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mulher vítima de violência: desbravando as razões da culpa feminina
MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA: DESBRAVANDO AS RAZÕES DA
CULPA FEMININA
Jocelaine Espindola da Silva Arruda1
Nanci Stancki da Luz2
Resumo: O artigo proposto terá como objetivo discorrer sobre as dinâmicas psicossociais vividas
pelas mulheres vítimas de violência de gênero, bem como a forma como esta violência é vista
dentro da sociedade. Entende-se que tal discussão se faz importante visto o forte caráter sociológico
presente em cada ato violento, seja este físico, moral ou psicológico, pois o agir masculino muitas
vezes é visto como reação a uma ação feminina, sendo aceito e retransmitido a outras gerações
como “justificado”, perante um “desvio” de comportamento da agredida. Dentro das questões
relativas a gênero, sexualidade, comportamento e sociedade, entendemos que tal artigo contribuirá
sobremaneira para o esclarecimento do fenômeno da culpa feminina pela agressão sofrida. O artigo
será produzido a partir de pesquisa bibliográfica pertinente e ainda, de consulta a revistas de grande
circulação, sites e outros, visto que estes trazem entrevistas e relatos que nos mostram a forma de
pensamento e comportamento de uma parcela da população feminina e ou masculina, auxiliandonos na compreensão deste fenômeno social, cultural e comportamental que é a violência.
Palavras-chave: Mulher. Violência. Culpa. Comportamento.
Introdução
Este artigo discorre sobre a violência contra a mulher, analisando as dinâmicas psicossociais
vividas pelas vítimas, bem como a forma que esta violência é vista pela sociedade. Tem ainda como
objetivo questionar a culpa feminina, principalmente quando a mulher entende ser a culpada pela
violência que sofreu em razão de seu comportamento ou vestimenta.
Para o alcance deste objetivo optamos por transcrever depoimentos de mulheres de
diferentes escolaridades e condições sociais que reflitam diferentes entendimentos sobre o que pode
ser caracterizado como violência, e a forma como percebem esta violência, o que entendemos que
poderá contribuir para a compreensão do sentimento de culpabilidade.
O tema violência contra a mulher é assunto recorrente na mídia, em revistas de diversos
estilos, bem como em sites especializados em discussões feministas, de gênero, e outras pertinentes
à mulher, pois ainda hoje, quase sete anos após a publicação da lei Maria da Penha 3 continuam a se
1
Mestranda em Tecnologia pela Universidade Tecnológica do Paraná – Curitiba/PR - Brasil
[email protected]
2
Doutora em Política Científica e Tecnológica. Professora do Programa de Pós-graduação em Tecnologia e do
Departamento Acadêmico de Matemática da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Curitiba/PR - Brasil
[email protected]
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A lei 11340/06 – Lei Maria da Penha - trouxe grandes avanços na proteção da mulher vítima de violência.
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repetir os casos de violência física, sexual, psicológica ou moral contra a mulher no Brasil, não
sendo muito diferente em outros países4.
O mapa da violência 2012 (WAISELFISZ, 2012) apresenta informações sobre o número de
casos de violência contra a mulher no Brasil. O primeiro dado que chama a atenção é o número de
mulheres assassinadas nas últimas três décadas (1980-2010):
 91.886 mortes de mulheres, destas quase a metade na última década.
 O número de mortes nesse período passou de 1,353 para 4,465 (em cada 100 mil
mulheres) o que representa um aumento de 230% e triplica o número de mulheres
vítimas de assassinato no país.
 Somente no ano de 2010 foram 4.273 homicídios de mulheres e 48.152 atendimentos
de mulheres vítimas de violência nas unidades de saúde, sendo que 68,8% relativo a
ato ocorrido na própria residência.
A importância da repercussão social do tema, somada ao elevado número de vítimas
estimulou o interesse em pesquisar sobre quais seriam os reais motivos desta violência, e como eles
repercutem na vida das agredidas e no meio social onde transitam. Para alcançar este objetivo
utilizaremos os ensinamentos de vários autores e autoras sobre o assunto, bem como a transcrição
de relatos de mulheres agredidas.
Para Minayo (1994) a violência é considerada um fenômeno biopsicossocial cuja
complexidade dinâmica emerge na vida em sociedade, no entanto hoje é quase unânime que a
violência não faz parte da natureza humana e não possui raízes biológicas. Por isso, para a sua
compreensão é necessária à análise histórica, sociológica e antropológica, considerando as
interfaces das questões sociais, morais, econômicas, psicológicas e institucionais.
Entre o elenco de motivos sociais, culturais, econômicos e psicológicos que explicam a
violência contra a mulher, em especial nos interessa compreender o aspecto psicológico da
agredida, pois quando se pensa em violência, se pensa quase que de forma concomitante em culpa,
e tais palavras – violência e culpa – nos induzem a ideia de que o protagonista do ato violento e do
consequente sentimento de culpa seja um homem ou quem desempenha o “papel” do agressor.
No entanto, visto as singularidades da psique feminina, quanto ao sentimento de culpa, isto
não é verdade absoluta, pois grande número de mulheres, inclusive parte das próprias agredidas,
acredita que ela, a vítima da violência seria a responsável pela agressão, justificando-a pelos mais
4 Para maiores informações ver: http://www.onu.org.br/unase/sobre/situacao/
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diversos motivos, dentre os quais a forma de se vestir, de dançar ou de falar (MENDONÇA, 2013;
BALLONE, 2008).
Violência contra a mulher e violência de Gênero
A violência atinge mulheres de todas as classes sociais. Também atinge mulheres de
diferentes culturas, religiões, etnias e orientações sexuais, o que evidencia um grave problema
social.
Vale destacar nesta discussão o artigo “Participando do debate sobre mulher e violência” de
Marilena Chauí, para a qual a violência é resultado de uma ideologia de dominação masculina
produzida e reproduzida por homens e mulheres. A violência é uma ação que transforma diferenças
em desigualdades de hierarquia, com a intenção de dominação, opressão e exploração, condições
estas que ocorrem juntamente com a passividade e o silêncio dos sujeitos. A violência é ação que
trata um ser humano não como sujeito, mas como uma coisa, impedindo ou anulando sua atividade
e fala (CHAUÍ, 1985).
Portanto a autora entende violência não simplesmente como transgressão de normas sociais
e legais, mas como resultado de um jogo de forças que tem um lado à dominação masculina e do
outro a reificação feminina (CHAUÍ, 1985). Ressalvamos que Chauí entende que a mulher é
cúmplice da violência e contribui para a reprodução de sua dependência porque é instrumento da
dominação masculina.
Outra corrente teórica que ainda hoje orienta as discussões sobre violência contra a mulher,
é a introduzida pela socióloga Heleieth Saffioti, a qual traz uma perspectiva eminentemente
feminista e marxista ao analisar a relação de dominação masculina. Para ela o marxismo deixara
obscura a imbricação classe gênero na sociedade burguesa, o que se dedicou a esclarecer.
A discriminação da mulher e do negro no Brasil foi socialmente construída para beneficiar a
elite econômica e política. Para o alcance de uma sociedade mais justa se faz necessário o
enfrentamento da tríade patriarcado-racismo-capitalismo, pois o patriarcado não se resume a um
sistema de dominação machista, mas também a um sistema de exploração onde o viés econômico
está presente.
O poder é macho, branco e rico. A ideologia machista que sustenta este sistema socializa o
homem para dominar a mulher e esta para se submeter ao “poder do macho”. A violência então
resulta desta socialização machista, que induz no homem a ideia de direito de propriedade da
mulher, e por consequência de espancá-la, e nela, educada para a submissão, a naturalização do ato.
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A autora define então a mulher como sujeito dentro de uma relação desigual de poder com o
homem, e que esta não consente com a violência, mas é forçada a ceder porque não tem poder
suficiente para consentir, portanto é vítima (SAFFIOTI, 1987).
No que tange ao conceito de gênero, nos anos 80 ocorre uma mudança teórica significativa,
influenciada pelo artigo americano “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, da historiadora
feminista Joan Scott:
...o termo “gênero” torna-se uma forma de indicar “construções culturais” – a criação
inteiramente social de ideias sobre os papéis adequados as homens e às mulheres. Trata-se
de uma forma de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de
homens e mulheres. “Gênero” é, segundo esta definição, uma categoria social imposta
sobre um corpo sexuado. Com a proliferação dos estudos sobre sexo e sexualidade, gênero
tornou-se uma palavra particularmente útil, pois oferece um meio de distinguir a prática
sexual dos papéis sexuais atribuídos às mulheres e aos homens (SCOTT, 1995, p.75).
Gênero é definido então como uma relação socialmente construída entre homens e mulheres
servindo como categoria de análise para se investigar a construção social do feminino e do
masculino. A categoria “mulher” passa a ser substituída pela categoria “gênero”, pois esta
categorização permite um novo paradigma nos estudos das questões relativas às mulheres.
Heleieth Saffioti e Sueli Souza de Almeida foram as primeiras autoras brasileiras a utilizar o
novo termo em livro publicado em 1995, intitulado Violência de Gênero: Poder e Impotência.
Saffioti (2004) entende que violência de gênero é uma categoria mais geral, podendo
englobar a violência doméstica e a intrafamiliar. Que apesar da forma mais comum de violência de
gênero abranger a do homem contra a mulher, também pode ocorrer entre homens ou entre
mulheres. No entanto, reafirma que “paira sobre a cabeça de todas as mulheres a ameaça de
agressões masculinas, funcionando isto como mecanismo de sujeição aos homens, inscrito nas
relações de gênero” (SAFFIOTI, 2004, p. 75).
A forma como as famílias se organizam na ordem patriarcal de gênero é direcionada por
padrões fundamentados em dicotomias assimétricas do feminino e do masculino. Dessa forma, a
violência cometida por homens contra mulheres assume uma feição crônica e estabilizada,
empreendida sobre a mesma vítima, ritualizada (SAFFIOTI; ALMEIDA, 1995).
Estas estruturas históricas que alicerçam as relações assimétricas entre mulheres e homens
estão materializadas nos espaços sociais, na família, nas legislações, na desigualdade salarial, ou
seja, estão entranhadas em grande parte das culturas mundiais, bem como nas identidades subjetivas
de homens e mulheres.
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Para compreender como as mulheres interiorizam a violência doméstica, e como podem
modificar estas estruturas históricas que consagram a hierarquia de gênero, será utilizado o
referencial teórico habitus de Bourdieu.
Segundo a definição clássica do autor, habitus deve ser pensado “como sistema das
disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturantes, constituem o principio
gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de
agentes” (BOURDIEU, 2005, P. 191).
Portanto, o habitus é produto das experiências vividas e funciona como matriz de
percepções, que uma pessoa ou grupo determinado faz de certa situação. A dinâmica de
incorporação de valores, de percepções, de avaliações, enfim do habitus de que o ser social é
produto, processa-se por meio de mecanismos complexos. Os condicionamentos históricos e sociais
imprimem suas marcas nas estruturas objetivas e cognitivas, ou seja, na forma de estruturação do
mundo e na forma de pensamento de homens e mulheres. (BOURDIEU, 1996a, 1999).
Para melhor compreensão da forma como o habitus da visão dominante e das relações de
poder acontece, retroalimentando os mecanismos que perpetuam os sistemas de dominação
masculina, utilizaremos o conceito de violência simbólica de Bourdieu:
...violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce
essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou,
mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do
sentimento (BOURDIEU, 1999, p.7-8).
Este processo produz e reproduz relações de poder uma vez que o polo dominado tende a
utilizar categorias construídas do ponto de vista dos dominantes “para se ver e se avaliar, ou para
ver e avaliar os dominantes.” (BOURDIEU, 1999, p. 47).
Esta forma de dominação que alcança tanto o corpo como a mente, associada ao medo, à
baixa autoestima, à vergonha, ao vinculo afetivo ainda existente, à esperança na modificação do
companheiro, à pressão social e familiar para a manutenção da instituição familiar, à dificuldade de
sustento da própria mulher e de sua prole, e ainda o sentimento de culpa pela atuação “imperfeita”
na relação - o que então serviria como causa do ato violento do homem - dificultam o rompimento
com a situação de violência vivenciada.
Ademais esta violência é muitas vezes mascarada, como se fosse uma punição merecida por
uma infração de comportamento, ou ainda sequer é percebida, pois mais sutil, atinge o psicológico e
não o físico.
A culpa e seus enfoques
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A culpa é um tema abordado em diferentes áreas disciplinares, onde adquire forma e
importância distintas conforme o contexto.
Neste artigo utilizamos algumas definições do
sentimento de culpa, a despeito de existirem muitos outros teóricos em cada um dos campos do
conhecimento que fornecem definições diferentes às que apresentamos.
O Novo Dicionário Aurélio ensina que a culpa está associada à conduta negligente ou
imprudente, a um delito, a falta voluntária, a uma obrigação, a transgressão de preceito religioso e a
ação ou omissão prejudicial (FERREIRA, 1986).
A Bíblia representou a culpa por meio de Adão e Eva, os quais transgrediram a proibição de
consumo da árvore do conhecimento do bem e do mal. Portanto, no conceito da religião, a culpa
seria a consequência pessoal de uma transgressão a uma lei divina.
O significado de transgressão se modifica de acordo com o tempo e a cultura vigente, por
isso a necessidade de se estabelecer códigos de moral, os quais desencadeiam a cultura do que é
passível de ser motivo de culpa em cada época ou local. A punição é entendida como a maneira de
evitar os desvios de conduta e assim os mecanismos psicológicos que desencadeiam a culpa seriam
reforçados (SCLIAR, 2007).
Para o Direito, a culpa, ao contrário do dolo, não cuida da finalidade da conduta, mas da
não-observância do dever de cuidado pelo sujeito, causando o resultado e tornando punível o seu
comportamento (DELMANTO, 1998).
Na psicologia Wright (1971, p.103) define a culpa como “uma condição emocional
desagradável diretamente seguida à transgressão, que persiste até que algum tipo de equilíbrio seja
restaurado por reparação ou confissão e perdão e que independe de que outros saibam da
transgressão”
A visão da mulher vítima de violência
A mulher é tão “treinada” para sentir culpa, que até mesmo quando é agredida ou toma
conhecimento da agressão sofrida por outra mulher, entende que esta provocou a violência.
Vejamos o relato de uma mulher residente numa comunidade carente extraído do artigo de Tavares
e Pereira (2007):
Uma mulher daqui já até morreu, ela sempre provocava violência. O marido saía, ela ia
atrás, aí um batia no outro, na rua. Aí a polícia tinha que vir (Solteira, 26 anos, ensino
superior completo) 5.
5
Para ver artigo na íntegra acessar: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/fale/ojs/index.php/fass/article/view/2318/1817>.
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Também serve como demonstração da forma como a culpa é socialmente e culturalmente
construída o caso relatado no artigo de Coelho e Maluschke (“Culpa e castigo divino a partir de um
caso de “adultério”, onde uma mãe que traiu o marido entende como castigo divino o câncer
diagnosticado em seu filho.
“Eu tenho certeza que ele [o filho de 8 anos que tem câncer] está pagando por
mim. Eu é que deveria ter câncer, pagar pelo que fiz, e não ele, pobre inocente.
Mas se essa é a vontade de Deus, fazer o quê?”6
O que percebemos a partir de todo o material bibliográfico consultado, sites, revistas e
demais publicações que relatam este tipo de situação, é que a violência é percebida de forma
diferente de acordo com o nível social, e principalmente cultural, da vítima.
A mulher da periferia – que vive a situação em que muitas vezes ela mesma é fruto de
relações familiares onde impera a violência - tende a conviver melhor com a situação, ou seja, sofre
com esta, age no sentido de impedi-la, mas é mais flexível no entendimento do que pode ser
considerado ato violento e tende mais a suportar o ato, seja por necessidade econômica ou pela
própria flexibilidade já descrita, conforme se percebe a partir dos relatos abaixo:7
[...] ah! bateu, fico com raiva até hoje, que é o meu marido, quando a gente namorava. [...]
Ele veio me batendo, puxando meu cabelo. E depois de casados, no início. Depois de um
ano ele começou, assim, a brigar, queria me bater (Casada, 32 anos, ensino fundamental
incompleto).
Só quando ele [o companheiro] bebia é que ele quebrava as coisas todas, ele quebrava
mesmo. Mas, assim, chegar, bater, me xingar, ele não fazia isso não, porque ele sabia que
se encostasse a mão em mim ele iria tomar. Então, ele nunca chegou a me bater não (União
consensual, 30 anos, ensino médio incompleto).
A mulher mais, a qual possui situação social e/ou cultural privilegiada, é mais intolerante ao
ato violento e quando o suporta é principalmente pelo medo da morte, pela vergonha social ou
medo de vingança dirigida aos filhos.
A agressão verbal também é violência, com certeza. Ela costuma ferir mais que uma
agressão (Solteira, 26 anos, ensino superior completo).
Às vezes tem palavras, gestos, que doem muito mais que um tapa na cara (União
consensual, 30 anos, ensino médio incompleto).
Esta introdução acerca da violência, e dos conceitos e enfoques da culpa, tem como objetivo
servir de alicerce para a discussão que se pretende produzir sobre a culpa feminina. Quais os
motivos que levam a mulher a se sentir culpada o tempo todo e em todas as situações? Por que as
mulheres sentem culpa por deixarem os filhos aos cuidados de outros para irem trabalhar, e também
6
Ver artigo na íntegra em: http://www.labiopsi.com.br/evento/images/stories/anais/Jane_2.pdf.
ANDRADE, V. D. A.; LORETO, M. D. S. de. Família e violência: Caracterização e Interações. In: TEIXEIRA, K. M.
D.; GOUVEIA, P. (Org.). Tudo em família: textos, temáticas e discussões. Viçosa, MG: UFV, 2008. p. 46-74.
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sofrem se não os deixam, sentindo-se então deslocadas socialmente e alijadas do trabalho
produtivo?
De igual maneira lhes gera culpa a “desídia” com a casa e com os cuidados com os filhos,
como também pela atividade não realizada no local de trabalho, ou então realizada superficialmente
em virtude da necessidade de levar o filho febril ao médico. A culpa por não possuírem domínio do
mundo virtual; de não passarem muito tempo com os pais idosos, sem contar a culpa por não serem
suficientemente dedicadas ao marido, com tudo o que isto engloba.
Entre tantas outras culpas, a culpa por envelhecer. Vemos mulheres cometendo atrocidades
com o próprio corpo, muitas vezes simplesmente porque sonham com que os maridos as vejam
sempre jovens e desejáveis, o que sabemos que ao menos quanto a juventude, é impossível. As
mesmas sequer percebem que seus maridos também envelhecem, pois afinal isto é socialmente
aceito.
E a mais absurda de todas as culpas, a culpa pela violência sofrida, discurso presente em
grande número de depoimentos masculinos, e pior, acolhido por um representativo número de
mulheres, que na sua ignorância, legitimam a atitude masculina.
Nas palavras de Scliar (2007) a culpa é uma sensação que dificulta respirar, e quando do
suspiro o alívio é transitório. Se nos libertarmos dela, a breve leveza pode dar origem a leviandade,
o que causaria então nova culpa.
Portanto, esta culpa exagerada e cruel que orienta toda a vida feminina é fruto da sociedade
patriarcal em que vivemos, onde a mulher é vista como ser inferior, e a quem a menor medida de
independência, como por exemplo, o trabalho fora do âmbito do lar, é vista como uma concessão e
por isso exige como contrapartida a obrigação da perfeição.
No aspecto emocional, a família tem sido o berço da relação estrutural, relacional e social de
seus próprios membros, onde o casal é o modelo referencial, o “lócus propício para a formação e
transformação de valores, crenças, costumes e regras” (BUCHER, 2003, p.171).
Sendo assim a sociedade, e mais especificamente a família, célula da sociedade, repete estes
comportamentos e valores, fazendo com que a culpa feminina atinja quase que a totalidade da
população feminina.
Vale destacar o movimento de protesto “a marcha das vadias” que surgiu no Canadá,
decorrente da fala de um policial sobre segurança e prevenção ao crime em janeiro de 2011, na qual
este afirmou que “ as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias, para não serem vítimas de
ataque”.
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Por óbvio, a indignação foi imediata, pois esta visão sexista transferia a culpa da agressão
sexual para a vítima, insinuando que esta é quem provocava o ataque. A partir de então este
movimento tomou força e no mundo todo mulheres vão à rua, exigindo o respeito a sua condição
humana, e renegando os estereótipos que tentaram lhes inculcar – provocante, atrevida, vadia - e
outros adjetivos do mesmo estilo.
Tal movimento serve então como mais uma forma de tentativa de modificação desta
mentalidade que naturaliza papéis de feminino e masculino de forma tão prejudicial à imagem da
mulher, e a sua existência como ser pleno, dono de seu corpo, de sua sexualidade e vontade.
Considerações Finais
No presente artigo estabelecemos uma vinculação entre as temáticas: gênero, violência e
culpa, buscando realizar uma reflexão sobre a culpa feminina em várias de suas formas, ressaltando
entre estas aquela sentida por muitas mulheres e induzida pela sociedade, a qual relaciona o ato
violento masculino à roupa utilizada pela mulher, ou ao seu comportamento.
Para tanto trouxemos declarações de mulheres de diferentes idades e escolaridades,
estabelecendo um comparativo da forma como é percebida a violência pelas mesmas, e onde
constatamos que o ato de violência tende a ser naturalizado, e que o entendimento sobre o que seja
violência pode ser flexível, dependendo da classe social ou escolaridade da mulher agredida.
A culpa feminina é uma realidade presente na vida das mulheres e seu enfrentamento exige
uma modificação de mentalidade e de postura, seja do agressor, seja da mulher agredida ou
daqueles que elaboram políticas públicas para o combate à violência.
Portanto, resta demonstrada a necessidade de resgate da autoestima feminina, a qual deve ser
construída em cada dia, cada ato, e incentivada pelos movimentos sociais e políticas públicas que
tratam do assunto. Como exemplo desta mudança de mentalidade e de ação para a efetividade da
mudança temos a “marcha das vadias”, movimento de protesto e de conscientização que vem num
crescente e que denuncia todas estas formas de sexismo ainda existentes em nossa sociedade.
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Woman victim of violence: uncovering the reason of women's guilt
Abstract: The proposed article will aim to discuss the psychosocial dynamics experienced by
women victims of gender violence, as well as how this violence is seen within society. It is
understood that such discussion is important because the strong sociological present in every act of
violence, be it physical, psychological or moral, because the male action is often seen as a reaction
to an female action, being accepted and relayed to other generations as "justified" by a "deviation"
of behavior of women. Among the issues related to gender, sexuality, behavior and society, we
believe that this article will contribute greatly to the clarification of the phenomenon of guilt by
female aggression. The article will be produced from the relevant literature and also of consultation
the large-circulation magazines and sites, because they bring interviews and reports that show us the
way of thinking and behavior of a portion of the female population and male, assisting us to
understanding this phenomenon social, cultural and behavioral that is violence.
Keywords: Women. Violence. Guilt. Behavior.
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