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INVESTIGAÇÃO SOCIAL E SERVIÇO SOCIAL : novos processos de
produção do conhecimento♦
Yolanda Guerra♣
Pela sua complexidade, o tema “Investigação Social e Serviço Social:
novos processos de produção do conhecimento” requer ser tratado a partir de
questões de duas ordens.
A primeira refere-se à investigação enquanto um momento do processo de
produção do conhecimento e ao tipo, à modalidade, à natureza, as
particularidades do conhecimento sobre objetos sociais, sua importância,
pertinência e utilização na prática profissional dos assistentes sociais.
A segunda ordem de questões centra -se na indagação sobre a existência
de novos processos de produção do conhecimento sobre o social. Estes dois
ordenamentos de questões, embora tratados separadamente, encontram-se intima
e intrinsecamente relacionados, e sua a unidade será buscada no Serviço Social,
já que este se constitui no eixo articulador destas reflexões.
O primeiro conjunto de questões nos leva a refletir sobre o conhecimento,
seu processo de produção, seus níveis, instrumentos e modalidades, nesta última,
enfatizando as particularidades do conhecimento produzido por investigações que
tem por objeto a sociedade.
Estamos entendendo que o conhecimento constitui um dado da nossa
experiência. Ele surge de necessidades e implica numa atividade, num “por-se
em condições” de captar adequadamente o conjunto de informações que
consideramos relevantes aos nossos interesses e objetivos, de escolher
determinadas respostas, de organizar e hierarquizar as respostas, de utilizá-las
para nossas atividades ou projetos. O conhecimento se constrói a partir de
necessidades e interesses mediante um esforço de escolha e organização.
Pressupõe acumulação de informações através das quais a nova situação é
avaliada e contraposta às experiência passadas, com elementos da situação
presente e com uma antevisão do futuro. Não apenas a situação concreta, mas
também as possíveis alternativas de respostas são avaliadas e uma dentre elas é
escolhida, visando resolver a situação vigente, de modo que o conhecimento deve
♦ Trabalho apresentado na mesa de encerramento do XVI Congreso Latinoamericano de Escuelas de Trabajo Social,
Santiago-Chile, novembro de 1998, a convite dos organizadores do evento.
♣ Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (BR), professora assistente da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (BR), autora do livro “A Instrumentalidade do Serviço Social”, Ed. Cortez, 1995 e
de artigos publicados em revistas especializadas.
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permitir tanto analisar e opera sobre o existente, quanto reconhecer as tendência
do movimento, “o vir a ser” dos processos sociais.
Há níveis ou graus do conhecimento que se constituem em momentos
distintos, porém complementares. Embora correndo o risco de incorrer em
esquematismos trataremos do conhecimento teórico em dois níveis: o
1
conhecimento oriundo dos procedimentos do intelecto e o proveniente da razão .
O primeiro, implica na aceitação passiva de informações que nos chegam
pelo cotidiano, pela necessidade de sobrevivência, de reprodução da existência.
A este nível do conhecimento chamaremos de “entendimento”. O entendimento se
localiza ao nível dos fenômenos, da epiderme do real. É um processo de
reconhecimento que se traduz em imagens que são representações mais ou
menos vividas da aparência do real, que nos permite identificarmos as coisas pela
sua aparência, de modo imediato. Ele possibilita distinguir as coisas, determiná las, compará -las, classificá-las a partir da sua imagem, da aparência, da forma.
Para tanto, os sujeitos acionam o nível do intelecto. Assim, “o entendimento é
posto como um modo operativo da razão, que não critica os conteúdos dos
materiais sobre que incide” (Netto, 1994:29). Nesse nível predomina a
racionalidade formal-abstrata. Esta, porque realiza suas operações de análise e
síntese sobre as bases da positividade do mundo, “esgota-se e reduz a
racionalidade aos comportamentos manipuladores do sujeito em face do mundo
objetivo”(Netto, idem, ibidem.)2.
O conhecimento resultante dos procedimentos da razão dialética, vai além
da apreensão da imediaticidade da vida cotidiana. Ele busca captar a
processualidade contraditória de seus objetos e visa a re-figuração, ao nível do
pensamento, do seu movimento. O conhecimento se organiza mediante conceitos.
Estes são sínteses mentais dos nossos esforços em compreender o real e de nos
comportarmos adequadamente frente a ele. Os conceitos nos permitem
compreender a lógica de constituição dos processos sociais. Daí que o
conhecimento não é apenas um dado imediato da sociedade, já que nela imperam
modos de pensar próprios à manutenção e reprodução ideológica dessa ordem
3
social .
1 Remetemos o leitor à polêmica sobre o empobrecimento da razão, ou seja, a redução da Razão substantiva à sua
dimensão cognitiva, instrumental, sistêmica.
2 Para uma crítica do racionalismo burguês moderno e do conseqüente empobrecimento da razão ver Lukács, 1968; sobre
a racionalidade formal-abstrata no Serviço Social, ver Guerra, 1995 e 1997.
3 A relação entre o conhecimento oriundo do intelecto e aquele decorrente da razão dialética pode ser assim
compreendida:
nossa vida se organiza a partir de princípios gerais do modo capitalista de produ ção. Porém, a
organização capitalista possui uma ordem fundamental, uma lógica imanente que não pode ser conhecida pela sua
epiderme. A ordem burguesa reveste os fenômenos de uma objetividade que obstaculiza a apreensão da lógica de
acumulação do capital, da extração da mais-valia, da exploração, para o que exige-se a adoção de procedimentos da
Razão.
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Hegel distingue as formas pelas quais a consciência conhece a realidade: o
saber imediato, derivado da intuição; o entendimento, próprio da razão analítica
(intelecto), e a razão dialética. Diz ele:
“o intelecto determina e mantém firmes as determinações. A razão é negativa e
dialética, porque resolve no nada as determinações do intelecto; é positiva, porque cria o
universal e nele compreende o particular” (Hegel, in Netto, 1994:29 )
É na consciência, na possibilidade de os homens responderem de maneira
nova e de transformar o mundo, que se localiza a distinção ontológica entre a
processualidade social e os processos naturais.
O processo de trabalho, atividade fundante do ser social, implica no
estabelecimento de finalidades, requer a escolha dentre os diversos meios e
condições de satisfação dessas necessidades, àquelas que possam vir a
responder de maneira mais satisfatória. Este momento de pré -ideação, que
diferencia os homens dos animais4 , requer o conhecimento dos meios e
condições sobre as quais o trabalho humano irá incidir, sobre a natureza e
propriedades do objeto, sua lógica de constituição, seu núcleo imanente. O
processo de trabalho, ao mesmo tempo em que possibilita aos homens o
conhecimento sobre as propriedades constitutivas dos objetos, também lhes
faculta a percepção das articulações entre os objetos que podem ser colocadas
em movimento para tornar-lhes úteis ao alcance das suas finalidades.
Pelo pôr teleológico realizado no trabalho, o homem, enquanto ser prático e
social, transforma as potencialidades das coisas em meios para o alcance de
suas finalidades. Porem essa transformação depende do conhecimento sobre as
propriedades das coisas, melhor dizendo, a posição teleológica do trabalho só
cumpre sua função transformadora sobre a base de um conhecimento correto das
propriedades das coisas e suas conexões (Cf. Lessa, 1997).
Diz Lessa:
“a articulação entre teleologia e causalidade corresponde, pois, à essência do
trabalho, e está na origem dos dois impulsos distintos que levam à captura, pela
subjetividade, do ser-precisamente-assim existente: a intentio recta, que corresponde à
necessidade de um reflexo o mais correto possível do real para o êxito do trabalho, e a
intentio obliqua, que corresponde ao movimento de antropomorfização do real pela
subjetividade, como necessidade de responder à necessidade de uma vida plena de
sentido”(Lessa, 1997: 56).
Com isso podemos afirmar que, diferentemente do conhecimento sobre a
natureza, o conhecimento do social encontra -se intrinsecamente relacionado com
o “para que”, com as finalidades, com a postura teleológica do sujeito, com
4 Há que se evidenciar que a existência do ser social, pelo “pôr teleológico, do trabalho,
supõe a natureza e o
intercâmbio com ela.
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valores e pressupostos ético-políticos e ídeo-culturais, donde a verdade é auferida
não em termos de experimentação e controle, ou mesmo de adequação do objeto
ao pensamento e vice-versa, mas pela prática sócio-histórica de homens reais e
concretos (Cf. Marx e Engels, 1989).
Se são as finalidades que orientam a busca e seleção dos meios
necessários ao conhecimento, para objetivar as finalidades os homens precisam
conhecer as leis gerais de funcionamento da sociedade, de modo que esse
conhecimento teórico acerca da sociedade, constituído de um complexo
sistemático de explicações relativas ao modo de ser e de se reproduzir do ser
social do mundo capitalista, deve re -figurar o processo, o movimento da
realidade.
Porém, há mais: o pôr teleológico do trabalho institui um novo modo de ser
do ser, o social, cuja peculiaridade está no seu caráter de totalidade, constituída
por complexos com maior ou menor grau de complexidade, que atravessados pela
negatividade, tem sua unidade na realidade social.
A pesquisa social, enquanto investigação e interpretação da realidade, é
um trabalho de desvendamento do real que exige, fundamentalmente, a
intervenção da Razão na organização dos princípios explicativos, na articulação
dos conceitos.
Daí que, à existência de diversos princípios teóricos explicativos nem todos
operam com uma razão inclusiva, crítica e dialética capaz de captar a estrutura, a
forma de ser da realidade social. Aqueles que não apreendem a realidade social
como uma totalidade social em movimento, não dão conta da articulação e
complementariedade entre subjetividade e objetividade, entre ser e consciência,
entre teoria e prática.
Mas a necessidade de os homens deterem o conhecimento, o mais correto
possível, sobre a realidade na qual irão atuar, coexiste com a necessidade do
mundo burguês de revestir os processos sociais de uma falsa objetividade,
coisificar as relações sociais, regular juridicamente os conflitos sociais, justificar a
práxis, tornando-a natural, aceitável, desejável.
A prática profissional do assistente social, respeitadas as devidas
singularidades, também exige o conhecimento da situação, do cotidiano da sua
prática, dos meios e condições de realização, das possibilidades que a realidade
contém e das tendências e contratendências que suas ações poderão
desencadear.
Aqui duas questões se colocam.
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1) O conhecimento para o Serviço Social precisa se constituir em subsídio
à Prática Profissional, afirmação esta que requer que se explicite o que se está
entendendo por prática profissional.
O Serviço Social, configurado na sociedade burguesa como um trabalho,
como um ramo específico da divisão social e técnica do trabalho, como um tipo de
especialização do trabalho coletivo (Cf. Iamamoto, 1992), como uma atividade
5
profissional, não se constitui - sequer pode ter esta pretensão - numa ciência ou
6
num ramo de saber científico . Se isso é verdade, a profissão tem que se
reconhecer numa determinada realidade sócio-histórica, construída pela práxis
das classes sociais, as quais reformulam as necessidades sociais e as
transformam em demandas para a profissão. Se a sua legitimidade é produto das
formas de objetivação das classes sociais, se a sua lógica de constituição e seus
objetos de intervenção vinculam-se a uma determinada realidade histórico social,
seu substrato material é a realidade social, é a cotidianeidade de
determinados segmentos da população; seus objetos são definidos pelas
condições de vida desses mesmos segmentos, sua instrumentalidade encontra-se
na manipulação de variáveis que possibilitem a alteração - ainda que temporária do contexto social (Cf. Netto, 1989a), e por tudo isso tem que se referenciar pela e
na realidade social. Partindo desta configuração sobre a natureza do Serviço
Social é que podemos considerar sua vinculação orgânica com a realidade
social, esta composta por elementos materiais e espirituais. A realidade social,
constituída num campo de forças contraditórias que contempla um conjunto de
determinações objetivas, moventes e movidas, só pode ser apreendida a partir
das formas mais complexas e gerais postas no modo de aparecer dos fatos,
fenômenos, processos e práticas sociais, estes, como formas necessárias de
determinados conteúdos. Mas a compreensão da realidade supõe partir da
superação da imediaticidade, da mera aparência, por meio de procedimentos que
neguem a mera objetividade, o dado imediato, a aparência e resgatem os
conteúdos concretos que os fenômenos, processo e práticas sociais portam. Há
que se enfatizar que numa sociedade de classes há o predomínio da racionalidade
formal-abstrata sobre a razão, da imagem sobre o conceito, do abstrato sobre o
concreto, de procedimentos quantificáveis, do cálculo racional, de ações
manipulatórias, da sociabilidade reificada e generalizada, pela extensão da
racionalidade instrumental da relação homem-natureza para todas as dimensão da
vida social, o que condiciona, em ampla medida, a elaboração teórico-filosófica.
Com isso pretende-se afirmar que os procedimentos da intelecção, a
5 Malgrado alguns profi ssionais ou intelectuais da profissão se auto-representarem como cientistas sociais.
6 Não pretendemos negar a possibilidade dos profissionais produzirem conhecimentos teóricos sobre seus objetos - quais
sejam: as questões
sociais, sobre a profissão, sobre a realidade social como um todo, posto que estaríamos
equivocadamente restringindo o Serviço Social à sua dimensão técnica -instrumental; tampouco desconsiderar o nível de
contribuição da “intelectualidade do Serviço Social à outras áreas profissionais. Entretanto, entendemos que, a natureza
interventiva da profissão lhe interdita o estatuto de ciência.
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racionalidade formal-abstrata, que exerce hegemonia na ordem burguesa opera
de maneira a obstaculizar a reflexão da razão
A
profissão, ainda que possa ser considerada de natureza
fundamentalmente interventiva, possui diversas dimensões: técnico-instrumental,
intelectual, formativa, ético-política que se articulam entre si e são alimentadas por
fundamentos teórico-metodológicos, valores e pressupostos ético-políticos. Daí
que duas modalidades de conhecimento são fundamentais para o Serviço Social:
a) Conhecimento que forneça subsídios para a intervenção imediata nas
variáveis do contexto e que, portanto, sejam imediatamente instrumentalizáveis;
b) Conhecimento sobre os fundamentos (econômico-sociais, políticos e
ídeo-culturais), o modo de ser e de proceder, a lógica interna, propriedades
constitutivas e articulação dos fenômenos, processos e práticas sociais. Estes
fornecem subsídios ao planejamento, iluminam os valores e objetivos, possibilitam
estabelecer estratégias e táticas técnico-políticas de intervenção sobre a realidade
e, por isso são indispensáveis à intervenção profissional.
Ambos os conhecimentos, complementares entre si, são tanto pertinentes
quanto necessários à pratica profissional. Por essa razão entendemos que não há
— nem pode haver — prioridade de um sobre o outro, dado que remetem a uma
ou mais dimensões da profissão.
O que chamamos de dicotomia teoria/prática, em muitos casos, tem sido
resultado do desprezo pela teoria por parte dos praticistas, e do descaso pela
intervenção sobre variáveis empíricas que produz uma alteração no contexto
social, por parte dos teoricistas, o que conduz à ruptura da unidade (que não
significa identidade) teoria/prática que se materializa na práxis, enquanto ação
consciente, transformadora e auto -transformadora. O menosprezo por um dos
pólos da relação leva, de um lado, à aceitação, em última instância, do papel
determinante da teoria em detrimento das atividades prático-materiais, ou o seu
inverso: a prévia determinação de instrumentos e técnicas a serem utilizados na
intervenção e, conseqüentemente, a pauta do “como fazer”.
Mas é preciso que se reflita sobre os principais obstáculos a serem
enfrentados no desenvolvimento de investigações sociais?
Em primeiro lugar, a pesquisa social no Serviço Social encontra-se
condicionada por determinações de natureza objetiva: escassez de fontes de
financiamento, de recursos materiais, de tempo. Mais ainda, a inserção da
profissão na divisão social e técnica do trabalho como profissão interventiva que
engendra respostas no contexto social imediatamente dado limita as
ações/atividades que não sejam instrumentais, que não respondam imediatamente
ao contexto. Mas falta -nos também condições subjetivas: preparo teórico, clareza
sobre os vários tipos de investigação social e sobre os objetivos a atingir,
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ausência de tradição em pesquisa, subalternidade (Cf. Netto, 1989b) e status
profissional inferior.
Em ambos os casos a racionalidade formal-abstrata, as operações do
intelecto, os procedimentos manipulatórios e instrumentais predominam e
condicionam o modo de considerar a investigação social para o Serviço Social, a
escolha e utilização do método e dos procedimentos operatórios, do que
decorrem algumas distorções . Dentre elas:
2.1. Separação, de cunho positivista, entre os “profissionais da prática” e
os pesquisadores; entre docentes que pesquisam e aqueles que transmitem
conhecimentos;
2.2. Dificuldade em estabelecer as mediações entre as teorias sociais, as
práticas particulares e a cultura profissional do assistente social;
7
2.3. Identificação entre método de pesquisa e metodologia de intervenção ;
2.4. Identificação entre pesquisa ou investigação social e sistematização da
prática (registro de experiências ou descrição da prática). Neste caso, o
conhecimento tende a transformar-se em modelos (de diagnóstico, de intervenção,
de pesquisa, etc.) e como tal, a condicionar as ações profissionais;
8
2.5. Indistinção entre método de investigação e método de exposição ;
2.6. Investigações que não superam o nível do empiricismo, do cotidiano,
do presentismo, que se limitam ao dado coletado, como se eles falassem por si
mesmos;
2.7. Investigações que se restringem à forma, à aparência que não capta a
essência, não atinge o conteúdo;
7 No interior da profissão, método de conhecimento do social tem sido considerado, limitada e equivocadamente, como
um conjunto de procedimentos prático-empíricos, utilizados na intervenção. Há, ainda, profissionais que consideram os
procedimentos para o conhecimento ou para a intervenção na realidade como “a metodologia do Serviço Social”.
8 O primeiro, caracteriza-se pela busca do modo de ser dos processos, da sua legalidade tendencial e das suas categorias
constitutivas, realizada por meio de diversas fontes, utilizando-se de diversos instrumentos, seguindo vários caminhos.
Aqui, todas as possibilidades de captar o empírico, o factual são legítimas. O se gundo o método de exposição, consiste
,
na apresentação dos resultados da investigação. Aqui, o pesquisador tem o conhecimento do objeto que permite pensá-lo
nas suas relações imediatas e mediatas e, por isso, pode mostrar como o concreto se produz e se re produz, ou o
movimento do concreto que não é o concreto, mas o concreto pensado. As elaborações teóricas daí resultantes
constituem-se numa reflexão do movimento real que o empírico esconde. O método de exposição constitui-se na
organização dos dados coletados na investigação, para o que o pesquisador deve seguir os princípios da dialética. A este
respeito, diz Marx: “é sem dúvida, necessário distinguir o método de exposição formalmente, do método de pesquisa. A
pesquisa tem que captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de evolução e rastrear a sua conexão
íntima. Só depois de concluído este trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real” (Marx, 1985: 20).
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2.8. Desprezo pelas matrizes clássicas do pensamento social e a
incessante busca por “novos” modos de pesquisar; donde a instauração de
modismos;
2.9. Recorrência à teorias e métodos de substratos diferenciados, que são
inconciliáveis teórica, política e eticamente, reproduzindo o ecletismo;
2.10. Recorrência tanto ao epistemologismo quanto ao metodologismo. O
primeiro entendido como autonomização do conhecimento em si mesmo, redução
dos problemas do conhecimento ao ato de conhecer, e o segundo, como a
priorização dos procedimentos metodológicos, do “como conhecer”, em
detrimento dos fundamentos últimos.
2.11. A busca da prática imediata como fonte da teoria; do conhecimento
que seja imediatamente instrumentalizável e a rejeição do conhecimento teórico
sobre os fundamentos — econômico-sociais, políticos e ídeo-culturais — dos
processos sociais.
O segundo conjunto de questões remete à reflexão sobre a existência ou
não de novos processos de produção do conhecimento. Como afirmamos, a
produção do conhecimento está assentado em pressupostos teóricometodológicos, na base dos quais localizam-se princípios e fundamentos
filosóficos e ético-políticos. Em outras palavras, em determinadas concepções de
9
Razão e de História . Esta relação entre teorias sociais e referências filosóficas é
uma relação necessária e se expressa em várias dimensões, sendo o método a
dimensão mais determinante desta relação.
Com base nesta concepção, que impõe organicidade entre os fundamentos
filosóficos, pressupostos ético-políticos, princípios explicativos e método para a
análise dos objetos sociais, há que se perguntar: “os métodos clássicos utilizados
para o conhecimento do social não estão respondendo ao tempo presente”? “As
matrizes clássicas de interpretação da sociedade se anacronizaram”? 10
Considerando que o método estabelece uma determinada relação,
necessária e constituinte, entre sujeito e objeto do conhecimento, podemos
considerar que há entre eles três tipo de relação: a que atribui a prioridade do
objeto sobre o sujeito (positivismo), a que prioriza o sujeito sobre o objeto
9 Como mediações à produção do conhecimento estamos considerando: m étodo de conhecimento, instrumentos, valores,
finalidades, visão de mundo e perspectiva de classe social.
10 No nosso entendimento algumas das razões pelas quais as teorias clássicas que buscam explicar e interpretar a
sociedade moderna continuam válidas são: porque seu objeto — a sociedade burguesa — não se exauriu; porque elas
mantém a capacidade de explicar e responder à realidade empírico-material; porque são teorias que tratam de uma
modalidade qualquer do ser social; porque encontram-se saturadas e sustentadas por concepções de mundo ou de pontos
de vista de classe social.
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(historicismo ou método compreensivo)11 e a que propõe a necessária auto implicação entre sujeito e objeto (marxismo). Ainda que os objetos sociais, os
fenômenos, processos e práticas sociais se modifiquem, os métodos de
conhecimento sobre o social permanecem vinculados a uma das três formas de
relação sujeito-objeto mencionadas. Estas três grandes matrizes metodológicas
do nosso tempo possuem seus matizes (pense-se nas diferenças entre o
estrutural-funcionalismo de Parsons e o historicismo relativismo de Karl
Manheimm, em que pese ambas permanecerem no nível da imediaticidade dos
fenômenos sociais) e desdobram-se em teorias setoriais (recorde-se das teorias
da ação social).
Mas há um outro aspecto relativo a produção do conhecimento que não
pode ser subestimado. Referimo-nos à garantia necessária de que um
conhecimento possa ter pretensão de verdade, da validação de determinado
conhecimento, melhor dizendo, do critério de verdade de determinadas
formulações.
Eis o nosso desafio: escolher o método de conhecimento que apreenda o
movimento da realidade e as articulações entre seus níveis (singular-particularuniversal), sua estrutura e a lógica constitutiva do seu movimento.
Esta escolha requer o conhecimento dos fundamentos epistemológicos e
filosóficos, da vinculação das teorias sociais a projetos de sociedade e,
sobretudo, do sentido e da direção dados pelas forças políticas mais avançadas.
À isso acresce-se a necessidade de o profissional deter o domínio do
método que lhe possa servir de guia ao conhecimento, conhecimento este que lhe
permitirá estabelecer estratégias e táticas de intervenção profissional.
Esse método deve ter subjacente uma racionalidade que permita alcançar
o concreto como síntese de múltiplas determinações (cf. Marx,), captar as
relações sociais de maneira articulada, seus nexos e mediações, numa
perspectiva de totalidade, para o que tem que ser histórico, dialético, inclusivo
e crítico.
A racionalidade crítico-dialética recolhe suas categorias analíticas na
própria realidade, percorre-as, estabelece seus vínculos, sai em busca das
mediações, satura seus objetos de determinações e reproduz, ao nível do
pensamento, as múltiplas e complexas relações que se estabelecem na realidade.
Nessa busca da totalidade, a interrelação entre as categorias da realidade dão
lugar a complexos cada vez mais abrangentes. É neste sentido que a perspectiva
da totalidade deve ser compreendida, não como um fato formal do pensamento,
mas como modo de ser do existente.
11 Aqui, vige a equivocada idéia de que o objeto do conhecimento é posto pelo sujeito pelo processo de abstração e, em
seguida, busca-se o objeto na realidade.
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Diz Netto: “a elaboração teórico-metodológica de Marx imbrica-se na sua
elaboração ontológica”(1994:34) e a ela se subordina. Por isso pode-se
considerar a organicidade entre Teoria e Método, a qual permite a máxima
fidelidade do sujeito ao objeto e a re-construção, ao nível do pensamento, do
movimento do objeto pela via das mediações. Na abordagem marxiana é o objeto
que dá ao sujeito o caminho para seu próprio conhecimento, mas é o sujeito que
direciona o processo para o atendimento das suas finalidades. A razão dialética
está assentada numa “nova” ontologia que, por buscar a especificidade do ser
social na práxis como unidade entre teoria/prática, é capaz de estabelecer os
procedimentos adequados para conhecê-lo. Com isso recusa a visão positivista
na qual há uma relação de exterioridade, anterioridade e superioridade do objeto
frente ao sujeito.
É assim que, no nosso entendimento, a investigação passa a ser concebida
não apenas como um instrumento necessário ou uma estratégia da intervenção,
mas como uma mediação que atravessa as dimensões (instrumental, formativa,
política, intelectual) da prática profissional.
Mas para que essa concepção ganhe vitalidade é necessário que
entendamos que não se compreende os novos cenários, não se enfrenta a
barbárie social, não se combate a ofensiva neoliberal, não se estabelece alianças
com a sociedade civil organizada, não se alcança novas legitimidades
profissionais, não se reconstrói o projeto profissional, não se forma profissionais
críticos e competentes, sem a pesquisa. Por isso temos que nos colocar um
imperativo: ousar saber para ousar transformar.
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