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o discurso masculino em o beijo no asfalto, de nelson rodrigues
III – Pesquisas em Andamento –Teoria da Literatura
O DISCURSO MASCULINO EM O BEIJO NO ASFALTO,
DE NELSON RODRIGUES
Elton Bruno Soares de Siqueira
(Doutorando)
Resumo:
O trabalho que ora apresentamos é parte de um capítulo de nossa tese de
doutoramento em Teoria da Literatura, intitulada A Crise da Masculinidade
nas Dramaturgias de Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Newton Moreno.
Partindo do suposto de que a obra literária constitui uma prática discursiva e,
como tal, veicula ideologias e contribui para construir, mediante recursos
estéticos, representações sociais determinadas, intentaremos, neste artigo,
analisar que recursos discursivos, presentes em O Beijo no Asfalto (Nelson
Rodrigues), contribuem para criar alteridades masculinas e interpretar como
essas alteridades atestam a crise dos referentes masculinos.
Palavras-chave: dramaturgia; discurso; masculinidade.
DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA E DO OBJETO
A despeito da pluralidade de concepções do termo discurso, adotaremos a
perspectiva da Análise Crítica do Discurso, especificamente a de Fairclough (2001),
segundo a qual é o discurso uma prática de significação do mundo, constituindo e
construindo o mundo em significado.
Para maior clareza das categorias centrais, a partir das quais procederemos à
análise da peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, procuraremos sistematizar
o que entendemos por discurso masculino burguês e por alteridade. Isso se faz
necessário, uma vez que, em nossa pesquisa, essas duas categorias foram tomadas
como instrumentos teóricos fundamentais para a investigação da chamada crise da
masculinidade no mundo contemporâneo.
Comecemos pelo discurso masculino burguês. Como o discurso é neste
trabalho concebido como uma prática social de significação, falaremos de um
discurso masculino quando nos depararmos com práticas discursivas cujos valores
ideológicos interferem nas representações sociais que se tem do “homem”. O
qualificativo “burguês” restringe o campo semântico da expressão, associando as
representações sociais sobre o masculino aos valores modernos da burguesia. O
discurso masculino burguês é, pois, uma prática de significação do mundo, marcada
pela ideologia androcêntrica burguesa, a fim de manter os interesses políticos e
econômicos da burguesia. Esse discurso teve seu momento áureo no século XIX,
quando se estabeleceu como ordem discursiva hegemônica no Ocidente.
Catalogaremos alguns desses valores que, nas práticas discursivas, constituem
o sistema de crenças burguês do homem moderno:
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a) comportamento viril — potência, poder e posse — aliado à contenção das
violentas expressões emocionais (características essas do homem
medievo);
b) aspectos visuais que denotem virilidade, como a força e a beleza corpórea
do homem;
c) imagem de trabalhador sério e exemplar;
d) a família como célula (privada) da sociedade;
e) ser branco, heterossexual, saudável, forte, valente, destemido e autocontrolado.
Nenhum desses valores, por si só, seria suficiente para caracterizar o discurso
com o qual trabalhamos. O discurso masculino burguês é dinâmico e histórico,
dando-nos a idéia de uma prática específica pela forma como os valores acima
arrolados se relacionam dentro de uma mesma formação discursiva. Por exemplo,
vejamos como Hobsbawm (2000:329) sintetiza aspectos desses valores a partir da
dinâmica da socialização burguesa:
A “família” não era meramente a unidade social básica da sociedade
burguesa, mas também a unidade básica do sistema de propriedade e das
empresas de comércio, ligadas a outras unidades similares por meio de um
sistema de trocas de mulheres-mais-propriedade (o dote do casamento) em
que as mulheres deveriam ser, pela estrita convenção derivada de uma
tradição pré-burguesa, virgines intactae. Qualquer coisa que enfraquecesse
essa unidade familiar era inadmissível, e nada a enfraquecia mais do que a
paixão física descontrolada, que introduzia herdeiros e noivas
“inadequados” (isto é, economicamente indesejáveis), separava maridos de
mulheres e desperdiçava recursos comuns.
Mesmo assim se tratava de um tipo de moral sustentada com certa dose de
hipocrisia (cf. HOBSBAWM, 2000) no que se referia ao comportamento masculino:
exigia-se a castidade das mulheres solteiras e fidelidade para as casadas;
paralelamente, verificavam-se “a caça livre de todas as mulheres (exceto talvez
filhas casadoiras das classes médias e altas) por todos os jovens burgueses
solteiros, e uma infidelidade tolerada para os casados” (HOBSBAWM, 2000:325). Esse
jogo dentro das famílias era aceito como natural.
Não podemos deixar de considerar, também, o cruzamento entre esse discurso
buguês e o discurso religioso sobre o masculino. Apesar da história da ascensão da
burguesia ter sido acompanhada por uma lenta e progressiva laicização do Estado,
é importante lembrar que a moral cristã, se punha empecilhos às novas descobertas
científicas (citemos, a título de exemplo, a teoria evolucionista de Darwin), servia
ideologicamente aos interesses de muitos dos Estados burgueses. Além disso, os
ideólogos burgueses não podiam se furtar à religião, que constituía, ainda nessa
época, “o idioma no qual a esmagadora maioria da população mundial pensava”
(HOBSBAWM, 2000:375). Como a burguesia precisava do apoio das massas,
flexibilizava algumas de suas determinações e cooptava a religião, usando-a para
finalidades educacionais, tendo em vista a formação moral e ética do cidadão
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burguês. O extremismo dos padrões morais da Igreja, ao procurar reprimir as
paixões físicas descontroladas dos fiéis, contribuía para manter a estabilidade
familiar e, com isso, a propriedade burguesa.
O outro do masculino, o não-masculino, precisava ser bem definido, a fim de
garantir o controle ideológico de uma sociedade moderna e masculina.
Interpretamos esse outro como efeitos do discurso masculino burguês.
Além das contribuições de Van Dijk (2003) para o estatuto discursivo da
ideologia, nos valeremos da concepção de alteridade proposta por Janet M.
Paterson (2004). De acordo com a autora, o Outro é identificado como formação
discursiva e cultural, identificação que não pode se efetuar sem se levar em conta as
noções de essencialismo e de estereótipos sociais. Para a autora, as noções
conceituais que subentendem a representação do outro na ficção são dispostas logo
abaixo:
1. “O Outro é uma noção relacional que se define em oposição a outro
termo”.
2. “Para que a diferença inerente à alteridade seja significativa, ela
implica a presença de um grupo de referência que demarque o Outro”.
3. É importante distinguir ‘diferença’ e ‘alteridade’. A diferença passa a
ser alteridade quando “o grupo de referência dispõe de um inventário de
traços pertinentes que constituem a alteridade de uma personagem”.
4. “Toda a alteridade é variável, movente e suscetível de ser anulada.
Ela não é marcada por alguma imanência e pode ser dotada de traços
positivos ou negativos, eufóricos ou disfóricos num mesmo espaço
social ou discursivo.”
5. “Se, na vida real, a alteridade de um indivíduo é determinada pela
sociedade que o cerca, a personagem do Outro é, da mesma forma,
inteiramente governada pelos dispositivos do texto”. (PATERSON, 2004,
p. 27)
Apesar de usar a categoria Outro para analisar o estatuto da alteridade nos
romances canadenses, Paterson constrói um quadro de referência teórica que nos
embasará, também, na investigação do não-masculino presente na dramaturgia
enfocada. Se dizer o Outro é apresentá-lo como tal pelas estratégias enunciativas, a
descrição do espaço, dos traços físicos, da indumentária, dos aspectos linguageiros
e onomástico da personagem não deverão passar desapercebidos. Esse processo
cria vínculos entre o parecer e o ser da ficção expresso como sendo Outro. A
retórica é um instrumento forte para colocar o Outro no discurso. Ela está ligada às
dimensões espaciais, à descrição das personagens e à enunciação. É preciso, no
entanto, perguntar se o Outro tem uma função de revelação no discurso. Qual é a
função do Outro na diegese? Ele modifica o curso dos acontecimentos? Cada texto
literário explora de maneira particular o potencial significante da personagem do
Outro. E a isso estaremos atentos na análise.
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O BEIJO NO ASFALTO
Antes da análise propriamente dita, faremos um resumo da peça, escrita em
1961. Nela, um jornalista inescrupuloso e um delegado corrupto se aproveitam de
um fato que ocorrera durante a manhã para combinar algo que favorecesse a
ambos. Um homem havia sido atropelado por um lotação e outro se baixara diante
do corpo do atropelado e lhe beijara a boca. O jornalista decide escrever uma
matéria sensacionalista sobre o beijo no asfalto e propõe ao delegado investigar o
caso, a fim de sugerir que se tratava de um crime passional, pois isso elevaria o
número de leitores do jornal assim como suavizaria a imagem corruptível da polícia
carioca, acusada de inúmeros delitos. Arandir, o homem que beijara o atropelado, é
interrogado pelo delegado e pelo jornalista na delegacia. Os dois intimidam Arandir,
inquirindo se ele gostava de mulher e se conhecia o morto. Aprígio, sogro de
Arandir, que estivera a seu lado quando ocorreu o fato, vai à casa da filha, Selminha,
e lhe conta o que presenciara. Quando Arandir chega em casa, encontra a esposa e
a cunhada à sua espera e conta, assustado, o que sucedera naquele dia. Tudo isso
ocorre no primeiro ato, que funciona como prólogo, apresentando o início do conflito.
No segundo ato, sai o jornal com a manchete de capa “Beijo no Asfalto” e a foto de
Arandir. A reportagem sugere que os dois homens eram amantes. Selminha toma
conhecimento do conteúdo da matéria por intermédio de uma vizinha. Arandir é
destratado no trabalho por seus colegas, que haviam lido o jornal, e pede demissão.
Selminha fica em crise quando o marido confirma que beijara um homem na boca,
mas ele garante à esposa que o atropelado era um desconhecido. Em meio a isso, o
jornalista vai ao enterro do morto e chantageia a viúva para que ela confessasse já
ter visto Arandir em sua casa. No terceiro ato, Selminha é levada pelo delegado e
pelo jornalista a uma casa na Boca do Mato, onde é interrogada pelos dois,
humilhada, e ouve da viúva do atropelado que Arandir era conhecido de seu marido.
Arandir sai de casa para fugir de todos e se hospeda num quarto de hotel. Deixa
recado para Selminha o procurar, mas ela renega o marido. Dália, a cunhada, na
esperança de conquistar o amor de Arandir, vai ao hotel dizer ao cunhado que
Selminha não quer mais vê-lo. Dália se declara a Arandir. Percebendo que a
cunhada também desconfia da sua versão dos fatos, expulsa-a do quarto. Segue-se
a cena do encontro entre sogro e genro. Aprígio, alterado, diz não perdoar o genro
porque o amava. Depois da declaração, Aprígio atira no genro. Arandir morre. Fim
do drama.
Apesar de não ser o tema da peça, o homossexualismo nela está presente na
medida em que constitui o assunto a partir do qual se dá início à intriga. O tema da
peça, na verdade, gira em torno da ação irresponsável da mídia sensacionalista, no
seu poder de criar verdades e de interferir na opinião pública.
Isso nos leva a refletir sobre a imprensa e sua função nas sociedades moderna
e contemporânea. Sob o discurso original de que a comunicação massiva
promoveria o debate público, desenvolveu-se, de fato, uma prática jornalística
contraditoriamente não-dialógica, na medida em que os veículos de comunicação de
massa tiveram de estar sempre sujeitos a interesses políticos de seus proprietários.
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Poderíamos dizer, sem com isso pretendermos problematizar o assunto, que é a
declarada preocupação com os lucros o que conduz muitas das práticas jornalísticas
nos tempos contemporâneos. Paulatinamente, essa imprensa deixa de ser um
mecanismo racional para o estabelecimento das discussões públicas, envolvendo
cidadãos críticos constitutivos da sociedade civil (como ela foi idealmente concebida
nos primórdios da sociedade moderna), e passa a ser produto de uma sociedade de
consumo. No terceiro estágio do Capitalismo, fazendo uso do termo adotado por
Jameson (2000), desenvolve-se uma sociedade ávida pelo consumo não só de
informações rápidas, vale salientar, mas de modos de entretenimento. Daí a
tendência de um determinado ramo jornalístico em investir na “espetacularização da
notícia”, valendo-se de efeitos folhetinescos para atrair o público consumidor
pagante1.
De qualquer forma, não devemos subestimar o poder que a mídia, de modo
geral, ainda hoje detém de produzir e de reproduzir valores hegemônicos, pelas
maneiras como define e transforma a circulação de bens simbólicos nas sociedades
contemporâneas. No caso específico da imprensa, Jovchelovitch (2000:109) analisa
a relação do veículo com as representações sociais do seguinte modo:
subjacente à cobertura da esfera pública podemos encontrar um sistema
organizado de significados — estes significados não são apenas
encontrados na imprensa. Pelo contrário, ao circular, eles também
produzem um sistema de conhecimento e reconhecimento sobre a
realidade da vida pública [...] que permite à comunidade perpetuar sua
identidade e sustentar seu padrão cultural.
No ofício jornalístico, também, é possível observar as condições por meio das
quais a sociedade se confronta com sua realidade e a processa. As mais das vezes,
o jornal assimila a opinião pública de tal maneira que os significados construídos são
possivelmente reconhecidos e retro-alimentados pela massa de leitores. Nesse
ponto, a imprensa, como instituição, e a massa, como opinião pública, costumam
compartilhar das representações sociais dos mais variados assuntos. Admitamos
que as representações sociais estão estreitamente ligadas ao senso comum, na
medida em que correspondem a idéias ou conceitos provenientes da relação direta
do grupo e de seus membros com a realidade circundante. Como afirma Moscovici
(2003:31), “nossas reações aos acontecimentos, nossas respostas aos estímulos,
estão relacionadas a determinada definição, comum a todos os membros de uma
comunidade à qual nós pertencemos”. Essa definição, muitas vezes, se cristaliza em
estereótipos.
Tomando como respaldo a concepção de Van Dijk (2003) a respeito de
ideologia, à qual aderimos, declaramos, por ora, que a ideologia, entendida como
um sistema de crenças advindas de um grupo, afeta as estruturas mentais que
intervêm na produção e composição de discursos, e interferem nas representações
que os sujeitos constroem da realidade e do contexto social. Dessa forma, a
1
Fazemos uso do termo espetacularização da notícia a partir do conceito de “sociedade do
espetáculo”, desenvolvido pelo filósofo francês Guy Debord (1997).
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imprensa contribui para
representações sociais.
a
manutenção
ou
transformação
paulatina
das
Em O beijo no asfalto, Amado Ribeiro, personagem criada a partir de um
modelo empírico — tratava-se do jornalista homônimo, colega de Nelson Rodrigues
no Última Hora até o ano de 1961, quando o dramaturgo pede demissão do jornal
devido à atmosfera constrangedora que sua peça gerara em seu ambiente de
trabalho — faz o papel de um repórter desonesto que, em busca de um furo
jornalístico, atribui um sentido fictício a um fato e o transforma em notícia, o que
renderá ao jornal sucesso de venda. Profissionais que ferem a ética não são
exclusivos apenas desse tipo de jornalismo, mas de qualquer profissão. No entanto,
é curioso observar que, mantendo-se no emprego, esses profissionais recebem, de
certa forma, o assentimento de seus patrões, uma vez que conseguem aumentar a
popularidade do jornal, engordando, conseqüentemente, os cofres da empresa.
Na verdade, o fato, entendido como acontecimento testemunhado
publicamente, em dado local, num dado momento, existiu no contexto da peça: na
praça da Bandeira, um lotação atropela um homem e outro homem se ajoelha e lhe
dá um beijo na boca. Todavia, por mais que tivesse sido um fato atípico e estranho,
só despertaria a curiosidade da população carioca a partir do momento em que foi
divulgado no veículo de comunicação de massa, com o viés sentimental e moralista
que a matéria de Amado Ribeiro lhe emprestou. Dessa forma, foi atribuído um
sentido ao beijo no asfalto: os dois homens eram amantes. A matéria, ao perseguir
as causas desse fenômeno, dá a ele um significado absolutamente arbitrário. Em
vez de proceder às investigações jornalísticas para chegar às conclusões do fato,
Amado Ribeiro parte de conclusões pré-estabelecidas (que lhe garantiria um furo
jornalístico, vale repetir) para perseguir e chantagear, juntamente com o delegado
Cunha, quem pudesse servir de testemunha do caso de amor.
Saliente-se que tanto Amado Ribeiro quanto o delegado Cunha sabem que
divulgar matéria de um caso público envolvendo um casal de homossexuais geraria
escândalo, logo a venda maciça do jornal, o que beneficiaria o repórter.
Paralelamente a isso, o beijo de dois homens num espaço público constitui, para a
legislação brasileira androcêntrica, sobretudo na época em que a peça foi escrita,
um ultraje público ao pudor, enquadrando-se no crime contra os costumes, previsto
no Código Penal brasileiro de 1940. Investigar esse caso contribuiria para
salvaguardar a imagem positiva da polícia carioca, o que beneficiaria o delegado
Cunha, envolvido num recente escândalo, ao agir violentamente contra uma mulher
grávida, provocando-lhe o aborto. A polícia carioca, como atesta Green (2000),
desde o início do século XX, persegue e prende homossexuais que, em locais
públicos vivenciam uma sociabilidade sexual, sob a alegação de estarem eles
cometendo crime de atentado ao pudor. Dessa maneira, um beijo entre dois homens
constitui, para a sociedade brasileira à época de O beijo no Asfalto, um ato obsceno.
Além dos interesses particulares do repórter e do delegado, no caso, a forma
como eles expressam a homofobia é reveladora de um discurso masculino
dominante, como podemos observar no interrogatório que dirigem a Arandir, no
primeiro ato da peça. Para dar início ao interrogatório, o delegado já começa
perguntando se o rapaz era casado. Levando em consideração que, de uma série de
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questões possíveis, Cunha lhe pergunta primeiramente se era casado, podemos
inferir que o interrogatório já estabelece de princípio o tópico das questões. Nesse
contexto, perguntar se o interrogado era casado pressupõe duas coisas, que se
confirmarão no desenrolar da cena: 1) o homem ser casado é uma afirmação de sua
própria masculinidade; 2) o homem ser casado implica ser amadurecido,
responsável.
Cunha adentra ainda mais na vida íntima de Arandir, perguntando-lhe se
“gostava de mulher”. Com essa pergunta, no tom em que é feita, o delegado procura
constranger Arandir, o que consegue. Há uma expressão popular, própria do
universo masculino, que parece estar subentendida no contexto de fala das
personagens — Cunha age como se estivesse ordenando a Arandir: “Vamos ter uma
conversa de homem para homem!”. Percebendo que Arandir está atônito, Cunha e
Amado Ribeiro procuram confundir ainda mais o rapaz, lançando-lhe perguntas
indiscretas sobre sua experiência com mulheres.
Amado Ribeiro censura duas vezes o interrogado. Primeiramente, critica
Arandir por estar em lua-de-mel e beijar um homem na rua. Apesar de ser um valor
simbólico nas mais diversas culturas e nos mais variados períodos históricos, a luade-mel assume o caráter idealista do Romantismo que, até hoje, faz parte do
substrato ideológico do sistema familiar pequeno-burguês. Trata-se de um período
sagrado do casamento; infringi-lo corresponde, pois, a atentar contra algo sagrado.
Arandir estaria corrompendo a sacralidade da lua-de-mel, fazendo algo que não era
digno de um homem: beijar outro homem. Não bastasse isso, o faz publicamente,
num espaço muito freqüentado pelos transeuntes, tornando seu ato um show. De
acordo com os códigos morais rígidos da burguesia, é compreensível, apesar de não
ser aconselhável, que um homem e uma mulher se beijem na rua; dois homens, no
entanto, constitui um escândalo e, por extensão, um espetáculo. Amado Ribeiro
critica Arandir pelo show oferecido naquela manhã, mas se vale desse show para
elaborar uma matéria ‘espetacular’, no que de mais sensacionalista o termo pode
conter.
Aqui vale retomar, mais uma vez, as questões que Van Dijk (2003) salienta
como fundamentais para o estabelecimento de um conjunto de crenças ideológicas.
O interrogatório do delegado e do repórter explicita uma adesão total dessas
personagens ao conjunto de crenças sobre ser masculino. Pela natureza dos
questionamentos, naquele momento, num dado distrito policial, Cunha e Amado
implicitamente expressam que Arandir, agindo como agiu, não pertence ao grupo
masculino, pois: 1) faz o que um homem não deve fazer — beijar outro homem na
boca; 2) estaria sentindo desejo por outro homem, o que é inconcebível a um
“macho” que se preza; 3) prefere beijar outro homem a viver plenamente a lua-demel com a esposa; 4) acha que é bom e normal beijar publicamente um homem na
boca; 5) finalmente, não acede aos pressupostos do grupo de “homens”.
É revelador que as respostas de Arandir parecem não ser ouvidas pelos
inquiridores. Apesar de negar qualquer impulso homoerótico, afirmando ser casado,
Arandir é recriminado pelo beijo. Certamente Cunha e Amado Ribeiro estão jogando
com Arandir, fechando-lhe o cerco, de forma que não houvesse outra possibilidade
de interpretação senão que Arandir beijou outro homem porque era “invertido”. Isso
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contribuiria para o sucesso do furo jornalístico e daria razões à polícia de combater
atos ilícitos. Contudo, em última análise, é o beijo “abjeto” que está sendo punido,
castigado.
A matéria de Amado Ribeiro é veiculada no jornal do dia seguinte, com a
manchete, na primeira capa: Beijo no Asfalto. Reforçando os valores morais
hegemônicos da massa, esse tipo de jornal, do qual Última Hora foi apenas um
exemplo, catalisa as emoções dos leitores, despertando-as com espetaculares
denúncias do que se chama atentado à ordem pública. A publicação da notícia
desperta indignação em diversas personagens que participam direta ou
indiretamente da vida do acusado.
A nosso ver, Arandir faz parte da gama das personagens mais intensamente
expressionistas da obra teatral de Nelson Rodrigues. Levado por um impulso íntimo
momentâneo, realiza um ato que será decisivo para o seu mergulho no abismo.
Liberando os “demônios” que carrega dentro de si, a personagem trilhará por um
caminho que a levará ao aniquilamento. Na opinião de Magaldi (1992:34), Arandir
“cumpre a caminhada do equívoco, até o aniquilamento final, imposto pela
sociedade”. O equívoco é que, em nome do impulso, Arandir é levado a fazer algo
que a sociedade condena. E segue a sua via crucis até a crucificação final. A via
crucis corresponde ao sofrimento vivido por Arandir em virtude da publicidade de seu
ato (divulgação da notícia pelo jornal), a acusação de que ele era homossexual
(quando ele simplesmente não se considerava um) e a incomunicabilidade com seus
conhecidos, que nunca o escutavam.
Há três momentos em que Arandir tenta explicar a seus acusadores (às
personagens que o acusam de homossexualismo) as razões de seu ato. Apesar de
um pouco longas, vale conferir as citações abaixo:
(1)
[(...). Arandir tem um repelão selvagem.]
ARANDIR — Era alguém! Alguém! Que morreu! Que eu vi morrer!
(RODRIGUES, 1993:953)
(2)
ARANDIR (sôfrego) — Eu te contei. Propriamente, eu não. Escuta. Quando
eu me abaixei. O rapaz me pediu um beijo. Um beijo. Quase sem voz. E
passou a mão por trás da minha cabeça, assim. E puxou. E, na agonia,
ele me beijou.
(...)
ARANDIR — Era alguém! Escuta! Alguém que estava morrendo, Selminha.
Querida, olha! (Arandir agarra a mulher. Procura beijá-la. Selminha foge
com o rosto) Um beijo. (RODRIGUES, 1993:970-971)
(3)
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ARANDIR (repetindo para si mesmo) — [...] Me chamam de assassino e.
(com súbita ira) Eu sei o que “eles’ querem, esses cretinos! (bate no peito
com a mão aberta) Querem que eu duvide de mim mesmo! Querem que eu
duvide de um beijo que. (baixo e atônito, para a cunhada) Eu não dormi,
Dália, não dormi. Passei a noite em claro! Vi amanhecer. (com fundo
sentimento) Só pensando no beijo no asfalto! (com mais violência)
Perguntei a mim mesmo, a mim, mil vezes: se entrasse aqui, agora, um
homem. Um homem. E. (numa espécie de uivo) Não! Nunca! Eu não
beijaria na boca um homem que. (Arandir passa as costas da mão na
própria boca, com um nojo feroz) Eu não beijaria um homem que não
estivesse morrendo! Morrendo aos meus pés! Beijei porque! Alguém morria!
“Eles” não percebem que alguém morria?
(...)
ARANDIR (numa alucinação) — Dália, faz o seguinte. Olha o seguinte: diz à
Selminha. (violento) Diz que em toda minha vida, a única coisa que se salva
é o beijo no asfalto. Pela primeira vez. Dália, escuta! Pela primeira vez, na
vida! Por um momento, eu me senti bom (furioso) Eu me senti quase, nem
sei! Escuta, escuta! Quando eu te vi no banheiro, eu não fui bom, entende?
Desejei você. Naquele momento, você devia ser a irmã nua. E eu desejei.
Saí logo, mas desejei a cunhada. Na praça da Bandeira, não. Lá, eu fui
bom. É lindo! É lindo, eles não entendem. Lindo beijar quem está morrendo
(grita). Eu não me arrependo! Eu não me arrependo! (RODRIGUES,
1993:987)
Em (1), Arandir se encontra na delegacia. Depois de ser submetido a toda sorte
de humilhação, ele termina a cena gritando, num repelão selvagem, a fala citada no
exemplo (1). Como herói ingênuo dentro de um mundo de valores morais préfixados, Arandir realiza um ato que, de acordo com o sistema de crenças de seu
grupo, é imediatamente caracterizado como de um “homossexual” e, por isso, a
personagem deve ser exposta à opinião pública. Vimos há pouco que Amado
Ribeiro e Cunha se valem dessas mesmas crenças para coagir Arandir a confessar
sua homossexualidade. Este, diante da pressão que as outras personagens estavam
fazendo, reage num repelão selvagem às acusações, gritando suas razões.
Primeiramente, Arandir nega a condição de alteridade que os outros estavam
querendo lhe imputar. Respondendo às perguntas dos interrogadores, diz que é
casado há um ano, que amava a esposa. O ímpeto de negar a acusação advém do
fato de, primeiramente, ele não se sentir homossexual. Como podemos ler no
exemplo (3), Arandir, num ambiente já privado, diante apenas de sua cunhada,
confessa: “Perguntei a mim mesmo, a mim, mil vezes: se entrasse aqui, agora, um
homem. Um homem. E. (numa espécie de uivo) Não! Nunca! Eu não beijaria na
boca um homem que.”. Ele poderia estar querendo salvaguardar, diante da cunhada,
uma imagem falsa de si. No entanto, o teor da conversa, no contexto da cena, é tão
sincero, que não teríamos indício para concluir que a personagem está se
enganando e enganando os outros.
Em segundo lugar, a personagem, no contexto cultural e histórico em que se
encontra, sabe que receber a pecha de “homossexual” selaria o destino de um
homem na sociedade: um destino amargo, solitário, em que o sujeito será
discriminado como diferente, doente, anormal. Nem a calúnia nem o desprezo social
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III – Pesquisas em Andamento –Teoria da Literatura
Arandir os queria. A personagem compartilhava, também, do sistema de crenças
hegemônico sobre o assunto (note-se, no diálogo com Dália, como a didascália
apela para indicação de um signo não-verbal para negar que nunca beijaria um
homem qualquer — numa espécie de uivo, ou seja, repugna-lhe a idéia). Daí seu
“repelão selvagem”.
No entanto, essas parecem ser as razões mais imediatas de sua reação. As
razões mais profundas encontram-se, na verdade, no conteúdo do próprio
enunciado: Era alguém! Alguém! Que morreu! Que eu vi morrer! Esse mesmo
enunciado, expresso de forma ligeiramente diferente, é proferido quando a cena se
passa na casa de Arandir e ele está procurando justificar-se para a esposa, como
está citado no exemplo (2) — Era alguém! Escuta! Alguém que estava morrendo,
Selminha. Arandir foi tomado por um sentimento puro, caridoso, que o levou à ação
de beijar a boca de um moribundo. Se buscarmos o eco desse sentimento numa
versão rabínica, segundo a qual certos justos, tal como Moisés, foram poupados da
agonia e da morte, tendo partido do mundo terrestre no arroubo extático do beijo de
Deus, como menciona Chevalier; Gheerbrant (1993), podemos compreender que a
personagem foi movida por um impulso que para ela significava algo sagrado. O
beijo num moribundo é expressão máxima do sentimento de piedade e de
solidariedade que Arandir acreditou vivenciar. Arandir, por um curto momento,
abdicou do sistema de valores morais da sociedade que o circundava para vivenciar
o que era a mais pura manifestação de amor pelo outro: um beijo em alguém que
estava morrendo.
É significativo o uso do pronome indefinido alguém, por não ser marcado pelo
feminino ou masculino; ou seja, o pronome funciona como dêitico, que adquire valor
semântico quando inserido num contexto específico. O beijo se justifica, para a
personagem, por ter sido dado não num sujeito do sexo feminino ou masculino, mas
numa pessoa, e, vale salientar, de uma pessoa que estava à beira da morte. Arandir,
em suas explicações, sempre se refere ao beijo que dera em alguém. Naquele
momento, a personagem vivencia uma experiência e uma consciência existencial, ao
perceber que outro ser humano, como ele, estava morrendo nesse plano da
existência, o que veio a sensibilizar profundamente Arandir. O beijo foi uma atitude
instintiva, pelo que narram as personagens, mas um instinto guiado pelo sentimento
existencial de aliviar as dores, angústias e sensação de desamparo de alguém que
está prestes a morrer. Parece claro que, numa explicação de ordem psicanalítica, o
sentimento e o ato da personagem podem ser interpretados como manifestação do
narcisismo [leia-se quando fala a Dália: “Por um momento, eu me senti bom (furioso)
Eu me senti quase, nem sei!]2. Satisfaz à personagem sentir-se solidário com
alguém, saber que alguém pode depender de sua solidariedade, sobretudo no
momento em que esse alguém está morrendo.
Na mentalidade pequeno-burguesa, como a que insiste ainda hoje em se
manter na cultura brasileira, um beijo na boca entre dois homens significa um ato
homossexual3. A opinião pública, herdeira dos valores burgueses sobre a
2
Sobre esse viés específico, ler Martuscello (1993).
É relevante situar tal mentalidade a culturas como a brasileira, pois o beijo é simbolizado de
diferentes maneiras nas mais diversas culturas. Só para citar dois exemplos, que poderão ser
3
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masculinidade, não admite a pureza de um beijo que um homem dá noutro, mesmo
sendo esse outro uma pessoa que vai morrer. O discurso de Arandir ultrapassa as
restrições características do campo discursivo majoritário, do discurso masculino
pequeno-burguês. A interincompreensão se estabelece não pela negação do
discurso do outro, mas pela interpretação de alguns semas do discurso alheio, de
acordo com a formação discursiva do discurso que se toma como referência. Arandir
não é ouvido pelos outros porque seu ato é interpretado pela opinião pública como
algo execrável. Seu discurso é apreendido apenas no que equivale às forças
semânticas da formação discursiva que a opinião pública compartilha: é apenas
retida a confissão do acusado de que dera um beijo noutro homem. Essa confissão
basta para a mesma formação discursiva atribuir o sentido de que se tratava de um
caso de pederastia. Tomando como parâmetro o discurso sobre a masculinidade, as
razões que Arandir procura dar aos outros não são processadas pela formação
discursiva vigente.
Essa interincompreensão gera, na peça, uma situação de incomunicabilidade.
Impossibilitadas as vias de interação entre os dois discursos, as personagens não
conseguem se comunicar. Por um lado, a opinião pública, que se sustenta em
crenças muito particulares e hegemônicas sobre o que vem a ser homem; por outro,
Arandir, que ostenta um discurso baseado na pureza dos sentimentos, na piedade,
na solidariedade, independentemente de estarem sendo dirigidos a um homem ou a
uma mulher. Pureza, piedade, solidariedade constituem semas de um discurso
religioso, mas a religiosidade de Arandir se expressa mediante um discurso que
valoriza atos inaceitáveis para a ideologia geral da opinião pública.
No momento em que constata sua absoluta solidão, quando Dália vem informálo de que Selminha não mais o quer ver, Arandir mergulha em sua própria intimidade
atormentada e começa a proferir um discurso sentencioso, quase num delírio [diz à
Selminha. (violento) Diz que em toda minha vida, a única coisa que se salva é o
beijo no asfalto. [...] É lindo! É lindo, eles não entendem. Lindo beijar quem está
morrendo (grita). Eu não me arrependo! Eu não me arrependo!]. Trata-se do
reconhecimento por parte da personagem: ninguém entende nem nunca entenderá o
valor de seu ato. Revolta, Arandir renega a opinião pública e diz não se arrepender.
Sua sensação de aniquilamento faz com que se sustente ainda no valor sagrado de
seu ato, que não é entendido pelos outros.
Mas o destino trágico da personagem precisa ser ainda rematado. Como diz
Magaldi (1992:34), “é necessário conspurcar tudo: se ninguém é inocente, eu me
eximo de meu pecado. Esse raciocínio conduz ao sacrifício de Arandir, assassinado
pela coletividade, que utilizou a mão do sogro”. Sem que isso implique uma
comparação forçada, acreditamos que o destino de Arandir tem um paralelo com a
vida de Jesus Cristo. Incompreendido pelas pessoas pecadoras e detentoras do
poder no plano terreno, Jesus Cristo é condenado à crucificação. De acordo com o
discurso do Novo Testamento, Jesus morreu por incentivar e pregar o amor ao
próximo, assim como por cultivar o bem entre os homens. Arandir diz ter sido o beijo
facilmente reconhecidos, na Rússia é normal dois homens se saudarem com um beijo na boca; no
Kazakistão, o beijo na boca entre dois homens significa um ato viril, ao passo que o beijo na face é
algo de natureza íntima.
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a única coisa que o salva e, em nossa interpretação, ele subentende que essa
salvação o livrará do mal, da mesquinhez e da corrupção dos valores humanos
sagrados. Amado Ribeiro teria sido o seu Pilatos, entregando-o à opinião pública,
que decide por crucificá-lo. Considerando o discurso religioso que sempre atravessa
o discurso dramático do autor, não nos parece de todo absurda essa comparação.
Embora Green (2000) considere Arandir homossexual, estamos convictos de
que o único “homossexual” da peça é o sogro, Aprígio4. Nelson Rodrigues deixa
para revelar essa informação no final da peça, momentos antes de as cortinas se
fecharem, numa espécie de coup de théâtre. O sogro, que sempre implicara com o
genro, em vez de ódio, sentia por ele amor. No entanto, apesar do lance
melodramático que o final da peça comporta, com a revelação de Aprígio que
sempre amara o genro e a morte de Arandir ― um tiro disparado pelo sogro ―,
Nelson Rodrigues deixa, ao longo do texto, alguns indícios que apontam para o
remate da história5.
Aprígio é uma personagem construída a partir da angustiada tensão entre
esfera pública e esfera privada. Em sua vida íntima, privada, nutre uma paixão
secreta e incontrolável pelo genro. Publicamente é um pai exemplar (a relação
afetuosa entre ele e as filhas demonstra isso), ocupando o espaço que a opinião
pública constrói para um “homem” respeitável. A imagem de si que oferece aos
outros e os seus sentimentos são inconciliáveis, levando em conta as
representações sociais que se tem do “homem”, do masculino. Sem aceitar seus
sentimentos homoeróticos, Aprígio desconta sua impotência no genro, devotandolhe indisfarçável rancor. No final, a personagem está em crise, sentindo-se traída em
seu amor, e decide revelar o que sentia a Arandir. “Sem conseguir conviver com sua
homossexualidade confessada”, mata o objeto de seu amor6.
Aprígio é vítima de seu próprio sistema de crenças. Participando de uma prática
discursiva, vale lembrar, segundo a qual o homem deve se dar ao respeito, não se
entregando a sentimentos e comportamentos mórbidos e anormais, jamais poderá
admitir, muito menos revelar, seu amor por outro homem.
Muitos críticos reprovaram o desfecho de O beijo no asfalto, alegando que a
peça descamba para um melodrama que enfraquece a ação dramática. Sábato
Magaldi foi um dos que se incomodaram com o lance melodramático que Nelson
Rodrigues dedicou ao final da peça, chegando a confessar isso ao dramaturgo e a
4
Green afirma que, nos anos 60, surgiram muitos produtos culturais com “temática homossexual”,
como livros e peças. O autor comenta duas peças, Nosso filho vai ser mãe, de Walmir Ayala, e O
beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues e conclui que “embora os protagonistas de ambas as peças
sofram um preconceito social, a intenção dos autores foi despertar a compaixão e a simpatia do
público por sua condição” (Green, 2000:414) (grifos nossos). Primeiramente discordamos que a
“temática” de O beijo no Asfalto seja a homossexualidade, como já sustentamos antes. Em segundo
lugar, não há nenhum indício na peça de que Arandir seja homossexual, como nos faz supor Green
quando se refere à “condição” do protagonista.
5
Esse desfecho não constitui o caso que Aristóteles (1987) chama de deus ex machina. Ou seja, não
consiste num desfecho que independe da lógica causal dos atos.
6
O termo aspeado corresponde à interpretação de Magaldi (1992:34).
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aconselhá-lo a mudar o desfecho7. Nelson Rodrigues, claro, não mudou, alegando
gostar de melodramas.
De fato, considerando que algumas das características estruturais do
melodrama são o acúmulo de elementos que contribuem para transbordar as
emoções do leitor/espectador e o reconhecimento, que só vem à tona, com muita
emoção e lágrimas, nas últimas cenas ou no final do último ato, podemos dizer que
O Beijo no asfalto é melodramático no momento em que acaba8. Do ponto de vista
trágico, temos apenas um único reconhecimento, quando Arandir se depara com sua
solidão e conclui, sem arrependimento, ter sido o beijo, que considerara um ato tão
puro, o responsável pela sua ruína moral. No entanto, Nelson Rodrigues apela para
o excesso e, na última cena, revela algo que ainda estava oculto, o que acarretará a
morte do protagonista. Tudo isso num tom grandiloquente, de grande emoção.
Estamos convencido, entretanto, de que esse desfecho é muito apropriado e
muito produtivo para o tema de O beijo no asfalto. A mídia sensacionalista, no
contexto da peça, atiçou a opinião pública contra o comportamento de um sujeito
que cometera o crime de praticar publicamente sua homossexualidade (depois, com
o desenrolar dos fatos, o Última Hora chega a sugerir que o atropelamento foi um
crime passional, indicando Arandir como o responsável). Fica claro que esse tipo de
mídia, sobretudo na época em que Nelson Rodrigues escreveu sua tragédia carioca,
não raras vezes é inconseqüente e irresponsável na apuração dos fatos. A
personagem Amado Ribeiro é a caricatura dos jornalistas desonestos, capazes de
atribuir aos fatos o sentido necessário, mesmo que arbitrário, para garantir o
consumo do jornal. Dessa maneira, os jornais mais populares apostam nas técnicas
folhetinescas, a fim de atrair o leitor, que deseja consumir formas de entretenimento.
Se a demanda apela para o folhetim é porque a vida é, para esse público, passível
de um enredo folhetinesco. Não importa se Arandir era ou não homossexual. Não
importa se ele empurrara ou não seu amante para debaixo das rodas de um lotação.
O que importa é que ele se tornou personagem de um folhetim que, no contexto da
peça, está sendo consumido avidamente pela massa de leitores. Em nossa
interpretação, o desfecho de O beijo no asfalto é muito irônico, pois, ao se valer de
estratégias folhetinescas e melodramáticas, mostra que a vida de Arandir se tornou,
depois do escândalo do beijo, o enredo de um folhetim. A imprensa popular, como o
folhetim, precisa estabelecer o que é o bem e o mal; é capaz de transformar vítimas
em criminosos, sujeitos racionais em objetos de consumo (é possível identificar aqui
um eco do conceito marxista de processo de alienação). Eis a visão que Nelson
Rodrigues nos apresenta em sua peça.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em O beijo no asfalto, Nelson Rodrigues expõe o contraste entre os valores
ideológicos e morais de uma sociedade burguesa androcêntrica e os sentimentos
mais puros e sublimes de um homem cujo único equívoco foi confrontar-se, de forma
não consciente, com a moral masculina vigente. O texto mostra que a opinião
7
8
Esse fato se encontra relatado, entre outros, em Magaldi (1993).
Sobre o melodrama, baseamo-nos no estudo capital de Jean-Marie Thomasseau (2005).
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pública prevalece sobre comportamentos que não correspondem às crenças
hegemonicamente sustentadas pelo grupo social. Arandir acaba morto pelo próprio
sogro, que, apaixonado pelo genro, decide eliminá-lo, pois não consegue conviver
com sua homossexualidade confessada. Aprígio é tão submisso à opinião pública,
que opta por silenciar sua paixão, em vez de viver conforme determinam seus
sentimentos e desejos íntimos. Apesar disso, o dramaturgo desperta nos leitores
compaixão e simpatia pelo protagonista, Arandir. Ao tomar partido contra a atitude
de vigilância opressora por parte da moral machista, Nelson Rodrigues abre espaço
para uma valorização dos sentimentos humanos, sobretudo quando são bem
intencionados e, contraditoriamente, mal interpretados.
Não obstante isso, é inegável que o dramaturgo, ao contrário do que se via até
então, constrói em seus dramas personagens masculinas complexas. Considerando
especificamente Arandir, trata-se de um anti-herói, na medida em que se constitui
como a anti-norma da masculinidade, longe, portanto, das aspirações idealistas da
burguesia quanto à imagem do homem moderno. É uma personagem que sinaliza
para uma crise da noção moral do quem vem a ser um homem. Essa interpretação
só é possível se considerarmos que o discurso dramático rodriguiano as constrói de
forma que a personagem funcione como vítima de seu próprio impulso, agindo em
nome de uma verdade que, para ela, mostrava-se sagrada. Em última análise, a
simpatia que o dramaturgo infunde nessa personagem mostra, de certa forma, uma
adesão ideológica ao discurso que ela sustenta para justificar as razões de suas
ações.
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