresso por cada um dos Estados. Como consequên‑
cia da força jurídica dos costumes internacionais, todos os Estados são obriga‑
Cfr. Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de
Setembro 2013, 111‑116; Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 45‑49.
(138)
Ver, por exemplo, Steven Ackerman, ‘Torture and Other Forms of Cruel
and Unusual Punishment in International Law’, Vanderbilt Journal of Transnational
Law 11 (1978): 661‑667; Anthony D’Amato, ‘The Concept of Human Rights in
International Law’, Columbia Law Review 82, no. 6 (1982): 1128‑ss.
(137)
Coimbra Editora ®
74
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
dos a seguir as normas consuetudinárias, incluindo aqueles que emergiram
recentemente na arena internacional e não participaram de forma alguma na
formação do costume, como é o caso de Timor‑Leste.
A doutrina e os tribunais nacionais, regionais e internacionais debruçam‑se
periodicamente sobre a existência de normas consuetudinárias internacionais.
É uma análise complexa e regularmente sujeita a opiniões diversas. (139) Alguns
exemplos de como tribunais nacionais consideraram o direito internacional
costumeiro servem como apoio nesta exploração.
Em 2004, o Tribunal Supremo da Argentina deparou‑se com a questão de
saber se o princípio de não‑aplicação do limite temporário de prescrição em
relação aos crimes de guerra e crimes contra a humanidade fazia parte do direito
internacional consuetudinário. O tribunal chegou a uma resposta positiva ao
considerar que, já entre 1974 e 1978, durante o período em que os crimes foram
cometidos, o princípio da não‑prescrição se encontrava ancorado como costume
internacional (140). Com base nesta análise, o Tribunal identificou a existência de
um conflito entre esta norma consuetudinária e a legislação nacional vigente.
Como consequência da receção do Direito internacional no ordenamento interno
argentino, o costume internacional prevalece sobre as leis. Desta forma, o tri‑
bunal Argentino considerou que as acusações criminais em relação aos crimes
cometidos no período em apreço poderiam ser sustentadas.
Na Letónia, o Tribunal Constitucional considerou a existência de uma
norma consuetudinária no dever de não reconhecer a aquisição de um territó‑
rio por via do uso da força (141).
Em Timor‑Leste, o Tribunal de Recurso já examinou a existência de uma
norma consuetudinária internacional sobre a criminalização de crimes contra a
humanidade em relação aos crimes ocorridos no território de Timor‑Leste em
1999. Em 2004, o Tribunal de Recurso decidiu que a punição de um arguido
Já em 1969, o Tribunal Internacional de Justiça discutiu com certo detalhe
o processo analítico para determinar a existência dos dois elementos constitutivos do
costume internacional no seu acórdão North Sea Continental Shelf, 73‑81 (Tribunal
Internacional de Justiça 1969). Ver, também, Machado, Direito Internacional: do Para‑
digma Clássico Ao Pós‑11 de Setembro 2013, 110‑127; Miranda, Curso de Direito
Internacional Público, 2009, 45‑49.
(140)
Cfr. Simón (Julio Héctor) v Procuradoria da República, S. 1767. XXXVIII
(Tribunal Constitucional da Argentina 2005).
(141)
Border Treaty, Re, Kariņš and ors v Parliament of Latvia and Cabinet of
Ministers of Latvia, Constitutional Review (Constitutional Court of Latvia 2007).
(139)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 75
por crimes contra a humanidade não violaria o princípio da legalidade relativo
à criminalização e à punição (“nullum crimen sine lege” e “nulla poena sine lege”)
pois já existia a tipificação deste crime como um princípio do Direito interna‑
cional quando as ações foram de facto cometidas (142). Entretanto, em 2010,
apesar de ter confirmado que os crimes contra a humanidade fazem parte do
direito consuetudinário internacional, o Tribunal de Recurso decidiu contraria‑
mente à sua posição anterior, ao considerar que a falta de clareza sobre os ele‑
mentos constitutivos e a punição deste crime gerava dúvidas sobre a legalidade
do uso desta norma consuetudinária como tipificação material para a sua crimi‑
nalização (143). Nesta ocasião, o Tribunal de Recurso posicionou‑se no sentido de
que, perante a inexistência de legislação nacional em vigor antes das ações con‑
sideradas criminosas, representava uma afronta ao princípio da legalidade proce‑
deu à criminalização de condutas que tipificariam crimes contra a humanidade
apenas a partir de uma norma de direito consuetudinário internacional. (144)
No âmbito específico dos direitos humanos, o costume internacional é de
particular relevância para:
—Identificar se as declarações e outros atos de soft law (ou normas
específicas incluídas nestes) são costumes internacionais e, por con‑
sequência, possuem um valor legal vinculativo. (145)
(142)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 14 de Setembro de 2004, Proc
n.º P‑20‑CO‑04‑TR (2004). De maneira similar, vide, Procurador Público v. João
Sarmento e Domingos Mendonça, Acórdão da moção da defesa, Caso No. 18a/2001,
para. 29 (Tribunal Distrital Dili 2003).
(143)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 28 de Maio de 2010, Proc n.º 36/CO/
/2010/TR (2010).
(144)
Sem debater o cerne desta questão, vale a pena notar que a posição do
Tribunal de Recurso de Timor‑Leste em 2010 sobre a legalidade dos crimes contra a
humanidade e o direito internacional costumeiro diverge da posição tomada noutros
países que tenham lidado com justiça transitória, incluindo o Cambodja, a Bósnia e
Hezergovina e a Argentina (Extraordinary Chambers in the Courts of Cambodia, Case
File 001/18‑07‑2007/ECCC/TC (KAING Guek Eav), 284‑ss (2010); Court of Bosnia
and Herzegovina — War Crimes Section, Prosecutor’s Office v. Simsic, Verdict, Case
No. X‑KRZ‑05/04 (2007); Simón (Julio Héctor) v Procuradoria da República, S. 1767.
XXXVIII (Tribunal Constitucional da Argentina 2005).
(145)
Para uma reflexão sobre o conceito e o papel destes instrumentos interna‑
cionais, vide, Capítulo I, 3.2.3 Atos das Organizações Internacionais ou Soft Law.
Coimbra Editora ®
76
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
—Identificar se uma norma prevista em um tratado internacional é uma
norma consuetudinária, possuindo, desta forma, uma natureza obri‑
gatória para todos os Estados, independentemente de estes serem parte
deste tratado específico.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi adotada sob
a forma de resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas e, formalmente,
não possuía qualquer valor vinculativo quando da sua adoção em 1945, sendo
considerada pela própria Organização das Nações Unidas como um manifesto
primordialmente de autoridade moral (146). Porém, atualmente, considera‑se que
várias das normas contidas na DUDH atingiram uma posição de costume
internacional. A proibição da discriminação com base na raça, a proibição da
escravatura assim como a proibição da tortura são exemplos de padrões de
direitos humanos da DUDH considerados como costume internacional (e
também jus cogens, como veremos a seguir) (147). Ao mesmo tempo, encontramos
outros direitos consagrados na DUDH que não representam uma norma con‑
suetudinária, nomeadamente, o direito ao asilo, o direito a férias remuneradas,
o direito de igualdade de género após a dissolução do casamento, o direito à
propriedade privada, entre outros (148).
Quando se alega especificamente uma violação da DUDH, daí decorre a
necessidade de analisar, com certa minuciosidade, se a norma em consideração
atingiu uma posição de costume internacional, indagando‑se acerca da existên‑
cia dos dois elementos do costume internacional. Esta tarefa não é necessária
quando a alegação da violação de direitos humanos assenta numa norma já
prevista em um tratado internacional ratificado por Timor‑Leste, em virtude
da força vinculativa do tratado. Parece relevante sublinhar aqui que a DUDH
é um documento de máxima importância na aplicação dos direitos fundamen‑
Ver, entre muitos, H. Lauterpacht, ‘The Universal Declaration of Human
Rights’, British Year Book of International Law 25 (1948): 354; Jochen von Bernstorff,
‘The Changing Fortunes of the Universal Declaration of Human Rights: Genesis and
Symbolic Dimensions of the Turn to Rights in International Law’, European Journal
of International Law 19, no. 5 (2008): 902‑924.
(147)
Ver Yearbook of the International Law Commission Volume II, Part II (New
York: United Nations Publications, 2001), 85.
(148)
Ver, para uma análise geral da DUDH e o direito internacional costumeiro,
Lauterpacht, ‘The Universal Declaration of Human Rights’.
(146)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 77
tais, servindo como instrumento de interpretação por força do artigo 23.º da
Constituição.
Vários costumes internacionais acabam por ser codificados em tratados
ou convenções. Isto significa uma conversão das regras consuetudinárias em
regras escritas através do processo de positivação. A esta luz, parece‑nos perti‑
nente comentar que a codificação dos costumes internacionais implica sempre
um risco de cristalização de seus conteúdos, perdendo consequentemente o
caráter de adaptabilidade característico da regra consuetudinária. Por um outro
lado, a positivação de norma consuetudinária permite não só a organização das
normas de forma sistemática e coerente, mas também a diminuição de qualquer
incerteza sobre a sua existência e conteúdo. Um exemplo particularmente ins‑
trutivo neste âmbito é a codificação da proibição da tortura na Convenção
contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degra‑
dantes, em 1984, uma norma que já foi considerada um costume internacio‑
nal. (149)
Note‑se que, para Timor‑Leste, o facto de que já se tornou um Estado
parte dos principais tratados internacionais de direitos humanos e possui uma
constituição com uma gama de direitos fundamentais, as duas questões acima
assinaladas não se mostram de grande relevância na prática (150).
3.2.3 Atos das Organizações Internacionais ou Soft Law
A elaboração crescente de recomendações, resoluções e declarações prove‑
nientes de diversos órgãos, entidades e organizações especializadas da O.N.U.
e outras organizações internacionais de caráter universal ou regional ampliaram
Cfr. Nota 139.
Em meados de 2014, Timor‑Leste ainda não tinha ratificado a Convenção
Internacional para a Proteção de todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado
nem a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. É certo que alguns
aspetos da proibição do desaparecimento forçado já são considerados como parte do
direito internacional consuetudinário, nomeadamente a criminalização de ações de
desaparecimento forçado como crimes de guerra e como crimes contra a humanidade,
podendo estes, estar sujeitos à jurisdição universal. Cfr. Jean‑Marie Henckaerts and
Louise Doswald‑Beck, Customary International Humanitarian Law, vol. I: Rules (Cam‑
bridge: Cambridge University Press, 2005), 240‑243; Court of Bosnia and Herzegovina
— War Crimes Section, Prosecutor’s Office v. Simsic, Verdict, Case No. X‑KRZ‑05/04
(2007).
(149)
(150)
Coimbra Editora ®
78
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
o objecto do debate em relação ao sistema de fontes do Direito internacional.
Em paralelo com a adoção dos tratados, surgem, cada vez com maior frequên‑
cia, formas de relacionamento internacional que se inscrevem no chamado soft
law. Soft law ou Direito flexível é a designação atribuída aos instrumentos de
regulação internacionais não juridicamente vinculantes.
É certo que ao nível do Direito internacional os Estados podem deparar‑se
perante situações complexas decorrentes de dificuldades em assumirem com‑
promissos mais constringentes. Estas dificuldades têm, muitas vezes, a sua
origem em incertezas científicas ou em questões de natureza política. Muitas
vezes, a solução encontrada acaba por ser a regulamentação de comportamen‑
tos através de normas e regras sem valor jurídico obrigatório, mas que possuem
a capacidade de fornecer algum grau de previsibilidade e expectativa sobre as
condutas dos Estados para com os indivíduos. Esta linha de pensamento é
bastante pertinente na área dos direitos humanos.
Por exemplo, a falta de apoio político de um número considerável de
Estados relativamente à positivação dos direitos dos povos indígenas resultou
na elaboração, em 2007, de uma declaração sem força jurídica — a Declaração
das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (151) — apesar da
existência de um forte movimento dos povos indígenas e da sociedade civil
para a elaboração de um instrumento vinculativo ao longo de mais de duas
décadas. (152)
(151)
Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, A/RES/
/61/295, 2007. Para uma análise sobre esta declaração, ver, entre outros, Erica‑Irene
A Daes, ‘The UN Declaration on the Rights of Indigenous Peoples: Background
and Appraisal’, in Reflections on the UN Declaration on the Rights of Indigenous
Peoples, ed. Stephen Allen and Alexandra Xanthaki (Oxford: Hart, 2009), 11‑41;
Claire Charters, ‘The Road to the Adoption of the Declaration on the Rights of
Indigenous Peoples, New Zealand Yearbook of International Law 4 (2007): 121;
Megan Davis, ‘Indigenous Struggles in Standard‑Setting: The United Nations
Declaration on the Rights of Indigenous Peoples’, Melbourne Journal of Internatio‑
nal Law 9 (2008): 439.
(152)
Para uma compreensão sobre o movimento dos direitos dos povos indíge‑
nas e a questão indígena no direito internacional, vide, Alexander Ewen, Voice of
Indigenous Peoples: Native People Address the United Nations, 1st ed. (Santa Fe N.M.:
Clear Light Pub., 1994); J. K. Das, Human Rights and Indigenous Peoples (APH
Publishing, 2001). De forma muito breve, ressalta‑se que a razão principal para a falta
de um instrumento vinculativo no âmbito das Nações Unidas sobre esta matéria é a
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 79
A realidade é que estes instrumentos, que possuem uma função interpre‑
tativa e de caráter pragmático, revelam‑se essenciais para a aplicação dos direi‑
tos humanos e são, deste modo, regularmente utilizados pelos tribunais e
juristas nacionais e estrangeiros.
Não encontrámos uma definição positivada universal do conceito de soft
law. Porém, o Parlamento Europeu elaborou um estudo específico sobre o soft
law, tendo‑o definido como “normas de conduta enunciadas em instrumentos
desprovidos de força jurídica obrigatória per se, mas que podem, todavia, pro‑
duzir alguns efeitos jurídicos — indiretos — e cujo objetivo consiste poten‑
cialmente na produção de efeitos práticos” (153). Esta definição salienta‑se
dentre várias outras definições, pois considera tanto a força jurídica do soft law
como os seus efeitos, com um enfoque particular no seu papel de apoio na
aproximação do Direito teórico com o Direito em ação.
É certo que existe uma infinidade de atos das organizações internacionais,
pelo que se torna necessário classificar os atos destas instituições na tentativa
de identificar os que podem ser considerados como uma fonte do direito
internacional não vinculativa na forma de soft law. Para tal, Jorge Miranda
classifica os atos das organizações internacionais como atos internos ou externos;
políticos, jurisdicionais ou administrativos; normativos ou não normativos; e
de aplicação imediata ou posterior. Note‑se que Jorge Miranda considera que
somente os atos das organizações internacionais de natureza normativa repre‑
sentam o soft law como fonte não vinculativa no Direito internacional (154).
falta de consenso entre os Estados relativamente ao reconhecimento do direito à
autodeterminação dos povos indígenas, nomeadamente quanto às garantias relacio‑
nadas com a propriedade coletiva e o uso dos recursos naturais da terra. Apesar de o
sistema de proteção de direitos humanos das Nações Unidas não incluir um instru‑
mento vinculativo sobre os direitos dos povos indígenas, no âmbito do sistema da
Organização Internacional do Trabalho, a Convenção 169 sobre os Povos Indígenas
e Tribais de 1989 reconhece um conjunto de direitos específicos aos povos indígenas.
Esta foi até à data ratificada por apenas 22 Estados. Sobre a História do desenvolvi‑
mento desta Convenção, ver, Lee Swepston, ‘A New Step in the International Law
on Indigenous and Tribal Peoples: ILO Convention No. 169 of 1989’, Oklahoma City
University Law Review 15 (1990): 677‑ss.
(153)
Manuel Medina Ortega, Documento de Trabalho Sobre as Implicações Insti‑
tucionais E Jurídicas Do Recurso a Instrumentos Jurídicos Não Vinculativos (Soft Law)
(Comissão dos Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu, 2007).
(154)
Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 50.
Coimbra Editora ®
80
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Uma posição semelhante encontra‑se, também, presente em uma parte da
doutrina internacional. (155)
Ora, se há uma posição generalizada que considera somente os atos das
organizações internacionais de natureza normativa como fontes do Direito
internacional, daí decorre a tarefa de examinar quais os atos das diferentes
instituições das Nações Unidas relacionados com os direitos humanos que são
de caráter normativo.
A esta luz, parece‑nos que os principais atos das instituições das Nações
Unidas que, no âmbito dos direitos humanos e tendo natureza normativa,
podem ser considerados como uma fonte de Direito na forma de soft law são:
declarações, diretrizes e princípios, comentários gerais aos tratados, decisões de
comunicações contra Estados partes, observações finais aos relatórios periódicos
e observações e recomendações dos procedimentos especiais do Conselho de
Direitos Humanos.
•
Declarações de direitos humanos: apesar de se mostrar difícil a sistema‑
tização do uso das declarações de direitos humanos dos diferentes
órgãos e instituições das Nações Unidas, estes documentos normal‑
mente possuem uma estrutura normativa bastante similar aos tratados
internacionais e refletem sobre padrões específicos de direitos huma‑
nos ou sobre categorias ou grupos que carecem de proteção especial.
As declarações podem reafirmar padrões já aceites em tratados, ou
desenvolvem certos padrões positivados em tratados de forma geral
ou com um certo grau de abstração, como por exemplo, a Declaração
sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres (1993) (156), a
Declaração para a Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e
Discriminação com base na Religião ou Crença (1981) (157) e a Decla‑
ração Universal para a Erradicação da Fome e Malnutrição (1974). (158)
Dinah Shelton, Commitment and Compliance: The Role of Non‑Binding
Norms in the International Legal System, Reprint. (Oxford: Oxford University Press,
2003).
(156)
Adotada pela Resolução da Assembleia Geral 48/104, de 20 de Dezembro
de 1993.
(157)
Adotada pela Resolução da Assembleia Geral 36/55, de 25 de Novembro
de 1981.
(158)
Adotada em 16 de Novembro 1974 pela Conferência Mundial da Alimen‑
tação, convocada pela Resolução da Assembleia Geral 3180 (XXVIII), de 17 de Dezem‑
(155)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 81
•
A positivação num documento não vinculativo é, por vezes, o
resultado de uma falta de consenso internacional para a elaboração
de um instrumento com força jurídica, como foi o caso da Decla‑
ração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (159).
As declarações podem também representar um primeiro passo no
processo para a positivação em um tratado internacional, como foi
o caso da Declaração sobre a Proteção de todas as Pessoas contra
o Desaparecimento Forçado de 1992 e a Convenção Internacional
para a Proteção de todas as Pessoas contra o Desaparecimento
Forçado de 2006. Encontra‑se, ainda, apesar de serem em menor
proporção, declarações que utilizam uma linguagem de cunho
político, muitas vezes seguidas de um documento programático,
como é o caso das declarações e programas de ação de Viena e de
Durban (160). A maioria das declarações são adotadas por resoluções
da Assembleia Geral das Nações Unidas, porém, também se verifica
a adoção de declarações por conferências mundiais intergoverna‑
mentais.
Diretrizes, Regras e Princípios: estes exercem normalmente um papel
normativo‑pragmático com especial relevância na elaboração de
políticas públicas, processos ou outras acções necessários para imple‑
mentar, no âmbito nacional, os padrões de direitos humanos posi‑
tivados no direito convencional. Como as Declarações, as diretrizes,
regras e princípios podem desenvolver novos padrões ou reafirmar
aqueles já existentes com o fim de dar uma resposta às imprecisões
ou generalidades previstas na letra do direito convencional. Estes
instrumentos de soft law podem ter a sua origem em diferentes
eventos, órgãos ou instituições relacionados com as Nações Unidas,
nomeadamente, conferências ou reuniões de peritos e representan‑
tes governamentais, resoluções da Assembleia Geral e resoluções do
Conselho Económico e Social. As Regras Mínimas das Nações
Unidas para a Administração da Justiça de Menores (Regras de
bro de 1973, e aprovada pela Resolução da Assembleia Geral 3348 (XXIX), de 17
de Dezembro de 1974.
(159)
Cfr. nota de rodapé n. 153.
(160)
Declaração e Programa de Ação de Viena, 1993; Declaração e Programa de
Ação de Durban, A/CONF.189/12, 2001.
Coimbra Editora ®
82
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
•
•
Beijing) (1985) (161), os Princípios das Nações Unidas para Pessoas
da Terceira Idade (1991) (162) e os Princípios Básicos sobre a Utili‑
zação da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis
pela Aplicação da Lei (1990) (163) refletem exemplos deste género de
soft law.
Comentários Gerais: estes são desenvolvidos pelos mecanismos de
supervisão dos principais tratados internacionais de direitos humanos,
os Comités (164). A sua função principal é servir como um instrumento
de interpretação das normas previstas nos tratados. As competências
dos Comités para o desenvolvimento destes instrumentos encon‑
tram‑se previstas nos seus tratados constitutivos, como por exemplo,
o artigo 40.º‑4 do PIDCP (165) e o artigo 45.º/d da CDC. (166)
Decisões de Comunicações contra Estados partes: são mecanismos de
supervisão dos tratados da competência de diferentes Comités e têm
uma natureza quasi‑jurisdicional. Analisam a existência de uma vio‑
lação dos padrões de direitos humanos em casos individuais, a partir
Adotadas pela Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas n.º 40/33,
de 29 de Novembro de 1985.
(162)
Adotados pela Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas n.º 46/91,
de 16 de Dezembro de 1991.
(163)
Adotados pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do
Crime e o Tratamento dos Delinquentes, que se realizou em Havana, Cuba, de 27
de Agosto a 7 de Setembro de 1990.
(164)
Ver Jónatas Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11
de Setembro, 2013, 414; Manfred Nowak, Introduction to the International Human
Rights Regime (Leiden / Boston: Martinus Nijhoff Publishers, 2003), 99. Para ter acesso
a um número de Comentários Gerais dos Comités dos tratados internacionais das
Nações Unidas relevantes para a contexto nacional traduzidos para Português e Tetum,
ver Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça, Compilação Instrumentos de Direitos
Humanos, 2.ª edição (Díli, Timor‑Leste, 2014).
(165)
O artigo 40.º‑4 prevê: “O Comité estudará os relatórios apresentados pelos
Estados Partes no presente Pacto, e dirigirá aos Estados Partes os seus próprios relató‑
rios, bem como todas as observações gerais que julgar apropriadas” (itálico nosso).
(166)
O artigo 45.º/d lê‑se: “O Comité pode fazer sugestões e recomendações de
ordem geral com base nas informações recebidas em aplicação dos artigos 44.º e 45.º
da presente Convenção. Essas sugestões e recomendações de ordem geral são transmi‑
tidas aos Estados interessados e levadas ao conhecimento da Assembleia Geral, acom‑
panhadas, se necessário, dos comentários dos Estados Partes”.
(161)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 83
•
•
de comunicações, queixas ou reclamações submetidas por indivíduos
ou outros Estados. Como previsto nos tratados, estas decisões são
vertidas sob a forma de opiniões ou recomendações (167) originárias dos
órgãos de supervisão convencionais. Apesar do indiscutível caráter
de soft law, as recomendações elaboradas pelos Comités, na sequên‑
cia de comunicações contra os Estados partes, comportam uma
expectativa de implementação, decorrente do consentimento
expresso, por parte dos Estados partes, do dever de apreciar as opi‑
niões e recomendações dos Comités e de prestar informações acerca
da implementação das recomendações, como previsto nas normas
convencionais. (168)
Observações finais aos relatórios periódicos dos tratados: os Comités que
monitorizam a implementação dos diferentes tratados de direitos
humanos elaboram observações como resposta aos relatórios periódi‑
cos submetidos pelos Estados partes (169). Estas observações identificam
políticas, assim como outras acções de natureza administrativa ou
jurídica, adequadas à implementação dos padrões de direitos humanos
consagrados nos tratados.
Observações e recomendações dos procedimentos especiais do Conselho de
Direitos Humanos: os documentos emanados dos relatores especiais,
grupos de trabalhos ou peritos estabelecidos através de resoluções de
órgãos especializados das Nações Unidas, quando consideram o
desenvolvimento de diferentes garantias dos padrões de direitos
humanos, possuem o caráter normativo necessário para serem consi‑
(167)
Artigo 13.º‑1 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Racial (1965) e artigo 7.º‑3 do Protocolo Opcional à Con‑
venção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres
(1999).
(168)
Como, por exemplo, o artigo 7.º‑4 do Protocolo Opcional à Convenção
sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (1999):
“O Estado Parte apreciará devidamente as considerações e as eventuais recomendações
emanadas do Comité, e apresentará, num prazo de seis meses, uma resposta escrita
com indicação das medidas adoptadas”.
(169)
Ver Guerra Martins, Direito Internacional Dos Direitos Humanos, 133‑134;
136‑137; 180‑182; Alston and Crawford, The Future of UN Human Rights Treaty
Monitoring, 21‑22 e 50.
Coimbra Editora ®
84
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
derados como fonte de Direito na forma de soft law. (170). Para além
de servirem como um instrumento interpretativo, em alguns casos
específicos, documentos elaborados pelos procedimentos especiais do
Conselho de Direitos Humanos foram instrumentais para o desen‑
volvimento de declarações ou diretrizes em um assunto particular no
âmbito dos direitos humanos, ou até mesmo para a elaboração de um
tratado. Em inúmeras ocasiões, os documentos contendo as observa‑
ções e recomendações dos procedimentos especiais representam a fonte
principal para a elaboração de resoluções do Conselho de Direitos
Humanos ou da Assembleia Geral que apelam aos Estados a imple‑
mentação de certas ações para dar seguimento aos padrões de direitos
humanos. (171)
Na doutrina internacional, considera‑se os dois primeiros tipos enunciados
em cima, como soft law primário, e os seguintes como soft law secundário. Este
segundo tipo foi objeto recente de significativa expansão principalmente como
resultado da proliferação de tratados internacionais dos direitos humanos e suas
instituições de monitorização.
Estes instrumentos de soft law podem ser utilizados de várias formas: para
o desenvolvimento de legislação, em decisões de tribunais e também em regu‑
lamentos criados por ações administrativas.
(170)
Estes mecanismos podem também desempenhar funções de monitorização
de condutas de Estados assim como podem receber queixas (Cfr. Oliveira, Silvia Meni‑
cucci de, ‘Os peritos dos procedimentos especiais do sistema de direitos humanos das
Nações Unidas seu status jurídico e outras questões pertinentes’, in Revista da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo, vol. 100, jan.‑dez., 2005, p. 604; Alston and
Crawford, The Future of UN Human Rights Treaty Monitoring, 4‑ss. Na implementação
destas funções, parece difícil argumentar‑se pela natureza normativa dos diferentes
documentos. Assim, os documentos resultantes destas ações não teriam natureza de
soft law, enquanto fonte não vinculante do Direito internacional, sendo documentos
dotados principalmente de uma natureza política.
(171)
Por exemplo, a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre o
direito humano à água potável e ao saneamento básico (O.N.U., Resolução Da Assem‑
bleia Geral, 64/292, 2010.) que foi inspirado pelo relatório da perita independente
Catarina de Albuquerque sobre este mesmo assunto (United Nations, Report of the
Independent Expert on the Issue of Human Rights Obligations Related to Access to Safe
Drinking Water and Sanitation, Catarina de Albuquerque.)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 85
Encontramos hoje, em Timor‑Leste, as condições ideais para assegurar
o uso destas fontes de Direito internacional no processo de interpretação dos
direitos fundamentais e das garantias, bem como no desenvolvimento do
enquadramento legal para a sua implementação. A efetiva utilização destes
instrumentos durante o período da resistência à ocupação indonésia, conjun‑
tamente com a realidade jurídica normativa atual, que incorpora os principais
tratados internacionais de direitos humanos no ordenamento jurídico nacio‑
nal, e com a utilização de normas convencionais como base para a redação
de certas normas constitucionais representam os principais fatores que con‑
tribuem para uma condição favorável, em Timor‑Leste, ao uso dos instru‑
mentos de soft law das organizações internacionais. Um impulso decisivo neste
sentido é demonstrado pelo uso recente destes instrumentos no desenvolvimento
do ordenamento jurídico timorense, assim como nos acórdãos do Tribunal de
Recurso.
A título de exemplo, encontra‑se no preâmbulo do Currículo Nacional
de Base do Primeiro e Segundo Ciclos do Ensino Básico o recurso à interpre‑
tação do direito à educação no âmbito internacional, identificando‑se alguns
dos elementos essenciais do direito à educação previstos no Comentário Geral
ao Direito à Educação. (172)
Ainda, o regime jurídico sobre o uso da força pela Polícia Nacional de
Timor‑Leste (PNTL) de 2011 é inspirado por dois instrumentos de soft law (173):
os Princípios Básicos Sobre o Uso da Força e Armas de Fogo Pelos Funcioná‑
rios Responsáveis Pela Aplicação da Lei (174) e o Código de Conduta para os
Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (175).
Já em 2005, o Tribunal de Recurso reconheceu que a compreensão dos
direitos fundamentais na ordem constitucional timorense envolve “uma dimen‑
são supra‑positiva e incorpora os padrões interpretativos internacionais”. (176)
Ver Decreto‑Lei n.º 4/2015, de 14 de janeiro.
Decreto‑Lei n.º 43/2011, de 21 de Setembro (Regime Jurídico do Uso da
(172)
(173)
Força).
Adotado por consenso em 7 de Setembro de 1990, por ocasião do Oitavo
Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delin‑
quentes.
(175)
Adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, Resolução n.º 34/169,
17 de Dezembro de 1979.
(176)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005
(2005).
(174)
Coimbra Editora ®
86
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O Tribunal de Recurso fez referência a uma comunicação do Comité dos Direi‑
tos Humanos do PIDCP como apoio na interpretação da extensão da proteção dada
pelo direito a um processo equitativo, em processos criminais, em quatro acórdãos,
entre os anos 2010 e 2011 (177). Nas instâncias judiciais de outros países, é também
possível identificar o reconhecimento da importância do uso de instrumentos desta
natureza. Exemplos particularmente instrutivos neste âmbito, incluem o uso dos
comentários gerais sobre diferentes normas convencionais dos tratados internacionais
de direitos humanos, bem como de outros instrumentos, para a interpretação dos
direitos fundamentais no Nepal (178), Indonésia (179), Colômbia (180) e Argentina (181).
Ressalta‑se ainda que o relatório da Comissão de Acolhimento, Verdade
e Reconciliação fez um uso substancial de vários instrumentos de direitos
humanos de natureza não vinculativa, como os comentários gerais (182), comu‑
nicações do Comité de Direitos Humanos (183), observações finais a relatórios
dos tratados de direitos humanos (184), entre outros.
Tribunal de Recurso, Acórdão de 3 de Agosto de 2010, Proc n.º 53/CO/10/
TR, 17 (2010); (primeiro) Tribunal de Recurso, Acórdão de 24 de Fevereiro 2011,
Proc n.º 12/CO/2011/TR, 9‑10 (2011); Tribunal de Recurso, Acórdão de 16 de Junho
de 2010, Proc. n. 30/CO/2010/TR, 10‑11 (2010); Tribunal de Recurso, Acórdão de 28
de Junho de 2011, Proc n.º 38/CO/2011/TR, 29 (2011). A comunicação citada pelo
Tribunal nestas instâncias foi a comunicação do Comité dos Direitos Humanos, Yves
Morael v. França (1987). Neste acórdão, o Tribunal recorreu ao mesmo trecho da
comunicação (“Embora o art. 14.º não explique o que significa ‘fair hearing’ num
processo judicial, o conceito de processo equitativo no contexto do art. 14 deve ser
interpretado como requerendo um número de condições, tal como igualdade de armas,
respeito pelo princípio do contraditório, preclusão da reformatio in pejus ex officio, e
processo célere”, para. 9.3).
(178)
Cfr. Rabindra Prasad Dhakal e Advocate Rajendra Prasad Dhakal e outros v
Nepal e outros, Acórdão No 7817 P, 169 (Tribunal Supremo do Nepal 2007).
(179)
Cfr. Sianturi (Edith Yunita) e outros v Indonesia, Nos 2‑3/PUU‑V/2007
(Tribunal Constitucional da Indonésia 2007).
(180)
Cfr. Gallón Giraldo e outros, Proc No C‑370/2006 (Corte Constitucional
Colombiana 2006).
(181)
Simón (Julio Héctor) v Procuradoria da República, Tribunal Constitucional
da Argentina 2005, S. 1767. XXXVIII (Tribunal Constitucional da Argentina 2005).
(182)
Cfr. CAVR, Chega! Relatório Da Comissão de Acolhimento, Verdade E Recon‑
ciliação de Timor‑Leste, 2005, chap. 7.2.
(183)
Cfr. Ibid.
(184)
Cfr. Ibid., chap. 7.4.
(177)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 87
3.2.4 A Jurisprudência
Como já referido anteriormente, a jurisprudência é uma fonte de Direito
secundária (ou mediata) no Direito internacional, o que não significa que se
tenha adotado o sistema do precedente obrigatório. Enquanto fonte secundária,
a jurisprudência possui um valor interpretativo de densificação e concretização
dos princípios e das normas do direito internacional.
As decisões das instâncias judiciais internacionais, como a do Tribunal
Internacional de Justiça e os tribunais regionais de direitos humanos (tal como
o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, a Corte Interamericana de Direitos
Humanos e o Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos) possuem
um valor vinculativo limitado ao caso sub judice. Deste modo, a decisão do
tribunal deve ser cumprida pelas partes em disputa, porém, este dever de cum‑
primento não é estendido para outros Estados partes do tratado que institu‑
cionalizou a jurisdição do tribunal. Um exemplo especialmente instrutivo neste
âmbito é o artigo 59.º do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça, segundo
o qual, a “decisão do Tribunal [é] obrigatória para as partes litigantes e a respeito
do caso em questão”.
Sobre a relevância da jurisprudência internacional, explica Jónatas
Machado que “a proliferação de tribunais internacionais, a acumulação de
decisões e a frequência com que os tribunais internacionais remetem para as
decisões uns dos outros têm tornado especialmente importante a análise da
jurisprudência para a determinação do modo como as normas jurídicas são
interpretadas e aplicadas” (185). Ressalva ainda Jorge Miranda que “na ordem
internacional, ainda mais do que na ordem interna, adquire crescente relevo
aquilo a que se tem chamado a elaboração jurisprudencial do Direito, esti‑
mulada pelo confronto de diversas escolas e correntes jurisprudenciais” (186).
Importa, todavia, sublinhar que as decisões judiciais são muitas vezes utili‑
zadas como meios para a revelação da existência de normas consuetudinárias
internacionais.
Os três tribunais regionais de direitos humanos são órgãos judiciais espe‑
cializados. O Tribunal Internacional de Justiça, por sua vez, é diferente: sendo
um órgão judicial estabelecido pela Carta das Nações Unidas, a sua jurisdição
Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setem‑
bro, 133.
(186)
Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 51.
(185)
Coimbra Editora ®
88
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
material relaciona‑se com a aplicação do Direito internacional em geral, com‑
preendendo também os tratados e acordos internacionais em todas as áreas,
incluindo na área dos direitos humanos (187). Em virtude da existência de diver‑
sos tratados internacionais de direitos humanos e da incorporação de padrões
de direitos humanos no direito costumeiro internacional e nos princípios gerais
do Direito internacional, o Tribunal Internacional de Justiça já tratou de várias
questões relacionadas com os direitos humanos. Entre elas, encontram‑se a
responsabilidade internacional dos Estados pelas violações das obrigações
impostas por tratados internacionais de direitos humanos em situação de ocu‑
pação de facto de um certo território (188), a relação entre o direito internacional
dos direitos humanos e o direito humanitário (189) e a posição do direito à
autodeterminação no ordenamento jurídico internacional. (190)
É hoje um dado adquirido que a jurisprudência dos tribunais internacio‑
nais e regionais na área dos direitos humanos tende a aumentar, tanto em
número, como em especificidade devido ao desenvolvimento do direito con‑
vencional dos direitos humanos.
A doutrina internacional intitula como “jurisprudência” as opiniões dos
Comités dos tratados internacionais de direitos humanos de natureza quasi
judicial (as comunicações, como já exposto) (191). Pode afirmar‑se que a natureza
da jurisprudência é determinada pelo envolvimento de uma instituição judicial.
Assim, parece‑nos que o uso do termo “jurisprudência” referindo‑se a estes
documentos de soft law representa uma distorção do conceito de jurisprudên‑
cia e, por consequência, não será utilizado por nós neste sentido.
Artigo 36.º‑2 do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça.
Legal Consequences of the Construction of a Wall in the Occupied Palestinian
Territory, Advisory Opinion, I.C.J. GL No 131 (Tribunal Internacional de Justiça 2004).
(189)
Legality of the Threat or Use of Nuclear Weapons, Advisory Opinion, I.C.J.
Reports No. 95 (Tribunal Internacional de Justiça 1996); Legal Consequences of the
Construction of a Wall in the Occupied Palestinian Territory, Advisory Opinion, I.C.J. GL
No 131 (Tribunal Internacional de Justiça 2004).
(190)
East Timor (Portugal v. Australia), Judgement, I.C.J. Reports 1995 (Tribunal
Internacional de Justiça 1995).
(191)
Ver, por exemplo, Alex Conte, Scott Davidson, and Richard Burchill,
Defining Civil and Political Rights: The Jurisprudence of the United Nations Human
Rights Committee (Ashgate Publishing, 2004). É relevante notar que o próprio Comité
de Direitos Humanos do PIDCP denomina as suas opiniões de “jurisprudência”.
(187)
(188)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 89
3.2.5 Os princípios gerais do Direito internacional
Os princípios gerais ou comuns são instrumentos importantes no Direito
internacional pois possuem a capacidade de integrar as regras do Direito e pres‑
tam um auxílio significativo na tentativa de superar o caráter parcelar e fragmen‑
tado do Direito internacional, ao submeter as suas regras a critérios comuns de
interpretação e aplicação (192). Gomes Canotilho e Vital Moreira definem os
princípios gerais como aqueles “princípios fundamentais geralmente reconhecidos
no direito interno dos Estados e que, em virtude da sua radicação generalizada
na consciência jurídica das coletividades, acabam por adquirir um sentido nor‑
mativo no plano do Direito internacional” (193). Jónatas Machado realça a “função
metódico‑hermenêutica dos princípios de direito internacional, quer na interpre‑
tação de todo o sistema jurídico, quer na integração das lacunas que nele se
possam alojar” (194). Em geral, os princípios possuem um caráter subsidiário das
fontes do Direito internacional e são utilizados como um instrumento interpre‑
tativo e para preencher lacunas normativas. Pode dizer‑se, na prática, que os
princípios asseguram que não acontecerá uma situação non liquet, no sistema do
Direito internacional.
Os princípios podem relacionar‑se com o Direito internacional em geral
ou com um ramo específico do Direito internacional. Não é possível fornecer
aqui uma lista exaustiva dos princípios gerais ou comuns. Os seguintes exem‑
plos, entre muitos, servem como um recurso para compreender a função e o
(192)
Cfr. Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 117. Como se
sabe, o caráter fragmentado do direito internacional é o resultado da não existência de
uma hierarquia clara entre as diferentes fontes de Direito, da existência de diversas
organizações competentes para elaborar normas jurídicas em diferentes áreas especia‑
lizadas e da falta de um tribunal internacional que possa tomar decisões com caráter
obrigatório para todos os Estados. Sobre este assunto, Henrique Weil Afonso, “Unidade
e Fragmentação do Direito Internacional: O Papel dos Direitos Humanos como Ele‑
mento Unificador,” Revista Eletrônica de Direito Internacional vol. 4 (2009): 53‑90;
General Assembly, Fragmentation of International Law: Difficulties arising from the
Diversification and Expansion of International Law, Report of the Study Group of the
International Law Commission (A/CN.4/L.682, April 13, 2006).
(193)
Cfr. Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa
Anotada, 2007, I (Artigo 1.º a 107.º):254‑255.
(194)
Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setem‑
bro, 132.
Coimbra Editora ®
90
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
alcance dos princípios. Destacamos a proteção dos direitos humanos, a conti‑
nuidade dos Estados, a igualdade soberana dos Estados, o pacta sunt servanda,
a prescrição liberatória das extinções das obrigações, o cumprimento em boa‑fé
das obrigações contraídas e o princípio da reparação integral. Vale a pena refe‑
rir que alguns destes princípios são suscetíveis de aplicação somente nas relações
inter‑Estatais, como é o caso da não‑ingerência nos assuntos internos dos
Estados, enquanto outros penetram de uma forma mais nítida no ordenamento
jurídico interno, por exemplo, o princípio da igual dignidade humana de todos
os homens e mulheres.
Como estes princípios não são necessariamente positivados em instrumen‑
tos de Direito internacional, a sua identificação é fortemente ancorada na
jurisprudência de tribunais internacionais e nacionais, assim como na doutrina
internacional (195). Estes princípios podem também estar previstos no texto
constitucional dos Estados, como é o caso de Timor‑Leste, que identifica no
artigo 8.º da Constituição alguns dos princípios gerais do Direito internacional,
nomeadamente, o direito dos povos à autodeterminação, a soberania perma‑
nente dos povos sobre as suas riquezas e recursos naturais, o respeito mútuo
pela soberania, a integridade territorial, a igualdade entre Estados, a não‑inge‑
rência nos assuntos internos dos Estados e a solução pacífica de conflitos.
Como parte integrante dos princípios gerais do Direito internacional,
encontramos o jus cogens, à letra significando o Direito cogente, constringente ou
imperativo. A doutrina considera que o jus cogens possui uma estreita ligação
com a fundamentalidade do sistema do direito internacional e com uma raiz
jusnaturalista do Direito internacional (196). O artigo 53.º da Convenção de Viena
sobre os Direitos dos Tratados marcou um ponto importante na existência do
jus cogens e, desta forma, serve como orientação para a conceptualização deste
princípio geral do direito internacional. De acordo com este preceito, o jus cogens
Sobre este assunto, ver Machado, Direito Internacional: Do Paradigma
Clássico Ao Pós‑11 de Setembro, 127‑132; Miranda, Curso de Direito Internacional
Público, 2009, 117‑118.
(196)
A doutrina sobre esta matéria é abundante. Ver, Eduardo Baptista, Ius Cogens
Em Direito Internacional (Lisboa: Lex, 1997); Miranda, Curso de Direito Internacional
Público, 2009, 119‑ss; Joaquim Cunha, Manual de Direito Internacional Público, 2. ed.
(Coimbra: Almedina, 2004), 189‑191; Lauri Hannikainen, Peremptory Norms (Jus
Cogens) in International Law: Historical Development, Criteria, Present Status (Finnish
Lawyers’ Publisher, 1988); Mark W Janis, ‘Nature of Jus Cogens’, Connecticut Journal
of International Law 3 (1988 1987): 359.
(195)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 91
é “uma norma aceite e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados
no seu todo como norma cuja derrogação não é permitida e que só pode ser
modificada por uma nova norma de direito internacional geral com a mesma
natureza”.
Observa‑se que, à semelhança das normas costumeiras, o jus cogens repre‑
senta princípios que se encontram fora do âmbito da vontade expressa pelos
Estados. A importância do jus cogens é, de certa forma, o resultado da forte
conotação ética do seu conteúdo, na medida em que tende a determinar um
conjunto de valores que se encontram acima do próprio poder estatal.
Com base no disposto acima, Jorge Miranda resume, desta forma, como
as principais características do jus cogens o seguinte:
“a) O jus cogens faz parte do Direito internacional geral ou comum;
b) O jus cogens pressupõe aceitação e reconhecimento;
c) O jus cogens tem de ser aceite e reconhecido pela comunidade inter‑
nacional no seu conjunto, o que significa que tem de ser universal,
não podendo haver um jus cogens regional;
d) O jus cogens possui força jurídica superior a qualquer outro princípio
ou preceito do Direito internacional;
e) O jus cogens opera erga omnes;
f )A violação do jus cogens envolve a invalidade de norma contrária, e
não simplesmente responsabilidade internacional;
g) O jus cogens é evolutivo e suscetível de transformação e de enrique‑
cimento pelo aditamento de novas normas”. (197)
Existe, como se vê, uma força de superioridade do jus cogens. Por con‑
sequência, este tópico suscita uma intensa reflexão na doutrina sobre o Direito
internacional. Uma questão de grande complexidade que se discute neste
contexto é a de saber quais as normas do Direito internacional que ocupam
a posição de jus cogens.
Jorge Miranda propõe, a partir de um estudo doutrinal e jurisprudencial,
os seguintes princípios de jus cogens (198) “atinentes à pessoa humana: princípio da
igual dignidade de todos os homens e mulheres; princípio da proibição da escra‑
Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2012, 121.
Uma lista de normas consideradas como jus cogens encontra‑se em Miranda,
Curso de Direito Internacional Público, 2009, 125‑126.
(197)
(198)
Coimbra Editora ®
92
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
vatura, do tráfico de seres humanos e de práticas semelhantes; princípio da
proibição do racismo; princípio da proteção das vítimas de guerras e conflito;
princípio da garantia dos direitos ‘inderrogáveis’ enunciados no art. 4.º do Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos (199). Refira‑se que Jorge Miranda não
incluiu o princípio da autodeterminação na sua lista de jus cogens, porém, muitos
na doutrina internacional fazem‑no (200). Outros princípios do jus cogens relevan‑
tes para os direitos humanos incluem o princípio da responsabilidade por atos
ilícitos, o princípio pacta sunt servanda (“os acordos devem ser respeitados”), o
princípio da legítima defesa contra agressão e o princípio da não utilização da
força. A propósito deste assunto, Jónatas Machado reflete ainda sobre a relação
entre o jus cogens e os direitos humanos e a consideração de certos princípios e
padrões de direitos humanos como jus cogens (201).
O papel do jus cogens é, sem dúvida, de grande importância para o sistema
de Direito internacional. Com a sua existência, estabelece‑se uma situação em
que toda a comunidade internacional tem o dever de respeitar estes princípios,
independentemente de certos membros serem ou não Estados parte de tratados
internacionais de direitos humanos, e independentemente do sistema político
e jurídico interno dos Estados. Como veremos, a posição generalizada é de que
o jus cogens possui um carácter supra‑constitucional.
Pode enquadrar‑se grande parte da História de Timor‑Leste durante a
ocupação da Indonésia através de uma análise de jus cogens. O princípio da não
utilização da força e o princípio da autodeterminação, ambos identificados
como jus cogens, haveriam sido violados pela Indonésia durante a ocupação de
(199)
Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2012, 124. Quanto aos
direitos “inderrogáveis”, trata‑se de um núcleo de garantias de direitos humanos que
não podem ser suspensas. O artigo 4.º do PIDCP menciona um número de direitos,
nomeadamente o direito à vida, integridade física e moral das pessoas, liberdade de
pensamento, consciência e religião, não‑retroactividade da lei penal. Vide Capítulo IV,
3. Suspensão do Exercícios dos Direitos Fundamentais.
(200)
Sobre a posição do princípio e direito à autodeterminação no Direito
internacional, ver, Antonio Cassese, Self‑Determination of Peoples: A Legal Reappraisal
(Cambridge University Press, 1999), 133‑ss. Ver, também, Yearbook of the International
Law Commission 1966, Volume II (New York: United Nations, 1967), 247‑ss.
(201)
Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setembro,
141‑143. Mais sobre este assunto, ver, Andrea Bianchi, “Human Rights and the Magic
of Jus Cogens,” European Journal of International Law 19, no. 3 (June 1, 2008): 491‑508.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 93
Timor‑Leste (202). O facto de que o jus cogens representa obrigações erga omnes
significaria a existência de um dever jurídico‑internacional de cada Estado
membro da comunidade internacional de garantir a autodeterminação do povo
timorense. (203)
A realidade encarada por Timor‑Leste ao nível internacional, assim como
a experiência vivida por vários outros povos e Estados, mostra uma distância
entre a teoria e a prática, em que violações claras do Direito internacional são
ignoradas. Frequentemente, a inação da comunidade internacional perante
sérios atentados contra o Direito internacional, como violações do jus cogens,
é uma resposta à geopolítica internacional relevante, incluindo questões de
cunho económico. (204)
4. Relação entre o Direito Interno e o Direito Inter‑
nacional
Como já referido, o Direito internacional dos direitos humanos consiste,
na sua essência, na regulamentação do tratamento do Estado para com as
pessoas sob a sua jurisdição. Como tal, este é um ramo do Direito que trespassa
o nível nacional. Para tal, torna‑se fundamental compreender a relação entre o
direito internacional e o direito interno (ou direito nacional). (205) Duas questões
(202)
Ver, L. Hannikainen, ‘The Case of East Timor from the Perspective of Jus
Cogens’, in International Law and the Question of East Timor (London, 1995), 103‑117.
(203)
Uma das opiniões dissidentes na decisão do Tribunal Internacional de
Justiça de 1995 entre Portugal e Austrália considerou este aspeto do direito à autode‑
terminação (East Timor (Portugal v. Australia), Judgement, I.C.J. Reports No. 90 (1995)
(Tribunal Internacional de Justiça 1995), dissenting opinion of Judge Weeramantry.).
(204)
Para uma discussão sobre estas e outras questões, ver, José Manuel Pureza,
‘Quem Salvou Timor‑Leste? Novas Referências Para O Internacionalismo Solidário’,
in Reconhecer Para Libertar: Os Caminhos Do Cosmopolitismo Multicultural (Civilização
Brasileira, 2003); Patrícia Galvão Teles, ‘Autodeterminação Em Timor‑Leste: Dos
Acordos de Nova Iorque À Consulta Popular de 30 de Agosto de 1999’, Documentação
E Direito Comparado, no. 79/80 (1999): 381‑ss.
(205)
Muitos autores na doutrina portuguesa se debruçaram sobre esta questão.
Ver, por exemplo, Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11
de Setembro, 144‑ss; Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
819‑ss; Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
Coimbra Editora ®
94
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
principais encontram‑se no núcleo da relação destes dois ordenamentos jurí‑
dicos: a técnica para a vigência do Direito internacional no ordenamento
jurídico interno e a sua posição no sistema de fontes de Direito ao nível nacio‑
nal. A vigência do Direito internacional refere‑se às regras procedimentais
necessárias para a aplicação deste ramo do Direito no ordenamento jurídico
interno de um Estado. A posição do Direito internacional relaciona‑se com a
determinação do lugar que as fontes do Direito internacional ocupam na hie‑
rarquia das fontes de Direito ao nível nacional, analisando se estas possuem
um valor supra constitucional, constitucional, infraconstitucional e ainda supra
legal, legal ou infra legal.
A Constituição timorense, seguindo a linha das constituições mais moder‑
nas (206), prevê uma norma específica — o artigo 9.º — que trata da relação
entre o Direito internacional e o Direito interno.
Artigo 9.º
(Recepção do direito internacional)
1. A ordem jurídica timorense adopta os princípios de direito inter‑
nacional geral ou comum.
2. As normas constantes de convenções, tratados e acordos interna‑
cionais vigoram na ordem jurídica interna mediante aprovação, ratificação
ou adesão pelos respectivos órgãos competentes e depois de publicadas no
jornal oficial.
3. São inválidas todas as normas das leis contrárias às disposições das
convenções, tratados e acordos internacionais recebidos na ordem jurídica
interna timorense.
Por força do artigo 9.º, é estabelecido um regime de receção plena do direito
internacional geral e das normas constantes das convenções, tratados e acordos
internacionais, refletindo o princípio da abertura internacional da Constituição
timorense. Com base neste, estas fontes do Direito internacional são recebidas
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):251‑ss; Miranda, Curso de Direito Internacional Público,
2009, 135‑ss; Jorge Miranda e Rui Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2. ed.,
Tomo I (Coimbra: Coimbra Editora, 2010), 159‑ss.
(206)
Ver, sobre este assunto, Miranda, Curso de Direito Internacional Público,
2009, 141‑144.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 95
em Timor‑Leste sem precisarem de estar sujeitas a um processo de transforma‑
ção para possuírem aplicabilidade no ordenamento jurídico interno.
O Tribunal de Recurso em 2005 resumiu sabiamente alguns dos aspetos
da relação entre o direito interno e o direito internacional:
“(a) Que a Constituição de Timor‑Leste acolhe na ordem jurídica
interna os princípios do direito internacional geral e confere força
supra‑legal às normas constantes dos tratados e acordos internacionais
regularmente aprovados pelas autoridades timorenses competentes,
incluindo o direito internacional dos direitos humanos; (b) que a com‑
preensão dos direitos fundamentais na ordem constitucional timorense
envolve uma dimensão supra‑positiva e incorpora os padrões interpre‑
tativos internacionais (…); (c) que do rol dos direitos fundamentais
fazem parte, além dos mencionados na Constituição como tais, também
“quaisquer outros constantes da lei”, e (d) que devem ser interpretados
em consonância com a Declaração Universal dos Direitos do
Homem.” (207)
Este trecho de um acórdão do mais alto tribunal de Timor‑Leste clarifica
o entendimento deste tribunal no que respeita a algumas das principais questões
sobre a receção do direito internacional no ordenamento interno. Observa‑se
que os dois últimos pontos, sobre a abertura do sistema e a função interpreta‑
tiva da DUDH, são tratados no Capítulo III deste Livro.
4.1 Receção do Direito Internacional Geral ou Comum
O artigo 9.º‑1 da Constituição timorense prevê a adoção dos princípios de
direito internacional geral ou comum na ordem jurídica interna. Dentro do
Direito internacional geral ou comum encontramos os princípios gerais, incluindo
o jus cogens, e os costumes internacionais. (208)
Os princípios de Direito internacional geral ou comum recebidos na ordem
jurídica interna detêm o mesmo conteúdo e alcance que possuem no sistema
de Direito internacional.
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005,
2 (2005), 2.
(208)
Vide Capítulo I, 3.2.5 Os princípios gerais do Direito internacional e
3.2.2 O Costume Internacional.
(207)
Coimbra Editora ®
96
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Por força do artigo 9.º‑1 da Constituição, a aplicação dos princípios
de Direito internacional geral no ordenamento jurídico nacional é sujeita a
uma receção automática plena (209), segundo a qual a eficácia interna daqueles
princípios não é condicionada por qualquer processo específico, sendo
necessária somente a sua validade jurídica internacional. Em Timor‑Leste,
não é prescrita a observância de regras ou formas constitucionais específicas
para a vinculação estatal aos princípios do Direito internacional, como
acontece no caso do direito convencional que requer processos de aprovação,
ratificação e publicação.
O artigo 9.º não estabelece a posição dos princípios de Direito interna‑
cional no ordenamento jurídico timorense. Observa‑se ainda que o Tribunal
de Recurso, no acórdão de 2005 supracitado, não expressou uma opinião
sobre esta questão. Desta forma, questiona‑se a posição daqueles princípios
no ordenamento jurídico nacional: assumiriam os princípios do Direito
internacional geral ou comum um valor supraconstitucional, constitucional,
infraconstitucional e supra legal, legal ou infra legal? Com a falta de uma
postura dos tribunais ou opinião da doutrina sobre este assunto, recorre‑se à
assistência do Direito comparado numa tentativa de identificar a posição que
os princípios de Direito internacional geral ou comum ocupam em
Timor‑Leste.
A Constituição portuguesa, análoga à Lei Fundamental timorense, não
possui uma norma constitucional que regule a posição dos princípios de Direito
internacional no ordenamento jurídico português. A principal tendência dou‑
trinária em Portugal, partilhada por Vital Moreira e Gomes Canotilho, Jónatas
Machado e Jorge Miranda, é dar uma resposta a esta questão através de um
sistema relativista ou qualificado, em que a posição dos princípios de Direito
internacional no ordenamento jurídico português é determinada pela natureza
do princípio em questão (210). Desta forma, é possível identificar uma “regra
Observa‑se, no entanto, que na doutrina portuguesa existem variações
terminológicas para o tipo de receção dada pelo artigo 9.º‑1 da CRDTL, como salien‑
tado por Marta Chantal da Cunha Machado Ribeiro, ‘O Direito Internacional,
O Direito Comunitário E a Nossa Constituição — Que Rumo?’, in Estudos Em Come‑
moração: Dos Cinco Anos (1995‑2000) Da Faculdade de Direito Da Universidade Do
Porto, ed. Ana Prata (Coimbra: Coimbra Editora, 2001), 941‑942.
(210)
Machado, Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setem‑
bro, 179‑181; Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 152‑155; Gomes
Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada, 2007, I (Artigo 1.º
(209)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 97
geral” de uma posição infraconstitucional e supra legal dos princípios de Direito
internacional no ordenamento jurídico português. Esta “regra geral” possui
uma marcante exceção: os princípios de Direito internacional que correspondam
ao jus cogens seriam supra constitucionais, visto que se relacionam com normas
imperativas estruturantes da comunidade internacional e, desta forma, devem
sobrepor‑se à constituição de qualquer Estado. (211)
Em Timor‑Leste, mostra‑se possível a adoção de uma posição infracons‑
titucional dos princípios de Direito internacional geral ou comum. Não apa‑
renta haver em Timor‑Leste uma razão para divergir da tendência portuguesa
que considera uma posição infraconstitucional dos princípios de Direito inter‑
nacional geral ou comum, à exceção daqueles que representam jus cogens.
Reconhece‑se, no entanto, que esta questão ainda está longe de estar totalmente
resolvida no direito interno português e brasileiro, por exemplo.
Apesar das dificuldades de conceptualização do jus cogens, questão já ana‑
lisada acima, partilhamos da opinião de prover‑lhe uma posição supra consti‑
tucional. Visto que Timor‑Leste tem uma grande abertura ao Direito interna‑
cional, não nos parece existir uma justificação para argumentar um
posicionamento do jus cogens que esteja em conflito com a sua própria natureza
e conceito no Direito internacional.
É ainda importante salientar aqui uma peculiaridade do texto constitu‑
cional timorense sobre a receção do Direito internacional geral ou comum em
a 107.º):251‑273. Uma pequena parte da doutrina portuguesa atribui uma posição
supraconstitucional a todos os princípios de Direito internacional geral ou comum,
como é o caso de André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros, Manual de Direito
Internacional Público, 3.ª ed. (Coimbra: Almedina, 1997), 115‑ss; Marta Chantal da
Cunha Machado Ribeiro, ‘O Direito Internacional, O Direito Comunitário E a Nossa
Constituição — Que Rumo?’, in Estudos Em Comemoração: Dos Cinco Anos (1995‑2000)
Da Faculdade de Direito Da Universidade Do Porto, ed. Ana Prata (Coimbra: Coimbra
Editora, 2001), 952‑ss. Para uma visão histórica sobre os debates doutrinários relativos
à relevância do direito internacional na ordem jurídica interna portuguesa, vide, Pereira
e Quadros, Manual de Direito Internacional Público, 1997, 106‑115.
(211)
Observa‑se que Jorge Miranda considera ainda uma segunda exceção ao
considerar que os princípios incluídos na DUDH que não sejam jus cogens teriam um
valor constitucional como resultado da existência de uma receção formal da DUDH
no ordenamento jurídico (Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009), 153.
Como será notado no próximo Capítulo, em Timor‑Leste a DUDH tem somente um
papel interpretativo.
Coimbra Editora ®
98
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
comparação com as constituições dos outros países da língua portuguesa. Nas
Constituições de Angola e Cabo Verde, por exemplo, faz‑se menção à adoção
do « direito internacional geral ou comum » sem identificar os seus elementos,
compreendendo então a adoção de todos os principais aspetos do Direito
Internacional (212). De forma diferente, a Constituição portuguesa e a
são‑tomense estabelecem que «as normas» e «os princípios» do Direito Inter‑
nacional integram o Direito interno (213). As normas do Direito Internacional
geral ou comum são representadas principalmente pelos costumes internacio‑
nais, enquanto os princípios de Direito Internacional geral ou comum incluem
o jus cogens e os princípios gerais.
A uma primeira vista, como consequência da redação do artigo 9.º da
Constituição timorense, Timor‑Leste parece não adotar no ordenamento interno
os costumes internacionais. Porém, como já mencionado anteriormente, os
costumes são uma fonte do Direito internacional de aplicação geral, e com isto
possuem uma força vinculante para todos os Estados da comunidade interna‑
cional. O uso de uma interpretação literal do artigo 9.º, excluindo os costumes
internacionais do regime de receção de Direito internacional no ordenamento
interno, representaria uma verdadeira limitação à receção geral plena do Direito
internacional prevista constitucionalmente. Parece‑nos que a abertura ao Direito
internacional prevista na Constituição requer que a expressão “princípios de
Direito internacional geral ou comum” contida no artigo 9.º‑1 seja interpretada
em um sentido amplo, correspondendo a uma receção dos princípios em seu
sentido estrito e das normas do Direito internacional geral ou comum.
Para Timor‑Leste, que ainda não possui um ordenamento jurídico com‑
pleto e adaptado à sua realidade institucional e sociocultural, a receção dos
princípios do Direito internacional geral ou comum pode ser um instrumento
de grande valia para o juiz quando da aplicação das leis. O Tribunal de Recurso
já examinou e fez uso de vários dos princípios do Direito internacional, como
por exemplo, a norma consuetudinária da criminalização de crime contra a
humanidade (214), o princípio do abuso de direito (215) e o princípio da justiça
material (216).
Cfr. Artigo 13.º e artigo 12.º, respetivamente.
Cfr. Artigo 8.º e artigo 13.º, respetivamente.
(214)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 14 de Setembro de 2004, Proc n.º P/28/
/CO/04/TR (2004); Tribunal de Recurso, Acórdão de 28 de Maio de 2010, Proc.
n.º 36/CO/2010/TR (2010).
(212)
(213)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 99
Ressalta‑se ainda que aqueles princípios de Direito internacional previstos
no artigo 8.º da Constituição timorense são certamente constitucionais. A cons‑
titucionalidade destes não é, porém, uma consequência da receção do Direito
internacional, mas sim o resultado da sua inclusão em uma norma constitu‑
cional. (215) (216)
4.2 Receção do Direito Convencional
A abertura da Constituição ao Direito internacional estende‑se à receção
das normas do direito convencional.
Prevista no artigo 9.º‑2, a receção dada pela Constituição timorense é uma
receção geral plena (217), segundo a qual, as normas contidas nos tratados dos
quais Timor‑Leste é parte possuem eficácia no ordenamento interno, após a
sua publicação no jornal oficial (218). Porém, é importante relembrar que, para
a receção de um tratado no ordenamento jurídico interno, Timor‑Leste deve
estar vinculado ao tratado a nível internacional e já deve ter concluído tanto
os passos processuais exigidos pelo tratado para se tornar um Estado parte,
como aqueles previstos na sua própria Constituição. (219)
Refira‑se que, no seu artigo 9.º, a Constituição escolheu uma redação que
enumera diferentes categorias de acordo internacional (acordo compreendido
em seu sentido amplo), nomeadamente, convenções, tratados e acordos inter‑
nacionais. Utilizamos aqui, assim como anteriormente, o termo lato de tratado
internacional. Os tratados internacionais de direitos humanos, quer sejam
denominados por convenção ou pacto, são recebidos na ordem interna através
deste preceito constitucional.
(215)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Março de 2010, Proc n.º 02/PC/10/
/TR, 11‑14 (2010).
(216)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 10 de Junho de 2010, Proc n. 02/CIV/10/
/TR, 3‑4 (2010).
(217)
Como já mencionado supra, na doutrina portuguesa diversos termos são
utilizados para conceptualizar a receção do direito convencional. Jónatas Machado, por
exemplo, utiliza o termo “receção automática plena” para a receção dos princípios do
Direito internacional e do Direito convencional internacional. Cfr. Machado, Direito
Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setembro, 171‑172.
(218)
Este processo já se encontra regulado pela Lei n.º 6/2010, de 12 de Maio
(sobre Tratados Internacionais).
(219)
Ver, Capítulo I, 3.2.1 Os Tratados Internacionais de Direitos Humanos.
Coimbra Editora ®
100
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Vale ainda destacar aqui que a legislação atual de Timor‑Leste utiliza o
termo tratado em sentido amplo, incluindo os acordos, convenções e tratados
no stricto sensu. (220)
A receção do direito convencional traz consigo a utilização dos instrumen‑
tos interpretativos (instrumentos de soft law) relevantes para os tratados dos
quais Timor‑Leste é um Estado parte (221). Este aspeto foi já considerado pelo
Tribunal de Recurso segundo o qual “a compreensão dos direitos fundamentais
na ordem constitucional timorense envolve uma dimensão supra positiva e
incorpora os padrões interpretativos internacionais”. (222)
O texto da Constituição revela‑se claro no que respeita à posição dos tra‑
tados internacionais em relação às leis nacionais. Os tratados internacionais
possuem uma posição supra legal por força do artigo 9.º‑3 da Constituição, o
qual condiciona a validade das leis ordinárias à sua conformidade com o direito
convencional. O Tribunal de Recurso, em 2005, expressou a sua opinião neste
mesmo sentido (223). Uma posição de supra legalidade do direito convencional
é encontrada na maioria das constituições dos países da língua portuguesa, com
a exceção de Moçambique, que determina uma posição do direito internacio‑
nal em paridade com as leis nacionais. (224)
Porém, questionamos, ainda, qual é a posição do direito convencional
perante a Constituição de Timor‑Leste?
É certo que a Constituição de Timor‑Leste não prevê, direta e expres‑
samente, a posição do direito convencional vis‑a‑vis a própria constituição.
É também válido apontar que a Constituição portuguesa (225), assim como
as Constituições de Cabo Verde (226), de São Tomé e Príncipe (227) e de
Cfr. Artigo 2.º‑2 Lei n.º 6/2010, de 12 de Maio.
Cfr. Capítulo I, 3.2.3 Atos das Organizações Internacionais ou Soft Law.
(222)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005, 2
(2005), 2.
(223)
Ibid.
(224)
Artigo 18.º‑2 da Constituição moçambicana. Nota‑se que a Constituição
da guineense não contém norma constitucional alguma que verse sobre a receção do
direito internacional no ordenamento nacional.
(225)
Artigos 277.º‑2; 278.º‑1; 279.º‑1 e 4 e 280.º‑3 Constituição da República
Portuguesa de 1976.
(226)
Artigos 277.º e 278.º Constituição da República de Cabo Verde.
(227)
Artigos 144.º‑2; 145.º‑1 e 146.º da Constituição de São Tomé e Príncipe.
(220)
(221)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 101
Angola (228) determinam, em seus preceitos normativos, que as normas con‑
vencionais internacionais são sujeitas ao processo de fiscalização de consti‑
tucionalidade, apontando, por consequência, para a existência, com um certo
grau de clareza, de uma posição infraconstitucional do direito convencional.
A doutrina portuguesa, em larga medida, partilha da posição de que as
normas internacionais convencionais possuem um valor infraconstitucional,
mas supralegal. (229)
As normas da Lei Fundamental timorense sobre a fiscalização da consti‑
tucionalidade não mencionam expressamente a sujeição do direito convencio‑
nal ao processo de fiscalização, preferindo utilizar uma linguagem mais abran‑
gente ao determinar a apreciação preventiva de “qualquer diploma” que tenha
sido enviado ao Presidente da República para a promulgação (artigo 149.º‑1)
e a fiscalização concreta de constitucionalidade quando da aplicação ou recusa
da aplicação de “qualquer norma” (artigo 152.º‑1). (230) Como as normas cons‑
titucionais de fiscalização não constavam do esboço da Constituição de Dezem‑
bro de 2001, não encontramos informação suficiente nos trabalhos preparató‑
rios sobre estes preceitos constitucionais. Note‑se que ao Presidente da República
não é atribuída a competência para promulgar os tratados internacionais, mas
somente de enviá‑los para publicação (artigo 85.º/a da Constituição). (231)
(228)
Artigos 227.º/b; 228.º‑1; 229.º‑2, 3 e 4 da Constituição da República de
Angola de 2010. Ver, ainda, o artigo 190.º da Constituição da República do Ruanda
e o artigo 8.º, secções 4.2 e 5.2 da Constituição da República das Filipinas de 1987.
(229)
Ver, Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa
Anotada, 2007, I (Artigo 1.º a 107.º):258‑259; Machado, Direito Internacional: Do
Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setembro, 181‑188; Pereira e Quadros, Manual de
Direito Internacional Público, 1997, 155‑156. O valor supra constitucional das normas
convencionais é sugerido por alguns autores da doutrina brasileira, nomeadamente
Flávia Piovesan, Direitos Humanos E O Direito Constitucional, 14 edição (São Paulo:
Saraiva, 2013), chap. IV. Note‑se ainda que, em Portugal, há um intenso debate sobre
a questão da supra constitucionalidade do direito comunitário, considerando parte da
doutrina a primazia do direito comunitário sobre as constituições dos Estados membros.
(230)
Para uma discussão mais detalhada sobre os métodos de fiscalização cons‑
titucional, vide, Capítulo VI, 3. A Justiça Constitucional.
(231)
Veja em contraste o artigo 278.º‑1 da Constituição portuguesa que atribui
especificamente a competência ao Presidente da República para pedir a fiscalização
preventiva dos tratados internacionais enviados para ratificação e dos acordos interna‑
cionais enviados para assinatura.
Coimbra Editora ®
102
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Uma posição infra constitucional de normas convencionais pode sempre
ter o potencial de gerar dúvidas quanto à norma aplicável, no âmbito de um
litígio internacional, quando há um claro conflito entre a Constitução nacional
e um tratado internacional. (232)
Se parece ser mais ponderável considerar que, no ordenamento jurídico
em Timor‑Leste, o direito convencional tem uma posição infra constitucional
(mas supra legal), haverá lugar para alguma exceção em relação às normas
contidas nos tratados internacionais sobre os direitos humanos?
Em Timor‑Leste, é reconhecida a existência de direitos só materialmente
fundamentais, os quais, apesar de não estarem contidos no texto da Lei Fun‑
damental, passam a adquirir um valor constitucional como consequência da
abertura da constituição aos direitos fundamentais prevista no artigo 23.º da
Constituição de 2002 (233). Ressalta‑se que, seguindo a linha da Constituição
moçambicana, a Constituição timorense parece prever uma abertura dos direi‑
tos fundamentais um tanto limitada ao aceitar como direitos só materialmente
fundamentais apenas aqueles “constantes da lei”, não estendendo a abertura dos
direitos fundamentais aos direitos humanos previstos nas convenções interna‑
cionais (234). Neste sentido, de acordo com a linguagem normativa da Consti‑
tuição, as normas das convenções internacionais sobre os direitos humanos não
representariam direitos fundamentais, reduzindo‑se a uma posição infra cons‑
titucional como quaisquer outras normas convencionais.
Ao mesmo tempo, poderia argumentar‑se que, dentro de um sistema
monista de direito, a legislação internacional é recebida de forma plena no
ordenamento jurídico e, assim, é considerada como parte integrante do Direito
interno. Com isto, e considerando o papel primordial do direito internacional
na História da formação do Estado timorense, inclinamo‑nos para a ideia
segundo a qual a interpretação a ser dada ao termo “constantes da lei” no
artigo 23.º da Constituição deve ser uma que inclua a lei internacional aplicá‑
vel em Timor‑Leste.
Vide Capítulo I, 4.3 Conflito entre o Direito interno e o Direito interna‑
(232)
cional.
Vide Capítulo III, 3.3 Outros Direitos Fundamentais.
A maioria dos países de língua portuguesa prevê a abertura dos direitos
fundamentais àqueles constantes na lei e no direito internacional, como é o caso das
Constituições de Guiné Bissau (artigo 29.º‑1), Angola (artigo 26.º‑1), Cabo Verde
(artigo 17.º‑1) e Portugal (artigo 16.º‑1).
(233)
(234)
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 103
4.3 Conflito entre o Direito Interno e o Direito Internacional
Um conflito entre o Direito interno e o Direito internacional produz
efeitos tanto no ordenamento interno como no ordenamento internacional.
Para o Direito internacional, qualquer violação de jus cogens, de uma norma
consuetudinária ou de uma norma de um tratado do qual Timor‑Leste faça
parte representa uma violação ao nível internacional. A violação está presente,
independentemente da sua constitucionalidade. Em virtude da obrigação de
respeitar as normas vinculativas presentes no Direito internacional (como já
visto, as normas dos tratados, as normas consuetudinárias e o jus cogens), o
Estado violador pode incorrer em responsabilização caso não respeite aquelas
normas. À primeira vista, a relação violação‑responsabilização parece‑nos clara.
Porém, atualmente, não há uma posição homogénea quanto ao alcance da
responsabilização de um Estado em relação à sua quebra de normas contidas
no ordenamento jurídico internacional.
Na sua opinião recente, o Tribunal Internacional de Justiça identificou duas
formas de responsabilização do Estado violador da norma de Direito internacional:
o dever de cessar quaisquer ações que resultem na violação e o dever de reparar
os danos causados pela violação (235). Esta decisão segue alguns dos princípios da
reparação incluídos nos Princípios Básicos do Direito à Reparação das Vítimas de
Violações de Direitos Humanos e do Direito Internacional Humanitário de
2005 (236). Apesar da existência de um instrumento de soft law e do aparecimento
de jurisprudência internacional sobre esta questão, ainda não existem normas
específicas sobre a responsabilização dos Estados, de natureza convencional ou
consuetudinária. Um passo importante foi dado, em 2001, numa tentativa de
positivar os princípios e formas de responsabilização internacional com a elabo‑
ração pela Comissão Internacional de Direito de um esboço de artigos sobre a
responsabilização dos Estados por atos ilícitos praticados internacionalmente (Draft
Articles on Responsibility of States for Internationally Wrongful Acts). (237) A elabora‑
Cfr. Legal Consequences of the Construction of a Wall in the Occupied Pales‑
tinian Territory, Advisory Opinion, I.C.J. Reports No 131 (Tribunal Internacional de
Justiça 2004).
(236)
Adotado pela Resolução da Assembleia Geral n.º 60/147, de 16 de Dezem‑
bro de 2005.
(237)
International Law Commission, Draft Articles on Responsibility of States for
Internationally Wrongful Acts, December 2001.
(235)
Coimbra Editora ®
104
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ção do esboço deste instrumento internacional durou mais de 20 anos e não se
sabe se estes artigos serão transformados em tratado num futuro próximo. A rea‑
lidade com que nos deparamos neste momento é uma em que os Estados possuem
o dever de respeitar as normas de Direito internacional vinculativas e não podem
utilizar o seu direito interno como fator desculpante para a violação (238), porém,
não há clareza sobre as consequências específicas aquando da sua violação.
No âmbito interno, o conflito entre o direito interno e o direito interna‑
cional pode resultar em ilegalidade ou em inconstitucionalidade da lei. Em
geral, quando uma norma prevista em legislação ordinária se encontra em
conflito com uma norma ou princípio do Direito internacional ou com uma
norma convencional deparamo‑nos com uma questão de ilegalidade da norma
contida na legislação ordinária, já que estes princípios e normas de Direito
internacional possuem uma posição supra legal (239).
Assumindo o Direito Internacional convencional uma posição infra cons‑
titucional é possível, teoricamente, que uma norma de um tratado esteja em
conflito com a Constituição. Note‑se, porém, que a CRDTL não prevê expres‑
samente a possibilidade de fiscalização preventiva da constitucionalidade de
normas constantes de tratados internacionais, pelo que não é claro qual o
processo aplicável nos casos em que se pretenda verificar a constitucionalidade
de tais normas quando as mesmas sejam contrárias à Constituição. (240)
Há quem argumente que se poderia considerar que nem todo o conflito
entre o Direito interno e o Direito internacional no ordenamento interno
(238)
Ver, por exemplo, o artigo 27.º da Convenção de Viena sobre o Direito
dos Tratados, que além de ser uma norma convencional representa ainda uma norma
consuetudinária internacional. O Comité de Direitos Humanos num dos seus Comen‑
tários Gerais considerou que “[e]mbora o artigo 2.º, número 2 permita aos Estados
Partes que dêem efeito aos direitos do Pacto em conformidade com os procedimentos
constitucionais internos, o mesmo princípio se aplica com o fim de evitar que os
Estados Partes invoquem disposições do direito constitucional ou outros aspectos do
direito interno para justificar uma falta de cumprimento ou de aplicação das obrigações
no âmbito do tratado.” (Comité dos Direitos Humanos, Comentário Geral N.º 31: A
Natureza Da Obrigação Jurídica Geral Imposta Aos Estados Partes Do Pacto, de Maio de
2004, para. 4. in Provedoria de Direitos Humanos e Justiça, Compilação Instrumentos
de Direitos Humanos.)
(239)
Vide Capítulo VI, 3. A Justiça Constitucional.
(240)
Ver, sobre os processos de fiscalização da constitucionalidade, capítulo VI.
Coimbra Editora ®
Capítulo I — Natureza e Conceito dos Direitos Fundamentais e Direitos Humanos 105
representa também um conflito no âmbito internacional, e vice e versa (241).
Esta possível dicotomia seria uma consequência direta das diferentes posições
que as normas e princípios de Direito internacional podem ocupar no ordena‑
mento interno mas que, no entanto, parece colocar em causa a concepção
monista do direito. (242)
(241)
Jónatas Machado refere como tendência mais recente a existência de um
“novo dualismo” assente não num problema de hierarquia mas de coordenação entre
os ordenamentos jurídicos interno e internacional cada um com determinadas áreas
de competência, em termos que possibilitam as funções próprias de cada um (Machado,
Direito Internacional: Do Paradigma Clássico Ao Pós‑11 de Setembro, 163‑ss.). Ver, ainda,
Miranda, Curso de Direito Internacional Público, 2009, 137‑ss; Valerio de Oliveira
Mazzuoli, Curso de Direito Internacional Público (São Paulo: Editora Revista dos Tri‑
bunais, 2012), 74‑ss.
(242)
Normalmente, as relações entre estas duas ordens jurídicas são conceptua‑
lizadas partindo das perspetivas monistas — com primazia do direito internacional ou
do direito interno — e dualistas — com uma clara autonomização das ordens jurídi‑
cas e sistemas de incorporação das normas de uma e de outra. No primeiro conceito,
o direito internacional e o direito interno são partes de um ordenamento jurídico,
fundado, ou no direito natural, ou na voluntas soberana dos Estados. Na segunda
perspetiva, trata‑se de ordenamentos jurídicos distintos, obedecendo a valores, princí‑
pios, objetivos e lógicas distintas (Cfr. Machado, Direito Internacional: Do Paradigma
Clássico Ao Pós‑11 de Setembro, 163‑ss; Miranda, Curso de Direito Internacional Público,
2009, 137‑ss; André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros, Manual de Direito Inter‑
nacional Público, 3.ª ed. (Coimbra: Almedina, 1997), 84‑ss.)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
Sumário
1. História da Constituição da República Democrática de
Timor‑Leste
2. Visão Geral da Constituição da República Democrática
de Timor‑Leste
2.1Estrutura da Constituição
2.2 Princípios Fundamentais
2.3Regime dos Direitos Fundamentais
2.4 Organização do Poder Político e Sistema de Governo
2.5Sistema Legislativo
2.6Estrutura Judiciária
2.7Controlo da Constitucionalidade e Revisão Constitucional
2.8Constituição e Ordenamento Jurídico
3. Hermenêutica Constitucional
3.1Elementos Básicos de Interpretação
3.2 Princípios da Interpretação Constitucional
3.3 Lacuna Constitucional
3.4Interpretação conforme a Constituição
3.5 Os Agentes da Interpretação Constitucional
Visão Global
Este capítulo versa, de forma bastante resumida, sobre a estrutura da
Constituição e as suas principais características no âmbito da organização
política e judiciária, do sistema legislativo, do ordenamento jurídico e dos
princípios orientadores da hermenêutica constitucional. Neste capítulo
aborda‑se também, e igualmente de forma sucinta, a História da elaboração da
Constituição timorense.
Espera‑se que, ao proporcionar uma visão geral e sistemática sobre alguns
aspetos do direito constitucional timorense, se garantirá uma base suficientemente
sólida para uma compreensão do sistema de direitos fundamentais. Este capítulo
pretende também contribuir para um melhor entendimento quanto à interrela‑
ção entre os direitos fundamentais e outras questões estruturais da Constituição.
Palavras e Expressões‑Chave
Poder constituinte
Supremacia constitucional
Separação de poderes
Competência legislativa
Plurimodalidade de atos legislativos
Processo legiferante
Pluralidade de jurisdições
Mecanismos de fiscalização constitucional
1. História da Constituição da República Democrá‑
tica de Timor‑Leste
A 20 de Maio de 2002, Timor‑Leste encontrava‑se com uma Constituição
nacional fundada em princípios como a democracia e o Estado de Direito e
Coimbra Editora ®
110
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
capaz de enquadrar as aspirações do povo timorense durante a luta de inde‑
pendência. O processo para a elaboração da Constituição da República Demo‑
crática de Timor‑Leste (CRDTL) durou um pouco mais de um ano. (1)
O primeiro passo formal no processo constituinte foi dado, em 2001,
através da adoção do Regulamento da UNTAET n.º 2001/2, de 26 de Fevereiro
(Eleição de uma Assembleia Constituinte para a Elaboração de uma Consti‑
tuição para um Timor‑Leste Independente e Democrático). Este diploma
revestia uma natureza abrangente, estabelecendo o processo eleitoral para a
escolha de membros de uma Assembleia Constituinte, o regime jurídico dos
partidos políticos, a criação de uma autoridade eleitoral independente, assim
como a definição da competência e composição da Assembleia Constituinte e
os critérios legais para a aprovação da futura Constituição.
O processo para o desenvolvimento da CRDTL de 2002 baseou‑se num
procedimento constituinte indireto ou representativo, em que os cidadãos timo‑
renses elegeriam os representantes sobre os quais recairia a responsabilidade de
elaborar e aprovar a Constituição. (2)
A eleição dos 88 membros da Assembleia Constituinte foi realizada por
um sistema eleitoral misto, com votação por maioria, composto por um círculo
plurinominal único para a eleição de 75 membros através de um método de
representação proporcional, e por 13 círculos uninominais correspondentes aos
distritos administrativos do território nacional para a escolha de 13 membros
como representantes distritais (3). Dezasseis partidos políticos e dezassete can‑
(1)
Ver, Kelly Cristiane da Silva e Daniel Schroeter Simião, Timor‑Leste por
Trás do Palco: Cooperação Internacional e a Dialética da Formação do Estado (Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2007), 151‑ss.
(2)
Este processo contrapõe‑se a um processo constituinte direto, em que um órgão
é mandatado para elaborar o esboço da Constituição, o qual é posteriormente colocado
a referendo pela população. Para mais discussões sobre a escolha do procedimento para
a elaboração da Constituição timorense e as diferentes propostas, ver, Pedro Bacelar
Vasconcelos, ‘O Nascimento de Um Novo Estado: A Experiência Original de Timor’,
Janus Online, 2002, www.janusonline.pt/2002/2002_2_12.html. (consultado em 28
Julho 2014). No direito comparado lusófono, sobre o poder e processo constituinte
angolano, ver, Jónatas Machado, Paulo Nogueira da Costa, e Esteves Carlos Hilário,
Direito Constitucional Angolano, 2.ª edição (Coimbra: Coimbra Editora, 2013), 36‑43.
Ver, ainda, Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 65‑ss.
(3)
Artigos 3.º a 5.º do Regulamento UNTAET n.º 2001/2, de 26 de Fevereiro.
Sobre os diferentes sistemas eleitorais em geral, ver, entre muitos, Jorge Miranda,
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
111
didatos independentes participaram nesta eleição (4). Os 88 membros da Assem‑
bleia Constituinte foram eleitos dentre doze dos dezasseis partidos políticos,
sendo que vinte e quatro dos 88 membros eram mulheres (5). A formação da
Assembleia Constituinte, em 2001, representou, na verdade, a implementação
de um dos principais passos no processo transitório para a independência
nacional, elaborado pelo Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT)
em 2000. (6)
Para a elaboração da Constituição, a Assembleia Constituinte formou
quatro grupos temáticos: I) Comissão sobre Direitos, Deveres e Liberdades e
Defesa e Segurança Nacional; II) Comissão sobre a Organização do Poder
Político, III) Comissão sobre a Organização Económica, Social e Financeira, e
IV) Comissão sobre Princípios e Garantias Fundamentais, Alteração da Cons‑
tituição e Provisões Transitórias. O esboço da Constituição preparado pelos
grupos temáticos foi posteriormente sujeito a um processo finalizador imple‑
mentado pela Comissão de Sistematização e Harmonização da Assembleia
Constituinte.
Com a escolha de um procedimento constituinte indireto, uma ampla
participação da população no processo de elaboração do esboço da Constitui‑
Manual de Direito Constitucional, Tomo VII (Coimbra: Coimbra Editora, 2007), 208‑ss;
Jónatas Machado e Paulo Nogueira da Costa, Direito Constitucional Angolano (Coim‑
bra: Coimbra, 2011), 101‑ss.
(4)
Louis Aucoin and Michele Brandt, ‘East Timor Constitutional Passage to Indepen‑
dence’, in Framing the State in Times of Transition: Case Studies in Constitution Making, ed.
Laurel Miller (Washington D.C.: United States Institute of Peace Press, 2010), 257.
(5)
Estes foram a Frente Revolucionária de Timor‑Leste Independente (FRE‑
TLIN) com 55 eleitos, o Partido Democrático (PD) com 7 membros, o Partido Social
Democrata (PSD) e a Associação Social‑Democrata Timorense (ASDT) com 6 mem‑
bros cada, a União Democrática Timorense (UDT), o Partido Nacionalista Timorense
(PNT), o KliburOan Timor Asuwain (KOTA), o Partido do Povo de Timor (PPT), o
Partido Democrata Cristão (PDC) com 2 membros cada, e o Partido Socialista de
Timor (PST), o Partido Liberal (PL) e o Partido Democrata‑Cristão de Timor (PDCT)
com 1 membro cada, e 1 membro independente. A lista de membros da Assembleia
Constituinte, e seus respetivos partidos, consta em anexo à versão oficial da Consti‑
tuição da República Democrática de Timor‑Leste.
(6)
O calendário do processo da transição foi sujeito a críticas provenientes da
sociedade civil e outros atores, ver, por exemplo, Aucoin and Brandt, ‘East Timor
Constitutional Passage to Independence’.
Coimbra Editora ®
112
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ção era vista, por muitos segmentos da sociedade, como um verdadeiro critério
para uma real legitimação da futura Constituição. (7)
O enquadramento jurídico da participação pública neste processo cen‑
trava‑se na criação de uma Comissão Constitucional e no dever de a Assembleia
Constituinte tomar “em devida consideração os resultados das consultas reali‑
zadas por uma eventual Comissão Constitucional devidamente criada”. (8)
Foi submetida ao Conselho Nacional — o órgão político nacional de
consulta do Administrador Transitório da UNTAET — uma proposta para o
estabelecimento de uma Comissão Constitucional com um mandato para a
recolha da opinião da população e para o apoio de caráter técnico ao processo
de elaboração do esboço pela futura Assembleia Constituinte eleita, tendo um
prazo de seis meses, estes a decorrer anteriormente à formação da Assembleia
Constituinte. A criação de uma Comissão com as características contidas nesta
proposta possuía forte apoio na sociedade civil (9). A recolha de informação
junto da população, anterior à eleição constituinte, era vista pela sociedade civil
timorense como essencial à efetividade do processo, visto que a Assembleia
Constituinte dispunha de um prazo bastante curto de 90 dias para a elaboração
e aprovação da Constituição (10). A proposta para o estabelecimento desta
comissão acabou por ser rejeitada pelo Conselho Nacional. (11)
Com a rejeição desta proposta, havia ainda a necessidade de dar efeito
à norma legal que exigia a formação de um mecanismo de consulta. O Admi‑
nistrador Transitório criou treze comissões constitucionais, uma por cada
(7)
Cfr. Michele Brandt, Constitutional Assistance in Post‑Conflict Countries, The
UN Experience: Cambodia, East Timor & Afghanistan (United Nations Development
Programme, 2005), 9.
(8)
Artigo 2.º‑4 do Regulamento da UNTAET n.º 2001/2, de 26 de Fevereiro.
(9)
Ver, East Timor National NGO Forum, ‘Letter to Members of the Security
Council of the United Nations on the Timorese Constitutional Process’, 17 March
2001, http://members.tip.net.au/~wildwood/01marrushed.htm.(consultado em 28
Julho de 2014).
(10)
Artigo 2.º‑3 do Regulamento da UNTAET n.º 2001/2, de 26 de Fevereiro.
(11)
Ver, UNTAET, ‘East Timor Votes against Consultative Process Leading to
Constitution’, UNTAET Press Release, 27 March 2001, http://www.un.org/en/peaceke‑
eping/missions/past/etimor/news/01mar27.htm. (consultado em 28 de Julho de 2014).
A não‑aprovação desta proposta gerou algum descontentamento por altas figuras polí‑
ticas (Cfr. Brandt, Constitutional Assistance in Post‑Conflict Countries, The UN Expe‑
rience: Cambodia, East Timor & Afghanistan, 14.).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
113
distrito, compostas inteiramente por timorenses assessorados por peritos
nacionais e internacionais (12). Estas comissões constitucionais ficaram
incumbidas da recolha das opiniões da população sobre as questões essen‑
ciais a serem acauteladas pela futura Constituição, da elaboração e apre‑
sentação de relatórios escritos não vinculantes ao Administrador Transitó‑
rio e à Assembleia Constituinte. Apesar de ter alcançado um número
considerável de Timorenses (aproximadamente 38 000 indivíduos), este
processo de consulta não contou com o apoio da sociedade civil timorense,
a qual optou por realizar o seu próprio processo de consulta (13). Há relatos
de que a Assembleia Constituinte não utilizou substancialmente os rela‑
tórios submetidos pelas comissões constitucionais no processo de elabora‑
ção do esboço da Constituição. (14)
A Assembleia Constituinte iniciou os seus trabalhos em 15 de Setembro
de 2001, que culminaram com a aprovação e assinatura do texto final da
Constituição da República Democrática de Timor‑Leste, em 22 de Março de
2002 (15). Em Novembro de 2001, as quatro comissões temáticas haviam fina‑
lizado o seu trabalho, tendo‑se, então, procedido, em Dezembro de 2001, à
submissão do texto do esboço final pela Comissão de Sistematização e Harmo‑
nização ao plenário da Assembleia Constituinte. (16)
(12)
As Comissões Constitucionais, compostas dentre 5 a 7 membros, foram
estabelecidas através da Diretiva da UNTAET n.º 3/2001, de 31 de Março.
(13)
Cfr. East Timor National NGO Forum, ‘Letter to UNTAET Declining the
Participation of NGO Forum in the Work of the Constitutional Commissions’, de Abril
de 2001, http://etan.org/et2001b/may/13‑19/14ngo.htm. (consultado em 28 de Julho
de 2014). Ver, também, Aucoin and Brandt, ‘East Timor Constitutional Passage to
Independence’, 245‑275.
(14)
Ver Randall Garrison, The Role of Constitution‑Building Processes in Demo‑
cratization: Case Study East Timor (Stockholm, Sweden: International Institute for
Democracy and Electoral Assistance, 2005), 19‑20.
(15)
Em Novembro de 2001, a Assembleia Constituinte decidiu estender por um
prazo adicional de 3 meses o processo para a aprovação da Constituição. Sobre os
desafios encarados pela Assembleia Constituinte na realização do seu mandato, vide,
Brandt, Constitutional Assistance in Post‑Conflict Countries, The UN Experience: Cam‑
bodia, East Timor & Afghanistan, 16.
(16)
Comissão de Sistematização e Harmonização e Assembleia Constituinte,
Esboço da Constituição da República Democrática de Timor‑Leste, 2001, http://www.
etan.org/etanpdf/pdf2/draftconpt.pdf. (consultado em 28 de Julho de 2014).
Coimbra Editora ®
114
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Setores da sociedade civil e da comunidade internacional submeteram
opiniões sobre o esboço da Constituição à análise da Comissão de Sistemati‑
zação e Harmonização. Esta incorporou, no seu relatório para o plenário da
Assembleia Constituinte, 21 das 45 sugestões de alterações recebidas. Com
menos de metade das sugestões aceites por este órgão, críticas adicionais foram
feitas apontando para a realização de um processo constituinte insuficientemente
inclusivo (17). Um processo limitado de consulta foi ainda realizado pela própria
Assembleia Constituinte, cujos membros se deslocaram, em Fevereiro de 2002,
aos distritos para uma consulta de duração de uma semana (18), um período
verdadeiramente breve e realizado nos últimos momentos do processo de ela‑
boração quando o esboço final já estava praticamente concluído.
A votação final da Constituição ocorreu em 22 de Março de 2002, com
72 votos a favor, 14 contra e 1 abstenção (19). Como previsto no seu artigo 170.º,
a Constituição entrou em vigor no dia 20 de Maio de 2002.
Como já mencionado, as principais críticas de índole procedimental reca‑
íram sobre o curto prazo para a elaboração da Constituição e também sobre a
falta de um processo que garantisse a real e efetiva participação da sociedade.
No âmbito substantivo, note‑se que o esboço da Constituição sujeito a debate
na Assembleia Constituinte foi aquele apresentado pelo partido maioritário,
tendo sido moldado com inspiração nas constituições portuguesa e moçambi‑
(17)
Ibid. Ver, também, The Carter Center, East Timor Political and Electoral Obser‑
vation Project, Final Project Report, April 2004, 42‑44. Das 21 sugestões de alteração
incorporadas pela Comissão de Sistematização e Harmonização, somente 4 foram aprova‑
das pela Assembleia Constituinte durante o processo de adoção dos diferentes artigos entre
Dezembro 2001 e Fevereiro de 2002, disponível em linha no http://www.un.org/en/pea‑
cekeeping/missions/past/etimor/DB/db220302.htm, consultado em 28 de Julho de 2014).
(18)
Cfr. ‘Constituent Assembly Consultation Schedule Revised’, Constituent
Assembly Press Release, http://www.etan.org/et2002a/february/10‑16/12const.htm.,
consultado em 28 de Julho de 2014. Os partidos minoritários viram uma proposta
para um período de consulta de um mês ser rejeitada pela Assembleia (cfr. Alipio
Baltazar, “An overview of the Constitution drafting process in East Timor,” East Timor
Law Journal 9 (2004), http://www.eastimorlawjournal.org/ARTICLES/2004/constitu‑
tion_drafting_process_east_timor_alipio_baltazar.html. Ver, ainda, The Carter Center,
East Timor Political and Electoral Observation Project, Final Project Report, 42‑44.
(19)
‘East Timor Assembly Signs into Force First Constitution’, UNTAET Press
Release, disponível em linha no http://www.un.org/en/peacekeeping/missions/past/
etimor/DB/db220302.htm, consultado em 28 de Julho de 2014).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
115
cana. Os principais pontos de debate no processo de elaboração da Lei Fun‑
damental timorense recaíram em torno de aspetos sociais e histórico‑culturais,
como o idioma (20), os símbolos e datas nacionais, assim como questões rela‑
tivas ao direito à nacionalidade (21). A transformação da Assembleia Constituinte
no primeiro Parlamento de Timor‑Leste independente representou também
um assunto veementemente discutido. (22)
A determinação da titularidade dos direitos fundamentais dos nacionais
e estrangeiros foi uma matéria debatida durante este processo. Observa‑se que
algumas mudanças foram feitas a certas normas constitucionais previstas no
esboço, assegurando a titularidade universal de certas garantias fundamentais,
tal como previstas no ordenamento jurídico internacional (23). Outras questões
sujeitas a debates intensos e que acabaram por ser excluídas do texto final da
Constituição de 2002, incluem a separação da Igreja e do Estado (24) e a proi‑
bição de discriminação com base na orientação sexual. (25)
A posição do CNRT e, posteriormente, da FRETILIN era a consideração do
tétum e do português como línguas oficiais. No processo de elaboração da Constituição
foi chamada a atenção para a falta de familiaridade com o Português pela população mais
jovem. Como resultado deste e outros fatores relevantes à data, foi incluída na CRDTL
uma norma de caráter transitório que prevê a possibilidade do uso dos idiomas Indoné‑
sio e Inglês como idiomas de trabalho até ser necessário (artigo 159.º).
(21)
O esboço de Dezembro de 2001 estipulava a possibilidade de os Timorenses
terem uma única nacionalidade (artigo 3.º‑3 do Esboço da CRDTL — disponível em
linha http://www.etan.org/et2001c/november/25‑30/29draft.htm, consultado em 28
de Julho de 2014).
(22)
Cfr. Joyo Indonesian News, ‘East Timor Constituent Assembly to Be 1st
National Parliament’, Joyo Indonesian News, http://www.etan.org/et2002a/
january/27‑31/31etcons.htm. (consultado em 28 de Julho de 2014).
(23)
Hilary Charlesworth, ‘The Constitution of East Timor, May 20, 2002’,
International Journal of Constitutional Law 1, no. 2 (1 April 2003): 331‑ss. Para uma
reflexão sobre o princípio da igualdade, vide, Capítulo V, 1. Introdução ao Princípio
da Igualdade e ao Princípio da Proibição da Discriminação.
(24)
Este artigo foi um dos que sofreu maiores mudanças depois do esboço de
Dezembro de 2001 da Comissão de Harmonização e Sistematização. Ver artigo 12.º
no esboço da Constituição (Comissão de Sistematização e Harmonização e Assembleia
Constituinte, Esboço Da Constituição Da República Democrática de Timor‑Leste, 2001,
http://www.etan.org/etanpdf/pdf2/draftconpt.pdf..
(25)
As diferenças que podem ser observadas em relação às categorias proibidas
quando comparando a redação do princípio da não‑discriminação no esboço e aquela
(20)
Coimbra Editora ®
116
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
No processo de elaboração da Constituição nacional foi observado que
várias organizações e instituições internacionais submeteram comentários espe‑
cialmente dirigidos às normas dos direitos fundamentais no esboço da Cons‑
tituição (26). Esta realidade parece, em certa medida, ter influenciado a redação
de alguns dos preceitos de direitos fundamentais na CRDTL, resultando numa
maior aproximação destes com as normas contidas nos instrumentos de direito
internacional dos direitos humanos.
Apesar de a Constituição de 2002 ter tido como modelo as constituições
portuguesa e moçambicana e de ter recebido contribuições externas como a
exemplificada acima, a Constituição da República Democrática de Timor‑Leste
incorpora muitos aspetos peculiares do contexto nacional. De entre as diversas
provisões que refletem a realidade específica de Timor‑Leste, podemos destacar
especificamente aquelas relacionadas com os jovens (artigo 19.º), a valorização
da resistência (artigo 11.º), o papel das confissões religiosas na história nacional
(artigo 12.º), o apoio do Estado a cooperativas de produção e às empresas
familiares (artigo 50.º‑5) e os recursos naturais (artigo 139.º).
2. Visão Geral da Constituição da República Democrá‑
tica de Timor‑Leste
Uma visão geral da Constituição da República Democrática de Timor‑Leste
mostra‑se de grande utilidade para uma melhor aplicação das normas dos direitos
fundamentais, permitindo, assim, compreender a forma como estes se integram no
ordenamento constitucional. Através de uma análise teórico‑prática, esta secção con‑
sidera a estrutura da Constituição e alguns dos seus principais aspetos identificadores.
De forma introdutória, vale a pena ressaltar que a principal característica
de uma Constituição é a constitucionalização de um Estado de direito e demo‑
crático baseado nos direitos fundamentais. (27)
contida na versão final da CRDTL incluem: a não inclusão do termo “orientação
sexual”, e a adição das categorias de “estado civil” e “língua”. Ver, ainda, ‘Sexual Orien‑
tation Clause Removed From Constitution’, Lusa, 14 December 2001, http://www.
etan.org/et2001c/december/09‑15/14sexual.htm. (consultado em 28 de Julho de 2014).
Vide Capítulo V, 2.1.2 O Princípio da Proibição da Discriminação.
(26)
Cfr., Brandt, Constitutional Assistance in Post‑Conflict Countries, The UN
Experience: Cambodia, East Timor & Afghanistan, 25.
(27)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 92‑ss.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
117
Algumas das principais características da Constituição timorense incluem:
um amplo catálogo de princípios fundamentais, um regime de direitos funda‑
mentais, um sistema semipresidencialista de governo, um conjunto de normas
que consagram as competências dos diferentes órgãos de soberania e uma
organização judiciária de duas instâncias judiciais e eventuais tribunais espe‑
cializados. Encontram‑se também previstos na lei fundamental procedimentos
que visam garantir o respeito pela Constituição, servindo como verdadeiros
instrumentos práticos para assegurar a supremacia constitucional.
2.1 Estrutura da Constituição
A Constituição timorense é composta por um total de 170 artigos, repre‑
sentando um pouco mais que a metade do número de artigos previstos na
Constituição moçambicana (306 artigos) e portuguesa (296 artigos) (28). A Lei
Fundamental timorense é dividida em sete partes, afigurando‑se a segunda e
terceira partes — Parte II com a designação Direitos, Deveres, Liberdades e
Garantias Fundamentais e Parte III com o título Organização do Poder Polí‑
tico — como o verdadeiro corpo das normas constitucionais.
Em virtude da realidade histórica timorense e do facto de a Constituição
de 2002 representar a primeira constituição de Timor‑Leste, a Constituição
possui uma última parte que trata de disposições transitórias específicas. São
doze provisões de caráter transitório (artigo 158.º ao 169.º (29)) e a maior parte
delas relaciona‑se com o ordenamento jurídico e judicial. Apesar de, presente‑
mente, uma década após a adoção da Constituição, a maior parte destas normas
não se afigurar de grande relevância, elas representaram um aspeto fundamen‑
tal no processo de restauração da independência em 2002, criando as condições
para um afastamento gradual do sistema indonésio aplicado de facto anterior‑
mente, e solidificando o caminho para uma transição entre a administração
transitória das Nações Unidas e o Timor‑Leste independente.
Em relação ao número total de artigos, a CRDTL é a terceira mais breve
constituição dos países da CPLP, com a Constituição guineense possuindo 133 artigos
e a saotomense 160 artigos. Entre as mesmas, a mais longa constituição é a de Moçam‑
bique com 306 artigos, seguida da de Portugal com 296, a de Cabo Verde com 295
artigos, e a de Angola com um total de 244 artigos.
(29)
O último artigo da Constituição, o artigo 170.º, é de caráter final, estipu‑
lando a data de entrada em vigor da Constituição.
(28)
Coimbra Editora ®
118
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
2.2 Princípios Fundamentais
Os princípios fundamentais representam, como a sua própria denomina‑
ção indica, os princípios basilares da Constituição.
Gomes Canotilho e Vital Moreira consideram que os “princípios funda‑
mentais visam essencialmente definir e caracterizar a coletividade política e o
Estado e enumerar as principais opções políticas constitucionais” (30). Estes
representam a “síntese ou matriz de todas as restantes normas constitucionais,
que àquelas podem ser direta ou indiretamente reconduzidas”. (31)
Os princípios fundamentais exercem três funções principais: sistematização,
interpretação e integração normativa. Primeiramente, estes princípios desem‑
penham a função de garantir a sistematização da Constituição, tendo um papel
ordenador e assegurando, assim, à Constituição um caráter sistemático. Num
segundo plano, os princípios fundamentais operam como critério de interpre‑
tação. Finalmente, em terceiro lugar, os princípios fundamentais constitucionais
representam um instrumento de integração normativa, com um impacto em
todo o universo jurídico, devendo estar presentes quando da aplicação das
outras normas constitucionais. (32)
Um exemplo da função normativa dos princípios fundamentais constitu‑
cionais pode ser ilustrado pelo acórdão do Tribunal de Recurso de Timor‑Leste
de 14 de Junho de 2010 (Proc. 24/CO/10/TR), segundo o qual:
“O CPI [Código Penal da Indonésia] não contém disposições semelhantes
[às do novo Código Penal Timorense de 2009] que fixem princípios orienta‑
dores da determinação da medida concreta da pena. Porém, devem entender‑se
aplicáveis princípios semelhantes em obediência ao princípio do respeito pela
dignidade da pessoa humana, vertido no art.º 1, n.º 2, da Constituição de
Timor‑Leste”. (33)
J.J. Gomes Gomes Canotilho e Vital Moreira, Fundamentos Da Constituição
(Coimbra: Coimbra Editora, 1991), 71.
(31)
Ibid.
(32)
Ver Jorge Miranda, Manual de Direito Constitucional, 6.ª edição, Tomo II
(Coimbra: Coimbra Editora, 2007), 261‑ss. Ainda, nas palavras do constitucionalista
brasileiro Celso Ribeiro Bastos, os princípios fundamentais têm como a principal função
“espraiar os seus valores, pulverizá‑los sobre todo o mundo jurídico” (Celso Ribeiro
Bastos, Curso de Direito Constitucional, 20.ª edição (Edição Saraiva, 1999), 154.)
(33)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 14 de Junho de 2010, Proc. 24/CO/
/10/TR, 85 (Tribunal de Recurso 2010), 85‑86.
(30)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
119
Na Constituição timorense, encontramos 15 artigos que compõem a
Parte I dos princípios fundamentais. Fazendo uso da sistematização apresentada
por Jorge Miranda, os princípios fundamentais contidos na CRDTL podem
ser categorizados da seguinte forma (34):
— Princípios relativos à existência do Estado: artigo 1.º‑1 (A República)
— Princípios relativos à organização política e social: artigo 1.º‑1 (A República),
artigo 2.º‑1 (Soberania e constitucionalidade), artigo 6.º (Objetivos do
Estado), artigo 7.º (Sufrágio universal e multipartidarismo) e o
artigo 11.º‑1 e 2 (Valorização da resistência)
— Princípios relativos à subordinação do Estado ao Direito: artigo 1.º (A
República), artigo 2.º‑2, 3 e 4 (Soberania e constitucionalidade),
artigo 6.º/b (Objetivos do Estado) e artigo 7.º‑1 (Sufrágio universal
e multipartidarismo)
— Princípios relativos à forma do Estado: artigo 5.º‑2 e 3 (Descentralização)
— Princípios relativos à comunidade internacional: artigo 8.º (Relações
internacionais), artigo 9.º (Receção do direito internacional) e
artigo 6.º/h (Objetivos do Estado)
— Princípios de base: artigo 1.º (A República), artigo 2.º (Soberania e
constitucionalidade), artigo 5.º (Descentralização), artigo 7.º (Sufrá‑
gio universal e multipartidarismo), artigo 8.º‑1 (Relações internacio‑
nais), artigo 9.º (Receção do direito internacional) e artigo 10.º‑1
(Solidariedade)
— Princípios de finalidade: artigo 6.º (Objetivos do Estado)
— Princípios precetivos: artigo 1.º (A República), artigo 2.º (Soberania e
constitucionalidade), 6.º/a, b, c, d e j (Objetivos do Estado), artigo 7.º
(Sufrágio universal e multipartidarismo), artigo 8.º‑1 (Relações inter‑
nacionais), artigo 9.º (Receção do direito internacional), artigo 10.º‑2
(Solidariedade) e artigo 12.º‑1 (O Estado e as confissões religiosas)
— Princípios programáticos: artigo 1.º (A República), artigo 5.º‑1 (Descen‑
tralização), artigo 6.º/c, e, f, g, i e j (Objetivos do Estado), artigo 8.º‑2,
3 e 4 (Relações internacionais), artigo 11.º‑3 (Valorização da resistência),
Para a categorização de Jorge Miranda, ver, Miranda, Manual de Direito
Constitucional, 2007, Tomo II:273‑274. Outros autores da doutrina portuguesa também
apresentam categorizações dos princípios fundamentais, como, por exemplo, Gomes
Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 243‑ss.
(34)
Coimbra Editora ®
120
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
artigo 12.º‑2 (O Estado e as confissões religiosas) e artigo 13.º‑2 (Lín‑
guas oficiais e línguas nacionais)
Da classificação proposta aqui, pode observar‑se a existência de princípios
fundamentais bastante peculiares à realidade timorense, incluindo os princípios
relativos à resistência nacional, os princípios relativos ao papel das confissões
religiosas na história nacional e o princípio da efetiva igualdade entre mulheres
e homens. (35)
Dentre os princípios fundamentais da Constituição, de relevância signifi‑
cativa para a interpretação e integração dos direitos fundamentais, encontramos
o objetivo geral do Estado de garantir e promover os direitos fundamentais
(artigo 6.º/b), a criação, promoção e garantia da efetiva igualdade entre a mulher
e o homem (artigo 6.º/j), o sufrágio universal, livre, igual, direto, secreto e
periódico (artigo 7.º‑1) e a dignidade da pessoa humana (artigo1.º‑1). Encon‑
tra‑se ainda como um dos princípios fundamentais a receção do direito inter‑
nacional no ordenamento jurídico interno. (36)
Um princípio particularmente relevante para o sistema dos direitos fun‑
damentais é o princípio da supremacia constitucional (artigo 2.º‑2 e 3). Estes
artigos preveem respetivamente que “[o] Estado subordina‑se à Constituição e
às leis” e “[a]s leis e os demais atos do Estado e do poder local só são válidos
se forem conformes com a Constituição”.
A supremacia constitucional mostra‑se como a raiz normativa para a
proteção dos direitos fundamentais. Ao posicionar a Constituição como a lei
suprema da República Democrática de Timor‑Leste, este princípio estabelece
o substrato para os mecanismos de controlo da constitucionalidade e legalidade
das normas e dos atos. Sendo a Constituição a lei suprema de Timor‑Leste e
estando os direitos fundamentais consagrados no seu texto, o sistema de direi‑
tos fundamentais goza de uma força jurídica suprema.
O Tribunal de Recurso, ao exercer a sua competência como Supremo Tri‑
bunal de Justiça, dispôs que da supremacia constitucional prevista no artigo 2.º‑2
decorre “claramente, que a constituição constitui a lei fundamental do Estado de
Vale a pena ressaltar que o uso do adjetivo “efetiva” para qualificar a igualdade
de oportunidade entre mulheres e homens é bastante significativo (artigo 6.º/j). Vide
Capítulo V, 2.1 O Princípio da Igualdade e o Princípio da Proibição da Discriminação
na Constituição de 2002.
(36)
Vide Capítulo I, 4. Relação entre o Direito Interno e o Direito Internacional.
(35)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
121
Direito Democrático onde se fundam as linhas reitoras do ordenamento [sic]
esadual, assumindo‑se como seu fundamento de validade e como limite ao exer‑
cício dos poderes por ela constituídos. Assim, tanto os órgãos de poder, como os
actos que estes produzem estão subordinados à legalidade [sic] cosntitucional o
que traduz a afirmação do princípio da constitucionalidade dirigido aos actos
jurídico‑públicos”. (37)
O princípio de Estado de Direito pervisto no artigo 1.º‑1 da Constituição
é igualmente muito importante para a Constituição, na sua globalidade, e
também para o sistema de direitos fundamentais (38). Este é um princípio
“conglobador e integrador de um amplo conjunto de regras e princípios dis‑
persos pelo texto constitucional, que densificam a ideia de sujeição do poder a
princípios e regras jurídicas, garantindo aos [indivíduos] liberdade, igualdade e
segurança” (39). O princípio do Estado de Direito desdobra‑se no princípio da
legalidade da Administração, no princípio da segurança jurídica e da protecção
da confiança dos cidadãos, no princípio da proporcionalidade em sentido amplo
e no princípio da protecção jurídica e das garantias processuais.
Para além dos princípios fundamentais constitucionais, são previstos outros
princípios em diferentes partes da Lei Fundamental, nomeadamente, os prin‑
cípios gerais dos direitos, deveres, liberdades e garantias fundamentais (arti‑
gos 16.º ao 28.º), os princípios gerais da organização do poder político (arti‑
gos 62.º ao 73.º), princípios gerais da administração pública (artigo 137.º) e
os princípios gerais da organização económica e financeira (artigos 138.º ao
141.º). Apesar de todos os princípios previstos na Lei Fundamental possuírem
a mesma natureza e exercerem funções semelhantes, o alcance deles é, clara‑
mente, diferente. Enquanto os princípios fundamentais têm um alcance que
se estende a toda a Constituição, os outros princípios possuem alcances pon‑
Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto de 2008 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva da Constitucionalidade), Proc.02/2008/TR, 6 (Tribunal de Recurso 2008), 6.
Existe uma densa literatura sobre a base teórica e prática da supremacia constitucional
como um princípio fundamental constitucional. Entre muitos Jorge Bacelar Gouveia,
Manual de Direito Constitucional, vol. I (Coimbra: Almedina, 2005), 589‑ss.
(38)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):202‑212; Jorge Miranda e Rui Medeiros, Constituição
Portuguesa Anotada, Tomo I (Coimbra: Coimbra Editora, 2005), 93‑115; Machado e
Costa, Direito Constitucional Angolano, 2011, 75‑127.
(39)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):205.
(37)
Coimbra Editora ®
122
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
tuais, sendo a sua influência de sistematização, interpretação e integração
normativa relacionada somente com a parte da constituição à qual pertencem.
2.3 Regime dos Direitos Fundamentais
Paralelamente ao reconhecimento de uma série de categorias de direitos fun‑
damentais, de natureza civil, política, económica, social e cultural, a Constituição
timorense contém preceitos que estabelecem um verdadeiro sistema dos direitos
fundamentais. Através destes preceitos, prescritos no próprio texto constitucional,
são estabelecidas regras para guiar a concretização dos direitos fundamentais.
No texto da Constituição, encontram‑se expressamente previstos cinco
aspetos delineadores do sistema dos direitos fundamentais: a abertura aos direitos
só materialmente fundamentais (artigo 23.º), o recurso à Declaração Universal
dos Direitos Humanos enquanto critério orientador na interpretação dos direitos
fundamentais (artigo 23.º), o regime relativo às restrições dos direitos, liberdades
e garantias (artigo 24.º), os requisitos para a suspensão dos direitos fundamentais
em Estado de exceção (artigo 25.º) e o acesso a mecanismos jurisdicionais e não
jurisdicionais para lidar com ameaças e violações ao direito (artigos 26.º e 27.º).
A estas normas constitucionais são adicionados certos aspetos jurí‑
dico‑constitucionais enraizados na própria natureza do direito constitucional
em geral, e especificamente dos direitos fundamentais, como as questões para
a eficácia dos direitos económicos, sociais e culturais e a vinculação de parti‑
culares aos direitos fundamentais. O resultado é a adoção de um sistema atento
às especificidades dos direitos fundamentais e suficientemente completo para
guiar a sua realização em Timor‑Leste.
É no Capítulo seguinte deste livro que abordaremos as principais carac‑
terísticas deste sistema.
2.4 Organização do Poder Político e Sistema de Governo
Uma compreensão da organização do poder político requer uma explana‑
ção, ainda que de caráter introdutório e resumido, do princípio da separação
de poderes, como um princípio organizatório estrutural dos poderes políticos.
2.4.1 Separação e Interdependência de poderes
À semelhança de outros Estados enraizados num Estado de Direito
democrático constitucional, a Constituição timorense prevê no seu artigo 69.º
a separação de poderes. Ao estipular, neste mesmo artigo, o respeito pela
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
123
interdependência dos poderes, a Constituição nacional incorpora o sistema
de pesos e contrapesos (“checks and balances”), historicamente conceptualizado
por Montesquieu (40). A separação de poderes é ainda reafirmada no preâm‑
bulo da Lei Fundamental. Além disso, a separação de poderes representa um
limite material da revisão (artigo 156.º‑1/d).
Importa salientar que a separação de poderes prevista na Constituição
timorense possui uma dimensão institucional, com o estabelecimento de qua‑
tro órgãos de soberania distintos, e uma dimensão funcional, representada pela
consagração dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Note‑se, ainda, que
a separação de poderes é de uma natureza horizontal em relação aos órgãos e
às suas funções. Como diz Gomes Canotilho, esta repartição horizontal de
poderes refere‑se “à diferenciação funcional (legislação, execução e jurisdição),
à delimitação institucional de competências e às relações de controlo e inter‑
dependência recíproca entre os vários órgãos de soberania”. (41)
São reconhecidos quatro órgãos de soberania na Constituição de 2002: o
Presidente da República, o Parlamento Nacional, o Governo e os Tribunais
(artigo 67.º). Estes órgãos partilham as três principais funções estatais, com
visíveis áreas de sobreposição (42). Essencialmente, em Timor‑Leste, a Constitui‑
Cfr. Montesquieu, O Espírito Das Leis, 9.ª Ed (Saraiva, 2008). Para uma
discussão teórica sobre o princípio da separação e interdependência dos poderes na
Constituição portuguesa vide Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da
Constituição, 555‑ss.
(41)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 556. Por
competência entende‑se “o poder de acção e de actuação atribuído aos vários órgãos e
agentes constitucionais com o fim de prosseguirem as tarefas de que são constitucio‑
nalmente ou legalmente incumbidos. A competência envolve, por conseguinte, a
atribuição de determinadas tarefas bem como os meios de acção (“poderes”) necessários
para a sua prossecução. Além disso, a competência delimita o quadro jurídico de actua­
ção de uma unidade organizatória relativamente a outras.” (Ibid., 543.). O Tribunal
de Recurso, utilizando os ensinamentos de Vital Moreira e Gomes Canotilho, já se
debruçou sobre o sentido da competência dos órgãos de soberania, refletindo inclusi‑
vamente sobre a multidimensionalidade das competências, o seu padrão jurídico
organizatório, a sua natureza modal‑instrumental, entre outros aspetos. Tribunal de
Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata Sucessiva de Cons‑
titucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 25‑26 (2009).
(42)
As competências do Presidente da República estão previstas nos artigos 85.º
ao 89.º; do Parlamento Nacional nos artigos 95.º ao 98.º; sendo as competências do
Governo estipuladas nos artigos 115.º ao 117.º, e a função jurisdicional dos tribunais
(40)
Coimbra Editora ®
124
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ção atribui a função legislativa ao Parlamento Nacional e ao Governo, a execu‑
tiva ao Presidente da República e ao Governo e a jurisdicional aos tribunais.
Na prática, como já explicado pelo Tribunal de Recurso, o princípio da
separação de poderes é violado quando a “um órgão de soberania se atribua,
fora dos casos em que a constituição expressamente o permite ou impõe, com‑
petência para o exercício de funções que essencialmente são conferidas a outro
e diferente órgão”. (43)
Exemplos da realidade constitucional de Timor‑Leste ajudam a ilustrar a
separação e a interdependência das três funções entre os quatro órgãos de sobe‑
rania. Em relação à função legislativa, por exemplo, o Governo possui a com‑
petência de propor leis ao Parlamento Nacional (artigo 115.º‑2/a), a promul‑
gação do diploma deve ser feita pelo Presidente da República (artigo 85.º/a) e
ao Supremo Tribunal de Justiça pode ser requerida uma apreciação da consti‑
tucionalidade, através dos processos de fiscalização da constitucionalidade de
normas ordinárias. No que respeita à função jurisdicional, o princípio da sepa‑
ração e interdependência dos poderes pode ser elucidado pela nomeação do
Presidente do Supremo Tribunal de Justiça pelo Presidente da República
(artigo 86.º/j) e a necessidade de elaboração de leis pelo Parlamento Nacional
sobre a constituição, organização e o funcionamento dos tribunais (artigo 123.º‑4).
2.4.2 Sistema Misto Parlamentar‑Presidencial
Diretamente relacionado com a separação de poderes, como princípio
fundamental da organização política em Timor‑Leste, encontramos o sistema
de Governo. A CRDTL não indica expressamente qual o sistema de governo,
pelo que teremos de proceder a uma análise conjunta de várias normas cons‑
titucionais para podermos identificar qual o sistema consagrado. De uma forma
simplista, poderá dizer‑se que a Constituição timorense prevê a existência de
previstas no artigo 118.º. Vale a pena notar a observação feita por Gomes Canotilho
ao considerar que “quando se fala de ‘repartição’ ou ‘separação’ de poderes o que, em
rigor, se recorta em termos de ‘repartição’ e ‘separação’ é a actividade do Estado e não
o poder do Estado. O resultado desta divisão não é a existência de vários ‘poderes’, mas
a existência de funções diferenciadas.” (Gomes Canotilho, Direito Constitucional E
Teoria Da Constituição, 551.)
(43)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR, 40 (2008).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
125
um Presidente da República e de um Governo enquanto órgãos autónomos
que partilham o poder executivo entre ambos, prevê também a responsabilidade
do Parlamento perante o Presidente e a atribuição ao Presidente da República
de diversos poderes de direcção política, estabelecendo desta forma um sistema
misto parlamentar‑presidencial, comummente reconhecido e designado em
Timor‑Leste como um sistema semipresidencialista. (44)
Sobre o sistema político em Timor‑Leste, em 2010, o Tribunal de Recurso
considerou o seguinte, numa opinião no âmbito de um processo de fiscalização
preventiva:
“Efetivamente, num sistema constitucional de governo semipresidencial,
como é claramente o adoptado por Timor‑Leste, o Presidente da República
também tem funções executivas (…). Como se sabe, as constituições moder‑
nas instituem o princípio da separação de poderes, mas, simultaneamente,
consagram a interdependência dos poderes do Estado. No caso das consti‑
tuições que consagram um regime semipresidencialista, os poderes do Presi‑
dente da República podem variar desde uma maior aproximação ao modelo
presidencial (como por exemplo em França), a um modelo mais próximo do
modelo parlamentar (como será o caso na nossa Constituição). Porém, sem‑
pre o Presidente da República tem poderes de ‘ingerência’ na área executiva,
tendo mesmo alguns poderes próprios do executivo em exclusividade”. (45)
A conceptualização do sistema semipresidencialista foi sendo feita a partir
de uma análise comparativa dos sistemas clássicos (sistema presidencialista e
(44)
Na doutrina portuguesa, divergia‑se quanto à designação da forma de
governo. Oscilava‑se entre os termos "semipresidencialista" (Jorge Miranda) e "governo
misto parlamentar‑presidencial" (Gomes Canotilho e Vital Moreira), debate em que
não entraremos. Para um maior aprofundamento sobre esta questão, ver Gomes Cano‑
tilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 597‑615; Gouveia, Manual de
Direito Constitucional, 2005, II:1187‑ss; Jorge Miranda, Manual de Direito Constitu‑
cional, Tomo I (Coimbra: Coimbra Editora, 2009), 356‑ss.
(45)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 14 de Junho de 2010, Proc. 24/CO/
/10/TR, 81 (Tribunal de Recurso 2010), 81. Ressalta‑se que neste acórdão o Tribunal
de Recurso optou pelo termo “semipresidencialismo”. Ver também Constituição Ano‑
tada (Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Constituição
Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste (Braga, Portugal: Direitos Humanos
— Centro de Investigação Interdisciplinar, 2011), 308.
Coimbra Editora ®
126
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
parlamentar), em que o sistema semipresidencial se encontra a meio caminho
entre estes sistemas opostos, oscilando entre os dois regimes clássicos (46). Nesta
perspetiva, o semipresidencialismo difere do parlamentarismo por possuir um
chefe de Estado com atribuições para além de uma figura protocolar ou de
mediador político e, ao mesmo tempo, distingue‑se do regime presidencialista
pelo facto de o governo ser responsável perante o Parlamento. Na conceção
tradicional de Duverger, o regime semipresidencialista combina três elementos
principais: 1) um Presidente da República eleito diretamente por sufrágio uni‑
versal; 2) um Presidente da República dotado de poderes de relevo substancial;
e 3) um Primeiro‑ministro e um Governo com poderes executivos e responsáveis
perante o Parlamento (47). Os sistemas semipresidencialistas não são homogéneos
e podemos encontrar regimes marcadamente mais próximos do regime presi‑
dencialista (como é o caso de São Tomé e Príncipe e Moçambique), e outros
com uma maior imediação ao regime parlamentar (48). De certa maneira, um
sistema misto surgiu como uma alternativa que procurava reunir as principais
qualidades dos sistemas puros parlamentar e presidencial e, ao mesmo tempo,
excluir as suas características negativas. Com isto, alguns argumentam que um
sistema misto mostra ser o sistema mais adequado para países de democratização
mais recente, ainda afetados por instabilidades políticas sucessivas e que ainda
não completaram na íntegra o amadurecimento das suas instituições, como seria
o caso de Timor‑Leste (49). Por outro lado, existe também a posição de que o
(46)
Cfr. Maurice Duverger, O Regime Semipresidencialista (Editora Sumaré, 1993).
A bibliografia é abundante sobre este tema. Entre muitos, ver, para uma discussão e
crítica da conceptualização de Duverger, Manuel Lucena, ‘Semipresidencialismo: Teoria
Geral E Práticas Portuguesas (I)’, Análise Social XXXI, no. 128 (1996): 831‑892.
(47)
Cfr. Maurice Duverger, ‘A New Political System Model: Semi‑Presidential
Government’, European Journal of Political Research 8, no. 2 (1 June 1980): 165‑187.
(48)
Representando as “oscilações” do sistema semipresidencialista (ou regime
misto parlamentar presidencial), Gomes Canotilho propõe 5 modelos principais do
trialismo entre o Presidente da República, o Primeiro‑ministro e o Parlamento/Assem‑
bleia da República, determinados pela ordem constitucional e realidade político‑par‑
tidária: trialismo horizontal, trialismo vertical com supremacia presidencial, trialismo
governamental, trialismo parlamentar e monismo presidencial maioritário (ver Gomes
Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 608‑609.)
(49)
Em geral, ver Sophia Moestrup, ‘Semi‑Presidencialism in Young Democracies:
Help or Hindrance?’, in Semi‑Presidentialism Outside Europe: A Comparative Study, ed.
Robert Elgie and Sophia Moestrup (Taylor & Francis, 2007). Especificamente sobre
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
127
sistema misto traz dificuldades para manter uma estabilidade política por causa
da divisão do poder executivo entre duas instituições. (50)
O diagrama a seguir, sendo uma adaptação do diagrama elaborado por
Gomes Canotilho sobre a forma de governo mista parlamentar‑presidencial
portuguesa (51), mostra as principais características da forma de governo timo‑
rense, identificando, ainda, os principais elementos da separação e interdepen‑
dência dos poderes.
Timor‑Leste, ver, Pedro Bacelar Vasconcelos e Ricardo Sousa da Cunha, ‘Semipresidencia‑
lismo Em Timor: Um Equilíbrio Institucional Dinâmico Num Contexto Crítico’, in O
Semipresidencialismo Nos Países de Língua Portuguesa, ed. Marina Lobo e Octavio Amorim
Neto, 1. ed. (Lisboa: Instituto Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2009), 231‑260.
(50)
Ver, Elisabete Azevedo, ‘O Semipresidencialismo Na Guiné‑Bissau: Inocente
Ou Culpado Da Instabilidade Política?’, in O Semipresidencialismo Nos Países de Língua
Portuguesa, ed. Marina Lobo e Octavio Amorim Neto, 1. ed. (Lisboa: Instituto Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa, 2009), 139‑170. Especificamente em relação a
Timor‑Leste, ver, Dennis Shoesmith, ‘Timor‑Leste: Semi‑Presidencialism and the Demo‑
cratic Transition in a New Small State’, in Semi‑Presidentialism Outside Europe: A Com‑
parative Study, ed. Robert Elgie and Sophia Moestrup (Taylor & Francis, 2007), 219‑ss.
(51)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 607.
Coimbra Editora ®
128
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Concordamos com Bacelar de Vasconcelos e Sousa da Cunha quando
expõem que:
“A constituição em Timor‑Leste revela (…) uma posição relativa muito
particular dos diferentes órgãos de soberania, em especial no exercício de seus
poderes próprios e na relação com outros cargos. Os traços que a caracterizam
tipicamente definem a “interdependência” constitucional dos diferentes órgãos
de soberania num sistema de governo que, apesar de se inserir numa longa
tradição, não deixa de apresentar especialidades importantes. No entanto, mais
importante do que a definição do sistema de governo timorense será a sua
caracterização no caso vertente, tal como presente na CRDTL, que acentua
uma interpretação que está ainda, em larga medida, por realizar”. (52)
Timor‑Leste já recorreu a mecanismos constitucionais próprios de uma
forma de governo fundada no princípio da separação de poderes. Falamos dos
vetos presidenciais por inconstitucionalidade (53), do veto presidencial político (54),
da superação do veto presidencial (55) e da apreciação de uma moção de censura,
pelo Parlamento Nacional, contra o Governo (56). O recurso a estes mecanismos,
Vasconcelos e Cunha, ‘Semipresidencialismo Em Timor: Um Equilíbrio
Institucional Dinâmico Num Contexto Crítico’, 236.
(53)
Este foi o caso do diploma que veio a ser a Lei n.º 9/2003, de 15 de Outu‑
bro (Lei de Imigração e Asilo), e também do diploma que veio a ser a Lei n.º 1/2006,
de 8 de Fevereiro (Liberdade de Reunião e manifestação).
(54)
Este foi o caso do decreto de Lei sobre o regime especial para a definição
da titularidade dos bens imóveis (Decreto n.º 69/II) pelo Parlamento Nacional para a
promulgação presidencial no primeiro trimestre de 2012 (disponível em linha http://
www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/internacional/2012/2/12/devolve‑parla‑
mento‑leis‑relativas‑titularidade‑bens‑imoveis,132b9056‑03fd‑42af‑b1ab‑0d5d1ce‑
c066d.html, consultado em 28 de Julho de 2014).
(55)
Este foi o caso do diploma que veio a ser a Lei de Imigração e Asilo, Lei
n.º 9/2003, de 15 de Outubro.
(56)
Uma moção de censura foi apreciada, e posteriormente rejeitada, no Parla‑
mento Nacional contra o Primeiro Ministro em relação a uma decisão de entregar às
autoridades Indonésias um indivíduo acusado de cometer crimes contra a humanidade
durante o período da ocupação Indonésia. Ver, ‘Timor‑Leste: Parlamento Rejeita Moção
de Censura a Governo de Xanana Gusmão’, Lusa, de Outubro de 2009, http://www.
rtp.pt/noticias/?article=286487&layout=121&visual=49&tm=7&. (consultado em 28
de Julho de 2014).
(52)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
129
destinados a resolver conflitos entre órgãos de soberania, revelam a natureza do
sistema político, a forma de governo adotada, assim como o respeito pelo prin‑
cípio da separação de poderes.
2.5 Sistema Legislativo
Em Timor‑Leste, o Parlamento Nacional e o Governo possuem a compe‑
tência para elaborar leis (competência legislativa). (57)
Ao analisar a Constituição, e utilizando a interpretação oferecida pelo
Tribunal de Recurso, atuando como Supremo Tribunal de Justiça, em questões
relacionadas com o sistema legislativo (58), identificamos como principais carac‑
terísticas deste sistema, as seguintes:
— primado parlamentar da competência legislativa
— matérias de reserva absoluta da competência exclusiva do Parlamento
Nacional
— matérias de reserva relativa da competência exclusiva do Parlamento
Nacional, a que corresponde a competência derivada ou delegada do
Governo
— matérias da competência exclusiva do Governo
— matérias da competência dependente do Governo
— matérias da competência legislativa concorrente entre o Parlamento
Nacional e o Governo
— controlo parlamentar do exercício da competência legislativa concor‑
rente do Governo
Na doutrina portuguesa é, muitas vezes, questionada a própria escolha
constitucional de facultar competência legislativa ao Governo. A grande amplitude do
Governo de elaborar leis resultou, na opinião de muitos, num desequilíbrio no processo
legiferante, sendo o Governo responsável pela maioria da produção legislativa (para
um resumo simplificado desta questão ver, José de Melo Alexandrino, ‘A Preponderân‑
cia Do Governo No Exercício Da Função Legislativa’, Legislação (Cadernos de Ciência
de Legislação), INA — Instituto Nacional de Administração, 50 (Outubro‑Dezembro
2009).
(58)
Ver, por exemplo, Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009
(Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR
(2009).
(57)
Coimbra Editora ®
130
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
— controlo jurídico e político do Presidente da República dos atos legis‑
lativos do Parlamento Nacional e do Governo
— um procedimento legislativo formal e faseado
2.5.1 Primado Parlamentar da Competência Legislativa
A competência geral do Parlamento Nacional de “legislar sobre as questões
básicas da política interna e externa do país” é prevista no artigo 95.º‑1 da Cons‑
tituição (59). É sobretudo este preceito constitucional que atribui ao Parlamento
a primazia da competência legislativa, como exposto pelo Tribunal de Recurso ao
declarar que a Constituição prevê “um verdadeiro primado de competência
legislativa do Parlamento, uma vez que este pode legislar sobre a matéria versada
no art. 115.º, n.º 1, competência legislativa do Governo, ao passo que este ape‑
nas pode legislar sobre a matéria prevista no art. 95.º, n.º 1, na medida em que
se possa considerar tal matéria incluída nas diversas alíneas do n.º 1 do mencio‑
nado art. 115.º” (60). Ainda, neste mesmo sentido, o Tribunal de Recurso reco‑
nheceu que “fora dos casos de reserva legislativa do Governo (…) é antes o
Parlamento Nacional que é permitido “imiscuir‑se” na área de competência do
Governo [prevista no artigo 115.º‑1 da CRDTL]”. (61)
2.5.2 A
Reserva Absoluta da Competência Exclusiva do Parla­mento
Nacional
A competência legislativa exclusiva implica que somente um dos órgãos
de soberania — o Parlamento Nacional ou o Governo — possui a capacidade
(59)
Exemplos de legislação aprovada pelo Parlamento originária no uso da sua
competência legislativa geral incluem a Lei n.º 12/2009, de 21 de Outubro (Uso e
Proteção do Emblema da Cruz Vermelha em Timor‑Leste), a Lei n.º 14/2011, de 28
de Setembro (Lei do Investimento Privado) e a Lei n.º 8/2009, de 15 de Julho (Lei
sobre a Comissão Anti‑Corrupção). Vale a pena ressaltar que a Constituição portuguesa
não contem uma norma análoga a esta contida na Constituição timorense. Já a Cons‑
tituição moçambicana contem norma praticamente idêntica à timorense (artigo 179.º‑1:
“Compete à Assembleia da República legislar sobre as questões básicas da política
interna e externa do país.”).
(60)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 28‑29 (2009), 28‑29.
(61)
Ibid., 28.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
131
legiferante em determinadas áreas. Assim, fica, com isto, vedado ao outro órgão
a possibilidade de legislar sobre as matérias sujeitas à exclusividade. Poderia
dizer‑se que a competência exclusiva cria, na realidade, um monopólio do poder
legislativo.
A competência exclusiva do Parlamento Nacional é prevista no número 2
do artigo 95.º da Constituição. Este artigo prevê aquilo que a doutrina deno‑
mina de reserva absoluta da competência legislativa do Parlamento Nacional.
Esta foi definida de uma forma bastante clara por Gomes Canotilho, como “o
conjunto de matérias ou de âmbitos materiais que devem ser objeto de regu‑
lação através de um ato legislativo editado pelo parlamento” (62). Como resultado
da reserva absoluta, é vedado ao Governo legislar sobre estas matérias e o Par‑
lamento Nacional não pode delegar no Governo a função legiferante em áreas
sujeitas à exclusividade absoluta dessa sua reserva parlamentar. Caso o Governo
viesse a legislar nestas áreas, os atos legislativos seriam organicamente incons‑
titucionais, por excederem a competência legislativa do Governo e violarem a
competência reservada do Parlamento. Pode ainda dizer‑se que a reserva da
competência legislativa parlamentar representa um “dever” específico do Par‑
lamento Nacional, com base no qual a Constituição prescreve “casos de neces‑
sária e inderrogável regulação de certas matérias por lei formal do parla‑
mento” (63). Sendo uma verdadeira obrigação constitucional, a falta de legislação
pelo Parlamento Nacional nestas áreas pode dar lugar a uma inconstituciona‑
lidade por omissão. (64)
O elenco das áreas sob a reserva absoluta do Parlamento Nacional é bas‑
tante denso e diversificado, incluindo questões essenciais da formação e orga‑
nização territorial do Estado, como as fronteiras terrestres e marítimas
(artigo 95.º‑2/a, b e g), questões sociais como a educação, segurança social e
saúde (artigo 95.º‑2/l e m), regime eleitoral e participação política (artigo 95.º‑2/h
e i), o estatuto dos deputados e órgãos do Estado (artigo 95.º‑2/j e k), questões
relacionadas com o estatuto pessoal dos indivíduos na sociedade e perante o
Estado (artigo 95.º‑2/d e f), as políticas de defesa, segurança e fiscal
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 726.
Ibid., 728. Ver, também, Jorge Miranda, Manual de Direito Constitucional
— Actividade Constitucional Do Estado, 4 edição, Tomo V (Coimbra: Coimbra Editora,
2010), 235‑ss.
(64)
Vide Capítulo VI, 3.3. O Processo de Fiscalização da Inconstitucionalidade
por Omissão.
(62)
(63)
Coimbra Editora ®
132
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
(artigo 95.º‑2/o e p) assim como o regime de exceção constitucional
(artigo 95.º‑2/n). Nota‑se que as áreas sujeitas à reserva absoluta do Parlamento
Nacional diferem, em certa medida, daquelas atribuídas às Assembleias da
República Moçambicana e Portuguesa. Foram incluídas na reserva absoluta
parlamentar aquelas áreas consideradas fundamentais para a construção do
Estado timorense. Percebe‑se, assim, a vontade do poder Constituinte de que
essas áreas fossem reguladas pelo principal órgão legislativo democraticamente
eleito.
Importa sublinhar que a competência legislativa absoluta exclusiva
estende‑se somente ao âmbito daquelas áreas especificamente previstas no
artigo 95.º‑2 da Constituição. Deste modo, por exemplo, o Parlamento Nacio‑
nal possui a competência para legislar sobre as “bases do sistema de ensino” e
“a política fiscal” (respetivamente artigo 95.º‑2/l e p) (65). As matérias que vão
para além destes contornos entram na competência concorrente do Parlamento
Nacional e do Governo ou ainda na competência exclusiva do Governo. Pode‑
ria dizer‑se que, na prática, é o âmbito da reserva absoluta exclusiva parlamen‑
tar que determina o espaço de intervenção pelos órgãos concretizadores,
inclusive o Governo, sendo, portanto, a competência legislativa deste último
de uma maior ou menor proporção dependendo da delineação da reserva
absoluta parlamentar prevista no texto constitucional.
Quando o Parlamento possui a competência exclusiva para legislar sobre
as “bases” de uma certa área, isso significa que irá legislar sobre os princípios
vetores, deixando a cargo do Governo o desenvolvimento das bases previstas
na lei. O Parlamento emana, nestes casos, uma lei de bases e o Governo um
decreto‑lei de desenvolvimento. De acordo com o Tribunal de Recurso, quando
a Constituição atribui ao Parlamento Nacional a competência para legislar sobre
as “bases gerais”, nestas estão incluídas, certamente, as “opções político‑legis‑
No acórdão de Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009
(Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR
(2009), o Tribunal de Recurso discutiu brevemente aquilo que considerava como “bases
gerais” (p. 30‑ss). Para uma melhor compreensão da competência legislativa da Assem‑
bleia da República em Portugal, no que respeita à sua competência similar à compe‑
tência exclusiva do Parlamento Nacional de Timor‑Leste, ver Gomes Canotilho, Direito
Constitucional E Teoria Da Constituição, 752‑761. Ver, também, J.J. Gomes Canotilho
e Vital Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada, 4.ª Edição, vol. II
(Artigo 108.º a 296.º) (Coimbra: Coimbra Editora, 2010), 306‑ss.
(65)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
133
lativas fundamentais” (66) de cada área. Um exemplo particularmente instrutivo
neste âmbito é a divisão entre a competência legislativa e a regulamentadora
na área da educação. Através da Lei n.º 14/2008, de 29 de Outubro (lei de
bases da educação), o Parlamento Nacional legislou sobre “as bases do sistema
de ensino” (artigo 95.º‑2/l da Constituição). Posteriormente, o Governo ela‑
borou uma série de decretos‑leis, desenvolvendo aspetos traçados na legislação
basilar relacionados com os diferentes níveis educacionais previstos na lei de
bases respectiva. O enquadramento jurídico principal relativo ao ensino supe‑
rior em Timor‑Leste encerra os seguintes exemplos: o Decreto‑Lei n.º 36/2009,
de 2 de Dezembro (Regime jurídico do acesso ao ensino superior) e o
Decreto‑Lei n.º 21/2010, de 1 de Dezembro (Aprova o Regime Geral de Ava‑
liação do Ensino Superior e Cria a Agência Nacional Para a Avaliação e Acre‑
ditação Académica (ANAAA) e o Decreto‑Lei n.º 8/2010, de 19 de Maio
(Regime jurídico dos Estabelecimentos de Ensino Superior).
O Parlamento Nacional é também o único órgão que possui a competên‑
cia para legislar sobre os “direitos, liberdades e garantias” (artigo 95.º‑2/e da
Constituição) (67), “a suspensão das garantias constitucionais e a declaração do
estado de sítio e do estado de emergência” (artigo 95.º‑2/n da Constituição).
No que respeita à elaboração de diplomas legislativos sobre os direitos funda‑
mentais, é, ainda, atribuída a este órgão de soberania a competência para
legislar sobre “as bases do sistema de segurança social e saúde” (artigo 95.º‑2/m).
Na tentativa de apresentar uma visão sistemática sobre a competência para
a elaboração das leis relativas aos direitos fundamentais, poderia extrair‑se do
texto constitucional a existência de uma regra geral, com duas relevantes exce‑
ções.
A regra geral é a da existência de uma reserva absoluta da competência
exclusiva do Parlamento Nacional quanto a legislar sobre os “direitos, liberda‑
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 30 (2009), 30.
(67)
Na Constituição portuguesa, em regra, esta matéria faz parte da reserva
relativa da competência exclusiva da Assembleia da República (artigo 165.º, n.º 1,
alínea b)). Ou seja, em regra, a Assembleia da República e o Governo, através de
decreto‑lei autorizado, podem legislar sobre matérias relativas aos direitos, liberdades
e garantias. No entanto, existem determinadas matérias relacionadas com os direitos,
liberdades e garantias que fazem parte da reserva absoluta da competência exclusiva da
Assembleia da República, só podendo, como tal, ser reguladas por lei da Assembleia
da República (artigo 164.º).
(66)
Coimbra Editora ®
134
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
des e garantias” (ou, por outras palavras, os direitos civis e políticos) (68), e a
existência de uma competência concorrente do Parlamento Nacional e do
Governo quanto a legislar sobre os “direitos e deveres económicos, sociais e
culturais”. Contudo, a regra geral de uma reserva absoluta do Parlamento
Nacional quanto a legislar sobre os “direitos, liberdades e garantias” tem uma
exceção relevante: a definição dos crimes e do processo penal são matérias
passíveis de autorização legislativa pelo Parlamento Nacional ao Governo
(artigo 96.º‑1/a e b). Também a regra geral de uma competência concorrente
para legislar sobre os direitos económicos, sociais e culturais possui uma exce‑
ção: as bases do sistema de ensino, segurança social e saúde são matérias de
reserva absoluta da competência exclusiva do Parlamento Nacional
(artigo 95.º‑2/l e m).
A determinação de uma competência concorrente para legislar sobre os
“direitos e deveres económicos, sociais e culturais” (artigos 50.º ao 61.º da
CRDTL) decorre, em grande medida, da natureza programática dos direitos
económicos, sociais e culturais, e da preferência de vê‑los legislados pelo prin‑
cipal órgão executivo. (69)
2.5.3 A
Reserva Relativa da Competência Exclusiva do Parla­mento
Nacional
A Lei Fundamental timorense estabelece um mecanismo de delegação da
competência legislativa do Parlamento Nacional ao Governo, ao prever no
artigo 96.º‑1 uma série de áreas que recaem na reserva relativa da competência
exclusiva do Parlamento Nacional. A reserva relativa do Parlamento Nacional,
nas palavras do Tribunal de Recurso, “é, essencialmente, um domínio em que
este [o Parlamento], tendo o predomínio do poder legislativo, todavia pode
reparti‑lo, se assim o entender, com o próprio Governo, através da concessão
A reserva exclusiva da competência de legislar sobre “os direitos, liberdades
e garantias” incide somente sobre os direitos fundamentais incluídos no Título II da
Parte II da CRDTL (artigos 29.º ao 49.º da Constituição).
(69)
Esta mesma interpretação é dada por Vital Moreira e Gomes Canotilho,
relativamente às competências legislativas tal como determinadas pela Constituição
portuguesa, seguindo a divisão sistemática desta Constituição entre os “direitos, liber‑
dades e garantias” e os “direitos e deveres económicos, sociais e culturais” (Gomes
Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada, 2010, II
(Artigo 108.º a 296.º):327‑328.)
(68)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
135
a este de autorizações legislativas” (70). Neste processo, ao Governo é dada uma
competência derivada ou delegada.
Como previsto no artigo 96.º‑2 da Constituição, uma autorização
legislativa do Parlamento Nacional deve respeitar certos critérios. Para além
da determinação de uma duração específica, as leis de autorização legislativa
devem necessariamente determinar o seu objeto, identificar claramente o
seu sentido e delimitar a extensão da delegação. Desta forma, a Constitui‑
ção timorense segue a sua homóloga portuguesa, ao prescrever que a lei de
autorização legislativa “não pode ser, seguramente, um cheque em
branco” (71).
Até ao início de 2014, o Parlamento Nacional havia delegado a compe‑
tência legislativa ao Governo em cinco áreas: execução de penas e medidas
privativas e não privativas da liberdade (Lei n.º 6/2013, de 28 de Agosto),
ambiental (Lei n.º 3/2012, de 13 de Janeiro), matéria penal (Lei n.º 13/2008,
de 13 de Outubro e Lei n.º 16/2005, de 16 de Setembro (72)), processo penal
(Lei n.º 15/2005, de 16 de Setembro) e processo civil (Lei n.º 17/2005, de 16
de Setembro). Como resultado destas autorizações, foram promulgados seis
decretos‑leis: o regime de execução penal, a lei de bases do ambiente, o código
de processo civil, o código penal e de processo penal, o regime especial no
âmbito do processo penal para casos de terrorismo, criminalidade violenta ou
altamente organizada (73).
Estamos aqui perante um poder discricionário do Parlamento Nacional.
A complexidade da matéria pode representar uma das razões que motivam a
delegação da competência legislativa, como foi, possivelmente, o caso dos
códigos penal, processual penal e processual civil. Entretanto, em outras áreas,
o Parlamento Nacional preferiu ele próprio legislar sobre a matéria, apesar de
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 27 (2009), 27.
(71)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):337.
(72)
Esta primeira autorização legislativa, entretanto, caducou, em resultado da
não promulgação do Código Penal nos 120 dias de duração da mesma (artigo 5.º).
(73)
Respetivamente, os Decreto‑Lei n.º 14/2014, de 14 de Maio, Decreto‑lei
n.º 26/2012, de 4 de Julho, Decreto Lei n.º 1/2006, de 21 de Fevereiro, Decreto‑Lei
n.º 19/2009, de 8 de Abril, Decreto‑Lei n.º 13/2005, de 22 de Novembro e Decreto‑Lei
n.º 4/2006, de 1 de Março.
(70)
Coimbra Editora ®
136
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ter a opção de as delegar no Governo, como aconteceu com a legislação sobre
o serviço militar e o regime geral da função pública. (74)
2.5.4 A Competência Legislativa Dependente Atribuída ao Governo
O Governo pode possuir ainda uma competência legislativa dependente (75).
Neste caso, a competência legislativa do Governo depende exclusivamente de
uma vontade expressa numa Lei do Parlamento Nacional.
Dentro da competência legislativa dependente encontra‑se a competência
do Governo em sequência de uma lei de autorização legislativa. Poderia dizer‑se
que o exercício da competência relativa do Parlamento resulta na atribuição
ao Governo de uma competência legislativa dependente. Aqui, na sequência
de uma lei de autorização, o Governo terá de emanar um decreto‑lei autori‑
zado, o qual deve respeitar os critérios contidos no artigo 96.º, n.º 2, da
Constituição.
O artigo 115.º‑1/p prevê uma competência residual do Governo para
“exercer quaisquer outras competências que lhe sejam atribuídas pela Consti‑
tuição ou pela lei”. É com base neste artigo que é possível ao Governo desen‑
volver uma lei de bases, através de um decreto‑lei de desenvolvimento quando
o Parlamento Nacional venha a estabelecer numa lei esta competência legiferante
do Governo. Vale a pena notar que é o Parlamento Nacional, na sua prática
legiferante, que determina a extensão do que compreende como “as bases” de
uma das suas matérias. Nestes casos, a determinação da competência legislativa
dependente não representa uma delegação da competência exclusiva legislativa
ao Governo, que seria claramente inconstitucional (76). Desta prática nasce o
que a doutrina portuguesa e brasileira chamam de decreto‑lei de/para desenvol‑
vimento. (77)
Respetivamente, Lei n.º 3/2007, de 28 de Fevereiro (Lei do Serviço Militar)
e Lei n.º 8/2004, de 16 de Junho (que aprova o Estatuto da Função Pública) e Lei
n.º 5/2009, de 15 de Julho (primeira alteração à Lei n.º 8/2004, de 16 de Junho).
(75)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 795‑ss.
(76)
Como já referido pelo Tribunal de Recurso em 2009 (Tribunal de Recurso,
Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionali‑
dade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 27 (2009), 27.)
(77)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 795‑796;
Ricarlos Almagro, O Poder Normativo da Administração Pública: Limites e Controle (Rio
de Janeiro: Singular, 2010), 81.
(74)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
137
Exemplos de leis parlamentares que preveem uma competência dependente
governamental incluem a Lei da Nacionalidade (Lei n.º 9/2002, de 5 de
Novembro) (78) e a Lei da Divisão Administrativa do Território (Lei n.º 11/2009,
de 7 de Outubro) (79).
Há, ainda, que referir que as leis de autorização e as leis de bases são leis
com valor reforçado, devendo os decretos‑leis emanados na sequência de uma
lei de autorização (decretos‑leis autorizados) e os decretos‑leis emanados na
sequência de uma lei de bases (decretos‑leis de desenvolvimento) respeitar a lei
emanada pelo Parlamento Nacional respetiva (80).
2.5.5 A
Competência Legislativa Concorrente entre o Parla­mento
Nacional e o Governo
A existência de uma competência legislativa concorrente entre o Parlamento
Nacional e o Governo não está prevista de forma inequívoca na letra da Lei
Fundamental. É entendimento do Tribunal de Recurso que o Governo possui
uma competência legislativa além da sua expressa competência exclusiva, que
compreende as matérias que não sejam da competência exclusiva do Parlamento
Nacional, mas que se encontrem dentro da competência geral do Governo
prevista no artigo 115.º‑1 da Constituição. (81)
(78)
O Artigo 31.º prevê: “[o] Governo regulamentará a presente lei no prazo de
180 dias a contar da data da sua publicação”. Com base neste preceito, o Governo
aprovou o Decreto‑Lei N.º 1/2004, de 4 de Fevereiro (Regulamento da Lei da Nacio‑
nalidade).
(79)
O Artigo 25.º prevê: “[c]ompete ao Governo regulamentar os critérios
e procedimentos destinados à criação, modificação ou extinção de municípios”.
Até à presente data, o Governo ainda não exerceu esta competência dependente
legislativa.
(80)
Ver, Capítulo II, 2.8 Constituição e Ordenamento Jurídico.
(81)
Considerou este Tribunal que “entende‑se que não existe tal exclusividade
[de legislar sobre as questões que não se encontram previstas no artigo 95.º‑2 e 3], se
está perante aquilo que a doutrina [portuguesa] designa por competência legislativa
concorrente.” Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 31
(2009), 31. No mesmo sentido, ver também Florbela Pires, ‘Fontes Do Direito E
Procedimento Legislativo Na República Democrática de Timor‑Leste — Alguns Pro‑
blemas’, Biblioteca Digital Ius Commune, n.d., 19‑ss.
Coimbra Editora ®
138
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Daí decorre que cairá na esfera da competência concorrente de ambos os
órgãos de soberania uma matéria que não seja da competência legislativa exclu‑
siva do Parlamento Nacional ou do Governo, mas que seja ao mesmo tempo
relacionada com as “questões básicas da política interna e externa do país”
(artigo 95.º‑1 sobre a competência do Parlamento Nacional) e com uma das
áreas previstas na competência do Governo (artigo 115.º‑1). (82)
Como consequência desta interpretação do Tribunal de Recurso, serão
muitas as áreas que recaem na competência legislativa concorrente do Parla‑
mento Nacional e do Governo. Nos dez primeiros anos após a restauração da
independência, um número significativo de Decretos‑Leis foi elaborado com
base nesta competência, como por exemplo, o Decreto‑Lei n.º 5/2009, de 15
de Janeiro (Regulamento do Licenciamento, Comercialização e Qualidade da
Água Potável), Decreto‑Lei n.º 19/2008, de 19 de Junho (Subsídio de Apoio
a Idosos e Inválidos) e Decreto‑Lei n.º 5/2005, de 7 de Setembro (Sobre Pes‑
soas Coletivas sem fins lucrativos).
Não está previsto qualquer termo de exclusividade relativo à competência
legislativa concorrente dos diferentes órgãos. Como tal, o uso da competência
concorrente por um órgão não afasta a possibilidade de o outro órgão vir a
exercer posteriormente a competência legislativa na mesma área, através de uma
alteração do diploma legislativo original. Não é de todo raro ver nos países que
(82)
Já o Tribunal de Recurso, a propósito de um pedido de fiscalização abstrata
da constitucionalidade, considerou a questão da competência concorrencial legislativa
do Parlamento Nacional e do Governo, no seu Acórdão de 19 de Julho de 2009.
Neste caso, um grupo de deputados alegou a violação da reserva absoluta e/ou reserva
relativa da competência do Parlamento Nacional ao aprovar em forma de decreto‑lei
o estabelecimento da Autoridade Nacional do Petróleo. Tribunal de Recurso, Acórdão
de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade),
Proc n.º 01/CONST/09/TR (2009). Os processos de fiscalização da constitucionali‑
dade, no que respeita à competência legislativa concorrencial entre o Parlamento (ou
Assembleia da República) e o Governo, não são incomuns, representando apenas o
decurso normal de um sistema que se caracteriza pela divisão de competências legis‑
lativas. Casos semelhantes acontecem em Portugal. Ver, por exemplo, os pareceres da
Procuradoria Geral da República (PGR) n.º 202/79, de 20 de Dezembro de 1979,
no Boletim do Ministério da Justiça (BMG) n.º 298, pág. 50; o parecer da PGR
n.º 33/84, de 19 de Junho de 1986, no BMJ n.º 360, pág. 263; o parecer da PGR
n.º 73/85, de 8 de Janeiro de 1987 e o parecer da PGR n.º 50/92, de 27 de Novem‑
bro de 1992.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
139
preveem uma competência legislativa concorrencial entre o principal órgão
legislativo e o Governo leis e decretos‑leis que se alteram uns aos outros (prin‑
cípio da tendencial paridade entre lei e decreto‑lei) (83). Esta realidade conse‑
quencial da competência concorrente legislativa já aconteceu em Timor‑Leste,
com a aprovação da alteração ao Regime Jurídico da Advocacia Privada e da
Formação dos Advogados (Lei n.º 11/2008, de 30 de Julho), pelo Decreto‑Lei
n.º 39/2012, de 1 de Agosto.
É importante sublinhar que os decretos‑leis aprovados com base na com‑
petência concorrente do Governo podem ser sujeitos ao mecanismo de apre‑
ciação parlamentar, como abordado mais abaixo.
Determinar se a competência para legislar sobre uma matéria específica
recai no Parlamento Nacional, no Governo ou em ambos concorrencialmente
baseia‑se numa análise casuística, de uma certa complexidade. Esta análise deve,
num primeiro plano, determinar o sentido da norma constitucional, para
considerar com detalhe o conteúdo específico das normas no ato legislativo em
questão, determinando assim se o conteúdo da legislação excede ou não a
competência constitucional. Ao Tribunal de Recurso, exercendo a competência
do Supremo Tribunal de Justiça, já foram submetidas questões desta índole.
Por exemplo, no Acórdão de 14 de Agosto de 2008, o Tribunal de Recurso,
num processo de fiscalização abstrata da constitucionalidade, analisou se a
criação do “fundo de estabilização económica” por legislação aprovada pelo
Governo (Decreto‑Lei n.º 22/2008, de 16 de Julho) violava a reserva absoluta
da competência legislativa atribuída ao Parlamento Nacional na matéria do
regime orçamental prevista no artigo 96.º‑2/q da Constituição (84). Em 2009,
no acórdão que versa sobre a constitucionalidade da criação da Autoridade
Nacional do Petróleo, que foi estabelecida através de um decreto‑lei, o Tribunal
de Recurso analisou com um certo grau de detalhe a densificação legal da
Por exemplo, em Cabo Verde o Decreto‑lei n.º 2/2005, de 10 de Janeiro
alterou a Lei n.º 96/V/99, de 22 de Março e na Guiné‑Bissau o Decreto‑Lei n.º 6/2006,
de 24 de Julho trouxe alterações à Lei de Minas e dos Minerais, Lei n.º 1/2000, de 4
de Julho. Um exemplo típico de Portugal, que reflete o processo de alterações conse‑
cutivas pelos diferentes órgãos com competência legislativa concorrente, é o Código
de Processo Civil, que sofreu um número de alterações desde 2000, introduzidas ou
por leis da Assembleia da República ou por Decretos‑Lei do Governo.
(84)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 14 de Agosto de 2008 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 03/CONST/08/TR (2008).
(83)
Coimbra Editora ®
140
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
competência legislativa constitucional do Parlamento Nacional e do Governo
nas áreas relativas ao diploma em questão. (85)
2.5.6 A Competência Exclusiva do Governo
Ao Governo também é atribuída a competência exclusiva legislativa no que
concerne “matéria respeitante à sua própria organização e funcionamento, bem
como à da administração direta e indireta do Estado” (artigo 115.º‑3 da
CRDTL). Esta competência tem por base o princípio de autogovernação dos
órgãos de soberania. Sublinha‑se, entretanto, que, através de uma análise do
direito comparado dos países da CPLP (86), se conclui que o constituinte timo‑
rense optou por determinar uma competência exclusiva legislativa do Governo
bastante alargada, ao incluir não somente a organização e funcionamento do
Governo, mas também a organização e funcionamento da administração direta
e indireta do Estado (87). A “organização e funcionamento” do Governo rela‑
cionam‑se com a determinação dos números de Ministérios e Secretarias do
Estado, a especificação das suas atribuições e os mecanismos para o seu fun‑
cionamento dentro da coletividade do Governo como órgão de soberania.
A “organização e funcionamento” da administração direta e indireta do Estado
relacionam‑se com a composição, a estrutura e as atribuições principais para a
prática dos atos necessários à implementação das competências dos órgãos da
administração direta e indireta do Estado (88).
(85)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR (2009).
(86)
Cfr. artigo 204.º‑1 da Constituição cabo‑verdiana, artigo 204.º‑3 da Cons‑
tituição moçambicana, artigo 111.º/c da Constituição são‑tomense e artigo 198.º‑2 da
Constituição portuguesa.
(87)
O entendimento jurisprudencial e doutrinário em Portugal é o de que
a competência exclusiva respeitante à organização e funcionamento do Governo se
relaciona com a sua organização interna, nomeadamente, quanto ao número de
Ministérios e seus âmbitos de competência (Cfr. Tribunal Constitucional Português,
Acórdão n.º 326/89, de 4 de Abril de 1989).
(88)
Exemplos de áreas que podem ser consideradas como parte do funcionamento
da administração direta e indireta do Estado incluem planeamento, finanças, aprovi‑
sionamento, entre outros (ver, por exemplo, artigo 14.º‑1 do Decreto‑Lei n.º 12/2006,
de 26 de Julho (Estrutura Orgânica da Administração Pública).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
141
2.5.7 Mecanismos de Controlo da Competência Legislativa
Com base nas ideias de separação e interdependência de poderes, ambas
as competências legislativas parlamentar e governamental estão sujeitas a meca‑
nismos de controlo: as leis elaboradas pelo Parlamento Nacional podem ser
sujeitas a mecanismos de controlo constitucional e político, e a legislação pro‑
veniente do Governo é passível de controlo parlamentar, constitucional e
político.
Nos termos do artigo 98.º da Constituição, o Parlamento exerce um
controlo sobre a atividade legiferante do Governo através da apreciação parla‑
mentar de atos legislativos do Governo (89). A apreciação parlamentar dos atos
legislativos do Governo evidencia distintamente duas das características do
processo legislativo: a primazia legislativa do Parlamento Nacional e a compe‑
tência concorrencial entre o Governo e o Parlamento Nacional (90). O Parla‑
Vital Moreira e Gomes Canotilho apelidam este processo de apreciação
legislativa de processo de fiscalização parlamentar específico (Gomes Canotilho e Moreira,
Constituição Da República Portuguesa Anotada, 2010, II (Artigo 108.º a 296.º):361.).
(90)
Na aceção de Jorge Miranda, a apreciação parlamentar de atos legislativos
distingue‑se do instituto da ratificação legislativa, na medida em que aquela, ao con‑
trário desta, não é juridicamente necessária, pois a entrada ou continuação em vigor
de uma lei não se encontra condicionada à intervenção parlamentar (Miranda, Manual
de Direito Constitucional — Actividade Constitucional Do Estado, Tomo V:358‑ss.). Ao
contrário do instituto da apreciação parlamentar, a ratificação visa tornar definitiva a
eficácia de determinado ato legislativo (caso dos atos de ratificação‑confirmação, como
está previsto, por exemplo, no artigo 138.º‑2 da Constituição portuguesa) ou sanar
um vício de que padeça um ato legislativo (ratificação‑sanação) (Jorge Bacelar Gouveia,
Manual de Direito Constitucional, vol. II (Coimbra: Almedina, 2005), 1251‑1252.).
Em Portugal, até à IV revisão constitucional em 1997, o instituto da apreciação par‑
lamentar era designado de ratificação. Todavia, considerou‑se a designação “ratificação”
equívoca, adotando‑se na doutrina, desde aquela data, a designação “apreciação parla‑
mentar” (Ibid., II:1251.). A revisão de 1997 substituiu a designação “ratificação” pela
designação “apreciação parlamentar”. Para uma perspetiva histórica mais completa sobre
este assunto, vide, Jorge Miranda e Rui Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada,
Tomo II (Coimbra: Coimbra Editora, 2006), 570‑572. No âmbito dos outros países
da CPLP, apenas a Constituição de Cabo Verde prevê um instituto em todo semelhante
à apreciação parlamentar de diplomas legislativos, tendo, todavia, denominado‑o de
ratificação (artigo 183.º‑1 Constituição cabo‑verdiana). Países como Angola (arti‑
gos 171.º e 172.º Constituição angolana), Guiné‑Bissau (artigo 92.º‑3 Constiuição
(89)
Coimbra Editora ®
142
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
mento Nacional pode requerer a cessação da vigência ou alterar os diplomas
aprovados pelo Governo dentro da sua competência legislativa concorrencial,
delegada ou dependente (91). Visto que o Parlamento Nacional “não pode fis‑
calizar decretos‑leis em matérias sobre as quais não pode legislar” são excluídos
deste processo de apreciação os decretos‑leis aprovados pelo Governo dentro
da sua competência exclusiva (92). Cabe ao Parlamento Nacional decidir quanto
à apreciação de atos legislativos do Governo, não sendo, portanto, o controlo
parlamentar uma fase obrigatória para a formação de uma lei. Assim, uma
eventual invasão das competências legislativas do Parlamento Nacional por
parte do Governo (ou vice‑versa), ou algum conflito jurídico no que respeita
ao âmbito da competência legislativa concorrente, podem ser resolvidos através
do controlo da constitucionalidade das leis e dos decretos‑leis.
Até à presente data, o Parlamento Nacional exerceu o seu poder de apre‑
ciação dos atos legislativos governamentais apenas numa única situação, em
relação ao decreto‑lei aprovado pelo Governo com base na autorização legisla‑
tiva parlamentar em matéria penal concedida pela Lei n.º 13/2008, de 13 de
Outubro. Como resultado deste processo, o Parlamento Nacional aprovou uma
alteração à norma do código penal relativa à interrupção da gravidez (93). Nas
guineense) e Moçambique (artigo 181.º‑1 da Constituição moçambicana) têm um
sistema próximo da apreciação parlamentar timorense. Porém, nestes países, somente
os diplomas legislativos do Governo aprovados no uso da competência legislativa
delegada podem ser sujeitos ao controlo parlamentar (as Constituições de Angola e
Guiné‑Bissau atribuem a este processo o nome de “ratificação”).
(91)
Esta é também a posição maioritária na doutrina portuguesa relativamente
a semelhante instituto na Constituição portuguesa (cfr. Gomes Canotilho e Moreira,
Constituição Da República Portuguesa Anotada, 2010, II (Artigo 108.º a 296.º):363;
Miranda, Manual de Direito Constitucional — Actividade Constitucional Do Estado,
Tomo V:369‑ss. Alguns autores consideram que o instituto de apreciação parlamentar
só pode ter por objeto diplomas do Governo materialmente legislativos. Vide, no mesmo
sentido, mas sobre o instituto de apreciação parlamentar previsto na Constituição
portuguesa, Paulo Otero, O Poder de Substituição Em Direito Administrativo, vol. II
(Lisboa, 1995), 628.
(92)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):362.
(93)
Lei n.º 6/2009, de 15 de Julho (Primeira alteração, por apreciação parla‑
mentar, do Código Penal (Aprovado pelo Decreto‑Lei n.º 19/2009, de 8 de Abril)).
De referir que, neste processo de apreciação parlamentar, o Parlamento Nacional não
aprovou a suspensão da vigência do decreto‑lei durante o processo de apreciação.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
143
duas primeiras legislaturas, nenhum decreto‑lei aprovado pelo Governo foi alvo
deste mecanismo de controlo.
Ressalta‑se que o processo de apreciação parlamentar dos atos legislativos
do Governo está sujeito a diversos requerimentos processuais, como previsto
no artigo 98.º da CRDTL. Este processo deve ser iniciado por, no mínimo,
um quinto dos deputados (94), dentro de 30 dias a contar da publicação do
diploma (95). É ainda imposto ao Parlamento Nacional um prazo para a con‑
clusão do processo de apreciação, que deve ser finalizado dentro da mesma
sessão legislativa em curso, desde que decorridas quinze sessões plenárias desde
o início do processo de apreciação (96). Visto que a apreciação legislativa pode
resultar em mudanças no conteúdo normativo e na força jurídica do diploma
em questão, o estabelecimento de prazos concretos no texto constitucional visa
assegurar um certo nível de segurança jurídica.
Um outro mecanismo de controlo da competência legislativa é o dos meios
de controlo presidencial do processo legislativo, os quais podem ser de natureza
Artigo 98.º‑1. Para atingir um quinto de deputados, ou vinte por cento, é
necessário 11 a 13 deputados dependendo da sua composição mínima de 52 ou máxima
de 65 deputados. É de notar que o número mínimo de deputados necessários em
Timor‑Leste para desencadear o processo de apreciação parlamentar é, em termos
proporcionais, bastante maior do que a proporção exigida em Portugal (artigo 169.º‑1
da Constituição portuguesa, o qual requer um mínimo de dez deputados, significando
menos de 6 por cento do número total de deputados), em Cabo Verde (artigo 183.º‑1
da Constituição cabo‑verdiana, o qual requer um mínimo de cinco deputados, signi‑
ficando menos de 8 por cento do número total de deputados) e em Angola
(artigo 171.º‑1 da Constituição angolana, o qual requer dez deputados em efetividade
de funções, significando menos de 5 por cento do atual número de deputados (220‑130
deputados eleitos a nível nacional e cinco por província). Não se sabe a razão para tal
diferença. Possivelmente, uma eventual perceção de que o executivo teria uma maior
capacidade para a elaboração das leis do que o Parlamento Nacional pode ter sido um
fator a pesar nesta direção.
(95)
Artigo 98.º‑1. A este prazo são descontados os períodos de suspensão do
funcionamento do Parlamento Nacional.
(96)
Artigo 98.º‑5. Nota‑se que, na tentativa de garantir a realização do processo
de apreciação parlamentar nos prazos impostos constitucionalmente, é ainda previsto
no regimento do Parlamento nacional prazos internos para o agendamento e debate
da apreciação parlamentar. Ver artigos 125.º e 126.º‑3 da Lei n.º 15/2009, de 11
de Novembro (Regimento do Parlamento Nacional da República Democrática de
Timor‑Leste).
(94)
Coimbra Editora ®
144
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
política ou jurídica. Por força do artigo 88.º da Constituição, é atribuído ao
Presidente da República o poder de vetar os diplomas legislativos provenientes
do Parlamento Nacional (leis) e do Governo (decretos‑leis), enviados para a
promulgação presidencial (97). O veto do Presidente da República pode ser
político ou por inconstitucionalidade (98).
As principais características comuns aos dois tipos de veto presidencial
previstas na Constituição de Timor‑Leste são:
— dever de promulgar ou vetar o diploma legislativo do Parlamento
Nacional (artigo 88.º‑1) ou do Governo (artigo 88.º‑4): caso o Pre‑
sidente da República decida vetar o diploma, deve fundamentar a sua
opinião. Não é permitido ao Presidente da República o veto tácito
ou o tradicionalmente designado “veto de bolso” ou “veto de gaveta”,
já que o artigo 88.º prevê somente duas alternativas: o veto funda‑
mentado ou a promulgação (99). O Presidente é obrigado a pronun‑
ciar‑se sobre a sua decisão e se não o fizer dentro do prazo previsto
constitucionalmente (30 dias para os diplomas do Parlamento Nacio‑
nal e 40 dias para os diplomas do Governo) tal não constitui um veto,
representando, porém, uma violação da constituição pelo Presidente
da República (100).
— veto de eficácia absoluta em relação aos diplomas do Governo e veto de
eficácia relativa em relação aos diplomas do Parlamento Nacional: o
(97)
Para uma consideração mais detalhada sobre a natureza dos diplomas legis‑
lativos sujeitos à promulgação presidencial, ver Florbela Pires, ‘Fontes Do Direito E
Procedimento Legislativo Na República Democrática de Timor‑Leste — Alguns Pro‑
blemas’, Biblioteca Digital Ius Commune, n.d., 49‑ss.
(98)
Esta classificação é comummente utilizada na doutrina portuguesa. Vide,
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1028‑1032.
(99)
Com base na interpretação da Constituição portuguesa, a doutrina portu‑
guesa não considera possível o veto de bolso (cfr. Ibid., 626; Miranda, Manual de
Direito Constitucional — Actividade Constitucional Do Estado, Tomo V:325‑326.)
(100)
Em 2005, poderia dizer‑se que se acabou por, na prática, fazer uso de um
“veto de bolso” em relação ao diploma de decreto‑lei sobre o código penal enviado
para a promulgação. Neste caso específico, a falta da promulgação ou do veto resultou
na caducidade da autorização legislativa dada pelo Parlamento Nacional ao Governo.
Uma nova autorização legislativa foi aprovada em 2008, através da Lei n.º 13/2008,
de 13 de Outubro.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
145
Governo é obrigado a acatar o veto do Presidente, tendo, assim, que
introduzir as alterações no sentido proposto pelo Presidente da Repú‑
blica ou abandonar o diploma. Pelo contrário, o Parlamento Nacional
pode superar o veto do Presidente. Esta superação pode ser feita
através de confirmação por maioria absoluta dos deputados em efe‑
tividade de funções, quando estejam em causa as matérias previstas
no âmbito da reserva relativa do Parlamento. Quando estejam em
causa diplomas legislativos elaborados no âmbito da reserva absoluta
da competência exclusiva parlamentar prevista no artigo 95.º (101), a
superação do veto terá de ser feita através de confirmação por maio‑
ria de dois terços dos deputados presentes (desde que superior à
maioria absoluta dos deputados em efetividades de funções). Quando
superado o veto, o Presidente da República tem de promulgar o
diploma (102).
— possibilidade de solicitar ao Supremo Tribunal de Justiça a fiscalização
preventiva da constitucionalidade de diplomas enviados para promul‑
gação (149.º‑1): este mecanismo de garantia constitucional representa,
na prática, um instrumento de auxílio para a tomada de decisão pelo
Presidente da República. Em relação a este mecanismo, o Presidente
da República é o único órgão com legitimidade processual ativa, sendo
o uso deste mecanismo uma faculdade concedida somente ao Chefe
de Estado. (103)
(101)
Artigo 88.º‑3 da CRDTL. Note‑se que a obrigação de promulgação pelo
Presidente da República aquando da superação do veto presidencial pelo órgão
legislativo está também prevista nas Constituições de Moçambique (artigo 163.º‑4),
Guiné Bissau (artigo 69.º‑2) e Angola (artigo 124.º‑3).
(102)
A superação do veto pode também ser considerada como uma confirma‑
ção do diploma pelo Parlamento Nacional. A expressão “confirmação do diploma”
é utilizada frequentemente por Gomes Canotilho e Vital Moreira (Gomes Canotilho
e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada, 2010, II (Artigo 108.º a
296.º):204, 930.)
(103)
Cfr. Ibid., II (Artigo 108.º a 296.º):921‑ss. Ver Capítulo VI, 3.1 O Processo
de Fiscalização Abstrata Preventiva da Constitucionalidade e da Legalidade. Em
Timor‑Leste, como em Moçambique, a fiscalização preventiva da constitucionalidade
é um mecanismo de garantia da Constituição dependente exclusivamente de um pedido
da autoridade com o poder de promulgação dos diplomas legislativos. Poderia dizer‑se
que nos deparamos hoje em países da CPLP com uma tendência de expansão da legi‑
Coimbra Editora ®
146
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
No caso do veto por inconstitucionalidade, este é aposto pelo Presidente da
República a um diploma considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal
de Justiça, por enquanto o Tribunal de Recurso, num processo de fiscalização
abstrata preventiva da constitucionalidade. Uma opinião deste tribunal no
sentido da inconstitucionalidade de uma norma contida no diploma parece
impossibilitar, na prática, a promulgação do diploma pelo Presidente da Repú‑
blica, já que a Constituição timorense indica que o Chefe de Estado deve
solicitar a “reformulação do diploma em conformidade com a decisão do
Supremo Tribunal de Justiça” (artigo 149.º‑3). (104) Até à presente data, tem‑se
conhecimento de, pelo menos, quatro vetos presidenciais por inconstituciona‑
lidade: em relação ao decreto de Lei sobre a imigração e asilo em 2003 (105), ao
timidade processual nestes casos, exemplificada pela reforma constitucional de 2010
de Cabo Verde e de Angola. Em Cabo Verde, têm atualmente legitimidade processual
pelo menos quinze deputados em efetividade de funções ou o primeiro‑ministro no
processo de fiscalização preventiva de norma contida em diploma legislativo sujeito à
aprovação de maioria qualificada pela Assembleia da República (atual artigo 278.º,
com as alterações resultantes do artigo 1.º da Lei Constitucional n.º 1/VII/2010, de
3 de Maio). Em Angola, um décimo dos deputados podem requerer a fiscalização
preventiva de qualquer norma contida em qualquer diploma legislativo enviado para
promulgação (artigo 228.º da Constituição angolana de 2010).
(104)
A Constituição de outros países da CPLP, como as de Portugal e São Tomé
e Príncipe, preveem com maior detalhe o processo de promulgação presidencial.
A Constituição saotomense (artigo 146.º), por exemplo, vai ainda além da Constitui‑
ção timorense ao prever o dever de alterar o diploma para conformar com a opinião
do tribunal. A linguagem da Lei fundamental timorense ao identificar o dever do
Presidente da República de solicitar as alterações conforme a opinião do Supremo
Tribunal de Justiça não identificando, porém, claramente o dever do Parlamento Nacio‑
nal de realizar mudanças de acordo com a opinião judicial, resultou, em 2003, na
aprovação pelo Parlamento Nacional de normas na Lei de Imigração e Asilo que haviam
sido consideradas inconstitucionais no processo de fiscalização preventiva (Tribunal de
Recurso, Acórdão de 30 de Junho de 2003 (Fiscalização Preventiva de Constituciona‑
lidade), Proc. n.º 02/CONST/03 (Tribunal de Recurso 2003). Com a promulgação
de uma lei com normas declaradas inconstitucionais, esta foi posteriormente alvo de
um processo de fiscalização abstrata. Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Abril de
2007 (Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), publicado no Jornal da
República Série I, N. 11 de 18 de Maio de 2007 Proc n.º 03/CONST/03/TR (2007).
(105)
Com base no Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Junho de 2003 (Fis‑
calização Preventiva de Constitucionalidade), Proc.02/CONST/03 (Tribunal de Recurso
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
147
decreto de Lei sobre a liberdade de reunião e manifestação em 2005 (106), decreto
de Lei sobre a verdade e medidas de clemência para diversas infrações em
2007 (107) e do decreto de Lei da Comunicação Social. (108)
Caso o Supremo Tribunal de Justiça não identifique algum vício de
inconstitucionalidade, o Presidente da República poderá, ainda assim, exercer
um veto de natureza política, pois o veto por inconstitucionalidade e o veto
político assentam em premissas diferentes, como já explicado acima.
É geralmente designado de “veto político” o veto presidencial que não se
escore em uma opinião judicial sobre a inconstitucionalidade do diploma
enviado para promulgação. Jorge Miranda define o veto político como aquele
que “não pode fundar‑se em razões jurídicas. Só pode, por óbvia contraposição
com o primeiro [veto por inconstitucionalidade], radicar em razões políticas,
sejam elas quais forem (interesse público, conveniência para o País, bem comum,
etc.)” (109). Como prescrito no artigo 88.º‑1 da CRDTL, o veto político deve
ser sempre fundamentado, cabendo ao Presidente da República explicar as
razões de cunho político que influenciaram a sua decisão de veto. Entende‑se
que, até hoje, o Presidente da República utilizou somente uma vez o veto
2003). Aqui, o Parlamento Nacional superou parcialmente o veto presidencial aposto
ao decreto da Lei de Imigração e Asilo, aprovando‑o sem adotar todas as mudanças
identificadas pelo Presidente aquando do seu veto por inconstitucionalidade. Nos casos
em que o Parlamento supera um veto por inconstitucionalidade, há sempre o risco de
normas serem posteriormente declaradas inconstitucionais através dos mecanismos de
fiscalização abstrata ou concreta. Veja‑se o Capítulo VI, 3.1. O Processo de Fiscalização
Abstrata Preventiva da Constitucionalidade e da Legalidade.
(106)
Com base no Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc
n.º 01/2005 (2005).
(107)
Com base no Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto de 2008
(Fiscalização Abstrata Sucessiva da Constitucionalidade), Proc.02/2008/TR (Tribunal
de Recurso 2008).
(108)
Com base no Tribunal de Recurso, Acórdão de 11 de Agosto de 2014
(Fiscalização Preventiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/2014/TR
(2014).
(109)
Miranda, Manual de Direito Constitucional — Actividade Constitucional Do
Estado, Tomo V:314. Das Constituições dos países da CPLP, somente na cabo‑verdiana
se encontra expresso no texto constitucional o termo “veto político” (artigo 135.º‑1/s
e 137.º).
Coimbra Editora ®
148
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
político, quando, em 2012, vetou os decretos de Lei sobre o regime das ter‑
ras. (110)
O controlo presidencial representado pela decisão de promulgar ou não o
diploma legislativo representa uma das fases essenciais do procedimento legis‑
lativo. Na prática, a existência jurídica do ato legislativo depende da sua
promulgação pelo Presidente da República, pelo que um diploma legislativo
é incorporado no ordenamento jurídico timorense somente após a promulga‑
ção presidencial. Apesar de a Constituição timorense não conter uma norma
expressa que condicione o valor jurídico de uma lei à promulgação presiden‑
cial, como acontece em Portugal (111), a obrigatoriedade da promulgação, sendo
uma extensão da competência constitucional exclusiva do Presidente da Repú‑
blica, é inequivocamente um condicionalismo legal que está previsto nos
regimentos do Parlamento Nacional (112) e do Conselho de Ministros (113), sendo,
ainda, a assinatura do Presidente da República identificada como um dos
elementos existenciais na Lei n.º 1/2002, de 7 de Agosto (Publicação dos
Atos). (114)
2.5.8 O Procedimento Legislativo
O processo legislativo para a elaboração das leis e decretos‑leis resulta da
aplicação de preceitos constitucionais e regimentais relevantes. Em Timor‑Leste,
o processo legislativo para a elaboração de leis está, na sua maioria, previsto no
(110)
Decreto do Parlamento Nacional n.º 69/II (Regime Especial para a Definição
da Titularidade dos Bens Imóveis) (Cfr. ‘Timor‑Leste: PR Devolve Ao Parlamento Leis
Relativas À Titularidade de Bens Imóveis’, Agência AngolaPress, 23 March 2012, http://
www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/internacional/2012/2/12/devolve‑parla‑
mento‑leis‑relativas‑titularidade‑bens‑imoveis,132b9056‑03fd‑42af‑b1ab‑0d5d1cec066d.
html., disponível em linha, consultado em 28 de Julho de 2014). As principais razões
para o veto incluíam a falta de consenso em questões fundamentais do diploma, a pre‑
visão de uma grande margem para a aquisição de imóveis por parte do Estado e pouca
clareza quanto ao regime das compensações, entre outros.
(111)
Artigo 137.º da Constituição portuguesa.
(112)
Artigo 114.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento do Parla‑
mento Nacional).
(113)
Artigo 11.º da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro
(Regimento do Conselho de Ministros).
(114)
Artigo 9.º‑4 e 10.º‑3.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
149
Regimento do Parlamento Nacional (115), com a Constituição prescrevendo
apenas os titulares da iniciativa de lei, bem como os limites orçamentais e
temporais dos projetos e propostas de lei (116). Por sua vez, o processo legislativo
para a elaboração de decretos‑leis está, praticamente no seu todo, previsto no
Regimento do Conselho de Ministros (117).
A elaboração de leis e decretos‑leis é um processo composto por cinco
fases distintas: (1) fase de iniciativa, (2) fase instrutória, (3) fase constitutiva,
(4) fase de controlo e (5) fase de integração da eficácia. (118)
No que concerne a elaboração de leis, a fase de iniciativa refere‑se à
capacidade de propulsar o processo para a elaboração de lei. Esta fase da
iniciativa, no âmbito da competência legislativa parlamentar, pertence, gené‑
rica e concorrencialmente, aos deputados ou às bancadas parlamentares
(resultando num projeto de lei) e ao Governo (resultando numa proposta de
lei). (119) Todavia, nos casos de lei de autorização legislativa, a iniciativa de lei
cabe apenas ao Governo (120). A fase instrutória é sumariamente representada
Artigos 90.º e seguintes da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento
do Parlamento Nacional)
(116)
Estes limites são: a proibição de aumento das despesas ou diminuição das
receitas do Estado num ano económico em curso, a impossibilidade de renovar, na
mesma sessão legislativa, as propostas ou projetos de lei já rejeitadas e a caducidade
das propostas de lei com a demissão do Governo (artigo 97.º da CRDTL). Vide ainda
Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Constituição Anotada
Da República Democrática de Timor‑Leste, 2011, 330‑331.
(117)
Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro (Regimento do
Conselho de Ministros).
(118)
Inclinamo‑nos para utilizar a sistematização de Gomes Canotilho por ser
particularmente elucidativa. Ver Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da
Constituição, 872‑ss.
(119)
Artigos 97.º‑1 da CRDTL e 90.º e 91.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de
Outubro (Regimento do Parlamento Nacional). A Constituição timorense deixou ao
legislador ordinário a regulamentação das iniciativas legislativas aprovadas no Parlamento
Nacional, ao contrário do que acontece na Constituição portuguesa (artigos 167.º e
168.º) e na Constituição moçambicana (artigo 181.º e ss.).
(120)
Artigo 123.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento do Parla‑
mento Nacional). Sublinhe‑se que, em Timor‑Leste, a constituição não prevê expres‑
samente a iniciativa legislativa dos grupos de cidadãos, contrariamente a Angola
(artigo 167.º‑5 da Constituição angolana), Cabo Verde (artigo 157.º‑1/c da Consti‑
tuição cabo‑verdiana), e Portugal (artigo 167.º‑1 ao 3 da Constituição portuguesa).
(115)
Coimbra Editora ®
150
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
pelo trabalho das comissões permanentes especializadas do Parlamento Nacio‑
nal, às quais compete a “apreciação e elaboração de relatório e parecer” da
proposta ou projeto de lei (121). Para o efeito, a comissão pode realizar audiên­
cias públicas, com entidades públicas e da sociedade civil, para discutir a
matéria legislativa em apreciação (122). A discussão e votação do projeto ou
Outros países que preveem a iniciativa legislativa popular são o Sudão do Sul
(artigo 83.º‑3 da Constituição Transitória do Sudão do Sul de 2011), a Tailândia
(artigo 142.º‑4 da Constituição do Reino da Tailândia de 2007), assim como a Argen‑
tina (artigo 39.º da Constituição da República da Argentina de 1994). Para um maior
aprofundamento sobre a iniciativa legislativa, inclusivamente a iniciativa popular, vide,
Miranda, Manual de Direito Constitucional — Actividade Constitucional Do Estado,
Tomo V:258‑ss.
(121)
Artigo 101.º‑1 do Regimento do Parlamento Nacional. Os artigos 101.º
a 104.º desta mesma Lei lidam com as principais questões deste processo nas comissões
especializadas. O Regimento do Parlamento Nacional prevê a existência de comissões
especializadas permanentes e comissões eventuais (artigos 26.º a 37.º da Lei n.º 15/2009,
de 20 de outubro (Regimento do Parlamento Nacional). As comissões especializadas
são constituídas pelo “Plenário, sob proposta da Mesa, ouvida a Conferência (…) no
prazo de cinco dias após a formação das bancadas parlamentares” (artigo 30.º‑1 da Lei
n.º 15/2009, de 20 de outubro (Regimento do Parlamento Nacional). O Parlamento
Nacional procedeu em 2007, através da Deliberação n.º 4/II, de 7 de Agosto, à criação
de 9 Comissões Especializadas Permanentes a vigorar durante a legislatura
de 2007‑2012: Comissão de Assuntos Constitucionais, Justiça, Administração Pública,
Comissão de Negócios Estrangeiros, Defesa e Segurança Nacionais, Comissão de Eco‑
nomia, Finanças e Anticorrupção, Comissão de Agricultura, Pescas, Florestas, Recursos
Naturais e Ambiente, Comissão de Eliminação da Pobreza, Desenvolvimento Rural e
Regional e Igualdade de Género, Comissão de Saúde, Educação e Cultura, Comissão
de Infraestruturas e Equipamentos Sociais, Comissão de Juventude, Desportos, Traba‑
lho e Formação Profissional, Comissão de Regulação Interna, Ética e Mandato dos
Deputados. Uma vez que a constituição das comissões especializadas permanentes
pertence ao Plenário, a designação, o número e as respetivas competências das comis‑
sões especializadas permanentes poderão sofrer alterações a cada nova legislatura
(artigo 30.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento do Parlamento Nacional).
(122)
As consultas públicas para discussão de matéria legislativa em apreciação
são, na sua maioria, opcionais. Nestes casos, a decisão de realização de audiências
públicas é tomada exclusivamente pela comissão através de maioria absoluta dos Depu‑
tados presentes e mediante votação ordinária (artigo 80.º da Lei n.º 15/2009, de 20
de Outubro (Regimento do Parlamento Nacional). Uma das exceções são as propostas
ou projetos de lei sobre a legislação laboral, relativamente aos quais a comissão possui
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
151
proposta de lei representam os atos principais da fase constitutiva, sendo, na
prática, os passos verdadeiramente decisórios deste processo. Em Timor‑Leste,
seguindo a prática portuguesa, o processo comum legislativo possui três tipos
de votação: votação na generalidade, votação na especialidade e votação final
global (123). Em Plenário, inicia‑se a fase constitutiva com a discussão e vota‑
ção do projeto ou proposta de lei na generalidade (124). A votação na genera‑
lidade incide “sobre a oportunidade e sentido global do projeto ou proposta
de lei” (125). Após a aprovação na generalidade, os projetos ou propostas de
lei devem ser apreciados na especialidade. Em matérias relacionadas com a
competência legislativa geral e relativa (artigos 95.º‑1 e 96.º da CRDTL), o
Plenário decide se a votação na especialidade de um projeto ou proposta de
lei será feita pela comissão competente em razão da matéria, ou em Plenário,
constituindo esta última a prática mais comummente usada nas duas primei‑
ras legislaturas (126). Todavia, se estiver em causa uma matéria constante da
competência legislativa parlamentar exclusiva prevista no artigo 95.º‑2 e 3
da CRDTL, que inclui a competência legislativa na área dos direitos funda‑
mentais, a discussão e votação na especialidade devem ser realizadas em
Plenário, exceto por deliberação contrária do Plenário (127). A votação na espe‑
o dever de “promover a apreciação do projecto ou da proposta de lei pelas organizações
sindicais ou patronais e o Governo” (artigo 102.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outu‑
bro (Regimento do Parlamento Nacional).
(123)
Ressalta‑se que, em Timor‑Leste (como em Angola, São Tomé e Príncipe e
Guiné Bissau), a determinação dos diferentes níveis de votação não está prescrita
constitucionalmente. O contrário acontece nas Constituições de Moçambique
(artigo 184.º), Cabo Verde (artigo 160.º) e Portugal (artigo 168.º). Em Cabo Verde
existem dois níveis de votação — na generalidade e especialidade —, estando prevista
uma votação final global relativamente às leis de referendo.
(124)
Artigos 105.º a 107.º‑1 da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento
do Parlamento Nacional).
(125)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 876. Ver
Miranda, Manual de Direito Constitucional — Actividade Constitucional Do Estado,
Tomo V:295‑ss.
(126)
Artigos 107.º‑2 e 109.º e 110.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro
(Regimento do Parlamento Nacional).
(127)
Artigos 108.º a 110.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento
do Parlamento Nacional). O artigo 108.º‑2 do Regimento do Parlamento Nacional
admite, contudo, uma exceção ao permitir que a discussão e votação na especialidade
de uma proposta ou projeto de lei que verse sobre as matérias elencadas no artigo 95.º‑2
Coimbra Editora ®
152
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
cialidade é uma etapa de grande importância neste processo, pois é nesta
etapa que é votada a redação específica dos artigos, assim se determinando
as “soluções concretas a aprovar no texto da norma” (128). Após aprovação na
especialidade, o Parlamento Nacional embarca na votação global final. Esta
“concentra‑se no texto apurado na especialidade, fazendo‑se um juízo defi‑
nitivo e final sobre o projeto ou proposta de lei” (129). Esta votação dá‑se
exclusivamente em Plenário (130). O tempo e o uso da palavra nas discussões,
assim como os mecanismos de votação são cabalmente previstos no regimento
parlamentar. (131)
O cumprimento das regras previstas no Regimento do Parlamento Nacio‑
nal deve ser rigorosamente assegurado, sob pena da “nulidade de qualquer
decisão que contrarie a norma regimental” (132). É facultada aos deputados a
possibilidade de recorrer para o Plenário das decisões do Presidente do Parla‑
mento ou da Mesa sempre que aquelas decisões tenham como consequência
a violação das disposições regimentais (133). Visto que o regimento do Parla‑
e 3 da CRDTL seja feita em Comissão e não em Plenário como determina a regra
geral constante do n.º 1 do artigo 108.º do Regimento. Neste caso, são impostos alguns
requisitos: a deliberação é tomada em Plenário, a requerimento de um ou mais depu‑
tados, e não se aplica à apreciação da proposta de lei do Plano e do Orçamento Geral
do Estado. A proposta de lei do Plano e do Orçamento Geral do Estado segue na
generalidade os trâmites processuais dos demais diplomas, excetuando‑se a obrigato‑
riedade de discussão e votação na especialidade em Plenário e os prazos concedidos
para discussão e votação que, por razões que se prendem com a sua importância, são
mais extensos (artigos 162.º a 180.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento
do Parlamento Nacional). A apresentação de proposta do Orçamento Geral do Estado
está reservada ao Governo (artigo 145.º da CRDTL).
(128)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 876.
(129)
Ibid.
(130)
Artigos 111.º a 113.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento
do Parlamento Nacional).
(131)
Artigos 57.º ‑ss e artigos 67.º‑ss Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regi‑
mento do Parlamento Nacional).
(132)
Artigo 197.º‑1/c da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento do
Parlamento Nacional).
(133)
Artigo 66.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento do Parla‑
mento Nacional). O Tribunal de Recurso, no seu Acórdão de 27 de Outubro de 2008
(Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR,
29 (2008), 29., remete para o Regimento do Parlamento Nacional a resolução das
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
153
mento Nacional não representa uma “lei reforçada”, e “não obstante o Regi‑
mento ser um acto normativo directamente executor da Constituição, a sua
violação não configura um caso de ilegalidade sujeito a controlo jurisdicio‑
nal” (134). Note‑se, no entanto, que a violação de um aspeto procedimental no
processo legislativo previsto na Constituição resultaria claramente numa
inconstitucionalidade formal (135). Exemplos de normas procedimentais pre‑
vistas na Constituição são as normas relativas à iniciativa de lei, aos prazos
para apreciação legislativa e ao requerimento específico de uma votação qua‑
lificada às leis referendárias. (136)
A fase de controlo, enquanto etapa do procedimento legislativo de uma lei,
tem como objetivo a realização de uma avaliação “do mérito e da conformidade
constitucional do ato legislativo” (137). Esta fase relaciona‑se com o processo de
promulgação presidencial do decreto (138), o qual representa um requisito para
a validade do ato legislativo, questão essa já abordada anteriormente.
A última fase, a fase de integração de eficácia, engloba, na prática, a publi‑
cidade da lei promulgada pelo Presidente da República (139). A ausência de uma
publicação no Jornal da República resultaria na ineficácia jurídica do ato legis‑
lativo (artigo 73.º‑2 da CRDTL) (140).
irregularidades resultantes da violação das disposições regimentais pelo Presidente do
Parlamento ou pela Mesa através do recurso para o Plenário, declarando que não lhe
compete “a fiscalização dos outros órgãos de soberania mas apenas os seus actos legis‑
lativos e normativos”.
(134)
Ibid., 28. Ver Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Cons‑
tituição, 857. Sobre as leis reforçadas no ordenamento jurídico timorense, ver, Capí‑
tulo II, 2.8 Constituição e Ordenamento Jurídico.
(135)
Vide, Capítulo VI, 3. A Justiça Constitucional.
(136)
Respetivamente, artigos 97.º, 98.º e 66.º‑2 da Constituição.
(137)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 877.
(138)
“Decreto” é a denominação atribuída à futura lei ou ao futuro decreto‑lei,
já aprovados e enviados ao Presidente da República para promulgação. O Regimento
do Parlamento Nacional define como “decreto” “o texto [aprovado na votação final
global] sobre o qual não tenham recaído reclamações ou depois de elas terem sido
decididas” (artigo 113.º‑3 da Lei n.º 15/2009, de 20 de outubro (Regimento do Par‑
lamento Nacional).
(139)
Artigo 114.º da Lei n.º 15/2009, de 20 de Outubro (Regimento do Parla‑
mento Nacional).
(140)
Vide Artigo 5.º‑1 da Lei n.º 1/2002, de 7 de Agosto (Publicação dos Atos).
Coimbra Editora ®
154
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Em relação aos decretos‑leis, a fase de iniciativa é representada pela sub‑
missão de uma proposta de decreto‑lei por um (ou mais) dos ministros mem‑
bros do Conselho de Ministros. Da fase instrutória fazem parte o processo de
pareceres ministeriais, sempre que estejam em causa determinadas matérias
relacionadas com as diferentes competências ministeriais (141) e a apreciação
preliminar pela Secretária de Estado do Conselho de Ministros (142). Da apre‑
ciação preliminar resultará a devolução do projeto, quando não tenha sido
observado algum requisito, ou a circulação do diploma antes do seu agenda‑
mento em sede de Conselho de Ministros, quando o projeto não sofra de
qualquer irregularidade (143). O Conselho de Ministros pode ainda criar comis‑
sões ad hoc com o objetivo de analisar os projetos legislativos (144). Como parte
do procedimento legislativo do Conselho de Ministros não se encontra previsto
um processo de consultas públicas, como acontece com o processo legislativo
parlamentar. Muito embora não constitua uma prática sistemática, nem um
É necessário solicitar um parecer ao Ministro das Finanças quando os pro‑
jetos legislativos do Governo “envolvam aumento de despesas, diminuição de receitas
ou criação ou transformação da natureza jurídica de serviços da Administração”
(artigo 24.º da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro (Regimento
do Conselho de Ministros)), ao Ministro da Administração Estatal quando as propos‑
tas “versem sobre descentralização e poder local” (artigo 25.º), ao Ministro dos Negó‑
cios Estrangeiros, quando os projetos envolvam matérias relacionadas com as relações
internacionais, cooperação e a promoção e defesa dos interesses dos timorenses no
exterior (artigo 23.º) e à Comissão da Função Pública quando as propostas “versem
sobre a estrutura, organização e funcionamento da função pública” (artigo 26.º).
(142)
Artigos 29.º e seguintes da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27
de Fevereiro (Regimento do Conselho de Ministros),
(143)
Artigo 31.º da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro
(Regimento do Conselho de Ministros).
(144)
Artigo 8.º da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro
(Regimento do Conselho de Ministros). O Conselho de Ministros poderá ainda, em
virtude deste mesmo artigo, criar comissões para coordenar assuntos pertinentes. Até
à presente data, não há conhecimento da criação de uma comissão para análise de um
projeto de lei específico, todavia, foram já criadas várias comissões para a coordenação
de assuntos tidos como relevantes como, por exemplo, a Comissão de Avaliação da
Polícia Nacional de Timor‑Leste, criada pelo Conselho de Ministros através da Reso‑
lução do Governo n.º 3/2006, de 31 de Agosto; a Comissão de Negociação da Con‑
cordata entre Timor‑Leste e a Santa Sé, criada pelo Conselho de Ministros através da
Resolução do Governo n.º 7/2006, de 15 de Novembro.
(141)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
155
requisito legal no Regimento do Conselho de Ministros, os ministros, antes da
submissão do projeto legislativo ao Conselho de Ministros, têm procedido, em
um certo número de casos, a um processo de consulta pública para a recolha
de comentários ao texto do projeto legislativo, prática que representa o exercí‑
cio do direito de participação na vida política e assuntos públicos do país (145).
A fase constitutiva no processo de elaboração de um decreto‑lei é de verdadeira
simplicidade, quando comparada com os três níveis de votação no processo
legislativo parlamentar. Assim, a aprovação resulta de uma votação pelos mem‑
bros do Conselho de Ministros, em que o Primeiro‑Ministro tem um voto de
qualidade em caso de empate, sendo que se pretende atingir o consenso entre
os seus membros. (146)
As fases de controlo e de integração da eficácia no processo legislativo gover‑
namental são essencialmente as mesmas presentes no processo parlamentar,
sendo a promulgação presidencial (147) e a publicação no Jornal da República (148)
os principais elementos destas etapas.
O procedimento legislativo para a aprovação de um decreto‑lei, ora
apresentado, é também aplicado, com as devidas adaptações, às propostas de
lei a serem enviadas pelo Governo ao Parlamento Nacional. (149)
(145)
Por exemplo, o Ministério da Justiça apresenta no seu site público da Inter‑
net uma ligação para consultas públicas sobre propostas legislativas elaboradas pelo
Ministério, como foi o caso do anteprojeto para o Código da Criança (disponível em
linha no http://www.mj.gov.tl/?q=node/244, consultado em 11 de Março de 2014).
É comum, ainda, a realização de audiências públicas para a recolha direta de opiniões
sobre esboços de futuros projetos ou propostas legislativas, como ocorreu com o ante‑
projeto da Lei de Terras (vide ‘MJ Realiza Konsulta Públiku Ba Lei Terras Iha Distritu’,
Boletim de Impressa Do Ministério Da Justiça, July 2009, http://www.mj.gov.
tl/?q=node/163., disponível em linha no http://www.mj.gov.tl/?q=node/163, consultado
em 11 de Março de 2014).
(146)
Artigo 6.º da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro
(Regimento do Conselho de Ministros).
(147)
Artigo 85.º/a da CRDTL.
(148)
Artigo 11.º‑2 da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro
(Regimento do Conselho de Ministros) e Artigo 5.º‑1 da Lei n.º 1/2002, de 7 de Agosto
(Publicação dos atos). Nota‑se que o período entre a publicação de um diploma legal
e a sua entrada em vigor é comummente denominado de vacatio legis.
(149)
Artigo 33.º da Resolução do Governo n.º 08/2013, de 27 de Fevereiro
(Regimento do Conselho de Ministros).
Coimbra Editora ®
156
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
2.6 Estrutura Judiciária
Os tribunais figuram como um dos quatro órgãos de soberania do Estado
de Timor‑Leste (artigo 67.º da Constituição). “Administrar a justiça em nome
do povo” representa o núcleo da sua função jurisdicional (artigo 118.º‑1 da
CRDTL).
É atribuída aos tribunais, através da função dos juízes, a exclusividade da
competência jurisdicional, vedando, desta forma, o exercício de uma justiça
privada (artigo 121.º‑1 da CRDTL). A lei deve, com isto, ser “aplicada por
uma autoridade pública dotada de garantia de imparcialidade e independência
e capacidade para uma aplicação objetiva e correta do Direito” (150). É esta
previsão constitucional de exclusividade do poder jurisdicional que, em
Timor‑Leste, impede o reconhecimento das decisões dos líderes de comunida‑
des realizadas seguindo os costumes tradicionais, como uma decisão de
Direito (151).
É imposto aos tribunais um dever de não aplicar qualquer norma contrária
à Constituição (artigo 120.º da CRDTL). Este poder‑dever, denominado de
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 261.
(151)
Esta questão foi já analisada pelo Tribunal de Recurso num acórdão em
relação a um recurso de natureza civil em 2010. O Tribunal de Recurso explicou o seu
entendimento deste preceito constitucional em relação ao papel dos líderes da comu‑
nidade ao considerar que "a resolução coerciva de conflitos está reservada aos tribunais,
por imperativo constitucional — artigo 123, n. 1, da Constituição da RDTL
[e artigo 118.º‑1 da CRDTL]. Assim, resta aos líderes comunitários intervir na reso‑
lução amigável dos conflitos através de mediação, com vista a aproximar as partes em
litígio e obter uma solução consensual para os mesmos (…) Existe um vasto campo
de intervenção, nomeadamente na área da mediação, onde se pode e deve continuar
a aproveitar a proximidade e relevância social dos líderes comunitários. O que é preciso
é que os líderes comunitários e os cidadãos que a eles recorram sejam informados (a)
de que os primeiros apenas podem apresentar às partes em litígio propostas de resolu‑
ção e não dar decisões, (b) de que as partes em litígio não estão obrigadas a acatar a
proposta e podem sempre recorrer aos tribunais para resolução do litígio caso não
aceitem a proposta, e (c) de que há matérias em relação às quais o litígio terá que ser
resolvido necessariamente por decisão judicial, por legalmente estarem subtraídas à
livre disposição das partes." Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Março de 2010,
Proc. n.º 10/CIV/09/TR, 4‑5 (Tribunal de Recurso 2010). Ver também Tribunal de
Recurso, Acórdão de 3 de julho de 2013, Proc. n.º 65/CO/2013/TR, 7‑9.
(150)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
157
controlo difuso da constitucionalidade, deriva diretamente dos princípios funda‑
mentais da Constituição, nomeadamente, da supremacia da Constituição
(artigo 2.º‑1 da CRDTL) e a consequente conformidade constitucional funciona
como critério para a validade das leis (artigo 2.º‑2 da CRDTL). Daquela norma
decorre, na prática, que um juiz deve identificar e analisar as questões de cariz
constitucional que o processo que tem em mãos suscita (152). Mostra‑se evidente
que este dever constitucional fortalece, ainda, o princípio da aplicabilidade direta
das normas constitucionais, inclusivamente, dos preceitos constitucionais que
consagram os direitos fundamentais. (153)
Ao analisar a organização judiciária de Timor‑Leste, é essencial considerar a
estrutura prevista na Constituição, assim como a estrutura provisoriamente em fun‑
cionamento por força do artigo 163.º da Constituição. (154)
A Constituição estabelece três categorias distintas de tribunais: o Supremo
Tribunal de Justiça e outros tribunais judiciais, o Tribunal Superior Adminis‑
trativo, Fiscal e de Contas e tribunais administrativos de primeira instância e
os tribunais militares (de primeira instância) (artigo 123.º‑1). Tribunais marí‑
timos e arbitrais podem, ainda, fazer parte da organização judiciária, caso seja
esta a vontade do legislador. (155)
Ao determinar a criação de diferentes categorias de tribunais, a Constituição
identifica também a competência de cada uma delas, prevendo áreas de reservas
especiais de jurisdição. Por exemplo, a administração da justiça “em matérias de
natureza jurídico‑constitucional e eleitoral” é reservada ao Supremo Tribunal de
Justiça (artigo 124.º‑2), enquanto ao Tribunal Superior Administrativo, Fiscal e de
Contas é atribuída a “fiscalização da legalidade das despesas públicas e o julgamento
das contas do Estado” (artigo 129.º‑3), e os “crimes de natureza militar” caracteri‑
zam a jurisdição especial dos tribunais militares (artigo 120.º‑1). Apesar de encon‑
trarmos no texto constitucional claras e separadas reservas de jurisdição, Gomes
Ver, Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa
Anotada, 2010, II (Artigo 108.º a 296.º):519; Jorge Miranda e Rui Medeiros, Consti‑
tuição Portuguesa Anotada, Tomo III (Coimbra: Coimbra Editora, 2007), 48‑ss.
(153)
Vide Capítulo III, 4. Efetividade dos Direitos Fundamentais.
(154)
No artigo 163.º‑2 lê‑se: “[a] organização judiciária existente em Timor‑Leste
no momento da entrada em vigor da constituição mantém‑se em funcionamento até
à instalação e início em funções do novo sistema judiciário.”
(155)
Artigos 123.º‑3 da CRDTL. A legislação sobre a organização judiciária é da
competência relativa do Parlamento Nacional (artigo 96.º‑1/c). Ver, supra, Capítulo II
2.5.3 A reserva Relativa da Competência Exclusiva do Parlamento Nacional.
(152)
Coimbra Editora ®
158
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Canotilho, a propósito do caso português, chama‑nos a atenção para o facto de
que, na prática, a “demarcação das reservas especiais perante a reserva geral nem
sempre é fácil” (156).
O Supremo Tribunal de Justiça é o mais alto tribunal judicial de
Timor‑Leste. Não foi contemplado um tribunal com competência exclusiva‑
mente constitucional, tendo sido atribuída ao Supremo Tribunal de Justiça
(STJ) a competência constitucional e eleitoral, assim como a competência de
recurso judicial. Com base nesta fórmula orgânica‑material, a jurisdição cons‑
titucional encontra‑se integrada na jurisdição ordinária. Esta estrutura representa
um cenário bastante diferente dos outros países da CPLP (157) e países com
reformas constitucionais recentes (158).
Um aspeto particularmente importante sobre a competência do STJ é o
facto de que este representa a única instância judicial de recurso na jurisdição
ordinária timorense (artigo 125.º‑1/b da Constituição) (159). A jurisdição de
recurso está prevista nos códigos processuais civis e penais. Por força do código
de processo penal, o STJ deve ter uma secção criminal especializada com juris‑
dição para julgar a vasta maioria dos recursos criminais, assim como conhecer
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 676. Por
existirem estas dificuldades, a legislação processual contém regras para a identificação
da competência do tribunal e para a resolução de conflitos de competências entre
diferentes tribunais (por exemplo, artigo 69.º‑ss do Código de Processo Civil).
(157)
São Tomé e Príncipe (artigos 126.º‑127.º e 131.º‑ss da Constituição
são‑tomense) e Cabo Verde. Note‑se que o Tribunal Constitucional foi incorporado
na estrutura judiciária cabo‑verdiana como resultado da revisão constitucional de 2010
(Lei n.º 1/VII/2010, de 3 de Maio). Enquanto o Tribunal Constitucional não estiver
em funcionamento as suas funções são exercidas pelo Supremo Tribunal de Justiça
(artigo 294.º‑ss Constituição cabo‑verdiana).
(158)
Como é o caso da Croácia cuja Constituição de 1990 (com alterações
até 2010) prevê a existência de um Tribunal Constitucional e de um Supremo Tribunal
(artigos 119.º‑ss). Ainda, a Constituição Interina da África do Sul de 1993 também
previa a existência destas duas instâncias judiciais (artigos 98.º‑ss).
(159)
Note‑se que, apesar de existir somente um nível de recurso, o Código de
Processo Civil prevê a possibilidade de solicitar ao tribunal de primeira instância um
esclarecimento sobre ambiguidades ou obscuridades contidas na decisão ou arguir nuli‑
dades sobre a decisão de recurso (perante o mesmo tribunal de recurso), desta forma
minimizando o impacto da existência de somente um nível de recurso (artigo 417.º
e 463.º do Código de Processo Civil).
(156)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
159
dos pedidos de habeas corpus e de extradição, entre outros (160). O STJ é também
o tribunal de segunda instância para os recursos das decisões judiciais dos
tribunais distritais em matéria civil (artigo 52.º‑3 do Código de Processo
Civil) (161). A existência de um único nível de recurso em Timor‑Leste, embora
em conformidade com os padrões de direitos humanos aplicáveis a um processo
equitativo, revelou, por vezes, ser um desafio para o sistema judicial nascente
no país. Em 2003, por exemplo, como reação direta a uma decisão do Tribunal
de Recurso, atuando na qualidade de STJ, o Parlamento Nacional aprovou
uma lei de interpretação autêntica sobre a questão da lei subsidiária aplicável
em Timor‑Leste (162). Sem entrar no mérito da questão em causa e reconhecendo
que uma interpretação autêntica pelo Parlamento Nacional não resulta neces‑
sariamente numa violação da reserva da competência jurisdicional, esta expe‑
riência mostrou que, em Timor‑Leste, podem ocorrer tensões como resultado
direto da dependência de um único tribunal com competência de recurso e
composto por uma secção de somente três juízes. Neste domínio, Gomes
Canotilho sublinha que a aprovação de leis que expressamente determinam a
interpretação a ser dada pelos juízes dá origem habitualmente a questionamen‑
tos sobre uma possível ingerência do legislador na reserva de jurisdição (163).
Parece‑nos não haver uma proibição expressa, por parte da Constituição,
quanto ao futuro estabelecimento de uma organização judiciária com mais de
um nível de recurso. Assim, é possível que uma lei que venha alterar a atual
(160)
Esta mesma secção criminal serve ainda como tribunal de primeira instân‑
cia para o julgamento dos magistrados judiciais e magistrados do Ministério Público.
Os recursos destas decisões são da competência do plenário do STJ (artigo 12.º‑2/a
e b do Código de Processo Penal).
(161)
Sendo o STJ o tribunal de segunda instância na jurisdição ordinária, este
possui a competência residual de recurso. Na prática, significa que tudo o que não
figure na competência do Tribunal Superior Administrativo, Fiscal e de Contas é da
competência do STJ.
(162)
Lei n.º 10/2003, de 10 de Dezembro (Interpretação do artigo 1.º da Lei
n.º 2/2002, de 7 de Agosto e Fontes de Direito). O artigo 1.º — interpretação autên‑
tica lê‑se: “Entende‑se por legislação vigente em Timor‑Leste em 19 de Maio de 2002,
nos termos do disposto no artigo 1.º da Lei n.º 2/2002, de 7 de Agosto, toda a legis‑
lação indonésia que era aplicada e vigorava “de facto” em Timor‑Leste, antes do dia 25
de Outubro de 1999, nos termos estatuídos no Regulamento n.º 1/1999 da UNTAET”.
(163)
Sobre a relação da reserva da função jurisdicional e o legislador, ver Gomes
Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 673‑675.
Coimbra Editora ®
160
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
organização judiciária possa adicionar um nível de recurso adicional, sendo
que, para tal, seria necessário uma efetiva alteração dos códigos processuais civil
e penal.
O Supremo Tribunal de Justiça possui ainda competência na área consti‑
tucional e eleitoral (artigos 124.º‑2 e 126.º da Constituição). A sua competên‑
cia constitucional inclui a apreciação e declaração da inconstitucionalidade e
ilegalidade dos atos legislativos e normativos dos órgãos do Estado, a verifica‑
ção da inconstitucionalidade por omissão e a fiscalização concreta da constitu‑
cionalidade (artigos 149.º ao 153.º da CRDTL). Adianta‑se que a competên‑
cia para apreciar a fiscalização concreta da constitucionalidade é de natureza
subsidiária, uma vez que o STJ apenas conhece de tais questões em sede de
recurso, como prevê o artigo 152.º da Constituição. Nos outros mecanismos
de garantia da constituição, o acesso ao STJ dá‑se diretamente. A competência
eleitoral deste mesmo tribunal contempla, entre outras, a verificação da lega‑
lidade dos partidos políticos (artigo 126.º‑1/f), a verificação dos requisitos dos
candidatos à Presidência da República (artigo 126.º‑2/a), a apreciação da regu‑
laridade e validade dos atos do processo eleitoral (artigo 126.º‑2/b) e a validação
e proclamação dos resultados dos processos eleitorais (artigo 126.º‑2/c) (164).
O Supremo Tribunal de Justiça ainda não se encontra em funcionamento,
em virtude da falta de juízes nacionais que preencham o critério de qualificação
e experiência previsto na lei (165). Até à formação deste, a sua competência é
(164)
Cfr. Artigo 3.º da Lei n.º 5/2006, de 28 de Dezembro (com as alterações
decorrentes da Lei n.º 6/2011 de 22 de Junho) (Órgãos da Administração Eleitoral),
assim como artigo 25.º‑1 da Lei n.º 6/2006, de 28 de Dezembro (com as alterações
decorrentes da Lei n.º 6/2007 de 31 de Maio, Lei n.º 7/2011 de 22 de Junho e Lei
n.º 1/2012, de 13 de Janeiro) (Lei eleitoral para o Parlamento Nacional) e artigos 16.º,
19.º a 26.º, 43.º, 47.º, 48.º, 50.º e 65.ºA da Lei n.º 7/2006, de 28 de Dezembro (com
as alterações decorrentes da Lei n.º 5/2007 de 28 de Março, Lei n.º 8/2011 de 22
de Junho, da Lei n.º 2/2012 de 13 de Janeiro e da Lei n.º 7/2012 de 1 de Março) (Lei
eleitoral para o Presidente da República).
(165)
Os critérios de qualificação dos conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça
estão previstos no artigo 29.º da Lei n.º 8/2002, de 20 de Setembro (Estatuto dos
Magistrados Judiciais), (com as alterações decorrentes da Lei n.º 11/2004, de 29
de Dezembro). A constituição identifica a nacionalidade timorense como um dos
critérios para os conselheiros do STJ (artigo 127.º‑1). Nota‑se que o critério constitu‑
cional de nacionalidade timorense não é imposto aos juízes de outros tribunais da
organização judiciária timorense. À exceção do STJ, é valido, relativamente aos outros
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
161
delegada à “instância judicial máxima da organização judiciária existente em
Timor‑Leste” (artigo 164.º‑2 da Constituição). Por força desta norma, o atual
Tribunal de Recurso, estabelecido pelo Regulamento da UNTAET n.º 11/2000,
de 6 de Março, exerce todas as funções constitucional e legalmente mandatadas
ao STJ.
A Constituição estipula ainda a criação de “outros tribunais judiciais”,
para além do STJ. A concretização desta norma é, presentemente, representada
pelos tribunais distritais, inicialmente previstos pela organização judiciária
transitória, e posteriormente reconhecidos pelos códigos processuais penal e
civil. Timor‑Leste possui atualmente quatro tribunais distritais (artigo 7.º‑1 do
Regulamento da UNTAET n.º 11/2000, de 6 de Março, alterado pelo Regu‑
lamento n.º 25/2001, de 14 de Setembro (166)).
A Constituição atribui ao Tribunal Superior Administrativo, Fiscal e de
Contas (TSAFC) e tribunais administrativos e fiscais de primeira instância a
competência jurisdicional nas áreas administrativa, fiscal e de contas
(artigo 129.º). Dentro da sua competência relativa às contas estatais, o TSAFC
atua como instância única para a fiscalização da “legalidade das despesas públi‑
cas e o julgamento das contas do Estado” (artigo 129.º‑3 da Constituição). É
nos tribunais administrativos que são julgados os “recursos contenciosos inter‑
postos das decisões dos órgãos do Estado e seus agentes” (artigo 129.º‑4/b da
Constituição).
A competência de um tribunal superior único em três áreas — administra‑
tiva, fiscal e de contas — não representa uma estrutura judiciária comummente
utilizada nas jurisdições dos países da CPLP ou de outros países com uma
população em número aproximado ao da população de Timor‑Leste (167). Simi‑
tribunais, a nomeação de juízes internacionais até quando necessário na opinião do
Conselho Superior da Magistratura Judicial (artigo 111.º da Lei n.º 8/2002, de 20
de Setembro (Estatuto dos Magistrados Judiciais).
(166)
Inicialmente foram previstos oito tribunais distritais no Regulamento da
UNTAET n.º 11/2000. Em 2001, este diploma foi alterado pelo Regulamento da
UNTAET n.º 25/2001, de 14 de Setembro, que determinou, entre as alterações, uma
diminuição para a metade o número dos tribunais distritais, fixando em quatro tribu‑
nais distritais, distribuídos por Baucau, Suai, Oecússi e Díli.
(167)
Por exemplo, em Moçambique, a Constituição prevê um Tribunal Superior
Administrativo com competência nas áreas administrativas, fiscais e aduaneiras
(artigo 228.º‑1 da Constituição moçambicana). Em São Tomé e Príncipe, por sua vez,
não existe um Tribunal superior específico administrativo, mas sim um Supremo Tri‑
Coimbra Editora ®
162
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
larmente ao STJ, adianta‑se que a união destas três jurisdições num tribunal
superior único parece resultar da adequação da arquitetura judicial à realidade
em que Timor‑Leste se encontrava aquando da adoção da Constituição em
2002.
Atualmente, o TSAFC ainda não se encontra em plena atividade. Por força
das disposições transitórias constitucionais, as suas competências são exercidas
pelo Tribunal de Recurso. Em 2009, através da Lei No. 13/2009, de 21 de
Outubro (Lei do Orçamento e Gestão Financeira), estabeleceu‑se o processo
para a fiscalização das contas do Estado. Ao TSAFC caberá o dever de subme‑
ter um parecer legal sobre as contas do Estado num prazo de 30 dias a partir
da submissão das mesmas pelo Governo (artigo 42.º‑2 da Lei No. 13/2009,
de 21 de Outubro) (168), tendo sido criada uma câmara especializada no TSAFC
para realizar esta tarefa (169).
A Constituição prescreve claramente o estabelecimento de tribunais
administrativos de primeira instância (artigo 123.º‑1/b). Face à ausência de
uma concretização legal que estabeleça estes tribunais, os atuais tribunais
distritais são competentes para julgar processos de natureza administrativa
em virtude da sua competência jurisdicional residual (170). A imposição cons‑
bunal de Justiça e um tribunal de contas (artigo 109.º da Constituição são‑tomense).
Em Portugal, a Constituição estabelece um Supremo Tribunal Administrativo sem
prescrever a criação de tribunais administrativos de primeira instância, tendo o legis‑
lador a competência para a criação dos tribunais centrais administrativos e os tribunais
administrativos de círculo (Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro (com as sucessivas
alterações, que estabelece o Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais).
(168)
Como consequência, em 2009, o Tribunal de Recurso elaborou, pela pri‑
meira vez, um parecer sobre as contas gerais do Estado, ver, Parecer de 28 de Outubro
de 2010 (Parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2009), Processo n.º 01/P.CGE/
/2010/TR.
(169)
Lei n.º 9/2011, de 17 de Agosto (Orgânica da Câmara de Contas do Tri‑
bunal Superior Administrativo, Fiscal e de Contas) (com as alterações decorrentes da
Lei n.º 3/2013).
(170)
Artigo 8.º‑1 do Regulamento da UNTAET n.º 11/2001, de 6 de Março
prevê: “[o]s Tribunais Distritais terão competência para decidir sobre todas as matérias
na qualidade de Tribunais de primeira instância, sujeitos ao Artigo 9 do presente
Regulamento”. O artigo 9.º relaciona‑se com o estabelecimento de uma secção espe‑
cífica no Tribunal Distrital de Díli com a competência exclusiva para o julgamento em
primeira instância dos crimes graves cometidos antes de Outubro de 1999.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
163
titucional de criação de tribunais administrativos de “primeira inatância é uma
solução original da CRDTL, quando comparada com as constituições dos
países africanos da CPLP. Assim, em nenhum dos países Africanos da CPLP,
nem mesmo naqueles com uma população superior a 10 milhões de habitan‑
tes, como é o caso de Angola e Moçambique, se prevê expressamente na
Constituição o estabelecimento de tribunais administrativos ‘de primeira
instância’, sendo a criação destes uma faculdade do poder legislativo. O mesmo
acontece em alguns países pequenos ou médios e países pós‑conflito, como o
Trinidade e Tobago, a Croácia, o Nepal e a Bósnia‑Herzegovina. Ainda, dos
países com menos população da CPLP (São Tomé e Príncipe, Cabo Verde
e Guiné‑Bissau), somente o legislador da Guiné‑Bissau decidiu, em 2002,
pelo estabelecimento de tribunais administrativos de primeira instância (171).
Todavia, estes tribunais nunca foram concretizados, tendo a organização
judicial administrativa sido reformada em 2011 e tendo o legislador optado
por uma estrutura mais simplificada do que a de tribunais administrativos
dispersos territorialmente (172). Ante o panorama apresentado sobre a realidade
judicial administrativa noutros países comparáveis a Timor‑Leste, parece‑nos
que a decisão do constituinte de estabelecer duas instâncias de especialização
administrativa é interessante, tendo em conta o tamanho do país, a corres‑
pondente dimensão da administração pública e o recurso limitado de magis‑
trados judiciais (173).
A jurisdição administrativa, mais especificamente o contencioso admi‑
nistrativo, representa um instrumento valioso para a tutela dos direitos fun‑
damentais, já que muitas violações de direitos fundamentais resultam de atos
administrativos. Em Portugal, por exemplo, a tutela dos direitos fundamentais
é expressamente mencionada como uma das áreas da jurisdição do tribunal
administrativo (174). Observa‑se ainda que, em alguns países, a legislação pro‑
Cfr. Lei n.º 3/2002, de 20 de Novembro (Lei Orgânica dos Tribunais). Cfr.
também em Moçambique a Lei n.º 25/2009, de 28 de Setembro, que estabelece a
criação de tribunais administrativos de primeira instância em cada província.
(172)
Guiné Bissau, Lei n.º 16/2011 (Lei Orgânica do Tribunal Administrativo
da Guiné‑Bissau).
(173)
Acrescenta‑se que o esboço da Constituição de Dezembro de 2001 já con‑
tinha uma norma quase idêntica ao artigo 123.º da Constituição de 2002.
(174)
Artigo 4.º‑1/a da Lei portuguesa n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro (Estatuto
dos Tribunais Administrativos e Fiscais), que prevê a competência destes tribunais que
tenham por objeto a “[t]utela de direitos fundamentais, bem como dos direitos e
(171)
Coimbra Editora ®
164
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
cessual administrativa prevê, para além de uma ação administrativa comum,
um processo específico para a tutela dos direitos fundamentais, como a inti‑
mação para proteção de direitos, liberdades e garantias na legislação de Por‑
tugal (175).
Até à data, não foi elaborada em Timor‑Leste independente uma legislação
específica para o contencioso administrativo (176). Como será posteriormente
analisado, a legislação indonésia é reconhecida como legislação subsidiária em
Timor‑Leste (177). Havendo no ordenamento jurídico Indonésio uma legislação
específica sobre o contencioso administrativo, esta é a legislação aplicável para
resolver os diferendos jurisdicionais administrativos (178). Na Indonésia, o con‑
tencioso administrativo é regulado pela Lei No. 5 de 1986, de 29 de Dezembro
(Tribunais Administrativos — Peradilan Tata Usaha Negara), a qual prevê as
questões de jurisdição material administrativa assim como as peças processuais
e os prazos aplicáveis (179).
interesses legalmente protegidos dos particulares directamente fundados em normas de
direito administrativo ou fiscal ou decorrentes de actos jurídicos praticados ao abrigo
de disposições de direito administrativo ou fiscal”.
(175)
Artigo 109.º‑ss. da Lei portuguesa n.º 15/2002, de 22 de Fevereiro, alterada
pela Lei n.º 4‑A/2003, de 19 de Fevereiro (Código de Processo nos Tribunais Admi‑
nistrativos). Ver, entre muitos, Carla Amado Gomes, ‘Pretexto, Contexto e Texto da
Intimação para Protecção de Direitos, Liberdades e Garantias’, in Estudos em homena‑
gem ao Prof. Doutor Inocêncio Galvão Telles, ed. António Menezes Cordeiro, Luís Manuel
Teles de Menezes Leitão, e Januário da Costa Gomes, vol. V (Coimbra: Almedina,
2003), 557‑ss. Jorge Guerreiro Morais, ‘A Sensibilidade E O Bom Senso No Conten‑
cioso Administrativo — Breve Ensaio Sobre a Intimação Para Protecção de Direitos,
Liberdades E Garantias’, O Direito V, no. 139.º (2007): 1117‑1131.
(176)
Note‑se que a legislação de direito administrativo já foi positivada em
Timor‑Leste independente através do Decreto‑Lei No. 32/2008, de 27 de Agosto
(Procedimento administrativo).
(177)
Ver, Capítulo VI, 2.1 Justiça Administrativa.
(178)
Em relação a esta questão específica, porém, o Tribunal de Recurso declarou
que o “ordenamento jurídico timorense não regula de forma autónoma o Contencioso
Administrativo, pelo que, supletivamente, são aplicáveis com as devidas adaptações as
normas do Processo Civil” [Tribunal de Recurso, Acórdão de 6 de Agosto de 2008,
Proc.01/PD/08/TR, 6‑7 (Tribunal de Recurso 2008)], não tendo, por conseguinte,
aplicado a lei subsidiária indonésia.
(179)
Esta legislação coloca alguns problemas. Capítulo VI, 2.1 Justiça Adminis‑
trativa.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
165
Como já exposto, a Constituição timorense prevê ainda o estabelecimento
de tribunais militares (artigo 123.º‑1/c). Estes possuem a competência para
julgar crimes de natureza militar em primeira instância (artigo 130.º‑1). A con‑
sagração constitucional de tribunais militares não é incomum nos países da
CPLP. Em Angola, Brasil, Cabo Verde e Guiné‑Bissau está prevista a existência
de tribunais militares de caráter permanente, isto é, com funcionamento durante
tempo de paz e de guerra (180). Em Portugal e Moçambique, os tribunais mili‑
tares são somente instaurados durante o Estado de guerra (181). Finalmente, São
Tomé e Príncipe deixa ao legislador a decisão de determinar o estabelecimento
e o funcionamento destes tribunais (182).
Várias são as críticas apontadas ao modelo da justiça militar no que con‑
cerne os padrões de direitos fundamentais e de direitos humanos. Desde logo,
é questionado o respeito dos tribunais militares pelo direito a um processo
equitativo, nomeadamente, a garantia de independência e imparcialidade, uma
vez que tais instâncias judiciais são, habitualmente dependentes do poder exe‑
cutivo e os respetivos juízes, na sua atuação enquanto militares, devem obediên‑
cia a uma estrutura militar hierárquica. Em vários países, a legislação permite
que os tribunais militares tenham uma ampla jurisdição para julgar crimes que
não sejam de natureza estritamente militar, contribuindo para a criação de uma
classe militar privilegiada fora do alcance da justiça civil. O espírito corporati‑
vista associado à classe militar é também motivo de desconfiança quanto à
isenção e independência da justiça militar. Outras acusações são ainda feitas
aos tribunais militares: julgam muitas vezes civis e jovens menores de idade e
desconsideram o direito à objeção de consciência que pode ser invocado por
civis relativamente ao cumprimento do serviço militar obrigatório (183).
(180)
Cfr., respetivamente, artigo 183.º da Constituição angolana, artigo 92.º‑VI
da Constituição brasileira, artigo 220.º da Constituição cabo‑verdiana e artigo 121.º
da Constituição da Guiné Bissau.
(181)
Artigo 213.º da Constituição portuguesa e artigo 224.º da Constituição
moçambicana. Em Portugal é ainda previsto que, fora deste Estado de exceção, o julga‑
mento de crimes estritamente militares seja realizado por um tribunal ordinário judicial
composto por, pelo menos, um juiz militar (artigo 211.º‑3 da Constituição portuguesa).
(182)
Artigo 126.º‑2 da Constituição são‑tomense.
(183)
Cfr. Federico Andreu‑Guzmán, Military Jurisdiction and International Law
— Military Courts and Gross Human Rights Violations, International Commission of
Jurists and Colombian Commission of Jurists, vol. 1, n.d., 10‑11. Ainda sobre a justiça
militar, ver Jorge Mera Figueroa, ‘Adecuación de La Jurisdicción Penal Militar Chilena
Coimbra Editora ®
166
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
A Constituição remete para o legislador a determinação da competência,
composição e funcionamento dos tribunais militares (artigo 130.º‑2). Até ao
momento, os tribunais militares ainda não foram alvo de legislação. A aplicação
subsidiária da justiça militar indonésia não nos parece atendível, visto que esta
não se ampara no princípio de “crimes de natureza militar”, já que praticamente
quaisquer crimes cometidos por militares são parte da jurisdição militar (184). Aqui,
a aplicação da legislação indonésia poderia resultar em inconstitucionalidade e
não deve, como consequência da supremacia constitucional, ser aplicada.
Em virtude da competência residual dos tribunais distritais, os crimes de
natureza militar devem ser julgados em primeira instância pela jurisdição dis‑
trital, até à aprovação de legislação específica da jurisdição militar (185).
A Constituição prevê o estabelecimento de um órgão colegial para a ges‑
tão e disciplina da magistratura judicial, o Conselho Superior da Magistratura
Judicial (artigo 128.º da CRDTL). Este é presidido pelo Presidente do Supremo
Tribunal de Justiça que, por sua vez, é nomeado pelo Presidente da Repú‑
blica (186).
Ante o exposto, conclui‑se que a maior parte das categorias de tribunais
previstas constitucionalmente ainda não se encontra em pleno funcionamento.
de Tiempo de Paz a Los Estándares Internacionales de Derechos Humanos’, Anuario
de Derechos Humanos, Universidad de Chile, no. 4 (2008): 205‑211; J. M. Ramírez
Sineiro, ‘La Estructura Orgánica de La Jurisdicción Militar: Consideraciones Acerca
de Su Constitucionalidad Con Arreglo a La Doctrina Del Tribunal Europeo de Dere‑
chos Humanos’, Revista general de derecho, n.º 574‑575, 1992.
(184)
Lei Indonésia n.º 31/1997 (Tribunais Militares — Peradilan Militer). Vale
a pena ressaltar que a definição de crime de natureza militar é normalmente uma tarefa
árdua de interpretação. Em Portugal, “constitui crime estritamente militar o facto lesivo
dos interesses militares da defesa nacional e dos demais que a Constituição comete às
Forças Armadas e como tal qualificado pela lei.” (artigo 1.º‑2 da Lei n.º 100/2003,
de 15 de Novembro (Código de Justiça Militar)). No Brasil, a definição de crime de
natureza militar é facilitada através de uma lista de situações que podem ser categori‑
zadas como crime de natureza militar (artigos 9.º e 10.º do Decreto‑Lei n.º 1001,
de 21 de Outubro de 1969 (Código Penal Militar).
(185)
A competência residual dos tribunais distritais é determinada por força do
artigo 13.º/a do Código de Processo Penal, que prevê: “[c]ompete aos tribunais judiciais
distritais [j]ulgar os processos relativos a crimes cuja competência não esteja legalmente
atribuída a outro tribunal”.
(186)
Artigos 128.º‑2 e 86.º/j da CRDTL.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
167
A estrutura judiciária atual é bastante semelhante àquela estabelecida pelas
Nações Unidas, visto que a organização judiciária prevista no regulamento da
UNTAET ainda não foi substancialmente alterada por lei posterior (187). Duas
relevantes diferenças existem ao comparar a estrutura judiciária transitória e a
estrutura judiciária atual: a extinção da secção especializada do Tribunal Dis‑
trital de Dili para julgar casos graves (188) e a criação de uma câmara de contas
do Tribunal de Recurso, servindo como Tribunal Superior Administrativo,
Fiscal e de Contas (189). A aprovação de uma lei sobre a organização judiciária
é verdadeiramente necessária, sendo que essa lei deverá ter em consideração a
revisão da atual estrutura, o estabelecimento dos tribunais exigidos na Consti‑
tuição e uma maior disponibilidade de recursos humanos com a qualificação
necessária para jurisdições especializadas.
Para o exercício da função judiciária, a Constituição prevê uma série de
garantias de fundamental importância, incluindo a independência dos tribunais
e juízes (artigo 119.º e artigo 121.º‑2) e a competência exclusiva jurisdicional
dos tribunais (artigo 118.º e 121‑1) (190). A independência funcional dos juízes
já foi regulamentada pelo Estatuto dos Magistrados Judiciais, que determina,
entre vários assuntos, os critérios de seleção e remoção dos juízes, o processo
de avaliação e de responsabilização disciplinar dos magistrados judiciais, entre
outros (191). Vale a pena ressaltar que o direito fundamental de acesso aos tri‑
bunais previsto no artigo 26.º da Constituição impõe ao Estado o dever de
garantir não só a existência, mas também o bom funcionamento dos tribunais.
(187)
Regulamento da UNTAET n.º 11/2000, de 6 de Março (com alterações
decorrentes do Regulamento n.º 25/2001, de 14 de Setembro).
(188)
A adoção do Código de Processo Penal timorense resultou na extinção de
uma secção criminal especializada dentro do Tribunal Distrital de Díli com competência
exclusiva para julgar estes crimes, tendo atualmente o Tribunal Distrital de Díli jurisdição
sobre os mesmos, porém, sem a formação de um secção especializada [(artigo 3.º do
Decreto‑Lei n.º 13/2005, de 1 de Dezembro (Que aprova o Código de Processo Penal)].
(189)
Lei n.º 9/2011, de 17 de Agosto (com as alterações decorrentes da Lei
n.º 3/2013) (Orgânica da Câmara de Contas do Tribunal Superior Administrativo,
Fiscal e de Contas).
(190)
Para um enfoque mais teórico sobre a função dos tribunais e seus princípios
estruturantes, ver Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
660‑ss.
(191)
Lei n.º 8/2002, de 20 de Setembro (Estatuto dos Magistrados Judiciais)
(com alterações decorrentes da Lei n.º 11/2004, de 29 de Dezembro).
Coimbra Editora ®
168
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Embora a organização judiciária de Timor‑Leste esteja ainda numa fase
inicial, administrando a justiça com base em instituições de caráter temporário,
diríamos que o poder judiciário timorense segue, com grande rigor, os princí‑
pios estruturantes do poder judiciário identificados pela doutrina portuguesa
como essenciais a um Estado democrático que se funda na separação de pode‑
res (192).
A organização judiciária timorense apresentada, ainda que brevemente na
exposição acima, parece deixar claro que em Timor‑Leste estão incorporados
os seguintes princípios estruturantes do ordenamento jurídico‑constitucional
do poder judiciário:
— princípio da independência: representado, em grande medida, pela
independência estrutural dos tribunais, segundo a qual estes formam
um órgão de soberania organicamente separado dos outros, e pela
independência funcional dos juízes, com base na qual a função dos
magistrados judiciais não é sujeita a interferências externas, encon‑
trando‑se apenas sujeitos à lei (por exemplo, artigo 119.º da CRDTL).
— princípio da exclusividade da função de julgar e o princípio de reserva
de juiz: o primeiro significando que a reserva da jurisdição é dada aos
tribunais, sendo proibido o uso da justiça privada; por sua vez, o
segundo funda‑se no monopólio jurisdicional conferido aos juízes,
com base no qual somente o magistrado judicial possui o poder de
tomar decisões vinculativas e finais (por exemplo, artigo 121.º‑1 da
CRDTL).
— princípio da imparcialidade dos juízes: este princípio enraíza‑se na con‑
ceção de que os juízes devem julgar de acordo com a sua consciência,
sem interferências externas (por exemplo, artigos 4.º e 7.º do Estatuto
dos Magistrados Judiciais e artigo 87.º e seguintes do Código de Pro‑
cesso Civil).
— princípio da irresponsabilidade: possuindo uma direta relação com o
princípio da imparcialidade acima referido, este princípio assegura
que os juízes não podem ser punidos pelas suas opiniões e decisões.
A existência de um procedimento disciplinar implementado por um
órgão colegial de juízes revela‑se fundamental para garantir um nível
Ver Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 662‑ss.
(192)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
169
suficiente de responsabilização e assegurar um grau necessário de
profissionalismo entre os magistrados judiciais, ressalvando, simulta‑
neamente, a independência do setor judiciário (artigo 5.º do Estatuto
dos Magistrados Judiciais).
— princípio da autodeterminação: este princípio assenta na criação de
órgãos colegiais, compostos na sua maioria por juízes de carreira,
responsáveis pela administração da magistratura judicial no que res‑
peita às questões de nomeação, promoção e transferência, assim como
ao exercício do poder disciplinar. O Conselho Superior da Magistra‑
tura Judicial (CSMJ) é o órgão para a autodeterminação da magis‑
tratura judicial em Timor‑Leste (artigo 8.º‑ss do Estatuto da Magis‑
tratura Judicial) (193).
— princípio da pluralidade de graus de jurisdição: determina a existência
de um grau superior de jurisdição para proceder a um reexame de
uma decisão judicial. Em Timor‑Leste, a competência de recurso é
exercida pelo Supremo Tribunal de Justiça e pelo Tribunal Superior
Administrativo, Fiscal e de Contas (por exemplo, artigo 12.º‑2/c do
Código de Processo Penal).
— princípio da fundamentação de decisões judiciais: sendo este princípio
de essencial importância para afirmar a imparcialidade dos juízes,
assegura o acesso ao recurso judicial e facilita o “conhecimento da
racionalidade e coerência argumentativa dos juízes (194)” (por exemplo,
artigo 407.º do Código de Processo Civil e artigo 281.º do Código
de Processo Penal).
Um sistema judicial pode ser um sistema unitário e integrado ou um
sistema de pluralidade de jurisdições. Desde logo, pode afirmar‑se que, em
Timor‑Leste, existe um sistema de pluralidade de jurisdições como consequên‑
cia das diferentes categorias de tribunais previstas na Constituição. O conceito
de pluralidade de jurisdições baseia‑se na determinação de tribunais de categorias
distintas, sendo a função judicial dividida por vários órgãos enquanto jurisdições
Sobre a natureza legal do Conselho Superior da Magistratura Judicial, ver,
Tribunal de Recurso, Acórdão de 31 de Dezembro de 2008, Proc.P‑ADM‑08‑TR,
8‑10 (Tribunal de Recurso 2008).
(194)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 667.
(193)
Coimbra Editora ®
170
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
distintas e autónomas entre si (195). A pluralidade de jurisdições denota, ainda,
a não‑existência de “qualquer relação hierárquica entre as várias categorias de
tribunais” (196). Todavia, aos tribunais militares é atribuída em Timor‑Leste a
competência de “julgar em primeira instância os crimes de natureza militar”
(artigo 130.º‑1). Significa que, em virtude desta determinação constitucional
e, ainda, da obrigação de garantir um duplo grau de jurisdição a conflitos de
natureza criminal como uma das garantias do direito a um processo equitativo,
os recursos das decisões dos tribunais militares serão necessariamente julgados
pelo Supremo Tribunal de Justiça. Existe, assim, no ordenamento judiciário
timorense um “cruzamento” das diferentes jurisdições, em que a jurisdição
militar assume uma posição hierarquicamente inferior relativamente a um
tribunal de diferente jurisdição, como é o STJ. Poderá, então, afirmar‑se que
a pluralidade de jurisdições tem em Timor‑Leste uma característica modificadora
por, ao prever uma relação de hierarquia entre as diferentes jurisdições, incor‑
porar elementos que caracterizam o sistema judicial unitário.
Outro aspeto interessante, também já identificado anteriormente e que
merece uma atenção especial, é a linha de divisão determinada pela Constitui‑
ção para as reservas especiais de jurisdição: juntaram‑se num tribunal as com‑
petências constitucional e de recurso e combinou‑se as jurisdições administra‑
tivas, fiscais e de contas num único tribunal superior. Como já mencionado
anteriormente, esta divisão não é comum no direito comparado.
Entende‑se que estas duas peculiaridades revelam uma intenção específica
do legislador constituinte de adaptar o sistema judicial ao contexto nacional,
reconhecendo, assim, que a organização judiciária de um Estado deve seguir o
contorno definido pela realidade local na qual se insere.
A Constituição prevê ainda outros órgãos que integram a organização
judiciária. Estes são o Ministério Público (artigos 132.º a 134.º da CRDTL),
os advogados e os defensores (artigo 135.º‑136.º da CRDTL).
O Ministério Público exerce, em exclusividade, a competência da ação
penal (artigo 132.º‑1 da CRDTL (197)). Este tem, ainda, a função de defesa dos
Ibid., 662.
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):547.
(197)
Ver, ainda, Artigo 1.º da Lei n.º 14/2005, de 16 de Setembro (Estatuto
do Ministério Público) (com alterações decorrentes da Lei n.º 11/2011, de 28
de Setembro).
(195)
(196)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
171
menores de idade, ausentes e incapazes e da legalidade democrática, assim como
a promoção do cumprimento da lei e a representação do Estado (artigo 132.º‑1
da CRDTL) (198). Na base desta norma constitucional, encontra‑se uma ampla
zona de intervenção do Ministério Público, podendo originar reais dificuldades
para a sua densificação jurídica, assim como para a sua implementação, tendo
em conta a realidade de Timor‑Leste em termos do número de profissionais e
do nível de especialização em matérias do Direito.
A Constituição prevê expressamente o desenvolvimento de uma lei que
determine as regras para a gestão e disciplina dos magistrados do Ministério
Público, assim como a composição da Procuradoria Geral da República e os
termos da nomeação e substituição do Procurador Geral da República (199). Para
concretizar estas normas constitucionais, em 2005, foi aprovado o Estatuto do
Ministério Público (Lei n.º 14/2005, de 16 de Setembro), que contém no seu
texto normas reguladoras da estrutura, organização e competência do Ministério
Público, assim como os critérios de nomeação, exoneração e disciplina dos seus
magistrados. O diploma de 2005 foi alvo de uma primeira alteração em 2011
(Lei n.º 11/2011, de 28 de Setembro) que introduziu modificações pontuais,
ajudando, assim, a aclarar ambiguidades e a preencher algumas lacunas existentes.
O Ministério Público é formado pela Procuradoria‑Geral da República e
pelas Procuradorias da República distritais (200). A Procuradoria‑Geral da Repú‑
blica, por sua vez, é composta pelo Conselho Superior do Ministério Público
e pelo Procurador‑Geral da República e seus adjuntos (201). O Ministério Público
e a Procuradoria‑Geral da República são dirigidos pelo Procurador‑Geral da
República (202). A Constituição prevê o estabelecimento do Conselho Superior
(198)
Ver, Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Consti‑
tuição Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste, 2011, 415‑417.
(199)
Ver artigos 132.º‑3 e 4 e 133.º‑1, 2 e 3 da CRDTL.
(200)
Artigo 133.º‑1 da CRDTL e artigo 6.º do Estatuto do Ministério Público.
(201)
Artigo 8.º‑2 do Estatuto do Ministério Público.
(202)
O mesmo acontece com os tribunais, sendo o Presidente do Supremo
Tribunal de Justiça também o Presidente do Conselho Superior da Magistratura Judi‑
cial e o administrador geral dos tribunais (cfr. artigo 128.º‑2 da CRDTL e artigo 17.º
do Regulamento da UNTAET n.º 11/2000 da UNTAET (com alterações decoreentes
dos Regulamentos da UNTAET n.º 14/2000 e n.º 18/2001). A acumulação de funções
no Procurador‑Geral da República, assim como no Presidente do Supremo Tribunal
de Justiça, tem a vantagem de auxiliar a coordenação das atividades. No entanto, pode
criar riscos para o bom funcionamento do sistema judicial timorense, como salientado
Coimbra Editora ®
172
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
do Ministério Público como um órgão integrado na Procuradoria‑Geral da
República, prescrevendo, ainda, a sua composição, mas remetendo para o
legislador a determinação da sua organização e seu funcionamento (203).
O Ministério Público possui um papel proeminente na garantia dos direi‑
tos fundamentais. Entre as suas competências e atribuições diretamente rela‑
cionadas com estas garantias, encontramos:
— no processo penal: o dever de obedecer em todas as intervenções pro‑
cessuais a critérios de estrita legalidade e objetividade, dever esse que
impõe ao Ministério Público a tarefa de assistir o tribunal no respeito
pelas garantias processuais do arguido.
— no âmbito da luta contra a violência com base no género: o Ministério
Público é encarregado de prestar assistência direta à vítima de violên‑
cia doméstica para que esta possa aceder aos diversos serviços de apoio
previstos na lei, incluindo assistência jurídica e o encaminhamento
para o atendimento de saúde e casas de abrigo. Ao Ministério Público
compete, ainda, solicitar ao tribunal a concessão de prestação de
alimentos provisórios a favor da vítima (artigos 28.º e 32.º da Lei No.
7/2010, de 7 de Julho (Lei contra a Violência Doméstica).
— no processo eleitoral: além de exercer a ação penal nos casos de crimes
eleitorais, o Ministério Público tem um dos seus representantes nome‑
ados para participar no órgão independente de fiscalização eleitoral,
a Comissão Nacional de Eleições [artigo 5.º‑1/e da Lei No.5/2006,
de 28 de Dezembro (Órgãos da Administração Eleitoral), alterada
pela Lei No. 6/2011, de 22 de Junho].
pela ONG Programa de Monitorização do Sistema Judicial (JSMP, em inglês), no
relatório de 2004 sobre os Tribunais em Timor‑Leste (Relatório Visão Geral Dos Tribu‑
nais Em Timor‑Leste Em 2004 (Timor‑Leste: Programa de Monitorização do Sistema
Judicial (JSMP)), 23‑ss.
(203)
Artigo 134.º da CRDTL. Observa‑se que, na realidade, a Constituição não
prevê qualquer indicação sobre a competência ou papel do Conselho Superior do Minis‑
tério Público, diferente da provisão análoga em relação ao Conselho Superior da Magistra‑
tura Judicial (cfr. artigo 128.º‑1 da CRDTL). O Estatuto do Ministério Público determina
competências que vão além da gestão e disciplina dos magistrados do Ministério Público,
para prever um papel relevante na formulação da política criminal e no sistema da admi‑
nistração de justiça (artigo 17.º‑1 da Lei n.º 14/2005, de 16 de Setembro (Estatuto do
Ministério Público) (com as alterações decorrentes da Lei n.º 11/2011, de 28 de Setembro)).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
173
— controlo judiciário do uso da força policial: à polícia é imposto o dever
de elaborar um auto de notícia aquando do uso de força por membro
da corporação policial. O auto deve ser enviado ao Ministério Público
para uma análise judicial com o objetivo de identificar a existência
ou não de factos reveladores de conduta criminal policial (artigo 22.º‑3
do Decreto‑Lei No. 43/2011, de 21 de Setembro (Regime Jurídico
do Uso da Força).
— sistema de proteção de testemunhas: para garantir a segurança das tes‑
temunhas, o Ministério Público possui a competência para requisitar
a aplicação de medidas de proteção previstas na lei (artigos 4.º, 5.º,
16.º, e 19.º Lei No. 2/2009, de 6 de Maio, Proteção de Testemunhas).
— mecanismo de garantias da constituição: o Procurador‑Geral da Repú‑
blica, como superior hierárquico do Ministério Público, possui a
legitimidade processual para requerer a verificação da inconstitucio‑
nalidade por omissão e a fiscalização abstrata da constitucionalidade
com base na desaplicação pelos tribunais de norma julgada inconsti‑
tucional em três casos concretos (artigos 150.º/c e 151.º da CRDTL).
Ainda está a ser definida a legislação principal sobre os direitos da criança
(o Código da Criança), mas estima‑se que o Ministério Público será indicado
como um órgão indispensável para a realização das medidas de proteção às
crianças. Em Timor‑Leste, foi ainda determinado o papel de atuação do Minis‑
tério Público, perante a instância judicial, nos casos relacionados com o meio
ambiente (204), sendo que esta opção também se verifica no âmbito da esfera de
atuação do Ministério Público de Angola e de Portugal (205). A legislação ambien‑
tal de Timor‑Leste prevê que o Ministério Público desempenhe um papel
primordial na tarefa protetora do direito fundamental a um ambiente de vida
humano, sadio e ecologicamente equilibrado (206).
Artigo 63.º do Decreto‑Lei n.º 26/2012, de 4 de Julho (Lei de Bases do
Ambiente).
(205)
Relativamente a Portugal, ver artigo 9.º‑2 da Lei n.º 15/2002, de 22 de
Fevereiro, com sucessivas alterações (Código de Processo nos Tribunais Administrativos).
Quanto à mesma competência atribuída ao Ministério Público angolano, ver
artigo 23.º‑2 da Lei n.º 5/1998, de 19 de Junho (Lei de Bases do Ambiente).
(206)
O Parlamento Nacional delegou no Governo a competência legislativa em
matéria ambiental (Lei n.º 3/2012, de 13 de Janeiro (Autorização Legislativa em
Matéria Ambiental). O artigo 2.º‑2/jjj desta lei prevê que o sentido da autorização deve
(204)
Coimbra Editora ®
174
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O texto constitucional não desenvolve em grande detalhe as características
identificadoras da natureza institucional do Ministério Público, limitando‑se a
determinar a existência de uma organização hierarquizada, a sua subordinação
ao Procurador‑Geral da República e os critérios de legalidade, objetividade,
isenção e obediência que orientam o desempenho das funções dos seus magis‑
trados (artigos 132.º‑2 e 3 da CRDTL). A Constituição prevê, ainda, certas
garantias para a autonomia e autoadministração do Ministério Público, seme‑
lhantes àquelas previstas para os tribunais e os juízes, como, por exemplo, o
critério de legalidade para a transferência, suspensão, aposentadoria ou demis‑
são dos magistrados do Ministério Público (artigo 132.º‑4).
Não é clara na Lei Fundamental a posição que o Ministério Público ocupa
no sistema judiciário. Todavia, da análise da sistematização da Constituição, é
possível perceber que a intenção do constituinte foi “no sentido da inclusão do
Ministério Público (…) no conjunto dos agentes que intervêm no processo da
administração da justiça” (207), sendo‑lhe atribuída a designação de magistratura
(art. 132.º‑2) e aos seus agentes a denominação de magistrados (132.º‑3).
Para que o Ministério Público desempenhe as suas funções constitucionais é
imprescindível um autêntico nível de autonomia. Não está previsto nem na Cons‑
tituição, nem na lei, um estatuto expresso de autonomia ou de independência do
Ministério Público vis‑a‑vis os outros órgãos públicos (208). Algumas normas são
diretamente relevantes no processo da construção do nível de autonomia de que
o Ministério Público desfruta. Ao Procurador‑Geral incumbe o dever de “respon‑
incluir a garantia da “tutela jurisdicional através da consagração do direito de recurso
aos tribunais para defesa dos direitos subjetivos violados e para defesa do ambiente”.
(207)
Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Constituição
Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste, 2011, 416.
(208)
O Estatuto do Ministério Público limita‑se a transcrever, no seu artigo 2.º,
partes do artigo 132.º da Constituição. Observa‑se, no entanto, que em outros países
de língua portuguesa, os Estatutos que regem o Ministério Público apresentam com
maior clareza a relação deste com os demais órgãos, caracterizando‑o como um órgão
autónomo relativamente ao poder executivo. Este é o caso do estatuto do Ministério
Público em Portugal (ver art. 2.º‑1 do Estatuto do Ministério Público aprovado pela
Lei n.º 47/86, de 15 de Outubro, republicado pela Lei n.º 60/98, de 27 de Agosto, e
alterado pelas Leis n.º 42/2005, de 29 de Agosto, n.º 67/2007, de 31 de Dezembro,
n.º 52/2008, de 28 de Agosto, n.º 37/2009, de 20 de Julho, n.º 55‑A/2010, de 31
de Dezembro e n.º 9/2011 de 12 de Abril) e de São Tomé e Príncipe (ver artigo 2.º
da Lei n.º 9/91 (Lei Orgânica do Ministério Público).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
175
der perante o Chefe de Estado” (artigo 133.º‑4 da CRDTL). O Estatuto do
Ministério Público no seu artigo 34.º prescreve o âmbito da relação entre o
Governo e o Ministério Público ao prever quando são permitidas instruções do
Governo ao Ministério Público. Esta norma não prevê um amplo poder discri‑
cionário do Governo para instruir o Ministério Público no desempenho das suas
funções, antes limita‑se a permitir instruções específicas quando este aja como
representante de algum dos órgãos públicos. No entanto, o Governo pode solici‑
tar informações variadas ao Ministério Público e aos seus diferentes órgãos (209).
Ainda, o Governo deve ser ouvido no processo da nomeação presidencial do
Procurador‑Geral da República (210). O Estatuto prescreve critérios e procedimen‑
tos disciplinares isentos de interferência direta do executivo (211). O Ministério
Público e os seus órgãos detêm uma função de conselheiros do Governo no que
diz respeito ao desenvolvimento do ordenamento jurídico, nomeadamente, através
da proposição de providências legislativas (212). Aos magistrados do Ministério
Público é, ainda, imposto o dever de recusa de diretivas, ordens e instruções de
superior hierárquico que sejam ilegais (213). Na prática, as diferentes normas que
regem a atividade do Ministério Público e as suas relações com os outros órgãos
públicos contêm a capacidade de fortalecer ou enfraquecer o nível de autonomia
do Ministério Público, tornando difícil a tarefa de estabelecer claramente o estatuto
deste órgão face ao Governo. À exceção de poucas normas de vaga formulação, o
Estatuto do Ministério Público estabelece uma base de qualidade para o reconhe‑
cimento de uma autonomia suficiente a este órgão.
O Ministério Público é uma magistratura hierarquicamente organizada,
pelo que é imposto aos seus magistrados o dever legal de observar as instruções
e diretivas dos superiores, inclusivamente, aquelas provenientes diretamente do
Procurador da República (desde que não sejam ilegais e seja submetida uma
justificação por escrito) (214). Com esta estrutura, o Procurador da República é
determinante no funcionamento regular da instituição. Deste modo, o processo
de nomeação do dirigente máximo do Ministério Público revela‑se verdadei‑
ramente crucial para a garantia de uma maior autonomia funcional.
Artigo 34.º/d e e do Estatuto do Ministério Público.
Artigo 12.º
(211)
Artigos 20.º, 52.º, 53.º, 65.º‑ss do Estatuto do Ministério Público.
(212)
Artigo 9.º/e 11.º‑2/d, 11.º‑2/g.
(213)
Artigo 33.º‑2
(214)
Artigos 30.º a 33.º
(209)
(210)
Coimbra Editora ®
176
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Ao reconhecer o direito de acesso aos tribunais e as garantias do processo
penal, a Constituição impôs ao Estado o dever de garantir o acesso à assistên‑
cia jurídica e judiciária. A Constituição reconhece o papel dos advogados e dos
defensores no sistema judicial nacional, enquanto auxiliadores na realização
destas garantias fundamentais (artigos 135.º e 136.º). Nestes artigos, a Cons‑
tituição prevê os princípios e objetivos da assistência jurídica e judiciária e as
garantias de confidencialidade para o exercício da advocacia.
A Constituição é categórica ao determinar os princípios orientadores dos
advogados e dos defensores na sua ligação com a coletividade: o interesse social
e a contribuição para a boa administração da justiça, bem como a salvaguarda
dos direitos e legítimos interesses dos cidadãos (artigo 135.º‑1 e 2). É digna
de nota a forma como a Constituição enquadrou a função primordial da advo‑
cacia. Este tipo de previsão constitucional não é necessariamente comum, visto
que a maioria das Constituições se limita a lidar com as questões relevantes
para a independência da advocacia e a garantia da confidencialidade entre
advogado e cliente. No entanto, refira‑se que a Constituição Transitória do
Sudão do Sul (215), e em certa medida, a de Angola (216), seguem a mesma linha
da sua homóloga timorense. É da nossa opinião que a incorporação de uma
prescrição quanto ao papel primordial dos advogados e dos defensores na
Constituição timorense, e nestas outras mencionadas, refletirá uma experiência
histórica de conflito interno e a necessidade de garantir primordial relevância
dos agentes provedores da assistência jurídica e judiciária enquanto instrumento
para quebrar com as injustiças do passado (217). Não parece que tal previsão
constitucional interfira na independência dos advogados, mas, antes releva‑os
(215)
Artigo 137.º‑2 e 3 da Constituição Transitória do Sudão do Sul de 2011
prevê que “advogados devem observar a ética profissional, e promover, proteger e
desenvolver os direitos humanos e as liberdades fundamentais dos cidadãos”; “advo‑
gados devem servir para prevenir injustiças, defender os direitos legais e interesses
de seus clientes, procurar a reconciliação entre os adversários e podem render assis‑
tência jurídica gratuita para os necessitados, de acordo com a lei” (tradução livre
pelas autoras).
(216)
Artigo 193.º‑1 e 2 preveem que a “advocacia é uma instituição essencial à
administração da justiça” e o “advogado é um servidor da justiça e do direito, compe‑
tindo‑lhe praticar em todo o território (…)”.
(217)
Cfr. Judicial System Monitoring Programme, The Private Lawyers Statute:
Overview and Analysis (Dili, Timor‑Leste: Judicial System Monitoring Programme,
September 2008), 11.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
177
a uma posição de proeminência no esforço para atingir alguns dos objetivos
do Estado (218).
A confidencialidade entre advogado e cliente é, ainda, essencial para o
real acesso à assistência jurídica e judiciária (219). É com base nesta realidade
que o artigo 136.º da Constituição reconhece a garantia de inviolabilidade
dos documentos respeitantes ao exercício da representação legal, assim como
a comunicação em confidencialidade (220). Estas garantias representam exem‑
plos de garantias fundamentais no acesso à justiça, direito de petição e
garantias no processo penal dispersas na Constituição, como será abordado
a seguir (221).
Vale a pena ressaltar que, no seu texto, a Constituição identificou a garan‑
tia de confidencialidade no que toca à “profissão de advogado” e ao “advogado”,
sem fazer expressa referência ao “defensor”. Esta redação prevista no artigo
136.º parece, na realidade, resultar de um lapso do constituinte. Em virtude
de uma interpretação baseada no princípio da máxima efetividade da Consti‑
tuição, deve considerar‑se que existe também um resguardo constitucional
quanto à inviolabilidade de documentos e confidencialidade de comunicação
entre o defensor (público) e o seu cliente. Refira‑se, ainda, que estas garantias
(218)
Chama‑nos a atenção o comentário deste mesmo artigo da Constituição
Anotada da República de Timor‑Leste sobre a necessidade de garantir a independência
e imparcialidade dos advogados ao declarar que a “imposição de uma orientação do
papel dos advogados e defensores, no exercício da assistência jurídica e judiciária, pelo
interesse social, não pode ser feito a expensas da independência e autonomia do man‑
dato de representação de uma posição em juízo”. Cfr. Direitos Humanos — Centro
de Investigação Interdisciplinar, Constituição Anotada Da República Democrática de
Timor‑Leste, 2011, 424.
(219)
A Lei n.º 11/2008, de 30 de Julho (com as alterações decorrentes do
Decreto‑Lei n.º 39/2012, de 1 de Agosto e da Lei n.º 01/2013, de 13 de Fevereiro)
que estabelece o Regime Jurídico da Advocacia Privada e da Formação dos Advogados,
determina no seu artigo 41.º, a observância, por parte dos advogados, do segredo
profissional.
(220)
Ainda, artigos 31.º e 32.º da Lei n.º 11/2008, de 30 de Julho (Regime
Jurídico da Advocacia Privada e da Formação dos Advogados) (com as alterações
decorrentes do Decreto‑Lei n.º 39/2012, de 1 de Agosto e da Lei n.º 01/2013, de 13
de Fevereiro). Ver Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Cons‑
tituição Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste, 2011, 427‑428.
(221)
Vide Capítulo III, 3.3 Outros Direitos Fundamentais.
Coimbra Editora ®
178
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
são reconhecidas no Código de Processo Penal, independentemente da repre‑
sentação do arguido por um advogado ou por defensor público (222).
Sublinhe‑se que, por aparentes questões de sistematização, as provisões
constitucionais sobre a advocacia estão inseridas no Título dedicado aos tribu‑
nais. Todavia, importa recordar que, no próprio texto constitucional, é feita
referência à função de “assistência jurídica e judiciária” (artigo135.º‑1), reco‑
nhecendo, desta forma, o papel dos advogados e dos defensores dentro e fora
dos tribunais.
Um aspeto de grande importância ao qual a Constituição timorense não
faz menção é a capacidade de auto‑regulação dos advogados, esta que é, por
sua vez, prevista em Constituições como a cabo‑verdiana (223) e a angolana (224).
A nível internacional é também reconhecido o direito aos advogados de se
associarem e de se autorregularem (225). O poder de se autorregular, nomeada‑
mente, os critérios de admissão e os processos de disciplina, são normalmente
considerados essenciais à garantia da independência dos advogados. Na verdade,
são uma garantia essencial da advocacia, especialmente, nos casos contra enti‑
dades públicas, incluindo o Governo, como são os casos de tutela jurisdicional
dos direitos fundamentais (226).
Artigos 60.º/f do Código de Processo Penal. O Código de Processo Penal
prevê ainda que a revista e apreensão em escritório de defensores são sujeitas a regras
especiais, inclusivamente ao requisito de ser conduzida por um juiz (artigo 226.º).
Note‑se ainda o reconhecimento da confidencialidade e inviolabilidade de correspon‑
dência do defensor público no Estatuto da Defensoria Pública (artigo 48.º do
Decreto‑Lei n.º 38/2008, de 29 de Outubro).
(223)
Artigo 229.º‑5: “[o] exercício da função de advogado sujeita‑se a regras
deontológicas, implica responsabilidade profissional e submete‑se à regulação e disci‑
plina da Ordem dos Advogados de Cabo Verde, nos termos da lei.”
(224)
Artigo 193.º‑3: “[c]ompete à Ordem dos Advogados a regulação do acesso
do acesso à advocacia, bem como a disciplina do seu exercício e do patrocínio forense,
nos termos da lei e do estatuto”.
(225)
Princípios 23 e 24 dos Princípios Básicos Relativos À Função Dos Advogados,
1990.
(226)
Sobre a autorregulação profissional ver, Vital Moreira, Auto‑Regulação Pro‑
fissional E Administração Pública (Coimbra: Almedina, 1997). Relativamente à autor‑
regulação enquanto garantia de independência dos advogados a possíveis pressões
governamentais, ver Relatório do Relator Especial da Organização das Nações Unidas
sobre a Independência dos Juízes e dos Advogados apresentado pelo Secretário‑Geral
das Nações Unidas no dia 28 de Julho de 2009, A/64/181, para. 53 a 58.
(222)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
179
Em Timor‑Leste, a Lei n.º 11/2008, de 30 de Julho (Regime Jurídico da
Advocacia Privada e da Formação dos Advogados) (227) considerou ser ainda
prematura a criação de uma associação de direito público, a Ordem dos Advo‑
gados, com funções de registo (228), disciplina (229) e outras. A partir desta legis‑
lação, foi criado o Conselho de Gestão e Disciplina da Advocacia, com três
dos seus cinco membros nomeados “pelo membro do Governo responsável pela
área da Justiça” (230). Este diploma parece prevenir a formação de uma associa‑
ção de advogados com características de autorregulação por um período inicial
de três anos (231). Isto não significa que o regime jurídico da advocacia não
reconheça a independência dos advogados, pois fá‑lo de forma expressa (232).
Porém, poderá entender‑se que, na prática, esta legislação representa uma lei
restritiva ao direito de associação (233).
A Constituição menciona o “defensor” lado a lado com os advogados, no
seu Capítulo dedicado à advocacia. Entende‑se que a palavra “defensor” utili‑
zada no artigo 135.º da Constituição timorense se quer referir aos “defensores
públicos”, atores judiciais que prestam assistência jurídica e judiciária gratuita
e figura estabelecida durante o período transitório das Nações Unidas, utilizando
como modelo o sistema brasileiro de assistência legal gratuita. Esta designação
de defensor público não nos parece ter o mesmo significado que a palavra
“defensor” no sentido da expressão utilizada no artigo 34.º da CRDTL para
(227)
Alterada pelo Decreto‑Lei n.º 39/2012, de 1 de Agosto e pela Lei
n.º 01/2013, de 13 de Fevereiro.
(228)
Artigo 14.º
(229)
Artigo 57.º‑1.
(230)
Artigo 57.º‑2 prevê que o “Conselho de Gestão e Disciplina da Advocacia
é constituído por cinco membros, sendo três nomeados pelo membro do Governo
responsável pela área da Justiça e dois nomeados pela Associação dos Advogados de
Timor‑Leste”.
(231)
Artigo 69.º
(232)
Preâmbulo, artigos 34.º‑2, 35.º‑1 e 39.º‑2 do Regime Jurídico da Advoca‑
cia Privada e da Formação dos Advogados). É também reconhecida a independência
dos defensores públicos no seu estatuto legislativo (artigo 48.º‑2/a do Decreto‑Lei
n.º 38/2008, de 29 de Outubro (Estatuto da Defensoria Pública).
(233)
Este diploma não foi, até à data, alvo de algum pedido de apreciação de
constitucionalidade sobre a violação dos critérios de leis restritivas, previstos no
artigo 24.º da Constituição. Sobre lei restritivas, ver, Capítulo IV, 2.3. Requisitos das
Leis Restritivas (os “limites dos limites”).
Coimbra Editora ®
180
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
descrever o representante legal de um arguido num processo de natureza cri‑
minal. Uma interpretação de correlação entre o sentido da expressão utilizada
nos artigos 135.º e o artigo 34.º da Constituição resultaria na diminuição do
alcance deste amparo constitucional. Acredita‑se que aquando da elaboração
do esboço da Constituição, os membros da Assembleia Constituinte não con‑
sideraram questões estruturais e institucionais relativas aos defensores públi‑
cos e a sua relação com os advogados, mas antes incorporou na Constituição
a figura dos defensores públicos que atuavam há quase três anos durante o
período transitório.
Em 2001, a UNTAET aprovou um regulamento que estabelecia um
“serviço de assistência judiciária” para prestar assistência jurídica e judiciária
aos menos favorecidos economicamente (234), o qual estabelecia a função de
defensor público, e daí deu‑se a criação da Defensoria Pública (235). Muito
embora a base legal previsse a independência destes serviços, estes acabaram
por recair, na prática, na dependência direta do Ministério da Justiça. Em 2003,
foram formalmente sujeitos à tutela administrativa deste Ministério (236).
Atualmente, a Defensoria Pública possui um regime de gestão e disciplina
para os seus agentes (237), baseado num sistema bastante próximo aos estabele‑
cidos para os magistrados judiciais e magistrados do ministério público.
A Defensoria Pública encontra‑se sob a tutela do Ministério da Justiça, mas
possui uma “independência técnico‑funcional” (238). Para além desta garantia
funcional, o Estatuto dos Defensores Públicos prevê expressamente o reconhe‑
cimento das mesmas garantias jurídicas dadas aos advogados, relativamente às
garantias de inviolabilidade de documentos e de confidencialidade de comu‑
nicação com o seu cliente (239). O Estatuto prevê ainda o dever de os defensores
(234)
Regulamento da UNTAET n.º 24/2001, de 5 de Setembro (Que Cria o
Serviço de Assistência Judiciária de Timor‑Leste).
(235)
Artigo 2.º‑2 Regulamento da UNTAET n.º 24/2001, de 5 de Setembro.
(236)
Artigo 14.º/a do Decreto do Governo n.º 3/2003, de 29 de Outubro. Este
já foi revogado, e atualmente a legislação orgânica do Ministério da Justiça está contida
no Decreto Lei n.º 02/2013 de 6 de Março (Orgânica do Ministério da Justiça).
(237)
Ver artigo 14.º e artigos 49.º e ss do Decreto‑Lei n.º 38/2008, de 29
de Outubro (Estatuto da Defensoria Pública).
(238)
Artigo 1.º‑2 do Decreto‑Lei n.º 38/2008, de 29 de Outubro (Estatuto da
Defensoria Pública).
(239)
Cfr. Artigo 48.º do Decreto‑Lei n.º 38/2008, de 29 de Outubro (Estatuto
da Defensoria Pública).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
181
públicos defenderem os interesses dos clientes com independência, e o dever
de confidencialidade para com o seu cliente, entre outros (240). A relação estru‑
tural com o Ministério da Justiça poderá vir a resultar em suspeitas sobre a
imparcialidade dos serviços prestados pela Defensoria Pública, como acontece
em outros países nos quais o apoio jurídico e judiciário gratuito é desempenhado
por uma instituição governamental (241). À Defensoria Pública não é atribuído
o papel de representar o Estado em juízo, de maneira semelhante ao Ministé‑
rio Público, sendo o critério de vulnerabilidade económica decisivo para deter‑
minar os beneficiários de seus serviços. É reconhecido que uma estrutura como
a Defensoria Pública é fundamental em Timor‑Leste para garantir à população
o acesso à justiça, independentemente das condições financeiras dos indivíduos,
esta uma garantia constitucionalmente protegida (242).
2.7 Controlo da Constitucionalidade e Revisão Constitucional
Os mecanismos de controlo da constitucionalidade representam instru‑
mentos essenciais para assegurar a supremacia da Constituição (243). Existem,
obviamente, vários outros mecanismos para a garantia da Constituição, que se
encontram integrados em diferentes áreas jurídico‑constitucionais, incluindo
os mecanismos de controlo jurídico e político dos diplomas legislativos e o
próprio princípio da separação e interdependência dos poderes. Estes foram já
tratados acima.
Enquanto os mecanismos de fiscalização da constitucionalidade asseguram
na prática a supremacia constitucional, o regime de revisão constitucional
possui a capacidade de dotar a Constituição de uma certa rigidez, assegurando,
desta forma, o próprio sistema constitucional assente num Estado de Direito
e servindo também como um mecanismo de controlo constitucional.
Cfr. Artigo 46.º do Decreto‑Lei n.º 38/2008, de 29 de Outubro (Estatuto
da Defensoria Pública).
(241)
Ver Relatório do Relator Especial da Organização das Nações Unidas sobre
a Independência dos Juízes e Advogados no México de 18 de Abril de 2011, para.73.
(242)
O artigo 26.º‑2 da Constituição prevê que: "[a] justiça não pode ser dene‑
gada por insuficiência de meios económicos."
(243)
Dentro desta perspetiva, vide Gomes Canotilho, Direito Constitucional
E Teoria Da Constituição, 887‑ss; Carlos Blanco de Morais, Justiça Constitucional
— Garantia da Constituição e Controlo da Constitucionalidade, 2.ª edição, vol. I (Coim‑
bra: Coimbra Editora, 2006), 56‑ss.
(240)
Coimbra Editora ®
182
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
2.7.1 Mecanismos de Fiscalização Constitucional
Uma parte fundamental do sistema constitucional Timorense consubstan‑
cia‑se na existência de mecanismos que possam garantir a supremacia das normas
constitucionais relativamente às outras normas, revelando‑se esta supremacia
através do poder jurisdicional de fiscalização da constitucionalidade das normas.
Nas palavras do Tribunal de Recurso, a “instituição da fiscalização judicial da
constitucionalidade das leis e demais actos normativos dos órgãos do Estado
constitui, nos modernos estados de Direito Democrático, um dos maiores ins‑
trumentos de controlo do cumprimento e observância das normas constitucio‑
nais” (244).
Na Constituição timorense estão previstos quatro processos de fiscalização
da constitucionalidade: o processo de fiscalização abstrata preventiva, o processo
de fiscalização abstrata sucessiva, o processo de fiscalização concreta e o processo
de fiscalização de inconstitucionalidade por omissão. É ainda previsto um
processo de fiscalização da legalidade das normas. Estes processos serão exami‑
nados posteriormente (245).
Através destes processos, a constitucionalidade de uma norma pode ser
apreciada antes da sua entrada em vigor no ordenamento jurídico — fiscaliza‑
ção abstracta preventiva —; quando esta já faz parte do ordenamento jurídico,
mas não é apreciada no âmbito da sua aplicação a um caso concreto — fisca‑
lização abstrata sucessiva —; e quando uma norma de dúbia constitucionalidade
é especificamente aplicada (ou desaplicada) num caso concreto — fiscalização
concreta. Por último, e em virtude de a Constituição atribuir ao legislador
ordinário a regulação de várias das suas provisões, inclusive de matérias relati‑
vas aos direitos fundamentais, prevê‑se constitucionalmente o processo de
fiscalização da constitucionalidade por omissão, aplicável aos casos em que a
Constituição impõe um dever de legislar.
É certo que, comparada com as constituições de outros países da CPLP,
a Constituição timorense, à exceção do que acontece no caso da fiscalização
abstracta preventiva, não estabelece critérios jurídico‑procedimentais destes
mecanismos no seu texto, deixando ao legislador ordinário a determinação de
Tribunal de Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR, 25
(2008), 25.
(245)
Vide Capítulo VI, 3. A Justiça Constitucional.
(244)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
183
várias questões neste âmbito. Refira‑se que, até à data, o ordenamento jurídico
timorense ainda não tem legislação sobre estas questões. Face a esta lacuna
jurídica, a prática do Tribunal de Recurso, exercendo a competência de Supremo
Tribunal de Justiça, é a de utilizar, com as devidas adaptações, os princípios
previstos no código de processo civil para determinar questões procedimentais
essenciais durante os processos de fiscalização da constitucionalidade (246).
A Constituição determina de forma clara quais os titulares de legitimidade
processual para submeter um pedido de fiscalização da constitucionalidade
(legitimidade processual ativa). O Presidente da República detém legitimidade
processual para submeter pedidos de fiscalização da constitucionalidade em três
dos quatro processos: fiscalização abstracta preventiva, fiscalização abstrata
sucessiva e fiscalização da inconstitucionalidade por omissão (artigos 149.º‑1,
150.º/a e 151.º). Ao Procurador‑Geral da República e ao Provedor de Direitos
Humanos e Justiça é reconhecida a competência para requerer a fiscalização da
constitucionalidade abstrata sucessiva de uma norma e a fiscalização da incons‑
titucionalidade por omissão (artigos 150.º/c e f e artigo 151.º). O Presidente
do Parlamento Nacional, assim como o Primeiro‑ministro e os deputados,
podem solicitar a fiscalização abstrata sucessiva (artigo 150.º/b, d e e). O Tri‑
bunal de Recurso, desempenhando as funções do Supremo Tribunal de Justiça,
deparou‑se em 2008 com um pedido de fiscalização da constitucionalidade
abstrata por um número de pessoas coletivas representantes da sociedade civil.
Uma vez que a Constituição não atribui a legitimidade processual ativa aos
indivíduos ou representantes da sociedade civil, o Tribunal negou provimento
ao pedido pela falta de legitimidade processual dos requerentes, declarando,
desta forma, estar legalmente impedido para apreciar o pedido (247).
(246)
Ver, por exemplo, Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto de 2008
(Fiscalização Abstrata Sucessiva da Constitucionalidade), Proc. 02/2008/TR, 7‑ss
(Tribunal de Recurso 2008), 7‑ss.
(247)
Ibid., 7‑9. Neste caso, um grupo de representantes da sociedade civil e um
deputado do Parlamento Nacional submeteram diretamente ao Tribunal de Recurso
um pedido para a declaração da inconstitucionalidade do decreto presidencial sobre
indulto a um número de reclusos das instituições prisionais (Decreto Presidencial
No. 53/2008, de 19 de Maio). Os requerentes fizeram o seu pedido com base no direito
de petição previsto no artigo 48.º da Constituição, tendo, no entanto, o Tribunal de
Recurso considerado que se tratava de um pedido de fiscalização abstrata da constitu‑
cionalidade tendo, consequentemente, averiguado a legitimidade processual dos reque‑
rentes.
Coimbra Editora ®
184
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Ainda, é importante já ressaltar que a Constituição timorense prevê o
sistema de fiscalização da constitucionalidade e da legalidade das normas (248),
questão abordada no sexto capítulo.
2.7.2 A Revisão Constitucional
Tendo em atenção que uma sociedade não é estática e existe a possibilidade
de mudanças na sua realidade sociocultural e institucional, uma Constituição
poderá, a dado momento, já não refletir a sociedade e o Estado que serve
enquanto lei suprema. Por esta razão, revela‑se essencial a existência de regras
específicas para a revisão da Constituição. O processo de revisão, tal como a
sua própria denominação revela, refere‑se a uma alteração da Constituição, não
podendo representar uma revogação ou uma substituição global da Constitui‑
ção por uma outra (249).
Como já sublinhado, pode ainda considerar‑se o instituto da revisão
constitucional como um mecanismo de garantia da própria Constituição.
Existe, assim, uma “superioridade da função constituinte em relação à função
de revisão” (250). Os limites à revisão constitucional demonstram o caráter
rígido da Constituição. A Constituição é uma lei dotada de certa rigidez, que
a distingue da liberdade de modificação das leis ordinárias (“rigidez rela‑
tiva” (251)).
Assim, o instituto da revisão constitucional serve, desta forma, duas fun‑
ções concorrentes: assegurar a natureza dinâmica da Constituição e, através dos
limites ao poder de revisão, garantir a rigidez da Lei Fundamental.
(248)
Artigos 149.º a 152.º da Constituição. Sobre esta questão no direito cons‑
titucional português, ver, Morais, Justiça Constitucional — Garantia da Constituição e
Controlo da Constitucionalidade, I:416‑ss. Em Cabo Verde, é aceite, desde a revisão
Constitucional de 2010, a fiscalização da constitucionalidade de resoluções que não
possuam necessariamente caráter normativo, mas caráter individual e concreto
(artigo 277.º, 280.º e 281.º da Constituição cabo‑verdiana). Ver, também, o acórdão
do Conselho Constitucional Moçambicano, Acórdão n.º 07/CC/2007, de 18
de Dezembro, o qual discute também o critério de normatividade de diplomas.
(249)
Ver Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa
Anotada, 2010, II (Artigo 108.º a 296.º):996.
(250)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1059.
(251)
Ibid. Ver, sobre este assunto, Morais, Justiça Constitucional — Garantia da
Constituição e Controlo da Constitucionalidade, I:59‑ss.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
185
Os preceitos legais para a revisão da Constituição timorense estão previs‑
tos nos artigos 154.º a 157.º Entre as principais características do sistema de
revisão constitucional, encontram‑se certos limites formais e materiais da revisão
constitucional, de entre os quais (252):
— a competência exclusiva do Parlamento Nacional (limite formal): de
acordo com o 154.º‑1 da CRDTL este limite formal prevê que
somente os deputados e as bancadas parlamentares são competen‑
tes para iniciar o processo de revisão constitucional. A Constitui‑
ção não determina, contudo, o número mínimo de deputados
necessários a uma iniciativa de revisão (253). Diversamente das
Constituições de vários países da CPLP, as bancadas parlamentares
possuem em Timor‑Leste o poder de iniciativa para a revisão da
Constituição. Ao contrário do processo para a elaboração de lei
ordinária, não é atribuída ao Governo a capacidade de iniciativa
da lei de revisão constitucional. No processo de revisão constitu‑
cional acolhido em Timor‑Leste, o órgão de revisão é o órgão
legislativo ordinário (254). Refira‑se, no entanto, a exigência da
Sobre os preceitos para a revisão constitucional em Angola, ver Machado,
Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional Angolano, cap. XVI. Ver,
também, sobre o processo de revisão constitucional em Portugal Jorge Miranda, Manual
de Direito Constitucional, 6.ª edição, Tomo II (Coimbra: Coimbra Editora, 2007),
195‑ss; Gouveia, Manual de Direito Constitucional, 2005, I:638‑ss.
(253)
Semelhante à Constituição de Timor‑Leste é a Constituição cabo‑verdiana
(artigo 285.º‑3), santomense (artigo 151.º‑1) e portuguesa (artigo 285.º‑1). Em con‑
traste, encontramos a Constituição moçambicana e angolana, as quais determinam no
mínimo um terço dos deputados para a iniciativa de uma revisão constitucional
(artigo 291.º‑1 da Constituição moçambicana e artigo 233.º da Constituição angolana).
Note‑se que o Regimento do Parlamento Nacional (Lei n.º 15/2009, de 11 de Novem‑
bro) não regula o processo legislativo da lei de revisão constitucional. Jorge Miranda,
relativamente ao caso português, sugere a utilização por analogia dos números mínimos
e máximos de deputados necessários para submeter uma iniciativa de lei no âmbito do
processo legislativo comum (Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007,
Tomo II:196).
(254)
Em outros países pós‑conflito, como o Ruanda, a revisão constitucional
terá necessariamente que ser submetida a aprovação em referendo popular, após a sua
aprovação pelas Câmaras do Parlamento, sempre que incidir sobre as seguintes matérias:
a Presidência da República; o sistema de governo democrático baseado no pluralismo;
(252)
Coimbra Editora ®
186
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
participação da sociedade através de um referendo popular para
desencadear o poder de revisão constitucional em duas matérias
específicas: a forma republicana de governo e a bandeira nacional
(artigo 156.º‑2 da CRDTL).
— prazo temporal para a revisão (limite formal): aqui, há que distinguir
entre a revisão ordinária e a revisão extraordinária. Para as revisões
ordinárias, é determinado um prazo mínimo de seis anos “sobre a data
da publicação da última lei de revisão” (artigo 154.º‑2) para desen‑
cadear o processo de revisão constitucional. Visto que a Constituição
de 2002 é resultado do poder constituinte originário, considera‑se,
por via interpretativa, a aplicabilidade do artigo 154.º‑2 quando se
tratar da lei originária da Constituição. Com isto, desde 20 de Maio
de 2008, já é possível rever a Constituição de 2002. Caso fosse admi‑
tido rever a constituição a qualquer tempo ou em intervalos bastante
curtos, estar‑se‑ia a colocar em perigo a estabilidade das instituições
constitucionais. A exigência de um prazo mínimo de seis anos signi‑
fica, ainda, que nenhuma legislatura poderá realizar mais de uma
revisão constitucional, já que cada legislatura tem a duração normal
de cinco anos. Todavia, a Constituição timorense admite uma exceção
a esta regra, prevendo a possibilidade de realizar uma revisão extraor‑
dinária, sem quaisquer limites temporais, caso tal processo seja ini‑
ciado por quatro quintos dos deputados em efetividades de funções
(artigo 154.º‑4 da CRDTL).
— limites circunstanciais (limites formais): durante um estado de sítio
ou de emergência “não pode ser praticado nenhum ato de revisão
constitucional” (artigo 157.º da CRDTL). Isto quer dizer que,
durante estes períodos de exceção, não se pode iniciar o processo
de revisão, nem se pode implementar qualquer outro ato deste
processo, nomeadamente, o debate e a votação de uma lei de revisão
constitucional. Este limite significa ainda que, caso anteriormente
à declaração de um estado de sítio ou de emergência, uma lei de
revisão constitucional já se encontrasse em vias de discussão, o
Parlamento Nacional deverá suspender o processo de revisão. A razão
para tal limite circunstancial assenta na lógica de que “as circuns‑
a forma republicana do governo ou a soberania nacional (artigo 193.º da Constituição
do Ruanda de 2003).
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
187
tâncias constitucionais excecionais podem constituir ocasiões favo‑
ráveis para limitar a liberdade deliberativa do órgão responsável pela
revisão ou para forçar a introdução de alterações não permitidas
pela Constituição” (255).
— maioria qualificada para aprovação (limites formais): a Constituição
timorense requer uma maioria de dois terços dos deputados em efe‑
tividade de funções para a aprovação da lei de revisão constitucional
(artigo 155.º‑1). Dentro do sistema constitucional timorense, a lei de
revisão constitucional mostra‑se como a única lei que requer a apro‑
vação por uma maioria qualificada (256), demonstrando inequivoca‑
mente a importância que a lei de revisão constitucional possui. Como
consequência do critério de maioria qualificada, torna‑se imprescin‑
dível o debate e aprovação da lei de revisão em plenário (257).
— falta de controlo presidencial da lei de revisão constitucional: tal como
previsto no artigo 155.º‑3, “o Presidente da República não pode
recusar a promulgação da lei de revisão”, preceito que existe exata‑
mente com a mesma formulação no artigo 286.º‑3 da Constituição
portuguesa. Entende‑se na doutrina portuguesa que “a inconstitucio‑
nalidade material e formal das leis de revisão pode e deve ser apreciada
pelos tribunais (artigo 204.º) e pelo Tribunal Constitucional nos
termos dos artigos 280.º e 281.º da CRP, ou seja, segundo o processo
de fiscalização sucessiva, havendo algumas dúvidas quanto à possibi‑
lidade de controlo preventivo” (258).
— limites materiais: pretendem identificar certas áreas materiais que
não podem ser sujeitas a alterações dentro da lei de revisão e visam
garantir “aquele conjunto de princípios cuja permanência se torna
necessária para a própria continuidade [da Constituição] e cuja
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):1020.
(256)
Vide Capítulo II, 2.8 Constituição e Ordenamento Jurídico.
(257)
Estas e outas questões devem ser reguladas por legislação o que ainda não
foi realizado em Timor‑Leste. Refira‑se que o Regimento do Parlamento Nacional (Lei
n.º 15/2009, de 11 de Novembro) não contém qualquer norma sobre as leis de revisão
constitucional.
(258)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
1076‑1077.
(255)
Coimbra Editora ®
188
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
violação afetaria a própria identidade da constituição material” (259).
O artigo 156.º‑1 identifica dez limites materiais. Adaptando a
classificação proposta por Gomes Canotilho e Vital Moreira (260),
podemos sistematizar os limites materiais contidos na Constituição
timorense da seguinte forma: (i) os princípios caracterizadores da
República e do Estado: independência nacional e unidade do
Estado (artigo 156.º‑1/a)); (ii) a salvaguarda dos direitos, liberda‑
des e garantias: os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos
(artigo 156.º‑1/b)); e (iii) a proteção das bases da organização do
Estado e do poder político em geral: a forma republicana de
governo, o princípio da desconcentração e da descentralização
administrativa, a separação de poderes, a independência dos tri‑
bunais, o multipartidarismo e o direito de oposição democrática,
o sufrágio livre, universal, direto, secreto e periódico dos titulares
dos órgãos de soberania, bem como o sistema de representação
proporcional (respectivamente, artigo 156.º‑/c), h), d), e) e f ) e
g)). Todavia, à semelhança do que acontece com a Constituição
portuguesa, e citando Jorge Miranda, existem limites que o legis‑
lador constituinte erigiu “ao nível dos limites materiais, sem que,
apesar de tudo, se identifiquem com a essência da Constituição
material” (261). Este é o caso dos limites materiais da bandeira
nacional e a data da proclamação da independência nacional
(artigo 156.º‑1/i) e j)).
No regime de revisão constitucional, os limites materiais representam o
aspeto jurídico‑constitucional merecedor de maior atenção.
A lista dos limites materiais prevista na Constituição timorense retrata
uma série de aspetos interessantes. Repare‑se na inclusão de limites materiais
como a bandeira nacional e o dia da proclamação da independência, como já
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):1011‑1012.
(260)
Ibid., II (Artigo 108.º a 296.º):1015. Os limites materiais previstos na
Constituição portuguesa foram divididas em cinco grupos, incluindo ainda os que
respeitam à superioridade da própria constituição como lei fundamental e suprema da
ordem jurídica e os que asseguram as bases da organização económica.
(261)
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:239.
(259)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
189
referido (262). Como limites materiais, encontra‑se, ainda, o uso do sistema de
representação proporcional em eleições. Com a consagração destes limites,
revela‑se que o legislador constituinte timorense considerou limites que vão
além do núcleo da identidade constitucional. Igualmente interessante foi, ainda,
a opção do legislador constituinte em permitir a revisão da bandeira nacional
e da forma republicana do governo através de referendo nacional, nos termos
da lei, sujeitando, portanto, a sua alteração à vontade popular (artigo 156.º‑2).
O respeito pelos direitos fundamentais foi elencado como um limite
material na formulação “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”
(artigo 156.º‑1/b) (263). Todavia, da leitura deste preceito constitucional poderá
depreender‑se, a partir do facto de existirem diferentes categorias de direitos
fundamentais, que ali não se incluem todos os direitos fundamentais, ficando
excluídos os direitos económicos, sociais e culturais (264). Dentro do limite
material da revisão constitucional, só o respeito pelos direitos, liberdades e
garantias dos cidadãos seriam considerados como limite material. Esta lingua‑
gem utilizada na Constituição comporta um caráter limitador, resultando em
preocupações sobre a cabal proteção aos direitos fundamentais nos eventuais
processos de revisão constitucional. A linguagem utilizada na Constituição
também realça duas questões constantemente debatidas na doutrina estrangeira,
inclusivamente nos países da CPLP. No que respeita ao elenco de limites mate‑
riais, será a lista expressa no artigo 156.º exclusiva, ou é permitida a incorpo‑
ração de limites materiais não expressos no texto constitucional? Dentro do
âmbito do alcance dos limites materiais, funcionam estes como princípios para
determinar as questões que não podem ser alteradas ou representam uma proi‑
bição de alteração de normas específicas?
(262)
Dos países da CPLP somente a Guiné Bissau prevê um limite similar, ao
estabelecer como limite material “Símbolos nacionais e Bandeira e Hino Nacionais
(artigo 130.º/d).
(263)
Idêntica formulação é usada em Constituições de outros países da CPLP,
como por exemplo: Guiné‑Bissau (artigo 130.º/e); Moçambique (artigo 292.º/d); São
Tomé e Príncipe (artigo 154.º/d) e Portugal (artigo 288.º/d). A Constituição de
Cabo‑Verde usa uma expressão mais completa dedicando um parágrafo a este limite
constitucional: “As leis de revisão não podem, ainda, restringir ou limitar os direitos,
liberdades e garantias estabelecidos na Constituição” (artigo 290.º‑2). Por sua vez, a
Constituição de Angola impõe apenas como limite material à revisão constitucional o
“núcleo essencial dos direitos, liberdades e garantias” (artigo 236.º/e).
(264)
Vide Capítulo III, 3.2 Catálogo dos Direitos Fundamentais.
Coimbra Editora ®
190
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Utilizando os direitos fundamentais como exemplo, parece‑nos pertinente
considerar a possibilidade de considerarmos a existência de limites textuais
implícitos e limites tácitos (265). Apesar de não estar expressamente referenciado,
não deveriam os princípios gerais dos direitos fundamentais (isto é, os arti‑
gos 16.º ao 28.º da Constituição) representar limites materiais (implícitos) a
uma revisão Constitucional? Uma resposta negativa resultaria, na prática, numa
ineficácia do limite material expresso relacionado com os direitos fundamentais.
Os limites materiais textualmente implícitos são aqueles que são “deduzidos
do próprio texto constitucional” (266). Um outro exemplo pode ser dado sobre
o preceito constitucional da inamovibilidade dos juízes (artigo 121.º‑3), pois
este poderá também ser considerado um limite material implícito ao limite
material da independência dos tribunais.
Os limites materiais de natureza tácita carregam uma conotação valorativa,
sendo “imanentes numa ordem de valores pré‑positiva” (267). Aqueles limites
estariam relacionados com questões relativas às raízes do próprio Estado cons‑
titucional, baseado num Estado de Direito, e carregam uma natureza ética.
Poderia afirmar‑se que a extensão do limite material “direitos, liberdades e
garantias” a qualquer indivíduo, e não somente ao cidadão, como resulta da
letra da norma constitucional (artigo 156.º‑1/b) do CRDTL), parece revelador
da aceitação da existência de limites materiais tácitos. O mesmo poderia ser
considerado, também, na extensão deste limite material aos direitos económi‑
cos, sociais e culturais. Uma vez que estes direitos são garantias do indivíduo
diretamente ligadas à sua dignidade humana e são baseados nos valores éticos
que semeiam todos os padrões de direitos fundamentais reconhecidos no plano
normativo‑constitucional, estes direitos fundamentais, em resultado da inte‑
gração de norma constitucional por analogia (268), poderiam encontrar‑se fora
do alcance de uma revisão constitucional que não os respeitasse.
Naturalmente, a consideração dos limites materiais tácitos, e em certa
medida dos limites materiais implícitos, deve sempre representar uma exceção
à regra, pela insegurança e subjetividade que tal reconhecimento poderá
trazer.
Classificação utilizada por Canotilho (Gomes Canotilho, Direito Constitu‑
cional E Teoria Da Constituição, 1065.)
(266)
Ibid.
(267)
Ibid.
(268)
Vide Capítulo II 3.3 Lacuna Constitucional.
(265)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
191
No que se refere ao alcance dos limites materiais, acompanhamos a suges‑
tão de Gomes Canotilho e Vital Moreira que consideram esta questão depen‑
dente do “sentido constitucional de cada um dos domínios constitucionais
garantidos contra a revisão, o qual não tem que ser idêntico a todos” (269). No
que respeita aos “direitos, liberdades e garantias”, parece‑nos que uma revisão
constitucional poderá alterá‑los de uma forma limitada. Entendemos que a
razão para estabelecer estes como um limite material é a de garantir o nível de
proteção que o constituinte originário determinou no texto inicial da Consti‑
tuição. Seria, assim, vedada, no processo de revisão constitucional, a eliminação
de algum dos direitos fundamentais, a diminuição substancial do alcance ou a
inclusão de maiores restrições do que aquelas previstas na Constituição. Por
outro lado, seria possível aumentar o âmbito dos padrões dos direitos funda‑
mentais já elencados no catálogo constitucional ou acrescentar novos padrões,
possivelmente como resultado da inclusão de certas garantias em leis ordinárias
ou com o desenvolvimento do reconhecimento dos direitos humanos ao nível
internacional. Assim, o limite material relacionado com os direitos fundamen‑
tais agiria como um princípio orientador, não possuindo uma característica
imutável.
Na doutrina estrangeira, inclusivamente a portuguesa e a brasileira,
debate‑se a questão da revisão constitucional versar ainda sobre o próprio
sistema da revisão constitucional, modificando, por exemplo, os limites
materiais. Sobre esta questão, e atendendo ao objetivo deste livro, parece‑nos
apenas necessário sublinhar que uma posição sobre este assunto encontrar‑se‑á
inevitável e intimamente ligada à natureza do próprio poder de revisão, assim
como à aceitação da existência ou não de limites materiais não expressos no
texto constitucional. Gomes Canotilho e Vital Moreira inclinam‑se para a
irrevisibilidade do regime de revisão constitucional (270). A prática constitu‑
cional angolana parece aceitar a técnica da dupla revisão constitucional (isto
é, uma revisão constitucional que incide, numa primeira fase, sobre os limi‑
tes materiais para, na próxima revisão, realizar as alterações substantivas nas
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):1014. Sobre este mesmo assunto, ver, Gouveia, Manual
de Direito Constitucional, 2005, I:651‑652.
(270)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2010, II (Artigo 108.º a 296.º):1014.
(269)
Coimbra Editora ®
192
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
normas constitucionais à luz dos novos limites) (271). Em Timor‑Leste, o Par‑
lamento Nacional poderia deparar‑se, eventualmente, com a admissibilidade
de alterações ao regime de revisão constitucional aquando da decisão de
realizar a primeira revisão constitucional, que já é possível desde 20 de Maio
de 2008.
2.8 Constituição e Ordenamento Jurídico
A Constituição é, indubitavelmente, a lei suprema de Timor‑Leste como
resultado da sua primazia prevista nos seus artigos 2.º‑2 e 3. Para além da Lei
Fundamental, quais são os outros elementos do ordenamento jurídico timorense
reconhecidos pela Constituição?
No Capítulo anterior, foram abordadas as fontes de Direito do ponto de
vista dos direitos fundamentais, tendo‑se explorado aquelas fontes que estabe‑
lecem padrões de direitos fundamentais, assim como aquelas outras que refle‑
tem instrumentos para a concretização destes padrões. Aqui, a enfase é dada,
especificamente, ao ordenamento jurídico previsto na Constituição.
Em muitos países da CPLP, como por exemplo, Cabo Verde e São Tomé
e Príncipe, a Lei Fundamental dedica algumas das suas normas à definição,
com um certo grau de especificidade, do ordenamento jurídico, através da
previsão das fontes de Direito e de algumas das modalidades legislativas (272).
Neste ponto de vista, a Constituição timorense é bastante particular, dada a
(271)
A revisão Constitucional portuguesa de 1989 procedeu a uma redução
dos limites materiais originários. Na doutrina portuguesa Carlos Blanco de Morais
considera a “consolidação pragmaticamente [d]a tese da admissibilidade da dupla
revisão” (Morais, Justiça Constitucional — Garantia da Constituição e Controlo da
Constitucionalidade, I:69.). Contudo, são várias as críticas lançadas à técnica da dupla
revisão, assentes, desde logo, no facto de que as normas que consagram os limites
da revisão foram criadas pelo poder constituinte originário, sendo com base nelas
que controlamos a actuação do poder de revisão (poder constituinte derivado).
A adoção desta técnica traduzir‑se‑ia, segundo alguns, numa fraude à própria Cons‑
tituição. Cfr., sobre este assunto, Gouveia, Manual de Direito Constitucional, 2005,
I : 643‑644.
(272)
A Constituição de Cabo Verde estabelece, no seu Título X, a forma e a
hierarquia dos atos legislativos. Por seu turno, a Constituição de São Tomé e Príncipe
enumera, no seu artigo 70.º, os atos normativos por ela admitidos, bem como a hie‑
rarquia entre leis e decretos‑leis.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
193
ausência de uma provisão no seu texto que identifique com uma inequívoca
certeza os elementos compositores do ordenamento jurídico:
“A constituição não define o que são e quais os atos normativos que
compõem o ordenamento jurídico de Timor‑Leste, nem definiu o princípio
da hierarquia das fontes, nem o princípio da tipicidade das leis, nem estabe‑
leceu uma norma sobre as fontes normativas e os efeitos dos atos normativos
constitucionalmente tipificados. Não temos, assim, uma norma concretiza‑
dora da vinculação constitucional do legislador quanto à produção normativa”
(Tribunal de Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Proc. 04/
CONST/03/TR, p. 19)
Desta forma, o processo para a identificação dos elementos normativos
do ordenamento jurídico timorense, assim como a sua força normativa,
torna‑se um processo analítico‑interpretativo, com base no texto constitucio‑
nal, nas leis emanadas do Parlamento Nacional, assim como em princípios
basilares do Direito incorporados através de uma análise de diplomas legisla‑
tivos já existentes.
Não se objetiva aqui prestar uma análise jurídica completa desta questão de
grande complexidade, mas prover uma proposta de abordagem básica sobre o
ordenamento jurídico estabelecido em Timor‑Leste através da moldura, apesar de
esta ser bastante incompleta, criada pela Constituição.
Ao invés de consagrar um artigo específico sobre os atos normativos, a
Constituição limita‑se a incorporar questões sobre o ordenamento jurídico
dispersas no seu texto, determinando, desta forma, um enquadramento bastante
geral, mas que se revela suficientemente capaz de auxiliar no processo da iden‑
tificação das características‑base do ordenamento jurídico timorense.
Antes de mais, importa relembrar que do ordenamento jurídico fazem
parte, apenas, os atos que são de natureza normativa, ou seja, os diplomas que
contêm “normas” (273). De acordo com o Tribunal de Recurso, são normas
Do ordenamento jurídico ficam excluídos os atos que não podem ser
considerados normas jurídicas, pois, muito embora possam representar “imperati‑
vos tutelados por medidas coercitivas, não criam direito objectivo mas (…)
limitam[‑se] a ser uma aplicação deste ou adoptam providências concretas e indi‑
vidualizadas. Assim, não são normas jurídicas as sentenças (…), os decretos, por‑
tarias ou despachos de nomeação de um ministro ou de um funcionário público,
(273)
Coimbra Editora ®
194
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
“aquelas [atividades normativas] que têm por fim «a emissão de regras de con‑
duta», «critérios de decisão» ou «padrões de valoração de comportamento»” (274).
As principais normas constitucionais de relevo neste processo para um
aclaramento do ordenamento jurídico timorense são: a receção do direito
internacional (artigo 9.º), o reconhecimento das normas e os usos costumeiros
de Timor‑Leste (artigo 2.º‑4), assim como certos termos que indicam a nor‑
matividade de atos e identificam algumas modalidades das leis, nomeadamente,
os “diplomas legislativos” do Parlamento Nacional e do Governo (exemplos no
artigo 85.º/a e 116.º/d), “lei”, “atos normativos” (artigo 73.º‑1) e “regulamen‑
tos” (artigo 165.º). São identificadas especificamente três modalidades de leis:
as “leis restritivas” (artigo 24.º), “leis de autorização legislativa” e “lei de revisão”
(artigo 155.º‑2). Parece‑nos claro que a concretização das competências cons‑
titucionais legislativas do Parlamento Nacional e do Governo são os principais
atos normativos (275). A Constituição faz ainda referência ao direito anterior,
incorporando no ordenamento jurídico nacional “as leis e os regulamentos
vigentes em Timor‑Leste” antes da restauração da independência (276).
Ao estudar a Constituição, pode verificar‑se que esta enuncia uma pluri‑
modalidade de atos legislativos (277), ao considerar expressamente, por exemplo,
a existência de diferentes modalidades de lei: leis de revisão constitucional, leis
de bases e leis de autorização (respetivamente, artigos 155.º‑2, 95.º‑2 e 96.º‑2).
No texto constitucional, as normas constitucionais que se relacionam
diretamente com a força da lei, incluem:
— princípio fundamental da supremacia constitucional (artigo 2.º‑2 e 3
da CRDTL)
(…) os despachos que, como actos definitivos e executórios, incidem sobre os
requerimentos dos particulares, etc. (…) “[M]as já os chamados despachos norma‑
tivos, como regulamentos que contêm regras gerais e abstractas, ou seja, normas
jurídicas, são verdadeiras leis em sentido material” pelo que se devem considerar
parte do ordenamento jurídico. Ver J. Baptista Machado, Introdução Ao Direito E
Ao Discurso Legitimador (Coimbra: Almedina, 1996), 91.
(274)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Fiscalização Abs‑
trata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR, 26 (2008), 26.
(275)
Vide Capítulo II, 2.5 Sistema Legislativo.
(276)
Artigo 165.º da Constituição.
(277)
Termo utilizado largamente pela doutrina portuguesa e brasileira, ver, por
exemplo, Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 696‑697.
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
195
— validade das leis dependente da sua conformidade com o direito
internacional (artigo 9.º‑3)
— competência do Supremo Tribunal de Justiça para apreciar e declarar
a ilegalidade dos atos legislativos e normativos dos órgãos do Estado
(artigo 126.º‑1/a)
— competência do Supremo Tribunal de Justiça para verificar previa‑
mente a legalidade dos diplomas legislativos e dos referendos
(artigo 126.º‑1/b)
— referência à legislação das “bases” e “bases gerais”, “política”, “regime”
e “regimes gerais” e “sistema” de certas áreas dentro da competência
legislativa exclusiva e relativa parlamentar (artigo 95.º‑2/l, m, o, p e
q e artigo 96.º‑1/d, i, k)
— delimitação da autorização legislativa (objeto, sentido e extensão da
delegação) do Parlamento Nacional ao Governo (artigo 96.º‑2)
Observa‑se, ainda, que a Constituição timorense prevê que apenas num
caso é necessária uma maioria qualificada em relação a uma lei: a lei de revisão
da Constituição (artigo 155.º da CRDTL) (278).
Não se sabe se a falta de uma provisão constitucional sobre o ordenamento
jurídico foi resultado de uma vontade específica do constituinte de delegar ao
legislador a tarefa de identificação dos componentes do ordenamento jurídico
ou se tal resultou como consequência da brevidade do processo de elaboração
da Constituição e de uma intenção de esta ser um documento relativamente
conciso (279).
(278)
É ainda determinada a superação de veto presidencial através de uma maio‑
ria de dois terços (artigo 88.º da CRDTL). Esta votação, porém, não incide sobre a
lei em si, mas representa uma confirmação da vontade legislativa parlamentar ao supe‑
rar o veto presidencial. Nota‑se que, em outras jurisdições, a portuguesa inclusa, a
constituição pode prever diferentes maiorias para as votações, dependendo da matéria
a ser legislada. Por exemplo, o artigo 136.º‑3 da Constituição portuguesa exige uma
aprovação por dois terços dos deputados presentes para as leis orgânicas, assim como
relativamente a uma série de matérias, inclusivamente sobre as “relações externas” e “os
limites entre o sector público, o sector privado e o sector cooperativo e social de pro‑
priedade dos meios de produção”.
(279)
Não há, em Timor‑Leste, registo dos documentos preparatórios abrangen‑
tes da CRDTL, tornando mais difícil a tarefa de revelar a intenção do constituinte.
Coimbra Editora ®
196
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
No que respeita aos componentes e à hierarquia do ordenamento jurídico,
há três leis instrumentais: a Lei n.º 1/2002, de 29 de Junho (Publicação dos
Atos), a Lei n.º 10/2003, de 10 de Dezembro (Interpretação do artigo 1.º da
Lei n.º 2/2002, de 7 de Agosto e Fontes de Direito) e o Código Civil (Lei
n.º 10/2011, de 13 de Setembro).
Correlacionando as leis acima assinaladas, poder‑se‑á extrair as seguintes
linhas sobre o ordenamento jurídico timorense, tendo em conta a moldura
constitucional já apresentada:
—A elaboração de “leis” e “decretos‑leis”, respetivamente pelo Parla‑
mento Nacional e Governo, como resultado da implementação das
suas competências legislativa‑constitucional;
—A existência de atos normativos emanados do Governo, com caráter
de regulamentação (mas não de natureza legislativa), normalmente,
representados por Decretos do Governo e diplomas ministeriais;
—A identificação dos atos “legislativos” da UNTAET e o Direito Indo‑
nésio como lei subsidiária em Timor‑Leste, assegurando, desta forma,
uma certeza jurídica e prevenindo grandes lacunas no sistema das
fontes aquando da aplicação de normas num país recentemente inde‑
pendente;
—A inclusão de normas costumeiras (representativas das tradições locais)
no ordenamento jurídico, quando não estejam em confronto com a
Constituição ou com as leis (artigo 2.º do Código Civil) (280);
—A determinação de uma hierarquia de fontes do Direito nacionais,
com a Constituição no seu vértice, e com as leis e decretos‑leis ocu‑
pando a mesma posição, como resultado da desconcentração norma‑
tiva nestes dois órgãos de soberania;
Refira‑se que a legislação relativa às fontes de Direito não especifica a
posição do direito internacional no ordenamento nacional, apesar de a Cons‑
tituição determinar claramente uma força supralegal do direito internacional
O Tribunal de Recurso, no seu acórdão de 16 de Junho de 20014 reiterou
a posição infraconstitucional e infralegislativa dos costumes tradicionais ao considerar
que “[n]ão faz sentido este argumento que defende o “costume contra legem” que está
claramente banido pelo ordenamento jurídico timorense (…)” (Tribunal de Recurso,
Acórdão 16 de Junho de 2014, Proc. n.º 65/CO/14/TR, 9 (2014), 9.
(280)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
197
convencional em relação à legislação ordinária (artigo 9.º‑3 CRDTL).
Entende‑se que esta relação é bastante complexa, e quando da aprovação pelo
Parlamento Nacional da Lei n.º 10/2003, de 10 de Dezembro, era sua preo‑
cupação primordial proceder à clarificação da legislação subsidiária em
Timor‑Leste. Recorde‑se que a relação entre o direito interno e o direito inter‑
nacional já foi considerada anteriormente no Livro (281).
A legislação relevante para a definição do ordenamento jurídico não
tem em consideração a posição dos diferentes diplomas reguladores, como
os decretos do Governo, no sistema de hierarquia das fontes. Estes diplomas,
na sua maioria, representam instrumentos de regulamentação das leis, sendo
diplomas normativos, porém não legislativos. A necessidade de o poder
regulamentador do Governo ser exercido através de atos normativos revela
a submissão da função administrativa ao princípio da legalidade e ainda ao
princípio da prevalência ou preferência da lei, uma realidade que deriva do
princípio fundamental constitucional de subordinação à lei (282). Como diz
Gomes Canotilho, o regulamento é “um ato normativo e não um ato admi‑
nistrativo singular; é um ato normativo mas não um ato normativo com
valor legislativo” (283). Vale a pena ressaltar que o poder regulamentador do
Governo, da mesma forma que o seu poder legislativo, tem uma base
jurídico‑constitucional, como a expressa no artigo 115.º‑1/e, a qual prevê
a competência governamental de “regulamentar a atividade económica e a
dos setores sociais”. A posição dos atos normativos‑reguladores em relação
aos atos legislativos, apesar de não se encontrar expressa na Constituição,
foi clarificada, em 2006, através do Decreto‑Lei n.º 12/2006, de 26 de
Julho (Estrutura Orgânica da Administração Pública) (284), atribuindo a estes
(281)
Vide Capítulo I, 4. Relação entre o Direito Interno e o Direito Interna‑
cional.
No artigo 3.º‑2 da Constituição portuguesa, lê‑se “[o] Estado subordina‑se
à Constituição e às leis”. Sobre este assunto ver Canotilho, Direito Constitucional E
Teoria Da Constituição, 2010, 833‑834; Carlos Blanco de Morais, Curso de Direito
Constitucional — A Lei e os actos normativos no ordenamento jurídico português, Tomo I
(Coimbra: Coimbra Editora, 2008), 104‑105.
(283)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 833.
(284)
“O exercício do poder regulamentar do Governo está sujeito aos princípios
e regras constitucionais e legais” (artigo 20.º‑1 do Decreto‑Lei n.º 12/2006, de 26
de julho (Estrutura Orgânica da Administração Pública).
(282)
Coimbra Editora ®
198
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
atos normativos uma posição de inferioridade em relação às leis (285), como
se constata na prática. Em 2002, já havia sido determinado que todos os
Decretos do Governo e Diplomas Ministeriais deveriam conter a referência
ao ato legislativo — lei ou decreto‑lei — que servisse como base jurídica
para a sua aprovação, denotando, desde logo, esta posição na hierarquia do
ordenamento jurídico (286). A relação entre lei e regulamento é, todavia, um
aspeto de grande simplicidade no Direito, tal como declarou o Tribunal de
Recurso: “é princípio elementar do [D]ireito que o regulamento tem que
se subordinar à lei que regulamenta” (287). Um regulamento deve sempre
estar em conformidade com uma lei, sendo que a falta de conformação
inequivocamente resultará numa ilegalidade.
Observa‑se que a Constituição não reconhece um poder regulamenta‑
dor às instituições independentes, como ao Provedor de Direitos Humanos
e Justiça, mas entende‑se que o poder regulamentador pode ser delegado,
como certamente o Governo o fez através do artigo 29.º do Decreto‑Lei
O artigo 20.º‑2 do Decreto‑Lei n.º 12/2006, de 26 de Julho prevê: “A cria‑
ção de actos normativos por membro do Governo subordina‑se ainda aos atos legisla‑
tivos e demais disposições aprovadas pelo Conselho de Ministros, às normas definidas
pelos ministérios dotados de funções de coordenação geral, não devendo ainda dispor
diferentemente de normas criadas pelos ministérios nas respectivas áreas de tutela”.
Ainda, o regime jurídico do uso da força prevê que a regulamentação complementar
“não deve, em caso algum, dispor contra os princípios e regras estabelecidos na presente
lei” (artigo 24.º‑2 do Decreto‑Lei n.º 43/2011, de 21 de Setembro (Regime Jurídico
do Uso da Força).
(286)
Deste modo, o artigo 12.º‑1 da Lei n.º 1/2002, de 7 de Agosto (Publica‑
ção dos Atos) prevê que “[o]s decretos do Governo obedecem, na sua parte inicial,
ao formulário seguinte: O Governo decreta, ao abrigo do previsto no artigo … da Lei
n.º … — ou do Decreto‑Lei n.º …, conforme os casos —, para valer como regula‑
mento, o seguinte:". Em virtude da circunscrita experiência do Governo, especialmente
do Conselho de Ministros, entende‑se que alguns regulamentos elaborados na forma
de Decretos do Governo não seguem esta regra, como foi o caso do Decreto do
Governo n.º 2/2010, de 16 de Março (Remuneração dos Membros da Comissão
Anti‑Corrupção). Isto não significa que este diploma tenha perdido sua natureza
regulamentadora, natureza claramente prevista no seu artigo 1.º, mas antes represen‑
tará um erro de legística.
(287)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 24 de Março de 2007 (Fiscalização Pre‑
ventiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/PCC/07/TR (2007).
(285)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
199
n.º 25/2011, de 8 de Junho (Orgânica da Provedoria dos Direitos Huma‑
nos e Justiça) (288).
É impossível determinar, dentro da competência legislativa e executiva do
Governo previstas na Constituição, uma regra inequívoca sobre as matérias que
implicam a forma de um ato normativo‑legislativo ou de um ato norma‑
tivo‑regulamentar.
Como já considerado anteriormente, a determinação da matéria de um
certo diploma é um processo complexo com base numa análise casuística.
Acredita‑se que a falta de determinação específica na Constituição, juntamente
com a ausência de uma prática consolidada em governação e elaboração de
leis, poderá resultar em dúvidas sobre qual a forma normativa que uma maté‑
ria deve seguir. Acredita‑se que com o tempo, a prática normativa em
Timor‑Leste se revelará mais claramente determinada. O Decreto‑Lei
n.º 6/2011, de 9 de Fevereiro (Compensações por desocupação de imóveis do
Estado), pode ser considerado como um exemplo de um diploma que tem
por objecto uma matéria regulamentar, quando analisado o seu caráter nor‑
mativo, mas que assumiu a forma de lei (289). Na prática, porém, a adoção de
uma matéria de natureza regulamentar em forma de decreto‑lei não possui
impactos substanciais, para além dos de sujeitar o processo de elaboração de
uma matéria regulamentar ao processo mais longo para a elaboração de uma
lei e ferir, na realidade, o critério de necessidade de legislar (290). Com o reco‑
(288)
Artigo 29.º prevê: “[s]em prejuízo do disposto no presente diploma, a
regulamentação da estrutura orgânico‑funcional das direções e organismos da Pro‑
vedoria serão reguladas através de despacho do Provedor a ser publicado no Jornal
da República”. Sobre este assunto, ver, ainda Gomes Canotilho, Direito Constitucio‑
nal E Teoria Da Constituição, 842‑ss; José Carlos Vieira de Andrade, ‘Autonomia
Regulamentar E Reserva de Lei’, in Estudos Em Homenagem Ao Prof. Doutor Afonso
Rodrigues Queiró, Separata do Boletim da Faculdade de Direito (Universidade de
Coimbra, 1987), 7‑ss.
(289)
É possível que, em virtude das dificuldades que Timor‑Leste enfrenta para
resolver os problemas relacionados com a posse e propriedade de terra, o Governo
tenha preferido aprovar esta matéria, por via legislativa, para assegurar um maior
consenso político em razão da necessidade de promulgação pelo Presidente da Repú‑
blica.
(290)
O regimento do Conselho de Ministros (Resolução do Governo n.º 8/2013,
de 27 de Fevereiro) estabelece que todos os projetos de decreto‑lei devem vir acompa‑
nhados de uma justificação que contenha uma explicação da satisfação do critério de
Coimbra Editora ®
200
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
nhecimento da existência de lei reforçada no ordenamento jurídico timorense,
mesmo que uma matéria de cunho regulamentar seja aprovada em forma de
uma lei, esta não terá a capacidade de modificar a lei principal e será ainda
sujeita à apreciação da legalidade (291). Sublinha‑se que a violação das compe‑
tências legislativas previstas constitucionalmente, como por exemplo, a reserva
absoluta e a reserva relativa da competência exclusiva do Parlamento Nacional,
resulta em inconstitucionalidade formal, sendo esta uma das razões pela qual
uma lei ou um decreto‑lei são sujeitos a várias formas de controlo, como já
visto anteriormente.
Todavia, como já indicado pelo Tribunal de Recurso, o fator decisivo para
a determinação da natureza do diploma (normativa ou regulamentadora), é a
existência, ou não, de um conteúdo normativo. Especificamente no Acórdão
de 27 de Outubro de 2008, o Tribunal de Recurso considerou que o regimento
do Parlamento Nacional, apesar de ter uma forma de Resolução do Parlamento
Nacional, um instrumento normalmente utilizado para questões administrati‑
vas e políticas, possuía a normatividade necessária para ser considerado um
diploma normativo (292). Esta posição tomada pelo mais alto tribunal timorense,
apesar de se mostrar adversa a uma perspetiva formal das fontes de Direito,
parece ser adequada à realidade atual timorense.
A Constituição, através do seu artigo 165.º, admite o uso do “direito
anterior” enquanto ainda existirem lacunas no ordenamento jurídico timorense,
admitindo, portanto, a existência de um direito subsidiário (293). A expressão
necessidade de legislar nos seu artigo 30.º‑2/h; faz ainda uma referência expressa ao
princípio da necessidade no seu preâmbulo.
(291)
Esta foi especificamente a linha de argumentação de Florbela Pires, ‘Fontes
de Direito E Procedimento Legislativo Na República Democrática de Timor‑Leste
— Alguns Problemas’, Biblioteca Digital Ius Commune Da Universidade de Lisboa,
Publicação online, 14‑ss.
(292)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR (2008).
O Tribunal de Recurso também já considerou a existência de uma natureza material‑
mente normativa dos decretos presidenciais em acórdão de 20 de Agosto de 2008
Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto de 2008 (Fiscalização Abstrata Sucessiva
de Constitucionalidade), Proc n.º 02/CONST/08/TR, 6‑7 (2008).
(293)
O artigo 165.º da CRDTL determina: “[s]ão aplicáveis, enquanto não forem
alterados ou revogados, as leis e os regulamentos vigentes em Timor‑Leste em tudo o
que não se mostrar contrário à Constituição e aos princípios nela consignados.”
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
201
“direito anterior” refere‑se aos diplomas legais da UNTAET e à legislação
indonésia em vigor antes do dia 25 de Outubro de 1999 (294).
Em virtude da gradual evolução do ordenamento jurídico de Timor‑Leste,
em consequência de uma intensa produção legislativa, há uma progressiva
diminuição das lacunas legais. Ainda, com o desenvolvimento e fortalecimento
das instituições timorenses, o potencial para o uso do direito subsidiário torna‑se
ainda menor. Sendo assim, encontra‑se cada vez mais reduzida a necessidade
ou a adequação de recorrer ao uso do direito subsidiário. Note‑se, contudo,
que essa necessidade ainda está presente em algumas matérias que ainda não
foram objeto de regulamentação jurídica em Timor‑Leste independente, nome‑
adamente, o registo civil, o contencioso administrativo, o regime jurídico sobre
as terras, o regime jurídico da justiça juvenil, o regime jurídico da justiça mili‑
tar e o regime jurídico dos direitos autorais. A existência, em Timor‑Leste, de
um Direito de caráter subsidiário torna o processo de identificação da hierarquia
das fontes ainda um pouco mais complexo. Para além da identificação da lei
aplicável, é importante, para a aplicação do direito subsidiário, a determinação
da sua posição no ordenamento jurídico interno. São várias as dúvidas que
surgem neste processo.
É possível, sem entrar numa análise profunda e aceitando a provável
existência de um número de exceções, identificar nos diplomas da UNTAET
a seguinte correlação: os Regulamentos da UNTAET são como normas legis‑
lativas, sendo, assim, comparáveis às leis ou decretos‑leis; e as Diretivas da
UNTAET possuem um caráter normativo‑regulador, mostrando‑se de uma
equivalência aos Decretos do Governo. Considera‑se que tentar estabelecer este
tipo de correspondência é fundamental para assegurar, na prática, uma maior
clareza do ordenamento jurídico, visto que o Administrador Transitório acu‑
mulava funções legislativas e executivas (295).
Ver Lei n.º 2/2002, de 7 de Agosto (Interpretação do Direito Vigente em 19
de Maio de 2002) e Lei n.º 10/2003, de 10 de Dezembro (Interpretação do Artigo 1.º
da Lei n.º 2/2002, de 7 de Agosto e Fontes do Direito).
(295)
Artigo 1.º‑1 do Regulamento da UNTAET n.º 1/1999, de 27 de Novem‑
bro (Sobre os Poderes da Administração Transitória em Timor Leste). Ver Paulo Gor‑
jão, ‘O Legado E as Lições Da Administração Transitória Das Nações Unidas Em
Timor‑Leste’, Análise Social XXXVIII (2004): 1043‑1067; Nuno Filipe Brito, ‘A Admi‑
nistração Transitória Das Nações Unidas Em Timor Leste’, Janus, 2002, http://janu‑
sonline.pt/2002/2002_2_9.html. (disponível em linha http://janusonline.
pt/2002/2002_2_9.html, consultado em 28 de Julho de 2014).
(294)
Coimbra Editora ®
202
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Nessa mesma análise, deverá considerar‑se a posição dos diplomas legais
indonésios (normativos‑legislativos ou normativos‑reguladores) de acordo com a
sua forma no direito indonésio, ou de acordo com a matéria que tratam e como
esta é determinada dentro do ordenamento jurídico de Timor‑Leste? Como ponto
de partida neste processo analítico, sugere‑se que, estando constitucionalmente
previsto que o direito subsidiário indonésio pode vir a integrar o ordenamento
jurídico timorense, parece adequado também concluir‑se que essa integração
deverá moldar‑se à estrutura do ordenamento jurídico timorense, inclusivamente,
em relação à hierarquia das suas diferentes fontes, obtida por resultado da inter‑
pretação constitucional já detalhada acima. Assim, entende‑se que a posição dos
diferentes elementos do ordenamento jurídico da indonésia como legislação
subsidiária deveria ser determinada pelo conteúdo material dos diferentes diplo‑
mas, com base no molde constitucional timorense das matérias designadas como
de caráter legislativo ou de caráter regulamentador. Uma questão como esta é de
verdadeira particularidade do ordenamento jurídico timorense.
O facto de ser considerado como direito subsidiário significa que quando
da promulgação de uma lei que trate dessa matéria, os diplomas da UNTAET
e a legislação indonésia são revogados, deixando de fazer parte do ordenamento
jurídico de Timor‑Leste.
Há ainda no ordenamento jurídico timorense a receção das normas e usos
costumeiros, com base no reconhecimento destas pelo artigo 2.º‑4 da Consti‑
tuição e pelo artigo 2.º do Código Civil (296), tendo as normas e usos costumei‑
ros, normalmente designados por lisan, uma posição infra‑legal.
Reconhece‑se aqui que um conceito de ordenamento jurídico puramente
baseado num sistema de hierarquias não é capaz de refletir a complexidade da
relação entre as diferentes fontes de Direito interno, o direito subsidiário e o
direito consuetudinário tradicional, assim como a incorporação do Direito
internacional (297). Todavia, e atento o objetivo específico deste livro, mantive‑
mos uma análise hierárquica das fontes de Direito no ordenamento jurídico
timorense. Utilizando o sistema de hierarquia das fontes de Direito discutida
acima, conjuntamente com as questões das fontes do Direito internacional já
O artigo 2.º do Código Civil, aprovado pela Lei n.º 10/2011, de 14 de
Setembro, determina que “[a]s normas e os usos costumeiros que não contrariem a
Constituição e as leis são juridicamente atendíveis.
(297)
Ver Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
694‑695.
(296)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
203
abordadas no primeiro capítulo, arrisca‑se uma proposta, longe de estar con‑
solidada, dos diferentes atos normativos do ordenamento jurídico timorense:
Constituição
Tratados internacionais
Normas consuetudinárias internacionais (299)
Leis e Decretos‑Leis
Normas e usos
costumeiros
(lisan)
Decretos do Governo e
Diplomas Ministeriais
Diplomas da UNTAET
com força de Lei
(Regulamentos)
natureza subsidiária
Diplomas Indonésios com
força de Lei
(Leis e Leis interinas (300))
natureza subsidiária
Outros atos normativos (Regulamentos da Indonésia (301)
e Diretivas da UNTAET)
Princípios gerais do Direito (incl. Princípios gerais do direito internacional)
(298) (299) (300)
Como Lei Suprema, encontramos a Constituição da República Democrá‑
tica de 2002. Sendo os tratados internacionais supralegais, mas, infra‑consti‑
tucionais, estes encontram‑se logo abaixo da Constituição. Entende‑se que as
normas consuetudinárias internacionais possuem uma força normativa de valor
semelhante ao direito internacional convencional quando disposto numa estru‑
tura de hierarquia da ordem jurídica nacional. As Leis e os Decretos‑Leis, sendo
normas legislativas, encontram‑se logo abaixo do direito internacional recebido
na ordem interna. Quando não existem normas legislativas sobre uma deter‑
minada matéria, deve recorrer‑se ao direito subsidiário aplicável. Logo abaixo
dos diplomas legais de valor normativo, encontramos aqueles de valor norma‑
tivo‑regulador, sendo destes exemplos: os Decretos do Governo e Diplomas
Ministeriais, os diplomas reguladores desenvolvidos pelas autoridades nacionais,
Vide Capítulo I, 3.2.2 O Costume Internacional.
Respetivamente Ketetapan Majelis Permusyawaratan Raykat e Undang‑undang
Peraturan Pemerintah Pengganti Undang‑undang de acordo com a Lei da Assembleia
Popular Interina Consultativa da República da Indonésia No. XX/MPRS/1966 (Kete‑
tapan Majelis Permusyawaratan Rakyat Sementara Republik Indonsia).
(300)
Peraturan Pemerintah de acordo com a Lei da Assembleia Popular Interina
Consultiva da República da Indonésia No. XX/MPRS/1966 (Ketetapan Majelis Per‑
musyawaratan Rakyat Sementara Republik Indonsia).
(298)
(299)
Coimbra Editora ®
204
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
bem como outros atos normativos da UNTAET e do direito indonésio,
enquanto direito subsidiário regulador.
Uma das possíveis interpretações da posição das normas e usos costumeiros
(lisan), na hierarquia das fontes, é a de que estas normas ocupam uma posição
imediatamente inferior às normas legislativas. Note‑se que o lisan trata principal‑
mente da resolução não jurisdicional de conflitos em áreas do direito privado,
nomeadamente, família e direito da terra ou ainda a conciliação em relação a crimes
de natureza semi‑pública, razão pela qual, no diagrama, ocupa um espaço limitado.
A ilustração comporta ainda a incorporação dos princípios gerais do
Direito, inclusivamente, os princípios gerais do direito internacional, (com
exclusão do jus cogens) fruto da sua potencial proeminência no ordenamento
jurídico nacional.
Refira‑se, ainda, que os regulamentos do Governo da Indonésia foram
incluídos com o ímpeto de garantir um caráter completo desta questão. Na
prática, mostra‑se extremamente difícil aplicar em Timor‑Leste muitos dos regu‑
lamentos do Governo da Indonésia pois estes não são na sua maioria atendíveis
em virtude das grandes diferenças institucionais entre Timor‑Leste e Indonésia.
Mostra‑se necessário reforçar aqui a já enunciada posição do Tribunal de
Recurso segundo a qual o conteúdo do diploma é o fator determinante da sua
natureza jurídica. Esta posição resulta na possível qualificação de diplomas
formalmente não normativos como atos normativo‑reguladores.
Para além destes diplomas normativos, encontramos ainda diplomas
administrativos, como as resoluções do Parlamento Nacional e do Governo e
decretos Presidenciais.
Apesar de os diferentes atos legislativos — leis e decretos‑leis — terem a
mesma força de lei, é já reconhecido, como debatido ao longo deste Capítulo,
que há uma graduação dos diferentes diplomas legislativos, dependendo da sua
matéria ou da sua forma de aprovação. Neste sistema de graduação, pode
dizer‑se que é criada uma “sub‑hierarquia” entre as diferentes modalidades de
leis que se posicionam no mesmo nível normativo no ordenamento jurídico.
Uma vez mais, e atendendo à falta geral de provisões sobre o ordenamento
jurídico, a Constituição timorense também não prevê expressamente a existên‑
cia de leis reforçadas (301). Todavia, o Tribunal de Recurso, atuando como
Para aprofundar este assunto, ver, por exemplo, Carlos Blanco de Morais,
As Leis Reforçadas: As Leis Reforçadas pelo Procedimento no Âmbito dos Critérios Estru‑
turantes das Relações entre Actos Legislativos (Coimbra: Coimbra Editora, 1998).
(301)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
205
Supremo Tribunal de Justiça, considerou a existência do conceito de “lei refor‑
çada” em Timor‑Leste através de uma interpretação fortemente baseada no
princípio da máxima efetividade e da concordância prática da Constituição (302).
Na opinião do Tribunal de Recurso, com a qual concordamos, “não obstante
o texto constitucional não falar em leis de “valor reforçado”, o legislador cons‑
tituinte criou condições de admissibilidade da existência de leis com este
valor” (303).
Como exposto pelo Tribunal de Recurso, as “[l]eis com valor reforçado
serão, pois, leis ordinárias que impõem ou pressupõem a sua não derrogabilidade
pelas leis ordinárias posteriores” (304). Fazendo uso da doutrina portuguesa sobre
os critérios para a determinação da lei reforçada, o Tribunal de Recurso iden‑
tificou como dois os fatores fundamentais para a determinação da lei de valor
reforçado em Timor‑Leste (305), tendo por base a importância da matéria e a
sua proeminência funcional enquanto fundamento material da validade nor‑
mativa de outros atos ou enquanto força conformadora da produção de outras
leis (306). Na prática, por exemplo, uma lei (ou um decreto‑lei) a ser promulgada
que verse sobre uma matéria já incluída numa lei anterior de caráter reforçado,
apesar de ser posterior, deve ser conforme com a lei anterior. Neste caso, por
ter que se conformar com uma lei de valor reforçado, a lei posterior não possui
a capacidade de alterar a lei anterior, assim não beneficiando do critério de
posterioridade (com base no princípio lex posterior derogat legi priori (307)). As
normas contidas em lei ou decreto‑lei que não estejam em conformidade com
uma lei de valor reforçado são normas ilegais, e o Supremo Tribunal de Justiça
poderá invalidá‑las através do processo de fiscalização de legalidade das normas.
(302)
Para o Tribunal de Recurso, o processo de fiscalização da legalidade consiste
em “fiscalizar a conformidade das normas constantes em actos legislativos ordinários,
de carácter simples, com as leis de valor reforçado. Assim, havendo uma antinomia
entre uma lei comum e outra lei ordinária relativamente à qual se considere um esta‑
tuto qualificado, do qual decorre uma imposição de respeito em seu favor, será resolvido
através da invalidade das primeiras, com fundamento em ilegalidade”. Tribunal de
Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Fiscalização Abstrata Sucessiva de
Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR, 17‑18 (2008), 17‑18.
(303)
Ibid., 24.
(304)
Ibid., 20.
(305)
Ibid., 21‑ss.
(306)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 782‑785.
(307)
Princípio este incluído no Código Civil de Timor‑Leste (artigo 6.º‑2).
Coimbra Editora ®
206
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Ainda no acórdão de 27 de Outubro de 2008, o Tribunal de Recurso
utilizou como exemplos de “leis de valor reforçado” as leis de autorização
legislativa, as diferentes leis de base e a lei orçamental. Outros exemplos que
entendemos poderem representar leis de valor reforçado, dentro da competên‑
cia legislativa absoluta do Parlamento, serão as leis que versem sobre a “política
fiscal” e a “política de defesa e segurança” (308), assim como as leis (ou decre‑
tos‑leis) que recaem no âmbito da competência legislativa concorrencial acerca
do “regime geral da função pública”, das “bases gerais da (…) administração
pública” e das “bases de uma política para a defesa do meio ambiente e o
desenvolvimento sustentável” (309).
3. Hermenêutica Constitucional
Como qualquer lei, a interpretação dos preceitos constitucionais recorre
a um processo metódico para identificar a norma e o seu sentido.
Recorda‑se, com a ajuda de Gomes Canotilho, que a interpretação de uma
norma da Lei Fundamental é um processo de “indagação do conteúdo semân‑
tico dos enunciados linguísticos do texto constitucional (…), com a consequente
dedução de que a matéria de regulamentação é abrangida pelo âmbito norma‑
tivo da norma constitucional interpretada” (310). É através do processo interpre‑
tativo que “se passa da leitura política, ideológica ou simplesmente empírica
para a leitura jurídica do texto constitucional” (311).
À Constituição aplicam‑se as regras básicas de interpretação de qualquer
diploma legal, assim como os princípios específicos da interpretação constitu‑
cional. Não se encontra na Constituição timorense uma norma específica que
determine as regras aplicáveis à sua interpretação, à exceção da previsão que
Competências previstas, respetivamente, nos artigos 95.º‑1/p e o da Cons‑
(308)
tituição.
Competências previstas, respetivamente, nos artigos 96.º‑1/d, e e h da
Constituição.
(310)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
1234‑1235.
(311)
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:296‑297. Para
uma exposição detalhada sobre a interpretação constitucional, ver, Gomes Canotilho,
Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1195‑1242.
(309)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
207
determina que a interpretação dos direitos fundamentais deve ser realizada em
harmonia com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 24.º).
Em resultado da sua própria natureza, as previsões constitucionais são
elaboradas com recurso a uma linguagem mais vaga e aberta, pelo que a tarefa
interpretativa se torna uma tarefa ainda mais imprescindível. Simultaneamente,
pode dizer‑se que o uso de uma linguagem aberta representa uma verdadeira
vantagem, assegurando que uma Constituição tenha a capacidade de espelhar
a realidade social no momento da sua aplicação e, ainda, de adaptar‑se a uma
realidade futura, possivelmente diferente da atual.
Evidentemente que a existência de uma linguagem vaga não significa que
o intérprete possa interpretar livremente como queira. Partindo sempre do texto
de uma norma, o intérprete deve seguir as regras e os princípios interpretativos
para poder chegar ao sentido da norma e aplicá‑la numa situação específica,
densificando‑a. Sabe‑se que, ao longo deste percurso, é possível que o intérprete
se depare com diferentes alternativas de sentidos. Os princípios da interpreta‑
ção constitucional listados abaixo ajudam nesta tarefa de escolha. É, todavia,
claro que uma opção interpretativa que não tenha o mínimo de correspondên‑
cia com o texto normativo da Constituição deve ser descartada (312).
Uma das consequências do uso de uma linguagem vaga e aberta e da
concretização da norma constitucional ser primordialmente obtida através da
ponderação de diferentes interesses, é que a revelação do sentido de uma norma
constitucional poderá ser o resultado de um processo verdadeiramente argu‑
mentativo, no qual encontramos argumentos e contra argumentos. Desta forma,
a interpretação pauta‑se por uma “construção comunicativa” (313) entre os diver‑
sos agentes da interpretação. Naturalmente que a posição destes, assim como
os valores que defendem, representam, em certa extensão, os fatores delinea‑
dores deste processo argumentativo. Caberá, no final, ao juiz ordinário e ao
juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, detentores, respetivamente,
da competência exclusiva jurisdicional e da competência quanto à fiscalização
da constitucionalidade, revelarem o sentido da norma constitucional sob judice.
A interpretação e a concretização dos direitos fundamentais serão aborda‑
das no capítulo a seguir no âmbito do sistema dos direitos fundamentais.
Cfr. Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
1228‑1230.
(313)
Expressão utilizada por Jónatas Machado, Paulo da Costa e Carlos Hilário
em Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional Angolano, 69.
(312)
Coimbra Editora ®
208
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
3.1 Elementos Básicos de Interpretação
A Constituição é a lei suprema. Sendo uma Constituição um diploma
legislativo, as diferentes regras básicas de interpretação do Direito ser‑lhe‑ão
aplicáveis.
Os elementos básicos da interpretação das normas são o elemento textual,
o lógico‑sistemático, o histórico e o teleológico (314).
O elemento textual indica que qualquer interpretação de um preceito
normativo deverá partir do seu texto expresso. Este elemento requer uma busca
inicial do sentido normal das palavras e expressões utilizadas, inclusivamente,
aquelas de teor técnico‑jurídico. Vale a pena relembrar que interpretar é, acima
de tudo, extrair o significado de um texto.
O elemento lógico‑sistemático, que se encontra em grande proximidade com
o princípio da unidade Constitucional, analisa a interação de uma norma com
a outra, no texto que estas partilham. Reconhece‑se, desta forma, uma inter‑
dependência entre uma norma e a outra, sendo esta relação evidenciada, espe‑
cialmente, durante o processo de interpretação. No que respeita aos direitos
fundamentais, a interdependência entre as suas diferentes normas encontra‑se,
como já abordado anteriormente, na própria natureza destes padrões. Por
exemplo, a liberdade sindical deve ser interpretada conjuntamente com o direito
de associação.
O elemento histórico, enquanto regra geral de interpretação, requer a con‑
sideração de dois períodos históricos: o contexto histórico relacionado com a
origem das constituições modernas, e o desenvolvimento histórico da própria
Constituição timorense.
Uma interpretação teleológica objetiva a determinação do fim e da razão
de ser dos preceitos normativos contidos na Constituição. Através deste ele‑
mento de hermenêutica jurídica, indagam‑se os “valores, objetivos e finalidades
que as normas constitucionais devem desempenhar no quadro da ordem cons‑
titucional objetivamente positivada tomada da sua globalidade” (315). Quanto
Ver Baptista Machado, Introdução Ao Direito E Ao Discurso Legitimador,
181‑185. Para um resumo destes elementos básicos no âmbito do Direito Constitu‑
cional, ver Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 51‑ss.
(315)
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 54.
(314)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
209
aos direitos fundamentais, a sua finalidade principal é a garantia de um nível
adequado de proteção à dignidade humana.
Importa salientar que o Código Civil timorense integra expressamente estes
elementos básicos de interpretação, não restando dúvidas quanto à sua aplicação
no ramo do direito civil (316). Refira‑se, no entanto, que a aplicação destes ele‑
mentos básicos de interpretação no Direito constitucional, e também em outros
ramos do Direito, não é o resultado imediato da sua positivação no Código
Civil. Todavia, o artigo 8.º do Código Civil pode ser usado como um guia na
interpretação constitucional pelo facto de representar uma inequívoca incorpo‑
ração destes princípios gerais do Direito no ordenamento jurídico nacional (317).
Estes diferentes elementos básicos de interpretação devem estar sempre
presentes em qualquer esforço interpretativo dos preceitos normativos constitu‑
cionais. Deve‑se, na procura do sentido da norma, recorrer a todos os elementos
interpretativos e não escolher um em detrimento do outro.
3.2 Princípios da Interpretação Constitucional
Para além dos elementos básicos de interpretação do Direito, há um
número de princípios de interpretação aplicáveis especificamente às normas
constitucionais.
(316)
Artigo 8.º da Lei n.º 10/2011, de 14 de Setembro, que prevê: “[a] inter‑
pretação não deve cingir‑se à letra da lei, mas reconstituir a partir dos textos o pensa‑
mento legislativo, tendo sobretudo em conta a unidade do sistema jurídico, as circuns‑
tâncias em que a lei foi elaborada e as condições específicas do tempo em que é
aplicada.”(n.º 1); “Não pode, porém, ser considerado pelo intérprete o pensamento
legislativo que não tenha na letra da lei um mínimo de correspondência verbal, ainda
que imperfeitamente expresso.”(n.º 2); “Na fixação do sentido e alcance da lei, o
intérprete presume que o legislador consagrou as soluções mais acertadas e soube
exprimir o seu pensamento em termos adequados” (n.º 3).
(317)
Jorge Miranda admite que as regras sobre a interpretação da lei determina‑
das no artigo 9.º do Código Civil português poderão servir, também, de guia ao
intérprete constitucional uma vez que traduzem “uma vontade legislativa, não contra‑
riada por nenhumas outras disposições, a respeito dos problemas de interpretação (que
não são apenas técnico‑jurídicos) de que curam. Regras sobre estas matérias podem
considerar‑se substancionalmente constitucionais, não repugnando, mesmo vê‑las
dotadas do valor de costume constitucional (praeter legem)” Miranda, Manual de Direito
Constitucional, 2007, Tomo II:310‑311.
Coimbra Editora ®
210
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Dada a função jurídico‑constitucional da Lei suprema de servir de molde
a toda e qualquer ação do Estado, é compreensível que os seus preceitos nor‑
mativos se caracterizem por uma linguagem mais aberta e indeterminada do
que aquela empregada em outros textos normativos, distinguindo‑se das demais
normas jurídicas pela sua forma, pelo seu conteúdo e pela sua estrutura lógica.
Os princípios da interpretação constitucional têm, por isso, um importante
papel no processo interpretativo das normas constitucionais.
Os princípios primordiais para a interpretação constitucional são (318):
a) Princípio da unidade da constituição: ao intérprete é imposto o dever
de considerar a Constituição na sua globalidade. Na prática, o intér‑
prete envolve‑se na tentativa de afastar contradições e na procura de
harmonia entre as áreas naturalmente tensas previstas nas normas
constitucionais (como por exemplo, o princípio da não discriminação
e as medidas de proteção a grupos específicos (319)).
b) Princípio da máxima efetividade: “[a] uma norma constitucional deve ser
atribuído o sentido que maior eficácia lhe dê” (320). Este princípio aporta
um fator determinante para o processo interpretativo: quando o processo
de interpretação de uma norma revelar mais de um sentido, deverá
optar‑se por aquele que conceda um nível mais elevado de eficácia à
Constituição. Esta regra é especialmente importante na interpretação dos
direitos fundamentais, pois a sua aplicação significa a necessidade de dar
preferência à interpretação que importará um maior alcance do gozo de
um direito fundamental. Frequentemente, no contexto dos direitos fun‑
damentais, traduz‑se esta regra na expressão “in dubio pro libertate”.
c) Princípio da concordância prática (ou harmonização): este princípio
aplica‑se à solução de conflitos que surjam do esforço interpretativo de
uma norma. Deve‑se, com base neste princípio, dar preferência à inter‑
pretação que diminua o conflito entre normas. Deverá garantir‑se que
nenhuma norma se sobreponha a outra, mas que seja encontrado, no
Ver Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
1223‑1228; Machado, Nogueira da Costa e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 65‑67. Nota‑se que na publicação de Jónatas Machado não figura o “prin‑
cípio da força normativa da constituição”.
(319)
Vide Capítulo V, 2.1.2 O Princípio da Proibição da Discriminação.
(320)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1224.
(318)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
211
processo de interpretação, um sentido que assegure uma condição de
igualdade que permita resolver o conflito em questão. De certa maneira,
este princípio interpretativo deriva do princípio da igualdade da força
normativa entre todos os preceitos constitucionais. Este princípio é, ainda,
a base para o processo de restrição dos direitos fundamentais, processo
em que se pretende, na prática, a concordância entre os diferentes direi‑
tos fundamentais e interesses constitucionalmente protegidos (321).
d) Princípio do efeito integrador: na procura do sentido de uma norma
constitucional, o resultado deve favorecer a integração política e social
dentro da Constituição (322). Através do recurso a este princípio,
pretende‑se “evitar ou atenuar a conflitualidade que possa existir entre
diferentes forças políticas e sociais, decorrentes de controvérsias inter‑
pretativas em matérias jurídico‑constitucionais” (323).
e) Princípio da conformidade funcional (ou justeza): este princípio rela‑
ciona‑se com as diversas funções exercidas pelos diferentes órgãos
previstos no texto constitucional. Ao interpretar‑se a Constituição,
deve assegurar‑se a divisão de funções (ou divisão de poderes, como
já mencionado acima) estabelecida pela Constituição. O resultado da
procura do sentido de certa norma constitucional não pode resultar
numa interferência no quadro organizatório‑funcional constitucio‑
nalmente estabelecido.
f ) Princípio da força normativa da constituição: no processo de interpre‑
tação da norma constitucional deve dar‑se preferência àquelas soluções
que dotem as normas da densidade necessária para permitir‑lhes uma
real eficácia. Entende‑se que este princípio se baseia no pressuposto
de que a intenção do constituinte em prover a constituição de uma
força normativa era a de que as suas normas encontrassem a eficácia.
Quanto à interpretação dos direitos fundamentais, adiciona‑se o princípio
da harmonização com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este
princípio é abordado no capítulo seguinte.
Vide Capítulo IV, 2.3.2 Requisitos Relativos ao Conteúdo da Restrição.
Este princípio em nada se relaciona com um princípio favorecendo uma
política integracionista.
(323)
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 67.
(321)
(322)
Coimbra Editora ®
212
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Ressalta‑se que vários destes princípios específicos derivam, concorrencial‑
mente, da própria natureza da Constituição e dos elementos básicos de inter‑
pretação já mencionados acima. Como explica Jorge Miranda, a interpretação
da Constituição “[c]omporta especialidades, não desvios aos cânones gerais [de
interpretação]” (324).
A identificação de exemplos da aplicação destes princípios pode auxiliar
a uma melhor compreensão do seu significado. Fazendo uma leitura dos dife‑
rentes acórdãos do Tribunal de Recurso, quando atuando na sua competência
do Supremo Tribunal de Justiça, encontra‑se distintamente o uso destes prin‑
cípios da hermenêutica constitucional.
Em 2008, o Tribunal de Recurso considerou, através da interpretação da
Constituição, ser aplicável o mecanismo de fiscalização da legalidade das nor‑
mas como um mecanismo para a garantia da Constituição. Neste acórdão, o
Tribunal expressou que “considerando que a Constituição deve ser interpretada
de forma a evitar contradições entre as suas normas [artigo 126.º‑1/a e b e o
artigo 2.º‑2], e que estas não constituem normas isoladas e dispersas, mas sim,
um conjunto de preceitos integrados num sistema interno de normas e prin‑
cípios e, considerando ainda, que à norma constitucional deve ser atribuído o
sentido que maior eficácia se lhe dê, conclui‑se que o sistema de fiscalização
da legalidade das leis encontra acolhimento no ordenamento constitucional” (325).
Outro exemplo de interpretação constitucional foi a determinação, pelo
Tribunal de Recurso, de uma competência legislativa concorrencial entre o
Parlamento Nacional e o Governo. A interpretação do Tribunal de Recurso,
neste sentido, visou ainda garantir a eficácia da competência legislativa do
Governo. Este acórdão do Tribunal de Recurso assegurou, também, o respeito
pela primazia da competência legislativa do Parlamento Nacional, que parece
ser o resultado de uma interpretação com o uso do princípio da conformidade
funcional (326).
Um outro exemplo, em que o mais alto tribunal de Timor‑Leste teve em
conta os princípios da hermenêutica constitucional, trata‑se do Acórdão de 20
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:303.
Tribunal de Recurso, Acórdão de 27 de Outubro de 2008 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 04/CONST/03/TR, 19
(2008), 19.
(326)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 28‑29 (2009), 28‑29.
(324)
(325)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
213
de Agosto de 2008, onde foi analisado o sentido do direito de petição e a legi‑
timidade processual ativa relativa ao processo de fiscalização abstrata sucessiva da
constitucionalidade de uma norma (327). Neste acórdão, o Tribunal de Recurso
considerou ser a intenção do legislador constituinte a de não dotar de legitimidade
processual ativa no âmbito deste processo de controlo da constitucionalidade,
outras instituições ou indivíduos, para além daquelas expressamente previstas no
texto constitucional (328). Considerou, ainda, que o sentido do direito de petição
era dar acesso aos indivíduos a mecanismos não jurisdicionais, e que a este ins‑
trumento não poderia ser dado o sentido de prover um acesso direto ao Supremo
Tribunal de Justiça (329). Na realidade, o tribunal considerou que não se podia
tentar assegurar uma maior eficácia a um certo direito fundamental através de
uma interpretação que iria, inequivocamente, contra o texto constitucional,
quando analisado através do princípio da unidade, e tendo em conta a intenção
clara do legislador constituinte.
Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto de 2008 (Fiscalização Abs‑
trata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 02/CONST/08/TR, 9‑10 (2008),
9‑10.
(328)
O artigo 150.º da Constituição lista as seguintes autoridades com legitimi‑
dade para requerer a fiscalização abstrata da constitucionalidade: o Presidente da
República, o Presidente do Parlamento Nacional, o Procurador‑Geral da República
(com base na desaplicação pelos tribunais em três casos concretos de norma julgada
inconstitucional), o Primeiro‑Ministro, um quinto dos Deputados e o Provedor de
Direitos Humanos e Justiça.
(329)
O Tribunal de Recurso expressou que “[a]tento o disposto no citado
art. 48.º, as petições podem ser dirigidas aos órgãos de soberania ou quaisquer outras
autoridades públicas. Não obstante, a lei falar em órgãos de soberania, isso não quer
dizer que o direito de petição possa ser utilizado para aceder aos tribunais, igualmente
órgãos de soberania do Estado, conforme refere o artigo 118, n. 1 da CRDTL. Na
verdade, o artigo 26.º da CRDTL, consagra o direito de acesso aos tribunais como um
direito de natureza fundamental. Porém, o meio próprio de exercer este direito é atra‑
vés de acções e recursos. Deste modo, o direito de petição invocado pelos peticionan‑
tes não lhes dá qualquer guarida à sua pretensão, porquanto é um mero direito político,
um instrumento de participação dos cidadãos na vida política, que nada tem a ver com
o direito que os autores pretendem exercer [controle de constitucionalidade de ato do
Presidente de concessão de indulto].” Tribunal de Recurso, Acórdão de 20 de Agosto
de 2008 (Fiscalização Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 02/CONST/
/08/TR, 9‑10 (2008), 9‑10.
(327)
Coimbra Editora ®
214
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
No processo interpretativo de uma norma constitucional, é essencial ter
em consideração a função pragmática que a Constituição deve sempre pros‑
seguir. Com isto, em muitos casos, o processo de interpretação constitucional
carrega uma análise de ponderação ou balanço. Sobre esta realidade, Jorge
Miranda afirma que a “interpretação constitucional tem de ter em conta
condicionalismos e fins políticos inelutáveis e irredutíveis, mas não pode visar
outra coisa que não sejam os preceitos e princípios jurídicos que lhes corres‑
pondem. Tem de olhar para a realidade constitucional, mas tem de a saber
tomar como sujeita ao influxo da norma e não como mera realidade de facto.
Tem de racionalizar sem formalizar. Tem de estar atenta aos valores sem
dissolver a lei constitucional no subjectivismo ou na emoção política. Tem
de se fazer mediante a circulação norma — realidade constitucional —
valor” (330).
A interpretação constitucional, na sua globalidade, não é, todavia, uma
tarefa simples. A complexidade resulta claramente do facto de, à data da feitura
da Constituição, terem sido incluídos preceitos no texto constitucional que
constituíam uma novidade para a realidade timorense. Esta tarefa diária mos‑
tra‑se, ainda, mais árdua em Timor‑Leste, uma vez que, até ao presente, apenas
algumas das suas normas foram alvo de interpretação pelos tribunais. Desta
forma, os princípios acima apresentados assumem uma importância bastante
significativa, devendo servir como verdadeiros instrumentos de trabalho no
processo de hermenêutica constitucional em Timor‑Leste.
3.3 Lacuna Constitucional
Como qualquer Lei, a Constituição também tem lacunas. O reconheci‑
mento de lacunas no texto constitucional deve, no entanto, ser compreendido
atendendo ao facto de, no Direito constitucional, as lacunas nunca poderem
vir a ser integradas por completo. Isto mesmo decorre da própria natureza da
Constituição, pela qual haverá sempre uma grande abertura e remissão para a
regulamentação por legislação infraconstitucional.
As lacunas constitucionais são “situações constitucionalmente relevantes,
porém não previstas. As omissões legislativas reportam‑se a situações previstas,
mas a que faltam, no programa ordenador global da Constituição, as estatuições
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:303‑304. Ver,
também, Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1236‑ss.
(330)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
215
adequadas a uma imediata exequibilidade” (331). Ou nas palavras de Gomes
Canotilho, uma lacuna normativa‑constitucional somente existe quando “se
verifica uma incompletude contrária ao “plano de ordenação constitucio‑
nal” (332). Uma lacuna existe quando “determinadas situações: (1) que se devem
considerar constitucionalmente reguladas, (2) não estão previstas, (3) e não
podem ser cobertas pela interpretação, mesmo extensiva, de preceitos consti‑
tucionais” (333).
Mostra‑nos a doutrina portuguesa que é essencial identificar no pri‑
meiro plano se há realmente uma lacuna constitucional. Assim, o passo
preliminar para a identificação de uma lacuna constitucional será conside‑
rar se a inclusão da matéria jurídica em questão pode ser mesmo deduzida
a partir da Constituição como um todo. Caso não seja possível identificar
esta dedução, deverá concluir‑se que o legislador constituinte escolheu a
remissão de determinada matéria para ser regulamentada por uma legislação
ordinária.
Uma lacuna normativa‑constitucional pode ser integrada. No Direito, a
integração de uma norma é habitualmente realizada através do processo de
analogia (334). Entendemos que a integração por analogia é também o mecanismo
geralmente aceite como parte da hermenêutica constitucional (335). Tal aceitação
pode ser conferida através de exemplos contidos no próprio texto constitucio‑
nal e que possuem na sua base este princípio de integração por analogia. Neste
âmbito, encontra‑se, na sua essência, o sistema da abertura dos direitos funda‑
mentais (artigo 23.º da CRDTL), pelo qual é aceite a integração na Consti‑
tuição daquelas normas análogas aos direitos fundamentais, previstas na legis‑
lação, por conterem o critério de fundamentalidade dos direitos fundamentais (336).
O princípio de integração por analogia encontra‑se também presente no
artigo 18.º‑2 da Constituição timorense que prevê a integração dos direitos da
criança reconhecidos universalmente, incluindo os previstos em tratados inter‑
nacionais ratificados por Timor‑Leste.
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:320.
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1235.
(333)
Ibid.
(334)
Artigo 9.º‑1 do Código Civil. aprovado pela Lei n.º 10/2011, de 14
de Setembro,
(335)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1236.
(336)
Vide Capítulo III, 3.3.2 Direitos só Materialmente Fundamentais.
(331)
(332)
Coimbra Editora ®
216
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Da prática do Tribunal de Recurso, no exercício da sua competência
enquanto Supremo Tribunal de Justiça, denota‑se o uso do mecanismo de
integração da lacuna por analogia. Já em 2003, no primeiro acórdão rela‑
tivo a um processo de fiscalização da constitucionalidade das normas, o
Tribunal de Recurso foi da opinião que o regime das leis restritivas dos
direitos fundamentais, previsto no artigo 24.º da Constituição, é aplicável
aos direitos fundamentais para além dos “direitos, garantias e liberdades
pessoais” como a redação deste artigo prevê. O Tribunal de Recurso con‑
siderou que o regime de leis restritivas se aplica também ao direito à
propriedade e à liberdade sindical, ambos categorizados na Constituição
como “direitos e deveres económicos, sociais e culturais” (337). Entende‑se
que a analogia encontrada para esta integração se fundou no facto de todos
os direitos fundamentais partilharem da mesma raiz da fundamentalidade
e de todos esses direitos serem igualmente aplicados num mesmo contexto
social o que poderá originar conflitos entre diferentes direitos, conflitos
que precisam de ser resolvidos com base em critérios específicos que legi‑
timem a restrição dos direitos fundamentais reconhecidos constitucional‑
mente.
Note‑se que, neste livro, se utiliza várias vezes o método de integração da
lacuna constitucional por via da analogia. Dentro destes exemplos pode ser
incluída a consideração dos “direitos económicos, sociais e culturais” como
limites materiais para a revisão constitucional (338).
Caso não seja possível encontrar uma analogia numa outra norma cons‑
titucional, a lacuna ficará sem ser preenchida. É das normas constitucionais
formais que deverá ser extraído o critério de analogia para a integração da
lacuna, e não das normas previstas em legislação ordinária. Esta imposição
deriva da impossibilidade de uma lacuna na norma constitucional ser preenchida
pelo legislador ordinário. Assim, o intérprete constitucional não pode utilizar
Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Junho de 2003 (Fiscalização Pre‑
ventiva de Constitucionalidade), Proc.02/CONST/03, 10‑11 (Tribunal de Recurso
2003), 10‑11. Neste acórdão, o Tribunal de Recurso não explicitou a argumentação
para a aplicação do regime de leis restritivas para os direitos fundamentais incluídos
na parte do texto constitucional intitulada “direitos económicos, sociais e culturais”.
Note‑se, porém, que este foi o primeiro acórdão da história deste tribunal a versar
sobre um dos mecanismos de fiscalização da constitucionalidade em Timor‑Leste
independente.
(338)
Vide Capítulo II, 2.7.2 A Revisão Constitucional.
(337)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
217
o princípio de preenchimento da lacuna, previsto no artigo 9.º‑3 do Código
Civil timorense, que permite que o intérprete, aquando da inexistência de caso
análogo, crie uma norma atendendo “o espírito do sistema” (339). Dar ao intér‑
prete constitucional o mesmo poder previsto no âmbito do preenchimento das
lacunas no Direito civil timorense, seria como dar ao intérprete um poder
semelhante ao de alterar a Constituição.
Na área dos direitos fundamentais, parece‑nos haver a intenção do
legislador constituinte de utilizar o processo de integração por analogia
para a identificação de padrões de direitos fundamentais contidos na legis‑
lação, reconhecendo‑os como direitos fundamentais materiais. Aqui, a
legislação infraconstitucional é instrumental para a integração da lacuna,
representando, na prática, o mecanismo para a identificação dos padrões
de direitos fundamentais a serem integrados na Constituição timorense.
É a própria Constituição que, inequivocamente, prevê este processo de
integração com a abertura dos direitos fundamentais prevista no seu
artigo 23.º
O preenchimento de uma lacuna constitucional evidente representa um
mecanismo de raiz diferente do de uma interpretação de uma norma consti‑
tucional de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos ou da
concretização de um direito fundamental com o auxílio de normas contidas
nos tratados internacionais de direitos humanos vigentes na ordem jurídica
interna. É importante reconhecer a diferença entre interpretação constitucional
e integração da Constituição.
3.4 Interpretação conforme a Constituição
Para além de uma visão geral sobre os princípios da hermenêutica cons‑
titucional, é relevante incluir neste livro uma sinopse sobre o processo de
interpretação de normas infraconstitucionais, tendo em conta a sua relação com
a Constituição: a interpretação conforme a Constituição.
Artigo 9.º‑3 lê‑se: “na falta de caso análogo, a situação é resolvida segundo
a norma que o próprio intérprete criaria, se houvesse de legislar dentro do espírito
do sistema”. Um artigo de redação idêntica é também previsto no Código Civil
português (artigo 10.º‑3: “Na falta de caso análogo, a situação é resolvida segundo
a norma que o próprio intérprete criaria, se houvesse de legislar dentro do espírito
do sistema”).
(339)
Coimbra Editora ®
218
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Quatro dimensões são normalmente identificadas em relação à aplicação
deste princípio (340):
— dimensão de escolha: através deste princípio, e sempre que do processo
interpretativo se obtenham dois sentidos divergentes que se encontram
em polos opostos quanto à sua conformidade com a Constituição,
deve escolher‑se aquele que se encontra em harmonia com as normas
constitucionais;
— dimensão de clarificação: este princípio serve também para auxiliar na
determinação do conteúdo de uma norma, quando esse conteúdo se
mostra ambíguo e indeterminado. O princípio de interpretação con‑
forme a Constituição pode, deste modo, garantir um resultado coe‑
rente graças ao conteúdo da Constituição;
— dimensão de limitação ou extensão: por força deste princípio, pode
aplicar‑se uma interpretação extensiva ou restrita às normas jurídicas
tanto quanto seja necessário para garantir a sua harmonia com a Lei
Fundamental. A interpretação extensiva ocorre quando o sentido da
norma revela mais do que a sua literalidade, recorrendo‑se, para a
interpretação extensiva, à “ratio legis”. Numa interpretação restritiva,
está‑se perante a possibilidade de se criar uma exceção no processo
normal interpretativo, através da identificação de um sentido mais
estrito do que a literalidade prevista no texto da norma;
— dimensão de integração de lacunas: a interpretação conforme a Cons‑
tituição pode ainda servir para preencher as lacunas existentes no
ordenamento jurídico.
Como qualquer processo que represente um esforço interpretativo, a
interpretação conforme a Constituição só é admissível quando não resulte
contrária à expressão literal do texto e não altere o significado do texto nor‑
mativo. Não é admissível que uma interpretação conforme a Constituição possa
permitir a alteração do conteúdo de uma norma.
Este princípio é uma técnica de interpretação, porém, mostra‑se também
de instrumental importância no sistema de controlo de constitucionalidade das
normas. Este princípio decorre diretamente da supremacia constitucional, do
Ver Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:311‑ss;
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1226‑1227.
(340)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
219
seu poder de invalidar qualquer norma que esteja em confronto com as normas
constitucionais e da obrigação dos juízes de não aplicarem normas contrárias
à Constituição (respetivamente, artigos 2.º‑2, 2.º‑3 e 120.º da CRDTL). Cla‑
rifica Jorge Miranda que a interpretação conforme a constituição “justifica‑se
em nome de um princípio de economia do ordenamento ou de máximo apro‑
veitamento dos atos jurídicos, não de uma presunção de constitucionalidade
da norma” (341).
Faz parte da normalidade jurídico‑constitucional a existência de situações
onde seja necessário o recurso ao princípio da interpretação conforme a Cons‑
tituição. O mesmo acontece em Timor‑Leste onde é ainda mais esperado o uso
regular deste princípio, atendendo ao caráter recente quer da Constituição,
quer da experiência legiferante das instituições competentes, bem como à
existência de um direito subsidiário estrangeiro.
No acórdão do Tribunal de Recurso de 15 de Fevereiro de 2010, este
tribunal, no âmbito de um caso civil sobre a adoção, interpretou que a lei
aplicável indonésia que determinava um critério de idade diferentes entre o
homem e a mulher adotante deveria ser interpretado à luz do princípio da
igualdade prevista no artigo 16.º da Constituição e, de modo a conformar‑se
com esta norma constitucional, foi interpretada como exigindo uma idade igual
entre ambos os adotantes (342).
3.5 Os Agentes da Interpretação Constitucional (343)
Atendendo ao objetivo deste Livro, é pertinente fazer aqui uma observação
semelhante àquela feita por Jónatas Machado e Paulo da Costa sobre os agen‑
tes da interpretação constitucional (344).
São os tribunais que, incontestavelmente, possuem um papel proemi‑
nente no processo interpretativo da Constituição. As decisões do Supremo
Tribunal de Justiça, no âmbito dos mecanismos de fiscalização constitucional
abstrata e concreta, gozam de força obrigatória geral (artigo 153.º da
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2007, Tomo II:312‑313.
Tribunal de Recurso, Acórdão 15 de Fevereiro de 2010, Proc. n.º 13/CIVEL/
/2009/TR, 5 (2010), 5.
(343)
Título utilizado em Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito
Constitucional Angolano, 68.
(344)
Ibid., 68‑69.
(341)
(342)
Coimbra Editora ®
220
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
CRDTL). Em segundo plano, o dever constitucional dos juízes de não apli‑
carem normas que confrontem a Constituição (controlo difuso da constitu‑
cionalidade) e a força obrigatória das decisões dos tribunais também colocam
os tribunais ordinários como autores primordiais no processo da interpreta‑
ção constitucional.
Estamos perante uma “comunidade aberta dos intérpretes da Constitui‑
ção” (345) que engloba não somente as instituições e agentes estatais e os dife‑
rentes profissionais de Direito, mas também os cidadãos em geral e os grupos
dentro da sociedade, inclusivamente, comunidades associativas, jornalistas e
académicos. Jónatas Machado e Paulo da Costa consideram estes como mem‑
bros de uma “subcomunidade interpretativa” (346).
Distintamente, a interpretação dada pelos tribunais, mesmo fora dos
mecanismos da fiscalização abstrata e concreta da Constituição, possui um real
peso na revelação do sentido das normas constitucionais.
Em Timor‑Leste, dada a existência de uma jurisprudência limitada em
razão da recente história constitucional após a restauração da independência
em 2002, as instituições e agentes estatais são muitas vezes os primeiros a
interpretarem as normas da Constituição, encontrando um quase vazio real no
que concerne à existência de uma interpretação já realizada por um tribunal.
Muitos são os exemplos que poderiam ser dados para demonstrar o papel
pioneiro dos membros da subcomunidade interpretativa.
Por exemplo, foi somente em Junho de 2009 que o Tribunal de Recurso,
no uso da competência de Supremo Tribunal de Justiça, considerou que a
Constituição timorense, apesar de não o prever expressamente, concedia ao
Governo uma competência legislativa concorrente com o Parlamento Nacio‑
nal (347). Entretanto, desde 2002 até Junho de 2009, foram promulgados 96
Ibid., 68. Ver com certo detalhe sobre este assunto, Peter Häberle and
Gilmar Ferreira Mendes, Hermenêutica Constitucional: A Sociedade Aberta dos Intérpre‑
tes da Constituição: Contribuição para a Interpretação Pluralista e ‘Procedimental’ da
Constituição (S.A. Fabris Editor, 1997).
(346)
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 68.
(347)
Cfr.Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR (2009). Vide
Capítulo II, 2.5.5 A Competência Legislativa Concorrente entre o Parlamento Nacio‑
nal e o Governo.
(345)
Coimbra Editora ®
Capítulo II — Visão Geral da Constituição
221
decretos‑leis (348) que, na prática, recaíam nesta competência concorrente por
serem diplomas legislativos cujas matérias não respeitavam a sua própria orga‑
nização e funcionamento ou a administração direta e indireta do Estado (349).
Esta realidade do ordenamento jurídico nacional atesta o facto de que foi o
Governo o primeiro a formalmente interpretar que possuía uma competência
legislativa para além da sua competência legislativa exclusiva, esta última, sendo
a única competência legislativa expressa e inequivocamente prevista no texto
da Constituição timorense.
Ver, por exemplo, Decreto‑Lei n.º 20/2009, de 6 de Maio, (Ordem de
Timor‑Leste); Decreto‑Lei n.º 1/2009, de 15 de Janeiro (Subsídio aos Profissionais da
Justiça e da Universidade Nacional Timor Lorosae); Decreto‑Lei n.º 1/2002, de 7
de Agosto (Regime de transferência do sistema judiciário); Decreto‑Lei n.º 16/2004,
de 10 de Janeiro (Decreto‑Lei das Cooperativas); Decreto‑Lei n.º 5/2005, de 9 de Julho
(Sobre Pessoas Colectivas sem fins lucrativos).
(349)
Artigo 115.º‑3 da CRDTL.
(348)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
Sumário
1. Breve Introdução ao Regime dos Direitos Fundamentais
2.Enquadramento Conceptual do Regime dos Direitos Fun‑
damentais
2.1 Funções dos Direitos Fundamentais: Subjetiva e Objetiva
2.2 Âmbito de Proteção
2.3 Densificação Normativa dos Direitos Fundamentais
2.4Titularidade dos Direitos Fundamentais
3. Direitos, Deveres, Liberdades e Garantias Fundamentais
na Constituição
3.1 Princípios Gerais dos Direitos Fundamentais
3.2Catálogo dos Direitos Fundamentais
3.3 Outros Direitos Fundamentais
4.Efetividade dos Direitos Fundamentais
4.1Conceitos Conexos e Afins: Aplicabilidade, Exequibilidade, Eficácia e Justi‑
ciabilidade
4.2Aplicabilidade e Eficácia dos Direitos Fundamentais em Timor­‑Leste
4.3 Vinculação dos Poderes Públicos: Implicações Práticas da Aplicabilidade e
Eficácia
4.4 Vinculação dos Particulares
5.Metódica Constitucional
Visão Global
Este capítulo versa sobre o regime dos direitos fundamentais, incidindo
tanto sobre as suas diferentes categorias, como sobre as principais regras que
determinam a efetivação dos direitos fundamentais no âmbito do ordenamento
jurídico de Timor‑Leste.
Neste processo, abordam‑se os direitos, liberdades e garantias pessoais,
bem como os direitos económicos, sociais e culturais, procedendo‑se à
contextualização de ambas as categorias de direitos e à análise das caracte‑
rísticas que os aproximam e distinguem entre si. Para o efeito, serão objeto
de reflexão algumas questões específicas, como sejam as funções, o âmbito
de proteção, a densificação e a titularidade dos direitos fundamentais.
Procede‑se, ainda, a uma análise dos princípios gerais e do catálogo dos
direitos fundamentais inscritos na constituição, fazendo‑se também refe‑
rência aos direitos que se encontram fora do catálogo e até da própria
constituição.
Por fim, proporciona‑se uma visão sobre os mecanismos jurídicos para
a efetivação do regime dos direitos fundamentais, nomeadamente, a aplica‑
bilidade e a eficácia dos direitos fundamentais, a vinculação das entidades
públicas e dos particulares e a metódica e hermenêutica dos direitos funda‑
mentais.
Palavras e Expressões‑Chave
Regime dos direitos fundamentais
Direitos, liberdades e garantias pessoais
Direitos económicos, sociais e culturais
Efetividade dos direitos fundamentais
Vinculação aos direitos fundamentais
Coimbra Editora ®
226
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
1. Breve Introdução ao Regime dos Direitos Funda‑
mentais
Após termos abordado o conceito de direitos fundamentais, bem como as
suas características e fontes, e depois de já termos refletido sobre as principais
questões estruturais da Constituição, é tempo de nos debruçarmos, de forma
mais sistematizada, sobre o regime dos direitos fundamentais. Nesta análise,
teremos em consideração um maior detalhe sobre as peculiaridades e caracte‑
rísticas dos direitos fundamentais na Constituição. Debruçar‑nos‑emos sobre
a forma como os direitos fundamentais aí são catalogados e sistematizados, o
que nos levará a concluir pela existência de um regime autónomo dos direitos
fundamentais dentro do direito constitucional que nos traz um número de
questões particulares, dignas de análise.
A Constituição contém uma parte especificamente dedicada aos direi‑
tos fundamentais, designada de “Direitos, Deveres, Liberdades e Garantias
Fundamentais” que se estende entre o artigo 16.º e o artigo 61.º, represen‑
tando a segunda das sete partes em que a Constituição está dividida. É ao
longo dos artigos referidos que encontramos o que poderemos designar de
regime dos direitos fundamentais. Embora a Constituição o não refira
expressamente e admitindo que surjam opiniões diferentes, poderá dizer‑se
que o enquadramento de um regime geral dos direitos fundamentais resulta
da consagração de princípios gerais dos direitos fundamentais previstos no
Título I, entre os artigos 16.º e 28.º A Constituição dá‑nos conta, através
da epígrafe da Parte II, da existência da categoria genérica de direitos,
deveres, liberdades e garantias fundamentais, que, por sua vez, se dividem
em direitos, liberdades e garantias pessoais e em direitos e deveres econó‑
micos, sociais e culturais que encontraremos nos Títulos II e III, respeti‑
vamente.
Os Direitos, Liberdades e Garantias Pessoais estão consagrados entre os
artigos 29.º e 49.º, onde se encontram direitos, como por exemplo, o direito
à vida e o direito de sufrágio, nos artigos 29.º e 47.º, respetivamente. Por
sua vez, os Direitos e Deveres Económicos, Sociais e Culturais encontram‑se
entre o artigo 50.º e o artigo 61.º e, neste âmbito, estão consagrados, por
exemplo, o direito à saúde (artigo 57.º) e o direito à educação e cultura
(artigo 59.º).
Com Vieira de Andrade, diremos que “toda a matéria dos direitos funda‑
mentais visa, por definição substancial, a prossecução de valores ligados à
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
227
dignidade humana dos indivíduos” (1), valor esse consagrado de forma expressa
no artigo 1.º da CRDTL. Dada, portanto, a conexão intrínseca e essencial
entre direitos fundamentais e dignidade humana compreende‑se que haja nor‑
mas específicas que sirvam como verdadeiros instrumentos de apoio na imple‑
mentação dos direitos fundamentais. Pela sua natureza, os direitos fundamen‑
tais representam uma essencialidade tal que justifica serem regulados por um
regime próprio. Por essa razão, há normas na Constituição que determinam
ou condicionam a efetiva aplicação dos direitos fundamentais, formando o que
consideramos um verdadeiro regime que apoia os órgãos do Estado na concre‑
tização e implementação dos direitos fundamentais e garantindo, assim, a
efetivação dos direitos fundamentais.
O artigo 23.º que versa sobre a interpretação dos direitos fundamentais é
o único artigo que, nesta secção, expressamente prevê a expressão “direitos
fundamentais”, e fá‑lo precisamente dando‑nos orientações específicas sobre
como estes direitos devem ser interpretados. Ora, tal facto vem reforçar a ideia
de que há algo inerente e subjacente aos direitos fundamentais que, em con‑
sonância com a própria sistematização contida na Constituição, nos remete
para a possibilidade de existência de um regime de direitos fundamentais.
Os argumentos anteriores revestem ainda maior relevo porque não está
prevista na constituição uma norma que expressamente determine a existência
de um “regime” de direitos fundamentais. Mas, tal facto não impede a consi‑
deração de que certas normas consagradas dentro e fora do catálogo previsto
na Constituição, quando analisadas conjuntamente, sejam agrupadas num
verdadeiro “regime dos direitos fundamentais”.
Portanto, em virtude de não encontrarmos, na CRDTL, um artigo espe‑
cificamente relativo ao regime dos direitos fundamentais, não poderemos
afirmar liminarmente que a Constituição timorense prevê, de forma expressa,
um regime específico para os direitos, liberdades e garantias, e muito menos
podemos pressupor a existência de dois regimes distintos, um para os direitos,
liberdades e garantias, e outro para os direitos económicos, sociais e culturais
ou ainda um geral para todos os direitos fundamentais e um específico para os
direitos, liberdades e garantias. Assim, teremos de concluir pela existência de
um regime específico de direitos fundamentais previsto na constituição, por
via interpretativa.
José Carlos Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição
Portuguesa de 1976, 5.ª edição (Coimbra: Almedina, 2012), 161.
(1)
Coimbra Editora ®
228
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
A Constituição portuguesa, assim como a angolana e a cabo‑verdiana
possuem uma norma sob a epígrafe “regime dos direitos, liberdades e garan‑
tias”. (2)
Gomes Canotilho, por referência à Constituição portuguesa, explica‑nos
que há um regime geral dos direitos fundamentais e um regime específico dos
direitos, liberdades e garantias (3). Segundo aquele autor, o regime geral dos
direitos fundamentais será “um regime aplicável a todos os direitos fundamen‑
tais, quer sejam consagrados como ‘direitos, liberdades e garantias’ ou como
‘direitos económicos, sociais e culturais’ e quer se encontrem no ‘catálogo dos
direitos fundamentais’ ou fora desse catálogo, dispersos pela Constituição”. Já
o regime específico dos direitos, liberdades e garantias será uma “disciplina
jurídica da natureza particular, consagrada nas normas constitucionais, e apli‑
cável, em via de princípio, aos ‘direitos, liberdades e garantias’ e aos direitos de
‘natureza análoga’”. Contudo, e ainda na esteira daquele autor, “seria incorrecto
dizer que existem dois regimes distintos para dois grupos diversos de direitos
fundamentais. O que existe é um regime geral (a todos aplicável) e um regime
especial (próprio dos direitos, liberdades e garantias e dos direitos de natureza
análoga) que se acrescenta àquele.”(4). Esta ideia de um regime específico é‑nos
fornecida pelo artigo 17.º da Constituição portuguesa, com base no qual se
pressupõe “a distinção entre duas categorias de direitos fundamentais com
regimes próprios, nomeadamente os direitos, liberdades e garantias e os direitos
económicos, sociais e culturais (…)”. (5)
Muitas das normas expressas que formam o regime dos direitos funda‑
mentais na CRDTL não especificam qualquer categoria de direitos funda‑
mentais às quais são particularmente aplicáveis. Constituem exceção a esta
afirmação, as normas relacionadas com a restrição e a suspensão dos direitos
fundamentais e a norma relativa ao direito de resistência e legítima defesa que
expressamente preveem a sua aplicação relativamente aos “direitos, liberdades
Respetivamente, artigo 27.º da Constituição angolana, artigo 26.º da Cons‑
tituição cabo‑verdiana e artigo 17.º da Constituição portuguesa.
(3)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 415.
(4)
Ibid.
(5)
O artigo 17.º da Constituição portuguesa prevê: “[o] regime dos direitos,
liberdades e garantias aplica‑se aos enunciados no título II e aos direitos fundamentais
de natureza análoga”. (Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portu‑
guesa Anotada, 2007, I (Artigo 1.º a 107.º):371. Note‑se que, no original, há negritos
e itálicos acentuados nesta frase que, nesta sede, foram retirados.
(2)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
229
e garantias” (respetivamente artigo 24.º, 25.º e 28.º). Poderá, então, pergun‑
tar‑se se os princípios expressamente aplicáveis aos direitos, liberdades e
garantias são igualmente aplicáveis aos direitos económicos, sociais e culturais.
Mais, haverá dois regimes na CRDTL, um para os direitos, liberdades e
garantias e outro para os direitos económicos, sociais e culturais? Ora, uma
outra consequência que se pode retirar da inexistência de um artigo semelhante
ao artigo 17.º da Constituição portuguesa e ao artigo 27.º da Constituição
angolana é que a CRDTL não pressupõe a existência de dois regimes, um para
cada uma daquelas categorias de direitos fundamentais. Assim, poderá explo‑
rar‑se a possibilidade de os princípios aplicáveis especificamente aos direitos,
liberdades e garantias poderem vir a ser também aplicados, eventualmente
com as necessárias adaptações, aos direitos económicos, sociais e culturais
quando a lei não exclua essa possibilidade (como é o caso do artigo 24.º
relativo às leis restritivas que expressamente refere ser aplicável aos direitos,
liberdades e garantias).
Para concluir esta breve apresentação do regime de direitos fundamentais
previsto na Constituição e numa tentativa de o sistematizar, ainda que de forma
simplista e consciente de que outras interpretações poderão surgir, poderá
entender‑se que, na lei fundamental timorense, o Título I, que encerra princí‑
pios gerais, corresponderá ao regime geral dos direitos fundamentais. Por sua
vez, o Título II corresponderá à categoria de direitos, liberdades e garantias e,
por fim, o Título III, à outra grande categoria, a dos direitos económicos,
sociais e culturais.
2. Enquadramento Conceptual do Regime dos Direi‑
tos Fundamentais
A previsão dos direitos fundamentais no texto constitucional de um
Estado de Direito democrático que proclama a soberania da Constituição,
como é o caso de Timor‑Leste, visa assegurar o gozo efetivo desses direitos.
Na verdade, a obrigatoriedade de efetivação dos direitos fundamentais decorre
da própria natureza destes direitos, especialmente da sua relação intrínseca
com a dignidade humana e da sua forma de positivação no texto constitucio‑
nal. Contudo, essa efetivação tem por base um processo sistemático de análise.
Este processo de caráter jurídico‑conceptual inclui a definição do âmbito de
proteção do direito fundamental, a identificação do seu titular e, ainda, a sua
eventual densificação normativa. Somente depois de determinadas estas ques‑
Coimbra Editora ®
230
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
tões prévias é que se poderá avançar para a consideração dos elementos e
métodos necessários à efetivação e à concretização do direito fundamental,
numa situação específica.
Assim, neste ponto, procede‑se a uma explanação necessariamente breve
de alguns conceitos que orbitam em torno do regime dos direitos fundamen‑
tais. Trata‑se de conceitos relevantes aquando da interpretação e da própria
concretização dos direitos fundamentais e, por isso, justifica‑se uma reflexão
sobre os mesmos. Em primeiro lugar, discorremos sobre as funções subjetiva
e objetiva dos direitos fundamentais que servem como elementos necessários
para situar a relação entre o objeto, o titular e o destinatário do direito fun‑
damental.
Depois, analisamos o significado do âmbito de proteção dos direitos fun‑
damentais e a relação entre este e a obrigação do Estado em assegurar essa
proteção. É igualmente importante refletir sobre a densificação normativa dos
direitos fundamentais, ou seja, como é que se preenche um preceito constitu‑
cional de modo a que este se torne aplicável ao caso concreto. Abordamos
também a questão de saber quem é titular de direitos fundamentais e quem é
seu destinatário, à luz da Constituição.
A seguir, sob a epígrafe de Efetivação dos Direitos Fundamentais serão
considerados os instrumentos pertinentes para a efetivação dos direitos funda‑
mentais, bem como os métodos a aplicar no processo de concretização.
2.1 Funções dos Direitos Fundamentais: Subjetiva e Objetiva
A doutrina é hoje consensual em admitir que os direitos fundamentais
encerram uma componente subjetiva e uma componente objetiva. Vieira de
Andrade explica que “ultrapassadas as perspetivas puramente individualistas
associadas a conceções atomísticas da sociedade, é hoje entendimento comum
que os direitos fundamentais são os pressupostos elementares de uma vida
humana livre e digna, tanto para o indivíduo como para a comunidade” (6).
Mais adianta que os vários autores utilizam diferentes expressões para designar
esta perspetiva dupla (subjetiva/objetiva, individual/comunitária) que envolve
os direitos fundamentais, nomeadamente, “dupla dimensão”, “dupla natureza”,
“duplo caráter” ou “dupla função”. Esta última, sufragada por Jónatas Machado
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa de
1976, 2012, 108.
(6)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
231
e Paulo Costa (7), foi a designação que elegemos e segundo a qual os direitos
fundamentais possuem duas funções, uma subjetiva e outra objetiva.
A função subjetiva decorre, desde logo, do facto de que os direitos fun‑
damentais são “direitos subjetivos de natureza jurídico‑publicística”, que assen‑
tam na dignidade humana (8). A subjetividade está relacionada com o reco‑
nhecimento do poder de um indivíduo de exigir a implementação do direito
fundamental aos poderes públicos, tanto através de ações como por omissões (9).
Gomes Canotilho explica‑nos que “uma norma garante um direito subjectivo
quando o titular de um direito tem, face ao seu destinatário, o ‘direito’ a um
determinado acto, e este último tem o dever de, perante o primeiro, praticar
esse acto. O direito subjectivo consagrado por uma norma de direito funda‑
mental reconduz‑se, assim, a uma relação trilateral entre o titular, o destinatá‑
rio e o objecto do direito”. (10)
Fazendo uso da figura proposta por Gomes Canotilho, analisemos, a título
de exemplo, esta trilateralidade relativa ao direito de sufrágio (artigo 47.º da
CRDTL), incluído no catálogo dos direitos, liberdades e garantias: num dos
vértices do triângulo, temos o titular, ou seja, a pessoa que tem o direito de
votar e de ser eleito nas eleições; no outro vértice, temos o destinatário, ou seja,
o Estado que tem a obrigação de assegurar a realização de eleições; e no outro
vértice, temos o direito propriamente dito, neste caso, o direito de participar
em eleições justas, livres e periódicas. Analisemos agora, por exemplo, um
direito inscrito no catálogo dos direitos económicos, sociais e culturais, o direito
à educação (artigo 59.º da CRDTL). Neste caso, teríamos, num vértice, a
pessoa que tem o direito de ter acesso à educação, desde logo, nomeadamente,
as crianças; no outro vértice, temos o Estado que se encontra obrigado a asse‑
gurar o acesso à educação; e no outro vértice, temos o direito a beneficiar de
um ensino em condições de igualdade.
Jónatas Eduardo Mendes Machado e Paulo Nogueira da Costa, Direito
Constitucional Angolano (Coimbra: Coimbra Editora, 2011), 165.
(8)
Ibid.
(9)
Jónatas Machado e Paulo Nogueira da Costa consideram que a subjetividade
de um direito fundamental “pretende conferir ao titular dos direitos um poder de
exigir a adoção, por parte dos poderes públicos, de condutas positivas e negativas
adequadas à proteção e promoção dos mesmos” (Ibid.)
(10)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1254.
Note‑se que, no original, há, nesta frase, negritos e itálicos acentuados que, nesta sede,
foram retirados.
(7)
Coimbra Editora ®
232
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O reconhecimento de uma função subjetiva dos direitos fundamentais
e a determinação do grau de eficácia da garantia fundamental são fatores
essenciais para assegurar o acesso efetivo à tutela jurisdicional de proteção
dos direitos fundamentais (11). É esta função subjetiva, enquanto capacidade
de exigir a efetivação de um direito fundamental, que assegura que os
direitos fundamentais não representarão apenas promessas políticas. Deste
modo, a função subjetiva atua como uma verdadeira ferramenta para garan‑
tir que o titular da garantia fundamental tenha a capacidade de recorrer ao
Direito, como instrumento para exigir o pleno exercício de seu direito
fundamental.
Para além da função subjetiva que acabámos de enunciar, os direitos fun‑
damentais também realizam uma função objetiva. A essência desta função
objetiva dos direitos fundamentais reside no dever ou obrigação imposto ao
Estado de assegurar o direito fundamental.
Segundo Jónatas Machado e Paulo Costa, a função objetiva dos direitos
fundamentais revela‑se de várias formas. Entre algumas dessas formas, consideram
que “a função objetiva dos direitos fundamentais impõe ao Estado um dever de
proteção de todos os bens jurídicos garantidos pelas normas de direitos funda‑
mentais” (12). Ainda, explicam que a função objetiva também se manifesta no
facto de que os direitos fundamentais, através da sua “abertura principal” e
“capacidade conformadora”, constituem “diretivas” que se dirigem à “ordem
jurídica globalmente considerada” atravessando, portanto, “todos os ramos do
direito e as correspondentes normas substantivas e processuais”. Estas diretivas
impõem, assim, aos “poderes públicos um dever geral de atuação política e legis‑
lativa orientada para a criação de condições institucionais, económicas, sociais e
culturais favoráveis à efetividade dos direitos fundamentais.”(13). Assim, note‑se
que, em virtude da função objetiva dos direitos fundamentais, estes direitos são
entendidos como um conjunto de valores objetivos de conformação do Estado
democrático de Direito.
Em poucas palavras, dir‑se‑á que a função subjetiva se relaciona essencial‑
mente com o poder do titular do direito de exigir aos poderes públicos o gozo
de um direito fundamental. Por outro lado, a função objetiva dos direitos
fundamentais reconhece o dever incumbido ao Estado de assegurar o direito,
Vide Capítulo III, 4. Efetividade dos Direitos Fundamentais e Capítulo VI.
Machado e Costa, Direito Constitucional Angolano, 166.
(13)
Ibid., 167.
(11)
(12)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
233
quer através da proibição de intervenção no gozo do direito, quer pela tomada
de ações positivas que assegurem a realização do direito. (14)
Entende‑se, portanto, que os direitos fundamentais possuem ambas as
funções subjetiva e objetiva, independentemente da forma que reveste o preceito
relevante previsto na norma constitucional, ou seja, quer o artigo formule o
direito fundamental com uma linguagem de “direito” de um titular, como por
exemplo o artigo 58.º da CRDTL (15), quer utilize uma norma impositiva de
obrigações ao Estado, como exemplificado pela norma contida no artigo 41.º‑4
da constituição timorense (16). Vale a pena notar que, no direito internacional,
reconhece‑se, desde há algum tempo, a “correlação entre uma obrigação legal
[do Estado], de um lado, e um direito subjetivo, do outro lado”. (17)
2.2 Âmbito de Proteção
Nesta parte, analisamos o âmbito de proteção da norma que, no fundo,
pretende responder às seguintes perguntas: o que podem os indivíduos, como
titulares dos direitos fundamentais, exigir ao Estado no sentido da prossecução
do gozo efetivo desses seus direitos? A título de exemplo, teria uma pessoa,
em Timor‑Leste, invocando a liberdade de religião, o direito de exigir o respeito
(14)
Sobre as obrigações do Estado em relação às diferentes categorias de direi‑
tos fundamentais, vide Capítulo III, 4.3 Vinculação dos Poderes Públicos: Implicações
Práticas da Aplicabilidade e Eficácia.
(15)
O artigo 58.º da CRDTL prevê o direito à habitação como um direito
social: “[t]odos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão
adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a
privacidade familiar”.
(16)
O artigo 41.º‑4 da CRDTL prevê que “[o] Estado asegura a liberdade e a
independência dos órgãos públicos de comunicação social perante o poder politico e
o poder económico”.
(17)
Roberto Ago, Second Report on State Responsibility, Vol II, Yearbook of the
International Law Commission, (1970), 192‑193. (tradução livre das autoras).
Salienta‑se que a própria redação dos direitos humanos nos tratados internacionais de
direitos humanos por vezes denota este reconhecimento, como é evidenciado no direito
a uma vida adequada no texto do PIDESC, o qual prevê que “[o]s Estados Partes no
presente Pacto reconhecem o direito de todas as pessoas a um nível de vida suficiente
para si e para as suas famílias, incluindo alimentação, vestuário e alojamento suficien‑
tes, bem como a um melhoramento constante das suas condições de existência”
(artigo 11.º‑1 do PIDESC).
Coimbra Editora ®
234
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
pelas celebrações da sua religião Budista, através do reconhecimento das res‑
petivas datas festivas como feriados nacionais, a fim de que possa participar
nas celebrações religiosas? Tem uma criança o direito de ter uma educação de
qualidade, na qual o ensino é adequado ao contexto sociocultural timorense,
ou não pode ela exigir esta garantia de qualidade mas somente o acesso a um
programa educativo? Ou, ainda, no que respeita ao direito à habitação, tem
o Estado timorense o dever de entregar gratuitamente uma casa para cada
família, ou, em alternativa, tem o dever de criar incentivos que promovam o
acesso a casa própria em condições de igualdade, limitando‑se, portanto, a
assegurar que uma pessoa não se encontre em situação de desalojada garantindo
o seu acesso a alojamento temporário?
A resposta a estas questões depende, em larga medida, da determinação
do âmbito de proteção dos direitos fundamentais referidos. Do reconhecimento
de que existe um âmbito de proteção da norma constitucional, resulta que o
Estado tem a obrigação de o proteger e assegurar. Ainda, a determinação do
âmbito de proteção dos direitos fundamentais revela‑se um instrumento impor‑
tante de garantia da segurança jurídica, pois define o objeto real da exigência
a que o indivíduo tem direito, bem como a extensão da obrigação constitucio‑
nal do Estado.
Como se depreende do exposto, é essencial compreender em que consiste
o âmbito de proteção de um direito (18). Segundo Gomes Canotilho, “o âmbito
de proteção significa a delimitação intencional e extensional dos bens, valores
e interesses protegidos por uma norma. Este âmbito é, tendencionalmente, o
resultado proveniente da delimitação dogmática feita pelos órgãos ou sujeitos
concretizadores através do confronto de normas do direito vigente” (19). Com
a análise do âmbito de proteção, pretende‑se “determinar quais os bens jurídi‑
cos protegidos e a extensão dessa protecção”. (20)
Ainda, de acordo com Vieira de Andrade, a determinação do âmbito de
proteção de um direito consiste em averiguar quais “os bens ou esferas de ação
abrangidos e protegidos pelo preceito que prevê o direito e de os distinguir de
Vide Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
1275‑1276. Ou ainda Machado e Costa, Direito Constitucional Angolano, 2011,
188‑189; Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa de
1976, 2012, 271‑276.
(19)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1203.
(20)
Ibid., 1275.
(18)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
235
figuras e zonas adjacentes, para saber, em abstrato, também em função de outros
preceitos constitucionais, se inclui, não inclui ou exclui em termos absolutos
as várias situações, formas ou modos pensáveis do exercício do direito” (21).
A delimitação do âmbito de proteção de um direito é uma tarefa de interpre‑
tação essencial e que comporta uma certa dificuldade.
A determinação do âmbito de proteção das normas constitucionais é
fundamental, tanto ao nível da interpretação da própria constituição (e das leis
infraconstitucionais), como da concretização da norma constitucional num caso
em concreto. Vejamos, a determinação do âmbito de proteção é anterior à
própria densificação da norma constitucional em normas jurídicas de valor
inferior, que será abordada com mais detalhe infra. Ou seja, é essencial que
conheçamos o âmbito de proteção do direito fundamental para, em seguida,
podermos proceder à sua densificação normativa. (22)
Neste domínio, confrontam‑se e simultaneamente distinguem‑se a deter‑
minação do âmbito de proteção do direito fundamental e a proteção do seu
núcleo essencial. Ou seja, quando se procede à determinação do âmbito de
proteção de uma norma constitucional, tem‑se em consideração o conteúdo
do direito em causa, bem como a necessidade de proteger o seu núcleo essen‑
cial. Segundo Vieira de Andrade, o núcleo essencial de um direito fundamen‑
tal “corresponde às faculdades típicas que integram o direito, tal como é
definido na hipótese normativa, e que correspondem à projeção da ideia de
dignidade humana individual na respetiva esfera da realidade — abrangem
aquelas dimensões dos valores pessoais que a Constituição visa em primeira
linha proteger e que caracterizam e justificam a existência autónoma daquele
direito fundamental” (23). Ainda neste Capítulo, será abordada esta questão em
relação à definição dos direitos económicos, sociais e culturais (24) e a efetivação
dos direitos fundamentais. (25)
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 265.
(22)
Para mais detalhe sobre a interpretação constitucional e sobre o caráter, por
vezes, vago e aberto das normas constitucionais, vide, Capítulo II, 3. Hermenêutica
Constitucional.
(23)
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 165.
(24)
Vide, Capítulo III, 3.2.2 Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
(25)
Vide, Capítulo III, 4. Efetividade dos Direitos Fundamentais.
(21)
Coimbra Editora ®
236
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Na essência, para identificar o âmbito de proteção de um direito fun‑
damental, deve proceder‑se a um exercício de análise interpretativa que leve
em consideração a norma constitucional que lhe diz respeito, bem como
outras normas que estejam relacionadas com o direito fundamental em
causa. Por exemplo, para se determinar o âmbito de proteção do direito à
integridade pessoal, deve analisar‑se o artigo 30.º‑1 da Constituição, em
conjunto com as disposições respetivas dos tratados internacionais relevan‑
tes, nomeadamente o PIDCP e a Convenção contra Tortura, do Código
Penal que criminaliza ações que ofendem a integridade física e psíquica das
pessoas, da lei da violência doméstica, quando aplicável, e com outras dis‑
posições normativas relacionadas com o direito em causa e que se encontrem
ou venham a encontrar no corpo legislativo timorense. Refletiremos, mais
abaixo neste capítulo, sobre questões relativas ao âmbito de proteção espe‑
cíficas das diferentes categorias de direitos fundamentais previstos na
Constituição. (26)
É importante realçar a relevância do direito internacional dos direitos
humanos na metódica da determinação do âmbito de proteção de um direito
fundamental. Relembra‑se que os tratados internacionais de direitos huma‑
nos são parte integrante do ordenamento jurídico em virtude da receção do
direito internacional previsto no artigo 9.º da Constituição timorense (27).
Sendo estes instrumentos internacionais diplomas normativos de força vin‑
culante que versam especialmente a área de direitos humanos e possuem
uma força supra legislativa, estes representam, na verdade, uma primordial
fonte de Direito para apoiar o processo de determinação do âmbito de pro‑
teção de um direito fundamental. Ainda a reforçar esta ideia da relevância
daquele ramo do Direito Internacional surge o artigo 23.º da CRDTL
segundo o qual a Declaração Universal dos Direitos Humanos possui uma
função interpretativa.
Por último, note‑se que, quando está em causa a restrição de direitos,
liberdades e garantias, em bom rigor, só a poderemos analisar depois de conhe‑
cermos o âmbito de proteção da norma, que representa, assim, o primeiro passo
dessa análise. Por restrição de um direito fundamental, entende‑se uma com‑
pressão operada por via legislativa do âmbito de proteção de um direito fun‑
Vide Capítulo III, 2.2 Âmbito de Proteção.
Vide Capítulo I, 4. Relação entre o Direito Interno e o Direito Interna‑
(26)
(27)
cional.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
237
damental (28). Assim, e usando as palavras de Gomes Canotilho, “[s]ó deve
falar‑se de restrição de direitos, liberdades e garantias depois de conhecermos
o âmbito de protecção das normas constitucionais consagradoras desses direi‑
tos”. (29)
2.3 Densificação Normativa dos Direitos Fundamentais
Um outro conceito que importa referir é o de densificação normativa dos
direitos fundamentais. Segundo Gomes Canotilho, “densificar uma norma
significa preencher, complementar e precisar o espaço normativo de um preceito
constitucional, especialmente carecido de concretização, a fim de tornar pos‑
sível a solução, por esse preceito, dos problemas concretos” (30). Ou seja, com
a densificação de uma norma pretende‑se apurar qual o seu verdadeiro alcance
e significado, de modo a que a possamos utilizar para a aplicação a um caso
concreto. Daí que o mesmo autor nos refira que o conceito de densificação
está associado ao de concretização, assim, nas palavras de Gomes Canotilho,
“[c]oncretizar a constituição traduz‑se, fundamentalmente, no processo de den‑
sificação de regras e princípios constitucionais”. (31)
A concretização dos direitos fundamentais na CRDTL supõe um processo
que parte do texto da norma como prevista na Constituição e se dirige para
uma norma concreta, a norma jurídica. Porém, como sublinha Gomes Cano‑
tilho, a concretização “não é igual à interpretação do texto da norma; é, sim,
a construção de uma norma jurídica” (32). Na verdade, a concretização pode ser
equiparada ao processo real de decisão sobre o conteúdo da norma, enquanto
a interpretação se assemelha ao método utilizado para apoiar este processo de
decisão.
A propósito da concretização e desta construção de uma norma jurídica,
poderemos referir‑nos à relação que existe entre as normas constitucionais de
direitos fundamentais e as normas legais que se relacionam com aquelas. A ver‑
Para mais desenvolvimentos sobre a restrição aos direitos, liberdades e
garantias, e sobre a sua diferenciação da suspensão, vide o Capítulo IV, 2. As Restrições
aos Direitos Fundamentais.
(29)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1275.
(itálico do autor)
(30)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1201.
(31)
Ibid. (itálico do autor)
(32)
Ibid. (itálico do autor)
(28)
Coimbra Editora ®
238
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
dade é que alguns preceitos constitucionais de direitos fundamentais têm um
“conteúdo fragmentário, vago, aberto, abstracto ou incompleto” (33), pelo que
a sua concretização implica uma tarefa da legislação (34), isto é, necessita de uma
conformação atribuída por uma lei que tenha a capacidade de garantir o “exer‑
cício de direitos fundamentais” (35). Por vezes, é a própria Constituição a expli‑
citar que a concretização de um direito fundamental é realizada através de uma
norma legal, designadamente, ao utilizar a expressão “nos termos da lei”, como
acontece no seu artigo 31.º referente à aplicação da lei criminal e no artigo 54.º
sobre a propriedade privada (36). A concretização de um direito fundamental
por um diploma legal pode incidir sobre a determinação do seu conteúdo,
restrições ou ainda determinar normas reguladoras do seu exercício.
Significa o exposto que alguns direitos fundamentais necessitam de uma
conformação legislativa, e assim se explica a existência de normas legais con‑
formadoras que mais não são do que normas que “completam, precisam,
concretizam ou definem o conteúdo de protecção de um direito fundamen‑
tal” (37). As leis e normas conformadoras têm, portanto, esta função de desen‑
volver a lei fundamental, de positivar os direitos fundamentais, nomeadamente,
o seu âmbito de proteção.
Um exemplo seria o direito de acesso aos dados pessoais previsto no
artigo 38.º da Constituição timorense. Este preceito, ao considerar que “[a] lei
define o conceito de dados pessoais e as condições aplicáveis ao seu tratamento”
(artigo 38.º‑2) expressa inequivocamente que a determinação do âmbito de
proteção do direito à proteção de dados pessoais deve ser sujeito a uma lei
conformadora.
Aqueles direitos fundamentais que são, pela sua própria natureza, direitos
institucionais ou relacionados com procedimentos requerem uma lei confor‑
madora para determinar o seu conteúdo. Tal entende‑se ser o caso do direito
Ibid., 1263.
Ibid., 1264.
(35)
Ibid.
(36)
Encontra‑se ainda outras expressões que, contudo, têm o mesmo sentido, como
é o caso de “nos termos expressamente previstos na lei vigente” (artigo 30.º‑2 — Direito
à liberdade, segurança e integridade pessoal), “regulado por lei” (artigo 51.º‑1 — Direito
à greve e proibição do lock‑out) e, ainda, “(…) salvo os casos previstos na lei em
matéria de processo criminal” (artigo 37.º‑1 — Inviolabilidade do domicílio e da
correspondência).
(37)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1263.
(33)
(34)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
239
ao habeas corpus (artigo 33.º) e o direito de sufrágio (artigo 47.º), cujo âmbito
de proteção se encontra indissociado da sua regulamentação (38). Assim, poderia
considerar‑se que estes direitos precisam de uma lei conformadora que deter‑
mine o modus operandi das garantias, sem as quais se torna irrelevante até
mesmo a compreensão do seu conteúdo.
Um caso contrário poderá ser o da liberdade de associação (artigo 43.º da
CRDTL), já que o artigo 43.º determina com certa clareza o âmbito do direito
de associação, estabelecendo exceções e limites ao conteúdo deste direito (39).
Assim, entende‑se que mesmo sem uma lei infraconstitucional, pela via inter‑
pretativa, este direito, ainda que com lacunas, poderia ser passível de aplicação
num caso em concreto.
Os direitos fundamentais que requerem uma lei conformadora que
determine o seu conteúdo, quando este se mostra ainda indeterminado atra‑
vés de processo interpretativo e mesmo com o uso dos tratados de direitos
humanos, não são passíveis de serem aplicados diretamente a um caso em
concreto sem a existência de uma lei conformadora. Esta questão, intima‑
mente relacionada com a aplicabilidade direta dos direitos fundamentais é
abordada infra. (40)
Conceito diferente, mas próximo da realidade que ora descrevemos, é o
de normas legais restritivas que são “aquelas que limitam ou restringem posições
que, prima facie, se incluem no domínio de protecção dos direitos fundamen‑
tais” (41). É possível que uma lei seja simultaneamente conformadora, definindo
o conteúdo de um direito, e restritiva, comprimindo o seu âmbito de prote‑
(38)
Note‑se que, em regra, os instrumentos internacionais de direitos humanos,
pela sua natureza subsidiária e universal, não contêm normas sobre aspetos relaciona‑
dos com os procedimentos ou mecanismos para a implementação do direito. Evidên‑
cia de tal aspeto é o artigo 25.º do PIDCP, segundo o qual “[t]odo o cidadão tem o
direito e a possibilidade, sem nenhuma das discriminações referidas no artigo 2.º e sem
restrições excessivas: (…) (b) De votar e ser eleito, em eleições periódicas, honestas,
por sufrágio universal e igual e por escrutínio secreto, assegurando a livre expressão da
vontade dos eleitores.”
(39)
Vale a pena notar que o artigo 22.º do PIDCP, que prevê o direito de
associação, não contribui de forma substantiva para a determinação do conteúdo deste
direito previsto na CRDTL.
(40)
Vide Capítulo III, 4.2 Aplicabilidade e Eficácia dos Direitos Fundamentais
em Timor‑Leste.
(41)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1263.
Coimbra Editora ®
240
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
ção (42). Tal é o exemplo da Lei n.º 1/2006, de 8 de Fevereiro sobre Liberdade
de Reunião e de Manifestação, que regulamenta o artigo 43.º relativo à liber‑
dade de associação, definindo o conteúdo do direito, determinando restrições
e ainda estabelecendo regras para implementação do direito.
Um outro conceito que, por vezes, também surge neste âmbito é o de
normas reguladoras do exercício do direito que se distingue das normas con‑
formadoras e das normas restritivas.
Gomes Canotilho alerta para a dificuldade em estabelecer a linha de
separação entre estes conceitos — conformação, restrição e regulação — mas,
lança algumas pistas de análise. Uma delas é a que parece apontar para o facto
de que o conceito de regulação será o mais extenso dos três, pois inclui a pos‑
sibilidade de conformação e de restrição. A regulação legislativa abre “possibi‑
lidades de comportamento através das quais os indivíduos exercem os seus
direitos fundamentais” (43). Vale a pena sublinhar que esta distinção será de
importância somente em algumas situações como a da determinação da apli‑
cabilidade direta e do grau de eficácia do direito fundamental, como será
abordado mais abaixo.
Ao abordarmos a questão de que as normas constitucionais implicam,
frequentemente, uma tarefa de legislação, ou seja, a intervenção do legislador
na sua concretização, teremos de nos interrogar sobre quem tem competência
para legislar sobre direitos fundamentais em Timor‑Leste? Na verdade, há uma
delimitação complexa quanto à partilha ou divisão de competências legislati‑
vas nesta matéria, entre o parlamento nacional e o governo, e que decorre da
leitura conjunta do artigo 95.º‑2/e, e ainda alíneas l) e m) e do artigo 115.º‑1/b
e e. (44)
Segundo o primeiro artigo mencionado, é da reserva absoluta da compe‑
tência exclusiva do Parlamento Nacional legislar sobre “direitos, liberdades e
garantias” e sobre alguns dos principais direitos sociais, como as bases do sistema
de ensino, da segurança social e da saúde. No uso destas competências, foram
já elaborados alguns diplomas legislativos, como a Lei de Bases da Educação (45)
Capítulo
(43)
(44)
tivo.
(45)
(42)
Para mais detalhe sobre as restrições aos direitos fundamentais, vide o
IV, 2. As Restrições aos Direitos Fundamentais.
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1264.
Para mais detalhe sobre este assunto, vide Capítulo II, 2.5 Sistema Legisla‑
Lei n.º 14/2008, de 29 de Outubro.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
241
e a Lei sobre a Liberdade de Manifestação e Reunião (46). O Parlamento Nacio‑
nal possui, ainda, agora no âmbito das matérias de reserva relativa da sua com‑
petência exclusiva, a competência de legislar sobre a defesa do meio ambiente
(artigo 96.º‑1/h) (47) e ainda sobre matérias relativas “…à intervenção, expro‑
priação, nacionalização e privatização dos meios de produção e solos por motivo
de interesse público…” (artigo 96.º‑1/l). Relembra‑se que, de acordo com a
interpretação jurisprudencial em Timor‑Leste, o Governo detem a competência
legislativa para “garantir o gozo dos direitos e liberdades fundamentais aos
cidadãos” (artigo 115.º‑1/b). Em virtude desta competência para legislar sobre
a garantia do gozo dos direitos fundamentais, o Governo elaborou o Decreto‑Lei
sobre o Licenciamento Ambiental (48). Ainda de notar que o Governo utilizou
as competências de “dirigir a política de segurança social” como base para ela‑
borar diplomas legislativos que regulam alguns dos direitos económicos, sociais
e culturais, de que são exemplo o decreto‑lei que versa sobre o subsídio de apoio
aos idosos e inválidos (49) e o decreto‑lei sobre o licenciamento, comercialização
e qualidade de água potável (50), entre outros.
Em termos gerais, a complexidade da análise sobre a divisão das compe‑
tências entre o Parlamento Nacional e o Governo está diretamente relacionada
com a questão já abordada acima: a difícil tarefa de delimitar o desenvolvimento
de normas jurídicas conformadoras e reguladoras dos direitos fundamentais.
De referir que, no âmbito dos países da CPLP, somente em Moçambique é
possível encontrar uma divisão semelhante de competências (51).
Poderia dizer‑se que, em regra, no sistema constitucional timorense,
apenas o Parlamento Nacional tem a competência para elaborar as leis con‑
formadoras e restritivas dos direitos fundamentais (tanto dos direitos, liber‑
dades e garantias como uma parte substantiva dos direitos sociais), possuindo
o Governo a competência legislativa para aprovar legislação, na forma de
decretos‑leis, que regulem estes mesmos direitos. Assim, uma forma de asse‑
Lei n.º 1/2006, de 8 de Fevereiro.
O Parlamento Nacional possui ainda a competência expressa em matérias
diretamente relevantes ao exercício e às restriçoes.
(48)
Decreto‑Lei n.º 5/2011, de 9 de Fevereiro.
(49)
Decreto‑Lei n.º 19/2008, de 19 de Junho.
(50)
Decreto‑Lei n.º 5/2009, de 15 de Janeiro.
(51)
Artigo 204.º‑1/a da Constituição moçambicana estipula que “[c]ompete,
nomeadamente, ao Conselho de Ministros: a) garantir o gozo dos direitos e liberdades
dos cidadãos”.
(46)
(47)
Coimbra Editora ®
242
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
gurar que um decreto‑lei desenvolvido no âmbito dessa competência legisla‑
tiva do Governo para “garantir o gozo dos direitos e liberdades fundamentais”
se encontra dentro dos limites constitucionais da sua competência, é limi‑
tando‑se o Governo a legislar sobre a regulamentação e não sobre a confor‑
mação do direito, por perigo de padecer de inconstitucionalidade formal e
orgânica (52).
Na prática, no entanto, cumpre lembrar que, apesar da ampla competên‑
cia legislativa concorrencial entre Parlamento Nacional e Governo, a qual inclui
as matérias previstas no artigo 115.º‑1 da CRDTL, o Parlamento Nacional
detém uma maior amplitude nesta matéria, em consequência da sua primazia
no que respeita à competência legislativa e é “antes o Parlamento Nacional que
é permitido “imiscuir‑se” na área de competência do Governo [prevista no
artigo 115.º‑1 da CRDTL]” (53).
2.4 Titularidade dos Direitos Fundamentais
Para uma compreensão das questões conceptuais dos direitos fundamentais
que assegure a sua correta aplicação, é fundamental, para além de identificar
as funções destes direitos, o seu âmbito de proteção e os mecanismos necessá‑
rios à sua positivação, determinar ainda quem são os titulares dos direitos
fundamentais.
A universalidade dos direitos fundamentais, como uma das suas principais
características (54), tem por base o reconhecimento segundo o qual “todos
quantos fazem parte da comunidade política, fazem parte da comunidade jurí‑
dica, são titulares dos direitos e deveres aí consagrados; os direitos fundamen‑
tais têm ou podem ter por sujeitos todas as pessoas integradas na comunidade
política, no povo” (55). Ainda segundo Jorge Miranda, não se pode separar o
princípio da universalidade do princípio da igualdade, apesar de refletirem
realidades diferentes. Assim, o princípio da universalidade significa que “[t]
odos têm todos os direitos e deveres” ao passo que o princípio da igualdade
Vide Capítulo VI, 3. A Justiça Constitucional.
Tribunal de Recurso, Acórdão de 19 de Junho de 2009 (Fiscalização Abstrata
Sucessiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/09/TR, 28 (2009), 28.
(54)
Vide Capítulo I, 1.3 Características e Classificação dos Direitos Fundamen‑
tais e Direitos Humanos.
(55)
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2005, Tomo I:112.
(52)
(53)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
243
significa que “todos (ou, em certas condições ou situações, só alguns) têm os
mesmos direitos e deveres” (56).
O artigo 16.º da Constituição consagra o princípio da universalidade ao
determinar que “[t]odos os cidadãos gozam dos mesmos direitos e são sujeitos
aos mesmos deveres”. Neste mesmo artigo, encontraremos um outro princípio,
o da igualdade, que será analisado em maior detalhe no Capítulo V.
A uma primeira leitura do princípio da universalidade inscrito no
artigo 16.º‑1 da CRDTL, são várias as perguntas que poderemos fazer, desde
logo, saber se são titulares de direitos fundamentais todas as pessoas ou apenas
os cidadãos timorenses. Esta pergunta decorre do facto de que a letra da norma
constitucional refere a expressão “todos os cidadãos” e não “todos” ou “todas
as pessoas” (57). Poderemos, portanto, desta circunstância inferir que apenas os
cidadãos timorenses são titulares de direitos fundamentais? Inclinamo‑nos para
uma resposta negativa, partilhando, assim, da mesma opinião que encontramos
na existente jurisprudência e doutrina timorenses.
De acordo com a Constituição Anotada da CRDTL, “[a] vinculação de
Timor‑Leste aos mais importantes instrumentos internacionais de proteção
dos direitos humanos recomenda uma interpretação alargada [do seu
artigo 16.º‑1]” (58). Assim, “[a] fórmula inicial do n.º 1 [do artigo 16.º]
— “todos os cidadãos” — embora atribua, em primeira linha, direitos e deve‑
res aos membros da comunidade política, não visa a exclusão dos estrangeiros
e apátridas. (…) Alguns direitos, por serem inerentes à dignidade da pessoa
humana (como a vida, a integridade física, a liberdade) não podem deixar de
ser reconhecidos a todas as pessoas” (59).
Ibid.
Encontra‑se a expressão “todos os cidadãos” nas normas equivalentes da
Constituição moçambicana (artigo 35.º), portuguesa (12.º‑1) e cabo‑verdiana
(artigo 23.º). Em contraste, encontra‑se a expressão “todos” no artigo 22.º‑1 da Cons‑
tituição de Angola.
(58)
Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Constituição
Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste, 2011, 68.
(59)
Ibid. A este propósito, vide, ainda, Patrícia Jerónimo, ‘Os Direitos Funda‑
mentais Na Constituição Da República Democrática de Timor‑Leste E Na Jurispru‑
dência Do Tribunal de Recurso’, Estudos de Homenagem Ao Prof. Doutor Jorge Miranda
III (2012): 110., segundo a qual “A fórmula inicial do artigo 16.º, n.º 1 — “todos os
cidadãos” — parece reservar a titularidade de direitos e deveres em condições de igual‑
dade para os membros da comunidade política, com exclusão dos estrangeiros e apá‑
(56)
(57)
Coimbra Editora ®
244
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
De referir o Acórdão de 11 de Agosto de 2014 do Tribunal de Recurso
sobre a fiscalização preventiva de constitucionalidade da Lei da Comunicação
Social. Neste Acórdão, o Tribunal de Recurso, no uso das competências do
Supremo Tribunal de Recurso, considerou que quando os direitos fundamen‑
tais sobre a liberdade dos meios de comunicação e o direito à propriedade
privada são aplicados “segundo o princípio da universalidade dos direitos fun‑
damentais, no art. 16.º da Constituição, não admitem esta discriminação de
estrangeiros [de limitação da propriedade por estrangeiros do capital social de
sociedade proprietárias de órgãos de comunicação social]” (60). A determinação
de que o princípio da universalidade se aplica aos estrangeiros parece represen‑
tar um distanciamento da posição jurisprudencial deste mesmo tribunal
em 2003 (61).
Há, assim, que articular o princípio da universalidade com o princípio da
equiparação entre nacionais e estrangeiros.
No entanto, outra pergunta se impõe e que é a de saber se o princípio da
universalidade, assim entendido, admite algumas excepções. A resposta, em
nosso entender é, sim, a aplicação do princípio da universalidade comporta
exceções ou desvios, ou seja, nem todos os direitos fundamentais se dirigem a
todas as pessoas, pelo contrário, há direitos fundamentais que são especifica‑
mente desenhados para certas pessoas ou grupos, como devidamente explicado
no Capítulo I. São exemplos destes casos os direitos fundamentais aplicáveis
às crianças (artigo 18.º), à juventude (artigo 19.º), à terceira idade (artigo 20.º),
ao cidadão portador de deficiência (artigo 21.º) ou, até mesmo, a “todo o
indivíduo privado de liberdade” (artigo 30.º‑3), ao “condenado” (artigo 32.º‑4)
e ao cidadão nacional (artigo 54.º‑4).
Ainda neste âmbito, urge tratar sobre um grupo específico, os estrangeiros.
Refira‑se que as constituições angolana, cabo verdiana, portuguesa e são‑tomense
tridas. Alguns direitos, porém, por serem inerentes à dignidade da pessoa humana
(como a vida, a integridade física, a liberdade), não podem deixar de ser reconhecidos
a todas as pessoas, independentemente da cidadania”.
(60)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 11 de Agosto de 2014 (Fiscalização Pre‑
ventiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/2014/TR, para.58 (2014).
(61)
Cfr. Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Abril de 2007 (Fiscalização
Abstrata Sucessiva de Constitucionalidade), publicado no Jornal da República Série I,
N. 11 de 18 de Maio de 2007 Proc n.º 03/CONST/03/TR (2007); Tribunal de
Recurso, Acórdão de 30 de Junho de 2003 (Fiscalização Preventiva de Constituciona‑
lidade), Proc.02/CONST/03 (Tribunal de Recurso 2003).
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
245
determinam expressamente no seu texto que o âmbito de aplicação dos direitos
fundamentais se estende aos cidadãos estrangeiros e apátridas, determinando
que estes gozam de todos os direitos, à exceção dos direitos políticos e dos
direitos relativos às funções públicas políticas (62). Quanto a esta questão de
saber quais os direitos fundamentais dos estrangeiros e apátridas, não se encon‑
tra uma norma com teor semelhante na Constituição de Timor‑Leste.
Vale a pena referir que, na Constituição timorense, o uso dos termos
“cidadãos”, “cidadãos timorenses” e “cidadãos nacionais” enquanto titulares de
direitos fundamentais e deveres, parece revelar inconsistência em algumas das
suas normas. Encontra‑se algumas disparidades explícitas no texto, como é o
caso do artigo 16.º sob análise, o qual determina no seu número 2 que “nin‑
guém pode ser discriminado (…)”, enquanto identifica os “cidadãos” como
titulares da garantia de igualdade perante a lei no seu número 1 (63).
Assim, para identificar o âmbito do artigo 16.º da Constituição e a sua
aplicabilidade aos estrangeiros é preciso recorrer aos princípios da interpretação
constitucional. Considerando o princípio da máxima efetividade e da concor‑
dância prática das normas constitucionais (64), conjuntamente com a necessidade
de se garantir uma interpretação consonante com a DUDH, a qual prevê a
garantia de igualdade a todos os indivíduos (65), considera‑se que o princípio
(62)
Artigo 25.º da Constituição angolana, artigo 25.º da Constituição cabo‑ver‑
diana, artigo 15.º da Constituição portuguesa e o artigo 17.º da Constituição
são‑tomense.
(63)
H. Charlesworth debruçou‑se sobre esta questão no seu artigo Charlesworth,
‘The Constitution of East Timor, May 20, 2002’, 331., segundo o qual: “Apesar de
muitas constituições nacionais limitarem certos direitos de aplicação aos não cidadãos,
a base para a distinção [da titularidade dos direitos fundamentais aos não cidadãos]
não é clara em muitos casos. É declarado que os cidadãos são iguais perante a lei, mas
todas as pessoas são protegidas contra fatores específicos de discriminação” (tradução
livre das autoras) “[A]lthough many national constitutions limit the rights applicable
to noncitizens, the basis for the distinction in the East Timorese Constitution is unclear
in many cases. Citizens are declared equal before the law, but all persons are protected
against specified grounds of discrimination”.
(64)
Vide Capítulo II, 3.2 Princípios da Interpretação Constitucional.
(65)
O artigo 2.º da DUDH prevê que “[t]odos os seres humanos podem invo‑
car os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção
alguma, (…).” Ainda, o artigo 7.º determina que “[t]odos são iguais perante a lei e,
sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual
Coimbra Editora ®
246
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
da igualdade e a proibição da discriminação são ambos garantias de todos os
indivíduos que se encontram no território timorense, independentemente de
serem cidadãos nacionais ou estrangeiros.
Refira‑se que a titularidade universal dos direitos fundamentais estende‑se
a todos os direitos, incluindo não só os direitos, liberdades e garantias, mas,
também, os direitos económicos, sociais e culturais. Este entendimento, que
tem por base a universalidade como prevista na DUDH, encontra‑se expresso
no PIDESC, ainda que com constrições, como determina o seu artigo 2.º‑3,
segundo o qual “[o]s países em vias de desenvolvimento, tendo em devida
conta os direitos do homem e a respectiva economia nacional, podem deter‑
minar em que medida garantirão os direitos económicos no presente Pacto
a não nacionais”. Por força deste preceito, ao qual se encontra vinculado o
ordenamento jurídico de Timor‑Leste, todos possuem a titularidade dos
direitos económicos, sociais e culturais, embora o seu exercício possa vir a
ser restringido, quando aplicável a estrangeiros ou apátridas, como será no
caso do direito ao trabalho e do direito à propriedade privada da terra.
Considera‑se que não fere o princípio da universalidade que alguns direi‑
tos tenham como titulares apenas os cidadãos timorenses, como nos casos do
direito de sufrágio e do direito à elegibilidade para candidato a Presidente da
República (artigo 75.º). O mesmo se diga em relação a alguns direitos que
apenas têm como titulares os cidadãos estrangeiros ou apátridas, como se veri‑
fica com o direito de asilo (artigo 10.º, n.º 2), caso em que se considera que
também não há violação do princípio da universalidade.
Uma outra questão é a de saber se a constituição timorense admite a
titularidade de direitos fundamentais a pessoas coletivas. A Constituição é
omissa quanto a esta matéria, ao contrário da constituição portuguesa que, no
seu artigo 12.º‑2, admite expressamente essa titularidade, desde que os direitos
e deveres em causa sejam compatíveis com a natureza de pessoa colectiva. Por
sua vez, a constituição angolana também é omissa quanto a este assunto, mas
Jónatas Machado e Paulo Costa tendem a aceitar essa titularidade, recorrendo
a um exercício interpretativo, designadamente, a articulação do princípio da
igualdade com outros artigos dispersos na constituição angolana e invocando,
por exemplo, o facto de que as pessoas humanas, no decurso da realização da
sua dignidade humana, constituem pessoas coletivas com o objetivo de reali‑
contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer
incitamento a tal discriminação.”
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
247
zarem objetivos de índole “política, económica, social e cultural” (66). Outro
argumento prende‑se com o facto de que, “em muitos casos, o exercício dos
direitos, liberdades e garantias só faz sentido e adquire relevo social mediante
esquemas coletivos de cooperação” (67). Um exemplo destes direitos com uma
natureza intrínseca coletiva é o próprio exercício da liberdade sindical, previsto
no artigo 52.º, e que pressupõe a existência de sindicatos e associações que
deverão ter determinadas liberdades constitucionalmente constituídas, nome‑
adamente, a liberdade de associação.
3. Direitos, Deveres, Liberdades e Garantias Funda‑
mentais na Constituição
Neste ponto da análise, examinamos, de forma sistemática, a Parte II da
Constituição, cuja epígrafe é “direitos, deveres, liberdades e garantias funda‑
mentais”. Nesta parte, o legislador constituinte começou por estabelecer alguns
princípios gerais, inscritos no Título I, e que nos parece serem comuns, onde
aplicável, aos direitos, liberdades e garantias, bem como aos direitos económi‑
cos, sociais e culturais. No elenco da Constituição de 2002, encontramos um
número bastante significativo de direitos fundamentais, em harmonia com os
direitos humanos reconhecidos internacionalmente, desde logo, no Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional de Direitos
Económicos, Sociais e Culturais, ambos de 1966. A Constituição estipula dois
grupos, estruturalmente separados, sendo um deles o grupo dos direitos, liber‑
dades e garantias pessoais, tradicionalmente associados aos supra mencionados
direitos civis e políticos, que encontraremos no Título II. Por seu turno, encon‑
tramos o outro grupo, o dos direitos económicos, sociais e culturais previstos
no Título III.
Cremos que esta divisão sistemática corresponde à classificação tradicional
em dois grandes grupos de direitos, os civis e políticos e os económicos, sociais
e culturais, que encontramos no direito internacional dos direitos humanos,
fruto de um concreto momento histórico. Ao analisarmos o direito constitu‑
cional comparado, veremos que a vasta maioria das Constituições dos países
da CPLP contem uma autonomização dos direitos económicos, sociais e cul‑
Machado e Costa, Direito Constitucional Angolano, 2011, 158.
Ibid.
(66)
(67)
Coimbra Editora ®
248
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
turais. Já a Constituição da Guiné‑Bissau não identifica uma secção autónoma
para este grupo de direitos, preferindo listar conjuntamente os vários direitos
fundamentais sem os agrupar. Poderemos ir já adiantando que, para além dos
direitos fundamentais indicados nesta Parte II, também encontraremos outros
direitos fundamentais que se localizam em outras partes do texto fundamental
— os direitos fundamentais dispersos — bem como direitos fundamentais que
nem sequer se encontram na constituição, mas, que são igualmente considera‑
dos direitos fundamentais — direitos só materialmente fundamentais.
3.1. Princípios Gerais dos Direitos Fundamentais
A parte da Constituição timorense que é dedicada especificamente aos
direitos fundamentais começa com um elenco de princípios que entendemos
serem aplicáveis tanto aos direitos, liberdades e garantias, como aos direitos
económicos, sociais e culturais, assunto este já abordado supra. Segundo Gomes
Canotilho, “os princípios são normas que exigem a realização de algo, da melhor
forma possível, de acordo com as possibilidades fácticas e jurídicas”. Ou seja,
frequentemente, necessitamos dos princípios, quer em sede de interpretação,
quer em sede de concretização da norma constitucional, como linhas de orien‑
tação que sempre terão como objetivo encontrarmos a melhor solução possível
dentro do contexto nacional no qual operam. Segundo a doutrina, “os princí‑
pios não proíbem, permitem ou exigem algo em termos de ‘tudo ou nada’;
impõem a otimização de um direito ou de um bem jurídico, tendo em conta
a “reserva do possível”, fáctica ou jurídica”.
Os princípios gerais encontram‑se entre o artigo 16.º e o 28.º O artigo 16.º
versa sobre os princípios da universalidade e da igualdade. O princípio da
universalidade foi já objeto de análise supra, a propósito da titularidade dos
direitos fundamentais. O princípio da igualdade será analisado no Capítulo V.
O legislador constituinte optou por incluir na lei fundamental um reforço
específico no que respeita à igualdade entre mulheres e homens. Assim, é
determinado, no artigo 17.º, que as mulheres detêm os mesmos direitos que
os homens em todos os domínios da vida: familiar, cultural, social, económica
e política. Existem também disposições semelhantes em algumas das constitui‑
ções dos países da CPLP, designadamente, nas Constituições angolana
(artigo 35.º‑3) e moçambicana (artigo 36.º). É interessante referir que, ao
comparar as normas das três constituições, se encontram algumas peculiarida‑
des no texto da Constituição timorense, como o facto de mencionar a “mulher”
antes do “homem” e conter uma listagem de âmbitos mais alargada que as suas
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
249
homólogas, incluindo especificamente o ambiente familiar. A inclusão desta
norma como um dos princípios dos direitos fundamentais, conjuntamente com
o objetivo do Estado de garantir a efetiva igualdade de oportunidades entre a
mulher e o homem (artigo 6.º/j), são evidência de uma preocupação específica
do legislador constituinte em relação à proteção e promoção da igualdade de
género em Timor‑Leste.
Outros princípios que denotam um teor de singularidade da Constitui‑
ção timorense é a localização dos artigos 18.º a 21.º, os quais conferem um
princípio de proteção especial a determinados grupos, como sejam a criança,
a juventude, a terceira idade e portadores de deficiência. A localização deste
conjunto de artigos numa secção dedicada aos princípios é, de resto, uma
originalidade que reflete a importância atribuída a estas matérias pelo legis‑
lador constituinte. O artigo 18.º confere à criança uma proteção particular‑
mente lata, assistindo‑se a uma maior abertura da Constituição, nesta maté‑
ria, aos direitos só materialmente fundamentais, assunto a que voltaremos
abaixo.
O artigo 22.º debruça‑se sobre a proteção que o estado Timorense confere
aos seus cidadãos que se encontrem ou residam no estrangeiro. Especialmente
tendo em consideração a realidade timorense que comporta uma diáspora
significativa resultante da sua História, entende‑se a preocupação que o legis‑
lador constituinte teve — à semelhança do que fez o cabo‑verdiano, o
são‑tomense, o angolano e o português — de elaborar uma norma que possa
orientar, ainda que de forma algo vaga, o desafio de assegurar a proteção dos
direitos dos cidadãos timorenses que não se encontrem dentro da jurisdição
territorial do Estado timorense.
O artigo 23.º mostra‑se de especial relevo, pois, apesar de a sua epígrafe
indicar “interpretação dos direitos fundamentais”, o alcance desse artigo é, na
verdade, duplo, já que se debruça sobre o âmbito daqueles direitos e, na segunda
parte do texto, fornece‑nos pistas sobre a forma como aqueles direitos devem
ser interpretados. É algo a que voltaremos infra, ainda neste Capítulo.
Os princípios relativos à restrição e suspensão dos direitos fundamentais
são incorporados nos artigos 24.º e 25.º, respetivamente. Dada a importância
destes princípios no âmbito da aplicação dos direitos fundamentais, dedica‑
mos‑lhes uma atenção específica no Capítulo IV.
Uma outra norma essencial para a proteção dos direitos fundamentais é
o acesso aos tribunais previsto no artigo 26.º, questão amplamente analisada
no Capítulo VI, a propósito da tutela jurisdicional efetiva dos direitos funda‑
mentais, para onde remetemos o leitor.
Coimbra Editora ®
250
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O artigo 27.º versa sobre o Provedor de Direitos Humanos e Justiça que
cumpre um papel primordial no âmbito da tutela não jurisdicional dos direitos
fundamentais. É interessante a localização desta norma que se encontra sob a
epígrafe “princípios gerais” do Título I e junto de outras normas que consagram
princípios. A propósito de localização semelhante da norma constitucional por‑
tuguesa que estabelece o Provedor de Justiça (artigo 23.º), Gomes Canotilho e
Vital Moreira ressaltam que “a inserção constitucional do Provedor de Justiça na
parte geral dos direitos fundamentais mostra claramente que ele é essencialmente
um órgão de garantia dos direitos fundamentais (de todos e não apenas dos
direitos, liberdades e garantias) perante os poderes públicos, em geral, e perante
a Administração, em especial” (68). Ressalta‑se que, nas Constituição angolana e
moçambicana, as normas relativas ao Provedor de Justiça encontram‑se sistema‑
ticamente junto de outras instituições e atores relacionados com a justiça ou com
a administração pública. O instituto de Provedor de Direitos Humanos e Justiça
é inspirado no conceito escandinavo de Ombudsman. Assim, segundo o artigo 27.º
da CRDTL, o Provedor é “um órgão independente que tem por função apreciar
e procurar satisfazer as queixas dos cidadãos contra os poderes públicos”. De
assinalar que, de entre os institutos semelhantes nos países da CPLP, Timor‑Leste
é o único que usa o termo “direitos humanos” no seu título. Tal constitui uma
originalidade que parece ser fruto da forte influência do direito internacional dos
direitos humanos em Timor‑Leste, o que se compreende em virtude do seu papel
essencial na restauração da independência. Observa‑se que o n.º 2 deste artigo
refere que “os cidadãos podem apresentar queixas por ações ou omissões dos
poderes públicos ao Provedor…”. Este acesso, que é uma modalidade do direito
geral de petição consagrado no artigo 48.º da Constituição, usa a expressão “os
cidadãos”, o que poderia levar‑nos a equacionar a questão de saber se a titularidade
deste direito de queixa se confina aos cidadãos timorenses ou se está disponível
para todas as pessoas? A propósito de redação semelhante na Constituição por‑
tuguesa, Gomes Canotilho e Vital Moreira defendem que “têm direito de queixa
perante o Provedor de Justiça os cidadãos (mas também cidadãos estrangeiros) (69)
…”. Entende‑se que o legislador ordinário partilha da mesma posição, já que o
Estatuto do Provedor de Direitos Humanos e Justiça amplia claramente o acesso
a este instituto a todos, individual ou coletivamente.
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (art. 1.º a 107.º): 440.
(69)
Ibid.: 441.
(68)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
251
Por fim, temos o artigo 28.º como um verdadeiro mecanismo de autotu‑
tela, ao abordar o direito de resistência e de legítima defesa. Face a outras
constituições dos países da CPLP, este artigo 28.º apresenta a originalidade de,
na sua epígrafe, incluir o conceito de legítima defesa, para além do direito de
resistência, e de lhe dedicar um número autónomo, neste caso, o n.º 2 do
artigo. O direito à resistência possui duas dimensões de acentuado relevo, uma
passiva expressa no texto “direito de não acatar”, e a outra, ativa, expressa no
direito de “resistir às ordens ilegais ou que ofendam os seus direitos, liberdades
e garantias fundamentais”. Vale a pena assinalar que este princípio representa
um instrumento de último recurso para assegurar a legalidade e a constitucio‑
nalidade das ações dos poderes públicos.
3.2 Catálogo dos Direitos Fundamentais
Nesta secção, analisamos o amplo catálogo de direitos fundamentais
expressamente previstos na Constituição de Timor‑Leste e repartidos pelo
Título II sobre direitos, liberdades e garantias pessoais e o Título III sobre os
direitos e deveres económicos, sociais e culturais. Como já tivemos oportunidade
de referir, a sistematização prevista na CRDTL corresponde à classificação
clássica dos direitos humanos no Pacto Internacional de Direitos Civis e Polí‑
ticos e no Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
Apesar das tentativas de alguma doutrina no sentido de obter uma cate‑
gorização de todos os direitos fundamentais, a verdade é que essa categorização
não é hermética, sendo que existem características habitualmente atribuídas
aos direitos, liberdades e garantias que, por vezes, também o são dos direitos
económicos, sociais e culturais e vice‑versa. Por exemplo, é frequentemente
atribuída aos direitos, liberdades e garantias a ideia de que representam para o
Estado obrigações negativas, ou seja, o Estado deverá abster‑se de interferir no
seu gozo e exercício. Mas, se por exemplo, observarmos o direito de sufrágio,
tradicionalmente inserido na categoria dos direitos, liberdades e garantias,
facilmente compreenderemos que o seu exercício não será possível sem a exe‑
cução de obrigações positivas por parte do Estado, nomeadamente, manter o
registo eleitoral, aprovar uma lei eleitoral, providenciar boletins e mesas de
voto, destacar funcionários para todas essas tarefas, entre outras, que compre‑
endem todo o processo eleitoral.
Outro critério de distinção que, por vezes, se oferece é o de atribuir aos
direitos, liberdades e garantias uma nobreza política e jurídica superior, o que
não deixa de ser um argumento falacioso, pois, em bom rigor, de pouco servirá
Coimbra Editora ®
252
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
que se tenham garantidas todas as liberdades, se necessidades tão básicas do ser
humano, como o direito à alimentação, à saúde e a água potável, não estiverem
minimamente supridas. Nesta tentativa de identificação de diferenças e seme‑
lhanças entre estes diferentes grupos de direitos fundamentais, surgem, por
vezes, questões como: o que será mais importante, assegurar o direito de pro‑
teção de dados pessoais, catalogado como um direito, liberdade e garantia, ou
o direito à habitação, inserido nos direitos económicos, sociais e culturais?
Na verdade, este tipo de questões contraria uma das principais caraterís‑
ticas dos direitos fundamentais, a interdependência de todos os direitos huma‑
nos e fundamentais. Daí que, atualmente, até se defenda o não agrupamento
dos direitos fundamentais, como faz a Constituição guineense, ou, ainda,
quando os direitos fundamentais são enunciados, deveriam sê‑lo por ordem
alfabética, ou seja, direitos civis, culturais, económicos, políticos e sociais (70).
Neste sentido, Gomes Canotilho referindo‑se aos direitos económicos, sociais
e culturais, afirma que “não se trata de uma classificação contraposta à dos
direitos, liberdades e garantias”.
Note‑se que, segundo Gomes Canotilho, são direitos fundamentais formal‑
mente constitucionais os “direitos consagrados e reconhecidos pela constitui‑
ção” (71), que são “enunciados e protegidos por normas com valor constitucio‑
nal formal” (72). Os direitos fundamentais formalmente constitucionais são
constituídos por aqueles direitos fundamentais que estão previstos dentro do
catálogo e pelos direitos fundamentais fora do catálogo, ou seja, direitos funda‑
mentais dispersos na Constituição. Os primeiros vimos aqui e os segundos
abordamos infra.
Por outro lado, será também importante referir que os direitos fundamen‑
tais não representam um compartimento estanque no seio da Constituição,
pelo contrário, eles articulam‑se com muitas das disposições que encontramos
ao longo do texto constitucional.
3.2.1 Direitos, Liberdades e Garantias Pessoais
A Constituição apresenta, no seu Título II, um catálogo de direitos, liber‑
dades e garantias na senda do direito internacional dos direitos humanos e de
Cfr., por exemplo, Per Sevastik, ed., Legal Assistance to Developing Countries:
Swedish Perspectives on the Rule of Law, 1a edição (Kluwer Law International, 1997), 93.
(71)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 403.
(72)
Ibid.
(70)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
253
outras constituições que lhe são próximas, designadamente, as dos países de
língua oficial portuguesa. A consagração constitucional de direitos, liberdades
e garantias pessoais está, desde logo, associada a conceções políticas, filosóficas
e jurídicas respeitadoras da dignidade da pessoa humana.
A Constituição timorense não procede a uma elencagem que respeite a
ordem enumerada na epígrafe. Assim, encontraremos direitos, liberdades e
garantias dispostos de forma aleatória e não obedecendo à sequência “direitos”,
depois, “liberdades” e, por fim, “garantias”. Ora, não oferecendo a constituição
uma definição desses conceitos, nem os alinhando de forma sequencial, terá
de ser o intérprete ou o aplicador a encontrar quais das disposições se referem
a direitos, a liberdades ou a garantias. Uma melhor compreensão destes con‑
ceitos e a identificação dos direitos fundamentais relevantes representam um
processo de apoio à construção do âmbito de proteção, e por tal razão, justi‑
fica‑se abordar esta questão.
Segundo Gomes Canotilho e Vital Moreira, “a distinção entre direitos e
liberdades faz‑se tradicionalmente com base na posição jurídica do cidadão em
relação ao Estado”. Assim sendo, as liberdades estariam primariamente relacio‑
nadas com uma vertente negativa segundo a qual, as liberdades visam “defender
a esfera jurídica dos cidadãos perante a intervenção ou agressão dos poderes
públicos”. Daí que também sejam apelidadas na doutrina de “direitos de liber‑
dade”, “liberdades‑autonomia”, “liberdades‑resistência”, “direitos negativos”,
“direitos civis”, “liberdades individuais”. Com base nesta conceptualização,
podemos afirmar que no Título II da CRDTL, muitas são as liberdades presen‑
tes, nomea­damente, o direito à vida (artigo 29.º), direito à liberdade, segurança
e integridade pessoal (artigo 30.º), direito à honra e à privacidade (artigo 36.º),
direito à inviolabilidade do domicílio e da correspondência (artigo 37.º), liber‑
dade de expressão e informação (artigo 40.º), liberdade de imprensa e dos meios
de comunicação social (artigo 41.º), liberdade de reunião e de manifestação
(artigo 42.º), liberdade de associação (artigo 43.º), liberdade de circulação
(artigo 44.º), liberdade de consciên­cia, de religião e de culto (artigo 45.º).
As garantias são os mecanismos que asseguram a fruição dos bens jurídi‑
cos protegidos pelos direitos. No título II, poderemos encontrar, por exemplo,
as seguintes garantias: a exigência de que a detenção ou a prisão só podem
ocorrer nos “termos expressamente previstos na lei” e dependem de “apreciação
do juiz competente no prazo legal” (artigo 30.º‑2), o respeito pelos princípios
do nullum crimen sine lege (artigo 31.º‑1) e do nulla poena sine crimen
(artigo 31.º‑2), a ausência de pena de morte (artigo 29.º) e de prisão perpétua
(artigo 32.º‑1), a insusceptibilidade de transmissão da responsabilidade penal
Coimbra Editora ®
254
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
(artigo 32.º‑3), o direito de recorrer ao habeas corpus (artigo 33.º), as garantias
de processo criminal (artigo 34.º).
Apesar dos esforços da doutrina na tentativa de enquadrar as várias dis‑
posições em categorias teóricas, é válido observar que “a distinção entre cada
uma das categorias que compõem a trilogia dos ‘direitos, liberdades e garantias’
é, para além de pouco precisa, verdadeiramente irrelevante, visto que, qualquer
que seja a categoria a que pertençam, todos os direitos fundamentais que a
integram gozam do mesmo regime jurídico”.
(i) Os Direitos, Liberdades e Garantias na CRDTL
Neste ponto, faremos uma apresentação concisa dos direitos, liberdades e
garantias consagrados na Constituição, pela ordem por esta adotada.
O primeiro artigo deste Título II, o artigo 29.º, é dedicado ao direito à
vida, localização esta que se compreende dado que da sua proteção deriva o
gozo de todos os outros direitos. Esta é uma norma que encontra eco nos
principais instrumentos de direito internacional, desde logo, no artigo 3.º da
DUDH, no artigo 6.º da Convenção sobre os Direitos da Criança e no
artigo 6.º do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos.
O artigo 30.º protege a liberdade, a segurança e a integridade pessoal,
ideias que poderemos encontrar nos artigos 1.º, 3.º, 5.º e 9.º da DUDH, nos
artigos 7.º e 9.º do PIDCP, bem como em vários direitos relevantes no âmbito
da proibição da tortura e maus tratos presentes na Convenção contra a Tortura.
O direito internacional dos direitos humanos possui uma variedade de normas
bastante mais densas do que a norma prevista na CRDTL. Este artigo 30.º
integra uma configuração singular se comparado com outras constituições, pois
engloba num artigo único vários direitos claramente distintos. Não se encontra
epígrafe e conteúdo idênticos em outras Constituições de países de língua
oficial portuguesa, que revelam uma tendência para dispersar estes vários direi‑
tos por diferentes artigos. O artigo 33.º consagra um importante direito, o
habeas corpus, que é o direito a recuperar a sua liberdade e que assiste a “toda
a pessoa ilegalmente privada da liberdade”. Este artigo representa uma garantia
importante para dar resposta atempada a violações do direito à liberdade.
Os artigos 31.º, 32.º e 34.º versam sobre direitos fundamentais direta‑
mente relacionados com o direito penal. O artigo 31.º debruça‑se sobre a
aplicação da lei criminal, podendo encontrar as suas raízes, por exemplo, nos
artigos 10.º e 11.º da DUDH e nos artigos 14.º e 15.º do PIDCP. O artigo 32.º
refere‑se aos limites das penas e medidas de segurança, determinando claramente
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
255
limites para o legislador da lei penal, e ainda estabelecendo um princípio básico,
mas de essencial importância, em sede de execução das penas, que obriga à
manutenção da titularidade de todos os direitos fundamentais pelos condena‑
dos privados da liberdade, “salvas as limitações inerentes ao sentido da conde‑
nação e às exigências próprias da respetiva execução” (artigo 32.º‑4). O art. 34.º
estabelece importantes garantias de processo criminal.
Já o artigo 35.º da CRDTL prevê garantias quando está em causa a per‑
manência no território de Timor‑Leste, no âmbito da extradição e da expulsão.
Curiosamente, a Constituição timorense refere‑se ao direito de asilo, não como
um direito fundamental no âmbito dos “direitos, liberdades e garantias”, como
o fazem o ordenamento constitucional português, são‑tomense e angolano, mas
inserido nos princípios fundamentais da CRDTL no artigo 10.º relativo à
solidariedade.
Os artigos 36.º a 38.º referem‑se, respetivamente, ao direito à honra e à
privacidade, à inviolabilidade do domicílio e da correspondência e à proteção
de dados pessoais, no que parece ser um conjunto de artigos protetores de uma
certa reserva privada da pessoa.
O artigo 39.º versa sobre a família, o casamento e a maternidade, sendo
que, para além de invocar as responsabilidades do Estado, também parece querer
estabelecer princípios aos indivíduos nas relações entre si (números 2 e 3), sendo
de referir a relação entre os cônjuges, exemplo claro de uma expressa eficácia
horizontal, assunto abordado infra. Estes direitos previstos na CRDTL demons‑
tram a verdadeira relevância da igualdade efetiva entre mulheres e homens,
regulada de forma mais específica em várias normas convencionais na CEDAW.
Os artigos 40.º a 45.º da lei fundamental timorense consagram uma
sequência de liberdades, sendo que o artigo 40.º se dedica à liberdade de
expressão e informação, o artigo 41.º debruça‑se sobre a liberdade de imprensa
e dos meios de comunicação social, o artigo 42.º versa sobre a liberdade de
reunião e manifestação, o artigo 43.º prevê a liberdade de associação, o
artigo 44.º refere‑se à liberdade de circulação e, por fim, o artigo 45.º estipula
sobre a liberdade de consciência, de religião e de culto. Todas estas liberdades
se encontram previstas no direito internacional dos direitos humanos, desig‑
nadamente, na DUDH e no PIDCP.
Os artigos 46.º e 47.º referem‑se, respetivamente, ao direito de participa‑
ção política e ao direito de sufrágio, reconhecendo às pessoas o direito de
participarem e intervirem politicamente na comunidade política em que se
inserem. Quanto ao direito de sufrágio, a constituição define‑o, até, como um
“dever cívico”.
Coimbra Editora ®
256
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O direito de petição, previsto no artigo 48.º, representa uma espécie de
recurso que o cidadão tem, na sua relação com o Estado, para defesa “dos seus
direitos, da Constituição, das leis ou do interesse geral” através de um meca‑
nismo não jurisdicional e não contraditório. Da sua leitura decorre que o seu
âmbito é bastante lato, o que aumenta o nível de proteção concedido.
Por fim, o artigo 49.º consagra a defesa de soberania que encontra o
mesmo conceito noutras constituições, se bem que localizado e estruturado de
forma diferente. É o caso do artigo 46.º‑1 da Constituição moçambicana, do
artigo 19.º da Constituição de São Tomé e Príncipe e do artigo 85.º/b da
Constituição cabo‑verdiana.
(ii) Âmbito de Proteção, Obrigações do Estado e Concretização
Neste ponto, tentaremos, de forma prática, estabelecer a ligação entre o
texto de uma norma constitucional, a definição do seu âmbito de proteção e
a sua concretização, nomeadamente, através das obrigações que impendem
sobre o Estado.
A propósito dos direitos, liberdades e garantias, Gomes Canotilho e Vital
Moreira referem que são, em geral, “direitos negativos”, ou seja, são direitos que
têm uma natureza negativa o que significa que, relativamente ao Estado, “impli‑
cam um direito à abstenção de proibições ou limitações” (73). Há aqui uma obri‑
gação negativa, ou seja, o Estado tem a obrigação de não interferir com o gozo
daquele direito, liberdade ou garantia. Porém, no que respeita ao Estado, estes
direitos que possuem uma dimensão principal negativa não implicam que sobre
o Estado impenda apenas uma “atitude de indiferença ou passividade” (74), pois,
na verdade, os direitos, liberdades e garantias também trazem obrigações positi‑
vas para o Estado. Nesta medida, o Estado tem a obrigação ou o dever de asse‑
gurar que cada pessoa possa fruir do exercício dos seus direitos, liberdades e
garantias sem a ingerência de terceiros, nomeadamente, através de uma interven‑
ção legislativa e, em alguns casos, de medidas executivas e administrativas que
criem as condições favoráveis à implementação do direito.
Assim, o ponto de partida para esta análise assenta no reconhecimento de
que os direitos, liberdades e garantias implicam não só uma prestação negativa
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (art. 1.º a 107.º): 377.
(74)
Ibid.
(73)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
257
do Estado, isto é, um dever de se abster, de não interferir no gozo do direito
pela pessoa, mas, também implicam prestações positivas que obrigam a que o
Estado intervenha de modo a que seja garantido o gozo do direito pela pessoa.
De forma a melhor se compreender a aplicação prática do explicado supra,
vejamos o seguinte exemplo respeitante ao direito à vida consagrado no
artigo 29.º da Constituição. Na análise do seu âmbito de proteção, importa
responder a duas questões principais: qual o bem jurídico que a norma protege
e qual a extensão em que o faz?
Em primeiro lugar, o que se protege, nesta norma, é o bem jurídico “vida”.
Quais as obrigações que daqui decorrem para o Estado? Há uma obrigação
negativa que é a de que se a Constituição afirma no seu artigo 29.º‑1 que a
“vida humana é inviolável”, então o Estado tem a obrigação de não atentar
contra a vida das pessoas sob a sua jurisdição o que significa que, por exemplo,
as suas forças de segurança ficam assim proibidas de retirar a vida a quem quer
que seja, de forma arbitrária. Por outro lado, o n.º 2 deste mesmo artigo refere
expressamente que o Estado “garante o direito à vida”, de onde se depreende
que, sobre o Estado, impende algo mais do que “não matar”. O Estado, ao ter
a obrigação de garantir o direito à vida, tem de tomar medidas para o fazer,
desde logo, medidas em matéria penal que criminalizem as condutas atentató‑
rias do direito à vida.
Mas, para além desta tarefa de legislar criminalmente, entende o Comité
de Direitos Humanos do PIDCP que sobre o Estado recaem outras tarefas,
nomeadamente, as de evitar os desaparecimentos de pessoas, bem como inter‑
vir socialmente, no sentido de reduzir a mortalidade infantil e aumentar a
esperança de vida, nomeadamente, através de medidas de combate às epidemias
e à má‑nutrição (75). No exercício de densificação da norma, este Comité vem,
portanto, sufragar uma interpretação lata deste artigo, o primeiro dos direitos,
liberdades e garantias, fazendo uma ligação teórica e prática com a categoria
dos direitos económicos e sociais, nomeadamente, o direito à saúde e o direito
à alimentação. Esta interpretação reveste ainda maior importância ao verificar‑
mos que o direito à alimentação, inclusivamente, o direito de estar ao abrigo
da fome, não se encontra expressamente previsto na Constituição timorense.
Desta breve análise, podemos avançar com várias observações, designada‑
mente: 1) a divisão entre direitos, liberdades e garantias e direitos económicos,
Cfr. Comité dos Direitos Civis e Políticos, Comentário Geral N.º 6: Artigo 6.º
(Direito À Vida), Décima Sexta Sessão, 1982, para. 5.
(75)
Coimbra Editora ®
258
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
sociais e culturais não é estanque, isto é, por vezes, como vimos, para que um
tipo de direitos se concretize, poderá ser necessário socorrermo‑nos de outro
tipo de direitos inserido sistematicamente noutro grupo, refletindo, na prática,
a interdependência dos direitos fundamentais; 2) a definição do âmbito de
proteção da norma implica, desde logo, identificar qual o bem jurídico cuja
proteção está em causa, bem como a extensão dessa proteção; 3) para tal, poderá
ser preciso recorrer também a outras fontes de Direito, nomeadamente, o direito
internacional e legislação ordinária dispersa pelo ordenamento jurídico; e 4) a
concretização de um mesmo direito pode implicar para o Estado, tanto pres‑
tações negativas, como positivas.
3.2.2 Direitos Económicos, Sociais e Culturais
Como já mencionado, a CRDTL prevê um conjunto de direitos econó‑
micos, sociais e culturais. Esta categoria de direitos é, por vezes, referida abre‑
viadamente por “direitos sociais” (num sentido mais amplo) (76), expressão que
também utilizaremos.
Segundo a doutrina, as normas constitucionais que respeitam aos direitos
sociais são “aquelas que, na sua dimensão objectiva principal, impõem ao Estado
deveres de garantia aos particulares de bens económicos, sociais ou culturais
fundamentais a que só se acede mediante contraprestação financeira não negli‑
genciável” (77). Os direitos sociais são também referidos como sendo normas
programáticas, pois estas “têm de ser seguidas não só de lei como de modifica‑
ções económicas, sociais, administrativas ou outras” (78). De tal modo, que a
efetividade integral dos direitos sociais se dá principalmente através da imple‑
mentação de ações positivas (dimensão positiva), sendo, portanto, estes direitos
sociais também conhecidos como “direitos positivos”.
Porém, também é certo que, apesar de tradicionalmente lhes ser atribuída
esta característica de “direitos positivos”, isto é, direitos “a prestações ou ativi‑
O próprio texto da Constituição brasileira tem sob a epígrafe “Direitos
Sociais” a maior parte dos direitos económicos, sociais e culturais.
(77)
Jorge Reis Novais, Direitos Sociais: Teoria Jurídica Dos Direitos Sociais
Enquanto Direitos Fundamentais, 1.ª ed (Coimbra: Wolters Kluwer®: Coimbra Editora,
2010), 41‑42.
(78)
Jorge Miranda, Manual de Direito Constitucional, 3.ª Edição, Tomo IV
(Coimbra: Coimbra Editora, 2000), 113.
(76)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
259
dades do Estado” (79), estes direitos também comportam uma dimensão negativa.
Um exemplo ilustrativo da dimensão negativa dos direitos sociais é o direito à
propriedade privada previsto no artigo 54.º da CRDTL, o qual também implica
que o Estado se abstenha de interferir arbitrariamente nesse direito, admitindo,
no entanto, as exceções da requisição e da expropriação. Ou, ainda, o exemplo
do direito à saúde previsto no artigo 57.º, pois também incorpora uma dimen‑
são negativa que é a de assegurar que o Estado não interfira arbitrariamente na
saúde das pessoas, nomeadamente, abstraindo‑se de ações poluidoras do
ambiente (80). Assim, os direitos sociais trazem consigo deveres de ação e de
abstenção (81).
É particularmente elucidativa a explicação de Reis Novais a propósito das
normas constitucionais consagradoras dos direitos sociais: “…uma vez que
respeitam a bens de que as nossas sociedades não dispõem em abundância, mas
que são indispensáveis ao bem‑estar e a uma vida digna, tais normas impõem
ao Estado, não apenas o dever de respeitar e proteger o acesso a tais bens que
os particulares alcançam através de meios próprios, não apenas a garantia geral
e abstracta de acesso a esses bens por parte de todos os indivíduos, como acon‑
tece com todos os direitos fundamentais, mas também a realização de prestações
fácticas destinadas a promover o acesso a esses bens económicos, sociais ou
culturais a quem não dispõe de recursos próprios para o alcançar” (82).
Dito isto, refira‑se que uma parte considerável dos direitos sociais previs‑
tos na Constituição de Timor‑Leste apresenta uma estrutura comum, que prevê
expressamente a dimensão eminentemente positiva, ou seja, começam por 1)
apresentar o conteúdo do direito e, depois, 2) enunciam as principais obrigações
que impendem sobre o Estado. Podemos encontrar esta estrutura, por exemplo,
no direito ao trabalho (artigo 50.º), no direito à segurança e assistência social
(artigo 56.º), no direito à educação (artigo 59.º) e, ainda, no artigo 61.º rela‑
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º): 314.
(80)
Cfr. Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Comentário
Geral N.º 14: Artigo 12.º (Direito Ao Melhor Estado de Saúde Possível a Atingir),
Vigésima Segunda Sessão, 2000 (Publicado em Compilação de Instrumentos Inter‑
nacional de Direitos Humanos, Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça, Agosto
2000), para. 34.
(81)
Para uma explicação sobre as dimensões dos direitos económicos, sociais e
culturais, ver, Novais, Direitos Sociais, 123‑ss.
(82)
Ibid., 42.
(79)
Coimbra Editora ®
260
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
tivo ao meio ambiente. Entende‑se que esta estrutura normativa tem a vanta‑
gem de determinar inequivocamente ações positivas dos poderes públicos
timorenses como verdadeiras obrigações constitucionais. Nas palavras de Gomes
Canotilho, a propósito do caso português, “sob o ponto de vista jurídico, a
introdução de direitos sociais nas vestes de programas constitucionais, teria tam‑
bém algum relevo. Por um lado, através das normas programáticas pode obter‑se
o fundamento constitucional da regulamentação das prestações sociais e, por
outro lado, as normas programáticas, transportando princípios conformadores
e dinamizadores da Constituição, são susceptíveis de ser trazidas à colação no
momento de concretização” (83).
Ainda, se é certo que a maioria dos direitos fundamentais tem como
destinatário, ou seja, como responsável pela sua efetivação, o Estado, também
é verdade que alguns artigos obrigam à implementação do direito por parte de
outras entidades que não o Estado. Tal é o caso do artigo 50.º que inclui
direitos dos trabalhadores que todos estão obrigados a respeitar, desde logo, os
empregadores privados.
Por outro lado, se a maioria dos direitos estão sujeitos ao princípio da
universalidade, ou seja, são direitos de que todos são titulares, inclusivamente
os cidadãos estrangeiros, como já abordado supra, também encontraremos
direitos sociais que são só de algum grupo de pessoas, pela sua própria relação
com o exercício do direito. Encontraremos esta situação, por exemplo, no
artigo 51.º da CRDTL referente ao direito à greve e à proibição do lock‑out
que tem como titulares os trabalhadores, ou o artigo 53.º cujos titulares são os
consumidores.
Pelo exposto se pode observar que, e tal como temos vindo a discorrer
neste Capítulo, não há uma contraposição absoluta entre os direitos sociais e
os direitos, liberdades e garantias, e a efetivação de ambos os tipos de direitos
concretiza‑se através de obrigações positivas e negativas do Estado.
É importante salientar, como já abordado no Capítulo II, que os princípios
fundamentais da Constituição são um instrumento importante na interpretação
dos direitos económicos, sociais e culturais. Além disso, auxiliam no processo
de concretização normativa de modo a garantir a máxima efetividade das nor‑
mas constitucionais de direitos fundamentais. Dentre os objetivos do Estado,
destacam‑se o “desenvolvimento da economia”, a promoção da “justiça social”
e a “justa repartição do produto nacional” (artigo 6.º/b), e) e i) da CRDTL),
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 474‑475.
(83)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
261
o que vem reforçar a importância dos direitos sociais no âmbito da atuação do
Estado. Refira‑se, ainda, a previsão de um número de princípios sobre a orga‑
nização económica e financeira que são de verdadeira importância na criação
das condições necessárias ao pleno gozo dos direitos sociais, como é o caso das
formas comunitárias, do sector cooperativo e social de propriedade dos meios
de produção (artigo 138.º) e, ainda, note‑se, a utilização dos recursos naturais
de uma “forma justa e igualitária” (artigo 139.º).
Refira‑se com José Afonso da Silva, relativamente a questões semelhantes
previstas na Constituição brasileira, que “[a] determinação constitucional
segundo a qual as ordens econômica e social têm por fim realizar a justiça social
constitui uma norma‑fim, que permeia todos os direitos econômicos e sociais,
mas não só eles como, também, toda a ordenação constitucional, porque nela
se traduz um princípio político constitucionalmente conformador, que se impõe
ao aplicador da Constituição. Os demais princípios informadores da ordem
econômica — propriedade privada, função social da propriedade, livre concor‑
rência, defesa do consumidor, defesa do meio ambiente, redução das desigual‑
dades regionais e sociais, busca do pleno emprego — são da mesma natureza.
Apenas esses princípios preordenam‑se e hão que harmonizar‑se em vista do
princípio‑fim que é a realização da justiça social, a fim de assegurar a todos
existência digna” (84). Porém, este mesmo autor alerta‑nos para a dificuldade de
concretização destas normas ao acentuar que “nem a doutrina nem a jurispru‑
dência têm percebido o seu alcance, nem lhes têm dado aplicação adequada,
como princípios‑condição da justiça social” (85).
(i) Os Direitos Económicos, Sociais e Culturais da CRDTL
O Título III da Parte II dedica‑se aos direitos e deveres económicos, sociais
e culturais. Esta categoria estende‑se entre o artigo 50.º (direito ao trabalho),
e o artigo 61.º (o direito ao meio ambiente). Estes direitos estão incluídos num
grupo único na estrutura da Constituição, encontrando‑se alinhados de forma
sequencial no texto constitucional.
Assim, podemos encontrar um primeiro grupo, o referente aos direitos
económicos: direito ao trabalho e respetivas garantias, direito dos consumido‑
José Afonso da Silva, Aplicabilidade Das Normas Constitucionais, 3.ª edição
(São Paulo, SP: Malheiros Editores, 1999), 144.
(85)
Ibid.
(84)
Coimbra Editora ®
262
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
res e direito à propriedade privada, previstos do artigo 50.º ao artigo 54.º
Note‑se que a CRDTL identifica um dever económico, no seu artigo 55.º,
referente às obrigações dos contribuintes. Este primeiro grupo tem “a ver com
o estatuto económico das pessoas” (86). Os direitos sociais, no seu sentido mais
estrito, estão previstos entre o artigo 56.º e o artigo 58.º e ainda no artigo 61.º
relativo ao meio ambiente (87). Por fim, poderemos encontrar os direitos cultu‑
rais nos artigos 59.º e 60.º
O artigo 50.º refere‑se ao direito ao trabalho, o artigo 51.º ao direito à
greve e à proibição do lock‑out e o artigo 52.º à liberdade sindical, formando
este grupo de direitos uma coesão ligada ao direito do trabalho. Este grupo de
direitos tem o intuito de proteger constitucionalmente os trabalhadores, de
uma relação potencialmente desigual que é a da subordinação existente entre
o trabalhador e a entidade empregadora. Poderá supor‑se que a inclusão de um
dever de trabalho na Constituição timorense reflete a importância que a vida
comunitária reveste para a cultura local e a expectativa de que os cidadãos
devem participar com o seu trabalho na reconstrução do Estado e da nação (88).
Note‑se que a Constituição timorense proíbe o trabalho compulsivo
(artigo 50.º‑4), o que assegura que o dever de trabalho não poderá ser inter‑
pretado no sentido de obrigar ao trabalho forçado, antes limita‑se a realçar a
cultura comunitária timorense.
(86)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):316.
(87)
Refira‑se que o direito a um meio ambiente sadio não é um direito autono‑
mizado no PIDESC, encontrando‑se uma referência expressa ao “melhoramento de
todos os aspectos de higiene do meio ambiente e da higiene industrial” dentro do
direito à saúde, este que é um direito social (artigo 12.º‑2/b) (Cfr., no mesmo sentido,
o artigo 24.º‑2/c) da CDC. O reconhecimento do direito a um meio ambiente sadio,
como já referido no Capítulo I, é um desenvolvimento recente e encaixa‑se no que se
designou a quarta geração dos direitos humanos, que foram reconhecidos depois dos
tradicionais direitos económicos, sociais e culturais.
(88)
Encontra‑se uma perspetiva semelhante no artigo 29.º‑6 da Carta Africana
de Direitos dos Homens e dos Povos. Para uma discussão sobre os deveres na Carta
Africana, ver Ouguergouz, The African Charter on Human and Peoples’ Rights, 377‑ss;
Luciana Figueiredo Maia, ‘A Natureza Jurídica Dos Deveres Individuais Na Carta
Africana’, in Os Direitos Humanos Em África: Estudos Sobre O Sistema Africano de
Protecção Dos Direitos Humanos, ed. José de Melo Alexandrino, 1.ª ed (Coimbra:
Coimbra Editora, 2011), 145‑194.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
263
O artigo 53.º do texto fundamental timorense concede proteção aos
consumidores, relativamente à qualidade dos produtos e serviços que adquiram.
Podemos encontrar disposições semelhantes no artigo 78.º da constituição
angolana, no artigo 92.º da constituição moçambicana e no artigo 60.º da
constituição portuguesa.
O direito à propriedade privada, previsto no artigo 54.º da CRDTL reveste
particular importância em virtude da sua assinalável repercussão na própria
organização económica e social do país. Ressalta‑se que a Constituição prevê
dois âmbitos diferentes do direito à propriedade: o direito à propriedade privada
e o direito à propriedade da terra. Se, por um lado, o legislador constituinte
admite a propriedade privada, por outro lado, faz depender essa propriedade
do seu devido uso tendo em conta a sua função social. Aspetos relativos à
função social do uso da terra encontram‑se previstos em outras Constituições
dos países da CPLP, como a do Brasil e de Angola (89). A Constituição timorense
restringe ao cidadão nacional a titularidade do direito à propriedade privada
da terra (90). Em outras constituições dos países da CPLP, como Angola, Brasil
e Moçambique, atribui‑se de forma expressa o acesso, a posse permanente ou
o uso das terras às comunidades, aos povos indígenas e ao povo em geral (91).
A Constituição brasileira inclui um artigo específico que visa definir a
função social da propriedade privada no seu artigo 186.º (previsto num capítulo espe‑
cificamente dedicado à “Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária”), o qual
prevê que : “[a] função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simul‑
taneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes
requisitos: I — aproveitamento racional e adequado; II — utilização adequada dos
recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; III — observância das
disposições que regulam as relações de trabalho; IV — exploração que favoreça o
bem‑estar dos proprietários e dos trabalhadores”. Em Angola, o artigo 15.º‑1, enquanto
princípio fundamental da própria Constituição, não utiliza o termo “função social”
mas estabelece que a transferência da terra aos indivíduos deve ter por objetivo “o seu
racional e efectivo aproveitamento”.
(90)
O Tribunal de Recurso, no uso das competências do Supremo Tribunal de
Justiça, já aceitou na sua jurisprudência o facto de as pessoas coletivas poderem ser
titulares do direito à propriedade privada (nota: não especificamente a propriedade
privada da terra). Cfr. Tribunal de Recurso, Acórdão de 11 de Agosto de 2014 (Fisca‑
lização Preventiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/2014/TR (2014).
(91)
O artigo 15.º‑2 da Constituição angolana prevê que “[s]ão reconhecidos às
comunidades locais o acesso e o uso das terras, nos termos da lei”. De forma semelhante,
a Constituição moçambicana considera que “o uso e aproveitamento da terra é direito
(89)
Coimbra Editora ®
264
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
A reserva da titularidade do direito de propriedade da terra a nacionais foi uma
opção do poder constituinte timorense que poderá querer refletir a sua Histó‑
ria e ainda questões socioeconómicas, em virtude do tamanho do seu território
e de uma geografia montanhosa, que diminui consideravelmente as terras que
podem ser usadas para o desenvolvimento da economia local (92). O acesso à
terra pode vir a representar, em Timor‑Leste, uma garantia relacionada com o
gozo do direito à cultura. A propriedade privada é um direito também consa‑
grado na DUDH, no seu artigo 17.º (93).
O artigo 55.º da CRDTL estabelece as obrigações do contribuinte.
O legislador constituinte determinou que aquele que possua “comprovado
rendimento tem o dever de contribuir para as receitas públicas”. O que está
em causa é uma ideia de justiça social, um dos objetivos do Estado, e que,
através de um sistema fiscal, “satisfaça as necessidades financeiras e contribua
para a justa repartição da riqueza e dos rendimentos nacionais” (artigo 144.º‑1).
Na prática, encontra‑se uma relação entre este artigo e os que se lhe seguem,
ou seja, o da segurança e assistência social, o da saúde e o da habitação, pois
o cumprimento das obrigações fiscais por parte de quem tem capacidade con‑
tributiva para o fazer, pode trazer mais receitas ao Estado que, por sua vez, ao
implementar as suas obrigações resultantes dos direitos fundamentais, poderá
aumentar o investimento em áreas como as da saúde e da habitação. Este pre‑
ceito constitucional impõe a obrigação de contribuição fiscal “aos cidadãos”
de todo o povo moçambicano” (artigo 109.º‑3). Dentre as normas jurídicas na Cons‑
tituição brasileira sobre o acesso à terra pelos índios, destaca‑se o artigo 231.º‑§ 2 o
qual determina que “[a]s terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam‑se a
sua posse permanente, cabendo‑lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios
e dos lagos nelas existentes”.
(92)
Vale a pena notar que enquanto a Constituição timorense não estende o
âmbito da propriedade da terra aos cidadãos estrangeiros, as Constituições angolana e
moçambicana determinam que as terras são propriedade do Estado (e não de indivíduos
ou comunidade). Para uma breve análise sobre o papel da terra para as mulheres, ver
Vanda Margarida Narciso e Pedro Damião Sousa Henriques, ‘As Mulheres E a Terra,
Uma Leitura Da Situação Em Timor‑Leste’, in Michael Leach, Nuno Canas Mendes,
Antero da Silva e Alarico da Costa Ximenes (ed.), Compreender Timor‑Leste, 2010,
89‑93.
(93)
O direito à propriedade privada previsto na DUDH representa um dos
poucos direitos humanos que não é considerado como uma norma de direito costumeiro
internacional. Sobre esta matéria, ver Capítulo I, 3.2.2 O Costume Internacional.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
265
diferentemente do que faz, por exemplo, a constituição angolana que prescreve
um dever universal de contribuição fiscal sobre todas as pessoas sob a jurisdição
do Estado (94). A Lei Tributária, sendo a principal lei que versa sobre a contri‑
buição de pessoas singulares e coletivas para as receitas públicas em Timor‑Leste,
tem como critério principal para a incidência do imposto a prestação de ser‑
viços no país, independentemente da nacionalidade do prestador do serviço (95).
Seria uma perplexidade considerar que foi a intenção do Constituinte excluir
estrangeiros do pagamento de impostos em Timor‑Leste. Parece‑nos, portanto,
que teria sido preferível a escolha de outra palavra, nomeadamente, “todos”,
em vez da palavra “cidadão” no artigo 55.º
Os artigos 56.º a 58.º formam um núcleo duro dos direitos sociais, no
seu sentido mais restrito. Na conceptualização de José Afonso da Silva, os
direitos sociais, como direitos fundamentais “são prestações positivas propor‑
cionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas consti‑
tucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos
que tendem a realizar a igualização de situações desiguais. São, portanto direi‑
tos que se ligam ao direito de igualdade, Valem como pressuposto de gozo dos
direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias
ao auferimento da igualdade real, o que, por sua vez, proporciona condição
mais compatível com o exercício efetivo da liberdade” (96).
Encontramos o reconhecimento dos direitos sociais e respetivas garantias
nos textos de vários instrumentos do direito internacional, entre eles, a DUDH
(artigos 22.º, 24.º, 25.º e 26.º), o PIDESC (artigos 9.º ao 14.º) e ainda a CRC
(artigos 24.º a 26.º, entre outros). Como já mencionado supra, pertencente a
este grupo, temos também o artigo 61.º relativo à proteção do meio ambiente.
Ao procedermos a uma breve comparação, nesta matéria dos direitos
sociais, entre o texto fundamental timorense e os respetivos tratados interna‑
cionais de direitos humanos, denotam‑se duas observações relevantes. Em
Artigo 88.º da Constituição angolana. Note‑se que a Carta Africana dos
Direitos do Homem e Povos estende o dever de contribuição fiscal a todas as pessoas
(artigo 29.º‑6). Ressalta‑se que as Constituições de Cabo Verde (artigo 85.º/g) e de
Moçambique (artigo 45.º/c) identificam os cidadãos como sujeitos do dever de con‑
tribuição para as receitas públicas.
(95)
Lei n.º 8/2008, de 30 de Junho. Cfr. ainda os artigos 20.º e seguintes
relativos ao imposto sobre os salários desta mesma Lei.
(96)
José Afonso da Silva, Curso de Direito Constitucional Positivo, 25.ª Edição,
rev. e ampl. São Paulo: Editora Malheiros, 2005, p. 286‑287.
(94)
Coimbra Editora ®
266
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
primeiro lugar, a CRDTL não apresenta no seu texto um direito fundamental
a uma vida adequada, o qual inclui especificamente o direito à alimentação
— como se encontra reconhecido no PIDESC (artigo 11.º). Em segundo lugar,
os tratados de direitos humanos trazem uma densidade normativa mais apro‑
fundada do que as normas constitucionais timorenses que preveem estes direi‑
tos, que são, aliás, significativamente sucintas quando comparadas com outras
Constituições (97). Assim sendo, os instrumentos internacionais de direitos
humanos, como já mencionado supra, tornam‑se mecanismos essenciais para
completar a definição do âmbito de proteção dos correlativos direitos funda‑
mentais na CRDTL.
Os direitos culturais surgem no artigo 59.º da CRDTL, respeitante à
educação e à cultura, e no artigo 60.º, relativo à propriedade cultural. Entende
o Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais do PIDESC que “o
conceito de cultura não deve ser visto como uma série de manifestações isola‑
das ou compartimentos estanques, mas como um processo interativo no qual
os indivíduos e as comunidades, preservando as suas especificidades e objetivos,
dá expressão à cultura da humanidade. Este conceito leva em conta a indivi‑
dualidade e a alteridade da cultura como a criação e produto da sociedade” (98).
Assim, não somente a cultura, como forma de expressão da arte, no sentido
(97)
A título de exemplo, vejamos o direito à saúde, que na Constituição de
Portugal é formado por quatro números e oito alíneas (artigo 64.º), enquanto a CRDTL
prevê este direito social em três números substancialmente breves. Cfr., ainda, o
artigo 71.º da Constituição cabo‑verdiana.
(98)
Committee on Economic, Social and Cultural Rights, General Comment
n.º 21: Right of Everyone to Take Part in Cultural Life (art. 15, para. 1 (a), of the
International Covenant on Economic, Social and Cultural Rights), Committee on
Economic, Social and Cultural Rights (Forty‑third session, 21 December 2009),
para. 12 (tradução livre das autoras). Ver, também, o parágrafo 13 deste mesmo ins‑
trumento interpretativo, o qual prevê: “incorporam, nomeadamente, os modos de vida,
língua, literatura oral e escrita, a música e o canto, meios de comunicação não‑verbais,
sistemas de religião ou crença, ritos e cerimónias, desporto e jogos, métodos de pro‑
dução ou tecnologia, ambientes naturais e artificiais, alimentos, roupas e abrigo e as
artes, costumes e tradições, através dos quais os indivíduos, grupos e comunidades
expressam sua humanidade e o sentido que dão para a sua existência, e constroem a
sua visão do mundo que representa o encontro com as forças externas que afetam as
suas vidas. A cultura molda e reflete os valores de bem‑estar e da vida económica, social
e política de indivíduos, grupos e comunidades” (tradução livre das autoras).
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
267
genérico, é protegida neste direito, mas também as tradições locais da comu‑
nidade timorense, estas reconhecidas como princípios fundamentais da
CRDTL, no seu artigo 2.º‑4.
(ii) Âmbito de Proteção, Obrigações do Estado e Concretização
São algumas as dificuldades que surgem quando se pretende apurar qual
o âmbito de proteção e as obrigações do Estado na concretização dos direitos
económicos, sociais e culturais.
Estas dificuldades surgem, desde logo, devido ao facto de que estes direi‑
tos detêm uma dimensão principal de prestações positivas que implicam a
utilização de recursos no âmbito da implementação de políticas nacionais.
Reconhece‑se, ainda, que o impacto positivo na efetivação dos direitos sociais
leva tempo e é obtido através da implementação de programas e medidas, que,
por vezes, ocorrem de forma gradual.
Há, por isso, um conjunto de princípios que auxiliam a determinar o
âmbito de proteção de cada direito económico, social ou cultural: 1) o conte‑
údo (mínimo) essencial ou núcleo essencial, 2) a disponibilidade de recursos,
3) a realização progressiva e a reserva do possível e 4) o princípio do não retro‑
cesso. Estes princípios revelam‑se essenciais para a concretização dos direitos
económicos, sociais e culturais, razão pela qual se optou por analisá‑los indi‑
vidualmente, abaixo.
Estes princípios não são identificados na Constituição timorense, de forma
clara e inequívoca, como fazendo parte do regime dos direitos fundamentais e,
portanto, aplicáveis aos direitos sociais. No entanto, encontram‑se referências
expressas a estes princípios, em alguns dos seus artigos, como é o caso do
artigo 56.º‑2, que faz depender a organização de um sistema de segurança social
da “medida das disponibilidades nacionais”, ou ainda o artigo 57.º‑2 que deter‑
mina que a criação de um “serviço nacional de saúde (…), na medida das suas
possibilidades, gratuito…”. Vale a pena mencionar que, dos países da CPLP,
somente a Constituição angolana determina no seu texto constitucional normas
relativas à efetivação dos direitos económicos, sociais e culturais (99).
A Constituição angolana prevê no seu artigo 28.º‑2 sobre a força jurídica
dos direitos fundamentais que: “[o] Estado deve adoptar as iniciativas legislativas e
outras medidas adequadas à concretização progressiva e efectiva, de acordo com os
recursos disponíveis, dos direitos económicos, sociais e culturais”.
(99)
Coimbra Editora ®
268
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
a) Conteúdo (mínimo) essencial ou núcleo essencial
O próprio texto da Constituição indica que os direitos, liberdades e
garantias possuem um conteúdo essencial que não pode, em hipótese alguma,
ser restringido (100). De modo diverso, não há qualquer menção expressa à exis‑
tência de um conteúdo essencial para os direitos sociais.
Assim, a pergunta que se impõe neste momento é a de saber se os direi‑
tos sociais têm também um “conteúdo essencial”. A resposta a esta pergunta
deve ser positiva, já que tal emana da própria noção de direito fundamental
prescrito na Constituição, além de que negar a existência de um conteúdo
essencial seria retirar qualquer valor a estas garantias constitucionais (101). Os
direitos sociais são normas constitucionais vinculantes, “não se limitando a ser
meras orientações ou apelos ao legislador” (102). O conteúdo essencial rela‑
ciona‑se com o núcleo do direito, sem o qual os próprios direitos poderiam
chegar a perder a sua natureza de direito fundamental, passando a ser consi‑
derados como apelos ou pedidos dos indivíduos perante os poderes públicos,
esvaziando‑se, assim, de qualquer capacidade de exigência contra abusos e
inação do Estado.
A existência de um conteúdo mínimo dos direitos sociais é reconhecida
também pelo Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais, segundo o
qual existe “a obrigação de assegurar a satisfação de níveis essenciais mínimos
de cada um dos direitos” (103), considerando, ainda, que “[s]e o Pacto fosse
(100)
Artigo 24.º‑2 da CRDTL prevê: “[a]s leis restritivas dos direitos, liberdades
e garantias têm, necessariamente, carácter geral e abstrato, não podem diminuir a
extensão e o alcance do conteúdo essencial dos dispositivos constitucionais e não podem
ter efeito retroactivo”.
(101)
O conceito jurídico‑normativo de conteúdo essencial ou mínimo existencial
surgiu na Alemanha em 1949. Para um breve histórico do desenvolvimento deste
conceito no Direito germânico, ver Ingo Wolfgang Sarlet e Mariana Filchtiner Figuei‑
redo, ‘Reserva Do Possível, Mínimo Existencial E Direito À Saúde: Algumas Aproxi‑
mações’, in Direitos Fundamentais & Justiça, vol. 1, 2007, 178‑181.
(102)
Machado e Costa, Direito Constitucional Angolano, 208.
(103)
Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Comentário Geral
N.º 3: Artigo 2.º Número 1 (A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes), Quinta
Sessão, 1990 (Publicado em Compilação de Instrumentos Internacional de Direitos
Humanos, Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça), para. 10.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
269
interpretado no sentido de não estabelecer um mínimo de obrigações, seria em
larga medida privado de sua razão de ser” (104).
Vale a pena sublinhar que as mais altas instâncias dos tribunais do Brasil
e de Portugal já reconheceram a existência de um conteúdo mínimo essencial
(ou núcleo essencial) aos direitos sociais, apesar de nenhuma das respetivas
constituições prever de forma expressa o respeito por este princípio no âmbito
dos direitos sociais (105).
Pelo disposto, apesar de não se encontrar expresso na Constituição da
RDTL um princípio geral de respeito pelo conteúdo mínimo essencial dos
direitos fundamentais, entende‑se que o Estado timorense está sujeito a uma
obrigação de assegurar esse mínimo essencial, tanto dos direitos civis e políticos,
como dos direitos económicos, sociais e culturais.
Para que o Estado dê cumprimento aos direitos económicos, sociais e
culturais, é necessário que se determine a que corresponde o conteúdo essencial
de cada direito social. Miranda e Medeiros trazem‑nos uma nota importante
quanto à determinação do conteúdo essencial ao considerarem que “o conteúdo
essencial tem de se radicar na Constituição e não na lei…” (106), já que é a lei
que deve ser criada e interpretada segundo a Constituição e não o contrário.
Ainda, sendo a lei mais permeável aos interesses do legislador, deve ser a Cons‑
tituição o farol na interpretação do conteúdo essencial (107). Todavia, para
preencher esse conceito de conteúdo essencial, deve ir‑se além da interpretação
da norma constitucional, já que a Constituição não nos oferece pistas signifi‑
cativas nesta matéria. A Constituição na maior parte das vezes não nos esclarece
Ibid.
Sobre a jurisprudência brasileira nesta matéria, ver, Cláudia Perotto Biagi,
A garantia do conteúdo essencial dos direitos fundamentais na jurisprudência constitucio‑
nal Brasileira (Porto Alegre: S.A. Fabris Editor, 2005). O Tribunal Constitucional
português considerou que o mínimo essencial dos direitos sociais se relaciona intima‑
mente com o mínimo adequado e necessário a uma sobrevivência condigna, como é
o caso do seu Acórdão n.º 590/2004, de 6 de Outubro. Vide, José Carlos Vieira de
Andrade, ‘O “Direito Ao Mínimo de Existência Condigna” Como Direito Funda‑
mental a Prestações Positivas — Uma Decisão Singular Do Tribunal Constitucional’,
Jurisprudência Constitucional N.º 1 (March 2004).). A Constituição Espanhola de
1978, por exemplo, contém uma referência expressa ao conteúdo essencial no seu
artigo 53.º‑1.
(106)
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2005, Tomo I:163.
(107)
Ibid.
(104)
(105)
Coimbra Editora ®
270
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
qual seria o máximo, o médio ou o mínimo exigível ao Estado no âmbito das
suas prestações sociais.
A doutrina estrangeira tem sugerido algumas possibilidades quanto à
determinação do conteúdo essencial dos direitos económicos, sociais e cul‑
turais. Desde logo, a ideia de que o conteúdo essencial de um direito social
poderá encontrar‑se, por recurso a princípios como o da dignidade da pessoa
humana, o do livre desenvolvimento da personalidade e o do Estado de
Direito Social (108). Outra possibilidade é a de se recorrer ao conceito de
mínimo social que corresponderá a um “mínimo existencial a que deveriam
poder aceder todos os que, por si sós, por incapacidades próprias ou razões
circunstanciais, não disponham do necessário a uma sobrevivência condigna
e que, de resto, reduz a esse mínimo de prestações materiais e de estruturação
de estabelecimentos e serviços públicos essenciais todo o alcance jusfunda‑
mental, positivo e negativo, dos direitos sociais” (109). Acrescenta‑se, ainda, e
fazendo uso das palavras do Tribunal Constitucional Sul‑Africano segundo
o qual “o conteúdo mínimo pode não ser de fácil definição, mas inclui, pelo
menos, o mínimo para uma vida decente e compatível com a dignidade
humana. Ninguém deve ser condenado a uma vida inferior ao nível básico
de uma existência humana digna” (110). Em consequência das várias tentativas
de definição do conceito, por vezes, o mínimo essencial é também denomi‑
nado de mínimo existencial.
Outra questão que se levanta é indagar qual, em termos práticos, o mínimo
que o Estado está obrigado a cumprir para não incorrer em inconstitucionali‑
dade, designadamente, por omissão, em virtude da violação do âmbito de
proteção de um direito social? Ou seja, qual é o conteúdo mínimo essencial
de um direito social que o Estado está obrigado a concretizar?
Como nos guia Jorge Miranda, neste processo de determinação do con‑
teúdo essencial de um direito deve‑se ir “fixando o percurso dos direitos,
através do conhecimento da sua formação histórica, do cotejo comparativo, da
experiência jurisprudencial, da protecção penal, e depois subir até a um sentido
O Capítulo IV desenvolve a doutrina das teorias absolutas e relativas apli‑
cáveis ao debate congénere no âmbito dos direitos, liberdades e garantias. Vide Capí‑
tulo IV, 2.3.2. Requisitos Relativos ao Conteúdo da Restrição.
(109)
Novais, Direitos Sociais, 194.
(110)
Minister of Health v. Treatment Action Campaign (TAC), (2002), p. 22
(tradução livre das autoras).
(108)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
271
rigoroso na arquitectura da Constituição” (111). Determinar o que é o mínimo
essencial reveste particularidades, no caso de Timor‑Leste, dado ser um Estado
recente e emergente de um conflito. A jurisprudência ainda não é abundante
no que diz respeito aos direitos sociais, revelando‑se, até agora, uma maior
incidência na dimensão negativa de um número ainda limitado de direitos
económicos, sociais e culturais (112). Assim, na seara atual do desenvolvimento
da dogmática jurídica, sugere‑se o recurso à interpretação dada a estas questões
no direito internacional e em outras jurisdições nacionais.
O Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais já teve a oportu‑
nidade de explicitar o que entende por conteúdo mínimo essencial nos Comen‑
tários Gerais ao PIDESC. A título de exemplo, considera este organismo do
direito internacional que o conteúdo mínimo do direito à habitação implica
um número de obrigações do Estado, nomeadamente, o reconhecimento jurí‑
dico deste direito, o desenvolvimento de uma política nacional, com um foco
prioritário nas pessoas em condições mais desfavoráveis e o respeito pelo direito
já adquirido, devendo, portanto, proibir a atuação ilegal e arbitrária, nomea‑
damente, através de despejo administrativo e expropriações (113). Este mesmo
Comité já identificou aquilo que entende ser o conteúdo mínimo essencial de
vários dos direitos sociais, nos seus comentários gerais (114). Refira‑se que os
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2005, Tomo I:163.
É o caso do direito à propriedade privada, tendo o tribunal considerado as
restrições à titularidade por estrangeiros, bem como a liberdade sindical e a participa‑
ção em sindicatos por estrangeiros. Vide, por exemplo, Tribunal de Recurso, Acórdão
de 30 de Junho de 2003 (Fiscalização Preventiva de Constitucionalidade), Proc.02/
CONST/03 (Tribunal de Recurso 2003); Tribunal de Recurso, Acórdão de 11 de
Agosto de 2014 (Fiscalização Preventiva de Constitucionalidade), Proc n.º 01/
CONST/2014/TR (2014).
(113)
Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Comentário Geral
N.º 4: Artigo 11.º (Direito a Alojamento Adequado), Sexta Sessão, 1991 (Publicado em
Compilação de Instrumentos Internacional de Direitos Humanos, Provedoria dos
Direitos Humanos e Justiça), para. 13‑ss. Vide, para mais informações sobre este direito
social em outras jurisdições nacionais, Scott Leckie, National Perspectives on Housing
Rights (Martinus Nijhoff Publishers, 2003).
(114)
Vários destes Comentários Gerais encontram‑se traduzidos para português,
nomeadamente, os relativos ao direito à habitação, à educação, à saúde, à alimentação,
à água e à segurança social na publicação Provedoria de Direitos Humanos e Justiça,
Compilação Instrumentos de Direitos Humanos, 2014.
(111)
(112)
Coimbra Editora ®
272
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
mínimos identificados pelo Comité são realmente “os mínimos dos mínimos”
pois entendeu‑se ser necessário identificar o mínimo essencial que pudesse ser
implementado pela generalidade dos Estados‑partes deste tratado.
No fundo, esse mínimo essencial seria o último reduto, a garantia última
do conteúdo essencial de um direito social. Este conceito relaciona‑se com os
outros que veremos abaixo e todos são essenciais na determinação do âmbito
de proteção e do grau de eficácia de um direito social. Assim, é deste conteúdo
mínimo essencial que deve partir a realização progressiva do direito, e este
mínimo não deve ser violado, nem nos casos de disponibilidade limitada de
recursos. Nestes casos, o Comité sugere que o Estado recorra à cooperação
internacional (115).
Numa tentativa de densificar a ideia de mínimo social referida supra, a
doutrina e a jurisprudência estrangeiras trouxeram um novo conceito, o de
razoabilidade e ponderação (116). Trata‑se de um novo modelo segundo o qual
“os direitos sociais valeriam potencialmente para além desse limiar, na medida
em que, enquanto verdadeiros direitos fundamentais, deveriam ver garantidos
graus de efectividade mais ambiciosos a apurar através de juízos de ponderação,
de razoabilidade ou de proporcionalidade” (117). Entende‑se que, neste processo,
se procura “uma solução norteada pela ponderação dos valores em pauta,
almejando obter um equilíbrio e concordância prática, caracterizada, em última
análise, pelo não sacrifício completo de um dos direitos fundamentais, bem
como pela preservação, na medida do possível, da essência da cada um” (118).
Um exemplo do exposto que encontramos no ordenamento jurídico timo‑
rense é o da Lei de Bases da Educação (Lei n.º 14/2008, de 29 de Outubro)
(115)
Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Comentário Geral
N.º 4: Artigo 11.º (Direito a Alojamento Adequado), Sexta Sessão, 1991 (Publicado em
Compilação de Instrumentos Internacional de Direitos Humanos, Provedoria dos
Direitos Humanos e Justiça), para. 10 e 13.
(116)
Para mais desenvolvimentos sobre esta matéria, ver Novais, Direitos Sociais,
209‑237.
(117)
Ibid., 209.
(118)
Ingo Wolfgang Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 11.ª edição
revista e atualizada (ePub., 2012), 2.ª Parte, 3.5.2.5. Ressalta‑se que o Tribunal Cons‑
titucional português já fez aplicação deste princípio como um método na busca do
conteúdo mínimo essencial do direito social, por exemplo, em Acórdão do Tribunal
Constitucional português de 16 de Novembro de 2004, Acórdão n.º 590/2004/T.
Const. — Processo n.º 944/2003.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
273
que se preocupa em assegurar certas garantias mínimas do direito da educação.
Assim, toda a criança já com seis anos completos tem o direito de aceder ao
ensino básico, enquanto uma que ainda não tenha completado seis anos de idade
pode ser aceite somente quando houver vagas (artigo 11.º). Aqui aparenta estar
o mínimo essencial do direito da educação: acesso à educação básica às crianças
de seis anos completos. Nota‑se, ainda, que o âmbito de proteção do direito
diminui com o progresso no sistema educativo, sendo que no ensino superior
(universitário e técnico) não há uma garantia de acesso, quer em estabelecimento
de ensino particular ou público, a todos os jovens que tenham completado o
ensino secundário, mas somente para aqueles que “façam prova de capacidade
para a sua frequência” (artigo 18.º‑1). Sem entrar numa análise pormenorizada,
à partida parece ser de admitir que a determinação destes mínimos é de aceitá‑
vel razoabilidade na atual conjuntura social timorense.
Timor‑Leste já elaborou um número significativo de leis concretizadoras
dos direitos sociais principais, nomeadamente, o direito à saúde (119), o direito
à educação, já referido acima, e o direito à segurança social. Ainda não foram
elaborados diplomas legislativos que determinem as prestações efetivas em
relação ao direito à habitação, existindo apenas uma norma que prevê uma
compensação nos casos de despejo administrativo de propriedade do Estado
quando da existência de vulnerabilidade económica (120).
É de referir que, por vezes, o legislador timorense optou por uma con‑
ceção mais compartimentada de um dos direitos sociais, autonomizando, por
exemplo, em legislação específica as prestações devidas pelos poderes públicos
somente a um grupo específico de beneficiários. Tal é o caso dos diplomas
legislativos relativos à efetivação do direito à segurança social que, inicial‑
mente, deram prioridade, no acesso a subsídios regulares, aos combatentes
da libertação nacional (com incidência nas viúvas, órfãos, vulneráveis econo‑
micamente e combatentes portadores de deficiência) (121), aos idosos e às
Lei n.º 10/2004, de 24 de Novembro (Lei do Sistema de Saúde)
Em 2003/4/5, foi aprovada uma política nacional para a habitação (Reso‑
lução do Parlamento n.º 10/2007, de 1 de Agosto). Ver, ainda, Decreto‑Lei n.º 6/2011,
de 9 de Fevereiro (sobre Compensações por Desocupação de Imóveis do Estado).
(121)
O Estatuto dos Combatentes da Libertação Nacional entrou em vigor
em 2006, através da Lei n.º 3/2006, de 12 de Abril, sendo que a sua regulamentação
entrou em vigor em Junho de 2008, por força da aprovação do Decreto‑Lei n.º 15/2008,
de 4 de Junho.
(119)
(120)
Coimbra Editora ®
274
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
pessoas portadoras de deficiência (122). Tendo em consideração a realidade do
ordenamento jurídico timorense e a necessidade não só de elaborar leis, mas
também de estabelecer instituições, formar funcionários e criar sistemas
administrativos, entende‑se que este modo de proceder é adequado à realidade
nacional. É ainda possível que o desenvolvimento da jurisprudência no âmbito
dos direitos sociais venha, no futuro, a considerar estas primeiras determina‑
ções normativas das prestações como parte do núcleo essencial do direito
fundamental em questão.
A definição do conteúdo essencial assume uma maior simplicidade quando
o legislador, através da feitura de lei ordinária, de conformação e/ou de regu‑
lação do direito, determina quais as prestações efetivas a que o Estado fica
obrigado para a efetivação de um determinado direito social. No entanto, como
alerta Jorge Miranda, “[p]ode, acaso, a lei não retirar toda a utilidade ao direito
e, não obstante, afectar o seu conteúdo essencial, por subverter ou inverter o
valor constitucional” (123). Como qualquer diploma que contenha normas jurí‑
dicas, uma lei que determine as prestações efetivas do Estado referentes a um
certo direito social, como uma lei de bases da saúde, pode também ser sujeita
ao controlo da constitucionalidade, questão aprofundada no Capítulo VI.
O Estado, neste caso Timor‑Leste, deve, através de medidas legislativas,
de ações administrativas e da tutela jurisdicional, assegurar a concretização,
pelo menos, do núcleo essencial dos direitos económicos, sociais e culturais.
Reconhece‑se que não é uma tarefa fácil em qualquer Estado. Pode ser proble‑
mático para o Governo, no âmbito da sua competência de assegurar o gozo
dos direitos fundamentais, definir um número elevado de prioridades que
competem entre si. Igualmente desafiante é a função do poder judiciário no
que respeita a interpretar estes conceitos complexos dentro de um ordenamento
jurídico tão recente. No entanto, estas tarefas representam verdadeiras obriga‑
ções por força da Constituição.
b) Reserva do Possível e Disponibilidade de Recursos
A determinação do conteúdo essencial dos direitos sociais tem uma influên­
cia direta na definição das prestações sociais que o Estado deve implementar.
Decreto‑Lei n.º 19/2008, de 19 de Junho (Subsídio de Apoio a idosos e
Inválidos).
(123)
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2005, Tomo I:163.
(122)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
275
Porém, a determinabilidade desse conjunto de prestações esbarra com uma
fatalidade: os recursos necessários para a sua realização não são inesgotáveis.
Reconhece‑se, como considerado por Ingo Sarlet, que “ [j]ustamente pelo fato
de os direitos sociais prestacionais terem por objeto — em regra — prestações
do Estado diretamente vinculadas à destinação, distribuição (e redistribuição),
bem como à criação de bens materiais, aponta‑se, com propriedade, para sua
dimensão economicamente relevante” (124).
Perante este facto incontornável, o Estado “defende‑se”, justificando a
medida da sua intervenção social precisamente com a medida dos recursos de
que dispõe. Por recursos, entende‑se a “disponibilidade de recursos existentes
(que abrange também a própria estrutura organizacional e a disponibilidade
de tecnologias eficientes) e pela capacidade jurídica (e técnica) de deles se
dispor (princípio da reserva do possível)” (125).
Assim, é a própria Constituição timorense que prevê essa contenção, em
normas como o artigo 56.º que prevê a segurança e a assistência social, segundo
o qual “o Estado promove, na medida das disponibilidades nacionais, a orga‑
nização de um sistema de segurança social” (artigo 56.º‑2). Encontramos
referência semelhante nos artigos relativos ao serviço nacional de saúde e à
criação de um sistema público de ensino básico universal (respetivamente
artigos 57.º e 59.º).
O conceito de “reserva do possível” foi introduzido pelo Tribunal Cons‑
titucional alemão e remetia‑nos para a ideia de que os direitos sociais estariam
limitados “àquilo que o indivíduo podia razoavelmente exigir da sociedade” (126).
Gomes Canotilho alerta para o facto de que “rapidamente se aderiu à constru‑
ção dogmática da reserva do possível (…) para traduzir a ideia de que os
direitos sociais só existem quando e enquanto existir dinheiro nos cofres públi‑
cos. Um direito social sob “reserva dos cofres cheios” equivale, na prática, a
nenhuma vinculação jurídica” (127).
(124)
Ingo Wolfgang Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais 2.ª Parte,
3.4.2.3.
Sarlet e Figueiredo, ‘Reserva Do Possível, Mínimo Existencial E Direito
À Saúde: Algumas Aproximações’, 201.
(126)
Novais, Direitos Sociais, 90 (itálico do autor).
(127)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 481.
(itálico e negrito do autor retirados nesta sede).
(125)
Coimbra Editora ®
276
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Surgiu também um critério de razoabilidade na demanda dos indivíduos
junto do Estado. Assim, faz sentido estabelecer o que é razoável que o indiví‑
duo possa exigir da coletividade. Porém, ainda que introduzido esse critério
orientador, a verdade é que também ele esbarrava nesse facto que é o da dis‑
ponibilidade limitada de recursos por parte do Estado. E, assim, o conceito de
reserva do possível acabou por evoluir para o de reserva do financeiramente
possível com base na necessidade de se considerar a disponibilidade de recursos
e, ainda, a razoabilidade da pretensão (128).
Esta evolução implicou que a feitura do orçamento dos Estados passou a
revestir uma importância primordial. Igualmente, em Timor‑Leste, é no
momento da elaboração do orçamento que o Estado toma posições sobre o que
entende serem as necessidades mais prementes e as suas prioridades no âmbito
da efetivação dos direitos sociais. Note‑se, no entanto, que a determinação
destas deve ser orientada pela própria Constituição, incluindo, a consideração
da justiça social como um dos objetivos do Estado timorense. Assim, e fazendo
uso da doutrina brasileira, considera‑se correta a afirmação de que “[e]mbora a
escolha de onde serão alocados os recursos públicos tenha um importante com‑
ponente político, não pode deixar de ser considerado o seu aspecto jurídico, na
medida em que devem ser observadas as diretrizes estabelecidas nas normas
constitucionais e nos tratados internacionais ratificados pelo Estado” (129).
No direito internacional, o PIDESC identifica este princípio da reserva
do possível de uma forma interessante ao considerar juntamente a finidade de
(128)
Neste âmbito, no Acórdão de 29 de Abril de 2004 do Supremo Tribunal
Federal do Brasil (ADPF 45.9) foi considerado que “[v]ê‑se, pois, que os condiciona‑
mentos impostos, pela cláusula da “reserva do possível”, ao processo de concretização
dos direitos de segunda geração — de implantação sempre onerosa —, traduzem‑se
em um binômio que compreende, de um lado, (1) a razoabilidade da pretensão indi‑
vidual/social deduzida em face do Poder Público e, de outro, (2) a existência de dis‑
ponibilidade financeira do Estado para tornar efetivas as prestações positivas dele
reclamadas. Desnecessário acentuar‑se, considerado o encargo governamental de tornar
efetiva a aplicação dos direitos econômicos, sociais e culturais, que os elementos com‑
ponentes do mencionado binômio (razoabilidade da pretensão + disponibilidade
financeira do Estado) devem configurar‑se de modo afirmativo e em situação de cumu‑
lativa ocorrência, pois, ausente qualquer desses elementos, descaracterizar‑se‑á a posi‑
bilidade estatal de realização prática de tais direitos”.
(129)
Alessandra Gotti, Direitos Sociais Fundamentos, Regime Jurídico, Implemen‑
tação E Aferição de Resultados, 1.ª Edição (ePub., 2012), 4.3.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
277
recursos e as prioridades determinadas pelos direitos humanos, declarando que
os Estados devem agir “no máximo dos seus recursos disponíveis” (artigo 2.º‑1
do PIDESC).
No caso de Timor‑Leste, a determinação do conceito “máximo dos seus
recursos disponíveis” há‑de ser uma ponderação entre vários fatores, designa‑
damente, o de se tratar de um país em vias de reconstrução, com uma econo‑
mia nacional ainda em formação, e com uma considerável parcela dos seus
recursos a provir da exploração de energia não renovável e, ainda, a imposição
constitucional de “constituição de reservas financeiras obrigatórias” (130), com o
intuito de assegurar às gerações futuras o acesso a estas reservas, de forma justa
e igualitária (131).
O âmbito de proteção dos direitos sociais e a sua efetivação estão, assim,
intimamente ligados à disponibilidade de recursos, que define a reserva do
possível e as opções tomadas aquando da feitura do orçamento. Sublinha‑se,
porém, que o conteúdo mínimo essencial é a barreira última que o Estado
não pode ultrapassar e que está obrigado a assegurar.
c) Realização Progressiva e Princípio do Não Retrocesso
A efetivação dos direitos sociais surge comummente associada a uma ideia
de realização progressiva, ou seja, é expectável que o Estado ofereça prestações
sociais, de uma forma gradual. Espera‑se que todos os indivíduos tenham acesso
ao direito pleno, na sua integralidade. Assim, partindo do núcleo essencial dos
direitos sociais, deve aumentar‑se, gradualmente, o âmbito de proteção do
direito.
Encontramos esta mesma ideia no artigo 2.º‑1 do PIDESC, segundo o
qual os Estados estão obrigados a “assegurar progressivamente o pleno exercício
dos direitos contidos no presente Pacto…”. Ao pronunciar‑se sobre a natureza
das obrigações dos Estados Partes, em 1990, o Comité reforçou a ideia de que
as obrigações inscritas no Pacto são de resultado, isto é, devem ser efetivadas.
E explica ainda que não só essa efetivação deve ser realizada progressivamente,
mas deve ser realizada dentro de um tempo razoavelmente curto, após a entrada
Artigo 139.º‑2 da CRDTL.
A concretização desta norma foi consagrada no ordenamento jurídico
timorense com a Lei do Fundo Petrolífero (Lei n.º 9/2005, de 3 de Agosto (com as
alterações introduzidas pela Lei n.º 12/2011, de 28 de Setembro).
(130)
(131)
Coimbra Editora ®
278
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
em vigor do Pacto num determinado Estado. Este comentário transmite‑nos,
portanto, uma ideia de progressividade, mas, também de uma certa “urgência”
nessa progressividade (132).
Não encontramos referência expressa à realização progressiva no texto
constitucional timorense, como o fazem outros países da CPLP, designadamente,
a Guiné‑Bissau e Portugal (133). No entanto, por força, por exemplo, do
artigo 23.º segundo o qual “os direitos fundamentais consagrados na Consti‑
tuição (…) devem ser interpretados em consonância com a Declaração Uni‑
versal dos Direitos Humanos”, poderemos concluir que essa ideia de progres‑
sividade na realização dos direitos fundamentais, inscrita no preâmbulo da
Declaração, atravessa a Constituição.
A doutrina brasileira é particularmente frutífera nesta matéria e a esse
propósito encontramos, por exemplo, Ingo Sarlet para quem “tanto quanto
proteger o pouco que há em termos de direitos sociais efetivos, há que priori‑
zar o dever de progressiva implantação de tais direitos e de ampliação de uma
cidadania inclusiva”. (134)
Esta obrigação de progressividade é incindível de um outro princípio muito
debatido no âmbito da análise dos direitos económicos, sociais e culturais: o
(132)
Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Comentário Geral
N.º 3: Artigo 2.º Número 1 (A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes), para. 9.
Nas palavras do Comité, “a expressão [realização progressiva] deve ser lida à luz do
objectivo global, a verdadeira razão de ser do Pacto que é estabelecer obrigações claras
para os Estados Partes no que diz respeito à plena realização dos direitos em questão.
Assim, impõe uma obrigação de agir tão rápida e efectivamente quanto possível em
direcção àquela meta.” (para. 9).
(133)
A Constituição da Guiné‑Bissau incorpora, de forma expressa, esta ideia de
gradualidade, por exemplo, no seu artigo 46.º‑3, referente à criação gradual de um
sistema de segurança social para o trabalhador, e no artigo 49.º‑2 que “promove gra‑
dualmente a gratuitidade e a igual possibilidade de acesso de todos os cidadãos aos
diversos graus de ensino”. Encontramos esta mesma ideia de efetivação gradual, por
exemplo, na Constituição portuguesa, no seu artigo 64.º segundo o qual o direito à
proteção à saúde é realizado pela “melhoria sistemática das condições de vida e de
trabalho”.
(134)
Ingo Wolfgang Sarlet, ‘Os Direitos Fundamentais (Sociais) e a Assim Cha‑
mada Proibição do Retrocesso: contributo para uma Discussão’ in A Jurisdição Cons‑
titucional e os Direitos Fundamentais nas Relações Privadas: questões contemporâneas,
Aneline Ziemann e Felipe Alves (org.) (São Paulo: PerSe Editora, 2014), 12.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
279
princípio do não retrocesso. Segundo Ingo Sarlet, “[o] dever de progressividade
(e, portanto, de promoção e desenvolvimento) e a proibição de retrocesso (de
uma evolução regressiva) constituem, portanto, dimensões interligadas e que
reclamam uma produtiva e dinâmica compreensão e aplicação” (135). Entende‑se
que, para que se alcance a justiça social, é necessário que se avance sempre e
de forma progressiva, estando, portanto, proibido o “voltar atrás”, o retrocesso
social (136).
Em Timor‑Leste, pode dar‑se os bons exemplos do direito à segurança
social e do direito à saúde. No primeiro, tem‑se assistido a um desenvolvimento
normativo que tem conduzido a um aumento dos titulares beneficiários e dos
tipos de apoios concedidos. Quanto ao direito à saúde, tem‑se verificado um
aumento na implementação de políticas e programas, que se têm repercutido
no incremento da disponibilidade e da qualidade dos serviços prestados.
Porém, a questão torna‑se verdadeiramente controversa quando, por razões
da própria economia, num dado momento histórico, o Estado venha a não
estar em condições de melhorar os padrões das prestações sociais ou, ainda pior,
se deteriora o alcance da realização dos direitos sociais. Admite‑se, segundo este
princípio, que, no caso de o Estado não conseguir melhorar as prestações sociais,
estará em violação do princípio da realização progressiva dos direitos sociais.
Já se piora o alcance da realização dos direitos sociais, não só viola o princípio
da progressividade, como o do não retrocesso. Esta é uma questão central pois
determina se o Estado está ou não em violação dos seus deveres e como é que
o indivíduo poderá reagir contra essa violação.
Alguma doutrina encontra dificuldades na assunção, sem mais, deste
princípio do não retrocesso e apresenta alternativas ao debate. Segundo Reis
Novais, “a concepção do princípio da proibição do retrocesso social entendida
enquanto proibição de diminuição dos níveis outrora garantidos de realização
dos direitos sociais, ou de um direito social em particular, não tem, pura e
simplesmente, nem arrimo positivo em qualquer ordem constitucional, nem
sustentação dogmática, nem justificação ou apoio em quaisquer critérios de
simples razoabilidade” (137). É incontornável que, em algumas circunstâncias, os
Ibid., 25.
Para mais desenvolvimentos sobre esta matéria, v. Christian Goutis, ed., Ni
Un Paso Atrás. La Prohibicion de Regressividad en Matéria de Derechos Sociales (Buenos
Aires: Editores del Puerto, 2006).
(137)
Novais, Direitos Sociais, 244‑245.
(135)
(136)
Coimbra Editora ®
280
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
recursos financeiros simplesmente não existem e, nesse caso, como salvar este
princípio tão fundamental para a prossecução de uma vida condigna e para a
própria proteção da dignidade humana?
Alguma doutrina (138) vem defender que não se tratará de uma proibição
absoluta de retrocesso, mas tão‑só de uma proibição relativa uma vez que “a
proibição só incide sobre retrocessos que afectem o mínimo social, que afectem
o conteúdo essencial dos direitos em causa, que sejam desproporcionados ou des‑
razoáveis, ou que afectem a protecção da confiança, a igualdade ou a dignidade
da pessoa humana.” (139). Reis Novais traz uma proposta interessante de análise e
que é a de considerar que esta questão do retrocesso deverá ser tratada como uma
restrição a um direito fundamental, por analogia ao raciocínio que se desenvolve
a propósito dos direitos, liberdades e garantias. E, sendo assim, do que se trataria
seria de saber se o retrocesso de um direito social seria uma restrição legítima ou
ilegítima, fazendo uso dos critérios que se utilizam para aferir questão semelhante
no âmbito dos direitos, liberdades e garantias (140).
3.3 Outros Direitos Fundamentais
A Constituição da República Democrática de Timor‑Leste inscreve um
catálogo significativo de direitos fundamentais, que foi objeto de análise na
secção anterior. No entanto, algumas constituições e a doutrina admitem a
existência de outros direitos fundamentais para além dos enumerados dentro
do catálogo, como é o caso dos direitos fundamentais dispersos e dos direitos
só materialmente fundamentais, ambos abordados abaixo. Aliás, configurar um
sistema de direitos fundamentais fechado e estanque contraria algumas das suas
características principais.
No entanto, antes da consideração destes “outros direitos fundamentais”,
é importante discorrermos sobre a questão da analogia, esta que representa
Para mais detalhe, v. Ibid., 245‑246.
Ibid., 245.
(140)
Para mais detalhe, ver, Ibid., 246‑250. Mostrou‑se semelhante à conside‑
ração de Reis Novais a análise do Tribunal Constitucional no Acórdão n.º 509/2002,
de 19 de Dezembro, o qual considerou inconstitucional, por fiscalização preventiva,
um decreto da Assembleia da República que revogava o rendimento mínimo garantido,
substituído por um “rendimento social de inserção”, o qual excluía como beneficiários
os trabalhadores menores de 25 anos de idade.
(138)
(139)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
281
o instrumento comum de identificação para a integração de direitos funda‑
mentais.
3.3.1 Direitos Fundamentais Dispersos na Constituição
Os direitos fundamentais permeiam toda a esfera da vida privada e as
ações dos poderes públicos, pelo que, ao fazer‑se uma análise sistemática da
Constituição, concluiremos que existem direitos fundamentais que se encontram
dispersos pelo texto constitucional.
Assim, o catálogo de direitos fundamentais que encontramos na Parte II
não esgota a lista dos direitos e garantias fundamentais com assento constitu‑
cional. Na verdade, para além dos direitos fundamentais identificados dentro
do catálogo (isto é, dentro da Parte II da CRDTL sob a epígrafe Direitos,
Deveres, Liberdades e Garantias Fundamentais), existem outros direitos funda‑
mentais que encontramos sistematicamente localizados noutras partes da Cons‑
tituição, fora do catálogo de direitos fundamentais. Portanto, direitos fundamen‑
tais dispersos na Constituição são precisamente aqueles direitos que, devendo
pertencer à categoria dos direitos fundamentais, não estão localizados no catálogo
enumerado na Parte II da Constituição. A doutrina designa‑os também de
direitos fundamentais formalmente constitucionais mas fora do catálogo (141).
A categorização de uma norma constitucional como um direito funda‑
mental disperso não é de caráter supérfluo, pois aquando da sua concretização,
os direitos fundamentais dispersos gozam do regime dos direitos fundamen‑
tais (142). Por exemplo, os direitos fundamentais dispersos e análogos aos direi‑
tos, liberdades e garantias só poderiam ser restringidos de acordo com os
requisitos do artigo 24.º, questão esta discutida no Capítulo IV.
A identificação de quais as normas previstas na Constituição que encerram
direitos fundamentais dispersos, tem por base um processo de analogia, já
abordado. Assim, os direitos fundamentais dispersos na Constituição devem
ter uma natureza análoga à dos direitos fundamentais, podendo a analogia ser
relacionada com os direitos, liberdades e garantias ou com os direitos econó‑
micos, sociais e culturais.
Vide Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição,
404‑405.
(142)
Cfr. Ibid., 405. Ver, ainda, Miranda, Manual de Direito Constitucional,
2000, Tomo IV:139.
(141)
Coimbra Editora ®
282
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
A título de exemplo, poderíamos pensar nas garantias no exercício da
advocacia, como a inviolabilidade dos documentos (artigo 136.º da CRDTL),
que representam uma função fundamental para assegurar o direito de defesa,
sendo assim tanto uma liberdade análoga ao direito da privacidade como uma
garantia do processo criminal (ambos direitos específicos previstos no catálogo
dos direitos fundamentais na CRDTL).
3.3.2 Direitos só Materialmente Fundamentais
A Constituição timorense prevê uma abertura aos direitos fundamentais
ao prever no seu artigo 23.º que “os direitos fundamentais consagrados na
Constituição não excluem quaisquer outros constantes da lei (…)” (143). Este
artigo consagra o princípio da cláusula aberta ou da abertura da constituição
no que respeita aos direitos fundamentais, permitindo, portanto, a existência
dos direitos só materialmente fundamentais. Estes direitos têm a materialidade
ou a substância de uma norma constitucional, mas não se encontram no texto
da Constituição, ou seja, não são formalmente constitucionais. Assim sendo,
este artigo vem‑nos dizer que o elenco de direitos fundamentais que encontra‑
mos na Constituição não é exaustivo, é um elenco aberto. Pretende‑se, portanto,
assegurar que poderão vir a ser consideradas como direitos fundamentais todas
aquelas posições jurídicas não previstas ao tempo da redação da Constituição
e aquelas que vierem a ocorrer por força da evolução do contexto histórico,
social, cultural e económico.
Assim, e recorrendo à ideia de realização progressiva dos direitos funda‑
mentais e de gradualidade na sua implementação, faz sentido considerar que
o recurso a esta figura dos direitos só materialmente fundamentais seja utilizado
no sentido de ampliar o índice de proteção e não de o diminuir. Não se trata,
portanto, de uma lacuna constitucional, é antes um acréscimo que surge por
força da evolução histórica, económica, social e cultural e a sua repercussão na
A Constituição portuguesa possui uma norma de redação semelhante no
seu artigo 16.º‑1: “[o]s direitos fundamentais consagrados na Constituição não excluem
quaisquer outros constantes das leis e das regras aplicáveis de direito internacional”.
As Constituições angolana (artigo 27.º) e cabo‑verdiana (artigo 26.º) possuem também
uma norma de semelhante natureza, mas que, no entanto, usa uma formulação diferente
da CRDTL, identificando que o regime dos direitos fundamentais previsto nos seus
textos constitucionais também é aplicável aos direitos fundamentais de natureza análoga
consagrados por lei ou por convenção internacional.
(143)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
283
própria evolução dos direitos fundamentais. O que está em causa é aumentar
o nível de proteção dos direitos fundamentais e permitir que eles surjam nou‑
tras fontes de direito mais elásticas, já que o texto constitucional é normalmente
um texto que só pode ser revisto mediante o cumprimento de determinadas
condições constitucionalmente estipuladas.
Estes direitos distinguem‑se dos direitos fundamentais formalmente consti‑
tucionais, que são aqueles direitos que se encontram consagrados no texto da
Constituição, quer se encontrem dentro do catálogo, quer se encontrem fora
do catálogo, estes últimos designados de direitos fundamentais dispersos na
Constituição. Os direitos só materialmente fundamentais têm a vantagem de serem
mais facilmente adaptáveis à realidade histórica, mas, também por isso mesmo
têm a desvantagem de serem mais voláteis e permeáveis às opções do legislador
e do intérprete da lei.
No processo de determinar o alcance da abertura prevista no artigo 23.º
outra questão importante será aferir qual o alcance da palavra “lei” presente
naquele artigo? Ou seja, quais são as fontes de direito onde poderemos vir a
encontrar direitos materialmente fundamentais? Em análise de dispositivo
semelhante na lei constitucional portuguesa (144), Gomes Canotilho é da opinião
de que por “leis” se deverá entender “qualquer acto legislativo”. Apesar da
inexistência, na Constituição timorense, de um artigo que defina o que são
actos legislativos como acontece na Constituição portuguesa (145), não há razão
para excluirmos do raciocínio as leis e decretos‑leis timorenses como possíveis
fontes de direito para direitos materialmente fundamentais uma vez que, como
já visto, a CRDTL atribui competência legislativa ao Parlamento Nacional e
ao Governo.
Um outro ponto será o de saber se a referida palavra “lei” também inclui
as normas contidas no direito internacional de direitos humanos? Ou seja,
poderá concluir‑se que um direito inscrito numa Convenção internacional
possa vir a ser considerado como direito materialmente fundamental? No texto
expresso da CRDTL, não encontramos uma resposta direta a esta pergunta (146).
Entendemos que a análise que empreendemos não é prejudicada pelo facto
de o texto português referir a palavra “leis” e não “lei”, como no texto timorense.
(145)
Cfr. Artigo. 112.º‑1 da Constituição portuguesa.
(146)
As Constituições angolana e cabo‑verdiana determinam expressamente a
aplicação do regime dos direitos fundamentais aos direitos de natureza análoga encon‑
trados nos tratados internacionais de direitos humanos.
(144)
Coimbra Editora ®
284
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Não é de pouca importância o facto de que Timor‑Leste se mostrou, desde
cedo, sensível e respeitador do direito internacional dos direitos humanos. Por
essa razão, a CRDTL prevê em três normas distintas o papel do direito inter‑
nacional dos direitos humanos no ordenamento jurídico‑constitucional: a
receção do direito internacional e a posição supralegal dos tratados internacio‑
nais ratificados por Timor‑Leste (artigo 9.º), o reconhecimento de que as
crianças detêm não só os direitos fundamentais inscritos na Constituição mas
todos aqueles previstos no direito internacional dos direitos humanos
(artigo 18.º‑1) e ainda a determinação de um critério de interpretação respei‑
tador da DUDH (artigo 23.º). À falta de melhor argumento, sempre podere‑
mos considerar que a palavra “lei” também poderá incluir a própria lei inter‑
nacional, já que o direito internacional se integra no direito ordinário, como
já abordado no Capítulo I, e que esta abertura só vem beneficiar o próprio
âmbito de proteção do sistema de direitos fundamentais. Ainda, tal interpre‑
tação parece ser adequada em virtude da aplicação do princípio da máxima
efetividade na hermenêutica constitucional. Além disso, a consideração dos
direitos humanos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos
como direitos só materialmente fundamentais teria a consequência imediata
de apoiar o processo de concretização da norma constitucional, sobretudo,
quando esta se mostra concisa.
Por último, é importante refletir sobre uma outra questão e que é a de
saber como identificar quando estamos perante um direito só materialmente
fundamental? Ou seja, quando é que um direito que não está consagrado na
constituição pode ascender à categoria de direito fundamental? O uso dos
critérios da analogia e da fundamentalidade, já abordados supra, são também
aplicáveis a este processo. Gomes Canotilho elucida‑nos sobre esta questão
ao considerar que “[a] orientação tendencial de princípio é a de considerar
como direitos extraconstitucionais materialmente fundamentais os direitos
equiparáveis pelo seu objecto e importância aos diversos tipos de direitos
formalmente fundamentais” (147), concluindo, ainda, que esta abertura se aplica
a todos os direitos fundamentais, sejam direitos, liberdades e garantias ou
direitos económicos, sociais e culturais (148). Por maioria de razão, dado que
nos inclinamos para considerar que Timor‑Leste tem um regime único de
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 404.
Ibid.
(147)
(148)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
285
direitos fundamentais, também se poderá concluir de igual forma para o caso
timorense (149).
3.3.3 D
ireitos Fundamentais de Natureza Análoga aos Direitos
Fundamentais
A Constituição timorense é omissa quanto à possibilidade de existência
de direitos de natureza análoga. No entanto, pela via interpretativa, incli‑
namo‑nos para a opinião segundo a qual se deve reconhecer também como
direitos fundamentais os direitos de natureza análoga aos direitos fundamentais,
já que a concretização do direito com recurso à figura da analogia integra os
princípios gerais do Direito, como aliás já está expressamente consagrado no
Código Civil timorense (150).
Entende‑se que o processo de determinação da existência ou não de direi‑
tos de natureza análoga aos direitos fundamentais deve basear‑se nas caracte‑
rísticas próprias dos direitos fundamentais, estas já consideradas no Capítulo I.
Nas palavras de Jorge Miranda, “não podem ser considerados direitos funda‑
mentais todos os direitos, individuais ou institucionais, negativos ou positivos,
materiais ou procedimentais, provenientes de fontes internas e internacionais.
Apenas alguns desses direitos o podem ser: apenas aqueles que, pela sua fina‑
lidade ou pela sua fundamentalidade, pela conjugação com direitos fundamen‑
tais formais, pela natureza análoga à destes (…), ou pela sua decorrência
imediata de princípios constitucionais, se situem a nível da Constituição mate‑
rial” (151).
O critério da fundamentalidade revela‑se crucial para se apurar se um
direito sem assento constitucional ou previsto fora do catálogo constitucional
dos direitos fundamentais pode vir a ser classificado de direito fundamental.
Assim sendo, entende‑se que tal poderá vir a acontecer caso o direito em aná‑
lise se revele fundamental à proteção jurídica da dignidade humana, nomea‑
damente, pelo valor que representa para a consciência jurídica e axiológica de
determinada comunidade.
No mesmo sentido, ver Direitos Humanos — Centro de Investigação
Interdisciplinar, Constituição Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste,
2011, 90.
(150)
Artigo 9.º Código Civil timorense.
(151)
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2000, Tomo IV:168.
(149)
Coimbra Editora ®
286
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
4. Efetividade dos Direitos Fundamentais
A plena realização dos direitos fundamentais contidos na Constituição
está intimamente ligada à sua efetivação. Será de supor que, ao incluir um
elenco de direitos fundamentais na Constituição, a Assembleia Constituinte
teria como objetivo que estes direitos fundamentais se repercutissem na vida
do povo timorense. Relembra‑se aqui que as normas constitucionais, inclusi‑
vamente, aquelas que reconhecem os direitos fundamentais, são verdadeiras
normas de caráter jurídico‑positivo, e não de caráter meramente proclamatório,
como já abordado.
A efetivação revela‑se através da aplicação de uma norma que tenha a
força jurídica capaz de produzir algum efeito na ordem jurídica. De acordo
com Vieira de Andrade, a efetividade da norma constitucional é “uma ques‑
tão do grau ou intensidade da sua real força normativa, medida pela capaci‑
dade do ordenamento jurídico‑constitucional de assegurar a sua realização
na vida comunitária” (152). Assim, uma compreensão de “como” e “quando” se
dá a aplicação das normas de direitos fundamentais e de quais as consequên‑
cias jurídicas daí decorrentes representa o verdadeiro centro do regime dos
direitos fundamentais. A efetividade de um direito fundamental está direta‑
mente relacionada com a sua capacidade de aplicação e com a eficácia jurídica
da norma em questão.
Na Constituição da República Democrática de Timor‑Leste, não existe
uma norma expressa sobre a aplicação (ou aplicabilidade) dos direitos funda‑
mentais. No que respeita à força jurídica das normas constitucionais, a CRDTL
limita‑se a determinar o princípio da constitucionalidade (artigo 2.º‑3) e a
obrigação dos tribunais de não aplicarem normas contrárias à Constituição
(artigo 120.º).
A maior parte dos textos constitucionais dos países da CPLP contem uma
norma específica sobre a aplicação dos direitos fundamentais. Ao examinarmos
estes textos constitucionais no que respeita à força jurídica e/ou aplicabilidade
dos direitos fundamentais, deparamos com uma assinalável diferença entre as
diversas constituições da CPLP, que varia entre uma aplicação imediata mais
“generosa” de todos os direitos fundamentais e uma aplicação direta de somente
certos direitos fundamentais.
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa de
1976, 2012, 191‑192.
(152)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
287
A Constituição moçambicana é, aparentemente, a que mais limita a apli‑
cação direta dos direitos fundamentais. A sua redação identifica que os “direi‑
tos e liberdades individuais são diretamente aplicáveis” (artigo 56.º‑1) (153).
Na sua Constituição de 2010, Angola determina a aplicação direta dos
“direitos, liberdades e garantias fundamentais” (154) (artigo 28.º‑1), bem como
um regime específico para a aplicação dos direitos económicos, sociais e cul‑
turais, condicionando‑os a uma realização progressiva de acordo com a dispo‑
nibilidade de recursos (artigo 28.º‑2) (155). Angola optou por moldar a aplicabi‑
lidade e a eficácia dos direitos económicos, sociais e culturais de forma
semelhante à prevista no PIDESC.
Cabo Verde e Portugal estabelecem a aplicação direta aos “direitos, liber‑
dades e garantias” (156), não consagrando uma norma congénere sobre a aplicação
dos direitos económicos, sociais e culturais (157). A doutrina portuguesa, nomea­
Cfr. Acórdão n.º 03/CC/2011, de 7 de Outubro — Processo n.º 02/
/CC/2011 (Fiscalização concreta de constitucionalidade) do Conselho Constitucional
de Moçambique, p. 2 e 13. O artigo 56.º‑1 da Constituição moçambicana constitui
um princípio geral relativo aos direitos, liberdades e garantias individuais inseridos no
Capítulo III do Título III sobre os direitos, deveres e liberdades fundamentais. Os
direitos fundamentais na Constituição moçambicana dividem‑se, para além de um
capítulo que prevê os princípios gerais de todos os direitos fundamentais, um capítulo
sobre os “direitos, deveres e liberdades” (artigo 48.º ao 55.º), “direitos, liberdades e
garantias individuais” (artigo 56.º ao 72.º), “direitos, liberdades e garantias de partici‑
pação política” (artigo 73.º ao 81.º) e “direitos e deveres económicos, sociais e culturais”
(artigo 82.º ao 95.º).
(154)
Para mais sobre a questão da aplicabilidade direta na constituição angolana,
ver Machado e Costa, Direito Constitucional Angolano, 2011, 181‑182.
(155)
V. Jorge Miranda, a propósito da Constituição angolana em Jorge
Miranda, ‘A Constituição de Angola de 2010’, Systemas — Revista de Ciência
Jurídica E Econômicas 2.n.1 (2010): 119‑146. O texto da Constituição da
Guiné‑Bissau aparenta encontrar‑se próximo do da Constituição de Angola ao
determinar no seu artigo 58.º uma norma que condiciona a “realização integral
dos direitos económicos, sociais e culturais” a uma implementação progressiva, ao
mesmo tempo que também determina a aplicação direta dos “direitos, liberdades
e garantias” (artigo 30.º‑1).
(156)
Artigo 18.º da Constituição cabo‑verdiana e artigo 18.º‑1 da Constituição
portuguesa.
(157)
Nota‑se que a Constituição cabo‑verdiana determina no seu Artigo 1.º‑4
que “[a] República de Cabo Verde criará progressivamente as condições indispen‑
(153)
Coimbra Editora ®
288
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
damente Reis Novais, tem vindo a argumentar pelo reconhecimento de um
regime unitário de aplicação dos direitos fundamentais, com um nível de pro‑
teção essencialmente idêntico ao dos direitos, liberdades e garantias, não obs‑
tante a existência de diferenças que podem ter impacto no seu grau de eficácia.
Para Reis Novais, o regime específico dos direitos, liberdades e garantias, que
inclui a determinação da aplicabilidade direta destes, não vai para além daquilo
que, na verdade, se deriva automaticamente da natureza constitucional dos
direitos fundamentais, inclusivamente, dos princípios estruturantes do Estado
de direito e do princípio da constitucionalidade (158).
Por sua vez, o Brasil prevê que “as normas definidoras dos direitos e
garantias fundamentais têm aplicação imediata” (artigo 5.º, §1) (159). Entende‑se
que esta norma reconhece que “a imediata aplicabilidade alcança todas as
normas de direitos fundamentais, independentemente de sua localização no
seu texto constitucional (…)” (160). Assim, na Constituição brasileira não há
uma distinção expressa entre os direitos, liberdades e garantias e os direitos
económicos, sociais e culturais, considerando que todas as categorias de direi‑
tos fundamentais estão sujeitas a um mesmo regime jurídico para a sua apli‑
cação.
sáveis à remoção de todos os obstáculos que possam impedir o pleno desenvolvi‑
mento da pessoa humana e limitar a igualdade dos cidadãos e a efectiva participação
destes na organização política, económica, social e cultural do Estado e da sociedade
cabo‑verdiana.” Entende‑se que esta norma não detém a capacidade de criar espe‑
cificamente um regime para a aplicabilidade dos direitos económicos, sociais e
culturais, servindo antes como um princípio para as normas constitucionais. Cfr.
Elisa Solange Gome Mendes, Os Direitos Sociais Nas Constituições Portuguesa E
Cabo‑Verdiana (Lisboa: Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Setembro
2010).
(158)
Ver Novais, Direitos Sociais, 358‑ss.
(159)
J. J. Gomes Canotilho, Mendes, Gilmar Ferreira et al., Comentários à
Constituição do Brasil, 1.ª Ed. (São Paulo: Saraiva e Almedina, 2013), 514. O artigo 5.º,
para 1 “expressamente faz referência às normas definidoras de direitos e garantias
fundamentais e não apenas aos direitos individuais [os direitos, liberdades e garantias
pessoais]. A CF não estabeleceu, neste ponto, distinção expressa entre os direitos, de
liberdades e os direitos sociais, como o fez, por exemplo, o constituinte português, de
tal sorte que todas as categorias de direitos fundamentais estão sujeitas, em princípio, ao
mesmo regime jurídico.” (itálico nosso) (p. 514‑515)
(160)
Ibid. Ver, ainda, Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 3.2.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
289
Face à ausência de qualquer referência à aplicação dos direitos fundamen‑
tais no texto da Constituição timorense de 2002 (161), qual é o âmbito da apli‑
cabilidade e eficácia dos direitos fundamentais?
4.1 Conceitos Conexos e Afins: Aplicabilidade, Exequibilidade,
Eficácia e Justiciabilidade
Antes de entrar no debate sobre a natureza e a medida da aplicação dos
direitos fundamentais na Constituição de 2002, é importante definir, ainda que
de forma breve, os termos jurídicos comummente utilizados pela doutrina e, em
certa medida, pela jurisprudência estrangeira, a propósito desta matéria (162). No
âmbito da efetivação dos direitos fundamentais, consideram‑se conceitos relacio‑
nados a aplicabilidade, a eficácia, a exequibilidade e, ainda, a justiciabilidade.
Refira‑se que, em virtude do caráter pedagógico desta publicação, será
feito um esforço na tentativa de sistematizar estes conceitos e de fazer uso de
uma linguagem uniforme, apesar do uso de termos diferentes nas constituições
dos países da CPLP (163).
A aplicabilidade, em poucas palavras, denota a capacidade de aplicação da
norma. Ainda, uma norma é dotada de aplicação somente quando possui o
potencial de produzir efeitos na ordem jurídica. Assim, a eficácia jurídica
relaciona‑se com a capacidade de gerar efeitos, com a possibilidade de aplicação
da norma, ou, ainda, com a sua exequibilidade (164). A eficácia jurídica e a
(161)
Note‑se que a Constituição são‑tomense de 2003 também não prevê uma
norma específica sobre a aplicabilidade dos direitos fundamentais.
(162)
A questão da aplicabilidade e da eficácia dos direitos fundamentais é muito
debatida na doutrina, sendo particularmente abundante na doutrina constitucional
portuguesa e brasileira. Entre outros, ver especialmente Ingo Sarlet que dedica uma
publicação na sua íntegra, à questão da eficácia dos direitos fundamentais (Sarlet,
A Eficácia dos Direitos Fundamentais). Em Portugal, ver Vieira de Andrade, Os Direitos
Fundamentais Na Constituição Portuguesa de 1976, 2009, 191‑199; Novais, Direitos
Sociais, 366‑371.
(163)
Em razão do termo específico utilizado na Constituição portuguesa que
denota uma determinação ou afirmação — “aplicação direta” — e não uma hipótese,
por vezes, na doutrina portuguesa assimila‑se o termo “aplicação direta” ao de “eficácia
plena” e/ou ao de “aplicação imediata”.
(164)
A CRDTL usa o termo “eficácia jurídica” em sentido mais restrito, relacio‑
nado com a vigência da norma no ordenamento jurídico, ao relacionar a “eficácia
Coimbra Editora ®
290
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
aplicabilidade, entende‑se, são aspetos indissociáveis da norma constitucional.
Assim, quando uma norma detém um grau de eficácia mínima, pode vir a ser
aplicada num caso concreto. A aplicabilidade é, na realidade, inerente à eficá‑
cia (165).
Não se pode separar a aplicabilidade da eficácia da norma. José Afonso
da Silva afirma que “eficácia e aplicabilidade das normas constitucionais cons‑
tituem fenômenos conexos, aspecto talvez de um mesmo fenômeno, encarados
sob prismas diferentes: aquela como potencialidade; esta como realizabilidade,
praticidade. Se a norma não dispõe de todos os requisitos para sua aplicação
aos casos concretos, falta‑lhe eficácia, não dispõe de aplicabilidade. Esta se
revela, assim, como possibilidade de aplicação. Para que haja essa possibilidade,
a norma há que ser capaz de produzir efeitos jurídicos” (166).
A aplicabilidade pode ser direta ou indireta, bem como imediata ou
mediata. A primeira característica da aplicabilidade refere‑se à forma como se
dá a aplicação e a segunda expressa essencialmente uma relação temporal.
A aplicabilidade direta relaciona‑se com a capacidade de aplicar a norma
constitucional sem o intermédio de uma norma infraconstitucional para
determinar o seu conteúdo. Assim, os direitos fundamentais quando possuem
uma aplicabilidade direta não requerem uma lei conformadora ou concreti‑
zadora que os densifique ou concretize para poderem ser aplicados. Os
direitos fundamentais são “regras e princípios jurídicos, imediatamente
eficazes e atuais, por via directa da Constituição e não através da auctoritas
interpositio do legislador” (167). A aplicabilidade direta dos direitos fundamen‑
tais é, como nos lembra Vieira de Andrade, uma verdadeira expressão do
princípio da constitucionalidade (168). Os direitos fundamentais de aplicabi‑
lidade direta têm a sua perfeição presumida, ou seja, possuem uma “autos‑
suficiência baseada no caráter determinável do respetivo conteúdo do sen‑
jurídica” com a publicação dos atos. Para uma maior discussão sobre a diferença entre
“eficácia jurídica” dos direitos fundamentais e a vigência destas normas, ver, Sarlet,
A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte, 1.
(165)
Cfr. Ibid.
(166)
Silva, Aplicabilidade Das Normas Constitucionais, 49‑50.
(167)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 438.
(168)
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 194. Ver, ainda, Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da
Constituição, 245‑248.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
291
tido” (169) e, assim, gerando o “dever dos juízes e dos demais operadores
jurídicos de aplicarem os preceitos constitucionais e a autorização para com
esse fim os concretizarem por via interpretativa” (170).
A aplicação indireta, pelo contrário, exige uma norma infraconstitucional
que tenha a capacidade de densificar a norma de direito fundamental. A apli‑
cação do direito fundamental dá‑se através de uma outra norma não constitu‑
cional, sendo assim aplicada de forma indireta. Neste caso, sem uma lei con‑
formadora ou concretizadora não se consegue aplicar o direito fundamental
por não se conseguir determinar o seu sentido. Assim, para aqueles direitos de
aplicabilidade indireta, a lei torna‑se um instrumento essencial para a concre‑
tização da norma constitucional. A falta de conformação legal de um direito
fundamental pode gerar questões de inconstitucionalidade por omissão, em
virtude da não implementação de um verdadeiro dever quando imposto ao
legislador ordinário pela constituição (171).
Refira‑se que, tanto a aplicabilidade direta como a indireta, têm por base
a relação entre as normas constitucionais de direitos fundamentais e as normas
legislativas.
A aplicabilidade, mediata e imediata, de um direito fundamental rela‑
ciona‑se com o tempo da sua aplicação, isto é, com o momento em que os
direitos fundamentais possuem força normativa eficaz. Os direitos fundamen‑
tais de aplicação imediata são aqueles que têm a capacidade de serem aplicados
imediatamente, aquando da entrada em vigor da sua norma no texto consti‑
tucional. Assim, gozam da “possibilidade imediata de invocação dos direitos
por força da Constituição, ainda que haja falta ou insuficiência da lei” (172).
Ao contrário, os direitos fundamentais de aplicabilidade mediata são aqueles
que só são passíveis de ser aplicados num tempo posterior à entrada em vigor
da norma constitucional, isto é, o prazo para a aplicação destes é diferido para
o futuro. Aqueles direitos que são indiretamente aplicáveis não serão de apli‑
cabilidade imediata, pois estão sujeitos à elaboração de legislação conformadora
que necessariamente só entrará em vigor depois da vigência da Constituição.
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 195.
(170)
Ibid., 195‑196.
(171)
Vide Capítulo VI, 3.3. O Processo de Fiscalização da Inconstitucionalidade
por Omissão.
(172)
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2000, Tomo IV: 313.
(169)
Coimbra Editora ®
292
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Os direitos de aplicabilidade direta não são necessariamente de aplicabilidade
imediata. Explica‑nos Ingo Sarlet que fatores capazes de ter impacto na apli‑
cabilidade imediata do âmbito de proteção ideal de um direito social incluem
a “ausência de recursos (limite da reserva do possível) e a ausência de legiti‑
mação dos tribunais para a definição do conteúdo e do alcance da presta‑
ção” (173).
A doutrina é consensual ao afirmar que todas as normas constitucionais
encerram sempre um mínimo de eficácia jurídica (174). “Todas as normas cons‑
titucionais são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma função útil
no ordenamento” (175), mesmo uma norma de “caráter eminentemente progra‑
mático e contendo princípios de natureza geral, no mínimo estabelece alguns
parâmetros para o legislador, no exercício da sua competência concretiza‑
dora” (176). Refira‑se, ainda, que na hermenêutica constitucional se aplica o
princípio da máxima eficácia e efetividade das normas constitucionais, a partir
do qual “a uma norma constitucional deve ser atribuído o sentido que maior
eficácia lhe dê” (177).
A eficácia jurídica, nas palavras de Ingo Sarlet, é “a possibilidade (no
sentido de aptidão) de a norma vigente (juridicamente existente) ser aplicada
aos casos concretos e de — na medida de sua aplicabilidade — gerar efeitos
jurídicos” (178). A eficácia relaciona‑se com a qualidade da norma em produzir
efeitos jurídicos.
Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte, 3.3.2.
Nas palavras de Sarlet, “todos os autores (…) partem da premissa de que
inexiste norma constitucional completamente destituída de eficácia, sendo possível
sustentar‑se, em última análise, uma graduação da carga eficacial das normas consti‑
tucionais” (Ibid., 2.ª Parte, 2.3.)
(175)
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2003, Tomo II:291.
(176)
Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte, 2.2.
(177)
José Joaquim Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Cons‑
tituição, Reimpressão da 7.ª edição (Coimbra: Almedina, 2010), 1224. Ainda, Sarlet
considera que existe na constituição “uma espécie de mandado de otimização (ou
maximização), isto é, estabelecendo aos órgãos estatais a tarefa de reconhecerem a maior
eficácia possível aos direitos fundamentais, entendimento este sustentado, entre outros
no direito comparado, por Gomes Canotilho e compartilhado, entre nós, por Flávia
Piovesan” (Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte, 3.2.). Ver, ainda,
Canotilho et al., Comentários à Constituição do Brasil, 515.
(178)
Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte, 1.
(173)
(174)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
293
Como explica Jorge Miranda, “se a norma constitucional for exequível
por si mesma (…) consistirá na possibilidade imediata de invocação dos direi‑
tos por força da Constituição, ainda que haja falta ou insuficiência da lei” (179).
Assim, a exequibilidade de uma norma está intimamente ligada à sua eficácia,
relacionando‑se com os graus da aplicabilidade das normas e determinando a
sua real força jurídica.
O constitucionalista brasileiro José Afonso da Silva identificou a existên‑
cia de três categorias distintas no que respeita à eficácia jurídica das normas
constitucionais: eficácia plena, eficácia contida e eficácia limitada (180).
As normas de eficácia plena possuem aplicabilidade direta, imediata e
integral. São estas que “desde a entrada em vigor da constituição, produzem
todos os seus efeitos essenciais (ou têm a possibilidade de produzi‑los), todos
os objetivos visados pelo legislador constituinte, porque este criou, desde logo,
uma normatividade para isso suficiente, incidindo direta e imediatamente sobre
a matéria” (181).
As normas de eficácia limitada ou reduzida encontram‑se praticamente
numa posição oposta à das normas de eficácia plena, uma vez que a sua apli‑
cabilidade é indireta, mediata e reduzida, “não tendo recebido do legislador
[constituinte] a normatividade suficiente para, por si só e desde logo, serem
aplicáveis e gerarem seus principais efeitos, reclamando, por este motivo, a
intervenção legislativa” (182). Nestes casos, o direito fundamental não é determi‑
nado com suficiente densidade normativa na Constituição, precisando de uma
lei para o concretizar e, ainda, de diplomas normativos que determinem os
mecanismos necessários ao seu exercício. Assim, não só a sua determinabilidade
é fraca, como também o seu “exercício efetivo está necessariamente dependente
de uma regulação complementar, de uma organização ou de um procedi‑
mento” (183). Exemplos de normas com eficácia limitada ou reduzida são as
normas declaratórias de princípios programáticos, institutivos e organizatórios.
Miranda, Manual de Direito Constitucional, 2000, Tomo IV:313.
Para um resumo desta classificação, Silva, Aplicabilidade Das Normas Cons‑
titucionais, 82‑87. Ver, ainda, Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte,
2.2.
(181)
Silva, Aplicabilidade Das Normas Constitucionais, 82.
(182)
Sarlet, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2.ª Parte, 2.2.
(183)
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 197.
(179)
(180)
Coimbra Editora ®
294
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Entre estes extremos, encontram‑se as normas de eficácia contida. Estas
normas são dotadas de aplicabilidade direta e imediata, mas não de força jurí‑
dica integral. Nas palavras de José Afonso Silva, estamos perante direitos fun‑
damentais de eficácia contida no que diz respeito às “normas que incidem
imediatamente e produzem (ou podem produzir) todos os efeitos queridos,
mas prevêem meios ou conceitos que permitem manter sua eficácia contida
em certos limites, dadas certas circunstâncias” (184). Estas normas são, na reali‑
dade, “sujeitas a restrições previstas ou dependentes de regulamentação que
limite sua eficácia e aplicabilidade” (185). A eficácia contida estaria relacionada
com aquelas normas cujo exercício efetivo requer a sua regulamentação por
norma infraconstitucional, mesmo que o direito fundamental seja suficiente‑
mente determinável por interpretação legislativa (186).
Se, como já sublinhado acima, todas as normas contêm algum nível de
eficácia, na prática, a questão remonta à graduação da sua eficácia ou do seu
nível de exequibilidade. Assim, como determinar o nível da eficácia das dife‑
rentes normas de direitos fundamentais? De um modo geral, as doutrinas
portuguesa e brasileira, frutíferas neste debate sobre a questão da aplicabilidade,
eficácia e exequibilidade das normas constitucionais, consideram que a eficácia
(ou exequibilidade) de uma norma constitucional se encontra diretamente
relacionada com a densidade dos preceitos constitucionais (187). Assim, é a par‑
tir do sentido e do alcance do preceito constitucional sob análise que se pode
determinar a eficácia de um direito fundamental. O fator determinante é o
conteúdo do dispositivo da norma, pois a diferença na densidade de uma norma
constitucional pode modificar o seu grau de exequibilidade. Assim, o grau de
eficácia da norma está diretamente relacionado com a identificação do “grau
suficiente de determinabilidade” (188), o que remete para o seu conteúdo jurídico
e para a sua densidade normativa. Portanto, “quando a constituição consagra
normas sem suficiente densidade para se tornarem normas exequíveis por si
Silva, Aplicabilidade Das Normas Constitucionais, 82.
Ibid., 83.
(186)
Cfr. Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2009, 197.
(187)
Ver Ibid., 195.
(188)
J.J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, Constituição Da República Portu‑
guesa Anotada — Artigos 1 a 295, 4.ª Edição, vol. 1 (Coimbra: Coimbra Editora,
2007), 382.
(184)
(185)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
295
mesmas” (189) é, de forma implícita, enviada ao legislador “a tarefa de lhe dar
exequibilidade prática” (190).
Considera‑se, assim, que a determinação dos efeitos jurídicos e a extensão
de um direito fundamental estão relacionadas com a sua “função e forma de
positivação” (191).
Por fim, vale a pena referir um outro termo jurídico: “justiciabilidade”
dos direitos fundamentais. A justiciabilidade relaciona‑se com a capacidade de
os tribunais poderem aplicar as normas de direitos fundamentais, na sua ativi‑
dade judicial. A justiciabilidade é a capacidade de os direitos fundamentais
serem exigidos judicialmente, de serem invocados perante os órgãos judiciá‑
rios (192).
4.2 Aplicabilidade e Eficácia dos Direitos Fundamentais em
Timor‑Leste
Como já mencionado, a CRDTL não prevê qualquer norma expressa que
refira especificamente a questão da aplicabilidade ou eficácia jurídica dos direi‑
tos fundamentais, quer se trate dos direitos, liberdades e garantias, quer dos
direitos económicos, sociais e culturais (193).
A aplicabilidade direta ou não de um direito fundamental é uma questão de
extrema relevância na prática, apesar de não ser uma tarefa simples. Em Timor‑Leste,
há ainda, e apesar do direito subsidiário Indonésio (194), lacunas no ordenamento
jurídico infraconstitucional. Tal deve‑se, por um lado, ao facto de compreensivel‑
mente ainda não haver produção legislativa suficiente e, por outro lado, à circuns‑
tância de haver um número substancial de diplomas legislativos Indonésios que
se encontram desfasados do enquadramento constitucional, da estrutura organi‑
zativa do Estado e da realidade sociocultural e económica timorenses (195).
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1034.
Ibid.
(191)
Canotilho et al., Comentários à Constituição do Brasil, 515.
(192)
Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Comentário Geral
N.º 3: Artigo 2.º Número 1 (A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes), para. 6.
(193)
No sentido do grau da sua força e não da sua vigência no ordenamento
jurídico.
(194)
Vide Capítulo II, 2.8 Constituição e Ordenamento Jurídico.
(195)
Sobre leis desfasadas, ver Cap VI, 3.3. O Processo de Fiscalização da Incons‑
titucionalidade por Omissão.
(189)
(190)
Coimbra Editora ®
296
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Considerando a inexistência de regras expressas específicas sobre a aplicabi‑
lidade e a eficácia, inclinamo‑nos para entender que, em Timor‑Leste, deve vigo‑
rar para todos os direitos fundamentais um regime único nesta matéria, o que
decorre, entre outros argumentos, dos princípios da constitucionalidade e da
máxima efetividade da Constituição. Como veremos abaixo, a determinação de
um regime geral único nesta matéria não significa que a aplicabilidade e a eficácia
dos direitos, liberdades e garantias e dos direitos económicos, sociais e culturais
sejam exatamente iguais. Tal nunca poderia ser, tendo em consideração as dife‑
renças entre estes direitos e a sua própria densidade normativa na Constituição.
Apesar de não haver trabalhos preparatórios abrangentes sobre a elabora‑
ção da Constituição de 2002 capazes de determinar a razão da inexistência de
uma norma constitucional neste âmbito, o contexto do desenvolvimento da
CRDTL, incluindo o paradigma ideológico da época, poderão dar‑nos pistas
que poderão apontar para uma expectativa de se conceder um valor aos direi‑
tos económicos, sociais e culturais, no mínimo ao mesmo nível que as liber‑
dades tradicionais.
Sendo elaborada em 2001, a CRDTL teve o potencial de beneficiar do
desenvolvimento que já existia nesta data, tanto ao nível do direito nacional,
especialmente brasileiro e português, como ao nível do direito internacional dos
direitos humanos, e que se direcionava para uma maior aproximação no que
respeita à aplicabilidade de todos os direitos fundamentais, indiferentemente do
seu rótulo de direito civil e político ou de direito económico, social e cultural.
A esta conjetura do desenvolvimento jurídico dos direitos fundamentais
e dos direitos humanos aliou‑se a realidade, segundo a qual, em 2002, aquando
da sua independência, Timor‑Leste era simultaneamente o país mais novo do
mundo e um dos países de mais acentuado índice de pobreza do mundo (196),
pelo que é de supor que o legislador constituinte tivesse querido dar uma
relevância significativa à realização dos direitos sociais tendo em vista corrigir
os desafios no que respeitava aos índices de pobreza então identificados.
Considerando o enquadramento conceptual dos direitos fundamentais
elencados na CRDTL, como já abordado acima, avançamos infra com uma
Cfr. Ukun Rasik A’an (Dili: Programa das Nacões Unidas para o Desenvol‑
vimento, 2002). Ver, ainda, ‘Relatório Do PNUD Classifica Timor‑Leste Como País
Mais Pobre Da Ásia’, Público, de Maio de 2002, http://www.publico.pt/mundo/noticia/
relatorio‑do‑pnud‑classifica‑timorleste‑como‑pais‑mais‑pobre‑da‑asia‑142227. (acedido
em Setembro 2014).
(196)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
297
proposta de sistematização de indicadores que podem orientar, do ponto de
vista teórico e prático, a questão da eficácia (e aplicabilidade) dos direitos
fundamentais no desenvolvimento do Direito timorense:
— A inadequação de considerar uma divisão fixa quanto à aplicabilidade
e à eficácia em virtude da categoria do direito fundamental em questão
(direito, liberdade, garantia versus direito económico, social, cultural):
não encontramos razão para que, à luz da Constituição, se deva con‑
siderar, sem mais, que os direitos, liberdades e garantias são de apli‑
cabilidade direta, enquanto os direitos económicos, sociais e culturais
não são de aplicabilidade direta.
— A determinação do tipo de aplicabilidade e do grau da eficácia depende
da norma em questão na situação específica: tanto a aplicabilidade como
a eficácia são determinadas pela densidade da norma que prevê o
direito fundamental na própria Constituição.
— Os direitos fundamentais têm dimensões positivas e negativas: tanto os
direitos, liberdades e garantias como os direitos económicos, sociais
e culturais possuem tanto uma dimensão positiva como negativa.
Estas dimensões respondem de forma diferente no que diz respeito à
aplicabilidade e ao grau de eficácia das normas de direitos fundamen‑
tais. Deve‑se, no processo de efetivação do direito fundamental,
identificar as diferentes dimensões dos direitos e distingui‑las. Reco‑
nhece‑se, porém, que a dimensão principal dos direitos económicos,
sociais e culturais, na tentativa de assegurar uma eficácia plena, é a
positiva, isto é, relaciona‑se com o direito de prestação.
— O conteúdo da norma constitucional deve ser determinado ou determi‑
nável para uma aplicação direta: a tarefa de determinar o sentido da
norma, com base na sua densidade normativa, é do juiz, “já que o
juiz — enquanto aplicador direto ou enquanto instância de controle
— é naturalmente a entidade adequada para determinar o sentido
dos conceitos imprecisos contidos nas normas jurídicas” (197). Note‑se
que muitas questões essenciais dos direitos, liberdades e garantias são
de determinabilidade complexa, como por exemplo, o próprio direito
à vida (a determinação de quando a vida começa, por exemplo, é uma
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 196.
(197)
Coimbra Editora ®
298
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
questão de bastante complexidade) e o direito de liberdade de expres‑
são. Assim, não se pode considerar categoricamente que uma dificul‑
dade no processo de determinação de um direito económico, social
ou cultural necessariamente resulte na sua indeterminabilidade pela
via interpretativa (198).
— O conteúdo normativo determinante do nível de eficácia de um direito
é composto pela previsão constitucional bem como pela sua legislação
conformadora: como já abordado, a concretização de um direito fun‑
damental por lei representa parte do conteúdo normativo do direito
fundamental, parte essa que deverá ser concatenada com a previsão
constitucional.
— O direito internacional de direitos humanos serve como instrumento de
apoio importante no processo de determinação do âmbito de proteção do
direito fundamental quer por via concretizadora quer por via interpretativa:
caso a abertura dos direitos fundamentais incorpore os padrões relevan‑
tes previstos nos tratados internacionais de direitos humanos, as normas
dos tratados formam, conjuntamente com a norma constitucional, o
conteúdo normativo do direito fundamental. No entanto, caso os
direitos humanos convencionais não sejam considerados como direitos
só materialmente fundamentais, estes devem ser utilizados como ins‑
trumento na interpretação, pois fazem parte do ordenamento jurídico.
Na verdade, por vezes, o preceito de um direito humano em tratado
ratificado por Timor‑Leste estabelece esse direito de um modo mais
denso e consolidado do que a redação do direito fundamental na
CRDTL. Em razão da incorporação destes tratados no ordenamento
jurídico, deve o intérprete determinar o conteúdo do direito funda‑
mental, fazendo uso do direito internacional (199). Tal sucede, por
exemplo, no direito da liberdade de religião (200) e no direito à saúde (201).
Quanto à questão da indeterminabilidade dos direitos sociais, ver Novais,
Direitos Sociais, 141‑ss.
(199)
Vide Capítulo I, 4. Relação entre o Direito Interno e o Direito Internacional.
(200)
Ao comparar o artigo 45.º da CRDTL com o artigo 18.º do PIDCP
observa‑se que o artigo 18.º do PIDCP é mais denso do que o artigo relevante
da CRDTL.
(201)
O direito à saúde do PIDESC contem um elenco de direitos subjetivos
relativos à saúde com base na determinação das obrigações do Estado, inclusivamente
o acesso à “[p]rofilaxia, tratamento e controlo das doenças epidémicas, endémicas,
(198)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
299
— A reserva do possível dos direitos a prestações dos direitos económicos,
sociais e culturais pode ter impacto na aplicabilidade imediata do
direito, assim como na sua eficácia: entende‑se que o conteúdo
mínimo essencial de um direito económico, social e cultural é de
aplicação imediata (202). As diferentes prestações que recaem sobre
a implementação progressiva mas que vão além do conteúdo
mínimo essencial, são de aplicabilidade mediata. Necessariamente,
aquelas prestações que não são de aplicabilidade imediata possuem
uma eficácia limitada. Lembra‑se ainda que a reserva do possível
tem a consequência possível de invadir o próprio conteúdo dos
direitos económicos, sociais e culturais, assim diminuindo a sua
eficácia (203).
Tendo em vista garantir a máxima efetividade da Constituição e tendo
por base uma distinção clara dos conceitos de aplicabilidade e eficácia como
abordado acima, entende‑se que todos os direitos fundamentais previstos na
Constituição da República Democrática de Timor‑Leste são prima facie capa‑
zes de serem aplicados, possuindo algum nível de eficácia. A presunção de
aplicabilidade direta relaciona‑se com a possibilidade de gerar algum efeito
jurídico e não necessariamente todos os efeitos jurídicos, como será abordado
logo abaixo. Ainda, é importante observar que o grau de eficácia difere de
acordo com a dimensão dos direitos — de liberdade e de prestação — tendo
a dimensão de liberdade um grau maior de eficácia. O grau de eficácia varia,
ainda, de acordo com a existência ou não de leis conformadoras dos direitos
fundamentais. Assim, a dimensão de prestação dos direitos sociais quando já
determinados por lei pode atingir uma eficácia plena. Pelo contrário, esta mesma
dimensão destes direitos pode ter uma eficácia bastante reduzida, se for dimi‑
nuta a sua densidade normativa e não havendo legislação infraconstitucional
que concretize a norma.
profissionais e outras” (artigo 12.º‑2/c). Na CRDTL, o preceito que prevê este direito
— o artigo 57.º — determina, em geral, o “direito à saúde e à assistência médica e
sanitária”. Diferente é o caso do direito à habitação, previsto no artigo 58.º da CRDTL
com uma densidade substancialmente mais acentuada do que a do conteúdo normativo
deste direito previsto no artigo 11.º do PIDESC.
(202)
Ver, supra, Capítulo III, 3.2.2 Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
(203)
Ver, supra, Cap III, 3.2.2 Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
Coimbra Editora ®
300
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
4.3 Vinculação dos Poderes Públicos: Implicações Práticas da
Aplicabilidade e Eficácia
O resultado direto principal da efetivação dos direitos fundamentais é a
vinculação dos poderes públicos. Várias são as obrigações a que os poderes
públicos estão vinculados, nomeadamente, e fazendo uso das palavras de Gomes
Canotilho a propósito do artigo 18.º‑1 da Constituição portuguesa, “a primeira
das ‘entidades públicas’ subordinadas aos direitos, liberdades e garantias é o
Estado (em sentido estrito), quer enquanto legislador, quer enquanto adminis‑
tração, quer enquanto juiz. O primeiro não pode emitir normas incompatíveis
com os direitos fundamentais, sob pena de inconstitucionalidade; a segunda,
quer no âmbito da ‘administração coactiva’, quer no âmbito da ‘administração
de prestações’, está igualmente obrigada a respeitar e dar satisfação aos direitos
fundamentais. O terceiro está obrigado a decidir o direito para o caso em
conformidade com as normas garantidoras de direitos, liberdades e garantias e
a contribuir para o desenvolvimento judicial do direito privado através da
aplicação directa dessas mesmas normas” (204).
O que torna por vezes esta questão mais difícil em Timor‑Leste é a ainda
inexistência de normas que determinem o nível esperado da responsabilidade
do Estado. Assim, a ausência de normas que imputem ao Estado uma respon‑
sabilização civil por omissão da função político‑legislativa, ou ainda um regime
que determine a existência e o âmbito da responsabilidade civil extracontratual
do Estado fazem com que estas questões sobre o nível de justiciabilidade dos
direitos fundamentais quanto à determinação de um dever de prestação se
tornem ainda mais pertinentes.
Um dos mecanismos que asseguram a vinculação dos poderes públicos é
o uso da via judicial, já que “[a]s decisões dos tribunais são de cumprimento
obrigatório e prevalecem sobre todas as decisões de quaisquer autoridades”
(artigo 118.º‑3 da CRDTL). É nesta perspetiva que se considera a questão da
justiciabilidade dos direitos fundamentais, sobretudo, dos direitos económicos,
sociais e culturais.
A garantia de eficácia plena de um direito aproxima‑se de uma efetiva‑
ção integral do direito fundamental. Por exemplo, a liberdade de expressão
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):383. Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na
Constituição Portuguesa de 1976, 2012, 205‑ss.
(204)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
301
terá uma eficácia plena se for assegurado que as pessoas tenham, de facto, a
possibilidade de expressar‑se sem censura. Mas, como já abordado, nem
sempre será conferida uma eficácia plena a todos os direitos, dado que há
restrições incontornáveis. Pode acontecer que a própria Constituição imponha
restrições que comprimam o âmbito de proteção de um direito; ou pode
ainda ser invocada a reserva do (financeiramente) possível que levará a uma
redução da eficácia de um direito fundamental.
Note‑se que o facto de um direito social ser de aplicabilidade direta e de
haver uma expectativa quanto à sua eficácia não implica, sem mais, que em
todas as situações devam os tribunais ordenar o cumprimento pelo Estado de
uma prestação específica, dando assim provimento a uma pretensão individual
(ou até mesmo coletiva), ou a implementação de um plano concreto que teria,
na opinião do tribunal, a capacidade de realizar os direitos fundamentais,
inclusivamente, os direitos sociais. A questão da justiciabilidade dos direitos
fundamentais está envolta em grande complexidade, pois pode relacionar‑se,
na sua dimensão positiva, com um princípio fundamental do Estado de Direito,
e que é o da separação de poderes.
No entanto, entende‑se que é, pois, essencial “destrinçar” as diferentes
questões do direito fundamental em apreço e, se necessário, na prática, deli‑
mitar o alcance da decisão do poder judiciário a fim de assegurar um nível
adequado de eficácia dos direitos sociais.
Nas palavras de Vieira de Andrade sobre a aplicabilidade direta no sentido
da eficácia e exequibilidade, “mesmo que a lei não existisse, ainda teria sentido
o caráter diretamente aplicável dos preceitos constitucionais, pelo menos na
medida em que, com base neles, o juiz poderá declarar a existência, o conteúdo
e os limites do direito individual, sendo pensável até a condenação concreta
do Estado à prática do ato omitido indispensável à plena realização desse direito
ou ao pagamento da indemnização eventualmente devida pelos danos causados
pela omissão ilegítima e culposa” (205). Assim, ainda que a falta da densidade
normativa e/ou legislativa possa impedir o Tribunal de determinar com preci‑
são a prestação pretendida, o tribunal não deve ficar em silêncio. O tribunal
sempre pode, no mínimo, declarar o direito, podendo ainda considerar não ser
possível fazer uma determinação específica no caso concreto, por dificuldades
ligadas à determinabilidade do nível de eficácia do direito em questão. Deste
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 198.
(205)
Coimbra Editora ®
302
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
modo, assegura‑se um nível mínimo de justiciabilidade dos direitos económi‑
cos, sociais e culturais em Timor‑Leste, essencial para a concretização dos
direitos fundamentais previstos na Constituição de 2002 (206).
A pretensão de acesso a um serviço garantido por um direito social, com
base numa norma já concretizada, poderá ser alcançada através da justiça
administrativa ordinária, assunto abordado no Capítulo VI. Ainda, é importante
considerar que, em Timor‑Leste, a maior parte dos direitos sociais, inclusiva‑
mente, o direito à saúde, garantias do trabalho, educação, meio ambiente e até
acesso à água para consumo já foram sujeitos a legislação conformadora e/ou
reguladora. Assim, nestes casos, a questão da aplicabilidade direta do direito
fundamental torna‑se uma questão de importância real somente dentro da
justiça constitucional, em que o parâmetro de avaliação é a própria Constitui‑
ção. Como já referido, é possível resolver questões de implementação dos
direitos fundamentais com o uso integrado de outras ferramentas jurídicas que
formam o ordenamento jurídico nacional, nomeadamente, a legislação e os
tratados internacionais de direitos humanos.
A função que os tribunais desempenham quanto às pretensões de justi‑
ciabilidade dos direitos sociais não é uniforme de país para país. Assim, numa
análise breve de direito comparado, encontram‑se países como a África do Sul,
em que os tribunais emitem decisões que vinculam o Governo a assegurar a
aplicação dos direitos sociais, como é a sua obrigação na Constituição e nos
tratados internacionais. Ou ainda, por exemplo, no Brasil, o poder judiciário,
em relação a direitos sociais verdadeiramente essenciais como a saúde, tem
vindo a decidir pela responsabilidade civil do Estado ou pela real prestação do
direito social aos indivíduos, em casos de violação do núcleo essencial do direito
em causa (é o caso de decisões dos tribunais que obrigam o Estado a assegurar
o acesso a um tratamento hospitalar de emergência) (207). Um número de países
de tradição civilista, como a Colômbia e Peru, e ainda a Índia, são também
O Plano Estratégico de Desenvolvimento Nacional de Timor‑Leste
2011‑2030 relata o contexto económico e social nacional atual (Timor‑Leste — Plano
Estratégico de Desenvolvimento Nacional 2011‑2030 (Dili: Governo da República
Democrática de Timor‑Leste, 2011).). Há, ainda, um número de análises e estudos
sobre a realidade social e económica de Timor‑Leste, nomeadamente inquéritos da
Direção Nacional de Estatística e estudos de instituições internacionais relacionadas
com o desenvolvimento humano, como o PNUD e o Banco Mundial.
(207)
Cfr., por exemplo, Sarlet e Figueiredo, ‘Reserva Do Possível, Mínimo Exis‑
tencial E Direito À Saúde: Algumas Aproximações’.
(206)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
303
exemplos de uma atuação bastante proeminente do poder judiciá­rio no forta‑
lecimento da efetivação dos direitos sociais (208).
Segundo Jónatas Machado e Paulo Costa, “aos juízes cabe, assim, uma
notável margem de manobra interpretativa e concretizadora, ou seja, um
apreciável poder interpretativo” que, contudo, deverá “ponderar os direitos e
interesses constitucionalmente protegidos”, minimizar “as restrições aos direi‑
tos fundamentais”, proteger estes direitos “das violações por parte da comu‑
nidade” e, por fim, proteger a comunidade “dos riscos de anomia e violên‑
cia” (209). Estes autores voltam a referir‑se à importância dos tribunais nesta
matéria, ao referirem que, no caso concreto da vinculação dos tribunais, estes
devem proceder à “desaplicação de normas violadoras dos direitos, liberdades
e garantias”, à “aplicação direta dos direitos, liberdades e garantias”, à “maxi‑
mização pela via interpretativa dos direitos, liberdades e garantias” e à “inter‑
pretação das normas jurídicas em conformidade com os direitos, liberdades e
garantias” (210).
Resta‑nos ver como os tribunais em Timor‑Leste irão responder a futuras
pretensões relacionadas com os direitos sociais e qual será o nível de eficácia
assegurado por estes no âmbito da tutela jurisdicional efetiva dos direitos fun‑
damentais (211).
4.4 Vinculação dos Particulares
Como referido anteriormente, os direitos fundamentais vinculam todas
as entidades públicas. Quando analisados na sua dimensão negativa, os direitos
fundamentais são entendidos como “direitos (…) de defesa perante o
Esta área do Direito tem sido bastante estudada e comentada nos últimos
anos, em virtude do seu acentuado desenvolvimento recente. Ver, por exemplo, Malcolm
Langford, ‘Judicialização Dos Direitos Econômicos, Sociais E Culturais No Âmbito
Nacional: Uma Análise Socio‑Jurídica’, Sur. Revista Internacional de Direitos Humanos 6,
no. 11 (December 2009): 98‑133. Ainda, entre muitos, ver, Benedetto Conforti and
Francesco Francioni, Enforcing International Human Rights in Domestic Courts (Mar‑
tinus Nijhoff Publishers, 1997); Kirsty Sheila McLean, Constitutional Deference, Courts
and Socio‑Economic Rights in South Africa (PULP, 2009).
(209)
Machado e Costa, Direito Constitucional Angolano, 172.
(210)
Ibid., 183.
(211)
Vide Capítulo VI, 1. Os Tribunais e os Direitos Fundamentais.
(208)
Coimbra Editora ®
304
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Estado” (212), isto é, são direitos que impõem ao Estado o dever de abstenção,
o dever de não interferir ilegal ou arbitrariamente com o gozo de determinado
direito. Concebidos enquanto tal, os direitos fundamentais vinculam apenas as
entidades públicas (213). Esta perspetiva não é aqui questionada, pois ela é, desde
logo, evidenciada na Constituição, que consagra a garantia dos direitos funda‑
mentais como um dos objetivos principais do Estado timorense (214), e nos
tratados internacionais de direitos humanos que impõem obrigações dos Esta‑
dos em relação àqueles que se encontram sob a sua jurisdição.
Porém, tal perspetiva não provê uma resposta para saber se, e em que
medida, os direitos fundamentais vinculam também os particulares. Ou, por
outras palavras, as normas constitucionais de direitos fundamentais têm eficá‑
cia em relação aos particulares (eficácia horizontal) impondo‑lhes deveres ou
obrigações relativamente ao gozo dos direitos fundamentais de outros particu‑
lares? Note‑se que por entidades privadas entende‑se pessoas singulares e cole‑
tivas.
A resposta a esta pergunta é mais complexa no ordenamento jurídico
timorense do que em outros Estados‑membros da CPLP. Vários dos textos
constitucionais dos países da CPLP determinam expressamente que alguns dos
preceitos respeitantes aos direitos fundamentais — especificamente os direitos,
liberdades e garantias — vinculam também as entidades privadas (215). Na
Constituição timorense não se encontra uma norma de sentido semelhante.
Na falta de uma provisão sobre a aplicabilidade dos direitos fundamentais
às entidades privadas torna‑se necessário analisar os preceitos dos direitos fun‑
damentais, identificando se a linguagem utilizada na redação da norma cons‑
titucional é uma em que os preceitos relativos a direitos fundamentais detêm
efeitos relativamente a privados. Por exemplo, considere‑se o artigo 43.º‑2
da CRDTL segundo o qual “[n]inguém pode ser obrigado a fazer parte de uma
associação ou a nela permanecer contra sua vontade”. Se um particular for
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):384. Vide Capítulo I, 1.4 Funções dos Direitos Funda‑
mentais e dos Direitos Humanos.
(213)
Ver Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2012, 231‑ss.
(214)
Artigo 6.º/b da CRDTL.
(215)
Cfr. artigo 28.º‑1 da Constituição angolana, artigo 18.º da Constituição
caboverdiana e artigo 18.º‑1 da Constituição portuguesa.
(212)
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
305
obrigado por contrato privado a fazer parte de uma associação contra a sua
vontade, poderá este particular contestar a validade do contrato por violação
da sua liberdade de associação? Estas situações não levantam dúvidas quanto à
vinculação dos particulares, uma vez que essa vinculação resulta do próprio
texto constitucional (216). Portanto, a dúvida poderá colocar‑se perante as situ‑
ações em que de um preceito relativo a direitos fundamentais não resulta a sua
aplicabilidade quanto aos particulares.
Uma das questões que a doutrina estrangeira tem debatido a este propó‑
sito é a de saber se a eficácia dos direitos fundamentais tem por base uma
aplicabilidade direta ou indireta. No primeiro caso, admitir‑se‑ia que os direi‑
tos fundamentais vinculam diretamente as entidades privadas quando as normas
constitucionais que consagram os direitos fundamentais são exequíveis por si
mesmas. No segundo, considerar‑se‑ia que os direitos fundamentais vinculam
as entidades privadas na medida em que o Estado determine, por via legislativa,
essa vinculação (217). Por exemplo, atente‑se na Lei do Trabalho e na Lei de Bases
do Ambiente, aprovadas respetivamente pela Lei n.º 4/2012 de 21 de Fevereiro
e pela Lei n.º 26/2012 de 3 de Julho. Algumas das normas constantes destas
leis vinculam as entidades privadas a respeitar os direitos fundamentais dos
trabalhadores, nomeadamente, os princípios da igualdade e da não discrimi‑
nação, a proibição de despedimentos sem justa causa, o direito à greve, entre
outros, e atribuem deveres às empresas no sentido de assegurarem o gozo de
um meio ambiente sadio. Mas será que as entidades privadas estão vinculadas
aos direitos fundamentais quando não exista uma legislação deste tipo? Ou
antes, é necessário que o legislador intervenha para que os direitos fundamen‑
tais se concretizem em direitos de natureza privada? Mais recentemente, outros
autores apelaram à ideia de se considerar o problema do ponto de vista de um
Gomes Canotilho refere a este propósito a “eficácia horizontal expressamente
consagrada na Constituição”. (Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da
Constituição, 1290.). Ver também sobre esta matéria, Miranda e Medeiros, Constituição
Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:338‑339. Outros exemplos poderiam ser dados a
este propósito, como seja o direito à greve (artigo 51.º da CRDTL), o direito à segu‑
rança no emprego (artigo 50.º‑2 da CRDTL) ou o princípio da igualdade de direitos
dos cônjuges (artigo 39.º‑3 da CRDTL).
(217)
Sobre estas teorias ver Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da Repú‑
blica Portuguesa Anotada, 2007, I (Artigo 1.º a 107.º):385; Gomes Canotilho, Direito
Constitucional E Teoria Da Constituição, 1286‑1287; Miranda e Medeiros, Constituição
Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:337‑340.
(216)
Coimbra Editora ®
306
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
dever de proteção dos direitos fundamentais que impende sobre o Estado, isto
é, o dever de proteger os direitos contra ameaças de outros particulares (218).
A outra questão amplamente discutida na doutrina consiste em saber se
essa vinculação se justifica em todas as circunstâncias ou apenas quando haja
uma relação privada que se traduza em “relações de poder ou de dependên‑
cia” (219). Alguns autores consideram que se deve entender que a vinculação é
geral, embora se possam justificar restrições para proteger o princípio da
autonomia privada (220). Outros consideram que “só deverá aceitar‑se esta trans‑
posição directa dos direitos fundamentais (…) para as relações entre particu‑
lares quando se trate de situações em que pessoas colectivas (ou, excepcio‑
nalmente, indivíduos) disponham de poder especial de carácter privado sobre
(outros) indivíduos” (221).
A título exemplificativo, poderá questionar‑se qual a força vinculativa
do princípio da igualdade nas relações entre privados. É hoje do entendimento
comum que “o princípio da igualdade pode ter também como destinatários
os próprios particulares nas relações entre si (eficácia horizontal do princípio
da igualdade)” (222). Gomes Canotilho e Vital Moreira explicam esta sua
posição com base em dois pontos fundamentais: o primeiro defende que,
tendo o princípio da igualdade assento constitucional, então, este é um prin‑
cípio transversal a toda a ordem jurídica e, portanto, vincula não só o Estado,
mas, também os privados nas suas relações entre si. No segundo ponto,
aqueles autores reconhecem, contudo, que a aplicação deste princípio na
(218)
Ver Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2009, 253‑257. Aliás, note‑se que, no direito internacional dos direitos
humanos, é comum o apelo à ideia de um dever de protecção que impende sobre o
Estado.
(219)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):385. Ver sobre esta matéria Ver Vieira de Andrade, Os
Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa de 1976, 2009, 247‑ss.
(220)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):386.
(221)
Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na Constituição Portuguesa
de 1976, 2009, 247. Já relativamente às relações em que os particulares se apresentam
numa situação de paridade, vale o princípio da liberdade que deve consistir na regra,
regra essa cujo limite constitui a dignidade da pessoa humana (Cfr. Ibid., 274.).
(222)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):346.
Coimbra Editora ®
Capítulo III — Regime dos Direitos Fundamentais
307
esfera privada tem de sofrer adaptações que respeitem as particularidades do
direito privado (223).
Não existindo uma norma no texto constitucional timorense que reconheça
a vinculação dos particulares aos direitos fundamentais, competirá aos tribunais
e à doutrina refletir sobre esta questão, principalmente quando os primeiros se
vejam confrontados com casos concretos em que um particular tenha sido
ofendido no seu direito fundamental por um outro, não existindo legislação
que traduza esse direito fundamental num direito privado (224).
5. Metódica Constitucional
A interpretação jurídica de uma norma que transforma um texto norma‑
tivo numa norma jurídica e concretizando‑a em situações específicas é um
processo dogmático denso. Os direitos fundamentais, sendo parte do Direito
Constitucional, contêm, desde logo, a complexidade proveniente da natureza
constitucional das suas normas. Ainda, os direitos fundamentais reportam‑se
a direitos inalienáveis da pessoa humana e a sua aplicação é determinante na
garantia do exercício desses direitos pelas pessoas no decurso da sua vida.
A natureza dos direitos fundamentais, que se vai alterando em virtude da evo‑
lução histórica, traz um desafio real no momento da sua concretização.
É importante desenvolver ferramentas dogmáticas analíticas que ajudem
este processo de certa complexidade. O uso de ferramentas que, no fundo, são
verdadeiras metódicas essenciais à concretização do direito ou à aplicação de
aspetos fundamentais do seu regime, representam um mecanismo de apoio que
assegura o “rigor dogmático”. Segundo Gomes Canotilho, “[o] rigor dogmático
vai fornecer‑nos instrumentos de trabalho para a compreensão do regime jurí‑
dico dos direitos fundamentais” (225).
Pelo exposto, optámos pela tentativa de elaborar propostas de metódicas
com o intuito de concretizar questões essenciais dos direitos fundamentais e,
Para mais desenvolvimentos neste ponto, ver Ibid., I (Artigo 1.º
a 107.º):347‑348. Ver, também, Vieira de Andrade, Os Direitos Fundamentais Na
Constituição Portuguesa de 1976, 2009, 260.
(224)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada,
2007, I (Artigo 1.º a 107.º):385‑386.
(225)
Gomes Canotilho, Direito Constitucional E Teoria Da Constituição, 1253.
(223)
Coimbra Editora ®
308
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
assim, apoiar o processo da sua implementação de uma maneira sistemática,
metódica e rigorosa. Assim, neste Livro, introduziremos a noção de testes ou
metódicas analíticas, ou seja, aquele exercício que se tem de fazer para se ave‑
riguar se, num dado caso concreto, estamos ou não perante uma situação de
violação dos direitos fundamentais. Tenta‑se, assim, e com o objetivo de faci‑
litar o processo de concretização da norma, identificar parâmetros ou requisitos
que possam assegurar uma análise que terá como ponto de conclusão decidir
sobre a existência ou não de uma violação.
Há vantagem em elaborar testes jurídicos que garantam as respostas a
perguntas como “esta disposição normativa viola o princípio da igualdade?” ou
“esta medida é discriminatória?” ou, ainda, “estamos perante uma restrição
constitucional aceitável de um direito fundamental ou esta excedeu os critérios
e originou uma violação do direito?”. Alguma da dificuldade decorre do facto
de que muitas das respostas às questões jurídicas relacionadas com os direitos
fundamentais partem de conceitos indeterminados que carecem de ser preen‑
chidos ou densificados, na análise do caso concreto, sendo certo que o preen‑
chimento desse conceito pode sofrer algumas variações, no decurso do tempo
e em função do contexto em que é concretizado. A metódica sugerida serve
como um ponto de partida, como uma proposta inicial com o ímpeto de
promover a concretização dos direitos fundamentais como normas jurídicas
constitucionais.
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
Sumário
1.A Limitação aos Direitos Fundamentais: Fundamentos
2.As Restrições aos Direitos Fundamentais
2.1. Os Tipos de Restrições
2.2. Âmbito de Aplicação do Artigo 24.º
2.3.Requisitos das Leis Restritivas (os “limites dos limites”)
2.4As Intervenções Restritivas
2.5A Colisão ou Conflito de Direitos
3.Suspensão do Exercício dos Direitos Fundamentais
3.1. Requisitos da Suspensão
4.Método de Controlo da Restrição e da Suspensão dos
Direitos Fundamentais
Visão Global
Este capítulo visa abordar uma das questões mais relevantes no âmbito
dos direitos fundamentais: o das suas limitações. As limitações aos direitos
fundamentais constituem um dos problemas com que mais frequentemente os
tribunais judiciais se deparam, moldam a atuação dos poderes públicos e deter‑
minam as fronteiras do poder legislativo.
No âmbito das limitações, considerar‑se‑ão as restrições operadas por via
legislativa, incluindo os requisitos das leis restritivas e a sua aplicação, as inter‑
venções restritivas e o conflito de direitos fundamentais. Ainda, uma outra
questão será abordada: a da suspensão do exercício dos direitos fundamentais em
situações de exceção, analisando‑se os pressupostos que a mesma tem de observar.
Palavras e Expressões‑Chave
Leis restritivas
Princípio da proporcionalidade
Âmbito de proteção dos direitos fundamentais
Intervenções restritivas
Colisão de direitos fundamentais
Suspensão do exercício de direitos fundamentais
Direitos invioláveis
Estado de sítio
Estado de emergência
1. A Limitação aos Direitos Fundamentais: Fundamen‑
tos
Os direitos fundamentais não são direitos ilimitados ou ilimitáveis.
Vivendo os indivíduos numa sociedade, é normal que o Direito seja chamado
Coimbra Editora ®
312
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
a limitar os direitos fundamentais de modo a proteger os direitos fundamentais
de outras pessoas ou ainda a garantir bens jurídicos de relevo específico, como
a segurança ou a ordem pública. Apesar de os direitos fundamentais serem
universais e inalienáveis, a sua interdependência (1) e a vida em sociedade
trazem, na prática do dia‑a‑dia, a necessidade de determinar os limites aos
direitos fundamentais (2).
A primeira questão a considerar, neste âmbito, será a da restrição aos
direitos fundamentais. Esta matéria remete‑nos, por exemplo, para a proble‑
mática de saber se, e como, pode o direito à inviolabilidade do domicílio e da
correspondência ser limitado de forma a facilitar uma investigação criminal
(pense‑se, por exemplo, nas escutas telefónicas ou buscas em domicílios). Ou,
ainda, por exemplo, de saber se e em que medida a liberdade de imprensa e
dos meios de comunicação social pode justificar a publicação de informação
pessoal ou sobre a vida privada de um indivíduo — quer dizer, questiona‑se
até aonde vai a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação social,
quando se considera o direito à privacidade das pessoas e o direito de acesso à
informação por parte do público. Como deve o Direito “gerir” estes direitos e
identificar uma barreira ou fronteira, de modo a que se possa atingir a esperada
coexistência pacífica? Por conseguinte, a restrição aos direitos fundamentais
assume uma importância especial no regime jurídico dos direitos fundamentais.
No entanto, há que distinguir entre as restrições e as intervenções restri‑
tivas aos direitos fundamentais, estas últimas objecto da nossa atenção mais
abaixo.
(1)
Vide Capítulo I, 1.3 Características e Classificação dos Direitos Fundamen‑
tais e Direitos Humanos.
(2)
Note‑se que, para efeitos do presente livro, o termo “limitação” refere‑se a
qualquer afetação dos direitos fundamentais, quer esta incida sobre o âmbito de prote‑
ção do direito ou sobre o seu exercício. Por essa razão, e reconhecendo a existência de
algumas semelhanças entre a restrição aos direitos fundamentias e a suspensão do seu
exercício, abordam‑se ambas as questões no âmbito de um conceito abrangente de
limitação. Optou‑se por não incluir a figura da suspensão do exercício de direitos fun‑
damentais enquanto parte de um conceito lato de restrição, tal como usa parte da
doutrina portuguesa, de modo a facilitar a compreensão das diferenças entre a restrição
(em sentido mais estrito) e a suspensão do exercício de direitos fundamentais (ver, quanto
à inclusão da suspensão do exercício de direitos fundamentais num conceito de restrição
em sentido lato, Jorge Reis Novais, As restrições aos direitos fundamentais não expressamente
autorizadas pela Constituição, 2.ª ed. (Coimbra: Coimbra Editora, 2010) 193.
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
313
Pode, ainda, acontecer que, por razões diversas, a normalidade de um
Estado seja posta em causa por uma série de motivos. Nestas situações extremas,
a questão que se coloca é a de saber em que medida o Direito pode intervir
para garantir a gestão adequada das circunstâncias excecionais e o retorno à
normalidade. Pode o Direito aceitar que o exercício dos direitos fundamentais
seja afetado, permitindo a sua suspensão? Esta questão não diz respeito à titu‑
laridade dos direitos fundamentais, uma vez que os mesmos são inalienáveis,
mas a uma limitação ao seu exercício, em condições bem definidas e de caráter
excecional.
Na vasta maioria das vezes, a limitação dos direitos fundamentais é realizada
pelos poderes públicos. Numa sociedade democrática baseada no princípio do
Estado de Direito, devem tais poderes ser sujeitos a prescrições específicas, que
os autorizem a limitar os direitos fundamentais e que determinem o “como” da
limitação. Dada a relevância desta matéria do ponto de vista do gozo dos direitos
fundamentais, importa conhecer os eventuais limites ou requisitos a verificar no
processo de limitação do âmbito de proteção e do exercício dos direitos funda‑
mentais, os quais visam, desde logo, diminuir o risco de limitações inconstitu‑
cionais.
2. As Restrições aos Direitos Fundamentais
Tendo em consideração a sua importância no âmbito da atividade juris‑
dicional, o seu impacto no dia‑a‑dia da vida em sociedade e no funcionamento
das instituições públicas, a questão das restrições aos direitos fundamentais é
amplamente discutida pela doutrina. Apesar das várias definições de restrição
apresentadas, poderá, nesta sede, entender‑se por restrição uma compressão
operada por via legislativa do âmbito de proteção de um direito fundamen‑
tal (3).
Referimo‑nos, por exemplo, à lei penal que determina a pena de prisão
ou outras penas para aqueles que cometam crimes, ao regime jurídico da mani‑
festação que contenha limitações relativas à sua realização, e ainda ao regime
jurídico sobre a expropriação e aquele que regula o uso da força pela polícia.
Ver Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 188 e 190.
(3)
Coimbra Editora ®
314
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
O conceito de restrição deve ser distinguido de outros conceitos que lhe
estão próximos. Determinar a restrição a um direito fundamental não é a mesma
coisa que densificar ou determinar o seu conteúdo. Como já discutido no
Capítulo III, vários dos direitos fundamentais necessitam de uma lei para a
determinação do seu conteúdo ou para a sua operacionalização, constituindo
essa concretização do conteúdo um instrumento de grande importância para
garantir a eficácia plena dos direitos fundamentais perante os poderes públicos,
inclusivamente os tribunais (4). Estas leis conformadoras distinguem‑se das leis
restritivas. As leis restritivas consistem numa limitação das posições que, à
partida, fazem parte do âmbito de proteção de um direito, ao passo que a lei
conformadora não limita essa posição, mas antes destina‑se a concretizar ou
definir o conteúdo de proteção do direito. Por vezes, a Constituição remete
para a lei a concretização do conteúdo de um direito. Este é o caso, por exem‑
plo, do artigo 46.º‑3 segundo o qual “a constituição e a organização dos par‑
tidos políticos são reguladas por lei”. A lei que seja aprovada de modo a
regular esta matéria (desde que a mesma não limite o âmbito de proteção do
direito de participação política), será uma lei conformadora. É importante
relembrar que uma lei pode conter normas de carácter conformador e normas
restritivas, isto é, é possível que uma lei seja simultaneamente conformadora,
porque determina o seu conteúdo, e restritiva, porque comprime o seu âmbito
de proteção. Este é o caso da Lei n.º 1/2006, de 8 de Fevereiro sobre Liberdade
de Reunião e de Manifestação.
Por conseguinte, na tarefa de determinar se estamos perante uma ver‑
dadeira restrição aos direitos fundamentais, importa definir o âmbito de
proteção da norma que consagra o direito fundamental (5). Se um determi‑
nado bem jurídico não fizer parte do âmbito de proteção do direito, a sua
proibição por via legislativa, por exemplo, não consistirá numa restrição ao
direito. Já não será assim quando uma lei comprimir verdadeiramente o
âmbito de proteção do direito. Usando um exemplo relativo à liberdade de
expressão, a questão que se deve colocar é a de saber se a expressão de ideias
que consistam no incitamento ao ódio faz ainda parte do âmbito da liberdade
de expressão, tal como consagrado no artigo 40.º da Constituição. Se fizer
ainda parte do âmbito de proteção constitucional, isso significará que uma
Vide Capítulo III, 4.3 Vinculação dos Poderes Públicos: Implicações Prá‑
ticas da Aplicabilidade e Eficácia.
(5)
Vide Capítulo III, 2.2 Âmbito de Proteção.
(4)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
315
lei que criminalize o incitamento ao ódio é uma lei restritiva (cuja consti‑
tucionalidade deverá ser analisada à luz do artigo 24.º da CRDTL). Se não
fizer parte, então, a lei que criminalize o incitamento ao ódio não é uma
verdadeira lei restritiva, mas sim limita‑se a definir o contorno do direito,
isto é, a precisar o seu conteúdo. Assim, “[a] existência de uma restrição
supõe a presença de uma medida legislativa que interfere negativamente no
âmbito de proteção de um direito, liberdade e garantia” (6).
2.1. Os Tipos de Restrições
A doutrina distingue, normalmente, a propósito da autorização de res‑
trição a um direito pelo texto constitucional, as restrições constitucionais
imediatas (diretas ou expressas), as restrições mediatas e as restrições implí‑
citas (7).
a) As restrições constitucionais imediatas
Existem casos em que a Constituição prevê, ela mesma, a restrição como
parte da redação da norma constitucional respeitante a um direito fundamen‑
tal. Nestas situações, o âmbito de proteção do direito fundamental encontra‑se
restringido já no próprio texto da Constituição. Constitui exemplo o artigo 42.º
da Constituição, o qual consagra a “liberdade de reunião pacífica e sem armas”,
proibindo as reuniões que não tenham estas características. À previsão expressa
da restrição no texto constitucional, a doutrina portuguesa chama de “restrições
constitucionais imediatas” (8).
b) As restrições constitucionais mediatas
Em alguns casos, a Constituição prevê apenas a possibilidade da restrição,
cabendo ao legislador ordinário determinar a restrição. A título exemplificativo,
considere‑se o artigo 30.º‑2 (“[n]inguém pode ser detido ou preso senão nos
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional Ango‑
lano, 190.
(7)
Cfr. Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010,
Tomo I:365‑366.; Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucio‑
nal Angolano, 192‑193.
(8)
Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 1276.
(6)
Coimbra Editora ®
316
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
termos expressamente previstos na lei vigente”) ou o artigo 37.º‑1 (“[o] domi‑
cílio, a correspondência e quaisquer meios de comunicação privados são invio‑
láveis, salvos os casos previstos na lei em matéria de processo criminal”). À mera
previsão constitucional da possibilidade de restringir, dando‑se ao legislador o
poder de determinar a restrição, a doutrina portuguesa chama de “restrições
estabelecidas por lei mediante autorização expressa da constituição (reserva da
lei restritiva)” (9).
c) As restrições implícitas ou imanentes
Na maioria das vezes, a Constituição não restringe, ela própria, o direito
fundamental, nem autoriza o legislador ordinário a fazê‑lo. Veja‑se, como
exemplo, o artigo 29.º da Constituição, o qual consagra o direito à vida. Resta
saber se uma restrição a direitos fundamentais nestes casos é admissível no caso
timorense, ou seja, se estas restrições, denominadas pela doutrina portuguesa
de restrições implícitas ou imanentes, são permitidas. Trata‑se de uma questão
que abordamos com mais detalhe quando incidirmos a nossa atenção sobre os
requisitos da autorização constitucional expressa, um dos requisitos a observar
pelas restrições aos direitos fundamentais.
2.2. Âmbito de Aplicação do Artigo 24.º
Antes da consideração dos requisitos formais e materiais de uma lei res‑
tritiva no ordenamento jurídico timorense, importa que nos detenhamos sobre
uma outra questão, a do âmbito de aplicação do artigo 24.º, isto é, sobre a
identificação da extensão da sua aplicação.
O artigo 24.º da Constituição determina:
“1. A restrição dos direitos, liberdades e garantias só pode fazer‑se por
lei, para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente prote‑
gidos e nos casos expressamente previstos na Constituição”
2. As leis restritivas dos direitos, liberdades e garantias têm, necessaria‑
mente, carácter geral e abstracto, não podem diminuir a extensão e o alcance
do conteúdo essencial dos dispositivos constitucionais e não podem ter efeito
retroactivo”.
Ibid.
(9)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
317
Como resulta da leitura do artigo 24.º, este aplica‑se aos “direitos, liber‑
dades e garantias”. De acordo com a estrutura da Constituição, estes direitos
encontram‑se previstos no Título II da segunda parte da Constituição, intitu‑
lado “direitos, liberdades e garantias pessoais” (artigos 29.º a 49.º) (10).
Poderá questionar‑se se o artigo 24.º é também aplicável às leis restritivas
de outros direitos, nomeadamente, às leis restritivas dos direitos fundamentais
dispersos pela Constituição, dos direitos só materialmente fundamentais ou,
ainda, dos direitos económicos, sociais e culturais e, em caso de resposta afir‑
mativa, em que medida poderão as leis restritivas destes direitos estar sujeitas
ao regime jurídico previsto no artigo 24.º Considera‑se que o disposto no
artigo 24.º da CRDTL deverá aplicar‑se igualmente aos direitos de natureza
análoga aos direitos, liberdades e garantias (11). Refira‑se que o Tribunal de
Recurso, atuando como Supremo Tribunal de Justiça já aplicou o artigo 24.º
da CRDTL para determinar a constitucionalidade de uma norma legislativa
em relação ao direito à propriedade privada (na sua dimensão negativa), este
que não se encontra no elenco dos direitos, liberdades e garantias (12). A doutrina
nacional emergente também aponta para esta posição ao considerar que “[a]
dmitindo uma distinção doutrinal entre direitos de liberdade (direitos civis e
políticos) e direitos a prestações (direitos sociais), incluir‑se‑ão na categoria
‘direitos, liberdades e garantias’ todos os direitos que, independentemente da
sua localização no texto constitucional, confiram aos seus titulares faculdades
de ação ou omissão, que impõem ao Estado um dever de não interferência na
esfera de liberdade dos indivíduos” (13). Assim, os direitos fundamentais disper‑
sos na Constituição, os direitos só materialmente fundamentais e os direitos
económicos, sociais e culturais, na sua dimensão negativa, estarão, todos, sujei‑
Vide Capítulo III, 3.2.1 Direitos, Liberdades e Garantias Pessoais.
Para o conceito de direitos de natureza análoga aos direitos, liberdades e
garantias vide Capítulo III, 3.3.3 Direitos Fundamentais de Natureza Análoga aos
Direitos Fundamentais.
(12)
Cfr. Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Junho de 2003 (Fiscalização
preventiva de constitucionalidade), Proc.02/CONST/03 (Tribunal de Recurso 2003);
Tribunal de Recurso, Acórdão de 11 de Agosto de 2014 (Fiscalização preventiva de
constitucionalidade), Proc n.º 01/CONST/2014/TR (2014).
(13)
Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar, Constituição
Anotada Da República Democrática de Timor‑Leste (Braga, Portugal: Direitos Humanos
— Centro de Investigação Interdisciplinar, 2011), 94.
(10)
(11)
Coimbra Editora ®
318
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
tos ao artigo 24.º da Constituição, por terem natureza análoga a direitos,
liberdades e garantias.
A questão mais problemática coloca‑se relativamente aos direitos econó‑
micos, sociais e culturais enquanto direitos a prestações (14). Na doutrina
portuguesa, alguns autores consideram que certos requisitos válidos relativa‑
mente às restrições a direitos, liberdades e garantias, também se aplicariam às
restrições aos direitos económicos, sociais e culturais enquanto tais. Assim, as
restrições aos direitos económicos, sociais e culturais que comprimam o âmbito
de proteção destes direitos, na medida em que constituam direitos a prestações,
deveriam respeitar o princípio da proporcionalidade e, ainda, salvaguardar o
núcleo essencial do direito (15). Admitindo‑se este argumento, está‑se, na ver‑
dade, a limitar o poder dos órgãos públicos de restringir inadequadamente os
direitos económicos, sociais e culturais (16).
Nota‑se que o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais
e Culturais prevê a possibilidade de restringir estes direitos, de acordo com os
pressupostos específicos determinados no seu artigo 4.º (17). No entanto, não
nos é possível fazer uso da interpretação dada a esta norma para ajudar a deli‑
near a questão das restrições aos direitos económicos, sociais e culturais
enquanto direitos a prestações, pois o Comité dos Direitos Económicos, Sociais
e Culturais tem analisado o âmbito de proteção destes direitos do ponto de
vista da realização progressiva dos mesmos e da reserva do possível, e não da
sua restrição (18).
Vide Capítulo III, 3.2.2 Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:318.
(16)
Gomes Canotilho, fazendo uma análise do Acórdão do Tribunal Constitu‑
cional Português n.º 39/84, refere que da jurisprudência do tribunal se pode retirar a
ideia de que “as normas garantidoras de direitos sociais devem servir de parâmetro de
controlo judicial quando esteja em causa a apreciação da constitucionalidade de medi‑
das legais ou regulamentares restritivas destes direitos” (Canotilho, Direito Constitucio‑
nal e Teoria da Constituição, 482.
(17)
De acordo com o artigo 4.º deste Pacto, “[o]s Estados Partes no presente
Pacto reconhecem que, no gozo dos direitos assegurados pelo Estado, em conformidade
com o presente Pacto, o Estado só pode submeter esses direitos às limitações estabele‑
cidas pela lei, unicamente na medida compatível com a natureza desses direitos e
exclusivamente com o fim de promover o bem‑estar geral numa sociedade democrática”.
(18)
Cfr. Magdalena Sepúlveda, The Nature of the Obligations Under the Interna‑
tional Covenant on Economic, Social and Cultural Rights, Intensentia, 2003, 277‑ss;
(14)
(15)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
319
2.3. Requisitos das Leis Restritivas (os “limites dos limites”)
A restrição aos direitos fundamentais por via legislativa encontra‑se regu‑
lada na própria Constituição. Entendeu o legislador constituinte ser necessário
determinar a nível constitucional os requisitos ou pressupostos a que a restrição
aos direitos fundamentais deve obedecer. Por constituírem limites impostos
pelo legislador constitucional à determinação das restrições aos direitos funda‑
mentais, a doutrina designa os mesmos por “limites dos limites” (19).
Estes requisitos consistem uma importante garantia contra possíveis vio‑
lações dos direitos fundamentais, prevenindo a determinação de uma restrição
inconstitucional por parte do legislador ordinário. De resto, também é à luz
destes critérios que o Supremo Tribunal de Justiça, em sede de fiscalização da
constitucionalidade, deverá averiguar a constitucionalidade das leis restritivas,
e que os tribunais distritais poderão desaplicar normas com fundamento na
sua desconformidade com a Constituição (20).
Neste âmbito, importa distinguir entre os requisitos formais e materiais,
todos previstos expressamente no artigo 24.º da CRDTL (21). Os requisitos
formais “actuam como uma «zona de protecção formal»” (22), enquanto os
materiais dizem respeito à conformidade das restrições com os princípios e
regras da Constituição.
São requisitos formais: a) o requisito da lei formal; e b) a previsão cons‑
titucional expressa da restrição. São requisitos materiais: a) a salvaguarda de
outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos; b) o caráter geral
e abstracto da lei restritiva; c) a proibição de retroatividade; e c) a proibição da
diminuição da extensão e do alcance do conteúdo essencial dos direitos fun‑
Saul, Kinley, e Mowbray, The International Covenant on Economic, Social and Cultural
Rights, 239‑ss. Aliás, aquando da redação do Pacto, questionou‑se a admissibilidade de
uma norma geral restritiva, especialmente pelo facto de este mesmo tratado prever já
um número considerável de condicionalismos ao alcance das obrigações do Estado
relativamente a estes direitos (Ibid., 246.)
(19)
Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 451.
(20)
Vide Capítulo VI, 3. A Justiça Constitucional.
(21)
Também fazendo esta distinção entre pressupostos formais e materiais, Ver
Ibid., 451‑452. e Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucio‑
nal Angolano, 191‑ss.
(22)
Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 452.
Coimbra Editora ®
320
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
damentais. Considerar‑se‑á, ainda, o princípio da proporcionalidade, enquanto
requisito material das leis restritivas.
De entre estes requisitos, importa salientar que alguns dizem respeito à
própria lei pela qual se restringe o direito fundamental, e outros estão mais
diretamente relacionados com a própria restrição, ou com o seu conteúdo.
Assim, por razões de sistematização, agruparemos os requisitos de acordo com
a seguinte metódica (23):
1)Requisitos relativos à lei restritiva
a) requisito da lei formal: a restrição é feita por via de lei ou de
decreto‑lei autorizado?;
b) caráter geral e abstrato da lei restritiva: a lei restritiva é aplicada a
um número indeterminado (ou indeterminável) de pessoas e
situações?;
c) proibição de retroatividade: a lei restritiva aplica‑se apenas a situ‑
ações que tenham iniciado somente depois da sua entrada em
vigor? (pergunta principal a ser colocada);
2)Requisitos relativos ao conteúdo da restrição:
a) previsão constitucional expressa da restrição: a norma constitucional
que consagra o direito que se pretende restringir prevê a possi‑
bilidade de restrição? Caso não preveja, ainda assim deverá ser
admitida a restrição?
b) a salvaguarda de outros direitos ou interesses constitucionalmente
protegidos: a restrição visa também a proteção de outros direitos
ou interesses que estejam previstos na Constituição?
c) proibição da diminuição da extensão e do alcance do conteúdo
essencial dos direitos fundamentais: a restrição ao direito atinge o
conteúdo essencial do direito fundamental que se restringe?
A doutrina portuguesa não faz uma classificação nestes moldes, mas tão
somente entre requisitos materiais e formais. A sistematização proposta constitui uma
tentativa de facilitar a análise da restrição operada por via legislativa. A mesma ideia parece
estar subjacente, de qualquer modo, à sistematização feita por Gomes Canotilho e Vital
Moreira, em Gomes Canotilho e Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada,
1:388. (ao fazer‑se referência aos requisitos relativos ao “carácter da própria lei”).
(23)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
321
d) princípio da proporcionalidade:
i) em geral, a restrição é adequada para atingir o fim visado
pela restrição (quer dizer, a proteção de outro direito ou
interesse)?
ii) há outras medidas eficazes, porém menos onerosas que
permitam atingir o mesmo fim?
iii) os meios utilizados são proporcionais a este fim?
2.3.1 Requisitos Relativos à Lei Restritiva
a) Requisito de lei formal (restrição com forma de lei)
De acordo com o artigo 24.º‑1 da Constituição, a restrição dos direitos,
liberdades e garantias só pode fazer‑se por lei.
“Lei”, para efeitos deste artigo, significa, desde logo, uma lei do Parla‑
mento Nacional, que é órgão com competência para legislar sobre direitos,
liberdades e garantias (artigo 95.º‑2/e da CRDTL). Entende‑se, porém, que,
não obstante constituir esta a regra, o termo “lei” deve abranger igualmente
um decreto‑lei autorizado, isto é, um decreto‑lei emanado pelo Governo com
autorização expressa do Parlamento e que incide sobre as matérias incluídas
na reserva relativa da competência exclusiva do Parlamento Nacional, ou seja,
as matérias previstas no artigo 96.º (24). Entre as matérias abrangidas pela
reserva relativa do Parlamento Nacional constam algumas que frequentemente
implicam restrições de direitos fundamentais, nomeadamente, a “definição
de crimes, penas, medidas de segurança e respectivos pressupostos”, a “defi‑
nição do processo civil e criminal”, o “regime geral de radiodifusão, televisão
e demais meios de comunicação de massas” ou ainda o “regime geral da
requisição e da expropriação por utilidade pública” e “meios e formas de
intervenção, expropriação, nacionalização e privatização dos meios de pro‑
dução e solos por motivo de interesse público, bem como critérios de fixação
[…] de indemnizações” (artigo 96.º‑1 alíneas a), b), i), k) e l) CRDTL).
Pense‑se, aliás, no Código do Processo Penal, que contém importantes res‑
trições a vários direitos fundamentais, como o direito à liberdade, segurança
Vide Capítulo II, 2.5 Sistema Legislativo.
(24)
Coimbra Editora ®
322
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
e integridade pessoal, à inviolabilidade do domicílio e correspondência, ou
o direito à privacidade (25).
O facto de as restrições aos direitos fundamentais se deverem fazer por lei
(ou decreto‑lei autorizado) não impede que as restrições possam ser concreti‑
zadas ou desenvolvidas num decreto‑lei dependente de uma lei (26). Nestas
situações, a lei, enquanto ato legislativo parlamentar, deve determinar a restri‑
ção, cabendo a um decreto‑lei do Governo a sua posterior concretização. Como
nos diz Gomes Canotilho: “no caso de direitos restringidos directamente por
lei ou no caso de limitação através de decretos‑leis autorizados, é a estes actos
legislativos que compete estabelecer uma regulamentação suficientemente
determinada e densa, incidente sobre os aspectos essenciais das restrições, ficando
excluída a possibilidade de regulamentos independentes ou autónomos” (27).
A título exemplificativo, a Lei de Segurança Interna, aprovada pela Lei
n.º 4/2010, de 21 de Abril, contém normas que determinam de forma suficiente
os aspetos da restrição ao direito à liberdade, segurança e integridade pessoal,
contido no artigo 30.º da CRDTL, prevendo nos seus artigos, por exemplo,
os direitos e bens jurídicos que se visam proteger com a restrição (28) e estabe‑
lecendo claramente a necessidade de as medidas de polícia respeitarem o prin‑
cípio da proporcionalidade (29). Poderá considerar‑se, portanto, que o Regime
Jurídico do Uso da Força, aprovado pelo Decreto‑Lei n.º 43/2011, de 21 de
Setembro, apenas veio concretizar, principalmente através do seu artigo 4.º‑4,
o que estabelecia já a Lei de Segurança Interna (30).
Aprovado pelo Decreto‑lei n.º 13/2005, de 1 de Dezembro.
Ver sobre a competência legislativa dependente do Governo, Capítulo II,
2.5.4 A Competência Legislativa Dependente Atribuída ao Governo.
(27)
Ver Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 1278‑1279.
(28)
O artigo 3.º da Lei de Segurança Interna estabelece que “[a]s medidas
previstas na presente lei visam especialmente proteger a vida, a integridade física das
pessoas, a paz pública e a ordem democrática, contra a criminalidade violenta e orga‑
nizada, designadamente o terrorismo, a sabotagem, espionagem e o tráfico de seres
humanos, e prevenir e minorar catástrofes naturais, defender o ambiente e preservar a
saúde pública.”
(29)
O artigo 4.º‑2 da Lei refere que “as medidas de polícia e as medidas espe‑
ciais de prevenção criminal são as que se encontram previstas nas leis, não devendo ser
utilizadas para além do estritamente necessário”.
(30)
Segundo o artigo 4.º‑4, “o uso da força é controlado política e juridicamente
pela emissão de regras sobre o seu empenhamento, propostas pelo membro do governo
(25)
(26)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
323
Perante a delimitação que a Constituição timorense faz entre as compe‑
tências do Parlamento Nacional e as competências do Governo em matéria de
direitos fundamentais, é importante colocar‑se a questão de saber se a restrição
de direitos fundamentais também poderá ser realizada por via de um decreto‑lei,
que não seja autorizado. Na verdade, embora de acordo com o artigo 95.º‑2/e
CRDTL, compita exclusivamente ao Parlamento Nacional legislar “sobre os
direitos, liberdades e garantias”, o artigo 115.º‑1/b atribui a competência ao
Governo para “garantir o gozo dos direitos e liberdades fundamentais aos
cidadãos”. Como já referido anteriormente, este último artigo foi interpretado
como referindo‑se a competências legislativas concorrentes do Parlamento
Nacional e do Governo. Partindo do conceito de restrição enquanto compres‑
são do âmbito de proteção de um direito fundamental, parece‑nos que é da
competência exclusiva do Parlamento Nacional, dentro da sua competência de
legislar “sobre direitos, liberdades e garantias”, a determinação de restrições aos
direitos fundamentais. Poderá entender‑se, assim, que um decreto‑lei que não
seja autorizado (e que não seja dependente de uma lei) que estabeleça restrições
aos direitos fundamentais, não respeitará o disposto no artigo 24.º do texto
constitucional.
Como salientado supra, não é necessário que uma lei se dedique exclusiva‑
mente a restringir direitos fundamentais. Uma lei poderá conter normas que não
se destinam a restringir um direito fundamental e outras que o fazem. Aliás,
como já foi referido, a mesma lei pode ser conformadora e restritiva. Usando
novamente o Código Processo Penal como exemplo, este contém normas que
são claramente restrições aos direitos fundamentais, como é o caso dos artigos
217.º e seguintes que determinam os pressupostos para a detenção, e ainda os
artigos 169.º e 170.º que determinam os critérios relativos às buscas domiciliárias.
Outras normas do Código, no entanto, não têm esse caráter restritivo.
O requisito de lei formal implica, por exemplo, que qualquer ato da
Administração Pública que restrinja os direitos fundamentais, mas que não
tenha fundamento numa norma legislativa, seja violador da Constituição.
Gomes Canotilho refere‑se, a este propósito, a uma ruptura na “cadeia de
legitimidade legal” (31), pois quando não há uma norma legislativa que restrinja
com competência em matéria de segurança e aprovadas pelo Conselho de Ministros,
sendo o armamento empregue adequado ao cumprimento das missões definidas para
as forças de segurança.”
(31)
Ver Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 453.
Coimbra Editora ®
324
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
os direitos fundamentais, a cadeia que deveria seguir da Constituição — lei
— ato da administração, é rompida.
b) O caráter geral e abstrato das leis restritivas
As leis restritivas dos direitos, liberdades e garantias devem ter caráter geral
e abstrato. Não basta, portanto, que as mesmas tenham a forma de lei (ou de
decreto‑lei autorizado), mas é ainda necessário que as mesmas sejam gerais e
abstratas.
Uma lei geral é uma lei que se aplica a um número indeterminado (ou
indeterminável, considerando o momento de entrada em vigor da lei) de pes‑
soas, distinguindo‑se de uma lei individual (32). Uma lei abstrata é uma lei que
se aplica a um número indeterminado (ou indeterminável, considerando o
momento de entrada em vigor da lei) de situações, e distingue‑se de uma lei
concreta (33).
Ao exigir que as leis restritivas sejam ao mesmo tempo gerais e abstratas, a
Constituição proíbe, assim, as leis restritivas, que, embora gerais, sejam leis con‑
cretas, ou leis que embora abstratas, sejam leis individuais.
Com esta prescrição não se pretende dizer que, de um modo geral, são
proibidas as leis que restrinjam os direitos de determinados “grupos”, como os
idosos, os funcionários públicos, as pessoas portadoras de deficiência, ou outros.
Neste caso, a lei que o fizesse aplicar‑se‑ia a qualquer membro desse mesmo
grupo, sendo, ainda assim, uma lei geral.
Lembra a doutrina portuguesa que a proibição de restrições operadas por
leis individuais ou concretas está intrinsecamente ligada a outros princípios que
têm acolhimento constitucional, como seja o princípio da igualdade, os prin‑
cípios da segurança jurídica e da proteção da confiança dos cidadãos, bem como
o princípio da separação de poderes (34).
Ibid., 454.
Ibid.
(34)
Desde logo, uma lei restritiva individual e concreta violaria o princípio da
igualdade por afetar os direitos fundamentais das pessoas de forma diferente, sem
justificação para tal. Violaria o princípio da proteção da confiança e da segurança
jurídica por afetar os direitos de forma imprevisível, e, ainda, poderia representar uma
violação do princípio da separação de poderes pelo facto de uma lei desta natureza
consistir, na verdade, num ato administrativo mas com forma de lei. Ver Ibid.
(32)
(33)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
325
c) A proibição da retroatividade
Determina ainda a Constituição que as leis restritivas não podem ter efeito
retroativo. Por lei retroativa entende‑se uma lei que pretende produzir efeitos
a partir de uma data anterior à data da sua entrada em vigor, incidindo sobre
situações que iniciaram e terminaram no passado, quer dizer, antes da entrada
em vigor da lei (35).
No ordenamento jurídico timorense não existe uma proibição geral de
retroatividade das leis. Existem, aliás, alguns diplomas legislativos de efeito
retroativo (36). A Constituição determina, sim, as situações específicas em que
a retroatividade não é permitida. Proíbem‑se, no texto constitucional, as leis
restritivas de direitos, liberdades e garantias (e direitos de natureza análoga a
estes) que sejam retroativas (artigo 24.º da CRDTL) e as leis penais retroativas
que sejam desfavoráveis ao arguido (artigo 31.º‑5 da CRDTL). Para além
destas situações especificamente proibidas, poderão outras leis retroativas ser
consideradas inconstitucionais. Tal juízo dependerá de uma análise da lei à luz
de princípios jurídicos constitucionais, entre os quais os princípios da segurança
jurídica e da proteção da confiança dos cidadãos (37).
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:388.
O Decreto‑Lei n.º 42/2011 de 21 de Setembro que veio alterar o
Decreto‑Lei n.º 15/2008 de 4 de Junho que regulamenta as pensões dos combatentes
e mártires da libertação nacional estendeu a categoria de beneficiários da pensão de
sobrevivência e, no seu artigo 2.º, determinou que “o regime estabelecido no presente
diploma é aplicável retroactivamente às relações jurídicas constituídas anteriormente e
que se mantenham em vigor, com respeito pelos direitos adquiridos.”
(37)
Gomes Canotilho, relativamente à Constituição portuguesa que, neste ponto,
se assemelha à Constituição timorense, afirma que: “[a] orientação normativo‑constitu‑
cional não significa que o problema da retroactividade das leis deva ser visualizado apenas
com base em regras constitucionais. Uma lei retroactiva pode ser inconstitucional quando
um princípio constitucional, positivamente plasmado e com suficiente densidade, isso
justifique. Alguns princípios, como o princípio da segurança jurídica e o princípio de
confiança do cidadão, podem ser tópicos ou pontos de vista importantes para a questão
da retroactividade, mas apenas na qualidade de princípios densificadores do princípio do
estado de direito eles servem de pressuposto material à proibição da retroactividade das
leis. […] o cidadão pode confiar na não‑retroactividade quando ela se revelar ostensiva‑
mente inconstitucional perante certas normas ou princípios jurídico‑constitucionais”
(Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 260‑261.
(35)
(36)
Coimbra Editora ®
326
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
A proibição da retroatividade das leis restritivas tem por base o facto de estas
consistirem numa afectação do âmbito de proteção dos direitos fundamentais.
Assim, representaria uma injustiça determinar que uma lei restritiva do âmbito de
proteção de um direito se pudesse aplicar com efeitos sobre o passado, isto é, rela‑
tivamente a um momento no qual o titular do direito confiou numa maior ampli‑
tude do âmbito de proteção do seu direito.
Hipoteticamente, seria retroativa (e inconstitucional) uma lei, emanada
em Janeiro de 2014, que proibisse os funcionários públicos de participarem
em manifestações em que se visasse exprimir uma crítica contra políticas gover‑
namentais e que impusesse uma sanção para os manifestantes que participaram,
em 2006, em tais manifestações.
Uma questão que se poderá colocar a este propósito é a de saber se esta
proibição também se aplica à retrospetividade (também chamada de retroati‑
vidade inautêntica) (38). Trata‑se de saber se são igualmente proibidas as leis
que, apesar de pretenderem produzir efeitos para o futuro, afectam uma situa­
ção que teve início no passado, mas que continua no presente. Utilizando o
exemplo dado anteriormente, seria uma lei retrospectiva uma lei que proibisse
a participação dos funcionários públicos em manifestações que visassem expri‑
mir uma crítica contra políticas governamentais, a aplicar aos funcionários
públicos que assim o fossem à data da entrada em vigor da lei (e não apenas
àqueles que se tornassem funcionários públicos depois da entrada em vigor da
lei) (39).
Na doutrina portuguesa salienta‑se a diferença entre estas situações, dife‑
renças essas que justificam o seu tratamento distinto. Para esta doutrina, não
se deve considerar existir uma proibição geral de leis restritivas retrospectivas.
Outrossim, devem as leis restritivas retrospetivas ser apreciadas casuisticamente,
avaliando‑as caso a caso sob o ponto de vista da proteção da confiança dos
cidadãos (40). Por conseguinte, serão proibidas as leis restritivas retrospetivas
Ibid., 456.
Note‑se que em ambos os exemplos dados, poderia argumentar‑se pela
inconstitucionalidade da lei por violação do princípio da proporcionalidade.
(40)
Jorge Miranda e Rui Medeiros salientam que “na análise dessas leis tem que
se ponderar, de um lado, as expectativas dos particulares geradas ao abrigo do regime
legal anterior e, de outro, a relevância das razões de interesse público que levaram o
legislador a alterar o regime até então vigente e, bem assim, o modo como concreta‑
mente o fez” (Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:389.)
(38)
(39)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
327
que contenham medidas que sejam “arbitrárias, inesperadas, desproporcionadas
ou afectarem direitos de forma excessivamente gravosa” (41). Esta, aliás, tem
sido a posição adoptada pelo Tribunal Constitucional português relativamente
a diversos casos (42).
Vai ao encontro da posição adoptada em Portugal, o disposto no Código
de Processo Penal timorense que, no artigo 4.º permite a aplicação do Código
a processos iniciados antes da sua entrada em vigor, em situações que mante‑
nham a unidade do processo ou que não sejam prejudiciais ao arguido (43). Uma
vez que o Supremo Tribunal de Justiça ainda não foi chamado a pronunciar‑se
sobre a (in)constitucionalidade da retrospetividade de uma lei restritiva, não se
pode antever o percurso que será seguido pelo Tribunal nesta matéria.
2.3.2 Requisitos Relativos ao Conteúdo da Restrição
a) Previsão constitucional expressa
Consiste requisito formal da restrição por via legislativa, o facto de a
restrição dos direitos, liberdades e garantias só poder fazer‑se “nos casos expres‑
samente previstos na Constituição” (44).
Como visto anteriormente, existem restrições imediatas (feitas por lei) e
restrições mediatas (expressamente autorizadas pela Constituição).
No texto constitucional, algumas normas consagradoras de direitos fun‑
damentais apenas fazem uma referência à necessidade da sua regulação por lei.
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada,
(41)
1:394.
(42)
Ver, relativamente à jurisprudência do Tribunal Constitucional sobre esta
questão e, em particular, sobre os critérios que o tribunal tem usado para analisar as
situações à luz do princípio da proteção da confiança (das expectativas dos cidadãos),
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:391‑392.
(43)
O artigo 4.º‑2 determina o seguinte: “[a] lei processual penal não se aplica
aos processos iniciados anteriormente à sua vigência quando da sua aplicabilidade
imediata possa resultar: a) Agravamento sensível e ainda evitável da situação processual
do arguido, nomeadamente uma limitação do seu direito de defesa; ou b) Quebra da
harmonia e unidade dos vários actos do processo.”
(44)
Deve notar‑se que as Constituições dos países da CPLP, na sua maioria,
também incluem este requisito das leis restritivas de direitos fundamentais (à exceção
da Constituição da Guiné‑Bissau — ver artigo 30.º).
Coimbra Editora ®
328
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
Seria este o caso do artigo 40.º‑3 sobre liberdade de expressão e informação, o
qual determina que “o exercício dos direitos e liberdades referidos neste artigo
é regulado por lei com base nos imperativos do respeito da Constituição e da
dignidade da pessoa humana”. Perante esta formulação, poderá perguntar‑se se
a Constituição pretende conferir autorização ao legislador para restringir o
direito ou apenas para o regular através da aprovação de uma lei conformadora.
Tal como Gomes Canotilho, entende‑se que uma resposta a esta pergunta
poderá ser dada somente caso a caso (45).
Ainda no que respeita a este pressuposto constitucional das leis restritivas,
coloca‑se uma questão essencial, que é a de saber se são admitidas as restrições
que não sejam expressamente autorizadas pela Constituição (restrições implícitas
ou imanentes). Trata‑se de considerar, por exemplo, se, apesar de a Constituição
não autorizar expressamente uma restrição ao direito à vida consagrado no
artigo 29.º, poderá uma lei que regule o uso da força pelas forças de segurança
autorizar o uso da força letal (por exemplo, para proteger a vida de terceiros).
É importante salientar que o Tribunal de Recurso, no uso das competên‑
cias do Supremo Tribunal de Justiça, no Acórdão de 30 de Abril de 2007, foi
da opinião que “no ordenamento jurídico‑constitucional timorense o legislador
não tem uma autorização geral de restrição de direitos, liberdades e garantias.
A Constituição individualiza expressamente os direitos que podem ser abran‑
gidos por uma lei restritiva” (46).
Salienta‑se que a doutrina portuguesa diverge a este respeito. Alguns
autores admitem a existência e constitucionalidade de restrições que não este‑
Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 1265.
Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Abril de 2007 (Fiscalização abstrata
e sucessiva de constitucionalidade), Proc n.º 03/CONST/03/TR, 1763 (2007), publi‑
cado no Jornal da República Série I, N. 11 de 18 de Maio de 2007:1763. No caso em
apreço, tratava‑se de analisar se seria constitucional a restrição a determinados direitos
fundamentais relativamente a estrangeiros (direito de reunião, manifestação, associação
e propriedade privada). Poderá questionar‑se a generalização aparente da proibição de
restrições legislativas quando a possibilidade de restrição não esteja expressamente
prevista na Constituição, feita pelo Tribunal neste caso, especialmente por o mesmo
não ter feito uma análise sistemática da Constituição e do ordenamento jurídico para
identificar os direitos fundamentais que são restringidos por lei, embora a norma que
os consagra não contenha uma autorização nesse sentido. Cfr. também Tribunal de
Recurso, Acórdão de 11 de Agosto de 2014 (Fiscalização preventiva de constituciona‑
lidade), Proc n.º 01/CONST/2014/TR (2014).
(45)
(46)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
329
jam expressamente autorizadas pela Constituição. Gomes Canotilho e Vital
Moreira argumentam que as mesmas “não podem deixar de admitir‑se para
resolver problemas de ponderação de conflitos entre bens ou direitos constitu‑
cionais” (47). Outros autores salientam que a restrição se deve limitar aos casos
expressamente previstos, na medida em que a restrição legislativa é uma figura
jurídica distinta das “leis interpretativas” e das “leis harmonizadoras” (48).
Considera‑se que uma posição que reconheça a possibilidade de realizar
restrições mesmo que não expressamente autorizadas pela Constituição se
concilia mais com a necessidade de gerir conflitos entre direitos e bens consti‑
tucionalmente protegidos. Desde logo, a adoção de uma posição categórica de
proibição de qualquer restrição legislativa aos direitos fundamentais quando a
restrição não se encontre expressa no texto constitucional (sem que se consi‑
derem outras soluções que permitam justificar uma limitação a um direito
fundamental nesses casos) resultaria, aliás, na impossibilidade de restrição de
muitos dos direitos consagrados na Constituição timorense, incluindo aqueles
que são efetivamente restringidos por leis já existentes, como a Lei da Segurança
Interna, depois desenvolvida pelo Regime Jurídico do Uso da Força, que limita
o direito à vida (artigo 29.º da CRDTL) e o direito à liberdade, segurança e
integridade pessoal (artigo 30.º da CRDTL) (49).
b) Salvaguarda de outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos
Outro requisito material das leis restritivas consiste no facto de a restrição
aos direitos, liberdades e garantias só poder fazer‑se “para salvaguardar outros
direitos ou interesses constitucionalmente protegidos” (artigo 24.º‑2 da
CRDTL). O legislador constituinte reafirma, assim, a importância dos direitos
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada,
1:391. Ver também, no mesmo sentido Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa
Anotada, 2010, Tomo I:366.
(48)
Vieira de Andrade, Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de
1976, 281. Para uma comparação entre as diversos modelos de solução desta questão,
ver Novais, As restrições aos direitos fundamentais não expressamente autorizadas pela
Constituição, 363‑ss.
(49)
Note‑se que no direito internacional também se admitem restrições ao direito
à vida ao admitir‑se o uso da força letal em certas circunstâncias. Ver, Nações Unidas,
‘Princípios Básicos Sobre a Utilização Da Força E de Armas de Fogo Pelos Funcioná‑
rios Responsáveis Pela Aplicação Da Lei’, de Agosto a 7 de Setembro de 1990.
(47)
Coimbra Editora ®
330
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
fundamentais no ordenamento jurídico timorense, excluindo a restrição de
direitos fundamentais que tenha em vista a proteção de outros direitos que não
sejam direitos constitucionalmente consagrados. Este critério tem por base a
supremacia da Constituição, não podendo uma norma constitucional consa‑
gradora de um direito fundamental ser restringida para salvaguardar um direito
ou interesse de menor valor jurídico.
Entre os interesses constitucionalmente garantidos encontram‑se os inte‑
resses de defesa e segurança nacionais, ordem pública, valorização das normas
e usos costumeiros ou a participação popular (50).
Parece ser importante, no processo de desenvolvimento de uma lei restri‑
tiva, garantir a identificação dos direitos ou interesses que justificam a restrição
aos direitos fundamentais. Tal é o caso, por exemplo, da Lei da Segurança
Interna, que identifica alguns direitos e interesses a proteger com a lei, nome‑
adamente, a vida, a integridade física das pessoas, a paz pública, a ordem
democrática e a saúde pública, bem como da Lei da Greve, a qual se refere à
defesa e ao interesse nacional (51). Porém, num processo relativo à Lei sobre a
Imigração e o Asilo, o Tribunal de Recurso, atuando enquanto Supremo Tri‑
bunal de Justiça, considerou ser negativo o facto de o legislador não ter expli‑
cado e não resultar claro da lei que direitos ou bens se visavam proteger com
a restrição de alguns direitos dos estrangeiros (52).
Quanto à identificação específica dos “interesses constitucionalmente
protegidos”, vale a pena salientar que a Constituição apenas raramente aponta
(50)
Ver, por exemplo, entre muitos, os artigos 146.º e seguintes, artigo 2.º‑4,
artigo 6.º/c da CRDTL.
(51)
O artigo 3.º da Lei n.º 4/2010, de 21 de Abril dispõe que “[a]s medidas
previstas na presente lei visam especialmente proteger a vida, a integridade física das
pessoas, a paz pública e a ordem democrática, contra a criminalidade violenta e orga‑
nizada, designadamente o terrorismo, a sabotagem, espionagem e o tráfico de seres
humanos, e prevenir e minorar catástrofes naturais, defender o ambiente e preservar
a saúde pública” (itálico nosso). A Lei n.º 5/2012, 29 de Fevereiro prevê no seu
artigo 7.º‑1 que “[o] direito à greve por parte dos trabalhadores dos portos, aeropor‑
tos, transportes aéreos e marítimos, bem como de outros serviços que produzam bens
ou prestem serviços indispensáveis às Forças Armadas e às Forças Policiais, deve ser
exercido de modo a não pôr em causa a defesa e o interesse nacional.” (itálico nosso).
(52)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 30 de Abril de 2007 (Fiscalização abstrata
e sucessiva de constitucionalidade), Proc n.º 03/CONST/03/TR, 1763‑1764 (2007),
publicado no Jornal da República Série I, N. 11 de 18 de Maio de 2007:1763‑1764.
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
331
os bens que podem justificar uma restrição a um direito de forma inequívoca,
como fez relativamente ao direito à liberdade de expressão que pode ser res‑
tringido com o objetivo de respeitar a “dignidade da pessoa humana” (53). No
plano do direito internacional, já será mais comum a determinação dos inte‑
resses que podem justificar a restrição a um direito humano específico, como
é o caso da liberdade de religião e da liberdade de expressão (54). Sem a iden‑
tificação expressa dos interesses constitucionalmente protegidos relevantes e
aceitáveis para a restrição dos direitos fundamentais, a identificação desses
interesses torna‑se uma tarefa mais árdua. Assim, os tratados internacionais dos
direitos humanos podem servir como um instrumento de apoio neste processo
interpretativo.
Note‑se, no entanto, que “nem todos os interesses constitucionalmente
garantidos são adequados para justificar a restrição; sobretudo, quando se tra‑
tar de cláusulas demasiado vagas para suportarem qualquer confronto consis‑
tente com os direitos, liberdades e garantias” (55). Visando a restrição salvaguar‑
dar outros direitos ou interesses constitucionalmente garantidos, o interesse
invocado deverá ter um nexo com o direito a restringir, o que pressupõe que
o mesmo possa ser identificado.
O artigo 40.º‑3 da Constituição prevê que: “[o] exercício dos direitos e
liberdades referidos neste artigo é regulado por lei com base nos imperativos do respeito
da Constituição e da dignidade da pessoa humana”. Ainda, ver, por exemplo, o
artigo 131.º da CRDTL, que se pode considerar um direito análogo aos direitos,
liberdades e garantias, segundo o qual “[a]s audiências dos tribunais são públicas, salvo
quando o tribunal decidir o contrário, em despacho fundamentado, para salvaguarda
da dignidade das pessoas, da moral pública e da segurança nacional ou para garantir
o seu normal funcionamento”.
(54)
Veja‑se, por exemplo, o artigo 18.º‑3 do Pacto Internacional sobre os
Direitos Civis e Políticos (“A liberdade de manifestar a sua religião ou as suas convic‑
ções só pode ser objecto de restrições previstas na lei e que sejam necessárias à protec‑
ção de segurança, da ordem e da saúde públicas ou da moral e das liberdades e direitos
fundamentais de outrem”) ou ainda o artigo 19.º‑3 da mesma convenção (“O exercí‑
cio das liberdades previstas no parágrafo 2 do presente artigo comporta deveres e
responsabilidades especiais. Pode, em consequência, ser submetido a certas restrições,
que devem, todavia, ser expressamente fixadas na lei e que são necessárias: a) Ao respeito
dos direitos ou da reputação de outrem; b) À salvaguarda da segurança nacional, da
ordem pública, da saúde e da moralidade públicas”.
(55)
Gomes Canotilho e Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada,
1:392.
(53)
Coimbra Editora ®
332
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
c) Proibição de diminuição da extensão e alcance do conteúdo essencial do
direito fundamental sujeito à restrição
As leis restritivas não podem “diminuir a extensão e o alcance do conteúdo
essencial” do direito fundamental constitucionalmente protegido (artigo 24.º‑2
CRDTL). Este critério tem por base a ideia de que um direito que visse o seu
conteúdo essencial negativamente afectado perderia o seu conteúdo útil (56).
Assim, ao legislador não é dada uma carta branca para restringir um direito
fundamental — ao invés, a restrição não deve diminuir o núcleo essencial do
direito fundamental.
E em que consiste o núcleo essencial de um direito? A determinação do
mesmo representa uma tarefa hermenêutica importante, que tem sido ampla‑
mente discutida pela doutrina estrangeira. Pensa‑se que o intérprete poderá
considerar, entre outros elementos, a lei conformadora do direito fundamental
em questão, caso esta exista, e a interpretação dada às garantias de direitos
humanos contidas nos tratados internacionais de direitos humanos.
Na delineação do conteúdo essencial, há que abordar duas teorias: as
teorias que dizem respeito ao objeto de proteção e as teorias sobre o valor da
proteção das normas consagradoras do direito (57).
Quanto às teorias respeitantes ao objecto de proteção, trata‑se de saber
se a Constituição pretende proteger o conteúdo essencial da garantia obje‑
tiva (teoria objetiva) ou de um direito individual (teoria subjetiva). Ou seja,
trata‑se de saber se são inconstitucionais, por violarem o artigo 24.º da
CRDTL, as restrições que possam atingir o conteúdo essencial do direito
de um indivíduo, de uma pessoa específica titular de um direito, ou se são
inconstitucionais as restrições que afetem o conteúdo essencial da norma
enquanto norma objectiva, quer dizer, na sua perspetiva enquanto direito
de que todos são titulares numa sociedade e não na perspetiva daquele que
é titular do direito afetado. Alguns autores rejeitam a adoção de teorias
extremas a este propósito, salientando que se, por um lado, se “deve ter em
atenção a função dos direitos na vida comunitária, sendo irrealista uma
teoria subjectiva desconhecedora desta função”, por outro, “a protecção do
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional
Angolano, 200.
(57)
Para uma explicação breve sobres estas teorias (de origem alemã), ver Ibid.,
201.
(56)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
333
núcleo essencial não pode abdicar da dimensão subjectiva dos direitos
fundamentais e daí a necessidade de evitar restrições conducentes à aniqui‑
lação de um direito subjectivo individual” (58).
Partindo do exemplo dado por Gomes Canotilho, o Direito admite que
seja aplicada uma pena de prisão longa para um crime grave. Assim, não dever
ser acolhida sem limitações a teoria subjetiva, uma vez que uma pena tão
prolongada parece atingir o núcleo do direito de liberdade de um indivíduo
e seria assim, proibida, na linha desta teoria. Mas, por outro lado, também
não se pode ignorar a dimensão subjetiva de um direito. Por essa razão,
proíbe‑se a pena de morte, uma vez que contende com o conteúdo essencial
do direito à vida (59).
Quanto às teorias sobre o valor de proteção, discute‑se a seguinte questão:
“o núcleo essencial é um valor absoluto ou depende da sua confrontação com
outros direitos ou bens”? (60). A questão é a de saber se o conteúdo essencial do
direito é determinado quando confrontado com outros direitos ou interesses
(teoria relativa), ou se pode ser considerado enquanto valor absoluto, que é
determinado em abstrato e não perante uma situação concreta (teoria abso‑
luta) (61). Note‑se que, segundo a teoria relativa, uma restrição “seria legítima
quando (se) fosse exigida para realização de bens jurídicos que devessem ser
considerados (no caso) como mais valiosos e (…) só na medida em que essa
exigência se imponha ao direito fundamental” (62). Alguns autores rejeitam a
teoria relativa por esta acabar por não autonomizar a questão da determinação
do conteúdo essencial do direito relativamente ao princípio da proporcionali‑
dade (63). Ao invés, segundo a teoria absoluta, seria possível determinar em
abstrato o conteúdo essencial de cada direito. Para Vieira de Andrade, por
exemplo, o conteúdo essencial é concretizável a partir da ideia da dignidade da
pessoa humana (64). Outros autores rejeitam igualmente a teoria absoluta na
Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 459.
Ibid.
(60)
Ibid., 459‑460.
(61)
Sobre esta discussão na doutrina, ver Ibid. ou ainda Vieira de Andrade, Os
direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976, 2012, 282‑284.
(62)
Vieira de Andrade, Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de
1976, 283.
(63)
Ibid. Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 460.
(64)
Vieira de Andrade, Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de
1976, 284.
(58)
(59)
Coimbra Editora ®
334
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
medida em que a mesma não teria em consideração o processo pelo qual se
determina o âmbito de proteção de um direito, que “pressupõe necessariamente
a equação com outros bens, havendo possibilidade de o núcleo de certos direi‑
tos, liberdades e garantias poder vir a ser relativizado em face da necessidade
de defesa destes outros bens” (65).
Considere‑se, a propósito do critério em análise e a título exemplificativo,
o artigo 42.º‑1 CRDTL, segundo o qual “a todos é garantida a liberdade de
reunião pacífica e sem armas, sem necessidade de autorização prévia.” A auto‑
rização prévia distingue‑se do aviso às autoridades sobre a realização de uma
reunião. Assim, parece fazer parte do conteúdo essencial do direito de reunião
a não existência de uma obrigação de autorização prévia. Portanto, qualquer
lei que impusesse a obtenção de uma autorização por parte da Administração
Pública para a realização de uma reunião seria inconstitucional por atingir o
conteúdo essencial do direito. Já uma lei que impusesse somente a necessidade
de avisar as autoridades da realização de uma reunião de caráter público não
atingiria o conteúdo essencial do direito (66).
d) Princípio da proporcionalidade em sentido amplo ou princípio da proibição
do excesso
Entende‑se geralmente que o princípio da proporcionalidade assume, em
matéria de restrições aos direitos fundamentais, uma particular relevância. Na
sua essência, aquele princípio garante que as restrições sejam razoáveis e justas.
A questão que se coloca, por exemplo, é a de determinar em que medida poderá
a liberdade de expressão ser limitada para proteger o direito à honra e reputa‑
ção de forma justa, de forma a que um não seja “excessivamente limitado em
benefício do outro” (67). Assim, o princípio da proporcionalidade pode ser
entendido como um limite às leis restritivas (i.e., um limite dos limites). Na
prática, a análise da proporcionalidade das restrições é aquela que nos permite
traçar a fronteira entre uma restrição permitida (e constitucional) e uma res‑
trição excessiva (e inconstitucional).
Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 460.
Este é o caso do artigo 10.º da Lei n.º 1 /2006, de 8 de Fevereiro (Liberdade
de Reunião e de Manifestação).
(67)
Machado, Nogueira da Costa, e Carlos Hilário, Direito Constitucional Ango‑
lano, 193.
(65)
(66)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
335
Aliás, a apreciação feita pelos tribunais sobre a constitucionalidade de leis
restritivas tem frequentemente como foco principal a apreciação do princípio
da proporcionalidade (68).
Diferentemente do disposto noutros textos constitucionais (69), a Consti‑
tuição timorense não contém, no artigo 24.º, uma referência expressa ao
princípio da necessidade e/ou proporcionalidade enquanto pressuposto da
restrição aos direitos. Perante a inexistência de tal referência expressa, poderá
questionar‑se se este princípio deverá ser considerado ou não como um dos
requisitos materiais das leis restritivas.
Sobre esta matéria, o Tribunal de Recurso, exercendo a competência
constitucional do Supremo Tribunal de Justiça, considerou que “a admissibili‑
dade da restrição de direitos por via legislativa impõe o respeito pelo padrão
internacional do ‘princípio da proporcionalidade’ que decorre do princípio do
Estado de direito, do regime geral das leis restritivas” (70). Assim, entendeu o
tribunal que o princípio tem acolhimento no ordenamento jurídico timorense,
enquanto decorrência do próprio princípio do Estado de Direito democrá‑
tico (71), mas também que o mesmo resulta do próprio regime contido no
artigo 24.º e da aplicação do direito internacional dos direitos humanos (72).
Ver Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:380.
Já o Tribunal de Recurso, atuando como Supremo Tribunal de Justiça se debruçou
sobre a proporcionalidade das medidas previstas em lei restritiva no Tribunal de Recurso,
Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005 (2005).
(69)
Cfr. artigo 57.º‑1 da Constituição da República de Angola (“devendo as
restrições limitar‑se ao necessário, proporcional e razoável numa sociedade livre e
democrática, para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente pro‑
tegidos”) ou, numa formulação um pouco diferente, o artigo 18.º‑2 da Constituição
da República Portuguesa (“devendo as restrições limitar‑se ao necessário para salvaguar‑
dar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos”) ou o artigo 19.º‑2
da Constituição da República Democrática de São Tomé e Príncipe (“Nenhuma res‑
trição ou suspensão de direitos pode ser estabelecida para além do estritamente neces‑
sário).
(70)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005, 2
(2005), 2.
(71)
Também a doutrina salienta a relação entre o princípio da proporcionalidade
e o princípio do Estado de Direito democrático. Ver, por exemplo, Canotilho, Direito
Constitucional e Teoria da Constituição, 266‑268.
(72)
Poderá argumentar‑se que este princípio pode encontrar acolhimento no
número 2 do artigo 24.º, na medida em que dispõe que as leis restritivas “não podem
(68)
Coimbra Editora ®
336
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
A determinação de quando uma norma restritiva é ou não proporcional
representa um processo analítico de uma certa complexidade. A doutrina por‑
tuguesa e os tribunais de outras jurisdições nacionais e regionais de direitos
humanos desdobram o princípio da proporcionalidade em três subprincípios:
o princípio da adequação, o princípio da necessidade e o princípio da propor‑
cionalidade em sentido restrito (73).
O princípio da adequação traduz‑se na idoneidade ou capacidade de a
restrição realizar o fim que se invoca na lei. Para verificar se este requisito
se encontra preenchido, podemos perguntar‑nos o seguinte: “em geral, a
restrição é adequada para atingir o fim?”. Usando como exemplo uma lei (o
Código de Processo Penal) que preveja uma limitação ao direito à inviola‑
bilidade do domicílio e da correspondência — a busca domiciliária — para
garantir o interesse da investigação criminal (a apreensão de objetos que
estejam relacionados com um crime ou detenção de uma pessoa quando
estejam numa habitação), a questão que se coloca para aferir se esta restrição
respeita o princípio da adequação é: “a busca domiciliária é uma medida
adequada a garantir o interesse da investigação criminal?”. Neste caso, a
resposta seria afirmativa e, portanto, pode considerar‑se que a restrição é
adequada a atingir o fim. Aqui, relacionamos a restrição com o objetivo que
lhe deu origem.
diminuir a extensão e o alcance do conteúdo essencial dos dispositivos constitucionais”.
Também nesse sentido, Direitos Humanos — Centro de Investigação Interdisciplinar,
Constituição Anotada da República Democrática de Timor‑Leste, 97. Não se pretende,
com isto, mostrar‑se uma preferência pela teoria relativa acima mencionada. De facto,
não se quer dizer que o requisito que consiste na proibição de as leis restritivas dimi‑
nuírem a extensão e o alcance do conteúdo essencial dos dispositivos constitucionais
se identifica apenas com a questão da proporcionalidade.
(73)
Vide, entre outros, de Melo Alexandrino, Direitos Fundamentais: Introdução
Geral, 125‑127, Gomes Canotilho e Moreira, Constituição da República Portuguesa
Anotada, 1:392‑393.; Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010,
Tomo I:373. Diversos exemplos podem ilustrar a violação destes subprincípios. Para
uma pronúncia do Tribunal Constitucional de Portugal sobre a inconstitucionalidade
de normas por violação do subprincípio da necessidade ver Acórdão de 23 de Dezem‑
bro de 2008 (Processo n.º 977/2008), Tribunal Constitucional de Portugal Acórdão
n.º 632/2008 (2008).; ou do subprincípio da proporcionalidade em sentido restrito
Tribunal Constitucional de Portugal, Acórdão de 4 de Novembro de 1993 (Processo
n.º 94/92), Ac. n.º 634/93, 92 (1993), 92.
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
337
O segundo subprincípio a analisar é o princípio da necessidade. Não basta
que a medida restritiva seja adequada a prosseguir o fim. É igualmente preciso
que a mesma seja necessária, ou seja, não possa ser substituída por outra medida
idónea menos onerosa, ou menos restritiva. A pergunta‑chave que se deve fazer
é, portanto: “Há outras medidas eficazes, porém menos onerosas — quer dizer que
restringem menos o direito fundamental — que permitam atingir o mesmo fim (de
proteção de outro direito ou interesse)?”. Lembram Jorge Miranda e Rui de
Medeiros a este respeito que se deverá fazer “uma análise custo/benefício de cada
um dos meios à disposição do legislador” (74) para se determinar a medida que
é menos restritiva do direito fundamental e que permita alcançar os fins visados
pelo legislador (75). Deve notar‑se que a comparação é sempre feita com outras
medidas ou opções que também sejam adequadas para atingir o fim. Ou seja,
em primeiro lugar, deve identificar‑se outras medidas idóneas a prosseguir o
fim e, num segundo momento, compará‑las com a medida restritiva em análise
para determinar se são mais ou menos onerosas do que esta. Se não houver
outras medidas adequadas a atingir o fim, deve entender‑se que a medida
escolhida pelo legislador contida na lei restritiva é necessária. Partindo do
exemplo anterior, importa analisar se há outras medidas também adequadas,
mas menos onerosas do que a busca domiciliária que permitam apreender
objetos ou deter pessoas quando estas se encontrem num domicílio, a fim de
garantir a investigação criminal. Também neste caso a resposta é no sentido de
se considerar que a busca domiciliária é uma restrição necessária para se atingir
o fim.
O terceiro subprincípio a analisar é o da proporcionalidade em sentido
restrito ou a razoabilidade. Aqui, já não se trata de comparar a medida legis‑
lativa restritiva com outras medidas potenciais, mas antes de fazer uma pon‑
deração ou um balanço entre o direito que é restringido e o bem constitucio‑
nal que justifica a restrição (76). A pergunta‑teste relativa a este subprincípio
pode ser a seguinte: “os meios utilizados são proporcionais aos fins que pretendemos
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:376.
É interessante reproduzir o que dizem Jorge Miranda e Rui de Medeiros:
“se certa providência legal restritiva, mesmo que adequada a produzir o resultado
desejado pelo legislador, não apresentar exactamente o mesmo grau de idoneidade do
meio efectivamente adoptado […] ainda assim ela será preferível se for inequivocamente
menos onerosa para os direitos fundamentais afectados.” (Ibid.)
(76)
Ibid., Tomo I:376‑377.
(74)
(75)
Coimbra Editora ®
338
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
atingir (ou seja, é esta restrição proporcional ao fim)?” Usando o exemplo relativo
à busca domiciliária, deve ter‑se em consideração que o Código de Processo
Penal contém uma série de requisitos relativamente a estas medidas, nomeada‑
mente, a exigência de uma autorização por despacho de juiz e outros requisitos
relativos às horas em que as autoridades poderão entrar no domicílio de uma
pessoa, exigências essas, aliás, decorrentes dos próprios números 2 e 3 do
artigo 37.º da CRDTL. Ou seja, a medida restritiva que é a busca domiciliária
é acompanhada por uma série de cautelas que visam, desde logo, garantir que
o direito à inviolabilidade do domicílio, que é o direito que se restringe, não
é excessivamente limitado relativamente ao bem que justifica a restrição, a
investigação criminal. A entrada sem uma autorização judiciária é somente
realizada em situações excecionais, sendo imposto aos poderes públicos o dever
de acionar o sistema judiciário quando seja ainda possível, a fim de prevenir
potenciais abusos. Aqui, há, então, que comparar as vantagens e as desvantagens
da medida restritiva. Caso as desvantagens sejam superiores às vantagens, então
a medida é desproporcional e, como tal, inconstitucional.
Os subprincípios do princípio da proporcionalidade devem verificar‑se
cumulativamente. Assim, se a restrição não for adequada, será inconstitucional,
não sendo necessário ao intérprete verificar se os outros subprincípios são
respeitados. Se a restrição for adequada mas não necessária, também violará a
Constituição e o intérprete não necessitará de avaliar se a restrição respeita o
subprincípio da proporcionalidade em sentido restrito. Por conseguinte, uma
análise do subprincípio da proporcionalidade em sentido restrito (que repre‑
senta, em geral, a análise mais complexa), só será exigida ao intérprete quando
a restrição seja adequada e necessária.
Um acórdão do Tribunal de Recurso que se reveste de especial importân‑
cia nesta matéria é o Acórdão de 9 de Maio de 2005, no qual este Tribunal,
exercendo as funções de Supremo Tribunal de Justiça, apreciou, a título de
fiscalização preventiva, a constitucionalidade de algumas das normas contidas
no diploma sobre “Liberdade de Reunião e de Manifestação” (77). Várias foram
as normas apreciadas pelo tribunal: os artigos 5.º, 6.º, 7.º e número 2 do
artigo 15.º Considerou o Tribunal serem conformes com a Constituição os
números 1 e 2 do artigo 5.º, o artigo 6.º, o artigo 7.º e o número 2 do
artigo 15.º Merecem particular atenção as normas que se relacionavam com a
(77)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005
(2005).
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
339
localização e o momento do dia em que as manifestações poderiam ser reali‑
zadas, sobretudo, por levantarem importantes questões relacionadas com o
respeito pelos requisitos contidos no artigo 24.º da Constituição (78). Quanto
a uma prescrição geral de limitação da localização da reunião ou manifestação
(artigo 5.º‑1 e 2), o que se questionou, fundamentalmente, foi se uma proibi‑
ção geral de todas as reuniões e manifestações realizadas a uma distância de
algumas instalações ou instituições inferior à estipulada na lei, independente‑
mente das circunstâncias concretas, violaria ou não o artigo 24.º da CRDTL.
O Tribunal considerou não haver uma violação do princípio da proporciona‑
lidade, mas antes uma justa ponderação de bens: a liberdade de reunião e
manifestação e a segurança das pessoas que se pretende proteger com o artigo.
Ainda, argumentou o tribunal, a solução legislativa teria a vantagem de facili‑
tar o trabalho das autoridades, de “permitir aos próprios manifestantes saber
de antemão e sem dificuldade a distância que devem respeitar e preparar‑se
melhor para a manifestação”, bem como a de diminuir a possibilidade de
interferências arbitrárias no direito à manifestação (79). Questiona‑se, no entanto,
a argumentação do tribunal neste caso. Poderá argumentar‑se que, do ponto
Artigos 5.º‑1 e 2 e artigo 6.º da Lei N.º 1 /2006 de 8 de Fevereiro (Liber‑
dade de reunião e de manifestação) (com redação igual à que foi apreciada pelo Tri‑
bunal). Determina o artigo 5.º que “É proibida a realização de reuniões e manifestações
em lugares públicos ou abertos ao público situados a menos de 100 metros dos recin‑
tos onde estão sediados os órgãos de soberania, as residências oficiais dos titulares dos
órgãos de soberania, as instalações militares e militarizadas, os estabelecimentos prisio‑
nais, as sedes das representações diplomáticas e consulares e as sedes dos partidos
políticos” (número 1). O número 2 do mesmo artigo estipula que: “É igualmente
proibida a realização de manifestações num espaço a menos de 100 metros dos portos,
aeroportos, instalações de telecomunicação, centrais de produção de energia eléctrica,
depósitos e locais de armazenamento de água, combustível e material inflamável”.
O artigo 6.º determina que “As manifestações só podem ter lugar entre as 8 e as 18 horas
e 30 minutos”.
(79)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005, 3
(2005), 3. Diz ainda o tribunal a este respeito: “Deixar às autoridades a definição, caso
a caso, dessa distancia mínima poderá criar maior incerteza, derivada da subjectividade,
quando não da arbitrariedade, de quem o faz, e poderá, na prática, conduzir mais
facilmente à limitação do exercício desse direito, sobretudo se tivermos em conta que
quem a fixar terá a natural tentação de a aumentar naqueles casos em que a manifes‑
tação não seja do seu agrado”. Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005,
Proc n.º 01/2005, 4 (2005), 4.
(78)
Coimbra Editora ®
340
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
de vista da proporcionalidade, é questionável se a medida é necessária e se não
seria menos restritiva (mas ainda adequada) a solução que permitisse avaliar as
circunstâncias específicas de cada manifestação e reunião, e determinar o risco
em cada caso (80).
Quanto ao artigo 6.º, que bane as manifestações realizadas entre as
18 horas e 30 minutos e as 8 da manhã, sem exceções, o tribunal argumen‑
tou que a restrição “não afecta o conteúdo essencial do direito a manifes‑
tar‑se” (81) e visa garantir o direito de todos ao repouso. É interessante notar
o facto de o tribunal ter referido a realidade que à data poderia justificar uma
tal restrição: o facto de haver iluminação deficiente justificava o descanso
ocorrer mais cedo “e movimentações anormais, como as ocorridas na mani‑
festação causariam naturais sobressaltos” (82). No entanto, nota‑se que também
relativamente a esta questão se poderia ter optado por uma regra que previsse
a possibilidade de exceções, dependendo das circunstâncias do caso concreto.
Este argumento, o da iluminação deficiente, representa claramente, um fac‑
tor temporário. Assim, embora pudesse valer como argumento à data da
apreciação pelo tribunal e da entrada em vigor da lei, tendo a lei uma voca‑
ção de aplicação para o futuro, entende‑se que teria sido preferível a adoção
de uma norma que admitisse exceções.
Merece também particular atenção a argumentação utilizada pelo Tribunal
para considerar inconstitucional, por violação do princípio da proporcionali‑
dade, o número 3 do artigo 5.º Este artigo proibia as manifestações que tives‑
sem por objectivo “questionar a ordem constitucional, pondo em causa os
órgãos e as instituições democraticamente eleitas”. O tribunal argumentou neste
(80)
Tal foi, por exemplo, a solução adoptada em Portugal: “As autoridades
referidas no n.º 1 do artigo 2.º, solicitando quando necessário ou conveniente o pare‑
cer das autoridades militares ou outras entidades, poderão, por razões de segurança,
impedir que se realizem reuniões, comícios, manifestações ou desfiles em lugares públi‑
cos situados a menos de 100 m das sedes dos órgãos de soberania, das instalações e
acampamentos militares ou de forças militarizadas, dos estabelecimentos prisionais, das
sedes de representações diplomáticas ou consulares e das sedes de partidos políticos”
(artigo 13.º do Decreto‑Lei n.º 406/74 de 29 de Agosto). Não obstante, deve notar‑se
que as autoridades timorenses têm feito uma ponderação sobre as circunstâncias con‑
cretas de cada manifestação.
(81)
Tribunal de Recurso, Acórdão de 9 de Maio de 2005, Proc n.º 01/2005, 7
(2005), 7.
(82)
Ibid., 8.
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
341
caso que o conceito de “ordem constitucional” é bastante amplo e inclui ques‑
tões muito distintas. Assim, afirma o tribunal, se em determinadas situações
os valores incluídos no conceito “ordem democrática” poderiam justificar uma
restrição desta natureza à liberdade de manifestação, noutros casos não. O tri‑
bunal concluiu pela inconstitucionalidade da norma por restringir “injustifica‑
damente o direito de manifestação, nomeadamente quando o direito ou
interesse que a ‘ordem constitucional’ protege não tem o mesmo peso que o
direito restringido” (83). Apesar de o acórdão não incluir uma análise detalhada
sobre a aplicação do princípio da proporcionalidade, o Tribunal parece reco‑
nhecer, neste caso, que se estava perante a violação do princípio da proporcio‑
nalidade latu sensu por existir uma violação do seu subprincípio da proporcio‑
nalidade stricto sensu: o tribunal faz uma ponderação entre o direito restringido
e o bem que se quer proteger, e conclui que os sacrifícios exigidos ao primeiro
(ao direito de reunião e manifestação) eram superiores ao bem “ordem consti‑
tucional”. O tribunal argumenta ainda que a restrição limitaria injustificada‑
mente o direito de manifestação uma vez que “é da natureza da democracia
poderem os cidadãos, por meios pacíficos, questionar os órgãos e instituições
democraticamente eleitos” (84).
Na análise da compatibilidade de uma lei com o princípio da proporcio‑
nalidade, revela‑se importante considerar as situações concretas que a lei pode
regular. Partindo do exemplo da Lei sobre Liberdade de Reunião e de Mani‑
festação, deve ter‑se em consideração que uma norma que restrinja todas as
manifestações realizadas a menos de 100 metros de determinados edifícios sem
exceções, não leva em conta o facto de os riscos de uma manifestação para a
ordem pública dependerem dos casos concretos. Assim, quanto ao nível do
Ibid., 5.
Ibid. No outro acórdão do Tribunal de Recurso anteriormente mencionado,
o Acórdão de 30 de Abril de 2007, sobre o Proc. n.º 03/CONST/03/TR, pensa‑se
que o tribunal poderia ter considerado a questão da constitucionalidade das normas
pelo prisma do princípio da proporcionalidade. Na verdade, o tribunal apenas faz uma
referência breve ao princípio, dizendo que a restrição não parece ser necessária para
proteger outros direitos ou bens constitucionalmente protegidos. Uma vez que a ques‑
tão da autorização expressa da Constituição para a restrição a direitos é uma questão
bastante controversa, como já discutido, o tribunal poderia eventualmente ter optado
por analisar a questão à luz do princípio da proporcionalidade (e, pensa‑se, poderia ter
chegado, por esta via, à mesma conclusão sobre a compatibilidade da norma com a
Constituição).
(83)
(84)
Coimbra Editora ®
342
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
risco implicado, parece ser diferente a realização de uma manifestação por um
pequeno número de estudantes na proximidade de uma autoridade pública
contra a qual aqueles se manifestam, ou uma manifestação realizada por um
número bastante elevado de pessoas com conhecimento sobre segurança e defesa
pessoal, como combatentes da frente armada da libertação ou ex‑membros de
uma força de segurança, que pedem a demissão do Governo e que se manifes‑
tam em frente ao edifício do Gabinete do Primeiro Ministro e Conselho de
Ministros.
Deve considerar‑se que será, na realidade, muito difícil que uma restrição
a um direito fundamental que se consubstancie numa medida geral e que não
admita exceções respeite o princípio da proporcionalidade, pois não permitirá
a consideração de opções, alternativas ou fatores necessários para se proceder
a um juízo de equilíbrio subjacente àquele princípio.
Salienta‑se, ainda, que aquilo que pode ser considerado proporcional hoje
poderá não ser necessariamente proporcional no futuro. A proporcionalidade
deve ser aferida tendo em conta o contexto específico no qual as normas são
aplicadas.
O princípio da proporcionalidade não se refere à questão de saber como
deve ser delineado o conteúdo essencial do direito. Aqui, o que vai ser deter‑
minado é a “posição” da restrição no âmbito de proteção do direito, determi‑
nando a “distância” da restrição até ao núcleo essencial, isto é, o quão próximo
se deve chegar do núcleo essencial, sendo, claro, preferível fazer uma restrição
que se encontre o “mais longe possível” do núcleo essencial, garantindo, assim,
a maior proteção possível ao direito fundamental em apreço.
2.4 As Intervenções Restritivas
As intervenções restritivas distinguem‑se das leis restritivas, embora sejam,
também elas, uma modalidade de restrição. As intervenções consistem em “actos
de afectação individual e concreta desses direitos, por força de decisão admi‑
nistrativa ou jurisdicional tomada com base em lei prévia — já que a grande
maioria das leis restritivas não é auto‑exequível —, mas em que, com frequên‑
cia, a Administração ou os tribunais beneficiam de uma latitude significativa
para proceder à sua interpretação e aplicação” (85).
Miranda e Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, 2010, Tomo I:350.
(85)
Coimbra Editora ®
Capítulo IV — As Limitações aos Direitos Fundamentais
343
Da aplicação de uma lei restritiva pode resultar uma intervenção restritiva.
Embora seja a lei a determinar os parâmetros da restrição ao direito, será um
poder público que, na maior parte das vezes, irá dar vida a esta norma legislativa
através de ato restritivo do direito de uma pessoa concreta. Assim, enquanto a
lei restritiva contem normas jurídicas que restringem o âmbito de proteção de
um direito, a intervenção restritiva consiste num ato restritivo de um direito (86).
Vários exemplos podem ser dados para ilustrar a diferença entre a lei
restritiva e a intervenção restritiva. O Código de Processo Penal que permite a
realização de escutas telefónicas e que, como tal, restringe o direito à inviola‑
bilidade do domicílio e correspondência, consiste numa lei restritiva. Já a
decisão judicial que autoriza a realização de uma escuta num caso concreto será
uma intervenção restritiva. Ou ainda, uma lei que regule a expropriação pode
ser considerada lei restritiva, ao passo que uma decisão de expropriação de uma
parcela de terreno (um ato administrativo) constitui antes uma intervenção
restritiva. Tanto os tribunais quando implementam as normas restritivas con‑
tidas numa lei, como os outros poderes públicos, podem vir a realizar inter‑
venções restritivas. Por conseguinte, quando o tribunal decide que um arguido
deve manter‑se em prisão preventiva durante o inquérito e o julgamento, o
tribunal realiza uma intervenção restritiva; afinal, é pela decisão do tribunal
baseada nos parâmetros do Código de Processo Penal relativos à prisão preven‑
tiva, que se restringe efetivamente o direito do arguido à liberdade. De forma
semelhante, quando um membro da polícia lança gás lacrimogéneo e dispersa
uma manifestação, ele está a executar uma intervenção restritiva que restringe
o direito à liberdade de manifestação através da aplicação ao caso concreto das
normas relevantes previstas na lei que regula a manifestação.
Como se viu, a questão das leis restritivas encontra‑se regulada no
artigo 24.º da Constituição, que determina os limites impostos à restrição aos
direitos fundamentais por via legislativa. No entanto, a Constituição não con‑
tém normas concretas sobre as intervenções restritivas, aliás, à semelhança de
outras constituições de países membros da CPLP. A doutrina portuguesa que
se pronuncia sobre esta matéria relativamente ao caso português entende que
a falta de uma norma constitucional sobre este assunto não significa ser des‑
necessária a observação de determinados requisitos. Desde logo, salienta‑se a
Sobre esta matéria ver Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Consti‑
tuição, 1265‑1266. Ou ainda Novais, As restrições aos direitos fundamentais não expres‑
samente autorizadas pela Constituição, 192‑ss.
(86)
Coimbra Editora ®
344
Os Direitos Fundamentais em Timor‑Leste
importância de se respeitarem os princípios da proporcionalidade, da proibição
da retroatividade, ou ainda o requisito de a intervenção salvaguardar o conteúdo
essencial do direito (87).
Tal como referido, a própria lei restritiva