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WILLIAM HARVEY: Vida e Obra (2.aParte)

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WILLIAM HARVEY: Vida e Obra (2.aParte)
HISTÓRIA DA MEDICINA
ACTA MÉDICA PORTUGUESA 1992: 5:559-563
WILLIAM HARVEY: Vida e Obra (2.aParte)
CARLOS RAMOS
Faculdade de Medicina de Lisboa
RPSUMO
Neste aaligo, aborda-se sucintamente a figura de William Harvey. Faz-se uma breve revisão de alguns dos
factores que caracterizaram o desenvolvimento científico nos séculos XVI e XVII. e narra-se a vida de William
Harvey até à publicação do seu primeiro livro. Descrevem-se resumidamente os trabalhos e as concepções que
precederam as duas principais obras de Harvey e analisam-se as ideias nelas comidas, tentando relacioná-las com
as transformações no pensamento científico que ocorreram na época; dá-se, sobretudo, destaque ao problema da
circulação sanguínea. Finalmente, descrevem-se algumas das reacções à publicação do seu primeiro livro e
relatam-se os últimos anos da vida do investigador.
SUMMARY
Tbe Lhe and Work of Whlliam Harvey
William Harvey’s biography is briefly summarized la this essay. The author shows a bird’s-eye view ofthe
l6th and the I7th centuries, with regard to the transformations which occuned la science, and narrates Harvey’s
life. A short description is given of his precursora and their ideas. His most important woi~s are analysed, as well
as contemporary scientists’ ieactions tothem. Special emphasis was laid cii the discovery of the blood circulation.
A OBRA
(...) eu sigo apenas a verdade, e envidei os meus esforços e
energias para este propósito, para que eu pudesse produziralgo
que possa ser aceitável para os homens de bem, conforme aos
homens doutos, e proveitoso para a literatura. (William Har
vey)’5
De mote cordis A História regista 1628 como o ano de
publicação, em Frankfurt, do primeiro livro de Harvey: Exerci
tatio anatomica de mote cordis et sanguinis in animalrbus
(Dissertação anatómica acerca do movimento do coração e do
sangue nos animais). Esta obra representa talvez o cuhninar de
séculos de observações anatomo-fisiológicas e de especulações
mais ou menos fundamentadas sobre o assunto. Harvey destacase, contudo, dos seus antecessores, pelo facto de ter procurado
demonstar com rigor todas as afirmações que profenu.
O período de actividade científica de Harvey decorreu até ao
início da guerra civil em 1642”. O registo mais antigo de que
dispomos em que o cientista expõe a sua concepção da circulação
são as notas que escreveu para as suas palestras. Aí, afirma que
o coração é comparável a uma bomba aspirante-premente que
assegura um fluxo constante do sangue dos pulmões para a a
aorta, e que a aplicação de um garrote demonstra que, na
periferia, o sangue passa das artérias para as veias. Conclui,
assim, que o seu movimento se faz constantemente em círculo,
sendo causado pelo bater do coração”. No entanto, preferiu
continuar a reunir provas, e só 13 anos mais tarde resolveu, a
pedido de amigos, publicar a sua obra.
A propósito da sua hesitação, Harvey escreve na dedicatória
do seu livro aos seus colegas do Colégio dos Médicos: divulguei
já muitas vezes antes (...) a minha opinião acerca do movimento
efinalidade do coração e da circulação do sangue, nas minhas
palestras, mas tendo sido confirmada por demonstração ocular
(...) (ei liberta das objecções (...) dos anatomistas (...), decidi
finabnentedivulgd-la nestepequeno livro’5. As suas expectativas
em relação ao seu trabalho estão expressas no fim desta parte do
livro e correspondem ao excedo com que abrimos esta parte do
artigo.
A dedicatória referida é precedida de uma outra, destinada ao
Rei Carlos 1.0 resto da sua obra é constituído por uma introdução
proémio - e por dezassete capítulos onde expõe longamente as
suas ideias sobre os problemas atrás mencionados.
Foram duas as fontes que terá utilizado para escrever o seu
tratado. Por um lado, usou os resultados das suas experiências, os
-
-
Recebido para publicação: 31 de Julho de 1992.
dados mais importantes para a construção da sua argumentação;
infelizmente, como veremos, as suas notas sobre as experiências
foram destrufdas, pelo que não nos é possível reconstruir total
mente os seus trabalhos e o seu método experimental. Por outro,
utilizou os dados que possuía a respeito das ideias de outros
autores. Sabemos que Harvey tinha grande respeito pelos autores
clássicos, não deixando, no entanto, de discordar deles, em
alguns pontos. Cita-os frequentemente ao longo da sua obra (o
que está de acordo com a posição dos eruditos da época em
relação aos antigos), muitas vezes para confrontar a sua opinião
com a deles. Porém, o que não faz, e que é condenável, é
referência a alguns dos seus precursores menos antigos, como
Cesalpino, cujo trabalho provavelmente terá conhecido’4. Na
verdade, de entre os investigadores mais recentes em relação à
sua época, praticamente só cita, e raras vezes, Colombo e Acqua
pendente.
Oproémlo Tal como foi referido anteriormente, o proémio
destina-se, segundo o autor, a apresentar as doutrinas comummente defendidas, para que se possa estabelecer o que está
correcto e o que está errado nas mesmas. De entre vários
exemplos que dá, salientamos alguns, que servem sobretudo para
ilustrar o modo de raciocinar de Harvey.
Em primeiro lugar, discorda da concepção de Erasfstrato
segundo a qual as artérias conteriam ar: se as artérias recebem e
devolvem o ar tanto na sístole como na diástole, como os pulmões
ofazem na respiração, porque éque não ofazem quando se corta
uma artéria? Quando se corta a traqueia é evidente que o ar
entra e sai (...). Mas é claro na secção de uma artéria que o
sangue sai com um movimento contínuo e que não entra nem sai
ar’5. Recusa também a opinião de que a artéria venosa contém ar,
afirmando que, apesar de ter seccionado muitas veias pulmona
res, nunca vira ar ou fumos, mas apenas sangue. Logo, veias e
artérias contêm só sangue.
Aponta também a falsidade da vis puls4fica de Galeno. Esta
teoria implicaria a sístole (e a diástole) simultânea do coração e
das artérias, o que é absurdo, pois como é que dois corpos tão
estreitamente unidos podem, enquanto distendidos, atrair algo
de um e, enquanto contraídos, receber algo do ouiro’5. O que se
passa verdadeiramente é que as artérias se dilatam passivamente,
recebendo o sangue expulso pelo ventrículo esquerdo aquando da
sua contracção. De facto, o jorro de sangue que sai duma artéria
seccionada coincide com a sístole cardíaca e a diástole arterial.
Na interrogação formulada e na explicação proposta pode apre-
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WILLIAM HARVEY
ciar-se bem a concepção mecanicista que Harvey, tal como
outros cientistas da sua época, tem da Natureza. Não fala de
forças misteriosas que movimentariam o sangue de acordo com
uma finalidade. Descreve, isso sim, o acontecimento como se de
qualquer outro fenómeno físico se tratasse.
Mais ainda, refuta liminarmente a existência de poros no
septo intraventricular. Se os ventrículos se contraem ao mesmo
tempo, por que razão seria o sangue a passar do ventrículo direito
para o esquerdo e não os espíritos e o ar a passarem deste para
aquele? E por que razão a Natureza se teria preocupado em
arranjar um estratagema para pennitir, no feto, a passagem do
sangue proveniente da veia cava para o lado esquerdo do coração
(através do buraco oval) e, no adulto, o faria por uma estrutura tão
espessa?
Terminando, Harvey conclui que aquelas coisas que foram
antes ditas pelos autores antigos acerca do movimento efinali
dade do coração e das artérias parecem inconvenientes ou
obscuras. (...) Assim, será proveitoso pesquisar mais profunda
mente (...) não só no homem, mas também em todas as criaturas
que tenham wn coração’5. Isto tudo, através da dissecção e da
observação cuidadas, de modo a poder discemir a verdade.
O movimento cardíaco. No capítulo inicial da sua obra, o
investigador expõe algumas das razões que o levaram a executá
-la. De entre elas, saliente-se o facto de Acquapendente não ter
escrito nada sobre o coração no tratado que havia publicado
alguns anos antes. Nesta parte do livro, confessa-nos também ter
ficado atrapalhado quando começou a fazer vivissecções e obser
vou o coração a trabalhar, O movimento parecia-lhe tão com
plexo e tão rápido que pensou que só Deus o podia conhecer.
Resolveu então dissecar as mais variadas espécies animais
até que conseguisse compreender o que pretendia. É deste
assunto que trata nos três capítulos seguintos, nos quais descreve
os movimentos cardíacos e arteriais, baseado em observações
que fez em animais de sangue frio - sapos, serpentes, rãs,
caracóis, camarões e todos os tipos de pequenos peixes e de
sangue quente cães e porcos. Nos primeiros, os movimentos
cardíacos são mais lentos, logo, mais fáceis de observar.
As conclusões que tira das suas experiências são várias. Entre
estas, declara que a sístole cardíaca é devida à contracção de
todas as suas fibras (Harvey corrigiu a descrição que Vesálio
fizera destas), o que leva à constrição do ventrículo e à conse
quente prowsão forçada do sangue; o choque do coração com a
parede torácica dá-se neste período (e não na diástole, como os
antigos pensavam), pois todo o órgão fica tenso e a sua ponta
eleva-se, batendo na parede. Mais ainda, observa que a contrac
ção das duas aurículas é simultânea e precede a dos ventrículos
(igualmente concomitante), concluindo que o sangue entra nos
ventrículos devido à actividade daquelas e não por qualquer
aspiração do sangue causada pelo relaxamento dos ventrículos
(actualmente, sabe-se que, em condições normais, a contração
das aurículas não tem muita importância no enchimento ventri
cular).
-
-
A circulação pulmonar. Em seguida, Harvey ocupa-se da
demonstração da circulação pulmonar, que efectuará mediante a
apresentação de múltiplos argumentos baseados em várias expe
riências suas. Em relação aos factos que mencionará para defen
der as suas teses, inicia o capítulo VI expondo a sua ideia quanto
à razão da acumulação de erros que se tinha vindo a verificar a
respeito da relação entre o coração e os pulmões. Segundo ele, os
culpados desta situação eram aqueles que estabeleciam os seus
veredictos sobre o funcionamento dos seres vivos olhando ape
nas para o homem, vivo ou morto. Compara este modo de pensar
ao dos que entendem que, conhecendo a natureza de um terreno,
julgam saber tudo de Agricultura; ou ao dos que, a partir de uma
proposição particular, julgam que é.possível construir argumen
tos universais. A solução residiria na prática da vivissecção de
outras criaturas, para além da dissecção do homem, o que
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permitiria que se desfizessem todas as confusões. Esta reflexão
sintetiza dois pontos importantes a respeito da atitude de Harvey
perante a investigação. Por um lado, esboça já uma preocupação
com o método de fazer ciência e com a utilização da indução para
estabelecer uma verdade científica: por outro, exprime a sua
posição de apoio à Anatomia e à Fisiologia comparadas, que
considera a base do estudo dos problemas a que se dedica. Esta
atitude não foi aceite pacificamente por alguns intelectuais da
época, que perguntavam que razão havia para estudar os seres
«imperfeitos*, se todas as suas qualidades estavam presentes no
homem em formas mais perfeitas9.
Grande circulação a demonstração O oitavo capítulo da
sua obra contém o ponto alto da sua concepção: (As coisas de que
-
-
falarei) são tão novas e inauditas, que não só temo o mal que me
passa vir da inveja de alguns, mas também que todos os homens
venham a ser meus inimigos (...). Contudo, a minha resolução
está tomada, (e] a minha esperança está na pureza daqueles que
amam a ~ Apresenta, então, a ideia de uma circulação
fechada, na qual o sangue que é impulsionado pelo ventrículo
esquerdo para a aorta volta à aurícula direita através das veias
cavas. Do capítulo IX ao XIV, tratará de provar esta ideia. Para
isso, coloca três hipóteses que irão ser demonstradas sucessivamente.
Em primeiro lugar, postula que a quantidade de sangue que
é expelida pelo ventrículo esquerdo é muito superior àquela que
poderia ser garantida pelos alimentos. Para demonstrar esta
conjectura, deita mão de um recurso que terá sido o primeiro ou
um dos primeiros a utilizar: a quantificação de um fenómeno
biológico”. E as contas são simples. O sangue que sai do
ventrículo esquerdo não pode voltar para trás devido ao mecanis
mo valvular existente entre a aorta e o coração. Harvey mediu, em
cadáveres, a massa de sangue contida neste ventrículo (cerca de
2 onças, aproximadamente igual a 57 g) e admitiu que, no
mínimo, 1/8 daquela, ou seja,l dracma (cerca de 1,78 g), seria
expulsa em cada sístole (nos mamíferos, a fracção de ejecção
normal é, em média, de 67%, cercá de 5 vezes mais do que o
considerado)~’. Considerando que, em 1/2 hora, o coração bateria
pelo menos 1000 vezes (o que dá uma frequência cardíaca baixa
33 p.p.m.), sairiam, num dia, cerca de 85 kg de sangue do
ventrículo esquerdo. Este valor corresponde a uma massa mani
festamente maior do que aquela que um indivíduo ingere em
alimentos, matéria-prima do sangue, pelo que este teria forçosamente de recircular. Reforça o seu argumento, mencionando
várias observações como, por exemplo, o facto de a massa total
de sangue que se obtém quando se faz uma arteriotomia ser muito
pequena.
Em segundo lugar, mostra que o sangue é fornecido pelas
artérias a todas as partes do corpo em quantidade maior do que
a necessária para a sua nutrição e que é removido da periferia
pelas veias. Apertando fortemente uma ligadura em torno do
braço, vê que o pulso arterial distal (em relação à ligadura)
desaparece e que o proximal se toma mais forte: o sangue não
passa, porque a força que lhe é transmitida não é suficiente para
ultrapassar o obstáculo, e o membro fica frio. Aliviando um
pouco a ligadura, de forma a sentir novamente o pulso arterial,
observa que as veias do antebraço e da região do sangradouro
ficam ingurgitadas e que a mão fica edemaciada, quente e
arroxeada: o sangue consegue passar para lá do obstáculo,
impulsionado pelo coração, mas não consegue voltar. Retirando
a ligadura, a dilatação venosadesaparece e o indivíduo sente frio
na axila. Logo, confirma-se a hipótese de que o sangue chega
pelas artérias e reflui pelas veias, passando para estas, segundo
Harvey, através de anastomoses ou de poros nos tecidos cuja
natureza não soube precisar.
Finalmente, afinna que o sangue flui continuamente nas
veias em direcção ao coração. Partindo do conhecimento da
existência de válvulas nas veias. Harvey realiza uma experiência
muito simples. Coloca uma ligadura pouco apertada em torno do
-
WILLIAM HARVEY
braço, provocando o ingurgitamento das veias distais, cujo
trajecto vai apresentar dilatações nodulares espaçadas, que cor
respondem às válvulas. Comprimindo com um dedo uma veia,
abaixo de uma das dilatações, e deslizando o dedo em sentido
distal, verifica que o sangue acima desta não desce para ocupar
o segmento que ficou no exangue. Por outro lado, comprimindo
a veia, abaixo de uma dilatação, e deslizando outro dedo,
imediatamente acima, em sentido proximal, verifica que o seg
mento entre os dedos fica sem sangue, mas que se enche quando
retira o primeiro dedo. Harvey conclui que o papel das válvulas
venosas é, não o de atrasar o fluxo centrífugo do sangue nas veias,
mas sim o de impedir o seu refluxo para os membros, asseguran
do que a coluna de sangue se mova em direcção ao coração.
Por tudo isto, diz, no capftulo XIV, que tem de ser necessa
riamente conclu(do que o sangue descreve um movimento circu
lar, nos animais, e que se move perpetuamente (...) e que o
movimento e a pulsação do coração é a [sua] única causa’5.
No resto dos capítulos do seu livro, Harvey apoia as suas
afirmações, relatando uma série de fenómenos e de opiniões
correntes que só muito dificilmente, do seu ponto de vista,
poderiam ser explicadas por outra teoria.
O balanço da obra A impressão que fica da leitura da sua
obra é a de que Harvey é demasiado prolixo, repetindo ideias,
repisando argumentos. Mas, como aponta o Professor Rocha
Brito, não pode ser esquecido que o cientista escreveu para os
seus contemporâneos, os quais aceitavam ainda as ideias de
Galeno. Só com múltiplos argumentos seria possível demovê-los
da sua posição9.
Não se fique, contudo, com a ideia de que a obra de Harvey
responde a todos os problemas da fisiologia dos fenómenos que
se propõe estudar. Há algumas incorrecções, como a de ter
recusado a existência de finos capilares nos tecidos, proposta por
Cesalpino, falando antes em porosidades na carne, de natureza
mal definida, semelhantes aos que Galeno imaginara para o septo
interventricular’8. Só alguns anos mais tarde, MarcelloMalpighi
(1628-1 694)~ observou, pela primeira vez, os vasos que unem as
artérias às veias.
Mostra-se também preso a algumas concepções clássicas,
considerando, por exemplo, que o coração é a fonte do calor do
organismo, que aquece o sangue, tal como Anstóteles afirmara.
Aliás Harvey diz no seu livro que a ideia do termo circulação lhe
surgira por comparação com o movimento circular da água do
nosso planeta, que o filósofo descrevera.
No entanto, uma das características de Harvey é a de ter
abandonado, na sua obra, a procura das causas finais e dos
primeiros princípios, passo dado por vários cientistas daquela
época e que foi decisivo no estabelecimento da ciência experi
mental. Tanto Harvey como Galeno confiam na observação
sensorial para conseguir compreender os fenómenos e, neste
sentido, são empiristas. Aquele dirá inclusivamente numa carta
escrita a um anatomista que não há ciência que não surja de
-
conhecimento pré-existente, nem ideias certas e definidas que
não tenham derivado dos sentidos25. O que distingue estes dois
cientistas em relação ao seu método é, contudo, a confiança que
Galeno tinha em relação à sua capacidade de descobrir o porquê
dos fenómenos naturais, ao passo que Harvey se procupa em
apenas descrever fenómenos naturais universais. Fá-lo mediante
um processo que é uma espécie de compromisso entre o empiris
mo sistemático de Bacon e a experimentação comprovativa e
matemática de Galileu8 . Por tudo o que foi dito, não éde estranhar
que Harvey seja considerado, por vários autores, o pai da Fisio
logia moderna e experimental.
De generatione Não foi só à Fisiologia que Harvey se
dedicou. Em 1651, publicou o livro Exercitationes de genera
tione animalium (Dissertações acerca da Geração dos Animais),
mais uma vez a pedido de amigos”. E uma obra de carácter mais
especulativo, o que facilmente se compreende se nos lembrarmos
-
de que os métodos de observação destes fenómenos de que
Harvey dispunha, como o uso de lupas, eram bastante limitados.
Na verdade, a circulação era mais fácil de se estudar.
O livro trata sobretudo do desenvolvimento do embrião no
ovo da galinha, notando-se uma influência bastante grande das
ideias de Aristóteles. Harvey rejeita, contudo, algumas concep
ções deste filósofo, nomeadamente o papel que atribuía ao
sangue menstrual no desenvolvimento do embrião. Aparente
mente, duvida também da teoria da geração espontânea, embora
a sua posição em relação a este assunto não seja muito clara”.
Interroga-se também sobre a importância do esperma na
fecundação. Para Harvey, esta seria uma espécie de contágio
semelhante ao das doenças infecciosas, mas que constituía algo
de vivificante8. Só mais tarde Leeuwenhoek(1632-1723)26 obser
varia pela primeira vez, em 1686, os animálculos do sémen e se
começaria a especular sobre a importância destes na fecundação.
Harvey afirma que todos os seres vivos provêm de um ovo,
posição que se encontra resumida na frase, muitas vezes citada,
omne vivum ex ovo. Defende a teoria epigenética, segundo a qual
o embrião sofreria um processo de organização contínuo corres
pondente a um desenvolvimento gradual das várias partes do
organismo. As primeiras a formar-se seriam as aurículas, tal
como já afirmara no De motu cordis, a partir de uma gota de
sangue palpitante’5. O desenvolvimento do embrião requereria,
assim, uma força impulsionadora, um princípio morfogenético
imaterial, próprio de cada espécie animal superior, que garantiria
a sua imutabilidade8. O significado da sua epigénese é, portanto,
mais simples do que o actualmente se atribuído a este termo.
Todavia, apesar de conter alguns erros, a obra de Harvey foi
importante para o desenvolvimento da Embriologia. O cientista
foi, contudo, um solitário no seu tempo. Na verdade, a teoria
epigenética, pelo princípio morfogenético imaterial que implica,
estava menos de acordo com a visão mecanicista da época (a que
Harvey, não obstante, tinha aderido) do que a hipótese da préformação3. Estadefendia que o ser que iria nascer estaria contido,
em miniatura, numa das células germinais (que até ao final do
século XVII foram observadas), e que o desenvolvimento em
brionário consistiria apenas na adição de matéria às partes já
formadas, as quais, deste modo, cresceriam. Foi ainda preciso
algum tempo para que a hipótese epigenética viesse a desempe
nhar papel importante na Biologia do desenvolvimento.
Consequências da obra Como consequência do trabalho de
Harvey sobre a circulação, a administração de fármacos endove
nosos foi introduzida no mesmo século. Mais ainda, fizeram-se
as primeiras tentativas de transfusão sanguínea, com sucesso
muito limitado3. Alguns séculos mais tarde, investigadores por
tugueses iniciavam os estudos da angiografia.
Vários cientistas continuaram a sua obra, tratando de arranjar
novos argumentos para a sua concepção e novas explicações para
o que tinha ficado no ar. Foi o caso de Siensen (1638-1686), que
demonstraria a forma verdadeira do coração, de Richard Lower
(1631-1691), que escreveu um tratado sobre o coração, de Robert
Boyle (1627-1691), que fez experiências sobre a respiração, e de
muitos outros7.
-
A VIDA: DEPOIS DE 1628
Lembrai-vos de que eu não trabalhei para mim, mas para
todos que têm sede de saber. (William Harvey)9
A reacção à obra O De motu cordis não foi aceite unanime
mente por todos os estudiosos da época. Na verdade, não nos
podemos esquecer de que as ideias expostas nesta obra iam contra
concepções seculares, que nem mesmo toda a actividade científica
renascentista tinha conseguido eliminar das universidades.
Assim, dois anos após a publicação da obra, James Prime
rose, inglês, recém-licenciado em Medicina (Harvey tinha sido
seu professor), foi o primeiro a atacar as concepções do investi
gador. Baseou toda a sua argumentação exclusivamente nas
obras de Galeno, que defende, tendo explicado, por exemplo, que
-
561
WTLLIAM HARVEY
a ausência de poros no septo interventricular sena devida a alte
rações que ocorreriam no órgão após a morte do indivíduo3.
Por toda a Europa se ouviam vozes discordantes em relação
a Harvey. Alguns reviram a sua posição, rendendo-se à evidência
das suas demonstrações. Outros, porém, preferiram apelidar
Harvey de circulator (palavra latina que pode significar louco) e
permanecer agarrados à tradição milenar de Galeno. De entre os
mais importantes detractores de Harvey, salienta-se Jean de
Riolan,filho (l58O-1657)~, professor de Anatomia da Faculdade
de Medicina de Paris. Esta escola parece ter sido uma das mais
retrógadas do seu tempo, tendo feito inclusivamente publicar um
decreto, no século XVII, que impedia os estudantes e professores
de se afastarem das ideias de Galeno e de Hipócrates, sob pena
de expulsão’2.
Riolan parece ter reconhecido que o trabalho de Harvey tinha
aspectos verdadeiros, mas não se conseguiu libertar da doutrina
galénica. Admite que a grande circulação poderia existir, mas
dar-se-ia apenas entre o coração, a aorta cascavas. Nos vasos de
pequeno calibre, o sangue nunca circularia: se isso acontecesse,
sendo o movimento tão rápido, como poderiam os tecidos
alimentar-se8? Recusa também a ideia da circulação pulmonar e,
usando igualmente um raciocínio quantitativo, chega a conclu
sões diferentes das de Harvey. O coração bombearia apenas uma
ou duas gotas de sangue em cada hora, pelo que a quantidade de
sangue envolvida, num dia, seria muito pequena. Segundo Riolas, os resultados a que Harvey chegara tinham sido criados pelas
própria experimentação: o coração, moribundo, começava a
acumular sangue e, deste modo, pareceria expulsar mais sangue3.
Durante todo este tempo, Harvey preferiu não responder aos
ataques. A publicação do seu livro, pelas ideias pouco ortodoxas
que este encerra, teve, porém, efeitos nefastos na sua prática
clínica privada, fazendo-o perder parte da clientela. No entanto,
o seu prestígio na corte não diminuiu, tendo continuado a
acompanhar o rei e os nobres nas suas viagens. Deste modo,
esteve uma vez em Espanha (1631) e outra em Viena (1636)8.
Duraste esta última viagem, teve oportunidade de realizar, na
Alemanha, uma demonstração das suas ideias perante Caspar
Hoffmann (l572-l648)~, professor de Medicina na Universidade
de Altdorf. Ao que parece, conseguiu convencer todos os presen
tes, excepto Hoffmann, que permanecia fiel a Galeno. Hoffmann
achava que a Natureza agiria de um modo supérfluo se fizesse
recircular o sangue pelo organismo, como Harvey propunha. Este
terá replicado apenas que, apesar de não saber qual a razão da
circulação, viaclaramente que esta se dava, resposta que exprime
bem a preocupação de Harvey em descrever os fenómenos como
aconteciam, e não em buscar a sua primeira causa.
Mas Harvey teve também defensores. Entre eles, figuram
dois médicos holandeses, Jan de Waal e Zacarias Sylvius de 1€
Boë. O primeiro efectuou novas experiências que apoiaram as
conclusões de Harvey3. O último reeditou, em 1661,0 De mota
cordis, fazendo nesta edição um enorme elogio ao cientista
inglês’.
Mas o defensor mais famoso de Harvey foi talvez René
Descartes (1596~165O)27. Tanto no Discurso do Método como
em As Paixões da Alma, o filósofo francês faz referência aos
trabalhos de Harvey. Nesta última obra pode ler-se: todos os que
a autoridade dos Antigos não cegou completamente e que quise
ram abrir os olhos para examinar as opiniões de Herveus
(Harveyj sobre a circulação do sangue, não duvidam que todas
as veias e artérias do corpo sejam coma regatos por onde o
sangue corre sem cessar27. No entanto, não concorda com tudo
o que o investigador inglês tinha declarado. Descartes, erradamente, é de opinião de que a fase activa do movimento cardíaco
é a diástole, não concordando com a alinnação de Harvey de que
é a contracção ventricular a responsável pela expulsão do sangue
do ventrículo. Para aquele filósofo, o sangue, ao entrar no
coração, seria aquecido por este, vaporizando-se e expandindo-se, o que forçaria a sua saída para as artérias.
Em 1642, cinco anos após a publicação do Discurso do
Método, teve início, na Grã-Brelanha, a guerra civil que opôs
562
parlamentaristas e partidários do rei. Harvey permaneceu ao lado
de Carlos 1, tendo a seu cargo os dois príncipes. Após a batalha
de Edgehill, o monarca foi obrigado a retirar para Oxford. Harvey
foi então nomeado director doMerton Coilege. Alguns anos mais
tarde, o rei, após ter fugido de Inglaterra, foi entregue pelos
escoceses aos parlamentaristas, tendo ficado preso até 1649 (as
datas foram retiradas da referência 11, excepto quando indicado),
data da sua execução. Por ter apoiado o rei, vários dos manus
critos científicos do investigador foram destruídos por soldados
parlamentaristas.
1649 é também o ano em que Harvey resolve quebrar o
silêncio a que se tinha remetido em relação aos ataques à sua obra,
publicando uma resposta às críticas de Riolan: E.zercitationes
duae anatomicae de circulatione sanguinis28. São duas cartas
abertas a Riolan em que o cientista inglês reafirma as posições
assumidas a respeito da circulação do sangue, e em que fornece
novas provas para as suas conclusões. Nesta obra, Harvey libertase um pouco mais das concepções clássicas. No De motas cordis,
afirmara que o coração era a fonte de calor do sangue e do
organismo. Todavia, na resposta a Riolan, Harvey fala num calor
inato do sangue, que aquece o próprio coração, o qual, por sua
vez, o envia para todo o corpo. Menciona também a existência de
uma terceira circulação do sangue no organismo: a circulação
coronária29.
Por esta altura, em Portugal, os trabalhos de Harvey eram
quase desconhecidos2t. Um dos factores apontados para esta
letargia cultural que o nosso país atravessava é a perda da inde
pendência de Portugal nesta época. O ensino nas nossas Univer
sidades permaneceu leal às concepções galénicas até meados do
século XVIII, altura em que se efectuou uma reforma univer
sitária. Paraadivulgaçãodaobra do cientista inglês, em Portugal,
terá contribuído o Tratado fisiológico, médico-físico e anatómico
da circulação do sangue, livro escrito por João Marques Cor
reia, médico alentejano2t, onde é exposto todo o problema da
circulação do sangue, de acordo com a descrição de Harvey.
Oi últimos anos Após a execução do rei, foi instituído um
regime, em Inglaterra, denominado protectorado de Cromwell,
parlamentarista inglês. Devido às ligações que tinha mantido
com orei, Harvey parece não ter sido visto com bons olhos pelos
partidários do novo regime, pelo que foi forçado a passar o resto
da sua vida em casa dos seus irmãos. Tinha acumulado riqueza
considerável mas estava velho e doente com gota e cálculos nos
rins que lhe causavam dores violentas”.
As numerosas críticas a que tinha sido sujeito tê-lo-Ao feito
desistir da investigação, embora continuasse a corresponder-se
com cientistas estrangeiros. Teve, no entanto, a felicidade de ver
consagradas as suas ideias, ainda em vida, por vários investiga
dores. A pouco e pouco, os seus trabalhos iam conquistando as
várias Universidades.
Em 1652, mandou construir um novo edifício para o Colégio
dos Médicos, que possuía uma biblioteca com a sua colecção de
livros e, possivelmente, alguns seus manuscritos que restassem.
Infelizmente, o prédio foi destruído, em 1666, no grande incên
dio de Londres.
Dois anos antes, em 1654, foi-lhe oferecido o lugar de
presidente daquela instituição, mas Harvey recusou, alegando
estar doente. Foi o único cargo na hierarquia do Colégio que não
chegou a ocupar.
Na manhã do dia 3 de Junho de 1658, acordou praticamente
paralisado e sem conseguir falar, provavelmente devido a um
enfarte cerebral. Pensa-se que estivesse em casa do seu irmão
Eliab Harvey, em Roehampton. Nesse mesmo dia, faleceu. Tinha
setenta e nove anos. Três anos mais tarde, Malpighi observava,
pela primeira vez, os capilares sanguíneos.
Foi enterrado no jazigo familiar, em Hempstead (Essex), a
oitenta quilómetros de Londres. Em 1883, foi transladado para
um túmulo da Harvey Chapel, construída naquela localidade,
onde existe um busto de mármore representando o cientista.
-
WILLIAM HARVEY
CONCLUSÃO
É difTcil avaliar o impacto que a descoberta de Harvey teve
em toda a Fisiologia e a Medicina. Os fármacos endovenosos e
o início dos estudos sobre a transfusão sanguínea são apenas duas
das áreas que se abriram à ciência de então. Os seus trabalhos e
a sua atitude perante a Natureza influenciariam as gerações
seguintes, tendo estabelecido os alicerces da moderna Fisiologia.
O local e a época em que viveu foram propícios ao seu
trabalho. A Inglaterra, ao contrário de outros países europeus,
atravessava um período de franca prosperidade, favorável à pro
gressão da Ciência. O Renascimento tinha produzido uma verda
deira maturação psicológica nos investigadores e a viagem a
Pádua, que foi um dos pontos altos deste movimento, terá
contribuído seguramente para o desenvolvimento do espírito
científico de Harvey.
Todavia, estabelecer até que ponto a época influenciou o
cientista não é fácil. Sabemos que o século XVII é caracterizado
por uma viragem no modo de encararaNatureza. A quantificação
dos fenómenos e a visão mecanicista sintetizam grande parte da
atitude dos cientistas deste período perante o Mundo. Na obra de
Harvey é possível observar estas duas características. O que é
complicado é perceber se Harvey foi influenciado por estas
modificações no encarar dos problemas ou se, pelo contrário, terá
sido pioneiro dessas alterações. Muitos autores inclinam-se mais
para a última hipótese.
A descoberta de Harvey marcou o fim da teoria de Galeno,
que durante séculos tinha dominado toda a Fisiologia. Harvey
não terá talvez prestado o tributo merecido a homens que antes
dele tinham tido a intuição da circulação (talvez porque não os
conhecesse), mas cabe-lhe inteiramente o mérito de a ter demons
trado e apresentado provas a seu favor.
O longo caminho percorrido até ao estabelecimento do
movimento correcto do sangue nos vasos prova, uma vez mais,
que uma descoberta raramente surge por geração espontânea. A
História da Ciência parece fazer-se por pequenos abalos sucessi
vos em que novas concepções substituem opiniões antigas. É o
seu conjunto que leva à construção de um edifício científico. Para
se dar um passo em frente é necessário uma época apropriada, um
longo trabalho anterior e, naturalmente, um homem iluminado.
Harvey terá sido um deles.
AGRADECIMENTOS
O autor agradece ao Prof. Doutor Salomão Sequerra Amram, pelo
material que pôs gentilmente à disposição paraarealização deste trabalho,
à Dra. Leonor Parreira, pelas valiosas sugestões com que contribuiu
durante a elaboração deste artigo, e às Funcionarias da Biblioteca Central
da Faculdade de Medicina de Lisboa, pela amabilidade com que atenderam
os pedidos de consulta de livros.
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