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É interessante imaginar que as crianças doam

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É interessante imaginar que as crianças doam
O FANTÁSTICO MUNDO DA LEITURA: UMA ANÁLISE SOBRE O
PROCESSO DE ENSINO E LEITURA ATRAVÉS DO CONTO “TELECO, O
COELHINHO“, DE MURILO RUBIÃO.
JULIETE ROSA DOMINGOS (UENP).
Resumo
Diante da questão problemática que envolve o processo de ensino de leitura na sala
de aula, várias metodologias são teorizadas e experimentadas no âmbito escolar,
embora, ainda, percebemos a necessidade da importância de investir nessa questão
com o intuito de alcançarmos uma possível totalidade de resultado a partir de
estudos com uma fundamentação teórica e metodológica adequada. É de fato, que
as experiências de leitura nos permitem desvendar novos mundos, conhecer nossos
próprios propósitos, desmistificar falsos conceitos em relação à essência humana. A
leitura, dessa forma, é um hábito indispensável ao homem. Partindo desses
parâmetros, esta pesquisa tem por finalidade sugerir um trabalho envolto no campo
da Literatura Fantástica, mais precisamente delimitada na área dos contos
fantásticos, por estes abrangerem um terreno fértil para o afloramento da
imaginação de qualquer tipo de leitor, independente do nível escolar (fundamental
e/ou médio), sem se afastar completamente do real. Para isso, propomos abordar a
origem do termo fantástico, desmistificando alguns de seus conceitos em relação ao
real e o imaginário. Dessa forma, utilizaremos para leitura e análise estrutural e
linguística o conto fantástico “Teleco, o coelhinho“ (1965), de Murilo Rubião, do seu
livro “Os dragões e outros contos”. Assim, temos como fundamentação teórica, os
estudos de Jacqueline Held, Selma Calasans, Mikhail Bakhtin, Ana Maria Machado,
dentre outros.
Palavras-chave:
ensino, leitura, literatura fantástica.
É interessante imaginar que as crianças doam-se para ouvir as histórias
de princesas, bruxas, dragões, mas que de repente, quando um pouco mais
maduras encontram a oportunidade de poder avaliar com seus próprios olhos
os propósitos do autor e suas histórias, uma barreira se forma: não há vontade
de ler.
Essa é a realidade que encontramos no âmbito escolar. Em que, a
maioria dos alunos entreolham entediados as páginas de um livro.
A questão é complexa e alarmante. A leitura não exerce mais o papel
primordial em relação ao aprendizado por ser considerada, pelos alunos, como
uma tarefa cansativa.
Os estudiosos preocupados com a precariedade do bom ensino da
leitura elaboram pesquisas para descobrir novos métodos que estimulem o
desenvolvimento da habilidade de leitura nos alunos.
Porém, há outras situações problemáticas. Em questão: a falta de
preparo dos professores. Muitos desses profissionais, infelizmente, não estão
capacitados para exercer a orientação de leitura em uma sala de aula, isto é,
são profissionais incompletos que não conhecem o mundo em que os alunos
estão inseridos e, além disso, também não são leitores fluentes e críticos.
E, de acordo com Ana Maria Machado “Mas imaginar que quem não lê
pode fazer ler é tão absurdo quanto pensar que alguém que não sabe nadar
pode se converter em instrutor de natação.” (MACHADO, 2001:122).
Se os professores procurassem atualizar seus conceitos sobre a leitura
e a forma mais conveniente de abordá-la na sala de aula, eles saberiam que se
trata de uma temática multifacetada, cheia de descobertas e possibilidades e
que existem histórias para todos os contextos e gostos. Assim, afirma Martins
(1985)
A função do educador não seria precisamente a de ensinar a ler, mas a
de criar condições para o educando realizar sua própria aprendizagem,
conforme seus próprios interesses, necessidades, fantasias, segundo as
dúvidas e exigências que a realidade lhe apresenta. (p.34)
Refletindo sobre essas condições, o presente trabalho procurou avaliar
uma metodologia não esquematizada, isto é, uma metodologia de incentivo a
leitura puramente subjetiva, sem fazer abordagens às tarefas dogmatizadas
que na maioria das vezes inibem a capacidade de compreensão do aluno.
Pois, concorda-se com o que diz Smith “ a leitura é conquistada com a
experiência e não com o ensino” (SMITH, 1999:13).
Pautados em reflexões de críticos renomados da área da leitura, para a
realização dessa pesquisa buscamos textos, que aguçassem a curiosidade do
leitor e instigassem neste a perspicácia de desvendar os segredos desse
“velho mundo novo” em que está situado. No que diz Ana Maria Machado
(2001):
Agora, a curiosidade está adormecida. Talvez, simplesmente, o que
esteja ocorrendo é que os jovens leitores não sabem que existe a caixa,
o quarto, a mensagem, o mapa, o fruto proibido. (p.120)
Desta forma, nos deparamos com um gênero peculiar e pertinente: a
Literatura Fantástica, a qual contém um considerável acervo de textos que
permitem abrir a tal caixa, descobrir o quarto, compreender a mensagem,
desvendar o mapa, saborear o fruto proibido.
Breves considerações sobre o gênero fantástico na literatura
O gênero fantástico surge de forma paradoxal em meados do século
XVIII, perpassando pelo século XIX para amadurecer, então, no Século XX. O
fantástico rompe com as idéias de verossimilhança e adota uma nova
convenção denominada, causalidade mágica. Sendo que, esta nova convenção
é que permite ao leitor aceitar naturalmente os fatos mais extraordinários que
ocorrem durante a narrativa. Esses fatos são marcados por seus temas: o
insólito, a metamorfose, a viagem no tempo, a humanização de objetos e
animais, entre outros.
Esse gênero, como qualquer outro, tem suas peculiaridades marcantes,
e segundo Todorov, “a hesitação do leitor é pois a primeira condição do
fantástico.” (TODOROV, 2004:37). Essa condição faz com que o leitor acompanhe
atentamente todas as ações da narrativa à procura de pistas para o possível
desfecho. E, também esse elemento da hesitação permite diferir o fantástico
dos gêneros vizinhos como o estranho, que pode ser explicado através da
ciência ou do sobrenatural e o maravilhoso, que cria um mundo de fantasia
contendo suas próprias regras e conceitos. E, assim, Todorov afirma (2004)
O fantástico ocorre nesta incerteza; ao escolher uma ou outra resposta,
deixa-se o fantástico para se entrar num gênero vizinho, o estranho ou o
maravilhoso. O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que
só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente
sobrenatural. ( p. 31)
Para essa pesquisa optamos por trabalhar com o conto “Teleco, o
coelhinho”, de Murilo Rubião, publicado em 1965 no livro, “Os dragões e outros
contos”. A obra foi escrita quando o autor estava em condição de auto-exílio na
Espanha. Este texto foi o único que ele escreveu durante os quatro anos que lá
ficou. E, essa sua condição foi fundamental para o desenvolvimento dessa
narrativa.
Murilo Rubião foi o primeiro contista brasileiro a adotar o gênero
fantástico. Nos seus contos faz críticas à essência da natureza humana
utilizando elementos que dissuadem com a noção do que é ou não a realidade,
sem prejudicar as crenças de quem lê, pois se trata da expressão da arte dos
sonhos. Nas palavras do autor (Rubião, 1982):
Ainda: porque sou um sujeito que acredita no que está além da rotina.
Nunca me espanto com o sobrenatural, com o mágico. E isso tudo aliado
a uma sedução profunda pelo sonho, pela atmosfera onírica das coisas.
(p.3)
A Obra Em Questão
O conto relata a história de um homem que por um período da sua
vida conviveu com um coelhinho que possuía habilidades impressionantes,
como falar e poder se transformar em qualquer animal.
Os personagens se conheceram na praia. Logo, o homem (sendo este
o narrador da história) envolvido pela pureza do bichinho o convida para residir
em sua casa. O coelho se chamava Teleco. Tornaram-se grandes amigos.
Teleco era surpreendente e gostava de agradar as pessoas. Na forma de
cavalo galopava com as crianças e ajudava os velhinhos a chegarem a suas
casas. Era também muito travesso. Para assustar os vizinhos com quem não
simpatizava transformava-se em tigres e leões. Os amigos conviveram bem até
o dia em que Teleco, na forma de um canguru asqueroso, convencido de que
se tornara homem levou uma linda mulher, chamada Teresa, para casa e
passou a se chamar Antonio Barbosa. Ficou atrevido e insensato, comportavase de maneira grotesca. Parecia mesmo um homem. Assim, foram expulsos da
casa. Ele e sua namorada por quem o narrador também havia se apaixonado.
Depois de um tempo o pobre animal volta doente e transtornado, não consegue
controlar a habilidade da metamorfose. O narrador desesperado por ver a
condição do velho amigo tenta ajudá-lo. Uma luta intensa foi travada durante
toda uma noite para aliviar o transtorno de Teleco até que ele se acalma e
permanece na figura de um carneirinho. Exausto pela noite cansativa o homem
acaba por adormecer e de manhã quando acorda sente em seus braços a
última transformação de Teleco: uma criança morta.
A narrativa em questão para fazer parte do gênero fantástico deve ser
considerada em seu sentido literal, ou seja, deve-se descartar a possibilidade
de alegorias. Mas, isso não quer dizer que os leitores não possam interpretar
segundo seus interesses. Sendo que, cada obra apresenta mais de uma faceta
por ser dialógica. De acordo com Bakhtin (1992):
Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto
pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige
para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e
do ouvinte. ( p.113)
O conto é apresentado com uma linguagem fluente, sem detalhes
supérfluos, fazendo com que o leitor se prenda à narrativa do início ao fim. O
autor tem a preocupação de fazer, através da voz do narrador, o verossímil
transitar ao inverossímil sem questionamentos, mas de forma clara e objetiva.
Nas palavras do autor (Rubião, 1982):
Reelaboro a minha linguagem até a exaustão, numa busca desesperada
da clareza, para tornar o conto o mais real possível. Com a linguagem
mais depurada, a intriga flui naturalmente. (p.4)
A presença de um narrador-personagem apresenta uma condição de
ambiguidade na obra ao conferir ao leitor a credibilidade dos fatos por ser
narrado por alguém que participou da ação, mas que também por ser
personagem pode vir a estabelecer conceitos de falsos relatos para dar
continuidade às expectativas da narrativa. Todorov (2004) faz uma abordagem
a essa condição, também muito utilizada na estrutura do gênero fantástico, ao
afirmar que:
[...] o narrador representado convém ao fantástico, pois facilita a
necessária identificação do leitor com as personagens. O discurso deste
narrador possui um estatuto ambíguo e os autores o têm explorado
diferentemente enfatizando um ou outro de seus aspectos: quando
concerne ao narrador, o discurso se acha aquém da prova da verdade;
quando à personagem, deve se submeter à prova. (p.94)
O tempo é desenvolvido de maneira cronológica e o espaço, em sua
maioria, limitado ao ambiente da casa do narrador. Esses elementos ficam
apenas como “pano de fundo”, pelo fato de que os acontecimentos
extraordinários, como as metamorfoses do coelhinho, tomam conta de toda
ação.
O envolvimento com a narrativa é possível porque além da linguagem
clara e desenvolvimento dinâmico da trama, são utilizados os mecanismos
presentes na estrutura desse tipo de gênero, já citadas e definidas
anteriormente, denominados momentos das hesitações. De maneira, que
possamos evidenciar a presença desses elementos fundamentais,
comprovaremos com trechos da obra, respeitando a ordem da narração:
1ª Hesitação: Um homem (o narrador da história) encontra-se em um
momento nostálgico até que é perturbado por alguém.
_ Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu
também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a
escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim
estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente.
2ª Hesitação: Depois de muito conversarem o narrador convida o coelho para
residir na sua casa. Suas intenções são questionadas pelo coelho.
_Por acaso, o senhor gosta de carne de coelho?
Não esperou pela resposta:
_Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade é o meu fraco.
Dizendo isto, transformou-se numa girafa.
3ª Hesitação: Um dia ao voltar para casa o homem se depara com uma cena
que o deixa bastante irritado.
De mãos dadas, sentados no sofá da sala de visitas, encontravam-se uma
jovem mulher e um mofino canguru.
_ De hoje em diante serei apenas homem.
_ Teleco?! Meu nome é Barbosa, Antônio Barbosa, não é Teresa?
4ª Hesitação: O próprio desfecho da narrativa é apresentado como um
momento de hesitação, afinal os leitores sempre esperam um final feliz depois
de uma trama conturbada. No entanto, o que ocorre é um final, que apesar de
amargo, traz a verdade sobre a experiência de adaptação do homem no seu
próprio mundo.
“Na última noite, apenas estremecia de leve e, aos poucos, se aquietou.
Cansado pela longa vigília, cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar, percebi que
uma coisa se transformara nos meus braços. No meu colo estava uma criança
encardida, sem dentes. Morta.”
Esse conto recorre à sensibilidade máxima dos leitores, pois, apresenta
como temáticas os conflitos da desorganização social, e principalmente a
marginalização do símbolo da inocência, no caso desse conto representado
pela criança.
As ações da narrativa são desenvolvidas com situações que abordam
desde a comicidade, como a ousadia e teimosia do coelho, até a intolerância
do leitor, como exemplo, quando a metamorfose de Teleco afeta também seu
comportamento e a morte do coelhinho no final da trama.
Os trechos para essa análise foram extraídos do livro “Literatura
Comentada”, confiado a Jorge Schwartz, que fez a seleção dos melhores
contos de Murilo Rubião.
Considerações Finais
O conto em questão apresenta abordagens a temas extremamente
críticos, mascarados intencionalmente pelo autor. Desta forma, é considerado
um texto de nível complexo, podendo ser trabalhado com os alunos do ensino
médio, que apesar de também apresentarem dificuldades em relação à leitura,
estão “culturalmente” mais preparados para entrar em contato com textos de
cunho crítico.
O propósito dessa pesquisa foi sugerir o gênero fantástico como texto
para o trabalho inicial de orientação de leitura na sala de aula, pois abrange
um tema que por ser dominante e extremista alude para uma recepção crítica
no leitor. Assim, não nos preocupamos em abordar possíveis atividades
esquematizadas para avaliar a compreensão que o aluno assimila do texto. À
medida que o aluno interagir com a leitura menos terá a necessidade de
exercícios de interpretação. E, de acordo com Smith “Quanto mais nos
aprofundamos na natureza da leitura, menos dogmáticos precisamos ser sobre
o que os professores devem fazer nas salas de aula.” (SMITH, 1999:10).
Em relação ao professor-orientador da leitura, este deve ter consciência
de que não tem em mãos a verdade absoluta, nem sobre o texto e nem sobre a
vida. Ele como profissional, deve saber que o trabalho com a leitura, e a
compreensão desta, é mais que papel, letra, tinta e assunto. São mundos
paralelos que de repente se cruzam e se completam. E antes de tudo são
mundos da subjetividade de cada leitor. Como afirma Kleiman (1993):
A compreensão é um processo altamente subjetivo, pois cada leitor traz
à tarefa sua carga experiencial que determinará uma leitura para cada
leitor num mesmo momento e uma leitura diferente para o mesmo leitor,
em momentos diversos. (p.151)
Por fim, ressaltamos a importância inquestionável da leitura, que abre as
portas para outros universos, que permite conhecermos outras culturas e que
nos abre os olhos para a surpreendente capacidade do ser humano de se
tornar imortal através dos registros que faz sobre sua história É necessário
também salientar a importância do estudo voltado para metodologias de
orientação de leitura não só relacionados às séries iniciais, mas também ao
ensino fundamental e médio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SMITH, Frank. Leitura Significativa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura? 5. ed. São Paulo: Brasiliense. 1982
CALASANS, Selma. O fantástico. São Paulo: Ática, 1988.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. Trad: Maria Clara
Correa Castelo. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.
BAKHTIN, Mikhail. A interação verbal. In: Marxismo e filosofia da linguagem. 6.
Ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
MACHADO, Ana Maria. Entre vacas e gansos – escola, leitura e literatura! In:
Texturas: sobre leituras e escritos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
KLEIMAN, Ângela. Ensinando a leitura. In: Oficina de leitura: teoria e prática.
Campinas/São Paulo, Pontes, 1993.
SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião – Literatura Comentada. São Paulo: Abril
Educação, 1982.
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