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Sumário - XinXii

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Sumário - XinXii
Título original
Escolhas de Isabela
Capa
Carlos Moura
Imagem de capa
Jussara Santana
FICHA CATALOGRÁFICA
Catalogação–na–Fonte
S232e
Santana, Jussara
Escolhas de Isabela [livro eletrônico] / Jussara
Santana –– São Paulo : J. S. O. Moura, 2013.
362KB ; ePUB
ISBN: 978–85–913199–1–6
1. Romance. I. Título.
CDD–B869
CDU–82–31
[2013]
Todos os direitos reservados.
Jussara Santana de Oliveira Moura
Sumário
PRÓLOGO
PRIMEIRA PARTE – QUANDO A MENINA VIRA MOÇA
1. “MONSTRUAÇÃO”
2. PRIMEIRO BEIJO
3. PAIXÃO
4. EQUÍVOCO
5. MADRASTA
6. PAQUERA
7. SUAVE INTIMIDADE
SEGUNDA PARTE – ALTOS E BAIXOS
8. TRAIÇÃO
9. GRANDE DECEPÇÃO
10. ENCONTRO
11. VIAGEM
12. TALVEZ
13. A GAROTA DO GUARUJÁ
14. APERTAMENTO
15. PROMOÇÃO
16. CHANCE
17. EPÍLOGO – ESCOLHAS DE ISABELA
PRÓLOGO
Isabela nunca pensou muito sobre como seria a sua vida,
mas sabia que faria diferente de sua mãe e irmãs, embora
após os últimos acontecimentos sobrassem motivos para
desistir. Ainda que tivesse pensado muito sobre isso, não
teria imaginado que sua vida tomaria o rumo que tomou.
Seu temperamento forte e impulsivo a levava a
arrependimentos imediatos e a situações complicadas,
nem sempre possíveis de correção.
Procurou nos olhos de Toshi uma explicação, mas ele,
impaciente, apenas aguardou que ela descesse da moto.
Sem dúvida, era uma péssima maneira de dar o fora numa
pessoa, de dispensar alguém a quem não se queria mais.
Ela não sabia que isso a marcaria tão profundamente. De
tempos em tempos isso viria a atormentá–la como um
fantasma, obrigando–a a olhar suas próprias pegadas na
areia molhada para ter certeza de sua existência.
Embora a vida tenha lhe apresentado um "pesadelo",
havia uma vida a ser vivida e seus planos iam além disso
tudo. Não haveria lugar para lamentações.
Toshi avançou com a moto para fora do Ferry–Boat e
seguiu sem, sequer, olhar para trás.
PRIMEIRA PARTE – QUANDO A MENINA VIRA MOÇA
1. “MONSTRUAÇÃO”
Uma agitação toma conta da garotada enquanto se
atropela ao subir nas árvores. Ninguém quer esperar a
vez.
As goiabeiras estão carregadas de goiabas maduras,
atraindo mais crianças da rua.
Elas correm ao redor das árvores sem se incomodarem
com o sol atingindo seus rostos pálidos e magros.
Enquanto riem agitadas, sobem sem se importar em
dividir espaço com as formigas e marimbondos.
Isabela, a menor do grupo, tenta alcançar uma grande,
madura e brilhante goiaba. Em sua magreza, estica–se
longamente, quase deitando, num galho muito alto. Estica
o braço até sentir as pontas dos dedos tocarem na fruta e
nem se importa quando seus longos cabelos ondulados
prendem–se aos galhos.
Sua determinação é tão grande que não se incomoda nem
quando suas pernas e braços ralam–se na casca da árvore.
Enfim, segura a desejada goiaba, que se desprende do
galho sem muita resistência.
– Tava me esperando! – solta satisfeita e orgulhosa.
Ainda em cima da árvore se prepara para morder, quando
ouve um grito de protesto:
– Nãaaaoooo! É minha! Eu vi primeiro! – grita Ernesto
agitando a cabeleira loira ao pé da árvore.
– Mas quem pegou fui eu! – responde, sentada num galho,
como se estivesse montada num cavalo.
– Não vale! Não vale! Eu pedi pra você! – Ernesto agita os
braços sem parar.
– Pensei que fosse outra. Me arrisquei à toa? Eu pego
outra pra você – tenta compensar. – Consegue ver daí? –
continua, já mordendo a goiaba.
– Saco! – Ernesto gesticula impaciente. – Então pega
aquela ali! Estica mais o braço! Nãaooo! Essa não! – grita
irritado. – Eu falei aliii! – reclama, apontando a direção
com o dedo.
“Além de pegar ainda grita comigo. Folgado!” – Isabela
pensa, fingindo não se importar, enquanto puxa a goiaba.
–Essa garota não sabe o que é “ali” ou não ouve! –Não
acredito! – resmunga sozinho em voz baixa, batendo com
a palma da mão na testa. –Essa! – fala acompanhando seus
movimentos. –Agora joga! – fala sem muita paciência com
as mãos abertas para segurar a goiaba.
Isabela aponta e acerta em cheio nas mãos magras de
Ernesto.
–Valeeeu! – solta aliviado, limpando na camisa e
mordendo com prazer.
– Delícia! – fala com a boca cheia, mordendo outro pedaço
sem sequer engolir o primeiro.
– Viu isso Isa? – Elder se exibe, quase de pé, balançando
na ponta de um galho.
– Tá louco? Você pode cair e quebrar esse cabeção! –
reclama Isabela. – Prefiro você inteiro – fala sorrindo.
Ouvem um barulho de galho quebrando. O coração de
Isabela dispara ao olhar para cima e ver Elder iniciando
uma queda.
– Ele vai é se machucar todinho. Coitado! Sua cabeça vai
ser a primeira a bater no chão. – Ernesto fala, escondendo
o rosto com as mãos, espiando por entre os dedos.
– Com sorte ele vai só se machucar... com muita sorte –
conclui Ricardo, cheio de calma.
Enquanto cai, Elder estica desesperadamente os braços
tentando agarrar–se a todos os finos e fracos galhos que
encontra ao seu alcance, mas não consegue segurar–se.
Vão quebrando–se um a um, restando apenas alguns
pedaços de gravetos nas mãos.
Assustado Elder solta um grito, já quase no chão, de olhos
fechados, esperando pelo pior. De repente, para de cair e
escuta seus colegas rindo timidamente, depois ouve
gargalhada. Muitas gargalhadas.
Imóvel, abre os olhos vagarosamente e se vê de cabeça
para baixo, pendurado pela bermuda.
– Será que alguém pode parar de rir e me ajudar a descer?
– pergunta visivelmente transtornado e trêmulo.
– Ué! Agorinha você tava se mostrando pra Isa. Dá teu
jeito! – Ricardo provoca, sem perder tempo.
– Pode deixar que eu me viro! – responde, balançando–se
até o galho quebrar, tombando no chão. Levanta
aborrecido com o elástico da bermuda pendurado para
fora. Vai embora tirando o pó do corpo dolorido.
– Volta Elder! Fica aqui com a gente! – Isabela pede
penalizada.
– Deixa o cara descansar! Ele precisa de um fôlego. –
Ricardo acha uma boa ideia ele ir embora.
Em poucos segundos a garotada volta ao ritmo,
esquecendo–se totalmente de Elder.
– Ali! Ali! – aponta agitado. – Ô cego! Eu disse ali! Isso!
Agora joga! – pede estendendo os braços com as mãos
para cima. – Não! Não come! É minha! – Afonso protesta
aos berros.
– Era sua... agora é da minha pança. – Ricardo provoca,
acariciando a magra barriga, já com algumas picadas de
formigas à mostra em ambas as mãos.
– Eu vi primeiro! – Afonso reclama, controlando os
movimentos do amigo.
– Mas eu peguei primeiro. Sobe! Não fica esperando, pô! –
reclama pendurado num galho bem alto.
– Não! Tá cheio de formiga e marimbondo! – justifica,
passando a mão pela cabeça, incomodado com as
formigas.
– Deixa de ser medroso! – Isabela provoca, balançando–se
num galho.
– Medroso uma ova! – reclama ofendido. – Você já levou
ferroada de marimbondo? – pergunta fuzilando Isabela
com os olhos.
– Não! – responde automaticamente, sem nem prestar
muita atenção na pergunta.
– Então cala a boca! Uma picada de marimbondo dói à
beça, sem falar nessas formigas que ficam andando pelo
corpo da gente – reclama, tirando mais uma formiga de
seu braço.
– Sobe cara! Depois você sai espantando as folgadas –
Isabela sorri e o convida sem se ofender com o “cala a
boca”.
– Essa tá boa, Afonso? – Ricardo resolve ajudar.
– Essa tá madurinha. Pode jogar! – Afonso olha ansioso
para a goiaba que é lançada e a morde. – Valeu Ri! – fala
satisfeito, com a boca cheia.
A manhã passa rápido, descem das árvores e espalham–se
separados em pequenos grupos. Uns brincam de bolinhas
de gude, outros empinam pipas.
– Isabela! – Célia, sua irmã, grita do lado de fora do portão
da casa. – Tomar banho! Você tem escola! Tem que ser
banho rápido pra dar tempo de almoçar – Célia insiste. Ela
é responsável pela irmã enquanto a mãe trabalha.
Ao ouvir a irmã gritar escola, Isabela vai perdendo o
sorriso. Uma tristeza a invade e seu coração aperta. Não
quer ficar longe de casa.
– Banho! – Célia vai em direção à irmã gritando irritada. –
Não pode ir com o pé preto pra escola! – fala segurando–a
pelo braço. Arrasta–a para casa, forçando–a a entrar no
chuveiro.
– Tô sem fome! – de uniforme, resmunga sem vontade,
olhando para o prato.
– Claro! – bronqueia. – Comeu um monte de goiaba, nem
pode reclamar que é magrela! – sua irmã retruca mal
humorada, enquanto fecha seus dedos com facilidade em
torno do braço fino de Isabela, para demonstrar sua
magreza.
– Olha o que eu tenho pra você, Isa! – Célia sorri e muda o
tom tentando alegrá–la.
– Hum. – Sem tocar na comida, murmura, levantando
levemente os olhos. Célia tira das costas uma bolsa de
couro marrom claro com alças longas, franjas e um
desenho de um cavalo em relevo na frente.
– Não é nova, mas ainda tá boa pra usar.
– Não faz mal. Eu gostei! – fala, examinando–a.
– Toma! Põe seus cadernos dentro. Vê se cabem todos –
Célia esforça–se para fazê–la sorrir.
Sem responder, ela coloca seu material na bolsa e fecha.
– O fecho é de ímã. Legal! – fala enfim, sorrindo. –
Obrigada maninha – agradece, com um sorriso amarelo.
Célia solta um suspiro de alívio e sorri também. Ela havia
ganhado a bolsa da patroa de sua mãe. Modelo despojado,
parecia mais com Isabela do que ela própria.
– Olha! Vou dar a comida na sua boca, assim você come
tudinho, tá bom? – Célia sugere, preocupada com a
magreza de sua irmã. Ela aceita e raspa o prato.
Satisfeita, Célia penteia seus cabelos e no horário certo a
acompanha até o portão.
No caminho para a escola seus passos são lentos e
pesados. Sente medo e insegurança, mas não tira os olhos
da bolsa nova. Coloca–a atravessada nos ombros e puxa o
ar profundamente.
“O que é que eu tenho que fazer lá?” – pergunta–se.
Quer voltar para sua árvore, subir e comer as frutas no pé.
Seu desejo é ser livre e viver como moleque, descalça, de
shorts e camiseta.
Vários colegas passam por ela, que nem se importa em
ficar pelo caminho.
Ouve dois deles conversando sobre o Natal e
imediatamente um turbilhão de pensamentos rodeia sua
cabeça, fazendo–a lembrar–se de seu último Natal.
“Minha boneca... minha última boneca...”– lamenta ao
lembrar–se de seu último presente de Natal, que ganhara
da empresa em que seu pai trabalha.
– Presente só até os oito anos de idade! – ouviu dos
funcionários da empresa.
– Então com nove anos não sou mais criança? – exclamou
desapontada!
O tempo passa, a angústia de ir à escola diminui, mas em
casa pouca coisa muda. Isabela se queixa sempre:
– Porque moleque pode tudo? Pode ficar na rua brincando
à toa, jogar futebol, brincar de bola de gude, empinar pipa,
cuspir no chão, demorar na rua? Até coçar a bunda pode
que ninguém liga! Pra menina tudo é muito feio e nada
educado. Que saco! – reclama batendo os pés e socando o
ar.
Sempre tapa os ouvidos em sinal de protesto quando ouve
censuras.
Ela gosta muito de brincar de carrinho com Heitor, seu
irmão, que é dois anos mais novo e o único que lhe dá
atenção.
Seus outros irmãos, todos mais velhos, a chamam de
pirralha e se acham muito “grandes” para brincar com ela.
Os dois irmãos revezam entre brincar com os colegas da
vizinhança e fantasiar no amplo quintal da casa,
enxergando uma floresta nas plantas do jardim, onde as
bonecas de plástico barato que Isabela ganhava da patroa
de sua mãe, são passageiras de pequenos caminhõezinhos
coloridos de brinquedo que ambos puxam entre os
arbustos.
Quando fazem travessuras, Isabela corre para seu
esconderijo secreto e deixa Heitor a sua própria sorte.
Um dia, penalizada, resolve levar Heitor para o
esconderijo. Seu pai procura pela casa toda, mas não os
encontra.
Heitor, achando tudo muito divertido, começa a rir alto.
Seu pai rastreia o riso até o quintal, olha para o pé de cuca
e vê os dois acomodados num galho, com Isabela tapando
a boca do irmão, tentando abafar o riso.
O pai obriga os dois a descerem e, diante dos olhos tristes
de Isabela, pega um machado e corta os galhos mais
baixos. Ela nunca mais pôde subir naquela árvore. Os
galhos ficaram altos demais para ela alcançar.
Heitor aos oito anos, já enturmado, tem seu próprio grupo
de colegas e Isabela acalenta um desejo secreto de
participar da “rodinha dos meninos”.
Certa manhã, cercada de coragem, pede a Heitor:
– Mano! – chama, aproximando–se devagar e sentando ao
seu lado, aguardando sua atenção.
– Hum – resmunga deitado, lendo um gibi de super–
heróis.
– Queria poder ir com você na próxima vez – fecha os
olhos, esperando por uma resposta.
– Aonde? – pergunta desinteressado, sem sequer olhar
para ela.
Enche–se novamente de coragem, respira fundo e
completa o pedido, segurando a respiração:
– Pra casa da dona Iraci – fecha novamente os olhos e
encolhe o pescoço.
– Mas lá só tem meninos. O que você vai fazer lá? – sem
soltar o gibi, olha para ela sem entender muito bem.
– O mesmo que você, ué! – abre os braços voltando as
palmas das mãos para cima.
– Ãã... – volta a ler o gibi, totalmente desinteressado no
seu pedido.
– Por que não posso? Qual o motivo? – insiste
incansavelmente.
– Porque não! E não adianta insistir! – responde
esticando–se no sofá, sentindo–se o dono da situação.
– Porque sim... porque não... não sabe que não é resposta?
Dãã – retruca irritada.
– É o seguinte: Não enche o saco, que é melhor! – levanta–
se para ir encontrar–se com a turma.
– Deixa o Heitor em paz, menina! – reclama dona
Mariana. – Menino brinca com menino e menina com
menina! – a mãe fala com firmeza.
“Ainda bem que deixou de se pendurar nas árvores feito
macaco!” – pensa, olhando para a filha, desejando que
fosse mais meiga.
– As meninas só querem brincar de casinha e bonecas.
Não gosto de ficar parada dando comidinha e fingindo ser
mamãe – resmunga irônica, saindo da sala para evitar a
resposta de sua mãe.
Em casa, as diferenças a incomodam.
– Isabela, vai lavar a louça! Fica aí parada parecendo não
sei o quê! Precisa mandar? – exige a mãe de dentro do
quarto de costura, já nervosa. – Aproveita e vem aqui pôr
a linha na agulha pra mim, que quebrou de novo!
– Eu já lavei a louça ontem mãe. Manda o Heitor! Ele não
tá fazendo nada! – Isabela sugere, olhando em direção ao
irmão que, como de costume, está deitado no sofá lendo
um gibi.
Ele olha para ela em silêncio, fazendo sinal de “não” com
o indicador.
– Isso é coisa de mulher! Ele não é maricas. Vai você! – sua
mãe responde sem paciência.
– Porcaria! Isso não tá certo, mãe! Ele não vai deixar de ser
homem se lavar uns pratos. Comer pode e lavar não? –
reclama sentindo–se injustiçada.
– Anda menina! Para de resmungar! Na casa da minha
mãe também era assim e ai de mim se reclamasse.
– A senhora é do tempo das cavernas. Agora o tempo é
outro. Tem que se modernizar!
– Deixa de discutir e lava essa louça menina! – ordena a
mãe. – Venha pôr a linha aqui pra mim! Caminhe! – fala,
enquanto umedece a ponta da linha na boca, alisa com a
ponta dos dedos e tenta, em vão, pôr sozinha a linha na
agulha.
– Porcaria! Porcaria! Porcaria mesmo! Ser mulher é uma
porcaria até em casa. Não posso entrar na “rodinha dos
meninos” porque não sou menino e tenho que lavar a
louça porque sou mulher. Afinal, quando é bom ser
mulher? Acho que nunca! – esbraveja passando a esponja
nos pratos e jogando os talheres na pia.
– Isabela, cuidado! Desse jeito vai quebrar a louça, ou
deixar tudo lascado – sua mãe reclama.
– Lascada tô eu com esse pensamento atrasado de que
menino vira maricas se lavar uma louça. – Por que Deus
não me fez homem? Até pra fazer xixi é mais fácil! Saco!
Porcaria! Porcaria de novo! – esbraveja contrariada,
enquanto lava a louça.
– Manda esse folgado colocar a linha pra senhora, então! –
Isabela responde aborrecida, num esforço final para tirar o
irmão da zona de conforto.
– Carolina! – chama a mãe. – Bota a linha pra mim! – pede,
esticando as pernas e os braços enquanto boceja.
– Senhora? – Carolina põe a cara na porta, virando os
olhos. – Só isso? – pergunta entrando rapidamente no
quarto para colocar a linha na agulha, acertando já na
primeira tentativa.
“Tão fácil. Como ela diz que não acerta? Acho que mente
só pra fazer a gente de escravo.” – pensa ao preparar–se
para sair.
– Tava saindo de fininho? – pergunta dona Mariana,
voltando a costurar.
– Não mãe! – responde bufando.
– Pensa em ir à praia? – dona Mariana para de costurar,
prende os longos cabelos pretos e olha para a filha.
– Penso não, eu vou! – Carolina está decidida a ir e não
quer deixar a mãe intimidá–la, mas sabe que ela fará
alguma exigência, então aguarda aborrecida.
– Vê se os meninos querem ir também! – fala referindo–se
a Isabela e Heitor, voltando–se de novo para sua costura.
“Já que quer ir, leve então dois presentes... sua boca dura!”
– pensa dona Mariana como se risse por dentro.
– Olhe! Se não levar, deixo essa colcha que estou
costurando pra Isabela e você dorme no frio! – ameaça a
mãe.
– Não quero guarda–costas! – Carolina prepara–se para ir,
sem se importar com a ameaça da mãe.
– Oba, Carolina! Posso ir junto? Tô quase acabando a
louça, só faltam alguns copos – fala fazendo careta. – Me
espera?
– Pode, mas só se lavar aquele tênis pra mim! –
condiciona, apontando para o seu tênis no chão.
Carolina conhece a mãe: se ela não levá–los também não
poderá ir. Sabe que sua mãe começa com ameaça e finaliza
com punição.
– Poxa Carol... – Isabela faz beiço.
– Não adianta fazer biquinho não! Lava que eu te levo!
– Carol, posso ir também? – Heitor se anima, já de pé.
– Lógico Heitor. Mas vai ter que pegar umas goiabas pra
mim. – condiciona outra vez, enquanto passa bronzeador
nos ombros.
– Muito obrigado! Vou ficar em casa – responde voltando
a ler o gibi.
– Você morre se pegar umas goiabas? – pergunta Carolina,
sentando na cadeira de praia enquanto negocia.
– Não! Só não gostei da sua folga... se aproveitando da
gente. Prefiro ficar em casa! – rebate, sem sequer olhar
para ela.
– Vai lá Heitor! A gente brinca na areia e toma banho de
mar... com você vai ser mais divertido. Pega lá! – Isabela
tenta convencê–lo, enquanto já esfrega o tênis da irmã.
– Só vou porque a Isabela tá pedindo... – e sai para colher
as frutas.
Carolina passa a manhã explorando os dois, até quase
desistirem.
– Carolina! Agora chega! – desabafa cruzando os braços. –
Vai nos levar na praia ou não? Cansei da sua exploração!
Com quem será que você aprendeu esse truque, hein? –
Heitor reclama, aborrecido, olhando em direção à mãe.
– Não estou explorando ninguém. Já, já, vamos! É que o
sol ficou forte. Vamos esperar baixar um pouco – disfarça.
– Então por que preparou tudo como se fosse sair naquela
hora? – Isabela fala desapontada.
– Pra ver se a gente fazia tudo que ela queria! Somos dois
trouxas! – Heitor esbraveja.
– Muito bem, já podemos ir – decide finalmente.
Animados, ao chegarem à praia, Isabela e Heitor não
querem sair da água e na hora de voltar para casa, dão
muito trabalho para serem convencidos.
– Não se preocupa Heitor... – Isabela passa suavemente as
mãos pelos cabelos dourados do irmão – ...logo, logo
vamos ter idade pra vir sozinhos – fala carinhosamente,
enquanto atravessam a rua. Só agora Isabela se dá conta
que os dois anos de diferença entre eles praticamente não
existem mais, porque aos dez anos de idade Heitor já está
do seu tamanho.
Em casa brincam quase sempre juntos e só se separam na
hora da “rodinha dos meninos”. Quando ele retorna, é a
hora em que Isabela o cerca e o enche de perguntas sem
fim.
– O que é que vocês falam o tempo todo? O que ficam
fazendo? Quem mais vai? Quantos anos eles tem? Vocês
falam palavrão? Contam piadas? – dispara a perguntar.
– Pra que quer saber? Bobagens, besteira e porcarias.
Rimos uns dos outros, apelidamos as pessoas, falamos das
meninas... essas coisas. Pronto, já sabe. Agora me deixa
ouvir esta música! – fala esticando–se todo no sofá,
próximo ao rádio ligado.
– O quê? Você fica lá um tempão e só sai isso e ainda quer
que eu acredite? – reclama, dando um tapa no pé do
irmão.
– Tô falando, acredita se quiser! – continua a ouvir a
música, sem se importar que Isabela esteja parada a sua
frente, tentando convencê–lo a detalhar.
– Teria coragem de me apresentar como um menino
disfarçado? – pergunta em voz baixa, aproximando a boca
de seu ouvido. – Juro que nunca iriam saber. Por favor...
por favor... por favor... – implora, juntando as mãos.
– Ôoo... Isabela! – levanta–se do sofá irritado. – Vai ver se
eu tô na esquina! Se os caras descobrem, tô ferrado pro
resto da vida. A resposta é não! Você tinha parado de me
pedir... vai começar de novo?
– Já entendi. São unidinhos, né? Então tá! – fala decidida,
dando as costas e saindo, bufando de raiva.
“Por que menina também não se reúne assim? Só sabem
brincar de dar papinha para o bebê, levar o bebê para
passear, mamãe para cima, filhinho para baixo, compras...
Saco! Aí quando cresce, casa, tem filhos, engorda igual a
mamãe e vira dona de casa.” – pensa irritada, enquanto
entra no quarto.
– Uh! – soca o ar e resmunga, fazendo careta com a língua
para fora.
Inconformada, durante um tempo ainda continua a insistir
no desejo de participar da turma dos meninos com Heitor,
até que se convence, finalmente, de que passara os dois
últimos anos tentando inutilmente.
Isabela deixa de insistir com o irmão e sequer toca mais no
assunto. Aos poucos vai deixando as brincadeiras e
passando a ter outros interesses.
Heitor permanece o mesmo: adora brincar e colecionar
gibis. Lê todos e os relê várias outras vezes mais. Nunca
troca, nunca dá e nunca vende nenhum. Apenas compra
outros quando consegue algum dinheiro para isso.
Vai até as cidades vizinhas para completar a coleção,
sempre que necessário.
Torna–se difícil andar em seu quarto com tantos gibis de
super–heróis espalhados por todos os lados.
Aos treze anos, Isabela menstrua pela primeira vez e
assusta–se sem entender, achando que se machucou de
alguma forma. Não sabe muita coisa sobre meninas
ficando “mocinhas”, mas tem consciência das mudanças
em seu corpo. Apesar de ter irmãs mais velhas, nunca
conversaram sobre detalhes disso com ela. Na realidade,
Isabela não sabe que menina "sangra". Troca de roupa
várias vezes e a cada troca mostra para a mãe, para uma
irmã, para outra... e outra. Todas dizem que não está
machucada, que logo passará, e só.
Então, na tentativa de descobrir o que está acontecendo,
vai ao banheiro e usa um espelho à procura de um
possível ferimento que não existe.
“Ué! Como posso ter me machucado se não dói! Meu
Deus, o que está acontecendo?” – pensa preocupada com a
possibilidade de sangrar até morrer.
– Célia você é minha última esperança, se tiver alguma
coisa errada você me dirá! – fala, mostrando a roupa
manchada que acabara de trocar.
– Aqui em casa todas são burras, não sabem ou tem muito
medo de me dizer – suspira – se você não souber, não sei
mais o que faço. Já perguntei pra mamãe, pras meninas e
só falam que vai passar, mas quero saber o que é isto. Eu
vou morrer? Você sabe o que é? – Isabela se esforça para
disfarçar a irritação que sente com a calma da irmã diante
de sua preocupação.
– Você menstruou! Já é mocinha... bobinha! Que lindo!
Vem comigo! – sorrindo e segurando Isabela com uma
mão e a roupa com a outra, vão até a edícula na parte dos
fundos de sua casa, onde moram Rosa, que é a mais velha
das irmãs, e o marido Maurício.
– Olha Rosa, a Isabela já é mocinha! Que lindo, não acha
Maurício? – pergunta, segurando Isabela pelo pulso, que
nesse momento sente o rosto queimar, num misto de
vergonha e raiva por estar sendo exposta dessa forma
constrangedora.
– Você tá louca? Pirada? Bebeu hoje? – grita
descontrolada, quase chorando. – Me expor desse jeito!
Que ódio... nojenta... LOUCA! – sai em prantos para o
quarto. Entra e bate a porta com força. Sua mãe, Carolina e
Célia, preocupadas, seguem–na até o quarto.
– Por que ninguém me falou sobre isso antes? Porcaria,
porcaria, PORCARIIIA! – grita estirada na cama, com a
cara enterrada no travesseiro.
– Nunca vi uma garota, agora mocinha – corrige a mãe –
falar tanta porcaria! Se conforme minha filha! Agora todo
mês vai menstruar – completa, sentando ao seu lado na
cama.
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