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Vinho e Sistema Nervoso Central

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Vinho e Sistema Nervoso Central
vinho e saúde
Vinho e Sistema
Nervoso Central
“Embriagai-vos, sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude,
como achardes melhor” - Charles Baudelaire (1869)
por gustavo andrade de Paulo
ilustração omar grassetti
Os efeitos mais conhecidos do álcool sobre o sistema ner-
dois tipos: o AVC isquêmico, causado pelo entupimento
voso central são a embriaguez e a dependência alcoólica (al-
de uma artéria cerebral e o AVC hemorrágico, secundá-
coolismo). Entretanto, quando consumido com parcimônia, o
rio ao rompimento de uma artéria. Em todo o mundo,
vinho parece reduzir o risco de certas enfermidades cerebrais,
mais de 20 milhões de AVC acontecem anualmente,1
como a demência (incluindo a Doença de Alzheimer), a de-
sendo que entre 70 e 85% são do tipo isquêmico. Em
pressão e, principalmente, alguns tipos de acidentes vascula-
ambos os casos, a doença aterotrombótica (entupimento
res cerebrais (comumente conhecidos como “derrames”).
dos vasos sangüíneos por placas e trombos) é um dos
principais fatores desencadeadores.
1. Acidentes Vasculares Cerebrais
Em todo o mundo, os acidentes vasculares cerebrais
forma de doença coronariana isquêmica (ver artigo so-
(AVC) são a principal causa de incapacitação em adultos, a
bre Álcool e Doenças Coronarianas na edição número 2
segunda maior causa de demência e a terceira maior causa
de Wine Style) ou doença cerebrovascular (AVC), sendo
de morte (7 a 15%), responsáveis por cerca de 5,5 milhões
considerada a principal causa de morte em todo o mundo
de óbitos em 2001.
Só nos EUA, os custos diretos do
(22%), superando o câncer e o HIV.5 Com o aumento da
AVC somam cerca de 33 bilhões de dólares por ano, com
prevalência dessas duas doenças observado nos últimos
mais 20 bilhões de custos indiretos (perda de capacidade de
anos, estima-se que 222,2 milhões de indivíduos sofrerão
trabalho). Além disso, indivíduos que sofrem um AVC têm
de doença coronária e/ou AVC em 2005.1
sua expectativa de vida reduzida em até 12 anos.4
De forma simplificada, os AVC são causados pela para-
a hipertensão arterial, a obesidade, o diabetes e o sedenta-
da do fluxo sangüíneo cerebral e podem ser divididos em
rismo são fatores de risco bem estabelecidos para o AVC.
1, 2
3
38
A doença aterotrombótica pode manifestar-se sob a
Assim como para as doenças coronárias, o tabagismo,
39
Alguns hábitos alimentares também parecem desempe-
por idade, sexo ou tabagismo, o consumo mensal de vinho
2. Demência
certos indivíduos com um padrão genético específico.19
nhar um papel na gênese ou prevenção dessa enfermidade.
reduziu o risco de AVC em 17%, enquanto que os consu-
Entre esses, um dos mais debatidos é o consumo de álcool
mos semanal e diário reduziram em 41% e 30%, respecti-
por um distúrbio intelectual secundário a uma disfunção
70 e 81 anos observou que aquelas que consumiam até 15 g
e, em particular, do vinho.2
vamente. Nenhuma associação foi evidenciada com cerveja
cerebral. As causas mais comuns de demência são as do-
de álcool por dia apresentavam menor declínio da função
Sabe-se que o abuso do álcool está associado a um
e/ou destilados. Para esses autores, o vinho deve apresentar
enças degenerativas (incluindo a Doença de Alzheimer), as
cognitiva com o passar dos anos. Não foi observada nenhu-
aumento da mortalidade por acidentes, violência, suicídio,
outros compostos, além do álcool, com efeitos protetores
vasculares (causadas por AVC) e as traumáticas (traumatis-
ma diferença entre o consumo de vinho ou cerveja.20
envenenamento, cirrose e certos tipos de câncer.6 Parece
contra os AVC. Em um estudo recente dos mesmos auto-
mo cerebral). O abuso prolongado do álcool pode causar
haver, ainda, um consenso de que o consumo prolongado
res,12 os efeitos do álcool na redução do AVC foram mais
demência alcoólica ou síndrome de Wernicke-Korsakoff.16
vinho sobre algumas doenças degenerativas cerebrais é a
de altas doses de álcool (> 60 g/dia) aumenta o risco de to-
expressivos entre os pacientes com maior nível de estresse.
O consumo moderado de vinho está associado a um
ação antioxidante de certos componentes do vinho. Se-
dos os tipos de AVC, especialmente do AVC hemorrágico.2,
Berger et al.13 acompanharam mais de 22.000 médi-
menor risco de demência, incluindo a Doença de Alzhei-
gundo alguns especialistas, os polifenóis presentes no vinho
cos americanos entre 40 e 84 anos, por mais de 12 anos,
mer (DA).17 Em Bordeaux, um estudo populacional obser-
seriam capazes de retardar o envelhecimento das células
sobre a incidência de AVC são mais controversos.
e observaram uma redução de até 26% no risco de AVC
vou que pessoas que consumiam 3 a 4 copos de vinho (250
cerebrais. É intrigante notar que, proporcionalmente falan-
Para avaliar a correlação entre consumo de álcool e
isquêmico entre aqueles que consumiam de 1 a 4 doses de
a 500 ml) por dia tiveram uma redução de 81% no risco de
do, a ação antioxidante dos polifenóis dos vinhos brancos
mortalidade, Thun et al.6 acompanharam 490.000 indiví-
álcool por semana. Não foi observada diferença quanto ao
demência e de 72% no risco de DA, quando comparados
é superior à dos tintos. Entretanto, a quantidade de poli-
duos acima de 30 anos (média de 56 anos) por um período
risco de AVC hemorrágico.
com abstêmios. Entre aqueles que consumiam até 2 copos
fenóis dos tintos é muito superior à dos brancos, tornando
médio de nove anos e observaram que homens e mulheres
Mukamal et al.9 estudaram a relação entre consumo de
por dia, houve uma redução de 45% no risco de DA. Esses
estes vinhos mais interessantes para as células cerebrais.
que consumiam até uma dose de álcool (12 g) por dia ti-
certas bebidas alcoólicas e o risco de AVC em 38.156 pro-
resultados estão de acordo com um estudo conduzido em
Além da ação antioxidante, os vinhos melhoram a circu-
veram uma redução na mortalidade por doenças cárdio e
fissionais de saúde dos EUA durante 14 anos e concluíram
Rotterdam, onde o consumo de até 3 drinks por dia redu-
lação cerebral, como o fazem com a circulação coronariana.
cerebrovasculares de 30 a 40%. Considerando-se apenas
que o consumo de álcool (10 a 30 g), 3 a 4 dias por semana,
ziu o risco de demência em 42% e o risco de demência vas-
os AVC, a redução variou entre 20 e 30%. É interessante
resultou em uma redução de 32% no risco de AVC, embo-
cular em 81%. Provavelmente, essa redução é secundária à
3. Depressão
salientar que o benefício do consumo moderado de álcool
ra essa redução não tenha sido estatisticamente significati-
redução na incidência de AVC. 16
é maior em homens e mulheres entre 30 e 79 anos de idade
va. Entretanto, em uma análise mais aprofundada, o vinho
Em um trabalho realizado em Copenhagen, Truelsen
ces de apresentar depressão. Em um estudo com idosos,
e depende do risco individual de desenvolvimento de um
tinto (até 9,9 g de álcool por dia) mostrou-se significativa-
et al. observaram que o consumo mensal e semanal de vi-
Dufour et al.21 observaram que o álcool estimula o apetite,
problema cardiovascular.
mente capaz de reduzir o risco de AVC em 23%.
nho estava associado a uma redução no risco de demência.
melhora o humor, aumenta a sensação de felicidade, dimi-
Uma meta-análise (análise de vários estudos publicados)
Por outro lado, o consumo mensal de cerveja estava asso-
nui a necessidade de cuidados externos, reduz a inibição,
indivíduos entre 30 e 70 anos, acompanhados entre 1976
conduzida por Reynolds et al.,14 mostrou que o consumo
ciado a um aumento nesse risco. O efeito do álcool sobre o
o estresse, a tensão e a depressão. Em certos casos, pode,
e 1988, a mortalidade por doenças cárdio e cerebrovascu-
de mais de 60g de álcool por dia resultou em um aumento
risco de demência foi similar entre homens e mulheres.
ainda, produzir analgesia.
lares (agrupadas) foi reduzida em até 56% naqueles que
de 64% no risco de AVC, sendo que o aumento para AVC
consumiam vinho de forma moderada e regular. O consu-
hemorrágico foi de 118%. Entretanto, quando o consumo
constatou que o consumo de vinho, de café, atividade físi-
4. Inteligência
mo comedido de cerveja esteve associado a uma queda de
foi inferior a 12 g por dia, houve uma redução de 17% no
ca regular e uso de antiinflamatórios estava relacionado a
apenas 28%, enquanto que o consumo de destilados (até 2
risco de AVC. Consumo entre 12 e 24 g por dia reduziu o
uma redução no risco de DA.18 Esse resultado é semelhante
que consumiam vinho apresentavam melhores resultados
doses/dia) não apresentou diferença.
risco de AVC isquêmico em 28%. Na meta-análise de Di
ao obtido em um estudo realizado em Nova York, onde o
nos testes de QI que os que consumiam cerveja.22 Na opi-
Em um outro estudo do mesmo grupo de autores envol-
Castelnuovo et al.,15 incluindo 26 estudos com mais de 209
consumo de até 3 doses de vinho por dia esteve associado
nião dos autores desse estudo, o consumo de vinho indicou
vendo 13.329 pessoas entre 45 e 84 anos, acompanhados
mil pessoas, os indivíduos que ingeriam vinho tinham um
a um risco 45% menor de DA. O consumo de cerveja ou
um melhor desenvolvimento cognitivo, social e de perso-
por 16 anos, Truelsen et al.11 observaram uma curva em
risco de doença cerebrovascular 57% menor que os abstê-
destilados não apresentou tal associação. Entretanto, nesse
nalidade, fatores esses sabidamente relacionados com uma
forma de “U” para a associação entre consumo de álcool e
mios. Em contrapartida, entre os bebedores de cerveja este
estudo, os efeitos benéficos do vinho estiveram limitados a
melhor qualidade de vida e de saúde.
risco de AVC. Após afastarem possíveis confusões causadas
risco foi reduzido em apenas 33%.
7-9
40
Entretanto, os efeitos do consumo moderado de álcool
No estudo de Grombaek et al.,10 envolvendo 13.285
A demência é a uma síndrome clínica caracterizada
11
Um estudo canadense sobre os fatores de risco da DA
Um recente trabalho envolvendo 12.480 mulheres entre
Uma das possíveis explicações do efeito benéfico do
Consumidores moderados de vinho têm menores chan-
Um estudo dinamarquês constatou que os indivíduos
41
Fica a pergunta: será que os apreciadores de vinho são
parece ser suficiente, evitando o aumento da mortalidade
mais inteligentes porque bebem vinho ou será que bebem
por acidente e câncer. Vários fatores podem influenciar
vinho porque são mais inteligentes? A resposta fica com vocês!
essa equação e qualquer recomendação sobre o consumo
de álcool deve levar em conta não apenas as complexas rela-
Conclusão
ções entre álcool e determinadas doenças mas, também, as
conhecidas associações entre o seu consumo exagerado e os
O álcool ocupa um lugar ímpar em muitas sociedades.
É socialmente tolerado, com papel em diversas cerimônias
religiosas, rituais, celebrações e relacionamentos interpessoais.
Vários autores têm defendido que o consumo moderado
de álcool e, em particular, do vinho reduz a mortalidade
riscos à saúde (do indivíduo e da coletividade).6, 15, 23-27
* Uma revisão detalhada sobre os mecanismos de proteção e as
recomendações sobre o consumo moderado de vinho (álcool)
pode ser encontrada na edição número 2 da Revista Wine Style.
por doenças cárdio e cerebrovasculares, incluindo os AVC.
Entretanto, ainda não se sabe quando os benefícios desse hábito
G u stavo A n d r a d e d e Pau lo é m é d i c o e d i r e to r d e
surgirão. O consumo parcimonioso, iniciado na meia-idade,
degustação da ABS-SP
[email protected]
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