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Esta farto de andar `aos papeis` quando se fala de vinhos à

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Esta farto de andar `aos papeis` quando se fala de vinhos à
TEXTO António Falcão ■ FOTOS Alexandre Marques, Anabela Trindade, Ricardo Palma Veiga
Esta farto de andar 'aos papeis' quando se fala de vinhos à mesa do restaurante?
Ou simplesmente quer saciar aquela curiosidade que o atormenta há anos?
Os cursos de vinhos estão aí para o ajudar a entender melhor este fabuloso néctar.
Neste artigo dizemos-lhe tudo: quem os fornece, o que vai aprender,
quem os ministra, e muito, muito mais...
A cena decorreu há uns bons
anos na sala de formação de vinhos
da Escola de Hotelaria e Turismo
do Estoril. É oferecido a um grupo
de profissionais que nada tinham a
ver com vinho nem restauração, um
pequeno curso sobre vinhos, que inclui a identificação de aromas, como
a baunilha e... o chichi de gato. Pouca gente acerta. No final, o formador
serve um copo de vinho opaco a cada
uma das pessoas e faz um desafio insólito: apenas com o nariz e a boca,
pede aos presentes para dizerem se
o vinho é branco ou tinto. Olhar para
dentro do copo não ajudava porque a
luz era pouca e a opacidade do vidro
preto impedia a identificação. As pessoas entreolhavam-se, meio perdidas,
com aqueles olhares interrogativos
e um ou outro encolher de ombros.
Mas lá metiam o copo às narinas e o
líquido à boca. No final, fez-se a con-
tagem das opiniões e, surpresa geral,
mais de metade das pessoas falharam
o teste. Uma gargalhada geral
ecoou pela sala, à mistura com
alguns sor-risos amarelos...
De facto, o vinho era branco, mas
estava evoluído e foi servido à temperatura ambiente. Qualquer especialista em vinhos teria reconhecido
o branco sem dificuldades (como o
fizeram os 'mais enófilos' presentes,
mas muitos deles com dúvidas) mas
para um consumidor ocasional, este
foi um teste duro.
Saber mais Esta outra cena decorre
na actualidade, numa sala onde está
um grupo de candidatos de aprendiz à
arte de provar o vinho. Os formandos
metem os olhos no copo. Depois, os
copos ao nariz. E finalmente, o vinho
na boca. Um deles, Antero Marques,
sorri enquanto olha timidamente para
os colegas de curso, quase a confirmar que não está com a coreografia
desajustada. Para ele, este curso está
a ser importante: "quando estou com
os amigos numa almoçarada, sintome quase estrangeiro quando começam a falar de vinhos. E por isso
quis saber mais sobre o vinho, para
estar ao nível deles". Este quadro da
indústria de serviços vai certamente
sair dali a saber explicar mais coisas
do que quando entrou. E, garante,
já não vai cometer o mesmo erro de
chambrear o vinho tinto, independentemente da temperatura a que esteja, antes de o consumir. E vai passar
a ter copos de qualidade em casa e a
exigi-los no restaurante, "nem que
tenha de os levar para lá".
Olga Gonçalves, que trabalha na indústria farmacêutica, também quis
tirar partido da formação: "estou com
frequência em contacto com médicos,
ao almoço ou jantar. Pela minha experiência, os médicos costumam ser
bons apreciadores de vinhos. E sentia-me mal quando não conseguia
estar ao nível deles...". Olga espera,
daqui em diante, conseguir escolher
melhor um vinho consoante a comida e inclusive sugerir marcas, provocando assim uma boa impressão nos
seus 'clientes'.
As justificações são muitas mas ha
um interesse comum nos participantes em cursos de iniciação ao mundo dos vinhos: saber mais sobre este
néctar que cada vez suscita mais paixões e nunca como agora esteve tanto na moda.
Do mestre ao curso A melhor
maneira de alguém aprender mais
sobre vinhos é mesmo ter um mestre
privado. Mas como isso esta fora do
alcance da esmagadora maioria das
Abril de 2007
49
Formação
pessoas, a segunda melhor hipótese,
e a mais divertida, é participar num
curso de iniciação à prova.
Existe já um número interessante de
empresas que se dedicam a esta formação, embora estejam quase limitadas às duas principais cidades do país.
E mesmo aqui, a regularidade não
pontua, acontecendo os cursos muitas
vezes quando surge a oportunidade.
O mercado de interessados parece ser
relativamente pequeno e muitas empresas acabam por marcar acções de
formação quando têm ou sentem ter
um grupo de interessados. Às vezes
começa num departamento de uma
empresa, outras vezes num grupo de
amigos, não raramente por oferta de
um fornecedor. Por isso é preciso es-
tar atento (mais a frente damos-lhe
algumas 'armas' para o ajudar).
O que se aprende num curso?
Depende muito do tipo de curso.
Em termos gerais, os cursos são de
Nível I e Nível II. O primeiro e
mais básico e, apesar de não serem
todos iguais, a informação ministrada é semelhante.
O primeiro nível destina-se a pessoas que pouco sabem de vinhos, ou
sabem o básico. Destina-se portanto
a adquirir novos conhecimentos e a
consolidar outros. Fundamentalmente
sobre as regiões vinícolas, viticultura
básica, uns toques sobre vinificação e
enologia, alguns pormenores sobre o
serviço e tratamento dos vinhos,
Participar num curso
de iniciação à prova de vinhos
é muito interessante
e, sobretudo, divertido
os diferentes tipos de vinhos, introdução à prova de vinhos, etc. Não
poucas vezes se usam os frasquinhos
com aromas, que são normalmente
os componentes que os formandos
têm mais dificuldade em identificar
num vinho. E não podemos esquecer
a harmonia entre vinhos e comidas,
muitas vezes testadas numa refeição
no final do curso.
Note que o curso de Nível I de uma
empresa pode ter maior carga horária
que o correspondente de uma outra
empresa: por exemplo, a
Academia do Gosto dá 3 horas para
o seu curso de Nível I, enquanto
que a Viniturismo dá o dobro (os
preços também são diferentes). O
Esporão faz os cursos por módulos
e a escolha fica a cargo do cliente.
Os cursos de nível II são mais
exigentes a todos os níveis, e por
isso mais caros. Têm também maior
carga horária. João Vila Maior, da
Academia do Gosto, disse-nos, por
exemplo, que "o Curso Nível II
permite um maior
Quem dá
O quê?
Carga horária
Quem ministra?
Onde?
Como obter mais informação
Qto custa (€)?
Obs.
Academia do Gosto
Curso de prova de vinhos, Nível I e
Nível II
3 horas (Nível I) e 8 horas
(Nível II)
João Vila Maior
Restaurantes
www.academiadogosto.com
[email protected]
João Vila Maior: 93 970 34 52
85 e 200
Peça a newsletter por e-mail
Jantar final
Academia do Vinho
WSET Foundation nível 1
e WSET Intermediate nível 2
1 dia (nível I)
3 dias (nível II)
João Paulo Vitorino,
outros
Local varia, entre Lisboa e
Porto
www.academiadovinho.com.pt
250 e 500
Exame final. Certificado e diploma com
reconhecimento internacional
Associação Portuguesa de
Jovens Enófilos
Curso de Prova de Vinhos
- Nível 0 e Nível 1
6 horas (Nível 0)
9 horas (Nível1)
Manuel Botelho e Pedro
Sereno (Nível 0)
Mário Louro
Instituto Superior de
Agronomia Lisboa
www.apje.net
[email protected]
Tel. 96 629 61 62
35 e 90 (não sócios);
20 e 75 (sócios)
Jantar final
Herdade do Esporão
Vários cursos, com 4 módulos:
Aromas, sentir o vinho, provar e
ligar com comida
Um dia, das 15 às 22.30
José Carlos Santanita
Herdade do Esporão,
Reguengos
www.esporão.com
[email protected]
Tel. 266 509 280
De 70 a 125
Inclui visita guiada e jantar no final
Mário Louro, Lda
Cursos standart ou à medida
Contactar formador
Mário Louro
Local a escolher
Hugo Nascimento
Telm: 96 312 95 23
[email protected]
Preços a combinar
Prestador de serviços.
Sítio do Vinho
Curso de iniciação à prova, nível 1
Curso de vinhos, nível II
Nível 1 e 3 dias, 6 horas
Mário Louro
Vários, na zona de Lisboa
www.sitiodovinho.com
[email protected]
Tel. 91 780 26 93
95 e 125
Existem outros cursos especiais, como
Vinho do Porto, champanhes, grandes
vinhos do mundo, e mestre de vinhos
CarpeVinum
Curso de iniciação à prova
2 dias, 6 horas
Vários enólogos,
consoante o local e
circunstância
Livraria Ferrin, Lisboa, mas
ainda em Porto e Coimbra
www.carpevinum.pt
[email protected]
Tel.210 156 752
Telem: 918 708 291
120
Empresa tem outros cursos ou
workshops como Douro vs Dão,
Alentejo vs Sado, Porto vs Madeira, etc
Via Viti
Curso de Iniciação à prova – Nível I
e II
6 horas (Nível I) e
12,5 horas (Nível II)
Rui Cunha e Manuel
Maria Pinto
Sala de formação; ou em
local a combinar
www.viaviti.net
Mediante orçamento
Prestam outra formação para o canal
Horeca, sommeliers e distribuidores.
Vinho & Coisas
Curso de Iniciação à prova – Nível I
e II
19:00 e as 21:00
(6 horas no total)
Rui Cunha e Manuel
Maria
Rest. Degusto, Porto
www.vinhoecoisas.pt
[email protected]
22 936 43 60
150
Inclui jantar final no Degusto
Viniturismo
Curso de vinhos Nível 1, 2 e 3
3 dias cada nível, 6 horas
no total
João Paulo Martins ou
Vergílio Loureiro
Rest. Yorkhouse, Lisboa,
outros
www.viniturismo.com
[email protected]
Tel. 21 793 8586
Entre 100 e 200
Organiza ainda cursos especiais à
medida e provas comentadas
50 Abrilde2O07
Formação
aprofundamento dos temas, maior
carga horária, e o número de vinhos
provados é maior (mínimo 8 para o
Nível I e 20, para o Nível II)".
Quase todas as empresas limitam o
número de participantes para meIhorar a qualidade da formação. Na
Vinho e Coisas, por exemplo, e segundo a coordenadora Ivone Ribeiro,
"só se aceita até cerca de 16 pessoas
cada. Não colocamos mais pessoas,
para tornar o grupo mais participativo". A filosofia das outras empresas
é semelhante.
Importante é ainda o facto de muitas
empresas usarem meios audiovisuais para auxilio na formação. É também costume entregar um diploma
de participação, embora apenas uma
João Vila Maior, enólogo, e um dos
formadores que já dá cursos de
vinhos há vários anos.
empresa, a Academia do Vinho (ver
caixa), faça um exame final antes de
entregar o diploma.
Ir mais além Para além dos cursos de nível I e II, quase todas as empresas que contactámos têm capacidades para ministrar outros cursos
mais avançados. A Viniturismo, por
Mário Louro, provavelmente o
mais antigo formador de vinhos
exemplo, tem o chamado curso de
Nível III, dedicado à prova cega. Nas
palavras de José Queimado, o gestor
da empresa, neste curso "provam-se
vinhos, de rótulo tapado, para, sem
preconceitos, os sentidos dos participantes (olhos, nariz e boca) serem
chamados a detectar as características
dos vinhos". Outras empresas consi-
deram o Nível III um curso especial
dedicado a determinados tipos de
vinhos, como os vinhos do Porto ou os
Espumantes.
Qualquer destas organizações pode
fazer ainda cursos diferentes, à medida
de um grupo. João Paulo Martins já tem
dado, por exemplo, cursos exclusivamente sobre o Vinho do Porto
Formação
Para enófilos mais avançados,
um curso especial, ou á medida,
leva os conhecimentos
muito para além do normal..
ou pode fazer uma prova comentada
sobre "Os Melhores vinhos do Douro". E, havendo dinheiro, qualquer
grapo poderá pedir um curso sobre
vinhos do mundo, onde se poderão
explicar e apreciar néctares do mundo inteiro, explicando os porquês da
diferença. Aqui, a imaginação é praticamente o limite.
Alguns cursos são dirigidos a grupos
especiais. João Paulo Victorino, da
Academia do Vinho, ou os experientes Mário Louro ou Virgílio Loureiro
(entre outros) já organizaram cursos
para entidades oficiais, como CVR's,
ou para empresas. O intuito tanto
pode ser lúdico como pedagógico,
como o que sucede quando está em
causa, por exemplo, a força de vendas de uma distribuidora de vinho.
Estes cursos acabam muitas vezes
por incluir também componentes
especiais, como o marketing e técnicas de vendas.
Quem ensina e onde Não existem
muitos formadores nesta área. No quadro anexo damos ideia da maior parte.
O veterano Mário Louro, um
comunicador nato e o mais experiente
(com 15 anos de trabalho nesta área
e muitos milhares de alunos) é dos
mais utilizados pelas empresas que
têm formação, como a Sitio do Vinho e
a Associação de Jovens Enófilos. A
maioria usa enológos (como Rui
Cunha, João Vila Maior, Manuel Maria
Pinto, Virgílio Loureiro, entre outros)
ou especialistas, como João Paulo
Martins e, mais recentemente, João
Paulo Victorino. Quanto aos locais de
formação, variam muito: desde salas
de hotel (o mais comum) até
restaurantes, há de tudo um pouco.
Afinal, para além da documenta-
OS CURSOS WSET DA ACADEMIA DO VINHO
A Academia do Vinho e nomeada APP- Approved
Programm Provider da WSET - Wine&Spirits
Education Trust (veja em www.wset.co.uk) em
Portugal. A WSET e uma organização do Reino
Unido especializada na formação de colaboradores
de adegas, distribuidores, técnicos, hotelaria,
restauração e enófilos. É uma entidade sem fins
lucrativos e a única reconhecida pelo governo
britânico para promover cursos e emitir certificados
oficiais para pessoas interessadas em trabalhar na
indústria do vinho. Actualmente, esta presente em 24
países e com mais de 12.000 alunos todos os anos.
João Paulo Victorino é quem esta à frente da
Academia do Vinho e quem ministra os cursos de
nível 1. A Academia do Vinho está neste momento
certificada para dar os cursos de WSET Foundation Refira-se que os cursos da WSET são um requisito
nível 1 e Intermediate nível 2. O primeiro curso, de quase indispensável para atingir (muitos cursos e
um dia, tem um exame final de 30 perguntas.
provas mais tarde) o título de Master of Wine, que
Quanto ao Intermediate nível 2, com a duração de 3 confere a quem o tira um prestígio digno de nota. Os
dias, o aluno tem de passar um exame final de 50 exames teóricos e práticos para esta categoria são
perguntas. Com a aprovação nos exames,
extremamente difíceis e, apesar de serem muitos os
realizados em inglês ou castelhano, os alunos
que tentam, poucos são os que o concluem com
recebem um certificado e diploma com
sucesso.
reconhecimento internacional.
54 Abril de 2007
ção entregue aos formandos, o formador
só precisa de vinhos, copos e mais alguns;
objectos, como auxiliares audiovisuais
ou um conjunto de aromas.
Onde saber mais? Os cursos es
tão sempre a aparecer e normalmente os anúncios são feitos com escassa
antecedência. O conselho que
aqui fica é por isso este: no quadro
anexo estão os contactos das
empresas que ministram cursos. Use
o correio electrónico ou o telefone
para pedir que o informem quando
existir um curso. Desta forma irá ser
avisado assim que surgir uma nova
acção. Por outro lado, pululam as
iniciativas dedicadas ao vinho em
centros
comerciais,
lojas,
garrafeiras, restaurantes, entre
outros.
Nunca
serão
verdadeiramente "cursos de vinhos",,
nem nada que se pareça, mas
sempre dá para aprender qualquer
coisa nova, consolidar algum
conhecimento e, sobretudo, usar o
formador/apresentador
para
responder as eternas dúvidas que
nos assaltam na altura de escolher e
servir vinhos.
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