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repressão aos alemães em Curitiba durante a
MÁRCIO JOSÉ PEREIRA
POLITIZANDO O COTIDIANO: REPRESSÃO AOS
ALEMÃES EM CURITIBA DURANTE A SEGUNDA
GUERRA MUNDIAL
Maringá
2010
MÁRCIO JOSÉ PEREIRA
POLITIZANDO O COTIDIANO: REPRESSÃO AOS ALEMÃES EM
CURITIBA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Estadual de Maringá – UEM,
para obtenção do título de Mestre em
História (Área de concentração: Política e
Movimentos Populacionais e Sociais. Linha
de Pesquisa: Política e Movimentos Sociais).
Orientador: Prof. Dr. João Fábio Bertonha.
Maringá
2010
MÁRCIO JOSÉ PEREIRA
POLITIZANDO O COTIDIANO: REPRESSÃO AOS ALEMÃES EM
CURITIBA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Estadual de Maringá – UEM,
para obtenção do título de Mestre em
História (Área de concentração: Política e
Movimentos Populacionais e Sociais. Linha
de Pesquisa: Política e Movimentos Sociais).
COMISSÃO EXAMINADORA
____________________________________
Profa. Dra. Roseli Boschilia
Universidade Federal do Paraná
____________________________________
Prof. Dr. Reginaldo Benedito Dias
Universidade Estadual de Maringá
____________________________________
Prof. Dr. João Fábio Bertonha
Universidade Estadual de Maringá
Maringá, 23 de Fevereiro de 2010
Dedico este trabalho
À minha esposa Ana Paula, pelo carinho
e companheirismo de todos os dias e aos meus pais,
que no pouco, tudo me deram, principalmente amor.
AGRADECIMENTOS
Ao terminar esta dissertação de mestrado resta-me registrar os sinceros
agradecimentos para aqueles que de várias formas contribuíram para que a mesma se
tornasse uma realidade.
A Deus, pelo dom da vida, pelo discernimento e proteção constante.
Ao meu orientador, Dr. João Fábio Bertonha, pelos comentários sempre
pertinentes, pela oportunidade de diálogo, boas histórias e pelo incentivo.
À minha esposa, Ana Paula, pelo apoio incondicional, pelo carinho e
compreensão nos dias que a atividade de “fazer história” fizeram-me ausente física e
mentalmente de casa. Sem sua ajuda, talvez, isso ainda fosse um projeto.
Aos meus pais, Nilza e José, pelo amor de todos os dias, pelo exemplo de
honestidade e por nunca deixar de apoiar meus sonhos. Junto a eles, os
agradecimentos às pessoas queridas que fazem parte de uma estrutura preciosa
chamada família: meus irmãos Junior e Andressa, meus avós Santa e Helio (in
memorian), Geraldo e Rosa (in memorian), meus primos Link, Felipe e Nice pela
recepção generosa em São Paulo, também, aqueles que tornaram-se minha família,
meus “pais” Jair e Luzia, minhas “irmãs’ e amigas Denise e Kelly, que me acolheram na
família Rigoldi e me apoiaram sempre.
Aos professores que compuseram a banca, especiais agradecimentos a Prof. Dr.
Roseli Boschilia - UFPR, que ajudou a enriquecer o texto apresentando-me novas
abordagens, ao Prof. Dr. Luiz Miguel do Nascimento - UEM, que com sua leitura atenta
apontou os erros e indicou as saídas, também ao Prof. Dr. Reginaldo Benedito Dias,
pela leitura criteriosa do texto e pelas contribuições a escrita da redação final.
Aos amigos, irmãos, “camaradas d´água” que entre cafés, almoços e cervejas no
final da tarde, fizeram essa caminhada muito mais prazerosa, Rafael Athaides, pela
amizade de longa data, pelas críticas necessárias e acolhida sem igual na capital
paranaense; Paulo José Soares Filho, pela irmandade, compromisso e por singular
preocupação em ter seus amigos sempre perto e felizes; David Antonio de Castro Neto,
pelo caráter integro de sua amizade, pelas palavras de apoio e pelas inúmeras
discussões sem fundamento entre “O rei da sapiência” x “O senhor da razão”; Micael
Alvino da Silva, pela sua capacidade de cativar as pessoas, pela dedicação em fazer
história e pela acolhida ímpar na sua casa em Foz do Iguaçu; Fabiana Nogueira, pela
amizade antiga, que mesmo distante não esmorece, pelas dicas ao projeto e acolhida
carinhosa nas visitas a São Paulo.
Aos amigos de curso, de caminhada e do cotidiano, Thalisson, Andrei, Giani,
Hortência, Aninha Salles, Jaqueline, Karla, Patrícia, Glória, André, Murilo, Giceli,
Fernanda, Rosângela Kimura, Renata, Lucielen, Jorge, Dione, Anderson, Rogério,
Cláudia, Hellen, Roberval, Janaína, Rita, Evandro, Alexandre, Mara, Monique, Paula,
Amanda, entre muitos outros que fazem parte do meu viver.
Aos professores. Dr. Ângelo A. Priori, coordenador do PPH, pela paciência e
prestatividade em atender nossas solicitações; Dr. Rivail Carvalho Rolim, pela leitura
do texto e contribuições; Dr. Célio Juvenal Costa, pelo diálogo franco e apoio
costumeiro; Dr. Sezinando Luis Menezes, por nos acolher sempre bem e tirar nossas
dúvidas; Dr. Jaime Estevão dos Reis, pelo exemplo de perseverança desde os tempos
de graduação, Dr. Sidnei José Munhoz, pelos debates e conversas no grupo de
pesquisa, e tantos outros que se puseram a disposição de nos ensinar História.
A algumas pessoas especiais, Giselle Moraes, secretária do PPH, pela amizade,
sorriso aberto e por nunca abandonar-nos nas constantes dúvidas durante o mestrado;
Maria Conceição e Hugo Tavares, do Arquivo Público Municipal de Curitiba, Roseli
Pereira Lima, pelo auxilio inestimável no Arquivo Público do Estado do Paraná; aos
diversos estagiários da Biblioteca Pública do Paraná, que mesmo não tendo lembrado
seus nomes, foram admiráveis ao me auxiliarem com os periódicos.
A Fundação Araucária, pelo fomento financeiro a essa pesquisa, afinal fazer
história com compromisso e responsabilidade nesse país não é uma atividade simples,
porém, a bolsa de estudos, tornou-a muito mais fácil.
Antes
que
seja
necessária
a
confecção
de
um
índice
para
esses
agradecimentos, peço a todos aqueles que não foram citados, que sintam-se a vontade
para escrever seus nomes nessas páginas, pois, de maneira direta ou indireta fizeram
parte desse projeto.
"A história é êmula do tempo,
repositório dos fatos, testemunha do
passado, exemplo do presente,
advertência do futuro."
Miguel de Cervantes
PEREIRA, Márcio José. Politizando o cotidiano: Repressão aos alemães em Curitiba
durante a Segunda Guerra Mundial. 2010. Dissertação (Mestrado em História) –
Universidade Estadual de Maringá
RESUMO
O renascer dos estudos cotidianos está amplamente vinculado as estruturas do
político, frente ao deslocamento do campo do poder das instituições públicas e do
Estado para a esfera do privado, através da politização do dia-a-dia. Os objetivos da
presente pesquisa é analisar como a Segunda Guerra Mundial influenciou o cotidiano
de Curitiba durante seu decorrer, dando ênfase as ações governamentais praticadas
contra os cidadãos de ascendência alemã e analisar a atuação da população civil
curitibana nesse processo. Para dar conta das propostas supracitadas foram utilizadas
as seguintes fontes: documentos da extinta Delegacia de Ordem Política e Social do
Estado do Paraná, através dos dossiês temáticos e pastas individuais provenientes do
Arquivo Público do Paraná e recortes dos jornais diários que circulavam na capital
paranaense, sendo estes: o Diário da Tarde, o Correio do Paraná e a Gazeta do Povo,
disponíveis na Biblioteca Pública do Paraná.
Palavras-chave: Curitiba, cotidiano, alemães e Segunda Guerra Mundial
PEREIRA, Márcio José. Politicizing the quotidian: repression to the Germans in Curitiba
during the Second World War. 2010. Dissertation (Master Degree in History) – State
University of Maringa
ABSTRACT
The quotidian studies rebirth is widely linked to the politics structures, concerning the
displacement of power from public and State institutions to the private sphere, through
the politicizing of the quotidian. This research aims at analyzing how the Second World
War influenced the quotidian of Curitiba during its occurrence, emphasizing the
government’s actions practiced against the citizens of German origin and at analyzing
the performance of the civil population from Curitiba in that process. To accomplish the
mentioned proposals the following sources were used: documents from the extinct
Police Station of Political and Social Order of the State of Paraná, through thematic
dossiers and individual folders originated from the Public File of Paraná, and cuttings
from the daily newspapers which circulated in Curitiba, such as: “O Diário da Tarde”, “O
Correio do Paraná” and “A Gazeta do Povo”, available in the Public Library of Paraná.
Keywords: Curitiba, Quotidian, Germans, Second World War.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1
Curitiba em 1855
42
Figura 2
Mapa de Curitiba em 1915
88
Figura 3
Propaganda Gasogênio - General Motors
105
Figura 4
Cartaz Cine Curitiba de 04 de maio de 1943
109
Figura 5
Cartaz Cine Imperial de 05 de maio de 1943
109
Figura 6
Cartaz de orientação para a população em caso de ataques
124
aéreos
Figura 7
Exemplar da Gazeta do Povo recolhido na Pensão Kreutz –
162
Curitiba
Figura 8
Dirigível alemão Hindenburg sobrevoando a capital paranaense.
166
(1936)
Figura 9
Sala de espera do Foto Progresso – Curitiba
170
LISTA DE TABELAS
Tabela 1
Periódicos consultados na Biblioteca Pública do Paraná
20
Tabela 2
Entrada de imigrantes teutos no Brasil (1820-1939)
34
Tabela 3
Distribuição de imigrantes no Paraná até 1945
48
Tabela 4
Regulamentação de preços de produtos pela CPMC – 1943
97
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
5ª RM – Quinta Região Militar
AIB – Ação Integralista Brasileira
AO – Auslandsorganization der nazi Partei (Organização do Partido Nazista para o
Exterior)
APP – Arquivo Público do Paraná
CAEP – Comissão de Abastecimento do Estado do Paraná
CDP – Comissão de Defesa Passiva
CEP – Comissão Estadual de Preços
CIP – Comissão de Imprensa e Propaganda
CME – Comissão de Mobilização Econômica
CMP – Comissão Municipal de Preços
CODEPAR – Companhia de Desenvolvimento Econômico do Paraná
DAF (Deutsche Aberteisfront) – Frente Alemã do Trabalho
DEIP – Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda
DEOPS/SP – Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo
DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda
DOPS – Delegacia de Ordem Política e Social
DOPS/PR – Delegacia de Ordem Política e Social do Paraná
EUA – Estados Unidos da América
FEB – Força Expedicionária Brasileira
HITLERJUNGED - Juventude Hitlerista
LBA - Liga Brasileira de Assistência
LDN – Liga de Defesa Nacional
NSDAP – Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (Partido Nacional Socialista
dos Trabalhadores Alemães)
NSDAP/PR – Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei – Kreis Paraná (Partido
Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – Círculo Paranaense)
NS-Fraunchaft (Sindicato de Mulheres Nacionalistas)
PRB2 – Rádio Clube Paranaense de Ponta Grossa
SDP – Serviço de Divulgação e Propaganda
SDPA – Serviço de Defesa Passiva Anti-Aérea
TSN – Tribunal de Segurança Nacional
URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1
15
ALEMÃES: A POLÍTICA NO BRASIL, NO PARANÁ E EM
CURITIBA
27
1.1
Colonização teuta no Brasil: breves considerações
28
1.2
Presença de imigrantes teutos no Paraná (1829-1940)
37
1.3
Os reveses da aculturação: dilemas, problemas e possibilidades
49
1.4
Nazismo no Paraná – Relação dos alemães com a política
58
1.5
A relação com o Estado: alemães e as medidas restritivas do
Projeto de Nacionalização anteriores a 1942
61
1.6
A política pendular de Vargas e o rompimento com o Eixo
73
2
CURITIBA: COTIDIANO DE GUERRA E CRIAÇÃO DE UM
FRONT INTERNO
78
2.1
A criação do "outro subversivo"
78
2.2
A Curitiba hospitaleira, os alemães e as relações sociais e
econômicas na capital paranaense
2.3
85
A mobilização para a guerra: Escassez de produtos versus
mobilização econômica
93
2.3.1
A guerra dos combustíveis
103
2.3.2
O cinema contra o “barbarismo” do Eixo
107
2.3.3
Repressão nas ondas do rádio
112
2.3.4
Arte, cultura e entretenimento em tempos de guerra
114
2.3.5
O mercado negro
115
2.4
A mobilização econômica e os órgãos de controle do estado
paranaense
116
2.4.1
Liga de Defesa Nacional
118
2.4.2
Comitê de Defesa Passiva Anti-Aérea
120
2.4.3
Cruz Vermelha – Filial do Paraná
125
2.4.4
Liga Brasileira de Assistência
126
2.4.5
Exercito de Salvação e Liga dos Jovens Patriotas
129
2.5
Notícias de Guerra: o nacionalismo exaltado pela imprensa
130
3
REPRESSÃO
E
VIOLÊNCIA
CONTRA
ALEMÃES
EM
CURITIBA
139
3.1
Mudanças legais contra imigrantes eixistas pós-1942
140
3.2
A rede de denúncias em Curitiba, a ação da DOPS e o silêncio
como forma de oposição
3.3
152
A população civil vai às ruas: protestos, quebra-quebras e
violência contra “eixistas” em Curitiba e região durante a
3.4
Segunda Guerra Mundial
164
Fim da guerra, fim da repressão, tudo novo de novo?
181
CONCLUSÃO
183
FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
190
15
INTRODUÇÃO
"A decisão política pode criar situações
inteiramente novas que abrem um campo
para todo tipo de atividade."
René Rémond
Curitiba cresceu juntamente com uma sorte variada de famílias imigrantes:
portugueses, italianos, alemães, poloneses, ucranianos, espanhóis, japoneses, entre
outros, auxiliaram na composição multifacetada da capital paranaense. Esses
imigrantes contribuíram na consolidação de novas técnicas de trabalho – tanto no meio
rural quanto no meio urbano, pela expansão do comércio e pela chegada de novos
investimentos financeiros ao Paraná.
Suas comunidades originalmente fechadas não deram espaço suficiente para
uma interação social entre brasileiros e imigrantes. A demasiada insistência na
manutenção dos costumes de origem, atrelada à falta de investimento por parte do
governo nacional, permite-nos afirmar que houve aculturação, mas que a desejada
assimilação não ocorreu da maneira “ensaiada” pelos intelectuais brasileiros do século
XIX.
Dentre esses imigrantes, alguns obtiveram sucesso individual em suas relações
sociais, conquistaram seus espaços e fizeram presença no cotidiano da cidade.
Participaram da vida social, do meio cultural e também procuraram fazer-se ouvir na
política.
Inseridos ou não na cotidianidade, os grupos de imigração teuta, alemães
principalmente, constituem, nesta pesquisa, o foco principal; sua presença, ação e
desenvolvimento na capital Curitiba significam a constituição deste trabalho. É na
disputa dos espaços sociais e na manutenção do poder local que trabalharemos esses
16
indivíduos teutos, procurando entender como se deram as relações entre os grupos
étnicos alemães e brasileiros.
Não é nosso intuito destacar o cotidiano desses grupos, mas sim realçar as
interações que estes mantiveram com os que eram considerados nacionais, bem como
informar
que
essas
relações
foram
estabelecidas
inicialmente
e
solapadas
bruscamente pelo aparecimento de um Estado de exceção (Estado Novo de Vargas) e
por um agravante política mundial (Segunda Guerra Mundial).
A presença da política no cotidiano e os desdobramentos de sua ação têm lugar
reservado na História, dada a ênfase que a política tem no processo de emancipação
do homem e de seus interesses. Consideramos as perspectivas da Nova História
Política e da História do Cotidiano adequadas a cingir os objetivos da presente
pesquisa, que tem por intuito principal analisar como a Segunda Guerra Mundial
influenciou o cotidiano de Curitiba durante seu decorrer, dando ênfase às ações
governamentais praticadas contra os cidadãos de origem alemã bem como
analisar a atuação da população civil curitibana nesse processo.
Essas questões, a nosso ver, circulam entre o político e o cotidiano, tornando-os
completamente agregados. A utilização de novas abordagens às experiências antigas
trouxe novas possibilidades de interpretação a temas que julgávamos esgotados,
permitindo-nos lançar luz sobre um leque variado de documentação, desde a legislação
repressiva, as fontes policiais, as ocorrências, os processos-crime, as ações jurídicas,
os diários pessoais, os jornais, as correspondências, os cartazes, os panfletos, etc.
Dessa forma, utilizamos as ferramentas fornecidas por essa renovação da História
Política para dar conta do dia a dia curitibano naquilo que concerne à etnia germânica e
sua perseguição durante a Segunda Guerra Mundial.
Não buscamos, aqui, repetir os inúmeros trabalhos já realizados sobre a
repressão aos imigrantes durante a guerra, mas sim estabelecer conexões entre o
17
cotidiano e o político, almejando entender de que modo suas interferências diretas ou
indiretas contribuíram para uma transformação profunda na vivência dos alemães e
brasileiros durante esse período. A emergência de um fator perturbante – como uma
guerra – exalta as relações entre a história e o cotidiano, que pode ser definido como
aquilo que é imediato, que se faz ou sucede todos os dias. Michel de Certeau identifica
o cotidiano como:
Aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos
pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão no
presente”. [...] “O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a
partir do interior”. [...] “É uma história a caminho de nós mesmos, quase
em retirada, às vezes velada”. [...] Talvez não seja inútil sublinhar a
importância do domínio desta história “irracional”, ou desta ‘não história’,
como o diz ainda A. Dupont. “O que interessa ao historiador do
cotidiano é o Invisível...” (CERTEAU, 1996, p. 31).
Certeau (1996) pensa o cotidiano como o lugar da invenção; em sua visão, as
pessoas comuns, em seu anonimato, em sua invisibilidade, possuem imensa
criatividade para elaborar práticas cotidianas que as fazem interpretar o mundo a seu
modo e forjar micro-resistências e microliberdades que se opõem às estruturas de
dominação dos poderes e das instituições. O cotidiano deve ser pensado como um
lugar prenhe de interpretações, de desvios que transformam os sentidos reais em
sentidos figurados. Neste sentido, as pessoas comuns podem, no cotidiano, subverter
a racionalidade do poder, agindo de forma tácita e engenhosa, como, por exemplo,
encontrar brechas para driblar a opressão através de táticas sutis e do que o autor trata
como formas criativas de sobrevivência.
Essas observações do cotidiano elaboradas por Certeau nos auxiliam a
entender as relações ocorridas durante o período de escassez em Curitiba e no
decorrer das relações sociais entre a população nacional contra os “elementos eixistas”
duante a Segunda Guerra Mundial em Curitiba. Pensar o que muda no cotidiano e na
18
vida privada é pensar as relações entre os múltiplos deslocamentos e as formas
públicas em que se afirma a ruptura das relações de dominação (PRIORE, 1997, p.
273).
A renovação da própria historia política contribuiu para a expansão dos estudos
do cotidiano na história; a descoberta do político no âmbito do cotidiano despertou
questionamentos relativos às transformações da sociedade, ao funcionamento da
família, ao papel da disciplina social e sobre o significado dos gestos e fatos cotidianos.
Remond (1996) enuncia que é necessário observar que o político ora se dilata,
ora se contrai, de forma a incluir toda e qualquer realidade ou absorver aquilo que
pertence à esfera do privado. Desse modo, essas variações do político obedecem a
necessidades externas, refletindo também as flutuações do espírito público, como foi
possível evidenciar nos protestos coletivos em Curitiba no decorrer da Segunda Guerra
Mundial.
Para o historiador francês, “Certas situações ampliam o campo do político: em
tempo de guerra o que não é político? O moral do país, o abastecimento dos exércitos,
a divisão da escassez, são tarefas que cabem ao poder público, pois envolvem a
salvação da nação” (REMOND, 1996, p. 443).
O renascer de estudos cotidianos está amplamente vinculado a essa
reestruturação do político frente ao deslocamento do campo do poder das instituições
públicas e do Estado para a esfera do privado, com uma politização do dia-a-dia
(MATOS, 2002, p. 22). Afinal, como entender a adesão da sociedade civil curitibana ao
processo de repressão aos imigrantes sem considerarmos a influência que a política
exercia dentro da cotidianidade da capital paranaense?
Esse novo olhar ante o indivíduo e sua ação na história é fruto do crescente
interesse pela História do Cotidiano; curiosamente, o cotidiano aparece quase como o
perfeito oposto da história, como o campo das estruturas permanentes, inconscientes,
19
alienantes, quase naturais, sobre as quais as ações humanas são apenas banais,
corriqueiras e sem efeito transformador (GUARINELLO, 2004, p. 21).
De acordo com Deusdedith Junior,
Identificar o cotidiano compondo-o de traços que nos permitisse apontálo em situações da vida humana ensejaria aqui a possibilidade do seu
emprego na interpretação histórica. O cotidiano não se configuraria
noção especifica da história – a reflexão sobre a vida humana não o é -,
mas a sua percepção no percurso histórico traria a esta um recorte
especial: uma história de onde tudo parte, desde o fato mais original até
o ordinário (2003, p. 1).
A visão que procuramos apresentar de cotidiano é derivada do senso comum,
mas reproduzem, em grande medida, as reflexões a esse respeito nas ciências
humanas. Em termos gerais, os estudos relativos ao cotidiano tendem a valorizar,
como foco de atenção, as ações individuais frente às circunstâncias da vida, sobretudo
no plano da intersubjetividade. Buscamos entender as relações estabelecidas frente às
alterações de comportamento do cidadão curitibano em relação ao discurso
nacionalista divulgado nos meios de comunicação.
Essas tensões urbanas, entre imigrantes e brasileiros, surgem como
representação de um espaço múltiplo e convergente; a cidade permeia um cenário de
múltiplas experiências pessoais e coletivas. De um lado, o imigrante e seus
descendentes que passaram de solução a perigo, e do outro o brasileiro, que justificava
através de atos violentos a necessidade de uma limpeza étnica para a manutenção de
uma raça indubitavelmente brasileira.
***
As fontes documentais que embasam esta pesquisa constituem-se, em sua
maioria, de documentos da extinta Delegacia de Ordem Política e Social do Paraná e
20
de matérias publicadas em jornais da época. A documentação disponível para pesquisa
no Arquivo Público do Paraná (APP) está subdividida em Dossiês Temáticos e Dossiês
Pessoais – conforme lista disponível no final do texto. Foram analisadas as pastas
disponíveis sobre os diversos temas relacionados à pesquisa, sendo selecionados os
documentos com relevância para a pesquisa e digitalizados para análise posterior.
Os jornais utilizados – Gazeta do Povo, Diário da Tarde e Correio do Paraná –
foram obtidos através da Biblioteca Pública do Paraná. O recorte temporal desses
documentos foi definido entre 1942 a 1945, porém utilizamos alguns documentos para
compor o contexto histórico anterior a esse período.
Os jornais consultados na Biblioteca Pública do Paraná configuravam-se como
publicações diárias e foram analisados observando-se a importância de cada notícia
veiculada para a constituição da pesquisa, levando em consideração o tipo de material
pesquisado, o tempo de utilização diária dos microfilmes na biblioteca e a quantidade
de material disponível. Elencamos – não de forma aleatória, mas com base em fatos
importantes ressaltados em bibliografias anteriores – alguns períodos-chave para a
realização das consultas, sendo assim distribuídos, conforme ilustra a Tabela 1.
TABELA 1 – Periódicos consultados na Biblioteca Pública do Paraná
Periódico
Gazeta do Povo
Diário da Tarde
Correio do Paraná
Período
Ano de Publicação
Janeiro a Julho
1942
Outubro a Dezembro
1942
Maio a Julho
1943
Fevereiro a Junho
1945
Janeiro a Outubro
1942
Janeiro a Março
1943
Fevereiro a Agosto
1944
Janeiro a Julho
1945
Julho a Dezembro
1942
Agosto
1944
21
A motivação para esta pesquisa partiu da leitura de dois textos que tratam do
período da Segunda Guerra Mundial no Paraná, sendo o primeiro um artigo do
sociólogo Octavio Zucon, de 1997, intitulado "Comunidade Cindida: dissensão e
conflito em Curitiba na II Guerra." A leitura desse artigo levou-nos à leitura de um
boletim da Casa Romário Martins – "O cotidiano de Curitiba durante a Segunda Guerra
Mundial" – escrito por Roseli Boschilia. Ambos os textos conduziram-nos a procurar
mais sobre o período em si, e descobrimos que havia pouca bibliografia referente a
esse tema.
Encontramos trabalhos que tinham muita proximidade com o tema desta
pesquisa, desenvolvidos em São Paulo e Santa Catarina, respectivamente os livros:
"Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda
Guerra Mundial", de Roney Cytrynowicz, e "Memórias de uma (outra) guerra: Cotidiano
e Medo durante Segunda Guerra Mundial em Santa Catarina", de Marlene de Fáveri.
Esses trabalhos contribuíram na construção do texto a seguir, auxiliando na formação
das ideias e em pequenas comparações com outros estados.
Concordamos com a visão de D´Alessio & Janotti (1996, p. 148) quando
conceituam o político como a dimensão da história que abriga as relações diretas e
ideais do viver coletivo, conscientes ou inconscientes. Estes autores também
estabelecem que a esfera do político, além de ser referência datável mais concreta,
organiza e situa o discurso no tempo e no espaço. Relacionar o político ao poder talvez
seja a forma mais comum de defini-lo; geralmente a política deve estar associada às
questões de conquista do poder. O que almejamos extrair desse contexto político é o
que Pierre Rosanvallon (1995) define como o lugar onde se articula o social e a sua
representação, a matriz que simbologicamente enraíza a experiência coletiva e por sua
vez a reflete.
22
Neste sentido, esperamos apresentar possibilidades de compreensão histórica
para o período no Paraná, procurando ajudar a preencher algumas lacunas da história
do Estado com informações que permitam compreender o desenvolvimento político,
econômico, social e cultural da capital paranaense Curitiba. Outrossim, ressaltamos os
jogos políticos durante o período, tanto em âmbito nacional quanto em âmbito regional,
salientando a figura do interventor estadual Manoel Ribas e sua ação política nos
círculos sociais dominantes do Estado.
***
Ao tomarmos os imigrantes e descendente alemães como sujeitos históricos que
foram inseridos em uma coletividade que não era a sua, buscamos demonstrar como o
processo imigratório e subsequentemente o projeto de aculturação passaram por
dificuldades no Estado do Paraná, evidenciando que a aproximação social desses
grupos foi fruto dos esforços individuais e ou da própria necessidade de subsistência.
Logo, faz-se necessária uma pequena reflexão sobre a questão da identidade
étnica e como esta influenciava as relações de poder entre brasileiros (estabelecidos) e
imigrantes e descendentes de alemães (outsiders).
Poutignat & Streiff-Fenart, após a releitura de Barth, apresentam a seguinte
conceituação:
A identidade étnica (a crença na vida em comum étnica) constroi-se a
partir da diferença. A atração entre aqueles que se sentem como de
uma mesma espécie é indissociável da repulsa diante daqueles que são
percebidos como estrangeiros. Esta idéia explica que não é o
isolamento que cria a consciencia de pertença, mas, ao contrário, a
comunicação das diferenças das quais os individuos se apropriam para
estabelecer fronteiras étnicas (POUTIGNAT & STREIFF-FENART,
1998, p. 40).
23
Barth (1998, p. 190) assinala que a correta definição de um grupo étnico designa
uma população que: a) perpetua-se biologicamente de modo amplo; b) compartilha
valores culturais fundamentais; c) constitui um campo de comunicação e interação; e d)
possui um membro de grupos que se identificam entre si e são identificados por outros
grupos.
Essa definição induz à aceitação que a manutenção das fronteiras não é
problemática e decorre do isolamento da diferença racial, diferença cultural, separação
social e barreiras linguísticas, hostilidade espontânea ou organizada. Nas palavras do
autor, “Essa história produziu um mundo de povos separados, cada um com sua
cultura própria e organizado numa sociedade que podemos legitimamente isolar para
descrevê-la como se fosse uma ilha” (BARTH, 1998, p. 190).
Ao definir o que é um imigrante1, Sayad (1998, p. 54-55) aponta seu caráter
provisório:
Um imigrante é essencialmente uma força de trabalho, e uma força de
trabalho provisória, temporária, em trânsito. Em virtude desse principio,
um trabalhador imigrante (sendo que trabalhador e imigrante são, neste
caso, quase um pleonasmo), mesmo se nasce para a vida (e para a
imigração) na imigração, mesmo se é chamado a trabalhar (como
imigrante) durante toda a sua vida no país, mesmo se está destinado a
morrer (na imigração), como imigrante, continua sendo um trabalhador
definido e tratado como provisório, ou seja, revogável a qualquer
momento (SAYAD, 1998, p. 54-55).
Ao pensarmos o caso da imigração para o Brasil, deslocamos a ideia pura da
busca pelo trabalho e a consequente substituição da mão-de-obra escrava pela
europeia, levando em consideração que havia ainda a necessidade de clareamento
étnico da população brasileira. Sayad exacerba a importância do trabalho para a
própria existência de um ser imigrante, exaltando que o trabalho o faz nascer e morrer;
1
O conceito elaborado por Sayad é válido para uma definição geral, porém destacamos que o autor
trabalha com a questão dos argelinos que emigraram pra a França.
24
acrescenta também que seria preferível que fossem “máquinas”, para que não
precisassem se preocupar com os problemas sociais que eles poderiam causar.
A situação do imigrante se presta a uma dupla interpretação; por um lado, seu
caráter eminentemente provisório; por outro lado, a possibilidade de se instalarem de
maneira mais duradoura, mesmo na condição de imigrantes.
Por se encontrar dividida entre essas duas representações
contraditórias que procura contradizer, tudo acontece como se a
imigração necessitasse, para poder se perpetuar e se reproduzir,
ignorar a si mesma (ou fazer de conta que se ignora) e ser ignorada
enquanto provisória e, ao mesmo tempo, não se confessar enquanto
transplante definitivo (SAYAD, 1998, p. 46-47).
Esse caráter provisório dá-se enquanto condição da expansão econômica, já
que é grande consumidora de mão-de-obra; logo, a sociedade de imigração os tem
como trabalhadores estrangeiros, negando-lhes o direito de uma permanência
reconhecida. Concordamos com Sayad que em um primeiro momento a presença dos
imigrantes foi efetivada pela assertiva de que era “um mal necessário”.
Nessas condições, a existência de fronteiras étnicas e divergências entre
identidades culturais diferenciadas são comuns. Para Barth (1998), as fronteiras
étnicas canalizam a vida social; a identificação de outra pessoa como pertencente a
outro grupo étnico implica compartilhamento de critérios de avaliação e julgamento.
Ainda citando Fredrik Barth, as relações interétnicas estáveis pressupõem uma
estruturação da interação com esta: um conjunto de prescrições dirigindo as situações
de contato e que permitam a articulação em determinados setores ou campos de
atividade, e um conjunto de eliminações sobre as situações sociais que impeçam a
interação.
Cuche (2002) informa que essas relações culturais não são simétricas, mas a
reciprocidade que está presente nesses contatos permite a interpenetração ou o
25
entrecruzamento dessas culturas. Para o autor, a construção da identidade constitui-se
no interior de contextos sociais que serão determinantes para o posicionamento dos
sujeitos e para a orientação de suas escolhas e representações.
Barth (1998) postula que a identidade nada mais é que um modo de
categorização utilizado pelos grupos para organizar suas trocas, levando
em
consideração que uma cultura particular não constrói por si só uma identidade
diferenciada, porque essa identidade resulta unicamente da interação entre os grupos e
os procedimentos de diferenciação que estes utilizam em suas relações.
Pierre Ansart registra que:
[...] toda sociedade cria um conjunto coordenado de representações, um
imaginário através do qual ela se reproduz e que designa em particular
o grupo a ele próprio, distribui as identidades e os papéis, expressa as
necessidades coletivas e os fins a alcançar. Tanto as sociedades
modernas, como as sociedades sem escritas, produzem esses
imaginários sociais, esses sistemas de representação, através dos
quais eles se autodesignam, fixam simbolicamente suas normas e seus
valores (ANSART, 1978, p. 21-22).
Denys Cuche contribui para entendermos o comportamento da população
curitibana em relação aos alemães e seus descendentes no período de guerra ao
propalar que:
O sentimento de uma injustiça coletivamente sofrida provoca nos
membros do grupo vítima uma discriminação um forte sentimento de
vinculação à coletividade. Quanto maior for a necessidade da
solidariedade de todos na luta pelo reconhecimento, maior será a
identificação com a coletividade (CUCHE, 2002, p. 191).
Essas relações sociais que ocorrerão em Curitiba no decorrer do Plano de
Nacionalização do Estado Novo e o desenrolar da Segunda Guerra Mundial estão
envoltos em problemas relacionados às questões de identidade e do imaginário social.
***
26
O texto foi dividido em três capítulos, sendo distribuídos de modo que
pudéssemos pensar a pesquisa avançando do macro para o micro. Nesse âmbito,
discutimos, na primeira parte, a relação dos imigrantes teutos com o Estado Nacional,
enfatizando seu processo de imigração para o Brasil, sua instalação no Paraná e sua
participação na economia e política do Estado, bem como ressaltamos as atuações
políticas de Vargas e do Estado Novo no período de 1937 a 1942.
Na segunda parte, procuramos demonstrar como foi constituído em Curitiba um
"front interno" após o rompimento das relações diplomáticas com os países do Eixo,
buscando estabelecer relações entre o discurso nacionalista do Estado Novo e a
adesão da sociedade civil em instituições beneficentes e de auxílio às questões da
guerra. Nossa intenção é perceber como fatores menores foram constituindo um
cenário histórico dinâmico, no qual a população – longe dos campos de batalha –
vivenciou o medo e sentiu a proximidade do caos, já que era vítima da mobilização
econômica, da escassez de alimentos, dos exercícios de blecaute, da constituição de
um inimigo comum – no caso os imigrantes e descendentes de países do Eixo –
das
denúncias entre vizinhos, da ação da polícia política e das medidas restritivas impostas
a brasileiros e a imigrantes. Salientamos também o papel crucial da imprensa escrita
na perpetuação dessas medidas restritivas e na criação de uma consciência nacional
contra os imigrantes considerados eixistas.
Na parte final, procuraremos mostrar como se desdobrou a repressão e a ação
da polícia política em relação aos imigrantes alemães; objetivamos mostrar também as
ações populares contra os "súditos do Eixo". Temos ainda como finalidade apresentar
as mudanças legais que inferiorizavam essas comunidades imigrantes e prejudicavam
ainda mais o relacionamento social, buscando, através desses fatos, levantar
possibilidades de compreensão para a repressão excessiva que ocorreu em Curitiba
contra os alemães a partir de 1942 até o término do conflito mundial.
27
1. ALEMÃES: A POLÍTICA NO BRASIL, NO PARANÁ E EM CURITIBA
Quem passa por Curitiba hoje e vê uma cidade dinâmica com seus quase dois
milhões de habitantes provavelmente não poderia imaginar que para constituir esse
cenário urbano tão arrojado a cidade tenha suplantado, em épocas anteriores, muitas
adversidades.
Aquele que observa a quantidade de bairros e de ruas que remetem à influência
de imigrantes estrangeiros, juntamente com seus habitantes de diversas ascendências,
não poderia conceber que muitos foram perseguidos, julgados e condenados por
serem considerados entraves para o desenvolvimento da cidade e da nação brasileira.
Enfrentar o desconhecido, constituir vínculo com a terra e prosperar parecem ser
objetivos simples, mas o processo de adaptação não foi nada simples e esses
imigrantes – sendo o foco desta pesquisa os alemães – tiveram que submeter-se a
situações contraditórias às promessas obtidas antes de sua vinda.
A diversidade de cultivo,
de interiorizar o idioma, a falta de investimento do
governo aliadas aos laços que prendiam os imigrantes à antiga pátria resultaram em
uma aculturação lenta e duvidosa, que seria ainda mais intrincada a partir do Projeto
de Nacionalização proposto pela política do Estado Novo de Vargas e a “caça às
suásticas” fomentada durante o período de envolvimento brasileiro no conflito mundial.
Curitiba está repleta de contribuições desses imigrantes, seja na arquitetura dos
prédios, ainda existentes nos bairros São Francisco, Hauer, Pilarzinho, Lamenha
Pequena e Vista Alegre –
vários prédios foram construídos por alemães –, seja nos
clubes recreativos como Concórdia, Rio Branco, Duque de Caxias e Clube Thalia,
seja ainda nos bares e restaurantes típicos, em nomes de ruas e praças, mas
28
principalmente presente no cotidiano desses descendentes que continuam a contribuir
com a história dessa cidade a que seus pais e avós chamaram de lar.
Procuraremos dar ênfase à relação entre os imigrantes teutos e o Estado. A fim
de explanar melhor o quadro acima descrito, apresentaremos alguns pontos
importantes acerca da chegada do imigrante alemão no Paraná, seu estabelecimento
na capital Curitiba, as questões relativas à assimilação e como as decisões políticas e
diplomáticas do governo Vargas no período de 1937 a 1942 foram significativas para a
eclosão de situações cotidianas adversas na capital paranaense pós-adesão à
Segunda Guerra Mundial contra as potências do Eixo.
1.1
Colonização teuta no Brasil: breves considerações
O processo de imigração destinado à colonização de espaços territoriais ociosos
mediante a doação de sesmarias remonta ao período do Reino Unido, antes mesmo do
processo de Independência, tendo como um dos grandes entusiastas o Visconde de
Cairu. Para este, a imigração representava não apenas um importante fator de
desenvolvimento para o Brasil, como também um momento de ruptura do país com a
política colonial mercantilista. Sua vinda da corte para o Brasil em 1808 abriu espaço
para a atuação de estrangeiros no mercado brasileiro, já que estes possuíam
conhecimentos que auxiliariam no desenvolvimento da então Colônia.
O processo de imigração proposto pelos intelectuais brasileiros – alguns
vinculados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) – em meados do
século XIX teoricamente apresentava fatores positivos para ambos os lados, pois
diminuiria a massa excedente de trabalhadores na Europa – o número de
desempregados – e consequentemente reduziria o número de crimes e tumultos
29
formados por esse exército de mão-de-obra excedente. Já o Brasil teria vantagem em
absorver mão-de-obra com maior formação profissional, que viria especialmente para
ajudar no desenvolvimento e crescimento do país.
No Brasil, a imigração passou a exercer um papel central nas políticas públicas
nacionais, principalmente a partir de 1850, quando se tornou evidente que a escravidão
não perduraria por muito tempo. De acordo com Lesser (2001, p. 25), essas elites
intelectuais brasileiras – em sua maioria –, mesmo diante da situação que se
desdobrava não tentaram substituir a mão-de-obra escrava fazendo uso de imigrantes,
mas concebiam nessa empreitada uma grande possibilidade de transformação social.
O caminho percorrido pela política imigratória brasileira nos chama a atenção
pelo seu desenvolvimento. O que inicialmente era tratado como uma política de
preenchimento dos vazios demográficos2 do país a partir do grande excedente de mãode-obra existente na Europa que a industrialização não tinha como absorver juntou-se
com uma tentativa de clareamento da população brasileira por meio da miscigenação e
por fim foi tratado como resolução para os problemas de mão-de-obra no campo e na
cidade.
Ao trabalhar com as políticas de imigração europeia para o Brasil, Cacilda
Estevão dos Reis (2004, p. 164-167) destaca as recomendações do Visconde de
Abrantes3 para o sucesso da imigração europeia no Brasil. Importante parlamentar
brasileiro, fazia questão de ressaltar as vantagens da imigração teuta em relação aos
outros povos, argumentando que todos os Estados da Confederação Germânica
estavam aptos a fornecer agricultores e artífices de primeira qualidade e que mereciam
2
A ideia de "vazio demográfico" é largamente utilizada ao tratar dos espaços a serem ocupados pela
colonização pioneira; essa terminologia é divulgada por vários tipos de profissionais, incluindo
historiadores, geógrafos, sociólogos, representantes da burocracia estatal e por dirigentes de órgãos
colonizadores, amplamente difundida pelos livros didáticos – sendo esses poderosos instrumentos de
normatização de ideias (MOTA, 2005, p. 75). Embora seja uma abordagem comum em muitos trabalhos,
desconsidera-se a presença da população indígena em todo o território nacional.
3
ABRANTES, Visconde de. Memórias sobre os meios de promover a colonização. Berlin: Typographia
de Unger Irmãos, 1846.
30
maior notoriedade os imigrantes oriundos de portos europeus em que o Brasil possuía
maior fluxo comercial, como Hamburgo, Bremem e Antuérpia.
Seyferth (1996, p. 44) também salienta o discurso de Abrantes proferido em
1846 em Berlim, quando este recomenda que o Brasil preferencialmente atraísse
imigrantes de nacionalidade germânica, pois estes, segundo ele, tinham boa índole e
capacidade nata como agricultores e artífices. Seu discurso era apoiado por outros
intelectuais, como Augusto de Carvalho4, Tavares Bastos5 e J. C. Menezes e Souza6,
que em seus discursos abordavam a imigração europeia como instrumento de
civilização, desconsiderando completamente a grande população negra, julgando-os
incapazes de agir por iniciativa própria, creditando aos negros a certeza de
fracassarem como pequenos proprietários.
Desta forma a política de colonização se voltou para a Europa em busca
de colonos. [...] Nos autores citados há uma clara preferência pelos
alemães, explicitamente manifestada ou indiretamente sugerida a partir
das investidas contra a posição da Igreja Católica e seu poder temporal
(SEYFERTH, 1996, p. 46).
Ao reproduzir os discursos proferidos por Abrantes, Reis (2004) permite-nos
entender a defesa realizada em prol da imigração europeia bem como as decisões que
deveriam ser tomadas pelo Governo Imperial para que esse processo fosse positivo.
Abrantes frisava a capacidade que os regulamentos policiais dos Estados Germânicos
tinham para auxiliar na verificação do caráter de possível casa imigrante, já que cada
cidadão deveria possuir uma espécie de documento rubricado e validado pelos
comissários de polícia para poder embarcar. Nesse livreto constavam a ocupação, o
4
CARVALHO, Augusto. Estudo sobre a colonização e emigração para o Brasil. Porto: Typographia do
Comércio, 1874.
5
TAVARES BASTOS, A. C. Os males do presente e as esperanças do futuro – Estudos Brasileiros. São
Paulo: Cia Editora Nacional, 1976.
6
MENEZES E SOUZA, J. C. Theses sobre a colonização do Brasil. Rio de Janeiro: Typographia
Nacional, 1875.
31
último emprego, dados pessoais, ocorrências policiais, etc. A preocupação do Visconde
se pautava na ideia de não-proliferação de “gente perdida de costumes”, aumentando
ainda mais o percentual brasileiro.
Lacerda (1996) alega que o branqueamento da raça era visualizado como um
processo seletivo de miscigenação que, dentro de certo tempo – aproximadamente três
gerações – produziria uma população de fenótipo branco. “Sendo assim, os imigrantes
tinham um papel adicional a exercer: contribuir para o branqueamento e, ao mesmo
tempo, submergir na cultura brasileira através de um processo de assimilação”
(grifo nosso) (1911, p. 29 apud SEYFERTH, 1996, p. 52).
A ideia de Lacerda7 era corroborada com outros intelectuais, porém faltava uma
estrutura adequada para que a teoria virasse prática. A
criação de uma estrutura de
acolhida desses imigrantes é ponto importante defendido pelo Visconde em 1846,
para que
o Brasil pudesse aproveitar de forma adequada a presença dos europeus.
Para Abrantes,
[...] he realmente difficil o ganhar a vida pelo seo trabalho. Falta-lhes
uma Província, onde a cultura seja exclusivamente feita por
trabalhadores livres, [...] e onde possam encontrar administradores,
feitores, e mesmo colonos veteranos, que lhes entenderão a língua. [sic]
(ABRANTES, 1846, p. 33 apud REIS, 2004, p. 169).
As práticas apontadas pelo Visconde postulam uma absorção adequada dos
imigrantes na sociedade brasileira; todavia, como destacaremos nas discussões
posteriores, o acolhimento dos imigrantes não se processou de modo afável e muitos
foram os entraves para a sua manutenção em terras brasileiras.
É importante realçar que, dentre os imigrantes, os alemães foram protagonistas
do primeiro fluxo imigratório sistemático que se dirigiu ao Brasil; os primeiros chegaram
7
Discutidas em: LACERDA, J. B. Sur les métis au Brésil. Paris: Impremerie Devouge, 1911.
32
em 1818 e se instalaram no sul da Bahia; em 1819, chegaram também ao Rio de
Janeiro, porém não constituíram colônias exitosas, e “o assentamento de imigrantes
[...] no Rio Grande do Sul, em 1824, é dado como fato inaugural da colonização alemã
no Brasil – exatamente por ser considerado o primeiro empreendimento bem sucedido
desta natureza” (SEYFERTH, 2000, p. 276).
Os estados da região sul detinham os maiores índices de imigração registrados
na época; os teutos constituíam as maiores comunidades, nas quais contribuíram para
a diversificação do comércio, da indústria e das profissões. Seyferth (2000, p. 277)
sugere que as quatro colônias estabelecidas em 1824 e 1829 nas três províncias do
Sul são representativas de um sistema de imigração e colonização dirigido e controlado
pelo Estado. Obtiveram êxito, embora o investimento destinado a esse processo fosse
mínimo e mal organizado pelo governo.
Ao direcionar os imigrantes principalmente para assentamentos em terras no sul
do país, o governo imperial acabou promovendo – voluntariamente ou não – o
estabelecimento de colônias inicialmente homogêneas, com maiores incidências de
elementos germânicos e italianos, existindo uma presença mínima de elementos
nacionais.
Gertz (1987, p. 21) propõe que o estabelecimento de imigrantes em regiões não
povoadas tinha um motivo comercial importante, porque essas regiões estratégicas
possuíam rotas de comércio que ligavam o país aos grandes pecuaristas, os quais
escoavam suas mercadorias para o norte via terrestre; logo, serviram para atender a
um propósito maior, tornar seguros os caminhos comerciais e as vias de comunicação
entre
os
pecuaristas
e
seus
respectivos
desenvolvidos, como Rio de Janeiro e São Paulo.
consumidores
nos
estados
mais
33
Os imigrantes teutos foram alocados em posição estratégica, visto que
afugentavam os índios8 para as matas fechadas e auxiliavam na proteção das tropas
de passagem pela região, diminuindo gradativamente as perdas comerciais
ocasionadas por ataques indígenas.
Como não houve um registro sistemático das autoridades brasileiras, havendo
apenas estimativas do número dos imigrantes teutos que vieram para o Brasil, estes
variam de 235 a 280 mil no período de 1824 a 1940. Até meados do século XIX, a
maioria dos imigrantes era procedente do sudoeste da Alemanha.
Comparando dados fornecidos por autores que trabalharam com questões
relativas à imigração, Gertz (1987) e Lesser (2001), chegamos aproximadamente aos
números acima descritos, enfatizando que em alguns decênios os dados fornecidos
são exatamente idênticos, apesar de as fontes citadas para a construção das tabelas
diferirem entre si9.
8
Na ocupação dos territórios indígenas paranaenses destacamos a presença de algumas etnias com
maior representatividade no sul do país como os Xoklengs, Guaranis, Xetás e Kaiagangs. Sobre as
populações indígenas históricas, ver MOTA, 2005, p. 14.
9
Gertz, para construir uma estimativa dos grupos de imigrantes no Brasil, utiliza-se da lista elaborada
por Neiva & Carneiro na obra "Imigração e colonização no Brasil" de 1950. Já Lesser utiliza-se de uma
variada fonte de dados que compreendem desde os quadros estatísticos econômicos e financeiros do
Tesouro Nacional à Revista de Imigração e Colonização.
34
TABELA 2 – Entrada de imigrantes teutos no Brasil (1820-1939)
Quantidade de
Quantidade de teutos -
teutos - Lesser
Gertz
1820 – 1829
-
2.326
1830 – 1839
-
207
1840 – 1849
-
4.450
1850 – 1859
-
15.815
1860 – 1869
-
16.514
1870 – 1879
-
14.627
1880 – 1889
18.901
19.201
1890 – 1899
17.084
17.034
1900 – 1909
13.848
13.848
1910 – 1919
25.902
25.902
1920 – 1929
75.801
75.839
1930 – 1939
27.497
27.629
Totais
179.033
233.392
Período
Fonte: LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional. Imigrantes, minorias e a luta
pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Editora da UNESP, 2001. Gertz, Rene. O Fascismo no
Sul do Brasil: Germanismo, nazismo e integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
Cacilda dos Reis (2004, p. 175) expõe que o projeto brasileiro de imigração
europeia “visava ao progresso cultural, social, político e economico do país. Entretanto,
fazia-se necessário “resolver“ o “problema“ da escravidão negra e subordinar a
população nacional ao trabalho disciplinado.“ Entretanto, convém salientar que entre
tudo o que foi teorizado por esses intelectuais do IHGB muito pouco foi realizado.
A partir de 1880, um grande fluxo de imigrantes entra no país, as colônias
começam a aumentar gradaualmente não só em tamanho, mas também em influência.
Foi no início da década de 1920 que os intelectuais da República perceberam o grande
problema que as colônias ditas homogêneas do sul do país representavam para a
construção da nacionalidade brasileira. Esse é o momento que salientamos como de
35
grande paradoxo do processo de imigração europeia para o Brasil, em que a raça
branca superiora idealizada pelos intelectuais do Império torna-se o grande problema
para a formação do indivìduo brasileiro idealizado pelos intelectuais da República.
Marion Brepohl10 (1993, p. 68) alerta que, para Romero, a concentração de
alemães nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul apresenta um
duplo perigo, referindo-se o primeiro ao crescimento desequilibrado entre esta e as
outras regiões, dadas as características intrínsecas desse povo; e o segundo ao risco
de se perder a unidade linguística, uma vez que o idioma alemão era costumeiramente
utilizado entre aquelas populações.
Assim, o autor realiza uma série de protestos em seus discursos, denunciando
a perda do sul para os alemães e argumentando o que, para ele, seria uma nova ideia
de formação da raça brasileira, sendo esta constituída da mistura do português (lusobrasileiro) com o índio e o negro. Para Romero, essa mistura era conveniente para a
formação de uma base racial brasileira, como postula Seyferth:
O papel do imigrante, portanto, está bem definido: concorrer para a
formação de um tipo brasileiro, elemento da unidade nacional (que
paradoxalmente, vê comprometida, pela “desarmonia das indoles“
decorrentes da mestiçagem). Trata-se de uma construção racial –
clarear a pele do brasileiro do futuro, pelo menos. (SEYFERTH, 1996, p.
51).
Jair de Souza Ramos (1996, p. 79-80) postula que o aumento de sangue branco,
predominando sobre o negro em quantidade e qualidade, passou a ter um caráter
10
Em sua tese de doutorado defendida em 1993, especialmente no capítulo segundo – “O imigrante
alemão pela intelectualidade brasileira” – Brepohl faz uma análise das imagens construídas acerca do
imigrante alemão na literatura e nas obras de cientistas sociais brasileiros, procurando – como enfatiza–
“desvendar aspectos da identidade coletiva tanto dos segmentos designados como luso-brasileiros,
quanto daqueles designados como teuto-brasileiros, identidades construídas no momento em que
diversas disputas por significações deram conta de confirmar alteridades e convicções de ordem cultural
e política” (1993, p. 59). Chama-nos a atenção sua preocupação em entender como o alemão e seus
descendentes, antes portadores de um ethos destinado ao progresso, passaram a ser revalorados pela
intelectualidade literária e política brasileira.
36
diferenciado pós-1880, pois somou-se a esse ideal de caldeamento a preocupação de
que os imigrantes brancos se dispusessem à miscigenação e à assimilação cultural. O
que o país precisava era da concessão da genética superior, porque já havia aqui uma
definição de cultura e língua brasileira.
A ideia equivocada de reunir em um único indivíduo as melhores qualidades de
cada cultura é rebatida por Cuche:
Como toda cultura é uma unidade organizada e estruturada, na qual
todos os elementos são interdependentes, é ilusório pretender
selecionar os aspectos supostamente “positivos” de uma cultura para
combina-los com os aspectos “positivos” de uma outra com o objetivo
de chegar assim a um sistema cultural “melhor” (CUCHE, 2002, 120).
Intelectuais como Sílvio Romero criticaram as posturas de manutenção étnicocultural dos alemães no sul do país, apontando para as formações de quistos étnicos
embasados na ideia que os alemães eram bons para colonizar, mas que naquele
momento passaram a constituir uma ameaça para a nacionalidade.
Silva Rocha (1918, p. 313 apud SEYFERTH, 1996, p. 54)11 atribui ao governo
imperial o enquistamento das colônias do sul, pois em sua visão os indivíduos
estrangeiros civilizados não deveriam ficar isolados, mas conviver no meio de
indivíduos “sem civilização” para que pudessem aprender com os europeus ao mesmo
tempo em que estes pudessem absorver a cultura nacional.
A partir desse momento, o modelo de hierarquização proposto em meados de
1850, pautado na capacidade de branqueamento e produção, é substituído pela
hierarquização através da maior capacidade de assimilar-se à ”cultura brasileira“.
Ramos (1996, p. 81) aventa que os mecanismos de seleção dos imigrantes tiveram um
papel de reforço e reprodução da hierarquia entre populações, característico da
11
Obra citada por SEYFERTH: SILVA ROCHA, J. História da Colonização no Brasil. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1918.
37
sociedade brasileira. Esses mecanismos de seleção, que propiciavam o aumento da
população branca, objetivavam reduzir os riscos de um questionamento da ordem
racial vigente por meio da violência dos não brancos. Não obstante, para que esse
resultado pudesse ser alcançado era necessário que os imigrantes brancos não
representassem, eles mesmos, uma ameaça à “ordem constituída”.
Apresentados esses dados iniciais, partiremos a uma explanação do processo
imigratório ao Estado do Paraná.
1.2
Presença de imigrantes teutos no Paraná (1829-1940)
A colônia de Rio Negro – hoje emancipada município e localizada na divisa entre
Paraná e Santa Catarina – foi a primeira tentativa concreta de estabelecer imigrantes
europeus – não portugueses – em território paranaense. O responsável por essa feita
foi o latifundiário e futuro Barão de Antonina João da Silva Machado, que conseguiu
autorização da Corte para que se instalassem naquela região duzentos e trinta e oito
alemães. Posteriormente, no ano de 1833, uma nova leva de cem imigrantes alemães
juntou-se aos primeiros. A colonização nesse núcleo contava com 350 imigrantes,
homens que vieram do Volga – região russa que concentrava indivíduos de origem
teuta.
Saint´Hilaire
vislumbrou no Paraná uma região propícia para a imigração
europeia; durante suas viagens pela comarca de Curitiba, observou que não existiam
no país outras terras nas quais uma colônia de agricultores europeus
poderia se
estabelecer e obter melhores resultados, pois ali encontrariam clima temperado, ar
puro, frutas de origem europeia e terras a que poderiam "entregar-se, sem grandes
esforços, a todos os gêneros de cultura a que estão acostumados" (1964, p. 32).
38
Após muitas dificuldades, a emancipação da Província do Paraná ocorreu em 29
de agosto de 1853, e Steca & Flores (2002, p. 8) pontuam que essas dificuldades
enfrentadas pelos curitibanos ocorreram em razão dos governantes e do sistema
judicial ficarem muito distantes dos povoados. A população fez
reivindicações
inúmeras
junto ao Império para que fosse realizada a elevação de Província.
Conforme Oswaldo Pillotto (1986, p. 30-31), o projeto de emancipação do Paraná foi
definido em 20 de agosto de 1853 nos seguintes termos:
Art. 1° - A comarca de Curitiba, na Província de S. Paulo, fica elevada à
categoria de província com e denominação de Província do Paraná. A
sua extensão e limites serão os mesmos da referida comarca.
Art. 2° - A nova província terá por capital a cidad e de Curitiba, enquanto
a assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art. 3° - A Província do Paraná dará um senador e u m deputado à
Assembléia Geral; sua Assembléia Provincial constará de 20 membros.
Art 4° - O Governo fica autorizado a criar na mesma província as
estações fiscais indispensáveis para a arrecadação e administração das
rendas gerais, submetendo depois o que houver determinado ao
conhecimento da Assembléia Geral para a definitiva aprovação.
Art 5° - Ficam revogadas as disposições em contrári o.12
Esse projeto desagradava os governantes paulistas, já que a região era
considerada rica em recursos florestais e possuía solos férteis. A emancipação só
ocorreu com a ajuda de pressões exercidas por outras províncias, como Minas Gerais
e Bahia, que tinham interesse na diminuição do território da Província de São Paulo e
consequentemente de seu poder político no quadro nacional.
Diante das dificuldades e deficiências que a agricultura paranaense se
encontrava em 1850, ocasionada principalmente pela falta de mão-de-obra, os
dirigentes das províncias passaram a estudar meios de resolvê-la. Na visão de Balhana
Pinheiro, e Westphalen:
12
O projeto apresentado em 20 de agosto de 1953 foi efetivado como Lei n° 704 sancionada pelo
Governo Imperial em 29 de agosto de 1853, tendo como seu primeiro presidente o Conselheiro Zacarias
de Góis e Vasconcelos.
39
O agravamento das condições de abastecimento e alta dos preços
verificada nos gêneros de primeira necessidade, levariam à adoção do
Decreto N° 1.318, de 30 de janeiro de 1854 que favo recia a imigração
pelos estímulos concedidos à posse da terra, possibilitando o seu
acesso a qualquer individuo, independente de nacionalidade, e
concedendo auxílios em favor da imigração, o Decreto facilitava o
processo imigratório delegando as províncias fazê-lo de acordo com
suas particularidades e com ajuda do governo imperial (1967, p. 358).
Nesse âmbito, a política de imigração para os teutos procurou estabelecer metas
que buscassem favorecer o desenvolvimento da Província que acabara de ser
instalada. Entretanto, a legalização dessa abertura para a imigração só ocorreu no
Paraná através da Lei n° 29, de 21 de março de 1855 , decorridos vinte e seis anos
após a instalação da primeira colônia. Em consonância com a lei supracitada, o Estado
desempenharia papel importante no financiamento desse processo:
[...] Art. 2° - Para que tenha efeito a disposição do artigo antecedente
poderá o governo despender anualmente até a quantia de 10:000$000,
além dos reembolsos dos avanços que fizer para passagem e alimento
dos imigrantes, segundo contratos que realizar. [...] (MARTINS, 1999,
p.78).
Com a facilitação da adesão à terra, a Província conseguiu atrair imigrantes para
o trabalho no campo. Stela & Flores (2002) condiciona o imigrante europeu como
aquele que recuperou a dignidade social do trabalho braçal, tanto no campo como na
região urbana, devido ao fato de que os nacionais não estavam dispostos a tais
atividades.
Não podemos deixar de destacar – mesmo que brevemente e sem grandes
aprofundamentos – a importância da erva-mate para o Estado do Paraná, bem como o
emprego de mão-de-obra alemã em seu cultivo e beneficiamento.
Dennison de
Oliveira (2001, p. 26) afirma que o efeito decisivo da introdução das atividades
econômicas relacionadas ao mate foi a generalização das relações capitalistas de
40
produção, que como consequência auxiliou na difusão do trabalho assalariado, na
adoção de novas técnicas produtivas de caráter industrial e no impulso que as
atividades de suporte propiciaram à urbanização das cidades.
Wachowicz (1995, p. 127) atribui a Francisco de Alzagaray a expansão da ervamate no Paraná, quando, em 1820,
este
percebeu a deficiência e a falta de
conhecimento dos agricultores do estado acerca da planta, ensinando-lhes a
fabricação, o beneficiamento e a maneira de acondicionamento para o transporte da
erva, difundindo o consumo do mate com água quente, já que
só se conhecia o
consumo do mate com água fria, herança dos índios.
A expansão da erva-mate aconteceu com o fechamento do mercado de
exportação do mate paraguaio em 1813, quando Francia, em busca de isolamento do
Paraguai frente à comunidade sul-americana, tratou de proibir a exportação para os
grandes mercados consumidores de Montevidéu e Buenos Aires. Wachowicz propugna
que “os comerciantes argentinos, desesperados para conseguir esta matéria-prima,
apelaram para outras regiões capazes de abastecê-los. Vieram então representantes
desse comércio platino até Paranaguá” (1995, p. 127-128).
A partir de Alzagaray, a erva-mate transformou-se no esteio da economia
paranaense, sobretudo no período provincial. Alcançou seu auge na década de 1870,
quando a mate paraguaia tornou-se ainda mais escassa, dada a situação que o país se
encontrava após o término da Guerra do Paraguai. Alcançou mercados de grande
consumo, como Buenos Aires, Montevidéu, Valparaíso, etc., obtendo status de
principal produto paranaense, com mais de noventa engenhos de beneficiamento
espalhados pelo estado.
No
princípio
da
exportação,
ainda
eram
utilizados
escravos
para
o
beneficiamento, porém ao principiar a modernização do processo industrial de
beneficiamento do mate, percebeu-se a necessidade de mão-de-obra alfabetizada e
41
com conhecimentos técnicos, e foi nesse momento que os alemães adentraram nas
fábricas de beneficiamento da erva. Muitos deles possuíam formação técnica e
puderam contribuir não só pra o crescimento da produção, mas também
na
modernização das máquinas e em sua manutenção.
A indústria do mate muito contribuiu para o crescimento econômico do Estado.
Sua decadência ocorreu em meados de 1930, primeiramente pela baixa qualidade do
mate produzido naquele momento, já que os mercados consumidores creditavam ao
mate paranaense uma série de fraudes, entre elas a
de misturar folhas diversas à
torrefação para aumentar a quantidade produzida; e em segundo lugar pela franca
expansão do mercado cafeeiro (STECA & FLORES, 2002, 184).
Altiva Balhana registra que na década de 1870 o programa de colonização foi
dinamizado, e acrescenta: “A intensiva atividade colonizadora atingiu sobretudo os
terrenos dos arredores de Curitiba e, de modo geral, o planalto curitibano, com o
estabelecimento de numerosos núcleos coloniais” (BALHANA, 1996, p. 46). Os
resultados positivos obtidos na colonização das cercanias de Curitiba estimularam
novas iniciativas colonizadoras, estendendo os empreendimentos para os Campos
Gerais e o litoral. Balhana (1996, p. 48) expõe que o incentivo oficial perdurou até a
década de 1880, consistindo no subsídio para o custeio da passagem a partir do país
de origem, transporte para o local da colônia, lote e auxílio para manutenção nos
primeiros meses.
42
FIGURA 1 – Curitiba em 1855
Fonte: Acervo Casa da Memória
43
Em nenhum momento o projeto de imigração levou em consideração a
dificuldade que o estrangeiro possuía para se adaptar ao país, ao clima, às pessoas e
principalmente às normas e leis empregadas. Muitos imigrantes tiveram dificuldades de
adaptação não apenas porque não eram agricultores e nada entendiam do cultivo de
terras, mas também aqueles que possuíam relativo conhecimento na lida do campo
foram obrigados a alterar completamente o sistema de preparo do solo, uma vez que
era diferente daquele empregado na Europa, bem como havia disparidade dos
produtos cultivados.
Essa política de imigração, desenvolvida por vários governos do Paraná, sofreu
reveses e passou por problemas variados que iam desde a falta de planejamento até
as diferenças culturais entre populações nacionais e estrangeiras, dificultando as
relações entre os migrantes e os nacionais. Dessa forma, era necessária a existência
de agentes que contribuíssem para a adaptação do imigrante, bem como uma
infraestrutura mínima, estradas e mercados para absorver sua produção. Outro entrave
eram os próprios terrenos escolhidos para os imigrantes, haja vista que nem sempre
apresentavam condições de uso para a lavoura.
Destacamos dois processos – em períodos distintos – que servem de exemplo
de tentativa mal sucedida de imigração no Paraná:
a) O primeiro exemplo trata da Colônia de Assungui, em 1859, que mesmo
localizada a cento e nove quilômetros ao norte de Curitiba, afastada das
estradas e dos caminhos de tropas, possuía terrenos férteis e no primeiro
plantio obteve como resultado uma excelente quantidade de grãos. No
entanto, como não havia estrutura adequada e inexistiam rotas de
escoamento da produção, ocorreu o deterioramento dos cereais estocados.
Por fim, a maioria dos imigrantes retornou a seus respectivos países ou
44
deslocou-se para outras províncias do Império em busca de empregos
assalariados.
b) O segundo fluxo imigratório que nos servirá de exemplo negativo ocorreu por
volta de 1877, quando cerca de três mil e oitocentos imigrantes russoalemães, oriundos da região do Volga, se instalaram na Lapa, Palmeira e
Ponta Grossa. Wachowicz (1995, 147-148) propala que durante o período
que antecedeu a chegada desses imigrantes foi enviada ao Paraná uma
comissão para avaliar as condições de plantio e cultivo e a localização dos
terrenos, e após minuciosa vistoria os teutos ficaram satisfeitos e deram
sequência ao processo. Contudo, os políticos e proprietários de terras nas
regiões supracitadas passaram ao Estado apenas as piores terras que
possuíam,
imprestáveis para a agricultura. Após as primeiras tentativas,
mais da metade dos imigrantes abandonou as terras e o país. Dos vinte mil
previstos
para
emigrarem
ao
Paraná,
cerca
de
mil
e
oitocentos
permaneceram no Estado dedicando-se ao transporte, pois dominavam a
tecnologia do carroção eslavo13, transportavam a erva-mate do interior até a
capital ou para os portos de Antonina e Paranaguá e ainda traziam as
mercadorias que chegavam aos portos para Curitiba e outras cidades, até
Guarapuava. Salvo a adaptação ao sistema de transporte, a imigração russoalemã configurou-se como mais um fracasso na política imigratória
paranaense.
Ambas as tentativas buscavam sedimentar a posse e a manutenção das terras
paranaenses,
13
porém
a
não-obtenção
de
resultados
positivos
ocasionou
Espécie de carroça de madeira puxada por três parelhas de cavalos, muito utilizada pelas populações
eslavas. É um veículo misto destinado principalmente no transporte de produtos agrícolas
(WACHOWICZ, 1995, p. 148).
45
questionamentos pertinentes sobre a viabilidade da imigração e desconfianças relativas
à continuidade do processo. Todavia, mesmo com algumas investidas sem sucesso, o
processo de colonização não parou. Altiva Balhana e Cecilia Westphalen (1991, p. 15)
asseveram que as colônias alemãs foram localizadas além do Rio Negro, do Superagui
e do Assungui, e a presença de colonos alemães se deu em diversas colônias, que em
geral eram de formação mista, com alemães, italianos, poloneses, ucranianos,
franceses e outros grupos minoritários. De acordo com as historiadoras, os alemães
estiveram presentes nas seguintes colônias no Paraná:
Argelina (1869), Pilarzinho (1870), São Venâncio (1871), Abranches
(1873), Lamenha (1876), Rivière (1877), Virmond (1879), Maria Luiza
(1879); Brasílio Machado (1885) com os núcleos de Santa Leopoldina e
Santa Clara, João Alfredo (1887), São Lourenço (1887), Santa Bárbara
(1891), Lucena (1891), Augusta Vitória (1891), Prudentopolis (1896),
Ivaí (1907), Irati (1908), Ipiranga (1908), Afonso Pena (1908) e Cruz
Machado (1910) (BALHANA & WESTPHALEN, 1991, p. 15).
O governo esperava que com a imigração e a colonização desses espaços
“vazios” acabassem os problemas relativos ao fornecimento de produtos primários para
a população; entretanto, como informam Lucinéia Steca & Mariléia Flores (2002, p. 33),
os critérios para as escolhas de imigrantes na Europa eram cheios de falhas – ao
contrário do que fora proposto pelo Visconde de Abrantes no item 1.1. –, pois
permitiam o embarque de imigrantes sem disposição para o trabalho no campo e que
não tinham um mínimo de conhecimento sobre agricultura. Assim sendo, quando aqui
chegavam, os imigrantes percebiam que o “paraíso imaginado”
descrito pelos
agenciadores de imigrantes não era real, e sim muito distante daquilo que fora
acordado.
Diante do descaso governamental, o imigrante organizou-se como pôde, criando
formas alternativas de subsistência. Nas palavras de Wachowicz:
46
Essa política, de deixar as colônias e seus imigrantes entregues a si
mesmos, fez com que a Província negligenciasse até a cobrança da
dívida colonial, que era a importância correspondente ao lote, casa
provisória, ferramentas e qualquer auxílio. Essa cobrança só foi
efetivada no período Republicano (WACHOWICZ, 1977, p. 16 apud
STECA & FLORES, 2002, p. 34).
Vale ressaltar que, no primeiro momento, a imigração teuta não se enquadra na
grande política de imigração em massa da Europa e caracteriza-se por pequenos
fluxos familiares de origem camponesa. Os primeiros colonos alemães dedicaram-se
principalmente às lavouras, porque essa atividade era
o principal meio de
subsistência.
Já o grande fluxo dos imigrantes teutos considerados profissionalmente aptos só
ocorre após a década de 1870, momento de franca expansão da indústria na Alemanha
já unificada, onde o analfabetismo havia pouco fora erradicado na Alemanha. Antes de
1870, a Alemanha tinha contraído empréstimos no mercado internacional, mas depois
disso sua riqueza nacional aumentou a tal ponto que tornou-se capaz de
investir
grandes somas em empresas de plantação, ferroviárias, mineiras e fabris em muitas
partes do mundo.
Altair Pimpão credita à maioria desses imigrantes teutos uma formação técnica,
mas não podemos avalizar essa informação porque contrasta com os idealizadores da
política imigratória, que recomendavam a vinda de camponeses e lavradores. Como o
crescimento da indústria alemã no final do século XIX se deu justamente pela
industrialização pesada, ou seja, de fabricação de máquinas para os outros ramos da
produção, podemos aceitar sua assertiva de que “o imigrante alemão popularizou as
máquinas alemãs e com isso facilitou os investimentos e a implantação de indústrias
alemãs no Brasil” ( PIMPÃO, 1974, p. 34).
A política migratória paranaense apresentou nova dinâmica entre os anos de
1890 a 1900, após as mudanças ocorridas na legislação imigratória e na
47
regulamentação das colônias. Com essas novas medidas, buscava-se impossibilitar a
criação de colônias homogêneas – do ponto de vista étnico – e evitar a formação do
que era tido como "enquistamentos étnicos" das colônias através da diversificação de
etnias em um mesmo núcleo colonial e da inserção de brasileiros natos nessas
comunidades.
A partir de 1900, o fluxo imigratório vindo da Europa se dirige, em sua maioria,
para o Paraná (SEYFERTH, 1990, p. 15), que além de receber imigrantes de várias
nacionalidades, ainda tem as fileiras engrossadas por famílias egressas de outras
áreas coloniais mais antigas, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Cabe frisar
que, ainda no século XIX, Curitiba recebeu grande volume de imigrantes germânicos
oriundos de Santa Catarina, sendo a re-imigração um fenômeno que não é exclusivo
desse momento da história paranaense.
Podemos asseverar que, motivados pelo esgotamento das áreas produtivas e
pelas possibilidades de ascensão social – paralelamente à entrada de novos imigrantes
– muitos colonos de comunidades mais antigas começaram a abandonar as áreas
coloniais à procura de locais urbanizados como a capital Curitiba. "Na medida em que
diminuiu a entrada de novos imigrantes no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o
Paraná se transforma no principal promotor da colonização com europeus no Sul do
Brasil" (SEYFERTH, 1990, p. 16).
O fluxo de imigrantes teutos intensificou-se entre os anos de 1909/1913 e
1919/1925, expressivamente nos anos que precederam e sucederam o conflito
mundial, entre 1914/1918. Lembramos que a migração interna de indivíduos de
colônias antigas foi muito mais proeminente entre 1920 e 1930, atraídos pela
aceleração industrial e pelo desenvolvimento urbano de algumas cidades, como Porto
Alegre e Curitiba.
48
O quadro de contingentes populacionais imigrados ao Paraná até o ano de 1948
estava distribuído de maneira bastante diversificada; os poloneses compunham a
maioria dos imigrantes, seguidos pelos ucranianos. Já os alemães, que iniciaram o
processo de imigração, aparecem com pouco mais de 15% do total de imigrantes no
estado, seguidos de grupos menores como franceses, austríacos, ingleses, russos,
holandeses, etc.
Wachowicz (1995, p. 152) distribui as principais populações imigrantes no
Paraná da seguinte maneira, conforme ilustramos na Tabela 3.
TABELA 3 – Distribuição de imigrantes no Paraná até 1945
Nacionalidade
Quantidade de imigrantes
% por nacionalidade
Poloneses
57.000
44,53%
Ucranianos
22.000
17,18%
Alemães
20.000
15,62%
Japoneses
15.000
11,74%
Italianos
14.000
10,93%
Total
128.000
100,00%
Fonte: WACHOWICZ, Rui Chhristovan. História do Paraná. 7ed. Curitiba: Editora Vicentina,
1995.
A questão relativa à quantidade correta de imigrantes germânicos no Paraná é
bastante controversa; embora não seja possivel precisarmos a quantidade exata de
alemães imigrados para o Paraná, Aulich (1953, p. 12) pontua que é possível uma
estimativa. Em 1908, havia cerca de 12.000 indivíduos de origem germânica para um
total de de 450.000 habitantes; em 1928, a população germânica dobrou de 30.000
para 800.000 em todo o Estado; já no final do período imigratório, próximo de 1940, o
Paraná contava com cerca de 120.000 teutos, para uma média de 245.000
estrangeiros e um total de habitantes que ultrapassava 1.200.000 em todo o Estado.
49
Os dados estatisticos fornecidos por Wachowicz – clássico historiador do Paraná
– apresentam uma quantidade muito diminuta frente ao estudo de Aulich em 1953.
Essas variáveis estatísticas referentes à imigração teuta têm origem na dificuldade em
estabelecer a nacionalidade germânica. No quadro acima, aparentemente Wachowicz
trabalha com
alemães natos (Reichsdeustch); em contrapartida, Aulich apresenta
números que conciliam dados relativos às origens geográficas (teutos oriundos de
outros países como Rússia e Suiça), alemães natos e descendentes. Essas
controvérsias serão ainda muito discutidas, devido à falta de fontes e de dados exatos
que possam permear essa discussão.
Ao escrever um estudo caracterológico sobre os imigrantes germânicos, Aulich
aponta que a procedência geográfica tão variada “faz da imigração alemã um quadro
colorido, vívido e impressionante” (1953, p. 15), que ajuda a compor um cenário ainda
maior que surge das variações e dos antagonismos sociológicos provenientes do
processo de imigração. Compreender essas particularidades trazidas pelo imigrante
auxilia a “desassociar a história da imigração germânica ao Paraná da contemplação
unilateral e eivada de preconceitos, sejam eles favoráveis ou depreciativos” (AULICH,
1953, p. 17).
Dado esse quadro primário da imigração teuta no Brasil e no Paraná,
discutiremos o papel do imigrante na sociedade, o processo de assimilação e os
reveses desse método na construção do convívio e no cotidiano.
1.3
Os reveses da aculturação: dilemas, problemas e possibilidades
Aceitar outra cultura nem sempre é tarefa simples, sobretudo quando há uma
disparidade muito grande entre esta e a cultura de origem. A assimilação da cultura
50
brasileira pelos alemães passou por vários reveses, particularmente os relacionados ao
idioma, ao clima, àtradição agrícola e à educação. Em todas as perspectivas abertas
pelo processo de imigração, positivas ou negativas, a questão que mais se destaca é a
da assimilação desses indivíduos na sociedade. Assim sendo, nos incumbiremos,
neste primeiro momento, em conceituar o termo assimilação/aculturação.
Denys Cuche conceitua aculturação como um termo elaborado em 1936 por um
comitê estadunidense de Ciências Sociais14: “A aculturação é o conjunto de fenômenos
que resultam de um contato continuo e direto entre grupos de indivíduos de culturas
diferentes e que provocam mudanças nos modelos culturais iniciais de um ou dos dois
grupos (REDFIELD, LINTON, HERSLOVITS, 1966 apud CUCHE, 2002, p. 115).
Cuche
alerta também que não podemos confundir aculturação e assimilação,
pois a segunda deve ser compreendida como a última fase da aculturação, “fase, aliás,
raramente atingida, ela implica o desaparecimento total da cultura de origem de um
grupo e na interiorização completa da cultura do grupo dominante” (2002, p. 116).
A definição usual da palavra compreende o processo pelo qual um grupo social
minoritário perde suas características culturais distintivas, sendo absorvido pelo grupo
maior. Balhana (1995) apresenta uma simplificação eficaz para a compreensão do
termo.
A noção de assimilação apresenta diversos aspectos, conforme se
observa de um ponto de vista político, econômico, social, cultural ou
psicológico. Analisada simplesmente trata-se apenas de saber em que
prazo e até que limite pode um contingente de imigrantes amalgamar-se
a uma população nacional, e quais as formas que assume este
processo de amalgamação (BALHANA apud WACHOWICZ, 1995, p.
153).
14
O Conselho de Pesquisas em Ciências Sociais dos Estados Unidos organizou um comitê encarregado
de organizar a pesquisa sobre os fatos da aculturação. Composto por Robert Redfield, Ralph Linton e
Melville Herskovits, o comitê elaborou em 1936 o Memorando para o Estudo da Aculturação, obra
clássica e absoluta para os interessados em estudar a aculturação e suas implicações.
51
O grupo teuto recém-chegado deveria desprender-se dos seus hábitos e
costumes e adotar o que era comum aos brasileiros aqui já instalados. Se prontamente
acatarmos essa conceituação para nortear este trabalho, perceberemos com
demasiada rapidez que não houve entre os alemães e luso-brasileiros interesse em
abandonar seus princípios culturais visando a chegar a um consenso entre ambas as
partes. Pelo contrário, o que observamos em várias obras que tratam do tema é
justamente o fechamento desses grupos e um total empenho na manutenção de seus
costumes e características étnicas.
Por outro lado, a aculturação não provoca necessariamente o desaparecimento
da cultura que recebe, nem a modificação da lógica interna da cultura dominante,
tornando as relações culturais
uma via de mão dupla, em que ambos os grupos
recebem e doam.
No caso de imigrantes, é comum que um indivíduo ou família que são inseridos
em um ambiente cultural novo fiquem tentados a não aceitar rapidamente as mudanças
e a irem delimitando paulatinamente as relações com o novo meio, incorporando
gradativamente as mudanças em seu dia-a-dia. Esse processo, para Willens:
Consiste no aparecimento de atitudes novas emocionalmente
associadas a valores culturais novos com que o imigrante vai
estabelecendo contato. [...] O conceito aculturação refere-se [...] às
mudanças nas configurações culturais de dois ou mais grupos que
estabeleceram contatos diretos e contínuos. [...] O estudo cientifico da
assimilação abrange, portanto, o estudo da formação dessas atitudes
(WILLENS, 1980, p. 7).
Diante dessa situação, podemos intercalar circunstâncias adversas sobre a
velocidade do processamento da aculturação dos imigrantes seguindo algumas regras
propostas por Cuche (2002, p.119-120):
a) Uma família de imigrantes pode levar menor tempo para
ajustar-se a uma nova pátria se estiver completamente isolada de
52
outros membros do mesmo grupo étnico, tornando a assimilação uma
questão de sobrevivência; quanto mais distante for a cultura, mais
difícil será sua aceitação;
b) No caso de colônias relativamente homogêneas – que é o
caso mais comum na bibliografia analisada – a celeridade da
assimilação
pode
ser
muito
mais
lenta,
porque
não
há
fundamentalmente necessidade de aceitação imediata dos valores
fornecidos pela comunidade já estabelecida.
c) Se houvesse estratégias de comunicação e formas de
integração do imigrante à cultura “dominante”, o processo de
aculturação pode ser mais bem aceito, afinal, “um traço cultural,
qualquer que seja a sua forma, será mais bem aceito e integrado se
puder adotar uma significação de acordo com a cultura que recebe”
(CUCHE, 2002, 119).
Ainda podemos avaliar a aculturação com base nas pesquisas de Roger Bastide
(1960
apud
CUCHE,
2002,
p.
129-131),
nos
termos
da
interpenetração/entrecruzamento propostos pelo autor em três critérios diferenciados.:
1° A presença ou ausência de manipulações das reali dades culturais e sociais; 2°
Ordem
cultural,
levando
em
consideração
a
relativa
homogeneidade
ou
heterogeneidade das culturas presentes; e 3° Ordem social, considerando a relativa
abertura ou fechamento das sociedades em contato. Bastide procurou não restringir a
classificação dos fenômenos de aculturação a esses critérios e ampliou as
possibilidades de avaliação, acrescentando fatores que podem reforçar ou neutralizar o
processo, sendo estes: a) o fator demográfico; b) estrutura das populações; o fator
ecológico e o fator étnico/racial.15
15
Roger Bastide em 1976 orientou a pesquisa de Doutorado em Etnologia de Denys Cuche, em cuja
discussão Cuche utilizou a seguinte obra de seu orientador: BASTIDE, Roger. Problèmes de
53
Ao considerar o que Willens trata como "[...] o preço que o imigrante paga pela
realização do seu ideal" (1980, p. 6), temos a impressão de que a coexistência com
grupos luso-brasileiros tenha se desdobrado sem maiores entraves. Mas o próprio
autor continua dimensionando a questão, retirando-nos essa falsa ideia: "[...] muitos o
consideram demasiadamente caro e não se ajusta a situação" (1980, p. 7).
É de suma relevância preconizar que são comuns as interpretações que
apontam para a assimilação como algo impossível, por considerarem que para
pertencer a uma determinada comunidade
devem dirimir toda sua carga cultural.
Acreditamos existir sensatez ao discordarmos dessas interpretações, pois acreditamos
que ocorrem trocas culturais entre imigrantes e brasileiros; se não houve assimilação
dos alemães à cultura nacional, houve aculturação. Concordamos com Reis (2004, p.
221) quando alega que:
Se, por um lado, a imigração européia representava o projeto por meio
do qual se atingiria a civilização, por outro, ocorreu, também, a
“caboclização” dos imigrantes dentro do núcleo colonial, apesar do
parcial isolamento em relação aos centros mais desenvolvidos. [...] O
contato cultural foi de mão dupla, pois ao difundirem seus hábitos e
costumes, assimilaram parte da cultura brasileira. Entretanto, o contato
com população nacional não impediu que muitas colônias, na medida
do possível, mantivessem sua língua, religião e escolaridade, enfim,
suas tradições [...] (REIS, 2004, p. 175).
Outra forma errônea de interpretarmos o grau de assimilação de determinado
grupo étnico trata-se do grau de miscigenação, como, por exemplo, o imigrante que
não se casa com brasileiros é prontamente considerado inassimilável (WILLENS, 1980,
p. 322). Contudo, é improvável que o processo de assimilação principie através desse
tipo de contato; é evidente que para uma bem sucedida troca de experiências exista a
necessidade de contato, mas não necessariamente matrimonial. Nesse tipo de contato,
l’entrecroisement des civilisations et de leurs oeuvres. In: GURVITCH Georges (ed.) Traité de Sociologie.
Paris, PUF, 1960. p. 315-330. V 2.
54
pode-se obter justamente o resultado contrário, as diferenças podem ser tão gritantes
que distanciarão cada vez mais os indivíduos ou grupos étnicos em contato.
Willems (1980, p. 151) pondera que, em geral, os imigrantes estavam
emocionalmente presos à cultura de origem e que a nostalgia impedia-os de mudar
suas atitudes. Porém,
acrescenta que muitos voltaram aos seus países de origem,
não apenas movidos pela nostalgia, mas porque suas personalidades invariavelmente
também haviam sofrido transformações em contato com novas situações.
Aulich cita uma situação diferenciada ao tratar dos imigrantes germânicos
provenientes de camadas sociais mais baixas, afirmando que para esses tipos de
imigrantes não fora necessário um grande esforço para se desapegarem do passado,
já que em terras paranaenses possuíam novas esperanças, e “com facilidade puderam
aceitar as “particularidades encontradas”, porque as próprias “particularidades trazidas”
eram poucas e insignificantes, no caso em apreço, até mesmo no que diz respeito à
língua, à religião, às tradições [...]” (1953, p. 62).
Hobsbawm (2000, p. 135), ao trabalhar a construção das nações europeias,
propala que entre os alemães havia discussões sobre o tamanho, a natureza e quanto
à estrutura do futuro Estado unificado, mas que poucos deles estavam decididamente
interessados na unificação da Alemanha, especialmente os camponeses alemães. Em
seus termos:
Por razões óbvias, as camadas mais tradicionais, atrasadas ou pobres
de cada povo eram as últimas a se envolver em tais movimentos:
trabalhadores, empregados e camponeses que seguiam o traçado pela
elite instruída. A fase do nacionalismo de massa, que sobrevinha
normalmente sob a influência de organizações de camada média de
nacionalistas liberais-democratas – exceto quando contrabalançada
pela influencia de partidos independentes trabalhistas e socialistas - ,
estava de alguma forma relacionada com o desenvolvimento econômico
e político (2000, p.136).
55
Dessa forma, as primeiras levas de imigrantes de origem camponesa estavam
fora dessas discussões políticas, assimilando muito pouco esse sentimento de
nacionalismo. De acordo com Salamoni (2001), nas camadas mais modestas existia
uma heimatlosigkeit – ausência do sentimento de pátria –, que pode ter acarretado uma
visão mais positiva da imigração. Afinal, argumenta a autora, desprender-se dos elos
com a pátria Alemanha tornava a possibilidade de possuir um "pedaço de terra" mais
palpável; muitos teutos tinham em mente ao emigrar para o Brasil conquistar sua
independência financeira, não dependendo de ninguém para subsistir com sua família.
Sobre o Paraná, Bento Munhoz lembra que "[...] a assimilação não se processa,
como um milagre, sem obstáculos, e no Paraná se sabe, com razoável freqüência, que
é assim. [...] a sobrevivência de hábitos tradicionais, a permanência da língua materna
em família e os casamentos no próprio grupo" (1995, p. 76). É certo que o historiador
paranaense também procura abrandar esses obstáculos propalando que a força
evolutiva do Estado conseguiria absorver esses imigrantes.
Em Curitiba, a presença do imigrante alemão e de uma vasta sorte de imigrantes
de outros países contribuiu para que a cidade tivesse um caráter cosmopolita. Ainda
que existisse uma elevada preocupação com a conservação dos seus costumes, isso
não impediu que ocorresse uma coexistência pacífica entre os imigrantes alemães e os
cidadãos curitibanos; pelo contrário, segundo Boschilia (1995), apesar de a diversidade
de idiomas e hábitos, estes conviviam sem maiores problemas.
Essas fronteiras étnicas não são intransponiveis, mas para que possam ser
superadas é necessário que exista interação social entre os grupos, e foi justamente a
defesa exasperada dessa etnicidade/identidade que trouxe dificuldades aos imigrantes
de grupos de culturas muito constrastantes com a luso-brasileira, sendo uma delas a
alemã.
56
Assevera Seyferth (2000, p. 310) que a etnicidade e a nacionalidade são
condições de pertencimento a um grupo cujos membros possuem pensamentos
coletivos. Neste sentido, é necessário diferenciarmos as noções de nacionalidade, pois
a primeira está ligada a diferentes formas de estabelecimento, como o direito de
sangue (jui sanguinis), excluindo critérios geográficos e contraditoriamente o local de
nascimento (jui solis), ou ainda pela combinação das duas formas, acarretando a
questão do duplo pertencimento ao cidadão teuto-brasileiro.
Outra questão se refere ao problema da cidadania,
vinculada ao Estado; um
teuto pode ser considerado cidadão brasileiro, recolher seus impostos e exercer o
direito do voto, mas continua pertencendo a grupos específicos de alemães,
contrariando o sentido de pertencimento atribuído à questão da cidadania. Esse
formato de limites grupais concretos contrariou os ideais nacionalistas do país; logo,
nos
períodos
de
crise
os
teuto-brasileiros
(Deutschbrasilianertum)
foram
desqualificados como cidadãos e tratados como ameaça visível à soberania nacional.
René Gertz registra que, desde o início da imigração, em 1824, a acusação mais
repetida aos alemães e aos seus descendentes está relacionada a sua não integração
com o povo brasileiro. Nas palavras do autor:
Esses colonizadores se manteriam a margem da nação brasileira pela
ausência da miscigenação, pela conservação da língua, dos costumes e
do legado cultural em geral, do que resultaria uma verdadeira
anticidadania brasileira, mesmo para os descendentes que são
brasileiros de fato e de direito (GERTZ, 1991, p. 13).
Essa ideia exacerbada de não-integração, de antipatriotismo, de segregação e
de anticidadania ganhou novo dimensionamento com a criação, em 1871, do Império
Alemão e do quadro internacional resultante desse momento da história da Alemanha,
57
porque alguns ideólogos pensaram em aproveitar a quantidade de alemães em outros
países em benefício da pátria alemã.
Um último fator de desagrado refere-se à ascensão econômica dos imigrantes
alemães. As suas técnicas diferenciadas de trabalho, que foram tomadas em um
primeiro momento como qualidades, passarão a incomodar a população pelo seu
crescimento econômico e pelo desenvolvimento de seus estabelecimentos comerciais.
Strobel, em seus "Relatos de um pioneiro da imigração alemã", destaca que:
[...] nos primeiros anos da chegada dos imigrantes alemães a Curitiba,
os brasileiros admiravam a tenacidade no trabalho e os novos
conhecimentos que foram introduzidos nas diversas atividades por eles
exercidas. Mas com o passar dos anos quando os imigrantes começara
a progredir [...] desagradaram certas castas de nativos aqui da terra. No
entender desses elementos, aos alemães e imigrantes de outras
nacionalidades [...] caberia apenas cultivar a terra, pagar impostos [...] o
resto, ou seja, a direção da política e condução dos negócios da nação
seria de exclusiva competência dos "donos do Brasil" (STROBEL apud
RENK, 2004, p. 60).
Através dessas informações, é possível entender que mesmo antes de um
projeto sólido de assimilação forçada – que viria legalmente no Estado Novo – o
governo já possuía preocupações suficientes para a construção da imagem de um
povo inimigo, dando sustentação às teorias conspiratórias, como o levante de
imigrantes alemães no sul do país, ou que poderiam, a partir das regiões de fronteira,
romper em marcha contra o Brasil, bem como personificando os imigrantes alemães
(nazistas ou não) como traidores pagãos e o nazismo representando a presença do
demônio em meio às comunidades (FÁVERI, 2005, p. 45).
58
1.4
Nazismo no Paraná – Relação dos alemães com a política
O nazismo está intimamente ligado ao discurso relativo aos alemães, já que
mesmo aqueles que não eram partidários ou sequer simpatizavam com a doutrina
nacional-socialista sofreram com a alcunha "nazista" e foram vítimas de perseguições
durante
o
envolvimento
brasileiro
na
Segunda
Guerra
Mundial,
alterando
significantemente o cotidiano desses imigrantes e da população brasileira.
A ligação equivocada de todo alemão com o partido suscitou inúmeros
desentendimentos e denúncias em delegacias de polícia e gerou situações adversas
para a comunidade teuta estabelecida no Brasil. No Paraná não foi diferente: vários
relatórios oriundos das extintas DOPS – que trataremos nos capítulos posteriores –
servirão para ilustrar essa questão supracitada. Mas antes disso empreenderemos uma
breve exteriorização do NSDAP/PR.
Para agregar algumas informações sobre o Partido Nazista do Paraná –
NSDAP/PR –, é necessário alertarmos o leitor que a única pesquisa que se debruçou
sobre o tema foi realizada recentemente por Rafael Athaides, resultando em uma
dissertação de mestrado intitulada "Zu Studienzwecken in Paraná: a ação do Círculo
Paranaense do Partido Nazista (1933-1942)".
Tendo em vista a pesquisa supracitada, pontuamos que o Brasil contava com o
maior contingente de alemães partidários do NSDAP fora da Alemanha; havia partidos
nacionais com filiação menor que os nazistas. Athaides assinala que os primeiros anos
de governo de Vargas foram bastante displicentes no controle dos partidos de origem
estrangeira, tanto no Governo Provisório – 1930/1934 – quanto no Governo
Constitucional – 1934/1937 –,
importando-se apenas em restringir a entrada e a
proliferação de partidos de ordem comunista orientados pela antiga URSS.
59
A organização do partido, mesmo fora da Alemanha – teoricamente longe do
controle forte do NSDAP –, mantinha-se estruturada e bem planejada, a divisão em
Círculos (Kreis) Regionais e Estaduais facilitou a proliferação das ideias nazistas em
estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
No Paraná,
filiados,
o partido contava com aproximadamente duzentos membros
diplomaticamente auxiliados pelo Consulado Alemão. O NSDAP/PR era
formado basicamente por Reichdeutschs (81,3%), a minoria restante compunha-se de
alemães naturalizados (6,9%), descendentes diretos (6,9%) e brasileiros naturalizados
alemães (4,6%).
A grande maioria do grupo que compunha o partido tinha caráter amplamente
urbano, não pertencendo a grupos provenientes das colônias –
que mesmo
procurando preservar o Deutschtum, não possuíam simpatia pela doutrina do Füher –,
sua maioria era composta por alemães que chegaram das levas posteriores ao término
da Primeira Guerra e estavam alocados nos centros urbanos.
Se utilizarmos como referência demográfica os dados relativos aos alemães
fornecidos por Aulich (1953), poderemos perceber que a presença dos nazis dentro do
grupo étnico era minoritária no Paraná; os filiados ao partido representavam 0,18% do
total de imigrantes estabelecidos no Estado. Portanto, como que um grupo minoritário
conseguiu propagar suas ideias e levar adiante suas ideologias de maneira tão
contundente?
A resposta óbvia aponta para a propaganda nazista, a qual teve grande função
na proliferação das ideias nacionais-socialistas. A forte propaganda apelava para o
dever alemão, resgatava o nacionalismo ferido pela derrota na Primeira Guerra e
evocava a manutenção do germanismo, buscando continuamente motivar os teutos à
adesão formal ao partido.
60
A propaganda realizada pelo NSDAP/PR algumas vezes confundia-se com o
trabalho do consulado. Na perspectiva de Athaides:
[...] a propaganda partidária desenvolvida através de uma confusa
mescla de ações, na qual não se sabe onde começa operar o partido e
onde se inicia o trabalho do consulado. Dividimos em três as categorias
de propaganda nazista entre os teutos do Paraná: escrita, audiovisual
(rádio e cinema) e o que chamamos de presencial (ATHAIDES, 2007, p.
165).
Apesar de nos primeiros anos de governo Vargas não ter atentado para a
projeção que o Partido Nazista estava tomando nas colônias alemãs – ou fizera vistas
grossas mediante a simpatia que possuía pelas potências totalitárias europeias com a
implementação de um plano de governo amplamente nacionalista
–, em 1938 o
NSDAP fora obrigado a "fechar as suas portas" atendendo à ordem do Decreto-Lei
383, de 18 de abril de 1938, restando a extinção total do partido ou a ação partidária
baseada na clandestinidade.
Não obstante, passados quatro anos de implicações com o idioma e o
posicionamento dos alemães em relação ao Projeto de Nacionalização, em 1942 o
Brasil, após longo período de neutralidade, efetivara sua entrada no conflito mundial
contra as potências do Eixo,
ocasionando ainda mais distúrbios na relação já
conturbada entre imigrantes alemães e os cidadãos brasileiros.
Algumas questões posteriores terão o Nazismo e seus ex-partidários como
núcleo de discussão, quando, em 1942 – quatro anos após a extinção oficial do
NSDAP –, os nazistas serão evocados para justificar a repressão aos alemães pelo
governo de Manoel Ribas e em todo o país serão tratados como inimigos da nação
brasileira.
Concordamos com Athaides que esse período paranaense – década de 1930 e
1940 – ainda necessita de muitas investigações; são muitos temas ainda que precisam
61
de formulações primárias, diversas lacunas da história do Estado ainda precisam ser
preenchidas. Esperamos, com este trabalho, contribuir na construção desse passado
bem como suscitar interesse no tema e, consequentemente, novas pesquisas.
1.5
A relação com o Estado: alemães e as medidas restritivas do Projeto de
Nacionalização
Ao contrário do que muitos acreditam, o projeto de nacionalização já vinha
sendo pensado antes mesmo do Estado Novo. Cancelli expõe que “a vontade expressa
pela política pós-30 era a da criação de um novo tipo de cidadão para a sociedade
nacional” (1993, p. 24). A polícia passara a ser o principal órgão executivo do Estado
Varguista, tendo – ou procurando ter – total controle do espaço urbano. A
reestruturação e centralização do serviço policial foi o início de profundas alterações no
cotidiano dos brasileiros e imigrantes estrangeiros que aqui viviam.
Cancelli (1993, p. 76) ainda realça que a população era tencionada ao máximo
com discursos inflamados, medidas saneadoras diversas e essencialmente pela
incessante ação da polícia,
visando à disciplina e à reeducação do indivíduo
brasileiro. De acordo com a autora:
Ordenar a sociedade para “um só pensamento brasileiro”, o alvo do
Estado Novo, significava modificar o lugar do individuo e das classes no
espaço público, negando as diferenças, a pluralidade e quaisquer
formas de organização e manifestação que pusessem em xeque a
concepção orgânica da sociedade (CANCELLI, 1993, p. 80).
É fato que logo no início do regime de Vargas o inimigo comum fora
materializado na figura do comunista, que com a ajuda da máquina de propaganda do
Estado incutiu na sociedade a figura malévola do agente comunista, a propaganda – ou
62
as várias formas dela –, que utilizada pelo regime penetrou nas casas, nos
estabelecimentos comercias e nas conversas entre vizinhos formou uma opinião
pessoal e agentes multiplicadores dessas ideias. Dadas essas informações relevantes,
avançaremos para outro alvo da perseguição do regime de Getúlio Vargas que
representa a maior preocupação desta pesquisa: os imigrantes estrangeiros.
Entender como o Estado conseguiu imprimir nas pessoas a figura do imigrante
subversivo e ao mesmo tempo manter relações diplomáticas com os países daqueles
que eram vigiados e perseguidos não nos parece demasiado fácil, porém, ao longo
desta pesquisa, apontaremos as situações que permearam essa questão.
Instituída em nome da unidade nacional, a campanha de nacionalização do
Estado Novo, iniciada em 1937 com a pretensão de forçar a assimilação dos
imigrantes, produziu a maior crise enfrentada por alemães e seus descendentes. A
construção do “mito da nação” e do “mito da nacionalidade”, a exemplo das ditaduras
europeias, realizava-se por mecanismos de persuasão, mas, acima de tudo, pela
violência garantida pela polícia política que perseguia e identificava os imigrantes que
se opunham às medidas.
Estes eram identificados como antibrasileiros, mal aculturados, verdadeiros
“cânceres” inseridos em um território onde se estava por colocar em prática um projeto
de “brasilidade”. O governo procurava homogeneizar a sociedade, todavia acedemos
com Heller no seguinte:
A vida cotidiana é, em grande medida, heterogênea; e isso sobre vários
aspectos, sobretudo no que se refere ao conteúdo e a significação ou
importância de nossos tipos de atividade. São partes orgânicas da vida
cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada, os lazeres e o
descanso, a atividade social sistematizada, o intercâmbio e a
purificação (HELLER, 2008, p. 32).
63
Logo, mudar as estruturas sociais já existentes até aquele momento tornava-se
uma atividade bastante penosa, levando em consideração que “o homem nasce já
inserido em sua cotidianidade” (HELLER, 2008, p. 33) e que nem todos adeririam
avidamente ao propósito governamental. Partimos da ideia primária de que embora os
imigrantes não estivessem perfeitamente assimilados, já faziam parte da sociedade e
compunham boa parte da força de trabalho. Dessa forma, contribuíam com suas ideias,
tecnologias e compunham o cenário social de muitas cidades brasileiras, em especial
no nosso estudo de caso, a cidade de Curitiba, capital do Estado do Paraná.
Acordamos com Dietrich na seguinte afirmação em relação às práticas
repressivas destinadas a estrangeiros: “os alemães, ao lado de outros cidadãos16
estrangeiros, passaram a ser rotulados de “indesejáveis”, postura que expressa à
valorização do “homem nacional” (DIETRICH, 2008, p. 76); o que ocasionou, logo após
a implantação do Estado Novo,
uma busca incessante para dar continuidade às
tentativas nada bem sucedidas de 1907 e 1913 de expulsar os estrangeiros do país.
Cancelli (1993, p. 132) propõe que a 5ª Região Militar (Paraná e Santa Catarina)
levou ao presidente, em dezembro de 1937, um relatório completo sobre a necessidade
de uma espécie de guerra interna contra os imigrantes que nada mais era do que a
proposta formal para a campanha de nacionalização que tomaria o país no ano
posterior.
Ainda sobre esse relatório, salientamos que foi sob a égide do General José
Meira de Vasconcelos, e posteriormente conduzida pelo seu substituto General Manuel
Rabelo, também da 5ª RM – conforme Seyferth (1997, p. 100) –, que o Exército
assumiu a tarefa de construtor da nacionalidade, conjecturando que os intelectuais
republicanos não deram a devida atenção aos valores morais constitutivos da nação.
16
Grifo nosso: cidadãos que já faziam parte da dinâmica social, que já estavam inseridos na vida pública
e que agora eram tratados como “indesejáveis”, sujeitos esses que até então constituíam partes
importantes no comércio, na cultura e na vida social.
64
Nacionalizar, portanto, é tarefa de educação moral e cívica, um desígnio dos
doutrinadores que estabeleceram as premissas ideológicas da ação do Estado.
Na constituição outorgada em 10/11/1937, existem mais de trinta situações que
envolvem estrangeiros e imigrantes, dentre as quais ressaltamos as mais relevantes:
no Artigo 122, a Constituição assegura aos brasileiros e estrangeiros residentes no
país o direito à liberdade, à segurança individual e à propriedade, contudo mantém as
seguintes restrições: a) tentar submeter o território da Nação ou parte dele à soberania
de Estado estrangeiro; b) tentar, com auxílio ou subsídio de Estado estrangeiro ou
organização de caráter internacional, contra a unidade da Nação, procurando
desmembrar o território sujeito a sua soberania; d) tentar, com auxílio ou subsídio de
Estado estrangeiro ou organização de caráter internacional, a mudança da ordem
política ou social estabelecida na Constituição.
A limitação da atuação de imigrantes é tratada no Artigo 150, no qual consta que
só poderão exercer profissões liberais os brasileiros natos e os naturalizados que
tenham prestado serviço militar no Brasil, excetuados os casos de exercício legítimo na
data da Constituição e os de reciprocidade internacional admitidos em lei. Somente aos
brasileiros natos será permitida a revalidação de diplomas profissionais expedidos por
institutos estrangeiros de ensino.
Em Curitiba, no livro de Decretos-Leis do município referente a 1941, notamos –
com um atraso razoável – o cumprimento da limitação de estrangeiros atuarem em
cargos públicos, quando através do Decreto 153 de 31/12/1941 a prefeitura resolve
sobre o italiano João Zaniolo:
Considerando que o Decreto-Lei Federal nº 1.202, de 8 de abril de 1939
só permite aos brasileiros natos ou naturalizados o exercício de cargo
ou função pública; considerando que a portaria nº - 2.198, de 6 de julho
de 1939, do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, concedeu prazo
até o dia 10 de agosto do mesmo ano para os funcionários públicos
providenciarem o seu processo de naturalização; considerando que
65
esse prazo já está esgotado, não podendo, por conseguinte, o aludido
funcionário cumprir esse dispositivo, RESOLVE: dispensar JOÃO
ZANIOLO do cargo de Ajudante do Administrador dos Cemitérios.17
Já o Artigo 151 é oriundo da Constituição de 1934 e trata da entrada, distribuição
e fixação de imigrantes no território nacional, sendo estas sujeitas às exigências e
condições que a lei determinar, não podendo, contudo, a corrente imigratória de cada
país exceder, anualmente, o limite de 2% sobre o número total dos respectivos
nacionais fixados no Brasil nos últimos cinquenta anos.
Os termos nacionalidade e cidadania tornam-se importantes metas para o
Estado Novo; mitos de unidade e nacionalismo são inseridos na sociedade buscando
reforçar ainda mais a ideia de “comunidade brasileira”. Seyferth assim se manifesta
acerca da campanha de nacionalização:
O primeiro ato de nacionalização atingiu o sistema de ensino em língua
estrangeira: a nova legislação obrigou as chamadas “escolas
estrangeiras” a modificar seus currículos e dispensar os professores
“desnacionalizados”; as que não conseguiram (ou não quiseram)
cumprir a lei foram fechadas. A partir de 1939, a intervenção direta
recrudesceu e a exigência de “abrasileiramento” através da assimilação
e caldeamento tornou-se impositiva — criando entraves para toda a
organização comunitária étnica de diversos grupos imigrados
(SEYFERTH, 1997, p. 97).
Em dezembro de 1937, foram proibidos de funcionar no país quaisquer partidos,
fossem nacionais ou oriundos de outros países – no caso do NSDAP –; naquele
contexto, garantia-se a extinção da oposição, consolidava-se o poder ditatorial de
Vargas e fechava-se o país da influência política de outros países.
Por meio do Decreto-Lei n° 37, o governo pôs fim às atividades da AIB, que
naquele momento significavam um problema considerável ao Estado Novo. Seitenfus
(2003, p. 83) aponta duplo sucesso na ação tomada, porque elimina uma temível
17
Decreto-Lei nº 153 – Prefeitura Municipal de Curitiba – 31.12.1941 – Disponível no Arquivo Publico do
Município de Curitiba.
66
oposição – AIB – e ainda diminui as apreensões norte-americanas em relação a uma
guinada brasileira junto aos estados totalitários do Eixo.
Com exceção das agremiações de fins culturais, beneficentes ou de assistência
coletiva, todos os partidos políticos, independentes de origem, foram extintos. O
Decreto 383, datado de 18 de abril de 1938, assim apregoa sobre as associações
estrangeiras:
Art. 2º. E'-lhes vedado especialmente: 1 - Organizar, criar ou manter
sociedades,
fundações,
companhias,
clubes
e
quaisquer
estabelecimentos de caráter político, ainda que tenham por fim
exclusivo a propaganda ou difusão, entre os seus compatriotas, de
idéias, programas ou normas de ação de partidos políticos do país de
origem. A mesma proibição estende-se ao funcionamento de sucursais
e filiais, ou de delegados, prepostos, representantes e agentes de
sociedades,
fundações,
companhias,
clubes
e
quaisquer
estabelecimentos dessa natureza que tenham no estrangeiro a sua
sede principal ou a sua direção.18
A Lei da Nacionalização, embasada no Decreto Federal n° 406 19, datado de 04
de maio de 1938, através do Decreto-Lei n° 868 20, exigia que todos os professores
fossem naturais do Brasil, que todo
ensino fosse ministrado em língua portuguesa,
proibindo a circulação de qualquer material em idioma estrangeiro, obrigando os
colonos a se adaptarem ao idioma nacional de maneira intransigente.
Essa campanha foi concebida como verdadeira guerra, buscando erradicar
todas as ideias “alienígenas”
21
existentes no país. Nesse âmbito, uma parcela
significativa da população brasileira sofreu repentinamente interferências em seu
cotidiano; iniciou-se uma grande onda de perseguição aos alemães e seus
18
BRASIL. Decreto Lei n° 383 de 18 de Abril de 1938. Disponível no Diário Oficial de 19/04/1938. Finda
a organização e a existência de todo tipo de agremiação com vínculos políticos no Brasil, nacionais ou
estrangeiras.
19
BRASIL. Decreto Federal n. 406, disponível no Diário Oficial de 06/05/1938. Lei de Nacionalização.
20
BRASIL. Decreto-Lei n° 868. Disponível no Diário O ficial de 21/11/1938. Prevê a nacionalização dó
ensino e a extinção das escolas com vínculos estrangeiros.
21
De acordo com Giralda Seyferth, a categoria alienígena corresponde aos descendentes e imigrantes,
classificados como não-assimilados, isto é, portadores de culturas incompatíveis com os princípios da
brasilidade.
67
descendentes. Muitos foram acusados de espionagem e envolvimento com a causa
nazista; como sabiam da existência do Decreto-Lei nº 392 de 27/04/1938, que regula a
expulsão de estrangeiros, procuravam não limitar a ação da polícia política, a fim de
não serem devolvidos aos seus respectivos países.
Como já aludimos, o primeiro ato repressivo em relação aos alemães foi
justamente contra o idioma. Renk (2005) informa que as leis educacionais brasileiras
estavam plenamente voltadas para a plena utilização da língua pátria e a perpetuação
de símbolos nacionais como a Bandeira e o Hino Nacional. O autor ainda postula que:
Na Constituição de 1937 ficava evidenciada a intenção da educação na
formação do cidadão nacional, com um corpo saudável para o trabalho,
disciplinado e com um sentimento de patriotismo. Assim, era preciso
que as escolas de imigrantes também tivessem a mesma formação
educacional voltada ao patriotismo e o mecanismo mais eficiente para
isto foi à instituição de medidas nacionalistas e o fechamento das
escolas estrangeiras (RENK, 2005, p. 8).
O impacto da proibição aos idiomas estrangeiros foi imenso; nas comunidades
mais fechadas poucos haviam tido contato com o idioma vernáculo, somente as
crianças que possuíam maior contato por intermédio das escolas. Vale ressaltar que o
investimento para a educação básica desses imigrantes era mínimo e que a maioria
das escolas fundadas tanto nas colônias quanto nas cidades foram subsidiadas pelo
governo desses países estrangeiros.
A proibição ao idioma alemão em público foi levada ao extremo; livros escritos
em alemão foram destruídos; relatos dão conta
que documentos contendo registros
de nascimento, batismo, casamento e óbito e outros documentos oficiais foram
queimados pela polícia brasileira.
Da mesma forma que não houve
seleção nem preparação para receber os
imigrantes, muito menos houve preocupação com o processo de assimilação e
educação desses imigrantes. De forma coercitiva foram declaradas proibidas as falas
68
que não eram em português, ocasionando grandes desavenças entre os imigrantes
aqui instalados e o governo, principalmente ao Departamento de Relações Exteriores,
que empenhava muito tempo em dar satisfações aos outros consulados, especialmente
ao da Alemanha, na figura de Karl Ritter, que mantinha contatos e contratos
permanentes com o Brasil.
Ainda foi determinada uma política de cotas para a entrada de estrangeiros no
Brasil, que permitiria apenas uma média de 2% do número total de imigrados de cada
país no período de 1884-1933. Embora seja uma margem
pequena, acabou
prejudicando os países que tiveram maior fluxo migratório antes de 1880, como a
Alemanha em detrimento da Itália e Japão, que possuíam fluxos de entrada posteriores
a 1900.
Apesar de a conjuntura diplomática já não caminhar muito bem, a situação
piorou quando Ritter foi tomar satisfações diretamente com Aranha sobre os variados
decretos “anti-alemães”, particularmente acerca do Decreto 383. Dada à potencialidade
da discussão iniciada e da dificuldade em chegar-se a uma perspectiva comum, em 16
de novembro de 1938 o então cônsul alemão no Brasil foi tido pela diplomacia
brasileira como persona non grata em terras tupiniquins. De acordo com Seitenfus
(2003, p. 162), a situação diplomática entre os países só toma novo fôlego em 01 de
junho de 1939, quando ambos os países designam novos embaixadores. Para ser
representante do Brasil foi designado o diplomata de carreira – e absolutamente fiel a
Aranha – Cyro de Freitas Valle; já a Alemanha contaria com Curt Prüfer, antigo Ministro
da Albânia, para melhorar a integração dos dois países.
Cabe destacar – embora seja um tema que mereça maior amplitude analítica – a
questão da manutenção da soberania nacional; afinal, é necessário entender que as
ações alemãs no Brasil, essencialmente a manutenção de um partido político e a
69
propagação intensa das ideias nazistas, contribuíram para que fossem tomadas
decisões arbitrárias.
Perazzo (2002, p. 62) informa que de acordo com estimativa da AO22, havia no
Brasil cerca de dois mil e novecentos membros filiados ao NSDAP; se consideramos
que existiam aproximadamente cem mil alemães radicados no país, podemos
considerar um número de baixa adesão entre os imigrantes, mas tomando como ponto
de partida a ideia de tratar-se de um partido político que seguia diretrizes oriundas de
outro país, com aparente intuito imperialista, é totalmente justificável o governo
brasileiro julgar que esse número era demasiado e montar estratégias para prevenir
qualquer tipo de sublevação por parte dos mesmos.
Em estudo recente sobre o Partido Nazista no Paraná, Athaides (2007) propala
que a associação feita entre os alemães do sul do país e o nazismo tem sua origem no
século XIX, entendido por alguns historiadores – o próprio Gertz – como “o mito Perigo
Alemão”. Na visão do autor:
A idéia de uma ameaça germânica, salientada, sobretudo pelos
pensadores do “embranquecimento” na Primeira República, visualizava
as zonas de colonização teuta como um entrave ao projeto de
miscigenação, propugnado como solução no processo de europeização
do país. Assim, os alemães, por não se misturarem com a população
luso-brasileira e por manterem suas tradições, língua religião, etc.,
formavam verdadeiros “quistos raciais” inseridos no território nacional
(ATHAIDES, 2007, p. 20).
É evidente que a ideia de que todos os alemães poderiam engrossar as fileiras
do exército germânico, tomar o país e transformá-lo em extensão territorial do Reich,
ou a ideia de que os argentinos aliados aos alemães tomariam as fronteiras do sul,
facilitando a entrada maciça do exército alemão no Brasil e posteriormente em toda a
América do Sul, parece-nos, grosso modo, um tanto exagerada.
22
Auslandsorganization der nazi Partei (Organização do Partido Nazista para o Exterior).
70
Friedman (2008, p. 61), ao realizar um estudo sobre o Nazismo na América
Latina, evidencia que muitos historiadores creditaram equivocadamente uma força
avassaladora aos contingentes de filiados nazis, alegando que estes formavam um
bloco homogêneo, quando na verdade sua representação dentro dos países com maior
estudo sobre o tema – Brasil, Argentina e Chile – nunca ultrapassou a margem de 3% a
7% do total da população alemã nesses países. Para Friedman, outra quantificação
equivocada para os filiados nazis é a incorreta soma de elementos que integravam as
organizações alemãs que faziam parte do NSDAP ou do próprio Reich, como o
Sindicato dos Trabalhadores – DAF (Deustchland Abertei Front), a NS-Fraunchaft
(Sindicato de Mulheres Nacionalistas) e a Hitlerjunged (Juventude Hitlerista), obtendo
cifras enganosas e aumentando consideravelmente a representação do “perigo
alemão” (2008, p. 63).
Nesse panorama geral realizado por Max Paul Friedman na América Latina,
enfatizamos ainda suas considerações
acerca do modo conflitante com que alguns
pesquisadores tratam a questão do alcance e do respaldo que a Alemanha Nazista
possuía na América Latina.
De la misma manera que los funcionários estadounidenses se
equivocaban cuando decían que los alemanes formaban um bloque
monolítico que estaba esperando uma orden procedente de Berlin para
ponerse em marcha. [...] No debe confundirse el número de afiliados
con el alcance del respaldo a la Alemania nazi (FRIEDMAN, 2008, p.
62).
Essas ideias faziam-se presentes nos altos escalões da AO e dos escritórios de
inteligência americanos. Sobre essa “fidelidade” alemã ao NSDAP, o autor americano
pontua que:
Para los representantes de la AO, la fidelidad de los que pertenecian a
estas organizaciones filiales estaba fuera de toda duda, y lo mismo
71
pensaban los funcionários estadounidenses, pero su compromisso con
la causa era bastante dudoso. Se trataba de un fenómeno muy sutil. Se
podría decir que no todos los miembros del Partido estaban dispuestos
a luchar por su venerado Führer, y menos aún los que militaban em las
organizaciones filiales, pero no se debe olvidar que todas estas
asociaciones estaban impregnadas de la ideologia nazi (FRIEDMAN,
2008, p. 63).
Por outro lado, também existiam condições que permeavam essas ideias.
Seitenfus (2003, p. 160) nos dá uma mostra ao retratar a correspondência consular
entre Galeazzo Ciano e Aranha, quando o italiano alega concordar com as iniciativas
brasileiras frente aos alemães, já que “a propaganda que os alemães fazem entre
emigrados é de natureza a inquietar seriamente o governo do Rio” (2003, p. 160).
A
ascensão
das
políticas
nacionais-socialistas
na
Alemanha
e
seus
desdobramentos amplamente difundidos por seus seguidores espalhados no Brasil,
agregados ao vasto número de imigrantes e descendentes de alemães – partidários ou
não – aqui instalados suscitou no aparelho político/policial grandes dúvidas acerca das
verdadeiras intenções da Alemanha em relação ao Brasil.
De acordo com Helmuth Abeck:
Houve excesso de entusiasmo pelas idéias recém importadas. Viam-se,
com demasiada freqüência, bandeiras com a cruz gamada em toda
sorte de festejos, e grupos de jovens, imitando os modelos alemães,
como a "Juventude Hitlerista" ou a "União de Moças Alemãs",
promoviam passeatas, acampamentos e semelhantes, sem se
importarem grandemente com a sensibilidade dos brasileiros de outras
origens. E isso numa época em que o próprio Governo Brasileiro se
via a braços com dificuldades internas, provocadas por
comunistas e integralistas. Essa conduta irrefletida chegava a ter
cunho de uma franca provocação (grifo nosso) (ABECK, 1980, p. 37).
Gertz, reportando-se sobre o sentimento nacionalista dos alemães instalados no
Sul, propugna que: “este germanismo tem uma função voltada especialmente para as
relações de dominação entre os próprios teutos e de forma alguma representa uma
oposição ao status quo político no Brasil” (1987, p. 109).
72
Destarte, muitos invocavam esse germanismo para despertar um sentimento
oposto àqueles que os recebiam; um caso preocupante para a questão nacional foi a
documentação referente à Federação 25 de Julho, que mantinha em sua posse
informações que comprovavam a ação subversiva de alguns elementos alemães.
Conforme Seitenfus, “há certeza da existência de um plano de desmembramento do
Brasil preparado por organizações vinculadas à ação da embaixada (2003, p. 133).
Mesmo tratando-se de uma questão que colocava em perigo a integridade e a
soberania nacional, necessitando de uma reação urgente do governo brasileiro, nada
acontecia.
Em um primeiro momento, é possível alegar que Vargas não queria que nada
interferisse nas negociações e nos acordos que estava buscando junto à Alemanha.
Entretanto a propaganda ideológica, a criação de clubes que reforçavam o elemento
alemão, a espionagem, os planos de sublevação, entre outras ingerências efetuadas
pelos alemães, contribuíram para que o Projeto de Nacionalização tomasse maior
importância no governo.
Dada a situação, René Gertz pondera que “[...] podemos concluir que o “perigo
alemão” realmente existiu ou, no mínimo, o temor dos contemporâneos era justificado
[...] (GERTZ, 1991, p.17). Neste sentido, houve intervenção nas escolas e outras
instituições comunitárias, o uso da língua materna foi proibido em público; o governo
procurava impor o civismo através do elogio ao reforço étnico/racial.
Seyferth (2002) apregoa que tal experiência nacionalizadora teve efeitos
definitivos para o período, entre eles o desaparecimento da imprensa alemã – seja pela
circulação de jornais alemães ou publicações nacionais em alemão – e das escolas
que ensinavam em alemão e de algumas instituições culturais; mas não anularam
alguns princípios da etnicidade teuto-brasileira, especialmente aqueles vinculados à
origem
comum, ao habitus e ao processo histórico de colonização, que,
73
simbolicamente,
compõem
as
marcas
distintivas
de
uma
identidade
étnica
persistentemente reconstruída.
A demasiada insistência relacionada à nacionalização acabou gerando conflitos
com as comunidades imigrantes, uma vez que construir o nacionalismo brasileiro
significava, de diversas formas, desestruturar o nacionalismo alemão que estava
arraigado nas áreas de colonização teuta.
A polícia civil gaúcha alerta o Itamaraty, em meados de 1940, sobre a existência
de um perigo alemão nos estados do Sul, enfatizando a eficácia da propaganda
nacional-socialista em recrutar membros para engrossar suas fileiras, embora o partido
estivesse banido da legalidade. Mesmo alertado, Vargas parece dirimir a questão do
perigo alemão de forma que não atrapalhasse suas negociações com a Alemanha.
Ao compreender as meias-voltas dadas por Vargas e pela diplomacia para
atender, de um lado, as pressões norte-americanas e de outro as reclamações do
consulado alemão, concordamos com Seitenfus (2003, p. 235) quando este afirma que
embora o país fosse territorialmente grande, não possuía autonomia suficiente para
isentar-se das influências da política externa de países mais fortes como Estados
Unidos e Alemanha.
Nesse âmbito, o país optava por uma ação que se ambientava em ambos os
lados, procurando obter o maior número de benefícios possíveis, sem se envolver
integralmente no conflito armado, política que discutiremos a seguir.
1.6
A política pendular de Vargas e o rompimento com o Eixo
Desde o início da Segunda Guerra Mundial, a ideologia do Estado Novo, sob o
comando de Getúlio Vargas, apontava para um provável alinhamento do Brasil com os
74
países do Pacto de Aço – Alemanha e Itália. Vargas havia instalado no país uma
ditadura, apoiada em uma constituição centralizadora e autoritária, que guardava
muitos pontos em comum com as ditaduras fascistas.
Seitenfus (2003, p. 223) ensina que a posição dos EUA em relação ao Brasil era
bastante incômoda, precisavam solucionar as questões referentes aos acordos e
negociações econômicas e militares que estavam em curso, buscando fortalecer a
tendência democrática dentro do governo brasileiro. Em relação à política externa
brasileira:
Contrastando com a confusão reinante nas relações internacionais logo
após junho de 1940, a política externa brasileira se apresenta de
maneira singela. Assemelha-se a fins de 1937, quando a adoção de um
regime de tipo fascista coloca em oposição uma tendência liberal,
voltada para os Estados Unidos, e uma tendência totalitária, que aspira
estreitar os vínculos com a Alemanha (SEITENFUS, 2003, p. 233).
Vargas buscou manter-se neutro o máximo que pode suportar, recebendo
benefícios e mantendo acordos com os Aliados e com os países do Eixo, realizando
uma espécie de “política pendular”. No entanto, as pressões norte-americanas, após o
ataque de Pearl Harbor, foram intensas, contando com o apoio de outros países latinoamericanos e de diversos mecanismos, especificamente aqueles que foram
considerados mais eficientes: a liberação de recursos para o país e as ameaças
constantes de rompimento de relações comerciais e econômicas.
Alguns militares e diplomatas brasileiros acreditavam que o rompimento das
relações diplomáticas e comerciais com o Eixo poderia ser tratado não como
declaração de guerra, mas como uma forma de cumprimento jurídico dos
compromissos pan-americanos. Não obstante, essa falsa ideia de manutenção da paz
através do direito internacional cai quando Aranha recebe três correspondências
oriundas dos consulados eixistas, sendo em comum nas missivas o fato que qualquer
75
rompimento de relações com o Eixo seria interpretado como o estopim para a
declaração de guerra.
Foi a Conferência do Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, que marcou
profundamente a relação entre os países americanos e o Eixo. A Conferência contou
com a presença de vinte e um países e recomendou a ruptura diplomática imediata
com as potências eixistas.
O referido encontro de chanceleres acabou com as dúvidas norte-americanas
em relação ao Brasil, que por sua vez exigiu o imediato investimento financeiro dos
EUA no país, visando à manutenção dos acordos militares e econômicos que foram
premeditados durante o período de neutralidade.
Esse clima ameno prolongou-se até março de 1942, com o torpedeamento de
navios brasileiros pelo governo alemão, que até então, apoiado por vários grupos do
governo Vargas e das comunidades teuto-brasileiras do sul do país, mantinha “um
sistemático trabalho de difusão da ideologia nazista no Brasil” (BERTONHA, 2001, p.
47).
Os alemães não respeitaram a suposta neutralidade brasileira e resolveram
tomar atitudes diretas contra o país, torpedeando os navios mercantes brasileiros
destinados ao abastecimento do mercado estadunidense de matérias-primas para fins
bélicos, como a borracha. Mais do que isso, julgaram necessário revitalizar as relações
com os opositores de Vargas em caso de uma vitória do Eixo, garantindo o controle
político no Brasil; para esses fins, procuraram os integralistas para auxiliar na
preparação do pós-guerra.
Até 1942, os alemães constituíam, na visão de Dietrich (2008), apenas um
perigo étnico, porém a partir da declaração de guerra ao Eixo ganharam o status de
“perigo ideológico e militar”, iniciando-se a partir desse momento um sistematizado
76
programa de controle, investigação, vigilância e repressão generalizada acerca dos
imigrantes.
A declaração de guerra ao Eixo pelo Brasil foi oficializada em 22 de agosto de
1942 e efetivada a adesão do país na Segunda Guerra Mundial ao lado dos EUA,
tornando o alemão um elemento indesejável na sociedade brasileira. O torpedeamento
dos navios mercantes brasileiros, as constantes investidas diplomáticas e o exagero
discursivo do governo em relação aos perigos da guerra aproximaram a população do
confronto mundial e nela despertaram a “lógica da desconfiança”
23
em relação ao
elemento eixista.
Aquino (1995, p. 177) sugere que o Brasil não foi o único país que demorou a
tomar parte da guerra; o México (março de 1942), o Chile (janeiro de 1943) e por fim a
Argentina (janeiro de 1944) compunham junto ao país a lista de retardatários na
América Latina. A historiadora ainda acomete a indecisão de Vargas ao fato de o país
estar sob a égide de um regime autoritário e que passava por fortes pressões de uma
potência de regime democrático, como era o caso dos EUA.
Bertonha (2001) registra o fato de que Vargas, ao apoiar claramente os Aliados,
colocava seu próprio governo em xeque; afinal, como poderia incitar os brasileiros a
protestarem contra as ditaduras fascistas sem que
estes se revoltassem contra a
ditadura aplicada no Brasil? Outro fator negativo para Vargas era a dificuldade das
pessoas entenderem a real necessidade do país participar da guerra enviando tropas,
sendo que a guerra acontecia muito distante do cotidiano das pessoas.
23
Para uma melhor compreensão, ver: DEOPS – A lógica da desconfiança. Rio de Janeiro: Arquivo
Público do Estado do Rio de Janeiro, 1993. Outras obras auxiliam na ampliação do conhecimento acerca
do tema, como as de: MAGALHÃES, Fernanda Torres. O suspeito através das lentes. O DEOPS e a
imagem da subversão (1930-1945). São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. CANCELLI, Elizabeth. O mundo
das violências: a polícia na Era Vargas. Brasilia: EDUNB, 1993. CARNEIRO, Maria L. T.. Livros
proibidos, idéias malditas: O DEOPS e as minorias silenciadas. 2 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.
77
O ex-combatente da FEB, Boris Schnaidermann (1995, p. 285), informa que
havia grande desânimo entre os convocados para lutar na Europa, porque até mesmo
para os soldados era difícil conceber uma luta pela democracia saindo de um país
dominado por uma ditadura severa.
Reforça ainda que os estudantes nas ruas e os
quebra-quebras generalizados ocorridos em vários cantos do país eram superficiais e
que muitos julgavam não haver motivos para lutar.
Esses fatores obrigaram o governo a realizar uma política de mobilização restrita
e controlada para que não tivesse maiores problemas com a população e para que o
projeto de nacionalização não perdesse a força. Visando a um alinhamento da
população, o governo varguista criou uma série de repartições que dariam suporte às
questões de guerra, como a Comissão de Mobilização Econômica, que tomou a frente
na criação de um “front interno”.
Com a entrada efetiva do país no conflito mundial, iniciou-se um período de
escassez de alimentos, racionamento de combustíveis, carestia de preços e de medos
que até então não faziam parte do cotidiano, como a ameaça de invasão do país e da
falta total de suprimentos de primeira necessidade.
Dado o pano de fundo, procuraremos apontar, nos capítulos subseqüentes,
como a
campanha de nacionalização, iniciada em 1937, e a efetiva participação do
país no conflito bélico mundial acarretaram mudanças no cotidiano de Curitiba,
avaliando como a imprensa paranaense e as leis restritivas se constituíram em fatores
que levaram a população às ruas e a tomar medidas violentas contra os imigrantes.
Objetivamos também
apresentar a força do aparato policial da DOPS/PR através dos
seus próprios documentos, atualmente disponíveis no Arquivo Público do Estado do
Paraná.
78
2. CURITIBA: COTIDIANO DE GUERRA E CRIAÇÃO DE UM FRONT INTERNO
2.1
A criação do "outro subversivo"
O
conflito
mundial era
de
conhecimento
de
todos,
desde
os
mais
intelectualizados leitores dos jornais, os ouvintes do rádio ou daqueles que, sem
condições para se informar,, contavam somente com o burburinho coletivo das ruas e
com as conversas no intervalo das fábricas para saberem sobre o andamento da
guerra.
O Estado procurava, de todas as maneiras possíveis, atingir um número máximo
da população através do controle da imprensa escrita, dos programas de rádio; até
mesmo filmes e peças de teatro tinham o discurso estadonovista como tema. Sem a
participação efetiva da população, a centralização do poder nunca seria completa, e
para isso Vargas precisava estar em todos os lares e incutir em cada cidadão a figura
do líder paternalista e do Estado que a todos acastela, protegendo a população das
ideias exógenas de grupos alheios à manutenção da nacionalidade brasileira, como os
comunistas, os judeus/semitas, os "amarelos" e os alemães nazistas.
Tucci Carneiro (1999, p. 333) preconiza que para manter a disciplina e conseguir
manipular a massa populacional em favor do regime o Estado Novo foi pautado na
personificação central do líder, na ideia fixa de um Estado forte e controlador, na crítica
da democracia parlamentar, na contrariedade do pluralismo partidário, no combate às
ideias "exóticas" e no emprego de mecanismos de controle social e político (DOPS) e
de legitimação do regime (DIP).
Após o putsch comunista de 1935, a figura do elemento subversivo foi edificada
na figura dos imigrantes, especialmente naqueles que apresentavam as culturas de
79
menor capacidade de aculturação, como os japoneses e alemães, sendo os primeiros
por constituírem quistos raciais e serem considerados por alguns intelectuais, como
Xavier de Oliveira, Carlos de Souza Moraes, Oliveira Vianna, etc., etnicamente
desprovidos de capacidade de contribuir com a formação do elemento nacional, e os
últimos por possuírem núcleos bastante estruturados no sul do país, envolvimento com
a política e um partido constituído e em desenvolvimento.
Alves (2006, 83-84) enfatiza que os imigrantes alemães foram bem aceitos
desde a primeira metade do XIX; primeiramente porque asseguravam o povoamento de
lugares inabitados e segundo porque favoreciam o projeto de embranquecimento da
população brasileira, mas trouxeram consigo seus costumes, seu idioma e suas
tradições, que foram mantidas e preservadas ao longo de sua permanência, fatores
que seriam contrastantes com a política nacionalista adotada pós-década de 1930.
A política restritiva aos imigrantes alemães não se restringem à década de
1930/1940; a preocupação com a questão nacional é anterior ao Estado Novo. Seyferth
(2000) assinala que as primeiras ações restritivas aos grupos teutos deram-se entre
1917 e 1919 – período em que a imigração teuta no Brasil aumentou
consideravelmente devido ao êxodo germânico motivado pela 1ª Guerra Mundial –,
tendo como alvos principais a imprensa e a educação teuta. Em relação à imprensa, foi
exigida a publicação dos jornais, revistas e panfletos em dois idiomas; já na educação
as alterações foram mais enfáticas, exigia-se o ensino do idioma vernáculo,
restringindo a instrução somente no idioma alemão, e ainda se inseriam no currículo
escolar as disciplinas de História e Geografia do Brasil.
As discussões entre intelectuais brasileiros tangiam à movimentação do Estado
em relação a esses imigrantes. Podemos enunciar que alguns desses trabalhos foram
cruciais para que fosse repensada a questão da presença teuta no país, especialmente
os trabalhos de Augusto de Carvalho, na metade do XIX, as publicações de Silvio
80
Romero, no início do XX, e as discussões relativas ao "perigo alemão", na década de
1930, fomentaram a valorização do brasileiro nato, espalhando a ideia de que para ser
brasileiro não bastava ter nascido no Brasil, buscando contrastar a ideia de "juis solis24"
e "juis sanguinis25" muito utilizada pelos imigrantes e descendentes de alemães para
justificar o seu nacionalismo.
As percepções sobre os teutos vão se transformando e aqueles imigrantes que
em um primeiro momento seriam fundamentais para o embranquecimento da
população brasileira, afastando-a da degeneração da raça, passam a representar um
risco para a identidade nacional. Brepohl contribui para encontrarmos uma resposta
plausível a esse paradoxo ao afirmar que o alemão "não compartilhava do passado
desta nação e também não pertencia ao seu futuro [...] Devia, portanto, permanecer
como um simples elo intermediário na formação biológica do povo brasileiro” (1998, p.
59). Dessa forma, o que se esperava dele, além de seu trabalho produtivo e
características genéticas, era a sua escusa em relação à política e à formação cultural
do povo brasileiro.
Procuramos destacar com essa discussão que da mesma forma que esses
questionamentos atribulavam o Estado, sua repercussão também colocava a
população em uma situação de alerta em relação ao vizinho alemão, ao dono da
padaria alemã, ao técnico alemão que visitava suas casas e a muitos outros teutos que
faziam parte do cotidiano dos brasileiros.
24
A nacionalidade brasileira era entendida nos parâmetros do juis solis, que se refere ao local de
nascimento. Logo, os descendentes de imigrantes seriam considerados brasileiros e deveriam
compartilhar da cultura nacional evitando a constituição de quistos étnicos (ALVES, 2006, p.106).
25
O critério de nacionalidade adotado pelo sistema jurídico da Alemanha era o da origem sanguínea,
assim, pouco importava o local de nascimento, bastava que existisse um vínculo sanguíneo para que
esse descendente fosse considerado um alemão legítimo, fato que não impedia que os indivíduos
pertencentes às comunidades alemãs residentes no Brasil se considerassem cidadãos brasileiros.
Porém, persistia a tradição e os laços com a "mãe Alemanha" frente à identidade brasileira (ALVES,
2006, 105).
81
Com a ascensão do Estado Novo, "foram decretadas medidas que visavam a
desmantelar os laços culturais que fugissem do padrão tido como ideal. A sociedade
deveria comportar-se como um todo orgânico e nacional (ALVES, 2006, 107). O medo
foi o agente catalisador dessas ações que visavam a coagir a população a auxiliar o
Estado no controle social; o medo de ser tratado como um traidor da nação, o medo de
ser preso por corroborar com esses imigrantes, o medo religioso de estar tendo de
conversar com representantes do demônio, e diversos outros medos fomentados pelo
vasto imaginário produzido na época.
As mesmas ameaças para aqueles que apoiassem o comunismo tinham agora
uma periculosidade redobrada, afinal o "inimigo morava ao lado" e convivia no
cotidiano,
era impossível dissociá-lo da comunidade, já que muitos alemães eram
proprietários de comércios, de fábricas, participavam das missas e dos cultos, em
resumo, viviam em conjunto com os brasileiros, constituindo o cenário citadino.
Mas como diferenciá-los? Quem é o "outro subversivo"? De forma a embasar a
ideia da construção de um "inimigo comum", utilizaremos como base as discussões de
Memel-Fote e Elias:
Harris Memel-Fote analisa esta criação do "outro" inimigo a partir de
três manifestações, ou seja, quanto à natureza, a diferença entre o "eu"
o "outro" onde o Outro é o estrangeiro, de nacionalidade, de raça, de
etnia, de religião, ou de língua; quanto aos motivos, o estrangeiro é
classificado como inimigo, nunca como adversário, portanto, justifica, na
lógica da guerra, a violência contra o que considera verme, a raça
negativa, perigosa, conspiradora e traidora; quanto às manifestações,
predominam o ódio e o medo, dois sentimentos difusos, usados ao
extremo para dissimular rancores e acionar conflitos (MEMEL-FOTE
apud FÁVERI, 2005, p. 45).
Elias (1994, p. 84) considera a alteração nas relações interpessoais plausíveis –
dadas as condições de beligerância em que o Brasil se encontrava –, já que
psicologicamente o "eu" tende a sobressair o "nós" em condições de perigo iminente. O
82
autor entende que essa variação na “balança nós - eu”26
se torna totalmente
compreensível levando em consideração que dificilmente o social pode prevalecer ao
individual, porque há muitos sinais de emergência de um novo sentimento social, mas
diante do perigo ou de situações anormais sempre prevalecerá o indivíduo. Logo,, a
reação do cidadão curitibano ante as interpelações do governo a uma campanha de
nacionalização seria unicamente reprimir as causas que impediam essa “evolução
social”.
Havia clareza nos discursos de Vargas e de seus interventores, ainda mais com
o advento da guerra e o posicionamento nacional ao lado dos EUA, o "outro" era o
alemão nazista, o italiano fascista e o japonês inassimilável. Em nosso caso, em
Curitiba a figura do alemão nazista foi a mais significativa – embora o partido já
estivesse extinto desde 1938 –, em 1942, era impossível cruzar os braços diante do
chamado do Estado;era preciso posicionar-se na "luta entre o bem e o mal”.
De Fáveri chama a atenção para a construção de imaginários estereotipados,
pois na edificação da figura do "alemão inimigo" até a alegoria do nazista como o
agente do demônio foi utilizada. Apelando para
imaginários religiosos era possível
"demonizar" o inimigo, convencendo boa parte dos crédulos católicos e protestantes a
se posicionar favoravelmente às medidas nacionalistas – mesmo que estes não
entendessem o que as medidas significavam, já que o importante era manterem-se
fiéis a Deus.
O medo tinha a censura como principal aliada, e Tucci Carneiro propala que os
partidários do proibicionismo procuravam purificar a sociedade através da "prática da
censura exógena articulada pelo Estado, pela autocensura, censura preventiva e
26
Em 1987, Norbert Elias, ao estudar os indivíduos e sua relação com a sociedade, concebeu o texto
“Mudanças na Balança Nós - Eu, que posteriormente foi reunido a outros textos de sua autoria
agrupados sobre o mesmo tema, dando origem ao texto: ”A sociedade dos indivíduos”, conforme
bibliografia anexa.
83
censura punitiva" (1999, p. 333), de maneira que a população ficasse realmente
limitada a seguir as regras e atuar em favor do governo. É evidente que nem todos
sentiam essa "obrigação" para com o Estado, porém este "acionou um universo de
símbolos que tinham o poder de premiar aqueles que colocassem a vida coletiva acima
ao do indivíduo, identificando-se com uma entidade única: a nação" (CARNEIRO, 1999,
p. 334).
Essa situação criou uma intrincada rede de denúncias, tornou o ambiente tenso
e fomentou a desconfiança, fatores que discutiremos posteriormente no terceiro
capítulo, quando abordaremos a ação das delegacias de polícia, as denúncias e a ação
coletiva contra os imigrantes em Curitiba. Esses medos podem ser oportunamente
transportados para qualquer lugar naquele contexto, para a São Paulo dos japoneses
"kamikazes" ou para a Curitiba temerosa pelos ataques aéreos do Eixo.
A vida viabiliza o sentimento e a experiência do medo, de acordo com
as circunstâncias sociais, culturais, os valores vigentes as crenças, etc."
No tempo da guerra, o medo da violência e da ameaça à segurança
produzia um sistema de terror imaginário, porém real, na medida em
que induzia práticas de defesa e esconderijos (DE FÁVERI, 2005, p.
53).
A declaração de guerra ao eixo em 1942 efetivamente alterou os brios da
população, que até então convivia pacificamente com os imigrantes estrangeiros.
Depoimentos obtidos por Boschilia (1995) evidenciam essa alteração de cotidiano em
Curitiba:
Vizinhos de diferentes etnias, que antes travavam relações cordiais,
agora mal se cumprimentavam, como lembra Freya Schrappe27:
“comecei a sentir que certas amizades minhas evitavam me
cumprimentar na rua, porque eu era casada com um homem que estava
na lista negra” E dona Olga Gioppo28 complementa: “ muitas famílias
27
28
SCHRAPPE, Freya. Depoimento a Roseli Boschilia. Curitiba, 01.jun.1995. In Boschilia, 1995, p. 7.
GIOPPO, Olga. Depoimento a Aparecida Vaz da Silva. Curitiba, 11.mai.1995. In Boschilia, 1995, p. 7.
84
ficaram com as relações cortadas, porque tinha, por exemplo, uma filha
casada com italiano. De repente cortavam relações, porque não havia
mais possibilidades, eram inimigos. Luiz Groff29, garoto na época, conta
que conheceu uma senhora alemã, de Joinville, que, por não saber falar
português, permaneceu sem falar uma só palavra enquanto durou a
guerra (BOSCHILIA, 1995, p. 7).
Essas alterações transformaram os modos de relacionamentos; concordamos
que o Estado tinha o dever de proteger o país e reforçar a soberania nacional, todavia
o que intriga e torna penosa a tarefa do historiador é entender por que em Curitiba esse
discurso tornou-se tão contundente e por que os alemães figuraram como os principais
suspeitos dentro de um cenário tão variado de imigrantes.
Podemos também nos pautar na importância do momento e utilizar
a guerra
como subterfúgio para justificar as perseguições, as prisões, os atos de vandalismo e
as incansáveis páginas de jornais sobre os "alemães subversivos"; entretanto, seria
demasiado conveniente repetir algumas ideias totalitárias de alguns autores sobre a
repressão aos alemães ou simplesmente aceitar que somente a "situação beligerante"
levou a população civil a esquecer todos os anos passados em uma sociedade em que
o imigrante alemão não representava perigo algum.
Neste sentido, procuramos trilhar por alguns espaços que
fazem parte da
história, do político, mas que também permeiam as ações cotidianas, não oficiais,
mostrando como as mudanças ocasionadas pela guerra e pela criação de um "front
interno", representado pela tentativa de introjeção de um medo social, alteraram as
relações sociais, econômicas e culturais entre cidadãos curitibanos e imigrantes e
descendentes de alemães.
É possível notar como fatores menores foram constituindo um cenário histórico
dinâmico, em que a população – longe dos campos de batalha – vivenciou o medo e
sentiu a proximidade do caos. Ressaltamos o papel crucial que a imprensa escrita teve
29
GROFF, Luiz. Depoimento a Aparecida Vaz da Silva. Curitiba, 26 maio 95: In Boschilia, 1995, p. 7.
85
na perpetuação dessas medidas restritivas e na criação de uma consciência nacional
contra os imigrantes considerados eixistas.
A criação de um "estado de guerra" e o papel da imprensa como agente
manipulador da opinião pública permearão as discussões principais deste capítulo que
nos auxiliarão a galgar um degrau mais alto na compreensão da repressão a imigrantes
alemães em Curitiba entre 1942 e 1945.
2.2
A Curitiba hospitaleira, os alemães e as relações sociais e econômicas na
capital paranaense
Curitiba, que na linguagem indígena significa: "[...] curi – espinho agudo, ponta,
fino; e Tiba – de fruta, corresponde a "espinho vegetal que dá frutas". Outros autores
dão como: Cury – muito; tyba – pinhão. Curitiba – terra de muito pinhão (NICOLAS,
1973, p. 25), era constituída, em seu início, por uma população de maioria branca,
havia uma pequena elite abastada e muitos homens desbravadores de terras e
imigrantes em busca de novas possibilidades. A memorialista Maria Nicolas registra
que “A hospitalidade constituía um dos traços característicos do povo curitibano"
(1973, p. 28).
A capital Curitiba abrigava parte significativa dos imigrantes que vieram para o
estado. Segundo Boschilia (1995, p.5), esses imigrantes:
[...] que desde o final do século XIX habitavam a cidade e seus
arredores davam às ruas um colorido especial, compondo um cenário
cosmopolita, onde todos os grupos étnicos conviviam sem maiores
problemas, apesar da diversidade de línguas, hábitos e costumes.
Essa hospitalidade ressaltada por Nicolas pode estar atrelada à abertura social
dada aos imigrantes europeus após 1928, a qual beneficiou a participação desses
86
imigrantes na construção da cidade, no crescimento comercial e na expansão de suas
comunidades. O cenário cosmopolita indicado por Roseli Boschilia (1995) nos chama a
atenção, porque apresenta uma situação de interação social aparentemente exitosa
entre luso-brasileiros e imigrantes europeus.
Bragueto (1999) escreve que entre 1892 a 1915 boa parte da receita financeira
paranaense tinha origem nos impostos oriundos da atividade ervateira. O ciclo
econômico do mate e da madeira paranaense começa a declinar abruptamente em
meados de 1910 devido às intervenções do Uruguai e da Argentina ao mate e à
madeira de pinho, alegando baixa qualidade de ambos os produtos. O declínio da
venda dos principais produtos, somado à queda das exportações ocasionada pelo
clima beligerante ocasionado pela 1ª Guerra Mundial – período que coincide com o
grande fluxo de entrada de imigrantes teutos – levaram o Estado a repensar suas
práticas econômicas e a procurar novas formas de alavancar sua economia.
De acordo com o geógrafo Claudio Bragueto (1999), o crescimento industrial
teve como impulso a ocupação das terras localizadas ao Norte do Estado, que
incentivado pelo crescimento das atividades cafeeiras tomou novos rumos a partir de
1915. Foi o advento da guerra que aqueceu a indústria – parca e rudimentar – existente
no Paraná. No processo de expansão cafeeira, diferentemente dos estados de Minas
Gerais e São Paulo, os alemães não tiveram papel significativo na empreitada do
Paraná, mas contribuíram de maneira efetiva nas questões da industrialização, pelo
fato
que o processo de industrialização alemão ocorre justamente com fabricação de
máquinas para outros ramos da produção.
O Estado do Paraná vivia um período de crescimento econômico no início da
década de 1940. A Segunda Guerra Mundial, embora distante, beneficiara de diversas
maneiras alguns setores da economia paranaense. Algumas indústrias passaram a
possuir novos canais de escoamento de mercadorias, e a agricultura também
87
apresentava índices que contribuíram para o aumento das receitas do Estado. Nas
relações econômicas, a guerra acabou trazendo alguns benefícios para as indústrias
exportadoras,
provocando
aumento
na
balança
comercial.
Também
acabou
prejudicando alguns setores que sobreviviam justamente do processo inverso, a
importação de produtos. Vale ressaltar que essas mudanças não ocasionaram grandes
alterações no quadro econômico paranaense e que só após a década de 1960, com a
criação da Codepar30, a industrialização tomará fôlego e ganhará ímpeto no Estado.
30
Codepar – Companhia de Desenvolvimento Econômico do Paraná.
88
FIGURA 2 – Mapa de Curitiba em 1915
Fonte: LOSS, Marcelo Emilio. Imigração alemã. Pedra da Gazeta, Curitiba, 2005. Disponível
em: http://www.pedradagazeta.com.br/?system=news&action=read&id=673&eid=295 . Acesso
em: 02 jan. 2010.
89
Em relação aos teutos no Paraná, Abeck cita que, embora o Estado nunca
tivesse experimentado uma imigração direta de países germânicos digna de menção,
os que no Estado se instalaram progrediram e prosperaram rapidamente. Sobre a
situação econômica paranaense em relação aos imigrantes de origem teuta, o autor
preconiza que, em 1929,
[...] seguramente um terço do potencial econômico total se encontrava
em mãos de alemães, tendo naturalmente a expressão de alemães um
sentido cultural amplo, incluindo, portanto, austríacos, teuto-suiços,
teutos-russos e outros mais [...] (ABECK, 1980, p. 12).
Continuando a acompanhar o pensamento de Abeck (1980, p. 16), percebemos
em um primeiro momento grande admiração pelo elemento germânico, que segundo o
autor ocupava
pouco mais que 5% da população paranaense em geral, mas
trabalhava em todos os ramos, destacando-se em vários segmentos e influenciando
positivamente a vida econômica do Estado.
Souza (2002) pontua que ao iniciar o decênio de 1930, Curitiba concentrava
52,7% do total das empresas até então registradas na Junta Comercial do Paraná.
Destas, a maioria, 65,3%, pertencia a imigrantes e/ou seus descendentes. Se
considerarmos apenas os anos de 1920 a 1929, essa diferença aumenta: 71,7% das
empresas curitibanas haviam sido registradas por indivíduos de ascendências diversas,
não luso-brasileiras, sendo os alemães responsáveis por 45,3% dos registros.
A imigração e a colonização alemã no Paraná tiveram um importante papel no
processo de diversificação da agricultura, no processo de urbanização e de
industrialização, tendo influenciado, em grande parte, a arquitetura das cidades e, em
suma, a paisagem físico-social paranaense, sobretudo na
capital Curitiba. Essa
influência positiva ocorreu, conforme Pimpão (1974, p. 34), porque além de possuírem
uma formação profissional, os alemães não só recomendavam suas “tecnologias”, mas
90
também empregavam suas técnicas e conhecimentos, possibilitando aos brasileiros a
aprendizagem de novas técnicas e a capacidade de progressão no mercado de
trabalho.
Pimpão
(1974)
enuncia
que
os
imigrantes
alemães
contribuíram
na
popularização de vários produtos naturais brasileiros na Europa, fomentando o
aumento de exportações de minério de ferro, soja, café, algodão e madeiras do Brasil.
A vida cultural dos imigrantes também teve papel relevante na formação da cultura
paranaense e brasileira, especialmente no que tange a certos hábitos alimentares,
encenações teatrais típicas, corais de igrejas, bandas de música, entre outros.
Na área industrial, os alemães também se destacaram, como, por exemplo, na
fundição, impressora, fábrica de fitas, de fósforos, de cerveja, de pianos etc. Fugmann
(2008) descreve as inúmeras profissões que os alemães ocuparam no Paraná, e
salientaremos algumas, nas quais a inserção econômica e profissional dos elementos
germânicos lhes conferia lugar de destaque na sociedade paranaense.
Entre os inúmeros alemães citados por Wilhelm Fugmann (2008, p. 249-255), se
sobressaem Francisco Hauer, proprietário da Casa Comercial Hauer, a família Muller,
da Companhia Industrial Marumby, Guilherme Nickel Junior, responsável pelas
agências de automóveis Chevrolet e Buick, tendo seu primeiro escritório situado no
edifício do Clube Curitibano, na Rua Rio Branco, 136.
No ramo farmacêutico, citamos Ernst Sigel, Otto Reinhardt, J. F. Hertel e Edgard
Stelfeld, que além de continuar o trabalho desenvolvido pelo pai August Stellfeld à
frente da Farmácia Stellfeld, na Praça Tiradentes, foi eleito prefeito, deputado, major da
Guarda Nacional e presidente da Sociedade de Cantores Alemães.
Merece ênfase também o empreendimento de Guilherme Weiss, que com sua
natureza imaginativa e persistente fez crescer a Cerâmica de Pinhais, a qual, além de
produzir um grande número de telhas atendendo toda a região, especializou-se em
91
produtos de cerâmica de primeira classe. Para atender à demanda de pedidos, Weiss
solicitou a construção de 200 casas para seus empregados, atendimento médico para
as famílias, seguro contra acidentes e escolas para as crianças.
Outra grande empresa de Curitiba era a Cervejaria Atlântica S. A., fundada por
Karl Henn e Friedrich Jens em 1912, sendo adquirida em 1917 pela também alemã
Bromberg & Co, sob direção de Hans Wernaer. Considerada como produtora de alta
qualidade, enfrentou dificuldades no decorrer da Segunda Guerra Mundial para
importar matéria-prima – cevada e lúpulo – de qualidade. Para não perder o mercado
conquistado, optou por utilizar a cevada oferecida pelo próprio país e importar do Chile.
Além de ofertar as variadas marcas de cervejas como Astra Pilsen, Imperial Pilsen,
Curitybana, Tourinho, Soberba, entre outras, a Atlântica fabricava ainda limonadas,
água Selzer, malte e café de malte.
Já a Essenfelder & Cia, de propriedade de Floriano Essenfelder, fabricava
pianos de calda e pianofortes, utilizando para
sua fabricação as madeiras nobres
existentes no país e no mundo. Essenfelder realizou inúmeros cursos em indústrias de
pianos alemãs, e seu trabalho nessas empresas o capacitou a realizar infindáveis
melhorias na fabricação do instrumento. Na perspectiva de Fugmann (2008, p. 286),
essas contribuições são ainda consideradas no processo moderno de fabricação de
pianos. Curitiba também contava com o experiente Franz Hertel, profissional da
afinação e consertos de piano, fundando com dificuldades a Casa de Música na Praça
Dr. Generoso Marques.
A família Glaser também faz parte da história vitoriosa de muitas famílias alemãs
no Paraná. Josef Glaser foi dirigente da primeira banda de música de Curitiba, seu filho
Wenceslau Glaser fundou, juntamente com seus filhos, a W. Glaser & Cia, uma grande
casa comercial de produtos variados que iam de armarinhos a gasolina. Fundou
também a fábrica de fósforos Mercúrio, que em 1925 foi integrada à Glaser & Cia.
92
Wenceslau Glaser – pai – ainda conquistou alto posto na Guarda Nacional e foi eleito
presidente da Junta Comercial do Paraná.
Uma das trajetórias de destaque é a de Erasto Gaertner, que ascendeu
profissional e politicamente em Curitiba. Descendente de alemães, nascido em 1900,
formou-se em medicina e em 1927 foi admitido como professor na Faculdade de
Medicina do Paraná. Em 1932, ingressou na vida política, sendo o deputado mais
votado nas eleições; sua trajetória política foi extensa e no início da década de 1950
acabou eleito prefeito da cidade de Curitiba.
Entre os vários profissionais alemães reconhecidos em Curitiba, destacamos
também o engenheiro e construtor Wielland, o geógrafo Reinhard Mack, os
agrimensores-arquitetos Frederico Kirchgaessner e João Schleder Sobrinho; o
tipografo Max Schrappe, o fabricante de cofres-fortes Frederico Rauch, entre muitos
outros.
Comparando os imigrantes de origem alemã com outras etnias, percebemos que
os primeiros alcançaram patamares muito mais altos do que os poloneses ou italianos
que tinham suas atividades basicamente voltadas ao trabalho agrícola. Essa ascensão
econômica conquistada pelos imigrantes de origem germânica fez com que, a partir
das gerações seguintes, muitas famílias passassem a buscar a ascensão social e
política junto à sociedade curitibana, como apontamos em alguns exemplos acima.
Desse modo, ao contrário de seus pais e avós, muitos descendentes investiram em
uma formação universitária sólida que possibilitasse sua inserção em profissões
liberais, como medicina, engenharia e direito, ao invés de exercerem as funções de
comerciantes ou industriais.
Esse aumento crescente das relações comerciais e sociais deu novo impulso às
relações políticas, as comunidades teutas cresceram e se enraizaram na sociedade
curitibana, parecia haver encontrado um local para prosperarem longe de seu país.
93
Todavia, a ascensão de Hitler na Alemanha, a situação mundial beligerante e a política
externa brasileira frente às pressões exercidas pelos EUA e a Alemanha somaram
fatores decisivos para que a declaração de guerra ao Eixo em 1942 efetivamente
alterasse os brios da população, que até então convivia pacificamente com imigrantes
estrangeiros, passando a creditar a estes o medo e a incerteza acerca do futuro da
nação.
2.3
A mobilização para a guerra: escassez de produtos x mobilização
econômica
Durante o período da Segunda Guerra Mundial, o governo tomou várias medidas
de mobilização que interferiram no modus vivendis do brasileiro. No Paraná, essas
medidas de mobilização – que visavam à construção de um “front interno” – se
repetiram e repercutiram avidamente no cotidiano da população.
Apresentaremos
como essa mobilização foi inserida na capital paranaense e como a "economia de
guerra" modificou o cotidiano das pessoas, alterando hábitos alimentares, sociais e
culturais. Contaremos com a fonte jornalística – oriunda de alguns jornais que
circulavam em Curitiba entre 1942 a 1945 – para
relatar as principais alterações do
cotidiano citadino.
A criação de um “front interno” ou de um sentimento de guerra fazia-se
necessária para que
ocorresse um alinhamento entre a população e o governo. Era
preciso manipular a massa – dos operários aos patrões – de forma que aceitasse e
contribuísse com as ações que o governo tomara diante da Segunda Guerra Mundial;
afinal, o Brasil alinhara-se contra os regimes ditatoriais e fascistas em nome de um
94
poder democrático. Mas como fazer as pessoas acreditarem nisso ao executar no país
um governo autoritário, dito ditatorial?
Uma maneira
amplamente explorada foi a mobilização social, cultural e
econômica, o racionamento de alimentos, a falta de combustíveis, as notícias
veiculadas em jornais e no rádio, os exercícios de blecaute, o cinema, as alterações no
modo de relacionar-se com as pessoas e o controle do Estado em todos os meios de
vida fez com que a guerra – ou os seus efeitos
– ficassem mais próximos das
pessoas, criando uma espécie de "front interno" ou uma "economia de guerra", embora
a guerra propriamente dita estava se desdobrando em palcos muito aquém do Brasil,
mais ainda da capital paranaense.
Os jornais curitibanos – sendo a Gazeta do Povo, o Diário da Tarde, o Correio
do Paraná utilizados nesta pesquisa – tiveram papel crucial na construção e na
mobilização desse "front interno". É certo que boa parte desses jornais estava repleta
de notícias de guerra e que boa parte dessas manchetes tratava do número de
batalhas, mortos, feridos e possíveis ações dos Aliados e do Eixo.
A Gazeta do Povo, por exemplo, tinha uma chamada diária intitulada "A
GUERRA DIA-A-DIA", que reeditava as manchetes de agências internacionais de
maior relevância. Vale questionar se a intenção era somente informar, mas dada a
quantidade de páginas e de notícias vinculadas, podemos creditar-lhe
uma questão
maior, que seria a afirmação da periculosidade da guerra, alarmando a população para
um possível envolvimento do país, não só com soldados e matérias-primas, mas como
cenário de batalhas e de ações bélicas.
Em sua grande maioria, as páginas dos periódicos eram cobertas com notícias
internacionais referentes à Segunda Guerra; somente algumas partes destinavam
espaço para as notícias locais, principalmente as páginas de esportes e a coluna
social; pouco dos jornais tratava diretamente da situação da capital paranaense e das
95
questões relativas a sua população. São justamente essas páginas que nos interessam
para esta pesquisa, as quais, mesmo compondo parte minoritária nas grades de
notícias, auxiliarão na compreensão do período ao que nos propomos a estudar.
Em notícia da Gazeta do Povo divulgada em 14.05.1943, o jornal chama a
atenção de seus leitores para uma possível intervenção do governo no controle e no
racionamento do açúcar31. Ainda no mesmo dia é notíciado que o café seria adquirido
sob controle do Acordo Americano; logo, as mais de 139 mil sacas de café retidas no
Paraná seriam adquiridas pelo Departamento Nacional de Café por 2% a menos do
preço estipulado em lei, visando a atender aos contratos de exportação e ter controle
sobre a produção do grão em todo o país. 32
Outras questões levantadas referem-se ao racionamento do trigo paranaense,
que paradoxalmente tem sua produção elevada em 194333, e mesmo assim a questão
da falta de pão na mesa dos paranaenses é caótica. De acordo com a notícia, o
problema do trigo refere-se muito mais aos problemas do escoamento dos grãos do
que à falta do mesmo, visto que o sistema de transporte era precário e a situação das
estradas mais ainda.
Mediante a situação das questões alimentares, foi criada a Comissão Estadual
de Preços (CEP), sob a presidência de Oscar Borges, a qual tinha como principal
função fornecer dados para a Comissão Federal de Preços e dar sustentabilidade às
atividades das Comissões Municipais de Preços, bem como
a atribuição de receber,
examinar e decidir sobre reclamações de preços, realizar pesquisas econômicas e
controlar os estoques de itens essenciais. A Comissão ainda agrupava dados de 48
municípios, organizando um quadro comparativo que tinha por objetivo o reajustamento
dos valores dos itens sob fiscalização.
31
Gazeta do Povo, Curitiba, 14.05.1943, p. 02.
Gazeta do Povo, Curitiba, 14.05.1943, p. 03.
33
Gazeta do Povo, Curitiba, 15.05.1943, p. 03.
32
96
De acordo com a CMP da Prefeitura Municipal de Curitiba, todos os
comerciantes deveriam deixar as tabelas de referência – conforme modelo reproduzido
abaixo – à disposição dos fregueses, e a não observância dessa ordem resultaria em
punição e multa. Regularmente eram emitidas novas tabelas e colocadas à disposição
da população nos jornais; aferimos essas tabelas em todos os jornais observados
durante a pesquisa, todas elas possuem referências para frutas, verduras, peixes, aves
e combustíveis, liberando valores para varejistas e comerciantes ambulantes.
97
TABELA 4– Regulamentação de preços de produtos pela CPMC – 1943
Prefeitura Municipal de Curitiba – Secretária - Comissão de Preços
Em comprimento as disposições constantes da Portaria n° 36, do Coordenador da
Mobilização Economica, a Comissão de Preços do Municipio de Curitiba, constituida
na forma da regulamentação dada à aludida portaria, e devidamente autorizada
pela Comissão Estadual de Preços, aprova, a título precário, a seguinte tabela de
preços, que são considerados como preços máximos pelos quais devem ser
vendidas as mercadorias abaixo relacionadas, a partir desta data e até o dia 15 de
dezembro próximo: Nas casas de
Nos ambulantes,
varejo
carros, caminhões
Frutas
Cr$
Cr$
Abacaxi, unidade
1,50
1,20
Laranja comum do Estado, duzia
0,60
0,40
Mamão, quilo
2,40
2,00
Verduras
Aipim, quilo
0,50
0,40
Alface, cabeça
0,20
0,20
Cheiro verde, molho
0,10
0,10
Peixes
Bacalhau nacional, quilo
7,00
Perna de moça, quilo
4,50
Sardinha, quilo
1,00
Aves
Frango morto e limpo, quilo
5,50
Galinha viva, quilo
3,50
Ovos de granja, duzia
4,60
Combustiveis
Carvão a granel, quilo
0,50
Lenha bruta, metro cubico
15,00
Os comerciantes são obrigados a colocar bem à vista dos fregueses a presente
tabela, impressa pela Prefeitura. As mercadorias e produtos expostos à venda no
Comércio Varejista e constantes da presente tabela de preços devem ser
obrigatoriamente acompanhados de legenda, que designe, mediante facil leitura, as
respectivas qualidades e preços de venda.Os infratores desta tabela serão punidos
de acordo com o artigo 6° do Decreto-Lei n° 4.750, de 28 de setembro de 1942, e
Portaria n° 40, de 19 de janeiro de 1943, do Coorde nador da Mobilização
Economica, além das penalidades cominadas na legislação municipal.
Em 15 de maio de 1943
ROZALDO G. DE MELLO LEITÃO
Presidente da Comissão
Fonte: Gazeta do Povo, Curitiba, 16/05/1943, p. 3. A lista compreende muitos
outros itens, reproduzimos alguns itens para dar idéia do tipo de tabelamento
realizado pela CME.
98
Em 14.05.1943, foi legalizado o controle dos estoques de sal e açúcar pela
CME, ficando definido o dia 25 do mesmo mês para que fosse realizado em todo o
Paraná um levantamento desses itens. Toda indústria, empresa ou produtor deveria ter
seus estoques contabilizados para que pudessem traçar um correto racionamento
desses bens. A questão não era apenas possuir uma noção da quantidade de sal e
açúcar existentes no Estado, mas a partir do mês de junho controlar toda a entrada e a
saída desses produtos. Vale ressaltar que esse controle acarretou o desabastecimento
de muitos comércios, deixando os consumidores sem possibilidade de compra.
Procuravam-se alternativas para diminuir os "efeitos da economia de guerra", e a
forma mais prática de obter produtos alimentícios era submeter-se ao câmbio negro;
havia vários revendedores de produtos, sobretudo do trigo conseguido na Argentina, e
geralmente
os produtos eram transportados escondidos em carroças carregadas de
feno; os valores eram altíssimos, já que os atravessadores justificavam os preços
devido ao aumento demasiado do custo de vida e aos riscos do comércio realizado
ilegalmente.
Nada impedia o trânsito de mercadorias "fora do controle do Estado", nem as
constantes chamadas enérgicas contidas nos jornais, alardeando que a "polícia será
enérgica contra aqueles que forem apanhados em flagrante transgressão, sonegando
os estoques ou cobrando preços excessivos ou praticando qualquer abuso, que pode
contribuir para a alta indevida dos gêneros de primeira necessidade."34
Logo as reclamações começam a eclodir, os preços altos, a baixa quantidade de
produtos em estoque e a inflação prejudicam o cotidiano familiar paranaense. As
atitudes do governo parecem ser efetivas para a prevenção da situação, mas acima
disso são medidas figurativas, que "se materializam por um acentuado volume de
34
Correio do Paraná, Curitiba, 01.07.1942, p.04.
99
medidas respeitantes às emissões de papel-moeda, racionalização da produção,
controle de preços, direção da distribuição, e mais providências decorrentes desse
estado de coisas"35
Ao que tudo indica, foram infrutíferas as tentativas de controle originadas com a
fundação da Comissão Estadual de Preços e das Comissões Municipais. Naquele
contexto, através do disposto na Portaria 14336, do Ministério da Coordenação da
Mobilização Econômica, foi criada, em 13 de outubro de 1943, a Comissão de
Abastecimento do Estado do Paraná – tendo como presidente o interventor estadual
Manoel Ribas – visando a centralizar a política de preços e os métodos da distribuição
de mercadorias.
Com a criação do órgão supracitado, ficam obsoletas a Comissão Estadual de
Preços e as Comissões Municipais de Preço do Estado do Paraná; naquele momento,
o Estado buscava obter o maior controle possível de todos os seus órgãos e a
regulamentação do abastecimento deveria estar sob a tutela de apenas um
departamento centralizado, que ditaria as regras para todos os municípios de forma
padronizada.
Tão logo o Comitê de Abastecimento do Estado do Paraná foi posto em
funcionamento percebeu-se que não havia controle algum pelos órgãos anteriores e
que alguns produtos deveriam ser imediatamente fiscalizados para cumprir as
determinações nacionais de racionamento, principalmente do açúcar e do sal. Para
legalizar essa questão, foi lançada mão de várias portarias que controlavam todo tipo
de importação e exportação de açúcar e sal no Estado do Paraná, obrigando que se
cadastrassem todos aqueles, pessoa jurídica ou física, que tivessem trato com os itens
35
36
Gazeta do Povo, Curitiba, 16.07.1943, p. 03.
Coordenação Mobilização Econômica, Pasta Temática 395, Topografia 44.
100
regulamentados. Também havia uma portaria que obrigava
os fornecedores a
apresentarem a quantidade de estoque existente em seus depósitos.
Foram criados também documentos de controle padronizados pelo CAEP, como
a ficha de importação de açúcar ou movimento de açúcar e movimento de sal. Esses
formulários, que deveriam ser corretamente preenchidos e encaminhados à CAEP
através de seus respectivos representantes, forneceriam informações pertinentes ao
biênio 1942/1943 de toda a movimentação ocorrida no Estado. Infelizmente não havia
disponível no acervo do Arquivo Público nenhum desses documentos de controle para
servir de amostragem, apenas os citamos por constarem na portaria que legalizava sua
criação. 37
Em 08/11/1943, Manoel Ribas decretou, através da CAEP, que todo tipo de
exportação de açúcar e sal do Estado do Paraná estava proibida até segunda ordem,
porque esse trabalho seria realizado pelo comitê, desde a importação, exportação e
transporte interno das referidas mercadorias. Essas determinações
resultaram em
mais um sortimento de formulários e documentos de controle, tais quais: “Guia de
liberação de açúcar/sal”, “Guia de desembaraço de açúcar/sal” e “Registro de
liberação”. Foram registradas no referido órgão estadual 104 empresas importadoras
de sal e 201 importadoras de açúcar em todo o Estado, distribuídas em várias cidades,
com maior concentração em Londrina, Cambará, Ponta Grossa, Ribeirão Claro e
Curitiba.
Também foram organizadas fichas cartográficas para controle dos seguintes
itens de subsistência: batata inglesa, café em grãos, milho, arroz, feijão, farinha,
banana e laranja. Após minucioso trabalho, a Comissão Mixta de Tabelamento e
Racionamento criou para Curitiba uma tabela de preço para os gêneros de primeira
37
Portaria n° 143 – CAEP – Curitiba – 13 de outubro de 1943 – Coordenação Mobilização Econômica,
Pasta Temática 395, Topografia 44.
101
necessidade, encarregando os prefeitos dos outros municípios a fazerem o mesmo
com base nos valores aferidos pela comissão.
Produtos de primeira necessidade, como açúcar, trigo, sal, carne e manteiga,
passaram a faltar na mesa dos curitibanos; para comprar pão, era necessário acordar
de madrugada e enfrentar filas intermináveis; segue pequena transcrição do
depoimento do cidadão curitibano Raul Reinhart38:
Então a gente sabia: ah! Vai ter pão lá na Rua Barão do Rio Branco, lá
embaixo. Então você levantava às 4 horas da manha pra ir comprar
pão. Eu ia com a empregada, entrava numa fila enorme pra comprar
pão (BOSCHILIA, 1995, p. 35).
Fator relevante é que os alemães tinham grande participação na fabricação de
pães em Curitiba; a maior empresa do gênero era a Theodoro Schaitza e Cia – de
propriedade de um alemão e de um brasileiro nato – que possuía mais de setenta
funcionários, sendo mais de 2/3 brasileiros, empresa responsável por boa parte da
demanda do município. Luiz Groff39 relata que:
Não se comprava pão em padaria. Nós comprávamos pão no armazém
da Anna Schwnazer, alemã, na Rua Sete de Setembro. Lá na dona
Anna você tinha direito uma cota de pães, um certo número de pães,
porém a farinha começou a chegar misturada...o pão era escuro por
dentro (BOSCHILIA, 1995, p. 36).
Quando o problema da falta do trigo atingiu o auge, outras soluções foram
procuradas pelas donas de casa. Boschilia (1995) revela que as famílias de imigrantes
mais abastadas com contatos familiares em Santa Catarina substituíam a farinha pelo
macarrão industrializado oriundo da Argentina. Através da mistura de macarrão, ovos,
leite e fermento conseguia-se o pão, muito mais caro e mais trabalhoso, ao contrário do
38
REINHART, Raul. Depoimento a Aparecida Vaz da Silva. Curitiba, 18 set 1995. In: Boschilia, 1995, p.
35.
39
GROFF, Luiz. Depoimento a Aparecida Vaz da Silva. Curitiba, 26 maio 95: In BOSCHILIA, 1995, p. 36.
102
"pão-de-guerra" idealizado pelo Estado Nacional, que conforme Cytrynowicz (2000) foi
mais uma tentativa por parte do governo de tornar o pão um fator político da
consolidação do “front interno”, porém inaceitável aos olhos do povo.
A mobilização do pão em São Paulo deu-se com o lançamento, por
parte do governo federal, de um "pão de guerra", integral, e de preço
mais barato que o pão feito de farinha de trigo. O pão de guerra foi
definido em 4 de setembro de 1942 durante a primeira reunião da
Coordenação da Mobilização Econômica, órgão criado pelo governo
federal para gerir a economia "de guerra". Em 13 de outubro de 1943, a
Comissão de Abastecimento do Estado tabelou o preço do pão. A
fórmula do pão de guerra era baseada em um aumento da extração da
moagem do trigo de 70% para 80% a 85%, implicando o aproveitamento
de parte dos envoltórios da semente e do germe, o que provoca uma
alteração na cor da farinha e um escurecimento do pão (o que na
década de 1990 se tornou o preferido, em alguns setores das classes
médias e altas, "pão integral") (CYTRYNOWICZ, 2000, p. 55).
Até mesmo o cigarro teve seus custos aumentados e sua distribuição regulada,
com base na arrecadação pública oriunda da comercialização do tabaco e na alegação
de que o cigarro nunca recebera um reajuste de preço considerável, e que esses
novos valores atenderiam à necessidade de uma maior arrecadação por parte do
Estado.
O Decreto-Lei n° 5217 do Governo Federal 40 estipulou que, a partir de
12/04/1943, os cigarros sofreriam reajustes que variariam entre 30% e 50%. Na
entrevista concedida pelo presidente da Cia. Lópes Sá Industrial de Fumos, o
posicionamento das tabacarias era fruto do alinhamento das políticas de guerra e que o
patriotismo dos produtores de fumo, negociantes e consumidores de cigarros fez-se
importante nesse momento tão grave para o país. 41
40
41
Decreto Lei N° 5217 de 11.03.1943 reajusta a incid ência do imposto do consumo sobre o fumo.
Gazeta do Povo, Curitiba, 04.05.1943, p. 03
103
2.3.1 A guerra dos combustíveis
Outro item que sofreu sérias restrições foram os combustíveis, principalmente os
derivados do petróleo. Inicialmente, limitou-se o horário para a comercialização da
gasolina, mas prevendo uma possível escassez e elevação do preço, em junho de
1943 foi criado o decreto-lei número 37, que definia uma cota máxima para utilização
de gasolina: os proprietários de caminhões poderiam abastecer duzentos e cinquenta
litros e os proprietários de carros leves quarenta litros por mês.
Foi também estabelecida uma ordem para todos os municípios paranaenses,
obrigando-os a reduzirem em trinta por cento o consumo de combustíveis. A falta de
gasolina teve que ser superada e com isso "surgiu para sucedâneo do precioso líquido
combustível, o carvão vegetal, combustível sólido, que adaptado aos motores de
tração, através dos aparelhos de gasogênio tem produzido salutares resultados para os
transportes”. 42
Essa era a impressão inicial que as campanhas queriam passar à população,
procurando dirimir as desconfianças em relação ao novo combustível para os veículos.
Ressaltamos que não era qualquer pessoa que podia instalar um kit de gasogênio,
primeiramente pelo tamanho da "parafernália", e segundo pelo custo elevado da
instalação.
Em Curitiba, para se instalar o aparelho completo era necessário recorrer a
várias empresas; em geral o modelo mais popular era fabricado pela Olsen, em
parceria com a Fundição Muller (tambores e componentes), Casa Nickel (montagem e
instalação) e Eletro Aço Altona de Blumenau (que fundia os funis queimadores).
42
Gazeta do Povo, Curitiba, 01.06.1943, p. 03
104
Nos jornais, havia propagandas constantes do gasogênio e de empresas que
faziam sua instalação. Uma das propagandas mais comuns era a da General Motors,
que, além de divulgar seu serviço, ainda fazia uma salutar propaganda do combustível
adaptado, postulando que "o gasogênio está vencendo, a um só tempo, duas estradas
vitais para o Brasil: economizando gasolina para as frentes de luta e provendo ao
transporte interno do país."43
43
Gazeta do Povo, Curitiba, 23.05.1943, p. 8.
105
FIGURA 3 - Propaganda Gasogênio – General Motors
Fonte: Gazeta do Povo, Curitiba, 23 de maio de 1943, p. 8
106
Frente a essa situação, os bondes estavam apinhados de gente e a bicicleta
tornou-se o meio de locomoção preferido dos curitibanos enquanto persistiu o
racionamento. Nas Notas Sociais da Gazeta do Povo de 06 de maio de 1943, o
colunista refere-se aos bondes da seguinte maneira:
Os bondes têm novamente o seu prestigio, ante a falta de gasolina.
Toda a gente elegante que mora nos bairros "chics" da cidade foi
forçada a transigir com os "amarelos". E não raro vemos naqueles
veículos feios pessoas de alta representação social. A verdade é,
porém, que uma viagem de bonde não é tão desagradável. [...] Os
viajantes são variados e múltiplos. Há de tudo nos bancos super lotados
dos bondes: os operários, os funcionários públicos, os vagabundos, os
homens de negocio e as gran_finas dos bairros todas importantes... [sic]
(Gazeta do Povo, Curitiba, 06 mai.1943, p. 05).
A situação acima descrita fica bem delimitada ao traçarmos um paralelo com a
descrição de Cytrynowicz para a questão do gasogênio em São Paulo. De acordo com
o autor, "O front interno se define nesta mobilização interclasses que torna todos
igualmente afetados pela escassez de combustível e no esforço de superação da
escassez via uso do gasogênio” (2000, p. 69).
Em 1944, até os hospitais da capital paranaense tiveram que tomar medidas
especiais para contornar a situação; no ofício 158/44 do Departamento Médico Legal,
em 12/07/1944, o Dr. Alô Guimarães, Diretor do Órgão, comunica ao delegado do
DOPS/PR que motivado pelo racionamento de gasolina e pelas difíceis condições de
adaptação das ambulâncias o Posto de Assistência Pública passaria a atender
somente os casos de ordem médica policial.
O grande problema dos hospitais era adaptar os tambores de queima nas
ambulâncias; diferentemente dos carros de passeio e caminhões, os veículos
hospitalares não possuíam um local adequado para receber a "geringonça" e também
deveria ser considerada a velocidade que o gasogênio imprimia aos motores e o tempo
que este levava para funcionar. Havia grande diferença em ligar um veículo a gasolina
107
e um a gasogênio; no primeiro a partida era imediata, já no segundo, se não houvesse
um bom tempo de queima do carvão, a ventoinha não acionava.
Na Curitiba dos tempos de guerra, alinhada aos meandros da nação, havia
também aqueles que burlavam as normas e safavam-se dos empecilhos do
racionamento de gasolina utilizando-se de subterfúgios. Alguns proprietários de
veículos "faziam de conta" que estavam trafegando graças ao gasogênio, quando na
verdade o tanque estava repleto do combustível proibido. Para não serem apanhados
em flagrante e responder judicialmente à infração, instalavam uma luz na fornalha do
tambor e a revestiam com um papel vermelho para que desse a impressão que o
carvão lá dentro queimava.
2.3.2 O cinema contra o “barbarismo” do eixo
Os meios de entretenimento também tiveram suas programações alteradas, os
cinemas eram obrigados a exibir duas vezes por mês os comunicados do governo e
por diversas vezes exibiam filmes e documentários de guerra. Uma depoente curitibana
opina sobre as sessões de cinema em Curitiba:
Era só filmes de guerra que passava. Documentário, a gente assistia, ia
ao cinema e assistia muito jornal, documentário, aquilo, os filmes que
vinham dos Estados Unidos(...). Era só filme de guerra em que o
bandido era sempre o alemão, depois os japoneses, depois os italianos
(...)44
Ao analisar alguns dos periódicos divulgados em Curitiba, percebemos que
havia várias chamadas do DIP para que a população fosse ao cinema assistir aos
44
GUTIERREZ, Olga. Depoimento a Aparecida Vaz da Silva. Curitiba, 10 maio 1995.
108
comunicados e os anúncios oficiais. No Cine Luz no Paraná, em meados de 1942, foi
realizada uma sessão cinematográfica especial, que contou com a presença do
interventor Manoel Ribas, do Capitão Fernando Flores, do prefeito, do arcebispo, de
inúmeros jornalistas e figuras importantes da política. A sessão, composta de cinco
apresentações recém-criadas pelo DIP, de acordo com a matéria do jornal45 foi
aclamada por todos e logo após o término das exibições na capital seria dirigida a
outras cidades do Paraná a fim de informar também as populações do interior.
Os filmes exibidos tinham temas completamente voltados às questões da pátria
e da guerra. Boschilia expõe que "as salas apresentavam quatro sessões diárias,
sempre a partir da 14 horas. Antes do filme, assistia-se aos cines-jornais nacionais e
internacionais com informações da guerra, do mundo e do Brasil" (1995, p. 46). Nos
cartazes abaixo, podemos evidenciar os títulos de alguns filmes que estavam em cartaz
à época.
45
Gazeta do Povo, Curitiba, 01 de maio de 1943, p. 03.
109
FIGURA 4 - Cartaz Cine Curitiba
Fonte: Gazeta do Povo, Curitiba, 04 de maio de 1943, p. 05 – Biblioteca Pública do
Paraná
FIGURA 5 - Cartaz Cine Imperial
Fonte Gazeta do Povo, Curitiba, 05 de maio de 1943, p. 05 – Biblioteca Pública do
Paraná
110
Nos jornais da época era possível contemplar diariamente a programação
cultural e o que estava em cartaz nos cinemas e nos teatros. Convém lembrar que não
havia uma quantidade tão grande de salas e tampouco grande variedade de filmes e
apresentações. No primeiro cartaz, evidenciamos a apresentação de uma reportagem
nacional no Cine Luz que trata do encontro entre Vargas e Roosevelt na base de Natal,
RN, assunto estritamente político e que não nos parece ser um tipo de programação
que lotaria a sala de exibição. Todavia, temos que convir que boa parte da
programação era de autoria do Departamento de Imprensa e Propaganda; logo, não
havia muitas escolhas e as poucas que havia passavam pelo crivo severo do governo.
No Imperial – que junto com o Luz, o Ópera, o Palácio, o Avenida e o
Independente compunham os mais luxuosos cinemas de Curitiba – a exibição de
cinematografia parece ser bem mais convidativa, já que se trata de um "drama
alucinante da atualidade mundial". Embora o mesmo não pedesse os motes de guerra
e tivesse seu tema central voltado às questões políticas internacionais, ainda assim
merecia mais animação do que assistir ao encontro de militares na base de Natal.
Todas essas notícias nos ajudam a demonstrar como estava formado o tráfego
de informações entre o governo e a população, como eram permeadas as questões do
dia-a-dia. Todas as intervenções tinham seus desdobramentos no cotidiano da
população curitibana, e o próprio ato de assistir a um filme era cerceado pelo DIP, as
raras opções de entretenimento também estavam sob o controle do Estado, em nome
de um nacionalismo recente que precisava ganhar força dentro das comunidades para
que se tornasse legítimo.
O DIP ainda exibia regularmente uma espécie de "cinema educativo" com
entrada franca e com intuito de informar e instruir toda a população:
111
Dentre os filmes da atualidade de guerra será projetado na tela o filme
"Combate as bombas incendiárias", filme este que instrue [sic] a todo
o cidadão como deve precaver-se contra as bombas incendiarias e
o cuidado que deve ter para combatê-las. É uma película que
também interessa os donos de casa. Alem do filme já mencionado
serão exibidos hoje [...] "Notícias da guerra" que nos mostra fases as
mais recentes da guerra atual. [...] (Grifo nosso) (Gazeta do Povo,
Curitiba, 05 de maio de 1943, p. 06).
Essas apresentações eram constantes, tinham total divulgação na imprensa
curitibana e faziam parte da programação do DIP para que os cidadãos tivessem a
versão oficial – no caso a versão do DIP – dos fatos de guerra e das ações tomadas
pelo governo nacional. Entre as inúmeras chamadas existentes nos jornais para
apresentações do mesmo teor, destacamos a pequena passagem acima que ressalta a
importância do combate às bombas, pois boa parte dessas notícias tinha a função de
amedrontar a população, dela aproximando os fatos e os perigos de guerra, da mesma
forma que seriam executados em Curitiba quatro exercícios de blecaute – os quais
trataremos posteriormente –, enfatizando o perigo de um ataque aéreo em massa por
agentes da força aérea alemã.
O medo auxilia na produção de sujeitos que temiam a guerra, o medo ajuda no
alinhamento da população aos mandos e desmandos do governo, a falsa ideia da
guerra ser realizada no "próprio quintal" fazia com que a população não contestasse a
legislação, não reclamasse dos decretos restritivos e muito menos se revoltasse com o
regime autoritário estadonovista. De Fáveri (2005) postula que a cultura do medo
viabiliza a mobilização para a guerra, auxilia na construção de um inimigo comum –
nesse caso os imigrantes e descendentes de alemães – e no funcionamento de todo o
aparato repressivo, alterando ainda profundamente o decorrer do cotidiano.
É interessante frisar que desde o Ofício n° 3601, d e 17 de junho de 1940,
expedido pelo Capitão Fernando Flores para todos os principais jornais e rádios de
Curitiba e região, atendendo às rigorosas recomendações do DIP eram impostas as
112
seguintes proibições a toda imprensa: a) Proibidos todos os comentários acerca da
situação do Brasil frente à America e à guerra europeia, visando à manutenção da
neutralidade sustentada pelo país; b) Publicar fatos passados do país que possam ferir
a neutralidade; c) Publicar manifestações políticas partidárias ocorridas na América; d)
Noticiarem perturbação da ordem nacional ou americana; e) Mencionar a expressão
"quinta coluna". O chefe de polícia Fernando Flores ainda acrescenta que rigorosa
fiscalização será realizada visando a manter as normas supracitadas vigentes.
A cópia do telegrama consta na pasta da Secretaria do Interior e Justiça e tem
ciência dos principais jornais e da única rádio da capital, dando aval às notificações do
DIP, O dia; Gazeta do Povo e a Radio PRB-2, o espaço referente ao Diário da Tarde e
a Gazeta do Povo está sem assinar, o que necessariamente não significa o não
cumprimento das ordens.
Essas recomendações foram suspensas automaticamente com o rompimento
das relações comerciais e diplomáticas com o Eixo, e tumultuariam as páginas de
jornais a partir de 1942 com os mais variados termos para definirem os inimigos de
guerra e com as mais intensas notícias do conflito bélico mundial.
2.3.3 Repressão nas ondas do rádio
Intervenções também ocorreram nas produções radiofônicas, a PRB2 – Rádio
Clube Paranaense –, única estação de rádio da cidade, levava ao ar o programa
Crônicas do Dia de Rodrigo de Freitas, noticiando as novas do exército brasileiro na
Itália e as ações “nefastas” dos quinta-colunas no país. O Decreto-Lei 4098 obrigava
também as rádios a transmitirem os comunicados do Serviço de Defesa Passiva Anti-
113
Aérea, Liga Brasileira de Assistência e mensagens da Comissão de Imprensa e
Propaganda.
Zucon (1997) informa que embora o rádio fosse um meio de comunicação
privilegiado através do qual os governantes se dirigiam às massas, tornava-se uma
grande preocupação, pois era o caminho mais fácil para a invasão de rádios
estrangeiras, principalmente a Rádio de Berlim.
Essa preocupação com o rádio resultou em dois decretos interessantes; o
primeiro obrigava a transmissão da “Hora do Brasil” em todos os estabelecimentos que
possuíssem rádio, conforme o Decreto-Lei número 1940, de 31/12/1939, e o segundo,
através de uma Portaria da Secretaria do Interior, Justiça e Segurança Pública
divulgada na Gazeta do Povo, em 02/09/1943, apregoava que:
Ficando os estrangeiros de nacionalidade alemã, japonesa e italiana,
residentes em qualquer ponto do território estadual, obrigados a
entregar à autoridade nacional (...) os aparelhos radiorreceptores que
possuam ou existam em suas residências ou propriedades (Gazeta do
Povo, Curitiba, 02 set 1943, p. 03).
Marlene de Fáveri (2005) assevera que a função ambígua do rádio nesse
período, de um lado temido por poder espalhar os ideais nazi-fascistas e/ou auxiliar na
comunicação dos espiões do Eixo no Brasil; do outro lado, como já aludimos, era um
aliado de Vargas na intensificação dos valores nacionais e no crescimento de sua
popularidade frente à população brasileira.
É certo que toda propaganda estava voltada à produção de imaginários sociais,
principalmente na Crônica do Dia, na qual o "exaltado defensor do civismo paranaense"
Rodrigo de Freitas utilizava-se das ondas da PRB-2 para inflamar a população contra
os imigrantes "súditos do Eixo", utilizando-se do espaço na imprensa radiofônica como
arma ideológica do regime político e exaltando "as paixões nacionais" da população
paranaense.
114
2.3.4 Arte, cultura e entretenimento em tempos de guerra
No campo artístico cultural durante o período de guerra, o teatro foi praticamente
esquecido; havia poucos espaços culturais e pouco dinheiro para investir em
entretenimento e cultura. O Teatro Hauer, uma das mais conhecidas casas de
espetáculos da capital, fechou as portas na década de 1930 por falta de recursos
financeiros, o Guayra fora reformado em 1900, mas em 1937 foi interditado por não
possuir as mínimas condições de segurança, sendo completamente demolido em 1947.
Boschilia (1995, p. 53) pontua o surgimento do Pavilhão Teatro Carlos Gomes,
em 1942, no qual os Irmãos Queirolo foram responsáveis pelas poucas atrações
culturais durante o período de guerra, e onde, além de números circenses e atrações
variadas, houve a montagem de dramas e comédias que retratavam o cotidiano local,
constituindo, segundo a autora, a principal casa de diversões da época.
A literatura retratava o nacionalismo presente nas obras de Romário Martins,
General Muricy e Arthur Martins Franco. Também fizeram sucesso as poesias de
Helena Kolody e os textos do jovem Dalton Trevisan e do poeta e prosador Rodrigo Jr.
As artes plásticas tiveram pouco destaque, tendo apenas Poty – Napoleon Potyguara
Lazzarotto – como inovador da linguagem plástica local ao abandonar as referências
estéticas fornecidas pela Europa.
A música, o teatro, a literatura e as artes em geral cresceram pouco durante a
guerra; é importante lembrar que os esforços estavam voltados a outros propósitos e
dessa forma houve pouco incentivo para o crescimento artístico e cultural em Curitiba
entre 1942 a 1945.
115
2.3.5 O mercado negro
O país enfrentava uma situação beligerante, porém nem todos os cidadãos da
capital paranaense – principalmente a elite – sujeitar-se-iam ao "pão-de-guerra", às
cotas de sal, aos cartões de açúcar e à diminuição do fornecimento de gasolina. O
mercado paralelo crescia, e embora fosse demasiado arriscado, por que não dizer que
em determinadas situações o governo fazia vistas grossas. Abordamos essa questão
com base nos comentários do presidente da CEP, Oscar Borges, ao afirmar, na Gazeta
do Povo46, que em relação ao comércio ‘por fora’ dos gêneros de primeira necessidade
não havia provas suficientes e que havia muita dificuldade para repreender esse tipo de
ação. Acrescentava que os estoques estavam sendo fiscalizados e que o CEP possuía
controle sobre estes, sendo que na verdade a situação estava fora do controle e essas
elites eram privilegiadas.
Ao analisarmos as notícias impressas nos principais jornais da capital
paranaense, notamos que a partir de 1945 há uma inversão no discurso relativo à CME
e ao CAEP. Várias reportagens tratam da não tão eficaz campanha de controle
realizada por essas comissões e ainda ressaltam que sua única serventia foi dar vazão
ao "mercado negro". Chamadas como "Ação contraproducente da Coordenação de
Mobilização Econômica" 47, "O povo que pague...” 48 e "Açúcar salgado” 49.
Sobre o mercado negro, o repórter da Gazeta do Povo foi enfático:
Especuladores, intermediários, açambarcadores, emfim [sic], toda uma
"fauna" bem organizada, vem explorando o povo de uma maneira
46
Gazeta do Povo, Curitiba,
Gazeta do Povo, Curitiba,
48
Gazeta do Povo, Curitiba,
49
Gazeta do Povo, Curitiba,
47
20.07.1943, p. 03.
04.05.1945, p. 01.
07.05.1945, p. 04.
05.05.1945, p. 01.
116
incrível e detestável. [...] Curitiba está sem açúcar. Dentro de dias,
voltaremos às "filas" e quiçá, ao mercado negro.50
A escassez foi a maneira eficaz de mobilizar a população e tornar a guerra uma
questão mais próxima, e no que tange a essa questão, Cytrynowicz expõe que:
Escassez como crise, é categoria que obscurece a produção histórica
(e, portanto política) da distribuição e da desigualdade social. Falta pão!
Economia de guerra! Escassez! A escassez naturaliza e universaliza a
falta, torna-a problema de todos, torna-a falta indeterminada e
intangível. A escassez que naturaliza a apropriação da produção por
uma classe ou frações de classe coletiviza a guerra e universaliza a
falta socialmente produzida (CYTRYNOWICZ, 2000, p. 124).
O momento atual exigia um alinhamento total da população com o governo, e
não seria possível obter resultados positivos em relação à guerra se ocorresse um
grande descontentamento popular. Logo, mobilizar a população através da
possibilidade da guerra se desdobrar em território nacional era apelar para o maior
medo existente naquele momento acima da falta de açúcar ou gasolina, da inflação ou
do desemprego. Ribas percebia isso e utilizava-se do prestígio que tinha tanto com a
elite intelectual curitibana tanto com os setores mais pobres do povo para manter o
Paraná completamente alinhado às políticas do Estado Novo.
2.4
A mobilização econômica e os órgãos de controle do estado paranaense
A Segunda Guerra Mundial trouxe aos campos de batalha o conceito de "guerra
total", no qual a mobilização de um “front interno” era tão importante quanto as vitórias
nas trincheiras. A infraestrutura para manter a guerra em curso e a manutenção militar
do país envolvia todos os recursos civis e todas as classes da sociedade. Para
50
Idem
117
Cytrynowicz, "a existência de um front interno permitiu que, via mobilização, os Estados
interviessem, em escala ampliada, em todas as esferas da vida civil e privada" (2000,
p. 102).
Nesse contexto, como ocorreu em outros países – territorialmente envolvidos – a
mobilização de um “front interno” no Brasil foi amparada pela criação de órgãos
federais e estaduais, como comitês, ligas e departamentos que visavam ao controle
social e econômico através de campanhas, movimentos e ações sociais e
comunitárias. O Paraná abrigou várias filiais desses órgãos a fim de manter firmes os
propósitos governamentais e mobilizar a população frente aos terrores da guerra.
Instalaram-se no Estado a Liga de Defesa Nacional, o Comitê de Defesa AntiAérea, o Comitê de Defesa Passiva, a Liga dos Jovens Patriotas, a Liga Brasileira de
Assistência, a Cruz Vermelha, entre outros, bem como foram realizadas por esses
estabelecimentos campanhas como a Campanha da Borracha, as Obrigações de
Guerra, a Campanha do Aço, do Estanho e do Alumínio, os exercícios de blecaute, os
cursos de enfermagem e primeiros socorros e várias campanhas de arrecadação de
donativos.
Esses órgãos governamentais figuraram na vida dos curitibanos através da
presença física de seus imponentes edifícios e muito mais no desdobramento das
ações por eles incentivadas. Para que o leitor possa entender a ação desses "braços"
do Estado na vida cotidiana de Curitiba, procuraremos apresentar brevemente os mais
relevantes e que tiveram funções amplamente ligadas com a mobilização do “front
interno” na capital paranaense.
118
2.4.1 Liga de Defesa Nacional
Dentre os órgãos instituídos para fomentar o projeto de nacionalização, a Liga
de Defesa Nacional foi o que mais teve destaque na imprensa paranaense. O Diretório
Regional era presidido pelo interventor em pessoa; Ribas tomou para si a
responsabilidade de tornar a LDN no Paraná uma realidade.
O diretório significava, dentro da política de Ribas, uma vitória à parte, porque ali
constava a fina nata da intelectualidade curitibana, contando com Brasil Pinheiro
Machado, Wilson Martins, José Loureiro, Serafim França, Romário Martins, David
Carneiro, entre outros. Benevides sugere que "o maior mérito de Manoel Ribas foi
acenar para homens de projeção na tímida vida intelectual local"51 , aproximando-se da
elite pensante paranaense e fazendo com que ela atuasse a seu lado.
A importância dessa aproximação dá-se pelo fato do conservadorismo
paranaense – representado por essa intelectualidade – ser um obstáculo duro a ser
vencido, especificamente por uma interventoria de caráter ditatorial e pela resistência
que estes tinham ao Estado Novo. Benevides (1991) propala que o interventor teve
êxito em "domesticar as classes conservadoras interessadas na manutenção de seus
privilégios"52, já que que a maioria dessas figuras proeminentes o combateram no início
da década de 1930, quando havia sido nomeado para a interventoria estadual e seu
modelo de governo "modernizador" era visto com desconfiança por eles.
Ao ser instalado no final de março de 1942, o diretório recebeu a incumbência
de dar conta de fiscalizar e gerenciar todo tipo de manifestação patriótica,
particularmente os comícios, haja vista que no início daquele mês a capital vivenciara
51
52
Benevides, 1991, p. 25
Idem, p. 12
119
uma noite caótica, quando mais de dez mil pessoas saíram às ruas "exercendo seu
civismo patriótico" contra os imigrantes eixistas.
A LDN era o órgão que tinha apreço inconteste do Presidente da República e do
interventor estadual; por conseguinte, antes mesmo da homologação oficial a
discussão acerca da instalação do Diretório Regional propiciou aos jornais um vasto
número de páginas. Chamadas variadas noticiavam a chegada da LDN ao Paraná e
ressaltavam a iniciativa de Ribas e de seus companheiros.
O Diário da Tarde noticiou a instalação da LDN como "Paraná viveu sua maior
hora cívica”
53
; a Gazeta do Povo como "Sublime espetáculo de civismo e brasilidade”
54
. Ambos os jornais divulgaram, no dia seguinte da cerimônia, os principais objetivos
do Diretório Regional da LDN. Dentre os muitos itens que compunham as diretrizes da
organização, destacamos o principal, que tratava de: "Manter, em todo o Brasil a idéia
de coesão e integridade nacionais, procurando facilitar e desenvolver as comunicações
morais e materiais entre as unidades de nossa pátria”
55
Logo, manter a população
alinhada às premissas do Estado Novo.
De acordo com Boschilia (1995), a LDN permeava todas as questões relativas
às datas comemorativas e eventos de importância nacional, como o desfile do Dia da
Independência e outras manifestações cívicas que reuniam milhares de pessoas nas
ruas da capital. Outra atividade
característica da LDN era criar e desenvolver
campanhas de arrecadação de fundos para a guerra e promover cursos para a
formação de telegrafistas e operadores de rádio.
53
Diário da Tarde, Curitiba, 26 de março de 1942, p. 01.
Gazeta do Povo, Curitiba, 26 de março de 1942, p. 01.
55
Diário da Tarde, Curitiba, 23 de março de 1942, p. 01.
54
120
2.4.2 Comitê de Defesa Passiva Anti-Aérea
Em 01 de julho de 1942, foi divulgada, no Correio do Paraná, a instalação da
Defesa Anti-Aérea de Curitiba, e em consonância com o referido periódico:
Curitiba, dada a sua importância, não poderia ficar alheia a esses
movimentos. E dessa maneira, o Interventor Manoel Ribas
regulamentou o assunto através do decreto n° 720, c onfiando à visão
esclarecida e ao dinamismo empreendedor do Prefeito Rosaldo Gomes
de Melo Leitão, a delicada incumbência de promover o estudo,
coordenação e organização do plano geral de serviços da defesa
passiva anti-aérea desta capital, plano que servirá de base a defesa dos
demais núcleos populares do Estado (grifo nosso)56 (Correio do Paraná,
Curitiba, 01 de julho de 1942, p. 01)
A criação do referido comitê teve como alicerce a maior preocupação com a
organização coletiva em deferência aos ataques aéreos japoneses realizados em Pearl
Harbor em 1941 e ao torpedeamento do navio Cabedelo na costa do Atlântico em
fevereiro de 1942.
Em Curitiba, circulavam cartazes da Comissão de Defesa Passiva Anti-Aérea
ensinando a população a se proteger em caso da cidade ser atacada. Frisamos que
esses cartazes, além de alertar a população e retratar a preocupação do Estado com
relação à proteção das pessoas, tinham uma função subliminar, que era incutir na
população o medo da guerra; afinal, aquilo que é experimentado tem muito mais
possibilidade de tornar-se real. A população precisava sentir-se próxima do problema e
ser envolvida por ele de maneira tão uniforme que pudesse cometer qualquer ato em
nome da nação brasileira.
Além de panfletos, cartazes e das notícias na imprensa, o CDP organizou em
Curitiba quatro exercícios de blecaute. Em um primeiro momento, o trabalho era
56
O nome correto do Prefeito de Curitiba é Rosalvo Gomes de Melo Leitão.
121
realizado pelo Serviço de Divulgação e Propaganda (SDP), que divulgava o evento
repetidamente no rádio, nos jornais, enviando agentes às escolas e espalhando
cartazes por toda a cidade.
Esses blecautes tinham em média duas horas de duração, podendo ser parcial
ou total. No parcial, somente a iluminação pública era apagada, já no total até as luzes
residenciais deveriam ser apagadas. Evidenciamos durante a análise de fontes, a
divulgação do 4º Exercício de Escurecimento de Luzes em Curitiba, que seria realizado
no dia 18 de junho de 1943. Seu texto dispõe as seguintes informações:
INSTRUÇÕES GERAIS: 1 – Natureza – Alerta noturno com intervenção
dos Serviços de Vigilância, Alerta, Polícia, Socorros Médicos de
Emergência e contra incêndios. 2 – Objetivos – a) treinamento dos
diversos serviços; b) verificar a execução dos cidadãos, das medidas
relativas a extinção e velamento das luzes; c) correção das falhas
observadas. 3 – Área a exercitar – Toda a cidade com inclusão do
Município de São José dos Pinhais, Pinhais, Colombo, Tamandaré e
Campo Comprido. 4 – Duração do exercício: Iniciar-se-á as 21 horas e
terá duração de 2 horas. PRESCRIÇÕES RELATIVAS A ABRIGO:
Serão admitidos como abrigos anti-aéreos: a) os pavimentos térreos
dos edifícios de cimento armado com mais de 4 pavimentos; b) a galeria
do Edifício Garvino, na rua XV de Novembro; c) a galeria do Edifício Nª
Sª da Luz na Praça Tiradentes. Proibe-se abrigar-se no apeadouro dos
bondes. SINAIS DE ALERTA AÉREO: Serão emitidos por sereias,
sinos, etc.: Os do código divulgados pela imprensa ("Conselhos" item IX
sinais de advertência de alerta aéreo. PENALIDADES: A Comissão de
Defesa Passiva Anti-Aérea espera pelo espírito de cooperação dos
cidadãos, no sentido de que sejam os resultados de tal exercício os
melhores possíveis. Visando apenas instruir a população na execução
das medidas ligadas a defesa passiva anti-aérea, a comissão aludida,
tem a certeza de que não terá necessidade de aplicar as sanções
instituídas pelo Dec. –Lei, n° 4.098. Declara, no e ntanto de que, se
necessário for, fa-lo-á com á máxima energia (Gazeta do Povo, Curitiba,
17 de junho de 1943, p. 3).
Em Curitiba, os aviões, após o sinal de sirene, decolavam do aeroporto do
Bacacheri e a partir daí tudo deveria estar apagado. Quem estivesse nas ruas deveria,
na maior sutileza possível, encontrar um abrigo e aguardar o término do exercício. Aos
desobedientes restava explicar à polícia e aos membros da comissão o motivo da
intransigência, já que os aviões subiam carregados de sacos de areia, justamente para
122
arremessar contra os locais que desrespeitassem o blecaute, marcando-os para a ação
posterior, de responsabilidade da polícia.
Boschilia (1995) informa que esses exercícios alteravam os hábitos da
população, já que era recomendado aos motoristas pintarem os faróis dos veículos ou
cobri-los com um pano preto durante os exercícios, ou mesmo não trajar roupas
escuras ao caminhar nas ruas, sujeitando os homens a deixar o paletó em casa. De
acordo com a memorialista, "a reação da população oscilava entre o pânico e a total
indiferença" (p. 26).
Zucon (1997) registra que embora as regras fossem precisas, nem todos
colaboravam com o processo, deixando luzes acessas ou fazendo badernas nas ruas
completamente escuras. Procurando informações sobre essas atividades noturnas,
encontramos ainda na Gazeta do Povo do dia posterior ao blecaute uma matéria sobre
o andamento do exercício; em dado momento, a reportagem trata das irregularidades
cometidas durante o processo, alertando seus leitores que se o processo não foi
totalmente exitoso, é culpa "naturalmente da ignorância de pessoas que [...] julgam
poder desrespeitar as determinações superiores, esquecendo que esse mesmo
descuido, repetido num caso real será de serias conseqüências para a segurança
coletiva”. 57
Em conformidade com o jornal, foram encontradas algumas irregularidades
consideradas graves, como luzes acesas no Armazém Scandar, no pavimento térreo
da Universidade e na Rua Paula Gomes, 1149. Também houve uma ocorrência
inusitada, na qual a polícia teve que forçar um senhor chamado Miguel Scaramela a
entrar em sua casa e a apagar as luzes, já que este se recusava a fazê-lo por si só,
"comprometendo" o resultado do exercício.
57
Gazeta do Povo, Curitiba, 19 de junho de 1943, p. 03.
123
Havia também um grupo de pessoas fazendo grande algazarra na Rua Candido
de Abreu. A CDP, junto com a DOPS, tomou as medidas necessárias para punir os
infratores, e de acordo com própria comissão, "o acatamento pela grande maioria da
população as ordens emanadas, bem demonstra o espírito de cooperação existente
entre o nosso povo e as autoridades [...].”
58
Entretanto, o não acatamento das ordens
por alguns indivíduos denota o não alinhamento total da população e ainda reafirma a
ideia que o controle total pelo Estado era impossível.
Comparando as informações fornecidas por Marlene de Fáveri em relação aos
exercícios de escurecimento em Santa Catarina, percebemos que, da mesma forma
que em Curitiba, a sensação mais marcante era proporcionada pelo barulho dos aviões
que sobrevoavam a cidade, "na cidade, qualquer barulho anormal deixava as pessoas
alertas” (2005, p. 53). A possibilidade de ataques acentuava o medo e submetia as
pessoas à disciplina do Estado; ações como os exercícios de blecaute somados à
imensa gama de notícias veiculadas nos jornais auxiliavam na proliferação do medo
coletivo.
Os exercícios cessaram quando a LDN julgou não serem mais necessários, a
guerra já era dada como terminada nos jornais e a população já aparentava
despreocupação em relação a possíveis ataques aéreos, bem como eram evitados os
gastos com os deslocamentos de aviões e militares para a condução dos exercícios.
58
Idem
124
FIGURA 6 - Cartaz de orientação para a população em caso de ataques aéreos
Fonte: Boschilia, Roseli. O cotidiano de Curitiba durante a Segunda Guerra Mundial. In:
BOLETIM Informativo da Casa Romário Martins (1995). Curitiba, Fundação Cultural de
Curitiba, v.22 (107).
125
2.4.3 Cruz Vermelha – Filial do Paraná
A filial paranaense da Cruz Vermelha instalou-se em Curitiba em meados de
1917, desenvolvendo um trabalho completamente voltado a atender às contingências
de guerra, promovendo campanhas de arrecadação e cursos de formação, como
enfermagem e primeiros socorros. Além de preparar as moças para a importante
função de socorro, a Cruz Vermelha desempenhou um papel "diplomático" entre as
famílias de "súditos do Eixo" que se encontravam detidos e a DOPS. A permissão para
esse trabalho foi solicitada em ofício confidencial pela sede nacional ao interventor
Ribas, alegando que "entre as incumbências [...] figura a distribuição de mensagens
escritas procedentes dos países inimigos, ou aos mesmos destinadas [...] em
cooperação com a Policia Civil do Distrito Federal, sendo a esta submetida toda
correspondência eivada de suspeição."
A Cruz Vermelha, junto com a Liga Brasileira de Assistência, desempenhou
papel fundamental na mobilização do “front interno” em todo o país. Seu papel principal
foi transformar a figura da mulher durante o período de guerra e utilizá-la como
exemplo de coragem e servidão fiel aos chamados da nação. Na visão de Cytrynowicz,
“a mobilização para a guerra não apelava às mulheres apenas como enfermeiras.
Cabia a mulher transformar seu amor pelo homem-soldado, que partia para a guerra,
em patriotismo (2000, p. 106).
Em 1943, ao comemorar o dia da enfermeira, a Gazeta do Povo publica um
extenso texto enaltecendo o trabalho da Cruz Vermelha e a figura feminina nos tempos
de guerra:
Primeira no perigo, estóica no sofrimento, humilde muitas vezes nos
misteres, é hoje um elemento essencial da batalha, tanto mais precioso
quanto são maiores os recursos da ciência que aplicados
126
imediatamente podem salvar a existência dos feridos. Os encargos da
mulher, na guerra moderna, não são inferiores aos dos homens. Lutam
como guerreiras nas linhas de frente, pelejam como aviadoras, dirigem
navios e em todas as ações comportam-se á altura da confiança e
responsabilidade nelas depositadas. 59
Em Curitiba, a imprensa ressaltava positivamente a figura da enfermeira e da
mulher paranaense, de uma forma que estas levassem para suas casas "a
necessidade de servir o país", incentivando outras pessoas à mobilização pela guerra.
2.4.4 Liga Brasileira de Assistência
A LBA filial do Paraná possuía vários setores para atender às necessidades dos
soldados e de suas famílias, bem como dar guarida às famílias pobres de Curitiba.
Tinha seu trabalho vinculado à LDN e à Cruz Vermelha, mas contava com o respaldo
especial de Darcy Vargas, como ressalta a manchete do jornal "A Legião Brasileira de
Assistência, sob o patrocínio da primeira dama do país, é hoje uma colméia de trabalho
intenso em favor do soldado brasileiro.” 60
Essa "colmeia de trabalho" fazia referencia à divisão nucleada da LBA, na qual
as voluntárias dividiam-se em atividades específicas que iam desde a confecção de
roupas, arrecadação de alimentos, visitas e palestras nas escolas, procurando diminuir
a tensão da guerra. Em Curitiba, sob o comando da primeira-dama Anita Ribas, os
comitês de socorro realizavam campanhas de arrecadação de roupas, calçados e
gêneros alimentícios, que eram destinados à LBA e aos subcomitês de auxílio como o
Subcomitê de Socorro às Vítimas da Polônia e à Cruz Vermelha.
59
60
Gazeta do Povo, Curitiba, 12 de maio de 1943, p. 2
Gazeta do Povo, Curitiba, 26 de maio de 1943, p. 6
127
Destacamos que, dentro da alta sociedade curitibana, a LBA representou –
juntamente com a LDN – um dos maiores núcleos de mobilização do “front interno”
paranaense. A presença da primeira-dama do Estado denota muito mais que o mero
comprometimento social com a causa da guerra. Conquistando a confiança das
mulheres da alta sociedade e mobilizando-as dentro do contexto do racionamento, das
filas e do medo do "outro"; o governo abre caminho em muitos lares, ganhando com
isso – mesmo que seja como consequência direta da participação das mulheres – força
no âmago da família paranaense.
A figura feminina é exemplo de dedicação à pátria e respeito aos chamados da
nação, que pede o engajamento de toda a população nas campanhas de arrecadação,
na vigilância do imigrante subversivo, na manutenção do conservadorismo e
principalmente na aprovação do regime autoritário, tão bem representado por Ribas no
Paraná.
A Liga ainda tinha o propósito de realizar campanhas de arrecadação de
matérias-prima, como borracha e metais como alumínio e estanho. A campanha da
borracha foi uma das mais divulgadas pela imprensa; segundo a Gazeta, "a Campanha
da Borracha Usada é de poderosa expressão à causa das Nações Aliadas [...] de vez
que ela concorrerá vigorosamente para a preparação do instante necessário em que se
verificará o triunfo das Democracias" (grifo nosso) 61.
Essa campanha62 também tinha o propósito de envolver as crianças das escolas
públicas e particulares na arrecadação e na coleta do "precioso material". Essas
crianças seriam divididas por classes, e cada classe constituiria um pelotão de
Voluntários da Borracha. O caráter lúdico que está por trás da campanha não fica
61
Gazeta do Povo, Curitiba, 07 de julho de 1943, p. 3.
A campanha da Borracha foi elaborada visando a um melhor aproveitamento dos materiais
confeccionados à base de látex, pois a demanda da matéria-prima era muito grande e o
reaproveitamento da borracha era possível e necessário. Logo, qualquer tipo de borracha era aceito para
as doações, sendo o principal alvo das crianças os pneus.
62
128
apenas nisso, cada pelotão possuía uma bandeira de cor azul e a cada cem quilos de
borracha arrecadados uma estrela branca era anexada à bandeira. Não obstante, os
cinco melhores colocados individualmente receberiam prêmios, os alunos de Curitiba
que participassem da campanha e se empenhassem seriam contemplados com os
seguintes prêmios:
1° lugar – Audiência com o Interventor Federal. 2° lugar – Um vôo. 3°
lugar – Um passeio à Granja do Canguiri. 4° lugar – Um passeio à Mina
de Ouro. 5° lugar – Uma visita ao Campo de aviação. Ainda como
prêmios de consolação, entradas grátis de cinema. Para incentivo,
estabelecendo uma amigável rivalidade entre alunos, classes e escolas,
deverá haver um quadro para registro diário da quantidade coletada
pelos alunos individualmente e por classe (Gazeta do Povo, Curitiba, 15
de julho de 1943, p. 3).
Alertamos para a engenhosidade da campanha, que a partir do momento que
torna a participação escolar passível de premiação, incita o espírito competitivo
presente nas crianças. Por conseguinte, o envolvimento dos pais e de outros adultos
torna-se inevitável dada a fragilidade dos pequenos. Por mais que os pais tenham
posicionamentos favoráveis ou não à campanha, teriam dificuldades de explicar aos
filhos o motivo da mesma.
O envolvimento efetivo dos adultos é uma meta da LBA, a utilização das
crianças é uma ótima forma de manejo e o primeiro prêmio era um chamariz muito
mais aos pais – principalmente para aqueles declarados fervorosos nacionalistas – do
que para as crianças. Cremos que não é necessário um doutorado em pedagogia para
aceitar que uma audiência com o interventor estadual seria prontamente substituída por
um brinquedo ou qualquer coisa que valha às crianças. Destarte, a possibilidade do
encontro com "tão digna autoridade" envolvia muitos pais, que auxiliariam, de
prontidão, os filhos conquistarem a premiação.
129
2.4.5 Exército de Salvação e a Liga dos Jovens Patriotas
Além das agremiações oficiais, circularam em Curitiba materiais referentes a
outros grupos de auxílio à pátria e em sua defesa; desses grupos, podemos evidenciar
a existência63 do "Exército de Salvação", que panfletou na capital e em todo o Brasil
solicitando auxílio financeiro para supostas obras de caridade, asilos e orfanatos nos
estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. Todavia, o
conteúdo da pasta é mínimo e nada encontramos a esse respeito nos jornais
pesquisados.
Já em outra pasta, intitulada Liga dos Jovens Patriotas, encontramos um boletim
impresso de uma agremiação que julga lutar pela pátria brasileira, independentemente
se for contra o Eixo ou contra os Aliados, mas sempre pela pátria. Segundo o boletim, a
referida liga "é uma organização de moços brasileiros, civis e militares, que assumiram
o compromisso de tudo fazer para o engrandecimento da Pátria e lutar contra quem
quer que procure prejudicá-la, humilhá-la ou dominá-la por qualquer meio” 64.
Acusam Osvaldo Aranha de "quinta colunismo americano", entendendo que este
deseja tomar a presidência de Vargas e acreditam que logo todos os traidores do Brasil
seriam desmascarados. Na pasta, existem apenas duas folhas, sendo uma com esse
boletim e outra com o Ofício 3515, destinado à chefia de polícia, informando sobre a
circulação do referido pelos correios, chegando a inúmeras residências curitibanas.
Não evidenciamos documentos ou informações que comprovem esse funcionamento
no Paraná.
63
Exército de Salvação – Pasta Temática n° 155 – Top ografia 117 – A pasta dispõe de alguns panfletos
e faz referência mínima a circulação desses em Curitiba.
64
Liga dos Jovens Patriotas – Pasta Temática n° 1285 – Topografias 150.
130
2.5
Notícias de Guerra: o nacionalismo exaltado pela imprensa
Abrir um jornal em Curitiba na década de 1940 era um convite a novas
experiências, principalmente para os teuto-brasileiros, que tinham nos jornais sua
principal fonte de informação. Ler o jornal significava para o imigrante ou descendente
de alemão manter-se informado em relação ao posicionamento do país que o abrigava
frente às tensões que ocorriam na Europa e nos Estados Unidos.
A cada página virada novas afrontas a sua cultura; notícias legalizadas por um
projeto de nacionalização sustentado pela violência e repressão exercida pela polícia
política de Vargas. Não parecia possível compreender que houvera um exagerado
incentivo para que esses imigrantes por aqui ficassem e contribuíssem para o
crescimento social e financeiro dessa nova nação e que passaram a ser tratados como
verdadeiros problemas inseridos em uma sociedade em busca de uma brasilidade
esquecida.
Da mesma maneira, o curitibano tinha o jornal como principal forma de manterse informado; havia uma variedade razoável de periódicos que ofereciam as notícias da
guerra, traziam as manchetes do esporte e da cidade e acima de tudo traziam as
informações que interagiam com seu cotidiano, as quais tratavam das medidas
restritivas impostas aos imigrantes, das medidas de racionamento, da divulgação de
portarias e decretos de lei e da fundação de novos órgãos de auxílio, dentre outras
coisas.
A principal função da notícia é introjetar normas de comportamento social, em
que os comportamentos inadmissíveis são passíveis de castigo e punição. No contexto
de Curitiba, os jornais apresentam os comportamentos desejados pelo Estado Novo e
através da notícia – como castigo público – denunciam aqueles que transgridem as
leis. Tais atitudes podem ser facilmente evidenciadas pela propagação de atos
131
públicos, divulgação de decretos e portarias do governo e comunicados da DOPS, tão
comuns nas páginas de periódicos paranaenses da década de 1940.
A reflexão sobre a autoria das notícias veiculadas e a observação do papel do
jornalista como agente significativo na formulação de fatos históricos é de extrema
importância para o bom andamento desta pesquisa. Primeiro, porque o jornal como
veículo de comunicação de massa exige um questionamento rigoroso quanto à análise
externa, posicionamento político, etc., devendo ainda observar o jornal não só como
objeto
cultural,
mas
também
como
“produto
de
uma
empresa
capitalista”
(BITTENCOURT, 2004, p. 336).
As notícias impressas nos jornais são previamente selecionadas e interpretadas
de forma que favoreçam determinados pontos de vista ou defendam certas posições,
sejam do editor-chefe, dos departamentos governamentais, sejam de uma elite
dominante. Tratar essas informações como neutras pode constituir um grande campo
minado para o historiador desatento, preocupado apenas com a reprodução do fato tal
qual supostamente aconteceu.
Faz-se necessário ressaltar que concordamos com Denys Cuche na correta
avaliação que o mesmo confere aos meios midiáticos, quando propõe que, ao enfatizar
demais o poder da mídia,
“supôe-se que as mídias provoquem uma alienação cultural, uma
aniquilação de qualquer capacidade criativa do individuo, que, por sua
vez, não teria meios de escapar à influência da mensagem transmitida.
[...] É evidente que há uma certa uniformização da mensagem midiatica
mas, isto não nos permite deduzir que haja uniformização da recepção
da mensagem. [...] Por mais “padronizado” que seja o produto de uma
emissão, sua recepção não pode ser uniforme e depende muitos das
particularidades culturais de cada grupo, bem como da situação que
cada grupo vive no momento da recepção (2002, p. 158-160).
Partilhamos dessas ideias porque constatamos, nas fontes consultadas, que
havia – em pequenos blocos – cidadãos descontentes com a situação imposta pela
132
mobilização de guerra, pelo apelo nacionalista e pelos meios midiáticos. Ao contrário
do que imaginamos,
esse trabalho da imprensa curitibana não tinha como alvo
principal as classes inferiores, já que “estudos sociológicos mostraram que a
penetração da comunicação da mídia é mais profunda nas classes médias do que nas
classes populares (CUCHE, 2002, p.159).
As alterações do cotidiano envolviam muito mais que embates entre a população
“nacional” x imigrantes e seus descendentes; entre os nacionais havia aqueles que não
eram politizados o suficiente para entender a preocupação das classes mais altas ou
para atender ao “chamado da Nação”. Também havia grupos de alta possessão
financeira que não participaram do esforço de guerra. Em Curitiba, nos deparamos com
essas mais variadas situações ao analisar alguns periódicos que compreendem o
período de 1942 a 1945; dessa maneira, podemos distinguir algumas atitudes e
perceber que ocorreram mudanças – embora leves – no editorial de alguns jornais.
Procuraremos verificar como a imprensa curitibana, entre 1942 a 1945, atuou
frente à participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a presença do imigrante
alemão na sociedade através da análise de matérias veiculadas nos jornais Diário da
Tarde, Gazeta do Povo e de forma secundária algumas páginas do Correio da Paraná,
disponíveis no Arquivo Público do Paraná e na Biblioteca Pública do Paraná.
Para Bourdieu, os jornalistas são “vendedores profissionais de serviços políticos”
(2007, p. 177), detendo uma função importante no jogo político; afinal, muitos deles
através de seus textos tendem a representar uma elite política e suas imparcialidades.
Podemos afirmar que os jornais de Curitiba estavam totalmente voltados a defender os
interesses da interventoria de Ribas, porém essa assertiva pode ser conflitante e levarnos a cometer uma generalização que não seria positiva a esta pesquisa.
Na década de 1930, grande parte da imprensa escrita de Curitiba se
concentrava nas mãos de uma elite conservadora. O Diário da Tarde fez campanha e
133
publicou refutas à nomeação de Manoel Ribas para o lugar de Divonsir Borba Cortez
na interventoria estadual, alegando que o mesmo era um modernizador e que iria
corromper os moldes conservadores com suas diretrizes de governo. Para termos uma
dimensão do "duelo" travado entre Ribas e os jornais, tudo o que era relativo à
majoração de preços, cobrança de impostos, falta de água na cidade, abertura do
Estado para investimentos externos e quaisquer atitudes que "violavam" o status quo
das classes conservadoras eram considerados como culpa do interventor.
Ribas soube contornar os aspectos negativos que a imprensa lhe oferecia e
obteve resultados consideráveis na economia, colocando o Estado no rumo da
prosperidade. Benevides (1991) assinala que "os compromissos do Estado estavam
em dia: reduzira-se a divida externa e o orçamento aumentara".
Ainda que tenham ocorrido vários entraves entre Ribas e algumas facções da
elite conservadora curitibana, a partir do advento da Segunda Guerra Mundial e do
posicionamento desfavorável adotado em relação à presença de imigrantes e
descendentes dos países do Eixo no Brasil verificamos um alinhamento desses
periódicos em relação à interventoria de Ribas. Não podemos deixar de frisar a ação do
DIP e da DOPS no monitoramento desses jornais e de toda espécie de imprensa
existente no país.
Essa ação é assim justificada por Amélia Siegel Correa:
Por isso, embora nacionalmente ocupassem uma posição dominada, as
elites dominantes locais influenciaram as instituições e a condução
política do Estado, com a realização de um projeto de modernização
conservadora, sempre acompanhando as tendências nacionais
vitoriosas (CORREA, 2006, p. 8).
134
Notícias com títulos expressivos eram publicadas nos jornais, como, por
exemplo, “O avanço da coluna fantasma”
estrangeiros perigosos”
65
, “Somente o Brasil é eterno”
66
e “Os
67
, as quais faziam parte da leitura diária do curitibano. As
notícias supracitadas tratavam de assuntos pertinentes à Segunda Guerra Mundial,
sendo que a primeira delas foi veiculada em 1941, antes mesmo de o Brasil aderir ao
lado dos Aliados, tratando do deslocamento das tropas inglesas na África, e como
outras
inúmeras
matérias,
procuravam
manter
informados
aqueles
que
se
interessassem pelo cenário caótico em que se desdobrava o conflito. Julgamos que
essas matérias, além de preencher boa fração dos jornais, traziam um elemento oculto
importante: o medo.
As notícias retratavam mortes, batalhas sangrentas, baixas civis e sofrimento.
Esses fatores, por sua vez, levavam o leitor a imaginar quais seriam as consequências
se a guerra se desdobrasse no Brasil ou até mesmo em Curitiba. Acreditamos que a
manutenção do estado de alerta e a criação de medos coletivos tiveram papel crucial
na manutenção do poder de Vargas, levando a maioria da população a seguir seu
discurso com veemência.
Os jornais procuravam atribuir aos fatos corriqueiros do cotidiano um peso
maior, um caráter de excepcionalidade. Concordamos com Benevides quando este
sugere que "o jornal cobriu o Paraná de medo." (1991, p. 94). Algumas chamadas
superavam o sensacionalismo e chegavam a ter um caráter trágico-cômico, como
exemplo, a reportagem que trata de um sujeito que marcou uma vaca com a suástica,
também a "importante" apreensão de inúmeras almofadas coloridas com dourado,
vermelho e preto como provas de ação nazista.
65
Correio do Paraná, Curitiba, 25. 11.1941, p. 01.
. Diário da Tarde, Curitiba, 25. Out.1943, p. 05.
67
Diário da Tarde, Curitiba, 04. Ago.1943, p.01..
66
135
Os jornais estavam repletos desses casos do dia-a-dia, nos quais a delação e o
boato faziam parte da confecção das tramas do cotidiano; são essas redes de
informações estruturadas no "diz que me diz", no "eu ouvi falar..." que enchiam as
delegacias de telefonemas e de denúncias anônimas, as quais, por sua vez, forneciam
matéria-prima para os repórteres de plantão, ansiosos por uma nova catástrofe ou por
um boato que pudesse lhe fazer pensar que o dia não teria sido em vão.
Havia notícias que tratavam das supostas ações de nazistas no país e do perigo
que os teuto-brasileiros poderiam constituir para a consolidação de um verdadeiro
projeto de nacionalização. Seyferth (1997) enuncia que, durante 1937 a 1945, uma
parcela significativa da população brasileira sofreu repentinamente interferências em
seu cotidiano devido a essa campanha de nacionalização. Essa campanha foi
concebida como verdadeira guerra, buscando erradicar todas as ideias “alienígenas”
existentes no país.
Nesse contexto, iniciou-se uma grande onda de perseguição aos alemães e
seus descendentes. Muitos foram acusados de espionagem e envolvimento com a
causa nazista. A proibição ao idioma alemão em público foi levada aos extremos; livros
escritos em alemão foram destruídos; existem relatos de que documentos contendo
registros de nascimento, batismo, casamento e óbito e vários documentos oficiais
foram incinerados pela polícia brasileira; afinal, eles eram, de acordo com os jornais,
"os estrangeiros perigosos".
Para Benevides:
As chamadas aos leitores, sempre de cunho sensacionalista, eram
acompanhadas de relatos pertinentes a investigações promovidas em
todo país. Expressões como "espião", "articuladores de espionagem",
"trama nazista" e "complô germânico", aliadas às derivadas do quinta
colunismo, são repetidas com o intento de integrá-las ao vocabulário
dos que liam, trocavam idéias, transmitiam informações e davam, sob
provocação do jornal, a cada caso isolado a dimensão de uma
catástrofe quase inevitável (BENEVIDES, 1991, p. 108).
136
As matérias que veiculavam o nacionalismo e a democracia brasileira eram
frequentes; entre elas, destacamos a manchete “Somente o Brasil é eterno”
68
, que foi
publicada como pauta em uma entrevista do interventor Manoel Ribas cedida ao
repórter Santos Junior da Agência Nacional, publicada pelo Diário da Tarde de 25 de
outubro de 1943, quando o mesmo faz grande alusão a Vargas e a seu papel unificador
da nacionalidade brasileira:
O Presidente Vargas (...) Creou o grande Brasil brasileiro, em lugar do
Brasil que fazia se paulista, mineiro ou gaúcho, (...) Hoje somos uma
pátria só com um só colorido e um sentido único. O Paraná segue pelos
caminhos firme do Estado Nacional. Não hesitarei em esmagar os que
tentarem atirar obstáculos à nossa marcha (...) (Diário da Tarde,
25/10/1943, p. 05).
Essas notícias que fomentavam o discurso do nacionalismo contra as
etnicidades auxiliavam no desprendimento daquele sentimento de "boa vizinhança" que
existia até então. Muitos cidadãos não compreendiam a repressão a essas pessoas de
origem étnica diferenciada, até porque elas não representavam perigo algum; ainda
não compreendiam o motivo do envolvimento do país na guerra e muito menos as
dificuldades que tinham que enfrentar pela mobilização de guerra.
Ao lidarmos com a dificuldade das pessoas entenderem a real necessidade do
Brasil participar da guerra "fornecendo material humano para ser consumido nas
trincheiras na Itália", compreendemos o papel fundamental da intervenção varguista na
imprensa. A imprensa paranaense também tinha seus rumos controlados pelo DIP e
passava pelo vigoroso controle do órgão. No estado do Paraná, os periódicos tiveram a
responsabilidade de legitimar a ideia de que era necessário construir um país soberano
68
Diário da Tarde, Curitiba, 25. Out.1943, p. 05.
137
e seguir sem titubear o projeto de nacionalidade, não importando os esforços que
fossem necessários para tal fim.
Com seus discursos inflamados, Ribas defende a manutenção da ordem
(conservadorismo) e o seguimento à risca do projeto de nacionalização de Getúlio. Em
um de seus discursos, asseverou que "nunca deixara de pertencer as classes
conservadoras, nunca deixara de ser um homem de negócios, estando por isso mesmo
integrado na classe que faz, cria e prospera em todos os sentidos"69 Dessa maneira,
conseguia apoio da imprensa, dos intelectuais, das famílias tradicionais para continuar
a executar um regime ditatorial sem ter que ficar se preocupando com a oposição.
A investigação de matérias produzidas pela imprensa teuto-brasileira contribuiria
grandemente para uma averiguação do pensamento alemão sobre o estado do Paraná
e ainda ajudaria a compor um cenário mais balanceado sobre a imprensa paranaense.
Destarte, em estudo recente o historiador Rafael Athaides aponta que não há
nenhuma produção de cunho nacional-socialista tipicamente paranaense, pelo
contrário:
Com relação ao trabalho da imprensa teuto-brasileira, não encontramos
nenhum jornal de cunho nacional-socialista produzido no Paraná.
Apenas verificamos que alguns partidários recebiam o jornal paulista
Deutscher Morgen, cujo redator era o próprio chefe nacional o NSDAP,
Hans Hering von Cossel. O Deutshe Morgem, como já nos referimos,
em determinado momento passou a ser o único periódico permitido para
filiados do Paraná. Por outro lado, comprovamos também a existência
de um jornal germânico de oposição, produzido em Curitiba. Trata-se do
jornal católico Der Kompas, que assim como o curitibano Diário da
Tarde (obviamente, sob outro ponto de vista) desferia duros golpes á
ação dos partidários (ATHAIDES, 2007, p. 105).
Por fim, pautados nessas informações, destacamos que a imprensa paranaense
teve um papel aliciador da população curitibana em relação aos imigrantes alemães
durante a Segunda Guerra Mundial, já que possuía um papel de integração do discurso
69
Diário da Tarde, Curitiba, 26 de janeiro de 1944, p. 01.
138
nacionalista de Ribas e era contra aqueles que não aceitavam a personificação do
inimigo de guerra nos alemães que aqui habitavam.
Não
queremos
apresentar
a
imprensa
como
única
responsável
pelo
comportamento da população frente aos imigrantes e descendentes de alemães em
Curitiba, tampouco creditar à mesma um poder avassalador que ela por si só não
possui. Cremos no papel fundamental que a imprensa paranaense desempenhou junto
a outros órgãos do Estado Novo na perpetuação de ideias contrárias à presença de
elementos de origem germânica no Estado do Paraná, porém alertamos o leitor que se
não houvesse um clima propício de insatisfação frente aos atentados sofridos por
navios mercantes brasileiros e a consolidação do clima de guerra ao Eixo, essas
notícias não obteriam a credibilidade da população curitibana, não haveria uma rede de
denúncias e muito menos protestos em praça pública sucedidos de quebra-quebras.
Ressaltamos que essa imprensa tão prestativa nos momentos de êxito da
interventoria de Ribas, no final da guerra e pós-afastamento de Vargas do poder foi se
distanciando deste e conferindo ao interventor duras críticas. Essa mudança de atitude
no posicionamento dos jornais comprova que a imprensa periódica é uma grande força
política que, além de registrar e comentar seu momento histórico possui a capacidade
de produzir representações/imagens da sociedade e de influenciar, em certa medida, a
opinião pública (REZENDE, 2005, p. 90).
139
3. REPRESSÃO E VIOLÊNCIA CONTRA ALEMÃES EM CURITIBA
A guerra trouxe à cidade de Curitiba uma dinâmica nova, a vida cotidiana
ganhava novo sentido diante da possibilidade dos ataques aéreos e da presença de
elementos contrários à paz dentro da própria cidade.
Vivenciar o medo ou atuar contra ele? Essa pergunta tangia boa parte da
população da capital paranaense, dado o fato que a presença de imigrantes era muito
arraigada e aceitar que estes eram sujeitos perigosos era uma enorme complexidade.
Os alemães estavam em muitos lugares e participavam de muitos círculos sociais,
mantinham suas tradições e ao mesmo tempo mantinham relações com todas as
esferas e camadas sociais.
Se para muitos era difícil entender que o "bom vizinho" de até pouco tempo
agora era um agente pernicioso do Eixo, para o imigrante e/ou descendente alemão
era inaceitável ser taxado de agente nazista sem nunca ter participado do partido.
Cabe frisar que o NSDAP foi extinto em 1938 em todo o país obedecendo ao DecretoLei n° 383; logo, o NSDAP/PR também foi colocado na ilegalidade e os pouco mais de
cento e oitenta membros se dispersaram, alguns continuaram fiéis à causa e agiam na
clandestinidade, outros – que aderiram ao partido acreditando ser um ato de civismo ou
de pertencimento à pátria Alemanha – foram esquecidos ou fizeram-se esquecer,
ocupando posições sem destaque na sociedade.
A Campanha de Nacionalização imposta a partir de 1938 pelo Estado Novo já
havia alterado as relações entre brasileiros e imigrantes, modificado as formas de "ver
o outro". As decisões políticas do início de 1942, agregadas ao afundamento de navios
brasileiros, levaram à construção de uma legislação privativa a esses imigrantes, a
execução de prisões, a formulação de extensos e inacabados interrogatórios e a
formação de uma intrincada rede de denúncias contra os "traidores da democracia".
140
O discurso nacionalista estava vivo em todos os lugares, as mensagens de
orgulho da nação e de luta contra os inúmeros ismos que impediam o fortalecimento do
Brasil eram repassadas nos jornais, nas rádios e nos comícios. Infelizmente a
interpretação desses discursos nem sempre foi positiva, muitas pessoas interpretaram
de maneira agressiva a situação e procuraram a paz pelas vias da força e da violência.
Comícios, quebra-quebras, vandalismo oriundos de um medo imposto por uma
situação inexistente. Medo que automaticamente gerava mais medo, de um lado e do
outro o clima era tenso, e se do lado brasileiro repreender era o verbo, do lado
imigrante o mais usado era silenciar.
Neste capítulo final, intentaremos mostrar como se desdobrou a repressão e a
ação da polícia política em relação aos imigrantes alemães; também demonstraremos
as ações populares contra os "súditos do Eixo". Temos ainda como finalidade
apresentar as mudanças legais que inferiorizavam essas comunidades imigrantes e
prejudicavam ainda mais o relacionamento social, buscando, através desses fatos,
levantar possibilidades de compreensão para a repressão excessiva que ocorreu em
Curitiba contra os alemães de 1942 até 1945.
3.1
Mudanças legais contra imigrantes eixistas pós-1942
Um dos momentos mais tensos da política americana em relação ao conflito
mundial ocorreu no Brasil durante a Conferência dos Chanceleres, em janeiro de 1942,
onde, depois de acirrados debates as potências americanas resolveram romper as
relações diplomáticas e comerciais com as potências do Eixo. Com pequenas
exceções – Argentina e Chile –, todos os países declararam sua insatisfação perante
141
os fatos ocorridos no final de 1941, quando o Japão atacou premeditadamente boa
parte da frota marítima dos EUA em Pearl Harbor.
Em um estado de exceção – governo autoritário –, o Brasil tinha em mente que
sua adesão em conjunto às potências pan-americanas não feriria sua neutralidade em
relação ao conflito bélico. Um fator bastante contrastante com as políticas internas
adotadas logo após a declaração de rompimento: como poderiam manter a
neutralidade adotando medidas repressivas específicas aos países do Eixo?
Essa questão parece-nos pertinente ao avaliarmos a documentação repassada
às delegacias e estampadas em vários jornais do país, documentos estes que feriam a
integridade dos imigrantes e descendentes dos países do Eixo frente à manutenção da
nacionalidade brasileira. Salientaremos algumas portarias que tiveram maior
predominância nas delegacias de polícia e alteraram de forma significativa a visão que
os brasileiros tinham dos imigrantes.
A primeira delas circulou quase que imediatamente após a declaração de
rompimento de relações diplomáticas. Em 28/01/1942, a Portaria nº 30 (Chefatura de
Polícia/PR) preconizava restrições aos estrangeiros em caráter geral. A referida
portaria constitui na maior interferência no cotidiano dos imigrantes do Eixo desde a Lei
de Nacionalização em 1938. Na capital paranaense, a portaria é divulgada em todos os
jornais, tendo como principais proibições: a) Mudar de residência sem devida
autorização; b) Portar armas de fogo, obrigando a devolverem mesmo as que
possuíssem registro legal; c) Comercializarem armas, munições e materiais explosivos;
d) Viajarem sem salvo-conduto fornecido pela DOPS; e) Reunir-se mesmo para
comemorar festas particulares, como aniversários ou bailes; f) Discutir ou falar sobre o
contexto internacional; g) Realizar viagem aérea sem licença especial da DOPS; h) O
uso do idioma nas conversações em locais públicos; i) Distribuição de quaisquer
escritos nos idiomas do Eixo; j) Cantar ou tocar hinos e músicas de nações eixistas; k)
142
Fazer saudações peculiares aos partidos políticos; l) A exibição em local acessível de
retratos de membros de governo das três nações do Eixo.
Essa portaria abalou sobremaneira as relações sociais em Curitiba, os jornais
noticiaram com muita ênfase as restrições e ainda produziram discursos sobre a
correta interpretação dessas leis e sobre o perigo que a população seria submetida se
não colaborasse com elas.
Algumas dessas restrições ficaram bastante visíveis ao analisarmos a
documentação da DOPS referente aos anos de 1942 a 1945; na pasta da Companhia
de Força e Luz do Paraná70, podemos observar medidas que atingiram os
descendentes de alemães que ali trabalhavam. Em 03/02/1942, através de seu gerente
geral (P. A. Werneck), a Companhia de Força e Luz do Paraná entrou em contato com
o interventor estadual para informá-lo das seguintes situações: que recebera ordens da
administração geral no Rio de Janeiro para afastar da empresa todos os funcionários
que fossem oriundos de países do Eixo, visando à proteção da usina hidroelétrica de
Chaminé, a rede de transmissão de energia e a subestação de Capanema. Alerta o
interventor que a companhia havia dispensado imediatamente doze funcionários de
origem alemã que trabalhavam em cargos que poderiam ocasionar danos e reservou
em outra lista mais doze nomes de alemães e italianos que julgava não poderem
comprometer a referida companhia. O gerente da companhia, mediante o
posicionamento tomado pelos países americanos frente ao ataque aos EUA, acreditava
que poderia contar com o auxílio da Polícia para identificar no quadro funcional da
empresa elementos que pudessem ser nocivos a mesma.
Os funcionários indicados pela polícia seriam prontamente afastados de seus
trabalhos, garantiu o gerente, e poderia ocorrer sem ônus pra empresa a reintegração
70
Companhia Força e Luz do Paraná – Pasta temática n° 299 – Topografia 32.
143
de elementos que a polícia não apresentasse ressalvas. Junto com esse ofício, a
companhia encaminhou uma lista com 24 nomes, dentre os quais 12 já haviam sido
dispensados.
Em 15/02/1942, em resposta à Secretaria de Segurança e à empresa, foi emitido
um ofício informando que quatro dos doze dispensados efetivamente possuíam
pensamentos subversivos e eram adeptos do NSDAP. Logo, oito funcionários foram
dispensados de seus trabalhos apenas por especulação; grosso modo, esses casos
particulares parecem não significar muito, porém ao analisarmos o todo, percebemos
que muitos imigrantes e descendentes perderam seus empregos apenas pela
suspeição, sem contar aqueles que tiveram que sair da faixa de fronteira e da faixa
litorânea, abandonando suas casas e seus trabalhos.
Essas situações trouxeram à tona questionamentos dentro da própria polícia, as
determinações do Estado eram relativizadoras, enquadrando todos os alemães,
japoneses e italianos como agentes subversivos do Eixo, o que poderia ser contestado
pela prática do dia-a-dia. Em cidades menores como Castro, a aproximação entre o
delegado e as pessoas é quase que pessoal, tornando as atividades de cada família
conhecida e mais fáceis de monitorar. Um caso interessante é do imigrante italiano
Vicente Bavoso, viajante comercial residente em Castro, que pediu a intervenção do
delegado local – 1° Tenente João Maria Sobrinho –
para que pudesse continuar
viajando, visto que:
[...] é casado com mulher brasileira, pae [sic] de sete filhos todos
menores, já está no Brasil há vinte e oito anos, sempre morando nesta
cidade [...] de bons costumes. Acontece que o mesmo ganha a sua
manutenção em comissão de vendas que faz, mas como não tem
viajado devido a proibição de viajarem, o mesmo tem passado
privações com a sua família, pelo que venho informar se mesmo
144
poderá viajar, o qual só faz o Norte do Estado e Sul do Estado de São
Paulo."71
O delegado conhecia o cidadão e ao contrário do que poderíamos imaginar, nas
delegacias menores algumas solicitações não eram negadas e enviadas a postos
policiais maiores, nesse caso, não havia nos documentos um ofício que respondesse à
solicitação do delegado, porém pudemos identificar no próprio ofício um despacho do
delegado da DOPS proibindo que este viajasse.
Havia casos em que a mão-de-obra alemã era fundamental, logo, retirá-los do
trabalho traria prejuízos para empresas brasileiras e não só para os mesmos; um caso
que podemos citar é o do alemão Kurt (o relatório não faz menção ao seu nome
completo), trabalhador do cais de inflamáveis no Porto Pedro II em Paranaguá. Através
do Ofício nº 91 da 5ª RM o Gen. Pedro de Albuquerque, em 24/03/1942, solicita a
retirada do referido alemão dos trabalhos que envolviam a construção do cais de
inflamáveis, alegando que o mesmo estava envolvido em um acidente anterior que
provocara um incêndio no cais. Entretanto, o delegado local, Capitão Pelmyro G.
Oliveira, responde à 5ª RM e ao delegado da DOPS Valfrido Piloto argumentando que
o relatório que recebera sobre o referido alemão não era verídico, acrescentando que:
O alemão Kurt [...] trabalha na construção do Cais de Inflamáveis sob
responsabilidade do Dr. Rodolfo Reischel, Engenheiro da Cia. Christiani
Nielsen, tendo o mesmo engenheiro assinado um termo de
responsabilidade, para manter esse alemão e mais treis [sic]
indivíduos da mesma nacionalidade, que são insubstituíveis nos
serviços daquela construção, até o seu término que se dará dentro de
15 dias, conforme entendimento desta Regional, D.O.P.S. e Dr. Raul
Macedo. Nada consta que tenha esse alemão sido autor do incêndio no
Cais, na madrugada de 31 de Dezembro de 1940 72 (grifo nosso).
71
72
Delegacia Regional de Castro – Pasta Temática n° 4 831
Delegacia de Regional de Paranaguá – Pasta Temática 584A – Topografia 65.
145
Com os ataques sofridos pelos navios mercantes brasileiros, em 11 de março de
1942 foi divulgado o Decreto-Lei n. 4166, que dispõe sobre as indenizações devidas
por atos de agressão contra bens do Estado brasileiro e contra a vida e bens de
brasileiros ou de estrangeiros residentes no Brasil. Ficam responsabilizados os direitos
e bens de súditos do eixo para darem conta dos gastos oriundos desses ataques.
Essa forma foi adotada pelo governo para que pudesse ter um controle maior
sobre as ações violentas da população estava tomando em represália os ataques da
marinha alemã, conscientizando-as de que, ao depredar patrimônio alemão, estavam
diminuindo as possibilidades de receber de volta os prejuízos. Mais adiante
discutiremos essas ações violentas que ocorreram também em Curitiba e em algumas
cidades da região litorânea.
Ainda preocupada com questões financeiras, a Chefatura de Polícia do Estado
do Paraná promulga, em 20/03/1942, a Portaria nº 90, que dispõe sobre as
intervenções nos clubes e sociedades das comunidades italianas e alemãs. Em
Curitiba, fica decidido que: (1) o Clube Concórdia passa a ser da Cruz Vermelha, filial
do Paraná. (2) a sociedade Giuseppe Garibaldi fica à disposição da Liga de Defesa
Nacional, do Centro de Cultura Feminino e da Academia Paranaense de Letras. (3) o
prédio da Sociedade Rio Branco fica à disposição do 19° Tiro de Guerra. (4) as
diretorias dessas associações apresentariam uma relação dos bens móveis e referidos
pertences que existiam nesses clubes. 73
Essa ação tomada em Curitiba feriu as comunidades alemãs e italianas; naquele
momento, muito mais que o valor financeiro dos bens e móveis desses clubes, foram
colocadas em xeque as questões culturais e as tradições que esses imigrantes vinham
mantendo havia muitas gerações. Esses clubes foram repassados a instituições
73
– Secretária de Segurança Pública (Antiga Chefatura de Polícia) – Pasta Temática n° 1747 –
Topografia 209.
146
nacionais de auxílio às questões da Mobilização Econômica, como a Cruz Vermelha,
Centro Paranaense de Cultura Feminina, etc.
As portarias estaduais foram promulgadas antes mesmo da declaração oficial de
guerra e realmente alteraram o cotidiano de muitas famílias alemãs, não só em
Curitiba, mas em cidades menores também. Embora nosso recorte geográfico esteja
fixado na capital paranaense, alguns exemplos que retiramos de delegacias de cidades
menores auxilia-nos a entender as particularidades que envolviam o processo
repressivo.
O delegado de Rolândia, em 12/06/1942, solicita ao interventor Manoel Ribas a
permissão para conceder armamento de defesa para sitiantes alemães que julgar fora
de suspeita, pois a partir da proibição dos imigrantes de países do Eixo portar armas de
fogo – Portaria n° 30 –, muitos sítios e fazendas f icaram vulneráveis a ataques e
assaltos. Muitas propriedades de alemães haviam sido roubadas e alguns lavradores
foram mortos por não terem como se defender. Julgando o efetivo muito diminuto para
dar conta de tantas fazendas espalhadas por uma área potencialmente coberta por
mata virgem, o delegado solicita a permissão de armar alguns fazendeiros, reiterando
que a maioria dos alemães que vive em Rolândia são vítimas do hitlerismo,
antinazistas, fiéis católicos ou de origem judaica. 74
Essas situações dúbias permeiam uma série de questões que envolvem toda a
comunidade de imigrantes, já que muitos sofreram com as intervenções, mas poucos
tinham a ver com as denúncias populares e nada tinham a ver com o nazismo – que já
estava legalmente extinto desde 1938. Muitos relatórios contemplam essas
perspectivas diferenciadas, nas quais existem solicitações de imigrantes para viajar,
74
Delegacia Regional de Rolândia – Pasta Temática n° 618A – Topografia 70.
147
para retornar à faixa litorânea, em suma, para dar continuidade aos seus trabalhos e ao
sustento de suas famílias.
Marlene de Fáveri (2005) aventa que para as famílias de imigrantes, um dos
maiores receios era o de não poder dar sustento à própria família e que ser preso
significava a desonra da família. Logo, contavam com pequenas solidariedades, como
a de alguns funcionários importantes em delegacias e outros órgãos públicos, ou
quando possuíam recursos financeiros recorriam a instâncias jurídicas maiores, como o
TSN.
No caso do Paraná, foi possível observar que poucos relatórios fazem menção
ao Tribunal Superior Nacional; dessa forma, optamos por não verificar a quantidade de
documentos sobre o Estado disponíveis nos arquivos do referido órgão público.
Fixamos a pesquisa nos documentos referentes ao acervo do Arquivo Público do
Estado do Paraná, sobretudo pelo tempo de pesquisa ser breve, e cruzar dados entre
os dois acervos demandaria uma quantidade de tempo que não possuímos para
concluir esta pesquisa. Reiteramos que o presente estudo não perde consistência sem
esses arquivos, e que os mesmos serviriam de apoio para elucidar alguns processos
individuais.
Como já referimos, essas medidas foram promulgadas antes do dia 31/08/1942,
quando, mediante o Decreto-Lei n. 10.358, o Brasil declara o estado de guerra em todo
o território nacional. A partir desse momento, temos uma situação real de beligerância
com os países do Eixo – na verdade contra a Alemanha ea Itália, já que o Japão foi
deixado para fora do confronto por não apresentar motivos para sua inclusão. no
mesmo.
Logo após a declaração de guerra, surge a preocupação com o tráfego de
informações entre os elementos do Eixo e seus respectivos países; sendo assim, em
01/09/1942 a Portaria nº 65 irá tratar sobre a entrega de aparelhos de rádio por parte
148
de estrangeiros pertencentes às nações do Eixo. A portaria determina: (1) Entrega de
rádios receptores de súditos do Eixo às autoridades competentes no prazo de 10 dias
após a publicação da portaria. (2) Preenchimento de um auto de apreensão em duas
vias. (3) Os aparelhos entregues serão lacrados e ficarão depositados nas sedes das
delegacias regionais. (4) Retenção de dados que possam identificar o aparelho e seu
proprietário. (5) Os infratores poderão ser retidos e cumprirem pena. (6) Fica a DOPS
responsável pela fiscalização. 75
Em concordância com o Decreto-Lei Federal n° 4701 de 17.09.42, o
comércio de rádios transmissores ou receptores obedecera ao regime normal
estabelecido pelas leis vigentes, com restrições aos súditos do eixo. Estes não
poderiam comprar, receber doações ou permutar rádios. Os particulares também não
poderiam comercializar com eles, ficando sujeitos à perda do aparelho e entre 5 a 10
meses de reclusão. 76
Essas medidas atingiram também os brasileiros que viviam do comércio desses
aparelhos e de seu conserto, muitos rádios foram recolhidos e após 1944, muitos
pedidos de devolução eram destinados a DOPS e às delegacias regionais. Pelo que foi
possível verificarmos, embora a DOPS tenha ficado responsável pela fiscalização,
guarda e manutenção desses aparelhos, muitos foram devolvidos sem a mínima
condição de uso, muitos foram perdidos e nunca foram devolvidos para seus
proprietários.
As transmissões radiofônicas tornaram-se um tipo de denúncia constante em
Curitiba; julgamos que a mais contraditória foi apontada por Boschilia (1995), quando
um destacamento policial foi enviado ao Morro do Anhangava para autuar em flagrante
uma transmissão de rádio para a Alemanha. Chegando ao local, os policiais
75
– Secretária de Segurança Pública (Antiga Chefatura de Polícia) – Pasta Temática n° 1747 –
Topografia 209.
76
Idem
149
perceberam o engano, já que estavam ali colegiais e freiras do Colégio Sion, prontos
para retornar de um convescote dominical.
De Fáveri (2005) chama a atenção para o caráter cultural do rádio, alegando que
ao ser retirado do âmbito familiar, alterou sobremaneira as práticas diárias e o cotidiano
de muitas famílias foi modificado por não poderem contar com o único entretenimento e
fonte de notícias de familiares que estavam na guerra.
Apreensão de armas, de rádios e de bens em geral; mais do que isso, era a
legitimação de uma culpa não existente. Os decretos 4166 e 476677 justificavam
qualquer apreensão, inclusive extorsões, chantagens envolvendo dinheiro e bens
desses imigrantes. Essas ações não foram tomadas somente para reagrupar os
investimentos perdidos pelo Lloyd Brasileiro, até porque a maioria das embarcações da
empresa de navegação possuía seguro; a intenção real era conter as ações de
populares contra residências e comércios de imigrantes do Eixo.
Diante desse amontoado de normas e leis, os brasileiros natos também tinham
que se adaptar e incorporar as novas medidas. Um caso interessante que verificamos
na Gazeta do Povo de 03/5/01493 foi uma justificação judicial de nome, na qual o
brasileiro nato Gustavo Suckow declara publicamente que não possui ligação com
nenhuma potência do Eixo e que embora usasse seu nome abreviado, seu nome
verdadeiro era Evaldo Joaquim Gustavo Suckow, industrial, casado e residente em
Curitiba na Alameda Augusto Stellfeld, 129678. Esse tipo de notícia em jornais e em
cartórios era comum naquele momento, era necessário se precaver dos manifestantes
alvoroçados que não paravam para reconhecer as pessoas, bastava que estas
77
Decreto-Lei n. 4766 – Define crimes militares e contra a segurança do Estado, e dá outras
providências. – Secretária de Segurança Pública (Antiga Chefatura de Polícia) – Pasta Temática n° 1747
– Topografia 209.
78
Gazeta do Povo, Curitiba, 03.05.1943, p. 04.
150
tivessem um sobrenome um pouco mais diferenciado que já seriam alvo fácil das
depredações e da violência da população.
Dada a necessidade de manter um controle absoluto sobre as populações de
“súditos do Eixo”, em 12/11/1942 a Secretaria de Interior e Justiça e Segurança Pública
divulgou a Portaria nº 147, estabelecendo a obrigatoriedade do salvo conduto para que
elementos súditos do eixo e de países satélites pudessem locomover-se. Essa
exigência já ocorria mediante a Portaria nº 30, tendo sido publicada em 03/02/1942 no
Diário da Tarde com a chamada “A Exigência do Salvo-Conduto”, em que esclarecia as
seguintes questões:
I – A obtenção de salvo-conduto só é necessária para os súbditos da
Alemanha, Itália e Japão.
II – Os brasileiros e os súbditos de outras nações, para poderem viajar,
dentro ou fora do Estado, terão que estar munidos, apenas, da carteira
de identidade, título de eleitor ou carteira profissional e certificado de
reservista.
III – A expedição de salvo-conduto será feita: Das 9 às 11, das 13 às 17
e das 19 às 21 horas, diariamente, junto a Seção de Estrangeiros da
Delegacia de Ordem Política e Social, instalada no 2º pavimento do
prédio n. 958, da rua Marechal Floriano Peixoto.
IV – Para nacionais ou naturalizados que não possuam nenhum dos
documentos de identidade especificados no Item II, será mantida, em
caráter precário, no saguão do pavimento térreo do aludido edifício,
uma seção de expedição de salvo-condutos. Aconselha-se, a todos os
nacionais ou naturalizados que não possuam outros documentos de
identidade, a obterem, no Instituto de Identificação, a respectiva
carteira.
V – Somente será fornecido salvo-conduto a quem a Delegacia de
Ordem Política Social julgue identificada e isenta de suspeita, e que
apresentar duas fotografias de 3x4 cms, e um selo de R2$000, estadual
e o de Educação e Saúde [sic]79.
As viagens realizadas como “excursões” deveriam inclusive passar pelo controle
da DOPS, evitando a locomoção ou a fuga de elementos subversivos para dentro ou
fora do Estado. Somente através de uma licença especial da DOPS que essas
atividades poderiam ocorrer. Em parte, a Portaria nº 128, que pautaria e regulamentaria
79
Diário da Tarde, Curitiba, 03.02.1942, p. 03.
151
tais questões, já que dispunha sobre acesso ao litoral pelos “súditos do Eixo”. Essa
portaria determina que: (1) O acesso às praias de banho e regiões balneárias
paranaenses será concedido mediante pedido na DOPS. (2) Para obter a permissão,
deverão se encaminhar à 5ª RM. (3) As populações residentes na faixa litorânea
também estão sujeitas às exigências. (4) Fica a Delegacia Regional de Polícia de
Paranaguá responsável pelo controle e fiscalização do processo de viagem. 80
A notícia gerou um grande alarde na população e foi tão detalhada que se fez
divulgar nos grandes jornais paulistas, como o Diário de São Paulo, propagando que as
viagens para praias paranaenses só seriam permitidas com o consentimento da DOPS.
A medida ser estendida inclusive às pessoas que já residiam na faixa litorânea nos
parece um tanto exagerada; afinal, o contingente policial das praias era diminuto em
relação ao número de banhistas, e ainda que fosse suficiente, seria um tanto inusitado
cercar as praias e exigir uma identificação para usá-las.
Para finalizar essas medidas coercitivas, frisamos a Portaria nº 3, de 11 de
fevereiro de 1944, a qual, por sua vez, apresentava medidas de segurança pública
durante o carnaval. Entre as principais, elencamos:
(1) Os bailes públicos só serão realizados mediante licença expedida
pelo DEIP, devendo terminar ate as tres da manha. (2) os estandartes
deverão ser vistoriados e liberados pelo DEIP e DOPS. (3) blocos,
cordões ou agrupamentos carnavalescos deverão pedir licença a DSP
para saírem às ruas. (4) é vetada a utilização de mascaras e disfarces
que prejudiquem a identificação pessoal. (5) os blocos não deverão
exceder 30 pessoas e cada uma devera recolher Cr$ 2,00, exceto os
menores de 14 anos. (6) fantasias e canções consideradas imorais e
grupos de indivíduos maltrapilhos são proibidos, bem como, todo gesto
ou objeto que atente contra a moral. (7) proíbe o uso de fantasias que
se assemelhem com uniformes de corporações.
(8) será autuado em flagrante o proprietário de bar que vender bebidas
alcoólicas para menores de 18 anos, aqueles que já se encontrarem
alcoolizados, pessoas com problemas mentais e pessoas que possuem
proibição legal para freqüentar locais onde se consumem bebidas
80
Portaria 128 de 05/04/1943 - Secretária de Segurança Pública (Antiga Chefatura de Polícia) – Pasta
Temática n° 1747 – Topografia 209.
152
alcoólicas. (9) não será permitida a presença de pessoas armadas em
bailes públicos. (10) o uso do lança perfume será fiscalizado pela
policia. (11) proibida a presença de menores de 18 anos. (12) as
transgressões as determinações acima serão passiveis de pena. (13)
fica proibido a circulação de qualquer meio de transporte na rua XV de
Novembro. (14) nos dias de carnaval o transito da rua XV será impedido
das 13 às 23 horas. (15) no interior do estado fica a cargo das
respectivas delegacias monitorarem os festejos de carnaval e aplicar a
referida portaria. 81
Ainda existem outras medidas legais que recaíram sobre a população curitibana,
ao contrário do que podemos imaginar, essas restrições não eram exclusivas aos
“agentes subversivos do Eixo”, pois para que elas pudessem funcionar a população de
origem brasileira e a população de imigrantes que nada tinha a ver com Hitler,
Mussolini e Hiroito tiveram que pagar altos preços e reorganizar seu modo de vida a fim
de atender às necessidades do Estado.
3.2
A rede de denúncias em Curitiba, a ação da DOPS e o silêncio como forma
de oposição
No jogo de poder entre o Estado e os imigrantes e descendentes de países do
Eixo não havia espaço para explicações e justificações, bastava estar de um lado ou de
outro, ou a favor das restrições impostas ou contra. É evidente que se posicionar contra
o governo era assumir as responsabilidades de um criminoso, proteger imigrantes da
polícia ou servir como intermediador entre ambos, naquele momento, se constituía uma
tarefa penosa.
As práticas cotidianas foram alteradas e abriram um vasto campo para que
revanchismos e intrigas fossem realizados. Muito aquém dos conflitos étnicos, do
81
Portaria 3 – – Secretária de Segurança Pública (Antiga Chefatura de Polícia) – Pasta Temática n°
1747 – Topografia 209.
153
perigo alemão, estavam as vinganças pessoais, as quais iam desde o mais simples
boato até a grave acusação de ser simpatizante da Alemanha nazista e discutido
abertamente contra o Brasil e seus governantes.
Essa repentina tomada de consciência acerca da identidade nacional trouxe fez
emergir um cidadão cada vez mais atento e crente da existência de um inimigo comum;
o “perigo alemão”
82
. Essa vigilância demasiada gerava, por sua vez, uma série de
denúncias contra alemães, descendentes e até mesmo pessoas próximas aos que
eram considerados “eixistas”.
Antes de apresentar as ações repressivas, as denúncias clandestinas e os
entreveros entre a população “nacional” contra os “estrangeiros súditos do Eixo”,
discutiremos algumas ideias que nos auxiliarão a analisar esses antagonismos sociais.
O clima de guerra instaurado na sociedade curitibana trouxe uma realidade de
interações sociais completamente novas, alterando as antigas relações cordiais entre a
população luso-brasileira e os imigrantes diversificados que habitavam a capital
paranaense. A guerra – próxima ou não – aflorou o sentimento de identidade nacional,
tornando claras as alteridades existentes naquela sociedade.
Bronislaw Baczko adverte-nos para uma discussão de suma pertinência, ao
questionar sobre os imaginários sociais:
Em qualquer conflito social grave – uma guerra, uma revolução – não
serão as imagens exaltantes e magnificentes dos objectivos a atingir e
dos frutos da vitória procurada uma condição de possibilidade da
própria acção das forças em presença? Como é que se podem separar,
nesse tipo de conflitos, os agentes e os seus actos das imagens que
aqueles tem de si próprios e dos inimigos, sejam estes inimigos de
classe, religião, raça, nacionalidade, etc.? Não são as acções
efectivamente guiadas por estas representações; não modelam elas os
comportamentos; não mobilizam elas as energias; não legitimam elas
as violências? [...] Não será que o imaginário colectivo intervêm em
82
Para maior entendimento conceitual do termo, consultar: GERTZ, RENÉ. O perigo alemão. Porto
Alegre. Editora da UFPRS, 1991.
154
qualquer exercício do poder e, designadamente, do poder político?
(BACZKO, 1995, p. 298).
Neste sentido, as situações conflituosas estão intrinsecamente ligadas às
questões de identidade, como categoria de distinção e da proliferação de um
imaginário social coletivo. Baczko (1995, p. 309) alega que “designar a identidade
coletiva corresponde, do mesmo passo, a delimitar o seu “território” e as suas relações
com o meio ambiente e, designadamente, com os “outros”; e corresponde ainda a
formar as imagens dos inimigos e dos amigos, rivais e aliados”.
Ansart (1978, p. 6) entende que uma prática social, reunindo de modo ordenado
comportamentos individuais voltados para finalidades comuns, supõe uma estrutura
complexa de designação, de integração significante, de valores; um código coletivo e
interiorizado, que tem como principal força uma ideologia, seja ela religiosa, mítica ou
política. Ainda complementa no sentido de que:
A ideologia política renova o empreendimento mítico e religioso da
identificação dos indivíduos. Convocando um grupo particular (partido,
classe, nação) para uma ação também particular, estabelece as
fronteiras e recria os instrumentos de magnificação do grupo envolvido.
Para que seja possível a ação, é necessário que a linguagem participe
da manutenção das lealdades individuais em relação a coletividade e,
para tal, entretenha o jogo da identificação do ego no grupo (ANSART,
1978, p. 40-41).
O estabelecimento de parâmetros para “amigos” e “inimigos” mediante as
questões da identidade étnica é um dos fatos que permite nortear os fatos ocorridos em
Curitiba no decorrer da Segunda Guerra Mundial. Cuche enuncia que: “A identidade é
então o que está em jogo nas lutas sociais. Nem todos os grupos têm o mesmo “poder
de identificação”, pois esse poder depende da posição que se ocupa no sistema de
relações que liga os grupos” (2002, p. 190).
155
A imposição das diferenças pode se prolongar em uma política de segregação
dos grupos minoritários obrigados a ficar em seu lugar – ou ser submetido a
questionamentos e regras que não são válidas para toda a sociedade. Fatos que foram
evidenciados por toda comunidade de alemães durante o Projeto de Nacionalização e
o período da Segunda Guerra Mundial, quando essa comunidade teve que se sujeitar a
normas discriminatórias que de certa forma a diminuía socialmente, mesmo quando
esta já se considerava integrada à sociedade paranaense.
Essas relações com o “outro” desenrolam-se de forma que fica visível a
dissonância entre a identidade individual e a identidade coletiva. Se o “eu” tende a
suprimir o “nós” na balança das prioridades, como ressalta Elias (1997), quando as
questões são de ordem coletiva e tendem a prejudicar o grupo social ao qual o
indivíduo pertence o sentimento de coletividade desperta, e “quando se trata dos
outros, isto permite todas as generalizações abusivas. O artigo definido identificador
permite reduzir um conjunto coletivo a uma personalidade cultural única, apresentada
geralmente de forma depreciativa” (CUCHE, 2002, p. 189).
Para Ansart (1978, p. 13), o sujeito é constantemente convocado a
autodefinição, a reconhecer-se na imagem que lhe é proposta, consolidando-a nas
relações com o outro. Naquele momento de alteração do quadro político, o sujeito fora
chamado a atender aos desígnios da nação e reconhecer sua condição de brasileiro
combatente dos perigos oferecidos pelos “súditos do Eixo”, isto é, a mobilizar-se. Pierre
Ansart é categórico ao afirmar que “ao obter a mobilização entusiasta dos cidadãos, o
Estado suscita energias e as canaliza para seus objetivos, criando assim excedentes
de energias, simultaneamente um acréscimo de poder (1978, p. 257).
As reflexões de Denys Cuche, Bronislaw Baczko e Pierre Ansart a que aludimos
anteriormente são importantes para as discussões levantadas a seguir; portanto,
procuraremos apresentá-las de forma a entender como a população curitibana atendeu
156
aos chamados da nação, participou das campanhas de arrecadação e de mobilização
econômica e especialmente posicionou-se contra aqueles que eram considerados
contrários à Nação Brasileira.
A proibição do idioma natal foi para os imigrantes a maior represália no período
estudado; as escolas estrangeiras foram fechadas sem nenhuma perspectiva de
mudanças ou de substituição por escolas de ensino em português. A língua foi a
grande válvula de escape para as complicadas justificativas policiais de apreensão,
prisões e violência contra imigrantes. Era necessário unificar o idioma e a todo custo
emudecer as falas estrangeiras.
É evidente que a declaração de guerra desencadeou na população uma
crescente insatisfação com a presença de imigrantes pertencentes ao eixo no país,
principalmente os alemães. Iniciou-se uma grande onda de perseguição aos alemães e
seus descendentes; muitos foram acusados de espionagem e envolvimento com a
causa nazista. Inúmeras denúncias partiram dessa matriz, a língua.
Em Curitiba, a própria sociedade civil, “ameaçada” pelo “perigo alemão”, tomava
por conta própria atitudes que visavam a coagir os imigrantes e descendentes de
alemães. Ameaças à integridade física desses indivíduos, destruição de seus
estabelecimentos comerciais e residências fizeram parte do cotidiano curitibano
durante a Segunda Guerra.
Marlene de Fáveri (2005) reforça a presença de uma série de atores que
compactuavam com a manutenção das leis proferidas pelo Estado Novo, que iam
desde os policiais (aparato legal), inspetores de quarteirão e vizinhos, sempre prontos
para colocar seu patriotismo em dia. Assinalamos, pautados nas ideias discutidas por
Jameson (1992, p. 86), que se ocorreu a emergência dessas novas identidades na
sociedade curitibana, ou seja, novos sujeitos históricos nessa dada coletividade, é
157
justamente porque a situação histórica (o estado de guerra) possibilitou seu
aparecimento, uma espécie de resistência social perante a uma situação adversa.
Mediante o fato de grande parte dessas reclamações e denúncias ser
destinadas ao próprio presidente, a institucionalização das denúncias políticas foi
decretada, o que contribui para aumentar o número delas, que cada vez mais tratavam
de vinganças pessoais e não de acusação verdadeira. Segundo Cancelli:
Um dos casos que mais trabalho deu aos agentes policiais foram as
denúncias feitas por Luís Correia, ou Bengalinha, um conhecido
escroque de Curitiba, que, usando o pseudônimo de Guaracy, enviou a
Policia do Distrito Federal seis boletins diferentes contendo uma
infinidade de acusações, até ser desmascarado por uma investigação
da polícia do Paraná (CANCELLI, 1993, p. 142).
De acordo com a autora, as denúncias populares serviam para evidenciar o grau
da vigilância e da tolerância da população civil em relação a esses imigrantes. Na
medida em que esses cidadãos se reconheciam como sujeitos capazes de interlocução
pública, tinham o “poder” de desestabilizar/subverter determinadas situações, no caso
apontado, legitimar a repressão aos alemães na capital paranaense. Paoli & Telles
(2000) pontuam que em torno desses sujeitos coletivos abrem-se horizontes de
possibilidades que não se deixam encapsular nas suas singularidades de classe,
gênero, raça ou etnia.
Observamos essas denúncias como formas eficazes de controle social; naquele
momento de tensão, qualquer problema – por mais simples que fosse – era passível de
uma denúncia formal ou anônima. Como já postulamos, a questão étnica era
importante, mas por inúmeras vezes foi suplantada por pequenas disputas de poderes,
ciúmes entre vizinhos, inveja e antigos ressentimentos.
Essa rede de denúncias que se constituiu em todo o país não era restrita às
classes inferiores, envolvia também os altos escalões políticos e os grandes
158
empresários. Nos relatórios da antiga DOPS, pudemos observar uma série de
denúncias internas entre policiais, acusando uns aos outros de oferecer guarida a
imigrantes ou a fazer corpo mole diante de situações que feriam a Nação.
Dentro da própria polícia havia denúncias, um exemplo que verificamos foi uma
extensa denúncia formal realizada pelo aspirante à delegado da cidade de Assai,
Benoit Santos Cidreira, indiciando o investigador Lafayette Vasco Toledo e o delegado
da cidade de Paranaguá, Capitão Pelmyro G. de Oliveira, a serem coniventes com
inúmeras situações de crime contra a pátria. No relatório encaminhado ao Delegado da
DOPS, Sr. Valfrido Piloto, o aspirante relata que ao pernoitar na cidade, evidenciou
inúmeras irregularidades, como reuniões de elementos do Eixo e que a proprietária da
pensão onde pernoitou falava abertamente a favor de Hitler. As críticas foram
prontamente rebatidas pelo delegado regional de Paranaguá e foram arquivadas,
porém o subterfúgio da denúncia em troca de cargos e promoções parece ser uma
prática comum naquele momento.
Algumas denúncias chamam a atenção pelo seu grau de particularidade, um
exemplo pode ser obtido com a prisão do indivíduo Carlos Exfeling, detido em Antonina
pelo delegado regional. Ao ser indagado pelo delegado da DOPS sobre os motivos da
detenção, responde o seguinte:
[...] o mesmo é filho de alemães, casado com uma alemã, empregado
da empresa Matarazzo, tem livre acesso aos navios, é inteligente e se
traja bem, recebendo cerca de CR$ 800,00 ao mês, o que
potencialmente o torna passível de suspeita e de necessária
sindicância 83 (grifo nosso).
Essas particularidades, atreladas ao contexto geral da repressão, auxiliam-nos a
reforçar nossa hipótese de que a repressão no Paraná foi desmedida e que a ação da
83
Delegacia Regional de Antonina – Pasta Temática n° 4791.
159
polícia política estava forçando situações visando a distrair a população com outras
preocupações.
Outra fixação interessante das denúncias populares são as fotografias de
lideranças políticas como Hitler, Mussolini e o ex-líder da AIB Plínio Salgado. Em
06/04/1942, após uma denúncia telefônica, foi realizada uma inspeção rigorosa na
residência de Arcendino Neves, sito a XV de novembro, 1124, aprendendo material
considerado subversivo – livros em idioma alemão e italiano, cadernos e livros com o
Sigma - ∑ - na capa, livros de autoria de Plínio Salgado, revistas de cunho integralista e
fotos.
Quando indagado pelo investigador se possuía fotos do líder Plínio Salgado, o
proprietário afirma que as teria queimado, sendo então fichado na DOPS, mas não há
afirmação dele ter sido retido; no dia 07/04/1942 encontramos que foi lavrado um auto
de apreensão dos itens encontrados assinado pelo investigado e pelas autoridades
competentes.
Um caso
que chamou nossa atenção foi o da Pensão Kreutz. Nessa pensão,
localizada na Rua Candido Lopes, 261, na cidade de Curitiba, foram realizadas várias
apreensões pela polícia local. No dia 03/04/1942, foi recebida pela polícia uma
denúncia avisando que na rua supracitada existia uma reunião; na averiguação, foram
encontrados quatro homens e duas mulheres, todos de nacionalidade alemã. Foram
aprendidas algumas revistas e livros e todos foram intimados a comparecer na
delegacia.
84
Foram aprendidos materiais considerados subversivos dos seguintes
hóspedes: Jacob Kreutz (Proprietário da Pensão), Hoenig, Hortumut Decomain, Jacob
Lamoen, Alfredo Holnig e Hans Martin Otto Schottge.
84
Relatório 388 – Ação Integralista Brasileira – Pasta Temática 007 – Topografia 001.
160
Pelo que consta nos relatórios, todos foram liberados, porém foram colocados
em suspeita, merecendo um cuidado especial dos investigadores.
No dia 12/07/1942, o inspetor Armando Ribas Brasil, ao jantar no Restaurante
Bar Paraná, fez o seguinte relatório:
Hoje aproximadamente as 6,30 horas da tarde, encontrava-me jantando
no Restaurante Bar Paraná, à rua 15 de novembro, quando entraram
JACOB DE TAL, proprietário de uma Pensão sita á Rua Candido
Lopes e mais GHILHERME BENECKI, tendo este ultimo ao se
defrontar com o proprietário do aludido estabelecimento feito a
saudação nazista em contrario a proibição de nossas leis, não tendo
entretanto o proprietário do estabelecimento respondido a saudação85
(grifo nosso).
Embora o proprietário da pensão Kreutz não tenha respondido à saudação, foi
retido pra esclarecimentos. A fiscalização sobre o alemão e a pensão cresceu e no dia
15/07/1992, atendendo às ordens do delegado, foi realizada uma nova revista na
pensão de Jacob Kreutz, sendo recolhidos vários livros e revistas em alemão e vários
folhetos de propaganda antinazista e contrária ao quinto colunismo.
No dia 16/10/1942, um novo relatório do DOPS relativo à Pensão Kreutz foi
emitido pelo delegado, alertando que a mesma poderia ser ponto de descanso de
sujeitos em atividade de observação ou ligação com países eixistas. Levando em
consideração que o referido proprietário já havia sido detido outras vezes, e que apesar
da DOPS deixá-lo na impressão de que não suspeitava mais de sua pessoa, manteria
uma investigação assídua em sua pensão. 86
A dinâmica da suspeição era tamanha que no dia 27/09/1943 foi solicitada a
presença de um agente da DOPS para averiguar um novo chamado na Pensão Kreutz,
pois haviam desenhado, na primeira página de exemplar da Gazeta do Povo, a cruz
85
Notamos que o inspetor não sabia o nome correto do alemão e preencheu o relatório completando
com DE TAL. Pensão Kreutz – Pasta Temática n° 1555 - Topografia. 188.
86
Oficio 283 do Quartel General da 5ª RM – Pensão Kreutz – Pasta Temática n° 1555 - Topografia. 188.
161
suástica87. O jornal foi recolhido – conforme figura anexa – e o proprietário foi à
delegacia para dar esclarecimentos, argumentando que isso não passava de uma
brincadeira de alguém mal intencionado, sem interesses políticos, só para prejudicá-lo.
Ao analisarmos a página de jornal, é quase impossível verificar o desenho da
cruz suástica, somente ao fazer um recorte e ampliá-lo podemos perceber o desenho.
Reiteramos que essa pensão suscitou inúmeras denúncias na DOPS, já que o local foi
cenário em 1940 de um churrasco organizado por Alfred Andersen – chefe da
propaganda nazista no Paraná –, evento que acarretou a detenção de todos os
participantes para prestarem esclarecimentos na delegacia, já que o NSDAP estava
proibido de se reunir em todo o país.
Uma última consideração acerca dessa pensão é que seu endereço era o
mesmo da revista nacionalista “Idéia”, que se apresentava como um jornal de difusão
litero-educacional, mas que publicava diversas matérias sobre o nacionalismo, sobre a
guerra em curso e sobre o que consistia servir o país. Sob a direção de Glauco Sá
Brito, mantinha números sem uma periodicidade definida e trazia no corpo do jornal, no
canto superior direito, o endereço Rua Candido Lopes, 261, sendo este desde a
década de 1930 o endereço da Pensão Kreutz. Infelizmente não conseguimos mais
fontes que nos permitem realizar uma ligação entre o jornal e a pensão, os materiais
antinazistas que foram recolhidos anteriormente devem possuir vínculo imediato com a
revista, porém nem a polícia nem o proprietário fazem menção ao referido jornal em
nenhum relatório.
87
Relatório da DOPS 687 de 27 de setembro de 1943 - Pensão Kreutz – Pasta Temática n° 1555 Topografia. 188
162
FIGURA 7 – Exemplar da Gazeta do Povo recolhido na Pensão Kreutz
Fonte Arquivo Público do Estado do Paraná – Pensão Kreutz – Dossiê 1555, Top.
188
163
Outras formas de denúncias faziam parte do cotidiano; entre os relatórios
verificados, notamos que a maioria das chamadas abertas por antipatriotismo eram
atendidas, como, por exemplo, quando o Sr. Álvaro Nunes, em 10/08/1943, foi
denunciado formalmente sobre alegações que fizera durante seu expediente de
trabalho, era acusado de ter dito que a campanha da borracha não era a campanha da
vitória e sim "Vitória uma merda"88; dessa forma, estava contra os preceitos da nação
brasileira. Foi ordenada sua detenção e imediato envio à capital para abertura de uma
sindicância. Durante esse processo, o aspirante Almir Medeiros Crespo procurou
levantar esclarecimentos sobre as alegações contrariás à pátria que Nunes fez
enquanto trabalhava na firma Matarazzo, bem como investigou o fato deste aparentar
tentativas de atrasar o serviço de embarque de navios no porto, sendo sua última
tentativa realizada com um cargueiro carregado de gasolina. Nada tendo declarado,
Nunes ficou detido em Curitiba durante alguns dias e foi solto, retornando para a cidade
portuária de Antonina.
Muitas dessas denúncias acarretaram apenas tempo perdido para a DOPS,
todavia demonstram a participação da população no jogo repressivo incitado pela
polícia política e pelo governo estado novista. Passamos agora a tratar das ações
violentas que essa mesma população realizou na capital paranaense e em algumas
cidades da região litorânea.
88
Delegacia Regional de Antonina – Pasta Temática 4791.
164
3.3
A população civil vai às ruas: protestos, quebra-quebras e violência contra
“eixistas” em Curitiba e região durante a Segunda Guerra Mundial
O Estado do Paraná estava, desde 1932, sob a égide da interventoria de Manoel
Ferreira Ribas, político linha dura, aliado de Vargas e de sua extrema confiança.
Durante a campanha de nacionalização, Ribas permaneceu firme ao executar todas as
normas restritivas destinadas aos imigrantes, mesmo governando um Estado que teve
seu crescimento social e principalmente econômico amplamente ligado à vinda desses
imigrantes.
Como já postulamos anteriormente, em Curitiba a grande massa populacional
era composta de imigrantes de diferentes etnias, que iam desde a vasta comunidade
polonesa ucraniana às pequenas comunidades de asiáticos e árabes ali instaladas.
Grandes bairros da cidade foram frutos de antigas comunidades de imigrantes, como
Santa Felicidade, resquício do núcleo colonial italiano, ou da comunidade teuta,
representada por bairros como Pilarzinho e Lamenha.
Outras cidades paranaenses foram formadas ou receberam contingentes de
imigrantes, podemos exemplificar com Ponta Grossa, Rolândia, Lapa, Paranaguá, Irati
etc. Muitas dessas foram núcleos de colonização ou receberam levas de re-imigração
do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, cresceram e se desenvolveram não à sombra
desses imigrantes, mas junto com eles. A difícil tarefa de encontrarem meios de
comunicação e de coexistência foi aos poucos sendo superada, e embora ocorressem
ainda muitos reveses relativos ao idioma e às questões de pertencimento nacional,
podemos asseverar que ocorreram trocas culturais e que a convivência entre culturas
díspares já não era motivo de desentendimento entre vizinhos.
Realçamos que até mesmo a interventoria estadual estava satisfeita com a
presença alemã no Paraná; em 1936, durante uma solenidade da passagem do
165
dirigível Hindenburg sobre a capital, Ribas parabenizou os tripulantes e passageiros da
"da altiva Alemanha, cujos filhos laboriosos e honestos, aqui radicados, constroem
comnosco a grandeza sempre crescente do Paraná" [sic] (GAZETA DO POVO,
02/12/1936, p. 6). Da mesma forma, mostrou-se grato por fixarem seu retrato entre o
de Vargas e Hitler no salão nobre da Deustche Schule na ocasião de sua inauguração
(SOUZA, 2002, p.115) 89.
Ribas também reconhecia a influência que esses imigrantes possuíam no
comércio e na sociedade; sabia que detinham grande parte dos estabelecimentos
comerciais da cidade e que dominavam alguns setores da prestação de serviço.
Entretanto, nada disso foi motivo de dúvida durante a repressão aos imigrantes
considerados perigosos pelo Estado Novo.
O aparato policial foi montado por meio de uma fundamentada rede de
repressão; a ação conjunta das forças da Delegacia de Ordem Política e Social e da 5ª
Região Militar e das Delegacias Regionais conseguiu criar meios de repressivos dignos
do "controle total" fomentado pelo Estado Novo.
A situação dos imigrantes alemães no Brasil diante da campanha de
nacionalização tornou-se uma preocupação constante da diplomacia alemã, porém
essa mesma situação só se piorou com a eclosão do conflito bélico mundial, com a
Alemanha figurando como uma das protagonistas. Os discursos inflamados de Hitler
relativo ao povo alemão e sobre a busca de novos espaços e domínios para a Grande
Alemanha deram ainda mais vazão à ideia do "perigo alemão" e gerou preocupações
reais acerca da presença demasiada destes em terras tupiniquins.
89
A Estrada do Poente: Escola Alemã/Colégio Progresso(Curitiba 1930 – 1942)
166
FIGURA 8 – Dirigível alemão Hindenburg sobrevoando a capital paranaense
Fonte: LOSS, Marcelo Emilio. Imigração alemã. Pedra da Gazeta, Curitiba, 2005.
Disponível em: www.pedradagazeta.com.br . Acesso em: 02 jan. 2010.
167
Antes mesmo da declaração oficial de guerra ao Eixo, foram aproximadamente
vinte ataques a navios brasileiros, que resultaram em centenas de mortes, incontáveis
prejuízos financeiros e na revolta da população, que, indignada, via crescer impune as
atividades dso submarinos alemães na costa brasileira. Até o final da guerra, foram
torpedeados trinta e quatro embarcações brasileiras, contra onze submarinos alemães
e um italianos afundados; oficialmente foram totalizados 1.081 mortos, cerca de 63%
dos tripulantes embarcados nesses navios afundados (SANDER , 2007).
Os fatos supracitados compõem o pano de fundo para as situações que se
desencadearam em várias cidades brasileiras; a população revoltada saiu às ruas para
protestar contra os atos de violência, exigindo uma imediata tomada de posição do
governo brasileiro. Passamos, doravante, a discutir como essas notícias repercutiram
na sociedade curitibana através da imprensa local e como a população reagiu aos
fatos. Buscamos também demonstrar a atuação das delegacias de polícia vinculadas a
DOPS em Curitiba e na região, enfatizando
os comícios/protestos em 1942 e os
quebra-quebras e depredações realizadas em comércios e residências de "súditos do
Eixo", que
alteraram bruscamente as relações de convivência pré-existentes entre
luso-brasileiros e imigrantes/descendentes de países do Eixo.
A navegação tinha um papel crucial não só para o comércio exterior, mas para a
população brasileira, que em detrimento das péssimas condicões rodoviárias e das
limitações ferroviarias utilizavam os navios como eficaz meio de transporte. Embora as
perdas financeiras tenham assustado o governo, as vidas ceifadas assustaram a
população.
Os jornais paranaenses noticiavam os ataques, mas não aparentavam estar
carregadas do patriotismo costumeiro. Destacamos entre os jornais de época uma
168
notícia veiculada – tardiamente – no Correio da Manhã de agosto de 194290, quando já
haviam sido afundados dez navios brasileiros, um prejuízo estimado superior a 10
milhões de dolares, vitimando fatalmente 123 pessoas.
A chamada tem um tom apenas informativo e parece não querer causar
impactos
na
relação
já
conturbada
do
Brasil,
relatando com
detalhes
os
acontecimentos, solicitando auxílio imediato dos EUA na defesa do país. Até então o
Brasil ainda mantinha a neutralidade, somente após a declaração de estado de
beligerância, em 22 de agosto de 1942, que foi noticiada pelo Correio da Manhã, no dia
24 desse mesmo mês, com a seguinte chamada "Declarado ao Departamento de
Estado norte-americano o estado de beligerancia do Brasil"91. No decorrer da notícia,
ficam esclarecidos os motivos da não isenção do Japão do estado de beligerância; nas
palavras do embaixador brasileiro Martins Pereira de Souza: "não fomos alvo de
nenhuma agressão de sua parte"92.
Seria demasiado pueril propalar que apenas os ataques aos navios brasileiros
fizeram com que a população civil se revoltasse contra os imigrantes e seus
descendentes; é impossível isentar os sentimentos patrióticos exaltados por quatro
anos de discurso nacionalista por parte do governo, imprensa e polícia. Acreditamos
que essa demora em aderir a um dos lados na guerra não só serviu para angariar
fundos de ambos os lados, mas também para preparar o cenário, preparar a população
para que esta não fosse um entrave no posicionamento político brasileiro e mais para
que esta não se perguntasse como uma governo autoritário, pautado em uma ditadura,
aderira a uma guerra contra os inimigos da democracia.
90
Correio do Paraná, Curitiba, 02.08.1942 – "Torpedeamentos de navios brasileiros nas proximidades
dos EE.UU"
91
Correio do Paraná, Curitiba, 24.08.1942.
92
Idem
169
Em Curitiba, logo após os primeiros atentados contra navios brasileiros, uma
parte da população resolveu tomar para si as responsabilidades do Estado, embora as
ações que esse grupo de pessoas tomaram realmente não fossem
atribuição de
ninguém; afinal, houve uma personificação dos fascismos europeus em pessoas que
necessariamente
não
compactuavam
com
as
ideias
nacionais
socialistas
empreendidas na Europa.
No dia 18 de março de 1942, a população organizou um comício para protestar
as vidas ceifadas pelos submarinos alemães, para exigir uma revanche imediata por
parte do Brasil e em nome do civismo e do patriotismo – após o término dos discursos
– saíram às ruas da capital paranaense depredando prédios que abrigavam residências
e estabelecimentos comerciais dos denominados "quinta colunas" e "súditos do Eixo".
No tocante à depredação, foram contabilizados sessenta e oito (68)
estabelecimentos comercias depredados, sendo estes de propriedades de alemães,
japones, italianos e outras nacionalidades – que mesmo não fazendo parte do
confronto bélico, fizeram parte da empreitada por terem nomes que se julgava
pertencer aos eixistas.
Mesmo os brasileiros descendentes pagaram o preço do "civismo curitibano",
citamos o caso de Alfredo Weiss, nascido no Brasil e estabelecido em Curitiba desde
1893, em que seu estabelecimento – Foto Progresso – segundo foto apresentada pelo
mesmo ao General Pedro de Albuquerque, da 5ª Região Militar, foi completamente
depredado durante a manifestação da noite do dia 18.03.42.
170
FIGURA 9 - Sala de espera do Foto Progresso – Curitiba
Fonte: Arquivo Público do Estado do Paraná – Pasta 802 - Comício de 18.03.1942
171
Um fator interessante desse comício é que este começou pela manhã, com uma
grande reunião de pessoas na Praça Osório, onde professores, jornalistas e líderes de
comunidades discursaram em prol do nacionalismo e do sentimento de luta que estava
se impondo sobre o país. Finda a "verborragia nacionalista", seguiu-se um desfile
organizado por uma das grandes avenidas da cidade. De acordo com os relatos
contidos nos jornais, tudo transcorreu na maior ordem possível e esses manifestantes
chegaram à Praça Santos Andrade, onde começaram um novo comício, só que dessa
vez com diversos oradores e entre eles o já conhecido delator do nazismo e de seus
praticantes Rodrigo de Freitas, radialista da PRB2 e cronista da Gazeta do Povo. 93
Os jornais não relataram a presença de nenhuma autoridade local, mas
informam que logo após o encerramento do comício, a multidão foi exercer seu
"civismo patriótico" nas ruas da capital. Zucon (1997) enumera alguns atentados que
compuseram esse cenário e que são retratados também em parte dos documentos que
restaram da DOPS sobre o comício. Entre as dezenas de atos violentos, destacamos a
situação do Foto Progresso (como demonstramos acima), o incêndio provocado na
Casa Mascote, empresa que comercializava produtos usados e de segunda mão, a
depredação da Casa Suíça, loja de materiais elétricos de propriedade de Alfredo
Bollinger, o quebra-quebra geral da loja de meias Mousseline, entre outros.
Em relação ao incêndio da Casa Mascote, os laudos do Corpo de Bombeiros de
Curitiba demonstram que não houve vítimas, mas que os prejuízos foram enormes,
segundo o oficial responsável, 2° Ten. Joaquim de S ouza Teixeira, no incidente foram
utilizados três caminhões pipas da corporação que foram chamados aos 55 minutos do
dia 19.03.1942 e que levaram cerca de cinquenta minutos para extinguir o fogo,
visando, sobretudo, a proteger as casas e os estabelecimentos que rodeavam o prédio.
93
Diário da Tarde, Curitiba, 19.03.1942
172
Zucon (1997, p. 112) descreve um detalhe que ajuda a compreender a motivação
dessas pessoas; em meio ao quebra-quebra, cessaram o ataque à Casa Mascote
quando localizaram em seu interior uma fotografia de Getúlio Vargas, e logo que a foto
foi "salva", retornaram à pancadaria.
Outros dois incidentes têm como causa fatores comuns, primeiramente o fato da
população não saber diferenciar os diversos sobrenomes dos imigrantes existentes na
cidade e relativizar automaticamente para alemães, italianos e japoneses, e o segundo,
comum durante manifestações, esquecerem a "causa da luta" e agirem instintivamente,
destruindo e depredando bens, locais ou pessoas que nada possuíam ligação com o
protesto. Zucon (1997, p. 112) afirma que esse tipo de manifestação tem como álibi a
crença comunitária, que naquele momento estava incumbida de lutar pela nação
brasileira, relativizando – muitas vezes erroneamente – todos os imigrantes como
agentes subversivos e "súditos do Eixo".
A Casa Suíça de Alfredo Bollinger foi completamente destruída pelos
manifestantes. No dia seguinte, este se dirigiu à delegacia para revelar que era de
nacionalidade suíça e que esse país mantinha-se neutro diante do conflito mundial94,
dessa forma, ele não poderia ser prejudicado pelo fato dos manifestantes não
possuírem informações precisas sobre a guerra. Já a loja Mousseline, de propriedade
de um brasileiro, foi devastada na noite anterior e seu proprietário foi até a redação do
Diário da Tarde para que fosse esclarecido publicamente que "Mousseline" era uma
palavra de origem francesa e que significava tecido leve, sendo este matéria-prima
para fabricação de meias, e que o nome não possuía vínculo algum com o comandante
supremo do fascismo italiano (ZUCON, 1997, p. 112).
94
Diário da Tarde, Curitiba. 20.03.1942 e Relação das Casas depredadas no comício realisado (sic) em
18.03.1942. Fls. 3-5. – Comício de 18.03.1942 – Pasta Temática n° 254 – Topografia 27.
173
Nem só os estrangeiros "não eixistas" se dirigiram até as delegacias para
contestar; mais do que isso, um grupo de trabalhadores brasileiros da empresa
Theodoro Schaitza e Cia – de propriedade de um alemão e de um brasileiro nato –
foram no dia seguinte até a Chefatura de Polícia entregar um abaixo-assinado a Fausto
Bittencourt, argumentando que a maioria dos trabalhadores eram brasileiros e que
daquela fábrica dependiam muitos outros brasileiros, solicitando garantias de que a
mesma não fosse atacada novamente.
São quase cinquenta assinaturas que seguem junto à solicitação. Esse tipo de
atuação da população demonstra que ainda havia uma coexistência entre imigrantes e
brasileiros, e que embora a grande maioria estivesse totalmente de acordo com as
medidas nacionalistas adotadas pelo Estado Novo, alguns ainda não haviam absorvido
o discurso da grande imprensa contra os imigrantes.
Sobre os acontecimentos do dia dezoito, o cronista da PRB2, Rodrigo de Freitas,
publicou dois dias depois em sua coluna um texto enaltecendo a participação da
população nos atos que "serviram de eles para demonstrar aos inimigos do Brasil que
os brasileiros os conhecem e sabem onde eles se ocoitam [sic]" e ainda ressaltou que
"[...] não houve, portanto, injustiças."95 É certo que a população ficou em polvorosa com
as palavras de Freitas e com os resultados das ações contra os "filhos de Hitler", mas
para a polícia e em especial para a Secretaria de Justiça esse evento ocasionou muitos
problemas, um dos mais destacados foi levantado pelo Comandante da 5ª Região
Militar Pedro de Albuquerque, que repreendeu duramente o Chefe de Polícia do
Paraná, pois o fato havia sido relatado ao Ministério da Guerra e de acordo com o
Ofício 55 B/C de 10.04.1942:
95
O Povo tem mil olhos e mil ouvidos para ver e para ouvir – Crônica da PRB2 – Lida no dia 20.03.1942
– Comício de 18.03.1942 – Pasta Temática n° 254 – Topografia 27
174
[...] II - Os acontecimentos que se verificaram nessa cidade, no dia 18
do corrente, quando me achava ausente em viagem de inspeção,
tiveram grande repercursão não como um ato de civismo mas como ato
de depredatório ao qual está inteiramente alheia a culta sociedade de
Curitiba. III – Tendo levado os fatos ao conhecimento do Sr. MINISTRO
DA GUERRA, sua Excia, como este Cmdo. reprovou-os. IV – Solicitovos providencias preventivas para que fatos dessa natureza não se
reproduzam [sic] [...]" 96
Nesse mesmo ofício é remetida ao Chefe de Polícia uma lista com dezesseis
nomes para serem interrogados, entre eles o do cronista da PRB2. O Ten. Cel. Agenor
Brayner, na breve descrição de cada "elemento", pontua que em sua maioria eram
comunistas ou já estiveram envolvidos com causas comunistas, reforçando a ideia do
Gen. Pedro de Albuquerque de que a "fina nata" da culta sociedade curitibana nada
tinha a ver com o imbróglio.
É visível o caráter pessoal e a suspeição empregada nos relatórios, reiterando
que algumas informações são de caráter no mínimo duvidoso, algumas palavras e
terminologias servem para a construção da figura do elemento nocivo e para justificar
sua retenção ou a necessidade de colocá-lo sobre suspeita. Notamos que há nessa
lista um abuso da alcunha de "comunista", afinal, quando se trata de "brasileiros
indesejáveis", a ideia de "quinta coluna" e "súdito do eixo" não se aplica, logo, aplica-se
a lógica da suspeição, que também servia como controle das atividades comunistas.
Ao trabalhar com a lógica de suspeição e as imagens da subversão do DEOPS
de São Paulo, Fernanda T. Magalhães expõe que:
O aparato repressivo acionado pelo governo de Getúlio Vargas – que
difundia o medo às "ideias exóticas" e o terror pelo estrangeiro –
mostrou-se como estratégia excepcionalmente eficaz de controle e
vigilância da população. [...] O imaginário gerado sobre esses grupos –
com vestígios ainda nos dias de hoje – criou personagens
estereotipados, possíveis de serem identificados nos prontuários do
DEOPS. Esses personagens identificados na sociedade refletiam a
96
Oficio da 5ª Região Militar n° 55 B/C de 10.04.942 – Secretária de Segurança Pública (Antiga
Chefatura de Polícia) – Pasta Temática n° 1747 – To pografia 209.
175
ideia do que era considerado "perigo real" para a nação (2008, p. 2527).
No Paraná, esse tipo de abordagem também foi amplamente utilizado; os
relatórios da DOPS do período retratam a ojeriza aos comunistas e estrangeiros,
expressões como "súditos do Eixo", "filhos de Hitler", "quinta colunas" são constantes
nos relatórios das delegacias, na imprensa e até nos documentos e portarias oficiais.
De acordo com Benevides (1991, p. 32), ao ser informado dos acontecimentos e
das ocorrências da noite do comício, Manoel Ribas não censurou os paranaenses e
ainda elogiou a postura patriótica do povo diante do momento incisivo e belicoso que a
pátria atravessava. Todavia, para não deixar o paternalismo costumeiro de lado,
apressou a organização da Liga de Defesa Nacional no Estado, visando a coordenar as
forças cívicas nacionais pelos caminhos corretos.
O diretório da LDN foi fundado logo a 19.03.1942; os jornais paranaenses
fizeram grande alarde sobre a instituição patriótica que se instalara em Curitiba, a qual
tinha propósitos variados que iam desde: a) Manter em todo estado a ideia de coesão e
integridade nacional; b) Propagar a educação popular e profissional; c) Difundir a
educação cívica; d) Velar pela prosperidade, segurança e dignidade nacionais; e)
Combater o analfabetismo, alcoolismo, a vagabundagem e a dissolução dos costumes;
f) Desenvolver o culto ao heroísmo; g) Aconselhar e facilitar a instrução militar; h)
Avivar o amor e o estudo da história da pátria; etc.97
Entre tantas prioridades, uma ficava subentendida, controlar a população
através da criação de um nacionalismo exacerbado. Com a criação de instituições em
prol da guerra, o governo aproximava as pessoas das questões sociais e as afastava
97
A LDN ficou em evidência por vários dias nos jornais curitibanos e manteve-se presente na imprensa
durante toda guerra como órgão regulador do patriotismo e do civismo nacionalista. Para compormos os
propósitos acima, utilizamos os seguintes jornais: Diário da Tarde, Curitiba, 24.03.1942 – Gazeta do
Povo, Curitiba, 24.03.1942 – O dia, Curitiba, 28.03.1942.
176
das questões políticas, afinal, como sustentar uma guerra contra as tiranias
autoritárias, pregar a manutenção da democracia no mundo e estar sobre a égide de
um regime autoritarista.
A LDN foi o pontapé inicial, vieram a Cruz Vermelha, a Liga de Defesa AntiAérea, a Liga Brasileira de Assistência, a Comissão de Abastecimento, a Liga de
Defesa Passiva, entre outros que ajudaram a criar em Curitiba um "front interno",
auxiliando na mobilização das pessoas contra as tiranias fascistas e em prol do
"verdadeiro Brasil brasileiro”. 98
Como acontecimentos esparsos, ocorreram na região litorânea movimentos
parecidos com o comício de Curitiba. Discorremos brevemente sobre alguns
acontecimentos fora da capital de forma a ilustrar a insatisfação e a ação coletiva dos
populares contra os "súditos do Eixo".
Encontramos, na pasta da Delegacia Regional de Polícia de Paranaguá, o
Relatório n° 647, que descreve o ocorrido no comíci o realizado no dia 20/08/1942 em
Antonina e a atuação eficaz do delegado local em reter a população apenas ao
comício. Relata também que houve falta de competência do delegado suplente ao
permitir que ocorresse na noite do dia 19 uma sorte exagerada de atos violentos contra
residências e comércios de imigrantes supostamente eixistas.
Já no Relatório n° 156 da Delegacia de Polícia de A ntonina encontramos a
descrição do ocorrido no dia 19 anterior, quando o delegado esteve ausente da cidade,
a fim de realizar exames médicos na capital, estando no comando José de Araujo e
Silva. De acordo com o relatório, foi realizado pelas autoridades locais da cidade um
comício contra os atos violentos a navios brasileiros ocasionados por submarinos
alemães. O mesmo transcorreu ordenadamente, porém as pessoas que participaram
98
Discurso de Manoel Ribas divulgado no Diário da Tarde, Curitiba, 25.10.1943.
177
não retornaram as suas residências e dirigiram-se ao mesmo tempo a vários pontos da
cidade, praticando uma série de represálias a estabelecimentos comerciais e
residências de alemães e japoneses.
Como haveria outro comício no dia posterior, foi solicitada a presença de
reforços de Paranaguá. Às 18 horas na Praça Coronel Macedo a população iniciou um
enterro simbólico de Hitler e tinha a intenção de seguir ao Antonina Hotel, de
propriedade de um alemão, para dar continuidade às depredações do dia anterior, mas
foi convencida pelo delegado a retornar ao local do comício e deixar nas mãos do
governo as medidas cabíveis. Durante o processo de contenção da população irritada,
chegou à cidade um pelotão do destacamento de Paranaguá, que ao evidenciar a
situação sob controle retornou à origem, com exceção do Tenente Emilio S. Valle, que
permaneceu na cidade por mais alguns dias.99
Em 02/09/1942, o delegado auxiliar de Paranaguá solicitou ao chefe da
Secretaria de Segurança Fausto Bittencourt providências urgentes, pois na colônia de
Serra Negra estava correndo um convite para que no dia 7 de setembro os brasileiros
se reunissem para queimar e destruir todos os bens de alemães e seus descendentes.
Alegavam que os prejudicados seriam brasileiros e que nada poderiam esperar do
inspetor de polícia local, já que eram seus familiares que estavam organizando a
baderna e faziam parte das premeditações. 100
Várias ações compuseram esse cenário de ojeriza aos imigrantes alemães,
italianos e japoneses no Paraná; as delegacias regionais e a própria DOPS tiveram
muito trabalho para conter essas manifestações, sobretudo porque esse trabalho
tornava-se paradoxal ao discurso proferido pela própria polícia política, que incentivava
as delações, a vigilância e o comprometimento pessoal de cada um para com o país.
99
Delegacia Regional de Paranaguá - Pasta Temática 584A, Topografia 65.
Delegacia Regional de Paranaguá - Pasta Temática 584C, Topografia 65.
100
178
Esses comícios/quebra-quebras foram o início de uma fase diferente na vida dos
paranaenses; a partir dali, uma intrincada rede de denúncias abasteceria as delegacias
de polícia, que por sua vez atuaria de maneira veemente, efetuando prisões, realizando
interrogatórios, preenchendo resmas e resmas de papéis usados para compor os
relatórios, ofícios e portarias que dimensionariam o controle da população civil através
da política do medo. Medo da guerra, medo dos agentes subversivos de Hitler,
Mussolini e Hiroito, medo dos comunistas "comedores de criancinhas", medo de tudo
aquilo que fosse contra a ordem e os costumes e do já tradicional conservadorismo
paranaense.
É uma pena que boa parte desses relatórios se perdeu ou foram
intencionalmente perdidos; infelizmente muitas perguntas ficam sem respostas ou
ainda geram novas indagações. No que foi possível averiguar
nos documentos
disponíveis da extinta DOPS/PR no Arquivo Público do Estado de Curitiba, as
delegacias paranaenses, sob o comando de Valfrido Piloto, agiram de forma
extenuante e com o que Benevides (1991) chama de "eficácia invejável" levaram a
sério as medidas repressoras e fizeram do DOPS um relógio bem regulado, atuando no
máximo de frente possíveis, o que direta e indiretamente ocasionou mudanças
relevantes no dia-a-dia dos cidadãos curitibanos.
De acordo com Sader (1988), os acontecimentos cruciais (pontos de tensão)
produzem novas formas de identidade coletiva, e suas formas de expressão são as
mais variadas, privilegiando as ações diretas, ou seja, as manifestações de suas
vontades, grosso modo compatível com o modelo de atividade coletiva por nós
evidenciado em Curitiba, pois diante de uma situação adversa (presença de alemães
no meio social), as pessoas reuniam-se em pontos públicos no cair da noite para
vandalizar e depredar estabelecimentos de propriedade de imigrantes ou descendentes
de alemães ou que tivessem qualquer vínculo com o eixo.
179
Se um movimento social trata da ação conjunta de homens a partir de uma
determinada visão de mundo, objetivando a mudança ou a conservação das relações
sociais em dada sociedade, preliminarmente acataríamos a tese de que em Curitiba, na
década de 1940, havia a formação de um movimento social. Entretanto, seria
demasiado caracterizar essa mobilização como um movimento social específico,
porque não tinha qualquer espécie de hierarquia constituída, não possuía um projeto
idealizado, bem como não tinha em mente nenhuma grande alteração do quadro social
ali existente.
Alegar que essas ações populares estavam sendo articuladas por um
movimento específico seria precipitado, já que se tratavam de atividades esparsas e
sem uma liderança iminente – no caso uma figura messiânica ou um líder
revolucionário. Todavia, concordamos com Neves (2000), o qual, estudando as
multidões no Ceará, as descreve como um sujeito político coletivo, rejeitando as
interpretações que caracterizam essas ações como meras irracionalidades da
população. De acordo com Neves: "As ações da multidão estão, portanto, conectadas,
mas nem sempre articuladas, com as disputas teóricas encetadas no âmbito – para ela
inacessível – do mundo letrado onde se desenvolvem as políticas do Estado e as
teorias econômicas" (2000, p. 154).
Podemos aceitar que a população curitibana tenha agido de maneira violenta ao
acatar o discurso moralizante imprimido por Vargas acerca da necessidade da criação
de um país mais brasileiro e que, imbuída pela necessidade de cumprir seu papel
social, saiu às ruas depredando comércios, clubes recreativos e toda gama de locais
que estivessem relacionados a imigrantes ou descendentes do Eixo.
É justo enunciar que ocorreram descontentamentos em relação à repressão
efetiva contra imigrantes e descendentes, não só pelos mesmos, mas havia parte da
população, embora minoritária, que enxergava outros meios para tratar do assunto,
180
mas como não possuíam força de imprensa e não podiam manifestar-se abertamente,
procuravam de maneira sigilosa desacatar ordens, espalhar boatos e promover
algazarras noturnas em bairros curitibanos.
Embora não possamos caracterizar essa mobilização em Curitiba como um
movimento social organizado, apontamos o crescimento que a temática da participação
popular vem desencadeando no campo da história política e dos movimentos sociais.
Para Paoli & Telles (2000), essa presença de atores coletivos que não podem mais ser
deixados de lado são elementos cruciais na atual redefinição das relações entre Estado
e sociedade.
De acordo com Dominique Julia, uma das primeiras reorientações para se
entender a ação das multidões é não se tratá-las como atividades espasmódicas, e sim
considerá-las "[...] como uma expressão política própria os discursos e os gestos dos
atores, que são animados pela convicção partilhada de defenderem os direitos
tradicionais e os costumes [...]" (JULIA, 1998, p. 223). Logo, parte da sociedade
curitibana reagiu violentamente em nome "da ordem" ou do restabelecimento da
mesma. Julia ainda postula que "é possível distinguir comportamentos diferenciados,
lógicos, organizados, adaptados aos lugares e às circunstancias, sob a aparência de
impulsividade" (1998, p. 225).
Por fim, acreditamos que em Curitiba essas ações populares podem não ter
vínculo direto com o Estado e com políticos locais, mas estão articuladas com um
propósito maior, que no momento era representado pela manutenção da nacionalidade
brasileira. Essa população agiu em prol do que acreditava ser correto, pautada no
discurso oficial que valorizava o nacional frente aos estrangeiros e suas “políticas
subversivas”, incitada pelas reportagens dos jornais e pelos discursos exaltados de
figuras publicas, foi às ruas e protestou.
181
3.4
Fim da guerra, fim da repressão, tudo novo de novo?
As tensões sociais em Curitiba começaram a diminuir a partir de 1944, quando
foi publicada, em 07/11/1944, a Portaria nº 273, que suspende os efeitos da Portaria nº
147 aos súditos italianos, dando livre trânsito a estes desde que portem consigo a
carteira de identidade modelo 19, bem como seria dado andamento aos processos de
naturalização e aos que diziam respeito à entrada e saída de italianos.
A carga sobre os imigrantes começava a ficar mais branda; ao analisar os
jornais de 1944, notamos que modestamente iniciavam-se alguns movimentos de
protesto contra a política nacional, pequenas reportagens enalteciam a figura de
Vargas e ao mesmo tempo questionava a veracidade da democracia tão defendida.
Essa política de “bater e assoprar” estava ganhando força nos jornais e nas discussões
políticas locais, até mesmo a figura do interventor do Estado estava sendo colocada em
discussão.
Em 1945, quando a guerra já tinha definido os vencedores e os vencidos, ainda
foi sancionada a Portaria nº 41, que deixa livre o trânsito em todo território nacional
para os brasileiros e naturalizados, sendo que os últimos deveriam portar a Carteira
Modelo 19, mantendo os alemães e japoneses obrigados a obter salvo-conduto para
viajar. Ao manter a integridade das proibições aos alemães e japoneses, procuraram
desatrelar a figura dos nacionais, com a Portaria nº 268, de 20/07/1945, o Estado
resolve que os brasileiros natos e naturalizados poderão ter de volta o livre acesso à
zona marítima paranaense, porém os estrangeiros – súditos alemães e japoneses –
permanecem restritos à Portaria 41 de 02/02/1945, sujeitos à obtenção salvo-conduto,
já aos nacionais reforça a necessidade de sempre portarem documentação que os
identificassem.
182
Verificamos que a situação política no Paraná tomou novos rumos após a
metade de 1945, quando os jornais abertamente questionavam a veracidade das
eleições para presidente e quando Ribas declarou apoiar a candidatura de Dutra para o
referido cargo. As elites conservadoras paranaenses voltaram à carga ferrenha ao
período do Estado Novo e às ações políticas regionais de Manoel Ribas, muitas delas
esquecendo-se que enriqueceram seus patrimônios durante esse período.
Para os “súditos do Eixo”, somente em outubro de 1945 que a Secretaria do
Interior Justiça e Segurança Pública promulgou a Portaria nº 381, revogando, em
detrimento do término do conflito bélico mundial, as providências restritivas aos súditos
do eixo, sendo revogadas as portarias nº 30 [28/01/1942]; nº 65 [01/09/1942]; nº 147
[12/11/1942] e nº 31 [02/02/1945].
Se as relações sociais voltaram a ser iguais após o término da guerra é uma
informação difícil de levantar; o que podemos ressaltar é que muitos alemães foram
colocados em liberdade e tiveram tranquilidade para manter suas residências e
comércios em funcionamento. Continuaram após um período tenebroso de
perseguições e ojeriza aos “súditos do Eixo” a compor o cenário cosmopolita da capital
paranaense, contribuindo com suas características e aprendendo a conviver com nossa
cultura tão diferente.
183
CONCLUSÃO
A imigração teuta no Paraná representou muito mais que a substituição da mãode-obra escrava pelo trabalho assalariado e especializado. Ao realizarmos esta
pesquisa, nos indagamos quais seriam as atitudes tomadas pelo Governo Imperial se
soubesse o número de questões negativas que a imigração europeia representaria
durante sua instalação e permanência no país; mais ainda se soubesse os entreveros
que seriam ocasionados no período Republicano em relação à presença desses
imigrantes no Brasil.
Que alternativa os intelectuais brasileiros adotariam? E suas contribuições?
Resquícios inegáveis desses imigrantes permanecem atrelados à sociedade atual,
influenciando a arquitetura, o cultivo nos campos, as artes em geral, a gastronomia,
salientando que introduziram as grandes máquinas no início da industrialização do
Estado, repartiram com os paranaenses seus conhecimentos, alterando a formação do
indivíduo nacional.
Esses quadros tão diversificados da imigração europeia no Brasil constituíram
debates intermináveis e suscitavam inúmeras ideias acerca da nova cultura que
emanaria dessa mistura prodigiosa entre o brasileiro e o imigrante branco europeu.
Seria um verdadeiro choque entre a “barbárie” e a “civilização”? Muito foi teorizado
sobre esses imigrantes, desde o melhor tipo físico, a melhor nacionalidade, a melhor
índole para o trabalho, o tempo em que a miscigenação daria resultado, a qualidade do
indivíduo que seria gerado, entre muitas outras projeções relativas ao tema.
Esqueceram-se apenas de pensar como essas ideias seriam transformadas em
ações práticas, trouxeram os imigrantes em grande escala, mas não se preocuparam
em ensinar-lhes o idioma, em ajudá-los a conhecer a nossa cultura; dessa forma, a
184
solidificação desses indivíduos europeus em solo brasileiro foi muito mais teórica do
que prática, ocasionando inúmeras desistências na permanência no país ou ainda
migrações internas para locais de trabalho assalariado, deixando o campo
sem a
mão-de-obra tão necessária.
Esses reveses não significaram, em nosso entendimento, que não ocorreram
entrecruzamentos culturais; pelo contrário, podemos afirmar que houve aculturação,
seja oriunda de esforços coletivos ou individuais, por motivos financeiros, de
subsistência,
seja pela capacidade humana de se relacionar. O que de fato não
ocorreu – não da maneira imaginada pelos intelectuais brasileiros – foi a completa
assimilação da cultura brasileira pelos imigrantes de origem germânica.
Essas relações culturais aconteceram, ora com mais carga étnica brasileira, ora
com mais força germânica, resultando no entrecruzamento de culturas e em uma
espécie de coexistência pacífica entre todos. Os alemães ocuparam locais privilegiados
nas áreas comerciais e na indústria, auxiliaram de maneira amplamente visível no
crescimento econômico e industrial do país, na região sul e no Paraná,
especificamente, são evidentes suas contribuições. Ainda atuaram em vários grupos
sociais e na política, obtendo como resultado um quadro social diversificado,
garantindo seu espaço na sociedade brasileira.
Essa coexistência ocorreu até que o clima mundial sofresse alterações
consideráveis, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, tendo no Brasil sido ainda
mais marcado pelas medidas repressivas aos imigrantes no período da instalação do
Estado Novo de Vargas.
Antes de destacarmos algumas ideias que podemos chamar de considerações
finais nesta pesquisa, retomamos rapidamente os temas abordados neste estudo.
Em um primeiro momento, procuramos ressaltar as opiniões sobre a imigração
teuta no Brasil, os debates intelectuais e políticos e suas possíveis implicações. Ainda
185
neste sentido, apresentamos brevemente os desdobramentos dessa imigração no
Paraná, conceituando as questões de assimilação e aculturação. Não deixamos de
discorrer sobre o pano de fundo que conduziria o Brasil à Segunda Guerra Mundial, a
relação dos alemães paranaenses como nazismo e suas relações com o Estado
Nacional.
Em outro momento, passamos a nos preocupar com o cotidiano da capital
paranaense e a presença de imigrantes alemães nessa sociedade. As questões de
pertença, da formação do verdadeiro elemento nacional e as ideias de alteridade com o
outro foram discutidas visando a fazer com que o leitor pudesse entender o nível de
atuação da sociedade curitibana contra esses imigrantes. Procuramos reconstruir a
questão da mobilização econômica, da escassez de produtos de primeira necessidade
e das campanhas de mobilização. Os órgãos de mobilização foram contextualizados
nesse cenário de intolerância e desconfiança, bem como o papel da imprensa
curitibana foi destacado para que pudéssemos ter uma ideia do tipo de abordagem
midiática a que as pessoas eram submetidas.
Na parte final, lançamos mão de uma vasta documentação da polícia política e
sobre os jornais de época para darmos conta de apresentar ao leitor o tipo de
repressão e violência que foram submetidos os chamados “súditos do Eixo”.
Analisamos a legislação repressiva, portarias, decretos-lei, ordens de comando do
DOPS e correspondências entre as delegacias. Passamos pela análise das denúncias
particulares e pela ação dos agentes do DOPS/PR em Curitiba e região, preocupandonos ainda em reconstruir as ações coletivas que a sociedade curitibana realizou na
“caça aos quinta colunas”.
***
186
Por fim, procuraremos, nesta parte, estabelecer algumas possibilidades para a
compreensão do período de repressão a imigrantes alemães em Curitiba, processo
que julgamos demasiado pelo fato do NSDAP/PR já estar extinto desde 1938 e ser –
na análise da DOPS/PR – o principal motivo de prisões e investigações no Paraná
entre 1942 a 1945.
Não podemos estabelecer aqui marcos irredutíveis, as questões levantadas em
nossa pesquisa são inúmeras e acusar e/ou inocentar o Estado ou os imigrantes
consiste em tarefa complicada para o historiador. Dessa forma, procuramos apresentar
três ideias principais para justificar a ação da polícia política do Paraná contra os
imigrantes considerados eixistas.
A primeira delas trata da manutenção da soberania nacional frente aos
estrangeiros, haja vista que a partir de 1920 muitos intelectuais brasileiros, como Silvio
Romero, Silva Costa e Lacerda creditaram aos imigrantes alemães a manutenção
exacerbada de seus costumes e a não assimilação a cultura brasileira.
A tomada do poder por um regime de exceção e atuação da 5ª Região Militar no
controle desses imigrantes considerados “inassimiláveis” resultou na maior afronta que
imigrantes e descendentes sofreram em pouco mais de um século de imigração para o
Brasil: o Plano de Nacionalização proposto pouco depois da instalação do Estado
Novo.
Essas medidas restritivas obrigavam a utilização do idioma nacional, decretavam
o fim das escolas particulares, extinguiam a ação do NSDAP no país e ainda
consideravam criminoso aquele que simplesmente utilizasse o seu idioma natal em
locais públicos. Baseadas na existência de um partido político alemão – NSDAP – e na
propaganda germanofila que este realizava no Brasil através de seus jornais, de seus
filiados e de desfiles patrióticos foram tomadas atitudes que fariam frente ao que
podemos chamar de ameaça visível à soberania nacional.
187
É fato que um país deva estabelecer limites que conservem sua soberania,
porém naquele momento foi esquecido que não houve, por parte dos governos
anteriores, investimentos para assimilar esses imigrantes à cultura nacional, não foram
construídas escolas que lhes ensinassem o português; ao contrário, permitiram que os
imigrantes construíssem suas próprias escolas e quando estes foram à procura de
livros e professores que ensinavam o idioma não tiveram sucesso, e as aulas foram
ministradas em sua língua natal. A falta de estratégias para que essas relações
culturais/sociais ocorressem levou ao enquistamento de colônias inteiras, na
continuidade da transmissão de costumes e hábitos relacionados à pátria anterior e
ainda a perpetuação de ideias completamente externas à política nacional, como o
nazismo.
Uma segunda possibilidade interpretativa pode ser a idealização de um teatro
político para desviar a atenção do regime ditatorial. Vargas precisava dar legalidade ao
seu governo e sabemos que em um primeiro momento o que o garantia presidente era
a força dos militares. Sabemos também que nenhum governo de exceção se instaura
sem protestos e que mesmo no decorrer do governo existem indivíduos descontentes.
Embora os militares pregassem a ideia de um controle total sobre a população,
seríamos ingênuos demais em aceitar essa ideia como verdade, pois não há poder que
torne a humanidade homogênea, ainda mais em um país de culturas multifacetadas
como o Brasil. Vargas procurou manter o país fora do teatro de operações da Segunda
Guerra Mundial declarando-se neutro até 1942, contudo as ações da polícia política
entre 1939 e 1942 levaram a diplomacia brasileira a resolver inúmeros problemas com
os consulados da Itália, Alemanha e Japão.
Essa nossa interpretação parte do momento em que o Brasil não pode mais
sustentar sua posição de neutralidade, colocando-se à disposição de lutar em nome
das forças democráticas lideradas pelos EUA. Afinal, como lutar contra regimes
188
totalitários exercendo sobre o país que comanda um regime autoritário/ditatorial?
Acreditamos que esse dilema conduziu algumas ações do regime de Vargas, primeiro
resgatar – pautados na grande quantidade de elementos de nacionalidade alemã no sul
do país – a figura do nazista.
Como já mencionamos, o partido fora extinto em 1938 e seus membros foram
segregados. No Paraná, pouco mais de cento e oitenta filiados tiveram que deixar o
NSDAP/PR, poucos deles agiram na clandestinidade, muitos continuaram a vida
normalmente e entre 1938 a 1942 esqueceram-se completamente do mesmo. Essa
retomada do elemento nazista, de índole cruel, eugenista e dominador
tornava
possível a ação da polícia política e da própria população, entregando a esta a tarefa
de vigiar esses elementos. Vargas conseguia respaldo popular para enviar tropas a
Itália e a criar órgãos para a fiscalização e mobilização de guerra.
Em Curitiba, podemos perceber essas ações através da atuação do interventor
Manoel Ribas, que atuou firmemente na mobilização interna, na repressão aos eixistas
e na manutenção de leis repressivas que visavam a mantê-los sobre vigilância acirrada
e manter a população atenta para os perigos do conflito bélico.
Uma terceira possibilidade interpretativa, da qual não partilhamos, mas deve ser
mencionada, parte de justificar toda a repressão apenas como desdobramentos do
“clima bélico”, abonando a ação do Estado Novo, dos jornais e dos organismos de
ordem nacionalista – como a LDN, CME, CDP, etc. – sem submetê-los a outros
questionamentos.
Dadas as possibilidades, acreditamos ser justificável até certo ponto a ação do
governo Vargas, estendida ao Paraná por Manoel Ribas, quando este procura proteger
a população do conflito bélico, devido ao clima apreensivo que os torpedeamentos de
navios brasileiros por submarinos alemães geraram em 1942. Entretanto, não
conseguimos evidenciar nos documentos pesquisados motivos suficientes para que a
189
ação repressora fosse liberada abertamente no Paraná; em nosso caso de estudo,
mais especificamente em Curitiba. Não encontramos justificativas plausíveis para o
número elevado de prisões e para que a imprensa atuasse de forma tão ofensiva,
procurando incitar a população a praticar atos de violência contra esses imigrantes e
descendentes.
Por fim, esperamos ter abordado minimamente as questões que norteiam esta
pesquisa, embora não tenhamos elegido “bandidos” e “mocinhos”, procuramos avançar
na historiografia desse período tão fértil da História do Paraná e que ainda é pouco
investigado pelos historiadores. Sabemos que ainda há muito por fazer e que essa
nossa pequena colaboração tem muito mais vocação para instigar novas perguntas do
que gerar soluções incontestes.
190
FONTES
Arquivo Público do Estado do Paraná
Dossiês temáticos da Delegacia de Ordem Política e Social
Nome do Dossiê Temático
Número
Topografia
Ação Integralista Brasileira
007
001
Aero Club do Paraná
0018
2
Arcebispado de Curitiba
0037
6
Associação dos Ex-Combatentes da FEB
0072
10
Associação dos Profissionais Motoristas
0097
12
Atividades Nazistas no País
124
15
Atividades Nazistas no sul do Brasil e Alfred
125
15
Censura Postal
183
21
Centro Carnavalesco de Curitiba
193
22
Centro Cívico Major Sucupira
194
22
Centro cultura Brasil EUA
197
22
Centro Curitibano Repórter
199
23
Centro Paranaense Feminino de Cultura
210
24
Clube Concórdia
236
25
Colégio Alemão
239
2
Comício de 18-03-1942
254
27
Companhia Força e Luz do Paraná
299
32
Companhia Telecomunicações do Paraná
298
32
Consulado Alemão
353
41
Consulado Americano
354
41
Consulado da Itália
358
41
Coordenação Mobilização Econômica
385
44
Cruz Vermelha
396
45
Delegacia Regional de Antonina
4791
Delegacia Regional de Castro
4831
Andersen
191
Delegacia Regional de Paranaguá
584A
65
Delegacia Regional de Paranaguá
584C
65
Delegacia Regional de Rolândia
618A
70
DOPS - documentos antigos
0780a
89
DOPS - documentos antigos
0780b
89
DOPS - móveis e utensílios
806
96
Empresas sob intervenção
913
112
Estrangeiros expulsos do país
948a
115
Exercito de Salvação
955
117
Hospitais
1097
132
Incêndio no cais de Paranaguá
1032
135
Investigações do Meio Esportivo
1174
140
Jornal Correio do Paraná
1197
142
Jornal Diário da Tarde
1205
143
Liga de defesa nacional
1284
150
Liga dos Jovens Patriotas
1285
150
Ministério da Justiça
1344b
159
Ministério da Saúde (Trabalho)
1352
160
Ministério do Exercito
1334
156
Ministério do Exército (Antigo)
1333
156
Movimento dos Anti Nazistas Alemães no Brasil
1379
163
Nazismo – informes da delegacia e fotografia
1428
168
OAB
1440b
170
Penitenciaria Central do Estado
1554
188
Pensão Kreutz
1555
188
Propaganda Nazista
1609
195
Rede Ferroviária
1692a
202
Revista Idéia
1712
206
1747
209
Secretaria do Interior e Justiça
1743
209
Serviço de Rádio Telegráfico
1774
212
1871
221
Secretária
de
Segurança
Publica
(Antiga
Chefatura de Polícia)
Sindicato
das
Indústrias
Confeitarias de Curitiba
da
Panificação
e
192
Sociedade Civil Tiro ao Alvo
2174
239
Sociedade Cooperativa dos Fornecedores de
2176
239
Sociedade Cultural Física Jahn
2178
239
Telepar
2252
249
União beneficente educativa alemã
2292
257
União Cultural Brasileira
2294
257
União Nacional dos Estudantes
2310
259
Leite de Curitiba
Biblioteca Pública do Paraná
Jornais
Gazeta do Povo – Curitiba
Jan a Julho/ Out a Dez 1942 – Mai a Set 1943 – Fev a Jun 1945
Diário da Tarde – Curitiba
Jan a Out 1942 – Jan a Mar 1943 – Fev a Ago 1944 – Jan a Jun 1945
Correio do Paraná – Curitiba
Jul a Dez 1942 – Ago 1944
Arquivo Público Municipal de Curitiba
Decretos Lei Municipais de 1932 a 1945.
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Fly UP